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Livro do Professor

Lite ratu ra
Volume 4
Dados Internacionais para Catalogação na Publicação (CIP)
(Maria Teresa A. Gonzati / CRB 9-1584 / Curitiba, PR, Brasil)
A474 Alves, Roberta Hernandes.
Literatura : ensino médio / Roberta Hernandes Alves ; ilustrações Daniel Klein, Marcos de
Mello, Mariana Coan – Curitiba : Positivo, 2015.
v. 4 : il.
Sistema Positivo de Ensino
ISBN 978-85-467-0092-9 (Livro do aluno)
ISBN 978-85-467-0093-6 (Livro do professor)
1. Literatura. 2. Ensino médio – Currículos. I. Klein, Daniel. II. Mello, Marcos de. III. Coan,
Mariana. IV. Título.
CDD 373.33

©Editora Positivo Ltda., 2015

Presidente: Ruben Formighieri


Diretor-Geral: Emerson Walter dos Santos
Diretor Editorial: Joseph Razouk Junior
Gerente Editorial: Júlio Röcker Neto
Gerente de Arte e Iconografia: Cláudio Espósito Godoy
Autoria: Roberta Hernandes Alves
Supervisão Editorial: Jeferson Freitas
Edição de Conteúdo: Enilda Pacheco (Coord.) e Floresval Nunes Moreira Junior
Edição de Texto: Juliana Milani
Revisão: Chisato Watanabe, Fernanda Marques Rodrigues e Willian Marques
Supervisão de Arte: Elvira Fogaça Cilka
Edição de Arte: Joice Cristina da Cruz
Projeto Gráfico: YAN Comunicação
Ícones: ©Shutterstock/ericlefrancais, ©Shutterstock/Goritza, ©Shutterstock/Lightspring, ©Shutterstock/Chalermpol, ©Shutterstock/
Macrovector, ©Shutterstock/Jojje, ©Shutterstock/Archiwiz, ©Shutterstock/PerseoMedusa e ©Shutterstock/Thomas Bethge
Imagens de abertura: ©Dreamstime.com/Alexandre Fagundes De Fagundes e ©Shutterstock/Samuel Borges Photography
Editoração: Ivonete Chula dos Santos
Ilustrações: Daniel Klein, Marcos de Mello, Mariana Coan
Pesquisa Iconográfica: Janine Perucci (Supervisão) e Susan Rocha de Oliveira
Engenharia de Produto: Solange Szabelski Druszcz

Produção
Editora Positivo Ltda.
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80440-120 – Curitiba – PR
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2018

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Sumário
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07 Barroco ..................................................... 4
Barroco .......................................................................................................... 7
Estética do Barroco nas artes plásticas........................................................... 7
Estética do Barroco na literatura .................................................................... 9
Período barroco português ............................................................................ 12
Padre Antônio Vieira ...................................................................................... 12
Período barroco brasileiro .............................................................................. 15
Gregório de Matos Guerra .............................................................................. 17
ƒ Poesia lírico-amorosa de Gregório de Matos ......................................................................................... 17
ƒ Poesia satírica de Gregório de Matos .................................................................................................... 17
ƒ Poesia religiosa de Gregório de Matos .................................................................................................. 17
Resistência negra à escravidão ...................................................................... 21

08 Arcadismo ................................................ 29
Produção artística do século XVIII .................................................................. 31
ƒ Mudanças na classe burguesa ............................................................................................................... 32
ƒ O Iluminismo ........................................................................................................................................ 33
Arquitetura no Neoclassicismo ..................................................................... 34
Aspectos da literatura árcade ....................................................................... 34
Mudanças na sociedade portuguesa no século XVIII ..................................... 37
Arcadismo em Portugal: Bocage ................................................................... 37
Arcadismo no Brasil ...................................................................................... 39
Poesia lírica árcade: resquícios do Barroco e convencionalismo .................... 40
ƒ Cláudio Manuel da Costa ....................................................................................................................... 40
ƒ Tomás Antônio Gonzaga ....................................................................................................................... 40
Poesia épica árcade: representação do indígena na literatura do século XVIII 45
ƒ O Uraguai .............................................................................................................................................. 45
ƒ Caramuru .............................................................................................................................................. 45
Poesia satírica árcade: crítica aos poderosos ................................................. 46
07
Barroco
©Dreamstime.com/Shaileshnanal

Ponto de partida
1

11.. Na imagem, é possível ver dois homens em meio a uma paisagem natural. Descreva a postura de cada um deles.
2. O título dessa imagem é A contradição. Para você, qual a relação entre a imagem e o título?
3. O termo contradição tem como significados no dicionário as ideias de incoerência, oposição e contestação,
entre outros. Quais as diferenças de significado entre cada um desses três termos?
4. Segundo sua leitura, qual desses três sinônimos se associa melhor à imagem? Justifique sua resposta.

4
Objetivos da unidade:
ƒ compreender a relação do contexto sócio-histórico com as manifestações artísticas do Barroco;
ƒ conhecer as artes plásticas barrocas, incluindo as obras de Aleijadinho;
ƒ ler e interpretar poemas líricos, satíricos e épicos pertencentes ao Barroco;
ƒ entender a função artística e social desempenhada pelos sermões no período barroco.

Lendo a literatura

l.
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5.
01
Leia um poema do poeta brasileiro contemporâneo
mporâneo José Paulo Paes.

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de
2 Orientações para leitura do poema.

s
rco
Ma
Ao shopping center

Pelos teus círculos


vagamos sem rumo
nós almas penadas
do mundo do consumo.

De elevador ao céu
pela escada ao inferno:
os extremos se tocam
no castigo eterno.

Cada loja é um novo


prego em nossa cruz.
Por mais que compremos
estamos sempre nus

nós que por teus círculos


vagamos sem perdão
à espera (até quando?)
da Grande Liquidação.

PAES, José Paulo. Ao shopping center. In: ______.


_____.
Os melhores poemas de José Paulo Paes: seleção
o de
Davi Arrigucci Jr. São Paulo: Global, 1998.
p. 197.

vagamos: andamos sem destino, peregrinamos.


amos.
almas penadas: almas que circulam pelo mundo
sem descanso, almas sofridas.

5
Daniel ital.
Klein.
ig
2015. D
José Paulo Paes nasceu em Taquaritinga, São Paulo, em 1926. Foi tradutor, poeta
e crítico literário. Morreu em São Paulo, em 1998.

1. Na primeira estrofe do poema, o eu lírico aproxima a ati- de sofrimento. Por isso, a cada nova loja em que se entra, uma
tude de caminhar pelo shopping center à ideia de que
nova necessidade de consumo surge, reforçando o sofrimento
não sabemos direito para onde queremos ir. Que ideias
contidas nessa estrofe confirmam essa sensação? vivenciado pelo eu lírico.
Os versos 2 e 3 (“vagamos sem rumo/nós almas penadas”)
4. O poema aproxima o passeio em um shopping center
sugerem que a caminhada pelo shopping center pode não à ideia de peregrinação religiosa, em que os consu-
midores se tornam “almas penadas” subindo e des-
apresentar uma finalidade, uma direção. cendo ao céu e ao inferno por elevadores e escadas.
Seguindo essa interpretação, qual é o fim dessa tra-
2. Na segunda estrofe, há o emprego de uma figura de jetória religiosa?
linguagem marcada por um recurso poético que se
repete. A espera do consumidor que “vaga sem perdão” à espera da

a) Que recurso é esse? “Grande Liquidação” fazendo referência à jornada do fiel à

A antítese (oposição). espera do Juízo Final.

b) Esse recurso é empregado duas vezes nessa es- 5. Uma das possibilidades de interpretação do poema é
trofe. Uma delas pode ser percebida facilmente, a a de que ele expressa a ideia de ser o consumo uma
outra é mais sutil. Identifique essas ocorrências. espécie de nova religião? Justifique sua resposta.
A oposição entre “céu” e “inferno” e entre “elevador” (que Pessoal. Espera-se que os alunos problematizem os hábitos

leva para o céu) e “escada” (que leva para o inferno). relacionados à sociedade do consumo, destacando principal-

c) Explique por que as palavras indicadas na questão mente a necessidade ou não de consumirmos mais produtos do
anterior podem ser entendidas como um caso da
figura de linguagem empregada. que realmente necessitamos.

As palavras “céu” e “inferno” expressam ideias opostas, já 6. No poema “Ao shopping center”, algumas palavras
as palavras “elevador” e “escada” são ideias opostas no apresentam sentido oposto. Percebe-se, também, que
contexto desse poema: “De elevador ao céu” – ideia de ida
esse poema tem um conteúdo crítico. Explique como
para cima; e “pela escada ao inferno” – ideia de ida para
baixo. as oposições podem reforçar o caráter questionador de
um poema.
Pessoal. Espera-se que os alunos considerem que as
3. Na linguagem comum, o termo cruz representa nossa
contradições, em boa parte das vezes, fazem com que mais de
sina (algo a que estamos condenados em nossa exis-
tência, nosso destino). Considerando essa informação, uma visão sobre um mesmo assunto sejam apresentadas ao
por que o poema afirma ser “cada loja” um “prego em
nossa cruz”? leitor.

O consumo, na visão do poema, corresponde a uma experiência

6 Volume 4
Acontecia
3 Propostas de atividades.

Barroco
O Barroco, também chamado de Seiscentismo, foi uma estética que, assim como o Classicismo renascentista,
não ocorreu somente na literatura: aspectos do estilo barroco estão presentes na arquitetura, na pintura, na ópera, no
teatro, na escultura e na música na Europa e em algumas de suas colônias no século XVII. Suas primeiras manifestações
surgiram no último período do Renascimento italiano, momento em que os conceitos de equilíbrio e razão começa-
ram a perder espaço para manifestações artísticas em que se podia observar a presença de alguns exageros e de certa
extravagância nas representações artísticas.
Do ponto de vista histórico, na transição do século XVI para o século XVII, muitos países europeus viviam uma
fase otimista marcada pelo desenvolvimento econômico. A ampliação do comércio com a proliferação das rotas
marítimas e a descoberta da América foram alguns dos fatores que desencadearam esse desenvolvimento. De
modo oposto, mas complementar, outro conjunto de acontecimentos associados à crise religiosa que se instalou
no centro do cristianismo espalhava uma sensação de pessimismo, de uma Europa dividida pelo surgimento de
novas crenças religiosas.
O otimismo econômico e o pessimismo religioso são características de um período histórico marcado por um
espírito contraditório: de um lado, o aprofundamento do racionalismo e do pensamento antropocêntrico com o
avanço das ciências e da filosofia desenvolvidas em alguns lugares como Inglaterra e Holanda; de outro lado, a crise
desencadeada pelo embate entre o Protestantismo e a Contrarreforma, cujos grupos mais extremos defendiam um
resgate de valores do cristianismo típicos da Idade Média, em países como Portugal e Espanha.
A tensão gerada pela crise religiosa enfraquecia o poder da Igreja Católica, que se via dividida e, portanto, passava
a ser mais criticada. As Grandes Navegações, por sua vez, favoreceram o enriquecimento de uma parcela da nobreza
e da burguesia comercial com a expansão da circulação de produtos de diversos lugares do mundo. O resultado da
queda de prestígio da Igreja e o aumento de poder da nobreza e de uma parcela dos comerciantes mais bem-sucedi-
dos criaram condições para o surgimento do Absolutismo, sistema político em que o controle social se concentrava
nas mãos da monarquia.

Olhar literário
4 Proposta de trabalho com as imagens.

Estética do Barroco nas artes plásticas


Diferentemente do Classicismo renascentista, o Barroco apresentou
oca
muitas variações que foram determinadas por fatores políticos, religiosos e Um dos pontos interessantes da arte barr
oco.
culturais nos países europeus. Havia diferenças individuais – relaciona- diz respeito à origem da palavra barr
que o term o vem
das aos estilos dos artistas, que passaram a ter mais liberdade em suas Alguns estudiosos afirmam
form a irre-
composições, se comparados aos renascentistas; e diferenças nacionais do português e significa pérola de
ente
– associadas aos desdobramentos da crise religiosa: o Barroco foi mais gular. Ao longo do tempo, mais precisam
pass ou a desi gna r
intenso e contraditório nos lugares em que a Igreja Católica manteve no século XVIII, barroco
aquilo que é extravagante ou irreg ular.
sua influência com a Contrarreforma.

Literatura 7
No que diz respeito aos estilos dos artistas durante o período barroco, veja uma comparação entre pinturas de dois
artistas tipicamente barrocos: o holandês Rembrandt e o flamengo Peter Paul Rubens.

REMBRANDT. A companhia militar do capitão Frans Banning Cocq e o tenente RUBENS, Peter Paul. O desembarque de Maria
Willem van Ruytenburg (A ronda noturna). 1642. 1 óleo sobre tela, color., de Médicis em Marselha. 1623. 1 óleo sobre tela,
363 cm × 437 cm. Rijksmuseum, Amsterdam. color., 394 cm × 295 cm. Museu do Louvre, Paris.
Nessa pintura de Rembrandt, fica bastante evidente a exploração do contraste Rubens é amplamente conhecido como um dos
claro-escuro maiores coloristas (se aprimoraram no uso das
cores em suas obras) entre os pintores barrocos

A pintura de Rembrandt retrata a cena de um grupo de soldados se preparando para embarcar em uma missão de
patrulhamento. O aspecto original dessa obra é o modo como o pintor organiza o espaço, como se algumas pessoas se
colocassem acima de outras. No Classicismo, retratos coletivos dispunham as figuras humanas uma ao lado das outras,
sem que elas se sobrepusessem, com a imagem mais importante ocupando o centro da cena. Essa obra do pintor
holandês propõe uma organização em que todos os soldados aparecem com destaque semelhante, e não apenas os
personagens do centro da imagem. Outro elemento do estilo barroco de Rembrandt pode ser notado: o uso do fundo
escuro contrastando com o brilho das figuras principais.
Em uma breve leitura da pintura de Rubens, é possível observar outra forma de utilização das cores escuras com-
pondo o fundo da tela: em vez de utilizar um fundo escuro, comum em obras barrocas, tem-se a cor vermelha, que aju-
da a orientar o olhar do leitor para a cena principal do cortejo real. O fundo é composto de tons de branco e cinza que
se assemelham a brumas, como se a imagem de Maria de Médicis e parte das figuras que a acompanha não fossem
pessoas reais, e sim seres vindos de uma dimensão etérea ou fantástica, o que é reforçado pela presença das figuras
mitológicas que se encontram na parte de baixo da tela e a que sobrevoa a cena.
Mesmo sendo diferentes, é possível dizer que nas duas pinturas há um princípio que corresponde a uma das
características mais importantes da arte barroca: o choque entre opostos. Na pintura de Rembrandt, o contraste
entre o claro e o escuro tem como intenção criar no leitor a impressão de que uma parcela da realidade se desprega
da tela; na pintura de Rubens, há uma mistura entre o que pertence ao real (a figura de Maria de Médicis e sua corte)
e o imaginário (imagens da mitologia).
As artes plásticas do Barroco europeu, em geral, apresentam um conjunto de regras que as destacam das conven-
ções da arte renascentista:

8 Volume 4
a) apresentação dos objetos como manchas ou massas de cor, diferentemente da arte clássica do Renascimento,
que procurava delinear as imagens;
b) ênfase na profundidade, e não apenas no que está no primeiro plano, ou seja, nos detalhes que estão no
fundo da cena que é retratada, fazendo parecer que outros acontecimentos situados atrás da cena em primeiro plano
também têm importância – o primeiro plano era mais importante para o artista no Renascimento, já que as imagens
que ocupavam o fundo das representações exerciam apenas o papel de cenário;
c) valor à forma aberta, ou seja, as figuras não apresentam contornos totalmente definidos e não se destacam
somente as imagens centrais;
d) sensação de que o todo da obra é mais importante do que cada parte singular, como se pode observar na
tela de Rembrandt, em que todos os soldados recebem destaque, e não apenas um ou dois deles;
e) não é mais necessário, como o era na arte clássico-renascentista, reproduzir os elementos em todos os seus de-
talhes. Isso significa que no Barroco não há a intenção de reproduzir cada elemento exatamente com ele é (o espectador
deve completar com sua imaginação, já que algumas “lacunas” são deixadas intencionalmente na obra pelo autor).
No período barroco brasileiro, a construção e o acabamento de edificações, principalmente igrejas, deixaram um
legado de grande importância estética. Algumas igrejas estão entre as obras arquitetônicas barrocas de maior des-
taque em todo o mundo, entre elas, destacam-se a de São Francisco de Assis, em Ouro Preto, e a de São Francisco, em
Salvador. No caso da Igreja de São Francisco de Assis de Ouro Preto, observa-se a utilização de uma técnica de uso da
talha (utilizada para esculpir superfícies como madeira ou pedra) combinada à pintura, que pode ser considerada
altamente desenvolvida para os padrões da época. Dois artistas desse período são considerados os maiores de todos
os tempos no Brasil: Antônio Francisco Lisboa (o Aleijadinho) e Manuel da Costa Ataíde (o Mestre Ataíde).
Sugestão de pesquisa: Proponha aos seus alunos que acessem o site do Museu do Aleijadinho.
Sugestão de atividades: questões 1 e 2 da seção Hora de estudo.

Estética do Barroco na literatura


No caso específico da literatura (em especial aquela que se ligou de modo mais direto à Contrarreforma e que
era composta de poemas religiosos, peças teatrais e sermões), o Barroco promoveu uma mudança considerável na
relação do texto com o público. A literatura passou a refletir uma necessidade de impressionar os sentidos do leitor.
Muitas vezes, o texto literário procurou se aproximar do povo, tentando utilizar uma linguagem que pudesse ser com-
preendida quando o assunto da obra era algo ligado à fé.
A Igreja Católica se servia da literatura para propagar sua doutrina, para aproximar as pessoas de sua concepção
de mundo. Isso era feito não de modo que valorizasse o uso da razão, como no pensamento renascentista, mas sim
que proporcionasse uma percepção básica ao leitor e uma compreensão imediata do tema ou assunto tratado na
obra. Contudo, mesmo que os autores tivessem a intenção de ser compreendidos pelas pessoas menos instruídas, a
linguagem usada ainda era inacessível a esse público. No Barroco, a linguagem se tornou muito mais sofisticada e
exagerada do que foi ao longo do Renascimento. Os temas religiosos eram abordados de modo complexo, apresen-
tando uma mistura entre sagrado e profano, baixo e elevado, carne e espírito, homem e Deus, revelando uma crise
entre uma visão antropocêntrica em conflito permanente com uma visão teocêntrica.
O amor, tema central da poesia lírica, também apresentou na poesia barroca efeito de duplicidade e de mistura. A
mulher, vista como um ser puro, objeto da idealização do eu lírico, transforma-se, poucos versos depois, na figura que
seduz e desvirtua, senhora dos prazeres e das tentações, revelando uma perspectiva dualista da realidade.
Na literatura barroca, é possível ver uma produção de cunho satírico, de apelo popular, ironizando situações e
figuras conhecidas socialmente. Nessa poesia, a linguagem é colocada a favor de uma crítica social, questionando os
costumes que caracterizam os abusos por parte dos governantes e dos senhores do poder.

Literatura 9
Além da poesia religiosa, da lírico-amorosa e da satírica, vale destacar a produção de uma poesia de cunho filo-
sófico, que explora a fugacidade do tempo e a transitoriedade da vida, e uma poesia de cunho erótico.
A produção barroca na literatura pode ser organizada em duas tendências: o cultismo e o conceptismo.
• Cultismo – também conhecido como gongorismo, explora as imagens poéticas, o jogo de palavras, as inver-
sões sintáticas e o uso culto da língua.
• Conceptismo – utiliza a linguagem como estratégia para convencer e como jogo de raciocínio.
De modo geral, o cultismo está relacionado aos textos poéticos; e o conceptismo, aos textos em prosa.

Atividades 5 Orientações sobre as atividades.

1. Analise as reproduções de obras barrocas e associe cada uma das características a uma obra.

(1) (3)
VELÁZQUEZ, Diego. As meninas. 1656. 1 óleo sobre EL GRECO (Doménikos Theotokópoulos). O enterro
tela, color., 318 cm × 276 cm. Museu do Prado, do Conde Orgaz. 1586-1588. 1 óleo sobre tela, color.,
Madri. 480 cm × 360 cm. Igreja de São Tomé, Toledo.

CARAVAGGIO, Michelangelo Mirisi


de. A ceia de Emaús. 1601.
1 óleo sobre tela, color.,
141 cm × 196,2 cm. Galeria
(2) Nacional, Londres.

fugacidade: velocidade. transitoriedade: brevidade, que é erótico: relativo ao amor sensual.


passageira.
10 Volume 4
( 1 ) A tela apresenta vários pontos luminosos, destacando a imagem central que está situada na parte da frente ao
mesmo tempo que chama a atenção para o fundo da cena. Essa estratégia do estilo barroco ressalta a profun-
didade da tela.
( 2 ) Nessa pintura, destaca-se o jogo do claro-escuro, que faz com que algumas das imagens não apresentem um
contorno totalmente definido.
( 3 ) O quadro apresenta uma divisão da cena principal em dois planos: o humano, que se encontra na parte inferior da
tela, e o divino, na porção superior. Essa perspectiva dualista é uma das marcas do Barroco presente nessa pintura.
2. Leia o poema escrito por Luís de Camões.

Tanto de meu estado me acho incerto,


que em vivo ardor tremendo estou de frio;
sem causa, juntamente choro e rio;
o mundo todo abarco e nada aperto.

É tudo quanto sinto, um desconcerto;


da alma um fogo me sai, da vista um rio;

©Shutterstock/pun photo/DeepGreen/Vso
agora espero, agora desconfio,
agora desvario, agora acerto.

Estando em terra, chego ao Céu voando;


Num’hora acho mil anos, e é de jeito
que em mil anos não posso achar um’hora.

Se me pergunta alguém porque assim ando,


respondo que não sei; porém suspeito
que só porque vos vi, minha Senhora.

CAMÕES, Luís de. Lírica: Luís de Camões. Introdução e notas de Aires


da Mata Machado Filho. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: EDUSP,
1982. p. 154-155.

a) Ainda que a produção literária camoniana faça parte do Classicismo renascentista, é possível encontrar no poema
lido elementos pertencentes ao Barroco. Selecione duas passagens que indiquem marcas típicas do estilo barroco.
Justifique sua escolha.
Pessoal. Sugestão: “que em vivo ardor tremendo estou de frio”; “o mundo todo abarco e nada aperto”. Nesses dois versos, como

em outros que compõem o soneto, as figuras de linguagem têm a função de revelar a oposição e a contradição, que são caracterís-

ticas do Barroco.

b) Como você descreveria o estado amoroso vivido pelo eu lírico desse poema?
Pessoal. Sugestão: O amor vivenciado pelo eu lírico é marcado por sensações contraditórias.

abarco: envolvo. desconcerto: desarranjo, desacerto. desvario: loucura.

Literatura 11
Acontecia

Período barroco português


No campo da produção literária portuguesa, o Barroco tem início em 1580, com a morte de Luís de Camões, o
grande escritor do Classicismo renascentista.
A estética barroca, porém, não se desenvolveu do mesmo modo como na Itália, em que pode ser considerada uma
sequência da arte renascentista. Fatores políticos determinaram certa resistência à adesão de artistas portugueses ao
Barroco.
Em 1578, D. Sebastião, rei de Portugal, desapareceu na batalha de Alcácer-Quibir. Como morreu muito jovem, não
deixou herdeiros diretos para seu trono. Quem assumiu o trono foi Henrique I. No entanto, este morreu em 1580 e o
rei da Espanha, Filipe II, foi então proclamado rei de Portugal, pois era o parente mais próximo que atendia às regras
definidas para a sucessão real.
Essa situação de esvaziamento do poder fez com que a nobreza, que vivia em torno do palácio real, abandonasse a
capital Lisboa. Muitos nobres seguiram para suas propriedades no campo, levando consigo artistas e intelectuais para
formar suas próprias cortes.
O domínio espanhol sobre Portugal durou 60 anos. As relações entre ambos eram marcadas por desavenças e por
uma resistência sistemática dos portugueses a tudo o que vinha da corte de Madri. Como os artistas espanhóis haviam
aderido à estética barroca, muitos portugueses passaram a recusá-la, preservando os princípios da literatura clássico-
-renascentista como um escudo para protegê-los de tais influências. Os Lusíadas, de Camões, passa a ser considerado
mais que uma obra literária, torna-se uma espécie de bandeira que exaltava o modo de ser do povo português: em
seus versos, os portugueses viam a representação dos tempos de glória de Portugal.
Se de um lado artistas e intelectuais portugueses faziam resistência à entrada da estética barroca em Portugal, de
outro, a Contrarreforma, com ligação estreita com a arte barroca, de certa forma, impunha o estilo em terras lusitanas.
Como visto, a arte serviu de instrumento de divulgação de ideias relativas à doutrina da Igreja Católica, por meio, por
exemplo, da escrita e da divulgação de autos sacramentais (uma espécie de teatro religioso) e dos sermões.

6 Explicação sobre os autos sacramentais.

Olhar literário
Padre Antônio Vieira
Considerado o mais importante prosador barroco em língua portuguesa, Padre Antônio Vieira escreveu sua obra
parte em Portugal, parte no Brasil. Sua produção pode ser dividida em três grandes grupos: as profecias, em que es-
creve sobre o futuro de Portugal; as cartas, nas quais podem ser lidas ideias sobre a Inquisição, questões políticas, as
relações entre Portugal e Holanda e os novos cristãos (muçulmanos e judeus convertidos para a fé cristã); os sermões,
em que se pode observar o domínio dos aspectos da escrita barroca conceptista, isto é, em que desenvolve as ideias
por meio de uma escrita persuasiva e altamente elaborada.
Um fator importante a ser considerado para a compreensão da obra de Antônio Vieira diz respeito a sua presença
ora no Brasil ora em Portugal. Diferentemente de outros escritores que se fixavam em um único lugar, Vieira teve um

12 Volume 4
papel político de relevo tanto na Corte portuguesa como em localidades que serviam de apoio para os colonizadores
que se transferiam para as regiões Norte e Nordeste do Brasil em busca de oportunidades de enriquecimento. 7 Sugestão
de leitura.
Foi em seus textos, principalmente nos sermões, que Vieira manifestou sua visão sobre as questões de seu tempo:
a colonização, a decadência de Portugal, a conversão e a exploração da terra e dos indígenas que habitavam a colônia
brasileira, os problemas da religião decorrentes da crise religiosa (embate entre católicos e protestantes). Pode-se en-
tão afirmar que em sua escrita havia três dimensões complementares que servem de guia para a leitura: a primeira,
religiosa, a segunda, literária, e a terceira, política.
Leia o trecho de um dos sermões escritos por Padre Vieira.

Suponho, finalmente, que os ladrões de que falo, não são aqueles

. Digital.
miseráveis, a quem a pobreza e a vileza de sua fortuna condenou

Mello. 2015
a este gênero de vida, porque a mesma sua miséria ou escusa ou
alivia o seu pecado, como diz Salomão: Non grandis est culpa, cum

Marcos de
quis furatus fuerit: furatur enim ut esurientem impleat animam.
O ladrão que furta para comer, não vai, nem leva ao inferno; os que
não só vão, mas levam, de que eu trato, são os ladrões, de maior
calibre e de mais alta esfera, [...] Não são só ladrões, diz o Santo,
os que cortam bolsas ou espreitam os que se vão banhar, para
lhes colher a roupa; os ladrões que mais própria e dignamente
merecem este título, são aqueles a quem os reis encomendam os
exércitos e legiões, ou o governo das províncias, ou a administra-
ção das cidades, os quais já com manha, já com força, roubam
e despojam os povos. Os outros ladrões roubam um homem,
estes roubam cidades e reinos: os outros furtam debaixo do seu
risco, estes sem temor, nem perigo: os outros, se furtam, são
enforcados, estes furtam e enforcam. [...]

VIEIRA, Antônio. Sermão do bom ladrão. In: ______. Os sermões. São Paulo:
Difel, 1968. p. 319-320.

Padre Antônio Vieira nasceu em Lisboa, em 1608.


8. Com 7 anos veio para o Brasil, onde
. Digital.

entrou para a Companhia de Jesus. Após a restauração


uração da monarquia portuguesa, em
ein. 2015

1640, retornou a Portugal e tornou-se confessor do rei D. João IV. Voltou ao Brasil em
1681 e dedicou seus últimos anos à compilação de seus sermões. Morreu em 1697.
Daniel Kl

vileza: baixeza. alta esfera: de grande importância social.


escusa: desculpa. espreitam: espiam.
Non grandis est culpa, cum quis furatus fuerit: furatur colher: roubar.
enim ut esurientem impleat animam: esse trecho escrito encomendam: solicitam.
em latim foi retirado de uma passagem bíblica (Provérbios, VI, manha: jeito.
vers. 30); pode ser traduzido como “Não se trata como ladrão despojam: saqueiam, roubam.
quem rouba para matar a fome”. risco: possibilidade de ser pego.
calibre: importância.

Literatura 13
O estilo da prosa de Vieira apresenta um uso constante de metáforas, comparações, anáforas, antíteses e para-
doxos. Destaca-se também a naturalidade por meio da qual discutia assuntos relacionados à fé e à vida dos homens,
em um raciocínio pautado pela condução lógica em que intenção era o de convencer seus ouvintes (apesar de
escritos, os sermões de Vieira eram pregados oralmente) e enfrentar os poderosos.
Nota-se uma intenção moral por trás dos argumentos usados pelo padre. Uma das estratégias dos sermões era as-
sociar passagens bíblicas a problemas concretos vivenciados pelos homens. Os problemas religiosos desdobravam-se
em problemas éticos relativos à conduta que ele considerava reprovável das pessoas. Os sermões de Vieira, portanto,
não se limitavam a oferecer conforto espiritual aos fiéis, mas, sobretudo, criticavam os modos de ser dos homens.
Sugestão de atividades: questões de 3 a 5 da seção Hora de estudo.

Atividades
8 Sobre a leitura de sermões do Padre Vieira.

Leia uma passagem de um dos sermões mais importantes do maior representante do Barroco em Portugal, Padre Antô-
nio Vieira: o “Sermão da Sexagésima”.

Será porventura o estilo que hoje se usa nos púlpitos? Um estilo tão empeçado, um estilo tão
dificultoso, um estilo tão afetado, um estilo tão encontrado a toda a arte e a toda a natureza? Boa
razão é também esta. O estilo há de ser muito fácil e muito natural. Por isso Cristo comparou o pregar
ao semear: Exiit qui seminat, seminare. Compara Cristo o pregar ao semear, porque o semear é uma
arte que tem mais de natureza que de arte.
[...]
Já que falo contra os estilos modernos, quero alegar por mim o estilo do mais antigo pregador
que houve no mundo. E qual foi ele? O mais antigo pregador que houve no mundo foi o céu. [...]
Suposto que o céu é pregador, deve ter sermões e deve ter palavras. [...] E quais são estes sermões e
estas palavras do céu? As palavras são as estrelas, os sermões são a composição, a ordem, a harmonia
e o curso delas. [...] O pregar há de ser como quem semeia, e não como quem ladrilha ou azuleja.
[...] Não fez Deus o céu em xadrez de estrelas, como os pregadores fazem o sermão em xadrez de
palavras. Se de uma parte está branco, da outra há de estar negro; se de uma parte está dia, da outra
há de estar noite; se de uma parte dizem luz, da outra hão de dizer sombra; se de uma parte dizem
desceu, da outra hão de dizer subiu. Basta que não havemos de ver num sermão duas palavras em paz?
Todas hão de estar sempre em fronteira com o seu contrário?
[...]
Mas dir-me-eis: Padre, os pregadores de hoje não pregam do Evangelho, não pregam das Sagradas
Escrituras? Pois como não pregam a palavra de Deus? Esse é o mal. Pregam palavras de Deus, mas
não pregam a palavra de Deus.

VIEIRA, Antônio. Sermão da Sexagésima. In: ______. Os sermões. São Paulo: Difel, 1968. p. 96-97-105.

porventura: talvez. Exiit qui seminat, seminare: Saiu o pregador evangélico a


púlpito: lugar de destaque, de onde se faz uma pregação. semear.
empeçado: transtornado. curso: trajetória.
afetado: pretensioso. ladrilha: assentar ladrilhos em uma superfície.
encontrado: contrário. azuleja: assentar azulejos em uma superfície.

14 Volume 4
1. Observe o estilo utilizado pelo Padre Antônio Vieira no 2. “O pregar há de ser como quem semeia, e não como
desenvolvimento de seu sermão e indique, das afirma- quem ladrilha ou azuleja”. Nesse trecho, o Padre An-
ções a seguir, as opções incorretas. tônio Vieira opõe a pregação correta (pregar como
( ) O tema abordado nesse trecho do sermão é a arte alguém que semeia) à pregação errada (pregar como
da composição, segundo a concepção de Antônio quem ladrilha ou azuleja). Para você, qual o significado
Vieira sobre o assunto. da metáfora “ladrilha ou azuleja”?
Pessoal. Nessa resposta, é importante que os alunos percebam
( X ) O conceptismo, no trecho lido do sermão, só é per- que tanto ladrilhar como azulejar se referem a ações relacio-
ceptível nos momentos em que Vieira compara as nadas à decoração, a deixar uma superfície bonita. Vieira
questiona a opção dos pregadores que utilizam um estilo
palavras de um sermão às estrelas do céu. que se preocupa mais com o aspecto decorativo da linguagem
( ) No final do segundo parágrafo, é possível encon- religiosa que com seu significado místico ou doutrinário.
trar uma série de termos que estabelecem entre si
3. Na passagem do texto em que se lê: “Pregam palavras
um sentido de oposição.
de Deus, mas não pregam a palavra de Deus”, há uma
( X ) O uso das interrogações no trecho do sermão é aparente contradição.
um recurso utilizado para desviar a atenção do
a) Que contradição é essa?
leitor/ouvinte dos pontos que merecem atenção
para se compor um bom sermão. A suposta contradição diz respeito à pregação correta ou
não da palavra de Deus. Isto é, alguns falam palavras relati-
• Agora, escreva por que estão incorretas as afirmati- vas a Deus, mas não falavam a palavra de Deus.
vas que você marcou nessa atividade.
Sobre a primeira alternativa indicada como incorreta, é b) Que termo presente nessa frase apresenta sentidos
possível afirmar que o conceptismo em um texto barroco não
se limita a uma das partes de um texto, mas sim ao modo
opostos? Qual o recurso utilizado pelo escritor para
como o texto é integralmente composto, valendo-se da criar a duplicidade?
construção de um jogo de ideias. Sobre a segunda alternativa O termo que apresenta sentidos que se opõem é “palavra”.
indicada, as interrogações utilizadas em alguns trechos do Para criar um efeito de oposição entre termos que são
sermão exercem justamente uma função contrária, que é a iguais, mas significam visões opostas do ponto de vista
de atrair a atenção do leitor/ouvinte, fazendo com que ele religioso: um pregador fala palavras variadas que parecem
seja impelido a, mesmo que no interior de sua consciência, dizer respeito aos ensinamentos divinos, ao passo que outro
responder às perguntas que são feitas, ou seja, a posicionar-se. pregador procura falar a palavra correta, única.

Acontecia
Período barroco brasileiro
No período histórico em que o Barroco floresceu no Brasil, os que aqui estavam estabelecidos pelo processo da
colonização buscavam, em sua maioria, construir as bases para o desenvolvimento de uma economia fundamentada
no plantio em grandes propriedades e na extração de metais preciosos.
Ainda que apresentasse elementos comuns, como a presença de uma temática religiosa e um estilo baseado no
contraste entre elementos opostos, o Barroco brasileiro variava de uma região para outra.
O Barroco desenvolveu-se no Brasil ao longo dos séculos XVII e XVIII, na Região Nordeste com a figura de Gregório
de Matos e na região de Minas Gerais com manifestações na música, arquitetura, escultura e pintura produzidas por
artistas importantes como Aleijadinho e Mestre Ataíde. O estilo do barroco brasileiro aproveitou características de cada
localidade para se constituir. Houve um barroco localizado nas regiões enriquecidas pela exploração da cana-de-açú-
car e outro associado a localidades que se desenvolveram economicamente pela extração do ouro. Outra manifestação
desse estilo também aparece em localidades menos ricas, desenvolvendo um estilo menos suntuoso, de conteúdo
religioso, como é o caso do Barroco paulista.

Literatura 15
Em suma, é possível afirmar que, nas regiões que enriqueceram com a mineração e o comércio de açúcar, podem-
-se encontrar obras literárias e artísticas feitas por artistas de renome, enquanto nas localidades em que a produção de
riquezas não se desenvolveu de uma maneira tão acelerada na época – como em São Paulo – os trabalhos foram mais
modestos e de artistas menos experientes. 9 Sugestão de leitura sobre o Barroco paulista.

Na passagem do século XVI para o XVII, a ocupação da terra pelos portugueses deu início à formação de pequenas
vilas e povoados que se instalaram distantes uns dos outros. A distância entre eles fez com que cada agrupamento so-
cial criasse condições autônomas para sua própria sobrevivência, pois pouco poderiam recorrer uns aos outros em caso
de necessidade. O cotidiano das vilas girava em torno das propriedades agrícolas, que foram ganhando amplitude em
virtude do aumento crescente da área de plantio, principalmente nas regiões de cultivo da cana-de-açúcar. Os espaços
urbanos eram pequenos e viviam ligados aos espaços rurais. Essa condição de pouca importância das vilas, diante
do poder político e econômico das propriedades rurais, distinguia a organização social que se fez no Brasil daquele
período, em comparação com o desenvolvimento e a maior concentração da população e das riquezas nas cidades
europeias. As exceções ficavam por conta de cidades costeiras que serviam de ponto de referência para a exportação
de matérias-primas para Portugal, como foram os casos de Recife e Salvador.
O espaço urbano com baixo nível de desenvolvimento no Brasil teve como consequência o pouco interesse por
atividades literárias propriamente ditas. Outro aspecto a ser considerado era a proibição imposta por Portugal, segundo
a qual as pessoas não deveriam adquirir livros que não fossem voltados para atividades relacionadas ao comércio ou às
leis. Não havendo livros literários e não havendo um espaço em que livros possam circular, não se formou um público
leitor de literatura consistente em terras brasileiras durante muitos anos. 10 Sobre a censura aos livros no século XVI.

Mas, com o enriquecimento dos proprietários produtores de açúcar e dos primeiros mineradores que encontraram
ouro no interior do país, muitos começaram a enviar seus filhos para Portugal para lhes dar uma educação que não
havia aqui. Esses estudantes encontraram na Europa uma realidade muito diferente da que existia no Brasil Colônia.
Portugal, por exemplo, vivia tempos de uma agitação política e cultural (dependência política da Espanha e dis-
tanciamento dos intelectuais das discussões sobre o estilo barroco, por exemplo) que seduziu os jovens, fazendo com
que se desenvolvesse neles o interesse por instaurar uma cultura letrada por aqui. Aos poucos, apesar da restrição,
textos e livros passaram a circular entre grupos interessados em literatura, arte, direito, filosofia, etc.
Além da formação desses grupos de herdeiros enriquecidos, houve também a influência da Igreja Católica no de-
senvolvimento da literatura barroca brasileira, tanto que o Barroco é o estilo da Contrarreforma católica. Ocupados
em divulgar o cristianismo, segundo os parâmetros da Contrarreforma, os religiosos importaram para a Colônia elemen-
tos barrocos juntamente com um material doutrinário: as imagens do reino dos céus ou do inferno eram representadas
com uma linguagem
©iStockphoto.com.br/Gim42

marcada fortemente
pelos sentidos e pelo
gosto pela ornamen-
tação (rebuscamen-
to na linguagem).

O excesso de
ornamentação, típico
das artes plásticas
barrocas, ficou bastante
marcado na arquitetura
e na escultura brasileiras.
A Igreja de São
Francisco, em Salvador
(BA), é um exemplo
da ornamentação
aliada à religiosidade,
características do
Barroco brasileiro

16
Olhar literário
11 Informações sobre Gregório de Matos.

Gregório de Matos Guerra


Considerado o primeiro grande poeta brasileiro, Gregório de Matos Guerra representou o ponto alto da produção
literária nacional no século XVII. Conhecido como Boca do Inferno (ou Boca de Brasa), por causa de sua língua ferina ao
maldizer dos desmandos dos poderosos que se beneficiavam da exploração das brechas decorrentes da organização
política e social deficitária do Brasil Colônia, foi um crítico voraz da sociedade de Salvador. Sua obra, contudo, não se
restringe à poesia satírica, abrangendo também os gêneros lírico e religioso.
O contexto geral de sua produção literária teve como marcas a ação dos jesuítas na colônia e a restauração do trono
português que, desde 1580, vivia sob domínio espanhol. No que diz respeito às características de seu estilo, a escrita
de Gregório de Matos dialogou com algumas das linhas do Barroco europeu, assumindo características como a luta
entre a espiritualidade e o materialismo carnal, o dilema entre o poder público e o privado, a visão do feminino
alternando sentimentos de desejo e de repulsa, de pureza e de degradação, sempre tendo em vista o cultismo
como recurso formal da linguagem.

Poesia lírico-amorosa de Gregório de Matos


A poesia lírico-amorosa escrita por Gregório de Matos é uma das mais relevantes produções escritas em língua por-
tuguesa durante o Barroco. Gregório cria uma imagem feminina dividida entre uma figura idealizada e a manifestação
da materialização carnal.
Na poesia gregoriana, a mulher é amada não por representar um ser perfeito em todos os sentidos, como na poesia
lírico-amorosa clássico-renascentista, mas por ser vista como a junção de características que se opõem: um ser de ele-
vada pureza, semelhante a anjos e santas, e a expressão das tentações, desencadeando prazeres.

Poesia satírica de Gregório de Matos 12 Características da poesia de Gregório de Matos.

Algumas das produções literárias mais originais do Barroco em língua portuguesa são de autoria de Gregório de
Matos e se referem à poesia satírica e religiosa.
Apesar de tratarem de assuntos diversos entre si (a poesia satírica se volta para a crítica dos costumes, e a religiosa
para os temas relacionados à fé), as produções satírica e sacra apontam para dois universos opostos, porém comple-
mentares: a realidade dura (e material) das relações sociais e da disputa dos homens pelo poder; e os impasses (religio-
sos) de uma época em que a religião se mostra em crise.
Novamente a poesia de Gregório de Matos transmite a ideia de um jogo de contrastes: o político e o espiritual;
carne e alma; problemas do mundo material e do imaterial.

Poesia religiosa de Gregório de Matos


Uma das marcas mais recorrentes na poesia religiosa de Gregório de Matos é a preocupação com a salvação do
homem. A dualidade barroca se expressa na relação entre culpa e salvação, ou seja, o argumento presente nos poemas
religiosos induz o leitor a concordar com a ideia segundo a qual a salvação só é possível em função de o homem ter
cometido o pecado.
A atitude do eu lírico na poesia religiosa de Gregório de Matos lembra a de alguém que defende a si mesmo na
presença de Deus, com a promessa de redimir-se, não mais pecar. Vale lembrar que o tema religioso na poesia grego-
riana se situa no contexto da Contrarreforma, tendo como pano de fundo a educação jesuítica.

Literatura 17
O homem ajoelhado pedindo perdão e se punindo ao assumir seus desvios morais é o primeiro passo para o
arrependimento. A defesa de si mesmo, explorando o paradoxo “cometo pecado para poder ser salvo” (ou, “não há
salvação sem o pecado”) remete à imagem do sujeito diante do Tribunal da Inquisição, em que deve argumentar sobre
seus atos para ser absolvido.

Atividades 13 Sugestão para leitura do poema.

1. Leia o poema e responda ao que se pede.

Rompe o poeta com a primeira impaciência


querendo declarar-se e temendo perder por
ousado
Anjo no nome, Angélica na cara!
Isso é ser flor, e Anjo juntamente:
Ser Angélica flor, e Anjo florente,
Em quem, senão em vós, se uniformara:

Quem vira uma tal flor, que a não cortara,

Mariana Coan. 2015. Colagem digital.


De verde pé, de rama florescente;
E quem um Anjo vira tão luzente,
Que por seu Deus o não idolatrara?

Se pois como Anjo sois dos meus altares,


Fôreis o meu Custódio, e minha guarda,
Livrara eu de diabólicos azares.

Mas vejo, que por bela, e por galharda,


Posto que os Anjos nunca dão pesares,
Sois Anjo, que me tenta, e não me guarda.

MATOS, Gregório de. Poemas escolhidos. Seleção, introdução e notas de


José Miguel Wisnik. 13. ed. São Paulo: Cultrix, 1997. p. 202.

Gregório de Matos Guerra nasceu em Salvador, Bahia, em data incerta (1623 ou


igital.
n. 2015. D

1636). Ocupou vários cargos designados pelo rei, adquirindo grande prestígio. Foi
denunciado para o Tribunal da Santa Inquisição, em 1685, por seus modos, tidos
Daniel Klei

como pouco cristãos. Em 1694, passou a ser perseguido e jurado de morte por
ter escrito poemas satíricos ridicularizando o governador Antônio Luiz da Câmera
Coutinho. Morreu em 1695.

florente: brilhante. rama: conjunto de ramos. galharda: elegante.


uniformara: se transformara em uma luzente: que emite luz. pesares: tristezas.
forma única. Custódio: protetor. guarda: protege.

18 Volume
l 4
a) A figura feminina presente no soneto é vista pelo eu lírico como “anjo” e “flor” ao mesmo tempo. Essas duas ima-
gens, no contexto do poema, podem ser entendidas como uma contradição. O que elas representariam?
A metáfora anjo remete à perspectiva imaterial da figura feminina, ao passo que flor se associa à dimensão material. Dizendo de

outro modo, anjo e flor representam alma e corpo, espiritualidade e sensualidade.

b) O verso “Sois Anjo, que me tenta, e não me guarda” apresenta um paradoxo. Qual é ele?
O paradoxo pode ser visto na distorção do papel que culturalmente é atribuído a um anjo: um ser espiritual cuja função é a de pro-

teger as pessoas, segundo a tradição cristã. No soneto, o “anjo” não “guarda” (ou seja, não protege), mas sim “tenta”, aproximando

o eu lírico do pecado.

2. Leia o trecho do poema e responda às questões propostas. 14 Apresentação do poema integral e comentário
sobre a visão a respeito do negro na época.
a) Na estrofe, tem-se um exemplo de poema satírico de Gre-
gório de Matos. O alvo de suas críticas é Lourenço Ribeiro,
Um Branco muito encolhido,
padre natural da Bahia, que, segundo consta, escrevia e
um Mulato muito ousado,
recitava versos próprios. O motivo do ataque de Gregório de-
Um Branco todo coitado,
ve-se ao fato de Lourenço haver falado mal do poeta. Como
um canaz todo atrevido: se estrutura a crítica feita por Gregório ao Padre Ribeiro?
o saber muito abatido,
A sátira de Gregório começa por uma depreciação racial, variando
a ignorância, e ignorante
mui ufano e mui farfante entre homem branco ou mulato a fim de identificar o padre (consta
sem pena, ou contradição:
milagres do Brasil são. que ele era mulato). O ponto maior da crítica, porém, foi identificar
[...] Lourenço com um cachorro grande (canaz) para, na sequência,

MATOS, Gregório de. Gregório de Matos: sátira. ofendê-lo intelectualmente. O fecho da estrofe aponta para a ideia
Ângela Maria Dias. 4. ed. Rio de Janeiro: Agir,
1996. p. 61. segundo a qual, somente no Brasil, é que ocorre o “milagre” de

pessoas como Lourenço terem algum valor.

b) Qual a relação entre o ataque pessoal presente no poema e a crítica à sociedade como um todo?
A poesia satírica de Gregório de Matos tem como marca central a utilização da crítica pessoal como uma oportunidade para criticar

o todo da sociedade (no poema lido, o poeta vê a sociedade brasileira como tolerante ao dar voz a um sujeito “farfante”). A sociedade,

portanto, se deixa corromper e enganar. Sendo assim, é possível afirmar que a poesia gregoriana é um instrumento do desmascara-

mento ao denunciar os enganos e as corrupções.

encolhido: pequeno. ufano: que se vangloria de algo.


canaz: cachorro grande. farfante: alguém que se vangloria falsamente dos próprios feitos,
abatido: nesse verso, referindo-se ao “saber”, tem sentido de impostor.
“pequeno”, “fraco”.

Literatura 19
3. Leia o soneto e responda às questões propostas.

A Jesus Cristo Nosso Senhor


Pequei, Senhor; mas não porque hei pecado,
Da vossa alta clemência me despido;
Porque, quanto mais tenho delinquido,
Vos tenho a perdoar mais empenhado.

Se basta a vos irar tanto um pecado,


A abrandar-nos sobeja um só gemido:
Que a mesma culpa, que vos há ofendido,
Vos tem para o perdão lisonjeado.

Se uma ovelha perdida e já cobrada


Glória tal e prazer tão repentino
Marcos de Mello. 2015. Digital.

Vos deu, como afirmais na sacra história:

Eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada,


Cobrai-a; e não queirais, pastor divino,
Perder na vossa ovelha a vossa glória.
MATOS, Gregório de. Poemas escolhidos. Seleção, introdução e notas de
José Miguel Wisnik. 13. ed. São Paulo: Cultrix, 1997. p. 297.

a) Selecione a opção correta entre as alternativas propostas.


Na conversa que estabelece com Deus, o eu lírico:
( ) se apresenta confiante porque sabe que vai conseguir o perdão divino.
( ) se mostra humilde porque acha que tem pouca chance de conseguir ser perdoado.
( X ) se apresenta como um pecador que quer ser perdoado pelos erros cometidos.
b) No poema, o eu lírico argumenta para convencer o Senhor que ele deve ser perdoado. Explique como ele desen-
volve essa argumentação. Sugestão de atividades: questões de 6 a 12 da seção Hora de estudo.

O eu lírico tenta jogar com a ideia de pecado e arrependimento. Na segunda estrofe, por exemplo, ele trabalha com as oposições ira

(raiva)/abrandamento, culpa/perdão, como se os erros graves do pecador (que provocam a ira e a culpa) pudessem também suscitar

o sentimento oposto de clemência.

despido: despeço. abrandar-nos: suavizar-nos. lisonjeado: honrado.


delinquido: cometido um pecado. sobeja: basta. cobrada: recuperada.

20 Volume 4
Acontecia
15 Sugestão de atividades relacionadas ao texto.
Resistência negra à escravidão
A escravidão pode ser definida como o sistema de trabalho no qual o indivíduo (o escravo) é propriedade de
outro, podendo ser vendido, doado, emprestado, alugado, hipotecado, confiscado. Legalmente, o escravo não
tem direitos: não pode possuir ou doar bens e nem iniciar processos judiciais, mas pode ser castigado e punido.
Não existem registros precisos dos primeiros escravos negros que chegaram ao Brasil. A tese mais aceita é
a de que, em 1538, Jorge Lopes Bixorda, arrendatário de pau-brasil, teria traficado para a Bahia os primeiros
escravos africanos.
Eles eram capturados nas terras onde viviam na África e trazidos à força para a América, em grandes navios,
em condições miseráveis e desumanas. Muitos morriam durante a viagem através do oceano Atlântico, vítimas
de doenças, de maus tratos e da fome.
Os escravos que sobreviviam à travessia, ao chegar ao Brasil, eram logo separados do seu grupo linguístico
e cultural africano e misturados com outros de tribos diversas para que não pudessem se comunicar. Seu papel
de agora em diante seria servir de mão de obra para seus senhores, fazendo tudo o que lhes ordenassem, sob
pena de castigos violentos. Além de terem sido trazidos de sua terra natal, de não terem nenhum direito, os
escravos tinham que conviver com a violência e a humilhação em seu dia a dia.
A minoria branca, a classe dominante socialmente, justificava essa condição através de ideias religiosas
e racistas que afirmavam a sua superioridade e os seus privilégios. As diferenças étnicas funcionavam como
barreiras sociais.
O escravo tornou-se a mão de obra fundamental nas plantações de cana-de-açúcar, de tabaco e de algodão,
nos engenhos, e, mais tarde, nas vilas e cidades, nas minas e nas fazendas de gado.
Além de mão de obra, o escravo representava riqueza: era uma mercadoria, que, em caso de necessidade, po-
dia ser vendida, alugada, doada e leiloada. O escravo era visto na sociedade colonial também como símbolo do
poder e do prestígio dos senhores, cuja importância social era avalizada pelo número de escravos que possuíam.
A escravidão negra foi implantada durante o século XVII e se intensificou entre os anos de 1700 e 1822,
sobretudo pelo grande crescimento do tráfico negreiro. O comércio de escravos entre a África e o Brasil tor-
nou-se um negócio muito lucrativo. O apogeu do afluxo de escravos negros pode ser situado entre 1701 e
1810, quando 1 891 400 africanos foram desembarcados nos portos coloniais.
Nem mesmo com a independência política do Brasil, em 1822, e com a adoção das ideias liberais pelas
classes dominantes, o tráfico de escravos e a escravidão foram abalados. Neste momento, os senhores só pen-
savam em se libertar do domínio português que os impedia de expandir livremente seus negócios. Ainda era
interessante para eles preservar as estruturas sociais, políticas e econômicas vigentes.
Ainda foram necessárias algumas décadas para que fossem tomadas medidas para reverter a situação dos
escravos. Vale lembrar que não eram todos os escravos que se submetiam passivamente à condição que lhe foi
imposta. As fugas, as resistências e as revoltas sempre estiveram presentes durante o longo período da escravi-
dão. Existiram centenas de “quilombos” dos mais variados tipos, tamanhos e durações. Os “quilombos” eram
criados por escravos negros fugidos que procuraram reconstruir neles as tradicionais formas de associação
política, social, cultural e de parentesco existentes na África.
O “quilombo” mais famoso pela sua duração e resistência, foi o de Palmares, estabelecido no interior do
atual estado de Alagoas, na Serra da Barriga, sítio arqueológico tombado recentemente. Este “quilombo” se
organizou em diferentes aldeias interligadas, sendo constituído por vários milhares de habitantes e possuindo
forte organização político-militar.

A HISTÓRIA da escravidão negra no Brasil. Disponível em: <http://www.geledes.org.br/historia-da-escravidao-negra-brasil-2/#axzz3EaHKsL8Q>.


Acesso em: 23 set. 2014.

Literatura 21
Acervo Iconographia
1. Na imagem vê-se um grupo de pessoas sendo trans-
portado para o Brasil para serem escravas. Destaque
dois elementos presentes na imagem que, em sua opi-
nião, caracterizam sua condição de cativos.
Pessoal. Sugestão: o modo como as pessoas estão vestidas,

com roupas mínimas a cobrir-lhes o corpo; suas expressões de

cansaço físico, presença de capatazes armados com chicotes.

Imagem representando o interior de um navio negreiro

2. Leia a canção de capoeira e responda às questões propostas.

Homenagem a Zumbi dos Palmares


Angola terra dos meus ancestrais, Angola O seu «eu» de lutador
Angola êêê terra dos meus ancestrais, Angola Fugindo para Palmares
De onde veio a capoeira Angola Ganga Zumba o recebeu
Do toque do berimbau, Angola O Quilombo estava em festa
E vivia no Quilombo Viva Zumbi Ganga o rei
O valente rei Zumbi Foi quando tudo mudou
Guerreiro de muitas lutas Até vir a traição
Por seu povo sofredor Mataram Zumbi guerreiro
Foi general de batalha Sem nenhuma compaixão
Sem patente militar Seu nome será lembrado
Inteligência e coragem Para sempre na história
Não lhe podiam faltar Força de espírito presente
Ele nasceu no Quilombo Não nos saia da memória
Porém foi aprisionado Iê, viva meu Deus
Criado por Padre Antônio Iê, viva Zumbi.
Francisco foi batizado Iê, viva meu Mestre.
Aprendeu língua de branco Iê, a capoeira.
Mas não se subordinou Iê, viva Deus do céu.
Dentro dele era mais forte Iê, salve a Bahia.
BOA VOZ (Abadá Capoeira). Homenagem a Zumbi dos Palmares. Disponível em: <http://www.abadacapoeira.es/letras-de-canciones-boa-
voz-%E2%80%93-capoeira-vol-1/>. Acesso em: 23 fev. 2015.

a) Nessa canção, tem-se a indicação de dois tempos: o passado e o presente. Que elementos existentes no texto os
representam?
A evocação dos ancestrais é uma das referências do passado, juntamente com a história da vida de Zumbi; a “força do

espírito presente” e a memória são as marcas do presente.

b) A figura de Zumbi dos Palmares, presente na canção, tem uma série de grandes virtudes. Indique ao menos três
delas.
Zumbi é guerreiro, tem coragem; é rei, tem poder; mostra-se um defensor de seu povo, é inteligente e forte.

22 Volume 4
Organize as ideias
16 Orientações para a execução da atividade.

Complete os parágrafos com os conceitos sobre o Barroco que se encontram nos boxes.

a) O estilo barroco tem sua origem na crise de valores renascentistas resultante das lutas religiosas e
da crise econômica surgida como consequência de problemas relacionados à dificuldade do comércio com o
Oriente. Na literatura do Seiscentismo, é possível perceber o desenvolvimento de uma visão de mundo que passou
a considerar a realidade como um contraste permanente, um estado de tensão e desequilíbrio .
O culto do exagero das formas passou a ser um dos procedimentos que caracterizou o Barroco, estética

predominante nesse período. A literatura barroca teve como sua marca uma sobrecarga de figuras de
linguagem que tendiam ao exagero, especialmente a metáfora, a antítese ,a hipérbole e a alegoria.

barroco antítese estética contraste desequilíbrio


literatura renascentistas hipérbole lutas religiosas

b) Todo o excesso que aflora na arte barroca é resultado do conflito entre o mundano e o celestial ,
o homem e Deus (antropocentrismo e teocentrismo ), o pecado e o perdão, o sagrado e
o profano , o material e o espiritual , que tanto atormentava o homem do século XVII. Sua perspec-
tiva era dualista , ou seja, sempre abordava os problemas com base em uma compreensão de que tudo
apresenta uma duplicidade de sentidos.

pecado profano conflito duplicidade


homem celestial espiritual dualista teocentrismo

c) Os dois estilos do barroco literário são o cultismo e o conceptismo.

• Cultismo – linguagem rebuscada , exagerada e extravagante ( hipérboles ), uso culto da língua;


inversão sintática , valorização dos detalhes e dos jogos de palavras .

• Conceptismo – jogo de raciocínio , de conceitos, raciocínio lógico , que tem como


objetivo o convencimento .

sintática hipérboles raciocínio detalhes


rebuscada convencimento jogos de palavras lógico

Literatura 23
d) O Barroco português desenvolveu-se no momento histórico em que havia uma dupla sensação na Europa, de
depressão e pessimismo com euforia e contentamento. Essa alternância de sensações se refletia na es-
tética barroca, marcada por ser uma arte dinâmica e exaltada, feita para mobilizar os sentidos, distinta da
arte equilibrada do Renascimento.

A crise religiosa e a crise da sucessão da Casa Real portuguesa influenciaram diretamente a produção
da arte barroca naquele país. De um lado, a intelectualidade e os artistas portugueses recusavam o Barroco por
entendê-lo como uma estética ligada à Espanha , a quem Portugal estava submetido naquele mo-
mento, governada por Filipe II, rei espanhol. De outro lado, a influência da Contrarreforma , que postulava
uma política de convencimento dos fiéis utilizando a arte barroca como meio, tornou-se poderosa
em terras lusitanas.

Um dos maiores escritores do Barroco, em língua portuguesa, foi o Padre Antônio Vieira , criador de
sermões que representavam o barroco conceptista .

Espanha estética crise da sucessão arte barroca


arte dinâmica Padre Antônio Vieira escritores
pessimismo convencimento barroco conceptista Contrarreforma

e) O Barroco chegou ao Brasil em plena Era Colonial . As grandes obras da arte barroca brasileira têm predo-
minantemente um tema sacro: a arquitetura de igrejas contendo símbolos e figuras religiosas, esculturas
de personagens santos, cenas bíblicas nas pinturas, representações de anjos incrustadas nas pare-
des das igrejas.

Quanto à literatura barroca do Brasil, é importante destacar a precariedade cultural da sociedade bra-
sileira no século XVII. Mais do que um movimento constituído de escritores produzindo obras alinhadas
aos preceitos da estética barroca, houve, na verdade, alguns escritores que, tendo como referência obras
estrangeiras, produziram aqui textos com características barrocas.

Entre esses escritores, destaca-se Gregório de Matos , que produziu uma poesia de alta qualidade, dividida
em três conjuntos temáticos: a lírico-amorosa , a religiosa e a satírica .

cenas bíblicas estética Gregório de Matos


personagens lírico-amorosa Colonial escritores satírica
características literatura igrejas

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Hora de estudo
1. Assinale as afirmações que dizem respeito à estética b) Na arte barroca, por vezes é o leitor que completa
do Barroco: aquilo que está “faltando” na obra. Nesse sentido,
que elementos fazem parte da cena da crucificação
( ) Entre suas principais características, destacam-se
de Jesus que a tela não mostra?
o equilíbrio, a racionalidade.
Pessoal. Sugestão: O cenário e o público que acompanhou
( X ) Suas obras muitas vezes apresentam elementos
exuberantes e contraditórios. a crucificação não aparecem na imagem, ou seja, cabe ao
( X ) Em países como Portugal e Espanha, bem como leitor da tela imaginá-los.
em suas colônias, foi uma estética associada à
crise religiosa.
( X ) É possível notar que essa estética apresenta
aspectos que diferem de um lugar para outro.
( ) Teve como uma de suas influências a Antiguidade
Clássica.
3. (ESPM – SP) Texto para esta questão.
2. Observe a pintura pertencente ao estilo barroco e res-
ponda às questões.
Será porventura o estilo que hoje se usa
nos púlpitos? Um estilo tão empeçado1, um
Museu de Prado/Fotógrafo desconhecido

estilo tão dificultoso, um estilo tão afetado,


um estilo tão encontrado toda a arte e a toda
a natureza? Boa razão é também essa. O estilo
há de ser muito fácil e muito natural. Por isso
Cristo comparou o pregar ao semear, porque
o semear é uma arte que tem mais de natureza
que de arte (...) Não fez Deus o céu em xadrez
de estrelas, como os pregadores fazem o ser-
mão em xadrez de palavras. Se uma parte está
branco, da outra há de estar negro (...) Como
hão de ser as palavras? Como as estrelas. As
estrelas são muito distintas e muito claras.
Assim há de ser o estilo da pregação, muito
distinto e muito claro.

(Sermão da Sexagésima, Pe. Antônio Vieira)


1
empeçado: com obstáculo, com empecilho.
VELÁZQUEZ, Diego. Cristo crucificado. 1631. 1 óleo sobre
tela, color., 248 cm × 160 cm. Museu do Prado, Madri. A expressão que traduz a ideia de rebuscamento no
estilo é:
a) Como se pode descrever a relação entre claro-escuro, a) “púlpitos”
típica da pintura barroca, nessa tela? b) “semear”
Pessoal. Sugestão: Pode-se notar que a imagem do corpo
c) “céu”
de Jesus crucificado é destacada por meio da luminosidade X d) “xadrez de palavras”
que contrasta com o fundo escuro. e) “estrelas”

Literatura 25
4. (FATEC – PR) Texto para a próxima questão. IV. Efeito da Revolução Industrial, que reforçou a pers-
pectiva capitalista e o individualismo, esse texto
Os ouvintes ou são maus ou são bons; se traduz a busca da natureza (pedras, espinhos, .....)
são bons, faz neles grande fruto a palavra de como refúgio para o eu lírico religioso.
Deus; se são maus, ainda que não faça ne- V. Vincula-se ao Barroco, movimento estético entre
les fruto, faz efeito. A palavra de Deus é tão cujos traços destaca-se a oscilação entre o clássico
fecunda, que nos bons faz muito fruto e é (de matriz pagã) e o medieval (de matriz cristã), a
tão eficaz, que nos maus, ainda que não faça qual se traduz em estados de conflito religioso.
fruto, faz efeito; lançada nos espinhos não
Estão corretas apenas as afirmações
frutificou, mas nasceu até nos espinhos; lan-
çada nas pedras não frutificou, mas nasceu a) I, II e III. d) II, III, IV e V.
até nas pedras. Os piores ouvintes que há na b) I, III e V. X e) I, II, III e V.
Igreja de Deus são as pedras e os espinhos. E
c) II, III e IV.
por quê? – Os espinhos por agudos, as pe-
dras por duras. Ouvintes de entendimentos 5. Assinale verdadeiro ou falso para as afirmações a res-
agudos e ouvintes de vontades endurecidas peito da obra de Antônio Vieira.
são os piores que há. Os ouvintes de enten- ( F ) Os sermões do Padre Antônio Vieira representam
dimentos agudos são maus ouvintes, porque o ponto mais alto do cultismo barroco em língua
vêm só a ouvir sutilezas, a esperar galantarias, portuguesa.
a avaliar pensamentos, e às vezes também a ( F ) A preocupação da prosa de Antônio Vieira era a
picar quem os não pica. de estabelecer um consenso entre os poderosos e
Mas os de vontades endurecidas ainda aqueles que se sentiam explorados por eles.
são piores, porque um entendimento agudo
( V ) Articulam-se na prosa de Antônio Vieira perspecti-
pode-se ferir pelos mesmos fios, e vencer-se
vas políticas, religiosas e literárias.
uma agudeza com outra maior; mas contra
vontades endurecidas nenhuma coisa apro- ( V ) Uma das estratégias da prosa de Antônio Vieira era
veita a agudeza, antes dana mais, porque a associação de passagens bíblicas a aconteci-
quanto as setas são mais agudas, tanto mais mentos reais vividos pelos seus ouvintes.
facilmente se despontam na pedra. ( V ) O conceptismo presente nos sermões de Vieira
E com os ouvintes de entendimentos agu- evidencia-se na construção elaborada dos argu-
dos e os ouvintes de vontades endurecidas se- mentos que apresenta, a fim de convencer os fiéis.
rem os mais rebeldes, é tanta a força da divina Texto para as questões 6 e 7.
palavra, que, apesar da agudeza, nasce nos es-
pinhos, e apesar da dureza, nasce nas pedras.
Segue neste soneto a máxima de bem
(Padre Antônio Vieira, Sermão da Sexagésima. Texto editado.) viver que é envolver-se na confusão
dos néscios para passar melhor a vida
Considere as afirmações seguintes sobre o texto de
Vieira.
Carregado de mim ando no mundo,
I. Trata-se de texto predominantemente argumentati- E o grande peso embarga-me as passadas,
vo, no qual Vieira emprega as metáforas do espinho Que como ando por vias desusadas,
e da pedra para referir-se àqueles em que a palavra
Faço o peso crescer, e vou-me ao fundo.
de Deus não prospera.
II. Nota-se no texto a metalinguagem, pois o sermão O remédio será seguir o imundo
trata da própria arte da pregação religiosa. Caminho, onde dos mais vejo as pisadas,
III. À vista da construção essencialmente fundada no jogo Que as bestas andam juntas mais ousadas,
de ideias, fazendo progredir o tema pelo raciocínio, Do que anda só o engenho mais profundo.
pela lógica, o texto caracteriza-se como conceptista.

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9. Leia o texto, escrito por Gregório de Matos, e selecione
Não é fácil viver entre os insanos, a alternativa em que as características apontadas me-
Erra, quem presumir que sabe tudo, lhor se relacionam ao poema.
Se o atalho não soube dos seus danos.
Aos afetos, e lágrimas derramadas na
O prudente varão há de ser mudo, ausência da dama a quem queria bem
Que é melhor neste mundo, mar de enganos, Ardor em firme coração nascido;
Ser louco c’os demais, que só, sisudo. Pranto por belos olhos derramado;
MATOS, Gregório de. Poemas escolhidos. São Paulo: Cultrix, 1989.
Incêndio em mares de água disfarçado;
p. 253. Rio de neve em fogo convertido:
6. (UFRJ) O Barroco faz um uso particular de metáforas
para concretizar abstrações. No texto, encontram-se Tu, que em um peito abrasas escondido;
vocábulos cujos significados constroem imagens vin- Tu, que em um rosto corres desatado;
culadas à travessia do eu lírico no mundo. Retire do Quando fogo, em cristais aprisionado;
texto quatro vocábulos desse campo semântico, sendo Quando cristal em chamas derretido.
dois verbos e dois substantivos.
Os vocábulos são: ando, vou-(me), seguir, andam, anda, erra Se és fogo, como passas brandamente,
Se és neve, como queimas com porfia?
(verbos); passadas, vias, caminho, pisadas, atalho (substantivos). Mas ai, que andou Amor em ti prudente!

Pois para temperar a tirania,


Como quis que aqui fosse a neve ardente,
Permitiu parecesse a chama fria.
7. (UFRJ) O soneto de Gregório de Matos apresenta, em
sua construção, um conflito entre o eu lírico e o mundo. MATOS, Gregório de. Poemas escolhidos. Seleção, introdução e notas
de José Miguel Wisnik. 13. ed. São Paulo: Cultrix, 1997. p. 218.
a) Em que consiste esse conflito?
O eu lírico encontra-se em crise, pois demonstra se sentir X a) Visão dualista do sentimento amoroso; construção
que se baseia no paralelismo de imagens e frases;
completamente deslocado em relação às demais pessoas.
predomínio de pares antitéticos; finalização tenden-
do para o paradoxo.
b) Representação da natureza equilibrada; construção
b) Qual foi a solução proposta?
assimétrica das metáforas; predomínio da ordem
A solução proposta é ceder ao mundo. indireta nas orações; temática religiosa.
8. (UNIFESP) Texto para a questão. c) Utilização de trocadilhos; predominância de com-
parações e paradoxos; frases intercaladas e com
Neste mundo é mais rico, o que mais rapa: sentido obscuro; visão irônica do amor.
Quem mais limpo se faz, tem mais carepa:
d) Organização vocabular em ordem lógica; uso da
Com sua língua ao nobre o vil decepa:
metáfora e da comparação; imagens claras e rela-
O Velhaco maior sempre tem capa.
cionadas, em sua maioria, à natureza; temática da
fugacidade do tempo e da vida.
Nos versos, o eu lírico deixa evidente que:
a) Uma pessoa se torna desprezível pela ação do nobre.
b) O honesto é quem mais aparenta ser desonesto. abrasas: queimas. Amor: grafado com a
desatado: solto, livre. primeira letra maiúscula,
X c) Geralmente a riqueza decorre de ações ilícitas. brandamente: de modo refere-se ao deus do amor.
d) As injúrias, em geral, eliminam as injustiças. suave. temperar: equilibrar.
com porfia: de maneira
e) O vil e o rico são vítimas de severas injustiças. insistente.

Literatura 27
10. Ainda sobre o poema da questão 9. 12. Leia o poema.
a) O soneto se organiza com base na contraposição de Descreve o que era naquele tempo a
duas imagens. Que imagens são essas? cidade da Bahia
As imagens que se contrapõem relacionam-se a sensação A cada canto um grande conselheiro.
de quente/frio (fogo/neve).
Que nos quer governar cabana e vinha;
Não sabem governar sua cozinha,
E podem governar o mundo inteiro.
b) Na última estrofe do poema, o eu lírico traduz o
Em cada porta um bem frequente olheiro,
sentimento amoroso com base em dois paradoxos.
Que a vida do vizinho e da vizinha
Quais são eles?
Pesquisa, escuta, espreita, e esquadrinha,
Neve ardente e chama fria. Para o levar à praça e ao terreiro.

Muitos mulatos desavergonhados,


11. Transcreva, do poema religioso de Gregório de Matos a Trazidos sob os pés os homens nobres,
seguir, versos que representem: Posta nas palmas toda a picardia.
• a fugacidade da existência;
Estupendas usuras nos mercados,
“Nasce o Sol, e não dura mais que um dia”
Todos os que não furtam muito pobres,
• uma compreensão de natureza contraditória das E eis aqui a cidade da Bahia.
coisas que existem.
MATOS, Gregório de. Poemas escolhidos. Seleção, introdução e notas
“E na alegria sinta-se tristeza.” de José Miguel Wisnik. 13. ed. São Paulo: Cultrix, 1997. p. 41.

a) Partindo da divisão da poesia de Gregório de Matos


em lírico-amorosa, satírica e religiosa, como você
Moraliza o poeta nos ocidentes do sol a
classificaria o poema lido? Por quê?
inconstância dos bens do mundo
O poema acima é classificado como satírico, pois explora os

Nasce o Sol, e não dura mais que um dia, aspectos negativos da Bahia com base nos comportamentos
Depois da Luz se segue a noite escura,
de sua população, isto é, satiriza costumes.
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria. b) Com suas palavras, como você definiria a cidade da
Bahia, segundo a visão de Gregório de Matos?
Porém se acaba o Sol, por que nascia?
Pessoal. Nessa resposta, é importante que os alunos des-
Se é tão formosa a Luz, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura? taquem a perspectiva pessimista de Gregório de Matos ao
Como o gosto da pena assim se fia?
falar sobre os costumes das pessoas que habitam a cidade.

Mas no Sol, e na Luz, falte a firmeza,


Na formosura não se dê constância,
E na alegria sinta-se tristeza. transfigura: transforma. terreiro: espaço amplo de
se fia: se sustenta. terra onde se reúnem pessoas.
constância: regularidade. picardia: trapaça.
Começa o mundo enfim pela ignorância, vinha: terreno plantado de estupendas: extraordinárias.
E tem qualquer dos bens por natureza videiras. usuras: juros, muitas vezes
A firmeza somente na inconstância. espreita: espiona. abusivos, de uma transação
esquadrinha: observa com financeira.
MATOS, Gregório de. Poemas escolhidos. Seleção, introdução e notas cuidado.
de José Miguel Wisnik. 13. ed. São Paulo: Cultrix, 1997. p. 317.

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