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ANTROPOLOGIA CULTURAL DE MOÇAMBIQUE

PROVOCAÇÕES

Será que a Antropologia é ciência?


Por que a Antropologia enquadra-se nas ciências sociais?
Quais as palavras associadas a Antropologia?

UNID.I Fundamento das Ciências Sociais: introdução geral

1.1 Constituição e desenvolvimento das Ciências Sociais

O conceito de Ciências Sociais ou como refere Nunes (1987), Ciências do Homem,


só existe numa concepção fragmentária, englobando um conjunto de ciências
dispares e desconexas. Neste contexto abrangente, Silva e Pinto (1986)
apresentam como algumas destas ciências, a Sociologia, a Economia, a Psicologia
Social e a Antropologia, às quais, Nunes (1987) adiciona a Geografia Humana, a
Demografia, a Ciência Política, a Linguística e a Etnologia Social.

Silva e Pinto (1986) afirmam que o objectivo comum às ciências sociais, é a procura
do conhecimento da realidade. Não aprofundando as questões filosóficas inerentes
a esta delimitação, estes mesmos autores, definem essa procura, pela construção
de quadros categoriais, operadores lógicos de classificação e ordenação, mediante
processos complexos influenciados ainda pelas nossas necessidades, vivências e
interesses, construindo desta forma, instrumentos que nos proporcionem informação
sobre essa realidade e formas de a tornar inteligível, sem nunca se confundirem
com ela. Gurvitch (1963; cit. por Nunes, 1987) realça o facto de que a realidade
estudada por estas ciências, é uma só, sendo esta a condição humana considerada
sobre uma certa perspectiva e tornada objecto de um método de investigação
específico.

Numa perspectiva social, as acções humanas desdobram-se em práticas materiais


e simbólicas, relações com a natureza e relações com outros homens, no âmbito de
grupos com várias dimensões, dos grupos elementares como as famílias até às
organizações vastas a que chamamos sociedades. Para Nunes (1987: 29), “a
constituição das Ciências Sociais esteve directamente relacionada com a
possibilidade histórica de afirmação da autonomia do social; isto é, com os
desenvolvimentos sócio-económicos, políticos e teóricos, que nos séculos XVII,
XVIII e XIX, impuseram a ideia da existência de uma ordem social laica e colectiva,
não directamente determinada pela vontade divina, irredutível à acção social e
submetida a leis”.
Numa delimitação histórica, não é possível definir datas e períodos que sustentem a
formação das Ciências Sociais, dado que cada uma das disciplinas que constituem
este universo que designamos de Ciências Sociais, possui a sua própria história, no
decurso da qual acumulou um património específico de paradigmas, teorias,
técnicas e métodos, obras de referência e manuais de ensino, circuitos de difusão
de resultados, esquemas de formação, competências, costumes, bem como,
inércias profissionais (Silva & Pinto, 1986).

Sabemos que as Ciências Sociais se constituem como um universo autónomo, isto


é, distinto de outras formas discursivas (senso comum, religião, política, filosofia,
literatura, etc.), apenas no final do século XIX.

Porém o estudo da cultura, como esfera temática diferenciada, encontra-se ainda


nesse momento pouco desenvolvido. Duas outras disciplinas se dedicam ainda à
problemática cultural: a História, com os estudos das civilizações, e a Antropologia,
voltada para as sociedades indígenas. Civilização tem no entanto um outro
significado; já não mais se contrapõe à Kultur, enquanto expressão da Arte e do
Espírito, mas encerra um conjunto de valores modais constitutivos da identidade dos
povos. Fernand Braudel observa que o termo, conjugado no singular na idade das
Luzes, com a entrada no século XIX se pluraliza(cf. Braudel, 1991).

A Antropologia se dedica à problemática cultural com os trabalhos de Tylor,


Malinowsky, Radcliffe-Brown. O emprego do termo cultura se associa assim ao
estudo dos povos “primitivos” em contraposição ao de civilização, aplicado pelos
historiadores às sociedades ditas “evoluídas”. Com o culturalismo norte-americano,
um passo a mais é dado, pois alguns autores irão propor a existência de uma Teoria
da Cultura, matriz abrangente capaz de abarcar as expressões de todas as
sociedades humanas. Cultura significaria nesse caso uma totalidade que abrangeria
dos artefactos materiais aos universos simbólicos. Entretanto, mal agrada essa
ambição teórica, nunca concretizada e um tanto ilusória, os antropólogos
confinaram seus estudos às sociedades indígenas, expandindo paulatinamente
seus interesses ao mundo camponês e às manifestações culturais contrastantes
com a modernidade “ocidental”(crenças mágico religiosas, comunidades, etc.).

1.2 Pluralidade, diversidade e interdisciplinaridade nas Ciências Sociais

Interdisciplinaridade é uma expressão dotada de diversas acepções e utilizada para


designar diferentes situações de inter-relação entre duas ou mais disciplinas. Como
observa Japiassu (1976), o termo interdisciplinaridade não possui ainda um sentido
epistemológico único e estável. Trata-se de um neologismo cuja significação nem
sempre é compreendida da mesma forma por diferentes pessoas.

A busca de uma definição para a interdisciplinaridade tem sido empreendida por


diversos estudiosos e, como era de se supor, em função da óptica e da posição
teórica adoptada, diferentes são os entendimentos sobre a questão. Existem, por
exemplo, teóricos que buscam definir interdisciplinaridade a partir da diferenciação
de aspectos como multi, pluri e transdisciplinaridade. Outros, que estão
preocupados com a forma como a interdisciplinaridade se desenvolve, procurando
fazer retrospectivas históricas da evolução do conhecimento através dos séculos.

As ciências sociais estudam os aspectos sociais do mundo humano, ou seja, a via


social de indivíduos e grupos humanos. Isso inclui Antropologia Estudos da
comunicação, Economia, Geografia humana, História, Linguística, Ciência Políticas,
Psicologia e Sociologia.

1.3 Ciências Sociais ruptura com o senso comum

Descartes (século XVII) formulou um paradigma que colocava como princípio de


verdade as ideias “claras e distintas”, separando o sujeito pensante (Ego cogitans)
da coisa extensa (res extensa), isto é, filosofia e ciência. A este modelo chamou
Morin “paradigma de simplificação”, do qual descende o “modelo de racionalidade”.
O paradigma de simplificação é a base para o modelo de racionalidade científica (S.
Santos) que admite uma variedade interna mas que se distingue do sentido comum
e das humanidades.

Ratzel critica as formulações estabelecidas até então (1882), pela tendência que
elas apresentavam para separar o conjunto dos elementos constituintes do
“complexo terrestre”, indissociáveis na sua opinião. O autor defendeu fronteiras
flexíveis, permeáveis entre as cooperações disciplinares, e a adopção de um critério
de investigação hologéico, isto é, “abarcador de toda a terra” (investigação
hologéica).

Em “Morfologia Social”, Durkheim sugere que a Geografia, pelo seu carácter


restritivo, seria incapaz de dar conta das sínteses pretendidas por Ratzel e propõe
que ela assuma a sua condição, restrita, preocupando-se com os elementos “menos
essenciais” do “substrato social” (solo, cursos de água, montanhas…).

A obra de Febvre marcou o fim de um período de intensos debates, onde puderam


ser confrontadas diferentes perspectivas para as ciências sociais. Entre elas
prevaleceram o analitísmo e a desconexão disciplinar; as formulações que
apostavam no sentido inverso ao da fragmentação do conhecimento (como as de
Ratzel) ficaram votadas ao ostracismo. A obra de Febvre converteu-se num marco
da nova situação (desconexão disciplinar).

Prigogine fala sobre a necessidade de abandonar os extremos das representações


fundadas exclusivamente ou no determinismo das leis naturais ou nos eventos
arbitrários e imprevisíveis. Esta descrição mediatriz, situada entre um mundo
determinista e um mundo submetido ao puro azar, implica uma tomada de posição
por parte do conhecimento científico e seus campos de especialidade. Capturado do
sity: http://pt.shvoong.com/social-sciences/2044811-evolu%C3%A7%C3%A3o-das-
ci%C3%AAncias-sociais/#ixzz24kujTKTk

As ciências sociais germinaram na Europa do século dezanove, mas é no século


XX, em decorrência das obras de Karl Marx, Emile Durkheim e Max Weber que as
ciências sociais se desenvolvem.

Assim, com Durkheim, Marcel Mauss, vai-se dar o tom da renovação da


antropologia na França. Em um contexto diferente, o inglês, BronislawMalinowski
também contribuirá para a renovação da antropologia através do método
funcionalista que irá marcar uma ruptura com o viés colonialista dos estudos
antropológicos até então desenvolvidos na Inglaterra.

UNID. II Antropologia Cultural no domínio das Ciências Sociais

Na actualidade não se pode falar de uma disciplina ou ciência independente ou


isolada do interesse das outras, numa dada área. Ao convocarmos a Antropologia
Cultural no domínio das Ciências Sociais pretendemos fazer a interdisciplinaridade.
Dado que vivemos em oikos (espaço) onde precisamos de colaboração recíproca
com os vizinhos ou a comunidade buscando a cooperação e ajuda mútua. Isto é o
que acontece também com as ciências.

A Antropologia para desenvolver o seu objecto de estudo, precisa de um apoio de


outras ciências. Como nenhuma ciência é capaz de prover sozinha eis a razão de
relacionar-se com a Sociologia, a História, a Economia, a Geografia, a
Psicanálise e entre outras.

2.1 Definição, objecto e campos de abordagem

ANTROPOLOGIA é a ciência que estuda o homem suas actividades e o


comportamento.

O conceito de Antropologia etimologicamente provém de dois conceitos


gregos: anthropos que significa homem; e lógia, estudo, ciência. A palavra
Antropologia foi utilizada pela primeira vez, em 1795, no sentido de “História
Natural do Homem.”

No princípio do século XX o termo servia ainda para designar a ciência a que


actualmente se chama Antropologia Física. Mais recentemente, ele tende a
significar o conhecimento das propriedades gerais da vida social e das diversas
sociedades humanas, cobrindo assim um grande número de ciências que
estudam o homem tais como: a Antropologia Física, a Antropologia Social, a
Antropologia cultural, a Antropologia Politica, a Antropologia Psicanalítica, a
Antropologia Económica, a Etnologia, a Etnografia, certos aspectos da
Linguística, a Tecnologia Comparada, a Arqueologia Pré-Histórica, a Psicologia
Social, etc.

Antropologia leva em conta todos os aspectos da existência humana: biológica


e cultural, passada e presente combinando esses diversos materiais numa
abordagem integrada no problema da existência humana.

O termo Antropologia indica causas diferentes em conformidade com os países


em causa. Na Europa continental a Antropologia indica estudo físico do
homem, o que corresponde à Antropologia Física; e para Antropologia
Cultural usa se o termo Etnologia, pelo que há tendência de considerá-los
sinónimos. Na Inglaterra, usa se o termo Antropologia Social como sinonimo
da Antropologia Cultural. Nos EUA e na maioria dos países usa se o termo
Antropologia Cultural que se divide em: etnologia e etnografia.

A Etnologia se ocupa ao estudo comparado da cultura e da investigação dos


problemas teóricos que surgem ou que nascem da análise dos costumes
humanos. Etnografia ocupa se da descrição de culturas concretas.

Em suma etnologia é o estudo teórico comparado das culturas enquanto


etnografia faz a descrição de culturas concreta.

Objecto de estudo – Antropologia tem um duplo objecto de estudo:

a) Objecto material que equivale ao estudo do homem;


b) Objecto formal que equivale ao estudo do homem e o seu
comportamento como um todo.

Objectivo da Antropologia

Segundo HoebeleFrost (1981:3,4) afirma que a“antropologia fixa como seu


objectivo o estudo da humanidade como um todo…” e nenhuma outra ciência
pesquisa sistematicamente todas as manifestações do ser humano e da
actividade humana de maneira tão unificada.
É um objectivo extremamente amplo, visando o homem como expressão
global – biopsicocultural –, isto é, o homem como ser biológico pensante,
produtor de culturas e participante da sociedade, tentando chegar, assim, a
compreensão da existência humana.

Antropologia Cultural abrange o estudo do homem como ser cultural, isto é,


fazedor da cultura, o seu objectivo básico consiste no problema da relação
entre modos de comportamento instintivo (hereditário) e adquirido (por
aprendizagem) bem como o das bases biológicas gerais que servem de
estrutura as capacidades culturais do homem (Heberer, citado por Marconi
1998:26).
2.2 Métodos e técnicas de investigação em Antropologia: etnografia, trabalho
de campo, observação participante e a interpretação.

A Antropologia é uma ciência social e humana, bem caracterizada, tendo seus


campos de acção bem definidos e seus próprios métodos e técnicas de
trabalho. Este permite ao antropólogo observar e classificar os fenómenos,
analisar e interpretar os dados obtidos pela pesquisa, capacitando – o a
estabelecer correlações e generalizações.

Considerando os dois campos de investigação da antropologia (o biológico e o


cultural), faz se uma distinção entre método e técnica pertinentes a cada um
deles.

Antropologia Física ou biológica e a Cultural recorrem a determinados


procedimentos a fim de atender seus objectivos de maneira mais fácil e
segura. Para isso, valem se de vários métodos e técnicas que muitas das vezes
são utilizados concomitantemente. Para tal temos como métodos e técnicas:
Métodoetnográfico, trabalho de campo, observação participante e a
interpretação,histórico, estatístico, comparativo ou etnológico,
genealógico,funcionalista. Como técnicas de pesquisa da antropologia temos:
observação,entrevista, formulário.
UNID. III História do pensamento antropológico

3.1 A curiosidade intelectual e o interesse pelo exótico

Trataremos aqui a Antropologia como facto histórico, como actividade humana


localizada no tempo e no espaço e com um mínimo de sistematização. Os
estudos da antropologia nunca serviram de qualquer sistematização ou
monopólio da nação ou povo e o seu desenvolvimento nunca foi regular pelo
que qualquer divisão de antropologia é arbitrária.

4.1 Segundo Pennimana história da Antropologia tem a seguinte divisão:

1º período de formação (1835);

2º período de convergência (1835 – 1869);

3º período de construção ( 1969 – 1900);

4º período de crítica (1900…).

4.2 Para Paul Marcier existe outro período que chama de pré-história.

1º período pré história (…1835);

2º período de Ambições (1835 – 1900);

3º período de descoberta ( 1900 – 1930);

4º período de conquista (1930…).

A divisão segundo Penniman

1º período de formação (1835);

Este período começa com a própria cultura da humanidade. Antropologia não


tem data exacta de nascimento, pois a ciência não nasce de um dia para outro.
Trata se de um processo lento que implica acumulação e reformulação de
conhecimentos. Podemos chamar a este período de pré-história da
antropologia. Abrange toda a reflexão do homem sobre si e sobre o universo.
Em todos os povos sempre esteve presente a reflexão sobre a origem, a
realidade e o destino do homem e do seu grupo social. O mesmo Marcier
chama de antropologia espontânea. Neste sentido é que se pode afirmar que
as manifestações culturais do homem através dos tempos apresentam se
como contribuições efectivas a constituição da antropologia: gravuras,
pinturas, objectos, etc.

A tradição greco-romana através dos seus eminentes sábios como: Heródoto,


Platão, Aristóteles, Hipócrates e tantos outros, podem ser apontados como
expoentes que muito contribuíram para os estudos antropológicos modernos.
Romanos: Lucrécio, Tácito, Marcus Aurélio, César; Na Idade Media: St
Agostinho, Avicena, Averois, Bacon, Montaigne; IbnKhaldun.

A modernidade é caracterizada por um crescente antropocentrismo, foi a


época do iluminismo, o culto e a razão; ficaram de lado os estudos
cosmológicos da antiguidade.

2º período de convergência (1835 – 1869);

Considera se este período de mais de um só ou de construção. Segundo


Marcier denomina este período de ambições. Registou se grandes viagens de
exploração que vieram a multiplicar os contactos entre os povos
desenvolvendo desta forma as trocas marítimas entre todos os continentes e
surgimento de relatórios de viagens que constituíram documentos de base
para o desenvolvimento da antropologia. Estuda se o outro, o diferente valor
do património cultural das várias zonas geográficas visitas e dos povos
encontrados. É importante salientar a obra de Charles Secondat, barão de
Montesquieu (1689 a 1755), cartas Persas, que ajudam a compreender o
desenvolvimento de conceitos básicos da antropologia cultural. O método
experimental e a indução foram cada vez mais cultivados. Começou a
especialização do conhecimento e para a Antropologia os factos mais
significativos foram: o desenvolvimento da Antropologia Cultural, a
sistematização da Antropologia Física, surgimento da pré-história e da
arqueologia.

3º período de elaboração e de construção ( 1969 – 1900);

É o período de construção à volta de uma unidade, o conceito de evolução.


Este dá à antropologia o seu primeiro impulso e certa unidade. As várias
formulações sobre a sociedade e a cultura convergem para três objectivos
comuns: origens, idade e mudança. Surgem várias revistas de associações
científicas: a revista americana CurrentAnthropolgy; a britânica Man e a
francesa L̒Home. Alguns dos destacados deste período são Charles
Darwin(1809–1882), Edward BrunetTylor(1832–1917), Herbet Spencer(1820–
1903), Augusto Comte(1798–1846) e outros.
O que distingue este período do anterior é o facto de ter aparecido a obra
clássica sobre a evolução biológica, a origem das espécies de Charles Darwin.
Também é nesta época que o evolucionismo alcança o seu apogeu como teoria
e nesse contexto onde nasce a moderna antropologia. O seu fundador é
Edward BrunetTylor. No seu livro Cultura Primitiva de 1871, procurou utilizar o
método comparativo, mostrando a evolução pela qual passou a religião
através dos tempos. Uma outra obra significativa é A Sociedade Primitiva, de
Lewis Morgan, publicada em 1877, que este estudioso procurou estabelecer o
caminho seguido pela organização familiar através dos vários estádios de
desenvolvimento. Tylor é o mais importante de todos estudiosos do período,
foi ele que definiu o termo cultura. A principal crítica que se faz ao
evolucionismo foi quase ausência de pesquisa do campo que enfraqueceu o
vigor metodológico e científico.

4º período de crítica e de novas abordagens (1900…).

Este é o período vai de 1900 até nossos dias e é o mais fecundo da


antropologia em que foram criticados os cânones (preceitos ou regras) iniciais
da disciplina. Novas abordagens foram propostas a Antropologia. É um período
em que se deu uma reformulação da Antropologia Cultural. Houve avanço nas
ciências, sobretudo nos meios de comunicação para a divulgação das ideias. A
realidade sócio cultural toma novos rumos e é analisada por diversos olhos.
Antropologia liberta − se do servilismo colonial e passa a ser uma disciplina
obrigatória nas universidades.

Hoje ocorre um facto notável e promissor: os povos, antes apenas objecto de


estudo, começam eles próprios a cultivar os estudos da antropologia. Dando −
se uma série de novas circunstâncias que enriquecem a antropologia:
orientação psicológica, o estudo da linguística e pesquisa de campo. Temos
como grandes autores: James Frazer (1854−1941), de tendência evolucionista
desenvolveu o comparatismo entre as sociedades; AlfredRadcliffe−Brown
(1881−1955), o primeiro antropólogo profissional que praticou o trabalho de
campo; BronislawMalinowski(1884−1942), fundador da antropologia inglesa
moderna e mais metódico na pesquisa de campo; Edward
Evans−Pritchard(1902−1973), sociólogo que estudou as dinâmicas sociais,
conflitos e mudanças culturais.
Na França salientamos, entre outros, o sociólogo Émile Durkeim (1858−1917),
institucionalizou a Sociologia na França, analisou as sociedades modernas;
Marcel Mauss (1872−1952), sociólogo que formou a primeira geração de
antropólogos franceses.

Na América do Norte, Franz Boa (1958−1942), físico e geógrafo que fundou a


tradição antropológica na americana no fim do século XIX e fundador dos
primeiros antropólogos americanos profissionais. A geração posterior, formada
por AbrahanKardiner (1891−1981); MargarethMead (1901−1979) e
RafalfLinton que seguiu a corrente culturalista.

A partir dos anos 50 do século XX sub a influência de Edward


Evans−Pritchard(1902−1973), Claude Lévis−Strauss (1908−2009), um dos
maiores intelectuais do tempo e autores contemporâneos, bem como Mary
Douglas a Antropologia segue uma trajectória complexa manifestando um
interesse pela História e a mudança, conflitos das dinâmicas sociais.

Nos anos 70−80 dá − se também um interesse pelas representações e crenças,


pela ideologia e as relações de produção, pela organização social e o
parentesco, pelos mitos e os sistemas de pensamento e pelo simbolismo.
Abrem se novos campo para antropologia: estudos de antropologia urbana, a
globalização e outros.

Os estudos antropológicos feitos durante este período colonial em


Moçambique podem ser encontrados nos livros de: Jorge Dias Os Macondes
de Moçambique, de Henri Junod Usos e Costumes dos Bantu, de Frei João dos
SantosEthiópia Oriental ou nas monografias etnográficas dos Administradores
coloniais.
3.2 Do projecto colonial à crise da Antropologia

Década de 70 : Colonialismo como problema para o conhecimento e a prática


antropológicos Livros que abordaram a questão no início da década de 70:
ReinventingAnthropology (1972), editado por Hyme,Anthropologyandthe colonial
encounter (1973), editado por TalalAsad.

ReinventingAnthropology (1972) Contexto Alteração das condições sociais e


políticas nas quais a Antropologia se inseria. Com a descolonização política, houve
uma mudança fundamental nas condições nas quais o trabalho de campo poderia
ser concebido e realizado. Surgimento de questões morais e políticas a respeito do
empreendimento antropológico pondo em questão o relacionamento entre
objectividade dos dados etnográficos e interesse político. Com a publicação dos
diários de Malinowski, em 1967, a relação entre etnógrafo e informante passou a
chamar a atenção.

ReinventingAnthropology (1972) Questão central: a Antropologia conseguiria


reinventar-se de modo a reflectir as demandas por responsabilidade política,
preocupações éticas e compromisso crítico social? Duas correntes inspiraram o
livro: 1) De tradição boasiana, que via o pensamento antropológico como uma
crítica reflexiva da civilização (Edward Said, Ruth Benedict e Paul Radin); 2)
Inspirado no Marxismo, preocupado em destacar a situação das sociedades
camponesas no capitalismo imperialista.

Anthropologyandthe colonial encounter (1973) As preocupações do livro


Anthropologyandthe colonial encounter foram distintas do ReinventingAnthropology,
apesar de compartilharem, americanos e britânicos, a preocupação com as
mudanças ocorridas na Antropologia. A emergência de novas nações na África
(Sudão, 1956; Ghana, 1957; Nigéria, 1960) fez com que se tornasse inevitável a
abordagem histórica do sistema colonial e cada vez mais difícil não criticar o
funcionalismo a-histórico e o empirismo característicos da Antropologia britânica.

Década de 80: passou-se da preocupação com o papel da disciplina no projecto


colonial e as políticas de seus praticantes para a preocupação com as formas de
conhecimento sobre mundos não-europeus. Preocupação mais epistemológica que
política (colonialismo como problema de representação). Interesse na textualidade
da descrição etnográfica, no sentido de que esta é um artefacto de linguagem.

Fontes da mudança: 1 – Declínio do anti-imperialismo e anti-colonialismo como


ponto de partida de preocupações político-ideológicas (o fim da guerra do Vietnam e
o período de R. Reagan marcaram o declínio do interesse dos intelectuais do
Primeiro Mundo pelas mudanças no Terceiro Mundo; declínio dos experimentos
com transformação social radical em muitos países independentes da África, sul da
Ásia, Caribe e América Latina). 2 – Transformações intelectuais no entendimento e
na prática das ciências humanas: do determinismo (Leslie White, Julian Steward) e
funcionalismo (Radcliffe-Brown) para o construtivismo social e cultural,
principalmente a “volta ao significado”.

A preocupação com os modos de representação nas análises sociais e culturais


criou o contexto para o surgimento dos Estudos Coloniais, que contribuíram para a
institucionalização da renovação do olhar dos intelectuais sobre o colonialismo.

3.3 A universalização da Antropologia


A antropologia, como ciência da modernidade, coloca seu aparato teóricoconstruído
no passado, com possibilidade de, no presente, explicar e compreenderos intensos
movimentos provocados pela globalização: de um lado, osprocessos
homogeneizantes da ordem social mundial e, de outro, contrariandotal tendência, a
reivindicação das singularidades, apontando para a constituiçãoda humanidade
como una e diversa.

Contudo, essa tradição é hoje alvo de controvérsias,na medida em que os factos


decorrentes da intensa transformação darealidade parecem não estar contidos em
seus princípios explicativos. Nessecampo de tensão, defende-se que ora a
trajectória da antropologia tem sido a deavaliar as diferenças sociais, étnicas e
outras com a finalidade de proporcionaralternativas de intervenção sobre a realidade
social de modo a não negar as diferenças;ora não seria a tradição antropológica
suficiente para dar conta docontexto político das diferenças e, como tal, estaria
superada em seus propósitos.

Decorrentes do questionamento que afecta as ciências humanas de modo


geralainda na segunda metade do século XX, e em particular a antropologia,
emergemoutras perspectivas teóricas, dentre as quais se destacam os chamados
estudosculturais, cuja definição se dá no interior das correntes ditas pós-modernas.

A antropologia seguiu os desafios de cadamomento histórico, preocupada em


explicar a diversidade social humana apartir das singularidades e particularidades
que revestem diferentes grupos esociedades. Entre um século e outro, privilegiou o
campo das diferenças ecaminhou em sentido do reconhecimento das diversidades
socioculturais deseu tempo. Atrelada aos universais humanos, no final do século XX
coloca, para o mundo, o desafio de ter que admitir as diferenças e de estabelecer
um modo de diálogo, mas que ainda não encontrou sua plena realização.

UNID.IV As correntes teóricas da Antropologia

4.1 Evolucionismo

Quando se fala de evolucionismo pensa-se automaticamente, em Darwin, na


selecção natural das espécies, na sobrevivência dos mais fortes e na origem do
homem. A ideia de evolução foi a ideia dominante do séc. XIX, no clima intelectual
de todo um mundo científico. Lembrar que Darwin não foi o único a pensar em
termos da evolução. Na antiguidade clássica os pensadores preocuparam-se com o
problema de origem do homem e do universo, do movimento e da transformação.
No livro de Génese existe teorias de origem bem como o pecado original. Este
exemplo do Génese não constitui teoria de progresso mas temos as que comunicam
um progresso circular segundo Melo (2004:201) citando Eva M. Lakatos,
“…sustenta que a história da humanidade passa por ciclos: as culturas atravessam
uma série de estágios sucessivos, voltando ao ciclo original e recomeçando o
ciclo…”

Bem mais optimista são as concepções de um progresso linear e vertical. Para tal
existem autores ligados a estas concepções: o poeta grego Hesíodo e o filósofo
romano Lucrécio.

Na idade Média voltou-se ao pessimismo como do Génese por um lado, com St.
Agostinho e por outro lado com o filósofo social do séc. XIV, o árabe IbnKaldun com
a sua teoria da evolução social em espiral.

O iluminismo serviu de base do crescimento posterior de todas as teorias


evolucionistas por um progresso de associações.

Na Antropologia o nome mais importante foi de Charles Darwin, que em 1859


publicava seu mais famoso livro, A Origem das Espécies. Nesta obra ele expos o
conjunto de suas ideias a respeito da evolução de todas as espécies. Tratou da
selecção natural da sobrevivência dos mais fortes e fixou os conceitos de evolução,
de sobrevivência e de função. Também não menos importante foi o Monet de
Lamarck, biólogo eminente, tido como o fundador da teoria da evolução e anterior a
Darwin.

Uma das ideias mais conhecidas de Lamarck é a que se refere à afirmação de que
“a função cria o órgão”. Esta ideia foi assim encaminhada põe ele: “a necessidade
cria o órgão necessário e o uso fortifica e aumenta consideravelmente; a falta de
uso, ao contrário, conduz à atrofia, ao desaparecimento do órgão inútil”

James Frazer, teve o seu nome ligado ao Evolucionismo por ter conseguido
popularizar a Antropologia Social e também defendia que todas as sociedades
passavam por três estádios: magia, religião e ciência.

Magia – depende daquilo que a natureza dá;

Religião - confia o que Deus dará, confia naquele que criou a natureza;

Ciência – nega a Deus e transforma a natureza em uma máquina, é a confiança


excessiva da razão humana.

O evolucionismo cultural: representantes

O período de construção da Antropologia foi dominado, inteiramente, pela


orientação evolucionista. No entanto, o evolucionismo era uma forma optimista de
encarar a realidade humana.

Representantesdo evolucionismo cultural: Edward B. Tylor (1832-1917, Saint-


Simon (1760-1825), Augusto Comte (1798-1870), Herbert Spencer (1820-1903),
Henry Maine (1622-1888) e James Frazer (1854-1941).
TPC. Desenvolver ascaracterísticas e mencione os representantesdo
evolucionismo cultural.

4.2 Difusionismo e Culturalismo

O termo “Difusionismo” (do inglês Diffusionism) foi empregado pela primeira vez em
1930 para designar a “corrente antropológica que procurava explicar o
desenvolvimento cultural através do processo de difusão de elementos culturais de
uma cultura para a outra, enfatizando a relativa raridade de novas invenções e a
importância dos constantes empréstimos culturais na história da humanidade”.

Segundo Melo (2004:222), o termo Difusionismo é também conhecido como


Historicismo e engloba várias tendências teóricas da Antropologia cultural. A palavra
“Historicismo” denota uma teoria segundo a qual a essência dos fenómenos da
sociedade e da cultura consiste no seu carácter dinâmico e de desenvolvimento,
pondo o destaque sobre a realidade humana e sobre o trabalho humano. Para
adeptos dessa corrente de pensamento, as semelhanças e diferenças culturais
resultam mais da presença ou ausência dos processos de difusão do que das
inovações isolados de diferentes culturas. Estes tentam explicar as semelhanças
e diferenças entre culturas particulares enfatizando o fenómeno de difusão e
dos conceitos entre os povos.

Markoni(1998:251), defende que o Difusionismo foi um movimento de reacção ao


Evolucionismo do séc. XIX. Mesmo afectando a orientação técnica dos
procedimentos metodológicos, esta não rejeitou completamente os conteúdos
básicos formulados pelo Evolucionismo.

Para Martinez (2000:87), o Difusionismo está dentro do período crítico, isto é, entre
1900- 1930. Mas foi a década de 20 que obteve sua maior aceitação e
popularidade.

O Difusionismo preocupou-se em tornar os métodos da Antropologia Cultural mais


rigorosos, mais científicos; pelo que desenvolveu-se a pesquisa de campo com
intensidade considerável.

Foram desenvolvidas várias técnicas de pesquisa, principalmente a observação


participante. Indirectamente, a pesquisa de campo levou os antropólogos a aprender
vários idiomas desconhecidos. Este facto veio favorecer o incremento de outro ramo
da Antropologia Cultural: a Linguística.

Torna-se necessário mudar o foco de estudo: passa a dar-se relevo ao estudo das
culturas particulares e não à cultura universal. Isto permitiu grande segurança nas
informações e um maior conhecimento de fenómenos, até agora, relegados a um
segundo plano.

O difusionismo divide-se em: escolaInglesa, escola Alemã e escola


americana.Cada uma destas escolas possui representantes.

Culturalismoé uma escola americana de Antropologia que tende a considerar


essencial a especificidade da "cultura", encarada como hábito do grupo social, por
oposição à natureza.

No período entre as duas guerras mundiais desenvolveu-se, fundamentalmente nos


Estados Unidos, uma corrente culturalista em antropologia, cuja premissa básica era
a de que uma dada cultura impõe um determinado modo de pensamento aos
homens nela inseridos. A cultura condiciona o comportamento psicológico do
indivíduo, sua maneira de pensar, a forma como percebe seu entorno e como extrai,
acumula e organiza a informação daí proveniente. Nesse sentido, foram
significativos os trabalhos de Ruth Benedict, realizados na década de 1930, sobre
os índios pueblo do sudoeste dos Estados Unidos -- os quais, apesar de imersos
num meio físico semelhante ao das etnias circunvizinhas, raciocinavam de forma
muito diferente diante de problemas idênticos.

MargaretMead analisou principalmente a importância da educação na formação da


personalidade adulta. Ralph Linton e Abram Kardiner, por sua vez, expuseram o
conceito de personalidade de base, que consistiria num mínimo psicológico comum
a todos os membros de uma sociedade.

Culturalismo tenta uma descrição da sociedade sob a perspectiva combinada da


antropologia e da Psicanálise. Culturalismo constitui uma dos ramos da sociologia
que dominou a sociologia americana de1930 até 1950. Emprestando o conceito de
cultura dos antropólogos, ele procura dar conta da integração social.

TPC. Desenvolver as escolas do difusionismo: o que defende e principais


representantes.

4.3 Funcionalismo

O Funcionalismo surge com o trabalho de campo de BronislawMalinowski nas Ilhas


Trobriand, a partir dos anos de 1914. Desde então foi crescendo a sua influência
nos meios intelectuais até chegar ao seu auge nos anos de 1930-1940.

O que marca o Funcionalismo é a nova orientação ao estudo da Antropologia. Até


então, tanto o Evolucionismo como o Difusionismos preocuparam-se com as
origens, com os problemas das transformações sócio-culturais. Malinowski e depois,
Radcliffe-Brown, preocuparam-se em estudar e explicar o funcionamento da cultura
num momento dado. Ao funcionalismo não interessava explicar o presente pelo
passado, mas explicar o passado pelo presente.

Esta corrente de pensamento antropológico teve uma tradição quase secular. Suas
raízes estão ligadas aos nomes de Spencer, Durkheim, e de modo geral à tradição
francesa.

TPC. Desenvolver o Funcionalismo MalinowskeRadcliffe-Brown(características


e factores).

4.4 Estruturalismo

O Estruturalismo na visão de Melo (2004:262), é como uma espécie de refinamento


do Funcionalismo. Importa compreender que esta escola não se opõe ao
Funcionalismo. Mas possui entre elas pontos comuns que são os seguintes:

a)ambas se constituem em modelos de abordagem que permitem explicar o aspecto


sincrónico da cultura; tanto no Funcionalismo como no Estruturalismo de Lévi-
Strauss defendem a tese da possibilidade de explicação da cultura e da sociedade
sem uma incursão necessária da história;

b)ambas tomam como ponto fundamental o pressuposto da sociedade e cultura


formar uma totalidade e nesta ou através desta se poder e se dever procurar a
explicação das partes componentes; o que quer dizer estas escolas fazem uso de
uma análise sistemática;

c)ambas têm em comum uma marca da tradição francesa, o que significa trazem
características comuns: um positivismo acentuado, uma explicação sociológica e um
estudo da cultura não material do que a material.

Para Lévi-Strauss a “estrutura” é o modelo constituído para apreender a realidade


empírica. Daí que ele procede à distinção entre relações sociais e estrutura. Lévi-
Strauss inspirou-se no estruturalismo de Ferdinad de Saussure.

O termo estruturalismo tem origem no Cours de linguistiquegénérale de Ferdinad de


Saussure (1916) que se propunha a abordar qualquer língua como um sistema no
qual cada um dos elementos só pode ser definido pelas relações de equivalência ou
de oposição que mantém com os demais elementos. Esse conjunto de relações
forma a estrutura.

Estruturalismo é uma abordagem que veio a se tornar um dos métodos mais


extensamente utilizados para analisara língua, a cultura, a Filosofia da
Matemática e a sociedade na segunda metade do séc. XX.

O cours de Ferdinand de Saussure influenciou muitos linguistas no período entre a


1ª e 2ª grandes guerras. Nos EUA, por exemplo, Leonard Bloomfield desenvolveu
sua própria versão de linguística estrutural, assim como fez Louis Hjelmslev na
Escandinávia. Na França, Antoine Meillet e Émile Benveniste continuariam o
programa de Saussure. No entanto, ainda mais importante, membros da escola de
Linguística de Praga como Roman Jakobson e NikolaiTrubetzkoy conduziram
pesquisas muito influentes.

4.5 Outras correntes: Sociológica francesa e marxista

4.6 Paradigmas emergentes na Antropologia (Pós-modernismo e


Interpertativismo)

4.7 As correntes antropológicas e sua operacionalização em Moçambique

UNID. V Práticas etnográficas no Moçambique colonial e pós-colonial

4. Conceito Antropológico de Cultura.

4.1 O Conceito Antropológico de Cultura (Pluralidade e diversidade de


definições e abordagens);

Definição da cultura
Vários são conceitos da cultura, apesar de a cifra ter ultrapassado 160
definições, ainda não chegaram a um consenso sobre o significado exacto do
termo. Para alguns, Cultura é comportamento aprendido; para outros, não é
comportamento, mas abstracção do comportamento; e para um terceiro
grupo, a cultura consiste em ideias. Há os que consideram como cultura
apenas os objectos imateriais, enquanto que outros, ao contrário, o que se
refere ao material. Também há estudiosos que entendem por cultura tanto as
coisas materiais quanto as não materiais.

Em 1869, Matthew Arnold definiu a cultura como o seguimento da perfeição,


que implica uma condição interna da mente e do espírito (doçura e luz) através
do bom e do melhor que se pensou e se diz na história.
Edward BrunetTylor (1871) foi o primeiro a formular o conceito de cultura.
Para ele a “cultura é aquele todo complexo que inclui o conhecimento, as
crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos outros hábitos e aptidões
adquiridos pelo homem como membro da sociedade.”

O conceito de Tylor engloba todas as coisas e acontecimentos relativos ao


homem, predominou no campo da antropologia durante varias décadas.

Para Ralph LintonBeals (1936), a cultura de qualquer sociedade “consiste na


soma total de ideias, reacções emocionais condicionadas a padrões de
comportamento habitual que seus membros adquiriram por meio de instrução
ou intuição de que todos, em maior ou menor grau, participam ”. Este autor
atribui dois sentidos ao termo cultura: um em geral, significando “a herança
social, total da humanidade,”outro, especifico, referindo se a uma
determinada variante da herança social.

Franz Boa (1938) define cultura como “a totalidade das reacções e actividades
mentais e físicas que caracterizam o comportamento dos indivíduos que
compõem um grupo social.”

Malinowisk (1934) em uma teoria científica da cultura, conceitua cultura como


“o todo global consistente de implementos e bens de consumo, de castas
constitucionais para os vários grupos sociais, de ideias e ofícios humanos, de
crença e costumes.”

Herkovits (1948) cultura é “a parte do ambiente feito pelo homem.”

Não havendo um consenso exacto do significado da cultura, no entanto avança


se com dois significados ou significações:

a) Significação humanista é aquela que é restrita e tradicional, popular e é


limitada. A mais usada é pejorativa, cria diferenciações. Significa
(aquisição dos conhecimentos bem sistematizados numa certa área);
b) Significado antropológico.

4.2 Sobre a origem e o desenvolvimento da cultura.


O termo cultura (colere, cultivar ou instruir; cultus, cultivo, instrução) não se
restringe ao campo da antropologia. Várias áreas do saber humano:
agronomia, biologia, artes, literatura, história, etc.

Muitas vezes, a palavra cultura é empregada para indicar o desenvolvimento


do indivíduo por meio da educação, da instrução. Neste caso, uma pessoa
“culta”seria aquela que adquiriu domínio no campo intelectual ou artístico.
Seria “inculta”a que não obteve instrução.

Os antropólogos não empregam os termos culto ou inculto, de uso popular, e


nem fazem juízo de valores sobre esta ou aquela cultura, pois não consideram
uma superior à outra.

Todas as sociedades – rurais ou urbanas, simples ou complexas – possuem


cultura. Não há indivíduo humano desprovido de cultura excepto o recém-
nascido e homo ferus; um porque ainda não sofreu o processo de
endoculturação e o outro, porque foi privado do convívio humano.

Para os antropólogos, a cultura tem significado amplo: engloba os modos


comuns aprendidos da vida, transmitidos pelos indivíduos e grupos em
sociedade.

4.2 Factores da cultura


O indivíduoe os povos são, pois os factores fundamentais da cultura. Outros
factores estão na base da construção da cultura e pelo menos dois deles têm
um peso igualmente básico e fundamental. São eles o ambiente e o tempo.
Para evidenciar a essencialidade do conceito que com eles se pretende
exprimir, indicarmos os vocábulos correspondentes na língua grega: oikose
chronos.

5.3 Característica da cultura


5.3.1 Simbolismo

A cultura é simbólica. O símbolo é uma chave para a compreensão da cultura.


Ao estudar uma cultura é necessário referir se à função e simbolismo de
determinados objectos, acções e instituições. O homem vive entre dois
espaços, dois mundos que se completam: o mundo do referente, isto é, o
espaço exterior; e o mundo simbólico ou espaço imaginário. Toda a cultura
pode ser considerada como um conjunto de sistemas simbólicos e constitui de
facto, um conjunto de comunicações. Podemos considerar a pessoa humana
como um animal simbólico. Neste sentido não só a linguagem verbal, mas
também os ritos, as instituições culturais, as relações, os costumes, etc., não
são mais do que formas simbólicas. O mundo simbólico não é compreensível
sem uma iniciação, pois cada povo veste os absolutos com uma roupagem
simbólica própria.

Símbolo é um fenómeno físico que tem o significado conferido por aqueles que
utilizam e que só eles conhecem. Os sinais usados pelos símbolos (objectos,
gestos, linguagem) degradam se com o tempo: podem perder a sua
compreensão com as mudanças que vão aparecendo ou até pela rotina.

5.3.2 Cultura social

A cultura não é de um indivíduo, ela é dum grupo e a sociabilidade é


característica da cultura.

5.3.3 Cultura dinâmica e estável

A cultura é estável por causa da tradição (conservação dos valores). A cultura é


dinâmica, a cultura deve ser dinâmica e os valores essenciais da cultura devem
ser enquadrados no momento.

5.3.4 Cultura selectiva

Esta selecciona os valores aceites na sociedade (valores religiosos, integrados e


permanentes) que resultarão nova síntese cultural, novo padrão de vida
diferente e novo comportamento.

5.3.5 Cultura é universal e regional


A cultura é abrangente e limitada. Aqui temos grupos sociais ou sociedades
diferentes. Com mesmas aspirações e mesmas necessidades fundamentais.
Havendo universalidade cultural, as culturas respondem de maneira lógica,
satisfatória e harmoniosa. Os modelos de resposta são diferentes.

5.3.6 Cultura é determinante e determinada

O homem determina o modo de ser e a cultura determina o ser humano ou a


cultura faz o homem e este faz a cultura. A herança cultural é suficientemente
forte para conformação dos hábitos e costumes e de modo de pensar e agir do
homem. A cultura é também determinada pelo homem. Ele é o agente activo
da própria cultura.

A cultura tem as suas subculturas. Ex. a cultura chuabo tem subcultura:


política, social e económica. A subcultura em certas sociedades pode estar
ligada a certos estratos sociais, castas ou classes sociais. Portanto, as
subculturas são partes constitutivas da cultura global.

5.5 Aspectos cognitivos da cultura


São três aspectos cognitivos da cultura: normativo, aspecto credo e a moral.

Normativo – é significado de como agir, procura da maneira justa de agir.

Aspecto credo – o significado do universo, as crenças do povo, da natureza, da


teologia, a sua explicação ou respostas aos porquês profundo.

A moral – são significados de valor o que é desejável, bom, belo e o contrário:


os valores, a ética.

Exercício 2

O que são normas, valores e sanções?


6. Dinamismo cultural e os processos de:Enculturação, Aculturação,
Inculturação e Desculturação.
a) Enculturação

O processo de aprendizagem e educação em uma cultura desde a infância, ou


processo que estrutura o condicionamento da conduta, dando estabilidade a
cultura.

Cada indivíduo adquire as crenças, o comportamento, os modos de vida da


sociedade a que pertence. Ninguém aprende, todavia, toda a cultura, mas está
condicionada a certos aspectos particulares da transmissão de seu grupo.

As sociedades não permitem que seus membros hajam de forma diferenciada.


Todos os actos, comportamentos e atitudes de seus membros são controlados
por ela.

b)Aculturação

A Aculturação é um fenómeno da transformação cultural que resulta do


encontro de duas ou mais culturas. O primeiro significado deste termo, no fim
do século passado, referia se somente ao aspecto passivo de assimilação de
elementos culturais de uma cultura dominante. Mas depressa se verificou que
o fenómeno nunca opera num só sentido. A época colonial, durante a qual
muitíssimos povos sofreram o domínio das grandes potencias e em que as suas
culturas ficaram sob impacto de formas de vida industrialmente apetrechadas,
pos em evidencia os aspectos essenciais deste fenómeno.

Hoje, o termo aculturação aplica se geralmente ao fenómeno, que pode ser


considerado normal, do encontro e do intercambio que se estabelece entre as
culturas. Nenhuma das culturas humanas é autónoma, ou seja, fechada em si
própria, tal como nenhum homem é uma ilha.

c)Inculturação

A Inculturaçãorefere seaos processos de aprendizagem através dos quais um


individuo ou mesmo um grupo assimila as concepções e as regras de vida
próprias do grupo ou das comunidades a que pertence, e de que
consequentemente, se torna participante activo e passivo. Esse fenómeno
torna se particularmente visível no envolvimento da criança e do rapaz até à
adolescência e à idade adulta. Mas o fenómeno não termina com o atingir da
idade adulta e da plena autonomia individual. Isso verifica se, de forma mais
ou menos patente, durante todas as idades e no decurso da vida individual.

d)Desculturação

Constitui o saldo passivo da aculturação. Se através das trocas culturais surgem


novos desenvolvimentos que alteram as concepções e os modos de vida dos
povos, da mesma forma advêm perdas de outros elementos já recebidos pela
tradição. Não existe necessariamente um balanço exacto e de correspondência
perfeita entre aquilo que se adquire e aquilo que se perde. O fenómeno,
precisamente por ser fundamental e nem sempre perceptível nas suas origens,
nem sempre perece lógico e apresenta se como que capricho. Na realidade,
quando se consegue chegar as suas raízes, descobre se que este, que nos
aspectos aculturativos quer nos deculturativos, responde a escolhas precisas.

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