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Interdisciplinaridades no Design

Contemporâneo1
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Mônica Moura

1. INTRODUÇÃO

Este artigo discorre sobre as relações entre métodos e processos no


campo do design enfocando algumas discussões e reflexões a respeito da
contemporaneidade e do design contemporâneo. O que se dá a partir do
exame das características e possibilidades para a constituição de processos
interdisciplinares compostos pela inter-relação da metodologia de ensino,
metodologia científica e metodologia projetual. Nesse sentido, reflete sobre a
prática pedagógica interdisciplinar, o ensino por projeto, as dificuldades e
desafios, o estabelecimento das relações dialógicas, o confronto com as
políticas educacionais e com a prática docente. Apresenta as fases de
desenvolvimento de uma proposta e de um processo interdisciplinar na busca
pela valorização da construção do conhecimento e do pensamento projetual
sintonizado com as questões contemporâneas.

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2.1 Métodos e Processos no Campo do Design

1
Capítulo Publicado no Livro Metodologias do Design: Inter-Relações. Moura, Mônica In: Menezes, M e
Paschoarelli, L.C. (orgs.) Metodologias do Design: Inter-Relações. SP: Estação das Letras e Cores, 2011, v.1, pp.
274-290.
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Doutora em Comunicação e Semiótica. Professora Assistente Doutora em Design, Professora e Orientadora no
Programa de Pós Graduação em DESIGN da UNESP - Universidade Paulista “Júlio de Mesquita Filho” | FAAC –
Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação | Campus de Bauru e Professora Colaboradora do PPG Artes do
IA UNESP | Campus de São Paulo.

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INTER-RELAÇÕES

Metodologias, métodos e processos são inerentes ao design e


deflagraram a necessidade, cada vez maior, da pesquisa. Atualmente, as
palavras metodologia e pesquisa têm sido muito utilizadas e empregadas em
diferentes conotações e para diferentes objetivos. Não se relacionam apenas à
pesquisa científica, mas também dizem respeito a todo caminho de
procedimentos adotados para se construir algo, seja a avaliação ou o
desenvolvimento de um produto ou sistema, seja para o desenvolvimento de
um software ou de um produto para mídia digital. Coelho (1999) aponta que
“é perfeitamente plausível que se eleja em determinado trabalho que as
etapas de um processo passem a coincidir com as etapas do método”.
A partir da década de 1960 vários autores se debruçaram sobre a
questão da metodologia e, certamente, tomaram como referência a filosofia e
a teoria do conhecimento científico para o desenvolvimento de uma
metodologia do design. Ao nomearem o processo ou método desenvolvido
como metodologia do design esclareciam que tratava-se de outra forma de
metodologia e ao mesmo tempo referiam-se à base formadora que era a
metodologia da pesquisa científica. Proveniente da mesma base fundadora,
porém diferente. Bürdek (2006) aponta que a metodologia científica abrange
muito mais do que a metodologia do design. Outro exemplo nessa linha é a
adoção na escola de ULM (HfG ULM) de várias disciplinas de caráter filosófico,
científico e das ciências humanas (Teoria da Ciência, Semiótica, Sociologia,
Antropologia, Ciência Política, Psicologia, Cibernética) que promoveram a
associação das questões pertinentes à pesquisa com a configuração de
produtos para a indústria.

“Com um interesse especial nas relações entre ciência e


desenho, a Escola Superior da Forma abrigou o
desenvolvimento de pesquisas que envolviam disciplinas
científicas, visando a adoção de seus respectivos métodos no

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processo de criação de projeto. Entre essas disciplinas


destacavam-se a cibernética, a heurística, a psicofísica, a
ergonomia e a antropologia. Os debates permitiram
sistematizar, por meio de agrupamentos, diversos métodos
passíveis de serem aplicados no momento de desenhar os
produtos. Havia um enfoque matemático predominante cuja
intenção era acometer metodologicamente o verdadeiro
processo de configuração dos produtos”. (Fontoura: 2009,
online)

Maldonado e Bonsiepe (1964) afirmam que em ULM não havia uma


metodologia de validação geral do projeto de produtos, mas sim “um punhado
de métodos”, sendo alguns com base na matemática.
Entre os designers, engenheiros e autores em geral que a partir da
década de 1960 desenvolveram estudos de métodos visando uma metodologia
do design, destacam-se, Morris Assimow (1962), Bruce Archer (1963/4), Tomás
Maldonado e Gui Bonsiepe (1964), John R.M. Ager e Carl V. Hays (1964),
Christopher Jones (1969), Bernhard Bürdek (1975), Siegfried Maser (1976),
Bernard Löbach (1976), Bruno Munari (1981), Nigel Cross (1984, 1989), Tony
Buzan (1991/2002), Norberto Chaves (1996), Mike Baxter (2000), Joan Costa
(1980), Jorge Frascara (1988), entre outros.
A questão do método ou processo de design, a relação metodologia
científica e metodologia do design ou metodologia do projeto ou, ainda,
metodologia projetual, bem como o papel da pesquisa no campo do design são
temas recorrentes e que continuam sendo estudados, investigados e
propostos. Ou seja, o tema apresenta grande importância, especialmente, se
visto a luz da contemporaneidade.
Se o design estabelece intensas relações com as questões culturais,
sócio-políticas e econômicas nos cabem verificar os aspectos da

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contemporaneidade para refletir sobre as possibilidades de novas formas de


métodos e metodologias projetuais.

2.2 Contemporaneidade

Desde a pós-modernidade continuamos a viver uma intensa


mudança de paradigmas, intensificadas pela aceleração do tempo e
aproximação dos espaços físicos, geopolíticos e culturais. Tempos esses
considerados hipermodernos. O emprego do sufixo encontra-se muito
presente em nossas vidas em várias hipérboles reais: hipermercados,
hipertextos, hiper vias de informação, estruturas hipermidiáticas.
Lipovetsky e Sebastien (2004) nos falam da hipermodernidade como
o tempo dos exageros que povoam nosso cotidiano e potencializam as
possibilidades de informação, comunicação e expressão, mas ao mesmo
tempo, fragilizam o ser humano. Aprofundando essa questão da
hipermodernidade, Lipovestky e Serroy (2011) trazem recentemente suas
considerações a respeito da contemporaneidade ampliando a questão e,
referem-se, a ‘cultura-mundo’, indicando que:

“Com a cultura-mundo, dissemina-se em todo o globo a


cultura da tecnociência, do mercado, do indivíduo, das
mídias, do consumo; e, com ela, uma infinidade de novos
problemas que põem em jogo questões não só globais
(ecologia, imigração, crise econômica, miséria do Terceiro
Mundo, terrorismo...), mas também existenciais
(identidade, crenças, crise dos sentidos, distúrbios de
personalidade...). A cultura globalitária não é apenas um
fato; é, ao mesmo tempo, um questionamento tão intenso

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quanto inquieto de si mesma.” (Lipovetsky e Serroy: 2010,


p.9)

Mediante essa inquietude da ‘cultura-mundo’ e perante a situação


contemporânea que é plural e de uma rapidez insólita verificamos que a
abordagem do contemporâneo não é fechada e nem conclusiva, uma vez que
viver ao mesmo tempo em que expressões e produções são construídas e
reveladas, exige a incorporação da atitude da flexibilidade, tanto no estudo e
na pesquisa quanto na observação e análise.
Para Barthes (1974) o contemporâneo é intempestivo, pois nos
surpreende com resposta e dinâmicas inusitadas. Enquanto Agamben (2009)
afirma que é verdadeiramente contemporâneo aquele que percebe e
apreende seu tempo pelo deslocamento e anacronismo. Ou seja, para
compreender o contemporâneo temos de nos deslocar no tempo histórico a
fim de entender o que ocorre no hoje e, também, para poder observar o que
não está de acordo com a época, de forma a olhar e refletir mais
cuidadosamente sobre o momento atual.

“E por isso ser contemporâneo é, antes de tudo, uma


questão de coragem: porque significa ser capaz de não
apenas manter fixo o olhar no escuro da época, mas
também de perceber nesse escuro uma luz que, dirigida
para nós, distancia-se infinitamente de nós”. (Agamben:
2009, p. 65)

Esse olhar atento e cuidadoso para o contemporâneo sob a ótica do


design implica em conhecer a história, analisar os produtos, acompanhar as
produções, os movimentos culturais, as políticas, bem como perceber o
desenvolvimento do ensino, dos estudos e das pesquisas. Mas, também em

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observar e refletir sobre as formas diferenciadas de criação, expressão e


comunicação. Os discursos construídos nas várias relações que se estabelecem
na vida e na relação do homem com as atitudes, o modo de vida, os objetos e
sistemas das diferentes naturezas. Refletir e analisar o ato, o processo e o
método de projetar, transformar, inovar tanto os objetos contextualizados
quanto os recontextualizados, dando espaço ao inusitado, ao inovador, a inter-
relação entre as diferentes disciplinas e campos do conhecimento humano.
Pensar o ser humano e as questões relacionadas ao viver, das mais simples às
mais complexas. Pensar sobre a história do homem, suas referências e sua
capacidade de adaptação ou de transformação perante as possibilidades
midiáticas, interativas, virtuais e imateriais, bem como no objeto material e
todo o seu entorno. Essas reflexões devem ser sempre pautadas e abertas às
novas dinâmicas, afinal, o momento a ser observado é o presente, mas onde
também deve ser incluído o passado recente e as relações históricas, visando
uma melhor abordagem de análise, comparação e interpretação relacionada a
produção de conhecimento, a projetação e as possibilidades de prospecções
do futuro.
Essa relação de possibilidades de reflexões, leituras, análises,
traduções e construção de pensamento nos torna conscientes da realidade e
nos aponta algo maior que é a complexidade na qual vivemos, bem como traz
uma abertura de horizontes para compreender o nosso mundo e o nosso
tempo. Nessa complexidade se inserem as questões interdisciplinares e
transdisciplinares, presentes tanto na questão do ensino, como no
desenvolvimento de projetos e de pesquisas, indicando novos métodos e
processos projetuais para o design contemporâneo.

2.3 Design Contemporâneo

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Visando a melhor consideração a respeito das possibilidades de


método e processos em design afeitos a contemporaneidade, cabe aqui
elucidar o que se considera o design contemporâneo e apontar as principais
questões pertinentes a contemporaneidade.
Bonsiepe (1992) nos lembra de que as transformações da sociedade,
da cultura e da tecnologia se refletem nas mudanças do próprio conceito de
design e das temáticas do discurso projetual. Entendemos como discurso
projetual todo o conjunto que compreende desde a concepção e adoção da
metodologia do design, o desenvolvimento e a produção do produto; seja qual
for a sua natureza ou segmento; até as implicações junto ao usuário e a
sociedade.
Podemos, então, inferir que o design contemporâneo é uma ação de
tradução do momento presente que permite delinear o futuro. Parte da
observação e análise do ser humano e do tempo presente no qual vivemos e
do passado próximo. Nessa ação, dissemina influências na vida do homem a
partir dos objetos, sistemas, serviços, métodos e processos concebidos,
desenvolvidos e produzidos.
O design contemporâneo é marcado e constituído pelo rompimento
de fronteiras e integração entre as diversas áreas dialógicas a esse campo, tais
como, a arte, a arquitetura, a engenharia, a moda, a sustentabilidade mais
diretamente e, outras que parecem distantes, mas que também atuam em
conjunto tais como, a medicina, a física e a biotecnologia. Inclusive, Bürdek
(2006) aponta que a pesquisa genética associada à informática –
bioinformática – possibilitará novas tarefas para o campo do design e até o
corpo humano passará a ser objeto de design, em um futuro muito próximo.
O modo de atuação no design contemporâneo se faz principalmente
por meio da noção e do sistema de coletivos. Ou seja, grupos de criação e
desenvolvimento de projetos e produtos onde são relacionados diferentes
saberes, provenientes de diferentes áreas de formação e atuação de seus

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integrantes. Essas novas formas de organização de grupos sem hierarquias


reafirmam o esfacelamento do conceito de autoria e confirmam a ação
interdisciplinar e as possibilidades transdisciplinares presentes na ação
projetual e política. Retomando novamente Bürdek (2006), esse designer e
autor afirma que na atualidade objetos e produtos adquirem novos
significados e são utilizados em novas e outras situações de vida, portanto o
mundo contemporâneo, que é cada vez mais complexo, não pode ser
dominado pelo designer individualmente.
No design contemporâneo podemos perceber a presença das
questões da diversidade, multiplicidade, confronto e visões de mundo
diferenciadas, interações entre imaginários e culturas, novas construções
materiais e simbólicas, multidimensionalidades, fragmentações,
metamorfoses, hibridismo e consciência ambiental como elementos
característicos dos discursos desenvolvidos e construídos no cotidiano.
Também observamos que ocorre a diluição dos segmentos da área do design
no sentido de um pensar o design como um todo, um campo maior e mais
abrangente, incorporando atitudes e desafios políticos e sociais em busca de
um pensamento projetual mais amplo e consistente.
Na contemporaneidade o design tem configuração diversa, com
inúmeras possibilidades de relações e associações. É uma grande rede, um
tecido repleto de significações e semioses resultantes do entrelaçamento e
articulação de signos que geram linguagens diferenciadas. Essa grande rede
flexível atua na esfera da informação, comunicação e expressão, produzindo
diferentes níveis de conhecimento, tendo como o foco central o homem e as
dinâmicas e produções culturais que o envolvem. É um universo plural e
aberto, um campo amplo e fértil que retrata e impulsiona os hábitos, estilos de
vida, o viver e estar no mundo, escrevendo a história do cotidiano.

2.3 Possibilidades e Relações no Design Contemporâneo

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Considerando a complexidade do momento em que vivemos, o qual não


apenas influencia, mas se faz presente no campo do design, apresentamos um
diagrama com algumas possibilidades de relações no design contemporâneo.

Diagrama Relações do Design Contemporâneo. Elaboração de Mônica Moura.

Na perspectiva do diagrama acima o Design é apresentado como um


amplo campo que estabelece relações com diversos conceitos, diferentes
áreas e segmentos que colaboram e se sintonizam para o desenvolvimento e a
reflexão neste campo, bem como para o desenvolvimento de objetos e

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sistemas destinados ao homem nesses tempos múltiplos da complexidade. O


Design diz respeito ao ato de projetar e conceber objetos de uso e sistemas de
informação (vide Bomfim: 1999), esses por sua vez, são destinados ao homem,
seja em seu papel de receptor, usuário ou interator/interagente que podem
estar na categoria de clientes ou outros profissionais com os quais o designer,
seu projeto e produto se relacionam.
O campo do design diz respeito às relações com a tecnologia,
mídias, métodos, propostas e/ou soluções a serem desenvolvidas a partir das
percepções do mundo e das percepções sensoriais. Para expressar essas
questões, o designer utiliza os processos de criação, experimentação e as
características das linguagens de cada meio. Ainda, o Design se desenvolve por
meio de pesquisas, desde as científicas e referenciais até as de mercado e de
análise de similares junto ao usuário ou público-alvo.
A interdisciplinaridade pode ocorrer por dois aspectos. O primeiro
pode ser compreendido pelo universo de relações dialógicas e de diferentes
conhecimentos que são desenvolvidos junto a outros profissionais e
segmentos que o designer necessita para o desenvolvimento de seu produto,
tais como os relacionados à produção, mercado, serviços, comércio e indústria
(vide Couto: 1999). Por outro lado, há uma relação interdisciplinar mais
complexa que se desenvolve por meio de projetos interdisciplinares que
implicam no desenvolvimento de pesquisas científicas e referenciais nas quais
aspectos como subjetividade, coletividade, cultura, sociedade, política,
economia e a dinâmica de mudanças da vida do homem devem ser
consideradas. Portanto, diferentes saberes constroem um objeto novo que
não pertence exclusivamente a nenhuma das disciplinas que o geraram ou que
possibilitaram essa relação interdisciplinar (vide Barthes: 1988). O
aprofundamento dessas questões e o desenvolvimento de projetos com
equipes compostas por profissionais de diferentes áreas e relacionando

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diferentes ciências, rompendo fronteiras e divisões, sejam elas corporativas ou


acadêmicas, possibilita o desenvolvimento da transdisciplinaridade.
Todas essas questões e relações são pautadas na busca do equilíbrio
entre o ambiente, a qualidade de vida do ser humano e a sustentabilidade dos
meios, processos e dos produtos.
2.4 Metodologia de Ensino em Design: Método e/ou Processo Interdisciplinar

Chegamos à consideração de que o método ou processo


interdisciplinar é adequado ao desenvolvimento dos projetos contemporâneos
na área do design a partir das constatações e resultados obtidos no
desenvolvimento de uma pesquisa coletiva e de uma prática educacional que
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foi desenvolvida e examinada durante quinze anos .
Claro que por um lado, é muito estranho falar em
interdisciplinaridade quando ainda atuamos com divisões bem delimitadas
entre faculdades e departamentos, compostos por cursos seriados organizados
em disciplinas e períodos/semestres. Isso, à primeira vista, nos parece uma
situação estanque e impeditiva para o exercício interdisciplinar. Porém, vimos
que é possível estabelecer processos interdisciplinares mesmo estando dentro
dessa realidade.
Por outro lado, sabemos que tanto a educação quanto o design
contemporâneo são campos de conhecimento onde a interdisciplinaridade
pode e deve ser explorada amplamente. Fato que é apontado por diversos
autores, tanto educadores quanto designers e pesquisadores, entre outros,
Barthes (1988), Piaget (1990), Margolin (1995), Dewey (1997), Pires Ferreira
(1997), Fazenda (1998), Couto (1999), Bomfim (1997 e 1999), Morin (2000),
Freinet (2003) e Buchanan (2001).

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Essa pesquisa foi desenvolvida de 1994 a 2002, inicialmente, no Grupo de Estudos Design e
Tecnologia que gerou projetos de pesquisa a partir de 2003 e a formação de um Grupo de
Pesquisa, validado pelo CNPq em 2004, tendo permanecido ativos até 2009.

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A interdisciplinaridade é complexa e desafiadora, pois lida com os


imprevistos típicos da mobilidade e das diversas verdades, acepções, respostas
e propostas coletivas. Não se faz apenas pelo discurso, implica prática efetiva e
reconstrução permanente, afinal é um ato de construção do conhecimento
que ocorre por meio de um processo, de um método que não é estanque.
Tanto pode ser estabelecida por um movimento das partes em relação ao todo
quanto do todo para as partes e, assim, desenvolver uma produção por meio
do pensamento da totalidade. É uma prática pedagógica que vai atuar no
sentido de diluir a compartimentação do ensino através do trabalho em suas
especificidades caminhando para a compreensão da totalidade no sentido de
pensar no conjunto, no todo, em oposição ao ensino fragmentado.
É um olhar para o projeto no sentido maior e mais amplo,
desenvolvido pela ação da pesquisa e por todo um conjunto constituído pela
seleção e edição das informações de naturezas diversas focadas em uma
temática e em um recorte que constituem o produto final. Portanto, um
projeto interdisciplinar só poderá ser desenvolvido mediante a quebra de
barreiras das questões disciplinares isoladas.

2.4.1 Método e/ou Processo Interdisciplinar no Ensino por Projeto

Uma forma de quebrar as barreiras disciplinares é trabalhar com a


proposta de um projeto que envolva todas as disciplinas presentes em um
semestre ou período de curso. A temática do projeto interdisciplinar deve ser
tratada e enfocada em todos os conteúdos visando um processo de ensino,
que também pode ser denominado ensino por projeto. Nessa situação, os
professores deverão rever os conteúdos das disciplinas mediante cada
proposta de projeto. Isso implica na adoção da flexibilidade do conteúdo
curricular, mas não significa perder a essência do conhecimento a ser tratado
na disciplina e sim na potencialização da importância dessa disciplina, tanto no

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projeto interdisciplinar quanto no escopo do curso em questão, uma vez que a


ação do professor ao rever os conteúdos e atualizá-los constantemente
permite a integração de conceitos fundamentais da disciplina às questões
contemporâneas, analisando a realidade intra e extra escolar. Isso permite
também ao aluno estabelecer conexões e perceber a amplitude de cada área
do saber em design. Considerando aqui a importância de uma disciplina como
uma área de saber na constituição da formação do designer.
Isso aponta também a redução da quantidade de trabalhos
disciplinares, uma vez que o projeto interdisciplinar torna-se o maior
norteador dos processos de acompanhamento, verificação e avaliação da
relação ensino-aprendizagem. Mas não implica em perder a identidade da
disciplina, que é o grande medo da maioria dos professores, muito menos
perder a autonomia como docente. Mas sim perceber como a sua disciplina
contribui e é importante para a construção de um trabalho coletivo e efetivo.
É a estruturação do conteúdo entre as disciplinas e o conhecimento
universalmente produzido que se dá pela interpenetração dos conteúdos que
ocorrem a partir de uma postura política-pedagógica onde o espaço da sala é
assumido por um educador-pesquisador-orientador que supera o trabalho
individual em busca da produção coletiva e interage entre os conteúdos
trabalhados e o cotidiano, a partir de problematizações e questionamentos.
Não é apenas a soma das disciplinas, mas o inter-relacionamento de métodos
e linguagens.
Um dos aspectos mais importantes no desenvolvimento de um
processo para o projeto interdisciplinar é o fato de que essa atitude vai buscar
trazer para o cotidiano da sala de aula como as realidades e as verdades do
nosso tempo podem ser discutidas, elaboradas e trabalhadas pelo aluno no
sentido de ampliar seu repertório a partir da esfera circundante, das propostas
e dos desafios eleitos.

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Na relação interdisciplinar tanto o professor como o aluno são


agentes, elaboram e reelaboram ideias e pesquisas, criam e desenvolvem um
produto que será fonte para novas ideias e reflexões sobre o ato de ensinar e
aprender, sobre o ato e o processo de criar e desenvolver, sobre o processo de
conceber e projetar.

2.4.2 Método e/ou Processo Interdisciplinar e as Políticas Educacionais

Estes desafios envolvem também as políticas educacionais, pois


permeiam a postura e a necessidade de um docente que tenha grande trânsito
e um repertório cultural sempre renovado no movimento das novas propostas
que são desenvolvidas. Portanto, a interdisciplinaridade também implica em
um processo sistematizado de capacitação dos recursos humanos, do
planejamento global e na definição de conteúdos fundamentais para o
processo de ensino e aprendizagem.
O que significa capacitar recursos humanos. O que pode se dar a
partir do incentivo para a formação de grupos de estudo, grupos de pesquisa,
na organização de palestras, seminários, encontros e minicursos destinados
aos docentes com profissionais, professores e pesquisadores convidados que
tragam discussões de realidades diversas daquelas vivenciadas pelos
professores. É muito produtivo que esses profissionais convidados ao debate e
a troca de experiências apresentem questões relacionadas aos temas eleitos
para os projetos interdisciplinares a serem desenvolvidos. E, também, é muito
proveitoso quando esse diálogo se estabelece com professores, pesquisadores
e profissionais de outras áreas e de outras ciências, além da esfera específica
do design.
Ainda, o incentivo aos docentes para a formação continuada é outro
aspecto de grande importância e que deve permear as políticas educacionais e
institucionais. O apoio para cursos de especialização lato sensu e para

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mestrados e doutorados na pós-graduação stricto sensu. Ações essas que


permitirão uma amplitude de questionamentos e desenvolvimento de
conhecimentos para a realização de novas propostas interdisciplinares e até a
atuação com possibilidades transdisciplinares.

2.4.3 O Processo Interdisciplinar, o Espaço Físico e a Estrutura Pedagógica

Outro aspecto que impede sobremaneira a existência efetiva dos


processos interdisciplinares é a busca do ideal de espaço físico nas instituições.
Claro que, em um universo ideal, as salas de aula não deveriam ter paredes e
deveriam ser configuradas como um espaço misto que associasse uma
minibiblioteca; ambientes de estudo e pesquisa; ateliê, estúdio e/ou escritório
de design com equipamentos e materiais adequados, como pranchetas
integradas a computadores e periféricos, projetores, mesas de trabalhos
coletivos, espaço para armazenamento de material do processo de
desenvolvimento, grandes painéis para exposição e discussão dos trabalhos.
Também seria o mundo ideal a possibilidade de ter ao mesmo
tempo vários professores atuando em conjunto com os grupos de alunos
durante diversos dias da semana e na maior parte da carga horária das
disciplinas e do curso. Isso é o ideal, mas se a indisponibilidade de espaço físico
e de recursos financeiros nos impedirem de desenvolver uma proposta
interdisciplinar significa que não estamos prontos para atuar com a
interdisciplinaridade.
Podemos romper fronteiras físicas com o simples exercício de
deslocamento entre salas, laboratórios e ateliês e essas barreiras são
subvertidas no uso do espaço, mas antes mesmo disso, são rompidas pelo
diálogo e pela troca de conhecimentos que se estabelece entre os professores
na construção de uma proposta interdisciplinar.

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2.4.4 Proposta e Processo interdisciplinar

Para o desenvolvimento de um processo interdisciplinar deve-se


atuar diretamente no âmbito do projeto pedagógico do curso onde cabe a
observação atenta das disciplinas que constituem cada período ou semestre
do curso em questão, bem como relacionar as disciplinas que se desenvolvem
ao longo do tempo, no decorrer do curso no caminho da formação do aluno.
Uma ação que contribui sobremaneira para estabelecer a
interdisciplinaridade é analisar o conjunto dos conteúdos das disciplinas a
partir do estabelecimento de eixos de ligação entre elas, tanto no sentido
horizontal – disciplinas presentes em cada semestre do curso (inter-relação
dos conteúdos) – quanto no sentido vertical – disciplinas desenvolvidas ao
longo do curso (inter-relação do nível de profundidade e complexidade). Isso
deve ser discutido com o corpo docente que integra cada período do curso em
conjunto com a coordenação pedagógica, bem como com, pelo menos, um
professor representante de cada período de curso para discussão dos eixos
verticais de formação.
Esses são os passos essenciais para se romper ou diluir as barreiras
disciplinares. Ao discutirem suas disciplinas os professores passam a perceber
a relação entre elas, como cada disciplina integra e potencializa a outra
disciplina, a forma como os conteúdos se entrelaçam. Dessa forma, a
integração de conteúdos se dará pela proximidade, mas também nos
diferentes níveis de aprofundamento e complexidade para cada proposta de
projeto interdisciplinar a ser desenvolvido durante o tempo de formação dos
futuros designers.
Feito isso, entra o processo de questionamento de qual e como
pode se desenvolver um projeto interdisciplinar. Qual o tema condutor, quais
os assuntos referentes aquele nível de desenvolvimento do conhecimento do
curso, qual o produto que pode ser resultante desse processo. Esses passos

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não precisam seguir uma rígida sequência, muitas vezes a discussão e


elaboração se iniciam pelo produto e chegam ao tema ou vice-e-versa. Esses
diálogos devem ser permeados por um olhar para outras áreas, para outros
campos de conhecimento que dialoguem ou confrontem de forma rica e
produtiva o campo do design.
Ainda, é importante que no processo interdisciplinar se relacione a
metodologia científica com a metodologia projetual, pois ambas nutrem-se e
permitem ao aluno ampliar relações ao exercer a reflexão, a criação e o
desenvolvimento de propostas e projetos que respondem à multiplicidade do
contemporâneo.

3. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A aplicação do processo interdisciplinar permitiu chegar a resultados
significativos na formação de jovens designers que, afeitos a essa dinâmica,
levaram e utilizam o método em seus escritórios e coletivos gerando ações
significativas no mercado profissional. Nas relações educacionais e de ensino a
questão mais apontada como significativa pelos egressos dizia respeito à
vivência desenvolvida a partir dos projetos interdisciplinares e à sua formação
como agentes de um processo à luz das dinâmicas culturais.
A partir das interdisciplinaridades deu-se um movimento para a
ampliação da pesquisa e propostas de ação tendo como estrutura de
possibilidades, a transdisciplinaridade. Fato que foi trazido pelos próprios
alunos que, mediante a experiência interdisciplinar, começaram a associar
diferentes campos de conhecimento em seus projetos de conclusão de curso.
Linguagens como a literatura, o cinema, entre outras, e questões sociais e
políticas foram trazidas relacionando-se e construindo discursos e relações de
amplitude e de novas propostas para o design na contemporaneidade.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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