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Conteúdo

CAPÍTULO I – INTRODUÇÃO: Por que estudar Filosofia?......................................................................4


CAPÍTULO II – FILOSOFIA: Significado e origem....................................................................................5
Mito e Filosofia.................................................................................................................................5
CAPÍTULO III – A Filosofia Grega.........................................................................................................11
Período pré-socrático ou cosmológico...........................................................................................11
Período socrático ou antropológico................................................................................................13
Período sistemático........................................................................................................................14
Período helenístico ou greco-romano............................................................................................16
CAPÍTULO IV – Principais períodos da história da Filosofia................................................................18
A FILOSOFIA NA HISTÓRIA..............................................................................................................18
OS PRINCIPAIS PERÍODOS DA FILOSOFIA........................................................................................18
§ Filosofia antiga.........................................................................................................................18
§ Filosofia patrística....................................................................................................................18
§ Filosofia medieval....................................................................................................................19
§ Filosofia da Renascença...........................................................................................................21
§ Filosofia moderna....................................................................................................................21
§ Filosofia da Ilustração ou Iluminismo.......................................................................................23
§ Filosofia contemporânea.........................................................................................................24
CAPÍTULO V – Temas, disciplinas e campos filosóficos.......................................................................30
CAPÍTULO VI – A razão........................................................................................................................36
A RAZÃO: INATA OU ADQUIRIDA?...................................................................................................36
A RAZÃO NA FILOSOFIA CONTEMPORÂNEA...................................................................................39
POR QUE AINDA FALAMOS EM RAZÃO?.........................................................................................39
CAPÍTULO VII – A verdade e o conhecimento....................................................................................43
AS CONCEPÇÕES DA VERDADE.......................................................................................................43
Ignorância, Incerteza e Insegurança...........................................................................................43
Dogmatismo................................................................................................................................44
Educação para Jovens e Adultos - Filosofia

O critério de verdade..................................................................................................................44
O CONHECIMENTO.........................................................................................................................46
CAPÍTULO VIII – A lógica e a metafísica..............................................................................................49
A LÓGICA........................................................................................................................................49
A METAFÍSICA.................................................................................................................................50
CAPÍTULO IX – As ciências, a cultura e a política................................................................................56
AS CIÊNCIAS....................................................................................................................................56
CLASSIFICAÇÃO...........................................................................................................................56
A CULTURA......................................................................................................................................57
A Filosofia e as manifestações culturais......................................................................................57
A Religião....................................................................................................................................57
A Arte..........................................................................................................................................57
A Ética.........................................................................................................................................58
Filosofia Moral............................................................................................................................58
Liberdade....................................................................................................................................58
A POLÍTICA......................................................................................................................................59
CAPÍTULO X – Experiências Filosóficas...............................................................................................68
Filosofia da Ação – o Agir................................................................................................................68
BIBLIOGRAFIA.....................................................................................................................................78

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Introdução: Filosofia:
Por que estudar Filosofia? Significado e Origem

Pensar, refletir, questionar e criticar faz parte de nossa obrigação como cidadãos; mas como consegui- A palavra filosofia é de origem grega, sendo composta por outras duas: philo e sophia. Philo deriva-
mos aprender e transmitir esses valores? Através de uma educação preocupada com o pensar. Por isso, -se de philia, que significa amizade, amor fraterno, respeito entre os iguais e Sophia quer dizer sabedoria
a Filosofia possui um papel importante na vida escolar do aluno, levando-o a indagar sobre os problemas e dela vem a palavra sophos, sábio.
sociais do mundo, não apenas tornando-o consciente, mas fornecendo ferramentas para que os mesmos
posicionem-se na sociedade a fim de torná-la melhor. Filosofia significa, portanto, amizade pela sabedoria, amor e respeito pelo saber; e corresponde à
O estudo de filosofia é um espaço onde se fornecem aos investigação crítica e racional dos princípios fundamentais relacionados ao mundo e ao homem. Já o Filó-
alunos instrumentos que os possibilitem aprender a pensar, es- sofo é aquele que ama a sabedoria, o que deseja saber.
tudar e aprender. Como a reflexão é muito importante para o
aprendizado de outras disciplinas, tais como a Física, a Mate-
mática, a Biologia e tantas outras matérias, o estudo destas
seria bem mais fácil com o uso do pensamento reflexivo. Por-
tanto, a principal tarefa do ensino da Filosofia é desenvolver Mito e Filosofia
nos estudantes um espírito questionador, fornecendo uma vi-
são que ele até então nunca percebera, fazendo uma profunda A filosofia, como a conhecemos hoje, teve seu início no século
análise da realidade que o cerca, de si próprio e do ser humano VI a.C., na Grécia Antiga, que vivia no auge de sua cultura. O comér-
em geral. cio com outros povos trouxe conhecimento, a produção artística
era muito ativa, havia os jogos olímpicos. Assim, naquele momen-
to, iniciou-se uma nova tentativa de responder os questionamen-
tos sobre a existência. Se, para alguns, as narrações fantásticas da
mitologia serviam para explicar o mundo, as catástrofes naturais,
Questões para refletir o clima, sua origem etc.; outros não mais se satisfaziam com tais
explicações e começaram a procurar respostas fora dos mitos.

 Qual a utilidade da Filosofia? Você acha importante o estudo da Filosofia? Por quê?
Embora a criação da palavra filosofia seja atribuída ao filósofo
grego Pitágoras de Samos (que viveu no século V a.C.), Tales de Mile-
 O que você entende por “pensamento reflexivo” e “espírito questionador”? to (624-5 – 556-8 a.C.) é considerado o primeiro filósofo. Os fragmen-
tos que restaram de seus escritos mostram sua tentativa em explicar
os elementos que formam o mundo. Para ele, existe um elemento
 O filme “O Mundo de Sofia”(disponível em DVD) apresenta perguntas sobre a existência humana material que forma todas as coisas, a água. Podemos encontrar água
e o entendimento da realidade. Procure assisti-lo e faça um texto sobre as questões que mais lhe em todos os locais; ao furar o solo, se nos cortamos, dentro do tron-
chamaram atenção. Você pode assisti-lo com seus colegas e professor(a), caso seja possível.
co das árvores, nas rochas das nascentes dos rios. Se a água está em
tudo, é porque ela forma tudo. Esta maneira de explicar o mundo,
usando a razão, é que iria diferenciar a filosofia da mitologia.
Pitágoras - Detalhe  da “Escola de
Atenas”, de Rafael Sanzio (1509)

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A filosofia tem como principais ferramentas, a RAZÃO e a INTUIÇÃO. A


atitude filosófica se inicia quando desconfiamos da veracidade das nossas
crenças cotidianas, quando começamos a refletir sobre nossas ideias, nossos
valores, nossas ações.

Tales de Mileto

Assim que começamos a filosofar achamos que mesmo as coisas mais cotidianas
levam a problemas para os quais só podem ser dadas respostas muito incompletas. A
filosofia, embora não seja capaz de nos dizer com certeza quais são as respostas verda-
deiras às dúvidas que ela suscita, nos fornece muitas possibilidades que ampliam nos-
sos pensamentos e os libertam da tirania do hábito. Assim, embora diminuindo nosso
sentimento de certeza a respeito do que as coisas são, aumenta enormemente nosso
conhecimento em direção ao que as coisas podem ser.

Questões para refletir

 Leia atentamente a história em quadrinhos abaixo:

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A Filosofia Grega
O nascimento da filosofia pode ser entendido como o surgimen-
to de uma nova ordem do pensamento, complementar ao mito, que
era a forma de pensar dos gregos. Uma visão de mundo que se for-
mou de um conjunto de narrativas contadas de geração a geração
por séculos e que transmitiam aos jovens a experiência dos anciãos.
Entretanto, a partir do século VI a.C., alguns pensadores, com esfor-
ço pessoal, intelectual e intuitivo romperam com a idéia dos mitos e
chegaram a conclusões sobre a natureza humana e sobre o universo,
que permanecem até hoje.
A filosofia propriamente dita surgiu no período Arcaico com a
Os quadrinhos acima, de Maurício de Sousa, são uma adaptação do texto de Platão “A Alegoria das Ca- Escola de Mileto, da qual se destacaram Tales, Anaxímenes e Anaxi-
vernas”.
mandro. Na concepção dessa escola, tudo na natureza descendia de
A história nos auxilia na compreensão do que é mito e do que é real. O que você conseguiu entender um elemento básico: água, ar ou matéria.
desse texto?
No século V a.C., surgiram os sofistas, estes se dedicavam à crítica às tradições do Estado, à religião,
Junto a seus colegas, procure descobrir: Quem representa o filósofo nos quadrinhos? Qual o instrumento aos privilégios, e eram defensores da democracia.
que liberta o filósofo e com o qual ele deseja libertar os outros prisioneiros?
Período pré-socrático ou cosmológico: vai do final do século VII ao final do século V a.C., tendo a pre-
ocupação em perguntar e compreender a natureza do mundo (a physis). Assim, os filósofos desse período
queriam entender a origem de tudo, o que originou todas as coisas e o princípio delas. Os filósofos pré-
-socráticos são divididos em escolas do pensamento:
Atividades  Escola Jônica: recebe este nome por se desenvolver na colônia grega Jônia, na Ásia Menor, local
onde hoje é a Turquia. Principais representantes: Tales de Mileto, Anaxímenes de Mileto, Anaximandro
de Mileto e Heráclito de Éfeso.
1. Qual o significado da palavra mito? Existe relação entre mito e realidade? Como diferenciar o mito do
pensamento filosófico?
Heráclito: Mobilismo (o Ser se modifica) – defendia
2. Qual a finalidade dos mitos para a humanidade? a ideia de que a realidade estava em constante
3. Pesquise a respeito dos heróis atuais no cinema, na televisão, na literatura etc. e tente descrevê-los. modificação. Para ele não havia estabilidade,
Eles podem ser considerados mitos? Por quê? pois tudo passava e por isso todos os seres eram
passageiros. Segundo Heráclito, o universo é
regido pela contrariedade das coisas. Morte e vida
4. Construa duas colunas formulando uma explicação mítica à esquerda e outra racional à direita sobre se esgotam para formar o equilíbrio e harmonia.
um determinado fenômeno natural incluindo, comparativamente, suas características e apresente-as
à turma.

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Como se pode ver, na Grécia antiga existia diversos filósofos que defendiam diferentes teorias, muitas
vezes contraditórias. Neste ambiente de contradições, algumas pessoas passaram a comercializar o saber
e a oratória, sendo conhecidas como sofistas. O termo Sofista significa “sábio” - “professor de sabedoria”.
 Escola Itálica: desenvolveu-se no sul da Itália. Principais representantes: Pitágoras de Samos, Filo- Em um sentido pejorativo, passa a significar “homem que emprega sofismas”, ou seja, homem que usa de
lau de Crotona e Árquitas de Tarento. raciocínio capcioso, de má-fé com intenção de enganar.
Eram homens dotados do poder de convencimento (persuasão: oratória e retórica), que vendiam seus
supostos conhecimentos de cidades em cidades. Afirmavam serem os possuidores de todo o conhecimen-
Pitágoras de Samos: Pensava serem os números to. Diziam que os ensinamentos dos filósofos cosmologistas estavam repletos de erros e contradições e
a essências das coisas. Suas investigações da física que não tinham utilidade para a vida da polis (o que hoje chamamos de cidade). Apresentavam-se como
e matemática eram misturadas com misticismo. mestres de oratória ou de retórica, afirmando ser possível ensinar aos jovens tal arte para que fossem
São atribuídos aos discípulos de Pitágoras, os bons cidadãos. Eles não se ocupavam com a verdade ou falsidade do que ensinavam e importavam ape-
pitagóricos, diversas descobertas matemáticas. Foi nas em convencer as pessoas dos seus argumentos, cobrando altas taxas pelos serviços prestados.
Pitágoras o responsável pela criação da palavra Protágoras foi o mais importante sofista e ensinou por muitos anos em Atenas. Sua tese é expressa na
filosofia ao chamar a si mesmo de filósofo (amigo frase: “o homem é a medida de todas as coisas”. Assim, toda teoria poderia ser considerada como verda-
da sabedoria).
deira, pois tudo não passava de diferentes pontos de vista.
Reagindo contra os sofistas, surgiu Sócrates, um marco da História da Filosofia Grega.
Período socrático ou antropológico: Iniciou-se no final do século V e vai até o século IV a.C., sendo
 Escola Eleata: desenvolveu-se na cidade de Eleia, ao sul da Itália. Seus principais filósofos foram caracterizado pela mudança em relação ao objeto de estudo da filosofia, passando das relações e intera-
Parmênides de Eleia e Zenão de Eleia. ções dos seres humanos com o Universo para o homem em si. A Filosofia passa a investigar as questões
humanas, isto é, a ética, a política e as técnicas. Em grego, ântropos quer dizer homem; por isso o período
recebeu o nome de antropológico. Esse caráter antropológico se deu através dos três principais filósofos
Parmênides: Imobilismo (o Ser é eterno) – Parmênides criti- gregos: Sócrates, Platão e Aristóteles (este último no período sistemático).
ca a ideia de Heráclito, demonstrando que quando o ser se
modifica torna-se algo que anteriormente não era – e isto é
impossível. O ser é eterno, único, infinito, imóvel. Porém, ao
observar que as coisas não são eternas, declara que existe,
então, dois mundos – o primeiro mundo onde o ser é eterno, Sócrates
e o segundo, onde as coisas estão em constantes mudanças.
Nasceu em Atenas, provavelmente no ano de 470 a.C., e tornou-se
um dos principais pensadores da Grécia Antiga. Podemos afirmar que
 Escola Atômica ou da Pluralidade: desenvolveu-se a partir da ideia de que são vários os elementos Sócrates fundou o que conhecemos hoje por filosofia ocidental. Seus
que formam as coisas. Principais representantes: Empédocles de Agrigento, Anaxágoras de Clazômena, primeiros estudos e pensamentos refletem sobre a essência da nature-
Leucipo de Abdera e Demócrito de Abdera. za  da alma humana.
Sócrates era considerado pelos seus contemporâneos um dos ho-
mens mais sábios e inteligentes. Em seus pensamentos, demonstra
uma grande necessidade de levar o conhecimento para os cidadãos
Demócrito de Abdera: desenvolveu a doutrina ato- gregos. Seu método de transmissão de conhecimentos e sabedoria era
mística de Leucipo e se opôs à escola de Heráclito o diálogo. Através da palavra, o filósofo tentava levar o conhecimento
e à de Parmênides. Segundo Demócrito, os átomos sobre as coisas do mundo e do ser humano, e não cobrava por seus en-
de que se compõe o universo, similares em quali- sinamentos, diferentemente dos sofistas, aos quais combatia, dizendo
dade, mas diferentes em volume e forma, estão em que não eram filósofos, pois não tinham amor pela sabedoria nem res-
movimento constante no espaço e se agrupam de peito pela verdade, defendendo qualquer ideia, se isso lhes trouxesse
maneiras diferentes para formar os corpos. Alguns vantagem.
aspectos da doutrina de Demócrito aproximam-se Para combater os sofistas, Sócrates desenvolveu dois métodos bas-
de noções científicas modernas tante conhecidos até os dias de hoje: a ironia e a maiêutica. A ironia
consiste em demonstrar ao indivíduo, através de questionamentos, a sua ignorância. Em praça pública, ele
interrogava os homens e instigava-os a refletir sobre si e sobre o mundo. A interrogação de Sócrates ex-
punha os saberes dos sujeitos e, ao mesmo tempo, mostrava o quanto as pessoas não tinham consciência
daquilo que realmente sabiam. A partir deste momento, Sócrates passa a utilizar a maiêutica, que significa

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dar luz às ideias. Assim, o ouvinte consciente de que não sabe tudo, busca saber mais, buscando respostas Período sistemático: vai do final do século IV ao final do século III a.C., quando a Filosofia busca reunir
por si próprio, utilizando o ato de filosofar como um processo metódico de elaboração de novos saberes. e organizar tudo quanto foi pensado sobre a cosmologia e a antropologia, interessando-se, sobretudo, em
mostrar que tudo pode ser objeto do conhecimento filosófico, desde que as leis do pensamento e de suas
Embora contrário aos sofistas, Sócrates concordava com estes em um ponto: a educação antiga do demonstrações estejam firmemente estabelecidas para oferecer os critérios da verdade e da ciência. Este
guerreiro belo e bom já não atendia às exigências da sociedade grega, e, além disso, os filósofos cosmo- período tem como principal nome o filósofo Aristóteles de Estagira, discípulo de Platão.
logistas (que estudavam a estrutura, composição e evolução do universo) defendiam ideias tão contrárias
entre si que também não eram uma fonte segura para o conhecimento verdadeiro.
Assim, Sócrates propôs que, antes de querer conhecer a Natureza e antes de querer convencer os ou-
Aristóteles
tros, cada um deveria, primeiro e antes de tudo, conhecer-se a si mesmo. Por fazer do autoconhecimento Entre os principais filósofos antigos está Aristóteles (384 - 322
ou do conhecimento que os homens têm de si mesmos a condição de todos os outros conhecimentos a.C.), nascido na cidade de Estagira, na Macedônia, hoje perten-
verdadeiros, é que se diz que o período socrático é antropológico, isto é, voltado para o conhecimento do cente à Grécia. Seus escritos discorrem sobre uma grande varieda-
homem, particularmente de seu espírito e de sua capacidade para conhecer a verdade. de de assuntos como biologia, física, lógica, ética, política e arte.
Estudou na Academia por cerca de vinte anos e deixou a escola e
Sócrates não foi muito bem aceito por parte da aristocracia, pois defendia algumas ideias contrárias Atenas após a morte de Platão.
ao funcionamento da sociedade da época. Criticou muitos aspectos da cultura grega, afirmando que mui-
tas tradições, crenças religiosas e costumes não ajudavam no desenvolvimento intelectual dos cidadãos Poucos anos após deixar Atenas, Aristóteles recebeu um convi-
gregos. Assim, temendo algum tipo de mudança na sociedade, a elite mais conservadora de Atenas co- te do então rei da Macedônia, Filipe II, para que este fosse instru-
meça a encarar Sócrates como um inimigo público e um agitador em potencial. Este foi preso, acusado de tor de Alexandre, que ficaria conhecido na história como o Grande.
pretender subverter a ordem social, corromper a juventude e provocar mudanças na religião grega. Em Aristóteles foi professor do adolescente Alexandre até este subir
sua cela, foi condenado a suicidar-se tomando um veneno chamado cicuta, em 399 a.C. ao trono.
Devemos destacar que conhecemos os pensamentos e ideias de Sócrates através das obras de seus Com a ascensão de seu aluno, Aristóteles deixou a Macedônia
discípulos, principalmente as de Platão, pois infelizmente, Sócrates não deixou por escrito seus pensa- e retornou para Atenas, onde fundou sua própria escola, o Liceu.
mentos. Com a morte de Alexandre, doze anos após fundar sua escola, Aristóteles resolveu deixar a cidade, pois
era macedônio e temia que os atenienses o matassem. Foi para a ilha de Eubeia e faleceu ali dois anos
Platão depois.
Apesar de existirem diversos escritos de Aristóteles, muito do que ele escreveu se perdeu. Do que
Discípulo de Sócrates, fundador da Academia e mestre de Aristóteles. Sua filosofia é de grande im- restou de seus escritos, encontra-se a investigação do “ser enquanto ser”. É interessante notar que Aris-
portância e influência. Platão ocupou-se com vários temas, tóteles visava superar Platão, seu mestre. Assim como pensa que a essência das coisas está nas próprias
entre eles a ética, política, metafísica e teoria do conheci- coisas, diferente de Platão que pensa nas coisas como cópias de ideias perfeitas, Aristóteles pensa de
mento. Por volta dos 20 anos, encontrou o filósofo Sócrates modo diferente com relação a assuntos como ética e política.
e tornou-se seu discípulo até a morte deste.
Em linhas gerais, Platão desenvolveu a noção de que o Em ética, Aristóteles discorda da ideia pla-
homem está em contato permanente com dois tipos de re- tônica que via as paixões humanas como negati-
alidade: a inteligível e a sensível. A inteligível é a realidade vas, que precisavam ser controladas pela razão.
que não muda, igual a si mesma. A sensível são todas as Para ele, as paixões humanas não são nem boas
coisas que nos afetam os sentidos, são realidades depen- e nem ruins. Nesse sentido, Aristóteles pensa
dentes, que podem ser transformadas. Tal concepção de que virtude é encontrar uma justa medida entre
Platão também é conhecida por Teoria das Ideias ou Teoria o excesso e a falta das paixões. Agir corretamen-
das Formas. te é um treino constante de dosar corretamente
as paixões.
Platão, assim como seu mestre Sócrates, busca des-
cobrir as verdades essenciais das coisas. O conhecimento No campo político, Aristóteles se preocupou
era assim o conhecimento do próprio homem, mas sempre menos com hipóteses de uma sociedade ideal
Parte de P.Oxy. LII 3679, com
ressaltando o homem não enquanto corpo, mas enquanto e mais com um estudo dos sistemas políticos e
trecho da República, de Platão.
alma. leis existentes em sua época. Assim, diferente
de Platão, que teorizou uma cidade ideal, Aris-
Com relação à política, Platão afirmava que a Cidade-Estado ideal deveria ser obrigatoriamente gover- tóteles pensou uma sociedade que não fosse
nada por alguém dotado de uma rigorosa formação filosófica. nem totalmente democrática e nem totalmente
aristocrática, permitindo que os conflitos entre
ricos e pobres pudessem ser amenizados.
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Período helenístico ou greco-romano: Trata-se do último período da Filosofia antiga, quando a polis
(cidade) grega desapareceu como centro político, deixando de ser referência principal dos filósofos, uma
Atividades
vez que a Grécia encontrava-se sob o domínio do Império Romano. Essa época da filosofia é composta
por grandes sistemas ou doutrinas, isto é, explicações totalizantes sobre a Natureza, sobre o homem, as 1. Qual a diferença entre Platão e Aristóteles, quanto à origem das ideias?
relações entre ambos e deles com a divindade. Predominam preocupações com a ética, a física, a teologia
e a religião. 2. Qual a principal crítica de Platão com relação aos sofistas? Explique em que consistia os métodos de-
senvolvidos por ele para combatê-los (ironia e maiêutica).
De maneira geral, a produção filosófica helenística (de cultura grega) procurou fornecer aos indivídu-
os desorientados e inseguros de um mundo de pobreza material, violência e solidão, o consolo da paz de 3. Responda as questões e acha a palavra correta no caça-palavras abaixo:
espírito e da felicidade interior. A filosofia tornava-se, assim, uma espécie de terapia das causas da infeli-
cidade humana, para tratar das doenças e dos sofrimentos da alma. a) Filósofo, discípulo de Platão que fundou o Liceu.
b) Autor da teoria do mobilismo.
Datam desse período quatro grandes sistemas cuja influência foi sentida pelo pensamento cristão,
c) Período no qual a Filosofia passa a ser o conhecimento da totalidade dos conhecimentos e práticas
que começou a formar-se nessa época: estoicismo, epicurismo, ceticismo e o neoplatonismo.
humanas.
d) Teoria oposta à de Heráclito.
e) Escola que se desenvolveu a partir da ideia de que são vários os elementos que formam as coisas.
f) Principal discípulo de Sócrates.

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SMFKLSDFMLKSMFKSFMMKDFIMOBILISMOKIV
O período helenístico foi marcado pelo contato da cultura grega com outras civilizações
KLMVXMKVMXLKVMLXKUMLKXVMXMVKLXVMVX
LVKDFJUIEIWOMFSMFSFÔESISTEMATICOÉWPK
GDSLMKJÓIRTJGPAFKPOVDSÇIKRTOKCKNBDJF
OGIAVFTOOJHERÁCLITOODFJGOITJIODFGOTRJ
OUEROOPSWUIOTYJOYIPKIJUERFDJFLOEWMAS
Questões para refletir
4. Faça um resumo de cada período da Filosofia Grega, citando suas características principais.
5. Comente a tese de Protágoras: “o homem é a medida de todas as coisas”. Protágoras falava do homem
individual. Mas como podemos interpretar o dito no caso da humanidade como um todo, isto é, se o ser
humano for a medida de todas as coisas? Apresente as respostas à turma para debate.
 Como você explicaria o significado das seguintes frases, atribuídas a Sócrates? “Conhece-te a ti
mesmo” e “Sei que nada sei.

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e João, e pelos primeiros Padres da Igreja para


conciliar a nova religião – o Cristianismo – com
o pensamento filosófico dos gregos e romanos,

Principais períodos da
pois somente com tal concordância seria pos-
sível convencer os pagãos da nova verdade e
convertê-los a ela. Assim, a Filosofia patrística

história da Filosofia
refere-se à tarefa religiosa da evangelização e à
defesa da religião cristã contra os ataques teó-
ricos e morais que recebia dos antigos.
Divide-se em patrística grega (ligada à Igre-
ja de Bizâncio) e patrística latina (ligada à Igreja
de Roma) e seus nomes mais importantes fo-
ram: Justino, Tertuliano, Atenágoras, Orígenes,
A Filosofia Na História Clemente, Eusébio, Santo Ambrósio, São Gre-
gório Nazianzo, São João Crisóstomo, Isidoro de
Como todas as instituições humanas, a Filosofia Sevilha, Santo Agostinho, Beda e Boécio.
está na História e tem uma história. Está na história ao
manifestar e exprimir problemas e questões que, em O grande tema de toda a Filosofia patrística é o da possibilidade de unir razão e fé, e, a esse respeito,
cada época de uma sociedade, os homens colocam havia três posições principais:
para si mesmo diante do que é novo e ainda não foi
compreendido, procurando caminhos, respostas e, so- 1. Os que julgavam fé e razão irreconciliáveis e a fé superior à razão.
bretudo, propondo novas perguntas, num diálogo per-
2. Os que julgavam fé e razão conciliáveis, mas subordinavam a razão à fé.
manente com a sociedade e a cultura de seu tempo, do
qual ela faz parte. Pelo fato de estar na História e ter
3. Os que julgavam razão e fé irreconciliáveis, mas afirmavam que cada uma delas tem seu campo
uma história, a Filosofia costuma ser apresentada em
próprio de conhecimento e não devem misturar-se.
grandes períodos, que veremos a seguir.

Santo Agostinho de Hipona foi um importante bis-


Os principais períodos da filosofia po cristão e teólogo. Escreveu diversos sermões im-
portantes. Em “A Cidade de Deus”, combate às he-
 Filosofia antiga (do século VI a.C. ao século VI d.C.) resias e o paganismo. Na obra “Confissões”, fez uma
Compreende o surgimento da Filosofia e seu desenvolvimento pelos gregos, especialmente, e pelos descrição de sua vida antes da conversão ao cristia-
nismo. Analisava a vida levando em consideração a
romanos, ou seja, os quatro grandes períodos da Filosofia greco-romana, indo dos pré-socráticos aos
psicologia e o conhecimento da natureza, mas, o co-
grandes sistemas do período helenístico. Como visto no capítulo anterior, suas figuras de destaque são Só-
nhecimento e as ideias eram de origem divina.  Suas
crates, Platão e Aristóteles, além de outros de quem se sabe menos, como Tales, Anaximandro, Anaxíme-
obras influenciaram muito o pensamento teológico
nes, Heráclito, Parmênides, Empédocles e Demócrito. A transição entre esta etapa e a Filosofia Medieval da Igreja Católica na Idade Média.
não é muito clara. Ela se dá quando o cristianismo ganha status e recorre ao pensamento grego, para dar
fundamento teórico a suas teses. Em termos cronológicos, esse período coincide aproximadamente com
a queda de Roma, no século V.

 Filosofia medieval (do século VIII ao século XIV)


 Filosofia patrística (do século I ao século VII) Deus existe? É possível provar sua existência? Razão e fé são incompatíveis? Tais questões foram
centrais na filosofia medieval, que, subordinou especulações filosóficas aos dogmas das escrituras sagra-
Inicia-se com as Epístolas de São Paulo e o Evangelho de São João e termina no século VIII, quando
das, sob o domínio da Igreja Católica. Assim, a filosofia tornou-se subordinada ao cristianismo e, durante
teve início a Filosofia medieval. Corresponde à filosofia cristã dos primeiros séculos, elaborada pelos Pais
esse período surge propriamente a Filosofia cristã, que é, na verdade, a teologia. Um de seus temas mais
da Igreja, os primeiros teóricos - daí o nome “Patrística” - e consiste na elaboração doutrinal das verdades
constantes são as provas da existência de Deus e da alma, isto é, demonstrações racionais da existência
de fé do Cristianismo e na sua defesa contra os ataques dos “pagãos” e contra as heresias (tudo o que
do infinito criador e do espírito humano imortal.
contradiz o que é dito na Bíblia). Foi resultado do esforço realizado pelos dois apóstolos intelectuais, Paulo

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A partir do século XII, por ter sido ensinada nas escolas, a Filosofia medieval passou a ser conhecida  Filosofia da Renascença (do século XIV ao século XVI)
também pelo nome de Escolástica. Teve como influências principais Platão e Aristóteles, e também as
ideias de Santo Agostinho. Esse período abrangeu pensadores europeus, árabes e judeus. Talvez pareça uma contradição que um período que presenciou o desenvolvimento de tantas coisas
– da ciência, da arte, e da literatura – tenha sido também aquele em que a filosofia esteve em baixa. Não
obstante, isso é um fato. Ao mesmo tempo, não se pode negar que a ascensão da ciência, em particular –
especialmente na pessoa de Galileu – exerceu uma influência profunda. O principal interesse no período
da Renascença reside na descoberta de obras de Platão, desconhecidas na Idade Média, de novas obras
de Aristóteles, bem como pela recuperação de obras dos grandes autores e artistas gregos e romanos.
A efervescência teórica e prática do período foram estimuladas através das grandes descobertas ma-
rítimas, que garantiam ao homem o conhecimento de novos mares, novos céus, novas terras e novos
povos, permitindo aos pensadores da época uma visão crítica de sua própria sociedade. Essa agitação
cultural e política desencadeou críticas profundas à Igreja Romana, culminando na Reforma Protestante,
baseada na ideia de liberdade de crença e de pensamento. À Reforma a Igreja respondeu com a Contra-
-Reforma e com o aumento do poder da Inquisição.

Os nomes mais importantes desse período são: Dante, Marcílio Ficino, Giordano Bruno, Campan-
nella, Maquiavel, Montaigne, Erasmo, Tomás Morus, Jean Bodin, Kepler e Nicolau de Cusa.

Nicolau Maquiavel foi um historiador, poeta, di-


plomata e músico italiano do Renascimento. É re-
Uma característica marcante da Escolástica foi o método por ela criado para expor as ideias filosó- conhecido como fundador do pensamento e da ci-
ficas, conhecida como disputa: apresentava-se uma tese e esta devia ser defendida ou contestada por ência política moderna, pelo fato de haver escrito
argumentos tirados da Bíblia, de Aristóteles, de Platão ou de Padres da Igreja. Assim, uma ideia era consi- sobre o Estado e o governo como realmente são,
derada verdadeira ou falsa dependendo da força e da qualidade dos argumentos encontrados nos vários e não como deveriam ser. Como renascentista, se
autores. Com a utilização desse método de disputa, costuma-se dizer que, na Idade Média, o pensamento utilizou de autores e conceitos da Antiguidade clás-
estava subordinado ao princípio da autoridade, isto é, uma ideia é considerada verdadeira se for baseada sica de maneira nova. Sua obra mais conhecida é O
nos argumentos de uma autoridade reconhecida. Príncipe.
Nicolau Maquiavel, pintura
Os teólogos medievais mais importantes foram: Abelardo, Duns Scoto, Escoto Erígena, Santo Ansel- de Santi di Tito
mo, Santo Tomás de Aquino, Santo Alberto Magno, Guilherme de Ockham, Roger Bacon, São Boaventura.
Do lado árabe: Avicena, Averróis, Alfarabi e Algazáli. Do lado judaico: Maimônides, Nahmanides, Yeudah
bem Levi.

Na época de Tomás de Aquino, começaram a ser difundi- Nicolau de Cusa: Teólogo e filósofo humanista, consi-
dos na Europa os escritos de Aristóteles, que, ao contrá- derado o pai da filosofia alemã e personagem chave na
rio de Platão, cuja filosofia idealista incluía uma noção de transição do pensamento medieval para o Renascimento.
alma imortal (podendo, assim, se adequar mais facilmen- Entre seus pensamentos está a divisão do saber humano
te ao cristianismo), possuía um caráter mais científico, e em dois graus, o intelectual e o racional. O primeiro nos
por isso representava uma ameaça à política eclesiástica. conferiria a noção mística de Deus, e o segundo tinha ori-
Coube, então, a Tomás de Aquino tornar a metafísica aris- gem na sensibilidade.
totélica não somente aceitável para os cânones papais
como também em um argumento em favor da fé cristã.
Oposto à Patrística, o pensamento tomista é construído
em bases racionais e empíricas, separando filosofia de te-  Filosofia moderna (do século XVII a meados do século XVIII)
ologia, apesar de subordinar a primeira à segunda. Assim, A chegada da era moderna fez cair as próprias bases da sabedoria tradicional e impôs aos intelectuais
o papel da razão é demonstrar e ordenar os mistérios re- a tarefa de encontrar novas formas de conhecimento que pudessem restabelecer a confiança no intelecto
velados pela fé. e na razão.

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Esse período, também conhecido como o Grande Racionalismo Clássico, é marcado por três grandes
mudanças intelectuais:
John Locke (1632-1704), filósofo inglês, foi um dos
I) A Filosofia, em lugar de começar seu trabalho conhecendo a Natureza e Deus, passa primeiro a inda-
principais defensores do empirismo, escola do pensa-
gar qual é a capacidade do intelecto humano para conhecer e demonstrar a verdade dos conhecimentos.
mento filosófico relacionada à teoria do conhecimen-
Em outras palavras, a Filosofia começa pela reflexão, ou seja, pela volta do pensamento sobre si mesmo
to, que pensa estar na experiência a origem de todas
para conhecer sua capacidade de conhecer.
as ideias. O nome empirismo vem do latim: empiria
II) Para os modernos, as coisas exteriores (a Natureza, a vida social e política) podem ser conhecidas (experiência) e -ismo (sufixo que determina, entre ou-
desde que sejam consideradas representações, ou seja, idias ou conceitos formulados pelo sujeito do co- tras coisas, uma corrente filosófica). Temos, assim, a
nhecimento. “corrente filosófica da experiência”. Em seu livro En-
saio acerca do entendimento humano, de 1690, Locke
III) A realidade, a partir de Galileu, é concebida como um sistema racional de mecanismos físicos, cuja defendeu que a experiência forma as ideias em nossa
estrutura profunda e invisível é matemática. Assim, a partir dessa concepção de realidade, deu-se origem mente. Na introdução, ele escreve que “só a experiên-
à ciência clássica, isto é, à mecânica, por meio da qual são descritos, explicados e interpretados todos os cia preenche o espírito com ideias”.
fatos da realidade: astronomia, física, química, psicologia, política, artes são disciplinas cujo conhecimen- Para Locke, quando nascemos so-
to é de tipo mecânico, ou seja, de relações necessárias de causa e efeito entre um agente e um paciente. mos como uma folha em branco.

Os principais pensadores desse período foram: Francis Bacon, Descartes, Galileu, Pascal, Hobbes,  Filosofia da Ilustração ou Iluminismo (meados do século XVIII ao começo do século XIX)
Espinosa, Leibniz, Locke, Berkeley, Newton, Gassendi.
O Iluminismo (era das Luzes, daí o nome, ou era da Razão) foi um movimento cultural de elite de inte-
lectuais do século XVIII na Europa, que procurou mobilizar o poder da razão, a fim de reformar a socieda-
de e o conhecimento prévio. Os pensadores que defendiam estes ideais acreditavam que o pensamento
racional deveria ser levado adiante, substituindo as crenças religiosas e o misticismo, que, segundo eles,
Francis Bacon: considerado como o fundador da ciência
moderna. Sua principal preocupação consistia em expor bloqueavam a evolução do homem.
a metodologia correta para a aquisição do conhecimento.
Assim, a filosofia não deveria se contentar com uma atitu-
de meramente contemplativa, como queriam os antigos e
medievais; ao contrário, deveria buscar o conhecimento das
essências das coisas a fim de obter o controle sobre os fenô-
menos naturais e, portanto, submeter a natureza aos desíg-
nios humanos.

René Descartes notabilizou-se por seu trabalho re- A busca pelo saber e a liberdade de pensamento:
volucionário na filosofia e na ciência, mas também duas premissas do Iluminismo.
obteve reconhecimento matemático por sugerir a
fusão da álgebra com a geometria - fato que ge-
rou a geometria analítica e o sistema de coorde-
nadas que hoje leva o seu nome. Por fim, ele foi Nesse período, há grande interesse pelas ciências que se relacionam com a ideia de evolução (como
uma das figuras-chave na Revolução Científica. Em a biologia), além de uma grande preocupação com as artes, na medida em que elas são as expressões por
suas obras Discurso sobre o método e Meditações, excelência do grau de progresso de uma civilização. Além destes, data também desse período o interesse
criou as bases da ciência contemporânea. pela compreensão das bases econômicas da vida social e política, surgindo uma reflexão sobre a origem
e a forma das riquezas das nações, com uma controvérsia sobre a importância maior ou menor da agri-
cultura e do comércio, controvérsia expressa em duas correntes do pensamento econômico: a corrente
fisiocrata (a agricultura é a fonte principal das riquezas) e a mercantilista (o comércio é a fonte principal
da riqueza das nações).

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Os principais pensadores do período foram: Hume, Locke, Voltaire, D’Alembert, Diderot, Rousseau,
Kant, Fichte e Montesquieu.

Voltaire defendia a liberdade de pensa- Montesquieu defendeu a divisão do po-


mento e não poupava crítica a intolerân- der político em Legislativo, Executivo e As utopias políticas elaboradas no século XIX, como o anarquismo, o socialismo e o comunismo, tam-
cia religiosa. Judiciário. bém devem muito à ideia de desenvolvimento e progresso, entendidos como caminho para uma socieda-
de justa e feliz.
No século XX, porém, formou-se a noção de que o progresso é descontínuo, isto é, não se faz por
etapas sucessivas. Desse modo, a história universal não é um conjunto de várias civilizações em etapas
diferentes de desenvolvimento. Cada sociedade tem sua própria história. Cada cultura tem seus próprios
valores. Essa visão de mundo possibilitou o desenvolvimento de várias ciências como a etnologia, a an-
tropologia e as ciências sociais.
Ciência e técnica: A confiança no saber científico foi outra das atitudes filosóficas que se desenvolve-
ram no século XIX. Essa atitude implica que a Filosofia afirmava a confiança plena e total no saber científi-
co e na tecnologia para dominar e controlar a Natureza, a sociedade e os indivíduos. Surgiram disciplinas
como a psicologia, a sociologia e a pedagogia. No século XX, a filosofia passou a colocar em cheque o
Denis Diderot e Jean Le Rond Jean-Jacques Rousseau defendia a ideia
alcance desses conhecimentos. Assim, tais ciências podem não conseguir abranger a totalidade dos fe-
d´Alembert, juntos, organizaram uma de um estado democrático que garantis-
nômenos que estudam e, também, muitas vezes não conseguem fundamentar e validar suas próprias
enciclopédia que reunia conhecimentos se igualdade para todos.
descobertas.
e pensamentos filosóficos da época.
O triunfo da razão: No século XIX, o otimismo filosófico levava a Filosofia a
afirmar que, enfim, os seres humanos haviam alcançado a maioridade racional,
e que a razão se desenvolvia plenamente para que o conhecimento completo da
realidade e das ações humanas fosse atingido. A ideia de que a razão, ciência e
 Filosofia contemporânea o conhecimento são capazes de dar conta de todos os aspectos da vida humana
Abrange o pensamento filosófico que vai do início do século XIX e chega também foi pensada criticamente por dois grandes filósofos: Karl Marx e Sig-
aos nossos dias. O século XIX é, na Filosofia, o grande século da descoberta da mund Freud.
História ou da historicidade do homem, da sociedade, das ciências e das artes. No campo político, Marx descobriu que temos a ilusão de estarmos pensan-
É particularmente com o filósofo alemão Georg Wilhelm Friedrich Hegel que se do e agindo com nossa própria cabeça e por nossa própria vontade, racional e
afirma que a História é o modo de ser da razão e da verdade, o modo de ser dos livremente, de acordo com nosso entendimento e nossa liberdade, porque des-
seres humanos e que, portanto, somos seres históricos. conhecemos um poder invisível que nos força a pensar como pensamos e agir
No século passado, essa concepção levou à ideia de progresso, isto é, de Karl Marx como agimos. A esse poder - que é social - ele deu o nome de ideologia.
que os seres humanos, as sociedades, as ciências, as artes e as técnicas melho-
ram com o passar do tempo, acumulam conhecimento e práticas, aperfeiçoan-
do-se cada vez mais, de modo que o presente é melhor e superior, se compara- No campo da psique, Freud abalou o edifício das ciências psico-
do ao passado, e o futuro será melhor e superior, se comparado ao presente. G.W.F. Hegel
lógicas ao descobrir a noção de inconsciente – poder que domina e
Uma das consequências dessa percepção é a ideia de progresso. O filósofo Auguste Comte foi um dos controla invisível e profundamente nossa vida consciente.
principais teóricos a pensar essa questão. Tanto a razão quanto o saber científico caminham na direção
do desenvolvimento do homem. É de Comte a ideia de “Ordem e Progresso”, que viria a fazer parte da
bandeira do Brasil republicano.
Sigmund Freud

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Teoria crítica
A ideia de progresso humano como percurso racional sofreu um duro golpe com a ascensão dos regi-
mes totalitários, como o nazismo, o fascismo e o stalinismo. Assim, a Filosofia passou a desconfiar do oti-
mismo revolucionário e das utopias, e o desencanto tomou o lugar da confiança que existia anteriormente Questões para refletir
na ideia de uma razão triunfante.
Em face dessa realidade, um grupo de intelectuais alemães elaborou uma teoria que ficou conhecida
como teoria crítica, visando oferecer um comportamento crítico nos confrontos com a ciência e a cultura,
apresentando uma proposta política de reorganização da sociedade, de modo a superar o que eles cha-  “Ninguém jamais pôs tanto engenho em querer nos converter em animais.”
mavam de “crise da razão”. Eles entendiam que a razão era o elemento de conformidade e de manutenção Voltaire
do status quo, propondo, então, uma reflexão sobre esta racionalidade.
Na citação acima, Voltaire satiriza Rousseau por este afirmar que o homem nasce bom e a sociedade o
Esse pensamento diferencia a razão instrumental da razão crítica. Enquanto a razão instrumental é corrompe concluindo que o homem primitivo era bom porque era natural. Em sua opinião, qual é a posi-
aquela que transforma as ciências e as técnicas num meio de intimidação do homem, e não de libertação, ção mais correta sobre o homem? A de Voltaire ou a de Rousseau? Por quê?
a razão crítica é a que estuda os limites e os riscos da aplicação da razão instrumental.

Existencialismo
O filósofo Jean-Paul Sartre também pensou as questões do homem frente à Atividades
liberdade e ao seu compromisso com a história. Utilizando as contribuições do
marxismo e da psicanálise, o filósofo elaborou um pensamento sistemático que
põe em destaque a noção de existência em lugar da essência.
1. Resuma os principais períodos da história da filosofia, destacando apenas as ideias principais de cada
um.

Fenomenologia 2. Você já assistiu ao filme “Um Sonho de Liberdade”? Se não, procure assisti-lo. Se não for possível,
converse com alguém que já tenha visto o filme. Faça uma relação entre o filme e a frase abaixo:
O estudo da linguagem científica, dos fundamentos e dos métodos das ciên-
cias tornou-se um foco de atenção importante para a filosofia contemporânea. O
filósofo Edmund Husserl propôs à filosofia a tarefa de estudar as possibilidades e
os limites do próprio conhecimento. Ele desenvolveu uma teoria chamada feno- “O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos
menologia, que deriva das palavras gregas phainesthai que significa aquilo que se do que os outros fizeram de nós.”
mostra, e logos que significa estudo, sendo etimologicamente então “o estudo do (Jean-Paul Sartre)
que se mostra”.
Na filosofia de Edmund Husserl, a fenomenologia é o método de apreensão da essência absoluta das
coisas.

Sinopse do filme: Andy Dufresne tem sua vida mudada quando acaba
na prisão por ter assassinado sua esposa. Detalhe: ele é inocente. Na
prisão ele acaba virando amigo de Red, e deve utilizar sua habilidade
Filosofia analítica nos negócios para sobreviver em um ambiente hostil e suportar as
A filosofia analítica é uma vertente do pensamento contemporâneo, reivindi- injustiças.
cada por filósofos bastante diferentes, cujo ponto comum é a ideia de que a filoso-
fia é análise - a análise do significado dos enunciados - e se reduz a uma pesquisa
sobre a linguagem. As formas e os modos de funcionamento da linguagem foram
estudados pelo filósofo Ludwig Wittgenstein. Bertrand Russel e Quine também
estudaram os problemas lógicos das ciências, a partir da linguagem científica.
Bertrand Russel

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3. Analisando a figura, qual era a relação entre fé e razão antes e depois de Tomás de Aquino? 6. O Homem Vitruviano, de Leonardo Da Vinci (ver imagem abaixo), resume vários dos ideais do pensa-
mento renascentista. Comente essa afirmação, concordando ou não, e justifique sua resposta.

4. (Questão do ENEM) O príncipe, portanto, não deve se incomodar com a reputação de cruel, se seu pro-
pósito é manter o povo unido e leal. De fato, com uns poucos exemplos duros poderá ser mais clemente
do que outros que, por muita piedade, permitem aos distúrbios que levem ao assassínio e ao roubo.
MAQUIAVEL, N. O Príncipe. São Paulo. Martin Claret, 2009.
No século XVI, Maquiavel escreveu O Príncipe, reflexão sobre a monarquia e a função do governante.
A manutenção da ordem social, segundo esse autor, baseava-se na
a) Inércia do julgamento de crimes polêmicos.
b) Bondade em relação ao comportamento dos mercenários.
c) Compaixão quanto à condenação de transgressões religiosas.
d) Neutralidade diante da condenação dos servos.
e) Conveniência entre o poder tirânico e moral do príncipe.

5. O helenismo é um período da história da filosofia que se caracteriza pela:


a) exclusividade que dá à dimensão prática da filosofia, em contraposição à dimensão investigativa das
filosofias platônica e aristotélica.
b) importância que confere à lógica, à ética e à estética, como investigações necessárias para se alcançar
a satisfação individual ou felicidade.
c) centralidade que atribui à ética, em meio a significativas teorizações sobre a natureza, em um mo-
mento de crescente desagregação da pólis grega.
d) valorização do indivíduo e sua ação, em detrimento da investigação lógica, fundamental em uma
perspectiva como a de Aristóteles.
e) predominância de sistemas metafísicos voltados para a busca do bem comum, em oposição às pers-
pectivas epistemológicas de Platão e Aristóteles.

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Temas, Disciplinas e
Immanuel Kant é famoso, sobretudo, pela elaboração
do denominado idealismo transcendental. Segundo
este, os fenômenos da realidade objetiva, por serem

Campos Filosóficos
incapazes de se mostrar aos homens exatamente tais
como são, não aparecem como coisas-em-si, mas como
representações subjetivas construídas pelas faculda-
des humanas de cognição. Assim, todos nós trazemos
formas e conceitos a priori (aqueles que não vêm da
experiência) para a experiência concreta do mundo, os
A Filosofia existe há vários séculos. Durante uma história tão longa e de períodos tão diferentes, sur- quais seriam de outra forma impossíveis de determinar.
giram temas, disciplinas e campos de investigação filosóficos, enquanto outros desapareceram. A filosofia da natureza e da natureza humana de Kant é
historicamente uma das mais determinantes fontes do
relativismo conceptual que dominou a vida intelectual
Para Descartes, a filosofia, na qualidade de metafísica, é a investigação dos princípios fundamentais, do século XX.
que precisam ser claros e evidentes, e devem formar uma base segura a partir da qual se possam derivar
as outras formas de conhecimento. É nesse sentido, entendendo-se a filosofia como o conjunto de todos
os saberes e a metafísica como a investigação das primeiras causas, que se deve ler a famosa metáfora de O empirismo britânico e o idealismo de Kant acentuam uma característica frequentemente destacada
Descartes: “Assim, a Filosofia é uma árvore, cujas raízes são a Metafísica, o tronco a Física, e os ramos que na filosofia: a de ser um “pensar sobre o pensamento” ou um “conhecer o conhecimento”. Essa concep-
saem do tronco são todas as outras ciências”. ção reflexiva da filosofia, do pensamento que se volta para si mesmo, influenciará vários autores e escolas
filosóficas, tanto do século XIX como do século XX.

O ideal da ciência: colocar a natureza nas mãos


do homem.

A Árvore de Saber Segundo R. Descartes


Outros campos de conhecimento e de ação abriram-se para a Filosofia, mas a idéia de uma totalidade
de saberes que conteria em si todos os conhecimentos nunca mais reapareceu. Assim, a filosofia reduziu-
Após Descartes, a filosofia assume uma postura crítica em relação a suas próprias aspirações e con- -se à teoria do conhecimento, à ética e à epistemologia. Como consequência dessa redução, os filósofos
teúdos. Os empiristas britânicos, influenciados pelas novas aquisições da ciência moderna, dedicaram-se passaram a ter um interesse primordial pelo conhecimento das estruturas e formas de nossa consciência
a situar a investigação filosófica nos limites do que pode ser avaliado pela experiência. Immanuel Kant, e também pelo seu modo de expressão, isto é, a linguagem.
ao elaborar sua doutrina da filosofia transcendental, rejeita a possibilidade de tratamento científico de
muitos dos problemas da filosofia tradicional, uma vez que a adequada solução deles demandaria recur- No entanto, deve-se destacar que a atividade filosófica não se limitou à teoria do conhecimento, à ló-
sos que ultrapassam as capacidades do intelecto humano. gica, à epistemologia e à ética. Desde o início do século XX, a História da Filosofia tornou-se uma disciplina

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de grande prestígio e, com ela, a história das ideias e a história das ciências.  Filosofia da arte ou estética: estudo das formas de arte, do
trabalho artístico; idéia de obra de arte e de criação; relação entre
Além disso, desde a Segunda Guerra Mundial, com o fenômeno do totalitarismo (fascismo, nazismo, matéria e forma nas artes; relação entre arte e sociedade, arte e
stalinismo), com as guerras de libertação nacional contra os impérios coloniais e as revoluções socialistas política, arte e ética. Entre as investigações dessa área, encontra-se
em vários países; as lutas contra ditaduras e com os movimentos por direitos (negros, índios, mulheres, também, sobre como a experiência estética se diferencia de outras
idosos, homossexuais etc.) dos anos 60; nos anos 70, com a luta pela democracia em países submetidos formas de experiência, e sobre o próprio conceito de belo.
a regimes autoritários, um grande interesse pela filosofia política ressurgiu e, com ele, as críticas de ide-
ologias e uma nova discussão sobre as relações entre a ética e a política, além de discussões em torno da  Filosofia da História: estudo sobre a dimensão temporal da
filosofia da História. existência humana como existência sociopolítica e cultural; teorias
do progresso, da evolução e teorias da descontinuidade histórica;
significado das diferenças culturais e históricas, suas razões e conse-
quências.
 História da Filosofia: estudo dos diferentes períodos da Filosofia; de grupos de filósofos segundo
os temas e problemas que abordam; de relações entre o pensamento filosófico e as condições econômi-
cas, políticas, sociais e culturais de uma sociedade; mudanças ou transformações de conceitos filosóficos
em diferentes épocas; mudanças na concepção do que seja a Filosofia e de seu papel ou finalidade.

A filosofia é geralmente dividida em áreas de investigação específica. Em cada área, a pesquisa fi-
losófica dedica-se à elucidação de problemas próprios, embora sejam muito comuns as interconexões. Questões para refletir
Portanto, vejamos os campos próprios em que se desenvolveu a reflexão filosófica nestes vinte e cinco
séculos:  Leia a pergunta abaixo e as respostas a seguir:

 Metafísica: ocupa-se da elaboração de teorias sobre


a realidade e sobre a natureza fundamental de todas as coisas.
Uma das subáreas da metafísica é a ontologia (literalmente, a “Apesar da ciência, ainda é possível acreditar no sopro divino – o momento em que o
ciência do “ser”), que busca identificar as entidades básicas ou Criador deu vida até ao mais insignificante dos micro-organismos?”
elementares da realidade e mostrar como essas se relacionam
com os demais objetos ou indivíduos.
Resposta de Dom Odilo Scherer, cardeal arcebispo de São Paulo, nomeado pelo papa Bento XVI
 Lógica: é a área que trata das estruturas formais do em 2007:
raciocínio perfeito – ou seja, daqueles raciocínios cuja conclu-
são preserva a verdade das premissas. “Claro que sim. Estaremos falando sempre que, em algum momento, começou a existir
algo, para poder evoluir em seguida. O ato do criador precede a possibilidade de evolu-
ção: só evolui algo que existe. Do nada, nada surge e evolui.”
 Epistemologia: estuda a origem, a estrutura, os métodos e a validade do conhecimento. Dentre as
questões típicas da epistemologia estão: “O que diferencia o conhecimento de outras formas de crença?”, LIMA, Eduardo. Testemunha de Deus. SuperInteressante, São Paulo, n. 263-A, p. 9, mar. 2009
“O que podemos conhecer?”, “Como chegamos a ter conhecimento de algo”? (com adaptações).
 Ética ou filosofia moral: é a área da filosofia que trata das distin- Resposta de Daniel Dennet, filósofo americano ateu e evolucionista radical, formado em Harvard
ções entre o certo e o errado, entre o bem e o mal, o estudo dos valores e Doutor por Oxford:
morais (as virtudes), da relação entre vontade e paixão, vontade e razão;
finalidades e valores da ação moral; idéias de liberdade, responsabilida- “É claro que é possível, assim como se pode acreditar que um super-homem veio para
de, dever, obrigação, etc. a Terra há 530 milhões de anos e ajustou o DNA da fauna cambriana, provocando a ex-
plosão da vida daquele período. Mas não há razão para crer em fantasias desse tipo.”
 Filosofia da linguagem: estuda a linguagem como manifestação
da humanidade do homem; signos, significações; a comunicação; pas- LIMA, Eduardo. Advogado do Diabo. SuperInteressante, São Paulo, n. 263-A, p. 11, mar. 2009
sagem da linguagem oral à escrita, da linguagem cotidiana à filosófica, à literária, à científica; diferentes (com adaptações).
modalidades de linguagem como diferentes formas de expressão e de comunicação.
Para você, quem está certo? Por quê?
 Filosofia política: é o ramo da filosofia que investiga os fundamentos da organização sociopolítica
e do Estado.

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Atividades 4. A Filosofia é uma disciplina bastante abrangente em seu conteúdo de aprendizado, pois ela é vista
como a mãe das outras ciências. Ora, é costume dizer que quando refletimos sobre a vida a partir de
fundamentos filosóficos, quando debatemos filosoficamente o mundo, sempre iniciamos com ques-
tionamentos nem sempre fáceis de resolver. Com base nas afirmativas acima, assinale a única alterna-
1. Faça um breve resumo da evolução dos temas e campos filosóficos. tiva que não está correta:

a) Questões filosóficas não são feitas em vista de uma solução, mas como exigência do pensar.
2. É bastante comum ouvirmos essa frase dos adultos: As crianças de hoje já não brincam como as de b) Elas não são formuladas para exigir da consciência humana o ato de pensar.
antigamente. Dessa frase, podemos concluir que há saudosismo da vida que deixamos para trás.
Por isso, nunca é tarde para sabemos que as experiências e o conhecimento nos fazem rever nosso c) Não cabe nos questionamentos filosóficos direcionamento para um pensar único e perfeito.
papel no mundo e nossa existência. Não somos como aranhas, ou abelhas, ou formigas que vivem
numa imutável cultura, incapazes de decidir ou optar por um tipo de vida diferente. A natureza fez d) O pensamento não deve estar preso entre as paredes da crença e do fundamentalismo.
os animais assim, mas nós não somos assim, e nos recusamos a ser diferentes. Ora, escolha a ÚNICA
alternativa que não completa a seguinte frase “quando as pessoas, por causa do progresso tecnoló-
gico, intervêm nos costumes, nas tradições, na forma de comunicar, nas relações entre as pessoas, 5. Relacione as colunas, preenchendo os espaços vazios da segunda coluna com as letras que acompa-
mudando o rosto do mundo...”: nham as palavras da primeira coluna:
a) Estão se readaptando ao cosmos porque as coisas não param de mudar.
(a)Lógica ( ) tempo
b) Estão criando novas culturas e recriando as existentes. (b)Epistemologia ( ) Ciência
(c)Filosofia da História ( ) o bem
c) Confirmam que cultura e tecnologia jamais andam juntas pois uma nega a outra. (d) Ética ( ) Regras do pensamento
d) Demonstram que o progresso tecnológico altera os processos culturais em sua essência.

3. Preencha a palavra-cruzada abaixo com as respostas apropriadas:


a) Também conhecida como filosofia da arte.
b) Trata das distinções entre o bem e o mal.
c) Estuda a validade do conhecimento.
d) Filosofia da ________: Estuda os signos, as significações, a comunicação. Corresponde à elaboração
de teorias sobre a realidade e sobre natureza fundamental de todas as coisas. Estuda os métodos e
princípios que permitem distinguir os raciocínios corretos dos raciocínios incorretos.
e) É a filosofia que se ocupa dos fundamentos da organização sociopolítica e do Estado.

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David Hume visava esclarecer todos os conceitos e raciocínios


confusos inventados pelos filósofos. Estabelece que o homem
possui formas distintas de percepção:
1. Impressões: são conhecimentos adquiridos imediatamente

A Razão pela experiência e são bem vivas. Ex: tomar café extremamente
quente.
2. Percepção: é um tipo de sensação menos viva, menos clara
que a impressão. 3. Hábito ou Crença: é a repetição de experi-
ências sensíveis, estabelecendo uma relação de causa e efeito.
4. Idealismo Transcendental: é buscar conhecer através da vin-
Razão é a capacidade da mente humana que permite chegar a conclusões a partir de suposições ou culação entre razão e da experiência.
premissas. É, entre outros, um dos meios pelo qual os seres racionais propõem motivos ou explicações
para causa e efeito.
Problemas do inatismo
A RAZÃO: INATA OU ADQUIRIDA?
Se os princípios e as ideias da razão são inatos e assim, universais e necessários, como explicar que
Durante séculos, a Filosofia ofereceu duas respostas a perguntas tais como: de onde vieram os prin-
possam mudar?
cípios racionais; de onde veio a capacidade para o raciocínio (razão discursiva)? Seriam algo próprio dos
seres humanos (inatismo), ou seriam adquiridos através da experiência (empirismo)? A História (social, política, científica e filosófica) mostra que ideias tidas como verdadeiras e universais
não possuíam essa validade e foram substituídas por outras. Mas, por definição, uma ideia inata é sempre
verdadeira e não pode ser substituída por outra. Se for substituída, então não era uma ideia verdadeira e,
não sendo uma ideia verdadeira, não era inata.

Problemas do empirismo

O empirismo se defronta com um problema insolúvel: se as ciências são apenas hábitos psicológicos
de associar percepções e ideias, então as ciências não possuem nenhuma verdade, nem objetividade, não
explicam a realidade e não alcançam os objetos.

O ser humano desenvolve suas habilidades ou já O ideal racional da objetividade afirma que uma verdade é uma verdade porque corresponde à reali-
nasce com elas? dade das coisas e, portanto, não depende de nossas opiniões, preferências, costumes e hábitos. Ou seja,
não é subjetiva, não depende de nossa vida pessoal e psicológica. A racionalidade ocidental só foi possível
O inatismo afirma que nascemos trazendo em nossa inteligência não só os princípios racionais, mas porque a Filosofia e as ciências demonstraram que a razão é capaz de alcançar à universalidade e as leis
também algumas ideias verdadeiras, que, por isso, são ideias inatas. Portanto, apresenta o ser humano racionais que governam a Natureza, a sociedade, a moral, a política.
como um agente estático, sem a possibilidade de sofrer mudanças. Desta forma, quando o homem nasce,
Para resolver os problemas criados pela divergência entre inatistas e empiristas, foram propostas al-
sua personalidade, valores, hábitos, crenças, pensamento, emoções e conduta social já estão definidos,
gumas soluções filósofos como Leibniz, Kant e Hagel.
uma vez que toda a atividade de conhecimento é exclusiva do sujeito, o meio não participa dela. O em-
pirismo, ao contrário, afirma que a razão, com seus princípios, seus procedimentos e suas ideias, é ad-
quirida por nós através da experiência. Assim, o homem, ao nascer, é uma “folha em branco”. Segundo
Popper, “Não há nada no nosso intelecto que não tenha entrado lá através dos nossos sentidos”. Essa é a A solução de Leibniz no século XVII
ideia central do empirismo: a única fonte de conhecimento humano é a experiência adquirida em função
do meio físico, mediada pelos sentidos. Portanto, o empirismo destaca a importância da educação e da Leibniz estabeleceu uma distinção entre verdades de razão e verdades
instrução na formação do homem. de fato: as verdades de razão enunciam que uma coisa é, necessária e univer-
salmente, não podendo de modo algum ser diferente do que é e de como é.
Por exemplo, é impossível que o triângulo não tenha três lados; é impossível
que 2 + 2 não seja igual a 4. Assim, as verdades de razão são inatas, o que sig-
nifica que nascemos com a capacidade racional, puramente intelectual, para

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conhecer idéias que não dependem da experiência para serem formuladas e para serem verdadeiras. Já De fato, a Filosofia, preocupada em garantir a diferença entre a simples opinião e a verdade , conside-
as verdades de fato, ao contrário, são as que dependem da experiência, pois enunciam idéias que são ob- rou que as ideias só seriam racionais e verdadeiras se fossem intemporais, as mesmas em todo tempo e
tidas através da sensação, da percepção e da memória. Ou seja, são empíricas e se referem a coisas que em todo lugar. Uma verdade que mudasse com o tempo ou com os lugares seria mera opinião, e não uma
poderiam ser diferentes do que são, mas que são como são porque há uma causa para que sejam assim. verdade. A razão, sendo a fonte e a condição da verdade, teria também que ser intemporal. Ao afirmar
que a razão é histórica, ele está dizendo que a mudança, a transformação da razão e de seus conteúdos é
obra racional da própria razão. A razão não está na História; ela é a História.
A solução kantiana A razão, diz Hegel, não é nem exclusivamente razão objetiva (a verdade está nos objetos) nem exclu-
sivamente subjetiva (a verdade está no sujeito), mas é sim, o conhecimento da harmonia entre as coisas
A resposta aos problemas do inatismo e do empirismo oferecida pelo e as ideias, entre o mundo exterior e a consciência, entre o objeto e o sujeito, entre a verdade objetiva e
filósofo alemão do século XVIII, Immanuel Kant, é conhecida com o nome a verdade subjetiva.
de “revolução copernicana” em Filosofia.

Em astronomia, a revolução copernicana (de Copérnico) demonstrou A razão na filosofia contemporânea


que, entre outros, o sistema geocêntrico era falso, ou seja, que o centro do Embora Hegel tenha proposto sintetizar a história da razão, nem todos os filósofos aceitaram sua so-
Universo não é a Terra e que o Sol não é um planeta, mas uma estrela, e a lução como resposta final.
Terra, como os outros planetas, gira ao redor dele.
Um desse filósofos, Edmund Husserl, foi criador da fenomenologia (que descreve as estruturas da
Assim, fazendo uma analogia, inatistas e empiristas, isto é, todos os filósofos, parecem ser como as- consciência). Manteve o inatismo, mas com as contribuições trazidas pelo kantismo. Em outras palavras,
trônomos geocêntricos, buscando um centro que não é verdadeiro. Colocaram a realidade exterior ou os a fenomenologia considera a razão uma estrutura da consciência (como Kant), mas cujos conteúdos são
objetos do conhecimento no centro e fizeram a razão, ou o sujeito do conhecimento, girar em torno deles. produzidos por ela mesma, independentemente da experiência (diferentemente do que dissera Kant).
Ora, diz Kant, “o ponto de partida da filosofia não pode ser a realidade (seja interna, seja externa), e Outros filósofos, como os que criaram a chamada Escola de Frankfurt ou Teoria Crítica, adotam a so-
sim o estudo da própria faculdade de conhecer ou o estudo da razão”. Ou seja, deve-se começar, colocan- lução hegeliana, mas com uma modificação fundamental. Os filósofos dessa Escola, com uma formação
do no centro a própria razão, porque, por meio de seu estudo, compreenderemos o que são o sujeito do marxista, recusam a ideia hegeliana de que a História é obra da própria razão, ou que as transformações
conhecimento e o objeto do conhecimento. históricas da razão são realizadas pela própria razão, sem que esta seja condicionada ou determinada pe-
las condições sociais, econômicas e políticas.
A razão é uma estrutura vazia, uma forma pura sem conteúdos, e que é universal (e não os con-
teúdos), a mesma para todos os seres humanos, em todos os tempos e lugares. Essa estrutura é inata, Nos anos 60, desenvolveu-se, sobretudo na França, uma corrente científica chamada estruturalismo.
portanto, não depende da experiência para existir. Assim, a razão é, do ponto de vista do conhecimento, Para os estruturalistas, o mais importante não é a mudança ou a transformação de uma realidade (de uma
anterior à experiência. Ou, como escreve Kant, a estrutura da razão é a priori (vem antes da experiência língua, de uma sociedade indígena, de uma teoria científica), mas a estrutura ou a forma que ela tem no
e não depende dela). presente. O estruturalismo teve uma grande influência sobre o pensamento filosófico e isso se refletiu na
discussão sobre a razão.
Entretanto, os conteúdos que a razão conhece e nos quais ela pensa, esses sim, dependem da experi-
ência e, sem ela, a razão seria sempre vazia, nada conhecendo. Assim, a experiência fornece a matéria (os Em cada época de sua história, a razão cria modelos ou paradigmas explicativos para os fenômenos ou
conteúdos) do conhecimento para a razão e esta, por sua vez, fornece a forma (universal e necessária) do para os objetos do conhecimento, não havendo continuidade nem pontos comuns entre eles que permi-
conhecimento. A matéria do conhecimento, por ser fornecida pela experiência, vem depois desta e por tam compará-los. Agora, em lugar de um processo linear e contínuo da razão, fala-se na invenção de for-
isso é, no dizer de Kant, a posteriori. mas diferentes de racionalidade, de acordo com critérios que a própria razão cria para si mesma. A razão
grega é diferente da medieval que, por sua vez, é diferente da renascentista e da moderna. A razão mo-
Dessa maneira, a estrutura da razão é inata e universal, enquanto os conteúdos são empíricos e po- derna e a iluminista também são diferentes, assim como a razão hegeliana é diferente da contemporânea.
dem variar no tempo e no espaço, podendo transformar-se com novas experiências e mesmo revelarem-
-se falsos, graças a experiências novas. Como razão subjetiva, nossa razão pode garantir a verdade da Por que ainda falamos em razão?
Filosofia e da ciência.
As concepções contemporâneas da razão são tão radicais que chegamos a indagar se ainda podería-
mos continuar falando em razão. A permanência da razão se deve ao fato de considerarmos que a reali-
dade (natural, social, cultural, histórica) tem sentido e que este pode ser conhecido, mesmo quando isso
A resposta de Hegel implique modificar a noção de razão e alargá-la. É o ideal do conhecimento objetivo que é conservado
quando continuamos a falar em razão.
Hegel criticou o inatismo, o empirismo e o kantismo pelo
mesmo motivo: o de não haverem compreendido o que há de Em cada época, os membros da sociedade e da cultura ocidentais julgam a validade da própria razão
mais fundamental e de mais essencial à razão: a razão é histó- como capaz ou incapaz de realizar o ideal do conhecimento. Esse julgamento pode ser realizado de duas
rica. maneiras.

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1. o critério lógico da coerência interna de um pensamento ou de uma teoria, isto é, a avaliação da Dali conseguiu levantar vôo e sair do copo.
compatibilidade e da incompatibilidade entre os princípios, conceitos, definições e procedimentos em-
pregados e as conclusões ou resultados obtidos; Tempos depois, a mosca tenaz, por descuido, novamente caiu num copo, desta vez cheio de água.
Como pensou que já conhecia a solução daquele problema, começou a se debater na esperança
2. o critério ético-político do papel da razão e do conhecimento para a compreensão das condições de que, no devido tempo, se salvasse.
em que vivem os seres humanos e para sua manutenção, melhoria ou transformação.
Outra mosca, passando por ali e vendo a aflição da companheira de espécie, pousou na beira do
A razão tem um potencial ativo ou transformador e por isso continuamos a falar nela e a desejá-la. copo e gritou.
A mosca tenaz respondeu:
“Pode deixar que eu sei como resolver este problema.”
E continuou a se debater mais e mais até que, exausta, afundou na água.
Questões Para Refletir

1) Platão afirma que as idéias são eternas e imutáveis. Logo, não é possível que uma idéia seja criada a) Em sua opinião, qual era a “lição” que o autor quis transmitir?
ou destruída. Será que Platão está certo? Tente escrever como destruir uma idéia. Depois, discuta com
seus colegas o que você escreveu e responda as seguintes questões: b) Para você, o que significam as palavras: experiência e hábito?
a) Se não houvesse mais ninguém no mundo, ainda assim as idéias continuariam existindo?
b) Se 2 + 2 é sempre 4, isso significa que os números são eternos?
c) É possível pensar sem ter idéias? 2. De acordo com o empirismo de Hume marque (V) ou (F)
d) Se a galinha morre, a idéia de galinha também morre? a) ( ) O conhecimento para Hume se dá pelo hábito, que é possível a partir de uma relação entre
causa e efeito, que tem origem na natureza humana.
e) As pessoas podem mudar de idéia ou apenas de opinião?
b) ( ) Quando temos a possibilidade e realizar observações de casos semelhantes atingimos o hábito.

c) ( ) Ao realizarmos uma experiência de aquecer a água a 100 º C deduzimos que ela ferverá e sem-
Atividades pre afirmamos pela seqüência de eventos ou pela força do hábito.

d) ( ) Toda causa produz o mesmo efeito desejado. Isto porque a relação se dá entre os objetos e não
na nossa natureza de conhecer.
1. Leia a fábula abaixo e responda o questionamento no final:

3. O que você entende por razão?


A Lição da Mosca
Certa vez, duas moscas caíram num copo de leite...
4. Quais as principais diferenças entre o inatismo e o empirismo?
A primeira era forte e valente. Assim, logo ao cair, nadou até a borda do copo.
Como a superfície era muito lisa e suas asas estavam molhadas, não conseguiu escapar.
5. Faça um resumo com o que você entendeu sobre o pensamento de Leibniz, Kant e Hegel sobre a
Acreditando que não havia saída, a mosca desanimou, parou de se debater e afundou. razão.
Sua companheira de infortúnio, apesar de não ser tão forte, era tenaz e, por isso, continuou a se
debater e a lutar. Aos poucos com tanta agitação, o leite ao seu redor formou um pequeno nódulo
de manteiga no qual ela subiu. 6. Explique com suas palavras porque ainda falamos em razão.

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7. Marque com “X” as características do Empirismo:


( ) A formação do conhecimento depende das experiências.
( ) As pessoas nascem sabendo o que precisam, não têm necessidade de aprender.
( ) Nós nascemos como uma “tábua rasa” e precisamos experimentar o mundo pelos nossos cinco
sentidos para aprender.
( ) O conhecimento a posteriori não necessita da experiência.
A verdade e o Conhecimento
( ) O conhecimento a priori é um conhecimento que só é possível a partir das experiências novas.
AS CONCEPÇÕES DA VERDADE
A busca da verdade sempre constituiu um dos problemas fundamentais da Filosofia; sem essa busca
8. A evolução humana é prova de que usamos com racionalidade perfeita nossas culturas e a recria- ela não existiria.
mos a cada dia. Usamos as mãos para evoluir nossos instrumentos tecnológicos; a nossa inteligência para
O que significa a verdade para a Filosofia? Inicialmente, podemos destacar a existência de três con-
conhecer cada vez mais o universo. Somos capazes de transformar o universo e fazer dele uma morada
cepções diferentes (advindas das línguas grega, latina e hebraica) sobre a natureza do conhecimento ver-
fantástica. Ás vezes, usamos essa capacidade para transformar nosso cotidiano num inferno. A evolução
dadeiro, dependendo de qual das três ideias originais da verdade predomine no pensamento de um ou
cultural é a característica mais evidente do ser umano. Mas, a pergunta por que o ser humano evoluiu e
de alguns filósofos:
evolui?, pode ser respondida de várias maneiras. Assinale o item que responde corretamente a questão
acima:

a) Porque ele vive em sociedade como as abelhas ou as formigas. CONCEPÇÃO DEFINIÇÃO

b) Porque ele se percebeu capaz de criar, inventar, transformar e descobrir.


em grego, verdade tem o significado de aletheia, o mesmo que não-
c) Porque ele é inteligente e tem cérebro. -oculto, não-escondido; dessa forma, é aquilo que se manifesta aos
ALETHEIA olhos do corpo e do espírito. Dessa forma, quando predomina a ale-
d) Porque ele é capaz de manipular objetos pois tem um polegar opositor. (Grego) theia, considera-se que a verdade está na evidência, isto é, a visão
intelectual e racional da realidade tal como é em si mesma, alcançada
pelas operações de nossa razão ou de nosso intelecto.

em latim, verdade se diz veritas, que se refere à precisão, ou seja,


9. Para Kant, o que é o conhecimento a priori e o conhecimento a posteriori? relaciona-se ao rigor e à exatidão de um relato, no qual se diz, com
VERITAS
detalhes, com pormenores e com fidelidade, o ocorrido. Quando há o
(Latim) predomínio do latim veritas, considera-se que a verdade depende do
rigor e da precisão.

em hebraico, verdade se diz emunah, e significa confiança, a verdade é


uma crença com raiz na esperança e na confiança, relacionadas ao fu-
turo, ao que será ou ao que virá. Sua forma mais elevada é a revelação
EMUNAH divina e sua expressão mais perfeita é a profecia. Quando predomina a
(Hebraico) emunah, considera-se que a verdade depende de um acordo ou de um
pacto de confiança entre os pesquisadores, que definem um conjunto
de convenções universais sobre o conhecimento verdadeiro, que deve
ser respeitado por todos.

Segundo Chaui (1998), se analisarmos as diferentes concepções da verdade, verificaremos que algu-
mas exigências fundamentais são conservadas em todas elas e constituem o campo da busca do verdadei-
ro: compreender as causas da diferença entre o parecer e o ser das coisas ou dos erros; compreender as
causas da existência e das formas de existência dos seres; compreender os princípios necessários e uni-
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versais do conhecimento racional; compreender as causas e os princípios da transformação dos próprios


conhecimentos; separar preconceitos e hábitos do senso comum e a atitude crítica do conhecimento;
explicitar detalhadamente os procedimentos empregados para o conhecimento e os critérios de sua utili-
zação; liberdade de pensamento para investigar o sentido ou a significação da realidade que nos circunda Critério Descrição
e da qual fazemos parte; comunicabilidade (critérios, princípios, procedimentos, percursos realizados e
os resultados obtidos devem poder ser conhecidos e compreendidos por todos os seres racionais); trans- Na Antiguidade e nas sociedades primitivas, a opinião
missibilidade (critérios, princípios, procedimentos, percursos e resultados do conhecimento devem ser da autoridade mantinha um papel importante e decisivo na
ensinados e discutidos em público); veracidade (o conhecimento não pode ser ideologia, nem máscara opinião das pessoas. Na Idade Média, quando a ideologia
e véu para dissimular e ocultar a realidade, servindo aos interesses da exploração e da dominação entre dominante era a religião, o critério da verdade estava na Bí-
os homens), pois assim como a verdade exige a liberdade de pensamento para o conhecimento, também
Da Autoridade blia. Embora o princípio da autoridade esteja hoje abalado,
exige que seus frutos propiciem a liberdade e a emancipação de todos. ele continua funcionando bem na religião, pois esta é ba-
seada em dogmas enunciados pelas autoridades religiosas
Ignorância, Incerteza e Insegurança que devem ser aceitos pela fé, sem discussão.
Ignorar é não saber alguma coisa. Em geral, o estado de ignorância se mantém
em nós enquanto as crenças e opiniões que possuímos para viver e agir no mundo se
conservam como eficazes e úteis, de modo que não temos nenhum motivo para du- É o mais conhecido, divulgado e aceito, de Aristóteles
aos nossos dias. Afirma que o único e último critério da
vidar delas, nenhum motivo para desconfiar delas e, consequentemente, achamos
verdade é a evidência. Por exemplo: “o todo é maior que
que sabemos tudo o que há para saber. Da Evidência sua parte”, é uma verdade evidente que captamos direta e
A incerteza difere-se da ignorância porque, na incerteza, descobrimos que so- imediatamente pela intuição de evidência. Dessa forma, a
mos ignorantes, que nossas crenças e opiniões parecem não dar conta da realidade. evidência seria universal.
Temos dúvidas, ficamos cheios de perplexidade e somos tomados pela insegurança.
O espanto e a admiração, assim como a dúvida e a perplexidade, nos fazem querer
saber o que não sabemos, nos fazem querer sair do estado de insegurança ou de Para o positivismo lógico, a verdade significa a concor-
encantamento, nos fazem perceber nossa ignorância e criam o desejo de superar a incerteza. dância ou a coerência do pensamento consigo mesmo. Essa
concordância pode ser conhecida na ausência da contradi-
Quando isso acontece, estamos na disposição de espírito chamada busca da verdade. Da Ausência Da ção entre os juízos ou enunciados. Por exemplo: “Todos os
Dogmatismo Contradição homens são mortais” (premissa). “Ora, Sócrates é homem”
(premissa). “Logo, Sócrates é mortal” (conclusão). Nesse
Dogmatismo é uma atitude muito natural e muito espontânea que temos, desde muito crianças. É
raciocínio, não há contradição entre os juízos, o pensamen-
nossa crença de que o mundo existe e que é exatamente tal como o percebemos. Na atitude dogmática,
to é coerente consigo mesmo, logo é verdadeiro.
tomamos o mundo como já dado, já feito, já pensado, já transformado. A realidade natural, social, política
e cultural forma uma espécie de moldura de um quadro em cujo interior nos instalamos e onde existimos.
Entretanto, a atitude dogmática ou natural se rompe quando somos capazes de uma atitude de estranha- De acordo com essa doutrina, o único critério da verda-
mento diante das coisas que nos pareciam familiares. de de um juízo é a sua utilidade prática, o sucesso, o êxito, a
Da Utilidade vantagem, o lucro. A ideia verdadeira é aquela que é a mais
A atitude dogmática é conservadora, isto é, sente receio das novidades, do inesperado, do desconhe-
cido e de tudo o que possa desequilibrar as crenças e opiniões já constituídas. Esse conservadorismo se eficaz, que rende mais, que paga mais e assim por diante.
transforma em preconceito, isto é, em ideias preconcebidas que impedem até mesmo o contato com tudo
De todos os critérios, o mais eficiente e cientificamente
quanto possa pôr em perigo o já sabido, o já dito e o já feito. válido é o critério da prova. Todo indivíduo tem o direito de
Portanto, deve-se estar atento, pois os dogmas podem ser armas do duvidar da verdade até o momento em que ela for provada,
totalitarismo, a proibição de ter opinião, de pensar de forma diferente da- verificada, fundamentada. Uma vez que haja fundamentos
quela que alguém convencionou ser a certa. suficientes comprovando a verdade, duvidar dela já não é
possível. A prova é um raciocínio ou uma apresentação de
O critério de verdade Da Prova fatos pela qual se constata ou se estabelece a verdade de
Segundo Hessen (1980), não é suficiente que nossos juízos sejam ver- uma proposição. Toda tese cientificamente provada, por-
dadeiros, precisamos da certeza de que o são. Nesse aspecto, como distin- tanto, é, sem dúvida, verdadeira. Tanto na ciência como no
guimos um juízo verdadeiro de um falso? Aí, entra a questão do critério de cotidiano, nada deve ser aceito na base da crença e da fé,
verdade. No livro “O Problema da Verdade” de Jacob Bazarian (1994), são mas é necessário provar, demonstrar, fundamentar tudo o
analisados cinco critérios da verdade: que se diz.

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O CONHECIMENTO Questões Para Refletir


Podemos definir o conhecimento como o ato ou efeito de
abstrair ideia ou noção de alguma coisa, como por exemplo:
conhecimento das leis; conhecimento de um fato (obter infor-  Acompanhe os versos do poeta Mário de Andrade, escritos no poema “Lira Paulistana” e discuta
mação); conhecimento de um documento; saber, instrução ou as questões abaixo:
cabedal científico (homem com grande conhecimento). Garoa do meu São Paulo
A definição clássica de conhecimento, originada em Pla- Um negro vem vindo, é branco!
tão, diz que ele consiste de crença verdadeira e justificada.
Ele diferencia quatro formas ou graus de conhecimento, que Só bem perto fica negro,
vão do grau inferior ao superior: crença, opinião, raciocínio e
intuição intelectual. Entretanto, os dois primeiros graus devem ser afastados da Filosofia, pois são conhe- Passa e torna a ficar branco.
cimentos ilusórios ou das aparências, como os dos prisioneiros da caverna – e somente os dois últimos
Meu São Paulo da garoa,
devem ser considerados válidos. O raciocínio treina e exercita nosso pensamento, preparando-o para uma
purificação intelectual que lhe permitirá alcançar uma intuição das ideias ou das essências que formam a - Londres das neblinas frias -
realidade ou que constituem o Ser.
Um pobre vem vindo, é rico!
Para Aristóteles, nosso conhecimento vai sendo formado e enriquecido por acumulação das informa-
ções trazidas por todos os graus, de modo que, em lugar de uma ruptura entre o conhecimento sensível e Só bem perto fica pobre,
o intelectual, Aristóteles estabelece uma continuidade entre eles.
Passa e torna a ficar rico.
Além dos conceitos aristotélico e platônico, o conhecimento pode ser classificado em uma série de
Nesses versos, o poeta procura nos mostrar que não conseguimos ver a realidade: o negro, de lon-
designações/categorias:
ge, é branco, o pobre, de longe, é rico; só bem de perto, sem o véu da garoa, o negro é negro e o
pobre é pobre. Mas, apesar de vê-los de perto tais como são, de longe voltam a ser o que não são.
Conhecimento Descrição
É o conhecimento comum entre seres humanos e animais, obtido
Sensorial a partir de nossas experiências sensitivas e fisiológicas (tato, visão, O poeta exprime, então, um dos problemas que mais fascinam a Filosofia: Como a ilusão é possí-
olfato, audição e paladar). vel? Como podemos ver o que não é? Mas, consequentemente, como a verdade é possível?
Categoria exclusiva ao ser humano; trata-se de raciocínio mais ela-
Intelectual borado do que a simples comunicação entre corpo e ambiente.
Aqui já pressupõe-se um pensamento, uma lógica.  Debata com seus colegas as seguintes questões:
É a forma de conhecimento do tradicional (hereditário), da cul- a) Será que tudo o que acreditamos não passa de um amontoado de crenças? Qual sua opinião
Vulgar/Popular tura, do senso comum, sem compromisso com uma apuração ou a respeito?
análise metodológica.
b) Você acha que é inútil discutir com as outras pessoas, para ver quem está certo, porque todos
Preza pela apuração e constatação. Busca por leis e sistemas, no estão certos, cada um à sua própria maneira?
Científico intuito de explicar de modo racional aquilo que se está observan-
do e tem como seus alicerces a metodologia e a racionalidade. c) Qual é a origem dos nossos conhecimentos?
Mais ligado à construção de ideias e conceitos, buscando as ver- d) Quais são os limites do conhecimento?
Filosófico
dades do mundo por meio da indagação e do debate; do filosofar.
Conhecimento adquirido a partir da fé teológica, sendo fruto da
Teológico
revelação com o divino.
Inato ao ser humano, o conhecimento intuitivo diz respeito às nos-
Intuitivo
sas percepções do mundo exterior e à racionalidade humana.

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Atividades

1. Defina qual a concepção que os gregos tinham do conhecimento.

2. Alguns conceitos são muito importantes para um melhor entendimento a respeito do conhecimento.
Pesquise o significado das palavras abaixo e como elas se relacionam com o conhecimento:
A Lógica e a Metafísica
Sensação Percepção Memória Linguagem

Pensamento Inteligência Inconsciente Ideologia A Lógica


Quais são as três diferentes concepções de verdade? Defina-as.
A lógica é uma ciência de índole matemática, fortemente ligada à Filoso-
3. O que você entende por dogma? Cite um exemplo. fia. Foi criada no século IV a.C. por Aristóteles, que a definia como a ciência da
demonstração, sendo dividida em lógica formal (preocupa-se, basicamente,
4. Por que o critério da prova é considerado o mais eficiente? com a estrutura do raciocínio) e material (trata da aplicação das operações
do pensamento, segundo a matéria ou natureza do objeto a conhecer).
5. Qual a diferença entre os conceitos de Platão e Aristóteles acerca do conhecimento?
Em geral, o objeto da lógica é a proposição, que exprime, através da linguagem, os juízos formulados
6. Os filósofos céticos afirmavam que não podemos ter certeza absoluta sobre coisa alguma. Será que pelo pensamento. Uma proposição é constituída por elementos – os termos – que indicam o que uma
eles estavam certos? Das afirmações abaixo, quais você poderia afirmar que correspondem a uma coisa é ou faz, ou como está. Como todo pensamento e todo juízo, a proposição está submetida aos três
verdade absoluta? princípios lógicos fundamentais, condições de toda verdade:

a) A reta é o caminho mais curto entre dois pontos.


PRINCÍPIO DESCRIÇÃO
b) O todo é sempre maior que as partes. da identidade um ser é sempre idêntico a si mesmo: A é A.

c) Um raio nunca cai duas vezes no mesmo lugar. é impossível que um ser seja e não seja idêntico a si mesmo ao
da não-contradição mesmo tempo e na mesma relação. É impossível que A seja A e
d) Toda figura de quatro lados iguais é um quadrado. não–A.
dadas duas proposições com o mesmo sujeito e o mesmo predica-
e) Existe vida inteligente em outros planetas. do terceiro do, uma afirmativa e outra negativa, uma delas é necessariamente
excluído verdadeira e a outra necessariamente falsa. A é x ou não-x, não
7. Quais as formas de dogmatismo e verdades impostas por crenças ou pela autoridade, que impedem havendo terceira possibilidade.
as pessoas de pensar e manifestar suas opiniões?

Silogismo: é um termo filosófico com o qual Aristóteles designou a argumentação lógica perfeita,
constituída de três proposições declarativas que se conectam de modo que a partir das duas primeiras,
chamadas premissas, é possível deduzir uma conclusão. Um exemplo clássico de silogismo é o seguinte:
Todo homem é mortal (premissa maior)
Sócrates é homem (premissa menor)
Logo, Sócrates é mortal (conclusão).

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Dialética: em sentido bastante genérico, a dialética é oposição,


PERÍODO CARACTERÍSTICA
um conflito originado pela contradição entre princípios teóricos ou
fenômenos empíricos. A tradução literal de dialética significa “cami- de Platão e Aristóteles Investiga aquilo que é ou existe, a realidade em si; sendo um
nho entre as idéias”. Entretanto, o conceito de dialética, é utilizado (séculos IV e III a.C.) até conhecimento sistemático, isto é, cada conceito depende
por diferentes doutrinas filosóficas e, de acordo com cada uma, assu- David Hume de outros e se relaciona com outros, formando um sistema
me um significado distinto. coerente de idéias ligadas entre si; exige a distinção entre
(século XVIII d.C.) realidade e aparência.
Para Aristóteles, a dialética é a lógica do provável, do processo
racional que não pode ser demonstrado: «Provável é o que parece Kant propõe que a metafísica seja o conhecimento de nos-
aceitável a todos, ou à maioria, ou aos mais conhecidos e ilustres”, de Kant (século XVIII) sa própria capacidade de conhecer – tomando a realidade
diz o filósofo. Já o alemão Immanuel Kant define a dialética como a «lógica da aparência». Para ele, a dia- até a fenomenologia de como aquilo que existe para nós enquanto somos o sujeito
lética é uma ilusão, pois baseia-se em princípios que são subjetivos. Husserl do conhecimento. A metafísica não se refere mais ao que
(século XX) existe em si e por si, mas ao que existe para nós e é organi-
Os elementos do esquema básico do método dialético são:
zado por nossa razão.
Procura superar tanto a antiga metafísica (conhecimento da
TESE é uma afirmação ou situação inicialmente dada. realidade em si, independente de nós), quanto a concepção
kantiana (conhecimento da realidade como aquilo que é para
ANTÍTESE é uma oposição à tese. nós, posto por nossa razão). Considera o objeto da metafísi-
ca a relação originária mundo-homem e tem como principais
do conflito entre tese e antítese surge a síntese, que é uma situação metafísica ou ontologia características investigar os diferentes modos como os seres
nova que carrega dentro de si elementos resultantes desse embate. A contemporânea, dos existem; a essência ou o sentido e a estrutura desses seres; a
SÍNTESE anos 20 aos anos 70 do
síntese, então, torna-se uma nova tese, que contrasta com uma nova relação necessária entre a existência e a essência dos seres e
antítese gerando uma nova síntese, em um processo em cadeia infinito. século o modo como aparecem para nossa consciência, manifesta-
passado (XX) ção que se dá nas várias formas em que a consciência se rea-
liza (percepção, imaginação, memória, etc.). Alguns filósofos
Para Hegel, a dialética é a história das contradições do pensamento, que ela repassa ao ir da afirmação consideram que a metafísica ou ontologia contemporânea
à negação. Esta contradição não é apenas do pensamento, mas da realidade, já que ser e pensamento deveria ser chamada de descritiva, pois é uma interpretação
são idênticos. Tudo se desenvolve pela oposição dos contrários: filosofia, arte, ciência e religião são vivos racional da lógica da realidade, descrevendo as estruturas
devido a esta dialética. do mundo e as do nosso pensamento.

A Metafísica

O termo “metafísica” significa literalmente “o que vem


depois da física” e foi chamada por Aristóteles de “a primeira
filosofia”. A metafísica busca estudar as causas primárias e os QUESTÕES PARA REFLETIR
princípios elementares do conhecimento e do ser para além
das ciências tradicionais. Assim, em sua concepção clássica, os  Leia o seguinte trecho de um diálogo: (...)
objetos da metafísica não são coisas acessíveis à investigação
empírica; e sim, são realidades transcendentes que só podem
ser descobertas pelas luzes da razão. Kobir: Porque, embora haja poucos motivos, se é que há algum, para supor que Deus existe, há algu-
mas boas provas de que deve haver formas de vida extraterrestres.
O saber é o estudo do ser ou da realidade. Ocupa-se em
procurar responder perguntas tais como: O que é real? O que
é natural? O que é sobrenatural? O ramo central da metafísica Bob: Que provas? Não descobrimos vida em outros planetas.
é a ontologia, que investiga em quais categorias as coisas estão
no mundo e quais as relações dessas coisas entre si. A metafísica também tenta esclarecer as noções de Kobir: É verdade. Mas sabemos que a vida evoluiu aqui neste planeta, não sabemos? E também sabe-
como as pessoas entendem o mundo, incluindo a existência e a natureza do relacionamento entre objetos mos que há milhões de outros planetas no universo, muitos dos quais são bem semelhantes ao nosso.
e suas propriedades, espaço, tempo, causalidade, e possibilidade. Nesse caso, não parece improvável que a vida deva ter evoluído pelo menos em um desses outros pla-
A ontologia (ou metafísica) sofreu, através da história, várias metamorfoses em sua maneira de ser netas também. Existem, portanto, boas provas para a existência de vida por lá. Só não temos provas
vista . Vejamos:   conclusivas. Por outro lado, parece-me que há poucas provas, se é que há alguma, que sugiram que
Deus existe (Arquivos filosóficos, de Stephen Law).

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Qual das alternativas abaixo está incorreta? Por quê? 1. Complete os silogismos abaixo seguindo o modelo:
a) Premissa 1: Todo homem é um animal.
a) Kobir propõe um argumento de tipo indutivo para a existência de vida em outros planetas no univer- Premissa 2: Sócrates é homem.
so. Conclusão: Logo, Sócrates é um animal.
b) Premissa 1: Nenhum .................................................... é um livro.
b) O argumento de Kobir pode admitir contra-exemplo. Premissa 2:................................... é ...............................................
Conclusão: Logo,....................................................... não é um livro.
c) Kobir refuta a afirmação da existência de Deus. c) Premissa 1: Todo.............................................. é um vertebrado.
Premissa 2: .....................................é ..........................................
d) Kobir admite que uma boa prova não precisa ser dedutivamente válida. Conclusão: Logo,.................................................. é um vertebrado.
d) Premissa 1: Todo carro é.............................................................
e) Kobir não afirma que, se não existem provas para a existência de Deus, então Deus não existe. Premissa 2: ...................................................................é um carro.
Conclusão: Logo, ..............................................................................

2. Ao afirmar que o ser é e o não ser não é, Parmênides inaugurou o princípio de identidade que forma
um dos pilares da Lógica, ou seja, «A é A e não B». Se algo é verdadeiro, o seu contrário é falso. Par-
Atividades tindo desse princípio, tente resolver o seguintes problema:

Era uma vez um crocodilo racional que sempre procurava manter suas promessas e agir de
acordo com o que dizia. Certo dia, o crocodilo capturou um homem e decidiu devorá-lo. Mas,
Você consegue responder os exercícios de lógica abaixo? Tente. quando ele se preparava para devorar o homem, apareceu um menino que lhe pediu para não
fazer isso. O menino explicou: - Ele é meu pai e eu preciso dele para aprender a arar a terra.
a) Você está numa cela onde existem duas portas, cada uma vigiada por um guarda. Existe uma porta O crocodilo, achando que poderia ensinar um pouco de Lógica ao menino, disse: - Você precisa adivi-
que dá para a liberdade, e outra para a morte. Você está livre para escolher a porta que quiser e por nhar se vou ou não soltar seu pai. Se você adivinhar, eu o soltarei. Do contrário, vou devorá-lo.
ela sair. Poderá fazer apenas uma pergunta a um dos dois guardas que vigiam as portas. Um dos guar-
- Eu acho que você vai devorá-lo. - disse o menino.
das sempre fala a verdade, e o outro sempre mente e você não sabe quem é o mentiroso e quem fala
a verdade. Que pergunta você faria? Explique. O que fez o crocodilo racional?

b) Epiménides era um grego da cidade de Minos. Dizem que ele tinha a fama de mentir muito. Certa vez, 3. Considerando-se conhecimentos de lógica e de história da filosofia, analise os itens seguintes.
ele citou esta passagem:

Era uma vez um bode que disse: (i) Todos os médicos são mortais.

- Quando a mentira nunca é desvendada, quem está mentindo sou eu. (ii) Platão, autor da República, é mortal.

Em seguida o leão disse:


(iii) Platão é um médico.
- Se o bode for um mentiroso, o que o dragão diz também é mentira.
É CORRETO afirmar que o item (iii), no contexto acima, é:
Por fim o dragão disse:

- Quem for capaz de desvendar a minha mentira, então, ele estará dizendo a verdade. a) uma proposição falsa.

Qual deles está mentindo? Explique sua resposta. b) um argumento silogístico.

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c) um argumento válido. 5. “A ciência permite que os humanos satisfaçam suas necessidades. Não faz nada para mudá-las. Não
são diferentes hoje do que sempre foram. Há progresso no conhecimento, mas não na ética. Esse é o
veredicto tanto da ciência quanto da história, e o ponto de vista de cada uma das religiões mundiais.
d) uma proposição inválida.

O crescimento do conhecimento é real e – a menos que ocorra uma catástrofe de âmbito mundial
e) um sofisma. – já irreversível. Melhorias no governo e na sociedade não são menos reais, mas são temporárias.
Não apenas podem ser perdidas, como também certamente o serão. A história não é progresso ou
declínio, mas ganhos e perdas recorrentes. O avanço do conhecimento nos engana quando nos induz
a pensar que somos diferentes de outros animais, mas nossa história mostra que isso não ocorre.”

4. Suponha que um jornalista econômico tenha escrito o seguinte comentário: “O ministro afirma que
a economia vai bem, apesar da crise política. Mas ele não é um economista e, além do mais, tem GRAY, John. Cachorros de Palha. 5ª Ed. Rio de Janeiro: Record, 2007. P. 169.
interesse em apresentar uma imagem positiva do país aos investidores. Logo, não é verdade que a
economia vai bem”. O filósofo inglês John Gray defende que é um engano pensar que existe progresso humano, pois acre-
dita que as melhorias no mundo social são apenas temporárias e cíclicas.
Julgue os itens abaixo, relativos ao raciocínio apresentado pelo jornalista.
Apesar disso, o trecho acima demonstra que ele acredita que:
I – É um exemplo de generalização apressada.
a) Ainda que não tenhamos alcançado o progresso humano, a ciência está tornando isso cada vez mais
II – É um argumento inválido. uma realidade possível.

III – É uma falácia, não um argumento. b) As religiões mundiais são capazes de propiciar o progresso ético de toda a humanidade.

IV – É um argumento ad hominem. c) O conhecimento tem crescido e já é pouco provável que possamos perdê-lo, porém, as melhorias
sociais se mostram temporárias.

V – É um exemplo de apelo à autoridade.


d) A ciência avançaria de forma consistente se conseguisse mudar as necessidades humanas, permitin-
do uma nova forma de lidar com a natureza, por exemplo.
Estão CERTOS apenas os itens:

e) O avanço no conhecimento é idêntico ao avanço humano e ético.


a) I e III.

b) II e IV.

6. Faça um resumo dos principais períodos da metafísica, citando as principais características de cada
c) II e V. um.

d) III e IV. 7. O que você entende por dialética?

e) IV e V. 8. Qual a importância da dúvida no processo de conhecimento?

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ca, física pura, astronomia pura, etc.);


 ciências naturais (física, química, biologia, geologia, astronomia, geografia física, paleontologia,
etc.);

As ciências, a cultura e a  ciências humanas ou sociais (psicologia, sociologia, antropologia, geografia humana, economia,
lingüística, psicanálise, arqueologia, história, etc.);

política  ciências aplicadas (todas as ciências que conduzem à invenção de tecnologias para intervir na Na-
tureza, na vida humana e nas sociedades, como por exemplo, direito, engenharia, medicina, arquitetura,
informática, etc.).

A CULTURA
Cultura (do latim colere, que significa cultivar) é um conceito de várias acepções, sendo a mais corren-
AS CIÊNCIAS te a definição genérica formulada por Edward B. Tylor, segundo a qual cultura é “aquele todo complexo
Em sentido amplo, ciência refere-se a qualquer conhecimento ou prática sistemáticos. Em sentido que inclui o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos os outros hábitos e apti-
dões adquiridos pelo homem como membro da sociedade”.
mais restrito, refere-se a um sistema de adquirir conhecimento baseado no método científico, assim como
ao corpo organizado de conhecimento conseguido através de tal pesquisa. A partir do século XVIII, Cultura passa a significar os resultados daquela formação ou educação dos
seres humanos, com resultados expressos em obras, feitos, ações e instituições: as artes, as ciências, a
Historicamente, três têm sido as principais concepções de ciência ou de ideais de cientificidade:
Filosofia, os ofícios, a religião e o Estado. Tornou-se, portanto, sinônimo de civilização, pois os pensadores
MODELO CARACTERÍSTICAS julgavam que os resultados da formação-educação aparecem com maior clareza e nitidez na vida social e
política ou na vida civil.
Afirma que a ciência é um conhecimento racional dedutivo e de- A Filosofia e as manifestações culturais: a filosofia se interessa por todas as manifestações culturais,
monstrativo como a matemática, portanto, capaz de provar a ver- pois, como escreveu o filósofo Montaigne, “nada do que é humano me é estranho”. Os principais campos
RACIONALISTA
dade necessária e universal de seus enunciados e resultados, sem filosóficos relativos às manifestações culturais são: a filosofia das ciências, da religião, das artes, da exis-
deixar qualquer dúvida possível. tência ética e da vida política.
Afirma que a ciência é uma interpretação dos fatos baseada em A Religião: a palavra religião vem do latim: religio, formada pelo prefixo re (outra vez, de novo) e o
observações e experimentos que permitem estabelecer induções verbo ligare (ligar, unir, vincular). Assim, podemos considerar a religião como um vínculo entre o mundo
e que, ao serem completadas, oferecem a definição do objeto, profano e o mundo sagrado, isto é, entre a Natureza (água, fogo, ar, animais, plantas, astros, metais, terra,
EMPIRISTA suas propriedades e suas leis de funcionamento. Assim, a teoria humanos) e as divindades que habitam a Natureza ou um lugar separado da Natureza.
científica resulta das observações e dos experimentos, de modo
que a experiência não tem simplesmente o papel de verificar e As religiões ordenam a realidade segundo dois princípios fundamentais: o bem e o mal. Sob esse
confirmar conceitos, mas sim de produzi-los. aspecto, há três tipos de religiões: as politeístas, em que há inúmeros deuses, alguns bons, outros maus;
as dualistas, nas quais a dualidade do bem e do mal está encarnada e figurada em duas divindades anta-
Considera a ciência uma construção de modelos explicativos para gônicas que lutam eternamente entre si; e as monoteístas, em que existe um deus único que é tanto bom
a realidade e não uma representação da própria realidade. Não quanto mau, ou, como no caso do judaísmo, do cristianismo e do islamismo, a divindade é o bem e o mal
espera apresentar uma verdade absoluta e sim uma verdade apro- provém de seres inferiores à divindade e em luta contra ela.
ximada que pode ser corrigida, modificada e abandonada por ou-
Dentre as finalidades principais da experiência religiosa e da instituição social religiosa, podemos des-
tra mais adequada aos fenômenos. São três as exigências de seu
CONSTRUTIVISTA tacar: proteger os seres humanos contra o medo da natureza; propiciar aos homens um acesso à verdade
ideal de cientificidade: que haja coerência entre os princípios que
orientam a teoria; que os modelos dos objetos sejam construídos do mundo, encontrando explicações para a origem, a forma, a vida e a morte de todos os seres e dos
com base na observação e na experimentação; que os resultados próprios humanos; oferecer esperança de vida após a morte; libertação da pena e da dor da existência
obtidos possam não só alterar os modelos construídos, mas tam- terrena; oferecer consolo aos aflitos; garantir o respeito às normas, às regras e aos valores da moralidade
bém alterar os próprios princípios da teoria, corrigindo-a. estabelecida pela sociedade, em geral, estabelecidos pela própria religião, sob a forma de mandamentos
divinos, isto é, a religião reelabora as relações sociais existentes como regras e normas, sendo expressões
CLASSIFICAÇÃO da vontade dos deuses ou de Deus, garantindo assim, a obrigatoriedade da obediência a elas, sob a pena
de punições sobrenaturais.
Das inúmeras classificações propostas para as áreas da Ciência, as mais conhecidas e utilizadas foram
as do século XIX, baseando-se em três critérios: tipo de objeto estudado, tipo de método empregado, A Arte: do Latim Ars, significando técnica e/ou habilidade, sendo entendida como a atividade humana
tipo de resultado obtido. Desses critérios e da simplificação feita sobre as várias classificações anteriores, ligada a manifestações de ordem estética, feita por artistas a partir de percepção, emoções e ideias, com o
resultou aquela que se costuma usar até hoje: objetivo de estimular essas instâncias de consciência em um ou mais espectadores, dando um significado
único e diferente para cada obra de arte.
 ciências matemáticas ou lógico-matemáticas (aritmética, geometria, álgebra, trigonometria, lógi-

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A arte existe desde que há indícios do ser humano na Terra. E, por ser um fenômeno cultural, regras Vários filósofos discorreram acerca do conceito de liberdade. Vejamos algumas dessas teorias filosó-
absolutas sobre arte não sobrevivem ao tempo. Em cada época, diferentes grupos (ou cada indivíduo) es- ficas:
colhem como devem compreender esse fenômeno. Do ponto de vista da Filosofia, podemos falar em dois
grandes momentos de teorização da arte: no primeiro, inaugurado por Platão e Aristóteles, a Filosofia Segundo ele, é livre aquele que tem em si mesmo o princípio para agir
trata as artes sob a forma da poética; no segundo, a partir do século XVIII, sob a forma da estética. ou não agir, isto é, aquele que é causa interna de sua ação ou da deci-
Aristóteles são de não agir. A liberdade é concebida como o poder pleno e incon-
dicional da vontade para determinar a si mesma ou para ser autodeter-
Arte poética Estética minada.
Refere-se a uma obra aristotélica so- É a tradução da palavra grega aes- A liberdade é a escolha incondicional que o próprio homem faz de seu
bre as artes da fala e da escrita, do canto thesis, que significa conhecimento sen- Sartre
ser e de seu mundo.
e da dança: a poesia e o teatro (tragédia sorial, sensibilidade. Em seu uso inicial,
e comédia). referia-se ao estudo das obras de arte
enquanto criações da sensibilidade, ten- Espinosa, Hegel Liberdade não é escolher e deliberar, mas agir ou fazer alguma coisa em
A palavra poética é a tradução para do como finalidade o belo. Pouco a pou- e Marx conformidade com a natureza do agente que, no caso, é a totalidade.
poiesis, portanto, para fabricação. As- co, substituiu a noção de arte poética e
sim, a arte poética estuda as obras de passou a designar toda investigação filo- O possível não é apenas alguma coisa sentida ou percebida subjetiva-
arte como fabricação de seres e gestos sófica que tenha por objeto as artes ou mente por nós, mas é também e sobretudo alguma coisa inscrita no
artificiais, isto é, produzidos pelos seres uma arte. coração da necessidade, indicando que o curso de uma situação pode
humanos. Possibilidade
ser mudado por nós, em certas direções e sob certas condições, sendo
Do lado do artista e da obra, busca- Objetiva
a liberdade a capacidade para perceber tais possibilidades e o poder
-se a realização da beleza; do lado do es-
para realizar aquelas ações que mudam o curso das coisas, dando-lhe
pectador e receptor, busca-se a reação
outra direção ou outro sentido.
sob a forma do juízo de gosto, do bom
gosto.

A POLÍTICA
A Ética: tem a ver com obrigação moral, responsabilidade e justiça social. A palavra vem do grego ethi- O termo política é derivado do grego antigo politeía, que
kos (ethos significa hábito ou costume). Na acepção empregada por Aristóteles, o termo reflete a natureza indicava todos os procedimentos relativos à pólis, ou cidade-
ou o caráter do indivíduo, ou seja, inclui princípios que todas as pessoas racionais escolheriam para reger -Estado. Por extensão, poderia significar tanto cidade-Estado
o comportamento social, sabendo que estes podem ser aplicados também a si mesmas. Por meio do estu- quanto sociedade, comunidade, coletividade e outras defini-
do da ética, verifica-se que as pessoas são dirigidas pelo que for moralmente certo ou errado. Entretanto, ções referentes à vida urbana.
o assunto é polêmico, pois o que é eticamente correto para uma pessoa pode ser incorreto para outra.
No sentido comum, política, como substantivo ou adjetivo, compreende a arte de guiar ou influenciar
Filosofia Moral: toda cultura e cada sociedade institui uma moral, isto é, um conjunto de regras de o modo de governo pela organização de um partido político, pela influência da opinião pública, pela ali-
conduta consideradas como válidas, valores concernentes ao bem e ao mal, ao permitido e ao proibido, ciação de eleitores. Numa conceituação erudita, significa “a arte de conquistar, manter e exercer o poder,
e à conduta correta, quer de modo absoluto para qualquer tempo ou lugar, quer para grupos ou pessoa o governo”, que é a noção dada por Nicolau Maquiavel, em O Príncipe.
determinada, ou seja, regras estabelecidas e aceitas pelas comunidades humanas durante determinados
períodos de tempo. A política, como forma de atividade humana, está diretamente ligada ao poder. O poder político é o
poder do homem sobre outro homem e, tem sido tradicionalmente definido como “consistente nos meios
Conforme Chauí (2008), ao analisarmos o pensamento filosófico dos antigos, podemos verificar que adequados à obtenção de qualquer vantagem” (Hobbes) ou, como “conjunto dos meios que permitem
nele, a ética afirma três grandes princípios da vida moral: por natureza, os seres humanos aspiram ao bem alcançar os efeitos desejados” (Russel).
e à felicidade, que só podem ser alcançados pela conduta virtuosa; a virtude é uma força interior do cará-
ter, que consiste na consciência do bem e na conduta definida pela vontade guiada pela razão, pois cabe Origem da vida política: entre as explicações sobre a origem da vida política, podemos destacar as três
a esta última o controle sobre instintos e impulsos irracionais descontrolados que existem na natureza principais e mais duradouras:
de todo ser humano; a conduta ética é aquela na qual o agente sabe o que está e o que não está em seu  A razão funda a política: a política é o recurso que a razão encontra para a perda da felicidade da
poder realizar, referindo-se, portanto, ao que é possível e desejável para um ser humano. comunidade originária. Baseia-se nos mitos da Idade do Ouro, período em que a humanidade vivia num
Liberdade: em filosofia, designa de uma maneira negativa, a ausência de submissão, de servidão e de estado puro e imortal. A “era dourada” é conhecida como um período de paz, harmonia, estabilidade
determinação, isto é, ela qualifica a independência do ser humano. De maneira positiva, é a autonomia e e prosperidade. Nas obras literárias, essa era geralmente termina com um acontecimento devastador,
a espontaneidade de um sujeito racional. Isto é, ela qualifica e constitui a condição dos comportamentos identificado como a “queda do homem”. Com variantes, esse mito será usado na Grécia por Platão e, em
humanos voluntários. Roma, por Cícero, para simbolizar a origem da política através das leis e da figura do legislador.
 A convenção funda a política: resulta do desenvolvimento das técnicas e dos costumes, o que leva

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as convenções entre os humanos para a vida em comunidade sob leis. Foi inspirada pela obra do poeta
grego Hesíodo, O trabalho e os dias.
Questões Para Refletir
 A natureza funda a política: a política define a própria essência do homem, e a Cidade é conside-  Veja a charge a seguir:
rada uma instituição natural. Os humanos são, por natureza, diferentes dos animais, porque são dotados
do logos, isto é, da palavra como fala e pensamento. Os humanos, falantes e pensantes, são seres de co-
municação e é essa a causa da vida em comunidade ou da vida política.
Finalidade da vida política: para os gregos, a finalidade da vida política era a justiça na comunidade. A
idéia de justiça se refere, a uma ordem divina e natural, que regula, julga e pune as ações das coisas e dos
seres humanos. A justiça é a lei e a ordem do mundo.
Os regimes políticos: na ciência política, é o nome que se dá ao conjunto de instituições políticas por
meio das quais um estado se organiza de maneira a exercer o seu poder sobre a sociedade. Cabe notar
que esta definição é válida mesmo que o governo seja considerado ilegítimo. São exemplos de regimes
políticos:

Regime político Características

Defende que uma pessoa (em geral, um monarca) deve obter um


poder absoluto, isto é, independente de outro órgão, seja ele ju-
dicial, legislativo, religioso ou eleitoral. Os teóricos relevantes as-
sociados ao absolutismo incluem autores como Maquiavel, Jean
Absolutismo
Bodin, Bossuet e Thomas Hobbes. Esta idéia tem sido algumas ve-
zes confundida com a doutrina do “Direito Divino dos Reis”, que
defende que a autoridade do governante emana diretamente de
Deus, e que não podem ser depostos a não ser por Deus.

Designação dos regimes não-democráticos ou antidemocráticos,


ou seja, governos onde não há participação popular, ou que essa
participação ocorre de maneira muito restrita. Na ditadura, o po-
Ditadura
der está em apenas uma instância. Podem existir regimes ditato-
riais de líder único ou coletivos (como os vários regimes militares
que ocorreram na América Latina durante o século XX).

Caracterizam por eleições livres, liberdade de imprensa, respeito


Democracia aos direitos civis constitucionais, garantias para a oposição e liber-
dade de organização e expressão do pensamento político.

Operam através da suspensão das garantias individuais e das ga-


rantias políticas. No regime político autoritário as normas constitu-
Autoritarismo
cionais são manipuladas ou reeditadas conforme os interesses do
grupo ou partido que detêm o poder

O regime político está concentrado em uma pessoa que representa


a figura de um “fürher” (comandante supremo). Nos regimes po-
líticos totalitários não há nenhuma instituição política que possa
Totalitarismo
representar qualquer vestígio de democracia. Tais regimes ocor-
reram entre os anos 1920/1945 na forma de fascismo na Itália e
Espanha, nazismo na Alemanha e estalinismo na União Soviética.

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Questões para reflexão: 2. (Questão do ENEM) A lei não nasce da natureza, junto das fontes frequentadas pelos primeiros pas-
tores; a lei nasce das batalhas reais, das vitórias, dos massacres, das conquistas que têm sua data e seus
1. O que você entendeu da charge acima? heróis de horror: a lei nasce das cidades incendiadas, das terras devastadas, ela nasce com os famosos
inocentes que agonizam no dia que está amanhecendo.
2. Com base na situação visualizada na charge, pode-se dizer que o povo teve uma atitude cidadã? Por
quê? FOUCAULT, M. Aula de 14 e janeiro de 1976. In: Em defesa da sociedade. São Paulo: Martins Fontes,
1999.
3. Para você, o que significa a frase: “Em terra de cego, quem tem um olho é mentiroso”! Responda de
acordo com as suas palavras. O filósofo Michel Foucault (séc. XX) inova ao pensar a política e a lei em relação ao poder e à organização
social. Com base na reflexão de Foucault, a finalidade das leis na organização das sociedades modernas é
 Leia o texto abaixo:
a) Combater ações violentas na guerra entre as nações.
(...)
Antes do surgimento da democracia, o regime político grego era controlado pelos grandes pro- b) Coagir e servir para refrear a agressividade humana.
prietários de terra. O privilégio e o nascimento eram os critérios para que as instituições políti-
cas fossem organizadas nas mãos de uma minoria. Com o aparecimento do ideal democrático, c) Criar limites entre a guerra e a paz praticadas entre os indivíduos de uma mesma nação.
essa minoria perdeu lugar para a figura de um cidadão capaz de argumentar, fazer escolhas, cri-
ticar concepções e defender perspectivas. d) Estabelecer princípios éticos que regulamentam as ações bélicas entre países inimigos.

Toda essa capacidade exigida desse novo cidadão abriu espaço para que os jovens fossem prepa- e) Organizar as relações de poder na sociedade e entre os estados.
rados para o exercício da cidadania.
(...)
Rainer Gonçalves Sousa
Mestre em História
3. A ética precisa ser compreendida como um empreendimento coletivo a ser constantemente retomado
O que você entende por cidadania? Você a exerce? O ensino nas escolas, hoje em dia, prepara o aluno e rediscutido, porque o produto da relação interpessoal e social. A ética supõe ainda que cada grupo social
para ser um “verdadeiro cidadão”? se organize sentindo-se responsável por todos e que crie condições para um exercício de pensar e agir
autônomos. A relação entre ética e política é uma questão de educação e luta pela soberania dos povos.
É necessária uma ética renovada, que se construa a partir da natureza de valores para organizar também
uma nova prática política.
Atividades CORDI. et al. Para filosofar. São Paulo: Scipione, 2007 (adaptado)
1. (Questão do ENEM) A política, foi inicialmente, a arte das pessoas se ocuparem do que lhes diz respeito.
Posteriormente, passou a ser a arte de compelir as pessoas a decidirem sobre aquilo de que nada enten-
dem. O século XX teve de repensar a ética para enfrentar novos problemas oriundos de diferentes crises
sociais, conflitos ideológicos e contradições da realidade. Sob este enfoque e a partir do texto, a ética
VALÉRY, P. Cadernos. Apud BENEVIDES, M.V.M. A cidadania ativa. São Paulo: Ática, 1996. pode ser compreendida como
Nesta definição o autor entende que a história da política está dividida em dois momentos principais: a) Instrumento de garantia da cidadania, porque através delas os cidadãos passam a pensar e a agir de
um primeiro, marcado pelo autoritarismo excludente, e um segundo caracterizado por uma democracia acordo com valores coletivos.
incompleta. Considerando o texto, qual é o elemento comum a esses dois momentos da história política?
b) Mecanismo de criação dos direitos humanos, porque é da natureza do homem ser ético e virtuoso.
a) A distribuição equilibrada do poder.
c) Meio para resolver os conflitos sociais no cenário da globalização, pois a partir do entendimento do que
b) O impedimento da participação popular. e efetivamente a ética, a política internacional se realiza.
c) O controle das decisões por uma minoria. d) Parâmetro para assegurar o exercício político primando pelos interesses a ação privada dos cidadãos.
d) A valorização das opiniões mais competentes. e) aceitação de valores universais implícitos numa sociedade que busca dimensionar sua vinculação à
outras sociedades.
e) A sistematização dos processos decisórios.

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4. (Questão do ENEM) Na ética contemporânea, o sujeito é não é mais um sujeito substancial, soberano 6. (Questão do ENEM) Observe a tirinha, e encontra a resposta.
e absolutamente livre, nem um sujeito empírico puramente natural. Ele é simultaneamente os dois, na
medida em que é um sujeito histórico-social. Assim, a ética atinge um dimensionamento político, uma
vez que a ação do sujeito não pode mais ser vista e avaliada fora da relação social coletiva. Desse modo,
a ética se entrelaça, necessariamente com a política, entendida esta como a área de avaliação de valores
que atravessas as relações sociais e que interliga os indivíduos entre si.
O texto, ao evocar a dimensão histórica do processo de formação da ética na sociedade contemporâ-
nea, ressalta
a) Os conteúdos éticos decorrentes da ideologias político-partidárias.
b) O valor da ação humana derivada de preceitos metafísicos.
c) A sistematização de valores desassociados da cultura. O humor presente na tirinha decorre principalmente do fato de a personagem Mafalda
d) O sentido coletivo e político das ações humanas individuais.
e) O julgamento das ação ética pelos políticos eleitos politicamente. a) atribuir, no primeiro quadrinho, poder ilimitado ao dedo indicador.
b) considerar seu dedo indicador tão importante quanto o dos patrões.
5. (Questão do ENEM) Observe a tirinha: c) atribuir, no primeiro e no último quadrinhos, um mesmo sentido ao vocábulo “indicador”.
d) usar corretamente a expressão “indicador de desemprego”, mesmo sendo criança.
e) atribuir, no último quadrinho, fama exagerada ao dedo indicador dos patrões.

Democracia: “regime político no qual a soberania é exercida pelo povo, pertence ao conjunto de
cidadãos.”
JAPIASSÚ, H; MARCONDES, D. Dicionário Básico de Filosofia. Rio de Janeiro: Zahar, 2006.

Uma suposta “vacina” contra os despotismo, em um contexto democrático, tem por objetivo
a) Impedir a contratação de familiares para o serviço público.
b) Reduzir a ação das instituições constitucionais.
c) Combater a distribuição equilibrada de poder.
d) Evitar a escolha de governantes autoritários.
e) Restringir a atuação do parlamento.

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cedo, fruto do meio social, e quando chancelados pela conduta humana, considerados eticamente ade-
quados. Somos orientados a aceitá-los, evitando quaisquer questionamentos. E acabamos cerceados da
possibilidade de exercer nossa criatividade, nossa imaginação, nosso livre arbítrio. Como diria Rousseau,

Experiências “o homem nasce livre e por toda parte encontra-se a ferros”. Se tais parâmetros carecem de concordância,
optamos não por alterá-los, mas por desrespeitá-los. Daí advém uma primeira cisão: regras são feitas para
serem quebradas; contratos, para serem rompidos.

Filosóficas Não são os princípios que dão grandeza ao homem. É o homem que dá grandeza aos princípios.
Curiosamente é mais fácil lutar por princípios do que aplicá-los. Mas esta é uma luta que deve ser travada
diariamente com paciência e sabedoria, ajustando a palavra à ação, a ação à palavra.
Todo homem toma os limites de seu próprio campo de visão como os limites do mundo. Todos vive-
mos sob o mesmo céu, mas nem todos vemos o mesmo horizonte. A vida, disse Kierkegaard, só pode ser
compreendida olhando-se para trás. Mas só pode ser vivida, olhando-se para frente.
Neste capítulo, vamos abordar alguns dos assun-
tos/problemas com os quais mais nos deparamos no Caráter: É aquilo que fazemos quando ninguém está olhando. É construído desde a mais tenra idade,
dia a dia, tais como: ética, política, cidadania etc. Assim, simbolizando nossa maior herança – e nosso maior legado.
utilizando tudo o que aprendeu até aqui, esperamos Um homem de caráter firme mostra igual semblante em face do bem
que você seja capaz de perceber que todo ser humano, ou do mal. Preocupa-se mais com seu caráter do que com sua reputação,
de qualquer idade, não pode viver sem filosofar, isto é, pois sabe que seu caráter representa aquilo que ele é, enquanto sua re-
sem buscar respostas para os problemas diversos que putação, apenas aquilo que os outros pensam. E sua firmeza de propó-
surgem no dia-a-dia. Palavras como eu, você, os outros, sitos o faz com que opte pela singularidade de seu próprio julgamento.
realidade, percepção, inteligência, mente, espírito, cor-
O caráter testa-se em pequenas coisas. Num olhar, num gesto, numa
po etc. — seja como for — devem adquirir um significa-
palavra. Quando queremos saber de que lado sopra o vento atiramos ao
do, caso se queira viver. Por isso, todos somos filósofos.
ar não uma pedra, mas uma pluma. Há um provérbio dos índios norte-
-americanos que diz: “Dentro de mim há dois cachorros: um deles é cruel
e mau, o outro é muito bom. Os dois estão sempre brigando. O que ga-
Filosofia da Ação – o Agir: estuda os problemas relacionados com a natureza e racionalidade da ação. nha a briga é aquele que alimento mais frequentemente”.
Mas o que é ação? Assim, as adversidades, além de fortalecerem o caráter, revelam-no.
Uma das definições é que ação é aquilo cuja iniciativa parte de nós, que seja dirigido por nós e que Tornam-no mais tenaz, purificam-no.
esteja sob o nosso controle (quando sujeito ativo), ou seja, realizado após decisão deliberada. Mas será Caráter é destino, disse Heráclito de Éfeso E o destino não é uma questão de sorte, mas uma questão
que sempre agimos racionalmente? Vejamos o texto abaixo: de escolha. Não é uma coisa que se espera, mas que se busca. O futuro de um homem está decididamente
escrito em seu passado.
Comportamento
Ética: Como vimos anteriormente, estuda problemas relacionados com o modo como devemos viver
“Às vezes penso, às vezes sou”.  e com o que devemos valorizar, sendo responsável pela investigação dos princípios que motivam, distor-
(Paul Valéry) cem, disciplinam ou orientam o comportamento humano, refletindo a respeito da essência das normas e
valores presentes em qualquer realidade social.
Observando com cautela o comportamento das pessoas e suas atitudes na vida em sociedade, ob-
serva-se que estas parecem tomadas por um senso de urgência, um imediatismo subserviente, através Mudança: Não existe nada permanente, exceto a mudança. Porém, mudar e mudar para melhor são
dos quais manifestam-se em defesa de interesses de curto prazo, pontuados isoladamente e localmente, coisas diferentes. As pessoas não resistem às mudanças, resistem a ser mudadas. É um mecanismo le-
como se estivessem desconectadas do organismo social. gítimo e natural de defesa. Insistimos em tentar impor mudanças, quando o que precisamos é cultivar
mudanças.
Políticos fazem alianças historicamente incongruentes em troca de alguns minutos adicionais no horá-
rio eleitoral gratuito, independentemente da dissonância ideológica e pragmática futura em caso de êxito O dinheiro, por exemplo, muda as pessoas com a mesma frequência com que muda de mãos. Mas,
no pleito. Amigos cultivados ao decorrer de anos capitulam nos momentos mais críticos, negligenciando na verdade, ele não muda o homem: apenas o desmascara. Somos o que fazemos e o que fazemos para
ajuda e apoio. Familiares desagregam-se ao primeiro sinal de dificuldade econômica. Pais apregoam a mudar o que somos. Nos dias em que fazemos, realmente existimos: nos outros apenas duramos.
ética a seus filhos, enquanto ultrapassam veículos pelo acostamento no final de semana, tendo-os por Segundo William James, a maior descoberta da humanidade é que qualquer pessoa pode mudar de
testemunhas. vida, mudando de atitude. Talvez por isso a famosa Prece da Serenidade seja tão dogmática: mudar as
Há uma inversão recorrente dos valores, da ética, da moral, do caráter. As pessoas deixam de ser o coisas que podem ser mudadas, aceitar as que não podem, e ter a sabedoria para perceber a diferença
que sempre foram e passam a estar o que lhes convém. entre as duas.

Valores: são definidos como normas, princípios, padrões socialmente aceitos. São-nos incutidos desde Livre arbítrio: este tema tem estado entre nós de uma forma ou de outra desde o tempo dos filósofos

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gregos, estando no coração de muitas das partes mais importantes da nossa vida social e pessoal. Se não Discriminação: significa “fazer uma distinção”. Existem
tivermos livre-arbítrio, então é difícil compreender como poderíamos possivelmente ser responsáveis por diversos significados para a palavra, no entanto, o mais co-
aquilo que fazemos: que justificativa poderia haver para nos censurarem quando algo corre mal, elogia- mum tem a ver com a discriminação sociológica: a discrimi-
rem-nos e recompensarem-nos quando nos esforçamos mui- nação social, racial, religiosa, sexual, por idade ou nacionali-
to e/ou as coisas correm bem? Afinal, somos livres para agir? dade, que podem levar à exclusão social.
Uma pessoa pratica livremente uma ação quando tem à Discriminação x Preconceito: deve-se destacar que os
sua disposição mais de uma alternativa de ação. Quando está termos discriminação e preconceito não se confundem,
sob seu controle praticar ou não a ação. Entretanto, há acon- apesar de que a discriminação tenha muitas vezes sua ori-
tecimentos que não dependem de nossas escolhas, como gem no simples preconceito.
há outros que são determinados pelas nossas ações. E essas Ivair Augusto Alves dos Santos afirma que o preconcei-
ações são frutos de nossas escolhas. to não pode ser tomado como sinônimo de discriminação,
A diferença fundamental entre liberdade de decisão (es- pois esta é fruto daquele, ou seja, a discriminação pode ser provocada e motivada por preconceito. Diz
colha), e liberdade de ação é a seguinte: ainda que: Discriminação é um conceito mais amplo e dinâmico do que o preconceito. Ambos têm agentes
diversos: a discriminação pode ser provocada por indivíduos e por instituições e o preconceito, só pelo
indivíduo.
De modo geral, o ponto de partida do preconceito é uma generalização superficial, chamada “este-
LIBERDADE DE DECISÃO → LIBERDADE PARA FAZERMOS ESCOLHAS reótipo”. Exemplos: “todos os alemães são prepotentes”, “todos os norte-americanos são arrogantes”,
LIBERDADE DE AÇÃO → LIBERDADE PARA DECIDIRMOS COMO AGIR “todos os ingleses são frios”. Observar características comuns a grupos são consideradas preconceituosas
quando entrarem para o campo da agressividade ou da discriminação, caso contrário reparar em carac-
terísticas sociais, culturais ou mesmo de ordem física por si só não representam preconceito, elas podem
Podemos ter uma sem ter a outra. Podemos ter completa liberdade para dizer e fazer o que queremos estar denotando apenas costumes, modos de determinados grupos ou mesmo a aparência de povos de
e não termos poder para escolher aquilo que queremos e o modo como vamos agir. Isto seria ter liberda- determinadas regiões. Observa-se então que, pela superficialidade ou pela estereotipia, o preconceito é
de de ação, sem escolha livre. um erro. Entretanto, trata-se de um erro que faz parte do domínio da crença, não do conhecimento, ou
seja ele tem uma base irracional e por isso escapa a qualquer questionamento fundamentado num argu-
Vejamos um exemplo: Imagine que estás preso(a) numa cadeia, o que te privaria da liberdade, do
mento ou raciocínio.
poder de fazer o que gostarias. Mas tirar-te-ia o poder de fazeres escolhas? Não, pois ficarias, pelo menos,
com uma grande parte desse poder, visto que não irias perder a capacidade para escolher aquilo em que
acreditas, para decidir aquilo que farias se pudesses etc. Tudo o que perderias na cadeia é a capacidade
para agir com base nessas decisões, isto é, a liberdade de ação.
Tolerância: caminhamos pela vida cruzando com ladrões, fantasmas, gigantes, velhos e moços, mes-
tres e aprendizes. Mas sempre encontrando nós mesmos. Na medida em que os anos passam, devemos Questões Para Refletir
aprender a oferecer menos resistência aos sacrifícios que a vida impõe e a suportar melhor as dificulda-
 Leia o texto abaixo e responda a questão:
des. Para isso, devemos deixar para trás as coisas que não precisamos carregar, como ressentimentos,
mágoas e decepções, entendendo que os outros não estão contra você, mas a favor de si mesmos.          O sentido da vida constitui um questionamento filosófico acerca do propósito e significado da existên-
O conceito do direito à tolerância traduz-se na liberdade fundamental que todos temos de não ser- cia humana. Segundo P. Tiedemann, ela demarca então a “interpretação do relacionamento entre o ser
mos violados em nossa consciência, nossa intimidade, nossa integridade física, moral, cultural, étnica, lin- humano e seu mundo”.
guística, regional etc., desde que procedamos da mesma forma em relação aos demais. É o direito a que,
Há uma grande quantidade de possíveis respostas para “o sentido da vida”, frequentemente relacio-
desde que façamos o mesmo, não nos impeçam de sermos o que somos, ainda que de nós não gostem. É
nadas a convicções religiosas ou filosóficas. Opiniões sobre o sentido da vida podem por si próprias se dis-
o direito a que as diferenças entre as pessoas e grupos não sejam reprimidas, mesmo que seus procedi-
tinguir de pessoa para pessoa, bem como também podem variar no decorrer da vida de cada ser humano.
mentos sejam avessos a nossos gostos.
No entanto, de uma forma mais ampla, não existe consenso sobre tal.
Somos responsáveis por aquilo que fazemos, o que não fazemos e o que impedimos de fazer. Nós não
aprendemos nada com nossa experiência. Nós só aprendemos refletindo sobre nossa experiência. Todos E para você, qual o sentido da vida?
temos nossas fraquezas e necessidades, impostas ou auto-impostas. Por tudo isso, é preciso tolerância.
 Faça uma pesquisa a respeito da visão das diversas religiões (hinduísmo, cristianismo, budismo,
É preciso também flexibilidade. Mas é preciso fundamentalmente policiar-se. Num mundo dinâmico, é
judaísmo, islamismo) com relação ao sentido da vida. Você concorda com alguma dessas posições? Por
plausível rever valores, adequar comportamentos, ajustar atitudes. Mantendo-se a integridade.
quê?
Texto baseado em artigo de Tom Coelho, publicado em www.portalbrasil.net.
 O cantor e compositor Lulu Santos fez grande sucesso com a bela música “Como uma Onda”. Leia
a letra dessa música e produza um texto sobre sua opinião sobre o que ela diz.

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Atividades
Nada do que foi será
de novo do jeito que já foi um dia
tudo passa REFLITA E RESPONDA AS QUESTÕES ABAIXO:
tudo sempre passará
1. O que são ações?
A vida vem em ondas
como um mar 2. Como explicar os comportamentos humanos irracionais?
num indo e vindo infinito
3. Que relação existe entre ação, liberdade e responsabilidade?
Tudo que se vê não é
igual ao que a gente 4. O que são valores? Os valores são objetivos ou subjetivos?
viu há um segundo 5. Haverá padrões morais universais ou todas as normas morais serão relativas?
tudo muda o tempo todo
no mundo 6. Na sua visão, o aborto e a eutanásia são justificáveis? Por quê?
Não adianta fugir 7. Os animais têm direitos?
nem mentir
pra si mesmo agora 8. Qual a relação entre a liberdade de cada um e a igualdade para todos?
há tanta vida lá fora
aqui dentro sempre 9. Veja as situações abaixo e responda as questões:
como uma onda no mar 1ª situação: Há um segmento na sociedade que afirma que o fumante seria detentor de um livre-ar-
como uma onda no mar bítrio quando inicia no tabagismo, ou ainda, quando pretende deixar o fumo. Segundo esse pensamento,
como uma onda no mar o ato de fumar é uma ação absolutamente voluntária, uma escolha do próprio fumante, de forma que os
Nada do que foi será efeitos danosos seriam de inteira responsabilidade do fumante, com isso os fornecedores de cigarro ficam
de novo do jeito excluídos de qualquer responsabilidade.
que já foi um dia - O consumidor, decidindo-se por iniciar o hábito do tabagismo, realmente age livremente, sem qual-
tudo passa quer interferência externa? Ao fumante, bastaria a sua livre manifestação de vontade para se livrar do
tudo sempre passará vício do fumo? Qual sua opinião sobre essa situação?
A vida vem em ondas 2ª situação: A mãe de uma criança contrai AIDS durante o tempo de gestação e o filho, em decorrên-
como um mar cia, contrai a mesma doença.
num indo e vindo infinito
- Como você analisa essa situação? Você acha que essa ocorrência é efeito das ações e das escolhas
Tudo que se vê não é dessa mãe?
igual ao que a gente
viu há um segundo 3ª situação: A vida de Elza Soares tinha tudo para não dá certo. Nascida em 23 de Junho de 1937 no
tudo muda o tempo todo Rio de Janeiro, filha de uma lavadeira e de um operário, foi criada na favela de Água Santa, subúrbio de
no mundo Engenho de Dentro. Cantava, desde criança, com a voz rouca e o ritmo sincopado dos sambistas de morro.
Aos 12 anos, já era mãe e aos 18, viúva. Foi lavadeira e operária numa fábrica de sabão. Apresentando
Não adianta fugir uma aparência bem mirradinha , Elza Soares, tinha uns 33 quilos, talvez mais. Uns 13 anos, quem sabe.
nem mentir pra si mesmo agora Era casada. A menina tinha um filho. E o filho - o primeiro de tantos - estava doente. O último recurso foi
há tanta vida lá fora o programa de calouros de Ary Barroso. Às escondidas, pegou uma saia da mãe, uma camisa larga e uma
aqui dentro sempre porção de alfinetes. Foi enrolando as peças até julgar estar com um traje adequado. Ao entrar em cena,
Como uma onda no mar em meio às risadas, o apresentador teria perguntado: “De que planeta você veio, minha filha?” A resposta
como uma onda no mar veio seca: “Do planeta fome, seu Ary”. Era só o início de uma trajetória vertiginosa, cheia de altos e bai-
como uma onda no mar xos, confirmando a sina da cantora que em um dia tornava-se madrinha da Copa do Mundo do Chile e, no
como uma onda no mar outro, tinha a casa metralhada e era até impedida de cantar. A idade ela não revela (há quem conte 73).
como uma onda no mar... Apesar das dores causadas por um tombo no palco há sete anos, está em forma, com o corpo de deixar
boquiaberta qualquer cocotinha. Porém, mais do que isso, o que surpreende mesmo em Elza é a força
diante de tantas adversidades. “Sou a própria Fênix, sempre renascendo das cinzas”.

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“Fui criança pobre que tinha de catar comida junto com urubus e hoje sou uma grande estrela do - Eu lhe disse, ela virou uma simples galinha!
mundo, mesmo sendo negra e mulher. Não é brincadeira, nem vida barata”, conta vaidosa Elza Soares, - Não, tornou a insistir o naturalista. - Ela é uma águia. E uma águia sempre será uma águia. Vamos
lembrando que, além de avó e pai de Minas, anda cercada por mineiros, entre eles o marido e empresário, experimentar novamente amanhã.
Bruno Lucide. E completa: Não planejei nada e, de repente, estava no pedestal. É o poder da mulher bra-
sileira. Ajoelho-me no palco agradecendo por ter mesa farta e nenhum marginal na família. Há algo que é No dia seguinte, o naturalista subiu com a águia no teto da casa.
sagrado para mim: sempre tem espaço para mais um no meu bonde. Cada porta que abro me abre nova Sussurrou-lhe:
janela. Elza abriu caminho para Vander Lee e muitos outros cantores.
- Águia, já que você é uma águia, abra suas asas e voe!
- Como você avalia as escolhas feitas por Elza Soares diante de uma vida de tantas dificuldades? Mas, quando a águia viu lá embaixo as galinhas ciscando o chão, pulou e foi parar junto delas.
- A vida dessa fantástica cantora foi um exemplo de superação. Que ações delas a fizeram vencedora? O camponês sorriu e voltou a carga:
- Eu havia lhe dito, ela virou galinha!
- Não, respondeu firmemente o naturalista. - Ela é águia e possui sempre um coração de águia. Va-
10. Qual a relação entre tolerância e preconceito? mos experimentar ainda uma última vez. Amanhã a farei voar.
11. Você já sofreu preconceito ou foi preconceituoso com relação a alguém ou situação? Especifique. No dia seguinte, o naturalista e o camponês levantaram bem cedo. Pegaram a  águia, levaram-na
para o alto de uma montanha. O sol estava nascendo e 
12. O que você entendeu por livre arbítrio? dourava os picos das montanhas.
13. Leia a fábula abaixo e responda à questão no final: O naturalista ergueu a águia para o alto e ordenou-lhe:
- Águia, já que você é uma águia, já que você pertence
ao céu e não à terra, abra suas asas e voe!
Esta é uma história que vem de um pequeno país da África Ocidental, Gana, narrada por um educador A águia olhou ao redor. Tremia, como se experimen-
popular, James Aggrey, nos inícios deste século, quando se davam os embates pela descolonização. tasse nova vida. Mas não voou. Então, o naturalista se-
gurou-a firmemente, bem na direção do sol, de sorte que
seus olhos pudessem se encher de claridade e ganhar as
A fábula da águia e da galinha dimensões do vasto horizonte.
Foi quando ela abriu suas potentes asas.
“Era uma vez um camponês que foi à floresta vizinha apanhar um pássaro, a fim de mantê-lo cativo Ergueu-se, soberana, sobre si mesma. E começou a
em casa. Conseguiu pegar um filhote de águia. voar, a voar para o alto e voar cada vez mais para o alto.
Colocou-o no galinheiro junto às galinhas. Cresceu como uma galinha. Voou. E nunca mais retornou.”
Depois de cinco anos, esse homem recebeu em sua casa a visita de um naturalista. Enquanto passea-
vam pelo jardim, disse o naturalista:
- Esse pássaro aí não é uma galinha. É uma águia.
“Existem pessoas que nos fazem pensar como galinhas. E ainda até pensamos
- De fato, disse o homem.- É uma águia. Mas eu a criei como galinha. Ela não é mais águia. É uma que somos efetivamente galinhas. Porém é preciso ser águia. Abrir as asas e voar. Voar como
galinha como as outras. as águias. E jamais se contentar com os grãos que jogam aos pés para ciscar.”
- Não, retrucou o naturalista.- Ela é e será sempre uma águia. Este coração a fará um dia voar às al-
turas. Extraído de artigo publicado pela Folha de São Paulo, por Leonardo Boff, teólogo, escritor e professor
de ética da UERJ.
- Não, insistiu o camponês. Ela virou galinha e jamais voará como águia.
Então decidiram fazer uma prova. O naturalista tomou a águia, ergueu-a bem alto e, desafiando-a,
disse: O que você achou da fábula? Você se considera uma águia ou uma galinha? Justifique sua resposta.
- Já que você de fato é uma águia, já que você pertence ao céu e não à terra, então abra suas asas e
voe!
A águia ficou sentada sobre o braço estendido do naturalista. Olhava distraidamente ao redor. Viu as
galinhas lá embaixo, ciscando grãos. E pulou para junto delas.
O camponês comentou:

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14. Conforme a charge abaixo e de acordo com os conteúdos já estudados responda:

Por fim, deixamos uma citação para sua reflexão:

Humano, demasiado humano...


Ninguém pode construir em teu lugar
as pontes que precisarás passar, para
atravessar o rio da vida.
Ninguém, exceto tu, só tu.
Existem, por certo, atalhos sem
números, e pontes, e semideuses que
se oferecerão para levar-te além do
rio; mas isso te custaria a tua própria
pessoa; tu te hipotecarias e te perderias.
Existe no mundo um único caminho por
onde só tu podes passar.

a) Para você é certo dizer que existe igualdade entre os homens? Onde leva?

b) Em que sentido os homens podem ser considerados iguais ou não? Dê exemplos: Não perguntes, segue-o!

c) Analise o seguinte fragmento de texto: “O modo de produção escravista é decorrência do aumento Friedrich Nietzsche
da produção além do necessário à subsistência e exige o recurso a novas forças de trabalho, conseguidas
geralmente entre prisioneiros de guerra, transformados em escravos. Com isso surge propriamente a
propriedade privada dos meios de produção, e a primeira foram de exploração do homem pelo homem
com a conseqüente contradição entre senhores e escravos. Dá-se então a separação entre trabalho inte-
lectual e trabalho manual.”
Responda: Essa forma “desigual” de meios de trabalho pode ser vista como um mal necessário? Como
essa situação é vista pela sociedade atual, de acordo com o seu ponto de vista?

15. Escreva um texto, relatando o que você achou do estudo da filosofia e qual a importância da mes-
ma para a sua vida, citando o que aprendeu e o que achou mais importante.

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