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RENAN LUÍS BALZAN

DA FÍSICA À PRÁTICA EM CONJUNTO MUSICAL:


Ensino da Acústica e Teoria Musical Através da Construção de
Instrumentos e Prática em Conjunto

PORTO ALEGRE
2018
RENAN LUÍS BALZAN

DA FÍSICA À PRÁTICA EM CONJUNTO MUSICAL:


Ensino da Acústica e Teoria Musical Através da Construção de
Instrumentos e Prática em Conjunto

Relatório de Conclusão de Curso apresentado ao


Centro Universitário Metodista IPA como requisito
parcial para obtenção do título de Licenciado em
Música.

Orientadora: Profa. Dra. Elisa da Silva e Cunha

PORTO ALEGRE
2018
AGRADECIMENTOS

Aos meus pais, pelo amor e apoio incondicional em todos os momentos que precisei e
pelo cultivo e valorização da música dentro da nossa casa desde sempre, pois sem esse ambiente
favorável, jamais teria chegado até aqui.

À minha esposa Rosi, pelo amor, companheirismo, incentivo e paciência,


acompanhando a minha trajetória musical de perto e presenciando todos os momentos de
alegrias e motivações, assim como de angústias e preocupações.

A todos os professores que tive, desde o primeiro contato com a música, que de alguma
forma incentivaram e despertaram em mim o amor e o interesse por essa arte.

Aos meus orientadores, em cada um dos três estágios supervisionados no IPA, Prof.ª
Cristina B. dos Santos, Prof.ª Jaqueline Lourenço Barreto e Prof.ª Elisa da Silva e Cunha, pelas
conversas, opiniões e sugestões que contribuíram para o meu desenvolvimento ao longo do
curso.

Aos meus colegas, com que sempre aprendo e ensino algo novo, durante as conversas,
risadas, discussões, troca de informações e parcerias profissionais.

A Deus e todos os mentores encarregados da minha proteção espiritual.

A todos os meus antepassados que foram músicos, ou não tiveram a oportunidade


necessária para isso, mas que, de alguma forma, contribuíram para que essa cultura fosse
passada através das gerações da minha família.
RESUMO

Este trabalho apresenta o relatório de conclusão de curso, requisito parcial para obtenção do
título de Licenciado em Música, pelo Centro Universitário Metodista IPA. Estão descritas as
experiências ao longo do último estágio curricular supervisionado, feito no Ensino Médio, além
de uma breve retrospectiva a respeito dos dois estágios anteriores, no Ensino Fundamental e em
Espaço Não Escolar. O tema do estágio foi: ‘‘O Ensino dos elementos básicos da acústica e
teoria musical, através da construção de instrumentos musicais com canos de PVC e prática
musical em conjunto’’. Propondo uma abordagem interdisciplinar, aliando elementos da Física
(Acústica), construção de instrumentos musicais com canos de PVC e prática em conjunto
musical, este trabalho teve como objetivo propiciar ao aluno a consciência dos elementos
acústicos básicos envolvidos na construção, assim como alguns conteúdos musicais e sua
utilização prática, despertando o interesse do aluno no aprendizado musical. Ao longo do relato
das observações e regências, foram expostas as atividades propostas às turmas, assim como
algumas peculiaridades e desafios encontrados ao longo do processo, analisando o contexto do
ensino público em modalidade EJA.

Palavras-chave: música na EJA, estágio curricular em música, acústica.


SUMÁRIO

1 CONTEXTUALIZAÇÃO E ANÁLISE DOCUMENTAL ....................................... 9


2 DESCOBRINDO A REALIDADE DAS TURMAS ............................................... 12
2.1 OBSERVAÇÕES ......................................................................................................... 13
2.1.1 Observação 1 – Turma 302 ........................................................................................... 13

2.1.2 Observação 2 – Turma 203 ........................................................................................... 14

2.1.3 Observação 3 – Turma 202 ........................................................................................... 14

2.1.4 Observação 4 – Turma 301 ........................................................................................... 14

2.1.5 Observação 5 – Turma 103 ........................................................................................... 15

2.1.6 Observação 6 – Turma 101 ........................................................................................... 15

2.1.7 Observação 7 – Turma 303 ........................................................................................... 16

2.1.8 Observação 8 – Turma 302 ........................................................................................... 16

2.1.9 Observação 9 – Turma 203 ........................................................................................... 16

2.1.10 Observação 10 – Turma 202 ......................................................................................... 17

2.1.11 Observação 11 – Turma 301 ......................................................................................... 17

2.1.12 Observação 12 – Turma 103 ......................................................................................... 18

2.1.13 Observação 13 – Turma 101 ......................................................................................... 18

2.1.14 Observação 14 – Turma 202 ......................................................................................... 18

2.1.15 Observação 15 – Turma 301 ......................................................................................... 19

2.1.16 Observação 16 – Turma 302 ......................................................................................... 19

3 PLANEJAMENTO .............................................................................................. 21
3.1 CRONOGRAMA DE ESTÁGIO ............................................................................... 23
3.2 PLANO DE ENSINO .................................................................................................. 24
3.3 PLANO DE AULA ...................................................................................................... 27
3.3.1 Primeira Regência ......................................................................................................... 27

3.3.2 Segunda Regência ......................................................................................................... 28

3.3.3 Terceira Regência .......................................................................................................... 29

3.3.4 Quarta Regência ............................................................................................................ 30


4

4 RELATO DE PRÁTICA...................................................................................... 32
4.1 TURMA 301 ................................................................................................................. 32
4.1.1 Primeira Regência ......................................................................................................... 32

4.1.2 Segunda Regência ......................................................................................................... 34

4.1.3 Terceira Regência .......................................................................................................... 35

4.1.4 Quarta Regência ............................................................................................................ 37

4.2 TURMA 302 ................................................................................................................. 38


4.2.1 Primeira Regência ......................................................................................................... 38

4.2.2 Segunda Regência ......................................................................................................... 39

4.2.3 Terceira Regência .......................................................................................................... 41

4.2.4 Quarta Regência ............................................................................................................ 42

4.3 TURMA 203 ................................................................................................................. 43


4.3.1 Primeira Regência ......................................................................................................... 43

4.3.2 Segunda Regência ......................................................................................................... 44

4.3.3 Terceira Regência .......................................................................................................... 45

4.3.4 Quarta Regência ............................................................................................................ 46

4.4 TURMA 202 – .............................................................................................................. 47


4.4.1 Primeira Regência ......................................................................................................... 47

4.4.2 Segunda Regência ......................................................................................................... 48

4.4.3 Terceira Regência .......................................................................................................... 49

4.4.4 Quarta Regência ............................................................................................................ 49

CONSIDERAÇÕES FINAIS ...................................................................................... 51


ANEXOS
INTRODUÇÃO

Este trabalho apresenta o relatório de conclusão de curso, requisito parcial para obtenção
do título de Licenciado em Música, pelo Centro Universitário Metodista IPA. Estão descritas
as experiências ao longo do segundo estágio curricular supervisionado, feito no Ensino Médio,
além de uma breve retrospectiva a respeito dos dois estágios anteriores, no Ensino Fundamental
e em Espaço Não Escolar. Cada estágio foi estruturado com base em 16 horas de observações
e 16 horas de regências, além do tempo reservado aos encontros para orientações,
planejamentos, leituras e produção textual.
Minha trajetória formal com a música iniciou aos meus nove anos de idade, quando fui
apresentado ao piano nas aulas do Conservatório Verdi, na Cidade de Nova Prata/RS. No
entanto, o conhecimento musical informal vem sendo passado pelas gerações da minha família
desde o meu bisavô paterno, que veio ao Brasil diretamente da Itália, no período de imigração
Italiana no RS. Minha infância foi marcada pela música ao vivo nos encontros familiares,
executadas pelo meu avô, meu pai e meus tios. Aos 14 anos, formei minha primeira banda de
Rock, passando posteriormente também a outros gêneros como o Pop, o Reggae, o Blues e a
MPB. Esse contato com a música popular faz parte da minha formação, paralelamente a música
erudita, até hoje.
Apesar de já ser graduado em Música pela UFRGS (2013), com habilitação em
composição musical, e trabalhar a cerca de 15 anos com educação musical em escolas de
música, cursos livres e aulas particulares, meu ingresso no curso de Licenciatura em Música do
IPA abriu um campo de possibilidades ainda não explorado por mim: O ensino musical no
ensino básico. Durante as disciplinas pedagógicas do curso, tive a oportunidade de conhecer
técnicas pedagógicas de educadores musicais renomados, além do embasamento teórico
necessário para ampliar minha visão como educador, adquirindo ferramentas que possibilitem
oferecer uma aula de música cada vez melhor aos alunos.
O primeiro estágio curricular obrigatório (no ensino fundamental) foi feito em uma
escola estadual, tendo como tema: a Construção de instrumentos musicais com materiais
recicláveis e musicalização1. O objetivo foi construir três instrumentos musicais de percussão
(ganzá, caixa e tambor) com garrafas PET, utilizando-os posteriormente para atividades práticas
de musicalização. Dentre os autores que embasaram o trabalho, cito: França (2002), Amato

1
Ao longo do trabalho, optei por destacar em Itálico as palavras estrangeiras; títulos de trabalhos ou temas;
títulos de música; conteúdos ou áreas de ensino específicas.
6

(2006), Garcia (2013) e Feliz (2002). A metodologia utilizada baseou-se em aulas teóricas
expositivas, prática de construção de instrumentos musicais em aula, execução e criação
musical coletiva de pequenos trechos rítmicos e músicas e utilização de gravações de áudio e
vídeos. Por um lado, essa experiência de estágio, no ensino fundamental, me possibilitou
enxergar melhor as diversas habilidades que o professor precisa ter para trabalhar nesse
contexto, que vão muito além do domínio dos conteúdos musicais, desenvolvendo diferentes
estratégias para abordar o mesmo tema, além de uma capacidade de adaptação rápida e de
improvisação. Por outro lado, fui estimulado a refletir sobre as condições de trabalho a que o
professor está submetido atualmente. Durante uma conversa informal, a professora de artes da
escola comentou que, além do desrespeito constante de alguns alunos, estava recebendo seu
salário parcelado. Uma situação, no mínimo, triste. Muito ainda precisa ser feito, do ponto de
vista legal e cultural, para possibilitar um melhor reconhecimento e melhores condições para
que o professor da escola básica trabalhe com dignidade.
O terceiro estágio curricular obrigatório foi feito antes do segundo, pois o curso permite
essa possibilidade. Aliando as práticas de canto coral, composição e arranjo, teve como local
escolhido um coro universitário, trabalhando com o tema: o ensaio e regência de um arranjo
próprio, a quatro vozes, da música Baião, de Luiz Gonzaga. O objetivo foi desenvolver no
aluno a sensibilidade e as habilidades necessárias para a atividade do canto coral, despertando
o interesse para o repertório da música popular Brasileira. Dentre os autores que embasaram o
trabalho, sito Nascimento (2011), França e Swanwick (2002), Pereira (2011) e Borges (2007).
A metodologia utilizada combinou a audição de gravações da música trabalhada, melodias dos
naipes reproduzidas por Sampler2 e enviadas por grupo do Whatsapp, acompanhamento
harmônico ao piano, análise da partitura em conjunto, ensaios com naipes juntos e separados.
Por fim, essa experiência possibilitou conhecer melhor as habilidades que o regente/arranjador
precisa ter para trabalhar na área do canto coral. Somente com o estudo e capacitação contínua,
desenvolvendo sempre novas estratégias de ensaio e ensino, o profissional pode propiciar uma
experiência de aprendizagem rica e relevante para os integrantes do coro e, consequentemente,
para o público que prestigia o espetáculo.
O segundo estágio curricular obrigatório (no ensino médio), que é descrito em detalhes
neste trabalho, foi feito em uma escola estadual de Porto Alegre, na modalidade EJA. A
instituição, com um perfil de alunos de classe média/baixa, não tinha a disciplina música no

2
Software que armazena e reproduz amostras de áudio, simulando virtualmente instrumentos musicais, por
exemplo.
7

currículo, o que exigiu que as atividades fossem realizadas como parte da disciplina de
educação artística, com turmas dos segundos e terceiros anos. A maioria dos alunos nunca tinha
frequentado nenhuma aula de música regular, salvo algumas atividades extracurriculares, de
curta duração, oferecidas pela escola, ou trabalhos realizados por outros estagiários. Propondo
uma abordagem interdisciplinar, aliando elementos da Física, especificamente a Acústica3,
construção de instrumentos musicais com canos de PVC e prática em conjunto musical, este
trabalho teve como objetivo propiciar ao aluno a consciência dos elementos acústicos básicos
envolvidos na construção, assim como alguns conteúdos musicais e sua utilização prática,
despertando o interesse do aluno no aprendizado musical. Como nos descrevem Grillo e Perez
(2016):

A interdisciplinaridade é a palavra-chave para a educação básica. Através dela várias


disciplinas são interligadas proporcionando uma melhor compreensão dos fenômenos
que acontecem diariamente. A Música pode ser usada para fazer a ligação entre as
diversas disciplinas ensinadas no ensino médio como, por exemplo, a Matemática, a
História, a Filosofia e a Física. (p. 66).

Conversando com o professor de física da escola, fui informado que o conteúdo Acústica
não estava incluído no programa de ensino da EJA. Dessa forma, para que meu projeto pudesse
ser colocado em prática, foi aberta uma exceção. A importância desse conteúdo é reforçada por
Moura e Neto (2011), propiciando algumas reflexões sobre o assunto, desenvolvidas ao longo
do trabalho.
A construção de instrumentos musicais em sala de aula, possibilitou trabalhar de forma
teórica e prática com o gênero musical Xote Nordestino4. Albuquerque destaca que essa
abordagem permite ainda “[...] vivenciar e entender questões relativas à acústica, produção do
som, fazer música, por meio da improvisação ou composição, no momento em que os
instrumentos criados estiverem prontos.” (ALBUQUERQUE, p. 3).
Durante o estágio, pude conhecer melhor o perfil dos alunos de cada turma, assim como
a realidade da modalidade de ensino EJA, permitindo uma reflexão a respeito de alguns pontos
positivos e negativos, além das dificuldades vivenciadas tanto pelos alunos como pelos
professores, como serão comentadas ao longo do texto. Griffante, Bertotti e Silva (2013)
enfatizam que:

3
Ao longo do trabalho, optei por destacar em Itálico as palavras estrangeiras; títulos de trabalhos ou temas;
títulos de música; conteúdos ou áreas de ensino específicas.
4
Idem item 2.
8

[..] devemos “criar possibilidades” para a produção ou construção do conhecimento e


para que isso ocorra é necessário que o docente busque conhecer o perfil do aluno,
suas necessidades e interesses para construir o seu planejamento de ensino de modo
satisfatório. (p. 5).

O trabalho está organizado em quatro capítulos centrais, sendo eles: 1) contextualização


e análise documental, onde estão descritas as impressões e informações documentadas a
respeito do local de estágio; 2) Descobrindo a realidade das turmas, onde as impressões a
respeito das observações em sala de aula são expostas; 3) Planejamento, contendo o
cronograma, plano de ensino e plano de aula do estágio; e 4) Relato de Prática, onde são
descritas as atividades práticas realizadas com as turmas durante as regências. Por fim, são
feitas algumas considerações a respeito do estágio e a realidade da educação musical, no
contexto do ensino médio em modalidade EJA.
1 CONTEXTUALIZAÇÃO E ANÁLISE DOCUMENTAL

O caminho para encontrar uma escola disposta a aceitar estagiários, no ensino médio,
foi extremamente difícil. Desde o mês de fevereiro eu vinha visitando pessoalmente, ligando e
mandando e-mails para diversas escolas, estaduais e privadas, sempre recebendo respostas
negativas ou indefinidas em relação à possibilidade de estágio. Após diversas tentativas e um
certo abatimento psicológico, finalmente fui aceito. Meu primeiro contato com os responsáveis
pela Escola Estadual de Ensino Médio Anne Frank ocorreu no início do mês de abril de 2018,
quando fui pessoalmente ao local, sendo gentilmente atendido pela vice-diretora. Após o aval
da professora de artes, comecei o estágio.
Tive acesso ao projeto político pedagógico da escola na segunda semana de
observações, quando a vice-diretora me enviou o documento por e-mail. O documento foi
escrito no ano de 2011.
Segundo o PPP, a escola, localizada na Avenida Cauduro, nº 238, na Cidade de Porto
Alegre/RS, foi fundada no ano de 1966, inicialmente atendendo o ensino fundamental e curso
supletivo. O ensino médio na modalidade EJA entrou em vigor no ano de 2002. Atualmente, a
Escola oferece Educação Infantil, Ensino Fundamental de 5ª à 8ª série, Ensino Fundamental de
Nove Anos, do 1º ao 5º ano, no turno diurno, e Curso de Ensino Médio, modalidade de
Educação de Jovens e Adultos – EJA, à noite. Em relação ao nome da escola, consta no
documento que foi uma homenagem à comunidade Judaica de Porto Alegre, na pessoa da
Adolescente Anne Frank, jovem que viveu durante a segunda guerra mundial e permaneceu
escondida em um sótão por 2 anos, sendo descoberta e levada para morrer em um campo de
concentração Nazista. ‘‘A homenagem, em sua lembrança é permeada por um profundo espírito
de otimismo, solidariedade e esperança de construção de um mundo melhor.’’ (PPP, 2011, p.
3-4).
A respeito do espaço físico, é informado que a escola é constituída de:

[...] dois prédios de alvenaria e um pátio central subdividido em uma cancha de futebol
e outra de vôlei. No prédio principal há: 11 salas de aula; sala de professores;
secretaria; salas da Direção e Vice Direção; sala do Serviço de Orientação
Educacional; sala do Serviço de Supervisão Educacional; sala do setor de Recursos
Humanos; sala do setor Administrativo- Financeiro; biblioteca; refeitório; cozinha;
laboratório de Ciências; laboratório de Informática; sala de artes; sala de
mecanografia, almoxarifado e banco do livro; sala de vídeo; 06 sanitários para alunos,
03 sanitários para professores; um bar; uma sala para pessoal de serviços gerais e uma
sala com banheiro onde funciona um serviço de xerox terceirizado. O prédio auxiliar
é composto de 06 salas de aula; 04 sanitários; sala de recursos; sala de Línguas; sala
de material de Educação Física e Grêmio de Alunos. Em anexo à sala de aula da
10

Educação Infantil situa-se uma pracinha com brinquedos utilizada no


desenvolvimento de suas atividades e recreação. (PPP, 2011, p. 8).

Consta que a maioria dos frequentadores da escola mora em bairros próximos à escola,
possuindo uma renda familiar de 1 a 6 salários mínimos. Sobre o perfil dos alunos da fase 9 do
EJA, constatou-se em uma pesquisa que:

18 alunos estão entre 18 a 25 anos; 5 alunos entre os 26 e 35 anos; 8 alunos entre 36


a 45 anos; 7 alunos com mais de 45 anos; 2 alunos não responderam. Destes, 22 são
do sexo feminino, 17 do sexo masculino e 1 aluno não respondeu. Identificou-se
também que 18 alunos têm filhos. (PPP, 2011, p. 9).

No ano de 2010, foi contabilizado na escola a presença de 1210 alunos, 68 professores


(a maioria licenciados) e 13 funcionários.
A metodologia que a escola propõe para o EJA está centrada no sujeito que aprende e
sua autonomia intelectual, devendo incorporar os eixos estruturais: aprendera a conhecer;
aprender a fazer; aprender a viver; aprender a ser. É citado que:

[...] através de interdisciplinaridade e transversalidade entre as áreas, as relações ao


contexto de vida social e de ação solidária. [...] A metodologia está voltada para o
desenvolvimento de habilidades e competências, onde o processo de ensino e
aprendizagem se dará através de “situações-problema”, para cuja solução, o aluno
deve mobilizar os saberes anteriormente adquiridos. (PPP, 2011, p. 22-23)

No capítulo Conteúdos, é exposto que os saberes escolares focam nas necessidades “[...]
para a vida social, para o trabalho, para a continuidade dos estudos e para o desenvolvimento
pessoal” (PPP, p. 19). O currículo escolar está organizado por áreas de conhecimento, integrado
por competências e habilidades, focadas no sujeito: o estudante.
Em relação aos objetivos da escola, estão incluídos:

Garantir o acesso ao ensino de qualidade que estimule a permanência do aluno na


Escola; Oportunizar o desenvolvimento integral do aluno nos aspectos físico,
psicológico, intelectual e social, complementando a ação da família e da comunidade;
Propiciar ambiente pedagógico necessário ao início do processo de alfabetização a
partir do 1º ano; Oferecer uma proposta para jovens e adultos, adequada às suas
necessidades como cidadão, respeitando as suas vivências e conhecimentos e
redimensionando o tempo e o espaço da aprendizagem; Viabilizar práticas coletivas
de discussão, oportunizando a participação de toda a comunidade escolar,
concretizando a gestão de políticas públicas na área da educação; Oferecer
atendimento educacional em classe regular ao aluno encaminhado com necessidades
especiais; Proporcionar atendimento educacional especializado (AEE) nas Salas de
Recursos de Altas Habilidades, Transtornos Globais do Desenvolvimento e
Multifuncionais no turno inverso, a alunos diagnosticados com necessidades
especiais; Buscar a superação de todo tipo de opressão, discriminação, exploração e
obscurantismo de progresso material, intelectual, de valores éticos, de liberdade,
respeito à diferença e à pessoa humana, solidariedade e preservação ecológica;
11

Garantir o direito da criança de brincar, como forma de expressão, pensamento,


interação e comunicação infantil; Assegurar espaços de formação para os educadores,
na perspectiva da construção de sujeitos críticos e de investigação permanente, tendo
por fim a qualificação da ação pedagógica. (PPP, 2011, p. 18)

Ao abordar Avaliação, o texto esclarece que deveria ser um subsídio para o professor,
fornecendo elementos para uma reflexão contínua sobre a sua prática, sobre a criação de novos
instrumentos de trabalho e a revisão de estratégias. É exposto ainda que ela deve ser
“diagnóstica contínua, sistemática, cumulativa com efetiva prevalência dos aspectos
qualitativos sobre os quantitativos” (PPP, 2011, p. 25).
Por fim, cito um trecho do capítulo Condições objetivas de trabalho, onde o documento
nos expõe a uma realidade dura e que nos desperta novamente a algumas reflexões:

Em decorrência da extrema e perversa desvantagem salarial que lhes vêm sendo


imputada, subtraem-se do professor/da professora estadual, além de condições
mínimas materiais de uma vida saudável, oportunidades de realizações de cursos, de
participação de eventos, encontros, jornadas, até mesmo de aquisição de bibliografia
básica para atualização e/ou aprofundamento teórico [...]. Infelizmente a repercussão
dessa desesperança tem-se feito sentir no decorrer da construção do PPP,
materializada na participação, algumas vezes, oscilante, outras tantas, incrédula de
professores e funcionários. O Magistério, ao longo dos anos, adoeceu, tem tido
dificuldade de sustentar a utopia, mais uma vez ratificada na construção deste Projeto.
(PPP, 2011, p. 12).

Dessa forma, ficam claras as deficiências e dificuldades a que os professores estaduais


estão sujeitos diariamente. Mudanças de postura são urgentes por parte das autoridades, com o
intuito de valorizar e colocar a educação em primeiro plano de importância como ela certamente
merece.
2 DESCOBRINDO A REALIDADE DAS TURMAS

Atualmente, é consenso entre os educadores que apenas o domínio dos conteúdos


musicais não é suficiente para que o professor explore ao máximo as potencialidades das aulas
de música. Considerando a multiculturalidade existente nas salas de aulas, somente conhecendo
a realidade e visão de mundo que os alunos trazem consigo, as atividades poderão ser
cuidadosamente planejadas, tendo maiores chances de sucesso. Como nos explica Romanelli
(2008):

O planejamento é, muitas vezes, considerado o primeiro passo da atividade docente.


Entretanto, deverá ser precedido pelo conhecimento da realidade na qual será
desenvolvida a prática educativa, que, no caso do estágio, é realizado por meio das
observações. (p. 131).

Dessa forma, as observações prévias das turmas têm um papel fundamental antes da
elaboração do plano de ensino e plano de aula, para que se mostrem realmente coerentes e
passíveis de aplicação, levando em consideração o perfil dos alunos. ‘‘É por meio das
observações que o licenciando terá a oportunidade de propor novas estratégias, em especial
sugestões, indagando: o que faria de diferente se estivesse no lugar do professor?".
(ROMANELLI, 2008, p. 134).
É através das observações que tomamos conhecimento e nos preparamos para vencer
alguns obstáculos que normalmente aparecem. Dentre eles, Romanelli (2008) destaca o papel
ainda recreativo da música em muitas escolas, a cultura polivalente do professor de artes, além
do estagiário raramente encontrar uma sequência didática anterior, que permita continuidade.
‘‘No ensino da música [...] o planejamento é frequentemente estruturado pelo estagiário como
uma espécie de módulo isolado, pouco articulado com a realidade da disciplina naquela escola.
(ROMANELLI, 2008, p. 133).
Considerando o contexto da Educação de Jovens e Adultos (EJA), essa ferramenta nos
revela mais alguns desafios, que poderão ser enfrentados pelo estagiário de música. Um deles
é a falta de regularidade dos alunos nas aulas e a grande evasão escolar observada em todo país.
Em uma pesquisa, realizada com 81 alunos da EJA, observou-se que ‘‘[...] com o retorno aos
estudos, 45% dos discentes enfatizam que o maior desafio encontrado é o cansaço físico e
mental, devido à jornada de trabalho [...]’’ (GRIFFANTE; BERTOTTI; SILVA, 2013, p. 8).
Nesse contexto, também é comum que muitos alunos não tragam os materiais solicitados para
as atividades. Essas peculiaridades exigem ainda mais dedicação e sensibilidade por parte do
13

professor, buscando vencer ‘‘o desafio da participação, do envolvimento, da inclusão e da


equidade frente a nossa vasta diversidade cultural, pela qual precisamos trabalhar diante do
conceito de transformação [...]’’ (GRIFFANTE; BERTOTTI; SILVA, 2013, p. 3).

2.1 OBSERVAÇÕES

Devido ao grande número de estagiários atuando na disciplina de artes, na mesma


escola e ao mesmo tempo (três estagiários de música e dois em teatro), não foi possível restringir
as observações apenas às turmas que seriam regidas posteriormente, como seria o ideal. O
número de observações por turma não foi o mesmo e nem todas as turmas observadas foram
regidas. Desse modo, esse capítulo foi organizado respeitando a ordem cronológica que
aconteceram as observações.

2.1.1 Observação 1 – Turma 302

A turma era formada por 9 mulheres e 9 homens, com idade variada. 4 alunos
aparentavam ter mais de 30 anos e os outros, cerca de 20 anos.
A professora iniciou a aula me apresentando para a turma e informando que eu passaria
as próximas semanas os acompanhando, pois faria um estágio na área de música.
Após relembrar com a turma os conteúdos que haviam trabalhado na aula anterior
(assistiram um vídeo sobre Portinari e viram algumas imagens relacionadas a ele, no livro
didático), foi informado que deveriam entregar um resumo do filme, além de responder algumas
questões que constavam no livro. Um tempo foi reservado para que os alunos fizessem as
atividades.
A turma foi avisada que construiriam uma Pipa na próxima aula. Cada aluno deveria
trazer alguns materiais para a sua construção, dentre eles: varetas de bambu, tecido, fio, cola e
tesoura. Surgiu a ideia de soltar a pipa em algum lugar aberto, após sua construção.
Ao final da aula, a professora sugeriu que a turma visitasse a Bienal do Mercosul, que
ocorreria em um sábado de manhã, substituindo um dos períodos regulares da noite.
De modo geral, a turma manteve o foco nas atividades, com pouca conversa ou
distrações paralelas.
14

2.1.2 Observação 2 – Turma 203

Na turma, estavam presentes apenas 5 homens e 3 mulheres. A maioria aparentava ter


cerca de 20 anos, sendo apenas 2 com mais de 30 anos.
Dando continuidade ao estudo da aula anterior sobre a artista Anita Malfatti, a
professora relembrou que ela tinha uma deficiência em uma das mãos, sendo obrigada a pintar
apenas com a outra. Usando a imagem da obra O Farol, foi proposto que a turma reproduzisse
a pintura em uma folha, usando a mão esquerda para quem fosse destro e vice-versa. A maioria
do tempo da aula foi usado para essa atividade. A turma manteve o interesse e praticamente não
houve conversas paralelas.
Ao final da aula, foi sugerido, também para essa turma, que visitassem a Bienal, valendo
como um dia letivo.

2.1.3 Observação 3 – Turma 202

A turma constava com apenas 9 alunos presentes nesse dia. 5 mulheres e 4 homens.
Todos tinham cerca de 20 anos de idade.
A professora pediu que a turma fizesse um desenho baseado na obra O Farol, de Anita
Malfatti. Eles deveriam reproduzir a obra o mais fielmente possível. Uma cópia impressa foi
distribuída para que usassem de modelo. Era possível perceber 2 alunos conversando e rindo
ao fundo da sala, durante a atividade. Os outros pareciam concentrados no trabalho. Alguns
alunos foram até a professora, que estava sentada em sua classe, para sanar algumas dúvidas.
A aula seguiu até o final com a turma fazendo essa atividade.

2.1.4 Observação 4 – Turma 301

A turma era formada por 14 mulheres e 5 homens. A maioria dos alunos tinha cerca de
20 anos, sendo apenas 2 com mais de 30 anos.
A professora iniciou a aula buscando livros didáticos que foram distribuídos a todos. O
livro era: Coleção Viver, Aprender. Os alunos deveriam ler e interpretar um texto que se referia
a Cândido Portinari. As orientações para o trabalho foram escritas no quadro branco. O
documentário Imaginário Portinari também deveria ser assistido pela turma, posteriormente.
Observei que uma das alunas, sentada na frente, fazia piadas e ria constantemente,
conversando com a colega ao lado. Outra aluna chamava a atenção porque estava acompanhada
15

da filha pequena, que brincava com algumas bonecas, sem atrapalhar a aula. Foi possível notar
também 2 alunos que ficaram todo o tempo com fones de ouvido. Enquanto os alunos faziam a
atividade, a professora ficou sentada em sua classe, corrigindo alguns trabalhos. A aula seguiu
com essa atividade até o final.

2.1.5 Observação 5 – Turma 103

A turma era menor que as outras observadas até o momento. Estavam presentes 5
mulheres e 6 homens. 4 alunos aparentavam ter mais do que 30 anos, enquanto os outros tinham
cerca de 20 anos.
Foi escrito no quadro que um projeto deveria ser feito pela turma, individualmente, para
a reconstrução de um local que tivesse ocorrido alguma tragédia. Enquanto a professora
escrevia, a turma fazia muito barulho, rindo e brincando. Conversavam sobre diversos assuntos
não relacionados à aula. Um dos alunos, sentado na frente, apenas ouvia música com fones de
ouvido. Em seguida, a turma questionou o propósito da atividade pois não estavam entendendo.
Foi pedido que eles trouxessem impresso uma foto do local que escolheriam, para a próxima
aula. Alguns exemplos foram dados aos alunos, mas eles consideraram a atividade difícil de ser
feita.

2.1.6 Observação 6 – Turma 101

A turma tinha 4 mulheres e 12 homens presentes na aula. Todos os alunos aparentavam


cerca de 20 anos de idade.
A professora iniciou a aula explicando que eles deveriam fazer a mesma atividade dada
a turma anterior (um projeto, individual, para a reconstrução de um local que tivesse ocorrido
alguma tragédia). Essa turma estava mais tranquila, em comparação a anterior. Aceitaram sem
questionar muito, a respeito do trabalho. Em seguida, após os detalhes serem explicados pela
professora, foi reservado um tempo para que terminassem algumas atividades das aulas
anteriores, usando o livro didático. A aula seguiu até o final com a turma trabalhando. Alguns
alunos, sentados ao fundo, usando fones de ouvido, não fizeram a atividade. É possível que não
estivessem interessados, ou mesmo que já tivessem finalizado na aula anterior.
16

2.1.7 Observação 7 – Turma 303

A turma tinha 7 mulheres e 11 homens presentes nessa aula. Dois desses alunos
aparentavam ter mais do que 30 anos, os outros, cerca de 20 anos.
A aula iniciou com um aviso à turma, referente ao prazo final de entrega de trabalhos.
Em seguida, a professora recordou que havia pedido um material, para construir uma
pipa. Como apenas um aluno trouxe, a atividade foi comprometida, devendo ser feita em casa
por todos.
O livro didático foi então utilizado para o trabalho. Os alunos deveriam responder
algumas questões, referentes ao mural Guerra e Paz, de Portinari. Como muitos estavam usando
celular e fones de ouvido, a professora pediu que guardassem.
Em seguida, a atividade consistiria em dividir uma folha tamanho A3 ao meio, criando
desenhos ou colagens que representassem, em cada lado, guerra ou paz.
A aula seguiu até o final com essa atividade.

2.1.8 Observação 8 – Turma 302

Essa turma também havia sido orientada a trazer materiais para a construção de uma
pipa. Como a maioria dos alunos trouxe, foi possível realizar a atividade.
Um dos alunos comentou que os pedaços de bambu deveriam ser finos, senão a pipa não
iria voar. A maioria da turma permaneceu sentada, fazendo a atividade em duplas. Alguns
alunos usavam fones de ouvido, enquanto faziam o trabalho. A aula seguiu com essa atividade.
Ao final, foi orientado que um vídeo construindo a pipa fosse feito pelos alunos que não
trouxeram o material ou que não terminaram em aula.

2.1.9 Observação 9 – Turma 203

Ao início da aula, foi entregue a cada aluno um questionário para ser respondido, a
pedido de uma das estagiárias da escola, da área de música. As perguntas se referiam aos gostos
e experiências musicais da turma.
Após algum tempo, a turma recebeu a orientação para que criassem uma história baseada
na pintura O Farol, de Anita Malfatti. Cada aluno recebeu uma cópia da imagem, impressa, em
preto e branco.
17

Ao final, a professora recolheu o questionário respondido e pediu que eles finalizassem


e entregasse o texto na aula seguinte.

2.1.10 Observação 10 – Turma 202

Apenas 9 alunos estavam presentes nessa aula.


Os alunos receberam o mesmo questionário distribuído à turma anterior, a pedido da
estagiária. Algum tempo foi reservado para essa atividade.
Em seguida, a professora pediu que os faltantes da aula anterior, finalizassem o desenho
sobre a obra O Farol, de Anita Malfatti. Os que tivessem terminado, deveria criar uma história
sobre o desenho, da mesma forma que foi pedido para a turma anterior.
A turma, em geral, manteve o foco na atividade, com poucas conversas paralelas. Um
aluno, ao fundo, não estava fazendo o trabalho pedido, mas não atrapalhava os outros.
Ao final, o questionário também foi recolhido e a professora informou que o texto e o
desenho deveriam ser entregues prontos, na aula seguinte.

2.1.11 Observação 11 – Turma 301

Um dos alunos foi buscar os livros didáticos e distribuiu para a turma. Ao conversar
sobre o conteúdo que estavam estudando, a professora disse que essa turma estava atrasada em
relação às outras.
Foi dado continuidade ao assunto da aula anterior, sobre o mural Guerra e Paz, de
Portinari. A atividade consistiria em desenhar figuras que representassem o mural, em uma
folha. Havia muita conversa e uma aluna, sentada à frente, falava em tom de brincadeira que
‘‘não iria fazer nada’’. Ao final da aula, foi pedido que a turma trouxesse os materiais
necessários para construir uma pipa (atividade já concluída pelas outras turmas). A professora
escreveu no quadro os materiais: palito de bambu, papeis coloridos, barbante, cola, tesoura e
‘‘boa vontade’’. Um dos alunos fazia piadas sobre a recente prisão do ex-presidente Luís Inácio
Lula da Silva, assunto que estava em alta na mídia, durante a semana.
Por fim, foi informado que o prazo final para entrega de todos os trabalhos atrasados
seria a aula seguinte.
18

2.1.12 Observação 12 – Turma 103

A aula teve como tema a artista Tarsila do Amaral. Foi explicado que seus trabalhos
eram baseados em figuras geométricas e cores básicas, tomando como exemplo a obra Estação
Central do Brasil.
A atividade proposta foi um desenho, que tivesse como base esses mesmos elementos:
figuras geométricas e cores básicas. A aula seguiu até o final com essa atividade. Um aluno, ao
fundo, usando fones de ouvido, não fez a atividade.
Ao final da aula, 2 estagiários do curso de teatro (que estavam observando a aula junto
comigo), vieram até mim e informaram que começariam suas regências de estágio, com essa
turma, na semana seguinte. Isso causou uma grande confusão no meu cronograma, já que não
poderia contar mais com 2 turmas, que eu planejava trabalhar em breve.

2.1.13 Observação 13 – Turma 101

Na aula anterior havia sido pedido que a turma entregasse uma atividade (um projeto,
individual, para a reconstrução de um local que tivesse ocorrido alguma tragédia). Apenas 1
aluno trouxe o projeto pronto. Então a professora usou o trabalho de modelo, pedindo que a
turma entregasse pronto, na aula seguinte.
Seguindo o mesmo plano de aula da turma anterior, abordou como tema a artista Tarsila
do Amaral. Foi explicado que seus trabalhos eram baseados em figuras geométricas e cores
básicas, tomando como exemplo a obra Estação Central do Brasil. Os alunos deveriam criar
um desenho, com base nos mesmos elementos da obra (figuras geométricas e cores básicas).
A aula seguiu até o final com os alunos trabalhando nessa atividade. De modo geral, os
alunos fizeram o trabalho, com poucas conversas paralelas e dispersões.

2.1.14 Observação 14 – Turma 202

Nesse dia, foi observada a aula de Física. Como eu havia combinado previamente com
o professor da disciplina, ele abordaria uma introdução à Acústica, o que serviria de base para
o meu trabalho posterior, durante as regências. Apesar desse conteúdo não fazer parte do
programa de Física do EJA, foi aberta uma exceção, a meu pedido.
O professor iniciou me apresentando para a turma e falando sobre a necessidade da
vibração, para que haja uma onda sonora, dando como exemplo o tocar na corda de um violão.
19

Seguiu falando sobre o conceito de frequência, explicando que cada número de telefone
trabalha sobre uma frequência específica. Outro exemplo seria a comunicação dos golfinhos e
baleias.
Voltando à onda sonora, expôs que é uma onda mecânica, que necessita de um meio
para se propagar. O ponto mais alto da onda seria a crista e o ponto mais baixo o vale, falando
sobre o elemento Amplitude.
A maioria da turma interagia, dando outros exemplos equivalentes, à medida que o
professor explicava. De modo geral, pareciam interessados no conteúdo.
Por fim, foi explicado à turma que eu seguiria trabalhando com esse tema durante a
minha prática (regência), além de construirmos instrumentos musicais usando esses princípios
da acústica.

2.1.15 Observação 15 – Turma 301

Como essa seria minha última observação com essa turma, pedi permissão para explicar
a minha proposta de estágio (que iniciaria na aula seguinte) e passar uma lista de materiais que
a turma deveria trazer, em duas semanas, necessários para a construção dos instrumentos. O
material consta no anexo 2, ao final do trabalho.
Em seguida, a professora fez a chamada e pediu que a turma criasse um grupo no
Whatsapp, para combinarem algumas atividades. Continuando, reservou um tempo para que os
alunos terminassem as atividades da aula anterior. Alguns alunos entregaram vários trabalhos
atrasados ao mesmo tempo, ao longo da aula.
Como mais da metade da turma trouxe o material pedido, para construir a pipa, deram
seguimento a esse trabalho. Uma das alunas, que estava grávida, comentou com o colega que o
seu filho nasceria em setembro. Também percebi que um dos alunos, sentado no canto direito,
ficou a aula toda com fones de ouvido.
A turma seguiu até o final, trabalhando na construção da pipa ou nos trabalhos atrasados.

2.1.16 Observação 16 – Turma 302

A última observação foi novamente na aula de física. No dia anterior, combinei com o
professor para focarmos nos elementos da onda sonora e nas propriedades do som. Mandei para
ele alguns materiais pelo Whatsapp e levei a flauta doce, para ajudar com alguns exemplos.
20

O professor me apresentou à turma e deixou que eu falasse alguns minutos sobre a


proposta de estágio, explicando a relação da acústica com a música.
Iniciou explicando o que é uma onda sonora, fazendo um desenho no quadro. Ao falar
sobre o meio que as ondas mecânicas necessitam para se propagar (ar, água, etc.), um dos
alunos interagiu, perguntando se tinha relação com a velocidade, o que estava correto. Foi
desenhado no quadro as cristas (picos) e vales da onda, relacionados à amplitude da onda.
Falando sobre o conceito de frequência, foi demonstrado na flauta que as frequências mais altas
soam agudo, enquanto as mais baixas soam graves. Comentei que as notas musicais são
frequências específicas. Depois o professor explicou o conceito de comprimento de onda
(distância entre duas cristas ou dois vales), complementei, dizendo que a relação do
comprimento de onda era inversamente proporcional a frequência, e que usaríamos esse
princípio para construir os instrumentos, posteriormente. Por fim, foi resumido no quadro a
relação da frequência com a altura (nota musical), da amplitude com a intensidade (dinâmica),
além da noção de duração e timbre.
A turma pareceu muito interessada no conteúdo abordado, principalmente quando
exemplificávamos de forma prática, tocando a flauta, ou usando outro elemento palpável ao
invés de apenas fórmulas ou conceitos abstratos.
3 PLANEJAMENTO

Após tomar conhecimento dos espaços e contextos da escola e das turmas, através das
observações e análise do projeto político pedagógico, o licenciando se encontra em condições
para começar o planejamento das aulas que serão ministradas. Hentschke e Del Ben (2003)
ressaltam que “a importância do planejamento está justamente no fato de ele ser uma projeção
daquilo que queremos, daquilo que pretendemos em relação ao ensino e de como ele poderá ser
realizado em sala de aula.” (p. 178).
Sem reflexão a respeito da realidade da escola e dos alunos, que só é possível conhecer
através das observações, um planejamento coerente e aplicável se torna uma utopia. Como
enfatiza Romanelli (2008) “[...] é apenas por meio de um processo de planejamento bem
estruturado que se promove educação musical de qualidade.” (p. 141).
No entanto, por ser passível de muitas interpretações, a palavra planejamento precisa
ser definida e contextualizada com maior clareza. Hentschke e Del Ben (2003) esclarecem que
podemos identificar pelo menos quatro âmbitos onde se planeja o ensino:

O âmbito político, por exemplo, regula as políticas curriculares de um país, estado ou


município. [...] o âmbito dos materiais didáticos, constituído por livros, apostilas,
softwares, currículos, etc. [...] o planejamento que ocorre no âmbito da escola, a qual
elabora um projeto educativo que visa dar coerência ao trabalho de todos os seus
professores. Finalmente, o âmbito do professor, que prepara o planejamento de um
curso ou disciplina [...]. (p. 177).

Nesse contexto, quando falamos em planejamento, estamos nos referindo ao âmbito do


professor, aquilo que será refletido e proposto previamente, para ser usado na sala de aula, que
costumamos definir como plano de ensino e plano de aula. Romanelli (2008) comenta que
“plano de ensino é sinônimo de plano de unidade ou planejamento geral; enquanto plano de
aula se refere às unidades menores de planejamento e representa a sistematização de cada aula.”
(p. 132).
A respeito do plano de ensino e plano de aula, Romanelli (2008) ainda explica que:

[...] sendo um roteiro que envolve toda uma unidade de estágio de forma genérica, o
plano de ensino devera expor de forma clara o tema condutor das aulas de música [...].
Muito mais do que atender a uma exigência acadêmica, o plano de aula constitui um
documento que cristaliza o trabalho de elaboração de uma aula. (p. 134).
22

Dessa forma, para que o planejamento realmente faça sentido e ajude o professor, é
necessário que alguns elementos estejam expostos de forma clara e objetiva. Romanelli (2008)
conclui que:

É fundamental que o planejamento apresente os objetivos, os conteúdos e os


procedimentos metodológicos do ensino relacionando as exigências educacionais com
a realidade dos alunos [...]. Deve ainda, garantir unidade e coerência na condução do
trabalho docente. Finalmente, deve ser flexível, permitindo urna constante atualização
em função dos resultados educacionais verificados. (p. 131).

Outro aspecto que está diretamente ligado ao planejamento é a avaliação. A respeito


deste elemento, Hentschke e Del Ben (2003) comentam que:

[...] avaliar não é somente julgar a qualidade das aprendizagens dos alunos ou o seu
rendimento. A avaliação é essencial para a efetivação do planejamento [...]. Avaliar é
estabelecer um diálogo entre o que foi planejado e o que constituiu, de fato, a prática
de ensinar. (p. 184).

No entanto, alguns professores questionam a validade da avaliação, no contexto das


aulas de música. A visão romantizada da arte, que escraviza o aprendizado musical a clichês
como ‘‘nascer com o dom’’ ou ‘‘o que vale é se expressar’’, contribuem negativamente para
isso. Como é exposto por Hentschke e Del Ben (2003):

Ao tratar a expressão musical do aluno como algo individual e válido por si só,
independentemente dos possíveis comentários, sugestões e intervenções feitos pelo
professor, os professores não estarão contribuindo para o desenvolvimento musical de
seus alunos. (p.185-186).

Desse modo, para que a avaliação permaneça cumprindo as funções que lhe cabe, o
professor de música precisa incluir nesse quesito todo o processo decorrente das aulas, não se
restringindo, por um lado, a uma única “prova objetiva” como instrumento e nem, por outro
lado, a uma visão totalmente subjetiva ou descomprometida em relação às aulas e ao
desenvolvimento dos alunos. Como conclui Hentschke e Del Ben (2003):

A melhor forma de avaliar a aprendizagem musical dos alunos é investigando e


analisando suas práticas musicais [...]. A partir dessa concepção a avaliação passa a
focalizar não os aspectos pessoais ou individuais dos alunos, mas os produtos musicais
provenientes das atividades [...]. (p. 186).

Por fim, acredito que o enfoque nos produtos musicais e no processo como um todo
possibilite ao professor de música uma atitude e olhar diferenciados sobre a avaliação.
23

3.1 CRONOGRAMA DE ESTÁGIO

02/04/2018 - OBSERVAÇÃO 1 TURMA 302 1 Hora/Aula


02/04/2018 - OBSERVAÇÃO 2 TURMA 203 1 Hora/Aula
02/04/2018 - OBSERVAÇÃO 3 TURMA 202 1 Hora/Aula
04/04/2018 - OBSERVAÇÃO 4 TURMA 301 1 Hora/Aula
04/04/2018 - OBSERVAÇÃO 5 TURMA 103 1 Hora/Aula
04/04/2018 - OBSERVAÇÃO 6 TURMA 101 1 Hora/Aula
09/04/2018 - OBSERVAÇÃO 7 TURMA 303 1 Hora/Aula
09/04/2018 - OBSERVAÇÃO 8 TURMA 302 1 Hora/Aula
09/04/2018 - OBSERVAÇÃO 9 TURMA 203 1 Hora/Aula
09/04/2018 - OBSERVAÇÃO 10 TURMA 202 1 Hora/Aula
11/04/2018 - OBSERVAÇÃO 11 TURMA 301 1 Hora/Aula
11/04/2018 - OBSERVAÇÃO 12 TURMA 103 1 Hora/Aula
11/04/2018 - OBSERVAÇÃO 13 TURMA 101 1 Hora/Aula
17/04/2018 - OBSERVAÇÃO 14 TURMA 202 1 Hora/Aula
18/04/2018 - OBSERVAÇÃO 15 TURMA 301 1 Hora/Aula
19/04/2018 - OBSERVAÇÃO 16 TURMA 302 1 Hora/Aula

25/04/2018 - REGÊNCIA 1 TURMA 301 1 Hora/Aula


02/05/2018 - REGÊNCIA 2 TURMA 301 1 Hora/Aula
09/05/2018 - REGÊNCIA 3 TURMA 301 1 Hora/Aula
16/05/2018 - REGÊNCIA 4 TURMA 301 1 Hora/Aula
21/05/2018 - REGÊNCIA 5 TURMA 302 1 Hora/Aula
21/05/2018 - REGÊNCIA 6 TURMA 203 1 Hora/Aula
21/05/2018 - REGÊNCIA 7 TURMA 202 1 Hora/Aula
11/06/2018 - REGÊNCIA 8 TURMA 302 1 Hora/Aula
11/06/2018 - REGÊNCIA 9 TURMA 203 1 Hora/Aula
11/06/2018 - REGÊNCIA 10 TURMA 202 1 Hora/Aula
18/06/2018 - REGÊNCIA 11 TURMA 302 1 Hora/Aula
18/06/2018 - REGÊNCIA 12 TURMA 203 1 Hora/Aula
18/06/2018 - REGÊNCIA 13 TURMA 202 1 Hora/Aula
25/06/2016 - REGÊNCIA 14 TURMA 302 1 Hora/Aula
25/06/2016 - REGÊNCIA 15 TURMA 203 1 Hora/Aula
25/06/2016 - REGÊNCIA 16 TURMA 202 1 Hora/Aula
24

3.2 PLANO DE ENSINO

a) Tempo de Aula: 1 hora/aula (totalizando 4 horas/aula por turma).

b) Tema de Estágio: Ensino dos elementos básicos da acústica e teoria musical, através da
construção de instrumentos musicais com canos de PVC e prática musical em conjunto

c) Objetivo Geral: Adquirir a consciência dos elementos acústicos básicos envolvidos na


construção de instrumentos musicais, assim como de alguns conteúdos musicais e sua utilização
prática tocando o instrumento, despertando o interesse no aprendizado musical.

d) Justificativa: Atualmente, vemos um grande esforço para tornar a música novamente uma
disciplina obrigatória nas salas de aula. Apesar dos recentes avanços na lei, continuamos vendo
professores sem formação específica atuando em escolas. Nesse sentido, confirmamos a
importância dos cursos de licenciatura em música no sentido de qualificar os futuros
profissionais da área. Como descreve Shafer:

[...] sendo a música uma disciplina complexa, que abrange teoria e prática de
execução, deve ser ensinada por pessoas qualificadas para isso. Sem concessões. Não
permitiríamos que alguém que tivesse frequentado um curso de verão em Física
ensinasse a matéria em nossas escolas. Por que haveríamos de tolerar essa situação
com respeito à Música? Por acaso ela está menos vinculada a atos complexos de
discernimento? Não. (SHAFER, apud AMATO, 2006, p. 158).

Quando pensamos na realidade do ensino público brasileiro, algumas dificuldades


surgem para o professor de música, dentre elas, a ausência da música como disciplina autônoma
e, consequentemente, a falta de recursos materiais. Considerando essas deficiências e a
dificuldade de acesso a uma estrutura ideal em muitos locais, uma solução possível é a
construção de instrumentos musicais utilizando materiais, em sua maioria, recicláveis e de fácil
aquisição.
No entanto, é importante frisar que, independentemente de necessidades práticas, a
escolha pela construção de instrumentos musicais ocorreu por ser um excelente recurso
pedagógico, pois propicia uma oportunidade de trabalhar elementos da Física (Acústica),
propondo uma abordagem interdisciplinar onde os alunos poderão experienciar de forma teórica
e prática os elementos relacionados à produção do som de um instrumento musical, como:
25

Vibração, frequência, afinação, proporções matemáticas entre as notas musicais, etc. Como
descreve Ranghetti (2013):

Direcionando o olhar para práticas educativas interdisciplinares, percebemos que


nessa prática pedagógica a relação é regida pela parceria [...] a parceria possibilita a
compreensão do conhecimento através da partilha de responsabilidades diante das
atividades a serem desenvolvidas. [...] a parceria requer humildade (p. 4).

A ideia para a utilização de canos de PVC como material principal para a construção
dos instrumentos musicais surgiu a partir de uma atividade proposta durante a disciplina
Práticas Pedagógicas no Ensino Médio, parte do currículo do curso de Licenciatura em Música
do IPA. Durante a aula, construímos a escala natural completa com os canos. O processo, no
entanto, foi muito cansativo, exigindo que cortássemos diversas vezes cada cano até chegarmos
às afinações corretas, em um processo de “tentativa e erro”. Fui para casa refletindo se haveria
alguma forma mais objetiva para chegarmos às medidas e afinações corretas. Pesquisando sobre
o assunto, encontrei alguns vídeos e artigos que explicavam o experimento de Pitágoras com o
instrumento chamado monocórdio e as proporções matemáticas entre as primeiras notas da série
harmônica5. Dessa forma, cheguei à conclusão que poderia adaptar esses princípios para a
construção dos instrumentos. Após alguns cálculos, utilizando como base o comprimento do
cano que havia feito em aula, encontrei as medidas exatas das outras notas musicais,
possibilitando construí-las facilmente.
Por outro lado, somente construir os instrumentos musicais, apesar de ser um processo
complexo, não configura uma prática musical, propriamente dita. Dessa forma, em uma
segunda etapa, atividades de prática em conjunto vem proporcionar uma experiência musical
mais completa, além de ser uma oportunidade de aproximar os alunos da cultura brasileira,
através da utilização de repertório de música popular brasileira. Como nos expõe Bastião
(2012):

A prática de conjunto instrumental pode ser uma eficiente estratégia metodológica


para o educador musical, pois, envolvendo diversas formações musicais, favorece o
trabalho em diversos contextos educacionais e com alunos de diferentes faixas
etárias e níveis de conhecimento musical. (p. 60).

Dessa forma, buscando um trabalho de musicalização diferenciado, proponho um


trabalho onde os alunos aprendam os conceitos básicos sobre acústica e a construção de

5
Todo som produzido na natureza produz uma frequência fundamental que é acompanhada de frequências
secundárias (harmônicos), observados em uma série com proporções matemáticas fixas.
26

instrumentos musicais com canos de PVC, culminando posteriormente em atividades de prática


em conjunto, utilizando repertório do folclore e/ou música popular brasileira. Acredito que
estimulando a criatividade, imaginação, sensibilidade, coordenação motora e afetividade,
podemos levar o aluno a um entendimento e um relacionamento mais profundo com a música.

e) Metodologia: Aulas teórico/expositivas; Construção de instrumentos musicais em aula;


Prática musical em conjunto, com repertório baseado em música popular brasileira; Apreciação
de gravações de áudio

f) Avaliação: Através de exercícios práticos ao longo das aulas, a avaliação será constituída
pela observação de três critérios:
• Entendimento dos princípios básicos sobre acústica trabalhados e utilização prática dos
instrumentos durante a prática em conjunto
• Empenho e resultado da construção dos instrumentos musicais ao longo das aulas.
• Interesse, vontade de aprender e superar as dificuldades e participação durante as aulas.
27

3.3 PLANO DE AULA

3.3.1 Primeira Regência

a) Descrição das Atividades


Nessa primeira aula, será abordado, de forma simplificada, alguns conceitos básicos de
Acústica e Música: Definição de Onda Sonora, Frequência (altura), Amplitude (intensidade),
Comprimento de Onda, Notas Musicais. Algumas turmas já terão visto alguns dos conceitos na
aula de Física, como foi previamente combinado com o professor da escola. Para abordar o
conteúdo de uma forma mais concreta e visual, será reproduzido de forma simplificada o
famoso experimento de Pitágoras com o instrumento chamado monocórdio. Como não
disponho de um monocórdio clássico, um violão será utilizado. O experimento consistirá
basicamente em demonstrar o que acontece com uma frequência (nota musical) ao diminuirmos
o tamanho da corda nas proporções de 1/2; 2/3 e 3/4. Afinando a corda solta como uma nota
DÓ, as outras serão respectivamente a nota DÓ (8º acima), nota SOL e nota FÁ. Como nos
descreve Coelho (2016) em sua tese de mestrado:

Como a frequência é inversamente proporcional ao comprimento da corda e a


velocidade de propagação da onda é a mesma (em um mesmo meio, com uma
mesma fonte), temos a relação f2/f1= l1/l2, entre as frequências e os
comprimentos da corda. Podemos definir f1 como a frequência emitida pela
corda solta (a frequência fundamental, de comprimento L1), correspondendo à
nota musical que arbitrariamente podemos chamar de dó. Se atribuirmos o
valor 1 a f1, temos que f2 será, respectivamente, 3/2, para a nota sol
(considerando que o comprimento da corda vibrante é 2/3), 4/3, para a nota fá
(considerando que o comprimento da corda vibrante é 3/4). (p. 27).

Após a demonstração teórico/prática dos conceitos, será explicado que a proposta do


estágio será baseada na construção dessas notas citadas (DÓ, SOL, FÁ), utilizando canos de
PVC para posterior prática em conjunto. As três notas serão levadas prontas, já construídas,
para que a turma experiencie a sonoridade dos instrumentos e vislumbre o final do processo.
Por fim, a partir da medida previamente informada da nota DÓ, pedirei que a turma
calcule as medidas necessárias para que os canos de PVC tenham a afinação das notas SOL e
FÁ.
Para que possamos construir os instrumentos, passarei uma lista de materiais que
deverão ser trazidas por cada aluno na próxima aula: 1 metro de cano de PVC (75mm ou 50mm);
um tampão para o cano, com o mesmo diâmetro; uma serra; uma fita métrica; um esmalte de
28

unha colorido, palitos de madeira (de churrasquinho). Além disso, utilizaremos um aplicativo
de Celular para afinar os instrumentos, chamado Da Tuner Lite, que deverá ser instalado pelos
alunos em seus celulares.

b) Objetivos Específicos:
• Abordar os conceitos básicos de Acústica/Música
• Propor a exploração dos conteúdos de forma prática, através da construção de
instrumentos musicais de canos de PVC
• Desenvolver o raciocínio lógico

c) Conteúdos: Conceitos de Acústica e Teoria Musical (Onda sonora, Amplitude, Frequência,


Comprimento de Onda, notas musicais); Contexto Histórico do surgimento das notas musicais
e experimento de Pitágoras com o Monocórdio.

d) Recursos materiais:
• Um violão
• Quadro branco, canetão e apagador
• Folhas impressas (xerox) com o resumo do conteúdo trabalhado

3.3.2 Segunda Regência

a) Descrição das Atividades


A aula iniciará relembrando os conceitos de acústica trabalhados na aula anterior e
solucionando possíveis dúvidas.
Após cada aluno calcular as medidas dos canos de PVC correspondentes a cada nota
musical, os instrumentos serão construídos. A turma será separada em 3 grupos, sendo que cada
um construirá umas das notas musicais (DÓ, FÁ ou SOL). Uma explicação sobre o
funcionamento do aplicativo de celular, que será utilizado para afinação dos instrumentos, será
necessária. Como o aplicativo utiliza a nomenclatura americana para as notas musicais (C, D,
E, F, G, A, B), ao invés da latina (DÓ, RÉ, MI, FÁ, SOL, LÁ, SI), será explicada a equivalência
entre elas. Após a divisão dos grupos, os alunos deverão cortar os canos de acordo com as
medidas obtidas, utilizando uma fita métrica e uma serra, e conferindo com o celular se a
29

afinação estará adequada ou se serão necessários alguns ajustes. Por fim, com o esmalte de unha
colorido, o tampão do cano será pintado, para deixá-lo com um visual mais atrativo.

b) Objetivos Específicos:
• Exercitar e aplicar de forma prática os conceitos teóricos sobre acústica
trabalhados na aula anterior
• Preparar o material necessário (instrumentos musicais) para a prática em
conjunto que será realizada nas próximas aulas
• Despertar o interesse pela construção e funcionamento dos instrumentos
musicais, desenvolvendo a concentração e habilidade manual necessária.

c) Conteúdos: Conceitos sobre Acústica e Teoria Musical (Onda sonora, Amplitude,


Frequência, Comprimento de Onda, notas musicais); Funcionamento de um aplicativo de
celular utilizado para afinação de instrumentos, noções sobre construção de instrumentos
musicais.

d) Recursos materiais:
• 1 metro de cano de PVC, com seu tampão de mesmo diâmetro
• 1 Serra
• Fita métrica
• Esmalte de unha colorido
• Celular com aplicativo Da Tuner Lite instalado
• Palitos utilizados para churrasquinho ou algodão doce, de madeira

3.3.3 Terceira Regência

a) Descrição das Atividades


A terceira aula começará com uma breve explicação e demonstração do conceito de
Pulso Musical. Gravações serão tocadas para servirem de referência aos alunos. Em seguida,
para avaliar a habilidade rítmica da turma, todos deverão bater palmas, de forma sincronizada,
marcando o pulso de cada uma das gravações tocadas.
30

Dando continuidade, a turma será separada em 3 grupos, ficando cada um com uma das
notas musicais construídas com os canos, na aula anterior. Será explicada a correspondência
entre o sistema Latino que nomeia as notas musicais e o sistema Americano (notação por
Cifras).
Em seguida, utilizando a Música Asa Branca, de Luiz Gonzaga, será distribuída uma
folha para cada aluno, contendo a letra e cifra harmônica. Através de batidas com os canos no
chão, os grupos manterão a pulsação da música. Em um segundo momento, de acordo com a
nota musical que dispõe, cada grupo tocará alternadamente, marcando também a base
harmônica da música. A melodia principal será cantada ou tocada com flauta doce pelo
professor.

b) Objetivos Específicos:
• Aprender o conceito de pulso musical e desenvolver a sua regularidade.
• Experienciar a prática em conjunto, utilizando os instrumentos musicais
construídos
• Desenvolver a coordenação motora, atenção e sensibilidade musical

c) Conteúdos: Percepção e Apreciação musical; Prática em Conjunto, Pulso Musical; Cifras


Harmônicas.

d) Recursos materiais:
• Cópias das folhas com letra e cifra da música trabalhada
• Instrumentos de PVC construídos
• 1 Flauta Doce
• Quadro Branco, Canetão e apagador
• Aparelho de som ou Celular para reproduzir os exemplos de áudio

3.3.4 Quarta Regência

a) Descrição das Atividades


A quarta aula aprofundará os conceitos discutidos na aula anterior, trabalhando com o
gênero musical Xote Nordestino e sua ‘‘levada rítmica’’ característica. A Música Esperando na
31

Janela, de Gilberto Gil, será usada para a prática em conjunto. Uma gravação da música será
tocada para servir de referência aos alunos. Em seguida, após a separação da turma nos mesmos
grupos (e Notas Musicais) da aula anterior, executarão por imitação o ritmo do Xote,
diretamente no cano de PVC. Abaixo segue a transcrição em partitura do padrão rítmico
completo.

Do mesmo modo que na terceira aula, será distribuída uma folha para cada aluno,
contendo a letra e cifra harmônica da música. A melodia principal será cantada ou tocada com
flauta doce pelo professor, enquanto os alunos mantem a ‘‘levada rítmica’’ e sustentam a base
harmônica, à medida que se alternam entre os grupos, seguindo a sequência dos acordes pela
folha impressa.

b) Objetivos Específicos:
• Estudar as características rítmicas do Gênero Musical Xote Nordestino
• Experienciar a prática em conjunto, utilizando os instrumentos musicais
construídos
• Desenvolver a coordenação motora, atenção e sensibilidade musical

c) Conteúdos: Percepção e Apreciação musical; Prática em Conjunto; Pulso, ‘‘Levada


Rítmica’’ e Cifras harmônicas; Características do Gênero Musical Xote

d) Recursos materiais:
• Cópias das folhas com letra e cifra da música trabalhada
• Instrumentos de PVC construídos
• 1 Flauta Doce
• Quadro Branco, Canetão e apagador
• Aparelho de som ou Celular para reproduzir os exemplos de áudio
4 RELATO DE PRÁTICA

As atividades práticas (regências) ocorreram com quatro turmas distintas.


Diferentemente da exposição no cronograma e nas observações, que seguem a ordem
cronológica em que as atividades aconteceram, esse capítulo mantém as regências organizadas
e agrupadas de acordo com a turma trabalhada. Dessa forma, são expostas as quatro regências
da primeira turma, seguidas pelas quatro regências da segunda, e assim por diante.

4.1 TURMA 301

4.1.1 Primeira Regência


Antes de começar a aula, levei até a sala alguns materiais que pretendia usar nos
exemplos relacionados à acústica, conteúdo que trabalharia nesta aula. Acredito que as relações
entre física e música devam ser exploradas em sala de aula pois, como nos expõe Tavares e
Souza (2007), ‘‘A ciência e a arte não devem ser consideradas como conhecimentos
antagônicos ou isolados, mas sim, complementares [...]. O estudo da acústica envolve diversas
áreas do conhecimento” (p. 2).
Assim que os alunos entraram na sala, fiz a chamada e distribuí cópias impressas
relacionadas ao tema.
Iniciando a aula, me apresentei e expliquei resumidamente a proposta de estágio, que
seria desenvolvida ao longo das próximas quatro aulas.
Primeiramente, expliquei à turma que uma onda sonora precisava de um meio para se
propagar, características das ondas mecânicas. Após desenhar no quadro uma representação
gráfica de uma onda, conversamos sobre a noção de amplitude (intensidade), frequência (altura
do som) e comprimento de onda.
A cada conceito trabalhado, busquei demonstrar de forma prática, através de exemplos
do cotidiano ou reproduzindo com o que tinha à disposição na sala. Desse modo, os alunos
interagiam, mostrando curiosidade sobre o assunto. Ao explicar sobre as frequências mais altas,
por exemplo, desenhei no quadro um modelo visual da onda, mostrando em seguida uma nota
aguda na flauta doce. Ao explicar sobre a variação da amplitude, toquei na flauta uma nota forte
e outra fraca.
33

Para confirmar se a turma havia entendido as definições trabalhadas, propus uma


atividade: Após tocar algumas notas na flauta, eles deveriam informar qual dos elementos
trabalhados eram mantidos ou alterados. Após tocar três notas iguais com intensidades
diferentes, a maioria soube informar que a amplitude havia mudado, enquanto a frequência se
mantinha igual. Do mesmo modo, quando toquei três notas diferentes com a mesma intensidade,
informaram corretamente que a frequência havia se alterado, enquanto a amplitude se mantinha
igual.
Dando continuidade, informei que falaríamos sobre as proporções matemáticas entre as
notas musicais. Usando um violão, que continha separada a corda mais grossa (afinada em DÓ),
reproduzi de forma simplificada o experimento feito por Pitágoras, usando o chamado
monocórdio. Como explica Miritz (2015) ‘‘O monocórdio é um instrumento de uma só corda
colocada sobre dois cavaletes fixos, presos em uma prancha de madeira, e um cavalete móvel
que gerava notas de frequências diferentes de acordo com sua posição’’. (p. 26).
Desse modo, demonstrei que o comprimento da corda era inversamente proporcional à
frequência da nota musical. Sempre demonstrando os conceitos de uma forma “palpável”,
percebia uma reação positiva dos alunos. Logo que introduzia algum termo técnico,
expressavam algum receio, mas assim que demonstrávamos com a flauta doce ou com o violão,
de forma prática, percebiam que já haviam tido contato com aquilo no dia a dia, não era “algo
de outro mundo”.
A reprodução do experimento de Pitágoras possibilitou que percebêssemos os seguintes
fenômenos acústicos: quando diminuíamos o comprimento da corda solta pela metade (nota
DÓ), a frequência dobrava (resultando a nota DÓ 8ª acima). Diminuindo o comprimento da
corda na proporção 2/3, a frequência aumentava na proporção 3/2 (resultando a nota SOL). E,
finalmente, quando diminuíamos o comprimento da corda na proporção 3/4, a frequência
aumentava na proporção 4/3 (resultando a nota FÁ). Assim, expliquei que seria possível
construir, com o mesmo raciocínio, instrumentos de canos de PVC, descobrindo o comprimento
exato necessário para cada nota musical. Como nos expõe Coelho (2016):

Música é algo com que os alunos convivem e muitos gostam, o que pode fornecer um
excelente motivador para o ensino de física. Pensando nisso, sempre que possível, e
que for conveniente, podemos tentar descrever fisicamente (e matematicamente) os
fenômenos sonoros observados na prática da música. (p. 25).

Dando continuidade, escrevi no quadro a medida (comprimento) que seria necessária


para construir a nota DÓ, com um cano de PVC de 75mm. Essa medida (1 metro e 30
34

centímetros) eu já havia calculado em casa previamente, a partir de um cano afinado que tinha
construído durante uma atividade no IPA. A partir desse valor informado, pedi que a turma
calculasse as medidas correspondentes às notas DÓ (8ª acima), SOL e FÁ. Anotamos os valores
na ficha impressa que havia distribuído no início da aula.
Para concluir, lembrei que os alunos deveriam trazer os materiais necessários para a
construção dos instrumentos, na aula seguinte. Uma das alunas, sentada à frente, disse que seria
muito trabalhoso trazer os canos e insistia que ‘‘não iria trazer nada’’. Também percebi alguns
alunos ao fundo, que não demonstravam muito interesse pelo assunto que abordava.
Conversando posteriormente com uma das professoras de artes da escola, me informou que essa
aluna em questão ‘‘sempre foi uma aluna difícil, que arrumava problema com os professores e
colegas desde criança’’. Como nos expõe Cardoso (2015):

Muitos responsáveis pelos alunos passam o dia fora de casa, trabalhando ou


procurando emprego e acabam não tendo tempo para se dedicarem às crianças. A
responsabilidade de educar é transferida para a escola. Fica a cargo do professor,
impor limites que deveriam ter sido ensinados dentro de casa. (p. 28)

No entanto, achei melhor não discutir com a aluna já que, de modo geral, a grande
maioria da turma parecia interessada no conteúdo e nas atividades que seriam feitas
posteriormente. Em seguida, com a ajuda de um aluno músico presente, toquei a melodia de
Asa Branca, de Luiz Gonzaga, na flauta doce, enquanto ele mantinha a ‘‘levada rítmica’’ do
gênero baião com um dos canos de PVC que eu havia trazido. Dessa forma, a turma pareceu se
animar com o resultado e, consequentemente, com as atividades que seriam feitas nas aulas
seguintes.

4.1.2 Segunda Regência


Antes do início da aula, organizei na sala os materiais que seriam necessários para as
atividades. Durante as observações, percebi que as turmas não costumavam levar o que a
professora pedia. Dessa forma, consegui por conta própria parte do que seria necessário, não
comprometendo a atividade caso isso se repetisse.
Assim que iniciamos, perguntei se todos haviam trazido o material. Como previa, apenas
6 alunos de 24 (que constavam na lista de chamada) trouxeram. Dessa forma, separei a turma
em três grupos e distribuí os materiais extras. Pedi que os demais ajudassem os colegas na
construção dos instrumentos, construindo em casa o seu, para entregar pronto na aula seguinte.
35

Após uma rápida revisão sobre a relação entre os comprimentos dos canos e as notas
musicais (que havíamos trabalhado na aula anterior), escrevi no quadro as medidas que seriam
necessárias para que os instrumentos ficassem afinados, respectivamente nas notas DÓ, FÁ e
SOL. Cada grupo ficou responsável por construir uma das notas. A medida que os alunos
cortavam os canos, conferíamos a afinação usando o aplicativo Da Tuner Lite, que alguns
haviam instalado nos celulares (como foi solicitado anteriormente). Os aplicativos de celular
são ferramentas muito úteis, possibilitando muitos recursos para as aulas de música. Como nos
expõe Gabriel (2013):

Os impactos das tecnologias digitais em nossas vidas são sem precedentes [...] tem
causado uma modificação acentuada na velocidade da informação e desenvolvimento
tecnológico, acelerando em um ritmo vertiginoso o ambiente em que vivemos. (p.3).

Quando os alunos percebiam que a afinação ficava perfeitamente adequada à nota


proposta, já na primeira tentativa, se animavam ao ver que os elementos que havíamos
trabalhado teoricamente, na primeira aula, realmente funcionavam na prática.
A aula seguiu com o processo de construção dos instrumentos, colando os feltros nos
tampões e pintando com esmalte de unha. Alguns alunos decoraram o cano livremente, com
alguns desenhos. Como descreve Cerveira (2005):

A aplicação didática e pedagógica de instrumentos acústicos, construídos pelos


próprios alunos, a partir de materiais recicláveis, poderá ser um recurso de grande
valor para o educador e para os educandos. O fazer musical pode ser motivado pela
construção e exploração destes instrumentos. (p.1)

De modo geral, percebi que apenas uns 2 ou 3 alunos permaneceram desinteressados na


aula. A maioria da turma se envolveu na atividade, ajudando os colegas, resultando em
instrumentos relativamente bem afinados que permitiriam uma boa atividade na sequência.
Por fim, recolhi todos os canos e guardei em uma sala da própria escola, para que
pudéssemos usá-los na aula seguinte.

4.1.3 Terceira Regência


Assim que entrei na sala, informei à turma que nossa aula seria no laboratório de
ciências, já que ficava no andar de baixo, longe das outras salas de aula. Dessa forma,
poderíamos tocar os instrumentos sem nos preocuparmos com a intensidade do som produzido.
Chegando na sala, pedi que a turma se dividisse nos mesmos 3 grupos da aula anterior,
36

distribuindo entre eles os canos e respectivas notas musicais construídas. Oliveira (2014)
acredita que na prática musical em conjunto ‘‘acontece o processo de aprendizagem de forma
colaborativa, onde os alunos aprendem uns com os outros, seja observando os colegas,
conversando fora dos ensaios, por imitação, etc.’’ (p.10).
Desse modo, iniciei explicando o conceito de pulso musical, batendo palmas e
acompanhando uma gravação que dispunha. Pedi que todos batessem os canos no chão
acompanhando o pulso da música. Percebi alguma dificuldade por parte de alguns alunos para
manter a sincronia com o grupo. Meu plano era trabalhar o padrão rítmico do Gênero Baião
nesse período de aula, executando a música Asa Branca, de Luiz Gonzaga. No entanto, ao
perceber a dificuldade rítmica da turma, mudei de ideia e trabalhei diretamente o ritmo
simplificado do Xote Nordestino, já que esse não continha a síncope característica do Baião.
Como explica Rodrigues (2012):

Durante o primeiro semestre, pude verificar na prática que, nem sempre, tudo ocorre
dentro da sala como planejamos no papel, sendo necessário perceber o que não está
funcionando durante a aula e adaptar, ou até mesmo improvisar outras atividades para
que a aula de música aconteça. (p. 4).

Assim que conseguimos sincronizar razoavelmente as batidas dos canos, marcando o


pulso, sugeri o acréscimo de uma batida com a vareta ao lado do cano, no contratempo. O ritmo
resultante, uma versão simplificada do Xote, ficaria o seguinte:

Em seguida, distribuí para cada aluno uma folha, contendo a letra e cifra harmônica da
Música Asa Branca. Após explicar no quadro a correspondência entre as notas musicais no
sistema latino e no sistema americano, executei a gravação da música e mostrei como as trocas
harmônicas aconteciam, seguindo a referência visual impressa.
Por fim, adaptando o padrão rítmico do Xote Nordestino sobre a música (originalmente
um Baião) começamos a sincronizar as batidas de cada grupo, em alternância, à medida que a
harmonia da música mudava. Comecei cantando a melodia enquanto regia a turma. Assim que
percebemos uma sincronia razoável, passei a tocar a melodia com a flauta doce. Apesar de
algumas imperfeições (alunos dessincronizados, pulso oscilando), conseguimos executar a
37

música algumas vezes e a turma mostrou-se animada. Considerando a pouca experiência


musical da maioria da turma, acredito que atingi um resultado satisfatório, nessa primeira aula
de prática em conjunto.

4.1.4 Quarta Regência


Novamente utilizando a sala de ciências, iniciamos a última aula com turma 301.
Após uma rápida revisão da correspondência entre os sistemas latino e sistema
americano de notação musical, dividimos novamente a turma nos mesmos grupos da aula
anterior, cada um com o cano de PVC que construiu. Uma folha impressa foi distribuída para
cada aluno, contendo a letra e cifra harmônica da música Esperando na Janela, de Gilberto
Gil. Em seguida, executei a gravação da música e pedi que a turma acompanhasse através da
folha impressa. Como Cardoso (2015) expõe em sua monografia:

A apreciação estimula os alunos a observar os padrões rítmicos, identificar os


instrumentos que estão ouvindo, a ordem em que os instrumentos aparecem na música
etc. Isso pode fazer com que os alunos fiquem motivados a ouvir a música várias
vezes, o que pode aumentar o foco da turma na atividade proposta.’’ (p.17).

Após recordar a ‘‘levada rítmica’’ do xote, que a havíamos trabalhado na aula anterior,
iniciamos a atividade de prática em conjunto, intercalando os grupos de acordo com a troca
harmônica da música. Uma nítida melhora na sincronia entre os grupos foi percebida, em
comparação à aula anterior. Dessa forma, sugeri que os alunos confiantes acrescentassem uma
batida a mais com o cano no chão. Preferi manter ainda simplificado o padrão rítmico do Xote,
articulando apenas uma semínima no segundo tempo (ao invés de duas colcheias). Segue abaixo
a notação que representa o ritmo resultante.

À medida que a melodia da música era cantada, as entradas de cada grupo eram
sincronizadas com a regência. No entanto, quando a regência parava para que pudesse tocar a
melodia na flauta doce, a turma ficava insegura, dessincronizando ou parando de tocar.
38

Chamei a atenção dos alunos para observassem o som, mais do que as referências
visuais. Como havia pouco tempo para completar a atividade, foi sugerido pela turma que
alguém marcasse as entradas dos grupos, para que eu pudesse tocar a flauta. Um dos alunos,
que estava ao fundo e não participava ativamente, se prontificou a essa função muito animado.
Para minha surpresa, conseguimos executar toda a música de forma razoavelmente
sincronizada. Como comenta Oliveira (2014), a respeito dos resultados da utilização da prática
em conjunto nas aulas de música:

[...] há uma motivação maior por partes dos alunos, principalmente os que estão
começando, pois rapidamente já se verão inseridos em um contexto musical, além
disso, acontece uma troca de informações que é bem-vinda para o desenvolvimento
dos estudantes. (p.10).

Por fim, agradeci à turma pela atenção e disposição ao longo dessas quatro aulas.
Considerando o pouco tempo disponível, considero que obtive um resultado satisfatório,
oferecendo aos alunos uma experiência e contato com elementos musicais que a grande maioria
nunca havia tido.

4.2 TURMA 302

4.2.1 Primeira Regência


Iniciei a primeira regência da turma 302 explicando a proposta de estágio que seria
trabalhada nas próximas quatro aulas. Primeiramente, recordando os elementos básicos a
respeito de acústica, que havíamos abordado na aula de física, em parceria como professor da
disciplina, durante uma das observações. Como afirmam Grillo e Perez (2016) ‘‘A
interdisciplinaridade é hoje reconhecida como sendo de grande importância e necessidade’’ (p.
65).
Da mesma forma trabalhada com a turma anterior, busquei demonstrar os conceitos de
forma prática, sempre que possível, para que a turma mantivesse o interesse e interagisse o
máximo possível. Quando estávamos revendo os conceitos de onda sonora, frequência,
amplitude, e comprimento de onda, um aluno perguntou se a “velocidade do som” se alterava.
Expliquei que a velocidade de propagação da onda sonora estava relacionada com o “meio”
onde o som era produzido, sendo, nesse caso, o ar. Como estávamos produzindo som sempre
39

no ar, a velocidade era constante. Fiquei feliz com a iniciativa do aluno, mostrando que estava
interessado no assunto da aula.
Dando continuidade, reproduzimos o experimento de Pitágoras com o monocórdio. A
respeito do violão (que utilizei para simular um monocórdio), Grillo e Perez (2016) chamam a
atenção para o fato que:

[...] o que presenciamos é uma quantidade enorme de alunos portando instrumentos


musicais, principalmente, o violão. Esse instrumento na realidade é um grande
laboratório que pode ser explorado e, dessa forma, juntamente com outros recursos,
facilitar o aprendizado [de acústica]. (p. 62).

Perguntei se todos os alunos já conheciam o nome das sete notas musicais naturais,
escrevendo-as no quadro. Todos responderam que sim. Em seguida, informei que reproduziria
com eles um experimento feito a mais de 2.000 anos, pelo qual foram descobertas as proporções
matemáticas que embasam as notas musicais. Apesar de conceitos como proporções
matemáticas tenderem a “assustar” um pouco os alunos, a curiosidade e interesse da maioria
despertava instantaneamente à medida que o funcionamento do monocórdio era demonstrado,
juntamente como o resultado sonoro da corda solta quando diminuíamos seu comprimento nas
proporções 1/2, 2/3 e 3/4.
Após o entendimento das relações entre os comprimentos da corda e as notas musicais
geradas, expliquei que aplicaríamos esses mesmos princípios na construção dos instrumentos
musicais com canos de PVC. Moura e Neto (2011) enfatizam que ‘‘A física acústica tem ligação
com a disciplina artes, por explicar como o som é criado e, consequentemente, como a música
é desenvolvida.’’ (p. 13). A turma parecia muito interessada, pois interagia e não conversava
paralelamente.
Por fim, usando a folha impressa que havia entregado a todos, contendo o resumo do
conteúdo trabalhado, pedi que a turma calculasse as medidas necessárias para cada nota
musical. Para isso, informei a medida da nota DÓ (130,0 cm), que serviria de referência.
Consegui concluir o plano de aula dentro do tempo hábil (40 minutos), deixando
combinado com a turma os materiais que deveriam ser trazidos na aula seguinte, para
construirmos os instrumentos.

4.2.2 Segunda Regência


Ao retomarmos as aulas da turma 302, apenas um aluno (dos 24 matriculados) trouxe o
material que eu havia solicitado, para a construção dos instrumentos. Essa situação acabou
40

gerando uma certa frustração, já que inviabilizou as atividades que haviam sido cuidadosamente
planejadas. No artigo: Os desafios da EJA e sua relação com a evasão, de Griffante, Bertotti e
Silva (2013), uma pesquisa realizada com 81 discentes e sete docentes da EJA expõe que estes:

[...] se sentem desmotivados diante do desrespeito e do cansaço físico, sendo estes os


maiores desafios apontados, seguidos por: falta de meios e recursos necessários,
diferentes faixas etárias, trabalhar a diversidade, contexto social e a falta de interesse
e participação por parte dos alunos. (p. 8).

No entanto, não podemos esquecer a realidade sócio/cultural que os alunos estão


inseridos. No mesmo artigo, é enfatizado que “[...] o docente da Educação de Jovens e Adultos
precisa sempre motivar os seus discentes, considerando que a maioria chega à sala de aula
cansado e desestimulado pelas atribulações do trabalho e dos problemas familiares.” (p. 5-6).
Desse modo, precisei adaptar meu plano de aula, antecipando as atividades que
pretendia fazer na semana seguinte.
Como os instrumentos de PVC construídos pela primeira turma estavam guardados na
sala de Ciências, levei a turma para lá. Já que não seria possível todos experienciarem o
processo de construção, devido a falta do material, mostrei diretamente os instrumentos prontos,
explicando de que forma a outra turma havia adaptado os princípios de Pitágoras aos canos. Em
seguida, utilizando os materiais daquele único aluno que trouxe, demonstrei o processo de
construção para todos, de forma objetiva, para que sobrasse tempo para iniciarmos as atividades
de prática em conjunto.
Em um primeiro momento, separamos a turma em três grupos, distribuindo uma nota
musical para cada um. Para avaliar a musicalidade da turma, pedi que todos batessem o cano
no chão, acompanhando o pulso musical que eu marcava com palmas. Percebi que, de modo
geral, os alunos conseguiam manter a pulsação com consistência razoável (sem dessincronizar
ou acelerar).
Dando continuidade, escrevi no quadro a sequência das sete notas musicais naturais e
expliquei a correspondência entre o sistema latino e sistema americano. Assim, poderiam
entender as Cifras escrita acima da letra da música Asa Branca, contida nas folhas impressas,
distribuídas para a turma. Pedi, então, que a turma batesse o cano no chão, respeitando a
pulsação da música, à medida que eu cantava a melodia e regia. Cada grupo deveria tocar apenas
no momento em que sua nota (cifra) estivesse marcada sobre a letra. A maior dificuldade dos
alunos foi entender o momento da troca de um grupo para o outro, sentindo a mudança da base
harmônica da música. Um dos alunos, que tocava violão, disse que não havia entendido quantas
vezes deveriam bater o cano no chão, antes da alternância de grupo. Expliquei que cada
41

quadrado envolvendo a letra da música (vide a letra cifrada, no anexo 1.2), correspondia a duas
batidas no chão (2 tempos musicais). Dessa forma, enfatizei a marcação dos tempos juntamente
com a regência, facilitando assim o entendimento da estrutura rítmica da música e das trocas
harmônicas.
Ao final da aula, informei que continuaríamos a atividade na semana seguinte,
explorando mais a fundo o ritmo que usaríamos para acompanhar a música.

4.2.3 Terceira Regência


Iniciamos a terceira aula da turma 302 revisando alguns dos conceitos vistos
anteriormente, como a correspondência entre as cifras e as notas musicais, além da noção de
pulso musical. Acredito que essa retomada no início de cada aula seja muito importante para
que as turmas não percam de vista o caminho e direção que estamos percorrendo. Como expõe
Romanelli (2008) ‘‘[...] é no começo da aula que se fará referência ao que foi visto
anteriormente, incitando os alunos a entenderem que, apesar de haver uma interrupção
temporal, existe uma ligação entre aulas diferentes.’’ (p. 137).
Solicitei que a turma pegasse as folhas impressas da música Asa Branca, distribuídas na
aula anterior. Forneci mais algumas folhas para os alunos que haviam faltado anteriormente ou
esquecido de trazer.
Para trabalhar a percepção através da apreciação musical, executei uma gravação da
música Asa Branca, para que servisse de referência à turma. Durante a execução, bati palmas
acompanhando o pulso da música, com o intuito de ajudar os alunos a relacionarem e
perceberem, através de um exemplo prático, o que havíamos conversado anteriormente. Em
seguida, pedi que eles também acompanhassem a gravação com palmas.
Após uma sincronia razoável entre os alunos e a música, sugeri que se dividissem
novamente nos mesmos grupos da aula anterior. Como alguns alunos haviam faltado,
precisaram se adaptar à atividade, exigindo um pouco mais de esforço. Distribuímos entre os
grupos os canos de PVC correspondentes a cada nota escolhida anteriormente.
Enquanto os alunos marcavam o pulso da música batendo os canos no chão, eu ajudava
com a regência, marcando o momento de parar e trocar de grupo, seguindo a cifra harmônica
da música. Assim que conseguimos uma certa regularidade na pulsação e alternância das notas,
pude tocar a melodia da música na flauta doce.
Ao final da aula, conseguimos tocar a estrutura básica da música algumas vezes, apesar
de alguns erros e interrupções. De modo geral, a turma participou da atividade mantendo o
42

interesse. Finalizei informando que seguiríamos as práticas em conjunto, trabalhando outra


música na aula seguinte.

4.2.4 Quarta Regência


Após buscar os alunos na sala de aula e levá-los à sala de ciências, fiz a chamada e
informei que seria minha última aula com eles. 14 alunos estavam presentes, dos 24
matriculados.
Iniciamos ouvindo a gravação da música Esperando na Janela, de Gilberto Gil, que
trabalharíamos nessa aula. Quando parei a música na metade, alguns alunos brincaram dizendo
que ‘‘iam começar a dançar’’. Gonçalves e Gouveia (2014) sugerem a utilização da “música
midiática, brasileira ou estrangeira, que faz parte da realidade cotidiana do aluno, como
repertório para confecção do repertório e dos arranjos.” (p.3).
Expliquei que o gênero musical que trabalharíamos se chamava Xote Nordestino.
Executei a gravação da ‘‘levada rítmica’’ isolada, tocada pelo instrumento Zabumba. Também
comentei que existia o Xote Gaúcho, um pouco diferente, tocado no instrumento Bumbo
Leguero.
Do mesmo modo que na aula anterior, trabalharíamos a prática em conjunto dividindo
a turma em 3 grupos, cada um com os canos de PVC que correspondiam a uma nota musical
diferente (DÓ, FÁ e SOL). Iniciamos marcando apenas o pulso, batendo os canos no chão.
Expliquei que a movimentação da mão direita do regente representava a marcação dos
tempos da música, sendo que o movimento para baixo marcava o tempo 1. Dessa forma,
enquanto cantava a melodia, pude reger os grupos, marcando as entradas de cada um, à medida
que a harmonia da música alterava.
Um dos alunos, com cerca de 40 anos, estava com dificuldades para sincronizar as
batidas com o resto dos colegas. Sugeri que apenas esse grupo tocasse, enquanto contava em
voz alta os tempos e tentava mantê-los em sincronia. No momento que o grupo ficou mais
seguro, voltamos às alternâncias das notas, com a participação de todos.
Após executar a melodia com a flauta doce com uma certa regularidade, sugeri que os
mais confiantes acrescentassem uma batida a mais, com a vareta ao lado do cano,
complementando o ritmo. Toquei com um dos canos para que a turma entendesse. Segue abaixo
a transcrição, do padrão rítmico simplificado do Xote:
43

Um dos alunos, que era músico e tocava com maior desenvoltura, se propôs a marcar as
trocas dos grupos para que eu pudesse tocar a melodia na flauta doce com mais tranquilidade.
Após executarmos algumas vezes a estrutura completa da música, comentei que era normal
termos dificuldades no primeiro contato com as aulas de música, sendo apenas uma questão de
tempo e dedicação para melhorarmos, pouco a pouco. O aluno músico comentou em tom de
brincadeira que ‘‘apanhava até hoje do instrumento’’.
Por fim, agradeci a todos pela dedicação durante as aulas e me despedi, comentando que
era uma pena que eles não tinham aulas de música regular na escola, pois seria possível explorar
mais a fundo o que estávamos trabalhando.

4.3 TURMA 203

4.3.1 Primeira Regência


Na turma 203, estavam presentes apenas 9 alunos dos 20 que constavam na lista de
chamada. Com um perfil relativamente calmo, foi possível desenvolver a aula de forma
tranquila. Apesar de já termos introduzido o conteúdo de acústica com essa turma, durante as
aulas de física, considerei importante uma revisão, devido ao grande número de alunos faltando
naquele dia.
Iniciei explicando as atividades que pretendia trabalhar com a turma. Primeiramente,
revisamos os conceitos de onda sonora, frequência, amplitude, e comprimento de onda, que
eles já haviam trabalhado. Coelho (2016) enfatiza que ‘‘[...] um produto educacional que seja
capaz de aliar a física, música, matemática, teoria e experimentação pode, se bem idealizado e
confeccionado, mostrar-se um bom instrumento didático-pedagógico.’’ (p.14). Percebi que um
dos alunos conhecia bem o conteúdo. Ao questioná-lo, descobri era músico. Comentei então
que pediria a ajuda dele durante as atividades, das próximas aulas. Dessa forma, poderia mantê-
lo motivado, já que conhecia bem os conceitos básicos que iríamos trabalhar. Como destaca
Grillo e Perez (2016):
44

O importante, para contornar o problema da desmotivação do estudante, é a utilização


de exemplos e atividades relacionadas com os interesses dos estudantes. Nesse
sentido, a Música pode ser uma importante aliada do professor na busca por
motivação. (p. 62).

Da mesma forma feita com a turma anterior, demonstrei o experimento de Pitágoras


com o monocórdio, usando o violão. Como nos descreve Bromberg (2016) ‘‘o monocórdio foi
o instrumento que possibilitou a transposição das razões do âmbito aritmético para o geométrico
e consequentemente para o acústico.’’ (p. 3). Escrevi no quadro a sequência das notas musicais
naturais, além da correspondência delas no sistema latino em comparação ao sistema
americano. Em seguida, considerando a corda solta do violão sendo a nota DÓ, demonstrei o
que resultava ao diminuirmos o comprimento da corda nas proporções 1/2 (nota DÓ 8° acima),
2/3 (nota SOL) e 3/4 (nota FÁ). Percebi que, mesmo o aluno músico, não tinha conhecimento
a respeito dessas relações matemático/acústicas entre as notas musicais, demonstradas pelo
experimento de Pitágoras.
Finalizamos a aula calculando as medidas necessárias para a construção dos
instrumentos. Pedi que os alunos avisassem os colegas faltantes a respeito dos materiais que
deveriam ser trazidos na aula seguinte.

4.3.2 Segunda Regência


Na turma 203, apenas oito alunos (dos 20 matriculados) estavam presentes. Nenhum
aluno trouxe o material solicitado. Da mesma forma que a turma anterior, fomos para a sala de
Ciências, sendo necessário adaptar o plano de aula.
Após relembrar os princípios sobre acústica e o experimento com o monocórdio, que
havíamos trabalhado na aula anterior, expliquei passo a passo como ocorreu a construção dos
instrumentos que já estavam prontos. Escrevi no quadro o comprimento de cano que havíamos
partido como referência (Nota DÓ = 1,30 cm), explicando como chegamos aos comprimentos
necessários para a nota SOL e nota FÁ, através das proporções descobertas por Pitágoras.
Iniciando as atividades de prática em conjunto, separamos novamente os alunos em três
grupos, cada um com um cano e nota musical. Da mesma forma feita com a turma anterior,
pedi que batessem os canos no chão mantendo o pulso que dei como referência, para que
pudesse avaliar a habilidade rítmica da turma. Expliquei o que representavam os movimentos
das mãos de um maestro, para que entendessem a minha regência. Uma aluna batia o cano no
contratempo dos colegas, sem perceber. Chamei a atenção para que sincronizasse com os
outros. Após algumas repetições e uma atenção especial, conseguimos uma regularidade
45

razoável entre todos. Depois que distribuí as folhas impressas da música Asa Branca, contendo
a marcação dos tempos e as cifras harmónicas, expliquei no quadro a correspondência entre o
sistema latino e sistema americano de notação. Para demonstrar a música à turma, pedi para
um aluno (que era músico e tocava violão) que marcasse a pulsação, batendo o cano no chão.
Dessa forma, executei na flauta doce a melodia para que os alunos pudessem reconhecer a
composição. Bastião (2012) acredita que ‘‘Para praticar música em conjunto, os alunos podem
escutar uma interpretação da música que vai ser trabalhada, o que certamente facilitará a
composição (criação) de arranjos ou acompanhamentos mais sintonizados com o próprio caráter
da música em questão’’. (p. 63).
Em seguida, expliquei que deveríamos alternar os grupos seguindo a cifra impressa
sobre a letra da música. Os canos fariam o papel de um instrumento grave (baixo) em uma
banda, marcando a nota principal (fundamental) dos acordes. Após executarmos a música
algumas vezes, ainda com imperfeições, o tempo da aula se esgotou. Informei à turma que
daríamos continuidade na semana seguinte, explorando a música com mais detalhes.

4.3.3 Terceira Regência


Iniciamos a aula formando novamente os mesmos grupos da aula anterior, cada um com
um cano de PVC e nota musical correspondente. Novamente, haviam poucos alunos presentes.
Dos que estavam, alguns não haviam vindo na aula anterior, sendo distribuídos entre os grupos
formados. Como chamam a atenção Griffante, Bertotti e Silva (2013):

A diversificação social, cultural, econômica, etária dos alunos da EJA requerem mais
trabalho e dedicação por parte dos professores, pois a necessidade de uma
metodologia de ensino, um atrativo que consiga chamar a atenção de todos os alunos
e instigar a busca do aprender não é tarefa fácil. (p. 5).

Após uma rápida revisão sobre cifra harmônica, executei a gravação da música Asa
Branca, enquanto os alunos acompanhavam a letra cifrada na folha impressa, que havia
distribuído anteriormente. Pedi que todos marcassem o pulso da música acompanhando a
gravação, batendo com os canos no chão.
Retomamos a prática em conjunto da aula anterior, alternando os grupos a medida que
a base harmônica da música mudava, sempre buscando a sincronia entre todos e a regularidade
do pulso. Como conseguimos um bom resultado na execução, sugeri uma mudança na ‘‘levada
rítmica’’. Expliquei que reproduziríamos com os canos o padrão rítmico do Xote Nordestino.
46

Para isso, executei uma gravação isolada da percussão, tocada apenas pelo instrumento
Zabumba. Com um dos canos e uma vareta, demonstrei como poderíamos adaptar para os
nossos instrumentos. Iniciamos acrescentando apenas uma batida com a vareta no contratempo,
simulando a batida da baqueta no aro da Zabumba.
Alguns alunos tiveram dificuldades para sincronizar a batida da vareta e do cano no
chão, ao mesmo tempo. Sugeri que apenas usassem as varetas aqueles que se sentissem
confiantes para manter o ritmo regular. Os outros, poderiam apenas bater o cano no chão,
respeitando o pulso da música.
Iniciei cantando a melodia e regendo as entradas de cada grupo. Um dos alunos, que era
violonista, ajudou a manter a regularidade rítmica, já que tocava com maior segurança. Em
seguida, sem a ajuda da regência, toquei a melodia na flauta doce.
Seguimos executando a música algumas vezes até o final da aula, sempre corrigindo
quando alguém errava alguma coisa ou dessincronizava do resto da turma.

4.3.4 Quarta Regência


Após levar a turma para a sala de ciências, fiz a chamada e informei que seria minha
última aula com eles. Apenas 5 alunos estavam presentes, dos 20 matriculados.
Dando sequência à aula anterior, recordamos algumas características do gênero musical
Xote Nordestino, que seria aplicado agora à música Esperando na Janela, de Gilberto Gil.
Dividimos a turma em duas duplas e um aluno sozinho, distribuindo as 3 notas feitas com Canos
de PVC. Precisei adaptar o plano de aula dentro das limitações apresentadas, pois não esperava
um número de alunos presentes tão baixo. Como explica Hentschke e Del Ben (2003):

[...] o ensino é uma atividade complexa, que envolve várias pessoas, várias coisas a
fazer simultaneamente e, por isso, sempre terá algum grau de imprevisibilidade [...].
Por isso, o plano poderá (e em alguns casos deverá) ser transformado, recriado e até
mesmo abandonado e substituído durante a sua implantação. (p. 178)

Após distribuir as folhas impressas contendo letra e cifras, foi executada a gravação da
música. A nota que deveria ser tocada era enfatizada em voz alta, à medida que ouviam a
interpretação, apontando para o respectivo grupo.
Iniciamos o acompanhamento da música marcando apenas o pulso com os canos de
PVC, alternando as notas de cada grupo com a ajuda da regência. Assim que conseguimos uma
regularidade razoável, sugeri que os alunos acrescentassem a batida com as varetas no
contratempo, como já havíamos feito na aula anterior, com a música Asa Branca.
47

Um dos alunos demonstrava dificuldade para coordenar a batida no chão e a batida da


vareta, ao mesmo tempo. Tentei ajudá-lo isoladamente, tocando junto com outro cano de PVC.
Expliquei que, à medida que acrescentamos elementos, mais treino será exigido para uma boa
execução.
Trabalhamos, inicialmente, a primeira e segunda partes da música, deixando a
introdução para depois. Assim que a turma manteve o ritmo por conta própria, parei a regência
e toquei a melodia na flauta doce. Conseguimos tocar a música inteira algumas vezes, com certa
regularidade rítmica.
Por fim, fizemos uma rápida retrospectiva do que havíamos visto ao longo das quatro
aulas, desde as proporções acústicas descobertas por Pitágoras, a construção dos instrumentos,
até as práticas com as duas músicas e o gênero musical Xote Nordestino. Agradeci a todos pela
disposição ao longo das aulas e sugeri que, quem pudesse, continuasse aprendendo e fazendo
música.

4.4 TURMA 202 –

4.4.1 Primeira Regência


O último período da noite é sempre com tempo reduzido (25 minutos). Percebi nas
observações que isso geralmente resultava em muitas faltas e/ou saídas antecipadas dos alunos,
prejudicando o desenvolvimento do trabalho. Apenas 14 alunos estavam presentes dos 30
escritos na lista de chamada.
Após explicar a proposta de estágio para a turma, segui o mesmo plano de aula utilizado
nas turmas anteriores. Essa turma, porém, não havia visto o conteúdo de acústica na aula de
física, como ocorrera com as outras. Uma das alunas informou que era cantora de Coro e que
uma amiga me conhecia através do Coro do IPA. Ao perguntar à turma quantos já haviam tido
experiência prática com música, apenas essa aluna levantou a mão.
Para abordar os conteúdos de acústica (onda sonora, frequência, amplitude, e
comprimento de onda), utilizei um recurso visual, desenhando a imagem gráfica de uma onda
sonora. Também mostrei o que acontecia com o desenho quando variávamos a intensidade do
som (Dinâmica) ou mudávamos a frequência (Nota Musical). Demonstrei essas diferenças
também utilizando a flauta doce. De modo geral, a turma parecia interessada no assunto. No
entanto, passados 20 minutos de aula, a turma insistiu que eu fizesse a chamada e começaram
a ir embora. Dessa forma, foi impossível concluir o que pretendia trabalhar. Isso me fez repensar
48

a respeito de como conduziria as aulas seguintes, sendo necessário reduzir e não aprofundar os
conteúdos. Como nos coloca Griffante, Bertotti e Silva (2013):

Encontramos também nessa trajetória de ensino e aprendizagem, o desafio da


participação, do envolvimento, da inclusão e da equidade frente a nossa vasta
diversidade cultural, pela qual precisamos trabalhar diante do conceito de
transformação [...]’’ (p. 3)

Para finalizar, informei à turma que daríamos continuidade na aula seguinte.

4.4.2 Segunda Regência


No final do mês de maio de 2018, as aulas foram paralisadas devido a uma greve
nacional de caminhoneiros, apoiada por vários setores da sociedade, que comprometeu a
distribuição de combustíveis e a regularidade do transporte público. Dessa forma, meu
cronograma sofreu um atraso de uma semana. Como enfatiza Cardoso (2015):

Vivemos hoje, no Brasil e no mundo, um cenário de violência, corrupção e


impunidade, que repercute nas escolas. As relações entre professores e alunos são
diretamente afetadas pelas questões sociais, culturais, econômicas e políticas. (p.29).

Na turma 202, apenas sete alunos estavam presentes (de 30 matriculados). Assim como
ocorrido com a turma anterior, nenhum aluno trouxe o material solicitado.
Fomos para a sala de Ciências, onde expliquei passo a passo como ocorreu a construção
dos instrumentos que já estavam prontos. Para isso, no entanto, precisei explicar com um pouco
mais de calma os princípios sobre acústica e o experimento com o monocórdio de Pitágoras.
Como essa turma sempre tem os períodos reduzidos (por ser o último da noite), não havia sido
possível concluir essa parte do conteúdo na aula anterior. Coelho (2016) enfatiza a importância
do ensino da acústica relacionada à música, já que ‘‘percebemos um ganho significativo na
compreensão de conceitos físicos e suas definições matemáticas formais advindas dessa
prática.’’ (p. 107).
Assim que foi explicado o processo de construção das notas musicais com os canos,
distribuí para a turma a letra cifrada da música Asa Branca. Depois de explicar o significado
das cifras contidas sobre a letra da música, separamos a turma nos pequenos grupos que foram
possíveis, considerando os alunos presentes. Toquei a melodia da música na flauta doce, sem
acompanhamento, perguntando se os alunos conheciam. Todos responderam que sim.
49

Por fim, como o tempo estava restrito, desenvolvemos apenas um exercício de marcação
do pulso com os canos, enquanto eu cantava a melodia da música. Passei para todos uma visão
geral sobre a proposta de prática em conjunto e o que pretendia fazer com os grupos, de modo
que memorizassem os integrantes e as notas escolhidas, para darmos continuidade na aula
seguinte.

4.4.3 Terceira Regência


Iniciamos a aula revisando os conceitos de pulso e cifras de acordes, que havíamos
trabalhado na aula anterior. Devido aos períodos reduzidos, não havíamos explorado muito
ainda a prática em conjunto. Distribuí as folhas impressas com a letra e cifras da música Asa
Branca para os que não haviam trazido e executei a gravação, fornecendo uma referência
auditiva. Como enfatiza Romanelli (2008) ‘‘de todos os recursos midiáticos à disposição do
professor de música, o suporte fonográfico, as gravações e os instrumentos musicais estão entre
os mais importantes.’’ (p. 138).
Expliquei o que pretendia fazer, separando a turma novamente em 3 grupos, sendo que
cada um ficaria com canos de PVC com notas diferentes. A medida que a gravação era
executada, mostrava como acontecia a troca harmônica, enquanto os alunos acompanhavam
pela folha. Um dos alunos disse não entender o momento da troca de grupo. Então, expliquei
que a nota deveria trocar a cada quatro batidas no chão (quatro tempos musicais).
A medida que regia a turma, marcava os tempos e as entradas de cada grupo, enquanto
cantava a melodia da música. Alguns alunos demonstravam dificuldade para manter a
regularidade do pulso, tendendo a acelerá-lo. Sempre que isso acontecia, chamava a atenção
para que voltássemos ao andamento anterior.
Um dos alunos, que tocava violão, mostrava muito interesse e fazia perguntas sobre a
marcação da regência. Acredito que nunca havia tido aulas de música formais. Assim, expliquei
para a turma o que significava os gestos da mão direita e esquerda do regente.
Por fim, conseguimos executar algumas vezes a estrutura básica da música, enquanto
tocava a melodia na flauta doce. De modo geral, a turma participou ativamente da atividade,
mantendo o interesse até o final da aula.

4.4.4 Quarta Regência


Para iniciarmos, busquei os alunos na sala de aula, levando-os para a sala de ciências.
Apenas 9 alunos (dos 30 matriculados) estavam presentes.
50

Informei à turma que seria minha última aula, pretendendo tocar mais uma música com
eles, aplicando os mesmos princípios vistos anteriormente. Após entregar folhas impressas para
todos, contendo a letra cifrada, executei a gravação da música Esperando na Janela, de Gilberto
Gil. Em seguida, expliquei que a ‘‘levada rítmica’’ da música correspondia ao gênero musical
Xote Nordestino. Separamos a turma novamente em 3 grupos, cada um com uma nota musical
feita com os canos de PVC. A medida que a gravação era executada, apontava para o grupo que
continha a nota equivalente à base harmônica da música. Assim que os grupos entenderam o
que deveriam fazer, cantei a melodia enquanto regia, tentando sincronizá-los. Conseguimos
tocar a primeira e segunda partes da música até o final algumas vezes, deixando de fora a
introdução. Acredito que a prática em conjunto proporcionou uma experiência nova para muitos
dos alunos presentes pois, como nos diz Oliveira (2014), através dessa atividade:

[...] há uma motivação maior por partes dos alunos, principalmente os que estão
começando, pois rapidamente já se verão inseridos em um contexto musical, além
disso, acontece uma troca de informações que é bem-vinda para o desenvolvimento
dos estudantes (p.10).

Chegando ao final da aula, devido ao tempo restrito, apenas mostrei para a turma
algumas possibilidades de variações da ‘‘levada rítmica’’, executando com um dos canos de
PVC e vareta. Expliquei que, se eu tivesse mais tempo com eles, poderíamos trabalhar mais a
fundo outros elementos da teoria musical. Como exemplo, mostrei a partitura que estava lendo
(melodia da música), explicando que cada nota tocada na flauta doce estava escrita através
daqueles símbolos.
Por fim, agradeci a todos pela disponibilidade e participação, me despedindo. Um dos
alunos (o mesmo citado anteriormente, que tocava violão) agradeceu, dizendo que havia
gostado muito das aulas.
CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este trabalho, que encerra o ciclo de três estágios obrigatórios exigidos como requisito
parcial para a formatura no curso de licenciatura em música do IPA, buscou propiciar aos alunos
dos segundos e terceiros anos do ensino médio, modalidade EJA, a consciência dos elementos
acústicos básicos envolvidos na construção de instrumentos musicais, assim como alguns
conteúdos musicais e sua utilização prática.
Embasado em autores como Coelho (2016), Grillo e Perez (2016), Moura e Neto (2011),
Tavares e Souza (2007) e Bromberg (2016), ficou clara a importância das propostas
interdisciplinares durante as aulas regulares, relacionando a música com a física (acústica).
Para a demonstração prática das relações matemáticas entre as notas musicais, além de
conceitos como frequência, amplitude e comprimento de onda, de uma forma que despertasse
interesse nos alunos, foi demonstrado às turmas o experimento de Pitágoras com o instrumento
chamado monocórdio. Como nos explica Bromberg (2016):

Para atribuir aos intervalos musicais uma grandeza, era necessário encontrar na
matemática uma representação, dado que então, não existia maneira física de se medir
o som [...]. O instrumento que permitiu a visualização do som foi o monocórdio[...].
O monocórdio pareceria ser o instrumento capaz de traduzir geometricamente os
elementos musicais de natureza aritmética, estabelecendo uma aproximação da
aritmética e da geometria e, esta última, da física. (p. 1-2).

A partir dos princípios descobertos por Pitágoras, pudemos calcular as medidas exatas
para construir alguns instrumentos, afinados com notas musicais específicas, utilizando canos
de PVC. As atividades de construção de instrumentos musicais alternativos foram embasadas
nos trabalhos de Albuquerque e Cerveira (2005). Apesar do professor de música estar muitas
vezes inserido em um contexto de ensino onde a maioria das escolas não possui a estrutura
física adequada para as aulas, Cerveira (2005) nos enfatiza o valor intrínseco da escolha por
essa prática pedagógica, que permite ainda ao aluno “desenvolver seu espírito de
cooperativismo bem como a socialização, a criatividade, improvisação e a desinibição, fatores
estes necessários para a formação de um ser humano e de um artista.” (p.1).
A construção dos instrumentos permitiu que pudéssemos trabalhar, em seguida, a prática
musical em conjunto. Os benefícios dessa atividade no processo de musicalização puderam ser
comprovados com base nos trabalhos de Bastião (2012), Rodrigues (2012), Cardoso (2015),
Gonçalves e Gouveia (2014) e Oliveira (2014). Oliveira (2014) reitera que durante essa prática
“acontece o processo de aprendizagem de forma colaborativa, onde os alunos aprendem uns
52

com os outros, seja observando os colegas, conversando fora dos ensaios, por imitação, etc.”
(p.10).
Ao longo deste estágio, algo que chamou minha atenção foi a não inclusão do conteúdo
acústica no programa de ensino de física da escola, na modalidade EJA. Observa-se que a
grande maioria dos alunos tem alguma relação afetiva com algum gênero musical, ouvindo
música constantemente, no dia a dia e/ou na própria escola. A acústica é exatamente a parte da
física que explica todo o processo, desde a produção do som até sua captação e assimilação.
Como nos explica Moura e Neto (2011):

A física acústica aborda as ondas sonoras e as suas propriedades. Ela é muito útil para
explicar os fenômenos sonoros que estão presentes em diversos ambientes
frequentados pelos educandos. Daí a importância de se abordar este assunto na
educação formal. (p. 12).

Apesar da música ser considerada parte das ciências humanas atualmente, Bromberg
(2016) nos lembra que:

A Música foi uma ciência matemática até meados do século XVIII e sua teoria definiu-
se através de princípios matemáticos e seus elementos, como os intervalos e escalas,
não eram expressos, em Hertz e decibéis, mas por razão e proporção aritméticas.
Enquanto o cálculo da razão era um procedimento abstrato, a sua percepção se dava
no mundo real e físico. (p. 1).

Considerando a já tradicional resistência que observamos nos alunos em geral, ao


aprendizado da física, considero um grande equívoco não proporcionar aos alunos da EJA o
contato a essa área de conhecimento, justamente aquela que poderia criar uma ponte afetiva,
aproximando a música e a física, já que “o que está em jogo na interdisciplinaridade é a
produção de novas questões, e não o acúmulo de conhecimento.” (GRILLO; PEREZ, 2016, p.
65). A música é a ciência que possui a predisposição histórica para aproximar as áreas
científicas consideradas “humana” com as “exatas”. No momento, não vemos aulas regulares
de música e nem de física acústica na EJA.
Durante todo esse processo, delinearam-se algumas características específicas ao
contexto de ensino da EJA, nos permitindo algumas reflexões a respeito dos desafios
apresentados, tanto para o professor como para o aluno.
Dentre as dificuldades que encontrei durante as aulas, destaco o alto índice de faltas e
desistências, considerando o número de alunos que constavam nas listas de chamadas. A média
de presença ficava em torno 40% ou menos. Além disso, a falta de comprometimento dos alunos
em trazer os materiais necessários para as atividades foi expressiva. Dos 98 alunos
53

matriculados, somando todas as quatro turmas trabalhadas, apenas sete alunos trouxeram o que
foi solicitado. Na pesquisa de Griffante, Bertotti e Silva (2013), foi exposto que “Para os
docentes que evidenciaram os fatores que interferem no rendimento do ensino e aprendizagem
da EJA, destes, 90% destacaram a assiduidade dos alunos e o comprometimento.” (p. 9).
Os alunos, por outro lado, precisavam vencer o desafio do cansaço, já que muitos
vinham à aula após uma jornada intensa de trabalho. Esse aspecto certamente está relacionado
à evasão escolar crescente na modalidade EJA, em todo o Brasil, como nos comprovam
Griffante, Bertotti e Silva (2013). Consequentemente, é exigido um esforço extra do professor,
com o intuito de manter a turma focada e interessada, além de estratégias e habilidades
específicas para esse contexto. Para isso, no entanto, é fundamental a fomentação de cursos de
formação continuada ou especializações com enfoque na educação para adultos. Nos cursos de
licenciatura, raramente vemos uma disciplina ofertada com esse objetivo. ‘‘Ao lado do
estabelecimento de condições mínimas de trabalho profissional, a formação de educadores é
um dos grandes desafios a serem encarados pelas políticas educacionais nos próximos anos’’.
(DI PIERRO, 2010, p. 954-955).
Analisando o Plano nacional de educação 2001-2010, Di Pierro (2010) também comenta
que:
Quando dirigimos a atenção para as retóricas educativas, os acordos internacionais e
a legislação nacional do período, somos levados a crer na existência de um amplo
consenso em torno do direito humano à educação, em qualquer idade, e à necessidade
da formação continuada ao longo da vida. Entretanto, quando analisamos as políticas
educacionais levadas à prática, constatamos a secundarização da EJA frente a outras
modalidades de ensino e grupos de idade. (p. 940).

Dentre os pontos positivos, destaco a disponibilidade da maioria dos alunos em


participar das atividades práticas, durante as aulas. Ao propor o ensino da física acústica
juntamente com a música, não sabia como a ideia seria recebida, devido a histórica resistência
dos alunos em geral, às disciplinas exatas como a matemática e a física. No entanto, percebi
grande interesse e curiosidade por parte da maioria dos alunos, sempre que demonstrava os
conceitos teóricos através de algum recurso prático, como a flauta doce ou o violão, por
exemplo. Ao mostrar o uso prático em um instrumento musical, conceitos como frequência ou
amplitude deixavam de ser coisas “abstratas e distantes”. Do mesmo modo, fiquei muito
satisfeito com o resultado das aulas de prática em conjunto, já que as atividades propostas
cumpriram seu objetivo com todas as turmas, colocando os alunos em contato com alguns
elementos de teoria musical e propiciando, para muitos, uma primeira experiência em uma aula
de música. Dessa forma, muitos elementos envolvidos no processo puderam ser desenvolvidos,
54

dentre eles a cooperação, a persistência, a concentração, a paciência e a sociabilidade. Além da


participação ativa da grande maioria, demonstrando interesse e prazer ao ‘‘fazer música’’,
vários alunos elogiaram as aulas ao final do estágio, o que despertou em mim o sentimento de
“missão cumprida”.
Por fim, tenho certeza que através de todas as aulas, assim como das experiências
distintas proporcionadas ao longo das três modalidades de estágio do curso de licenciatura em
música, não resta dúvida quanto à necessidade de capacitação constante e contínua por parte do
professor de música. Somente desse modo, o docente terá em mãos diferentes estratégias para
trabalhar o mesmo tema, além de uma capacidade de adaptação rápida e de improvisação,
habilidades necessárias para obter a melhor resposta possível dos alunos, dependendo de seu
perfil, para que as aulas de música sejam cada vez mais produtivas e transformadoras de acordo
com a realidade de cada um.
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RANGHETTI, Diva Spezia. Relação Pedagógica: espaços/tempos/movimentos de


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RODRIGUES, Weslei Flávio. A Prática de Conjunto na Escola Regular. I Fórum de Práticas


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ROMANELLI, Guilherme G. B. Planejamento de aulas de estágio. In.: MATEIRO, T.;


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http://www.cienciamao.usp.br/dados/snef/_umapropostaparaaapresent.trabalho.pdf
Acesso em: 25/06/2018.
ANEXO 1.1 – Materiais entregues aos alunos

ONDA SONORA
Onda Sonora: Ondas mecânicas, produzidas a partir de vibrações que se propagam em um
meio (normalmente o ar).

Frequência: Quantidade de Ondas por Segundo. Relacionado à Altura do som (agudo ou


grave) – ‘‘Hz’’

Amplitude: O ponto mais alto da onda. Relacionado a Intensidade do som (forte ou fraco) –
‘‘Db’’

Comprimento de Onda: Distância entre os 2 pontos mais altos da onda.

PROPORÇÕES ENTRE AS FREQUÊNCIAS DAS NOTAS MUSICAIS

Nota DÓ: 1 – Exemplo: 261 Hz


Nota DÓ (8ª acima): 2/1 – Exemplo: 522 Hz
Nota SOL: 3/2 – Exemplo: 391,5 Hz
Nota FÁ: 4/3 – Exemplo: 348 Hz
ANEXO 1.2 – LETRA COM CIFRA DE ACORDE
ANEXO 2 – FICHA TÉCNICA: Instrumento Musical de Cano de PVC

Materiais Utilizados:

1- Lixa

2- Serra

3- Tesoura

4- Esmalte de Unha Colorido

5- Fita métrica

6- Palitos de Bambu

7- Tampão para cana de PVC (75 mm)

8- 1 metro de cano de PVC (75 mm)

9- Feltro autocolante
Construção:

1º - Recorte o feltro e cole na base do tampão do cano.

2º - A partir das Medidas calculadas para cada Nota Musical, meça o cano usando
a fita métrica (já com o tampão) e corte no comprimento desejado. O cano afinado em
FÁ terá 97,4cm; o cano afinado em SOL terá 87,0cm; o cano afinado em DÓ terá 65cm.

3º - Depois de cortar o cano, bata ele no chão (com o lado que está com o tampão)
e teste a afinação usando o aplicativo de celular Da Tuner Lite. Se necessário, ajuste a
afinação cortando mais ou usando a lixa.

4º - Quando a afinação estiver exata, pinte o tampão do cano usando o esmalte de


unha com a cor desejada.

5º - Instrumentos Prontos. Enquanto a batida do cano do chão gerará um som grave e


com nota definida, os palitos de bambu produzirão um som médio/agudo, batendo ao
lado do cano.