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É com imenso prazer que disponibilizamos a todos os nossos alunos do CETEPAR o suplemento Bíblico par

ao curso Médio de Teologia. Nós optamos por essa forma didática devido a maleabilidade que propicia.
Custo baixo, adaptação do material didático à turma, abertura a novas pesquisas e atualizações, opção de
abordar diversas correntes teológicas, tornando esse material compatível com as mais respeitadas
instituições teológicas do Pais.
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Nosso suplemento didático conta com: Cadernos de Exercício. Exposições teológicas, exegéticas, Página |
práticas educacionais e pastorais. Apoio Ético. Tudo isso numa linguagem de fácil compreensão.

A todos que ousarem, recomendamos três posturas:

1) Bom senso. Necessário em todas as áreas. Todavia mais necessário no estudo de teologia. Pois
estudamos várias correntes teológicas e nem sempre o conteúdo representa o consenso teológico. O que
aqui expomos é o resultado de pesquisas em diversas correntes para que o aluno forme sua compreensão
teológica, em sua realidade e história.

2) Senso Crítico. É necessário que, todos que ousem aventurar em qualquer empreitada teórica,
nunca aceitem um pensamento ou corrente filosófica, sem avaliação crítica. Pois toda realidade é sempre
pessoal. Logo um pensamento pode ter vários pontos de vista.

3) Relacionamento com Deus. Nenhuma teologia é capaz de substituir o relacionamento com


Deus. O estudo da teologia deve ser para edificação e para aproximar-nos de Deus. A teologia que tece
uma rede de críticas surreais está surrando o vento.

DICAS DE ESTUDO
Os alunos vivem me perguntando se existe algum segredo para se desenvolver, para aprender,
para interpretar, para ler com maior aproveitamento. Para tal, segue algumas dicas:

1) A DISPOSIÇÃO: Antes de tudo, avalie sua real intenção. Você realmente quer aprender?
Atualmente muitos vão aos seminários apenas para possuir um título. Pastor, Presbítero,
Diácono, Professor, etc... Essa atitude tem produzido a seguinte filosofia: “O PROFESSOR FINGE
QUE ENSINA E O ALUNO FINGE QUE APRENDE”. Não se deixe levar pela maioria... Quando todos
estiverem brincando, estude! Quando todos estiverem relaxando, Leia! Quando ninguém der
atenção, preocupe-se!
2) A BOA LEITURA: Porque ler é cansativo e difícil? Geralmente por que não estamos acostumados.
Nosso cérebro é como um músculo. Se não for exercitado, atrofia. A cultura da televisão tem
atrofiado o cérebro da maioria das pessoas. Por tanto, evite ficar horas diante da televisão. Leia
Jornais, não os assista. Crie a cultura de ler. Leia sempre e de tudo. Tenha livros espalhados pela
casa. Sala, quarto, cozinha, varanda, banheiro, etc... Nunca leia deitado, pode causar danos
futuros a visão; Ler não cansa, o que cansa é o excesso ou falta de luminosidade. Leia, sempre
que possível, assentado. Em locais com luminosidade natural. Com boa ventilação. De
preferência onde existe pouco barulho. Nunca, mas Nunca leia depois das refeições. O aparelho
digestivo consome muita energia, o que torna qualquer leitura improdutiva. Todavia, um copo
de suco de laranja, é um excelente acompanhante de qualquer leitor.
3) NÃO SAIA COMPRANDO TODOS OS LIVROS QUE VER. Nessa brincadeira, comprei uns trezentos
livros que, tenho certeza, nunca mais abrirei novamente. Existem muitos livros de baixa
qualidade no mercado, e outros muito caros. Portanto, sempre pergunte antes para o professor.
4) SEMPRE QUE FOR PRECISO, PEÇA AJUDA. Não tenha medo de perguntar. O professor está para
ajudar. Na multidão dos conselheiros está a sabedoria.
5) ZELO. Cuidado com o seu irmão. O que você estará aprendendo no seminário não deve ser
utilizado para fundamentar discussões com seus irmãos. A letra pode matar. Uma palavra dói
muito mais que uma pedrada, perfura mais que uma espada e, sua ferida não se cicatriza com
remédios.

Coordenador: Prof. Mt. Eduardo Sales de Lima.


HERMENÊUTICA BÍBLICA
Pf. Eduardo Sales

Hermenêutica é uma ciência que procura explicar o


sentido a partir da interpretação. No processo interpretativo
estudamos o papel do emissor e do receptor, isso porque seus 2
contextos são fundamentais para compreensão e Página |
interpretação.
A velha hermenêutica (tradicional) muito comum em
seminários batistas e presbiterianos. É definida pelo
fundamentalismo. Sua perspectiva baseia-se na prática
da exegese. O autor usa os contextos: cultural, histórico e
teológico para compreensão do termo. Entretanto, essa
perspectiva tem sido substituída pela nova hermenêutica que,
vai alem dos conceitos pré-definidos, estudando o sentido pela
intenção e linguagem do emissor e receptor.
A principal escola hemeneutica dessa linha é a de Paul
Ricoeur. Esse autor define o campo hermenêutico em três
mundos de interpretação: Mundo de trás, Mundo do meio e
Mundo da frente. Essas perspectivas de interpretação
compreendem a troca de sinais entre Emissor e Receptor.

Interpretação e Comunicação:

A hermenêutica está na interpretação da mensagem.


No quadro acima a mensagem possui duas perspectivas
principais: 1) do Emissor e 2) do Receptor.

Além da perspectiva dupla também existe o contexto


que demarca o sentido da mensagem para ambos. O contexto
do emissor não é o mesmo do receptor, logo o signo possui
sentido diverso para ambos.

Diante do exposto entedemos que a hermeneutica está


para o Emissor e o Receptor por meio das configurações de
linguagem, contexto e intenção.
Hermeneutica: Os três mundos da Interpretação

Segundo a perspectiva de Paul Ricoeur, a


interpretação possui três mundos: o contexto representa o
mundo de trás, a intenção está diretamente ligada ao mundo
do meio (o texto), e a linguagem se relaciona com o mundo da 3
frente (nosso contexto). Página |

Não adianta conhecer todo o contexto se não conhecer


a formação linguística do autor, e essas duas ferramentas são
invalidas se não compreender que a linguagem é configurada
individualmente.

Assim, o exercício da hermeneutica depende dos três


mundos:

1. Conhecimento de o contexto e cultura do momento


vivencial e do escritor;
2. Conhecimento da linguagem e intenção
empregados pelo escritor, sua configuração e
sentido;
3. conhecimento da linguagem e intenção do leitor.
OS TRÊS MUNDOS DA INTERPRETAÇÃO
Pf. Eduardo Sales

MUNDO DE TRÁS: O Autor - Contexto, História e Cultura

Uma justa interpretação depende da compreensão 4


sobre o autor. Sua cultura, história, contexto, linguagem, Página |
motivações sócio-políticas, momento revelacional, etc... As palavras são “fôrmas” vazias
que preenchemos como o
Veja o Exemplo: conhecimento pessoal. Nós
damos sentido às palavras.
Quando ouvimos o ex-presidente Lula falando:
“Companheiros e Companheiras” temos uma interpretação,
mas se ouvirmos o ex-presidente Fernando Henrique falando
essas mesmas palavras, vai soar como ironia e crítica. O
Contexto de quem fala define o conteúdo das palavras.
O mesmo acontece quando falamos com nossos filhos.
Com eles nós mandamos: “Fique quieto menino, estou
mandando!” mas se for nosso patrão a falar, dizemos: “Por
favor, o Senhor poderia esperar um momento”. Diante
disso procure o sentido do mundo de trás nos textos a seguir:
Ema amós pecado é
O que é Pecado (Am 5:12; Jo 9:24) injustiça, em joão é ritual
O que é o Perdão (Lc 3:3; Is 1:18) Perdão em Lucas é ritual em
O que é Pureza (Sl 51) Isaias é social
O que significa Pecador (Lc 7:37 e Mt 26:45)
Deus não ouve a pecadores (Lc 9:31) Pureza no Salmo 51 – passa
do ritual para o moral
O Mundo de Dentro: O Texto Pecador em Lc é cultural (a
Tendo por base o Autor, sua cultura, história e mulher não era judia) e
contexto, o próximo passo é considerar o texto. A construção mateus é oposição a cristo
do texto é um processo que envolve, além de elementos Deus não ouve pecadores, os
culturais e pessoais, intenção e objetivo. Quando alguém
judeus pensavam assim,
escreve para outrem, o texto se constrói a partir de vários
teologia da retribuição.
elementos particulares e pessoais, como a linguagem, o
conhecimento que se tem do receptor e o objetivo que se quer
atingir. Assim, quando quero que alguém não faça algo, posso
fazê-lo:

a) Pedindo para não Fazer


b) Apresentando motivos para não Fazer
c) Demonstrando o que algo tem de ruim
d) Citando exemplos
e) Simplesmente omitindo
f) Elogiando seu oposto

Dessa forma a construção do texto depende de como o


autor interpreta seu próprio relacionamento com a pessoa, e
de qual forma de apresentação entende ser mais relevante
para cada pessoa, momento e contexto.

“Falei como a carnais” (ICo 3:1).Crítica denota intimidade


“Sabemos que és mestre” (Jo 3:1-2).Ironia? Será que
reconheciam Jesus como Mestre?
“Nunca comi coisa imunda” (At 10:14).(Preconceito judaico)
A compreensão gramatical é muito relevante. Um Bom
conhecimento da linguagem, embora seja relevante, não é o
que define a hermenêutica do texto. A compreensão do 5
porque que o autor usou as palavras e como as usou é que Página |
deve ser a base da hermenêutica de compreensão do texto.

Exercício para compreensão da linguagem: fogo produz luz, trevas é


metáfora de abandono
“O Inferno é lugar de trevas?” Mt 8:12 Como anjos no céu:
“Seremos como anjos no céu, sem corpo” 22:30 metáfora – sem sexualidade
“tudo” Mc 11:23-24
Tudo: generalização
“para guardar o meu depósito” 2Tim 1:12
Depósito: metáfora para
“temos um edificil” 2Co 5:1
falar do ensino de paulo
“o amor de Cristo nos constrange” 2Co 5:14
Edifício: metáfora par ao
Mundo de Dentro: O texto – intenção corpo
O Contexto e o conhecimento de cada escritor Constrange: aperta
representam realidades muito diferentes na interpretação
bíblica. Entre os escritores bíblicos há diversas barreiras. Os
evangelistas representam três mundos diferentes: Mateus é o
judeu rabínico, Marcos é o Judeu-Cristão e Lucas é o Cristão-
Gentio. Cada um faz uma leitura diferente do Jesus histórico.
Paulo e Pedro, por exemplo, são apresentados como
figuras opostas, um representante do judaísmo e o outro
representante dos gentios. Paulo, primeiro escritor da Igreja
tem como principal problema, a imposição da circuncisão,
enquanto que os evangelistas que escreveram depois de
Paulo (60 a 90 d.C.) nem se quer falam sobre a circuncisão, já
a questão do Sábado, que é fundamental para os
evangelistas, não se vê em Paulo. Assim, os problemas são
interpretados de acordo com a perspectiva do autor, (Ex. Mt
5:1-12 e Lc 6:20).
Como entender Jesus à luz do contexto e cultura de
cada autor? Como entender as diferenças entre Paulo e
Mateus? O que significa: “Jesus não veio abolir a lei, mas
cumpri-la” contra o “porque o fim da lei é Cristo”.
Até mesmo o “Ide” de Jesus. Como os discípulos
entenderam? Após 14 anos da conversão de Paulo (Gl 2), os
discípulos entenderam que deveriam ficar em Jerusalém e
pregar apenas para os judeus e mesmo após o confronto com
Paulo, o judaísmo venceue foi imposto aos gentios (At 15).
Em suma, toda linguagem é definida no contexto
particular (universo) de cada autor.

Exercício para compreender a intenção:

“Os Mortos sepultem os mortos” Mt 8:22(Crítica)


“Daí a Cesar o que é de Cesar” Mt 22:21(Crítica, pois
Cesar era usurpador)
“Covil de Ladrões” Mt 21:13; Jr 7:11(Crítica aos
sacerdotes)
“Mulher adultera” Jo 8:3(confrontar a eleição judaica
tornando todos pecadores)
OS TRÊS MUNDOS DA INTERPRETAÇÃO
Pf. Eduardo Sales

O Mundo da Frente: Releitura e o Leitor 6


O terceiro mundo da interpretação é o mundo do leitor. Página |
Geralmente é o único mundo consultado. É o contexto de
quem está lendo. Quando interpreto algo, busco em meu
mundo, em minha história, nos meus conhecimentos e nas
minhas experiências e na minha linguagem, pontos de contato
que tornem a mensagem compreensível.
Quando leio o termo “O amor de Cristo nos
constrange” (2Co 5:14), procuro uma melhor interpretação
para o termo constranger, e partir de minhas experiências,
entendo que – constranger é sinônimo de pressionar; obrigar;
forçar – e faço a seguinte interpretação o amor de Cristo nos
obriga, nos pressiona. Entretanto numa breve busca pelo
mundo do escritor e do texto entende-se que o termo
constranger, no grego possui sentido de unir, aproximar, daí a
tradução “constranger”. Assim, uma melhor tradução seria o
amor de Cristo nos une (aproxima) com grande força.
O mundo do leitor está em todas as nossas
interpretações, mas o mundo do leitor original da bíblia
também. Por isso, quando lemos o livro de apocalipse,
geralmente não entendemos, mas os crentes (destinatários
originais) com certeza entenderam. É o leitor quem definie o
sentido de um texto, assim, em uma pregação para duzentas
pessoas, o pastor prega apenas uma mensagem e na
realidade, duzentas mensagens diferentes são ouvidas. Dessa
forma, o conhecimento do mundo do leitor é relevante para a
compreenção do texto.
Diante do exposto acima é preciso saber que numa
interpretação (Bíblica ou qualquer outra) sempre será
necessário discernir os mundos e entender que o mundo do
leitor adianta-se aos outros mundos, propondo uma
interpretação rápida e fácil, mas que geralmente não
compreende o real sentido da questão.

Exemplos:
Malaquias 3:10 “fazei prova de mim”(Crentes imaturos, não se
prova quem conhece)
Romanos 12:1-2 “Culto Racional”oposição ao culto judaico
João 4:24 –“Deus é Espírito”não material, não manipulável
João 8:15 – “Vós Julgais segundo a Carne”carne: metáfora
1Tess 5:22 – “... aparência do mal” aparência: o mal em si
João 8:32 – “Verdade vos libertará” crítica – ver verso seguinte
Jo 8:48 – “...és Samaritano...” preconceito
Jo 8:58 – “...Eu sou”retoma o antigo testamento
Luc 4:18 – “O Espírito me ungiu...” unção do Espírito no VT
Atos 1:8 – “E sereis minhas testemunhas...” testemunhas =
martires
Jo 19:11 – “Poder do alto”não de Deus, mas do império
HERMENEUTICA: RELEITURA BÍBLICA
Pf. Eduardo Sales

Outra forma de compreender a hermenêutica é 7


observar as releituras bíblicas. Releitura é o processo de Página |
acomodação histórica, cultural e teológica dos conceitos e
histórias de um povo. Assim, quando falamos da história do
Brasil temos uma leitura imperialista que atribuía ao imperador
o papel de salvador da pátria, e uma releitura recente que
identifica os movimentos populares de revolução (Zumbi dos
Palmares) como principais modelos de independência.
Da mesma forma, como o texto bíblico percorre um
grande espaço histórico, é possível identificar releituras
internas, umas que preservam a leitura antiga e outras que a
confrontam.

Releitura e o Pentateuco
A Releitura é a melhor opção para compreensão de
textos que apresentam confronto. Vamos tomar a questão do
Sábado como exemplo.
Lemos em Gn 2:2 que Deus, após concluir sua obra
descansou no Sábado. Podemos levantar muitas questões
teológicas sobre esse texto, como o fato de Deus estar
cansado, mas olhando para o texto encontramos Jesus sendo
perseguido porque curava aos sábados e numa dessas
perseguições afirmou “Meu pai trabalha até agora [...]” (Jo
5:17). Como entender esses textos? Apenas o mundo da
frente não é possível para essa interpretação.
Quando investigamos o mundo de trás encontramos o
Sábado como uma festa e não como um dia sagrado (2Cr
8:13; Ne 10:33; Is 1:13). Não existia a obrigação de santificar
o sábado. Essa obrigação vai surgir apenas no Exílio, como
sinal distintivo do judaísmo. Após o Exílio os Judeus passam a
identificar todos que guardam o Sábado como Santos e os
que não guardam como Pecadores (Jo 9:16). Nesse período
já podemos identificar uma releitura judaizante do Sábado. A
partir dessa releitura o sábado que era um dia de descanso e
festividade dos escravos (Dt 5:11ss) passou a um dia ritual e
sagrado no Exílio.
Os judeus do exílio entenderam que a deportação foi
motivada pela idolatria e por isso criaram vários rituais para
afastar o povo da idolatria. O Sábado dia livre para os
escravos da Babilônia tornou-se dia obrigatório para santificar
ao Senhor, nesse dia os judeus não poderiam se misturar com
outros povos. Essa perspectiva vai ganhar outra releitura na
volta do Exílio, e nos dias de Jesus, o Sábado era considerado
como marca de um homem de Deus (Jo 9:16ss).
Diante dessa leitura errônea, Jesus faz uma nova
releitura. Não podemos ler o Pentateuco sem Jesus, pois
Deus não descansou no sábado para escravizar os homens
ao sábado, nem para fazer distinção entre os são e os
impuros. Os evangelistas apresentam Jesus relendo o sábado
como uma das principais formas de injustiça e opressão
social.
O Pentanteuco não está errado, mas deve ser relido.
A Igreja e a Releitura do Pentateuco
O Pentateuco era o principal livro do judaísmo e foi usado
como arma ideológica para oprimir o povo com suas leis
rigorosas, ritualistas e discriminatórias, marcas da época em 8
que os judeus ainda tinha um conhecimento muito superficial Página |
de Deus, período em que não conheciam claramente a Graça.
Assim, a releitura do Pentateuco é um dos principais
pressupostos para compreensão do NT. O texto do
evangelista João, por exemplo, confronta o Pentateuco.

Jo 1:16 Porque todos nós temos recebido da sua plenitude e


graça sobre graça. Jo 1:17 Porque a lei foi dada por
intermédio de Moisés; a graça e a verdade vieram por meio
de Jesus Cristo. Jo 1:18 Ninguém jamais viu a Deus; o Deus
unigênito, que está no seio do Pai, é quem o revelou.

A tese de João é que o pentateuco é inferior, pois não


revela Deus como a graça de Jesus. Por isso precisamos
entender que deve ser submisso aos evangelhos.

Jo 9:28 Então, o injuriaram e lhe disseram: Discípulo dele és


tu; mas nós somos discípulos de Moisés.
Mat 23:2 Na cadeira de Moisés, se assentaram os escribas e
os fariseus.

Esses textos revelam que é preciso fazer uma releitura em


que o Evangelho de Jesus seja a única perspectiva de
interpretação do antigo testamento.

Com essa releitura outros termos do Judaísmo também


foram relidos:

Sacrifício:
Mat 12:7 Mas, se vós soubésseis o que significa:
Misericórdia quero e não holocaustos, não teríeis condenado
inocentes.

Templo:
At 17:24 O Deus que fez o mundo e tudo o que nele existe,
sendo ele Senhor do céu e da terra, não habita em
santuários feitos por mãos humanas.
Jo 4:23 Mas vem a hora e já chegou, em que os verdadeiros
adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque
são estes que o Pai procura para seus adoradores.

Rituais de Purificação:
Mat 15:11 não é o que entra pela boca o que contamina o
homem, mas o que sai da boca, isto, sim, contamina o
homem.Lc 10:33ss A parábola do Bom Samaritano

A releitura é necessária devido aos diversos pontos de


vista expressados na Bíblia, principalmente o do judaísmo que
procurava se justificar.“Propôs também esta parábola a alguns
que confiavam em si mesmos, por se considerarem justos, e
desprezavam os outros” (Lc 18:9). Por fim, os autores do NT e
principalmente Paulo e o escritor de Hebreus, confrontaram o
pentateuco para poder libertar o povo da Lei e ensinar a Graça
(Rm 10:4; Hb 10).
HERMENEUTICA: O DESAFIO DA RELEITURA
Pf. Eduardo Sales

Uma das maiores crises da Igreja é a solidificação do 9


conhecimento. Todo conhecimento solidificado já foi uma Página |
dúvida, um boato, uma experiência, uma regra, uma lei e por
fim uma tradição. A Releitura enquanto proposta hermenêutica
representa exatamente o contrário, a elasticidade do
conhecimento e sua aplicabilidade em diversos contextos.
Assim, muitos conhecimentos que foram solidificados na
história da igreja não representam erro e engano, mas que a
leitura condiz com o conhecimento da época. O apóstolo
Paulo chama esse processo de sobras e realidade. Os irmãos
que seguem a leitura mais antiga procuraram sinceramente
uma resposta para questões difíceis. Suas respostas
representam seu conhecimento, tinham o desejo real de
apontar para Deus, mas seu conhecimento apontava para a
sobra. A releitura é o processo natural de aproximação e
conhecimento. Com maior proximidade podemos abandonar a
sombra e abraçar a realidade.
Jesus e os discípulos também enfrentaram esse
processo. Os evangelistas apresentam as dificuldades que os
discípulos tiveram em compreender a releitura de Jesus:
Jo 9:2 E os seus discípulos lhe perguntaram, dizendo: Rabi,
quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego?
Os discípulos estavam fazendo a leitura antiga, baseada no
Pentateuco e na tradição judaica, entendendo que a lei tinha o
poder de salvar, seu descumprimento era castigado. Jesus faz
uma releitura quando afirma que nem ele nem seus pais
pecaram e centraliza a interpretação exaltando a Deus, e
esvaziando a confiança na lei.
At 1:6 Aqueles, pois, que se haviam reunido perguntaram-
lhe, dizendo: Senhor, restaurarás tu neste tempo o reino a
Israel?
Novamente os discípulos estão lendo a partir da esperança
escatológica do povo Hebreu. A releitura de Jesus tira o foco
do messias e coloca sobre a Igreja: “E recebereis poder”.
Mat 16:22 E Pedro, tomando-o de parte, começou a
repreendê-lo, dizendo: Senhor, tem compaixão de ti; de
modo nenhum te acontecerá isso.
Pedro está fazendo uma leitura a partir do judaísmo. Não
poderia conceber um messias sofredor. Jesus também fez
essa releitura revelando um messias sofredor.
At 10:14 Mas Pedro disse: De modo nenhum, Senhor,
porque nunca comi coisa alguma comum e imunda.
Novamente a leitura judaica do puro e impuro vai ser
relida por Jesus.
A Releitura é um desafio real que temos de enfrentar,
pois nosso conhecimento de Deus não é perfeito, nem
absoluto, somos crianças tentando aprender, quanto mais nos
aproximamos do Pai melhor o conhecemos.
CONCLUSÃO: O TRABALHO NÃO ACABOU
Pf. Eduardo Sales

O conhecimento dos mundos de trás e do meio é um 10


processo em movimento. Muito já foi descoberto e ainda há Página |
muito que descobrir. Esse primeiro movimento hermeneutico
tende a exaustão, mas o conhecimento do mundo da frente
não possui fim. Devemos sempre proceder a atualização do
conteúdo em relação a nosso contexto, nossa cultura e nossa
linguagem.
Na atualidade e contexto brasileiro, o principal método
de compreensão hermeneutica é o de releitura e leitura
popular da Bíblia. Por esse método pode-se compreender os
mundos de trás e do meio, assim como seu desenvolvimento
ao mundo da frente.
Para a compreensão hermeneutica do Antigo
Testamento é preciso partir do Exílio como divisor de águas.
No antigo testamento compreendemos uma vertente pré-
exílica e outra pós –exílica. Na primeira está a exaltação da
monarquia e na segunda a exaltação do sacerdócio. Outro
detalhe relevante deve-se às transformações culturais e
teológicas causadas pelo exílio (rituais e legalização da fé).
Para entender o antigo testamento também é preciso
reconhecer os diferentes grupos político-teológicos. Os
Sacerdotes, que estavam diretamente realcionados ao Templo
e ao Rei; Os Profetas do Templo, profissionais contratados
para atender o palácio; Os profetas voluntários, não
profissionais, que se posicionavam a favor do povo e contra o
palácio e monarquia. Outros elementos importantes são a
espectativa messiânica, a memória profética e os textos
relativos ao sucesso da monarquia.
Uma hermeneutica para o Novo Testamento deve
situar-se a partir do pós-exílio. O contexto histórico, cultural e
teológico do Novo Testamento é devedor do Exílio.
Outro momento relevante para a compreensão
hermeneutica do Novo Testamento é o período interbíblico.
Nesse período está a influência grega, escritos de sabedoria e
as novelas, outra característica foi a apocaliptica judaica,
muito influente nos dias de Jesus e n aIgreja primitiva como
um todo.
Como no Antigo Testamento, é preciso reconhecer os
diferentes partidos e suas crises politico teológicas, como a
destruição do templo e a perseguição do cristianismo.
O Hermeneuta precisa compreender qual a percepção
da cultura e filosofia romana. Crises políticas, conflitos
religiosos e principalmente a perseguição dos cristãos.
E por fim, é preciso fazer a releitura do novo
testamento. Acompanhar os escritores em sua releitura dos
termos do Antigo Testamento e proceder a releitura da lei, da
aliança, sacrifício, rituais de culto, justiça e esperança.

Devemos sempre procurar interpretar e reconhecer


melhores formas e práticas de atualização afim reler a Biblia
como vontade de Deus para nossa vida e realidade.
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PRÁTICA EM RELEITURA Dt 26:5 ... Siro miserável foi
Pf. Eduardo Sales meu pai, e desceu ao Egito,
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e ali peregrinou com pouca Página |
gente; porém ali cresceu até
O plano da salvação na Bíblia também passou por vir a ser nação grande... Dt
diversas releituras. Uma das confições mais antigas do 26:6 Mas os egípcios nos
plano da salvação está em Dt 26:5-9 e estava relacionada maltrataram, e nos afligiram,
à colheita. Nessa tradição não encontramos nenhum sinal e sobre nós puseram uma
do tema da Aliança e Lei. dura servidão. Dt 26:7
Então, clamamos ao
Em Dt 6:21-23, outro resumo da fé. Sua SENHOR, Deus de nossos
aplicabilidade é familiar. Nessa recitação o tema central, pais; e o SENHOR ouviu a
como em Dt 26, é o êxodo, e também faltam referências à nossa voz e atentou para a
Aliança e a Lei.Dt 6:23 e dali nos tirou, para nos levar e nos dar a nossa miséria...Dt 26:9 e
terra que jurara a nossos pais. nos trouxe a este lugar e
A recitação de Js 24:2-13, representa outro nos deu esta terra, terra que
mana leite e mel.
momento, faz referência ao Egito e concentra-se na
tomada da terra, mas faltam referências à Aliança e a Lei.
Aos poucos a memória do Êxodo foi mesclada com
o tema da criação (1Sm 12:6-13; Sl 136; Ex 15:1-18; Sl
105; 78; 135). A partir dessa memória Abraão e sua
descendência foram vinculados ao plano da salvação.
Sl 105:8 Lembra-se perpetuamente do seu concerto, da palavra
que mandou, até milhares de gerações; Sl 105:9 do concerto que
fez com Abraão e do seu juramento a Isaque, Sl 105:10 o qual ele
confirmou a Jacó por estatuto e a Israel por concerto eterno, Sl Pode-se notar claramente
105:11 dizendo: A ti darei a terra de Canaã por vossa herança.
que a história da Salvação
Na próxima releitura da história da salvação a evoluiu.
Aliança do Sinai vai ser incluída Ne 9:6-37. 1) No princípio retratava a
Ne 9:7 Tu és SENHOR, o Deus, que elegeste Abrão,... Ne 9:9 E
viste a aflição de nossos pais no Egito e ouviste o seu clamor...Ne
libertação do povo. Essa foi
9:13 E sobre o monte de Sinai desceste, e falaste com eles desde a leitura dos escravos.
os céus, e deste-lhes juízos retos e leis verdadeiras, estatutos e 2) Assimilou a descendência
mandamentos bons.Ne 9:14 ...estatutos, e lei lhes mandaste pelo de Abraão. Foi a leitura da
ministério de Moisés, teu servo. Ne 9:16 Porém eles, nossos monarquia, que legitimou a
pais,... não deram ouvidos aos teus mandamentos... Ne 9:27 Pelo tomada da Terra.
que os entregaste na mão dos seus angustiadores... Ne 9:29 E
protestaste contra eles, para que voltassem para a tua lei; porém
3) Ligou-se com o Sinai.
eles se houveram soberbamente e não deram ouvidos aos teus Essa leitura conectou a
mandamentos, mas pecaram contra os teus juízos, pelos quais o história da salvação com a
homem que os cumprir viverá; Lei e com Moisés.
Paulo faz uma releitura da história da salvação 4) Essa ultima leitura
Gl 3:8 Ora, tendo a Escritura previsto que Deus havia de justificar chegou até o novo
pela fé os gentios, anunciou primeiro o evangelho a Abraão, testamento. É a leitura do
dizendo: Todas as nações serão benditas em ti.Gal 3:9 De sorte
que os que são da fé são benditos com o crente Abraão.Gl 3:10
judaísmo.
Todos aqueles, pois, que são das obras da lei estão debaixo da 5) Paulo vai fazer uma
maldição; porque escrito está: Maldito todo aquele que não releitura da história da
permanecer em todas as coisas que estão escritas no livro da lei, Salvação. Essa releitura
para fazê-las.Gl 3:11 E é evidente que, pela lei, ninguém será desvincula Abraão do Sinai,
justificado diante de Deus, porque o justo viverá da fé.Gl 3:12 vincula a lei com a Maldição
Ora, a lei não é da fé, mas o homem que fizer estas coisas por
elas viverá.Gl 3:13 Cristo nos resgatou da maldição da lei,
e vincula Abraão com o
fazendo-se maldição por nós, porque está escrito: Maldito todo evangelho e com a
aquele que for pendurado no madeiro;Gal 3:14 para que a justificação (Salvação).
bênção de Abraão chegasse aos gentios por Jesus Cristo e para
que, pela fé, nós recebamos a promessa do Espírito.
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Página |
Avaliação – Nome:___________________________________
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1- O que é Hermeneutica? Página |
a. Interpretação
b. Compreensão
c. Exegese
d. Estudo da Bíblia
2- Qual o principal critério de uma hermeneutica Cristã?
a. Ser antropocêntrica
b. Ser bibliocentrica
c. Ser teológica
d. Ser Cristocêntrica
3- Qual método de Hermeneutica de Paul Ricoeur?
a. Dois Mundos
b. Método Fundamentalista
c. Três Mundos
d. Método Liberal
4- O mundo do Autor, ou Mundo de Trás do texto investiga:
a. Contexto do Leitor
b. Contexto do Autor
c. Contexto do Redator
d. Contexto da História Geral
5- O Mundo do Texto/Mundo do Meio, investiga:
a. Intenção e Gramática
b. Gramática e Cultura
c. Ortografia e Gramática
d. Literatura e Ortografia
6- O Mundo do Leitor/Mundo da Frente, investiga:
a. O Contexto gramatical do Leitor
b. A realidade Atual
c. O Contexto e Cultura do Leitor
d. O Futuro e a Escatologia
7- O que é Releitura Bíblica
a. Processo de acomodação histórica e cultural
b. Reler a Bíblia
c. Reler a Teologia
d. Reler a Bíblia a partir da Bíblia
8- Qual o sentido dos termos:
Carne - no texto de Mt 26:41 _________________
Levanta-te - no Salmo 3:7____________________
Depósito – 2Tim 1:12________________________
9- Como entender:
“Temos de Deus um Edifício, uma casa não feita por
mãos, eterna, nos céus”. 2Co 5:1
______________________________________________
______________________________________________
“Mulher pecadora” Lc 7:37
______________________________________________
______________________________________________

“O Justo viverá pela fé” Gl 3:11


______________________________________________
______________________________________________
______________________________________________
16
HISTORIA DOS HEBREUS Página |
UMA LEITURA A PARTIR DOS POBRES
Pf. Eduardo Sales ‘

Historiografia das tradições de Israel


A principal definição para compreensão da história
de Israel é que a Bíblia por si é um livro de fé, e embora
narre fatos históricos, não é um livro de história. Dessa
forma a história do povo hebreu foi preservada nas
tradições de Israel:
Tradição Oral – Pré-Monarquia
Tradições Eloista e Javista – Monarquia
Tradição Deuteronomista – Monarquia após Josias
Tradição Jeovista – Após a queda da Samaria
Tradição Sacerdotal – Exílio e Pós-Exílio
Escritos de Sabedoria – Período Grego
A principal forma de preservação histórica foi a fé
contada de pai para filho (Tradição Oral), veja o Salmo
78:1-8. Os principais livros históricos preservados na
Bíblia são: Samuel; Juízes; Reis e Crônicas. Paralelos a
esses textos também temos referências históricas nas
novelas e narrativas heróicas nos livros de Gênesis;
Êxodo; Ester; Rute; Esdras; Neemias e Daniel; Outro
grupo de livros que nos fornecem o colorido histórico são
os apócrifos e numa perspectiva crítica da histórica estão
os profetas.
Dito isso, vamos analisar alguns sumários da
história de Israel presentes na própria Bíblia e entender
as releituras e compreensões da história a partir da
própria Bíblia: Êxodo 15; Neemias 9:6-38; Atos dos
Apóstolos 7:1-54.
Após essas leituras podemos definir os principais
momentos da história do povo Hebreu:

Formação do Povo
Libertação do Êxodo
Período Tribal
Moisés como Profeta e Libertador

Formação da Monarquia
Imposição e divisão política
Divisão do reino
Aliança entre o povo da Terra, o Rei e o Sacerdote
O Tema de Abraão vai ser
O Exílio
abordado no período do
O Retorno do Exílio
Exílio.
O Período Grego
Macabeus
Cartas de Amarna:
correspondência que data
1500 a.C. entre o Egito e
Canaã
Contexto Histórico Cultural 17
Página |
A história do Povo Hebreu, na perspectiva dos Cidades-Estado
profetas não começa com Abraão, mas com Moisés no Era uma cidade governada por
Egito (Os 2:14-16). Segundo a tradição Sacerdotal a um rei [...]cercada de muralhas,
história do povo Hebreu deve ser lida a partir de Abraão, para evitar as invasões dos
enfatizando a Aliança (Essa é a história a partir do inimigos. Tinha uma parte alta,
Judaismo). O Exodo é a base real de formação do povo [...] onde ficava o palácio do rei,
o templo, e a classe dominante.
e Abraão é a releitura Sacerdotal.
Na parte baixa ficava o mercado
O que foi o Êxodo? É o termo usado para retratar e o casario de gente mais
a saída do povo de o Egito, entretanto não foi apenas pobre, como pequenos
isso. O Êxodo começa com o desenvolvimento das comerciantes, artesãos e
cidades Estado e do Imperialismo Egipcio sobre os pessoal de segundo escalão. Ao
camponeses. Para ter uma noção melhor, podemos redor da cidade havia terras
afirmar, de acordo com as cartas de Amarna, que Canaã cultivadas por camponeses,[...]
pertencia ao domínio egipcio. casas pequenas,
desprotegidas,[...] esses
As cidades principais do império egipcio eram as
camponeses sustentavam os
Cidades-Estado. Nessas estruturas havia uma clara grandes, [...] pagando a eles
distinção de classes, ricos e pobres. A organização tributo. Na maioria das vezes,
política era direcionada pelo Templo e pelo Castelo. sobrava para eles muito pouco
A produção e comércio também influenciaram pois [...](BALANCIN, E. M. SP: Paulus,
com o desenvolvimento do ferro (1Sm 13:19), começou o 2005, p.9).
excesso de produção e a separação de classes que
passaram a usar a cultura do boi como forma de lucro
(1Sm 11). Com a centralização das cidades, a produção
de excedente; a separação de classes e a opressão dos
pobres vários clamores se alastraram (Gn 41.50-42.7;Am
9:7), principalmente no território sob domínio egipcio.
Todo esse desenvolvimento contribuiu para revoluções
de escravos em todo o império egipcio que foram
conhecidas como Êxodo.
A Libertação do povo Hebreu foi principalmente
um movimento social de oposição à opressão dos
governantes (Ex 3:7) o objeto da libertação era uma
reforma agrária (Ex 3:8). Assim, passamos a olhar a
história de Israel a partir do olhar dos profetas,
independente da teologia da eleição (Davídica) que
surge em Jerusalém, sob o reino de Davi.
A Partir da opressão surgiram pelo menos três
grupos de onde se formou a nação de Israel:
1) grupo Mosaico (Ex 3);
2) Grupo Sinaítico (Ex 18);
3) Grupo Cananeu (Jz 1-2).
A nação de Israel formou-se a partir de diversos
grupos que se aliaram no para lutar contra a opressão do
Egito e dos filisteus no território de Canaã.
[...] a união pelo ideal territorial (Ex 12:38). O clã midiania se
juntou ao ideal anti-palaciano (Nm 10:29-32), os personagem
“Calebe” e “Otniel” líderes da milícia tribal de Israel são
quenezeus (Nm 32:12; Js 15:16-19), edomitas (Gn
Uma nova Constituição

Como vimos, as Doze


Tribos tinham como elo
fundamental de união o
culto a Javé. As normas
básicas, que darão18 o Página |
alicerce para esse novo
povo, estão contidas no
Decálogo, que se tornou
uma verdadeira
Constituição para o povo
Do Tribalismo à Monarquia
de Deus (leia Êx 20.1-17;
Dt 5.1-22).
O Período dos Juízes demonstra o relacionamento do
sistema de doze tribos, onde os ideais opressores da
Centrada no respeito à
Monarquia faraônica eram substituídos pelos novos ideais de
vida (Não matar), essa
“igualdade”, cooperação, partilha, justiça e liberdade.
Constituição abre-se como
um leque para todas as
Esse sistema afrontavao tributarismo das cidades-Estado
(1Sm 8).Foi o tributarismo maior instrumento de exploração e relações sociais, dando os
opressão. No princípio o tribalismo israelita era anti- fundamentos básicos e
Monarquico, mas com o tempo, desenvolvimento e o provocadores da vida para
excedente, as tribos transformaram-se em Cidades-Estado (1 o povo.
Sm 2.12-25; 1Sm 22:7; 1Sm 11:7; etc...).
No correr do tempo, foi
Milton Schwantes (2008) defende que o desenvolvimento e necessário elaborar leis
aplicação da “arte do ferro” e a cultura de gado (1Sm 11) para aplicar corretamente
fortaleceu algumas famílias que começaram a produzir essas normas básicas em
excedente, possibilitando o nascimento e divisão de classes. situações diferentes.
Nesse contexto o termo“Povo da Terra” refere-se a
Latifundiários, (Gottwald, 1972), e o termo“povo” refere-se Foram, assim, se
atrabalhadores. formando códigos de leis:
Código da Aliança (Êx
Esse termo, “povo do Senhor”, “povo da Terra”, “povo de 20.21-24, 18), Código do
Deus”, “donos de Bois”, é evidenciado como linguagem Deuteronômio (Dt 12-26).
deuteronomista (Dt 4:20; 7:6; 14:2; Jr 7:23; 11:4). Trata-se (BALANCIN, E. M. SP:
de uma espécie de aristocracia campesina, que Von Rad Paulus, 2005, p.17).
(1961), identificou como o “povo da terra”.(SALES, E.
Javismo e Ideologia Política, 2010).

Nesse período, vindo pelo mar, outro povo se estabeleceu


na costa da terra de Canaã: os filisteus. Militarmente fortes,
possuíam armas de ferro e carros de combate (1Sm 13:19ss),
e no conflito com as Tribos de Israel, por volta de 1050 a.C.,
apoderaram-se da arca da aliança. As tribos não encontraram
meios aptos para reagir, pois não possuíam exército
organizado.

Enquanto os filisteus atacaram do lado do mar, do lado do


deserto, Israel era invadido por seus vizinhos. O livro dos
Juízes retrata bem as dificuldades que os israelitas
enfrentaram para deter o avanço dos edomitas, moabitas,
midianitas, amonitas e outros.

Outro fator provocou o enfraquecimento da Confederação


de tribos foi a idolatria. O grande elo que unia as tribos era a
aceitação de Javé, o Deus libertador, como o Deus único.
Essa coesão foi rompida pela adoração de outros deuses que,
segundo os cananeus, davam a fertilidade para a terra,
19
Página |

A FORMAÇÃO DA MONARQUIA O que é Monarquia


Pf. Eduardo Sales
Monarquia quer dizer "governo de
uma só pessoa", isto é, do rei. Ele
A tradição bíblica preservou três narrativas da instituição da
possui toda a autoridade, ele faz
monarquia em Israel. Provavelmente são narrativas que
as leis, é o juiz que decide e dá a
estavam espalhadas entre os escritores do reino do sul e do
sentença. O rei é considerado
norte, mas que foram unificadas a partir da queda da Samaria.
como o representante de Deus na
A primeira narrativa (1Sm 9:1-10:8) mostra o povo diante
terra. As suas decisões são as
da pressão externa dos filisteus, países vizinhos e cidades-
decisões do próprio Deus.
estado, e diante da crise interna provocada pela corrupção e
idolatria, provocando a necessidade de um governo que Monarquia também significa que
administrasse a justiça e formasse um exército, um rei "como quando um rei morre, ele é
as outras nações" (1 Sm 8.1-9; 10:24ss). substituído no poder por um de
A segunda narrativa (1Sm 10:9-27) apresenta Saul sendo seus filhos, sucessão por dinastia.
escolhido por sorteio. Assim, uma só família se perpetua
A terceira narrativa (1Sm 11:1-15 – considerada a mais no governo do país, a não ser que
antiga) apresenta a monarquia como um sistema imposto com haja revolta; e então começa a
violência por Saul e sua milícia (1Sm 11:7, 12ss). É importante governar outra família ou dinastia.
notar que mesmo na primeira narrativa, o povo que pede um
rei não é o povo pobre, mas os “donos de bois” que estão A cidade do rei se torna a capital
preocupados em perder seu rebanho (1Sm 8;11). do país, com o palácio real, família
real e os administradores,
De Saul a Davi: Estruturação da Monarquia ministros, oficiais. É também nessa
Embora Saul fosse rei, não era como nos reinos vizinhos. O cidade que é construído o templo
Reino de Saul não possuía castelo, nem sala do tesouro, não principal ou único, para indicar que
possuía sistema tributário oficial, não possuía um exercito Deus está sempre perto do rei, que
sustentado pelo reino, etc... A princípio o exercito de Saul era é seu representante.
uma milícia sem terra, formada do povo da roça lutando com
enxadas (1Sm 13:20-23).
A Falta de estrutura derrotou o povo hebreu que foi
capturado pelos filisteus, perdendo seu centro religioso (a
arca), seus bens (pois eram tributados pelos filisteus - 1Sm
13:17; 14:15; 23:1) e sua liberdade (1Sm 4; 10-11).
Saul enfrentou várias ameaças de invasão. Filisteus
fortemente armados (1Sm 17:4-7). Os filisteus possuíam
vários postos de dominação (1Sm 10:5; 13:3.23; 2Sm 23:14).
Mesmo com todo esforço Israel foi derrotado sob o jugo dos
filisteus. Essa opressão foi a campanha política de Saul.

Leitura da Origem a partir do Povo


As Tribos Formaram-se em
O Ferro
oposição às Cidades
Substitui o
Osso e a
Pedra

Opressão no Egito

Exodo:
Libertação Social
Formação: 3 grupos
20
Página |

Para entender as Releituras da História do povo Hebreu

As diferenças históricas se justificam a partir da


compreensão de cada momento histórico. No primeiro
momento está apenas o povo liberto do êxodo e Deus, não há
lei, não há aliança, mas a libertação como principal vínculo do
povo com Deus. Essa foi a história contada pelos profetas, a
principal herança do povo. A teologia desse período foi
construída a partir da libertação como fonte de gratidão e de
justiça para com o outro. Não há exclusão, nem
desapropriação, nem imposição da lei. Há apenas a graça de
Deus como prática libertadora afim de orientar a vida do povo.
A segunda releitura aconteceu na formação da
monarquia. Novos elementos será relidos e novas intenções
abordadas. Será um momento de consolidação da nação e do
poder. A graça de Deus continua sendo a orientação, mas
agora sob a coordenação do Rei. O rei é relido como a
21
Página |

A LEITURA A PARTIR MONARQUIA


Pf. Eduardo Sales

A partir da monarquia surgiu outra versão da história


de Israel, uma leitura oficial, ditada a partir dos interesses do
Rei e da Aristocracia. Essa leitura rivalizou com a perspectiva
não oficial, ditada a partir do povo e dos profetas.

A Leitura Oficial
Tem o objetivo de legitimar a realeza. Os principais
temas são a divinização da realeza; a exaltação da cidade
real; a elevação do templo e a instituição de um sistema
tributário organizado (2Sm 7; Sl 89; 1Sm 25:30; 2Sm 5:2; Sl
78:67-72; Sl 2; 18; 20; 21; 45; 72; 89; 101;7:4-17).
Essa leitura é um retorno ao sistema faraônico do qual
Deus havia liberto o povo. Se a monarquia foi vista de forma
negativa pelos profetas, como entender Davi: um homem
segundo o coração de Deus? Essa questão é muito relevante
para a compreensão da monarquia e do papel de Davi entre
os reis de Israel.
A tragetória política de Davi é narrada a partir de seu
casamento com a filha de Saul (1Sm 18) até sua consagração
como rei dos reinos Sul e Norte de Israel. Perseguido pelo
sogro, Davi formou um grupo com desertores e cananitas
refugiados das Cidades-Estado (1Sm 22:2; 25); sob asilo aos
filisteus (1 Sm 27.1-4) conquistou as cidades de outros
inimigos dos israelitas (1 Sm 27.5-12); por fim, sua estratégia
e capacidade politica consagraram-no rei em Judá (2Sm 2:1-
4) e Israel (2Sm 5:1-5). Dentro de todas as características de
Davi, foi sua capacidade de inclusão dos marginalizados, não-
exploração tributária, e seu exército particular, que
consagraram-no como homem segundo o coração de Deus,
muito diferente de Saul que usou a força para controlar o reino
(1Sm 11; 22:6-23).
Nessa mesma narrativa de reconhecimento cabe
pontuar a queda de Davi. Não foi o adultério seguido de
homicídio que derrubou-o, mas o assédio da Cidade-Estado
Jerusalém. Davi, como vimos, começou como um homem do
Questão Social
Para compreensão dos
22 de
grupos sociais e das crises Página |
exclusão e marginalização
dos menos favorecidos, veja
o Texto de Jefté em Juízes
11:1-3.

Salomão: A Consagração da Monarquia


Israel e Judá nunca foram um único reino. Sempre
houve diferenças. A unificação foi a identificação de Davi como
Rei de ambos os reinos.
O Reino do Norte, pela sua tradição, identificou o
Espírito do Senhor em Davi; o Reino do Sul, liderado pela corte
de Jerusalém, identificou Davi como descendência Sagrada e
Real, atitude comum às Cidades-Estado.
Em todas as Cidades-Estado o rei era identificado com
a divindade. Essa era uma estratégia política. Uma aliança
entre a casa real e a casa sacerdotal. Essa aliança favorecia o
Estado, com a aprovação e legitimação divina, e o sacerdócio,
com a eleição de um sacerdote oficial. No povo de Deus, esse
processo fo iniciado em Jerusalém, a cidade de Davi.
Em sua vida Davi harmonizou o reino com uma
liderança em Jerusalém e uma liderança nas tribos de Israel.
Segundo Pixley (1999), em Jerusalém, Davi nomeou sua
administração real (2Sm 8:15-18) iniciando um dualismo
político entre dois generais (Joabe de Israel e Banaías de
Jerusalém) e dois sacerdotes (Abiatar de Israel e Sadoc de
Jerusalém). Joabe e Abiatar representavam a Ideologia tribal,
Banaias e Sadoc, representavam a Ideologia palaciana, sem
compromisso com a Ideologia libertadora das tribos.
Assim, sob a custódia de Jerusalém e seguindo a
política palaciana de Banaias e Sadoc, o povo passou a não
ter mais vínculos com a Aliança do Êxodo, que foi substituída
por uma nova Ideologia, a “Aliança Davídica” que vinculava:
religião, o rei e o povo (2Rs 11:17), fazendo do rei, único
mediador entre a graça de Deus e o Povo.

A Construção do Templo e o Tributarismo


A construção do Templo, negada a Davi e concedida a
Salomão consagrou a Monarquia de Israel na mesma
proporção que a opressão Faraônica do qual Israel foi liberto.
Salomão removeu tudo que se opõe ao seu reinado
(1Rs 2:13-46), seguiu os padrões políticos orientais e
desenvolveu várias alianças seladas por casamentos (1Rs
Lista de Funcionários
1Rs 4:1-6
Lista de Construções
1Rs 5:15-7:51; 9:15-19
23
Provimento diário 1Rs 4:22 Página |
A RELEITURA DO TEMPLO
Pf. Eduardo Sales

Atualmente existe uma interpretação de Sagrado


vinculada ao Templo. Um dos textos mais relevantes é o
do Sumo-Sacerdote que deveria amarrar sinos na roupa, 24
Página |
para que, o povo soubesse se ele estava vivo ou morto
(Ex 28:34-35). Outros textos relevantes são aqueles
referentes à Arca (1Sm 4-6; 2Sm 6; 1Rs 8 - filisteus
sofrem 1Sm 5; setenta homens são feridos por não se
alegrarem na sua presença 1Sm 6:19; Uzá morre por tê-
la Tocado 2Sm 6:7) e à glória do Senhor no Templo (1Rs
8:11; 2Cr 7:1).
Todos esses textos, mergulhados no imaginário
popular, coloriram a fé revestindo o templo de significado
sagrado. Mas será que isso é tudo que se poderia falar
sobre o Templo? Será que nós podemos entender que o
Templo era Sagrado?
A cultura brasileira, nascida na teologia Católica
Romana, geralmente compreende a questão de local Os profetas revelaram que a
sagrado. Atualmente as igrejas evangélicas não teologia do Templo
entendem seus templos como sagrados, mas crêem que corrompeu os ideais do
o Templo de Salomão era sagrado, não seria um contra- êxodo. No êxodo Deus
libertou o povo, não por
senso? Atualmente as igrejas evangélicas pregam contra
mérito mas por graça. Sob o
a identificação de Deus em imagens, mas aceitam a Arca
Templo, Sacerdócio, Lei e
como sagrada, são seria outro contra-senso?
Monarquia, o povo foi
Um olhar mais amplo sobre o Antigo Testamento
novamente cativo,
permite-nos moderar a questão do Templo. Os Profetas
escravizado e afastado da
afirmaram o esvaziamento sagrado do Templo, graça de Deus, pois agora a
contestaram o culto eos sacrifícios, (Am 5; Os 6:6; Jr 7; Is vontade de Deus era
1; Is 58). A crítica estende-se ao Templo (Is 66; Jr 7); ao mediada pela palavra do
sacerdócio e monarquia (Mq 3:11; Os 4:7-8) e a noção de Sacerdote e da Monarquia.
segurança baseada na lei, no ritual e na aliança (Am 9:7;
Jr 7; Is1).
Outros testemunhos bíblicos permitem ponderar a Jesus contesta a teologia do
concepção de Sagrado vinculada ao Templo. A tomada Templo ao buscar discípulos
da Arca pelos Filisteus (1Sm 4:11); a profanação do no mar da Galiléia, no
Templo pela venda do cargo de Sumo-Sacerdote (2Rs perdão de pecados, nas
23; Livro de 2 Macabeus); a separação de pessoas (Lv refeições com “pecadores”,
21:16ss). No NT o Templo ainda possui essa perspectiva no IDE, no batismo, ao comer
que condena Paulo (At 21:28); persegue e testemunha sem lavar as mãos, nas curas
contra Jesus (Lc 22:52; Mc 14:57-58; 15:29). de sábado, nas mesas dos
Isso significa que Deus nunca falou no Templo, na cambistas, no Pai Nosso, e
Lei ou na Arca? Não. Mas significa que o homem pode principalmente na Cruz, onde
manipular as estruturas religiosas para proveito próprio e, revela que não é apenas
por isso, significa também que Deus não pode ser preso maior que o Templo
a algum tipo de imagem ou estrutura (Ex 20; Jo 4:23-24). (Mt12:6), mas o verdadeiro
O valor sagrado não está no ritual, na imagem, na Templo que vai ser
estrutura ou na lei, mas na presença de Deus. derrubado e re-edificado em
três dias.
O DECLÍNIO DA MONARQUIA
UMA LEITURA DEUTERONOMISTA
Pf. Eduardo Sales
Quem pagava a conta?
A trajetória histórica dos reis de Israel é escrita a partir "Salomão recebia
do Reino de Josias o que é testemunhado em 2Rs 25:27-30, diariamente para seu 25 gasto Página |
ou seja, a redação final do escritos históricos foi antes da treze toneladas e meia de
deportação para o exílio, em 561 a.C. Esse grupo de escritos é
flor de farinha e sete
chamado de “profetas anteriores” pela tradição judaica, e de
toneladas de farinha
tradição deuteronomista pela teologia bíblica.
A perspectiva desses autores nos ajuda a guiar a comum, dez bois cevados,
compreensão da história dos reis de Israel. Assim, foi vinte bois de pasto, cem
principalmente sob Josias que se iniciou a releitura da história carneiros, além de veados,
do povo de Deus a partir do relacionamento com Javé (2Rs gazelas, antílopes e aves de
22:8-ss). Isso pode ser visto claramente nas narrativas ceva" (1 Rs 5.2-3).
negativas sobre os reis que foram classificados a partir de seu "Salomão possuía estábulos
relacionamento com Javé e seus Sacerdotes. para quatro mil cavalos de
tração e doze mil cavalos de
A Releitura a parti da reforma de Josias montaria" (v. 6), tratados
Segundo Pedersen (1959), sempre houve com cevada e palha (v. 8).
movimentos de purificação Yahwisticistas visando "Hiram (rei de Tiro)
legitimação do Sagrado Palaciano às custas da forneceu a Salomão toda a
destruição do Sagrado Diverso (1Rs 15:12; 22:43,47; 2Rs madeira de cedro e de
11:18; 12:3; 14:3; 15:3,34), mas, uma reforma completa, cipreste que este
aconteceu apenas a partir do reino de Ezequias. necessitava, e Salomão
O contexto de “idolatria”, os ataques proféticos em pagou a Hiram nove mil
defesa do pobre e o eminente ataque da Babilônia, toneladas de trigo para o
motivaram Ezequias e Josias à reforma da religião de sustento de seu palácio, e
Israel, uma espécie de purificação religiosa somada a nove mil litros de azeite
uma ideologia de domínio e destruição do Outro. virgem" (v. 25).
Segundo Pixley (1999), é provável que o principal motivo Quem pagava tudo isso? O
próprio texto fala que
da reforma tenha sido a necessidade de controlar as
Salomão dividiu o país em
revoltas populares incitadas por um grupo autóctone em
prefeituras para arrecadar
Judá que nunca apoiou a teologia davídica do Templo.
esses bens "de todos os que
A Reforma de Josias (2Rs 22:1-23:30) continuou a
comiam às custas do rei" (v.
intolerância religiosa de Ezequias. Primeiro foi contra os
7). Na verdade, quem
ritos idolatras de Jerusalém e do templo. Josias erradicou sustentava a grande carga
os santuários estrangeiros (2Rs 23:10-14), acabou com das despesas era O POVO.
os rituais sacrificatórios rurais, perseguiu os sacerdotes e
destruiu os locais do Sagrado diverso (2Rs 23).
Para Pixley (1999), a obra Deuteronomista foi a
releitura da história de Israel a partir da perspectiva de
Josias, determinando os conceitos de bom e mau, justo e
injusto. É uma releitura crítica à monarquia não Javista.
Essa releitura constava da narrativa de Moisés; da
idolatria e dos libertadores no tempo dos juízes (Jz 2:6-
19); do desenvolvimento da Realeza, dos caminhos
desviados dos reis de Israel e a dominação assíria (2Rs
17:7-41). Apontava para o Templo em Jerusalém como
local de perdão (1Rs 8:14-61), exatamente o que fez o
povo sob o “bom” rei Josias (2Rs 22:11; 23:1-3).
DECLÍNIO DA MONARQUIA: O REINO DIVIDIDO
Pf. Eduardo Sales

Divisão dos Reinos


Antecedentes da divisão.
Jz 8:1-3; 12:1-6; 26 Página |
O REINO DO SUL O REINO DO NORTE 2Sam. 2:9; 19:42-43.
Jerusalém como capital, Com a separação, o
seguiu a opção das Cidades- reino do norte foi o primeiro a
Estado, com a dinastia de Davi, cair, em menos de um século. Jeroboão recebeu com
tendo apenas seis reis durante De 931-941 teve três dinastias. apoio dos profetas
nove décadas (931-841 a. C.). 1Rs 11:26-40
Jeroboão
Roboão Administrador do reino
Reunindo-se os de Salomão, supervisor da
israelitas em 931 a. C., sob a construção da muralha de
liderança de Jeroboão, Jerusalém (1 Rs 11:26-29). Jeroboão não quis que
apelaram para reduzir os tri- Seu reino acontece seu povo fosse até a
butos, mas não obtiveram mediante uma crise financeira, Judéia para as
sucesso, o que foi agravado em que Roboão recebe apoio festividades de
pela crise entre religião apenas de Judá e Benjamin, já Jerusalém, correndo risco
popular e religião estatal (A Jeroboão é ungido rei das de firmarem aliança com
Criação do Templo por outras dez tribos (1 Rs 12:18- Roboão elegeu
Salomão). 25; 14:7s). Com isso inicia o sacerdotes e instituiu
Em contrapartida período de Guerra civil entre sacrifícios nos antigos
Jeroboão substituiu a idolatria Israel e Judá. A guerra civil centros rituais dos
(Javismo Estatal) pela prevaleceu durante os 22 anos Patriarcas.
verdadeira religião de Israel do reinado de Jeroboão 2Cr (1Rs12:25-13:34).
(Javismo popular) 2Cronicas 10:19; 1Rs 14:29.
11:13-17.
O Resultado da religião Os Bezerros de Ouro
do Estado foi a continuidade Uma manobra anti-
da política de opressão e Jerusalém (1Rs 12:28ss; 2Cr
corvéia 2Cr 12:5-8. 11:13-15) condenada como
Roboão por fim Idolatria por Jerusalém (1Rs
sucumbiu à idolatria o que 15:34; 16:26; 2Rs 13:2).
demonstra a intenção do Após a morte de
escritor Javista em justificar o Roboão, Jeroboão atacou Judá,
fracasso do rei por meio da mas o novo rei, Abíam,
ausência do Javé Estatal. expulsou Israel até o extremo
(Idolatria e prostituição cultual. de tomar o controle de Betel e
1Rs 14:22-24). outras cidades israelitas 2Cr
Roboão reinou 17 anos. 13:13-20. Jeroboão reinou por
22 anos (1Rs 14:20).
ISRAEL: REINO DO NORTE
Pf. Eduardo Sales A política anti-
Jerusalém, do reino do Norte
Com a morte de Salomão, em 931 a.C., as divisões rejeitou o Templo e as
internas crescem e as diferenças entre campo e cidade levam peregrinações na festas.
o reino à ruptura política. A divisão foi concretizada com a Jeroboão construiu 27 dois
negativa de Roboão à uma reforma tributária (1Rs 12,3-11). As touros de ouro e colocou-os Página |
em antigos santuários: Dan,
10 tribos rebeldes escolheram Jeroboão para seu rei, inimigo
no extremo norte, e Betel,
de Salomão, que se encontrava exilado. perto de Jerusalém, no sul.
De Jeroboão I a Omri (aprox. 50 anos) houve muita Para o sul, a idolatria
instabilidade em Israel. Nadab foi assassinado por Baasa; seu dominava o norte, embora a
filho Ela foi também assassinado por Zimri, que, por sua vez, intenção do rei fosse apenas
se suicidou. Houve também vários conflitos com Judá por reavivar o culto naqueles
causa das fronteiras. santuários.
Omri, que deu um golpe militar em 885 a.C. Fez aliança
com a Fenícia, casando seu filho Acab com Jezabel, filha do
rei de Tiro; e posteriormente Acab casou sua filha Atalia com Com Acab a situação do
Jorão filho de Josafá. Omri construiu Samaria em 880 a.C., povo era muito difícil. Era
comum o camponês se
capital do reino,foi um período de prosperidade, porém, como
vender e vender seus filhos
sempre, empobrecia a população sob a exploração classista. para saldar suas dívidas. Em
A dinastia de Omri caiu em 841 a.C., com a aprovação Samaria, construiu um
do profeta Eliseu. Um golpe militar no qual toda a dinastia foi templo para sua mulher
assassinada. Jeú foi consagrado, em seu reino e no de seus Jezabel cultuar seu deus
descendentes houve crise na política externa. Pagou tributo ao Baal.
rei Assírio e perdeu a Transjordânia para Damasco. O profeta Elias seguiu o
Com a subida ao trono de Jeroboão II (782/1-753 a.C.) deuteronomista, acusou os
o país se recuperou. Finalmente havia paz entre os dois Reis de idolatria,abandono
reinos. Sob Jeroboão II houve prosperidade. Levou a fronteira do javismo e opressão do
povo. São acausa dos males
norte aos dias de Salomão (2Rs 14,23-29). Foi próspero e
que assolava o país. (1Rs
injusto de Salomão.Concentrou a renda nas mãos de poucos e 17-22)
empobreceu a maioria. Também houve corrupção religiosa.
Os ricos santuários, cheios de adoradores, colocou a religião
javista de lado em favor de outros deuses menos exigentes Nesta época, os profetas
quanto à justiça e igualdade social. Amós (760 a.C.) e Oséias
Com a morte de Jeroboão II o reino do Norte desabou. (755-725 a.C.) destacaram-
De 753 a 722 a.C. seis reis sucederam ao trono de Samaria, se na denúncia da situação
abalado por assassinatos e golpes sangrentos. Houve 4 golpes em que se encontrava Israel
de Estado (golpistas: Salum, Menahem, Pecah e Oséias) e 4 (Am 2:6; 6; Os 4).
assassinatos (assassinados: Zacarias, Salum, Pecahia e
Pecah), (Os 7:5-7).
A grande ameaça internacional era a Assíria que em
738 a.C. submetera grande parte da Síria e da Fenícia e Israel
Segundo os anais de
começou a pagar-lhe tributo. Invadido por seus vizinhos Reino
Sargão II, o número de
do Norte, Edomitas e Filisteus, Judá foi pedir o auxílio da deportados samaritanos foi
Assíria. Isaías foi contra este passo (Is 7:3-6). de 27.290 pessoas. Com a
A Assíria destruiu as forças aliadas. Virou-se contra instalação, no território, de
Israel, saqueou a Galiléia e Transjordânia, deportou uma parte outros povos e outros
do povo e destruiu numerosas cidades. Numa tentativa de costumes chegou para Israel
libertação, o Reino do Norte começou a negar o tributo à do norte o fim definitivo.
Assíria e fez aliança com o Egito, e ambos sucumbiram à
Assira. Salmanasar V atacou, prendeu o rei, ocupou o país e
cercou Samaria em 724 a.C (2Rs 17:3-6), que caiu em 722
a.C. e o filho de Salmanasar V, Sargão II foi quem se
encarregou da deportação e substituição da população israelita
por outros povos que foram ali instalados.
JUDÁ: REINO DO SUL
Pf. Eduardo Sales

De Roboão a Joatão (931 a 734 a.C.) estão os conflitos


constantes com o norte. A tensão entre a aristocracia de
Jerusalém e a população rural; entre o javismo e os cultos e 28
Página |
costumes estrangeiros, especialmente o culto a Baal a derrota
de Amasias por Joás, de Israel, e o saque de Jerusalém pouco
depois de 796 a.C. pelas tropas do norte.
Com Acaz (734-716 a.C.) a ameaça conjunta das
forças israelitas do norte e sírias em 734 a.C. forçou Judá a
invocar o auxílio da Assíria. Judá teve a proteção Assíria, mas
perdeu sua independência. Acaz acabou vassalo da Assíria, Reforma de Ezequias
pagando-lhe tributo e servindo os deuses assírios (Is 7:1-17). Afrontou as práticas cultuais
A esperança reapareceu com Ezequias. Associado ao não-javistas dos agricultores,
trono desde criança (728/7 a.C.)foi coroado em 716/15 a.C. e aboliuos lugares altos
começou uma reforma no país. A destruição de Samaria levou (bâmôt), quebrou as estelas
refugiados de Israel para Jerusalém. Jerusalém prosperou, (matsêbôt), cortou o poste
cresceu de 5 para 60 hectares e de cerca de 1000 para algo sagrado (‘asherâh). Até
em torno de 15 mil habitantes. Só agora aparece uma elite mesmo do Templo de
judaíta e se formam as estruturas de um verdadeiro Estado. Jerusalém Ezequias retirou
os símbolos dos cultos de
Ezequias, de Judá, rebelou-se fortificou suas defesas e
fertilidade, como uma
preparou-se cuidadosamente para esperar a Assíria. serpente de bronze (2Rs
Senaquerib, rei da Assiria, em 701 a.C. já possuía Tiro, e logo 18,4).
os reis de Biblos, Arvad, Ashdod, Moab, Edom e Amon se
entregaram com tributos a Senaquerib. Somente Ascalon e
Ekron, juntamente com Judá, resistiram. Senaquerib tomou
primeiro Ascalon. Os egípcios tentaram socorrer Ekron e foram
derrotados. E foi a vez de Judá. Senaquerib tomou 46 cidades
fortificadas em Judá e cercou Jerusalém. A cidade não foi
destruída, mas teve que pagar forte tributo aos assírios (2Rs Reforma de Josias
19,35-37). Do Templo de Jerusalém foi
Manassés, sucessor de Ezequias, foi o oposto do recuperado um código de
pai.Governou 55 anos como o pior rei de Judá, especialmente leis, “o livro da Lei” sêfer
hattôrâh, (2Rs 22,8). Ao ser
por ter restaurado os cultos não-javistas. Sob a sombra da
promulgado por Josias em
Assíria, implicou em alianças com lideranças clânicas que 622 a.C. como lei oficial do
exigiram a volta aos cultos dos deuses da terra. reino de Judá, este “livro da
O filho de Manassés, Amon, ao sucedê-lo, foi Aliança” (2Rs 23,2) deu vida
assassinado, certamente por grupos prejudicados com o à reforma, mostrando que
prosseguimento desta política. E Josias, com apenas oito era preciso reviver as antigas
anos, foi declarado rei de Judá. tradições mosaicas, pois só
A Assíria estava enfraquecendo sob as revoltas dos elas valiam a pena. “Todo o
Babilônicos. Foi um momento bom para Judá. O rei Josias deu povo aderiu à Aliança”, diz
início a uma ampla reforma (2Rs 22,3-23,25). Aproveitando a 2Rs 23,3.
Cultos, práticas estrangeiras,
fraqueza assíria, Josias ocupou algumas partes do antigo reino
introduzidos em Judá sob a
de Israel, aumentando seus tributos e melhorando suas Assíria, foram eliminados.
defesas. Josias morre em 609 a.C. (2Cr 35,20-24 fala). Magia e adivinhação foram
Judá passou então a pagar pesado tributo ao Egito. Em banidos.
605 a.C., Nabucodonosor derrotou as forças egípcias e desceu Santuários considerados
até a Palestina. Joaquim, rei de Judá, fez com ele um acordo e idólatras, arrasados, com
Judá não foi destruído. Morreu Joaquim e Joaquin, de 18 anos, especial destaque, no texto
foi deportado para a Babilônia com a corte e toda a classe de 2Rs 23,4-20, para a
dirigente (16 de março 587 a.C.). destruição do santuário de
Além dessa deportação conta-se mais duas 586; 582 Betel.
(Jr 52:27-30). Cerca de 1/3 dos judeus foram deportados.
Avaliação – Historia do Povo Hebreu
Nome:________________________________ /______/2011
1- O que é a leitura a partir dos Pobres?
a. Interpretar a partir do conflito: Elite x Pobres
b. Interpreta a salvação a partir dos pobres
c. A Bília foi escrita pela e para a Elite 29
d. A Bíblia não é Inspirada Página |
2- Onde começa a história do povo hebreu?
a. Abraão – Canaã
b. Moisés – no Egito
c. Palestina
d. Jerusalém
3– Qual o papel do ferro e do Boi na formação do povo
Hebreu:___________________________________________
__________________________________________________
__________________________________________________
4 – Explique o texto de Mq 3:11
__________________________________________________
__________________________________________________
__________________________________________________
5 – Como surgiu a monarquia:
a) A Monarquia foi imposta por Saul
b) Os pobres pediram um rei
c) Todo o povo pediu um rei
d) Apenas a aristocracia pediu um rei
6 – O que mais caracterizava a Monarquia
a) Seguir as palavras de Javé
b) Manobras políticas
c) Um Reino, com Exército e Tributos
d) Deus
7 – Davi, um homem segundo o coração de Deus...
a) Um homem sensível ao Espírito de Deus
b) Um homem sensível às necessidades do Reino
c) Um homem que seguia a Lei de Deus
d) Um homem que procurava justiça social
8 – Quanto a Salomão:
a) Foi um rei sábio
b) Foi o rei mais sábio de Israel
c) Usou sua sabedoria para sucesso da Monarquia
d) Não era sábio (Sabedoria era propaganda política)
9 - Quanto ao Templo de Salomão
a) Era a casa de Deus
b) Era um Local Sagrado
c) Um Local Religioso de manipulação política
d) Era um antro de Idolatria
10 – Quanto à reforma de Ezequias e Josias
a) Foi uma reforma política
b) Foi uma reforma espiritual
c) Foi uma reforma religiosa
d) Foi uma reforma predial
11 – Quantos exílios aconteceram no período dos Reis?
a) Um exílio e duas deportações
b) Dois exílios e duas deportações
c) Dois exílios e três deportações
d) Três exílios e três deportações
PROFETISMO
Pf. Eduardo Sales

O Profetismo iniciou na Síria, Palestina e Mesopotâmia.


É um fenômeno internacional (Jr 27:9). Na Suméria o Profeta é
visto como o Homem que penetra o céu. Possui característica 30
Página |
extática: (êxtase - Sair de si - 1Rs 18:19; 2Rs 10:19), Teve
como instrumentos a Necromancia (Estudo dos mortos), vôo
dos pássaros, estudo dos astros, e sortes (Ez 21:26; 1Sm
14:40ss; 28:6; Pv 16:33).
O Profetismo no Antigo Israel Adotou a forma
extática.profeta era o Nabi(aquele que foi chamado).Também
conhecido como Rozeh(vidente). Possuía vida nômade e
frequentava as escolas de profetas (Is 8:16;30:8; Jr 36).
Outro grupo eram os profetas profissionais do culto.
Fundiram o Nabi com o Rozeh. Pregavam a Benção e a
Salvação. Esses profetas também são conhecidos como
Profetas Palacianos. Falam o que o rei quer ouvir (IReis 22:8-
18). Saul, Davi e Salomão também foram auxiliados ou
confrontados por profetas (1Sm 10:1, 24, 16:12-13), são uma
espécie de conselheiros do rei (1Sm 22:5; 2Sm 24:11-19; 1Rs
11:29-31). Começou próximo à monarquia, mas quando a
política se desviou dos planos de Deus, a profecia mudou seu
discurso e passou a criticar o rei. Os profetas foram chamados
de inimigos, (1Rs 21:20; 18:17). Foram arduamente
perseguidos (1Rs 18:13; 19:10; Jr 18:18; 26:11). Devido a esse
conflito político a classe dos profetas se dividiu: Profetas reais,
ou da corte e profetas por vocação e chamado, independentes.
(Jr 28:1-17. 14:13-16; 23:9-40; 28:9; Ez 33:30-33; Jr 17:15).
Os Profetas individuais ou anônimos do primeiro
período foram: Amós, Oséias, Isaias, Miquéias, Sofonias,
Jeremias e Ezequiel. Eram vocacionados e não profissionais.
Estavam alem de todas as vinculações: parentesco, social,
nacional, cúltica ou política. Eles viam o homem numa
condição de abandono de Deus, recusando entregar-se a Ele,
afastando-se dEle como resultado de atitudes censuradas. Os
profetas esperam a punição. Apontam a possibilidade de
perdão e de uma nova salvação. Assim, proclamam que a
cidade só será santa ao se colocar sob a salvação de Deus. O
Tema é a conversão, e a mudança interior e exterior.
O que é um profeta? Abraão, Moisés, Débora, Aarão,
foram chamados de profetas (Gn 20:7; Ex 7:1; Dt 34:10; Jz
4:4). Jeremeias e Isaias, entretanto, não são chamados de
profetas. Amós rejeita ser chamado de profeta (Am 7:14).
Eram vistos como doidos (2Rs 9:11; Os 9:7). Foram pessoas
que se levantaram em momentos de crise social. Distinguiam-
se pelas vestimentas, mantos de pele e cinturão de couro (2Rs
1:8; Zc 13:4) assim como, pelos sinais e cicatrizes (1Rs 20:41);
cantavam, soltavam gritos e lamentações (1Sm 10:6-9; Mq 1:8)
chegavam até a cair por terra, prostrados ou desmaiados (1Sm
19:24; Dn 8:18,27). Muitas vezes entravam em transe (1Sm
19:24)se auto-flagelavam (Zc 13:6) Todos estes formaram o
movimento chamado: Movimento profético.
Entre Deus e os Homens
Pf. Eduardo Sales

É o representante de Deus aos homens. Por isso o


profeta deve possuir profunda experiência e rendição à
presença de Deus (Is 52:6; 58:9; 65:1). Deve ser porta-voz que 31
Página |
retoma os critérios da aliança, e sua mensagem são as
dádivas de Deus para com seu povo (Dt 32:10-11) e a
exigência de Fidelidade a Deus (Eu sou o Senhor teu Deus
que te tirou da terra do Egito). O profeta torna-se o defensor da
aliança, lembrando o povo (aristocracia) de seu compromisso:
ser uma nação santa (Ex 19:9).
O profeta também deve possuir profunda experiência
com o homem. Experiência do pecado. O profeta se identifica
com o povo, vê em seus pecados em relação à condição de
seupovo (Is 6:5). Os profetas possuíam uma elevada
sensibilidade de forma que sempre entendiam as fraquezas e
problemas da nação. Quando observava o pobre, os órfãos, as
viúvas, os estrangeiros, os escravos e as injustiças sociais,
entendia que a aliança havia se rompido (Dt 15:1-11; Lv 25:35-
43; Is 1:6-7; Jr 30:12-15; 14:17-18).

Intercessor dos Oprimidos


Na defesa dos pobres relembrava a aliança e o
compromisso assumido pelo povo. Sem medo enfrentavam o
governo (Jr 21:11-14;22:13-19); o comércio (Am 8:4-8); o
tribunal (Mq 3:9-12); o trabalho (Hc 2:9-12); o sacerdócio e o
culto (Os 4:4-14).

Memória do Passado
A memória do passado é a maior fonte da mensagem
profética. A profecia é uma leitura da história, é a interpretação
da ação de Deus na história (Ez.14:8; 32:15; Is 45:3). A
denuncia da maldade era ao mesmo tempo revelação do Amor
de IAVÉ. Amós 4. Sede santos por que Eu Sou santo.

Conversão hoje – conseqüência amanhã:


(Dt 30:2; Is 6:10; Jr 18:8; Ez 3:19).

Crítica ao culto:
(Am 4:4; 5:5; Os 8:11; Am 5:21; Is 1:15;Jr 14:11).

Falsos profetas:
(Is 29:7ss, Miq 3:5;Jr 6:13)

Critica social:
(Am 2:6ss;3:10; Os 4:1ss; Is 5:7; Jr 22:15)

Critica a autoconfiança religiosa


(Am 3:2; 9:7; Is 6:9; Is 1:4; Ez 15:1-6).
AMÓS
Reler a história a partir da Fé
Pf. Eduardo Sales Questões culturais
1. Tecoa 20km ao sul de
Esboço: 32
Jerusalém. Amós atuou
Escolhi, por isso pedirei contas (3:2) no reino do Norte, sob Página |
Ser escolhido não garante o perdão (2:4-7) Jeroboão II - 786-746.
Os escolhidos são como se não o fossem (1-2) 2. Amós Boiadeiro (dono de
Riqueza ilícita testemunha contra os escolhidos (3) Bois? 2Rs 3:4)
3. “por três e por quatro”
Os locais sagrados serão destruídos (3:14; 4:4-5)
(7 totalidade - Weiss)
Prepara-te para encontrar teu Deus (4:12)
Buscai-me e vivereis (5:4-6)
Ai dos que pervertem a justiça (5:7)
Ai do que praticam culto vazio de justiça (5:18-27)
Ai dos que buscam luxo sobre a miséria (6:4-11)

Visões: Fio de Prumo = Desolação, destruição.


Amazias e Amós (7:12-17)
Figos maduros: colheita e cepa (8:1-8) 1. Releitura do Exército
O Dia do Senhor: (1:3-2:16). O abuso do poder
Dia de Julgamento (8;9 1-10) será eliminado pela ação
Dia de Salvação (9:11-15) direta de Deus (1:5s, 8b,14b;
2:2b; 3:11b; 5:2-3; 6:13-14)
2. Releitura da Religião
IRA DO SENHOR CONTRA OS REIS OPRESSORES
Oficial (4:4s). Amós foi
“dias de Uzias, rei de Judá, e nos dias de Jeroboão, filho de
contra os agentes da religião
Joás, rei de Israel” (1:1)
oficial (7:13) que oprimiam o
Nesse período, o reino do norte já havia passado por povo por meio da
Acabe, pelo relacionamento com Baal, pela retomada javista arrecadação de tributos
de Jeú, e nesse momento está sob um dos reinados mais religiosos. Serão deportados
prósperos de Israel. ou mortos pela espada (4:4;
A mensagem inicia com a denúncia da injustiça. A 5:21-23,27; 7:9; 9:1s).
monarquia de Israel (Reino do Norte), assim como as nações 3. Fim das mordomias
vizinhas, transgrediram a aliança (o direito de irmão). palacianas (2,8; 3,9s; 4,1ss;
Gileade (1:3), não o povo, mas os palácios; Damásco (1:4-5), o 6,1-7). A crítica social foi
morador e o que tem o cetro; Gaza (1:6-7), consumirá os palácios; dirigida principalmente contra
Asdode (1:8), novamente o morador e o que tem o cetro; Asquelom, as pessoas da corte real
Ecrom e o resto dos filisteus, representam o povo do palácio; Tiro que, vivia regaladamente às
(1:9-10) não se lembraram da aliança dos irmãos, consome os custas dos camponeses.
palácios; Edom (1:11-12), consumirá os palácios de Bozra; Amom, Javé porá um fim (6:1, 7).
(1:13-14) porei fogo ao muro de Rabá, e ele consumirá os seus 4. Releitura da Eleição. Os
palácios; Moabe (2:1-2), consumirá os palácios de Queriote; reis proclamavam que eram
Judá (2:3-5) porque rejeitaram a lei do SENHOR e não especiais, escolhidos de
guardaram os seus estatutos; antes, se deixaram enganar por suas entre os povos. Mas Amós
próprias mentiras, após as quais andaram seus pais. Por isso, porei vai afirmar que são como os
fogo a Judá, e ele consumirá os palácios de Jerusalém; Israel (2:6), outros (9:7) e que a eleição
porque vendem o justo por dinheiro e o necessitado por um par de de é sinônimo de Juízo
sapatos. (3:1ss).
O profeta faz uma releitura independente da monarquia. 5. Releitura do Povo de
Denuncia a injustiça da elite palaciana (escravidão dos Israel
A impressão que temos é de
pobres). A lei do Senhor não se trata da Tora (a Torá permitia
deportação e destruição
escravidão), a lei era o direito de irmão (Dez mandamentos). total. Mas não é contra
As próprias mentiras eram as interpretações da vontade de todos, haverá um resto
Deus centradas na vontade do Rei. (5:14-15; 8:1-3).
Segue o redator deuteronomista na crítica aos Pais (Reis).
OPRESSÃO COMO VIOLAÇÃO DA ALIANÇA COM JAVÉ
Destruir o irmão é violar a aliança. “Suspirando pelo pó da (3:1-2) Ouvi esta palavra
terra sobre a cabeça dos pobres” (2:7); “sobre roupas empenhadas e
que o SENHOR fala contra
na casa de seus deuses bebem o vinho dos que tinham multado”
vós, filhos de Israel, contra
(2:8). O profeta denuncia que, mesmo tendo sido libertados por toda a geração que fiz subir
Javé, guiados pelo deserto e orientados por profetas (2:9-12), da terra do Egito, dizendo:
33
a elite palaciana violentou os mais fracos. Isso é a quebra da De todas as famílias da terra Página |
aliança, por isso serão julgados (2:13-16). a vós somente conheci;
A monarquia usou a aliança como garantia jurídica de paz portanto, todas as vossas
e prosperidade, mas o profeta Amós relê a aliança pela injustiças visitarei sobre vós.
perspectiva da justiça. A aliança de bênção também é uma
aliança de Justiça.
O profeta denuncia que a aliança só tem valor se entre
ambos houver acordo, “Andarão dois juntos, se não estiverem de Frank Crusemann afirma que o
acordo?” (3:3). Essa também é a base de releitura do mal (no dízimo surge como ato cultual
sentido de desastre), pois tudo vem do Senhor. Esse mal um pouco antes de Amós. Isso
deveria servir de sinal para que eles se arrependessem (3:6). porque nas tradições antigas
O imperialismo é condenado. Os palácios de Asdode e do ele não é referido
Egito (3:9), provocam opressão, injustiça, violência e
destruição (3:10). Por isso os palacianos serão condenados e
Deus é o principal agente dessa condenação (3:11-13);
“E derribarei a casa de inverno com a casa de verão; e as casas
de marfim perecerão, e as grandes casas terão fim, diz o SENHOR” Amós 4:1 Ouvi esta palavra,
(3:15). vós, vacas de Basã, que
estais no monte de Samaria,
A denúncia profética estende-se aos sacerdotes e às
que oprimis os pobres, que
formas religiosas. A religião centrada no templo apoiava-se no quebrantais os necessitados,
sacrifício como forma de manipular o sagrado. Praticavam uma que dizeis a seus senhores:
fé centrada no ritual e na troca. Nessa releitura o profeta afirma Dai cá, e bebamos.
que o prazer do sacrifícios está apenas no ofertante. Amós 4:4-5 Vinde a Betel e
O Profeta usa as palavras de forma a revelar a transgredi; a Gilgal, e
incredulidade diante de suas obras (4:6-12). “Não vos multiplicai as transgressões;
convertestes a mim” – É a mensagem de arrependimento e e, cada manhã, trazei os
mudança de disposição, principalmente em relação ao fraco e vossos sacrifícios e, de três
ao pobre. Nesse contexto, “encontrar-se com Deus” (4:12), era em três dias, os vossos
dízimos. E oferecei sacrifício
uma repreensão, uma advertência ao encontro com o Juíz.
de louvores do que é
A releitura de Amós é um chamado à vida em oposição à levedado, e apregoai
religião vazia na qual estava a morte (5:4-6), “Buscai-me e vivei”. sacrifícios voluntários, e
Não adianta uma religião sem justiça (5:7), não adianta publicai-os; porque disso
sacrifício se há opressão. Esse é o verdadeiro pecado de gostais, ó filhos de Israel,
Israel (5:8-12). disse o Senhor JEOVÁ.
Não adianta desejar o dia do Senhor (5:18), será dia de
Juízo. Todas as atividades religiosas são reprovadas pelo
Senhor (5:21-23). Para o profeta as formas de sacrifício são
práticas pagãs. Por isso eles serão deportados para o Exílio.
Para o profeta a injustiça estava no acumulo de excedente Amós relê a aliança davídica
(6:1-6, 8). a partir da fidelidade a Javé
Mas nem tudo é fácil. Amós enfrenta Amazias (7:12- (9:11).
17). O profeta é confrontado com a autoridade do Templo que
pertence ao Rei (7:13) Amós relê a aliança a partir
As visões ampliam a mensagem de juízo do profeta. do relacionamento com
Fio de Prumo = Desolação, destruição. outros povos (9:7)
Figos maduros: colheita e cepa (8:1-8)
O Dia do Senhor:
Dia de Julgamento (8;9 1-10)
Dia de Salvação (9:11-15)
RELEITURAS EM OSÉIAS
Pf. Eduardo Sales

Exerceu o ministério na Samaria (Reino do Norte), foi


contemporâneo de Isaias, Miquéias e Amós. Foi profeta por
aprox. 72 anos (1:1) atuando aprox. entre 750 e 730 a.C. 34
Página |

Amor e Fidelidade
1) Deus derrama seu amor em cinco linguagens para que nos
relacionemos com Ele
Justiça, direito, afeto, carinho, fidelidade (2:19-20)
Tsedeq, Mishpat, hesed, rahamim, ’emuna
2) Na experiência de Oséias é testemunhado o amor de Deus,
que ama e é fiel, ainda que o seus sejam infiéis (2:4-25). O
Amor de Deus perdoa, aproxima e santifica.
3) Sem fidelidade, afeto e conhecimento de Deus (da’at) o
povo será destruído (4:1-2). Retornar a Deus (12:7) hesed e
mishpat; Hesed e Da’at – Afeto e conhecimento de Deus é o
que deseja Javé (6:6).
4) As linguagens do amor se manifestam no próximo e refletem
em Deus. Falta de Afeto a Deus e ao próximo são sinônimos
manifestados em graves: Injustiças (6:7-7:2); lutas pelo trono
(7:3-7); política exterior (7:8-12); materialismo (7:13s; 10:12). Críticas:
Os crimes rompem a aliança com o Senhor (6:7). Reinado: 1:4; 8:3-4;9:15
5) As linguagens do amor de Deus testemunham sua ação Sacerdócio: 4:4-6; 5:1; 6:9-10;
salvadora (10:12). 10:5.
6) As linguagens do amor de Deus conclamam para Exército: 1:5; 8:14; 10:13-14
Comércio: 12: 8-9
conversão. (12:7).

Questões culturais
Casamento e a revelação do amor de Deus.
Três grupos distintos: Judá, Israel e Efraim.
Fórmula de divórcio (2:4)
Filhos bastardos (2:6)
Dote (2:21-22) - Aliança conjugal.
Ritual para não receber a viúva do irmão por esposa (5:6)

Sua mensagem possui as seguintes características:


1. Fala do Amor de Deus
2. Critica a religião: principalmente os sacerdotes
3. Trata do “espírito de prostituição”
4. Anuncia a destruição dos centros de poder e
pecado
5. Retrata a esperança a esperança na crise

Questões Teológicas:
1- Deus é revelado como “Senhor”.
2- Como temos procurado o Senhor? (5:6; 5:6)
3- Tema da aliança relembrado “meu povo” (1:9; 2:25).
4- Voltar ao princípio (2:16) -Verbo voltar aparece 23 vezes.
5- O Conhecimento de Deus (2:19-21; 4:1,2; 6:6).
6- Falso conhecimento de Deus (8:2).
7- Rituais vazios (8:13)
Amostra de Exegese:

Osé 1:1 Palavra do SENHOR, que foi dirigida a Oséias, filho


de Beeri, nos dias de Uzias, Jotão, Acaz, Ezequias, reis de
Judá, e nos dias de Jeroboão, filho de Joás, rei de Israel.
Os Reis de Uzias a Ezequias representam a virada 35
Página |
Javista. Momento em que os Reis de Jerusalém governaram em
parceria com o “povo da terra”, grupo de latifundiários e donos
de bois, representantes da elite campesina de Jerusalém que
procurava se solidificar diante da liderança da Cidade.
Jeroboão filho de Joás representa o fim de uma aliança
entre os reinos do sul e norte.
Osé 1:2 O princípio da palavra do SENHOR por meio de
Oséias. Disse, pois, o SENHOR a Oséias: Vai, toma uma
mulher de prostituições, e filhos de prostituição; porque
a terra certamente se prostitui, desviando-se do
SENHOR.Osé 1:3 Foi, pois, e tomou a Gômer, filha de
Diblaim, e ela concebeu, e lhe deu um filho.

A Prostituição Social
Época de crise e destruição do reino do Norte pela Prostituição em Oséias:
(Os 1:2; 2:4,6,7,12,14,15; 3:3;
Samaria (13:10-11). A prostituição foi exercida por mulheres
4:10,12,13,14,18; 5:3,4; 6:10;
como forma de subsistência (2:4-17) e era controlada pelos
7:4; 8:9;9:1)
sacerdotes para extorquir o povo (Os 4:4-19).
O texto não trata de uma prostituta, mas de uma
realidade de prostituição. “mulher de prostituições e filhos de
prostituições”, porque prostituiu-se a nação. Assim, Gomer não Espírito de Prostituição 4:12
era prostituta no sentido de promisquidade, mas estava Oséias denuncia a falsidade dos
envolvida em prostituições dentro de uma estrutura familiar sacerdotes 4:4-8; 10b.
patriarcal (foi tomada da casa de seu pai). O capítulo 4 afirma A misericórdia é a superação
de uma condição social de prostituição (filhas e noras), dos sacrifícios (6:6)
indicando que outras pessoas também viviam a experiência de
Oséias e Gomer. Restauração (2:21)
Nessa sociedade os reis precisavam de trabalho
escravo e de força apara o exército. Assim, aliados à religião
usaram o culto cananita da fertilidade (Baal) para fortalecer o
império. O povo pobre e oprimido, sem renda, via-se obrigado
a participar desses cultos para sobrevivência (Os 2:7).
Outra prova é que os nomes dos filhos carregam as
maldições, não contra a prostituição, mas contra a monarquia
(Jezrel, Lo ruama, Lo ami). A crítica dirige-se à Monarquia e ao
Estado e não à família (eles eram vitimas - Os 13 e 2:4-7). Os
elementos da prostituição não são luxuosos, mas de
subsistência. Era o sustento para sua família.
É nesse sentido que o termo meu Baal é lido. Meu
Senhor dizia do poder que o marido exercia sobre o corpo da
mulher que tinha de se prostituir para ajudar nas despesas da
família.
No capítulo 3 está o movimento de resistência. Oséias
e Gomer são um casal profético que na sua experiência
entenderam o agir e o amor de Deus (2:18-3:5).
Os verdadeiros autores da prostituição são os reis e
sacerdotes. O povo não será condenado (4:10-14; 9:11-14
).
Releitura Religiosa de Oséias
Pf. Eduardo Sales

Oséias profetiza a um povo cujos líderes são religiosos


e devotos de Javé. Sua religiosidade é notada por Amós (4:4-
5) assim como sua superficialidade (Am 5:21-24). Oséias, seu 36
Aliança era o pacto realizado Página |
contemporâneo também usa palavras semelhantes (Os 8:1-3) pelos líderes do povo
ao mesmo grupo, os líderes (transgrediram a aliança).

Em Os 4, o tema do conhecimento de Deus é


marcante. O próprio sacerdote recusou esse conhecimento. O
profeta faz um trocadilho sobre o conhecimento religioso que
era apenas teórico e insuficiente enquanto deveria ser pessoal
e vivencial (Os 5:15-6:6). A inversão do conhecimento é o
maior prejuízo do povo (Líderes) que abandonou o
relacionamento íntimo com Deus e passou a um
relacionamento ritual.

Nessa perspectiva Oséias é muito relevante, pois


retoma a crítica de Amós ao culto religioso. A reprovação
estende-se ao sacrifício que nessa época era praticado
principalmente pelas elites como formas de manipulação das
divindades. Assim, os locais de culto e as formas são
condenadas e confrontadas “Misericórdia quero e não
sacrifícios” é o principal grito de Oséias.

Sua teologia anti-ritualista marcou presença até o Novo


Testamento e é retomada pelos evangelistas (Mc 7). O sentido
é o mesmo. Os líderes judeus preocupados com as práticas
exteriores esqueceram-se do mais importante, a justiça e o
amor (Mt 23:23).
MIQUÉIAS
A Profecia em Tempos Difíceis
Atuou entre 725 a 701, durante o reinado de Ezequias.
Era de Morasti, aldeia agrícola, planície fértil do Sefelá, perto 37
de Gat a uns 33km de Jerusalém (1:1,14). Era camponês, Página |
provavelmente ancião e representava o povo da terra. Era
vocacionado por Javé em oposição aos profetas palacianos
(3:5-11). Presenciou a Queda de Samaria em 722 (Mq 1:2-7),
como também se vê em sua narrativa (1:8-16) e também uma
possível referência ao cerco de Jerusalém (Mq 4:9.14), ou à
queda de Jerusalém em 586 a.C. Foi um profeta do
campesianato (1:6;2:1-5; 3:12; 4:3-4) e, conforme Jr 26:18-20,
vemos que suas ameaças (Mq 3:12), influenciaram a reforma
de Ezequias entre 715-701. (2Rs 18:3-6; 2Cr 29:8-11).

Denunciou os centros de Poder


Econômico:Latifundiários (2:1-5) e comerciantes (6:10-12)
Político: Capital (1:5s; 3:12) e governantes (3:1-4,9-10),Contra
a Cidade construída com Sangue (2:12-13; Hc 2:11,12)
Judiciário: Juízes (3:9,11; 7:3).
Militar: Instrumentos de Guerra (4:3;5:9) fortalezas (1:13; 5:10)
Religioso: Profetas palacianos (3:5, 7-11), sacerdotes (3:11),
idolatria (5:12); templo (3:12) e culto (6:6-8). Usa vocabulário
sacrificial para falar da destruição do povo (3:1-4) Critica a
prática sacrificial (6) - Sacrifício não cobre pecado!

Estrutura da Obra:
A divisão do livro é feita alternando denuncias e
ameaças com promessas e salvação:
1-3: denuncias e ameaças
4-5: promessas de salvação
6:1-7,7: denuncias e ameaças
7-8:20: promessas de salvação

Tensão quanto à autoria: O conteúdo de Hesed


A compreensão do texto de Miquéias depende da
resuloção dessa tensão centrada no termo Hesed
(Misericórdia, amor).
1) Juízo (Mq 3:12) - Pré-exílico
Hesed: Amor que resite - Mq 6:8
2) Perdão (Mq 7:19) - Pós-exílico (redatores)
Hesed: Amor que perdoa - Mq 7:18,20
Miqueias é entendido em Duas partes: A primeira fala
da resistência, e a segunda parte acena para a possível
restauração e perdão. (6:8) é a resistência e busca por justiça,
em (7:18-20), uma reedição Jerusalemita, é bem diferente, é a
possibilidade do perdão e da restauração. Desloca-se o
castigo para o passado e o perdão para o futuro.
Segundo Gallazzi, o redator do panfleto complemento
de Miqueias é um grupo de resistência judaita no período pós-
exilico contra os judeus jerusalemitas que retornaram para a
capital com apoio da pérsia.
MIQUÉIAS: A DENÚNCIA DA INJUSTIÇA
Pf. Eduardo Sales
Apontamentos Exegéticos
Mic 2:1 Ai daqueles que, nas suas camas, intentam a
iniqüidade e maquinam o mal; à luz da alva o praticam, 38
porque está no poder da sua mão! Mic 2:2 E cobiçam Página |
campos, e os arrebatam, e casas, e as tomam; assim fazem
violência a um homem e à sua casa, a uma pessoa e à sua
herança.
O Profeta apresenta seus oponentes como aqueles que detém
o poder em suas mãos, que cobiçam campos e casas e os
tomam pela violência. A terra era a forma de subsistência, sem
a terra o povo tornava-se escravo.
Mic 2:5 Portanto, não terás tu na congregação do SENHOR
quem lance o cordel pela sorte. Mic 2:6 Não profetizeis; os
que profetizam, não profetizem deste modo, que se não
apartará a vergonha. Mic 2:7 Ó vós que sois chamados a
casa de Jacó, tem-se restringido o Espírito do SENHOR?
São estas as suas obras? E não é assim que fazem bem as
minhas palavras ao que anda retamente?
Nesse texto Miquéias representa os profetas palacianos e sua
crítica, pedindo que não profetize contra Jerusalém,
escondendo-se sob a teologia da retribuição.
Mic 2:8 Mas há pouco se levantou o meu povo como um
inimigo; de sobre a vestidura tirastes a capa daqueles que
passavam seguros, como homens que voltavam da guerra.
Mic 2:9 Lançastes fora as mulheres do meu povo, da casa
das suas delícias; dos seus meninos tirastes o meu louvor
para sempre.
A destruição dos fracos é causada pelo “meu povo”, não é um
inimigo externo, mas dentre o próprio povo (Elite).
Mic 2:12 Certamente te ajuntarei todo inteiro, ó Jacó;
certamente congregarei o restante de Israel [...]
O restante de Israel são os que sobreviverem ao exílio,
serão juntados e restaurados pelo verdadeiro rei, o Senhor.
Mic 3:1 Então eu disse: "Ouçam, vocês que são chefes de
Jacó, governantes da nação de Israel. Vocês deveriam
conhecer a justiça! Mic 3:2 Mas odeiam o bem e amam o
mal; arrancam a pele do meu povo e a carne dos seus ossos.
Mic 3:3 Aqueles que comem a carne do meu povo, arrancam
a sua pele, despedaçam os seus ossos e cortam-no como se
fosse carne para a panela, Mic 3:4 um dia clamarão ao
Senhor, mas ele não lhes responderá.
Os chefes de Jacó, (Elite) cujo maior pecado não é idolatria,
mas injustiça. Arrancam a carne do meu povo é referência ao
sacerdote e à opressão dos reis. A expressão naquele dia é
escatológica e se cumpriu primeiramente no exílio.
Mic 3:5 Assim diz o Senhor aos profetas que fazem o meu
povo desviar-se; quando lhes dão o que mastigar, proclamam
paz, mas proclamam guerra santa contra quem não lhes
enche a boca: Mic 3:6 Por tudo isso a noite virá sobre vocês,
noite sem visões; haverá trevas, sem adivinhações.
Os profetas palacianos, que profetizavam por dinheiro e
destruíam o povo com suas profecias.
Isaias 1-39
ISAIAS: Primeiro Livro 1-12 Da ruptura à aliança no
Pf. Eduardo Sales novo êxodo.
13-23 Contra as nações
O Santo de Israel. 33 vezes. (Primeiro Isaias 1-39) 24-27 Juízo sobre o Mundo
Textos principais: 1:4; 5:24; 31:1 (Séc. 8 a.C.) 28-35 Juízo e libertação
Consolo 10x (Segundo Isaias 40-55) 36-39 Reinado de Ezequias
39
Textos principais: Salvação 23x, Libertação 37:23;
Página |
43:12;45:8,17; 46:13;49:6,8;etc.. (Exílio)
Luz para as Nações (Terceiro Isaias)
Textos Principais: 40:1; 43:3,14; 49:7; 53:3; 60:17 (Pós-exílio)
Questões culturais
A Questão Literária em Isaias Alianças com outros reinos
Uma das questões mais debatidas foi a extensão do Idolatria
livro de Isaias. O fundamentalismo, pretendendo defender Cultura Babilônica.
única autoria, propõe que o profeta previu e escreveu profecias O Mito Zaratrusta
para o período de 200 anos. Em outra posição temos a maioria Ahuramazda e Arimã
dos exegetas que afirmam haver três estilos literários bem O Abismo
distintos no livro de Isaias.Contextos de escrita diferentes e O Filho do Homem.
Satanás.
perspectivas proféticas em três momentos diferentes. Assim,
as profecias de Isaias foram compiladas e ampliadas por seus
discípulos, prática comum em tempos difíceis (também em
Oséias, Jeremias, Miquéias, e outros). Colocavam o nome dos
profetas para não serem perseguidos.
Contexto histórico
A Assíria estava se tornando o maior império durante o Questões Teológicas
O Servo Sofredor 22x –
séc VIII a.C. Em 852 foi momentaneamente detida por Acabe
Totalmente no segundo
de Israel, mas em 842 já possuíam o controle da maior parte Isaias. Está intimamente
dos estados palestinos, inclusive Israel, impondo duros ligada com a teologia do
impostos. Em 738 e 732 conquistou a maior parte da Síria e da remanescente de Israel.
palestina quando Damasco e Israel uniram-se contra Judá, Is Messianismo Is 53.
7-8; 2Rs 16; 2Cr 28:16-27. Em 727 Salmanasar V sucedeu o O Dia do Senhor, 48x
Rei da Assíria, quando de uma rebelião do reino do norte, (Para Juízo) 99% no
invadiu-os, destruiu Samaria e deportou o povo para Assíria primeiro Isaias, apenas
2Rs 17:18. Seu sucessor foi Sargon II, que morreu em 705, uma ocorrência no terceiro.
aproveitando a oportunidade Ezequias de Judá tentou escapar Santo, Santo, Santo 48x.
Largamente usado nos três
ao julgo Assírio, mas fracassou 2Rs 18-19; Is 36-38; 2Cr 32.
Isaias.
Foi nessa época, durante o auge da Assíria que Isaias Espírito Santo
profetizou (740-701). 10:27;11:2;32:15;40:7, 13;
Diferente de Amós e Miquéias, Isaias era assessor da 42:1; 44:3; 59:19 e 21; 61:1
corte (7:3-9; 2Rs 19-20), e como Oséias, atuou com sua e 63:10.
esposa (8:3 e seus discípulos 8:16). Sua mensagem a favor do Teologia do Conforto
povo foi o motivo de sua perseguição. 40:1; 51:3,12; 66:13;
Sua função no templo (6:1) revela o motivo porque não 61:2,3,12; 63:9; 43:1-2;
anunciou a destruição deste, diferente dos profetas Amos (9:1- 50:10.
4), Miqueias (3:12), e 100 anos depois, Jeremias (7:1-15). O Remanescente de Israel
1:25-27; 2:2,3;6:13;11:11;
18:7;27:12,13;etc...
Releitura do Templo: Entretanto para Isaias o Templo deveria
ser sem exploração (1:10-15); um local de promoção do direito
(1:16-17); local da lei e de oração (2:2-3); um refúgio para os Ao Povo 1-12; 28-33
fracos (14:32); numa cidade de justiça e fidelidade (1:26-27), Denuncia do culto 1
não deveria ser apenas um local de oferecer sacrifícios. Emanuel 7
Releitura de Sião: de cidade infiel para cidade justa (1:21,26) Messianismo 9:1-6; 11:1-9
Deus Salva 12
Releitura do Davidismo: Esperava um messias libertador
como os Juízes e como o Davi antes de assumir o trono. Era
um líder segundo o Espírito de Javé.
Amostra de Exegese
Isa 1:2Ouvi, ó céus, e presta ouvidos, tu, ó terra, porque fala o
SENHOR: Criei filhos e exaltei-os,
mas eles prevaricaram contra mim.
Isa 1:3O boi conhece o seu possuidor,
e o jumento, a manjedoura do seu dono, 40
mas Israel não tem conhecimento, Página |
o meu povo não entende.
Isaias prova ser exímio poeta, e por seus paralelismos usa os
termos céu e terra para referir-se a toda criação, chamando-os
para testemunhar contra seus filhos, os exaltados que se
viraram contra pai. Também usa o boi e o jumento, para
mostrar a vergonha de Judá, pois até os animais dos mais
difíceis e teimosos conhecem o seu dono.
Isa 1:8 E a filha de Sião se ficou como a cabana na vinha, como a
choupana no pepinal, como cidade sitiada. Isa 1:9 Se o
SENHOR dos Exércitos nos não deixara algum remanescente,
já como Sodoma seríamos e semelhantes a Gomorra.
Isa 1:10 Ouvi a palavra do SENHOR, vós príncipes de Sodoma;
prestai ouvidos à lei de nosso Deus, vós, ó povo de Gomorra. Isa
1:11De que me serve a mim a multidão de vossos sacrifícios,
Releitura das práticas
diz o SENHOR? Já estou farto dos holocaustos de carneiros religiosas
e da gordura de animais nédios; e não folgo com o sangue
de bezerros, nem de cordeiros, nem de bodes.Isa 1:12
Quando vindes para comparecerdes perante mim, quem
requereu isso de vossas mãos, que viésseis pisar os meus
átrios? Isa 1:13Não tragais mais ofertas debalde; o incenso é
para mim abominação, e também as Festas da Lua Nova, e os
sábados, e a convocação das congregações; não posso
suportar iniqüidade, nem mesmo o ajuntamento solene. Isa
1:14 As vossas Festas da Lua Nova, e as vossas solenidades,
as aborrece a minha alma; já me são pesadas; já estou
cansado de as sofrer. Isa 1:15 Pelo que, quando estendeis as
mãos, escondo de vós os olhos; sim, quando multiplicais as
vossas orações, não as ouço, porque as vossas mãos estão
cheias de sangue.
Isa 1:16Lavai-vos, purificai-vos, tirai a maldade de vossos atos de
diante dos meus olhos e cessai de fazer mal. Isa 1:17 Aprendei a Releitura do Perdão
fazer o bem; praticai o que é reto; ajudai o oprimido; fazei
justiça ao órfão; tratai da causa das viúvas.Isa 1:18 Vinde,
então, e argüi-me, diz o SENHOR; ainda que os vossos
pecados sejam como a escarlata, eles se tornarão brancos
como a neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim,
se tornarão como a branca lã.
Isa 1:19 Se quiserdes, e ouvirdes, comereis o bem desta terra. Isa
1:20 Mas, se recusardes e fordes rebeldes, sereis devorados à
espada, porque a boca do SENHOR o disse. Isa 1:23Os teus
príncipes são rebeldes e companheiros de ladrões; cada um
deles ama os subornos e corre após salários; não fazem
justiça ao órfão, e não chega perante eles a causa das
viúvas. Isa 1:25E voltarei contra ti a minha mão e purificarei
inteiramente as tuas escórias; e tirar-te-ei toda a impureza.
Isa 1:26E te restituirei os teus juízes, como eram dantes, e os
teus conselheiros, como antigamente; e, então, te chamarão
cidade de justiça, cidade fiel. Isa 1:28Mas os transgressores e
os pecadores serão juntamente destruídos; e os que
deixarem o SENHOR serão consumidos. Isa 1:31 E o forte se
tornará em estopa, e a sua obra, em faísca; e ambos
arderão juntamente, e não haverá quem apague.
ISAÍAS E A RELEITURA DO PERDÃO
Pf. Eduardo Sales

Dentre os diversos temas da fé cristã que precisam ser


relidos, um dos principais é o perdão. Em nossos dias, no meio
evangélico, é entendido como relacional e ritual. 41
Página |
Relacional: Acontece entre pessoas, como algo que se
pede e algo que se dá. Geralmente está vinculado a ofensas
verbais e físicas.
Ritual: Acontece entre a pessoa e Deus. Geralmente,
sentindo culpa por alguma ofensa produzida, a pessoa dirige
um oração a Deus, que pode ser acompanhada ou não de
sacrifício (catolicismo: penitência; no evangelicalismo: ofertas,
rituais como a ceia do Senhor, como as formas e conteúdos da
oração). Em muitos casos não há perdão relacional, nem
pessoal, nem mudança interior.
É nesse ponto que vamos entender o profeta Isaias:

Isa 1:17 Aprendei a fazer o bem; atendei à justiça,


repreendei ao opressor; defendei o direito do
órfão, pleiteai a causa das viúvas.
Isa 1:18 Vinde, pois, e arrazoemos, diz o
SENHOR; ainda que os vossos pecados sejam
como a escarlata, eles se tornarão brancos como
a neve; ainda que sejam vermelhos como o
carmesim, se tornarão como a lã.

Os fiéis dos dias de Isaias, principalmente a elite,


entendiam o perdão apenas como ritual. Conviviam e
praticavam diversas injustiças, depois compareciam ao templo,
ofereciam animais cevados, as melhores ofertas dos melhores
tipos, pois acreditavam que dessa maneira estariam
perdoados. Muito semelhante às formas de entender o perdão
em nossos dias. Essa compreensão superficial do perdão foi
popularizada pela utilização mecânica de textos que falam de
perdão sem entender seu contexto. O hino da Ceia, em que os
cristãos afirmam-se “alvos mais que a neve”, foi extraído do
contexto original de Isaias e transformado em ritual, como será
que Isaias vê isso?
Para esse profeta, assim como Oséias, o perdão não
acontece por prática mágica. O ritual que perdoa é prática
pagã de manipulação da divindade. Na palavra dos profetas,
não há perdão sem mudança de Vida. Essa é também a
principal mensagem do novo testamento: “em Cristo somos
nova criação”, tudo se fez novo! É dessa forma que Jesus
também ensina o perdão: “perdoa as nossas ofensas assim
como temos perdoado a quem nos tem ofendido” (Mt 5);
“perdoai e sereis perdoados” (Lc 6:37); “perdoados lhes são os
muitos pecados, porque ele muito amou” (Lc 7:47); se disser
“estou arrependido, perdoa-lhe” (Lc 17:4).
Esse é o verdadeiro desafio, entender o perdão como
relacional e não como ritual. Deus não é manipulável, apenas
na mudança de vida há o perdão.
ISAÍAS O LIVRO DO EMANUEL
Pf. Eduardo Sales

Os contextos do primeiro livro de Isaias relatam a


situação de endurecimento do povo (Is 6:8-10), destruição das
cidades, das casas, desolação e deportação (6:11-13) esse 42
Página |
anúncio reaparece nos textos seguintes (7:15-25; 8:1-23; 9:7-
20; 10:28-34). Essas denúncias situam Isaias no mesmo
contexto dos profetas do século VIII a.C.
Entretanto, em sua mensagem abre-se uma janela de
esperança, é a mensagem do Emanuel (11:1-9; 9:1-6, e
segundo Shokel, A. de 7-12). Esses textos pregam o
renascimento sem perder o tom de destruição. Duas são as
principais metáforas: O “broto” (6:8-13; 11:1) e o “resto” (10:16-
23).

Emanuel
A muito tempo esses textos foram cristianizados, o que
fez com que perdessem seu sentido original. Nos textos sobre
o renovo do Senhor (Is 4:2s); do filho concebido pela virgem (Is
7:14-16); o maravilhoso conselheiro e Deus forte (Is 9:6s) e o
rebento do tronco de Jessé (Is 11), houve uma tendência de
cristianização da interpretação.
Sem dúvida que podemos fazer releituras desses textos
centralizando a pessoa de Jesus, mas com isso perdemos o
verdadeiro sentido da mensagem que o profeta queria
transmitir, o juízo de Deus, livramento e restauração do povo.
Isaias 4:2s: Nesse texto o autor toma a teologia do
renovo do Senhor, uma referência ao Israel remanescente,
àqueles que não forem jugados pelo Senhor, aqueles que
ficarem em Sião. É a teologia da restauração da justiça de
Deus por meio do exílio, e o renovo do Senhor é o novo reino
de acordo com sua vontade e direção.
Isaias 7:14-17: Esse texto trata da esperança de um
herdeiro renovado. Provavelmente refere-se a o rei Ezequias,
e um detalhe, o original hebraico não traz o termo virgem, mas
jovem, que ainda não teve concepção, o contexto também
aponta para realeza (Manteiga e Mel), muito distante da
realidade de Jesus.
Isaias 9:6ss: Hino de entronização ao Deus Sol
proclamado no Egito e aplicado ao rei como filho do Sol.
Isaias 11: O Renovo de Jessé são os remanescentes
do Exílio.
O que nós temos é releituras dos evangelistas em que
identificam as profecias bíblicas sendo cumpridas em Jesus.
Ele e não o rei é aquele que fez Justiça; Ele e não o rei é que
trouxe esperança para os fracos e oprimidos; Ele e não o rei,
que é o verdadeiro Deus Forte; é o Renovo de Jessé, não um
rei político, mas Jesus, aquele que representou: Deus é
conosco! (Mt 1:23; 4:13ss).
QUEDA DE SAMARIA E
AS TRADIÇÕES DO DEUTERONOMIO
Pf. Eduardo

Após a destruição do reino do norte em 722 a.C., 43


muitos israelitas fugiram para o reino do sul (Judá), levando Página |
consigo suas tradições. Umas das principais é a releitura da
lei, o Deuteronômio (12-26). Próximo a queda de Samaria é
provável que um grupo de resistência tenha elaborado uma
releitura da lei a partir da crítica dos profetas, entretanto essa
releitura não foi suficiente para deter a invasão. Essa releitura
das tradições foi levada para o norte e incorporada aos ideais
do reino a partir de Ezequias, com êxito no reino de Josias.

O Deuteronômio é formado em parte da tradição do


norte: releitura da realeza, do direito de irmão e um retorno à
lei; assim como das tradições do sul: um culto centralizado, o
templo e religião promovidos pelo rei como único local
sagrado.

Nesse mesmo período também está a narrativa de


Josué 1-11 (tomada da terra e unificação do povo). Objetivo
era re-organizar a nação após a queda da Samaria. O livro de
Reis (17:7-23) inicia o movimento deuteonomista de
justificação da queda pelos judaítas (7-18).

Para os deuteronomistas o principal motivo da queda


foi o governo ímpio de Manassés, filho de Ezequias (2Rs 24:1-
4) Foi nessa época que as divindades astrais assírias e
babilônicas adentraram a cultura de Judá (2Rs 23:1-5 par. Jr
7:16-20; 44:15-25; Sf 1:5). Amon filho de Manassés seguiu
pelo mesmo caminho, mas o “povo da terra” reagiu
proclamando seu filho Josias como rei (2Rs 21:19-26).

Os reis Ezequias e Josias foram avaliados


positivamente no livro de Reis devido a sua postura Javista e
anti-idolatra. A intenção desses livros é centralizar a fé apenas
em Javé. O reconhecimento de Javé como único Deus não
aconteceu de uma vez, mas foi um processo que se deu no
conflito com as outras divindades. O monoteísmo completou-
se apenas no exílio sob as narrativas do segundo Isaias 40-55.
Sofonias: Contexto e Mensagem
Pf. Eduardo Sales
Palavra chave: Zeloso, e Dia do Senhor 7x -
Mensagem : “Eu sou o Senhor teu Deus, sou Deus Zeloso”.
44
Página |
Novos Tempos: Procurai Javé e talvez sejais protegidos (2:3)
Provavelmente era filho de estrangeiro, seu pai era
Cuzi (significa Etíope, Negro). Provavelmente era descendente
de africanos. Sua longa genealogia indica que mesmo sendo
estrangeiro era fiel a Javé. Profetizou por volta de 640-623
a.C., sob o reinado de Josias. É provavel que tenha conhecido
Jeremias. Enquanto Sofonias pregava no campo, Jeremias
profetizava na cidade.
Denunciou a injustiça e as formas de idolatria. Foi um
incentivador da reforma e provavelmente percebeu a reforma
de Josias como superficial e interesseira. Denuncia:
Corrupção religiosa 1:4-6
Corrupção política 1:7-9
Corrupção economica 1:10-13
Dominação dos estrangeiros 2:4-15
Corrupção da capital 3:1-4

Contexto Histórico: Profetizou na época após a terrível época


de Manasses e Amon. Durante a Juventude de Josias,
Jeremias ainda não foi chamado, então Sofonias assume o
comando.
Judá: Está em Silêncio. Submetido aos Assírios. Sob aliança
feita por Acaz. Judá precisa de uma reforma religiosa, pois foi
contaminado com outras religiões, a reforma de Josias, a
maior de Judá, foi incentivada por Sofonias. Sf 1:4-5. (2Rs 22 –
Morte de Sf?)
Contexto Sócio-culural: Reestruturação Social de Israel,
enfraquecimento da Assíria.
Injustiça das Autoridades: Umbral = Templo – 1Sm 5:4-5; Ez
9:3;10:4.18;46:2.
Sacerdote: Alto cargo do País – 3:4; 1:8-12
Pecados Sociais: O Dia do Senhor: 2:1-3.
(Dia da Babilôna) – Perfeito Profético.
O Resto Santo: 3.
MENSAGEM:O dia de Javé. Contra as falsas esperanças (1-
2). Deus castigará Jerusalém e diversas nações; haverá,
depois restauração e bênção.
1. Os Juízos Vindouros (capítulo 1-2 – 3.8)
 O Juízo será universal (1.2-3).
 Começará por Judá e Jerusalém (1.4-18).
 Chamada ao arrependimento (2.1-3).
 Juízo cairá sobre filisteus (2.4-7); moabitas e
amonitas (2.8-11), etíopes (2.12), assírios (2.13-14)
e caldeus (2.15).
 Contra a Cidade (1;16; 3:14-17;19-20)
2. A Restauração 2,3;3.9-20
Salvará os pobres (2,3; 3:11-14)
As nações glorificarão ao Senhor (9-10)
O Senhor reinará no meio de Israel (11-20)
A REFORMA DE JOSIAS
(OHD – Obra historiográfica Deuteronomista)
Pf. Eduardo Sales

Com a decadência da Assíria o reino de Judá vive 45


um momento de esperança. O reino de Josias (640-609 Página |
a.C.) foi um golpe militar aplicado pelos donos da terra
em resposta à ameaça que iniciou com a deposição de
Atalia (2Rs 11- Joás é o menino de Isaias?) e, na
sequência, com a ocupação do trono por uma criança de
8 anos (2Rs 22:1-2) sob a tutela do povo da terra.
Foi um período de reforma e afronta política que
culminaram na morte de Josias em 609 a.C. Reformou a
política territorial (2Rs 23:15-20), o culto e a religião (2Rs
23-24); a posição da cidade de Jerusalém no cenário
político. Embora sua reforma tenha princípios religiosos
contra a idolatria, favoreceu apenas a nobreza e por isso
Josias e sua “Reforma” foram criticados por Jeremias (Jr
22:15-16; 3:10; 8:8; 18:18).
No fim, a reforma de Josias favoreceu a nobreza e
oprimiu ainda mais o povo campesino. Os santuários
locais foram destruídos e o povo teve de se locomover e
pagar para estar no Templo de Salomão, foi a imposição
do culto oficial sobre as formas populares. Isso acarretou
em aumento das despesas com peregrinações (Ex 23:15;
Lv 17:3-5) e talvez a cobrança de entrada para o Templo
(2Rs 12:9; 22:4; 2Cr 34:9).
A centralização política e religiosa perseguiu a
religião popular e matou os sacerdotes e profetas do povo
(2Rs 23). A páscoa deixou de ser um memorial de
libertação e união das tribos e passou a servir aos
interesses ideológicos da monarquia (2Rs 23:21ss).
Transferência dos Levitas para Jerusalém e redução de
seu cargo (2Rs 23:8-9; Dt 18:6-8).

Teologia da Reforma
Os teólogos desenvolveram vários discursos para
legitimar sua reforma:
1) O Livro da Lei (2Rs 22:8; 23:2 – Dt 12-26)
Constituição da Monarquia sob Josias; Lei de Estado.
2) Leis de Centralização do Culto (Dt 12:13-19,26-27;
18: 6-8) para justificar a destruição dos santuários.
3) Leis de Guerra para legitimar invasões (Dt 23:10s).
4) Adoção divina do Rei como filho de Javé sobre as
tribos para legitimar autoridade e a cobrança de
tributos (2Sm7:14;1Sm 8:11s).
5) Elaboração da História de Josué até Josias (2Rs23)
produzida pelos escribas da corte (Dt;Js;Jz;Sm;Rs).
JEREMIAS
Pf. Eduardo Sales Reder-se a Babilonia Jer
27:8ss
Mensagem: A certeza do Juízo de Deus em face do pecado,
todavia a benignidade, e o caráter do amor de Deus.
Quem foi Jeremias: Profetizou entre 627 (1:2) e 585 a.C. 46
Página |
(44:30). Era levita da tribo de Benjamim, de família sacerdotal
(1:1). Mesmo sendo do norte deu muito valor às tradições Plano de Leitura:
antigas (7:14; 26:6; 31:15-16; J4 2:1-7; 7:22,25; 16:14; 23:7),e
ao mesmo tempo, desprezou as tradições típicas de Judá. Chamada e Comissão:
Contexto Histórico-Cultural: Considerado o principal profeta Introdução e Chamada 1-8
do V.T. Frase de Jeremias: Madrugando e Falando, aparece Unção e Encorajamento 9-19
onze vezes. O livro é uma coletânea, com diversas
Em Judá, antes da Queda
dificuldades históricas, pois não está em ordem cronológica.
de Jerusalém
Sua vocação aconteceu no reinado de Josias (1:2;25:3) 51 profecias entre - 2-38
Profetizou até 580 a.C. (exílio em 586). Conta a lenda judaica
que foi apedrejado por seus compatriotas no Egito. Queda de Jerusalém
Não queria ser profeta (1:4-8) Ninguém lhe ouvia (5:10- Detalhes - 39.
13; 6:10;7:21-27), seus próprios parentes tentaram assassiná-
lo (11:18-19; 12:5-6; 18:18). Questionou Deus pelas Remanescentes após o
contradições (15:10-18), foi agredido e aprisionado (20:1-2; cativeiro
32:1-3;37:11-16;38:1-12). O povo, revoltado com sua História e Profecia - 40-42
pregação, quer matá-lo (26:7-9); amaldiçoa o dia em que
No Egito
nasceu (20:15-18), mas, ainda assim, acredita que Deus está
Aos Judeus - 43-45
com ele (1:10,18; 16:19; 20:11-13). Acredita que dias melhores Às nações gentias - 46-51
virão (30:33).
Considerado um dos maiores profetas de Israel, sua Cativeiro de Judá
vida é identificada com a de Jesus (Mt 16:14). Retrospecto – 52

Questões Teológicas:
O Resto. 25 x 8:3;11:23; 23:3;24:8; 25:20;29:1; 31:7;
34:7;39:9; 40:10-16; 42:2.15.19; 43:5; 44:7.12.28;
Religião em Espírito e Verdade: Religião verdadeira x Religião
falsa: 3:16; 7:1-15; 29:10-14; 31:19ss
Nova Aliança: 30:18-24; 31:31-34; 32:40.

Denúncias de Jeremias
Reis e Rainhas (10:21;22:13-19)
Casa Real e daviditas (21:11-12; 22:1-5)
O Templo (1:1-15,29-34; 11:15; 26:1-6)
Culto (6:20; 7:16-20; 14:12)
Sacerdotes (2:8,26; 5:31; 6:13; 8:10-11; 14:13-16)
Profetas palacianos (2:8,26-27; 5:31;6:13;8:10-11;14:13s)
Escribas (8:8-9)
Ricos gananciosos (5:25-28; 17:11)
Comerciantes (5:27)
Juízes (5:28) Sacrifício de crianças (7:31; 19:4; 22:3)
Ladrões e assassinos (2:34; 7:9)
Donos de escravos (34:8-22
Povo da terra (1:18-19; 37:2)
A lei da Aliança (2:8; 6:19;
Desprezo pelos órfãos (7:6;22:3)
Jerusalém (6:6-7; 26:6,16-19).
RELEITURA DA RELIGIÃO OFICIAL
JEREMIAS
Pf.Eduardo Sales

Como temos estudado, uma das principais ênfases dos 47


dias de Jeremias foi a reforma religiosa de Ezequias e Josias. Página |
Iniciou como uma religião do povo, pela aproximação e
identificação de Javé como o Deus libertador dos escravos. É
sob Javé que as tribos firmaram sua aliança de proteção e
direito do Outro. Nesse período a religião do povo se
aproximou aos cultos palestinos, o Javé libertador foi
comunicado aos oprimidos da Palestina (Período dos Juízes)
da opressão dos reinos vassalos do Egito. Entretanto essas
aproximações possibilitaram a comunicação de elementos
opressores das outras religiões.
Nos reinos vizinhos a religião funcionava em parceria
com a monarquia legitimando a opressão sobre o povo. Um
dos maiores males dessa política foi a compreensão mágica
da religião. Essa compreensão é caracterizada pela
apresentação de sacrifícios e trocas equivalentes. A troca
equivalente tornava a religião em ritual mágico que manipulava
a divindade ao bel prazer. A partir dessa manipulação surge a
aliança por eleição, onde a divindade se torna protetora de um
grupo especial em razão de algum tipo de troca equivalente.
Quando as tribos foram substituídas pela monarquia a religião
oficial assumiu padrões das religiões vizinhas aceitando a
legitimação da monarquia, a troca equivalente e a eleição.
Os profetas do séc. VIII confrontaram essa postura
religiosa. Amós (5) denuncia a religião mágica e bonita, mas
que oprime o fraco; Oséias (6:6) contestou a troca equivalente,
afirmou que Deus deseja o amor e a misericórdia ao invés do
sacrifício e holocausto; Isaias (1:11ss) reprova a religião
mágica como forma de obter o perdão de Deus. Em
continuação a esses profetas, Jeremias apresenta uma das
principais críticas à religião mágica.
1) Jeremias era Sacerdote, de família sacerdotal.
2) Segue a Teologia do Deserto:Jr 2:1-3: Jer 2:2 Vai e clama
aos ouvidos de Jerusalém: Assim diz o SENHOR: Lembro-me de
ti, da tua afeição quando eras jovem, e do teu amor quando
noiva, e de como me seguias no deserto, numa terra em que se
não semeia. Jer 2:3 Então, Israel era consagrado ao SENHOR e
era as primícias da sua colheita; todos os que o devoraram se
faziam culpados; o mal vinha sobre eles, diz o SENHOR.
3) Confronta a religião mágica da Circuncisão:Jer 4:4
Circuncidai-vos para o SENHOR, circuncidai o vosso coração, ó
homens de Judá e moradores de Jerusalém, para que o meu
furor não saia como fogo e arda, e não haja quem o apague, por
causa da malícia das vossas obras. O Templo também possuía
4) Confronta o Templo como sede da Religião mágica:Jer um valor teológico ligado
7:2 Põe-te à porta da Casa do SENHOR, e proclama ali esta
palavra, e dize: Ouvi a palavra do SENHOR, todos de Judá, vós,
a arca, de onde deduziam
os que entrais por estas portas, para adorardes ao SENHOR.Jer a presença de Deus e a
7:4 Não confieis em palavras falsas, dizendo: Templo do proteção e invencibilidade
SENHOR, templo do SENHOR, templo do SENHOR é este.
RELEITURA DA RELIGIÃO OFICIAL
JEREMIAS
Pf.Eduardo Sales

5) Confronta e denuncia a ideologia de proteção centrada 48


na religião:Jer 7:5 Mas, se deveras emendardes os vossos Página |
caminhos e as vossas obras, se deveras praticardes a justiça, cada
um com o seu próximo;Jer 7:6 se não oprimirdes o estrangeiro, e
o órfão, e a viúva, nem derramardes sangue inocente neste lugar,
nem andardes após outros deuses para vosso próprio mal, Jer 7:7
eu vos farei habitar neste lugar, na terra que dei a vossos pais,
desde os tempos antigos e para sempre.
6) Acusa os profetas do palácio e suas profecias de
falsidade, isso porque pretendiam manipular Deus.Jer
7:8 Eis que vós confiais em palavras falsas, que para nada vos
aproveitam.
7) Denuncia a falsa doutrina da Salvação, centrada na
magia e no ritual:Jer 7:9 Que é isso? Furtais e matais,
cometeis adultério e jurais falsamente, queimais incenso a Baal e
andais após outros deuses que não conheceis,Jer 7:10 e depois
vindes, e vos pondes diante de mim nesta casa que se chama
pelo meu nome, e dizeis: Estamos salvos; sim, só para
continuardes a praticar estas abominações!
8) Confronta o Templo como local de opressão:Jer 7:11 Será
esta casa que se chama pelo meu nome um covil de salteadores
aos vossos olhos? Eis que eu, eu mesmo, vi isto, diz o
SENHOR.Jer 7:12 Mas ide agora ao meu lugar que estava em
Siló, onde, no princípio, fiz habitar o meu nome, e vede o que lhe
fiz, por causa da maldade do meu povo de Israel.
9) Confronta as ideologias dos dominadores alinhados à
suas formas de religião.Jer 7:18 Os filhos apanham a lenha,
os pais acendem o fogo, e as mulheres amassam a farinha, para
se fazerem bolos à Rainha dos Céus; e oferecem libações a
outros deuses, para me provocarem à ira.
10) Confronta o Ritual e o Sacrifício como troca
equivalente. Jer 7:21 Assim diz o SENHOR dos Exércitos, o
Deus de Israel: Ajuntai os vossos holocaustos aos vossos
sacrifícios e comei carne.Jer 7:22 Porque nada falei a vossos
pais, no dia em que os tirei da terra do Egito, nem lhes ordenei
coisa alguma acerca de holocaustos ou sacrifícios.Jer 7:23 Mas
isto lhes ordenei, dizendo: Dai ouvidos à minha voz, e eu serei o
vosso Deus, e vós sereis o meu povo; andai em todo o caminho
que eu vos ordeno, para que vos vá bem.

No retorno do exílio, o terceiro livro de Isaias continuará


essa crítica. No capitulo 58, a religião mágica ainda é A Morte dos Profetas:
condenada, mas aos poucos a voz dos profetas vai ser Perseguição e assassinato
silenciada, a religião será exaltada na lei, alguns poucos textos
do período inter-bíblico referem-se a esse culto ritual e vazio,
mas apenas os escritos do segundo testamento retomaram
essa crítica em todo o seu vigor.
A RELEITURA DA LEI
Jeremias 8:8 e 18:18
Pf. Eduardo Sales

No período de Josias o Deuteronomista começou a 49


enfatizar a lei e seu aspecto salvifico e condenatório. Página |
Deu 28:1 Se atentamente ouvires a voz do SENHOR, teu Deus,
tendo cuidado de guardar todos os seus mandamentos que hoje
te ordeno, o SENHOR, teu Deus, te exaltará sobre todas as
nações da terra.
Deu 28:58 Se não tiveres cuidado de guardar todas as palavras
desta lei, escritas neste livro, para temeres este nome glorioso e
terrível, o SENHOR, teu Deus, Deu 28:59 então, o SENHOR fará
terríveis as tuas pragas[...]
Essa lei passou a ser vista como a vontade de Javé.
Entretanto, como na religião mágica, foi utilizada para legitimar
os ideais da Monarquia, e dos sacerdotes no pós-exílio.
Jeremias (8:8; 18:18) apontam para essa realidade:
Jer 8:8 Como, pois, dizeis: Somos sábios, e a lei do SENHOR
está conosco? Pois, com efeito, a falsa pena dos escribas a
converteu em mentira. Jer 8:9 Os sábios serão envergonhados,
aterrorizados e presos; eis que rejeitaram a palavra do SENHOR;
que sabedoria é essa que eles têm? Jer 8:10 Portanto, darei
suas mulheres a outros, e os seus campos, a novos possuidores;
porque, desde o menor deles até ao maior, cada um se dá à
ganância, e tanto o profeta como o sacerdote usam de
falsidade.Jer 8:11Curam superficialmente a ferida do meu
povo, dizendo: Paz, paz; quando não há paz.
A reforma foi superficial, reformaram a religião, o culto,
baniram a idolatria, mas continuavam confiando em suas
forças. Acabaram usando a reforma e a lei como manipulação
mágica, sem atentar para a vontade de Deus.
Jer 18:18 Então, disseram: Vinde, e forjemos projetos contra
Jeremias; porquanto não há de faltar a lei ao sacerdote, nem o
conselho ao sábio, nem a palavra ao profeta; vinde, firamo-lo
com a língua e não atendamos a nenhuma das suas palavras.
O conchavo religioso manipula a divindade: A lei do
Sacerdote; o conselho do Sábio e a palavra do Profeta. Ao ser
confrontados por Jeremias, perdiam sua legitimidade, por isso
intentaram planos para destruí-lo.
Esse texto denuncia claramente a oposição do palácio
e sua ideologia ao movimento profético. Os profetas foram
perseguidos e descreditados por esse conchavo ideológico.
O adultério da lei é retratado como a falsidade que
procura falar apenas o que as pessoas querem ouvir (Jr 5:31;
6:13; 7:4,8,9; 8:10; 9:6; )
Essa crítica à lei demonstra que existiam duas leis: a
Lei de Deus (direito de irmão) e a Lei da monarquia (que
procurava legitimar a bênção e a eleição de forma ritual e
mágica). O real sentido dos profetas e do segundo testamento
foi reler a lei abolindo as aproximações dominadoras e
expandindo a fé libertadora.

.
Avaliação – Profetas do Século VIII a.C. (pré-exílicos)
Nome:________________________________ /______/2011

1. Qual a principal característica do profetismo Bíblico?


a. Experiências extáticas
b. Atuar nos cultos
c. Justiça Social 50
Página |
d. Ter profunda experiência com Deus e com os homens
2. Qual a principal mensagem de Amós?
a. Conversão Espiritual
b. Zêlo Religioso
c. Justiça Social: O direito de Irmão
d. O Messias
3- Qual a principal mensagem de Oséias?
a. Prostituição do Povo
b. Prostituição das Mulheres pecadoras
c. Prostituição Espiritual
d. Prostituição Social e Espiritual
4- Qual a principal mensagem de Miquéias?
a. Roubo no campo
b. Contra os centros de Poder, inclusive a cidade
c. Contra os religiosos
d. Contra os reis
5- Qual as principais mensagens do primeiro livro de Isaias?
a. Superficialidade religiosa e a defesa da criança
b. Mensagem de Jesus nos textos do Emanuel
c. O perdão ritual
d. A ira de Deus contra as nações
6- Qual a principal mensagem de Sofonias?
a. Injustiça e idolatria
b. O dia de Javé contra as falsas esperanças
c. O Zelo do Senhor
d. A salvação do Senhor se estende aos estrangeiros
7- Explique, com suas palavras, como foi a reforma de Josias
(2Rs 23)
_______________________________________________
_______________________________________________

8. Quais as ênfases de Jeremias?


a. Falsidade dos profetas, dos rei, dos sacerdotes, de todo mundo.
b. Falsidade dos Sacerdotes, invasão da Assíria e pecado dos
profetas
c. A invasão da Babilônia, falsidade no culto e juízo da Assíria
d. Superficialidade do culto, ausência de Justiça e proximidade do
juízo de Deus.

9. O que os Profetas do Sec VIII tem em comum:


a. Justiça geral
b. Apelo Espiritual
c. Justiça Social e defesa do pobre
d. Denuncia contra o Rei, Sacerdote e os profetas

10. O que você aprendeu com os profetas do século VIII:


_____________________________________________________
_______________________________________________________
_______________________________________________________
__________________
DEUTERONÔMIO
Pf. Eduardo Sales

Tema: Tu és o meu Povo e eu sou o Teu Deus, o Deus da


Aliança.
51
Página |
Os Nove discursos de Moisés:
1. Retrospecto 1-4:43
2. Revisão 4:44 – 26
3. Aviso 27-28
4. Aliança 29-30
5. Conselhos 31:1-23
6. Instrução 31:24-29
7. Cântico 31:30-32
8. Benção 33
9. Moisés 34
Ouve Israel
Único Deus 6:4 (não terás outros 5:7;7:16) Estrutura geral do
Guarda-te dos ídolos 4:15-19; 6:2 Deuteronômio
Guarda-te dos santuários 12:13 1-4: exílico e pós-exílico
Benção e Amor 5-11: corte - Ezequias/Josías
12-26: Pré-Estatal/Monarquia
(Benção Abraâmica – Torna-se condicional)
27-28: corte Ezequias/Josías
Se.. 7:12;8:19;11:13;13:18;15:5;28:1,2;30:10,16,17; 29-34: exílico e pós-exílico
Guarda os mandamentos 6:2,17;7:11;8:6;10:13;11:8;
Guarda a lei 28:58
Guarda a aliança 4:23;7:9,12;8:18;29:9;
Amor
A Deus 6:5;11:1,13,22;13:3;19:9;30:6,20
De Deus 7:8,9,13;23:5;33:3,5
O estrangeiro 10:19

Tradições Teologia Oficial:


O Templo 31:11
Tradição Deuteronomista. Explicação da Lei Dt 12-26
A Terra 4:38;30:16
"Livro da Lei do Senhor" ou "Livro da Aliança" (2 Rs 22,8.11; Raça Eleita 4:37; 29:13
23,2.21). Temas: Palavra, profeta, aliança, Sinai-Horeb, Puro e Impuro 7:1-16
centralização do culto e do sacerdócio. Teol. Retribuição 7:9-11
Observância da Lei
Geografia, História e Religião 31;32:45-47
Alusões posteriores a 587 (reunião JE) Dt 4:25-31; 28:47s;
29:28
Relacionamento com Baal Dt 23:18 Dualismo:
Costume de Recitação pública (hititas) Dt 31:10-13 Teol. Oficial: 20:17
Aliança é prova de Amor 5:1; Amor gratuito 9:4-6; 10:12-20 Teol. Popular: 22:1-13
Extensão da Aliança 29:9-14
Liberdade de arbítrio Dt 30:11-14
Teol. Oficial e o Estrangeiro
Dt 23:2-9
Questões Teológicas Eliminar nações 12:2
Defende a centralização do culto, 43x ; Outros deuses e único Cuidado com nações 12:29s
Deus 35x; Aliança, 26x; Lei, 23x; Ouvir a voz do Senhor 50x; Dívidas 15:3
Amor 38x; Obediência – Guardar os mandamentos 58x ; Habito das nações 18:14
Responsabilidade da consciência individual 48x Eunuco 23:1
Compromisso pessoal, 7:12,17; 8:19; 11:13; 13:18; 15:5; Filho bastardo 23:2
28:1,2; 30:10,16,17
DEUTERONÔMIO:
A Sociedade sem Classes
Pf. Eduardo Sales

Basta uma simples leitura do deuteronômio para 52


compreendermos suas diferenças em relação ao Tetra-Teuco Página |
(Gênesis-Números). É o livro do antigo testamento que mais
fala do amor de Deus. Embora traga várias leituras vinculadas
à lei e a centralização do culto, também revela uma O Deuteronômio vai fazer
perspectiva inclusivista dos marginalizados. a opção pelos pobres
Seu contexto de pregação e escrita remonta à queda (14:21-15:18). Isso
do reino do norte em 722 a.C. A partir desse desastre é acontecerá no culto e na
provavel que o deuteronômio tenha nascido como uma vida.
tentativa de restaurar a fé do povo numa aliança além da Essa teologia
monarquia, na aliança Mosaica. Isso se deu principalmente promulgará a benção e a
devido à queda da monarquia e à tomada do Reino pela aliança em relação ao
Assíria. pobre (Dt 15:4-5)
Outro detalhe importante é que o Deuteronômio é O Deuteronômio é um
fortemente influenciado pela perspectiva social da profecia do projeto de sociedade
século VIII. igualitária, uma sociedade
Esse grupo conseguiu escapar do ataque da Assíria. onde não há pobres. O
Fugiram para o Sul e trouxeram consigo a restauração da Deuteronômio quer uma
Aliança. Mas quando chegaram encontraram Manassés, o sociedade sem classes.
mais “cruel” rei de Jerusalém, o que adiou uma possível
reforma até os dias do rei Josias. Todavia sua reforma não
prosperou, e seu filho Joaquim retornou a opressão do sistema
de classes (Jr 22:13-19).
Aqui temos uma das questões cruciais para
compreensão do Deuteronômio: o conflito de classes. Os
deuteronomistas do Norte procuravam implantar uma nova
aliança livre dessa opressão, enquanto que a monarquia do
Sul implantava e desenvolvia o próprio sistema de classes.
A nova aliança procura defender o direito de irmão.
Assim, o Deuteronômio é um livro que defende o
relacionamento fraterno, esse era o sentido da Eleição (Dt 7:6-
8; 14:2,21; 26:17-19; 27:9; 28:9). O Povo foi escolhido para ser
Familia de Javé deveria seguir o direito de irmão (Dt 3:18-20;
10:9; 15:2-12; 17:15,20; 18:2,7,15-19; 20:8; 22:1-4; 23:8,20-21;
24:7,14; 25:3-11)
A favor dessa interpretação voltada para o próximo
encontramos várias leis sobre a democratização do poder (Dt
16:18-18:22). No Deuteronomio encontramos até leis
delimitando a escolha e riqueza dos reis (17:14-20) e até
mesmo o relacionamento ético (17:20). Essa posição
pressupõe uma releitura da monarquia para um período em
que ainda exisistiam reis, a intensão era criticar a diferenciação
de classes criada pela monarquia, por isso não é um texto pós-
exílico, nem sacerdotal, muito embora tenha recebido alguns
retoques desse redator.
Para o deuteronomista, a monarquia deu origem a
divisão de classes, ao acumulo de excedente, a opressão do
pobre, a destruição do ideal igualitário pregado por Moisés no
êxodo. O Deuteronômio em sua primeira edição já é uma
reforma.
DEUTERONÔMIO:
Renovação da Comunidade
e a Teologia da Retribuição Aliança dos Pais (1:8,35; 4:31;
Pf. Eduardo Sales 6:16,18,23; 7:8,12,13; 8:1,18;
Estima-se que os sacerdotes do reino do norte, quando 9:5, 10,11; 11:9,21; 13:18;53
19:8; 26:3, 15; 28:11; 29:13;
Página |
viram aproximar-se a queda da Samaria, iniciaram um
movimento de releitura da aliança. Esse movimento é 30:20; 31:7,20,21,23).
conhecido como a primeira edição do escritor Deuteronomista.
Essa leitura foi um retorno para a mensagem profética, foi o
Benção 7:13; 12:7; 14:24,29;
abandono da idolatria dos reis, um retorno ao direito de irmão.
15:4,6,10,14,18; 16:10,15;
A mensagem do Deuteronomio é centrada na idéia de 23:21;24:19; 28:8;
um retorno à aliança dos Pais. Essa aliança é centrada na Fartura 6:11; 8:10; 11:15;
promessa, garantia legal da comunicação da benção ao povo. 14:29; 26:12; 31:20;
Assim a própria libertação é usada em termos jurídicos (7:8; Longevidade 4:26,40;
9:26; 13:6; 15:15; 21:8; 24:18) Essa combinação jurídica é 5:16,30; 6:2; 11:9; 17:29;
própria de Deuteronomio. 22:7; 25:15; 30:18; 32:47;
A benção vinculada juridicamente à libertação é Descanso 3:20; 12:9-10;
material. O povo hebreu, no Deuteronomio, ainda vivia sob o 25:19).
julgo da monarquia, o que levava-os a interesses ligados à
realidade material.
O outro lado dessa aliança estava centrado no
“Abominação de Javé” é
cumprimento dos mandamentos. 5:1,29; 6:3,25; 7:11; 8:1; outro termo exclusivo do
11:22, 32; 12:21; 13:1; 15:5; 17:10; 19:9; 24:8; 28:1,15,58; deuteronomista (7:25; 12:31;
31:12; 32:42), combinação que se encontra raramente fora do 17:1; 18:12; 22:5; 23:19;
deuteronomista. Esse cumprimento deveria ser algo interior, 25:16; 27:15).
“de todo teu coração e toda a tua alma” expressão
deuteronomista (4:29; 6:5; 10:12; 11:13; 13:4; 26:16; 30:2,6,10)
propõe uma ligação intima com o Senhor, se “chegar” a Deus A palavra "irmão" para
(10:20; 11:22; 13:5; 30:20), uma relação de amor de Deus para designar os concidadãos
com o Povo. (4:37; 7:8,13; 10:15; 23:6) e do povo para com (1:16,28; 3:18,20; 15:2-20;
Deus (5:10 ;6:5; 7:9; 10:12; 11:1,13,22; 13:4; 19:9; 30:6,16,20). 18:2; 15:18; 19:18-19;
“Temer ao Senhor” está ligado ao amor e aparece pela 20:8; 22:1-4; 23:20-21;
primeira vez em Deuteronômio (4:10; 5:26; 6:24; 8:6; 10:12; 24:7, 14; 25:3,11) "Shema
14:23; 17:19; 28:58; 31:13). Israel" é exclusivo de
A entrega total a Javé pressupõe a exclusão de todo Deuteronomio (5:1; 6:4;
tipo de culto diverso (6:14; 7:4; 13: 7,14; 17:3; 28:36,64; 30:17; 9:1; 20:3; 27;9).
29:25; 31:20). Esse conceito torna-se a base de exclusão dos
povos considerados idolatras (9:14; 7:24; 12:3; 25:19
destruição do outro 13:9; 19:13,21; 25:12).
Fruto da exclusão do culto diverso é a eleição de um
local sagrado, escolhido por Javé. (12:5,11,14,18,21,26; 14:25; No êxodo as leis são
15:20; 16:7,15,16; 17:8, 10; 18:6; 31:11) é o local de habitação dirigidas ao “Eu” ao
do seu nome (12:11; 14:23; 16:2,11; 26:2; 12:5,21; 14:24). individual e no
No culto aconteceu a mais profunda mudança. Deuteronômio são
Substituição do sacrificial pela inclusão e cuidado social dirigidas ao “povo”.
(10:18; 14:29; 16:11,14; 24:17,19,21; 26:12,13; 27:19). A
grande máxima do Deuteronomio é o sentido comunitário.
Quando desenvolve o local sagrado não segue a teologia
exclusivista de Levíticos, mas a inclusão do pobre, da viúva do
estrangeiro e do órfão.
Em Deuteronômio, Israel é construído em uma nova
base, centrada na promoção social e união do povo, o que se
manifesta na legislação deuteronomica como preocupação
coma coletividade: O Meu povo.
JOSUÉ E JUÍZES
A Tradição Deuteronomista:
Pf. Eduardo Sales
Além do Deuteronômio a tradição deuteronomista
procurou estender sua visão de reforma nos livros de Josué, 54
Juízes, Samuel e Reis. Não são livros sobre a história, mas Página |
tradições sobre a decadência e esperança do Povo de Deus.
Próximo a destruição de Samaria em 722 a.C. um
provável grupo de sacerdotes, levitas e profetas buscaram
restaurar a aliança com Javé. Nessa tentativa nasce o núcleo
da tradição deuteronomista (Dtr1) com a nova aliança centrada
no cumprimento da lei do Senhor, no abandono da idolatria,
em uma nova disposição para com os mais fracos, na
centralização do culto e na sujeição das elites dominantes.
Esse projeto migrou para o reino do Sul junto com
sacerdotes remanescentes da destruição de Samaria.
Encontrou apoio a partir dos reis Ezequias e Josias que
iniciaram um período de reformas. Nesse período nascem os
livros de Josué, Juízes, Samuel e Reis. O objetivo desses
livros é, ao modo dos profetas, denunciar as fraquezas e erros
da monarquia; justificar a queda do norte e o juízo sobre o sul;
centralizar o ideal Javista (Templo e Sacerdócio); propor a
necessidade de um rei justo.
A ênfase maior está no Reinado (Maior parte da obra Quatro momentos na
deuteronomista); o segundo foco está nas origens do povo (Dt história de Israel:
- central é a lei e sua pregação). O Discurso de Moisés (Dt)
Josué e Juízes são períodos de passagem (Moisés a
A Tomada da Terra (Js)
Davi). A Teologia de Juízes testemunha que o povo, ao se
A Vida das Tribos (Jz Rt)
afastar deJavé é entregue a seus inimigos. Essa teoria
teológica é exílica, serviu de espelho para o povo do exílio. O Reinado (Sm; Rs)
Principalmente no final do livro há uma grave crítica a
sociedade sem rei (17:6; 21:25). É descrita como um período
sem justiça, sem lei e sem obediência a Deus; período de
confusão (19-21; Jz 1:28; 9:7ss).
No período histórico dos juízes foi formada a raiz
histórica dos profetas. Nessa sociedade surge o culto a Javé,
um conjunto de leis que visavam a manutenção do clã.
A época dos Juízes enfatiza a libertação do Êxodo e as leis
sobre convívio fraterno. A época dos Juízes fornece:
Libertação, mandamento e a fé num Deus Único.
O Javismo nasce de grupos semi-nomades e se
instaura com a formação do povo.
Em Josué, embora se fale de Josué contra os
cananeus, na verdade a história retrata a vitória do campo
sobre as cidades (2:3; 5:1; 6:2; 8:1; 14; 9:1; 10:1.3; 11:1s; 12).
O momento crítico de sua subsistência é a vitória sobre os reis.
São comemorações das vitórias do povo sobre as dinastias e
monarquias. A Era dos juízes foi
Como em Josué e Juízes, o livro de Reis também fala fundamental para a
sobre o reinado, do livro de Reis não é nem preciso falar. formação de Israel, mas
infelizmente esses textos
não estão no livro dos Juízes,
mas espalhados em outros
no A.T. (Êxodo 20:21-23).
SAMUEL E REIS
A Tradição Deuteronomista
Pf. Eduardo Sales

Os livros de Samuele Reis revelam o descaso dos reis 55


com a lei. No início, com Moisés foi pregada a Lei e foi Página |
desconsiderada pelo Reinado.
Os primeiros 12 capítulos de Samuel, por um lado,
estabelecem a ponte entre Juízes e o reinado; e por outro lado,
reúnem vozes críticas ao reinado (O poema de Ana 1Sm 2 e o
discurso de Samuel 1Sm 8:10s são o cerne dessa crítica).
1Sm 1-3 - Tradição profética introduz a história do
reinado. É uma leitura crítica do Reinado. Samuel é
apresentado como profeta (3:20; 3:1-4). Essa profecia é uma
ameaça ao sacerdócio (3:11-14). Já o cântico de Ana é a
leitura do reinado a partir da ótica do pobre.

No livro de reiso Deuteronomista vai centralizar a


história em função do Exílio (1Rs 3-11)

1) Anotações sobre os reis


2) Intervenção dos profetas
3) Julgamento dos Reis e de sua política religiosa

A ideologia de Salomão está na centralização do culto,


uma perversão da justiça, onde o luxo do rei e os gastos com
bem estar do reino são enfatizados (3:4ss; 5:9ss; 10:1ss;
9:10ss).

A principal frase do deuteronomista no livro de Reis é


“Fizeram o mal aos olhos de Javé” (1Rs 11:6; 14:22;
15:26,34....etc

Os Deuteronomistas viam na ideologia uma poderosa


arma. Entendiam que essa ideologia religiosa poderia manter
um reinado e não armas militares.

Mesmo essa ideologia e reflexão teológica não foram


suficientes. Com o exílio o povo vai abandonar a fé em Javé.
Isso porque o ideal centralizado no templo, no retorno à
aliança Mosaica, no culto centralizado e na restauração da
realeza, fracassaram.

A Teologia Deuteronomista da Retribuição


HABACUQUE
Cale-se diante dele toda a Terra
Pf. Eduardo Sales

Contemporâneo de Jeremias. Pode ter profetizado


56
antes ou depois da reforma Josiânica. O principal termo Página |
utilizado é “Porquê?” (Hb 1:3). Nesse livro o profeta propoe
uma releitura da fé a partir da perspectiva dos profetas,
principalmente de Jeremias.
Nesse livro a violência ganha um colorido especial. É o
principal tema do profeta. A situação está centrada na invasão
da babilônia, na destruição e deportação do povo. Essa
violência confronta toda a teologia deuteronomista.
Releitura da Violência
Na teologia deuteronomista a confiança na monarquia
foi substituída pela confiança na Lei. Essa teologia interpreta a
realidade a partir da teologia da retribuição, ou seja, Deus
abençoa os fiéis e amaldiçoa os infiéis, por isso era muito difícil
entender a opressão babilônica.
Hab 1:2-4 Até quando Senhor, clamarei eu, e tu não escutarás?
ou gritarei a ti: Violência! e não salvarás? Por que razão me
fazes ver a iniqüidade, e a opressão? Pois a destruição e a
violência estão diante de mim; há também contendas, e o
litígio é suscitado. Por esta causa a lei se afrouxa, e a
justiça nunca se manifesta; porque o ímpio cerca o justo,
de sorte que a justiça é pervertida.
O profeta narra que a violência estava esfriando a fé do
povo que já não se interessava pela justiça (1:5). Era uma
teologia da prosperidade centrada nas obras. Esse texto é uma
denúncia da realidade. O objetivo do profeta é reanimar o povo,
fortalecer a fé diante da violência, afirmando que a invasão da
Babilônia procede de Javé (1:6). É um grito de esperança na
justiça de Javé. O Profeta está dizendo para não deixar que a
violência cauterize a mente e produza uma vida religiosa vazia e
centrada na injustiça.
Assim, o profeta narra o juízo de Javé como uma maravilha
(1:5-6). Deus é o eterno que exerce juízo por meio da Babilônia.
Era uma forma de afirmar o poder de Javé diante da teologia
centrada no favor de Javé a seu povo. Ou seja, ser cativos e
destruídos não significa que Javé é fraco, mas que em sua força,
exerce juízo por meio das nações (1:12-13). Nessa mensagem o
profeta confronta a incredulidade do povo (1:14).
O soberbo é oposto ao justo. A diferença é que um confia
em si mesmo e despreza Javé enquanto que, o outro vive pela fé
(2:4). É uma clara oposição à confiança na lei desenvolvida a
partir da reforma de Josias.
A violência é denunciada e julgada, tanto da Babilônia
quanto da elite opressora. A violência é retratada em termos
financeiros e comerciais (2:5ss).
Cale-se diante dele toda a Terra. Mensagem central.
Relação de confiança diante da violência. Deus é quem opera o
Juízo (3:1-15). Essa perspectiva evoca a esperança para além
dos sinais históricos e da teologia centrada na bênção. É a
proclamação de Javé como alegria, salvação e força.
O Exílio
Pf. Eduardo Sales
O Processo de Exílio teve início no séc VIII quando
nasciam as grandes potencias e momento crítico foi o séc VI,
57
com o cativeiro da Babilônia. A estratégia usada pelo Egito, Página |
Assíria e Babilônia foi "Para evitar revoltas, o invasor
desterrava parte da população do país". A primeira deportação
aconteceu em 597, as forças militares foram atingidas (2Rs
24:14-16), junto aos militares a elite também foi deportada. A
segunda deportação foi em 587, após a destruição de
Jerusalém. O Objetivo foi a desurbanização da cidade (2Rs
25:11).
"[...] a tragédia levava consigo todos os pontos de referência
que davam ao povo sua identidade: terra, rei e templo, ao
mesmo tempo em que levava seu povo a mergulhar numa
situação de completa perda de direção histórico-religiosa. O
projeto de Javé havia fracassado." (p.40)

Os Exilados na Babilônia (586-538 a.C.)


Era costume da Assiria e Babilônia deportar
trabalhadores para serviços públicos (Jr 24:1). A Babilônia
assentava os exilados em locais que haviam sido destruídos e
depois reconstruídos. O Salmo 137 menciona "rios da
Babilônia", como assentamento dos judeus. Outros
assentamentos são mensionados por Esdras (Ed 2:59) e
confirmados por Neemias (Ne 7:61). Pelo menos no início os
exilados receberam terras dos reis (2Rs 18:32). Os Judeus
também vieram a participar do comércio e do culto como seus
oficiais (Ed 8:15-20). Não há informações sobre opressão ou
perseguição religiosa contra os exilados. Eles podiam
comercializar terras (Jr 29:5) e comprar escravos (Ed 2:65).
Em suma possuiam importante capital na reconstrução (Ed
1:6; 2:68-69).
Características e Tendências:
1) Definição do Povo Eleito de Javé. Não é o campesinato,
mas os que foram deportados. Os que retornaram do exílio
assumiram o título de "resto". Assim, após o exílio, foi esse
grupo que tomou a liderança de Jerusalém.

2) Revisão histórica: Os judeus reconhecem a culpa pelo


desastre em 586 a.C., entendem que foram destruídos por não
manterem a reforma de Josias (2Rs 24:19-20). Essa avaliação
também foi feita pelos profetas pós-exílicos (Ez 5:5-10; Is
43:22-28; Lm 1:18; 2:17; 3:38-44).

3) Revisão de Conceitos: No Deutero-Isaias e em Ezequiel


nota-se uma forte noção de culpa e a presença da
necessidade de conversão e fidelidade (Is 44:21-22; Ez
18:23,31-31; 33:10-20) Já o texto de Jeremias (Jr 44:15-19)
apresenta uma tônica mais popular do desastre em 586 a.C.
Eles entendiam que a suspensão ao culto da Rainha do Céu
que produziu a queda. Outro conceito importante a ser revisto
é o de esperança.
Exílio
Pf. Eduardo Sales
4) Preservação da Identidade: Essa nova realidade
desenvolveu a distinção entre Judeus e não Judeus. Para isso, 58
foi dada importância ao Sábado (Gn 2:1-4) e à circuncisão (Gn Página |
17:3-14). Inicia o movimento de identificação genealógica.

5) Revisão do Culto. Sem templo e sem rituais o culto passou


a centrar-se nas Escrituras. As sinagogas babilônicas eram
lugares de oração, de instrução na lei e de reflexão nas
escrituras. A celebração da Páscoa substituiu o sacrifício que
antes era central no Templo.

Releituras do Pentateuco
A formação da literatura bíblica acompanhou os
momentos diversos momentos históricos. Formou-se na
monarquia, foi relida nos dias de Josias, e foi relida no exílio.
Nesse período os sacerdotes deportados assumiram a
liderança entre os deportados. A fim de preservar a cultura e o
povo os sacerdotes configuraram uma religião centrada nas
escrituras, na lei e nos rituais de purificação, o que
transformaria o judaísmo em uma religião separatista.

a) A Lei de Santidade (Lv 17-26)


Para esse código, Santidade é Separação (19:2;
20:7,26; 21:8).

b) Lei do Puro e Impuro e a exclusão da Mulher


O código de Santidade tornou a casa de Deus num
local puro e santo, de forma que as mulheres, quando estavam
menstruadas ou de resguarde, eram impuras e excluídas do
templo (Lv 12; 15:19-33; 18:19).

c) A circuncisão com sinal de pertença a Javé e ao povo. A


ciruncisão já existia antes, porém como um rito de iniciação ao
casamento e à vida familiar (Gn 34:14-15; Ex 4:24-26; Lv
12:3). O texto de Gn 17 surgiu entre os deportados na
Babilônia e tem como motivação a inclusão na aliança. Isso
fica claro quando compreendemos os textos deuteronomicos
sobre a circuncisão do coração (Dt 10:16; 30:6; Jr 4:4; 6:10).
LAMENTAÇÕES E OBADIAS
A vida de quem ficou
Com o exílio, a elite foi deportada e os que ficaram
tambem sofreram. Muitos morreram na guerra, outros fugiram
para as regiões vizinhas, muitas viúvas e órfãos (Lm 5:3). 59
Página |
Por outro lado a vida economica dos que ficaram
prosperou, isso porque não eram mais espoliados pelos
tributos da corte e do templo. Nesse período os pobres
obtiveram acesso a terra (Jr 40:12), também surgiram as
lamentações no resto de muro do templo (Jr 41:4-7).
Agora, sem muros, instituições, templo, palácio etc... a
vida dos pobres melhorou um pouco, e os serviços religiosos,
no que sobrou do templo, foram restituídos (J4 41:5s). Vários
povoados judaitas receberam refugiados e começou um
programa de descaracterização dos que foram deportados.
Ou seja, era preciso se reorganizar, e a terra dada aos
pobres agora passa a ser objeto de divisões. O povo
deportado, antigos donos da terra, passaram a ser vistos como
não eleitos e abandonados de Deus, já os que ficaram na terra
começaram a discutir com os fugitivos quem tinha direitos
sobre a terra. É nesse contexto que os livros do próximo
período surgiram.

Lamentações:
Sião e o Templo possuem papel relevante. É provavel
que tenha sido produzido por ex-trabalhadores do templo
(cantores).
Seu conteúdo são cânticos funebres, lamentações
coletivas e individuais. É um retrato da angustia e revolta do
Lm 2:9 – Deus abandonou os
povo contra Deus.
deportados.
Estrutura do livro:
Lm 3:18 – perdeu a esperança
Dor de Jerusalém humilhada (1)
no Senhor
Javé sem piedade (2)
Esperança no meio da dor (3)
Um novo retrato de Jerusalém humilhada (4)
Em desesperança deve-se confiar em Deus(5)

Obadias (585-580 a.C.): Provavelmente um escriba ou


trabalhador do templo. Seu contexto é a destruição de
Jerusalém (v 11-14).
Para os autores de Obadias, Jerusalém serve como
centro de interesse, por isso é contra a opressão do culto e o
centro de sua mensagem não está no templo, mas na situação
do fugitivo (contexto do exílio). A esperança profética surge a
partir da própria idéia de fuga (17).
Abdias retoma Jeremias (26:9; 49:14-16).
Sua principal denuncia é contra os edomitas.
Começa com a crise dos edomitas (Lm 10:14-16).
O Rei não deve se alegrar com as vitorias e conquistas
(1Rs 11:15).
Sua mensagem de solidariedade procura aprofundar as
relações e acolher os fugitivos como sendo filhos de Javé.
Numero dos deportados:
Ezequiel: De Sacerdote a Profeta 2Rs 24:14 = 10.000 (homens)
Pf. Eduardo Sales Jr 52:28 = 3.023(homens)
Jr 52:30 = 4.600 (homens)
Estava entre os prisioneiros deportados (597 a.C.), Pequena porcentagem da
era Sacerdote (1:3) da linhagem de Sadoc, ficou viuvo população
60
pouco antes da queda do templo (24:15s). Como os Página |
outros sacerdotes, Ezequiel passou por profunda crise de
fé e conversão exclusiva a Javé.
Atuou como profeta aos deportados da primeira
geração. Tem o mérito de ser o primeiro profeta fora da
terra da promessa, o que representa um grande passo
para os sacerdotes do Templo. Sua profecia deve-se ao
Um novo Templo: (37:26-28)
fato de ter conseguido perceber a presença de Javé em
Local sagrado (43:12; 44:23)
meio aos reféns da Babilônia. Morada de Javé (37:26-28)
Sua pregação é da solidariedade de Javé para Acima dos reis (43:7-9)
com os deportados. Nesse sentido foi muito valiosa para Controlado pelos sacerdotes
preservação da fé Javista na construção de um novo (44:15-16)
ideal. Por outro lado, desprezou os remanescentes e Exclui os estrangeiros e as
passou a considerar os deportados como o verdadeiro mulheres (44:9)
Israel e continuou a teologia centralizadora da religião no Puro e impuro (44:23)
Templo.
1. Refletiu com os desterrados sobre a destruição de Judá,
apelando para sua conversão. Consolou seus
companheiros anunciando uma futura libertação. Esse
período (593 a 586 a.C.) corresponde aos cap. 1 a 24.
2. O segundo momento de sua pregação está entre a queda
(571 a.C.) e a última data citada no livro (Ez 29:17).
3. Concorda com Jeremias de que a Babilônia é castigo de
Deus (Jr 25:9; 27:6).
4. Nos capítulos 33 a 48 apresenta sua visão do “novo”. O
projeto de restauração e reconstrução.
Conteúdos centrais:
1. Identificação de Javé entre os deportados (Sl 137:4) foi
vocacionado na Babilônia (Ez 1-3: 22-24).
2. Destruição e castigo de Jerusalém (4-5; 7:23-24); do
templo (8-11); do Estado (17-20); dos profetas (Ez 13);
ameaça os remanescentes (Ez 33:23-29); corrupção das
mulheres (18:6,11,15; 36:17).
3. A partir do capítulo 33 inicia o projeto de restauração.
Anuncia a renovação (Ez 36:24-28, cp Jer 31:31-34);
Esperança e renascimento (37);
a. Restauração da Terra (47:13-48:29); para
camponeses (45:7-8; 46:18); tributação (45:13-16);
templo (44:30-31).
b. Novo êxodo (20:34,42; 36:24; 37:12; 46:18).
c. Pureza e Santidade (Ez 36:25,33; 37:23).
d. Um novo rei. Critica os antigos reis (34:1-22; 45:8) e
renova o messianismo. Descendente de Davi (34:23-
24; 37:24); justo e de paz (34:16,25-31); reunificará o
reino (37:15-28); renovará a aliança (37:23-25);
reconstruirá o templo (37:26-28); será subordinado
ao templo (43:7-9); tributos (45:9-46:18).
Ezequiel e a Terra da Promessa
Pf. Eduardo Sales
A estrutura de sua profecia reflete uma época em que a
terra, principal dom de Deus, foi tomada. Assim, a profecia de 61
Ezequiel começa com uma reflexão pré-exílica, afirmando a Página |
devastação e tomada da Terra (6:1-10,14;7:2; 12:19s), a
deportação e o desterramento (4:13; 5:1-4,10,12; 12:11s).
O profeta, seguindo a concepção deuteronomista,
responsabilizou os reis e líderes (19:1-4; 1Rs 23:31ss; Ez 34:1-
9; 45:8-12) por culpa da elite houve a dispersão (34:5-6,12,13),
infidelidade (15:8; 16:15-22), inclusive dos anciãos e
sacerdotes (8:11,16) e profetas (13:4-10). Na linha dos
profetas do séc VIII, Ezequiel também denuncia as injustiças
(7:11,23; 8:17; 12:19; 28:16; 45:9; 22:26), e afirma que a
violência cometida pela elite é um dos motivos para a
deportação (22:25-29; 7:10-11,23; 12:19).
No exílio, fracos e prestes a abandonar a fé, Ezequiel,
após relatar os erros do povo da terra, inicia sua mensagem de
restauração da Terra. É provável que tenha iniciado sua
pregação antes da destruição de Jerusalém.
A mensagem da eleição surge, do lado dos que
restaram em Jerusalém, sob a afirmação de que os deportados
estão excluídos da aliança, mas Ezequiel usa a profecia para
devolver a esperança da terra aos deportados (Ez 11:15). A
maior prova disso foi sua visão de Javé na Babilônia, eles são
eleitos, por isso Javé os acompanhou até a Babilônia (1:1;
3:15) e o abandono e destruição do Templo se devem à Nesse período houve
idolatria (8:1-11:25). Para o profeta, Deus não estava longe várias guerras pela posse da
dos deportados, mas longe do templo (8:12-17). terra. Os refugiados, os
Nesse contexto o profeta desenvolve as promessas em amonitas, até os edomitas
relação à Terra (11:17; 13:9; 17:22-24; 20:32-44; 28:25; 34:13- interessaram-se pela terra,
15,25-31; 36:24; 3:12-21). A princípio, tanto deportados quanto mas não conseguiram. O
grupo militar que escapou,
os que ficaram teriam direito a terra. Após a segunda
fugiu para o Egito e levou
deportação e destruição de Jerusalém (587 a.C.), dentre os Jeremias consigo (Jr 41:16-
que restaram (33:27), um grupo militar escapou e esse grupo 43:7). Mesmo com a
iniciou um movimento de posse sobre as terras baseando-se destruição, Jerusalém não
na legitimação hereditária (Gn 12:1s; 13:15s; 15:18-21; o que ficou totalmente desolada (Jr
foi confirmado na reforma de Josias Dt 6:10; 9:5; 30:20), mas 41-43; 2Rs 25,26).
que o profeta rejeitou, afirmando que a posse da terra não é
algo baseado apenas na força armada, mas um dom (33:25s).
Diante da crise, Ezequiel conserva a memória da
promessa da Terra. Antes da queda de Jerusalém as Ezequiel recupera a memória
promessas são relidas sob os patriarcas (11:17; 13:9; 17:22- da dádiva da Terra:
24; 20:32-44; 34:13-15; 36:24; 37:12-21). Influenciado pelo a) Negativa – revela o
Deuteronômio, liga a promessa da Terra à observancia da Lei erro do povo, por isso
(Dt 6:10-15; 9:4-5; 30:15-20) e ao tema da eleição (Dt 4:37; perderam a terra.
7:6s; 10:14s; 12:5s). A vida foi relacionada com a Lei (20:10s). b) Positiva – Anuncia o
O projeto de restauração carecia de um movimento de retorno à terra.
purificação. As violações da elite e da monarquia tornaram o Fortalece a Esperança
país impuro, “não-lavado” (22:25-29). Ezequiel promove uma
releitura purificadora da nação. Nessa nova estrutura o Templo
seria o centro das nações (48:8ss). O profeta idealizou uma
espécie de reforma agrária (que nunca se realizou), onde até
os estrangeiros tinham parte na terra (47:22-23 cf Dt 10:19).
Ezequiel e o Novo
Pf. Eduardo Sales
Os textos de 33-39 retratam a renovação de Israel pelo
Espírito. É uma releitura da fé a partir do Espírito como 62
construtor do Novo. O profeta retoma a mensagem do séc. VIII Página |
(Amós, Oséias, Isaias, Jeremias e Miquéias 3:5-8), e fala do
Espírito de uma forma diferenciada, apontando a possibilidade
do Novo.

Novo Êxodo
Seguindo a teologia deuteronomista de Jeremias e do
2º Isaias, prevê um novo êxodo (Ez 20:33-34). Era uma
promessa difícil de acreditar, isso porque acabaram de ser
deportados. Seria a retomada do dom da terra (11:17-18;
34:13; 36:24; 37:21).

Nova Criação e Reconstrução do Povo


Ez 37:1-14, a visão dos ossos secos não é uma
pregação de ressurreição de pessoas que morreram, mas da
renovação do Espírito. É uma nova criação (par. Gn 2:7), e
responde à pergunta do povo, “nossos ossos estão secos”
(v.11-14), esse texto também retoma a idéia de Êxodo,
restauração.

Nova Aliança
Em Ez 34:25-20, a nova aliança é chamada de aliança
de Paz. As feras, nações vizinhas não oprimirão o povo (v.27-
29) será tempo de abundância. O povo será multiplicado
(37:26). Interessante é que Ezequiel não usa os moldes de
Abraão ou do Sinai, mas valores semelhantes à nova-aliança
de Jeremias (Jr 31:31-34).
Essa nova aliança será para sempre (36:26-29 e
11:19). Será uma movimento de Perdão. (Ez 34:32; 37:23).

Nova Terra
A nova aliança retrata a renovação da terra (Ez 34:25-
28). Os vs 25-28 do cap. 37 enfatizam com esperança a
restauração da terra.

Novo Rei
Um pastor terreno, chamado de meu servo e Davi, é
identificado como o Messias (Is 9:6-79; Jr 23:5-6). Nos
capitulos finais é proposto a presença do messias, do príncipe
(40-48).
O SEGUNDO LIVRO DE ISAIAS
PF. Eduardo Sales
O Santo de Israel. 33 vezes. (Primeiro Isaias 1-39)
Textos principais: 1:4; 5:24; 31:1 (Séc. 8 a.C.)
Consolo 10x (Segundo Isaias 40-55)
Textos principais: Salvação 23x, Libertação 37:23; 63
43:12;45:8,17; 46:13;49:6,8;etc.. (Exílio) Página |
Luz para as Nações (Terceiro Isaias)
Textos Principais: 40:1; 43:3,14; 49:7; 53:3; 60:17 (Pós-exílio)
A Questão Literária em Isaias
Uma das questões mais debatidas foi a extensão do
livro de Isaias. O fundamentalismo, pretendendo defender
única autoria, propõe que o profeta previu e escreveu profecias
para o período de 200 anos. Em outra posição temos a maioria
dos exegetas que afirmam haver três estilos literários bem
distintos no livro de Isaias. Contextos de escrita diferentes e
perspectivas proféticas em três momentos diferentes. Assim,
as profecias de Isaias foram compiladas e ampliadas por seus
discípulos, prática comum em tempos difíceis (também em
Oséias, Jeremias, Miquéias, e outros). Colocavam o nome dos
profetas para não serem perseguidos.
Contexto Histórico
Atuou no exílio, na sequência de Ezequiel, dirigiu-se à
segunda geração. Nesse período a Babilônia está em declínio
e a Pérsia em ascensão, possibilitando a renovação da
esperança de retorno, entretanto ainda não há referências
textuais à queda da Babilônia, mas refere-se à ascensão de
Ciro (Is 41:1-5,25; 43:14; 44:24-45:4-13; 46:11; 48:12-15).
Os autores estão em continuidade ao grupo de
Ezequiel, e pertencem aos cantores do templo, o que é
denunciado pela sua linguagem hínica, bem próxima dos
salmos (Is 42:10-13 e Sl 96, 98).
Sua mensagem, diferente da tônica de Ezequiel
centrada no templo e na santificação levitica, está na fé no
Deus Libertador do Êxodo. O segundo Isaias proclama um
novo Êxodo (41:17-20; 43:1-3,14-21; 48:20-22; 52:11-12;
55:12-13). Seu objetivo é animar o povo desolado
(40:27;49:14). O Consolo e conforto são o tema de sua obra
(40:1,28-31; 41:8-16; 43:1-7; 44:1-2; 49:13; 51:3,12; 52:9).
Também anuncia a restauração de Jerusalém (49-55),
o monte Sião ainda é local especial, entretanto o templo e os
sacrifícios não exercem papel tão relevante. Tarefas do Servo Sofredor
1. Direito e Justiça 42:1-6
Principais Temas 2. Esperança dos Pobres
Interpretou o Exílio como castigo (43:27-28; 47:6) 42:3; 50:4
Entendeu que o castigo passou da medida (40:2; 47:6) 3. Luz para as nações
O Perdão é o fundamento da Esperança (40:2; 43:18s) 42:6;49:6; 51:4
Anúncio da Boa-Nova de Retorno (40:3,5,11; 48:20-21; 4. Repatriar 49:5-6
49:12; 52:7,11-12; 55:12-13) 5. Resistir aos sofrimentos e
Ciro é apresentado como Messias (45:1-6 cf. Jr 25:9) perseguições 42:2;50:5-7
Crítica à Babilônia (46-47; 40:12-26; 41:21-29) Dar sentido ao Sofrimento
Crença num único Deus (Is 44:6,8;45:6-8,18,21;46:9;) 52:13-53:12.
Javé para os Povos (Is 42:1-4; 45:20-25; 51:1-8)
Sião e Jerusalém (Is 40:1-11; 44:26; 49:19-20; 51-52)
Servo Sofredor (Is 41:8-9; 45:4; 48:20; 49:3s)
O NOVO EM ISAIAS 40-55
Pf. Eduardo Sales

O Isaias do segundo livro, ou Isaias da Babilônia, é


provavelmente o livro de maior profundidade teológica do
antigo testamento. Sob a política de Ciro consegue ver a 64
Página |
possibilidade de liberdade para os exilados. Desenvolve sua
teologia alinhando as tradições babilônicas com as tradições
de seus antepassados (Is 45:13).
Para fortalecer a fé dos deportados Isaias retoma as
tradições dos patriarcas. Abraão (41:8; 43:22; 51:1s). Retoma
elementos da tradição de Sião como um segundo Êxodo
(44:26; 45:13; 49:14; 51:1s). A partir dessa tradições vai fazer
uma releitura da tradição do êxodo transformado no novo
êxodo (40:1s; 52:5-12; 55:12-13) dando sequência a história
da salvação deixando para trás o passado (43:18; 42:9-18;
48:3) nessa releitura Javé revelará o novo (48:7s; 43:19;).
Da tradição davídica a releitura assume sentido de
novo quando vê na promessa a Davi uma promessa para o
povo (55:3b). Concebe o davidismo como algo passado, que
será substituído (55:4), apresenta outro mediador no lugar dos
reis que fracassaram, é o Servo de Javé. Ele fará triunfar os
desígnios de Deus (53:10). O Novo Testamento lê Jesus como
Servo, como um Rei humilde.
Javé é o criador do Novo. A partir da criação do povo
(51:9-16) narra que Javé vai fazer uma nova criação, um novo
homem capaz de entregar-se pelos outros (53:10-12).

A Missão do Servo
Primeiro Cântico 42:1-9 – Trará julgamento às nações
(42:1) com fidelidade (42:3-6).
Segundo Cântico 49:1-6 – Assumirá a tarefa de
mediador entre Deus e os homens. Assumirá sua missão de
ser luz para as nações (49:5s)
Terceiro Cântico 50:4-9 – Missão vocação e
obediência. Lamentação do servo por causa dos sofrimentos.
O sofrimento do servo rompe contra a teologia deuteronomista
que acreditava ser o sofrimento castigo pelo pecado. Faz da
natureza de seu sofrimento a sua missão, como Jó e José.
Quarto Cântico 52:13-53:12 – O sofrimento surge como
fonte de exaltação do servo sofredor. Surge o novo pela
ligação do sofrimento com a salvação. O sofredor aparece
como vítima, sofrendo por amor ao outro. Esse é o novo
mediador escolhido por Javé. Solidariedade até a morte!
No clímax da opressão produzida pelo imperialismo
babilônico, o Servo também vai até o fim, de forma que sua
morte torna-se denúncia e reconhecimento do direito de irmão,
na substituição do Eu pelo Tu. Com isso o Isaias da Babilônia
desfaz o laço que ligava o sofrimento ao pecado; que ligava os
a justiça e o direito com os reis e seus executores.
O servo é antes de tudo o êxodo de si mesmo como
condição de vida para o outro. De aniquilado e vencido torna-
se vencedor e agente da salvação.
Retorno e Reconstrução
Profeta Ageu
Eduardo Sales
65
Contexto Página |
A queda da Babilônia (539 a.C.) e a ascensão da
Pérsia sob Ciro foi vista como libertação de Javé (Is 45:1; Ed
1:1-4). Diferente dos Babilônicos e dos Assírios, os Persas
permitiam a repatriação, respeitavam a cultura, a religião e
usavam a ideologia de alianças com as elites locais como
forma de dominação (Ed 6:2-10). Os judeus podiam exercer
suas leis desde que fossem submissos à Pérsia (Ed 7:26). A
primeira caravana retornou em 538 a.C. sob Sasabassar (Ed
1:8; 5:14)
A situação do povo era de injustiça e opressão (Zc 7:9-
10; Is 56:1; 58:6-10). A situação dos que não foram deportados
foi retratada pelo terceiro livro de Isaias:
Deus habita com o contrito (Is 57:15)
Não faz separação (65:5)
Os diferentes também são Israel (56:3-8)
Sacerdotes de todas as nações (66:21; 61:6)
Supera a eleição abraãmica (Is 63:16)
Supera o tributarismo estrangeiro (62:8-9)
Busca o direito do pobre (Is 65:21-23; 58:5-7; 59:14)

Os Samaritanos
A resistência dos Samaritanos se opõe à reconstrução
do templo. São israelitas que se misturaram com outros povos
tornando-se como eles, impuros (2Rs 17:24-40). Os
samaritanos haviam se contaminado. De modo geral,
samaritano era todo aquele que não foi para o exílio. Com
essa definição o povo hebreu que ficou e se misturou não foi
mais considerado povo de Deus, foi a destruição ideológica do
reino do norte.

A Reconstrução do Templo
Por volta de 520 a.C. outra caravana retorna com
Zorobabel e Josué, que atuaram junto a Ageu e Zacarias sob o
comando de Dario, rei dos persas. Zorobabel era descendente
de Davi e o Sumo Sacerdote Josué, animaram a esperança de
reconstrução.
Ageu trabalhou no primeiro período com Zorobabel.
Anima o povo a libertação, isso porque a Persia sofria com a
morte de seu rei Cambises. Via a possibilidade dos judeus
conquistarem sua independência.
Pregou a restauração da dinastia davídica (2:22ss);
libertação da tributação imperial; reorganização do templo e do
culto; seriam guiados por Javé (1:13; 2:4-5). É um pregador da
reconstrução do templo (1:1-15) e da presença de Javé nesse
templo (2:1-9). Prega o retorno ao período de prosperidade
(2:10-19), libertação e esperança (2:20-23)
ZACARIAS: Retorno e Reconstrução
Pf. Eduardo Sales

Inicia seu ministério após o afastamento de Ageu, em


aprox. 515 a.C. quando o templo foi inaugurado. O publico de
Zacarias e Ageu eram os repatriados (Zc 6:15; 8:6-7). 66
Página |
Zacarias, crítico da monarquia (Zc 1:4-12), apóia Josué
Mulher como símbolo do
na reconstrução do templo (Ed 6:14-22). Propõe a derrota dos
pecado Zc 5:7
rivais (Zc 2:1-4) e o afastamento da maldade (5:5-11), essa
ação ocorrerá pelo Espírito (4:6), num tempo de paz (3:9-10).
Considera Jerusalém e o Templo como centrais.
Propõe uma cidade sem muros, protegida por Javé (Zc 2:8-9).
Jerusalém será o centro do mundo (Zc 1:16; 2:14-17; 6:15), a
cidade Santa (8:3-5).
Seu projeto prevê a restauração da justiça e do direito
dos pobres e dos fracos (Zc 7:9-10; 8:16-17). Continua a
esperança da vinda do messias, mas como um descendente
de Davi e Zorobabel (Zc 6:12-14).
Na prática seu projeto não aconteceu e a situação do
povo continuou sendo de exploração e injustiça.
O ideal do sacerdócio está na mente de Zacarias que
coroa o sumo sacerdote Josué (6:11); assenta-o no trono
(6:14); até o dia do messias (6:12). Nesse texto o poder total é
passado às mãos dos sacerdotes. O sacerdote também era
Ungido e poderia ser visto como Messias, o que vai acontecer
no período inter-bíblico. Em sua estrutura, nota-se que é fiel
seguidor de Ezequiel.
Conteúdo:
Retorno do povo e de Javé para reconstrução (1-2)
Esperança de restauração está nos líderes (3-4)
O Espírito pelo Sacerdócio produzirá libertação (5-6)
O Amor a misericórdia são práticas da nova vida (7) Reestruturação do Templo
Retorno e projeto de vida para os judeus (8)
Os capítulos finais (9-14) referem-se ao período do Teologia da Retribuição
templo restaurado e serão estudados posteriormente.

Releitura do Sacerdócio
No primeiro Templo o Sacerdócio não era restrito, mas O exílio favorece a legitimação
para todos (Gn 8:20; 12:7-8; Jz 6:24; 1Sm 7:17). Não era ofício dos levitas e no retorno há uma
hierárquico. Somente durante a monarquia que o sacerdócio aproximação, onde os sadocitas
passou a ser dirigido por algumas famílias. Quando Davi são considerados maiores que
conquistou Jerusalém o sacerdócio tornou-se Sadocita em os levitas (Ez 40:46). As
oposição a Abiatar. Assim, o sacerdócio perdeu todo seu genealogias foram elaboradas
vinculo com a tradição do Êxodo. de forma a aproximar Levi e
Quando houve a divisão do reino, no Norte os Sadoc (1Cr 5:27-43). Essa
sacerdotes levitas exerceram papel relevante na preservação harmonização manteve os
das tradições do Êxodo (1Rs 12:31). Eles estão por trás do sadocitas no poder do 2º
movimento profético e do Deuteronômio. Esses sacerdotes templo até Onias III e, 175 a.C.
Os textos de Arão como
tiveram seus templos destruídos por Josias e foram levados a
Sacerdote (Ex 29; Lv 8-10; 17:1-
Jerusalém como uma ordem sacerdotal inferior.
8; Nm 20:22-9) são pós-exílicos
Em Ez (40:46; 44:9-31 e 48:9-12) o sacerdócio sadocita
Como o poder político e
tornou-se o único verdadeiro, sob a reestruturação do econômico está nas mãos dos
sacerdócio de Aarão pela construção superficial de persas, o sumo-sacerdote
genealogias, que exaltou o sumo-sacerdote. Tornando-se tornou-se um cargo relevante.
servidor das políticas da Pérsia.
NEEMIAS
Pf. Eduardo Sales

O retorno iniciado em 538 a.C. não atende às


expectativas anunciadas no exílio. O contexto anunciado por
Ageu, Zacarias e o 2ºIsaias é de opressão e crítica que, nem O projeto Persa 67
Página |
mesmo o templo (515 a.C.) foi capaz de anular. Essa situação desenvolvido por Esdras e
Neemias é justificado pelo
continuou até Esdras e Neemias (420 a.C.). A promessa de um
enfraquecimento do império
novo messias não aconteceu (Ag 2:23; Zc 4:1-5; Is 61), o povo e pela libertação do Egito em
estava em profunda crise (Pv 13:23; Ed 9:9; Ne 1:3; 5:5; 9:36- 465 a.C., era necessário
37; Jó 24:1-12; 30:2-8; Rt 1:1; 2:2). fortalecer a judéia para
Neemias era uma pessoa de confiança do Rei (Ne impedir novas libertações.
1:1,11) nomeado governador de Judá (Ne 5:14). Sua missão
aconteceu em dois períodos: Primeira missão em 445-433,
onde teve por missão a reconstrução e repovoamento de Judá
(2:8; 6:15; 12:27-43) e a segunda missão em 430-425 (Ne 2:6).
Neemias enfrentou a resistência da províncias vizinhas
(Ed 4:6-24; Ne 3:33-4:8; 6:1s), da elite de Judá (Ne 6:17-19;
13:4-9,28) a elite de Tecoa (Ne 3:5). Ninguém conseguiu
impedir, isso porque tinha apoio do império (Ne 2:9).
Reorganizou as famílias (7:4-5; 11:1-12,26) e garantiu o
sustento dos sacerdotes (Ne 12:44-47; Ed 7:15-18).
Diante das crises os pobres da terra cobram mudanças
(Ne 5:1). Neemias teve que fazer uma reforma social (5:6-13).
Embora tenha feito a reforma e ajudado os pobres, Neemias
ainda vivia regaladamente (5:17-19).
A crise foi aumentada com a nova forma de tributar o
povo. Embora os persas permitissem liberdade religiosa, em
Jerusalém, controlavam o povo pelo templo, através de
famílias da Elite que eram isentadas de todo tributo se
auxiliassem na cobrança dos compatriotas. Essa cobrança vai
mudar com a decisão de Dario de receber tributos apenas em
moeda. Judá não possuía mais de 50.000 habitantes.
A política monetária persa inflacionou o mercado
judaíta. Assim a terra passou para a elite mais facilmente, (deu
com uma mão e tirou com a outra). Com a crise as famíliaS
foram obrigadas à escravidão por dívida.

O Perdão e a Escravidão
A Judéia possuía lei sobre a escravidão que previa a
libertação no sétimo ano (Ex 21:3), entretanto admitia-se que o
escravo poderia continuar com seu senhor (Ex 21:6). Já o texto
de Ne 5 trata de um tipo de escravidão por penhora, para o
qual não havia perdão, se não houvesse resgatador o senhor
renegociava a divida com o escravo (taxa de penhora era de
60% a.a).
Neemias havia resgatado muitos judeus e comprado
terras a eles, mas por dificuldades tornaram-se escravos e
agora estavam sendo vendidos (Ez 27:13). A atitude de
Neemias procura consolidar a Judéia e o reino que estava
caindo. Sandro Gallazzi afirma que o tratamento piorou com a
lei do jubileu (Lv 25:2-10) onde a libertação tornou-se apenas
para o judeu e com a ressalva de que a estimativa de vida era
de 40 anos.
NEEMIAS:
A Economia do Segundo Templo
Pf. Eduardo Sales

Economia no Segundo Templo 68


“[...] assim não desampararíamos a Casa do nosso Deus” Página |
Noventa anos após retornar da Babilônia o estado de
Jerusalém era deplorável (Ne 1:3). O sonho de reconstrução
havia fracassado, e isso devido a resistência dos agricultores e
à economia e interesses dos países vizinhos (Ed 4:7-24).
Os judaítas próximos aos escribas da corte persa
elaboraram um projeto para satisfazer tanto a Pérsia quanto
Jerusalém. É o novo Judá organizado ao redor do templo
(Ezequiel 40-48).
Nessa estrutura a lei seria imposta a partir do templo (Ed
7:25-26) mantendo a ordem desejada pelos persas. O
Sacerdote atuaria como príncipe, como chefe de Estado do
Templo. A terra seria dividida e todo território deveria ter uma
parte para o sacerdote, sendo que as melhores parte ficariam
para o sacerdote. Assim como no período da monarquia, quem
lavrasse a terra de deus deveria pagar tributo aos seus
representantes. O altar torna-se símbolo da aliança.
Rituais: Dízimo – Ne 10:38-9; Primícias: 10:36;
Primogênitos 10:37; Oblação 13:34-39; Sacrifício pelo pecado
(10:34); tributo 10:38; 10:40; Tendas Ne 8:14-18.
Também ocorrem mudanças na lógica do sacrifício com
uma centralização na alegria da casa. Surge a história de
Abraão (Dt 26:5-10).
Foram criados novos ritos: Coisas santíssimas – oblações,
sacrifício pelo pecado e sacrifício de reparação, ausentes em
Deuteronômio, ritos que garantiram o alimento para os
sadoquitas, são coisa santíssima, sagrado entre o sagrado!
A oblação no início era uma oferta entre amigos e
autoridades, foi contestada pelos profetas e, por fim, foi
alterado pelo segundo templo (Lv 2:1-3). Da mesma forma foi o
acréscimo do sacrifício pelo pecado.
Com Neemias também há uma presença militar (Ne 2:9;
4:23), armas e espadas (Ne 4:10-12). Mesmo com a situação
difícil do povo (Ne 5) e com as afrontas dos povos vizinhos,
eles selaram a aliança centralizada no templo (Ne 10:1-2).
Essa nova virada mudou o ritmo do comércio (Ne 13:1-3).
Essa é a nova centralização do templo. Toda a sociedade foi
construída ao redor do templo, o que se completou com a
ênfase legalista de Esdras e a imposição da Lei sobre o Povo.
Esdras e o Judaísmo
Pf. Eduardo Sales
Os Ritos Festivos
A lei propôs uma cronologia para os ritos festivos.
A festa do fim da colheita foi celebrada 50 dias após
a páscoa (Pentecostes Ne 8:13-18), o Sl 118 parece 69
Página |
ser uma canção dessa liturgia.
A celebração seguinte foi o dia da expiação (Ne 9-
10). Celebrava a justiça de Deus e o arrependimento
da comunidade frente ao pecado.
Legalismo
A princípio, a lei deveria ser uma bênção, a maior
dádiva de Deus para o povo (Sl 1:1-2; 19:8ss; 119:1-3), a lei
deveria ser entendida como a expressão da vontade de Deus
(Mt 3:13; 5:20). Entretanto, em sua história, pendeu para o
sentido negativo, chegando a substituir a profecia (Jr 8:8;
18:18).
A reestruturação do Templo (executada por Neemias)
foi a base da nova constituição cívil e religiosa da Judéia (Ne
13:4-14).
Junto a reestruturação do Templo ocorreu o resgate e
santificação do sábado (Ne 13:15-22).
O rigor da lei foi imposto principalmente na questão da
pureza étnica (Ne 13:23-31 e Ed 9-10). Foi nesse período que
se desenvolveram as leis que proíbem os matrimônios mistos
(Ex 34:15-16 e Dt 7:3). Essa atitude, desenvolvida no exílio,
foi necessária para preservar a identidade dos deportados na
Babilônia, mas no retorno, sua aplicação tornou-se extremista
e preconceituosa, isolando os judeus do resto do mundo (Dt
7:6). Essa atitude é presente até os dias de Jesus (Mt 7:6;
8:30-32; 15:27 comp Lv 11:5; Eclo 50:25-26 – Outros textos de
resistência são o livro de Jonas e os estrangeiros Jó e Rute).
A pureza étnica tinha outra intenção, o direito à posse
da terra. Interessados em reaver suas antigas terras,
afirmavam que somente teria direito aqueles que
conseguissem provar sua descendência genealógica com
Abraão (1Cr 1-9). Dessa forma a genealogia foi uma das
principais armas pelos repatriados contra os remanescentes de
Judá (Ne 10-12; Ed 8).
O puro e o impuro tornaram-se os novos padrões da lei.
Essa lei determina quem está mais próximo e mais longe de
Deus. Foi o período de escrita do levíticos (Lv 11; Dt 14:3-21).
Essa lei também serviu para descaracterizar a mulher.
Excluídas do segundo templo pelo simples fato de gerarem e
tidas por impuras pela menstruação e por dar a luz (Lv 15:19-
30; 12:1-8). Essa lei serviu ao marido e aos pais que exerciam
poder sobre as mulheres, ao estado, pois a mulher servia aos
interesses de procriação e ao templo, pois os rituais de
purificação serviam de fonte de renda.
Essas mudanças tornam esse período o fundamento do
judaísmo. Foi a passagem do antigo sistema centrado no trono
e no templo para um sistema centrado na escritura e na
tradição oral. Foi o surgimento da lei e do judaísmo como
religião do livro. Seu nascimento oficial é reconhecido a partir
de Ne 8.
ESDRAS
Pf. Eduardo Sales

O contexto de Esdras é próximo ao de Neemias. Existe


muita divergência entre a data de seu ministério, se antes ou
após Neemias. Uma das probabilidades (Gallazzi, 2007) é que 70
Página |
tenha sido enviado pelo rei da Pérsia para impor a lei e
controlar a província que havia sido agitada pelos que voltaram
antes dele (Zorobabel e Ageu, Josué e Zacarias – pregaram a
possibilidade messiânica de libertação).
A situação é difícil. Em 420 a.C., aproximadamente 100
anos depois do retorno (538 a.C.) a cidade ainda não havia
sido reformada (Ne 1), viviam em miséria (Rt 1; 2:2-3; 4:3-9;
Ne 5) e o profeta Malaquias havia falado da situação religiosa
do povo (abandono da fé). Para piorar o novo sistema tributário
centrado na moeda (prata) inflacionou o mercado e produziu
diversas diferenças sociais e opressões. Galazzi (2007) afirma
que foi uma ação política que deu a terra para depois tomá-la,
assim como o perdão das dívidas de Neemias 5 que almejava
o controle de possíveis revoltas, isso porque a conquista do
Egito em 525 a.C. pela Pérsia que mudou a situação
necessitando de controle mais próximo, o que motivou o envio
de Neemias para organizar a satrapia da judéia.
A ordem social estabelecida em Esdras elevou o papel
dos sacerdotes e dividiu a sociedade aumentando o número de
escravos e as diferenças entre a elite e o povo. Essas
diferenças também atingiram os vizinhos (Samaritanos) que
passaram a ser vistos como povo impuro (reação motivada na
babilônia a todos os que não foram deportados) sendo
impedidos de participar na reconstrução do templo (Ed 6:8ss).
A animosidade acabou sendo uma forma de auto-preservação,
isso porque os Samaritanos eram maioria e estavam se
misturando com a minoria judaica que retornou do exílio.
O segundo templo construído com apoio da Pérsia
embora não fosse centro de governo e controle (nos primeiros
100 anos) passou a assumir toda a centralidade da fé, isso
porque a administração da Judéia foi centralizada no sacerdote
e no templo.
Esdras, alto funcionário da corte do império Persa era
sacerdote e especialista na lei judaica (Ed 7:11s), reconhecido
entre os judeus e autoridades da Pérsia, pode ter atuado junto
com Neemias (Ne 8:9) entretanto é mais provável que tenha
sido um pouco depois (398 a. C. cf. Ed 7:7). Um dos motivos
que Esdras parece ser anterior a Neemias é a teologia judaica
que subordinou a política à lei e a fé.
A principal missão de Esdras era ensinar e aplicar
(Impor) a lei de Moisés e legitimar a ação política de Neemias.
Assim, para Esdras, desobedecer a Lei de Deus era a mesma
coisa que desobedecer a lei do imperador (Ed 7:26). O objetivo
era estabelecer a ordem em Jerusalém numa época de crise
devido à conquista e revolta no Egito. Lei: Caminho, Verdade e Vida
A lei também vai exercer papel de formação da Caminho: Sl 119:1,3,37
identidade do povo hebreu (Ed 7-8 e Ne 8-10). Toda a Verdade: Sl 119:30, 138,160
comunidade vai se organizar em torno da lei de Moisés. Vida: Sl 119:37,40,50; Ne 9:29
Luz do mundo: Sl 119:105; 19:8
MALAQUIAS
Pf. Eduardo Sales
Surgiu em torno de 465 a.C. e reflete o esfriamento da fé e
o descaso para com a teologia do templo e as tradições 71
judaicas. É provável que fosse contemporâneo de Esdras e Página |
Neemias, exercendo seu ministério pouco antes destes, mas
sob o mesmo contexto social.
Quanto a autoria, o nome Malaquias pode ser interpretado
como “Meu mensageiro é Javé” (Ml 3:1), assim, Malaquias
pode não ser o profeta. Alguns escritores sugerem que tenha
sido escrito por sacerdotes levitas que atuavam no templo.
Seu objetivo principal é denunciar o descaso pelo culto,
pelo templo e pelas tradições. Nesse escrito aparecem
tradições populares e oficiais, ao mesmo tempo defende o
pobre e o culto no templo. O descaso dos sacerdotes pode ter
surgido devido às dificuldades da repatriação com Zorobabel e
Ageu, Josué e Zacarias.
Sua mensagem possui:
Teologia da Retribuição (2:17-3:5,13-21)
Defende o Templo e o pagamento de dízimos (3:6-12)
Usa a lei do puro e do impuro (1:6-2:9)
Usa a lei de pureza étnica (2:10-16)
Foi solidário com os pobres (3:4-5)
Seu estilo literário usa a ironia como forma de discurso.
Pode ser considerado como o livro do cinismo (Em que....).

Releitura de Malaquias 3:10


Geralmente tem sido interpretado a partir da teologia da
retribuição como forma de receber a benção de Deus. Outra
possibilidade é a ausência do dízimo ser lida como fruto do
pecado de incredulidade que levaria o povo a fazer prova de
Deus. Mas existe uma outra leitura relevante, que entende a
minha casa, não como o templo explorado pelo sacerdote, ou
pela monarquia, mas como casa de provisão para os
necessitados.
1. No livro, existe uma estrutura de pergunta resposta
cínica e ingratidão dos Sacerdotes (1:2a,6b; 2:17a; 3:13a), São
os sacerdotes que estão defraudando, não é uma crítica ao
povo (3:8).
2. Pela crítica, a solicitação de levar os dízimos à casa
do tesouro não tem relação com o templo nem com o palácio.
Uma outra tradução possível é armazém (ao invés de casa do
tesouro), casa de provisões para socorrer o povo (1Cr 27:25).
Dessa forma a benção de Javé não é comprada, mas
consequência da solidariedade e do cuidado para com o outro.
Assim o novo testamento também relê a crise dos
dízimos e ofertas que foram elevados ao status de
característica religiosa (Oração do Fariseu e do Publicano). A
teologia da retribuição releu o dízimo como sinal de bênção e a
pobreza (não dízimo) como sinal de maldição.
Jesus não invalidou o dízimo, principalmente porque
era uma forma atender a necessidade dos mais fracos (Tobias
1:4-7), mas questionou a falsa legitimação religiosa e a
opressão produzida por essa tradição.
O TERCEIRO ISAIAS 56-66
CONTEXTO E MENSAGEM
Pf. Eduardo Sales
O primeiro livro de Isaias (1-39) reproduz a atuação do
casal de profetas (Isaias e sua esposa profetiza) no séc.VIII 72
Página |
a.C. O segundo livro de Isaias (40-55) fruto de discípulos de
Isaias que profetizaram próximos ao término do exílio (550-540
a.C.). O terceiro livro é composto no retorno do exílio (538
primeira grupo que retornou), durante e após a reconstrução
do templo (520-500 a.C.).
Esse livro profetiza a partir do campesinato, no estilo de
Jeremias. Não se interessavam pelo templo, viviam a mesma
estrutura das tribos. Não aceitavam o projeto de reconstrução
do templo em aliança com o império persa.
Representa a resistência dos estrangeiros e dos
eunucos (Is 56:1-8). Enquanto os sacrifícios e a estrutura do
templo haviam sido feitas de uma forma exclusivista o 3º Isaias
propõe uma abertura para todos os povos (Is 60:10-11; 61:5;
66:18-20). Sua postura afronta até o Dt (23:2) afirmando o
valor dos eunucos (56:1-8) e questionando as listas
genealógicas da comunidade judaica (1Cr 1-9; Ed 2:1s; Ne
7:4-72; 11:1-12,26).
Embora admita a presença de Javé no Templo (56:7;
60:13) é radical na crítica ao exclusivismo da aliança no templo
(Ed 6:5,12,16), defendendo uma cidade aberta para todos
(60:11). Sua compreensão vê Deus no céu (Is 58:4b;
63:15,19b; 66:1) e na terra entre os humildes (57:15; 66:2).
O monopólio do sacerdócio de Sadoc foi questionado e
estendido a todos, inclusive estrangeiros (59:9s; 61:6; 66:20s).
Contra a teologia da retribuição, Javé é apresentado
como Mãe e Pai que consola seus filhos e filhas (63:7-10,15-
16; 64:7; 66:13).
Critica os rituais vazios do templo, principalmente o
jejum (prática comum de seus dias Zc 7:3,5;8:19; Ed 8:21-23;
Ne 1:4;9:1), refletindo sobre a justiça e o direito de irmão como
princípios da religião que agrada a Deus (Is 58).
Propõe um novo projeto contra a transformação do
santuário em local de lucro (Is 57:12b) aos moldes do impéiro
persa. Ele vê o novo céu e a nova terra (66:17-25).
Mesmo com suas ênfases o projeto dos repatriados foi
mais forte e a dominação persa prevaleceu. O templo tornou-
se símbolo maior e centro do seu projeto.

Contexto de Crise
O terceiro Isaias pode ter sido escrito pelas mulheres e
pelos pobres. No contexto tudo ainda está por reconstruir (Is
57:14; 58:12)os que desejam o templo se esquecem dos
pobres (57:1ss). Os pobres excluídos buscam seu lugar na
presença de Javé (Is 61:6; 63:16; 66:21). O tributarismo
vigente também é contestado (Is 62:8-9). A denuncia atinge os
religiosos que não querem partilhar o pão (Is 58:5-7), são
sentinelas cegos (Is 56:10-11). Movidos pela cobiça (57:17;
56:12) não ligam se morre o inocente (Is 57:1). Esse culto é
tão idolatra quanto o do povo que segue atrás dos ídolos.
PENTATEUCO
Pf. Eduardo Sales

Chave de Interpretação
A chave para a interpretação da literatura bíblica 73
não deve ser encontrada na situação original em que a Página |
literatura foi produzida, mas na reflexão teológica que
"reformou" as histórias antigas para uma nova geração de
ouvintes e leitores – as releituras.
Em vez de investigar a história da literatura como
os críticos do século 19 fizeram, von Rad achou melhor Metodologia Teológica:
investigar o texto na sua forma atual, isto é, "devemos como foi lido e
fazer a pergunta do significado que veio a ser associado compreendido, na
às narrativas" e não da história que está por trás das história.
narrativas. Somente a metodologia teológica seria capaz
de descobrir a intenção querigmática do texto bíblico.
Para von Rad, o Pentateuco nos apresenta um
retrato da história de Israel escrita pela fé e não pela
metodologia histórica do século XIX.

Contexto de Elaboração
Embora o Pentateuco narre fatos de épocas
passadas, sua escrita é bem mais recente. O estudo
acurado dos profetas e dos livros históricos permite
avaliar que o Pentateuco ou Hexateuco surgiu durante e
após o exílio.
Em primeiro lugar, a ausência de elementos
relevantes como a lei e a aliança na literatura pré-exílica
são as principais bases para compreensão do período de
escrita e sacralização do Pentateuco. De acordo com
Kaufmann (1989), o Pentateuco já existia, mas em forma
oral e preservado em alguns documentos, entretanto com
valor bastante limitado. A própria Bíblia testemunha que o
Rei Josias inicia uma reforma após achar o livro da lei
(2Rs 22). O contexto transmite a idéia de abandono e
total esquecimento.
Dessa perspectiva podemos compreender que o
Pentateuco começou a ser relevante para a comunidade
a partir da imposição do Javismo. Nesse Governo inicia a
primeira reforma deuteronomista.
Essa interpretação foi relida no mínimo mais uma
vez. As releituras foram conseqüências dos movimentos
históricos. A necessidade de justificar a decadência de
Israel foi um dos maiores motivadores da releitura
histórica que, foi solidificada a partir do exílio, com a
preservação das tradições e culturas (Dt 29:28).

.
GENESIS: O LIVRO DA BÊNÇÃO
Pf. Eduardo Sales

GÊNESIS - ‫(תישׂארב‬Berechit – No princípio)


Tema: Um Povo Abençoado por Deus
74
Página |
O Livro da Benção. (63 x)
A Benção à humanidade Gn 1:22, 28; 2:3; 5:2
A Benção Noética (benção da humanidade) Gn 9:1
A Benção Abraãmica (Abraão não era Judeu). Gn
12;2:17;24:1,35.
A Benção Ismaelita (Uma Grande Nação) Gn 17:20
A Benção de Isaque Gn 25:11; Gn 26:3ss, 24;
A Benção de Jacó (singularidade) Gn
27:29;28:3ss;28:14;32:29;35:9.
A Benção de José Gn 39:5; 48:15ss,
A Benção dos Doze. Gn 49:28

O Livro da Aliança. (23 x) -


Pacto de Suzerania.Gn 21:22-23;31:43-54; ISm 18:3-
4;IRs 20:34
Aliança Adâmica - Promessa Gn 3:15
Aliança Noética – Promessa Gn 9:1-17
Aliança Abraâmica – Promessa Gn 12:1-17
O Lívro dos Princípios

Questões Culturais

Tradições Escritas: (Javista, Eloista, Sacerdotal)


Mitologia: Criação - Dilúvio - Osíris - Mundo. (Babilônia,
Egito, Pérsia).
Geografia e História Gn 10. (1900a.C. a 1445 a.C.)
(Fértil Crescente) Suméria – Babilônia – Assíria –
Palestina – Harã - Egito

Tradições Religiosas:
Pedras Sagradas Js 4:19; 5:9-10;9:6;10:6 ISam 10:8
Árvores Sagradas Gn 12:6;13:18;21:33;35:4;Jz 9:37;Js
24:26
Águas Sagradas Gn 14:7;21:31;26:23-25

Os Nomes de Deus
El (Deus) – Elohim (Deuses) - El Elion (Criador)- El Olan
(Altíssimo)– El Shadai (poderoso)

O Deus Paterno Gn 31:53


O Deus todo Poderoso de Abraão Gn 35:11 El Shadai
O Temor de Isaque Gn 31:42
O Poderoso de Jacó Gn 49:24, ryba (Jr 46:15 – Touro?)
GENESIS: O LIVRO DA BÊNÇÃO
Pf. Eduardo Sales

Genesis a partir da Babilônia


De acordo com Mesters (1987), a situação 75
concreta do autor é formada por várias contradições: Página |
Contradição do Amor (Gn 3:16)
Contradição da Geração de filhos (Gn 3:16)
Contradição da Morte (Gn 3:19)
Contradição do Alimento (Gn 3:18)
Contradição do Trabalho (Gn 3:19)
Contradição da Criação (Gn 3:15)
Contradição relacional (Gn 4:24)
Contradição religiosa (Gn 6:1-2; 11:1-9)

O Autor de Genesis não escreve como quem


pretende narrar os fatos de uma história, mas escreve a
partir de uma situação real, procurando na história os
motivos e ações, tanto do homem como de Deus, que
contribuíram para a situação atual.

A Compreensão do Paraíso a partir da Babilônia


O paraíso (Jardim do Eden) não retrata o mundo
como era, mas como deveria ser. O Eden procura ser
exatamente o oposto da realidade que o povo no período
do exílio está vivendo.
Releituras:
A mulher não é dominada pelo marido, mas sua
Noé e o Dilúvio
companheira, igual (Gn 2:22-24).
A vida não é interrompida pela morte, pois há uma Sara e Abraão
árvore da vida (Gn 2:9). Caim e Abel
A terra produz frutos em abundância e não é
deserta (Gn 2:8-9).
O trabalho não é opressor, e rende, graças a Deus
(Gn 2:15; 2:10-14).
Os animais não se opõem aos homens, mas são
seus amigos e servos. (Gn 2:19-20).
Deus é amigo íntimo dos homens (Gn 3:8), não
existe violência, nem abuso das relações mágicas, nem
domínio abusivo do outro.

Releitura da criação
O Relato escrito em dois capítulos pode ser lido
como uma apologética dos deuses babilônicos. O
primeiro capítulo mostra que Elohim (deuses) criaram
tudo, mas no capítulo 2 as coisas mudam, Javé é o
criador de todas as coisas. É uma releitura a partir do
Deus libertador contra a visão dos deuses babilônicos.
Numa outra perspectiva, ainda o capítulo 1 é uma
releitura de oposição às diversas divindades babilônicas,
apontando Javé como único Criador.
GENESIS: O LIVRO DA BÊNÇÃO
Pf. Eduardo Sales

Releitura da Queda

Uma das principais releituras para a queda é a A Serpente, segundo a76 Página |
justificação da desordem e do caos. releitura de Mesters
Após a apresentação da criação e da perfeição do (1987) representa a
éden inicia a queda. Fica claro o confronto entre perfeição religião Cananéia com seu
de Deus e destruição do homem. Na história de Israel culto libidinoso, uma forte
esse texto foi usado para justificar a deportação para a tentação para Israel.
Babilônia (expulsão do paraíso), por meio do pecado.
Nessa narrativa o papel da lei é decisivo: Pela violação
de Adão e Eva (um homem e uma mulher) perderam a Outro detalhe é que a
benção de Deus (paraízo), da mesma forma, os Judeus serpente é apontada
exilados também perderam a benção (terra), porque não como criação de Deus 2:9
guardaram a lei. Essa história defende a justificação pela
lei: se Adão e Eva tivessem guardado a lei estariam
Outro ponto de releitura é a
salvos, ou seja, a Lei tem o poder de condenar e salvar ligação com o NT. A visão de
Outra nota dessa leitura antiga é a desvalorização Deus apresentada é cruel e
da mulher que foi identificada com o pecado, tornando-se legalista, o que representava
o motivo da queda dos homens (caiu por causa da a visão dos sacerdotes, mas
mulher). Com a compreensão da situação de opressão da no NT, Pedro nega Jesus
três vezes e é tratado com
mulher é possível reler esse texto como fruto da opressão maior misericórdia que a
patriarcal. mulher por comer apenas um
simples fruto.
Releitura dos Patriarcas

Em primeiro lugar devemos entender que a história


bíblica de Abraão não pretender ser um relato jornalístico, Abraão é o monumento
principal, mas está
mas a junção e elaboração de uma história a partir de representado por vários
diversos relatos e testemunhos. Essa junção tem por anos, culturas e histórias que
objetivo principal a afirmação e extensão da benção de foram reunidos em alguns
Deus a todos os povos. Esse é o princípio hermenêutico poucos testemunhos.
de Genesis. A partir de Abraão, toda sua descendência
se relacionou com outras nações: edomitas, cananitas,
A releitura pós-
egípcios, etc... e todos foram abençoados por meio da exílica relaciona Abraão com
intercessão do povo de Deus. os exilados. Ambos estavam
na Babilônia, tinham um
Abraão também está ligado à propriedade da terra. chamado de Deus para
Nas tradições mais antigas o Gênesis legitimou a ligação Canaã, possuíam uma terra
e uma benção prometidas.
da terra com a monarquia. Eram os representantes da Ademais, várias
bênção de Deus. Mais tarde foi identificado com os características das bênçãos
exilados (Elite deportada). Por meio dessa ligação, os estão ligadas à realidade do
pobres da terra poderiam ser expulsos e a terra povo no exílio (Gn 1:28).
retomada. Ou seja, o Genesis tornou-se o legitimador dos Abraão é o modelo a ser
seguido pelos exilados.
filhos de Abraão que usaram o nome de seu patriarca
para se arrogar sobre os mais fracos. Por esse motivo o
ideal de filho de Abraão (eleitos) vai ser questionado no
NT.
Avaliação – Profetas do Exílio e Pós-Exílio
Nome:________________________________ /______/2011

1. Sobre o Deuteronomio:
a. Influenciado pelos Sacerdotes
b. Influenciado pela Monarquia 77
e. Influenciado pelos profetas do Séc. VIII Página |
f. Escrito por Moisés
2. O Deuteronomio defende:
a. O Sacrifício, a Lei e o Direito de Irmão
b. A lei, o Direito de Irmão e o Culto Centralizado
c. A lei, o Sacrifício, o Sacerdote e os Profetas
d. A monarquia, os pobres, a lei e o Sacrifício
3 – A Teologia da Retribuição:
a. Ensina que Deus abençoa quem vive pela fé
b. Ensina que Deus abençoa quem vive pela lei
c. Ensina que Deus abençoa os ruis
d. Ensina que Deus Abençoa os bons e amaldiçoa os
maus.
4 – Segundo o Deuteronomista, os culpados do exílio:
a. os Reis
b. os Sacerdotes
c. a idolatria
d. a prostituição
5 – Quais principais características do Exílio:
a. Nova Eleição, nova identidade, Revisão do Culto
b. Sábados, Sacrifícios e Eleição
c. Eleição, Sábado e a Circuncisão
d. Separação dos impuros
6 – A Lei de Puro e impuro
a. Era a principal norma de Santidade do Povo
b. Eram Padrões Bíblicos de Santidade
c. Influência Persa que definiu as relações de classe
d. Base de construção do judaísmo pós-exílico
7 – Como Ezequiel viu Deus?
a. Longe, distante
b. Religioso e legalista
c. Próximo e cortês
d. Disposto a acompanhar os eleitos
8 –O que é o Novo em Ezequiel?
a. Uma nova Vida
b. Uma nova disposição
c. Um novo Caminho
d. A Renovação do Velho
9 – Como o Segundo Isaias vê o Servo Sofredor?
a. O Messias
b. Um líder Carismático do Povo
c. Um Rei
d. Israel sofrendo como sinal para os outros
EXODO
(we’elleh Shemoth são estes os nomes)
Mitologia:
Tema: Eu serei vosso Deus e vós sereis meu povo(149x) Azazel 16:8, Is 13:21;34:14;
O Sábado 23:1ss 78
I - Questões Exegéticas O sangue (conceito de Página |
pecado e salvação) 17:11s
O Meu Povo: (20 x) Ambiguidade e Impureza:
Aflição do povo de Deus 3:7 Nm 9:6-14; Lv 12:1-8; (Lv
Missio Dei ao ‘Meu povo’ 3:10 15:31)
Meu povo e Eu serei vosso Deus (Deus próximo 6:7)
Povo Chamado para Servir 7:16; 8:1,20; 9:1,13; 10:3

A Formação do Povo.
A necessidade 3:7
A lembrança da Aliança 3:6; 6:8
A promessa de uma terra melhor. 3:8; 6:8
O Livramento 3 a 15:21; 24:30;18:10; A tradição do Êxodo vai
O Senhor que te Tirou da terra do Egito ser formada a partir
12:42;16:6;20:2; desses três testemunhos,
O Salvador entre seu povo 17:7;25:8;29:45,46; fortalecendo sempre a
O Senhor entre os deuses 18:11 tradição do Êxodo, de
Uma nova vida (nova ordem social) Ex 13 forma que nessa tradição
as outras se completam.
A Formação do Povo As diferentes tradições
se verificam em O rio que
Quando lemos o Pentateuco somos tentados a ler se tornou em sangue (Ex
apenas três capítulos: Gn1 – Deus criou a humanidade; Gn 3 – 4:9; 7:19; 7:20);As pragas
O pecado afastou a humanidade de Deus; Ex 20 – A Lei é a (Ex 15; Salmo 78:41ss;
provisão de Deus para o pecado. Essa é a leitura tradicional. 105:26).
Entretanto, um olhar mais cuidadoso percebe que esses livros
não querem expressar essa idéia. Assim, as novas leituras,
com apoio da pesquisa historiográfica, defende que o coração
do Pentateuco não é a Lei, mas a libertação do Egito.

As tradições do Êxodo não estão vinculadas ao Sinai.


Nos textos de Dt 26:5-9 e Dt 6:21-23, não se fala de uma
aliança ou de uma lei. Isso aconteceu porque o centro da
confissão de fé não era a lei, mas a libertação do povo. A lei
era lida a partir da libertação e não o contrário. Apenas na
confissão de Ne 9 que o Sinai aparece nas confissões, isso
porque o Êxodo vai ser relido a partir da realidade do exílio,
enfocando a necessidade de cumprir a lei.

As tradições de Dt 26 e 6 e a de Js 24:2-13 não falam


nada sobre o Sinai, são de Canaã e do Egito, diferente de Jz 5
que narra uma ligação com o Monte do Senhor, mas que não
fala nada de um Êxodo ou libertação do Deserto.

Em todas essas narrações um fato é relevante: Javé é


o Deus libertador, que luta pelos fracos, que é identificado com
as montanhas que destrói os grandes e liberta os escravos.
OS 10 MANDAMENTOS E A RELEITURA DA LEI
Pf. Eduardo Sales

Uma das questões mais difíceis para compreensão da O Novo Testamento também
Bíblia é a Lei. Em primeiro lugar precisamos tratar da definição propõe reflexões diferentes
e do alcance do terminológico. para a Lei. Os Fariseus e 79
Página |
A Lei no antigo testamento não é algo homogêneo. Os Saduceus usam o termo Lei de
profetas possuem um conceito de Lei, o escritor acordo com a Torá, e são
Deuteronomista (responsável pelos livros históricos) possui chamados de discípulos de
outra compreensão de Lei, os sacerdotes possuem outra Moisés (Mt 23).
compreensão da Lei, e os escritos de sabedoria também Jesus e os escritores do Novo
trazem um conceito singular de Lei. Testamento seguem a posição
A construção da Lei de Deus é montada a partir de dos profetas, para eles, violar a
duas perspectivas: A Lei, atuando como ritual e social Lei de Deus era violar o
(Deuteronomista e Sacerdotal) e os profetas corrigindo e relacionamento com Deus e
transformando em Lei de Deus. Os profetas atuam como uma com o próximo. Mt 5:17,18;
7:12; 22:40; Lc 16:29; 31.
espécie de jurisprudência, corrigindo e adaptando as
Zimmerli acredita que a palavra
diferenças entre a lei escrita e sua intenção.
profética foi perdendo espaço e
Jr 8:8 afirma que Lei de Deus pode ser falsificada e
prestígio (At 13:15; Lc 4:17).
tornar-se mera letra. Ez 20:25ss - condena a Lei. Essa Lei
Uma das características era a
condenada foi a estrutura ritual criada por Josias 2Rs 22ss. elevação da Torá que não podia
Tratava-se da coleção dos escritos de Sacerdotes e escribas ser lida por crianças, mas os
sobre Javé e seu relacionamento com o povo de Israel. O profetas poderiam ser lidos.
mérito deuteronomista foi ligar essa lei com as promessas e Outro detalhe importante é o
com a aliança (Ex 24) por meio da celebração cultica de termo: "depois da leitura da lei
Moisés. e dos profetas" que mostra a
O período de renovação ética dos profetas perdeu sua prerrogativa da Tora sobre as
vitalidade no período de Esdras e Neemias onde o Povo de demais leituras e tradições.
Javé degenerou-se em Povo da Torá. Não há uma tensão sobre o
Com o surgimento da Lei morre a liberdade, não apenas termo lei e profetas, mas uma
na esfera de culto, mas também o espírito religioso. É a morte combinação corretiva,
do profetismo. Pode-se dizer que Jeremias foi o último profeta evolutiva. Mt 11:13; Jo 1:45; (Lc
livre, os que vieram depois só eram de nome. O profeta 24:27; At 26:22) Rm 3:21.
Ezequiel devora um livro e o vomita (Ez 3) representando a
negação da Lei.
A Lei existe em dois momentos: no primeiro
subordinada ao pacto das tribos que era renovado em
celebrações periódicas, comemorativas da eleição e libertação Releitura: Segunda Tábua
do povo e, de outra parte, no pós-exílio a lei se desenvolve Uma das questões mais
para uma magnitude absoluta, a-histórica, autônoma, críticas foi as tábuas. A
imperativa. primeira tábua de Ex. 20
O Antigo Israel não concebe um código legal rígido e imutável, possui conteúdo diverso da
segunda tábua, Ex. 34.
mas cabe interpretações. Os preceitos não eram leis, mas
Na primeira tábua é o direito
experiências históricas do relacionamento com Javé, e diante de irmão, uma realidade
delas deveria se tomar uma postural vital. No pós exílio a lei se social enquanto que a
liberta da história e torna-se absoluta. Há uma mudança de segunda tábua apresenta a
direção, Israel passa a se alegrar na lei e não em Javé (Sl 1 e realidade sacerdotal é a
119). tábua do sacerdote com
regras e rituais.
Apenas os profetas pregam a lei em sentido teológico como É um projeto pós-exílico. É
sendo divina. Moisés apresenta a lei como testemunho de provável que os sacerdotes
libertação. A lei em sentido teológico é um codigo capaz de tenham escrito a segunda
tábua para legitimar sua
manter ou expulsar o homem da aliança.
teologia ritualista e sacrificial.
Releitura da Arca
ALIANÇA: Deslocamento de Sentido
O Profeta Jeremias faz uma
releitura a arca da aliança
A aliança surge a partir da relação Deus-Povo. A entendo como um momento
libertação do povo é o início da dádiva da aliança. Deus ouviu da fé antiga de Israel, como
seu povo e mesmo sem méritos o resgatou e deu a Aliança, um tempo em que o povo
não como relação entre partes, mas como dádiva. Pois a precisava dela como80 se
aliança não garante a presença de Deus, não é por ela que o fosse um amuleto, um ídolo Página |
povo foi salvo, mas ao contrário: pela libertação e dádiva de (Jer 3:16)
Deus é que temos a aliança. É a presença de Deus que
garante nossa aliança. Nessa leitura a aliança é o resultado da
Outras Notas:
presença de Deus e não uma lei para garantir sua benção. É
Endurecer= Sofrimento (10:1)
porque Deus está presente que temos a aliança.
Sacrifícios (10:25-26)
Num segundo momento a aliança ganhou propriedades
Despojo (11:2)
mágicas. A elaboração cultual e ritual propiciou formulas e
Morte dos primogênitos (10:5)
trocas entre Javé e o povo. A formação dos templos, dos Cordeiro Pascal (12:4ss)
sacerdotes e dos rituais solidificou a fé em preceitos rituais. Sinal de Sangue (12:22-23)
A relação Deus-Povo foi substituída pela relação Rei- Mistura de Gente (12:38)
Povo. Aqui a aliança deixou de ser uma dádiva de Deus e Excluídos da Páscoa (12:43s)
passou a ser um contrato entre partes. Deus abençoa a quem Resgate primogênitos (13:15)
guarda a aliança. Essa benção é mediada pelo Rei, agente e Teologia da Retribuição (15:1)
filho de Deus. Essa teologia também encontrou respaldo na Livro da Aliança (19:5ss)
eleição encontrada no Genesis (15:1s; 22:16-18; 26:2-5; Santidade Material (19:10)
27:27,29b; 28:10s; 30:10s; 35:1s; 48:15s,20). Isso foi uma
degradação da aliança do êxodo, uma desvalorização natural,
vinculada à descendência que será pregada principalmente no
pós-exílio, momento em que a ligação com o êxodo foi rompida
(Is 41:8s; 51:2; Ne 9:6s; Sal 105:7s; Mq 7:18s).
Nos profetas clássicos o tema da aliança tornou-se
secundário (Os 6:7; 8:1; Am 3:2). Entretanto as afrontas à
torção da aliança estão sempre presentes (Am 4:4s; 5:5s;
8:10-14; Os 4:8; 4:14s; 5:1s; 7:14; 8:11s; 9:1s; Is 1:11s; 29:13).
Para os profetas clássicos a aliança é identificada no
relacionamento de coração (Os 6:4s; 7:13; Is 1:3; 5:1s; 7:9; Jr
2:1s; 3:19s; 5:1s; etc).
Muito mais profunda é a perspectiva Sacerdotal. A
aliança foi ligada exclusivamente à história da salvação. Essa
releitura viu em Abraão o único vínculo com a circuncisão,
abandonando todos os elementos cultuais, fazendo da aliança
o elemento diferencial (salmo 105).
Essa perspectiva vai receber uma releitura de Jeremias
que revelou a decadência e os defeitos da aliança sinaítica
renovada em Josias (Jr 31:31s). Com Jeremias a idéia de
aliança avança para o relacionamento pessoal e interior, como
em Ezequiel (Ez 16:8,59s; 20:37) que inclui a perspectiva
escatológica (Ez 34:25; 37:26).
No Pós-Exílio o termo aproximou-se da idéia normativa.
Aliança é o composto de direitos e deveres do fiel (Sl 25:10,14;
44:18; 50:16).
No período do cronista esse termo passa por nova
releitura onde significa “culto” e “religião” (Dn 9:27; Zc 9:11).
No NT o termo aliança é revisto a partir do AT. O termo
ganha maior profundidade em Mt 26:28. Como também em
2Co 3:6,14; e principalmente Hb 8:6-10 que afirma claramente
a debilidade da antiga aliança.
LEVÍTICO /Wayyicra – E ele Chamou
Pf. Eduardo Sales
Questões Culturais

Tema: O povo que se chama pelo meu nome deve Tradições Escritas:
possuir uma nova natureza: “Sede Santos, pois eu sou o (Javista, Eloista, Sacerdotal)
Senhor, vosso Deus” Lv 19:2. 81
Página |
Tradições Religiosas:
Jetro – Sacerdote professor.
Questões Exegéticas Ex 3:1;4:18; Ex.18:12,14ss

Eu Sou o Senhor (49x) Geografia e História


O único, aquele que te salvou –11:45; 19:36; 22:33; (1445a.C.)
23:43; 25:38; 55.Quem é o vosso Deus?Eu Sou o Senhor IRs 6:1 templo em 967;
Jz 11:14
seu Deus, Não há outro. 11:54, 18:2.
O Sacrifício do Sinai. Ex
Sede santos 19:5-8; 24:4-8
Santidade que exige transformação 18:4;20:24;
Pureza e Impureza Legal (higiene) - Alimentos 11 A arca e o tabernáculo:
Árabes. Ex 33:7
Consagração (Não contaminar) 11:44 Arca: Mistério
Mulher (Parto e o fluxo de Sangue)12
Doenças da Pele (roupa e casa 13,14)
Secreções sexuais 15
Sacrifícios ilegais 17
Relações Sexuais Profanas 18
Práticas diversas 19
(pobres, explorar, fofoca, transgênicos?,etc) Em Levíticos santidade é
Cultos proíbidos 20 (lugar santo 9x) não-contaminação,
Santidade dos sacerdotes 21(exclusão do diferente) enquanto o novo
O Sábado, as Festas e o templo 23 e 24 testamento apresenta
Benção, maldições e as tarifas do templo 25-27 santidade como
aproximação de Deus em
Por que Eu Sou Santo
Jesus.
Santidade que exige resposta 21:23;22:3;9;
Somente de Vocês?
Deus Solteiro, Celibato?
Único, misterioso 16:2
O Deus Santo é o Deus Absconditus.
Santidade que Destrói 16:2
Consagração (encher as mãos)

Questões Teológicas
O Sacro e o Profano 10:10 (Nadabe e Abiu)
Santo como separado 6:10
Sant – 83x
Expiação 45x
Perdão 12x
Aproximar, fez chegar, encher a mão 30x
O Deus Santo, - Deus absconditus de Lutero.
A transcendência e Imanência de Deus.

Santo que exige santidade


O Código Sacerdotal
Pf. Eduardo Sales

O Levíticos é um livro pós-exílico, cujas


características remontam a Ezequiel. Indica notável
82
preocupação ritual, sacrificial e nas determinações do Página |
puro e impuro.

Pureza e Impureza Ritual


No pré-exílio a questão da pureza e impureza não
ocupava lugar central. Na saída do êxodo o povo não
possuía serviço sacerdotal ou teológico organizado, a
santidade era determinada por outras culturas, não como
necessidade ética e moral, mas como necessidade ritual.
A santidade no povo hebreu vai ser determinada
na aliança davídica. O Rei e sua identificação como filho
de Deus, como ungido do Senhor, que edifica a casa do
Senhor, vai trazer conseqüências santificadoras para o
povo. O monte será santo (Sl 2:6); Santo Templo (Sl
11:4); O rei se torna santo (Sl 16:10; 89:18-20); o povo se
torna santo (Sl 30:4; 31:23; 34:9; 37:28); a cidade se
torna santa (Sl 46:4; Ne 11:1; 11:18); os sacerdotes e
ritualistas se tornaram santos (Sl 50:5).
Com o exílio essa aliança vai ser questionada e
substituída pela aliança Sinaítica. Isso aconteceu quando
Josias reconheceu a lei do Senhor que estava perdida
(2Rs 22). A partir dessa renovação da aliança a lei
começara a ser o padrão de santidade.
Somente nos dias após Josias, principalmente no
exílio e pós-exílio o sacrifício e a lei (costumes principais),
desenvolveram caráter de Santo (Ne 9:14s).
Paralelo a esses escritores os Profetas também
questionavam e ensinavam sobre a santidade. Para estes
a santidade não era externa ou ritual, mas vivencial e
interior (Is. 58).
É provável que muitos judeus usavam a lei e o
sacrifício para se justificar (Ne 9), por isso os profetas vão
questionar tanto o sacrifício quanto a lei (Os 6:6; Is 1; Am
5; Jr 7; Mq 3; Jr 31; etc...).
É nesse contexto que nasce o livro de levíticos. Na
exaltação do sacerdócio e do sacrifício que, após o exílio
torna-se obrigatório (Legal – Ed 7:25-26).
O Código de Santidade: “Sede Santos porque Eu
Sou” (Lv 20:7ss), torna claro a identidade pós-exílica, pois
concentra a santidade na prática de estatutos (Lv 20:8),
acrescentando a condenação de morte para todos que
não os cumpirem (Lv 20:9ss); a essa promessa e
condenação foi ligada a aliança e eleição “vos separei de
todos os povos” (Lv 20:24,26).
Releitura Material de Levíticos
Pf. Eduardo Sales

Uma das principais características de Levíticos é a


sacralização de objetos, corpos, comida, trabalho e
83
relações humanas. Essa postura foi necessária devido às Página |
restrições do domínio Persa (aprox. 530 a.C.), nesse
período o poder político foi subjugado ao sacerdócio.
Como não havia poder político organizador, a religião
assumiu esse papel. Dessa forma, o livro de levíticos
representa a utilização da religião para legitimação do
direito e organização social.
A credibilidade do documento foi sustentada a
partir do vinculo autoral com Moisés. Entretanto, o valor
do livro tem sido questionado. A ênfase sacrificial e os
conceitos rituais de puro e impuro, classificação de
pessoas, animais e comidas tem produzido estranheza ao
leitor cristão. Por isso, para uma melhor compreensão de
Levíticos é preciso situá-lo dentro do conflito Persa. O
Levíticos pretende ser uma forma religiosa de organizar
as crises materiais da sociedade judaica.
A compreenção de Levíticos é melhor construída a
partir de seus elementos materiais. Por que oferta de
animais e vegetais? Por que não ofertas de artezanato?
Qual a função social dessas ofertas?
A oferta é vinculada ao meio de produção. Oferta-
se o que se produz e não pode ser o resto da produção.
As ofertas eram formas de revelar distinção de classes
(Lv 7:23; Is 1). Os animais e produção agrícola eram
ofertados principalmente pela ausência de moeda. Nesse
período as negociações eram realizadas pelo sistema de
troca. Com o desenvolvimento das cidades a moeda
passou a ser algo mais comum, até que o sacrifício fosse
substituído pelo dinheiro (Mt 21:12-17). Como meio de
produção, a oferta representava a legitimação da vida.
Nesse sistema, o papel dos sacerdotes estava na
classificação os valores. O sacerdote classificava o tipo
de animal, o tipo de oferta e o tipo de ofertante. Não era
um papel espiritual, mas material. Sob esse prisma
compreende-se que puro e impuro não eram elementos
espirituais, mas sociais. Puro era o que estava de acordo
com as ordens do governo, e impuro era o seu oposto. O
sacerdote atuava como um fiscal da receita federal:
classificava as pessoas e os bens matérias sob uma tarifa
tributária. Esse movimento possui como consequência a
valorização e reconhecimento social.
Dessa perspectiva, a padronização da pureza (Lv
11-16) não é uma norma de aceitação divina, mas uma
questão de governo e controle social.
Sacrifício pelo Pecado
Pf. Eduardo Sales

A releitura do antigo testamento permite uma Wellhausen (1895) afirmou


melhor compreensão de elementos como a lei e a que o sacrifício pelo pecado
era totalmente 84
aliança. Nessa perspectiva hermenêutica chegamos à Página |
conclusão, em aulas passadas, que a Lei e a Aliança, desconhecido antes do exílio
embora já existissem nos dias de Moisés, não exerciam “não há os mais ligeiro traço
autoridade absoluta. antes de Ezequiel”.
As leis e a aliança eram compreendidos como
resultado da libertação do povo, não eram obrigatórias ou
sacras. Entretanto, com o exílio babilônico, esses
elementos foram super-valorizados. A aliança vinculada a
Abraão e renovada pelo povo com Moisés no monte
Sinai. Os teólogos da Babilônia, diante do fracasso
religioso de suas teologias anteriores, renovaram sua
forma de ler a história de seu povo enfatizando a
necessidade de cumprir a lei para renovação constante
da aliança. Essa atitude fez com que toda a vida do povo
dependesse da Lei.
Entretanto, os profetas e os escritores do Novo
Testamento nos revelam que houve uma super-valoriz
ação do Pentateuco. Para que a teologia principal fosse a
lei e a aliança era preciso exaltar o pecado. Assim, os
escritores transportaram a interpretação da lei como
salvadora para o início da história do povo hebreu.
Classificaram o povo como pecadores e exaltaram a lei e
a aliança como forma de libertação do pecado. Mas como
entender o sacrifício como forma de libertação do pecado
se os próprios profetas já criticavam o sacrifício? (Jr 7; Is
1; Am 5; Os 6:6; Mq 2; etc...).
Segundo os profetas Deus nunca pediu sacrifícios.
Para a teologia dos profetas o perdão dos pecados e
restauração da aliança deveria acontecer no ato de
conversão, de mudança de vida, de Temor a Deus
aplicado na vida do povo (Os 6:7; Jr 31:31ss).
A ausência de crítica sobre o sacrifício pelo
pecado e a ênfase legalista na restauração da aliança
faz com que esse ritual seja pós-exílico e, como o autor
de hebreus já releu, como algo que nunca perdoou
pecados (Heb 10).
Outra releitura relevante é sobre o sacrifício de
Cristo. Não deve ser lido a partir da compreensão do
sacrifício pelo pecado, pois dessa forma Jesus validaria o
ritual que os profetas e os escritores do NT conderam.
Jesus não morreu para perdoar pecados pelo
derramamento de Sangue, mas, segundo a releitura de
Paulo, para que todos (não apenas os judeus) tivessem
acesso à salvação (Gl 3:13-14).
NÚMEROS – (Bemidbarth – No Deserto)
Pf. Eduardo Sales O tema do Deserto é também
fundamental neste livro e foi
Tema: A organização social do povo santo que, diante das dos que teve maior
dificuldades, rebeliões e incredulidade, alcança a promessa ressonância, tanto no resto do
depossessão da terra. O livro registra, durante 38 anos, Antigo Testamento como 85 no
Página |
os fatos importantes antes da morte de Moisés e da Novo: o povo de Israel,
entrada do povo em Canaã, a terra prometida. peregrino pelo deserto
durante “quarenta anos”,
tornou-se o protótipo do
QUESTÕES EXEGÉTICAS novo povo de Deus, guiado
Salvos para Servir (instruções sobre o serviço de Deus) por Jesus Cristo, que também
Na Guerra 1 foi ao deserto (Mt 4,1-11; Mc
No Tabernáculo 3-4 1,12-13; Lc 4,1-13). Jesus
Vida Nazarena 6 Cristo é, para este novo povo
Nas dádivas 7 liberto, a água viva (20,2-13;
No serviço Aaraônico e Levita 8 e Jo 4,1-26), o verdadeiro
maná (11,6-9; e Jo 6,26-58),
Até quando... Nm 14:11,27. a verdadeira serpente de
8 rebeliões (37anos e 11 meses) bronze que salva o seu povo
Contra o caminho de Deus 11:1-3 (21,4-9; e Jo 3,13-15; 1 Cor
Contra a comida 11:4-35 10,9-11).
Contra o Líder 12
Contra a terra prometida 13-14
Contra o Juízo de Deus 14:39-45 Releitura Sacerdotal
Contra as Ordens de Deus 16-17 (Nm 18)
Contra a provisão de água 20:2-13
Contra as provisões de Deus 21:2-9

Deus entrega as nações nas mãos de seu povo


Arade 21:1-3
Sion e Ogue 21:21-35
Midianitas 31
Preparatórios para a posse da terra 32-36

QUESTÕES TEOLÓGICAS
Temas:
Serviço- 68x
Terra 110x
Levitas 46x
Povo 90x
Senhor 357x

Cristologia
Dinastia davídica (24,17).

Teologia
Importante é ainda o tema da Tenda, 69X - Apontado como
lugar da Presença (Shekkinah).

Teologia da vida Cristã


O tema do Deserto 46X
NUMEROS 18 – UMA RELEITURA
Pf. Eduardo Sales
Violência Contra a Mulher
Num 18:6 Eu, eis que tomei vossos irmãos, os levitas, do Nm 5,11-31 Adultério
meio dos filhos de Israel; são dados a vós outros para o 86
Nm 12,1-16 Castigo Miriam Página |
SENHOR, para servir na tenda da congregação.
Nm 18:7 Mas tu e teus filhos contigo atendereis ao vosso Nm 20,1 Morte de Miriam
sacerdócio em tudo concernente ao altar, e ao que estiver Nm 25,1-18 Massacre Cosbi
para dentro do véu, isto é vosso serviço; eu vos tenho Nm 27,1-11 Herança
entregue o vosso sacerdócio por ofício como dádiva; porém o Nm 30,1-16 Voto de Mulher
estranho que se aproximar morrerá. Nm 31,1-18 Midianitas
Essa primeira releitura propõe a exclusão de qualquer Nm 32,26 Rebanhos e Filhos
outra forma de serviço sacerdotal.
Nm 36,1-13 Controle da
Num 18:8 Disse mais o SENHOR a Arão: Eis que eu te herança
dei o que foi separado das minhas ofertas, com todas as
coisas consagradas dos filhos de Israel; dei-as por direito
perpétuo como porção a ti e a teus filhos.
Num 18:9 Isto terás das coisas santíssimas, não dadas
ao fogo: todas as suas ofertas, com todas as suas ofertas de
manjares, e com todas as suas ofertas pelo pecado, e com
todas as suas ofertas pela culpa, que me apresentarem,
serão coisas santíssimas para ti e para teus filhos.
Num 18:10 No lugar santíssimo, o comerás; todo homem
o comerá; ser-te-á santo.
Além da reforma sacerdotal, Números também
legitimou uma reforma tributária. Todas as ofertas eram
para Arão e os dízimos para os levitas. Como as ofertas
eram “santas” todos que delas provassem eram
santificados. Outras ofertas estão entre (18:11-21, 24).

Num 18:22 E nunca mais os filhos de Israel se


chegarão à tenda da congregação, para que não levem sobre
si o pecado e morram
Essa releitura sacerdotal procurou confrontar
qualquer que se levantasse como profeta, assim como
assegurou a autoridade e legitimação do oficio sacerdotal
hereditário.
A partir dessa releitura ninguém mais poderia falar
diretamente com Deus. O povo deveria procurar a Deus
sempre por meio dos levitas ou dos sacerdotes. Esse
movimento acabou por centralizar o culto e os rituais
colaborando para a construção de uma religião ritualista e
externa.
Outro detalhe importante é que no livro de
números, a santidade é algo material. Os sacerdotes
eram santos porque comiam das ofertas. Não era moral
ou espiritual, mas material. Dessa perspectiva o fiel
poderia ser santo e pecador ao mesmo tempo.
Esses conceitos foram relidos pelo Novo
Testamento de forma que a santidade deixou de ser algo
material e tornou-se algo moral e espiritual (Mc 7; Mt 12).
Avaliação – Pentateuco
Nome:________________________________ /______/2012

1. Qual a chave de interpretação do Pentateuco?


a. Contexto histórico
b. Contexto Cultural 87
c. Contexto Pastoral Página |
d. Momento de Escrita
2. Qual o conteúdo de Genesis
a. Livro dos princípios
b. Livro das origens
c. História da Benção de Deus para a humanidade
d. História Benção de Deus para os Hebreus
3 – Qual o principal contexto para entender Genesis 1-11?
a. Egito
b. Mesopotâmia
c. Exílio Babilônico
d. Canaã
4 – Qual a teologia do Êxodo?
a. Javé é o Deus de Poder
b. Javé é Deus dos pobres
c. Javé é o Deus de Ira
d. Javé é o Deus do Milagre
5 – Quais as leis da segunda tábua de Moisés?
a. As mesmas da Primeira
b. As leis egípcias
c. Leis rituais e sacerdotais
d. O direito de Irmão
6 – Qual a mensagem principal de Levíticos?
a. Teologia dos levitas
b. O puro e o impuro
c. Códigos e rituais sacrificiais
d. Código de Santidade

7 – Qual a mensagem central de Números?


a. A enumeração do povo
b. A santidade
c. As revoltas no deserto
d. A perseguição das mulheres
8- Como Deus é retratado no livro de Números?
a. Deus de Amor
b. Deus de Graça
c. Deus de Ira
d. Deus de Raiva
9 – Qual a relação do Pentateuco com os Sacerdotes?
a. Fonte de autoridade e poder
b. Testemunho da graça
c. Palavras de Deus para inspirar a fé no povo
d. Uma boa forma de lucrar com a ignorância do povo
10 – Escreva em poucas palavras o que você aprendeu no
pentateuco: (pode usar a lateral e o verso
LITERATURA DE RESISTÊNCIA
ENTRE O PERÍODO PERSA E GREGO p. 83 e 84

Pf. Eduardo
88
Página |
A formação do pensamento judaico desenvolveu-se a
partir do exílio. Houve o fortalecimento da teologia do Templo,
a pregação da supremacia sacerdotal, a imposição da Lei,
foram temas desenvolvidos pela classe que apoiava a elite.

Antes do exílio os profetas levantaram a bandeira do


povo contra a opressão da monarquia. No pós-exílio, até os
profetas (Ageu e Zacarias) voltaram-se para a centralização do
segundo templo. Aos poucos, o lugar da profecia foi sendo
substituído pelo templo, e a intermediação profética foi
transferida par ao sacerdócio que controlava o altar, o templo,
a escrita e a Lei.

Mesmo sendo perseguida a profecia não desapareceu,


a resistência popular não sumiu, mas se atualizou. Nesse novo
período a profecia será escrita em forma de sabedoria popular.
O mesmo apelo profético de resistência a favor do povo surgiu
na literatura de Jó, em Jonas, Rute e Cantares.

Esses livros, embora não estejam classificados como


sapienciais possuem uma forma literária de sabedoria, que é a
novela. Esses livros tiveram sua edição final aproximadamente
em 400 a.C. quando o projeto do segundo templo foi imposto
pela classe sacerdotal. Seus temas são: a critica da lei de
pureza étnica (Jn, Rt e Jó), a doutrina da retribuição (Jó e Jn) a
lei do puro e impuro e a inferiorização da mulher (Ct),
defendem o pobre (Rt, Jó).

Quanto ao estilo literário, a novela, não pretende ser


um conto histórico, mas uma mensagem profética utilizando
personagens, locais e elementos históricos. Seu objetivo não é
narrar um fato, mas expor uma crítica ou uma tradição de fé.

.
JÓ: O CLAMOR DO OPRIMIDO
Pf. Eduardo Sales

A estrutura do livro é compreendida a partir de seus


conflitos internos de forma a separá-lo em dois livros: 1 – (1:1-
2:10 e 42:12-17) começo e fim do livro, prováveis retoques No livro existem várias 89
Página |
sacerdotais. 2 – O restante, o miolo do livro, reflexão central de Jó contradições que indicam
e da teologia sapiencial. A primeira e última parte são chamadas dois volumes: Em 1:22, 2:10,
de portas da casa (Dietrich, 1996). É uma história muito antiga. diz que Jó não ofendeu a
Deus, mas em 7:17-27; 9:20-
Ezequiel cita Jó com Noé e Daniel (Ez 14:14).
24; 13:3,18-27; 16:8-20;
O primeiro livro prega a teologia da Retribuição, onde 24:12, Jó faz várias e sérias
Deus dá riqueza e vida longa para aqueles que aceitam tudo, acusações a Deus. No
mesmo o sofrimento, como sendo proveniente de Deus. Os capitulo 1 Jó é um sheik
pobres são pobres porque não confiaram na justiça de Deus, são árabe muito rico e em 29 e
pecadores. Já no segundo livro, nos quarenta capítulos do miolo, 31, é um sábio líder tribal. No
a teologia presente é da rebeldia de Jó que questiona os texto de 19:17 narra-se que
fundamentos da teologia da retribuição. É a teologia a partir do sua família tem nojo dele,
sofrimento. mas no primeiro livros seus
O Dr Dietrich, (1996) afirma que as portas, mesmo sendo familiares morreram. No
capitulo 30:12-15, a
diversas, foram juntadas a casa para possivelmente limitar a
destruição de Jó não foi
rebeldia e domesticar essa teologia a partir do sofrimento. Para causada por fenômenos,
entender as portas, Dietrich fala que devemos olhar pelas janelas mas por pessoas próximas.
e contemplar o contexto.
O livro composto no pós-exílio (450-350 a.C.), período de
exploração e dominação (Ne 5). Muitas famílias destruídas e
escravizadas perderam tudo e foram obrigados a escravizar-se.
Veja que interessante: A teologia das portas pede a estas
pessoas que perderam tudo (propriedades,filhos e até a saúde),
sejam pacientes como Jó que perdeu tudo e no fim foi muito bem
recompensado. Essa mensagem era muito cômoda para os ricos
opressores do Templo. Uma forma de abafar o clamor de Jó
descrito no miolo do livro.
Assim, para conhecer o interior dessa casa, devemos
entrar pelas janelas. Essa situação de crise do povo é chamada
de “cozinha da casa” por Dietrich. “A cozinha era a vida do Povo”
(Dietrich, 1996, 23). Infelizmente a porta esconde a cozinha.
Quando entramos pelas portas podemos não ver a cozinha. Mas
é nela que vemos a realidade e dureza da vida. Na cozinha dos
trabalhadores não tinha mais comida, o povo estava escravizado
e empobrecido. No pós-exílio o templo tornou-se mais opressor
ainda. Passou a cobrar imposto para os sacerdotes e para a
Pérsia. O povo somente poderia participar das cerimônias se
pagasse sacrifícios e ofertas. O sacrifício de purificação e
expiação do pecado surgiu nesse período como um reforço para o
sustento sacerdotal e Persa.
O clamor da Cozinha atravessa as portas. As mulheres se
levantam contra as lideranças sacerdotais (Ne 5), mas são
desautorizadas pela tradição das portas (Jó 2:9), assim como
pelos livros sacerdotais da Lei (Lv 15:19-33; 12:1-5).
É no quarto que a história muda. No quarto está o
profundo clamor de Jó (3:3-4). Não é nada paciente, mas
desesperado. A miséria é seu maior sofrimento. Não está falando
dos sofrimentos narrados na porta, mas dos sofrimentos da
cozinha (3:11-20).
É a opressão e exploração os principais sofrimentos de Jó (3:24-
26). Esse era o clamor das famílias que perderam tudo para os
nobres e abastados, que as portas estão tentando abafar. Jó fala
da opressão do povo (Jó 6:14-15,27; 7:1-3 trabalhos forçados).
Que era tratado como gente vil, expulsos da cidade (Jó 30:1-8). A
penhora era o instrumento de destruição (Jó 24:2-11). A Teologia 90 da
Página |
Retribuição é muito clara na
Os Amigos de Jó: Defensores da Teologia das portas literatura sapiencial (Pv
A Teologia das portas é defendida pelos “amigos” de Jó. 12:20-24; 13:21-25; 14:11;
São pessoas que sabem muito sobre as portas e não conhecem 15:6; Sl 37; 91:8-16; Sl 112).
nada da cozinha. Sua Teologia é de palavras bonitas, mas vazia Essa Teologia foi
de Deus (Jó 4:7-9, como em Jó 9:31). A argumentação dos consagrada por Esdras (Ed
amigos de Jó exalta a Lei, pois vê no sofrimento a marca do juízo 7: 25-26). Nesse momento a
de Deus, ou seja, se Jó não tivesse violado a lei estaria sob a profecia foi desautorizada, o
sacerdote foi elevado ao
bênção de Deus. Na teologia de Elifaz, a paciência e o “fechar a
cargo de Juiz. Somente o
boca” são exaltados, mas na realidade são formas dominadoras e sumo-sacerdote tinha acesso
opressoras sobre o povo (Jó 5:15-27). Baldad afirma que Deus a Deus, uma vez por ano (Lv
não rejeita o íntegro, nem faz aliança com os malfeitores (Jó 8:1- 16).
7). Namat segue a mesma direção (Jó 11:13-20). Não pregavam
misericórdia, não havia clemência, apenas condenação (Jó 6:22-
29).
Jó, confrontado com a Teologia da Retribuição, revela
quem é esse deus de seus amigos. Um deus tirano (Jó 7:16-21).
Esse era o rosto de Deus que a Teologia Oficial da retribuição
passava para o povo. No meio de seu clamor por misericórdia e
livramento de seus filhos, ouviam que tudo isso era vontade de
Deus que os estava punindo (Jó 10:13-20).
A Teologia do Povo entendia e confrontava essa opressão,
acusando a teologia oficial de manipuladora e mentirosa (Jó 13:4-
12; 16:2), o confronto de Jó se estende até o “deus” da teologia
da Retribuição (Jó 13:3; 16:7-17).
Ao término da discussão Jó confronta a idéia de “deus” da
justiça retributiva. Contesta a lógica retributiva (Jó 21:7-21).E
afirma que as respostas de seus “amigos” são pura tapeação (Jó
21:34). Elifaz retruca com a teologia da Retribuição (Jó 22:4-10).
Jó não aceita a teologia da retribuição e fala de onde provem os
sofrimentos (Jó 24:2-12). Continua sua queixa revelando que a
teologia da retribuição apresenta um Deus tirano (Jó 23:2,15;
24:12; 30:18-20).
Diante de todo esse debate, Jó encerra seu discurso com a
confiança em Deus, não no da teologia retributiva, mas no
Redentor (16:19-21; 17:3; 19:25). Assim, a resposta de Jó não
vem do Templo ou da lei, mas da Tempestade (Jó 38:1). Os
amigos de Jó esperavam seu extermínio (20:23-29), mas no
entanto, eles é que foram condenados por sua teologia insensata,
por sua tentativa de usar Deus para dominar o povo (Jó 42:7-8).
A resposta de Deus (Jó 38:1-40 e 40:6-41) leva Jó para
outra definição. Fora da teologia da retribuição, Deus o conduz
É uma retomada do Deus do
para a compreensão da Graça, do Amor e da Vida (Jó 40:6-14).
êxodo, do Libertador. É a Ele
Agora Jó, diante desse novo e arrebatador conhecimento, pode que Jó dirige seu último
dizer que antes conhecia de ouvir (Teologia da Retribuição), mas protesto (Jó 31:35-40).
agora meus olhos te vêem! (Jó 42:5).
JONAS: Mensagem para quem?
LITERATURA DE RESISTÊNCIA
Pf. Eduardo Sales

O Dr Wolff faz uma análise do livro de Jonas, onde aborda


algumas questões relevantes sobre a Bíblia enquanto palavra de 91
É considerado profético devido
Página |
Deus e palavra de homens. a 2 Rs 14: 25.
A narrativa começa com a fuga de Jonas para Tarsis,
exatamente a 180 graus do destino pretendido por Deus (Ninive).
A obra gira ao redor do tema
A novela fala de uma palavra dada por Deus a Jonas para um
étnico (racismo nacionalista) do
povo (Ninive), e da fuga de Jonas, assim o texto bíblico começa
segundo templo (Ed 4:1-3; Ne
como uma narrativa do percurso da palavra de Deus de forma 13:3).
que toda a narrativa é considerada palavra de Deus.
O primeiro confronto do livro é com os marinheiros. O
Temor dos Marinheiros e o Temor de Jonas. Enquanto os gentios
crentes temerosos, prontos ao arrependimento, Jonas, o portador
da Palavra de Deus não é temente, é teimoso e prefere o suicídio
à conversão. (1:11-16) A questão que se impõe é sobre qual é a
palavra de Deus? A palavra que Deus deu a Jonas? Ou o
testemunho da história de um homem que com a palavra de Deus
preferiu fugir, e mesmo quando fugia cumpria sua missão, mesmo
em sua obstinação e seus credos, fugindo de sua missão acabou
por testemunhar a palavra de Deus? A palavra de Deus é a
correção aos Judeus ou aos gentios? Quem são os crentes e
quem são os rebeldes?
Qual a palavra de Deus dada a Jonas? (3:4) Ela se
cumpriu? Esse foi o grande problema de Jonas, a palavra de
Deus não se cumpriu e Jonas acabou passando por falso profeta.
Entretanto essa não é a palavra de Deus. A palavra de Deus não
é uma formula estática, uma doutrina ou um dogma, nem mesmo
um texto, mas vida. A palavra de destruição pregada por Jonas
produziu algo novo nos ninivitas que se converteram
imediatamente, essa é a palavra de Deus, a palavra que produz
mudança.
“A palavra não procura apresentar-se a si mesma na
história, mas deseja provocar movimento em seus ouvintes,
movimento este que venha a se vincular com Deus” (WOLFF,
1970,18). Assim a palavra de Deus a ser transmitida está em
Jonas 4:2 retomando o texto de Ex 34:6. Essa é a palavra de
Deus, não para Nínive, mas para os judeus que estagnaram em
uma piedade congelada, de uma forma nova. Eles já não
compreendem a palavra de misericórdia de Deus em sua
plenitude. Vivem uma palavra vazia, pois professam que Javé é o
Deus dos mares e tentam fugir pelo mar, como se estivesse fora
da competência divina.
Essa novela pretende testemunhar que entre os gentios
pecadores acontece o que já não existia entre os Judeus: Temor
e Confiança na Misericórdia de Deus. “Embora a palavra de
homem e a palavra de Deus sejam distintas nas palavras dos
profetas, elas não podem ser separadas uma da outra. Somente
no empenho humano obediente, a palavra de Deus atinge seu
ouvinte” (WOLFF, 1970:45).
Judaísmo x Rute
RUTE E CANTARES Templo e Sacerdotes x exclusão
O Valor das Mulheres e dos Estrangeiros Lei x defesa do pobre
Discriminação x estrangeiros
Pf. Eduardo Sales
Rute: Crítica contra a dissolução
Rute: Provavelmente um livro pós-exílico que procura
dos casamentos entre judeus e
restaurar a visão sobre a mulher e o estrangeiro à luz das 92
não judeus Página |
memórias de libertação do povo (provavelmente 450 a.C). O
livro é um típico escrito feminino, com diversas alusões ao
ambiente da mulher, são diversas relações familiares: esposo- Quanto ao resgate: A obrigação
esposa, pai-mãe, filha, filho, sogra, nora, cunhada, parente era apenas do cunhado (Dt
(achegados 2:20), e a teologia do retorno também é vista em 25:5-10).
seu conteúdo (1:3-22 – resto e a questão da nacionalidade).
Num período de crise econômica (Esdras e Neemias –
450 a 400 a.C.) onde as famílias estavam sendo destruídas Tempo pós-exílico
pela escravidão, momento em que o projeto do segundo - Os juízes somem (indica
templo se impõe com a separação cultural, e a proibição de momento futuro); A lei do
casamentos mistos chega á obrigação do divórcio, conforme resgate está em Lv 25 e do
nos ensinou Esdras (Ed 10). Nesse período surge o livro de casamento com cunhado em Dt
Rute como uma afronta: uma estrangeira, moabita (Dt 23:4-7), 25:5-10; Centro do livro está
não merecedora de apoio é resgatada (Dt 24:19-21; Rt 2:10), direcionado para a identidade
proclamando a necessidade de apoio e proteção aos judaítas nacionalista
marginalizados que estavam sendo oprimidos pela lei do Estrutura:
resgate da terra. 1:1-22 Falta Pão, terra e Filho
Cantares:Nasceu com as canções utilizadas nas celebrações 2:1-3 Planej. Rute com Boaz
de casamentos. Nesse livro essa relação é tratada entre um 3:1-18 Planej. e Rute com Boaz
pastor (1:7) e uma camponesa que também é pastora (1:6,8). 4:1-12 Tribunal e a decisão
Na história, o livro entrou no cânon graças a leitura não 4:13-17 há pão, terra e filho
literal. A metáfora de Israel e a Igreja como noiva de Jave e
Jesus, foi a base desse fundamento (Os 1-3; Jr 2:2;3:1-13; Mc
2:18-20; Ap 19:7-8). Mas a questão é que a partir de seu Sulamita contra o preconceito
contexto original a história é outra. Não fala apenas de amor “sou morena” (1:5,6) as tendas
mas da situação da mulher e sua emancipação da relação de Quedar eram de pele de
cabras negras.
patriarcal. Novamente o livro procura responder ao momento
Cantares em 5 Poemas:
pós-exílico, sendo também contemporâneo de Esdras e
1:5-2:7 – Encontros no cipestre
Neemias (450-400 a.C).
2:8-3:5 – Desencontros
O Momento de crise para as mulheres (Ne 13:23s; Ed
3:6-5:8 – Encontro desejado
9-10; Gn; Lv e Ez) colaborou para a visão negativa da mulher.
5:9-8:4 – climax do Encontro
Nesse período todo relacionamento libertador de Deus foi 8:5-8:14 - Conclusão
vinculado apenas aos homens, foi a exclusão das mulheres da Releitura da Masculinidade:
participação de Deus. Assim, Cantares propõe novos homens (2,9.17; 8,14)
e mulheres. As mulheres que escreveram cantares resgatam a
dignidade da mulher em oposição ao patriarcado machista que
desqualificava a mulher totalmente. Isso cantares faz quando A sulamita também
canta a beleza do corpo da mulher em oposição à noção de representa o povo que luta
impureza do segundo templo (1:9-10,15; 4:1-7; 6:4-7; 7:1-10). por novas condições. São
Recupera a linguagem do amor contra a opressão e obrigação descendentes dos povos da
dos casamentos comprados (1:3,12-14; 2:13; 4:9; 6:5; 2:6; 2:3- terra.
5; 1:2; 7:10). Muitas metáforas são usadas para falar da
sexualidade (1:6; 8:12; 4:12; 8:9; 2:3-4; 4:16; 2:3; 8:5).
O livro se esquece do pai e lembra-se da mãe da Cantares: afronta a exploração
sulamita (1:6; 3:4,11; 6:9; 8:1-5). Também há uma disposição política, econômica (8:8),
de reciprocidade contra o domínio masculino (2:16ss). A sexista (1:5-2:7) e patriarcal do
mulher retoma seu direito de manifestar seus sentimentos amor.
(1:2). Denuncia a jornada dupla das mulheres (1:5-6);
CONFLITO JUDEU-HELÊNICO
Durante o período Grego a palestina é cruzada sete ou
oito vezes por exércitos gregos em luta. Na tomada de Jerusalém
em 312 a.C. milhares de judeus foram deportados para o Egito e
escravizados nas minas e na agricultura. 93
Página |
Aliadas a essas deportações, diversas migrações
colaboraram para o grande aumento de Judeus no Egito, dentre
aproximadamente um milhão de habitantes de Alexandria, estima-
se que 200 a 400 mil eram judeus (Saulnier, 1985 apud Airton
José da Silva, 1995 – Estudos Bíblicos 48).
A tradição literária Judeu Helênica ganha forte ênfase em
285 a.C. quando o rei Ptolomeu II Filadelfo solicita aos judeus de
Jerusalém a tradução da Torá par ao Grego, a qual se chamará
versão dos Setenta (Septuaginta).
Nesse período surge o Sinédrio e a administração
burocrática que influenciaram fortemente a cultura judaica. O
Grego Koine, imposto pela helenização, tornou-se um laço
comum entre os povos conquistados. O hebraico foi substituído
pelo grego que em 260 a.C. era bem difundido entre os judeus. A
Paidéia grega (sistema educacional) começou a influenciar e
transformar a cultura dos países conquistados. Aos poucos o
judaísmo redeu-se aos encantos da helenização.
A Revolução dos Macabeus representa essa
característica. O auge da helenização aconteceu com Antiocus IV.
A cultura e a própria língua foram assimiladas de forma
opressora. Essa crise já era sentida antes do período grego (Ed Formas da Sabedoria
9:1; Ne 9:2) a questão da língua já era crise desde Neemias (Ne Cinco principais
13:24). Nesse período surgiram as principais literaturas do obras literárias são:
judaísmo. Provérbios, Jó, Eclesiastes,
Sirácida e Sabedoria de
Esse período de florescer literário foi de escuridão
Salomão. Nesses escritos é
econômica. A partir de Dario (522-486 a.C.) exigia-se dos judeus comum a utilização de:
o pagamento de impostos em moeda, o que exigia a produção de Poesia hebraica, o
excedentes, onde a escravidão por riquezas ganha forte acento. paralelismo (Sl 103:10; Sl
O povo teve de hipotecar suas propriedades, arrendar seu 6:2; 9:19; Pv 11; Pv 19:24; Sl
trabalho e escravizar seus filhos (Ne 5:1-5), a própria fé estava 18:4).
desgastada (Ml 1-2). Por isso os livros de Provérbios e Jó vão Fábula (Jz 9:8-15);
questionar o sentido da vida e a injustiça. Adivinhação (Jz 14:10-18)
Uma das fortes tendência é a fusão da sabedoria com a Hino (Pv 8:12-18; Jó 28; Pv
piedade tradicional (Eclesiástico e Provérbios 1-9). Outra ênfase é 1:20-33).
Confissão ou conselho (Pv
a pregação estóica de fraternidade universal entre os homens,
24:30-34; 4:6-9; Ecl 1:12-
onde não haveria distinção entre gregos e bárbaros, livres ou 2:26)
escravos. Enquanto que na cultura religiosa o helenismo produziu Enumeração (Jó 28)
forte rompimento, na literatura o clima era de aproximação e Provérbio, Marshal (Ez
assimilação. 16:44; Pv 16:26; 26:14; 27:7)
No Eclesiastes, por exemplo, há evidências de uma nova Ditos e Admoestações (O
realidade Greco-palestina. Escrito pela metade do séc III a.C. modo das coisas Pv 25:14;
época de maior desenvolvimento da economia Ptolomaica. A 25:25; didático 19:17)
visão do destino abandona a perspectiva judaica de confiança em Admoestações positivas e
Javé e assume o ceticismo, onde o homem está a mercê do negativas (Pv 16:3; 22:22-
destino (Ec 2:17). Talvez o Eclesiástico seja um pregador ante 23)
Helenismo, isso porque contesta as principais vertentes da
helenização: o apocaliptismo, o racionalismo e o ecletismo. Faz
severas críticas ao domínio estrangeiro (Ec 4:1; 5:7-8).
PROVÉRBIOS Questões Exegéticas
Questões Gerais A sabedoria dessa
literatura não é usada no
Esses escritos foram compilados por diversos escritores até mesmo sentido que em
sua forma final. No próprio Livro existe uma referência a Ezequias nossa língua. No hebraico 94
possui amplo sentido, mas Página |
em 25:1. As ênfases são diversas, mas correspondem em geral à
geralmente refere-se a uma
ordem e administração. Os sábios entendiam que a instrução pode
capacidade ou habilidade
estabelecer ordem (Pv 18:21; 15:1,4). Outra forma de imposição especial. Pode descrever o
de força é a instrução narrada como a voz coletiva dos pais ofício específico de mágico
(Pv 1:8). Os padrões de causa e efeito também demonstram esse (Gn 41:8), ou de artesão (Ex
sentido de ordem (Pv 10:2-3; 11:21). Por fim, o domínio de si 35:35), bem com a esperteza
mesmo é a garantia de que a ordem prosperará (Pv 17:27; 21:23). de um assassino (1Rs 2:6).
Por meio dessas ênfases encontramos o papel dos sábios e sua No grego e na literatura
ideologia de controle e imposição de alguma coerência e sapiencial, a palavra adquire
sentido aos vários aspectos da vida. sentido técnico de
Essa ênfase na ordem faz sentido nos períodos exílico e capacidade ou habilidade de
orientar, conduzir (termo
pós-exílico, em que havia grande desordem nas estruturas sociais
usado na navegação). É
e religiosas produzindo incerteza. Nesse período vários grupos nesse sentido que o termo
tentam fixar uma identidade para Israel. Sacerdotes, impérios, “Temor de Javé” deve ser
profetas e também os sábios. As diferenças, incertezas e entendido, como uma forma
ansiedades são a desordem que os provérbios tentam regular de sabedoria (Pv 1:7; 9:10;
principalmente a desordem econômica (Pv 19,4; 18:14) e a Jó 28:28; Ecl 3:14; 12:13).
opressão (Pv 17:8; 20:3).
Nesse sentido e contexto Provérbios tornou-se uma forma
de educação para libertação. O clamor de ordem, longe de
produzir controle, almejava responder de forma eficaz à desordem
que viviam. O livro representa um apelo a fé na ordem de Deus.
Nesse sentido é uma pedagogia libertadora (Pv 21:6-7),
restauradora da família e dos fracos (Pv 14:21; 14:31; 19:26) e
mesmo dos inimigos (Pv 24:17-18; 25:21-22).
Provérbios procura ser um manual de vida (Pv 8:34-35;
1:33; 3:18; 10:11;11:30;13:12-14; 14:27; 16:22). Em sua
teologia, vida representa prosperidade e honra (22:4), um bom
nome (10:7;22:1, uma longa existência (3:16; 28:16), nesse
sentido os provérbios estão próximos da releitura profética
sobre a vida (Am 5:14; Is 55:3; Ez 37:1-14).

Personificação da Sabedoria
Nos nove primeiros capítulos a presença da sabedoria é
destacada. Já no capitulo primeiro ela adverte e admoesta (1:20-
30), também aparece no encerramento do prólogo, convidando a
entrar em sua casa (9:4-6). No capitulo 8, ela promete vida (v.35).
Essa abordagem visa controlar a crise econômica e opressora que
havia. O interesse era relembrar a aliança e o direito de irmão. Isso
ocorreu porque, no Israel pós-exílico, costumes e tradições
referentes à ajuda mutua estavam sob pressão devido a opressão
econômica imposta pelos persas e pelos gregos. Essas políticas
estrangeira valorizavam o acumulo de excedente, a ganância e o
individualismo, o que começou a destruir a vida comunitária de
Israel. Assim, a voz do pai faz soar uma advertência dirigida ao
filho e que se opõe às tentações da ganância e da aquisição de
riqueza por meio da desonestidade e até da violência (Ne 5; Pv
1:10-11,13,15, 18, 19). Outra preocupação dessa instrução era o
reforço dos valores familiares, como o adultério que era o
rompimento da família (7:18-19,21-23).
ECLESIASTES – QOHELETH – .
Salomão: (900) 22:17-24:22
Aquele que Reúne alunos Ezequias (727-698) 25-29
Sabedoria Popular
O autor assume a pessoa do rei Salomão, que acumulou Josias (640-609) 10:1-22:16 95
riqueza e sabedoria enquanto reunia e governava seus súditos. O Página |
Orientação moral popular
contexto é por volta do ano 300 e 200 a.C. no período dos Neemias (400) 1-9, 30-31
Ptolomeus.Esse período também pode ser contextualizado em Ne Teologia Sacerdotal
5:1-5, isso porque, com as secas e pestes, os pequenos
fazendeiros tinham de arrendar suas terras e escravizar sua
família. Foi a retomada da opressão pelo sistema de classes, Foi uma época de
onde a distância entre os pequenos proprietários e os grandes exploração ao modelo do
fazendeiros culminou na formação de uma elite aristocrática. império Persa. Implantaram
Essa forma de economia afrontou e usurpou qualquer um sistema fiscal de coleta
forma de relacionamento baseado em laços familiares. O direito de impostos em moeda
de irmão foi usurpado pelo direito comprado com prata grega. Isso corrente, independente do
meio produtivo de
joga muita luz para a compreensão de Jesus sendo vendido como
subsistência.
um escravo por Judas. Os valores éticos baseados no direito de
irmão foram substituídos pelo materialismo.
Nesse contexto Coélet responde às crises econômica,
política e religiosa em dois discursos: de um lado, como pastor
compassivo, de outro, ataca os fundamentos intelectuais da
“sabedoria” monetária helênica. No desenvolver de sua Ele usa o estilo dialético,
argumentação usa-se ditos sapienciais (7:1-12); sátiras (7:2-4); afirma e contesta, onde
histórias-exemplo (9:13-16); perguntas possíveis (7:24); fala de expõe o pensamento
sabedoria e insensatez (1:16-18); de retribuição (7:15-18); dos tradicional e depois relativiza
valores (4:1-12) e contesta principalmente a certeza e confiança o mesmo ensinamento (Ecl
baseada no lucro – Tudo é Vaidade (1:14,17; 2:11,17,19,23,26) 2:13-15).
Resposta à Crise Espiritual
Afirma a bondade da Criação (Ecl 3:12-13) que se opõe à
afirmação de que o homem não pode aproveitar do lucro de seu
trabalho (Ecl 1:3,14). O que também se afirma em contexto com a
realidade do povo (Ne 5:1-5 e Ecl 2:21).
Nesse momento de dificuldade incerteza e dor, nenhum
profeta ou sacerdote procuraram responder à crise do povo, mas
Coélet se propõe a afirmar a presença de Deus (Ecl 5:1), e
contrapões com a incerteza sobre os planos de Deus (3:11; 8:17).
Ao contestar a auto-suficiência também revela Deus (2:24-25).
Resposta à Crise Econômica
Usa sua sabedoria para contestar os princípios da
economia helênica. Coélet usa vários termos desse novo mercado
financeiro e, o Lucro, é um de seus preferidos (Ecl 1:3), suas
palavras refletem a nova forma de vida centrada na necessidade
de acumulo de excedente (Lucro). Assim, Coélet usa a própria
linguagem do comércio para sabotar a sabedoria do lucro.
A opressão também é retratada em (3:16;-17; 4:1; 6:1-2)
assim como a ganância sem limites dos ricos (1:5-7). Essa questão pode ser
A sabedoria do lucro pressupõe que os seres humanos vista na exposição de
podem ter algum grau de segurança e controle sobre o próprio Jesus ao estilo Coélet (Mt
destino mediante o acúmulo de riquezas (Ecl 7:27-28). À 16:26; Mc 8:36;Lc 9:25).
sabedoria do lucro ele usa a filosofia do tempo, revelando que não Principalmente no
há movimento, nem lucro (1:4-9). A própria lógica da matemática evangelho de Lucas,
foi contestada (4:6). O uso acentuado da matemática, de números provavelmente escrito
e termos comerciais encontra seu oposto na indeterminação da para comunidades grego-
vida, resultando na falta de previsibilidade, uma das críticas romanas (Lc 12:15ss).
principais de Coélet (6:3-6).
Essa questão também é
retratada na opção de
Jesus pelos pobres e pelo
estilo de vida do povo.
PERÍODO GREGO – HELENIZAÇÃO
Pf. Eduardo Sales 96
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No começo do império de Alexandre o Grande os


judeus gozavam de certa liberdade. Alexandre autorizou os
judeus a viverem livremente segundo suas leis, inclusive
isenção de impostos a cada sete anos, essa regra se aplicava
também aos judeus da diáspora. Mas, com a morte de
Alexandre e a divisão do império, a palestina ficou em situação
A Helenização Forçada e
difícil. A partir do governo dos Ptolomeus (Egito) e Seleucidas
revolta dos Macabeus (174-
(Síria), a situação dos judeus mudou. A cultura helênica 142 a.C.)Com a venda do
afrontou a cultura judaica. cargo de sumo-sacerdote a
Sob os gregos nasceram dois grupos: Jasão (2Mc 4:7-9) segue-se
O primeiro era fiel a lei e confrontava a helenização, o Sumo Sacerdote Menelau,
não o império. Estava preocupado com a prática da Lei, (sua favorável à helenização (2Mc
literatura é Ester; Zacarias 12-14; Tobias; Eclesiástico; 4:23-26), é o início da crise.
2Macabeus; Sabedoria e Baruque). Antioco IV (169 a.C.)
O segundo era formado pelos pobres da terra, não saqueou o templo com a
representava oposição a cultura, mas principalmente a cumplicidade do sumo-
sacerdote Menelau (1Mc
opressão social grega ( sua literatura é Zacarias 9-11;
1:16s). Em 167 a.C. impõe a
1Macabeus; Daniel; Judite; versão grega de Ester). ferro e fogo a cultura grega
Resistência Popular aos judeus (1Mc 1:29-35, 54-
(opostos a Dominação e próximos ao helenismo): Um dos 59; 2Mc 6:1-2). Surgem os
principais motivos do livro de Ester é servir de fundamento livros de Daniel, Judite e
para a festa do Purim. Na cultura popular o purim era um tipo 2Macabeus.
de carnaval, uma festa de comemoração ao rei Dario. A partir A revolta começou
da tradição de Ester, ao mesmo tempo que participavam das com a oposição de Matatias
festas pagãs, permaneciam fiéis à Aliança da Páscoa. e o assassinato de um
Para o Eclesiastes a felicidade é usufruir do próprio sacerdote grego (1Mc 2:24-
25).
trabalho. O texto promove uma critica a sabedoria tradicional
Em 167 a.C. Matatias, um
judaica: 1) Retributiva (2,26; 6:11-9:6; 8:5-13); 2) Cultura levita do interior reage e
patriarcal (7:26-29); 3) Conselheiros do rei (8:1-4). Também é mata um judeu infiel e destrói
uma crítica a sabedoria grega baseada nas riquezas, embora os altares para outras
use a estrutura helênica (linguagem e filosofia) o conteúdo divindades. Os hasmoneus
questiona os valores gregos, torando-se resistência à opressão perseguiam e matavam os
helenista. judeus que serviam no culto
Resistência Oficial imposto pelos gregos.
(opostos a helenização e favoráveis ao império): Tobias, Chegou até a circuncidar
Deus é fiel à fidelidade do Justo. Representa a resistência crianças judias a força (1Mc
2:1-70).
sacerdotal. Foi uma época em que muitos eram seduzidos pelo
helenismo e abandonavam as tradições dos pais. Seu texto
também é dirigido às comunidades da dispersão, procurando
incentivá-las a ser fiéis aos mandamentos e não se deixar
seduzir pelo helenismo. A família de Tobias é uma modelo de
fidelidade na dispersão. Viver na Lei e ser fiel a Deus é ser
justo. Advoga a teologia da retribuição (14:2-3).
Os Macabeus promovem uma revolta, tomam o
controle e começam um programa anti-helênico. Fizeram
incursões na Galiléia destruindo as várias cidades helênicas
(1Mc 5:9ss). Entre 160 e 143 a.C. Jonatas (irmão de judas
macabeu) assumiu a luta para libertar a palestina e restaurar o
judaísmo, em 152 a.C. assume a função de sumo-sacerdote
(1Mc 10:18-21), também se tornou general e chefe dos judeus
(1Mc 13:42; 14:47), assim, os libertadores tornaram-se os
opressores do povo.
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DANIEL E A APOCALIPTICA JUDAICA


Pf Eduardo Sales

A apocalíptica nasceu entre os grupos de judeus que


lutavam contra o imperialismo e a helenização. Sua intenção
era fortalecer a fé e incentivar a preservação dos costumes, fé
e liberdade. Procurou transmitir que, mesmo em meio a terrível
tribulação, Deus triunfará no final (2Mc 7).
A apocalíptica é filha da profecia (quanto a critica
histórica) e filha da sabedoria (quanto a crítica da realidade).
Enfatiza que Deus conduz a história para um rumo certo, que o
sofrimento e tribulação presentes são passageiros e que o
reino futuro será a vitória final sobre os infiéis.
Espera a transformação do velho-mundo num novo-
mundo. Nessa literatura o conflito entre opressores e oprimidos
é apresentado simbolicamente no conflito entre Deus e o
Diabo. Ensinam a ressurreição dos justos e acentuam a
doutrina da retribuição.
Durante esse período que durou até aproximadamente
200 anos d.C. foram escritos centenas de apocalipses, sendo
que a maioria desses textos foi tida como apócrifa e deixada
de lado em relação aos textos canônicos.

Releitura de Daniel: Resistência Helênica

É possível que os hassideus tenham tido participação


na composição do livro. Daniel, como Ester, representa a
resistência do campo. Embora a história fale do exílio, o texto
nos leva ao período de dominação seleucida de Antioco IV
Epifanio (Aprx 165 a.C.). Isso é entendido principalmente pelas
contradições comuns nesse escrito (Dario é pai de Xerxes e
não filho (9:1-2), era Persa e não Medo).

Dessa perspectiva, a intenção do livro era usar a


história de Daniel para se referir aos dias da helenização. Foi
uma mensagem para o fortalecimento e resistência em meio à
cultura helênica (Dn 11).

Usa a teologia da retribuição quando conta a história de


seus amigos que foram fiéis a lei e foram recompensados por
isso (Dn 1-6). Encoraja os judeus a serem fieis em meio às
perseguições (7-12), anuncia que a perseguição está
chegando ao fim, momento de estabelecimento do Reino de
Deus e julgamento dos outros reinos (2:44; 3:33; 6:28; 7:14), e
a vitória final não será do rei, mas do Deus que liberta os fiéis
(3:24-25; 6:20-21; 13;42-44; 14:40-41).
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OBRA HISTORIOGRÁFICA CRONISTA Página |

Pf Eduardo Sales

Na Bíblia judaica existem duas obras historiográficas: a


Deuteronomista (Js, Jz, 1-2Sm e 1-2Rs) e a Cronista (1-2Cr,
Ed, Ne).
Influenciado pelos profetas do séc. VIII, o
Deuteronomista é crítico a dinastia davídica, enquanto que o
Cronista é favorável. Em crônicas Davi e Salomão são O Cronista não defende os
apresentados sem pecados e fraquezas. Possuem dedicação marginalizados, antes
total ao templo, culto e sacerdócio. O livro do cronista é uma legitima sua marginalização
releitura da história a partir da visão sacerdotal dos levitas em
350 a.C.
Além de Davi, o Cronista
1. O Livro das Genealogias (1Cr 1-10). Desde a origem até exalta os Levitas.
1010 a.C. – de Adão até Abraão. Enfatiza o dogma da
pureza étnica. Exalta Davi e Judá sobre as tribos do norte
(1Cr 2:1-17; 3:1-4:23). Levi também é destacado (1Cr 5:27- Ler a história a partir das
6:66). Tornaram o Sacerdote Jebuseu Sadoc um levita memórias da Elite
(1Cr 5:27-34). Moisés e o período tribal quase somem do (Abandono de Moisés é o
texto. abandono das minorias)
2. O Reinado de Davi (1Cr 11-29 de 1010-970). Única
Dinastia. Diversas omissões em relação ao
Deuteronomista. Davi é o novo Moisés, homem de Deus
(2Cr 8:14), modelo de fidelidade (2Cr 7:17), relacionado
com os patriarcas (2Cr 21:12; 34:3). Diferenças com o
3. Reinado de Salomão (2Cr 1-9 de 970-931). Ênfase na Deuteronomista:
construção do Templo. Só há um templo (rivalidade com os 1Rs 8:49-53 e 2Cr 6:39-42
Samaritanos). Omite o capítulo 11 de 1Rs, onde estão os
pecados de Salomão.
4. O Reino de Judá (2Cr 10-36 de 931-586). Exalta a O Templo foi purificado por
dinastia de Davi e a monarquia de Judá. Omite totalmente Manassés? - 2Cr 33:15-16,
a história do reino do Norte e considera-o idolatra. 2Rs 21:5-9.
Somente Judá é a realeza, Javé é Judeu (2Cr 13:4-12).

Teologia Substituem os profetas 1Cr


Quatro temas: 25:1-3
Legitimação – Essa é a principal característica das
Genealogias. Samuel, torna-se filho de Levi 1Cr 6:33; Calebe é
pai das pessoas mais importantes 1Cr 2-4. Liga diretamente
homens de seus dias com pessoas de gerações passadas 1Cr
6:1-5 omite Joiada de 2Rs 11:4, e Urias de 2Rs 16:10. Era o
princípio da legitimação Ed 2:62, Sadoc 1Cr 5:27-40.
Retribuição – A morte de Saul é punição por seus O Perigo do ato memorial:
pecados, a morte de Josias tinha que ser atribuída a alguma Símbolo e Simulacro.
falta. É a aplicação radical da teologia da retribuição.
Culto – A formação da teologia litúrgica foi resultado do
exílio (religião centrada em atos rituais e memoriais). Torna-se Reduziu todo o Israel a Judá
instituição sacramental. Levitas no culto (1 Cr 15,2; 23,28-32; 1Cr 9.
2Cr 35,3, 2Cr 29,32-34), Cantores 1Cr 6:16-32, 9:14s
Davidismo – Cerne da teologia Cronista. É um retrato
da esperança messiânica realizada. É uma correção da fé
Propriedades Leviticas 1Cr
6:39-66.

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Página |
JOEL E ESTER
Eduardo Sales

O Livro de Joel – profecia em época de Crise


Escrito no Pós-Exílio. Sua teologia tem aproximações
com o templo e o culto. Também tinha conhecimento da vida
no campo. Sua profecia dirige-se aos anciãos e ao sacerdotes
(1:2,13). O Templo é um de seus temas principais (1:9,13-
14,16; 2:15-17; 4:17-18,20).
Escrito em torno de 400 a.C. Sua data é deduzida de
fatos internos. Não tem rei, muita referencia a sacerdotes e
templo indícios de período pós-exílio e em 4:2-3 faz referência
ao exílio como ocorrido no passado. As muralhas já está
reconstruídas (2:7-9) e menciona os gregos no tráfico de
escravos (4:6).
Crises: Mesmo com essa mensagem
1) Praga de gafanhotos (1:4) Joel é conservador e vê apenas
2) Invasão do exército (1:6-7) a salvação para a comunidade
a. Dominação persa (2:20-25). Judaica e exclui os estrangeiros
3) Grande Seca (1:15-20) (3:17).

O povo estava perdendo a fé (Joel 1:12), Deus


abandonou o povo (2:12-17). A crise estava no fracasso da
teologia da retribuição (2:12-14). No fim, depois de pedir o
arrependimento e mudança do povo anuncia a misericórdia e
salvação (2:18-27).
O Dia do Senhor surge como dádiva (1:15; 2:1-11).
Anuncia o dom do Espírito (2:28-32 comparar com Nm 11:25-
30; Atos 2:16-21 e Ez 37:1-14).

O Livro de Ester

Editado em torno de 350 a.C. fim do período Persa e Impossibilidades:


início do período Grego. A historicidade do livro é muito Se a história de Ester fosse
contestada sendo considerado uma novela. Os destinatário interpretada literalmente Ester
são os judeus da dispersão (2:5-6), aqueles que não voltaram teria aproximadamente 80 a 90
para Jerusalém. anos de idade. Mardoqueu
Nesse contexto o livro tem um objetivo litúrgico, servir deportado em 597 até Assuero
ele teria 111 anos (2Rs 25:8-21
de base para o purím (pur é sorte, posse, terra em Persa). É a
e Ester 2:5-6)
legitimação de uma festa de Sortes, uma espécie de carnaval
Não há registro da morte de 75
judeu (2Mc 15:36). Sabe-se que no mesmo dia era
mil pessoas (9:16)
comemorado um carnaval em homenagem a Dario.
Não há uma rainha chamada
Notória é a perspectiva de libertação para os exilados Ester na história da Pérsia.
que são vistos como esperança para os judeus. Não estão
abandonados de Deus, mas são provisão de Deus para salvar
o povo. Outro detalhe importante da narrativa é a leitura a
partir da mulher que mostra como Ester venceu o Rei com
alguns pratos de comida. Fragilidade do Império Persa
Outro tema importante é o Jejum como culto fúnebre. Afrontado por mulheres:
Em Ester a Mulher torna-se símbolo de resistência
(Sulmita, Suzana, Judite, Rute, Ester e outras).
Preconceito com Amelec (Is 19:22,25, Dt 25:17-19)
Vasti (1:12)
Revolta mulheres (1:16-18)
Ester (2:7,8,17)

SALMOS 100
Página |

O título do livro dos Salmos no texto original é “louvores” e


compreende 150 cânticos divididos em cinco livros — Salmos 1-41,
42-72, 73-89, 90-106 e 107-150 — cada um terminando numa
doxologia especial, sendo o Salmo 150 uma doxologia do saltério
todo. Fora do saltério há ainda mais cânticos de Israel, como o
cântico de Débora (Juízes 5), da irmã de Aarão (Êxodo 15.21), de Davi
(2 Samuel 1.19-27), sobre a libertação por meio do Mar Vermelho
(Êxodo 15.1-19) e sobre a sabedoria (Provérbios 8). Também fora da
Bíblia encontramos hinos de Israel, como os Salmos de Salomão e os
cânticos de agradecimento no Qumran.
O Saltério usa a rima de pensamento, chamada Paralelismo.
“Isto significa que a poesia, ao contrário da prosa, exprime um
mesmo pensamento em dois versos sucessivos, mudando os termos
e a forma” (Shreiner, 2003, p.353).

Paralelismo Sinonímico:
Sl 19:1 Os céus proclamam a glória de Deus,
e o firmamento anuncia as obras das suas mãos.
Paralelismo antitético:
Sl 1:6 Pois o SENHOR conhece o caminho dos justos,
mas o caminho dos ímpios perecerá.
Paralelismo sintético:
Sl 19:7 A lei do SENHOR é perfeita e restaura a alma;
o testemunho do SENHOR é fiel e dá sabedoria aos símplices.
Sl 19:8 Os preceitos do SENHOR são retos e alegram o coração;
o mandamento do SENHOR é puro e ilumina os olhos.

Gênero Literário dos Salmos:


a) Salmos de Lamentação e Imprecação. É a base de
todo saltério. Representa as expressão popular diante
das aflições e perseguições. Calamidades e
inimizades com nações vizinhas Sl 40;60;74;80;85.
Pedido por proteção contra o inimigo Sl 17; auxílio
no tribunal Sl 94; culpas pessoais Sl 38.
b) Salmos de Ação de Graças. No fim do cântico de
Lamentação já se promete o agradecimento (Shreiner,
2003, p. 362). Sl 22:26.
c) Hinos – Louvor a Deus pela salvação: Sl 66
d) Salmos da Realeza de Iahweh – Faltam informações
sobre a origem desses salmos. Alguns identificam com as
festas pagãs de entronização dos deuses cananitas. Sl 47;
93; 96-99.
e) Salmos do Reino de Sião. Pertencem ao grupo de
impetração, incluem orações pelo rei, Sl 20;61;101; 45;
2; 110; 72; preenche função histórico-salvífica 89;132. os
salmos messiânicos, 17; 18.
f) Salmos Sapienciais. Representam o reto
comportamento, (Shreiner, 2003, p. 365). Utilizam a
SALMOS
101
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Procedimentos Poéticos (Murilo, 2000, pg.310-6):

Repetição: Jz 5:12; Is 52:1


Inclusão: Início e fim – Sl 103; 150.
Refrão: Linha ou estrofe que se repete Ct 2:7;3:5;5:8
Alusão: referência a outro texto. Is 9:3 alude Jz 7:15-25.
Elipse: Omite um elemento –
Os 5:8. Tocai o chofar em Gabaá
_____a trombeta em Ramá
Ironia: Sl 114: 5-6 (cf vv. 3-4)
Combinações incompatíveis: Pv 28:19.
Abstrato por concreto: Is 3:25
Hipérbole: Sl 5:10.
Parte pelo todo: Sl 146:6-9
Extremos para falar do todo: Sl 95:5; 50:13
Combinação: Sl 42:3, 5 – (dois termos por um)
Identificação tardia: Sl 34:18-9; 110:2.

Salmos referentes ao Pentateuco:


Hinos: 148;93;104;8;29;114;115;95;81;135;136;100;103.
Ação de Graças: 116;66.
Didátio-históricos: 50;105;106;111;78.

Salmos relacionados com a história Deuteronomista:


De súplica: 83;80;59;56;57;18.
De Confiança: 23.
Processionais: 24;68.
Messiânicos: 110;2;72.

Salmos relacionados com a história do Cronista:


Suplicas de um doente: 6;88;30
De Jerusalém e do Templo: 48; 46; 76; 79; 74; 89; 77; 102;
107; 118;137;42-43;84;87.
Graduais: 120-134
Javé-Rei: 47;96.

Salmos relacionados com a literatura didática:


19;1;37;49;73;34.

Iniciando a Exegese – Salmos referentes ao Pentateuco


Hinos: 148;93;104;8;29;114;115;95;81;135;136;100;103.
Ação de Graças: 116;66.
Didátio-históricos: 50;105;106;111;78.
HISTÓRIA DO NOVO TESTAMENTO
Pf. Eduardo Sales 102
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Conflito Judeu-Helênico
Durante o período Grego a palestina é cruzada sete ou
oito vezes por exércitos gregos em luta. Na tomada de
Jerusalém em 312 a.C. milhares de judeus foram deportados
para o Egito e escravizados nas minas e na agricultura.
O auge da helenização aconteceu com Antiocus IV. A
cultura e a própria língua foram assimiladas de forma
opressora. Nesse período surge a Revolução dos Macabeus.

Período dos Hasmoneus


Foi um período de liberdade em que o Sacerdote
Matatias se nega a sacrificar uma porca no templo, assassina
o outro sacerdote que se propoe a fazer o sacrifício, e inicia a
revolta.
Esse levante libertador levou vário anos. Nesse
empreendimento Judas Macabeu, e depois João Hircano
produzirão recuperação da da cultura judaica e a expulsão da
cultura grega. Foi a judaização forçada da palestina. Nesse
levante todos que não se tornassem judeus morriam.
João Hircano matou vários sacerdotes e destruiu o
templo de Gerezin (Samaritanos).

A Pax Romana
Uma nova era de Paz garantida pelo poder militar romano.
Augusto foi interpretado como salvador enviado para por fim à
guerra e anunciar a PAZ. Augusto o "salvador de todo o
gênero humano"..."terra e mar têm paz, as cidades florescem
em boa ordem legal, em harmonia e com abundância de
viveres; tudo o que há de bom existe em estado maduro e
abundância, os homens estão cheios de esperanças felizes no
futuro e de alegria no presente..." (WENGST, p.18)

Paz MILITAR: Essa expressão é cunhada nas moedas


romanas. "Guerra, vitória e Paz".

Paz POLÍTICA: Paz e segurança garantidas pela opressão


política dos mais fracos. O pagamento dos tributos pelos povos
conquistados poderia garantir a segurança romana.

Paz ECONOMICA:
Estradas de Comercio; Espólio de Guerra

Paz JURIDICA: Instauração de Juízes e retirada do poder de


execução dos lideres.

Paz na CIDADE - CIVITA: A urbanização das cidades serviu


para propagar a paz.

Paz RELIGIOSA: Culto ao imperador, Filho e agente de Deus


na pacificação do mundo.
HISTÓRIA DO NOVO TESTAMENTO
Pf. Eduardo Sales 103
Página |
Jesus e a Pax Romana
A Paz de Jesus, confrontou a Paz romana que trazia
medo. Jesus trouxe a Paz sem temor (Jo 14:27).

Paz aos estrangeiros, diferente da Paz para os


cidadãos romanos (Jo 4; Mt 7:24s)

Criticou a paz romana em Mc 10:42. O agente da Paz


Romana na Palestina (Herodes Antipas) já matou o Batista e
está atrás de Jesus (Lc 13:31). Jesus critica-o como raposa e
em outra passagem o desmerece Mt 11:8 e Lc 7:25.

Dai a Cesar o que é de Cesar (Mc 12:13-17). Jesus


estava rejeitando todo o sistema monetário da Paz Romana.
Essa radicalidade é reafirmada por Jesus em Mateus 6,
ninguém pode servir a dois senhores Mt 10:34 e Lc 12:51-3,
não vim trazer paz (falsa paz dos romanos), mas espada.
Divisão entre o filho e o Pai, entre a nora e sua sogra, entre o
pequeno e o grande, é uma espécie de dissolução da ordem
imposta. (Mc 10:42; lc 22:26)contrapõe os modelos da paz
romana.

Amai aos vossos inimigos, Jesus contrapõe a violência


romana (Lc 6:27,35).

Na Multiplicação dos Pães (Lc 2:13-16) contrapõe a


filosofia Romana de Pao e Circo. (nas arenas haviam os
gladiadores e o imperador dava pão antes das matanças,
assim o povo se esquecia dos problemas).

Na atitude de não se prostrar a Satanás Mt 4 (Culto ao


Imperador).

Paulo e Pax Romana


• Paulo também foi perseguido por perturbar a PAZ
ROMANA. Em Gl 5: 11 e 6:12 liga a perseguição com a
mensagem da cruz. 2Co 11:24ss é dos judeus
perseguido, Fp 1:13,20. Em 1Co 6: 1-8 e 1Ts 5:3 -
Quando as pessoas disserem (Paz e segurança).1Cor
15:24ss Quando Jesus houver destruído todo reino e
potestade. Todos os textos acima são afrontas a Pax
Romana.
• Nossa cidade está nos Céus, contra a Civita Romana
Fp. 3:20.
• Jesus é o Kurios, o Salvador (1Co 15: 20-28)
entendemos Salvador em oposição à declaração de
Augusto Salvador da humanidade.
• A Lealdade de Rom 13 não é alienação, mas não
violência como o dar a outra face em Jesus.
• 1Ts 5:5 tende paz com todos e VENCE O MAL COM O
BEM. É o rompimento da violência pela não violência.
Contexto Geral da Palestina 4 a.C. – 30d.C.
Pf. Eduardo Sales 104
Página |

Na Palestina não há um contexto unívoco. A


diversidade sócio-cultural fez com que a pessoa de Jesus
fosse compreendida de diversas maneiras, provocando
aceitação ou recusa.
O Domínio romano a partir de Pompeu foi
relevante na formação desse contexto. A partir de 37 a.C.
Herodes é reconhecido rei, reina até o momento do
nascimento de Cristo (Mateus e Lucas), a morte de
Herodes em 4 a.C. os desdobramentos colocaram-na sob
Arquelau (6 d.C.) e em seguida diretamente sob controle
dos prefeitos de Roma até o ano 41 d.C. A Galiléia
passou ao poder de Herodes Antipas (Mt 14:1-2; Lc 9:7-9;
13:31-33; 23:6012) que governou junto com a Perea até o
ano de 39, quando foi deposto por Caligula. Houve uma
reunificação da Judeia e Samaria baixo o governo de
Agripa, mas em sua morte 44 d.C., o governo passou
novamente aos procuradores romanos. Em 66 começam
conflitos que culminaram na pacificação de Jerusalém
(destruição do templo) em 70 d.C. E a partir dessa data a
região foi governada por delegados romanos.

A presença romana:
 Aumentou a crise sobre a propriedade das terras.
 A lei casuística judaica burlou o vencimento
sabático das dívidas (korban e prozbul).
 Surgem os latifundios a base de serviço escravo
(Muitos se vendiam como escravos).
 A dominação por carga tributária (publicanos).
 Dominação econômica (Banqueiros urbanos e pelo
Templo).
 Pobreza no Campo e concentração da riqueza na
cidade.
 Paternalismo econômico (Lc 7:1-10) social e
político (Jo 11:49-53; 18:12-14).

Os Javismos da Palestina
O Javismo palestinense com sua versão exclusiva
da Torá e seu templo em Gerezin foram destruídos em
128 a.C. por Hircano (Macabeu). Também tinham
profetas, Josefo registrou uma matança de 3000 profetas
em Gerezin. Também em Atos há muito interesse nesse
grupo, em sua incorporação ao cristianismo (At 8:4-25).
Os samaritanos eram compreendidos como Israel, mas
os Romanos ainda eram vistos de forma diferente (caso
de Cornélio que não era aceito por ser romano, um
impuro, At 10, 11).
Contexto Geral da Palestina 4 a.C. – 30d.C.
Pf. Eduardo Sales
105
Religião Página |
Na religiosidade da Palestina encontramos o grupo
dos "Justos". Eram os fariseus do campo que
peregrinavam a Jerusalém.
Outro grupo de desviância (Theissen) era o
zelotismo. Foi decisivo na guerra judaica de 66-70 d.C.
Entende-se em continuidade com a revolta de Judas o
Galileu (6-7 d.C.), ou de vários movimentos espontâneos
da Galiléia. Uma espécie de bandidagem rural que
culminou no partido Zelota.
O apocaliptismo surgiu nessas formas de religião
de desviância, como esperança e expectativa de
libertação das opressões sociais (Lc 24:19-21).
A tensão entre o campo e a cidade tem papel
decisivo. A casta Sacerdotal (saduceus), atuam como
agentes obrigados do sistema romano (ofertas e
sacrifícios a Cesar) e beneficiários do sistema
arrecadador do Templo. O Templo era o guardador das
dívidas e detinha as maiores propriedades agrárias.
Em contrapartida os fariseus possuíam um papel
ambíguo. Não são aliados diretos do poder dominante,
mas na prática, funcionam como força intelectual. Tem o
papel de justificar as formas de domínio e conter o
desconformismo. Favorecem o imperialismo com sua
interpretação da lei sabática de perdão quando afirmam,
com Hilel, que as dividas a se perdoar eram as
particulares e não as com a corte. É provável que esse
seja o sentido intentado por Jesus na frase "perdoa
nossas dívidas como perdoamos nossos devedores".

Jesus e as crises com o Judaísmo


De princípio Jesus não fundou uma comunidade
local, mas iniciou um movimento de carismáticos
vagabundos (Mt 10:28).
Renunciou a um local estável; Renunciou a própria
família; a propriedade e a defesa pessoal.
Fatores sócio-econômicos do movimento de Jesus
envolveram o confronto com as políticas opressoras. Era
contrário aos interesses objetivos da aristocracia uma vez
que contestava a lei e os direitos sacerdotais,
reclamando-os para seus carismáticos (Mc 2:23ss);
quando negava a obrigação de pagar impostos religiosos
pagando-os por razões convencionais (Mt 17:24ss;
23:23). Esse é o sentido de enviar os discípulos e não
levar nada, o de não depender da economia (Mt 10).
1. Antes de Jesus, vários judeus
AS PRIMEIRAS COMUNIDADES CRISTÃS se proclamaram como Messias,
Pf. Eduardo Sales (At 21:38; Mt 24:24).

As crises Judaica e Romana motivaram a perseguição 106


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dos Cristãos. Os judeus, devido aos ideais messiânicos(1), 2. Primeiras comunidades:
tinham má fama de revoltosos, o que confronta diretamente a Novas práticas: As discípulas e
Pax Romana. depois os discípulos começaram
Enquanto a comunidade de Jesus era pequena não a vivenciar as palavras de Jesus.
havia problema, mas com o crescimento e assimilação da A principal prática é o partir
comunidade humilde, passou a ser visto como ameaça, do Pão (At 2:42-46).
principalmente pelos Sacerdotes que dirigiam Jerusalém sob
tutela dos procuradores romanos (Jo 11:49-50).
Por que não estudamos os evangelhos primeiro? 3. Pregação central da Igreja, o
Porque as comunidades cristãs são anteriores às primeiras Kerygma (proclamação), era a
cartas e aos evangelhos. O que aconteceu nesse período? morte e ressurreição de Jesus.
A primeira sensação foi de crise. Com a morte de Jesus Um dos primeiros era (1Co
os próprios discípulos (segundo a leitura dos evangelistas) 15:3-4 – “recebido”). Outra
abandonaram a fé e se esconderam (Jo 20:19); fugiram (Mc profissão de fé foi o discurso de
Pedro (At 2:14-36).
14:27-50); voltaram a ser pescadores (Jo 21:2-4) e não
Outra mensagem foi a
acreditaram na notícia da ressurreição (Mc 16:11; Lc 24:11; Jo
afirmação de o Jesus terreno
20:1-10).
ser o Cristo (messias esperado
O primeiro sinal de formação das comunidades cristãs
At 2:36,38; 3:6,18,20).
nasceu na fé das mulheres (testemunhas da ressurreição: Lc A confissão de “Senhor”
24:5; Mt 28:1-8; Mc 16:1-8; Lc 24:1-11; Jo 20:1-2; primeiras também é característica da
aparições Mt 28:9-10). comunidade primitiva (At
1:6,21; 2:36; Rm 10:9). O hino
As Primeiras Comunidades Cristãs cristológico de (Fp 2:6-11).
O local de encontro dos discípulos com Jesus Naquela época o imperador
ressuscitado foi situado na Galiléia por Mateus, Marcos e João romano se auto proclamava
(Mt 28:7,10,16; Mc 14:28; 16:7; Jo 21:1). Também é Kurios, (Senhor). A mensagem
testemunhado em At 2:7. de Jesus o Kúriosé a superação
Esses discípulos e discípulas aos poucos foram se do Senhorio Estatal Romano.
reunindo e procurando reviver as palavras de Jesus. Outro fato ligado ao termo
Começaram a se reunir em grupos pequenos (Mt 18:20), mas Kúrios era a sociedade
foi principalmente na partilha do pão que a comunidade se escravocrata. Jesus era uma
identificou com Jesus (Lc 24:28-32). proclamação libertadora, o
Assim na comunidade começa-se a revelar o Jesus único Senhor (Jo 15:13-15).
divino. O ressuscitado é o mesmo que esteve entre eles, o
Cristo ressuscitado é o Jesus histórico, assim afirmou Paulo:
“Deus está realmente entre nós” (1Co 14:25), a ceia comemora 4. A esperança na vinda de
essa certeza. Jesus motivou a comunidade a
O Pentecostes é a retomada de toda perspectiva uma nova vida de fé e renuncia
profética do Antigo Testamento (Ez 11:19). O derramar do (At 4:36-37; 1Ts 5:1s; 2Ts 2:12).
Espírito sobre a comunidade da Galiléia representa a formação Como a vinda demorava,
da Igreja. Na festa do Pentecostes os judeus comemoravam a outras releituras surgiram:
doação da Lei no Sinai, o derramar do Espírito na mesma data, entenderam a presença de
Jesus na acolhida (Lc 24:13-29;
representa a doação da nova lei do Espírito que substitui a
Mt 25:35); no partir o pão (Lc
doação da lei. Esse derramar autorizou e capacitou a
24:30-32), na ceia (1Co 11:23s)
comunidade à pregação do Evangelho como dádiva de Deus.
nas reuniões (MT 18:20). Jesus
Nessa missão começam as primeiras releituras da
sempre estaria entre eles (Mt
pessoa de Cristo (3). Diante de toda essa releitura, a pregação 28:20).
do retorno de Jesus torna-se a esperança maior da Igreja (Mc Algumas comunidades não
9:1; 13:30; 1Ts 4:15-17; 2Ts 2:1-10). O retorno de Jesus é o fizeram essa releitura e
fim da história de sofrimento, a inauguração de novo céu e
nova terra (4).
continuaram a pregar o retorno
(2Pe 3:1-10).

AS PRIMEIRAS COMUNIDADES CRISTÃS


O Cristianismo como Releitura do AT
Pf. Eduardo Sales
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As primeiras comunidades fizeram uma grande releitura
das tradições do Antigo Testamento. Começaram entendendo Releituras da Igreja:
Dt 21:22-23 – Gl 3:13
que Jesus era cumprimento das escrituras (1Co 15:3-4; Mt
Sl 16:8-11 – At 2:25-28
26:54-56; Jo 13:18).
Sl 22:2,9 – Mt 27:46,43
Esse movimento começou pela compreensão de que as
Sl 31:6 – Lc 23:46
profecias de um tempo de paz e prosperidade garantido Deus
Sl 34:21 – Jo 19:36
(Is 9:1-6; 11:1-5; Js 23:5-6; Ez 34:23-24; Zc 9:9-10) se Sl 69:22 – Mt 27:34-48
realizaram no evangelho (At 2:16-21 e Jl 3:1-5; e At 7:2-53), Sl 110:1 – Mt 22:44
pois o messias esperado os libertaria do Império-Romano. Is 52:15 – Rm 15:21
O grande fato foi a nova perspectiva hermenêutica. Is 53:4 – Mt 8:17
Jesus é o interprete maior do Antigo Testamento (Mc 9:2-8; Lc Is 53:7,8 – At 8:32-33
9:28-36 – Jesus na transfiguração lê Moisés e os profetas). Is 53:9 – 1Pd 2:22
Nessa relação a igreja vê Jesus em relação de superioridade, Is 53:12 – Lc 22:37
pois como filho pode revelar claramente quem é o Pai (Mc 9:7). Zc 11:12,13 – Mt 27:9-10
Nessa releitura a igreja preservou: Zc 12:20 – Jo 19:37
1. O Tema do Êxodo (Ex 2:1-10 e Mt 2:1-18) Zc 13:7 – Mt 26:31
2. Moisés consulta o “Eu Sou”, Jesus é o “Eu Sou” (Jo 8:24, 28).
3. O cordeiro da Páscoa é substituído por Cristo (Jo 1:29)
4. A partilha do pão substituiu o mana (Jo 6:26-58)
5. Jesus é o legislador que supera Moisés (Mt 5)
6. Em Moisés Deus dá a lei e por Jesus doa o Espírito (Jo 1:17-18)
7. O Sangue da aliança é substituído pelo de Cristo (Mt 26:28).
8. O resgate do Reino de Deus para todos (Mt 5: 1-11)
9. Retoma a denúncia profética e a defesa dos fracos (Jo 6:14).

O que ficou para trás?


1. A eleição exclusiva dos judeus a partir da filiação de Abraão
(Gn 17), em Cristo, é para todos (Jo 3:16).
2. A Lei como código de aprovação diante de Deus (Rm 10:5;
Gl 3:11) foi substituída pelo amor ao próximo (Mc 12:29-31;
Rm 13:8-10), nessa releitura as comunidades entenderam
que Jesus está acima da lei (Mc 2:23-28).
3. As leis discriminatórias (pureza étinica, At 21:28) foram
confrontadas pelas comunidades cristãs (At 10:11,20; Gl 2:1-
10; 3:28).
4. A lei de puro e impuro (At 10,15) também foi superada pelas
primeiras comunidades que entenderam homens, mulheres,
estrangeiros e pessoas com necessidades especiais como
iguais (At 12:12; Rm 16:1-7)
5. A lógica do sacrifício como meio de reconciliação com Deus
foi superada pela misericórdia, pela mensagem da graça (Rm
3:21-26).
6. A doutrina da Retribuição (Jo 9:31) foi superada pelas
comunidades que viviam a graça (At 15:11; Rm 3:24)
7. A Sacralidade do Templo e Sacerdócio perdeu seu papel
mediador. Jesus é a superação do Templo (Jo 2:13-22; 4:21-
23), Jesus é o único caminho ao Pai, sem sacerdotes e
sacrifícios (Mt 11:27; Jo 14:6).
8. A concepção de um Deus cruel e vingativo (Dt 20:10-14; Sl
58:7-9; 137:9) foi superada pela proclamação da não-
violência (Mt 5:39; 26:52).
9. A comunidade primitiva reinterpreta o Messias como o Servo
(Jesus é o Rei-Servo – Mc 12:35-37; Mt 12:15-21; Jo 13).
.
AS PRIMEIRAS COMUNIDADES CRISTÃS
Pf. Eduardo Sales Liderança Feminina em João:
Maria Madalena: que na
Comunidades do Discípulo Amado tradição oriental é vista como 108
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Essa comunidade é responsável pelos textos de João uma apóstola.
(discípulo amado 13:23; 19:26;...). Não é narrado no livro de Marta:Confessa a fé (Jo 11:27)
Atos dos Apóstolos, isso porque a obra de Lucas inicia o Ambas são criticadas por Lucas
processo de hierarquização das comunidades (At 6) e omite as (Lc 8:2 e 10:38-42).
comunidades com liderança feminina. Relevância das mulheres. Estão
Pregavam uma aliança definitiva em Jesus (Jo 2:1-12), presentes no começo e no fim
o amor era a lei que garantia a igualdade (Jo 13:34-35), (Jo 2:1-12,19:25-27). Reconhece
anunciavam que Jesus era o “Eu Sou” que veio trazer vida Jesus como messias e anuncia
para seu povo (Jo 10:10; 8:24,28,32). ao samaritanos (Jo 4:1-42).
Nessa caminhada a comunidade enfraqueceu diante da profissão de fé (Jo 11:27).
perseguição, por isso insiste na identificação pública com o discípulas (Jo 12:1-11; 13). As
evangelho de Cristo (Jo 2:23-25; 6:60-66; 7:5,13; 12:42-43). primeiras a testemunhar a
Outros conflitos foram com os Batistas (1:7-8,19-23; deve ressurreição (Jo 20:11-18).
diminuir (3:30), nunca fez milagres (10:41-42) e queixam-se
dos cristãos (3:22-26). Conflitos com a idéia de autoridade e
No texto existem evidências de
poder da igreja em Jerusalém: Pedro só é convidado a seguir
que Felipe, André e Tomé
Jesus após jurar que o ama (1:42, 21:15-17); Pedro é
faziam parte dessa comunidade
apresentado como tendo uma perspectiva opressora de poder
(Jo 1:35-48; 6:1-15; 11:15-16;
(13:1-17); somente tem acesso a Jesus por meio do discípulo
12:21-22; 14:5-10; 20:24s).
amado (13:23-26); não aceita o caminho da cruz (18:10-11);
nega Jesus (18:17-27); na cruz, o discípulo amado estava lá e
Pedro fugiu (19:25-27); o discípulo amado chega primeiro ao Foi formada por Galileus (Jo
túmulo vazio (20:1-10); Pedro é apresentado querendo 1:43-45); Batistas (Jo 1:19);
pastorear sozinho e é repreendido (21:20-23). Samaritanos, principalmente
mulheres (At 6:5; 8:4-25);
Comunidades de Marcos Gregos (Jo 7:35; 12:20-32).
Outro grupo relacionado com a galiléia que procurou
animar a fé diante das perseguições (Mc 13; 6:7-13). Essa
comunidade seguia os passos de Jesus com simplicidade e Existe uma teoria que afirma a
desapego (Mc 6:8-9). existencia de outro evangelho
Para essas comunidades Jesus cura e liberta muitas (fonte Q) mais antigo e usado
pessoas, mas é mantido em segredo (Mc 1:34-44; 3:12; 5:43) pelos evangelistas.
a intenção é não mostrar um Jesus triunfalista, mas o messias Nesses extratos percebe-se a
que sofreu a cruz (Mc 9:9-10; 15:39). Nisso criticou as outras apresentação dos ditos de
comunidades que interpretavam Jesus como um mago. Jesus, como um mestre
A Cruz é o centro da mensagem da comunidade (rabino), ou um sábio. Um Jesus
marcana, quem não vê isso é cego (Familiares Mc 3:20-21; sem Cruz e sem confrontos,
6:4-6; autoridades 2:1-3:6; discípulos 6:49-52; 7:17-18; 8:14s). como no evangelho de Tomé.
A cruz é o auge do enfrentamento: Satanás (1:12-13);
autoridade dos escribas (1:21-28); demônios (1:33-39);
amarrar o forte (3:22-30); a pureza étnica (7:24-30); Pedro Crítica às Tradições judaicas
representante de Jerusalém (8:33). Templo (11:15-19; 12:33; 13);
Essa comunidade confrontou diretamente a Sumo Sacerdote (8:31;10:33;
comunidade de Jerusalém. Pela crítica às instituições judaicas 11:18-27); Saduceus (12:18);
anciãos (8:31; 11:27;15:1);
e pela apresentação negativa dos apóstolos e familiares de
tradição e os fariseus
Jesus. São cegos (Mc 6:49-52; resistem a cruz 8:32-33; lutam
(2:16,18,24; 3:6; 7: 1, 3,5; etc);
por poder 9:33-34; impedem a aproximação de crianças 10:13-
lei e os escribas (1:22; 2:6; 3:22;
14; lutam por cargos 10:35-37; fascinados com o templo 13:1; 9:11,14) fariseus (7:1,5; 2:16).
dormem no getsemani 14:33-40; abandonam Jesus 14:50.
Nessa comunidade a Casa é o novo local sagrado.
Substitui o templo (Mc 1:29; 2:1-15; 3:20; 5:38; 7:17s; 9:28s;...)
AS PRIMEIRAS COMUNIDADES CRISTÃS
Pf. Eduardo Sales

As Comunidades de Jerusalém 109


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A missão de Jesus não foi bem aceita em Jerusalém,
mas pessoas descontentes a política do templo aderiram ao
movimento (At 2:41-47). As lideranças da igreja eram
apostolos e familiares de Jesus (At 1:12-14). As criticas que Porque os apóstolos também
essa comunidade recebeu devem-se provavelmente a uma não foram perseguidos? (At
espécie monopólio da fé (Mc 9:38-40). A questão principal era 8:1). Porque frenquentavam o
a proximidade de Jerusalém com os costumes judaicos. templo (At 2:42) e para tal
As comunidades também iniciam nas casas (At deveriam cumprir as exigências
2:44:46), e na partilha (At 4:32-35) na inclusão (At 3:1-10). A da tradição judaica (rituais,
crise foi o poder (At 8:14-17; 11:2; Gl 2:4-5,11-14). A primeira morais e legais).
grande ruptura na Igreja foi em relação ao poder. Embora a
igreja fosse composta do povo as decisões aconteciam nas
Conflitos com as autoridades
lideranças, o que gerou insatisfação dos mais fracos (At 6).
judaicas: O Espírito é
Havia diversos conflitos: quanto ao messianismo de
comparado a embriaguez (at
Jesus e ao Reino de Deus (At 1:6-8) quanto ao dinheiro e ao 2:13) tentam silenciar os
prestígio (5:1-10); discriminação na partilha do pão (6:1-6); cristãos (At 4:1-22; 5:17-42);
lideranças (6); dificuldades de aceitar os diferentes (11:3; decidem matar os discípulos e
15:1); querem que todos observem a lei (At 15:5-6) e impõe os chicoteiam (5:33-40).
restrições aos gregos convertidos (15:19-20). Infelizmente as Conflitos com autoridades
comunidades de Jerusalém desapareceram em pouco tempo. romanas: Em 43 Herodes Agripa
Em 70, com a guerra judaica, muitos cristãos foram mortos e I, mata Tiago e prende Pedro (at
dispersos. E outras cidades cristãs adquiriram prestígio. 12:1-3).

As Comunidades Helênicas
Nos primeiros 20 anos o evangelho foi à Palestina, Síria
e Ásia Menor. Isso se deve a desenvolvimento das
comunidades de cultura grega. Diferente dos apóstolos, sua
missão foi alem da mesas (At 6:1-6), eles exerceram uma
missão semelhante a dos doze (Zt 6:8; 8:6-7:13). As Eram críticos ao Templo como
comunidades de Jerusalém eram fiéis aos costumes judaicos e principal local de discriminação.
as helenicas eram livres e contrárias a estrutura judaizante (At
6:8-15; 7:44-50). Opunham-se aos que controlavam o templo,
veja o caso de Estevão (At 7:54-60). Os helenistas rompem Romperam com os
com as leis judaizantes (At 8:5-13; At 8:26-40) preconceitos e aceitaram
Fundaram Igrejas na Samaria (At 8:5-13); Síria (9:1-30); missionarias (At 21:8-9)
África (8:26-40) e Atioquia (11:19ss). A postura anti-Templo e
anti-discriminatória, eram apelos irresistíveis aos judeus da
As diásporas (dispersões dos
diáspora. Isso porque foram muito discriminados pelos judeus
judeus pelo mundo) foram
de Jerusalém, uma vez que eram considerados impuros. O
importantes no crescimento
cristianismo purificou tudo em Cristo, até o “puro e o impuro”.
das igrejas helenicas.
A principal tese da releitura helenista foi a centralização
de Cristo. Não mais a lei, mas Jesus Cristo é o novo caminho.
Ele é a palavra que Salva (Gl 5:6; Rm 6:13ss; 1:16-17; 3:20s). Antioquia da Síria, centro
Os helenistas foram os primeiros a anunciar o missionário do helenismo. Era a
evangelho aos gregos (At 11:20). Suas missões estenderam- terceira cidade do império com
se principalmente a partir de Paulo. 500 mil habitantes.
Essas comunidades desenvolveram uma nova forma de
ser messiânico que foi denominada: cristianismo.
Desenvolveram novas relações de gênero, de classe e étnicas.
Para tal tiveram que superar as tensões com os judaizantes e
com os helenistas. Seu principal enfrentamento foi com os
judeus (At 15 – no concílio de Jerusalém).
O NASCIMENTO DO CRISTIANISMO
AS COMUNIDADES HELÊNICAS
Pf. Eduardo Sales
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Após as perseguições e diásporas (dispersões) muitos
judeus se dispersaram pelo mundo, ainda seguiam a lei de
Moisés e as tradições judaicas, mas de forma menos rígida,
acabaram por se aproximar da cultura e pensamento locais.
Esses judeus e prosélitos eram mau vistos pelo judaísmo At 11:19-21 – A igreja de
palestinense (At 6:1-2), o que possibilitou a aproximação ao Antioquia foi fundada,
movimento cristão, principalmente à igreja de Antioquia (At provavelmente pelos amigos de
13:43,48). Barnabé.
Antioquia da Síria foi um dos principais centros
missionários da igreja primitiva. Era a terceira cidade do
Império Romano, abaixo apenas de Roma e Alexandria,
possuía cerca de 500.000 habitantes.
Foram as comunidades helênicas que primeiro
anunciaram o evangelho aos gregos (At 10:34-35; 11:20).
Essas comunidades começaram a se aproximar dos outros
povos e se distanciar do judaísmo exclusivista, levando os
seguidores de Jesus a uma identificação própria: cristãos (At
11:26).
Esse momento também foi a passagem da eleição
particular para a missão mundial (At 10:34-35). Nessas
comunidades, diferente das de Jerusalém, a comunidade não
estava centrada nos apóstolos nem na família de Jesus, antes
possuíam uma autoridade colegiada. Seus líderes eram
profetas e doutores que organizavam empreitadas
missionários sendo sempre decidido em assembléia (At 13).
Novas relações de Classe
A primeira empreitada missionária de Antioquia Em Fp 2:5-11, a questão do
A primeira equipe foi formada por Barnabé, Paulo e servo e do senhor são
João Marcos (At 13-14), e deve ter sido travada por volta do superadas no relacionamento
ano 46-48. Primeiro visitaram Chipre (terra de Barnabé), de Cristo, o que também está
depois seguiram para Panfília (Ásia Menor, atual Turquia). Em em Gl 3: 27-28. Jesus era o
Perge, João Marcos abandona a equipe (13:13). Em Antioquia único Senhor (Kúrios) e todos
da Psídia, pregam aos gentios, o que provocou os judeus, eram iguais sob seu Senhor
culminando em sua expulsão (13:44-52; At 14:27). Em Icônio (1Co 7:22; Gl 5:1-13).
repete-se a história (14:1-5), e fogem para Listra onde curam
um aleijado e acabam por ser idolatrados pelo povo (14:5-18).
Mas pouco depois, Paulo foi apedrejado mas se reabilitou e Novas Relações étnicas
continuou com Barnabé para Derbe (14:19-21). Depois disso, Em Cristo não existem
voltam pelas mesmas cidades e designam líderes para as preferidos, todos são iguais (Gl
comunidades (14:21-23). 3:27-28). Todas as nações
possuem a mesma dignidade.
Novas Relações de Gênero Os estrangeiros não devem ser
A estrutura dessas comunidades desenvolveu novas considerados impuros (At 11:1-
10).
relações. Em primeiro lugar, romperam com os velhos moldes
de gênero e instituíram homens e mulheres na liderança das
comunidades (Gl 3:27-28). O cristianismo paulino tinha a
proposta de romper com as formas de preconceito e
discriminação. Outra característica é a aproximação de Deus:
chamado de Pai, o que rompia com os padrões de opressão
patriarcais desta época. Dentre as mulheres que se
destacaram estão Febe, Priscíla, Júnia e Maria (Rm 16).
CRISTIANISMO PAULINO
Pf. Eduardo Sales

O termino do primeiro período se dá com o concílio de Nesse período Judeus ainda 111
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Jerusalém. Essa reunião aconteceu devido a dificuldades entre tentavam a libertação da
as comunidades. Enquanto que Antioquia fazia missão e palestina, tornando seu
cuidava dos necessitados (At 11:29-30) a comunidade de governo algo bem
problemático para os
Jerusalém visitavam as comunidades judeu-helenicas
Romanos (At 21:38 fala de
provocando confusão com a imposição da lei (At 15:1-2 e Gl uma dessas revoltas).
2:4-5,11-14). Nesse concílio houve uma aproximação do
judaísmo, mas Paulo confronta com a Graça (At 13:38-39;
15:11). Assim, os judeus permitiram o evangelho mas forçaram
a lei (At 15:20,29) mas Paulo interpreta como abandono da
graça de Cristo (Gl 2:4ss). Há uma ruptura, Barnabé abandona
o grupo e Paulo forma uma nova equipe missionária.
Nessa época Herodes Agripa II (48-92) reina sobre Quem era Paulo:
algumas regiões da Palestina. Em 49 o Imperador Claudio (41- Nas primeiras cartas (1Ts, Fp,
54) expulsou os judeus, cristãos ou não, de Roma (At 18:2 – Fm) era um Pastor tentando
provavelmente devido aos conflitos com os cristãos). Mais resolver os problemas da
tarde Nero revogou esse decreto permitindo a volta dos judeus comunidade; Nas cartas
para Roma. Entre os anos 50-52 está a segunda viagem seguintes (Gl, 1,2Co e Rm) era
missionária de Paulo e nos anos de 53-57 está a terceira. um teólogo fundamentando a
Em 54 Nero subiu ao poder até o ano 68. Assumiu a fé cristã em seus ensinos; Em
postura de Imperador-Deus e exigiu culto a sua pessoa. Nos Atos dos Apóstolos, é um
primeiros anos Nero não perseguiu os cristão apenas por volta político conservador que não
do ano 64, que acusou os cristãos pelo incêndio de Roma. se opõe às autoridades
Entre os cristãos que mandou matar estão Paulo e Pedro (65) romanas. Nas cartas deutero-
e muitos outros cristãos que foram crucificados e incendiados paulinas (Ef, Cl) é um teólogo
para iluminar as ruas de Roma. Em 66 os zelotas iniciaram sistemático e menos radical
quanto ao igualitarismo cristão;
uma revolta que culminou na destruição do templo 70.
nas outras (Ts e Hb) não
acrescenta nada claro à sua
Paulo e as Igrejas pós-concílio de Jerusalém
personalidade; nas pastorais
Quem era Paulo? A princípio precisamos separar o
(Tt, 1,2Tim) surge o Paulo
Paulo das cartas autênticas (1Ts, Fl, Fm, Gl, 1 e 2Co, Rm) das conselheiro pastoral e político
cartas deutero-paulinas (Cl, Ef, 2Ts, Hb, Tt e 1,2Tim) e outro é conservador.
o Paulo de Atos dos Apóstolos.
Nas Cartas Autênticas: Imagem de alguém mais fraco e
muito contestado, suspeito de heresia. Não foi bem
considerado apóstolo, teve de defender-se, foi criticado por
não ser hábil no falar (2Co 11:6). Trabalhava como operário
artesanal (1Co 4:12) que era algo desprezado para um homem
livre. Foi várias vezes açoitado, sofrendo castigos e
humilhações.
Nas Cartas Deutero-Paulinas: Não inclui Paulo entre os
apóstolos. Nesses escritos Paulo não se opõe à autoridade
civil. Essa idéia é uma das teses principais de Atos dos
Apóstolos. Há um processo de evolução do pensamento
Paulino. A igreja primitiva vai polindo as críticas e amenizando
Paulo de forma a ser aceito pela maioria, sem crítica ao
império e às estruturas culturais (é o caso das caras Pastorais)
Em Atos dos Apóstolos: Apresenta uma grande proximidade
de Paulo com as autoridades romanas, demonstrando simpatia
com o império. Paulo é apresentado como favorável à
ideologia do império, o que não condiz com o Paulo das cartas
autênticas.
PAULO E AS VIAGENS MISSIONÁRIAS
Pf. Eduardo Sales

A primeira viagem missionária antecedeu o concílio de 112


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Jerusalém (49 d.C.). Essa primeira empreitada estava ligada a
inclusão dos gregos. As diferenças culturais produziram
perseguições e dispersão entre os primeiros cristãos (At 6-7),
culminando com o afastamento de Barnabé que se posicionou
a favor da Igreja de Jerusalém.
Entre os anos 50-52 (At 15:36-18:22) ocorre a segunda
viagem missionária com Paulo e Silas (Silvano). Visitam as
comunidades fundadas na primeira viagem e confirmam as
igrejas de Derbe, Listra, Iconio e Antioquia da Psídia. Em
Listra, Timóteo adentrou ao grupo missionário (At 16:1-3). Em
seguida fundaram comunidades na Galácia e Frígia (At 16:6).
Partiu para Trôade (16:11), e em Filipos (16:12) foram
perseguidos e presos. Ao ser libertados rumaram para
Tessalônica (At 17:1). Nessa que era uma das principais
cidades da Macedônia a mensagem do Messias foi
interpretada como afronta ao império (At 17:6-7), e novamente
foram para prisão (17:8-9).
Livres, rumaram para Beréia e depois para Atenas
(17:10-15) onde pouco ficou. Em seguida foi para Corinto,
cidade com cerca de 400.000 habitantes onde permaneceu 18
meses. Por volta do ano 51, Paulo e seus companheiros
escrevem a carta de 1Tessalonissences.


PRIMEIRA TESSALONICENSES
A CARTA DA ESPERANÇA
Pf. Eduardo Sales (1) Tradição evangélica de
Deus Pai. 113
Escrita durante um período de perseguição (no ano 49 Página |
(2) Elemento vivencial indica
o imperador Claudio expulsou os judeus de Roma. É possível
o começo da igreja. O tema
que cristãos tenham sido perseguidos como judeus). Após o da esperança é o coração da
conflito com os cristãos gentios e o concílio de Jerusalém, carta. Anseio escatológico
Paulo assume a missão independente, inicia a segunda diante da crise imposta pelo
viagem missionária e escreve essa carta em Corinto, por volta império.
do ano 51 d.C. (3) Eleição reconhecida a
A sociedade era formada por uma elite dominante partir da esperança e firmeza
(política, militar e comércio) e pela maioria de escravos, na fé.
estima-se em apenas 5% da população pertenciam à elite. É (4) palavra x em poder, no
preciso lembrar que, por ser cidade portuária, recebia pessoas Espírito, em convicção.
(6) discipulado em tribulação
do mundo inteiro, principalmente do exército romano.
(10) O filho dos céus é uma
O principal objetivo é reanimar a esperança. As referência ao Filho do
perseguições estavam desanimando os fiéis e estimulando Homem em Daniel. A ênfase
aproximações seculares que negociavam a fé. É provável que dos Céus é referência ao
o contexto portuário e de capital da Macedônia contribuíram Juízo, como se vê no término
para a perseguição, mortes e mesmo o esfriamento da fé do versículo.
messiânica. (11) ira vindoura. Retoma a
1Tess. 1 – 2 O Discipulado da Esperança tradição dos profetas e dos
1:3 recordando-nos, diante do nosso Deus e Pai (1), da evangelhos. O dia do Senhor
operosidade da vossa fé (2), da abnegação do vosso amor e da é o dia da ira e não da
firmeza da vossa esperança em nosso Senhor Jesus Cristo, 1:4 alegria (Am 6; Mt 3:7s;
reconhecendo, irmãos, amados de Deus, a vossa eleição (3), 1:5 4:17;Mc 1:15; ).
porque o nosso evangelho não chegou até vós tão-somente em
palavra, mas, sobretudo, em poder, no Espírito Santo(4) e em plena (12) Testemunho pessoal de
convicção, assim como sabeis ter sido o nosso procedimento entre sofrimento. Confronto entre
vós e por amor de vós. engano e verdade, agradar
1:6 Com efeito, vos tornastes imitadores nossos e do Senhor homens e agradar Deus.
(6), tendo recebido a palavra, posto que em meio de muita tribulação,
com alegria do Espírito Santo.
1:10 e para aguardardes dos céus o seu Filho (10), a quem
ele ressuscitou dentre os mortos, Jesus, que nos livra da ira vindoura
(11).
2:2 mas, apesar de maltratados e ultrajados em Filipos (12),
como é do vosso conhecimento, tivemos ousada confiança em nosso
Deus, para vos anunciar o evangelho de Deus, em meio a muita luta.
2:12 exortamos, consolamos e admoestamos, para viverdes
por modo digno de Deus, que vos chama para o seu reino e glória.
Nesse capítulo Paulo estimula a fé dos fiéis afirmando
seu zelo e convicção. Apresenta a crise Poder x Palavra,
comum ao ambiente grego (isso por causa dos oradores e
retóricos gregos, Paulo não era mais um destes). Continua a
afirmar a fé da comunidade na preparação de uma vida digna
(discipulado) para encontrar com Jesus no dia do Senhor (dia
da ira). E conclui seu testemunho afirmando que mesmo em
meio a muita luta anunciou o evangelho para que os crentes
possam viver de modo digno do evangelho.
A mensagem de esperança era uma resposta à crise
ideológica do império Romano, era a pregação da
manifestação do poder de Deus, do dia do verdadeiro Senhor,
esperança de salvação para os fiéis e punição para os infiéis.
PRIMEIRA TESSALONICENSES
A CARTA DA ESPERANÇA
(17) sofreram perseguição
114
dos gregos como os cristãos
Esperança: Paulo entre Judeus e Gentios Página |
Uma das principais marcas dessa carta é o tratamento de Jerusalém sofreram dos
judeus.
que Paulo dá aos judeus.
(18) Juízo sobre os judeus
2:14 Tanto é assim, irmãos, que vos tornastes imitadores das
vistos como perseguidores
igrejas de Deus existentes na Judéia em Cristo Jesus; porque
dos cristãos como de Cristo
também padecestes, da parte dos vossos patrícios (17), as mesmas
e dos profetas.
coisas que eles, por sua vez, sofreram dos judeus, 2:15 os quais
(19) tradição reaparece em
não somente mataram o Senhor Jesus e os profetas, como também
Mt 23: 13, referindo-se ao
nos perseguiram, e não agradam a Deus (18), e são adversários de
rabinato (fariseu?).
todos os homens, 2:16 a ponto de nos impedirem de falar aos
(20) Paulo continua lendo a
gentios para que estes sejam salvos (19), a fim de irem enchendo
ira de Deus sobre os judeus
sempre a medida de seus pecados. A ira, porém, sobreveio contra
como punição do império
eles, definitivamente.(20)
romano (expulsão dos
A mensagem de esperança se manifesta como juízo sobre os
judeus de Roma em 50 d.C.)
perseguidores.
(21) Referência às
Perseguições esfriavam a fé dos Cristãos adversidades. Demonologia ou
Com a expulsão dos judeus de Roma, é provável que os interpretação histórica?
cristãos também tenham sofrido, isso porque ainda congregavam nas (22) A igreja estava sofrendo
sinagogas. Assim Paulo fala de Satanás e do Tentador, referências perseguições. O Tentador é
da igreja primitiva à opressão de Roma. a opressão do império para
2:18 Por isso, quisemos ir até vós ( pelo menos eu, Paulo, calar o testemunho.
não somente uma vez, mas duas ); contudo, Satanás nos barrou o (23) Preocupação no
caminho (21). crescimento em Amor e
3:2 e enviamos nosso irmão Timóteo, ministro de Deus no comunidade.
evangelho de Cristo, para, em benefício da vossa fé, confirmar-vos e (24) Santidade social. Base
exortar-vos, 3:3 a fim de que ninguém se inquiete com estas para o encontro com Jesus e
tribulações (22). todos os seus santos.
3:5 Foi por isso que, já não me sendo possível continuar (25) a tradição identifica os
esperando, mandei indagar o estado da vossa fé, temendo que o santos com os anjos que
Tentador vos provasse, e se tornasse inútil o nosso labor. vem nas nuvens com o Filho
3:12 e o Senhor vos faça crescer e aumentar no amor uns do homem.
para com os outros e para com todos (23), como também nós para (26) Vida agrada a Deus.
convosco, 3:13 a fim de que seja o vosso coração confirmado em (27) prostituição. Santidade
santidade (24), isento de culpa, na presença de nosso Deus e Pai, na separação do corpo. Não
vinda de nosso Senhor Jesus, com todos os seus santos (25). defraudar o irmão.
Também é importante notar a preocupação de Paulo (28) Deus é o vingador.
Chamados para Santificação,
com o crescimento da em amor uns para com os outros essa é
não rejeite a Deus. Veja o
a verdadeira santidade e confirmação para o dia da vinda.
contexto de amor fraternal.
Discipulado e mudança de Vida
4:1 Finalmente, irmãos, nós vos rogamos e exortamos no
Senhor Jesus que, como de nós recebestes, quanto à maneira por
que deveis viver e agradar a Deus (26), e efetivamente estais
fazendo, continueis progredindo cada vez mais; 4:3 Pois esta é a
vontade de Deus: a vossa santificação, que vos abstenhais da
prostituição; 4:4 que cada um de vós saiba possuir o próprio corpo
em santificação e honra, 4:5 não com o desejo de lascívia, como os
gentios que não conhecem a Deus(27); 4:6 e que, nesta matéria,
ninguém ofenda nem defraude a seu irmão; porque o Senhor, contra
todas estas coisas, como antes vos avisamos e testificamos
claramente, é o vingador (28), 4:7 porquanto Deus não nos chamou
para a impureza, e sim para a santificação. 4:12 de modo que vos
porteis com dignidade para com os de fora e de nada venhais a
precisar.
PRIMEIRA TESSALONICENSES (29) ignorantes: objetivo era
A CARTA DA ESPERANÇA fortalecer a fé e impedir o
entristecer pela falta de
esperança. 115
Esperança Escatológica: A Promessa de Ressurreição Página |
Com as perseguições e a demora da segunda vinda, (30) Schweitzer fala dessa
ressurreição como sendo
muitos cristãos estavam morrendo o que desanimava a fé, pois
original de Paulo. A base é
principalmente para os cristãos judeus, reinar com o messias que a ressurreição de Cristo
era algo imprescindível. é a razão teológica de nossa
4:13 Não queremos, porém, irmãos, que sejais ignorantes ressurreição.
com respeito aos que dormem, para não vos entristecerdes como os (31) o encontro com o
demais, que não têm esperança (29). 4:14 Pois, se cremos que Senhor nos ares refere-se ao
Jesus morreu e ressuscitou, assim também Deus, mediante Jesus, cortejo do rei vitorioso
trará, em sua companhia, os que dormem (30). (parousia). Observe todo um
A Ressurreição de Jesus serviu de paradigma, de modelo contexto de exercito: voz e
para todos. É porque Cristo ressuscitou que ninguém ficará arcanjo, palavra de ordem,
esquecido na morte. trombeta. Metáfora bem
4:15 Ora, ainda vos declaramos, por palavra do Senhor, isto: aplicada para uma cidade
nós, os vivos, os que ficarmos até à vinda do Senhor, de modo algum que sempre recebia as
precederemos os que dormem. 4:16 Porquanto o Senhor mesmo, tropas imperiais.
dada a sua palavra de ordem, ouvida a voz do arcanjo, e ressoada a (32) O consolo é a principal
trombeta de Deus, descerá dos céus, e os mortos em Cristo mensagem dessa carta. A
ressuscitarão primeiro; 4:17 depois, nós, os vivos, os que ficarmos, mensagem de ressurreição
seremos arrebatados juntamente com eles, entre nuvens, para o para o reino com Cristo é
encontro do Senhor nos ares, e, assim, estaremos para sempre com exclusiva de Paulo, baseada
o Senhor (31). 4:18 Consolai-vos (32), pois, uns aos outros com em sua teologia da
estas palavras. Ressurreição e união com
É importante notar que na escatologia de Paulo vários Cristo. Se Ele ressuscitou,
elementos não existem (besta apocaliptica, anti-cristo, armagedom, nós ressuscitaremos.
etc...) Paulo segue a escatologia do antigo testamento que entendia (34) trevas não pé maldade
a segunda vinda como o Dia do Senhor, dia da ira e do juízo. Em que e luz não é bondade ou
todos os justos estarão com Ele, primeiro os mortos em Cristo santidade. Trevas é não
(mensagem de esperança para a comunidade, ênfase no termo - estar preparado e luz o estar
primeiro -), enquanto que, aqueles cristãos que se achavam preparado.
melhores por não ter morrido, viriam depois. (35) ilustração comum ao
contexto militar da cidade.
5:2 pois vós mesmos estais inteirados com precisão de que o (36) Ira e Salvação como
Dia do Senhor vem como ladrão de noite(32). 5:3 Quando andarem faces da mesma moeda.
dizendo: Paz e segurança, eis que lhes sobrevirá repentina Tradição dos evangelhos (Mt
destruição, como vêm as dores de parto à que está para dar à luz; e 25:34,41). Não é maldade,
de nenhum modo escaparão; 5:4 Mas vós, irmãos, não estais em mas justiça (Mt 23:13). É a
trevas, para que esse Dia como ladrão e vos surpreenda (34); teologia da retribuição em
5:8 Nós, porém, que somos do dia, sejamos sóbrios, caráter social. A teologia da
revestindo-nos da couraça da fé e do amor e tomando como Graça não aparece nessa
capacete a esperança da salvação(35); 5:9 porque Deus não nos carta, mas a ação de união
destinou para a ira, mas para alcançar a salvação mediante nosso em Cristo pelo vigiar.
Senhor Jesus Cristo (36), 5:10 que morreu por nós para que, quer (36) Novamente a teologia
vigiemos, quer durmamos, vivamos em união com ele (37). surge como fenômeno social.
(37) opõe a paz romana e
5:11 Consolai-vos, pois, uns aos outros e edificai-vos prega a não-violência, como
reciprocamente, como também estais fazendo os evangelhos.
5:14 Exortamo-vos, também, irmãos, a que admoesteis os
insubmissos, consoleis os desanimados, ampareis os fracos e sejais
longânimos para com todos (36). 5:15 Evitai que alguém retribua a (38) apagar o Espírito.
outrem mal por mal; pelo contrário, segui sempre o bem entre vós e Provável ênfase retórica
para com todos (37). (sabedoria grega) estratégia
do império Romano contra a
5:19 (38) Não apagueis o Espírito. 5:20 Não desprezeis as profecias; Igreja.
PRIMEIRA CORINTIOS
ADVERTÊNCIA A UNIDADE
116
No tempo de Paulo, Corinto era uma cidade próspera, Página |
centro privilegiado de comunicações marítimas e de comércio,
graças à sua situação geográfica e aos dois portos: um sobre o
Mar Egeu, que facilitava as ligações com a Ásia Menor, a Síria
e o Egito; outro sobre o Adriático, que assegurava o tráfico
com o Ocidente.

Reconstruída por César no ano 44 a.C., depois de ter


sido arrasada durante a terceira guerra púnica, em 146 a.C.,
Corinto tornou-se a capital da Província senatorial da Ásia e
sede de um proconsul, desde o ano 27 a.C. A sua população
era muito heterogenea, proveniente das mais variadas raças e
praticando os mais diversos cultos; na época de Paulo devia
rondar o meio milhão de habitantes, dois terços dos quais
seriam escravos.

Cidade da deusa Afrodite, em cujo templo se praticava


a prostituição sagrada, era tristemente famosa pela sua vida
fácil e licenciosa. Mas era também um centro cultural
importante e, no séc II a.C., o retórico Hélio Aristides referia-se
com louvor às suas escolas, aos filósofos e literatos que se
podiam encontrar nas esquinas das ruas e aos Jogos Ístmicos
que ali se realizavam na Primavera, de dois em dois anos.

A IGREJA Paulo chegou a Corinto no termo da


segunda viagem missionária e permaneceu aí dezoito meses
(At 18,1-18), provavelmente desde o Outono do ano 50 até à
Primavera de 52. O ambiente religioso, cultural e moral era
adverso; mas Paulo fundou uma grande comunidade pujante
de vida cristã, sobretudo com elementos vindos do paganismo,
na sua maioria das classes mais humildes (1,26-29; 12,2),
embora também houvesse judeu-cristãos (1,22-24; 10,32;
12,13; At 18,8).

AS CARTAS Sabemos que, antes de 1 CORÍNTIOS,


Paulo escreveu uma Carta (chamada, por vezes, "pré-
canônica") onde proíbe o relacionamento dos cristãos com os
devassos (1 Cor 5,9-13); e entre as duas Cartas canônicas é
preciso colocar uma outra, escrita "entre muitas lágrimas" (2
Cor 2,4; 7,8). Estas Cartas ter-se-ão perdido ou terão sido
integradas no atual conjunto da correspondência com os
coríntios, que seria, portanto, uma compilação.
Devem ter-se também em conta as informações e pedidos de
esclarecimento feitos a Paulo por escrito, as visitas dos seus
colaboradores Timóteo (4,17; 16,10) e Tito (2 Cor 2,13; 7,13-
14) e as viagens do Apóstolo. Além da viagem da fundação, há
uma outra que foi anunciada (16,5-7) e talvez anulada depois
(2 Cor 1,15-23); e uma outra, mencionada explicitamente como
a terceira (2 Cor 12,14; 13,1) e que poderá corresponder à
descrita nos Atos dos Apóstolos (18,23), durante a terceira
viagem missionária.
PRIMEIRA CORINTIOS

A COMUNIDADE Ao longo destas páginas, desenha-se o


retrato fiel de uma comunidade viva e fervorosa, mas com
todos os problemas resultantes da inserção da mensagem 117
Página |
cristã numa cultura diferente daquela em que tinha sido
anunciada anteriormente. As questões abordadas derivam em
grande parte do fenômeno da inculturação do Evangelho em
ambiente helenista. Paulo procura esclarecer, mostrando-se
firme ao condenar os comportamentos inconciliáveis, mas
compreensivo quando a fé não corre perigo.

CONTEÚDO DATA E DESTINATÁRIOS


Quem são os Gálatas? No tempo
O conteúdo da 1.ª CARTA AOS CORÍNTIOS pode resumir-se do NT, a Galácia era uma província
nos seguintes pontos doutrinais: romana da Ásia Menor, que
abrangia os seguintes territórios: a
Prólogo: 1,1-9; Galácia propriamente dita, a Frígia,
I. Divisões na igreja de Corinto: 1,10-4,21; a Pisídia e a Licaónia. Galácia, nos
II. Escândalos na igreja: 5,1-6,20; Actos (Act 16,6; 18,23), distingue-
se da Frígia.
III. Resposta a questões concretas: 7,1-11,1;
As igrejas da Galácia devem ter
IV. A Assembleia Litúrgica: 11,2-34; sido fundadas por ocasião da 1.ª
V. Os carismas: 12,1-14,40; viagem missionária de Paulo (Act
VI. A ressurreição dos mortos: 15,1-58; 13,1-14,26). O Apóstolo dos gentios
VII. Epílogo: 16,1-24. escreve a CARTA AOS GÁLATAS
entre 55 e 57, a partir de Éfeso ou
TEOLOGIA de Corinto, depois de 1 Ts e antes
de Rm, Fl e Flm.
Os cristãos de Corinto enfrentaram várias "tentações":
reduzir a fé cristã a uma sabedoria humana, diversificada à
maneira das escolas filosóficas de então (1,10; 3,22);
Ceder aos imperativos de uma ética sexual,
caracterizada, ora por um excessivo laxismo, ora pelo
desprezo da carne, segundo as diferentes correntes filosóficas
(5,1-3; 6,12-20; 7,1-40);
Continuar a observar as práticas cultuais do paganismo
(cap. 8-13) e a sofrer a influência suspeita das refeições
sagradas (11,21) e do frenesim delirante de certos ritos (12,2-
3).
Tiveram ainda dificuldade em conciliar o mistério Além do Livro de
fundamental da ressurreição dos mortos com as doutrinas Atos, temos o próprio
dualistas da filosofia grega (cap. 15). testemunho de Paulo em
As soluções propostas estão marcadas pelos Gálatas onde ele cita dois
condicionalismos culturais de então e pelo concreto da vida; incidentes diferentes de
mas não se reduzem a mera casuística já ultrapassada, cristãos judeus (os “falsos
porque o gênio de Paulo, mesmo quando desce a questões do irmãos”) que queriam impor
a lei de Moisés nos gentios
dia-a-dia, sabe sempre elevar-se aos princípios fundamentais
conversos (Gl 2.4, cf. At
que lhes asseguram perenidade e oferecer-nos uma teologia 11.27-30; e Gl 2.12).
aplicada ao concreto da vida cristã. Esta era a batalha que Paulo
enfrentava durante todo o
seu ministério e ressoa pelo
menos no pano de fundo de
todas as suas cartas. Mas
em Gálatas, está bem à
tona.
Introdução a carta aos GÁLATAS
Pf. Eduardo Sales

DIVISÃO E CONTEÚDO O conteúdo desta Carta pode 118


resumir-se no seguinte: Página |

Introdução: 1,1-10;
I. Origem divina do Evangelho: 1,11-2,21;
II. O Evangelho faz-nos filhos de Deus: 3,1-4,7;
III. O Evangelho faz-nos livres: 4,8-5,12;
IV. Vida cristã, caminho de liberdade: 5,13-6,10;
V. Conclusão: 6,11-18.

TEOLOGIA
A discussão acerca do anúncio do Evangelho também
aos pagãos, considerados imundos pela Lei (Act 10-11; 15), foi
o primeiro problema que surgiu após a Ressurreição de Cristo
e do Pentecostes. Depois, levantou-se o problema de se os
cristãos, vindos do paganismo, estavam também sujeitos à Lei
mosaica. Divergiam as opiniões. Paulo, apesar de ser judeu da
seita dos fariseus (os mais zelosos da Lei), tornou-se o
campeão da liberdade cristã ou da não sujeição à Lei,
interpretada à maneira dos fariseus. Isso mereceu-lhe a
hostilidade, não só dos judeus, mas também dos cristãos de
origem judaica. O chamado concílio de Jerusalém (Act 15) não
conseguira acalmar completamente os ânimos. Cristãos de
origem judaica - os judaizantes - puseram em causa a validade
e legitimidade do anúncio evangélico feito por Paulo, negando-
lhe a dignidade apostólica e acusando-o de pregar um
Evangelho mutilado e de anunciar um cristianismo diferente do
dos outros Apóstolos de Jerusalém. Por isso, tentavam
submeter os recém-convertidos ao jugo da Lei.
Para o Apóstolo, a Lei de Moisés foi sobretudo "um
pedagogo", cuja missão era conduzir a Cristo (3, 24). Se os
cristãos continuassem a observar a Lei como necessária para
a salvação, então a obra de Cristo teria sido inútil: a salvação
não nos viria por Ele, mas pela Lei. Por isso, o que nos justifica
não são as obras da Lei, mas a fé em Cristo.
Partindo deste princípio, Paulo vai ainda mais longe. Esforça-
se por provar aos seus adversários que a Lei nunca justificou
ninguém. O próprio Abraão não foi justificado pela observância
da Lei, mas pela fé e pela Promessa.
A Lei não fez mais do que manifestar o pecado, ao
indicar um caminho, sem dar forças para o seguir. Só a Boa-
Nova de Cristo, que é poder de Deus para todo o que crê,
justifica, porque, indicando o caminho, dá também a força
sobrenatural para o seguir.
O grupo dos judaizantes quase desapareceu com a
queda de Jerusalém, por volta do ano 70.
Introdução a carta aos ROMANOS
Pf. Eduardo Sales
Contexto
Escrita aprox. em 54-57
119
Pastoral contra as crises na Igreja de Roma Página |
• Imperador Claudio expulsa os judeus
• Retorno dos Judeus e discriminação por parte dos Gentios.
• Crise da Aliança – Questão da inclusão dos Gentios
Carta de Apresentação
• Mudança da Base Missionária
• Crise apostólica: At 15 e Gl 2
Teologia e Tema da Carta:
• Paulo entre Judeus e Gentios
120
Página |
121
Página |

Notas:
FILIPENSES DIVISÃO E CONTEÚDO
Introdução: 1,1-11;
Filipos era uma cidade situada ao norte da Grécia, que Filipe II da I. Prisão de Paulo: 1,12-26;
II. Deveres da comunidade:
Macedônia, pai de Alexandre Magno, agregou ao seu reino, dando- 1,27-2,18; 122
Página |
lhe o seu próprio nome. Antes, chamava-se Krénides (ver At 16,12). III. Solicitude pela comunidade:
Paulo chegou a Filipos nos anos 49 ou 52, com Timóteo, Silvano e 2,19-3,1;
IV. O Apóstolo, modelo da
Lucas. O mesmo Lucas, nos Atos (At 16,1-40), faz a narração do fato
comunidade: 3,2-4,1;
na primeira pessoa do plural, como um dos intervenientes nele. Conclusão: 4,2-23.

COMUNIDADE Foi em Filipos que começou a evangelização da Cidade era uma colônia
Europa. Os judeus, sendo poucos, não possuíam aí uma sinagoga, romana: Colonia Julia Augusta
mas apenas um lugar de oração. Lídia, que Paulo batizou, fazia parte Philipensis. Os cidadãos
passaram a ter os mesmos
deste grupo. Formou-se aí uma pequena comunidade, sobretudo de direitos dos romanos.
origem pagã (At 16,11-40; 1 Ts 2,2). Esta comunidade sentia-se
particularmente unida a Paulo; dela recebera o Apóstolo dons (4,15;
2 Cor 11,8-9), não obstante insistir no trabalho gratuito (1 Cor 4,12;
9,15; 2 Cor 11,7-9; 1 Ts 2,9; 2 Ts 3,7-9). Quando soube que ele fora Redação: Problemas no texto
preso, em Éfeso ou em Roma, organizou uma coleta e enviou-lhe com oscilações entre alegria (2)
Epafrodito para a entregar a Paulo. Epafrodito, porém, caiu doente, e tristeza (3); afeto até (3:1;
muda o tom a partir de (3:2); no
o que causou preocupações em Filipos. Paulo, logo que a doença o
capitulo 3 há denuncias que
permitiu, reenviou-o a Filipos, com esta Carta (2,25-30). faltam no demais da carta,
assim como também não
DATA E LOCAL Esta é, pois, com Cl e Flm, uma das Cartas do pressupõe a prisão.
Cativeiro. Parece ter sido escrita em Roma (At 28,16.30-31); no
entanto, poderá ter sido escrita num outro qualquer cativeiro (2 Cor
11,23; ver 1 Cor 15,32; 2 Cor 1,8). "O pretório", de 1,13, não prova Situação econômica:
que Paulo tenha escrito a Carta em Roma, pois esse termo designava
Pobreza: 2Co 8:2; 4:16
também a residência dos governadores romanos (Mt 27,27 nota; Mc
15,16; Jo 18,28-31 nota). O mesmo se diga da "casa de César" (4,22).
O cativeiro pode, pois, ter sido em Éfeso, onde passou dois anos (Act
19,8-10). Se foi escrita nesta cidade, a Carta seria dos anos 56-57; se
foi escrita na prisão de Roma, teria sido nos primeiros meses de 63.

Teologia: os Filipenses deverão ser fiéis a Cristo perante os falsos


mestres, imitando Paulo (3,2-11). Para exortar os cristãos, o
Apóstolo cita-lhes um hino a Cristo, servo sofredor (Is 53), mas que
Deus fez Senhor de toda a Criação (2,6-11). Uma característica
fundamental desta Carta é o tom afetuoso, que perpassa todo o
texto.

Releitura:
Alegria: 1:4,18; 2:2,17s,28s; 3:1; 4:1,4,10
Oferta: Aceitou de Filipenses (4:15ss; 2Co 11:7-9)
Mulheres: Esforço no ministério (4:3)
Cristologia: Hino do esvaziamento (2:6-11)
Os maus Obreiros: Judeus cristãos (3)
Marcos e a Ideologia
EVANGELHO SEGUNDO MARCOS Triunfalista
- O Risco de perder a
Escrito por volta do ano 70 em Roma pelo testemunho de Pedro
a Marcos (1Pe 5:13). Estavam sob o domínio do Império Romano,
simplicidade da fé.
Perseguição aberta de Nero, guerra dos judeus (66 d.C.), decaptação - O Risco de não
de Paulo (67 d.C.) e destruição do templo por Tito (70 d.C.). O principal compreender Jesus 123 Página |
objetivo: Responder quem é Jesus. - O Risco de confundir
com os Taumaturgos
Comunidades de Marcos
Outro grupo relacionado com a galiléia que procurou animar a fé
diante das perseguições (Mc 13; 6:7-13). Essa comunidade seguia os Notar diversas referências
passos de Jesus com simplicidade e desapego (Mc 6:8-9). geográficas a Galiléia.
Para essas comunidades Jesus cura e liberta muitas pessoas,
mas é mantido em segredo (Mc 1:34-44; 3:12; 5:43) a intenção é não
mostrar um Jesus triunfalista, mas o messias que sofreu a cruz (Mc 9:9-
10; 15:39). Nisso criticou as outras comunidades que interpretavam
Jesus como um mago. Crítica às Tradições
A Cruz é o centro da mensagem da comunidade marcana, quem judaicas
não vê isso é cego (Familiares Mc 3:20-21; 6:4-6; autoridades 2:1-3:6; Templo (11:15-19; 12:33;
discípulos 6:49-52; 7:17-18; 8:14s). A cruz é o auge do enfrentamento: 13); Sumo Sacerdote
Satanás (1:12-13); autoridade dos escribas (1:21-28); demônios (1:33- (8:31;10:33; 11:18-27);
39); amarrar o forte (3:22-30); a pureza étnica (7:24-30); Pedro Saduceus (12:18); anciãos
representante de Jerusalém (8:33). (8:31; 11:27;15:1); tradição e
os fariseus (2:16,18,24; 3:6;
Essa comunidade confrontou diretamente a comunidade de
7: 1, 3,5; etc); lei e os
Jerusalém. Pela crítica às instituições judaicas e pela apresentação escribas (1:22; 2:6; 3:22;
negativa dos apóstolos e familiares de Jesus. São cegos (Mc 6:49-52; 9:11,14) fariseus (7:1,5;
resistem a cruz 8:32-33; lutam por poder 9:33-34; impedem a 2:16).
aproximação de crianças 10:13-14; lutam por cargos 10:35-37;
fascinados com o templo 13:1; dormem no getsemani 14:33-40;
abandonam Jesus 14:50. Relação com Biblia
Nessa comunidade a Casa é o novo local sagrado. Substitui o Hebraica: Marcos escreve
templo (Mc 1:29; 2:1-15; 3:20; 5:38; 7:17s; 9:28s;...) sobre a missão do Batista,
1:25, como em Ml 3:1 e Is
Evangelho de Marcos 40:3. Jesus no memento da
A primeira geração não identificou o Jesus humano como Deus, colheita das espigas: Mc
2:25 em paralelo com 1Sm
apenas o ressurreto, foi a partir de marcos que o Jesus humano passou 21:1-7. Em Mc 7:6 refere-se
a ser visto como Cristo divino, o que afrontava ao Judaismo Monoteísta. à citação de Is 29:13. Na
A Destruição do Templo foi o principal motivo histórico, pois a partir purificação do templo Mc
11:17 citando Is 56:7 e Jr
desse fato o judaísmo perdeu seu centro. Várias controvérsias foram
7:11, e com o salmo 118:22
suscitadas em Marcos Sábado (2:23-25 só marcos; 3:1-5 somente estabelece relação com os
marcos) sobre a pureza (7:1-4 somente marcos); duplo mandamento do ouvintes da parábola Mc
amor (12:28-30); dilaceração da cortina do Templo (15:38 sinopticos). 12:1-12. A compaixão de
Jesus em Mc 6:34 é
Marcos apresenta ao redor de Jesus uma comunidade formada por relacionada com Nm 27:17 e
Judeus e pagãos (3:7-9). A missão da nova comunidade chega até a Ez 34:5.
Decápolis, de onde retorna após um exorcismo (5:1-3). Marcos revela
que a nova perspectiva do Templo deve atender a todos (11:17).
A Questão da Pureza em Mc 7:15, vemos claramente a ênfase anti- No sábado foi atuorizado
matar desde que fosse em
judaizante At 10:9-11. As regras alimentares também (Mt 8:11-12).
defesa própria 1Mac 1:29-
Dentre as principais ações simbólicas de Cristo está a purificação 36, daí a questão de
do Templo (Mc 11:15-17); Deus visa um novo Templo, diferente do Jesus em Mc 3:4. Jesus
atual. As ceias de Jesus com os pobres e marginalizados simbolizam o não condena o Sábado,
grande banquete escatológico M t 8:11-12). mas revela uma torção da
Lei ritual.
Crise com os Fariseus do
EVANGELHO SEGUNDO MATEUS concílio de Jamnia
Data provável: Ano 80
Escrito na Siria ou Israel. Enquanto que o grego empregado
nesse evangelho indica Síria e Antioquia, o conflito com o rabinismo
124
indica Palestina. Recentemente a tese que foi na Galiléia (Tiberíades) Página |
foi retratada como o local do evangelho de Mateus. Foi uma Mateus:
comunidade judaica procurando desvincular-se do judaísmo rabínico.
Provavelmente um Rabino
A separação torna-se mais clara em Mt 28:15 (entre os judeus);
Mt 21:43 (exclusivo de Mateus); assim como no sermão da montanha Cristão. Desenvolveu uma
e outros.A comparação de Lucas 10:24 e Mat 13:17 revelam a leitura rabínica do
intenção clara de sublinhar seu contexto. evangelho de Marcos.
Kasemann (1969) afirma que o texto de Mt 7:22-23, expressa
bem o conflito rabínico, principalmente se relacionado com os falsos Tendências:
profetas (7:15); o que também é ressaltado na diferença entre Lc 6:46 1. Afronta aos Fariseus
e Mt 13:26ss. É preciso notar que a tendência ética de Mateus
denuncia sua intenção, pois é característica mais marcante do 2. Pós-queda do Templo
Rabinismo, completando a questão com Mt 23:8-10 e Tg 3:1. (Veja 3. Perseguição dos cristãos
também o cruzamento de Mt 5:32 e 19:9 contra Mc 10:11 e Lc 16:18, 4. Jesus é o messias
em que a tradição rabínica de Shamai é ressaltada por Mateus ) 5. Procedimento Rabínico
Outra interpretação de Kasemann (1969) que ilumina nossa 6. Ênfase Ética
questão é a comparação de Lc16:17 e Mt 5:18-19. Onde a discussão 7. Separação dos Cristãos
com o rabinismo vem a tona como ênfase Mateana.
do Judaísmo
Outro texto que expressa essa realidade e esses problemas é
o de Mt 10:41, onde o costume e autoridade profética contraposta à
realidade dos Rabinos. O que também é constatado em Mt 13:16ss e Textos diferenciais
Lc 10:24. 1. Infância de Jesus
Continua o processo Marcano de Divinização do Jesus 2. Sermão da Montanha
Histórico. Entretanto, Mateus acrescenta as epifanias em sua 3. Mateus 23 – contra os
narração (Mt 3:17x Mc 1:11; Mt 14:33); descreve a unição místico
fariseus.
espíritual em que nasceu Jesus (Mt 28:18).
Atua com centralização ética. Renúncia do Status por Jesus
(Mt 3:13-15); manso e humilde em relação aos radicais rabínicos
(11:29); comporta-se como um rei humilde ao entrer em Jerusalém
(21:4-5; Zc 9:9).
Mateus procura sempre dar cumprimento ao Antigo
Testamento (Mt 5:17). Formula a justiça que excede (5:20); não negou
os ensinos mas questionou a hipocrisia (23:1-3); questionou a atitude
como de um gentio (5:47); questionou a oração (6:7); as
preocupações cotidianas (6:31); Inicia a busca pelo Melhor (19:21).
Em Mt 25:31-33, Mateus entende a rejeição dos Judeus como uma
rejeição ética, o que é bem retratado em Mt 23.
Com a oposição dos Fariseus Mateus pretende um rejeição do
Rabinismo e a substituição de Moisés por Jesus como Único Mestre e
portador da revelação divina (Mt 28:18-20).
Em seu estilo literário, Mateus é um rabino cristão com
tendências à fórmulas e estereótipos (AGUIRRE, R) o que melhora a
compreensão de Mt 5:18,19; e 16:17-19 (Pedro não é bem o Cabeça
da Igreja, mas o líder dos Judeus Cristãos); também elucida Mt 23:2-3
(conhecimento profundo do farizaísmo). Somente um rabino poderia
entender Mt 21:7 como cumprimento de Zac 9:9; Também explica a
prática catequética de MT 6:5-15; 19-34 e 7:1-5;
EVANGELHO SEGUNDO LUCAS
Local de escrita: Antioquia da
Síria, Éfeso ou Corinto. O livro
O Cristianismo separado do Judaísmo (70-90) de Atos, também escrito por
E & W Estegemann (2004) afirma que o Rabinismo iniciou Lucas, fala muito de Éfeso.
apenas após a destruição do templo em 70 d.C. foi um 125
Evangelho para a cultura grega, Página |
renascimento do farizaismo (ênfase na casa de ensino). Essa o que explica as diferenças
ênfase é clara no evangelho de João e Mateus. sociais e a dominação da cidade
sobre o campo.
Conflitos entre cristãos e o restante do judaísmo Como Marcos e Mateus, afirma
Existiam Judeus messiânicos em Israel. Josefo afirma que Bar que Jesus é salvador do mundo.
Kochba ameaçou os judeus messiânicos com pesados castigos,
caso não negassem que Jesus é o Cristo. Lucas e Atos também Exclusivo de Lucas:
confirmam Lc 21:12; (At 4:3; 5:18; 6:8-8:1; 8:2ss;9:1ss; 12:1; Infância de Jesus 1-2
21:27ss; 22:4ss; 26:9-11). São passagens anteriores à guerra de Início da vida pública 4:14-30
70 d.C. e não apresentam o conflito judeu-cristão. Pescaria Genesaré 5:4-11
Após o ano 70, temos o texto que refere Paulo e Silas como Filho da viúva de Naim 7:11-17
causadores de tumulto (At 16:20); Paulo fica preso acusado de Mulher pecadora 7:36-50
Discípulas de Jesus 8:1-3
rebelião anti-romana At 24:27; 25:9; Sob Plinio, todo cristão que
Má acolhda em Samaria 9:51-6
confessava Cristo era condenado por subversão dos costumes Missão dos 72. 10:1-12,17-20
romanos. Bom samaritano 10:29-37
Escrito provavelmente em território grego, por volta do ano 80- Marta e Maria 10:38-42
90. Um texto dirigido ao meio urbano (palavra cidade aparece Amigo importuno 11:5-8
26x). Neste evangelho aparecem grandes contrastes sociais. A Felizes os que ouvem 11:27-8
situação da mulher, sobretudo, é valorizada. Partilhar herança 12:13:15
Rico insensato 12:16-21
Fogo à terra 12:49-50
Lucas torna compreensível a separação entre judeus e
Morte dosgalileus 13:1-5
cristãos. Nesse evangelho a humanidade de Jesus é ressaltada Figueira estéril 13:6-9
por sua opção pelos pobres, pecadores e marginalizados (Lc Mulher encurvada 13:10-17
5.1ss; 7.36ss; 15.1ss; 18.9ss; 19.1ss; 12.39ss). Mas também os Porta estreita 13:24-30
samaritanos, tão desprezados pelos judeus, pertencem a esse Jesus e Herodes 13:31-33
grupo (Lc 10.30ss; 17.11ss). Cura do Hidrópico 14:1-6
Esse evangelista também dá mais atenção às mulheres no Escolha dos lugares 14:7-14
grupo de seguidores de Jesus do que os outros sinópticos (Lc Torre de guerra 14:28-33
Dracma perdida 15:8-10
7.12,15; 8.2s; 10.38ss; 23.27ss).
Filho pródigo 15:11-32
Critica a usura do dinheiro e confere aos pobres o Administrador imprudente 16:1
reino dos céus (Lc 6:20-24); Os ricos e o buraco da agulha Lc Amigos do Dinheiro 16:14
18:25). Essa também é a razão para ele transmitir a nós as Rico e Lazaro 16:19-31
parábolas do agricultor rico (Lc 12.15ss), do administrador infiel Servo humilde 17:7-10
Dez leprosos 17:11-19
(Lc 16.1-9) e do rico e de Lázaro (Lc 16.19ss). Reino de Deus 17:20-21
O núcleo principal desse evangelho são as parábolas de (Lc Juiz injusto 18:1-8
15). Além disso, esse evangelho é singular em sua historiografia. Fariseu e o publicano 18:9-14
Lucas interpreta a história a partir de Cristo como centro da Zaqueu 19:1-10
história. A separação entre cristãos e judeus é clara nos textos de Lamento sobre Jerusalém 19:41
substituição e restauração do Israel (Lc 2:31-32,34); o papel de Vigilância 21:34-38
Jesus reunindo Israel (afirma separação entre povo e dirigentes Combate decisivo 22:35-38
Orelha do servo 22:50-51
Lc 7:29-30; 13:17; 20:9-19); e por fim na missão aos pagãos (At
Jesus diante de Herodes 23:6
13:46). Mulheres e o calvário 23:27ss
Temas principais: Jesus é o salvador do mundo; restauração do Bom ladrão 23:39-43
excluídos, ação do Espírito Santo, discipulado e seguimento, Os discípulos de Emaus 24:3-35
cidade, mesa.
EVANGELHO SEGUNDO JOÃO
Dimensão Social
O texto em questão usa
Essa comunidade é responsável pelos textos de João elementos profundamente
(discípulo amado 13:23; 19:26;...). Não é narrado no livro de Atos dos arraigados na tradição
Apóstolos, isso porque a obra de Lucas inicia o processo de sociológica, revestindo a 126 Página |
hierarquização das comunidades (At 6) e omite as comunidades com narrativa de sentido mais
liderança feminina. Pregavam uma aliança definitiva em Jesus (Jo profundo.
1. Ideologia Religiosa
2:1-12), o amor era a lei que garantia a igualdade (Jo 13:34-35),
2. Ideologia Patriarcal
anunciavam que Jesus era o “Eu Sou” que veio trazer vida para seu
povo (Jo 10:10; 8:24,28,32).
Linguagem teológica Simbólica
Autor, data, local, destinatários e principais problemas – O mais simbólico do NT
Devido ao gênero literário é preciso intuir o autor a partir de
sinais textuais. Para Konings o autor desaparece na carta e surge em
alguns momentos como participante da comunidade cristã (1:14,16; Rompimento e continuidade
3:11; 4:22; 1:41,45; 6:68,69). Em alguns momentos aparece como com os sinóticos
testemunha ocular (ex. 19:35). Sua fala é um tipo de homilia, onde se
pronuncia como se estivesse numa prédica, dirigida com forte ironia
contra os judeus, com muitas explicações tradicionais e traduções, Comunidade do Discípulo
intuindo o processo de iniciação. O autor de certa forma se identifica amado.
com o Jesus - rabi, o próprio tratamento “filhinhos” já indica atitude
pastoral. Assim, mesmo sob as afirmações históricas de que o autor
tenha sido o próprio discípulo que passou ás igrejas (antigos prólogos Testemunho dos Sinais
latinos, ex. Eusébio de Cesaréia, Papias, etc), a questão do anonimato Cristologia Avançada
do autor se impõe. Fica pouco evidente a autoria do apóstolo João, Jesus é Deus
isso porque o discípulo amado pode ser outro irmão que a igreja tem
identificado com João.
Diante das análises acima, entendo que o autor do evangelho, Diversas releituras:
devido ao contato com a comunidade cristã, e uma linguagem Criação (Jo 1)
diferenciada, sua intenção voltada para a formação dos novos, sua Êxodo (Jo 8)
adaptação ao mundo judeu-helênico, não pode ter sido o apóstolo Aliança (Jo 3:16)
João. O discípulo amado era um pastor (presbítero) da época que
estava voltado para realidade de sua comunidade, e como tal
apresentou Jesus nos evangelhos de forma a dissipar as dúvidas e
dificuldades de sua comunidade.
Por tanto entendemos que a datação do evangelho de João só
é possível se considerarmos seus limites: Em forma de síntese
concordo com a opinião comum que data deste escrito está na faixa
entre o ano 70 e 110.
A tradição que se apóia sobre o testemunho de Irineu, acredita
ser ele oriundo de Éfeso, outros indícios nos conduzem a procurar em
Antioquia. Seu estilo e sua linguagem (aramaismos) marcam dupla
influencia (helênica e judaica), o que torna plausivelmente optar-se
para a região de Éfeso ou da Síria.
Crise Judeu-Romana: A datação tardia deve ser afirmada em
razão do contexto. Nesse período a Palestina estava sob domínio de
Roma e sob a imposição da Pax Romana. Sob esse tema o
imperialismo e dominação romana se impuseram para “pacificar” o
mundo. Foi uma nova era de “Paz” garantida pelo poder militar
romano. Augusto foi interpretado como salvador enviado para por fim
à guerra e anunciar a “PAZ”. Augusto foi chamado de o "salvador de
todo o gênero humano”.
DIVISÃO E CONTEÚDO

As cartas da Prólogo: 1,1-4;


I. Caminhar na Luz: 1,5-
2,29;
Comunidade Joanina II. Viver como filhos de
Deus: 3,1-24;
III. A fé e o amor: 4,1-127 Página |
O Novo Testamento inclui três Cartas atribuídas a João. 5,12;
A 1.ª sempre foi aceite como escrito inspirado; as dúvidas de Conclusão:
autenticidade incidem na 2.ª e na 3.ª, certamente por serem
menos conhecidas e utilizadas, dado o seu menor interesse e
importância, mas já aparecem no Cânon de Muratori (180d.C.)
A 2.ª CARTA é um
AUTOR Deve ser o mesmo do IV Evangelho, atendendo às brevíssimo escrito dirigido
enormes semelhanças de vocabulário, estilo, ideias e doutrina. "à Senhora eleita e a seus
As Cartas não aparecem assinadas, como as restantes do NT; filhos" (v.1), designação
apenas a 2.ª e a 3.ª se dizem ser do Ancião (Presbítero), sem simbólica de uma igreja
declarar o seu nome. Toda a tradição as atribuiu ao Apóstolo concreta da Ásia Menor;
João. pois, se fosse uma pessoa
singular, não teria o
DESTINATÁRIOS, FINALIDADE E DATA Cada uma das mesmo nome da sua irmã:
Cartas tem as suas características próprias: "Saúdam-te os filhos da
tua Irmã eleita" (v.13).
A 1.ª CARTA não tem endereço e não parece ser dirigida Visa incitar os fiéis à vida
apenas a uma comunidade, mas provavelmente ao conjunto cristã e à caridade e
das igrejas que estavam ligadas ao Apóstolo João. A tradição defendê-los da heresia.
diz que ele passou os seus últimos tempos em Éfeso; os Há quem a imagine como
destinatários seriam provavelmente as comunidades cristãs da um esboço da Primeira.
Ásia, sobretudo aquelas a quem se endereçam as Cartas do
início do Apocalipse. A 3.ª CARTA é dirigida a
um cristão, Gaio (v.1).
A Carta não foi escrita apenas para reavivar a fé em Cristo e o Anima-o a continuar a
amor aos irmãos; parece ser, antes de mais, um escrito receber em sua casa os
polémico: perante a ameaça de erros graves, apresenta enviados do Apóstolo
fórmulas claras e confissões obrigatórias da fé, como garantia João, que eram mal
da fé genuína e sinal da ortodoxia (4,1-3). Parece que se recebidos pelo chefe da
enfrenta com os gnósticos, que afirmavam ter um comunidade local, um
conhecimento direto de Deus e negavam tanto a vinda de certo Diótrefes. Não temos
Deus "em carne mortal" (4,2) como a identidade entre o Cristo outras notícias destas
celeste e o Jesus terreno (2,22). Para eles, o Jesus terreno pessoas.
não passava de um mero instrumento de que o Cristo celeste
se tinha servido para comunicar a sua mensagem, descendo a
Ele por ocasião do Batismo e abandonando-o por ocasião da
Paixão; e assim negavam a Incarnação e a morte do Filho de
Deus, e o seu valor redentor. Daí o seu ensino categórico: o
Filho de Deus, "Jesus Cristo, é aquele que veio com água e .
com sangue; e não só com a água, mas com a água e com o
sangue" (5,6); isto é, Deus não abandonou o homem Jesus
antes da sua Paixão e Morte.

Esta Carta, de uma notável riqueza doutrinal e numa forma


mais desenvolvida, é considerada posterior ao IV Evangelho e
terá sido escrita nos últimos anos do séc. I.
Tiago AUTOR não deve ser Tiago
Maior, o Apóstolo irmão de
João, pois foi martirizado
A CARTA DE TIAGO foi raramente comentada ao longo dos muito cedo (em 42 ou 44). E
séculos, talvez pelo seu carácter de exortação moral e pelo seu alguns pensam que 128 tão-
sabor judaico: só duas vezes cita o nome de Jesus (1,1; 2,1) e pouco é o outro Apóstolo do Página |
propõe como modelos apenas figuras do Antigo Testamento: mesmo nome, o filho de
Abraão, Job, Raab, Elias. Mas nos nossos dias veio a merecer Alfeu (ver Mc 3,18 par.), mas
um interesse especial dos estudiosos, pois apresenta uma um terceiro Tiago, "o irmão
exposição viva e espontânea da mensagem no ambiente das do Senhor", homem de
primitivas comunidades cristãs de origem judaica e revela uma grande prestígio, ligado aos
série de contrastes que despertam a atenção. Apóstolos e chefe da
comunidade de Jerusalém
Só se percebe que é uma Carta pelo primeiro versículo, pois tem (Act 12,17; 15,13-21; 21,18-
todo o aspecto de uma homilia. Mostra uma grande afinidade com 25; Gl 1,19; 2,9.12), o qual,
após a Ressurreição, passou
os livros do AT, mormente os Sapienciais (Pr, Sb e Sir) e
a crer em Jesus. A
Proféticos (Is, Jr e Ml), e com os escritos judaicos (Pirqê Abot, identificação habitual destes
Testamento dos 12 Patriarcas, etc.); mas está impregnada do dois Tiagos (o Menor, "filho
espírito cristão. Nela, podem contar-se 29 dependências do de Alfeu" e "o Irmão do
Sermão da Montanha (Mt 5-7), duas alusões ao Baptismo (1,21; Senhor") só se teria dado no
correr dos séculos, a partir
2,7) e à lei da liberdade (1,25; 2,12), um desenvolvimento da
do que se diz em Gl 1,19:
relação entre a fé e as obras, problema candente no cristianismo "Não vi nenhum outro
(2,14-26), a única referência expressa do Novo Testamento à Apóstolo, excepto Tiago,
Unção dos Enfermos (5,14-15) e a insistência na perfeição irmão do Senhor." Trata-se
(1,4.17.25; 2,22; 3,2), como em Mateus. de uma questão discutida,
pois este texto de Gálatas
pode entender-se de outra
ESTILO E LINGUAGEM O texto contém muitos hebraísmos: maneira, traduzindo, em vez
construções hebraicas (1,22; 2,12; 4,11), paralelismo, parataxe, de "excepto Tiago": "mas
genitivo de qualidade (1,25; 5,15). O autor exprime-se num grego somente Tiago".
de alto nível, apenas comparável ao de Hebreus; de fato, tem um
DATA A maioria dos
vocabulário rico (63 palavras não aparecem no resto do NT, 45 estudiosos adopta uma das
encontram-se nos Setenta e 4 estão ausentes do grego posições seguintes: trata-se
helenístico) e utiliza os recursos retóricos da diatribe cínico- do primeiro escrito cristão,
estóica, pequenos diálogos com um interlocutor imaginário (2,14- dos fins da década de 40,
26), perguntas retóricas (2,4.5b.14.16; 3,11-12; 4,4-5) e pois tem um aspecto muito
primitivo, como se vê ao
interpelações incisivas (1,16.19; 4,13; 5,1), imperativos (mais de chamar à comunidade cristã
60), paradoxos e contrastes (1,26; 2,13.26; 3,15; 4,12), bem como "sinagoga" (aqui traduzido
frequentes exemplos e comparações. Tudo isto dá à Carta uma por "assembleia": 2,2) e
grande vivacidade e faz pensar em escritores como Epicteto ou parece ignorar a crise
judaizante e a conversão dos
Séneca.
pagãos. Outros pensam
DESTINATÁRIOS Os destinatários desta Carta são "as doze que foi escrita por volta do
tribos da Dispersão" (1,1), mas não seriam nem os judeus da ano 60, pouco antes da
emigração fora da Palestina (a Diáspora em sentido próprio; há morte de Tiago, irmão do
quem pense mesmo em judeus helenizados de tendência Senhor, que se deu pelo
ano 62, pois pensam que Tg
essénia), nem os cristãos em geral, dispersos pelo mundo (a
2,14-26 pressupõe as Cartas
"Diáspora" em sentido figurado). Seriam os judeo-cristãos da de Paulo aos Romanos e
Diáspora, embora sem excluir outros cristãos em contato com Gálatas, que alguns
Tiago. deturpavam para justificarem
uma vida fácil.
CONTEÚDO TEOLÓGICO Como escrito tipicamente didáctico e
moral, a Carta não obedece a um plano doutrinal previamente
elaborado. Sublinhamos os temas das principais exortações:
A atitude cristã perante as provações: 1,2-18;Pôr em prática a
Palavra: 1,19-27; Caridade para com todos: 2,1-13; Fé com
obras: 2,14-26;Domínio da língua: 3,1-12;Verdadeira
sabedoria: 3,13-18;Origem das discórdias: 4,1-12;Evitar a
Efésios Cristo Cósmico: Ef 1:10,
20-23
O tom geral desta Carta não está de acordo com a autoria de
Paulo: é muito impessoal, faltando o estilo e a linguagem próprios do 129
Apóstolo. As únicas referências indiretas a Paulo (3,13; 5,18-22) não O Mistério de Cristo: Ef Página |
chegam para lhe atribuirmos este escrito. Deve, pois, tratar-se de 1:9; 3:3-12
um documento pertencente a um autor dos círculos paulinos, que se
dirige aos pagãos convertidos ao cristianismo, fazendo-o em nome
de Paulo (1,1-2). Autor: Um discípulo de Paulo, ano 95. A vitória de Cristo sobre os
poderes Ef 1:7,10
DESTINATÁRIO Não está claro se foi escrita aos cristãos de Éfeso -
grande cidade da Ásia Menor evangelizada por Paulo, na sua
terceira viagem missionária (Act 19) - ou aos de Laodiceia (Cl 4,16). Cristo é o cabeça da igreja
O tom impessoal da Carta, a ausência de companheiros do Apóstolo Ef 1:20-23 e 5:21-32 Nas
(não se refere nenhum) leva os estudiosos a inclinarem-se pela cartas autenticas a Igreja é
hipótese de uma Carta-circular dirigida às igrejas paulinas da Ásia um corpo em Cristo (Rm
Menor. Além disso, o nome do destinatário (a cidade de Éfeso) falta 12:4-5; 1Co 12:12-30).
nos códices mais importantes. Hierarquização eformação
patriarcal da Igreja. A casa
DIVISÃO E CONTEÚDO A Carta aos Efésios está organizada em
manda na Igreja. Ef 5:21-
duas partes:
Apresentação: 1,1-2. 6:9.
I. A Igreja e o Evangelho (1,3-3,21):
A graça de Deus: 1,3-14;
Cristo, Senhor do mundo e da Igreja:1,15-23; Cristologia e eclesioologia
A obra de Cristo: 2,1-22; avançadas. A vinda de
Lugar de Paulo no plano de Deus: 3,1-21. Jesus não é mais para
II. Exortação aos batizados (4,1-6,20): breve. A escatologia e o
Viver na unidade: 4,1-16; Espírito estão ausentes da
Instruções várias: 4,17-5,20;
Cristo e a Igreja. Consequências: 5,21-6,9; carta. E parece que o
Combater inimigos espirituais: 6,10-20. autor não conheceu a
Saudação final: 6,21-24. comunidade Ef 1:15.

TEOLOGIA Por esta época, nas cristandades asiáticas começavam


a propagar-se doutrinas judaico-gnósticas sobre as forças
espirituais, os anjos, colocando-os acima de Cristo. Com isso,
procurava-se exaltar a Lei de Moisés, pois, segundo as tradições
rabínicas, ela fora promulgada por anjos. Se os anjos, que a
promulgaram, eram superiores a Cristo, também a Lei o seria, em
relação ao Evangelho. Contra esta visão das coisas, Paulo expõe o
"Mistério de Cristo" na sua grandeza cósmica, enraizado no "Mistério
da Igreja".
É Igreja que Deus revela hoje o seu plano salvador realizado
em Cristo e por Cristo. A Igreja de Cristo é universal, nova Criação e
Corpo em crescimento. É nela que judeus e pagãos se encontram
na unidade. A Igreja é ainda o novo povo de Deus, a esposa de
Cristo (5,21-32), por quem Ele deu a vida.
Cristo Cósmico: Cl 1:15,20;
Colossenses 2:9-10

Colossos era uma pequena cidade da Ásia Menor situada O Mistério de Cristo: Cl
junto de Hierápoles, entre Éfeso e Laodiceia. Parece que nunca foi 1:26-27; 2:2; 4:3 130
visitada por Paulo. O fundador desta igreja foi Epafras (4,12), Página |
discípulo de Paulo. A ela pertenciam Filémon, destinatário de uma
Carta-bilhete a propósito do escravo Onésimo (Flm), e Arquipo A vitória de Cristo sobre os
(4,17). Autor: Talvez Timoteo. Ano 95, antes da carta de Efésios.
O problema dos anjos, a que se alude na introdução da Carta poderes Cl 2:15
aos Efésios, também era aqui muito vivo. Esta Carta - segundo
parece, cronologicamente anterior à dos Efésios - dá uma primeira
resposta paulina a esse problema. As qualidades, os poderes e as Combate às heresias (Cl
funções que os judeo-gnósticos atribuíam aos anjos, atribui-os Paulo 2:4-8,16-23)
ao Cristo-Cósmico, que tem a primazia em toda a criação e é Filho
de Deus por natureza.

DESTINATÁRIO A Carta foi dirigida aos cristãos de Colossos


durante o primeiro cativeiro de Paulo (4,3.10.18), na última parte do
seu ministério (61 a 63). A comunidade de Colossos tinha saído do
paganismo e não era conhecida pessoalmente pelo Apóstolo,
embora fosse fundada por um discípulo seu. A novidade do
vocabulário e dos temas desta Carta manifestam a sua originalidade
em relação às outras Cartas paulinas, o que se pode explicar pela
novidade do meio ambiente da comunidade de Colossos, ou por a
Carta não ter sido escrita directamente por Paulo.

DIVISÃO E CONTEÚDO O conteúdo da Carta é o seguinte:

Introdução: 1,1-23;
I. O Evangelho de Paulo: 1,24-2,5;
II. Fidelidade ao Evangelho: 2,6-23;
III. Viver segundo o Evangelho: 3,1- 4,6;
Conclusão: 4,7-18.

TEOLOGIA Os cristãos de Colossos viam-se tentados a seguir as


crenças esotéricas, um misto de elementos pagãos, judaicos e
cristãos. Estas crenças atribuíam muita importância às forças
cósmicas, ao poder dos anjos e de outros seres que se entrepunham
entre Deus e os seres humanos e influenciavam o destino de cada
pessoa.
Tais doutrinas e o recurso a práticas supersticiosas (2,16-23),
preconizadas por mestres "heréticos", levaram Paulo a proclamar
Jesus Cristo como único e universal mediador entre Deus e o mundo
criado. Nele se celebrou a vitória sobre esses poderes, à qual os
cristãos se associam pelo baptismo (2,6-15), que é fundamento da
liberdade cristã face a toda a sujeição (2,16-3,4).
A fé em Cristo morto e ressuscitado é o único caminho que
conduz à sabedoria e à liberdade. Os cristãos, despojados do
homem velho e revestidos de Cristo, pelo baptismo, nasceram para
novas relações humanas baseadas na fraternidade (3,5-15).
1.ª Timóteo
Natural de Listra, filho de pai grego e de mãe judia, Eunice (At 16,1),
Timóteo tornou-se companheiro de Paulo, desde que este por ali passou, no
decorrer da segunda viagem missionária (At 15,35-18,22). Aparece associado 131
a ele no endereço de várias Cartas (2 Cor, Cl, 1 e 2 Ts, Flm), está ao seu lado Página |
em Atenas (At 17,14-15), em Corinto (At 18,5), em Éfeso (At 19,22) e é um dos
portadores da coleta para Jerusalém (At 20,4). Foi encarregado por Paulo de
várias missões difíceis, para resolver situações delicadas (Rm 16,21; 1 Cor
4,17; 16,10-11; Fl 2,19-24; 1 Ts 3,2-6).
DIVISÃO E CONTEÚDO No conteúdo teológico desta Carta destacam-se
especialmente dois conjuntos:

Saudação inicial e acção de graças: 1,1-20.


I. A organização eclesial (2,1-4,16).
II. Conselhos a várias classes de pessoas (5,1-6,19).
Mas a sequência dos temas é a seguinte:
Combater as falsas doutrinas: 1,3-20;
Organização do culto: 2,1-15;
Qualidades para o episcopado: 3,1-7;
Qualidades do diácono: 3,8-13;
Hino ao mistério da piedade: 3,14-16;
Contra os falsos mestres: 4,1-5;
Timóteo como modelo: 4,6-16;
Instruções para vários grupos cristãos: 5,1-6,19.
Saudação final: 6,20-21.

2.ª Timóteo
Das três Cartas Pastorais, esta é a que contém mais informações de
ordem pessoal, quer no que diz respeito a Paulo (1,12.15-18; 3,10; 4,6-8.16-
18), quer aos seus destinatários (1,5; 2,17; 3,15; 4,9-15.19-22). Estes
elementos, aliados ao fato de ser esta a Carta Pastoral que menos se afasta
do estilo paulino, constituem um sério argumento em favor de uma autoria,
pelo menos parcial, do Apóstolo, quer sob a forma de um escrito seu que tenha
sido posteriormente completado, quer de indicações dadas a um secretário
que se encarregou da redação.
De qualquer modo, na sua forma atual, esta Carta dificilmente pode ser
atribuída a Paulo, na sua totalidade; os dados de natureza pessoal,
habitualmente considerados fidedignos, podem ser fruto de informações orais
sobre a última fase da vida do Apóstolo.

DIVISÃO E CONTEÚDO A Carta tem a seguinte estrutura:


Saudação e ação de graças (1,1-5), que introduzem o tema central,
enquadrado por duas exortações solenes a Timóteo, para que renove a graça
do ministério pastoral que lhe foi confiado (1,6-18; 4,1-5).
Parte central: é um aprofundamento da missão de Timóteo (2,1-13),
contraposta à dos falsos mestres (2,14-26) e exercida num ambiente de
indiferença e hostilidade (3,1-17). O testemunho do próprio Paulo, que se
sente já no crepúsculo de uma vida inteiramente dedicada ao Evangelho e
espera concluí-la na fidelidade à sua missão (4,6-8), constitui exemplo e
encorajamento para todos os pastores.
Conclusão: tem algumas recomendações e pedidos (4,9-18) e uma saudação
final (4,19-22).
2.ª Coríntios
Paulo escreve esta Carta provavelmente depois de ter
abandonado Éfeso e quando se encontrava na Macedónia (2,13; 132
Página |
7,5), no fim do ano 56. Não é fácil reconstituir os acontecimentos que
se passaram, quando o Apóstolo se decide a escrever, está
reconfortado com as boas notícias que Tito lhe trouxera de Corinto
(7,13).

AUTENTICIDADE E UNIDADE A autenticidade paulina desta


Carta é hoje comumente aceita, mas a sua unidade é objeto de
muitas discussões. Se é inegável a unidade temática em volta do
apostolado cristão, são evidentes também: as grandes diferenças
entre a primeira parte, de tom afável, e a terceira, de tom severo que
vai até à ameaça; a inserção violenta do trecho 6,14-7,1 na
exortação iniciada em 6,11-13 e continuada em 7,2; o aspecto de
duplicado do cap. 9 em relação ao 8. Uns defendem a unidade
literária, bem apoiada pela tradição manuscrita, recorrendo à
psicologia do Apóstolo ou a uma lógica do discurso diferente da
nossa, para explicar as incongruências; outros vêem aqui uma
compilação de cartas: o trecho 6,14-7,1 poderia corresponder à
Carta pré-canónica (1 Cor 5,8-13), o cap. 9 seria um duplicado
dirigido a um auditório mais vasto - todas as igrejas da Acaia - e os
cap. 10-13 seriam a Carta escrita "entre muitas lágrimas" (2,4; 7,8).
Mas as razões contra a unidade não são mais convincentes do que a
hipótese contrária.

DIVISÃO E CONTEÚDOEsta Carta divide-se em três partes:


I. Paulo faz a apologia do seu comportamento em relação aos
coríntios (1,12-7,16). Começando por se defender das acusações de
inconstância e de leviandade que lhe fazem (1,12-2,17), sublinha,
depois, a grandeza do ministério apostólico (3,1-6,10) e termina com
um apelo à confiança afetuosa dos seus destinatários (6,11-7,16). II.
Paulo dá instruções relativamente à coleta em favor da igreja de
Jerusalém (8,1-9,15).III. Defesa de Paulo, que faz novamente a sua
apologia, em tom polémico, defendendo a autenticidade do seu
ministério contra uma minoria de agitadores que trabalham no seio
da comunidade (10,1-13,13).

TEOLOGIA Escrita num estilo apaixonado e vibrante, onde


abundam as antíteses e frases cheias de ritmo e de sentido que se
tornaram célebres, esta bem pode ser considerada a Carta magna
do apostolado cristão, que nos informa sobre aspectos relevantes da
missão de Paulo e sobretudo nos revela a sua alma, no que ela tem
de mais humano e sobrenatural.

Não tendo o valor doutrinal da 1.ª Carta, dá-nos, contudo,


preciosos ensinamentos sobre as relações entre os dois
Testamentos (3-4), a Santíssima Trindade (1,21-22; 3,3; 13,13), a
acção de Cristo e do Espírito Santo (3,17-18; 5,5.14-20; 8,9; 12,9;
13,13) e a escatologia individual (5,1-10).
HEBREUS Conteúdo
Apesar de ser habitualmente conhecido como "Carta", este escrito
do Novo Testamento não apresenta um início de carácter epistolar,
mais parecendo o exórdio de um sermão (1,1-4). Trata-se, mais de 133
um discurso do que de uma Carta em sentido próprio. Página |

DESTINATÁRIOS Não encontramos no texto nenhuma referência


aos Hebreus como destinatários, e nada indica que o grego em que
está escrito seja uma tradução do hebraico. É, portanto, difícil dizer
quais os seus destinatários, embora o título "aos Hebreus" seja
muito antigo (séc. II).Pode facilmente admitir-se que fosse dirigida a
judeo-cristãos, saudosos do culto judaico que antes praticavam. O
título parece justificar-se ainda mais, se tivermos em conta o
conteúdo da Carta, pois ela pressupõe leitores bem conhecedores
do culto e da liturgia judaica.

AUTOR, LOCAL E DATA São igualmente imprecisos o autor, o local


e a data da sua composição. As Igrejas do Oriente consideraram-na
sempre como uma Carta paulina, apesar de muitos reconhecerem as
suas diferenças em relação às outras Cartas de Paulo, sobretudo no
que se refere à forma literária, à linguagem e estilo, à maneira de
citar o AT e mesmo quanto à doutrina. A Igreja do Ocidente negou-
lhe a autoria paulina até ao séc. IV e pôs, por vezes, em questão a
sua condição de escrito inspirado e canónico.A questão continuou
controversa ao longo da história da exegese católica e protestante,
mas atualmente é quase unânime a negação da autenticidade
paulina. No entanto, admite-se que a CARTA AOS HEBREUS tenha
tido origem num companheiro ou discípulo de Paulo, pois há
vários pontos de convergência entre ela e a doutrina do Apóstolo: a
paixão de Cristo como obediência voluntária, a ineficácia da Lei
antiga, a dimensão sacrificial e sacerdotal da redenção e alguns
aspectos da cristologia. Quanto à data de composição, não pode
aceitar-se uma época muito tardia, pois Clemente de Roma cita-a
por volta do ano 95. Por outro lado, a relativa afinidade entre a sua
teologia e a das Cartas do cativeiro (Ef, Cl, Flm), aponta para uma
data próxima do martírio de Paulo, situado pelo ano 67. Uma vez
que o autor se refere à liturgia do templo de Jerusalém como uma
realidade ainda atual, tudo parece convergir para que os últimos
anos antes da destruição de Jerusalém e do Templo, ocorrida no
ano 70, sejam a data mais provável da sua composição.
ESTRUTURA E CONTEÚDO Não é fácil encontrar uma única
estrutura para este livro. No entanto, propomos a seguinte:
Prólogo(1,1-4).I. O Filho de Deus é superior aos anjos (1,5-2,18):
prova escriturística (1,5-14); exortação (2,1-4); Cristo, irmão dos
homens (2,5-18). II. Jesus, Sumo Sacerdote fiel e misericordioso
(3,1-5,10): fidelidade de Moisés e fidelidade de Jesus (3,1-6);
entrada no repouso de Deus, pela fé (3,7-4,13); Jesus, Sumo
Sacerdote misericordioso (4,14-5,10). III. Sacerdócio de Jesus
Cristo (5,11-10,18): normas de vida cristã (5,11-6,12); promessa e
juramento de Deus (6,13-20).1. Cristo é superior aos sacerdotes
levitas (7,1-28): Melquisedec (7,1-10); sacerdote segundo a ordem
de Melquisedec (7,11-28).
1.ª Pedro
Esta Carta foi sempre considerada como escrito inspirado e,
se não aparece no Cânon de Muratori, será porque este está
deteriorado. Aparece escrita pelo Apóstolo Pedro (1,1), por meio de 134
um seu secretário, Silvano (5,12). A crítica bíblica moderna tem Página |
chamado a atenção para uma série de dificuldades em admitir a
autoria de Pedro.

DESTINATÁRIOS Os destinatários da Carta são nomeados no início


(1,1). Uns pensam que se tratava dos cristãos de toda a Ásia Menor
(menos a Cilícia), como parecem indicar as províncias designadas;
outros, que seriam apenas as regiões evangelizadas por Paulo. DIVISÃO E CONTEÚDO
A designação de "os que peregrinam na diáspora" (1,1) é entendida A Carta encontra-se
por uns no sentido literal - os judeo-cristãos da diáspora - e por dividida em 4 secções:
outros no sentido figurado - os cristãos em geral.
Saudação inicial e acção
CONTEXTO, LOCAL E DATA A Carta pretende exortar os fiéis a de graças: 1,1-12;
permanecerem firmes na fé, no meio de um ambiente hostil. A sua
ocasião é desconhecida; alguns pensam que teria sido a chegada a I. Exortação à santidade:
Roma de notícias de graves dificuldades para a perseverança dos 1,13-2,10;
cristãos daquelas regiões, enquanto Paulo andaria pela Espanha.
Aparece como enviada a partir da "comunidade dos eleitos que está II. Os cristãos perante o
em Babilónia" (5,13), isto é, de Roma, como esta é designada no mundo: 2,11-3,12;
Apocalipse; de fato, não podia tratar-se da Babilónia da
Mesopotâmia, já destruída, nem da do Egipto, simples guarnição III. Os cristãos perante o
militar. Admitida a autenticidade da Carta, deve datar-se antes da sofrimento: 3,13-4,11;
morte de Pedro, o mais tardar, no ano 67.
Estamos perante um escrito da segunda geração cristã que IV. Últimas exortações:
pretende animar a fé dos que já tinham desanimado na sua 4,12-5,14.
caminhada na Igreja.

2.ª Pedro
DATA E LOCAL
O autor desta Carta apresenta-se como "Simão Pedro, servo A Carta poderia ter
e Apóstolo de Jesus Cristo" (1,1) e testemunha da Transfiguração de sido escrita entre os anos
Jesus na montanha (1,16). Não obstante, é o escrito do NT com 80-90. O local da redação
menos garantias de autenticidade, apesar de Orígenes e São é desconhecido; Roma?
Jerónimo o considerarem autêntico, assim como vários críticos
atuais. Mas as dificuldades são de peso. Concretamente: das 700 DESTINATÁRIOSNão são
palavras da 2 Pe apenas umas 100 são comuns à 1 Pe; são raras as expressamente referidos;
citações do AT, ao contrário da 1 Pe; as Cartas paulinas já são mas são cristãos que
consideradas como Escritura (3,15-16), o que pressupõe uma época conhecem os escritos
tardia. paulinos (ver 3,13). A
O seu objectivo é denunciar graves erros que ameaçavam a Carta tem um carácter
fé e os bons costumes, sobretudo a negação da segunda vinda do universal.
Senhor (3,3-4).
Os temas fundamentais desta Carta são: a segunda vinda do DIVISÃO E
Senhor (1,16), definida como misericordiosa (3,4.8-10.15), mas que CONTEÚDOSaudação:
vai trazer uma mudança radical no cosmos; a lembrança da 1,1-2;
Transfiguração (1,16-19); a inspiração das Escrituras (1,20-21; 3,14- Perseverança na fé: 1,3-;
16); a importância do "conhecimento" religioso (1,2-8; 2,20; 3,1). Falsos mestres: 2,1-22;
A segunda vinda do
Senhor: 3,1-16;
Conclusão: 3,17-18.

Apocalipse
Apocalipse é um termo grego que significa "revelação". 135na
O "vidente" vive
"Revelação" é, na verdade, o título com que o último livro da Bíblia Página |
terra mas vê o que se
aparece em algumas edições. O estilo deste livro é estranho para a passa no Céu e transmite
cultura ocidental, mas enquadra-se perfeitamente na mentalidade aos seus irmãos
semita.As raízes desta literatura encontram-se no Antigo Testamento sofredores a certeza de
(Isaías, Zacarias, Ezequiel e sobretudo Daniel), mas também em vários que Jesus está com eles e
livros judeus que não entraram na Bíblia: Henoc, 2 Esdras e 2 Baruc. a sua vitória está para
Estes últimos já foram escritos depois da destruição do Templo. Foi breve.
principalmente nestes livros que se inspirou o autor do APOCALIPSE O simbolismo, por vezes
DE JOÃO. irracional, de que o autor
se serve para transmitir
GÉNERO LITERÁRIO É uma literatura própria das épocas de crise e de esta esperança aos
perseguição, em que se procura "revelar" os caminhos de Deus sobre o perseguidos, assegura
futuro, para consolar e encorajar os justos perseguidos, dando-lhes a aos cristãos que o Reino
certeza da vitória final. Era muito comum no fim do AT e mesmo no de Deus ultrapassa a
tempo em que foi escrito o NT, pois vivia-se um ambiente apocalíptico. História que eles estão a
Estava-se no "fim dos tempos", isto é, adivinhava-se uma revolução viver, e ao mesmo tempo
global, com uma radical mudança no modo de ser e de viver. Para isso, é uma linguagem secreta
muito contribuiu a decadência do Império Romano e as guerras da para os perseguidores.
Palestina, que levaram à destruição do Templo e de Jerusalém, no ano O autor apresenta-se a si
70. Daí os três textos apocalípticos dos Evangelhos Sinópticos, directa mesmo como João e
ou indirectamente ligados à destruição de Jerusalém: Mt 24-25; Mc 13; escreve em Patmos -
Lc 21. pequena ilha do Mar Egeu
- onde se encontra
LIVRO Caracteriza-se por imagens grandiosas e simbólicas, desterrado por causa da
constituídas por elementos da natureza, apresentadas em forma de fé (1,9). A tradição
visões e "explicadas" ao vidente por um anjo. Tais imagens são tiradas identificou este João com
do AT, dos apocalipses judaicos, dos mitos e lendas antigas. Assim, o o Apóstolo João, mas não
papel dos anjos (7,1-3); o livro selado (5,1); o livro para comer (10,1- existem argumentos
11); as trombetas (8,2); as taças (15,7); os relâmpagos e trovões (4,5; suficientes para o
10,3). Estas imagens sugerem mais do que descrevem, e grande parte comprovar (Mt 4,21; Jo
delas nada tem a ver com a realidade. Trata-se de puros símbolos 21,1-14).
(1,16; 5,6; 21,16), que podem referir-se a pessoas, animais, números e
cores, deixando ao leitor um espaço para alguma criatividade e ESTRUTURA
"inteligência" (13,18; 17,9). Apresenta diversas
As visões simbólicas são projetadas no Céu, para dizer que hipóteses de estrutura.
pertencem ao mundo espiritual, da fé e o que nelas se revela acontece Introdução (1,1-20):
também na terra. Duas forças antagónicas estão em luta permanente: o I. Cartas às Sete
Dragão - a possível personificação do império romano, no tempo de IgrejasII. Revelação do
Domiciano (81-96 d.C.) - e o Cordeiro: Cristo, Cordeiro pascal, é o sentido da História (4,1-
vencedor de todas as forças do Mal. 22,5):
O trono de Deus: 4,1-11;
OCASIÃO, FINALIDADE E AUTOR A perseguição a que se refere o Sete selos: 5,1-8,5;
APOCALIPSE poderia ser a que açoitou as igrejas da Ásia no tempo do Sete trombetas: 8,6-11,19;
imperador Domiciano, por volta do ano 95. Também havia as Sete sinais: 12,1-15,4;
perseguições internas, isto é, as heresias, sobretudo os nicolaítas Sete taças: 15,5-16,21;
(2,6.15), os marcionitas e os que prestavam culto ao imperador. O livro Queda da Babilónia: 17,1-
pretende responder à questão: "Quem manda no mundo? Os tiranos, os 19,4;
senhores da Terra, ou o Senhor do Céu?" Este paralelismo entre o Céu Triunfo de Cristo. Nova
e a Terra assegura aos crentes que Deus os acompanha a partir do Jerusalém: 19,5-22,5.
Céu, e a História segue o seu curso na Terra sob o controlo de Deus e Epílogo (22,6-21).
não sob o controlo dos poderes maus.
TEOLOGIA O
APOCALIPSE exprime a
fé da Igreja da "segunda
geração cristã", isto é,136do
Página |
tempo dos discípulos dos
Apóstolos. A doutrina do
Corpo Místico (Jo 15,1-8;
1 Cor 12,12-27) recebe
aqui nova dimensão:
Cristo está no meio dos
sete candelabros (1,13) e
tem na mão direita as sete
estrelas (1,16), símbolos
das sete igrejas, que
personificam a Igreja
universal; Ele é
apresentado no mesmo
plano que Javé e com os
mesmos atributos: é "o
Senhor dos senhores e
Rei dos reis" (17,14;
19,16), aquele que tem
um "nome que ninguém
conhece" (2,17; ver
1,8.18; 2,27; 3,12; 14,1;
15,4; 19,16).
Deus é o único Senhor da
História, apesar das forças
conjugadas de todos os
senhores deste mundo;
por isso, acontecimentos
do AT, como o Êxodo, as
pragas do Egipto,
teofanias, destruições...
servem de pano de fundo
das novas intervenções de
Deus na História do
presente.
No meio desta História, a
Igreja aparece como
espaço litúrgico onde o
Cordeiro tem presença
permanente, fazendo da
comunidade "o céu" na
terra. Isso não impede que
as forças do Mal estejam
em luta constante com ela
(e com o Cordeiro:
2,3.9.10.13; 3,10; 6,9-11;
7,14).
Por isso, o APOCALIPSE
não pretende predizer
nem "revelar" pormenores
sobre o futuro da Igreja e
da Humanidade, mas
conferir a certeza absoluta
na bondade de Deus, que
se manifestou em Cristo.
Também não "fecha" a
137do
Bíblia; mas abre diante Página |
leitor crente um caminho
de esperança sem fim:
"Eu renovo todas as
coisas." (21,5) "Eu venho
em breve (...). Vem,
Senhor Jesus!" (22,7.20).

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Jeremias 31 – O Novo Concerto


Jer 31:31 Eis que dias vêm, diz o SENHOR, em que farei um
concerto novo com a casa de Israel e com a casa de Judá.Jer
31:32 Não conforme o concerto que fiz com seus pais, no dia em
que os tomei pela mão, para os tirar da terra do Egito, porquanto
eles invalidaram o meu concerto, apesar de eu os haver
desposado, diz o SENHOR.

Uma nova aliança, um novo casamento. Para o profeta é


o rompimento com o pacto antigo porque foi
desvirtuado. O pacto antigo baseava-se na libertação
do Egito, e o novo, na libertação da Babilônia.
Jer 31:33 Mas este é o concerto que farei com a casa de Israel
depois daqueles dias, diz o SENHOR: porei a minha lei no seu
interior e a escreverei no seu coração; e eu serei o seu Deus,
e eles serão o meu povo.

O profeta revela que o outro pacto falhou porque a lei era


externa, mas que o novo pacto será interior. Não uma
lei externa e opressora, mas uma lei de confiança e
submissão.
Jer 31:34 E não ensinará alguém mais a seu próximo, nem
alguém, a seu irmão, dizendo: Conhecei ao SENHOR; porque
todos me conhecerão, desde o menor deles até ao maior, diz o
SENHOR; porque perdoarei a sua maldade e nunca mais me
lembrarei dos seus pecados.

A nova aliança também rompe com o sistema de


separação religiosa que dá privilégios aos sacerdotes.
O conhecimento de Deus estará em todos.

Jeremias 34: Libertação dos Pobres


Jer 34:8 A palavra que do SENHOR veio a Jeremias, depois que o
rei Zedequias fez concerto com todo o povo que havia em
Jerusalém, para lhes apregoar a liberdade:Jer 34:9 que cada um
despedisse forro o seu servo e cada um, a sua serva, hebreu ou
hebréia, de maneira que ninguém se fizesse servir deles, sendo
145
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O Pentateuco
Dentre as diversas interpretações e posições sobre
a compreenção do Pentateuco acredito ser relevante a de
Gerhard von Rad, considerado o responsável pela
demonstração de como os escritores do Pentateuco
utilizaram as tradições históricas antigas de Israel de
novas maneiras para produzir um kerygma, isto é, uma
mensagem específica para uma época histórica
específica.

A Questão da Crítica das Formas no Hexateuco


Nesse ensaio von Rad propôs uma nova maneira
de falar da formação do Hexateuco.De acordo com ele, o
conteúdo do Hexateuco foi resumido em três "credos"
históricos quepreservaram os elementos básicos da
história de Israel até então: (1) Dt 26:5b-9, (2) Dt 6:20-24,
e (3) Js 24:2b-13. Esses credos faziam parte de uma
forma literária específica que foiutilizada nos cultos de
Israel como "recitações solenes". Estes credos
foramessencialmente declarações de fé resumindo
elementos básicos da fé de Israel:
1) Chamada dos antepassados de Israel;
2) Promessa da terra de Canaã;
3) Êxodo e peregrinaçãono deserto, e a entrada
na terra prometida.
Atrás dos elementos desses credos estavam
asvárias tradições históricas de Israel que circularam
originalmente no contexto religioso de Israel.
O trabalho de juntar e organizar essas várias
tradições foi feito principalmente por um indivíduo Javista é o nome dado aos
desconhecido, mas designado como o "javista." De escritores que usam o
acordo com von Rad, quando o javista começou a
trabalhar, as tradições históricas que ele recebeu já
tinham sido separadas do seu Sitz em Leben, isto é, as
situações históricas que produziriam as tradições. Assim,
nome de Javé para Deus.

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Chave de Interpretação
Para von Rad, a chave para a interpretação da
literatura bíblica não se encontrou na situação original em
que a literatura foi produzida, mas na reflexão teológica
que "reformou" as histórias antigas para uma nova
geração de ouvintes e leitores.
Em vez de investigar a história da literatura como
os críticos do século 19 fizeram, von Rad achou melhor
investigar o texto na sua forma atual, isto é, "devemos
fazer a pergunta do significado que veio a ser associado
às narrativas" e não da história que está por trás das
narrativas.
Von Rad disse que, se fosse obrigado a escolher
entre a metodologia crítica ou teológica, escolheria a
metodologia teológica. Somente esta metodologia seria
capaz de descobrir a intenção querigmática do texto
bíblico. Von Rad investigou esta intenção querigmática na
sua Teologia do Antigo Testamento.
Para von Rad, o Pentateuco nos apresenta um
retrato da história de Israel escrita pela fé e não pela
metodologia histórica do século XIX.

Contexto de Elaboração
Embora o Pentateuco narre fatos de épocas
passadas, sua escrita é bem mais recente. O estudo
acurado dos profetas e dos livros históricos permite
avaliar que o Pentateuco ou Hexateuco surgiu durante e
após o exílio.
Em primeiro lugar, a ausência de elementos
relevantes como a lei e a aliança na literatura pré-exílica
são as principais bases para compreensão do período de
escrita e sacralização do Pentateuco. De acordo com
Kaufmann (1989), o Pentateuco já existia, mas em forma
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Textos da História Sacerdotal


Génesis
1,1-2,4a; 5,1-27.28*.30-32; 6,9-22; 7,6.11.13-16a.17a.18-21.24; 8,1.2a.3b-S.13a.14-19;
9,1-3.7-17.28s.; 10,1-7.20.22s.31s.; 11,1O-27.31s.;
12,4b.S; 13,6.11b.13*; 16,1.3.1Ss.;
17,1-13.14*.lS-27; 19,29; 21,lb-S;
23,1-20; 25,7-11a.12-17.19s.... 26b; 26,34s;
27,46-28,9; ... 31,18*; 33,18a;
35,6a.9-1S.22b-29; 36,1.2a ... 6-8.40-43;
37,ls.; 41,46a; 46,6s.; 47,27b.28;
48,3-6; 49,la.28b-33; 50,12s.
Éxodo
1,1-SS.7.13s.; 2,23*.24s.; 6,2-12;
7,1-13.19.20*.21b.22; 8,1-3 ... 11 *.12-1S;
9,8-12; 11,9s.; 12,37a.40-42; 13,20;
14,1-4.8s.1O*.lS-18.21*.22s.26.27*.28s.;
15,22*.27; 16,1-3.6s.9-12.13* ... 14* '" 16*.
17.18*.19-21a.22*.23-26.31a.3Sb; 17,1 *;
14
19,1.2a; 24,lSb-18a; 25,1-2.8.9*;
26,1-30; 29,43-46; ... 31,18; 34,29-32;
35,4.Sa.10.20-22a.29; 36,2-3a.8*;
39,32-33a.42s.; 40,17.33b-3S.
Levítico
9,1 *.2s.4b-7.8*.12a.1Sa.21-24.
Números
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150
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