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entrevista

Foto: Dario de Freitas

Esther Stiller
Por Cláudia Cavallo Um Mito

ELA É UMA ESPÉCIE DE REFERÊNCIA DA ILUMINAÇÃO

no Brasil. Alguém a quem todos reverenciam, ainda


que, uns amando-a, outros, nem tanto. Sua compe-
tência é indiscutível, assim como sua importância na
formação do segmento de iluminação no país.
Entretanto, como acontece com todo ícone, há
controvérsias com relação a seu extremo senso crítico, sua atitude de liderança, seu
carisma. Há quem queira enfraquecer suas posições, ideais e, até mesmo ocupar seu
espaço. Mas esta tem sido uma batalha, normalmente, perdida. Embora ninguém seja
insubstituível, pessoas com a convicção e experiência de Esther Stiller acabam
entrando definitivamente para a história.
Mas, afinal, quem é Esther Stiller? O que ela tem a dizer sobre si mesma e os
questionamentos polêmicos que envolvem sua trajetória? É um mito?
Isso é o que você mesmo vai poder responder no final desta entrevista.

Lume Arquitetura: A queda constante no valor cobrado por projeto de iluminação


foi uma das razões pelas quais a AsBAI foi criada, não é verdade? Este problema,
entretanto, é comum a todo e qualquer segmento da economia hoje em dia.
Questão da lei de oferta e procura, diminuição de poder aquisitivo… Os membros
da AsBAI acreditam que, na prática, uma associação terá o poder de mudar esta
situação?
Esther Stiller: O IAB - Instituto dos Arquitetos do Brasil - tem uma tabela de honorários
que não é, necessariamente, respeitada. Entretanto, por mais que os valores sejam
reduzidos não ocorre a doação de projetos. E existe uma enorme diferença entre
diminuição de honorários e eliminação.

Lume Arquitetura: Então, a intenção da Associação é criar uma tabela de valores


que poderá ou não ser seguida pelo mercado?
Esther: Sim. O que queremos criar é um uma referência, não um departamento de
polícia. Um dos objetivos da AsBAI é congregar as pessoas para que possam conver-
sar entre si, trazer as discordâncias para o interior da associação, ao invés de evidenci-
ar divergências para o mercado.
A arquitetura de iluminação é uma profissão nova. Por isso, deve ser apresentada
ao mercado como tendo custos mínimos de concepção e produção. O fato é que, com

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o aumento da concorrência, diminui-se em uma semana ou um mês. P or
Por “No caso da oferta de projetos
ganhos. Atualmente, os honorários dos isso, recorrem ao apoio dos fornece-
arquitetos em geral também foram dores. Neste caso, a indústria é um pela indústria, não vejo vilões.
drasticamente reduzidos. Mas o que vilão ou serve como um canal de
Vejo sobreviventes.
não pode acontecer é a oferta de introdução deste profissional ao
projetos amplos - um shopping center, estudo da iluminação? Trata-se de oferecer
por exemplo - por alguns poucos mil Esther: No caso da oferta de projetos
reais. Um projeto deste tipo exige pela indústria, não vejo vilões. Vejo
um diferencial de vendas.
dedicação quase integral de um sobreviventes. Ninguém faz isso por Mas o estrago que essas
escritório, ao menos, durante um mês. mal, não vejo más intenções. Trata-se
Como, com este valor, é possível manter de oferecer um serviço extra, um empresas nos fazem
infra-estrutura, equipe e tudo mais? diferencial de venda. Mas o estrago é grande.”
Onde está a mágica? Pode estar numa que essas empresas nos fazem é
atitude anti-ética de substituição dos grande, porque quando oferecem
honorários por comissões. É esta prática projetos gratuitos passam a idéia ao escritório de projetos. Compreende-se
que estamos querendo interromper. mercado de que existe a possibilidade que a oferta é um serviço complemen-
de se fazer um projeto por nada. tar, para que se possa usar corretamen-
Lume Arquitetura: A AsBAI é contrária Fazem o consumidor acreditar que o te o produto.
ao sistema de comissionamento? projeto não tem valor - o que leva esse Quando a indústria diz "sugestão"
Esther: Não sei. Eu sou. consumidor a se perguntar: então, se é de instalação, ela retira do consumidor
Alguns colegas acreditam que o de graça, por que há outros que a idéia de que está recebendo um
comissionamento não interfere nas suas cobram por este serviço? projeto luminotécnico - até porque, não
especificações, na sua escolha por Outro prejuízo imediato para o está. Quando presta este serviço, o
determinado produto. Portanto, se lhes é profissional de iluminação é que a fornecedor não tem responsabilidade
oferecida uma comissão, eles acabam indústria ocupa o espaço de arquitetos com os resultados de suas sugestões,
aceitando, porque os honorários são que estão iniciado na profissão e, por sejam eles relativos ao desenho dos
muito baixos e qualquer dinheiro é bem- isso, poderiam cobrar menos. ambientes, ao conforto visual ou ao
vindo. Mas, na minha opinião, isto é uma E ainda, para os que já estão consumo de energia. É, basicamente,
brecha perigosa. De qualquer forma, se estabelecidos no mercado, ela deprecia uma estratégia de venda, sem maiores
alguém recebe ou não uma comissão, é o mérito e o valor dos honorários. comprometimentos.
problema de consciência, de foro íntimo.
Se um profissional recebe honorários Lume Arquitetura: Mas, aí, voltamos Lume Arquitetura: Existem consumi-
reduzidos, ainda que para manter seu para a pergunta sobre como é que se dores ou clientes que percebem a
escritório, pode-se compreender. Nossa resolve isso na prática. O que a diferença entre um projeto luminotéc-
luta é contra a substituição dos honorári- indústria vai fazer? Negar o suporte de nico e uma sugestão. Mas há, ainda,
os pelas comissões. venda? Contratar o consultor de muitos que não fazem a menor idéia.
iluminação? Qual seria o caminho Eles querem apenas um ambiente
Lume Arquitetura: Se o problema para se reverter este quadro? com uma iluminação mais moderna e
reside, prioritariamente, em não se Esther: A diretoria da AsBAI pretende é só. E no momento em que vêem as
cobrar por projeto, como fica a propor à indústria que deixe de falar luminárias instaladas e tudo "funcio-
indústria, na sua opinião? V ocê,
Você, "projeto gratuito de iluminação" e diga nando direitinho", não imaginam que
particularmente, é contra ou a favor "sugestão gratuita" ou "suporte de possa haver enganos aqui ou ali.
dos fornecedores oferecerem projeto aplicação de produtos". Isso diminuiria o Você acredita ser possível para
de graça? Existe uma infinidade de prejuízo e as empresas não deixariam de qualquer um perceber a diferença
arquitetos e pequenos escritórios dar esta atenção a seus consumidores. entre um projeto luminotécnico bom
que, embora tenham enorme interes- Todo arquiteto precisa do suporte e um ruim?
se por dominar a ciência da ilumina- da equipe de um fornecedor de Esther: Parte desta falta de conheci-
ção, precisam atender a seus clientes modulados de cozinha, por exemplo, mento, a atitude de alguns projetistas,
e não há como resolverem sozinhos, mas ninguém vê tal empresa como um no sentido de aviltar os honorários.

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Além disso, não é a marca ou “Sugiro formação no exterior,
modelo de uma luminária que garante
os resultados do projeto. O produto de busca de informação técnica
um projeto de iluminação envolve
na maioria dos livros do IES,
qualidade estética e adequação às
necessidades de conforto visual. E este ler revistas de qualidade,
resultado - que depende de talento
artístico e conhecimento científico - é
visitar feiras internacionais
completamente diferente de autor para e estagiar em escritórios
autor de projeto, diretamente proporcio-
nal à consistência profissional deste
de reconhecida
autor. Não é qualquer um que deve se notoriedade”
arriscar a projetar.
No que diz respeito ao resultado
visual - que é a arte -, deve-se contratar exatidão se um projetista conhece o Esther: Dentro da AsBAI, concordamos
aquilo que atinge mais profundamente as mínimo elementar que é exigido para a que não podemos exigir conhecimento
suas expectativas estéticas, emocionais. prática profissional. se não há oferta de bons cursos. Só
Arquitetos de iluminação têm diferentes A arquitetura de iluminação tem podemos cobrar com uma mão, se
estilos - assim como uma tela de Portinari embasamento científico muito bem estivermos a dar com a outra. Neste
é diferente de uma de Di Cavalcanti ou de definido. Nesse aspecto é mais fácil momento, estamos em fase de planeja-
Tarsila do Amaral. identificar quem tem ou não o ferra- mento. Queremos organizar o currículo
Acredito que qualificando-se o mental mínimo para o desenvolvimento de um curso para arquitetos iniciantes
consumidor rapidamente também se de projetos. que, em um ou dois anos, permitirá ao
qualifica os projetos de iluminação. Um dos principais projetos da arquiteto bacharelado a consistência
O consumidor esclarecido sabe AsBAI é oferecer um curso de extensão necessária ao desenvolvimento de
selecionar melhor o resultado que acadêmica de boa qualidade. Em um projetos na área da arte e da ciência da
espera do projeto que está contratando. futuro próximo todas as pessoas que iluminação. Na teoria e na prática.
Este processo de elevação da qualida- estão hoje no mercado, e as que vierem
de do profissional e do mercado a se formar, poderão passar por um Lume Arquitetura: E enquanto este
consumidor é o que pretendemos exame de certificação profissional. Não curso não existe?
alcançar: na medida em que o mercado será algo inatingível pelos projetistas Esther: No momento, o Brasil é defici-
enxerga melhor, torna-se mais exigente; brasileiros e será um parâmetro de ente nesta formação. Sugiro formação
e na medida em que se torna mais avaliação pelo mercado. Fará o exame no exterior, busca da informação
exigente, conduz à elevação qualitativa quem quiser. Como já disse, não somos técnica na maioria dos livros do IES -
dos profissionais de projeto. departamento de polícia. Iluminating Engineering Society of North
Além disso, é preciso incentivar aos America-, ler revistas de qualidade
Lume Arquitetura: Qual é o critério projetistas a uma permanente atualiza- como a Professional Lighting Design,
que define quem tem ou não compe- ção profissional. Queremos alcançar LD+A, Architectural Lighting Design e,
tência para exercer a profissão? um padrão mínimo de conhecimento principalmente, visitar feiras internacio-
Esther: Bem, essa não é nossa missão. científico e aplicação artística. Assim, nais, quando possível, e estagiar em
Como a arte é subjetiva, ao contrário da poderemos dizer ao mercado: essa é a escritórios de reconhecida notoriedade
ciência, que é objetiva, no quesito arte qualidade mínima para projetos de no mercado.
o julgamento é um só: o da pessoa que iluminação. Por favor, exija isso.
contrata e deve avaliar a qualidade do Lume Arquitetura: Isto significa que
projeto que vai comprar. Não existe a Lume Arquitetura: Digamos, então, Arquitetura de Iluminação é uma
postura "este pode, aquele não pode". que eu seja um profissional brasileiro, profissão de elite?
Existe "deste eu gosto, daquele não de classe média, admita que não sou Esther: Sim, até certo ponto podemos
gosto". Na ciência, ao contrário, que é qualificado, mas quero ser
ser.. O que dizer isso, embora haja pessoas de
objetiva e precisa, pode-se aferir com fazer? P or onde começar?
Por recursos mais limitados que se

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formaram em Arquitetura e que estão que os alunos sintam a necessidade alguns poucos profissionais. São
dispostas a algum sacrifício para de aprender conceitos preliminares clientes que já sabem diferenciar
alcançar informação técnica e quali- como as características do espectro da trabalhos de qualidade e fazem
dade na prática profissional. Temos luz e da visão humana, os fachos questão deles.
uma colaboradora em nosso escritório luminosos e a metodologia de projeto. De outro lado, sou normalmente
que bateu em nossa porta, há quatro Isso é básico, fundamental. Sem isso muito exigente comigo, sou quase
anos, querendo trabalhar a qualquer eles terão apenas uma receita aparen- compulsiva, e acredito que isso seja
preço. Como diferencial ela tinha a temente infalível, mas que não será bom. Detesto perceber erros, mas não
determinação de aprender e havia aplicável às suas necessidades e, fico chorando por eles. Identifico as
feito uma boa faculdade no interior do portanto, com grande chance de causas e analiso outras soluções que
Paraná. Embora fosse formada, reproduzir minhas soluções de forma poderia ter adotado. Acredito que esta
trabalhou durante um ano pelo valor equivocada. Primeiro é preciso apren- atitude nos faz andar adiante e ficar
de estagiária. Havia dito para ela: der os fundamentos; depois, sua atentos para as coisas que podemos
"Pessoas que não conhecem nada de aplicação. Nas fotos dos projetos melhorar.
iluminação geram mais transtornos do procuro transmitir essa dualidade. Além disso, tenho o hábito de
que benefícios. Por isso, o que Quanto melhores profissionais responder financeiramente por nossos
podemos fazer é pagar um valor conseguirmos formar, melhores concor- enganos; recentemente, em decorrên-
mínimo que, ao menos, auxilie suas rentes teremos; quanto melhores forem cia de um erro na especificação da cor
despesas em São Paulo; mas sua vida nossos concorrentes, melhor será para de uma lâmpada - na presidência de
não vai ser fácil". Ela foi imediata: nós e para o mercado, porque seremos uma empresa que é nosso cliente
"Quero mesmo assim". Isso foi definiti- provocados a melhorar permanentemen- tradicional - abdicamos dos honorários
vo. Hoje ela é nossa coordenadora, te nosso trabalho. Queremos colegas do relativos a modificações do projeto,
muito talentosa, promissora e tenho mesmo nível profissional, porque quem para que compensássemos o prejuízo
certeza de que será um dos expoen- investe na qualidade de seu projeto e causado pelo nosso engano. O enge-
tes da nova geração. atendimento não tem condição de nheiro responsável pela obra nos
oferecê-los por qualquer valor. cumprimentou pela atitude.
Lume Arquitetura: Vejo muitas Penso que todos deveríamos agir
pessoas irem a seminários em Lume Arquitetura: Seu padrão de dessa forma. Obrigaríamos nossas
busca de respostas que não encon- excelência é um critério por altíssima equipes a estar mais atentas ao
tram. V ocê dá "respostas" em suas
Você auto-cobrança ou é por necessidade trabalho e teríamos, por parte dos
palestras? de mercado? clientes, maior reconhecimento. Será
Esther: Começo meus cursos e Esther: Não, o mercado não é tão que os clientes não prefeririam este tipo
palestras alertando que não direi "que exigente assim. De fato, há uma de profissional, ainda que por maiores
luminária, que lâmpada utilizei e a que demanda por parte de determinados honorários?
distância da parede", porque quero clientes - que, normalmente, são fiéis a
Lume Arquitetura: V ocê é um mito?
Você
Esther: Não. Hoje mesmo estava
“Tenho o hábito pensando nas ocasiões em que
algumas pessoas apertam minha mão,
de responder financeiramente
dizendo "muito prazer, faz tempo que
por nossos enganos. gostaria de conhecê-la, é uma honra,
etc". Sem dúvida essas pessoas se
Todos deveríamos agir assim. acercam em evidente demonstração de
Será que os clientes que sou uma pessoa diferenciada. Mas
não sinto assim. Para mim, é estranho
não prefeririam este tipo ser vista como alguém diferente, ainda

de profissional, ainda que mais um mito. Sou a Esther de sempre,


dos amigos, dos colegas, da família,
por maiores honorários?” dos meus funcionários de casa. Não

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tenho nada de diferente ou de impor- ção nos anos 70 se configurou perma- admitida, reconhecida e aprovada pela
tante, a não ser, talvez, a condição de nente, surgiu-me a idéia - acatada por maioria dos meus clientes. Antes de
ser vice-pioneira em iluminação no alguns investidores - de produzir as inventar uma fábrica, pedi opinião aos
Brasil - o pioneiro foi o arq. Livio Levi - e luminárias que já compreendiam um clientes mais importantes que me
de ter encarado um mercado inóspito, repertório de produtos especialmente responderam de forma bastante positiva:
lá no início da profissão. Talvez isso - e desenvolvidos por mim, a partir da "Não vejo problema; ao contrário, vou
o fato de ser uma pessoa naturalmente experiência iniciada com Livio Levi. comprar com mais tranqüilidade da sua
exigente - tenha feito meu nome "subir" A Lumini - que é a indústria a qual me empresa porque sei que o produto terá
e se "diferenciar". refiro - nasceu de um escritório de qualidade" foram as palavras de um
arquitetura, especializado em ilumina- cliente fiel há trinta anos.
Lume Arquitetura: V ocê teve uma
Você É lógico que existem vozes
indústria e ainda especifica freqüente- dissonantes e pessoas que se aprovei-
mente produtos desta empresa. É taram desta condição para sugeri-la
favorável a um profissional trabalhar espúria e alertar: “Esther Stiller não
predominantemente com um determi- pode ser contratada, porque tem
nado fornecedor? ligação com uma indústria”. Esta é, sem
Esther: Ah ah!! Como é que você, uma dúvida, uma argumentação bastante
jornalista, sabe quais produtos eu lógica da concorrência, faz muito
especifico? sentido, porque o habitual em nossa
Sim, essa é uma preocupação sociedade é encontrar pessoas que
constante do mercado e é por isso que pensam isso, porque agem dessa
até jornalistas sabem o que faço ou forma. Entretanto, o que essas pessoas
deixo de fazer. Talvez esta seja uma das não imaginam é que os clientes que me
causas do que você chama de "mito". conhecem sabem que a história
Fui fabricante durante algum tempo verdadeira é outra: projetos e clientes
porque, como profissional de projetos “Nunca teria me desassociado são atendidos pelas necessidades do
não dispunha, no mercado nacional, de cliente e, não, pelos meus interesses
ferramentas suficientemente apropria-
da indústria que fundei. comerciais.
das para desenvolver projetos com a O que houve no processo Portanto, o vínculo com a Lumini
qualidade pretendida. Tínhamos um nunca me incomodou nem, muito
fabricante de excepcional qualidade,
de desassociação foi uma menos, me prejudicou. O que houve no
importantíssimo na história da ilumina- diferença gerencial. processo de desassociação foi uma
ção no Brasil, que era a Peterco; mas diferença gerencial, especialmente na
esta empresa se dedicava prioritaria- Perdi uma batalha empresarial. direção da estratégia da empresa.
mente a luminárias para iluminação Senti que a marca estava perdendo a
Não saí porque
pública e comercial e não tinha nada tradicional ligação com a Arquitetura.
aplicável a arquitetura, interiores e o mercado quisesse.” Houve um momento em que não era
paisagismo. Eu via catálogos internaci- mais possível participar de uma
onais repletos de informações técnicas, ção. É importante que se diga isso. Ela diretoria que pensava e agia de forma
fotometrias, fachos padronizados em não nasceu de empreendedores que diferente da que eu acreditava ser ideal
abertura e intensidade, etc. Naquela decidiram fazer luminárias porque essa para a empresa. Era, portanto, a hora
época, não podíamos utilizar esses atividade era lucrativa. de sair. O fato é que perdi uma batalha
produtos, porque nosso mercado era empresarial, gerencial. Não saí porque
absolutamente fechado à importação. Lume Arquitetura: Sua desassociação o mercado quisesse, nem nunca cogitei
Mas era claro, para mim, que não havia se deu por pressão do mercado ou sair por isso. Simplesmente: perdi. Não
outra maneira de realizar bons projetos por opção? queria. Foi difícil, dolorido. Sofri muito
a não ser com aqueles equipamentos, Esther: Eu nunca teria me desassociado na época. Hoje, a nova geração de
não disponíveis no mercado nacional. da Lumini. Continuaria trabalhando diretores e gerentes, na qual tenho um
À medida que a limitação de importa- como sempre fiz durante 17 anos: filho, está mais próxima de realizar os

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meus objetivos do que eu mesma seria rências idôneas - do ponto de vista
“As pessoas confundem
capaz de fazer. Sempre tive pouco técnico e comercial - são absolutamen-
tempo para a indústria, porque minha te fáceis de realizar. Eu atuo dessa relação de credibilidade com
atividade prioritária era a de profissional forma há 37 anos. Portanto...
de projetos. Ainda: as pessoas confundem a
relação de parceria comercial.
Atualmente, este capítulo está relação de credibilidade com a relação A única ligação que ocorre na vida
encerrado e bem resolvido. "Deus de parceria comercial. Não consigo
escreve certo por linhas tortas". Fico acreditar que clientes, construtoras e
profissional idônea é uma
feliz por ver uma empresa que idealizei gerenciadoras não consigam identificar indiscutível relação
e criei andar com as próprias pernas. É atitudes simplórias, cujo objetivo é a
difícil, mas é muito, muito gratificante. vantagem comercial, ao invés do de confiança técnica,
resultado do projeto.
não de parceria.”
Lume Arquitetura: V ocê é a favor das
Você Utilizar produtos de alta qualidade,
parcerias entre arquitetos de ilumina- cujo preço é superior porque também
ção e fornecedores? O que há de proporciona economia na larga escala é loucura, mas somos obrigados a aceitar
diferente entre sua relação com a uma atitude decorrente da busca de as novas regras do jogo. Com clientes e
Lumini e a de outros profissionais bons resultados para um projeto. E gerenciadoras não costumo ter proble-
com determinadas indústrias? obriga o profissional de projeto a um mas. O processo é transparente e, por
Esther: Não gosto da palavra "parceria" longo processo de atendimento das isso, costuma ser muito fácil para eles.
para esses casos. Mesmo quando era necessidades do cliente no momento Em áreas públicas, porém, sofro muita
diretora técnica da Lumini sempre das concorrências comerciais. Ao pressão por parte das instaladoras, que
recomendei ao cliente que comprasse contrário, a utilização de produtos jamais têm intenção de realizar as
o que fosse adequado ao seu baratinhos que colocam em risco a especificações de projeto. Essas
empreendimento. qualidade dos resultados pode facilitar batalhas são longas e bastante
A única ligação que ocorre na vida e encobrir a inclusão de percentuais desgastantes, mas o resultado final é
profissional idônea é uma indiscutível escusos, que seriam impossíveis de majoritariamente positivo.
relação de confiança técnica, não de incluir nos preços de produtos com Queixo-me, de fato, da falta de
parceria. A confiança decorre da maior valor unitário. Como disse, não bom senso característica do mercado
qualidade luminotécnica - e de vejo meus clientes tão ingênuos assim. nas chamadas "tomadas de preços",
produção - de alguns fabricantes Pelo menos, não os meus. Eles sabem em que são chamados para concorrer
nacionais: eles tem catálogos comple- com quem estão tratando e sabem em preço vários profissionais com
tos, com informações fotométricas muito bem fazer as contas de seus enorme diferença em termos de
confiáveis, laboratórios de comprovada empreendimentos. experiência, competência, estilo e
idoneidade. São indústrias que, na capacidade de atendimento. Esse é o
minha opinião, estão à frente das Lume Arquitetura: Os problemas tipo de processo que contribui para a
demais - o que não diminui as demais. normalmente enfrentados pela maioria desvalorização dos honorários. Espera-
Pelo contrário, convida-as à evolução. dos profissionais são a substituição mos, também, contribuir para esclare-
Por isso tenho o hábito de atender - de produtos especificados por cer o mercado e contribuir para a
mesmo acreditando ser difícil acontecer similares, orçamentos muito aperta- realização inteligente dos processos de
- a todas as sugestões de marcas dos, pouco tempo para desenvolvi- concorrência, que são tão benéficos à
propostas pelos clientes, construtoras mento do projeto… V ocê enfrenta
Você sociedade, de modo geral. Mas não na
ou gerenciadoras. Meus cadernos de problemas deste tipo? Com que forma atualmente praticada. Realmente,
especificação são muito completos nos obstáculos você se depara? esse é um dos maiores objetivos da
itens referentes à luminotécnica; quem Esther: De fato, não posso me queixar AsBAI, porque é um problema para a
atender, concorre; quem precisar de muito de algumas reclamações fre- maioria dos bons profissionais.
ajuda, recebe. Não deixo meus clientes qüentes dos colegas. Em geral, sou Outro problema grave da nossa
descobertos nas concorrências. E chamada na hora certa de desenvolver profissão é a eliminação da etapa de
tenho uma lista muito grande de o projeto, minhas especificações são compatibilização de projetos - quase
clientes fiéis. É só perguntar. Concor- respeitadas… O prazo é sempre uma não se contrata mais a coordenação de

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os custos decorrentes disso não através de eventos como seminários e
representam economia e, sim, gastos mesas redondas, para divulgar os
adicionais) é a descoberta tardia - "as benefícios dos bons projetos de
luminárias já estão na obra" - de que os iluminação, a incompatibilidade que
dutos de ar condicionado ocuparam os sentimos com certas atitudes do
espaços destinados às luminárias. mercado, de alguns fabricantes ou de
Creio que os responsáveis por obras colegas de outras associações. Há
devem ter aquele adesivo na janela do muito trabalho a fazer e esperamos
carro: "Eu acredito em DUENDE". Caso poder contribuir para ele.!
contrário, o que fazer?
Esther Stiller - Arquiteta pela Faculdade de
Lume Arquitetura: Quando a AsBAI Arquitetura da Universidade Mackenzie, 1969. Iniciou
vira uma realidade para todos? a vida profissional no escritório do arq. Lívio E. Levi.
Esther: Ela já é uma realidade para o Em 1973, com o falecimento do arquiteto, ES iniciou
projetos aos arquitetos - onde se pode mercado. Para todos, ela vai acontecer seus trabalhos pessoais, criando o escritório que até
planejar, antecipadamente, a convivên- no momento em que elegermos a nova hoje leva seu nome. Tem mais de 180 projetos
cia do espaço físico entre todos os diretoria - o que ocorrerá em breve - e realizados, incluindo aeroportos, hotéis, edifícios,
equipamentos que fazem parte do anexarmos pessoas que efetivamente museus, colégios, desenho urbano, condomínios,
edifício. O resultado dessa economia (o participem dos trabalhos e contribuam centros esportivos, culturais e comerciais, lojas e
que é um conceito equivocado, porque para a implementar das ações práticas magazines, edifícios religiosos, entre outros.

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