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RESENHA

O PAPEL DO INTELECTUAL
NA MODERNIDADE E PÓS-
MODERNIDADE SEGUNDO SYGMUNT
BAUMAN*

ARNALDO RAGGI JÚNIOR

BAUMAN, Z. Legisladores e intérpretes: sobre modernidade, pós-modernidade e intelectuais. Rio


de Janeiro: Zahar, 2010.

Z 
ygmunt Bauman é sociólogo de origem polonesa, tendo iniciado sua carreira na
Universidade de Varsóvia onde, porém, teve artigos e livros censurados, sendo
inclusive afastado da referida academia em 1968. Emigrou então da Polônia, pas-
sando pelo Canadá, Estados Unidos e Austrália, estabelecendo-se por fim na Grã-Bretanha,
onde se tornou professor titular da Universidade de Leeds, instituição na qual é atualmente
professor emérito de sociologia, bem como o é na Universidade de Varsóvia.
É responsável por vasta e admirável produção intelectual, com qual analisa as trans-
formações socioculturais em nosso tempo. Recebeu em 1989 o prêmio Amalfi, prêmio europeu
de Sociologia e de Ciências Sociais, por sua obra Modernidade e Holocausto, e, ainda, o prêmio
Adorno em 1998, concedido pela cidade alemã de Frankfurt, pelo conjunto de sua obra.
O livro Legisladores e intérpretes: sobre modernidade, pós-modernidade e intelectuais,
tem 279 páginas; foi impresso no Brasil em 2010, sendo uma tradução autorizada da primei-
ra edição inglesa, publicada em 1987 por Polity Press, de Cambridge, Inglaterra. A referida
obra apresenta prefácio à edição brasileira, introdução, mais onze capítulos e as conclusões do
autor. Ela foi composta por Letra e Imagem em Avenir e Minion 11/14, em papel offset 90g/
m² e cartão tríplex 250g/m², oferecendo conforto visual no momento da leitura. Nas páginas
pares consta o título do livro e nas ímpares, o título da respectiva seção.
Em prefácio à edição brasileira, Bauman situa cronologicamente a elaboração do li-
vro ao relatar que foi escrito alguns anos antes da obra Modernidade líquida, informando en-

* Recebido em: 18.07.2013.


Aprovado em: 25.08.2013.
** Discente da Pontifícia Universidade Católica de Goiás.

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tão que o primeiro representa estágio anterior aos seus esforços para compreensão da realidade
social de nosso tempo. Para Bauman, “o principal significado da ideia de pós-modernidade
é que ela é algo diferente da modernidade” (p. 11), não sendo o termo pós-modernidade,
porém, indicador de fim da modernidade, mas sim é esta, a modernidade, privada de suas
ilusões. Por conseguinte, estabelece-se novo paradigma para compreensão desses “tempos em
que nossas vidas estão sendo escritas” (p. 13).
Na introdução, seção já integrante da obra original, o autor analisa a palavra “inte-
lectual”, seja quanto à sua origem, seja em relação à abrangência do termo. Para ele, “a linha
que separa “intelectuais” de “não intelectuais” é traçada e retraçada pelas decisões de tomar
parte num modo particular de atividade” (p. 16). E, ainda, expõe que os conceitos de moder-
nidade e pós-modernidade, utilizados no livro, representam contextos distintos em que há o
desempenho das funções de intelectual, bem como duas estratégias desenvolvidas em resposta
aos próprios contextos.
O sociólogo prossegue seu estudo analisando a obra Primitive Religion de Paul Ra-
din, publicada em 1937, o que o faz de forma livre, com o propósito de reunir os elemen-
tos integradores do conceito de intelectual que é empregado no livro em exame. Também
conforme sua leitura de Radin, o conhecimento dos formuladores religiosos entre os povos
primitivos gerava mistérios novos, ao mesmo tempo em que esclarecia os velhos, originando
uma relação poder/conhecimento com mecanismo autoperpetuador. Relevante então para
o livro de Bauman é a questão relativa ao paralelismo entre elementos contemporâneos de
legitimação do papel do intelectual e as qualidades de formuladores religiosos, consoante o
que é revelado por Radin.
Chama atenção o autor, em um segundo momento, para a questão do papel de edu-
cador, para moldar ou modificar a conduta humana, ter se tornado necessário em consequ-
ência do surgimento de uma assimetria permanente de poder, o que se verifica desde o século
XVI. Assim, afirma que o substantivo coletivo “intelectuais” tem sua origem situada em época
recente, não além da virada para o século XX, havendo, porém, em seu processo de auto-
constituição a presença dos filósofos do século XVIII, na obra citados por meio do respectivo
termo em francês philosophes. E estes, os filósofos da era do Iluminismo, encontraram espaço
para atuação em função de condições que colocaram conhecimento e poder em contato, em
virtude da ascensão do absolutismo, que representou “um processo de redesdobramento do
poder político na esteira da decadência do princípio feudal de associação entre direitos de-
correntes de propriedade fundiária e deveres administrativos” (p. 46). Uma consequência de
grande relevância foi a perda, por parte da nobreza, de seu papel político, havendo um divór-
cio entre os proprietários de terra e o poder, se reagrupando este no alto da hierarquia, onde se
localizava o déspota. E então a educação passa a ter uma nova e íntima conexão com o poder,
abrindo caminho aos philosophes para desempenho do papel de conselheiros dos legisladores.
Civilidade, civilizar, civilização, cultura; o estudo de tais palavras mostra que no
século XVIII há o ingresso em uma era de ação com o escopo de suprimir as paixões dentro
do indivíduo para a vitória da Razão, passando pela extirpação dos modos de vida e padrões
de coabitação locais vinculados pela tradição, culminando com uma metáfora para designar
os novos mecanismos planejados e utilizados de forma centralizada para a reprodução social,
que é a cultura. Chega-se, em um momento posterior, à ideologia, que seria uma ciência
sugerida para explorar a sociedade, quando então a ideia de educação passou de atividade de
esclarecimento das pessoas encarregadas da administração da sociedade, tarefa esta exercida
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pelos philosophes, para ser o próprio centro do programa, isto é, aos ideologistas caberia o
próprio trabalho de legislar. Mas o Estado, diante de uma nova era em que há a falência da
autoridade, acaba por encontrar outros modos, melhores e mais eficientes, de reproduzir e
impor seu poder, resultando na passagem do papel dos intelectuais de legisladores para o pa-
pel de intérpretes. Isso porque os novos tempos conduzem a um problema que “clama, com
urgência, por especialistas em tradução entre tradicionais culturas”, colocando-os “em lugar
dos mais centrais entre os peritos que a vida contemporânea possa exigir” (p. 197).
Há, por conseguinte, um novo tempo, o da pós-modernidade, em qual a cultura é
absorvida por forças do mercado, gerando a cultura de massa, que não se confunde com a cul-
tura popular. A primeira, a de massa, promove o culto da facilidade e faz com que a ausência
de esforço corte pela raiz a superioridade intelectual; o que importa é o consumo. Reforça-se,
assim, o papel de intérprete dos intelectuais, havendo um novo modelo de dominação, em
qual se substitui a repressão pela sedução, a autoridade pela propaganda. A sociedade contem-
porânea, desta forma, apresenta uma nação de seduzidos, sendo estes os que são livres para
alcançar a satisfação de suas necessidades. Mas existe nesta mesma sociedade outra nação, a
dos reprimidos, os quais são forçados a obedecer às normas, privados que são de qualquer pa-
pel econômico. Os reprimidos são chamados de “novos pobres”, cujo consumo não importa
suficientemente para as forças do mercado, embora eles sejam produto do próprio mercado
consumidor, pois este se reproduz gerando, concomitantemente, desigualdades em nível sem-
pre crescente.
Bauman atinge o final da obra com suas conclusões, o que o faz rememorando as
condições para o estabelecimento da pós-modernidade, bem como a mudança do papel do
intelectual. Discorre, ainda, sobre a ideia de interpretação e como se deixa de lado a hipó-
tese da universalidade da verdade. É altamente merecedora de leitura a obra do autor, com
especial atenção em suas três últimas seções, nas quais há uma análise consistente de nossos
tempos, da pós-modernidade, da ausência de lugar para a Razão. Possui o livro embasamen-
to relevante, trazendo à apreciação do leitor outras obras, de diversos autores em diferentes
épocas, o que incentiva a outras leituras a ele correlacionadas. E é o que se pretende com esta
resenha em relação a Legisladores e intérpretes..., ao trazer aqui alguns detalhes do livro, o qual,
é necessário ressaltar, possui valioso conteúdo acompanhado de linguagem acessível aos que
se iniciam nos estudos relacionados à sociologia.

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