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Richard Rorty. Contingência, Ironia e Solidariedade. Trad. de Vera Ribeiro.

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Revisão Técnica de Antonio Marcos Pereira. SP: Martins Fontes, 2007. Ironia privada e esperança liberal
Capítulo 04: Ironia privada e esperança liberal.

Todos os seres humanos carregam um conjunto de palavras


que empregam para justificar seus atos, suas crenças ou convic-
ções e sua vida. Trata-se das palavras com que formulamos elo-
gios a nossos amigos e desprezo por nossos inimigos, bem como
nossos projetos de longo prazo, nossas dúvidas mais profundas
sobre nós mesmos e nossas mais altas esperanças. São as pala-
vras com que narramos, ora em caráter prospectivo, ora retros-
pectivamente, a história de nossa vida. Chamo a essas palavras o
"vocabulário final" de uma pessoa.
Ele é "final" no sentido de que, se for lançada uma dúvi-
da sobre o valor dessas palavras, seu usuário não disporá de ne-
nhum recurso argumentativo que não seja circular. Tais palavras
são o mais longe que podemos ir com a linguagem; para além
delas, existem apenas a passividade desamparada ou o recur-
so à força. Uma pequena parte do vocabulário final é composta
de termos ralos, flexíveis e ubíquos, como "verdadeiro", "bom",
"correto" e "belo". A parte maior contém termos mais densos,
mais rígidos e mais estreitos, como "Cristo", "Inglaterra", "nor-
mas profissionais", "honradez", "bondade", "a Revolução", "a
Igreja", "progressista", "rigoroso" ou "criativo". Os termos mais
estreitos executam a maior parte do trabalho.
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Definirei o "ironista" como alguém que satisfaz três condi- termos do vocabulário final a que eles e aqueles que os cercam es-
ções: (1) tem dúvidas radicais e contínuas sobre o vocabulário fi- tão acostumados. Aderir ao senso comum é tomar por certo que
nal que usa atualmente por ter sido marcado por outros vocabu- as afirmações formuladas nesse vocabulário final são suficientes
lários, vocabulários tomados como finais por pessoas ou livros para descrever e julgar as crenças, os atos e a vida dos que empre-
com que ele deparou; (2) percebe que a argumentação enuncia- gam vocabulários finais alternativos. As pessoas que se orgulham
da em seu vocabulário atual não consegue corroborar nem desfa- do senso comum acharão desagradável a linha de pensamento
zer essas dúvidas; (3) na medida em que filosofa sobre sua situação, desenvolvida na primeira parte deste livro ("Contingência").
essa pessoa não acha que seu vocabulário esteja mais próximo Quando se questiona o senso comum, seus adeptos reagem,
da realidade do que outros, que esteja em contato com uma for- a princípio, generalizando e explicitando as regras do jogo de lin-
ça que não seja ele mesmo. Os ironistas que se inclinam a filoso- guagem que estão acostumados a jogar (como fizeram alguns so-
far vêem a escolha entre vocabulários como uma escolha que não fistas gregos, e como fez Aristóteles em seus escritos sobre ética),
é feita dentro de um metavocabulário neutro e universal, nem mas, quando nenhum chavão formulado no antigo vocabulário
tampouco por uma tentativa de lutar para superar as aparências é suficiente para enfrentar um questionamento argumentativo, a
e chegar ao real, mas simplesmente como um jogar o novo con- necessidade de responder produz uma disposição a ir além dos
tra o velho. chavões. Nesse ponto, a conversa pode tornar-se socrática. A per-
Chamo tais pessoas de "ironistas" porque seu reconheci- gunta "o que é x?" passa a ser formulada de tal modo que não
mento de que qualquer coisa pode ser levada a parecer boa ou pode ser simplesmente respondida pela apresentação de exem-
má, ao ser redescrita, e sua renúncia à tentativa de formular crité- plos paradigmáticos de "xizice". Assim, pode-se exigir uma de-
rios de escolha entre vocabulários finais coloca-as na posição que finição, uma essência.
Sartre chamava de "meta-estável": nunca propriamente capazes Fazer tais exigências socráticas ainda não equivale, é claro, a
de se levarem a sério, por estarem sempre cônscias de que os ter- nos tornarmos ironistas, no sentido em que utilizo o termo. É ape-
mos em que se descrevem são passíveis de mudança, e sempre nas um tornar-se "metafísico", no sentido desse termo que adap-
cônscias da contingência e fragilidade de seus vocabulários fi- to de Heidegger. Nesse sentido, o metafísico é alguém que acolhe
nais e, portanto, de seu eu. Tais pessoas simpatizam naturalmen- por seu valor aparente a pergunta "Qual é a natureza intrínseca
te com a linha de pensamento desenvolvida nos dois primeiros de (por exemplo, a justiça, a ciência, o saber, o Ser, a fé, a moral, a
capítulos deste livro. Quando também são liberais - pessoas para filosofia)?". Ele presume que a presença de um termo em seu vo-
quem (usando a definição de Judith Shklar) "a crueldade é a pior cabulário final garante que tal termo se refira a algo que tem uma
coisa que elas fazem" -, aderem naturalmente às idéias ofereci- essência real. O metafísico continua preso ao senso comum, na
das no terceiro capítulo. medida em que não questiona os chavões que envolvem o uso
O oposto da ironia é o senso comum. Este é o lema dos que, de um dado vocabulário final e, em particular, o chavão que diz
sem nenhum embaraço, descrevem tudo o que é importante em existir uma única realidade permanente a ser descoberta por trás
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Assim, os metafísicos crêem existir lá fora, no mundo, essências


das muitas aparências temporárias. Ele não redescreve, mas, em reais que é nosso dever descobrir, e que estão dispostas a ajudar
vez disso, analisa antigas descrições com a ajuda de outras descri- em sua própria descoberta. Eles não crêem que algo possa assu-
ções antigas. mir a aparência de ser bom ou mau por ser redescrito - ou, quan-
O ironista, em contraste, é nominalista e historicista. Consi- do o fazem, deploram esse fato e se agarram à idéia de que a rea-
dera que nada tem uma natureza intrínseca, uma essência real. lidade nos ajudará a resistir a tais seduções.
Por isso, acha que a ocorrência de um termo como "justo", "cien- Em contraste, os ironistas não vêem a busca de um voca-
tífico" ou "racional" no vocabulário final da época não é razão bulário final como sendo (nem mesmo em parte) um modo de
para supor que a investigação socrática da essência da justiça, da entender corretamente algo distinto desse vocabulário. Não con-
ciência ou da racionalidade leve muito além dos jogos de lingua- sideram que a idéia do pensamento discursivo seja conhecer, em
gem da época. O ironista passa o tempo preocupado com a pos- nenhum sentido passível de ser explicado por noções como rea-
sibilidade de se haver iniciado na tribo errada, de ter sido ensina- lidade" "essência real", "ponto de vista objetivo" e "a correspon-
do a jogar o jogo de linguagem incorreto. Preocupa-se com a pos- dência da linguagem da realidade". Não acham que seu objetivo
sibilidade de que o processo de socialização que o transformou seja descobrir um vocabulário que represente algo com exatidão,
em um ser humano, ao lhe dar uma linguagem, tenha lhe dado um meio transparente. Para os ironistas, "vocabulário final" não
a linguagem errada e, com isso, o tenha transformado no tipo significa "aquele que acaba com todas as dúvidas" ou "aquele
errado de ser humano, mas não consegue fornecer um critério que satisfaz nossos critérios de conclusividade, adequação ou
do erro. Assim, quanto mais é levado a articular sua situação em otimização". Eles não pensam na reflexão como regida por cri-
termos filosóficos, mais se lembra de seu desarraigamento, pelo térios Os critérios, a seu ver, nunca passam de lugares-comuns
uso constante de termos como "Weltanschauung", "perspectiva", que definem contextualmente os termos de um vocabulário fi-
"dialética", "arcabouço conceituai", "época histórica", "jogo de nal atualmente em uso. Os ironistas concordam com Davidson
linguagem", "redescrição", "vocabulário" e "ironia". quanto a nossa incapacidade de sair de nossa linguagem para
O metafísico reage a esse tipo de discurso chamando-o de compará-la com outra coisa, e com Heidegger quanto à contin-
"relativista" e insistindo em que o importante não é a linguagem gência e à historicidade dessa linguagem.
usada, mas aquilo que é verdadeiro. Os metafísicos pensam que, Essa diferença leva a uma diferença em sua atitude para
por natureza, os seres humanos desejam saber. Pensam-no por- com os livros. Os metafísicos vêem as bibliotecas como dividi-
que o vocabulário que herdaram, seu senso comum, fornece-lhes das de acordo com disciplinas, correspondentes a diferentes ob-
uma imagem do saber como uma relação entre os seres humanos jetos do conhecimento. Os ironistas as vêem como divididas se-
e a "realidade", bem como a idéia de que temos a necessidade e cundo tradições, cada um de cujos membros adota em parte e
também o dever de estabelecer essa relação. Essa imagem tam- modifica em parte o vocabulário dos autores que eles leram. Os
bém nos diz que a "realidade", se adequadamente questionada, ironistas encaram os escritos de todas as pessoas dotadas de ta-
nos ajudará a determinar qual deve ser nosso vocabulário final.
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lento poético, todas as mentes originais que tiveram um dom de a de que trazemos a verdade dentro de nós, temos critérios in-
redescrição - Pitágoras, Platão, Milton, Newton, Goethe, Kant, trínsecos que nos facultam reconhecer o vocabulário final cor-
Kierkegaard, Baudelaire, Darwin, Freud -, como material a ser reto quando o ouvimos. O valor corrente dessa teoria está em
processado no mesmo moinho dialético. Os metafísicos, ao con- que nossos vocabulários finais contemporâneos são suficiente-
trário, querem começar por saber ao certo quais dessas pessoas mente próximos do vocabulário certo para permitir que convir-
foram poetas, quais foram filósofos e quais foram cientistas. jamos para ele - para formularmos premissas a partir das quais
Consideram essencial discernir corretamente os gêneros - orde- cheguemos às conclusões corretas. O metafísico acha que, em-
nar os textos em referência a uma grade predeterminada, uma bora possamos não ter todas as respostas, já temos bons crité-
grade que, independentemente do que mais possa fazer, pelo rios para as respostas corretas. Assim, ele acha que "correto"
menos estabeleça uma distinção clara entre as reivindicações do não significa apenas "adequado aos que falam como nós fala-
conhecimento e outras reivindicações de nossa atenção. Já o iro- mos", mas tem um sentido mais forte: o sentido de "apreender
nista prefere evitar a adulteração dos livros que lê pelo uso de a essência real".
qualquer grade desse tipo (embora, com irônica resignação, reco- Para o ironista, as buscas de um vocabulário final não estão
nheça que dificilmente poderá deixar de fazê-lo). fadadas a convergir. Para ele, frases como "por natureza, todos
Para um metafísico, a "filosofia", tal como definida em refe- os homens têm o desejo de conhecer" ou "a verdade independe
rência à seqüência canônica Platão-Kant, é uma tentativa de sa- da mente humana" são simples chavões usados para inculcar o
ber sobre certas coisas - coisas muito gerais e importantes. Para vocabulário final local, o senso comum do Ocidente. Ele só é iro-
o ironista, a "filosofia", assim definida, é a tentativa de empregar nista na medida em que seu próprio vocabulário final não contém
e desenvolver um dado vocabulário final previamente escolhi- essas idéias. Sua descrição do que faz, ao buscar um vocabulário
do - que gira em torno da distinção aparência-realidade. A dis- final melhor do que aquele que utiliza atualmente, é dominada
cordância entre eles, mais uma vez, concerne à contingência de por metáforas de criação, e não de descoberta, de diversificação e
nossa linguagem - a saber se o que o senso comum de nossa cul- ineditismo, e não de convergência para o que estava presente an-
tura compartilha com Platão e Kant é uma pista sobre como é o tes. Ele pensa nos vocabulários finais como realizações poéticas,
mundo, ou se é apenas a marca característica do discurso de pes- e não como frutos de uma investigação diligente, de acordo com
soas que habitam uma certa porção do espaço-tempo. O meta- critérios previamente formulados.
físico presume que nossa tradição não é capaz de levantar ne- Por acreditarem que já possuímos grande parte do vocabu-
nhum problema que não saiba resolver - que o vocabulário que lário final "correto" e precisamos apenas elaborar suas implica-
o ironista teme ser apenas "grego", "ocidental" ou "burguês" ções, os metafísicos pensam na investigação filosófica como uma
é um instrumento que nos permitirá chegar a algo universal. questão de identificar as relações entre os vários lugares-comuns
O metafísico concorda com a Teoria Platônica da Rememora- que fornecem as definições contextuais dos termos desse voca-
ção, sob a forma como foi reafirmada por Kierkegaard, isto é, bulário. Assim, pensam no aprimoramento ou no esclarecimento
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rem „ si . centelha do divino» ou "os negros não têm - »


do uso dos termos como uma questão de tecer com esses lugares-
direito que os brancos esteiam obrigados a respe.tar ). fazemos
comuns (ou, como prefeririam dizer, com essas intuições) um sis-
u M u d a n ç a , em « de descobrir um tato. O ironrst. ao * -
tema perspícuo. Isso tem duas conseqüências. Primeiro, eles ten-
servar a seqüênca de "grandes filósofos" e a m.eraçao do pensa-
dem a se concentrar nos itens mais ralos, mais flexíveis e ubíquos
I „«0 deles com seu contexto social discerne uma serre de mu-
desse vocabulário - palavras como "verdadeiro", "bom", "pes-
danças nas pratrcas iingüisticas e outras dos ^ ^ I Z Z
soa" e "objeto". Isso porque, quanto mais ralo o termo, maior o
,„ o metafísico vê os europeus modernos como particularmente
número de lugares-comuns que o empregarão. Segundo, eles to-
competentes na descoberta do que as corsas realmente sao o uo-
mam o paradigma da investigação filosófica como um argumen-
T a « vê como particularmente rápidos na modificação de sua
to lógico - isto é, como identificar as relações inferenciais entre
auto-imagem, na recriação deles mesmos.
proposições, em vez de comparar e contrastar vocabulários.
O metafísico julga que existe um deve, mtelectual supremo
A estratégia típica dos metafísicos é identificar uma aparente
de q „e se apresentem argumentos em defesa das opm.oes con
contradição entre dois lugares-comuns, duas proposições intuiti-
rolrtidas de alguém - argumentos que partam de premis
vamente plausíveis, e propor uma distinção que resolva a contra-
nativamente não controvertidas. Já o .romsta acha qu todo
dição. Em seguida, os metafísicos inserem essa distinção numa
esses argumentos - argumentos lógicos - sao muito bons a
rede de distinções associadas - uma teoria filosófica - que retire
m ^ t a e são üters como recursos de e x p o s t o , mas. no compu-
um pouco da tensão da distinção inicial. Essa forma de constru-
I " „ , são muito mars do que manerras de fazer as pessoas
ção da teoria é o mesmo método usado pelos juizes para decidir
terarem suas pratrcas sem admrtirem que oestão fezend.A
os casos difíceis, ou pelos teólogos para interpretar os textos di-
forma preferida de argumentação do uornsta e dralet.ca, no sen
fíceis. Tal atividade é o paradigma de racionalidade do metafísi-
" T o e que ele toma a unidade de persuasão como um vo abu-
co. Ele vê as teorias filosóficas como convergentes - uma série de
",0 nto uma proposição. Seu método é mais a redescriçao do
descobertas sobre a natureza de coisas como a verdade e a iden-
ou a nferência Os ironistas se especializam em redescever ga-
tidade, que se aproximam cada vez mais do que elas realmente
"de objetos ou eventos num jargão parcialmente neolog.sta,
são e levam a cultura em geral a se aproximar mais de uma repre-
Tesper» e ürcitar as pessoas a adotarem e ampliarem esse
sentação exata da realidade.
; t g o O i r l . s t a espera que. quando houver « e r m m a d o d : W
O ironista, no entanto, vê a seqüência dessas teorias - des-
ses padrões entrelaçados de distinções inéditas - como substitui-
ções gradativas e tácitas de um vocabulário antigo por um voca-
bulário novo. Chama de "chavões" aquilo que o metafísico de-
nomina "intuições". Inclina-se a dizer que, quando abrimos mão
de um antigo lugar-comum (por exemplo, "o número de espécies
sua vez, é um substituto precário da lógica.
biológicas é fixo", "os seres humanos diferem dos animais por te-
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Defini "dialética" como a tentativa de jogar um vocabulário como auxiliar da cognição, na beleza como subsidiária da verda-
contra outro, em vez de meramente inferir proposições umas das de. O Hegel maduro pensava na "filosofia" como uma disciplina
outras e, portanto, como a substituição parcial da inferência pela que, por ser cognitiva de um modo que a arte não era, tinha pre-
redescrição. Usei o termo hegeliano porque penso na Fenomeno- cedência sobre esta. Com efeito, achava que essa disciplinará ha-
logia de Hegel como o início do fim da tradição platônico-kantia- vendo atingido a maturidade sob a forma de seu próprio Idealis-
na e como um paradigma da capacidade do ironista de explorar mo Absoluto, podia tornar e tornaria a arte tão obsoleta quanto
as possibilidades da redescrição maciça. Nessa visão, o chama- fizera com a religião, mas, irônica e dialeticamente, o que Hegel
do método dialético de Hegel não é um processo argumentativo de fato fez, ao fundar uma tradição ironista dentro da filosofia,
nem uma forma de unificar o sujeito e o objeto, mas uma simples foi ajudar a torná-la não cognitiva e não metafísica. Ele contri-
habilidade literária - a habilidade de produzir mudanças surpre- buiu para transformar a filosofia num gênero literário1. A prática
endentes de Gestalt por meio de transições rápidas e suaves de do jovem Hegel solapou a possibilidade do tipo de convergência
uma terminologia para outra. para a verdade sobre a qual o Hegel maduro teorizou. Os gran-
Em vez de conservar os antigos lugares-comuns e estabe- des comentaristas do Hegel mais velho são autores como Heine
lecer distinções que contribuíssem para sua coesão, Hegel mu- e Kierkegaard, pessoas que o tratavam da maneira como hoje tra-
dava constantemente o vocabulário em que os antigos chavões tamos Blake, Freud, D. H. Lawrence ou Orwell.
tinham sido enunciados; em vez de construir teorias filosóficas Nós, os ironistas, tratamos essas pessoas não como canais
e defendê-las, evitava a argumentação, trocando constantemente anônimos para a verdade, mas como abreviaturas de um certo
os vocabulários e, com isso, modificando o assunto. Na prática, vocabulário final e dos tipos de crenças e desejos típicos de seus
embora não na teoria, ele abandonou a idéia de chegar à verda- usuários. O Hegel maduro tornou-se o nome de um desses voca-
de, em favor da idéia de renovar as coisas. Sua crítica a seus ante- bulários, enquanto Kierkegaard e Nietzsche tornaram-se nomes
cessores não foi a de que as proposições deles fossem falsas, mas de outros. Se nos disserem que a vida real vivida por esses ho-
a de que suas linguagens eram obsoletas. Ao inventar esse tipo mens teve pouco a ver com os livros e a terminologia que cha-
de crítica, o Hegel da juventude rompeu com a seqüência pla- maram nossa atenção para eles, poremos isso de lado. Tratare-
tônico-kantiana e iniciou uma tradição de filosofia ironista que mos os nomes de tais pessoas como os nomes dos heróis de seus
teve continuidade em Nietzsche, Heidegger e Derrida. Esses são livros. Não nos importaremos em distinguir Swift da saeva in-
dignatio, Hegel do Geist, Nietzsche de Zaratustra, Mareei Proust
os filósofos que definem suas realizações pela relação com seus
do narrador Mareei, ou Trilling da Imaginação Liberal. Não nos
predecessores, e não por sua relação com a verdade.
importaremos em saber se esses escritores conseguiram viver à
Uma expressão mais atualizada para o que venho chamando
de "dialética" seria "crítica literária". Na época de Hegel, ainda ] Por esse ponto de vista, a filosofia analítica e a fenomenologia foram reversões
era possível pensar em peças teatrais, poemas e romances como a um modo de pensar pré-hegeliano, mais ou menos kantiano - tentativas de
preservar o que chamo de "metafísica", transformando-a no estudo das "con-
tornando vivido algo que já era conhecido, pensar na literatura dições de possibilidade" de um meio (consciência, linguagem).
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posta para uma redescrição senão uma «-«descrição. Visto que


altura de sua própria auto-imagem2 . O que queremos saber é se
não há nada além de vocabulários que sirva como enterro de es-
devemos adotar essas imagens - recriar a nós mesmos, no todo
colha entre eles, a crítica é uma questão de olhar para uma una-
ou em parte, à imagem dessas pessoas. Respondemos a essa per-
« m e para outra, e não de comparar as duas com o original.
gunta fazendo experiências com os vocabulários que tais pessoas
Nada pode servir de crítica de uma pessoa senão outra pessoa,
inventaram. Redescrevemos nós mesmos, nossa situação e nosso
o u de uma cultura senão uma cultura alternativa - porque as
passado nesses termos, e comparamos os resultados com redescri-
pessoas e culturas, para nós, são vocabulários encarnados. Por-
ções alternativas que usam os vocabulários de figuras alternativas.
tanto, nossas dúvidas sobre nosso caráter ou nossa cultura so po-
Com essa redescrição contínua, nós, os ironistas, esperamos criar
dem ser resolvidas ou mitigadas pela ampliação do numero de
para nós mesmos o melhor eu possível.
nossos conhecidos. A maneira mais fácil de fazê-lo e ler hvros
Essa comparação, esse cotejo de figuras umas com as outras,
e, assim, os ironistas gastam uma parcela maror de seu tempo
é a principal atividade hoje abarcada pela expressão "crítica lite-
situando livros do que situando pessoas vivas reais. Eles temem
rária". Os críticos influentes, do tipo que propõe novos cânones -
ficar presos no vocabulário em que foram criados se so conhece-
pessoas como Arnold, Pater, Leavis, Eliot, Edmund Wilson, Lio-
nem as pessoas de sua vizinhança, de modo que procuram famr-
nel Trilling, Frank Kermode e Harold Bloom -, não estão dedica-
Uarizar-se com pessoas estranhas (Alcibíades, Juhen Soiel) fam -
dos a explicar o verdadeiro sentido dos livros nem a avaliar algo
üas estranha- (os Karamazov, os Casaubon) e comunidades e -
chamado seu "mérito literário". Ao contrário, passam o tempo
tranhas (os cavaleiros teutônicos, os nueres, os mandarins da
situando livros no contexto de outros livros, figuras no contexto
de outras figuras. Esse situar é feito do mesmo modo que situa-
mos um novo amigo ou inimigo no contexto dos velhos amigos ^ s i n Í i s t a s lêem críticos literários e os tomam como con-
e inimigos. Ao fazê-lo, revemos nossa opinião dos antigos e dos selheiros morais, pelo simples fato de esses críticos terem u^
novos. Simultaneamente, revemos nossa própria identidade mo- gama excepcionalmente ampla de conhecidos. Naç, sao conse
ral, ao rever nosso vocabulário final. A crítica literária faz pelos L r o s morais por terem um acesso especial à verdade moial,
ironistas o que se supõe que a busca de princípios morais univer- Zs por serem rodados. Leram mais livros, e por isso estão em
sais faça pelos metafísicos. m elhores condições de não serem apanhados no v o — d
Para nós, ironistas, nada pode servir de crítica de um voca- u m único livro. Em particular, os ironistas esperam que os cnt

bulário final senão outro vocabulário dessa natureza; não há res- cos os ajudem a realizar o tipo de proeza dialética em que Hegel
L to bom. Em outras palavras, esperam que os críticos os
2 Cf. Alexander Nehamas, Nietzsclie: life ns lüemture, p. 234, onde Nehamas diz
não estar interessado no "homenzinho infeliz que escreveu [os livros de Nietz- ajudemac^uaraadn^
sche]". Interessa-se (p. 8), antes, pelo "esforço [de Nietzsche] para criar uma L vista, mediante a feitura de uma espécie de ^ ^
obra de arte consigo mesmo, um personagem literário que é também um filóso-
fo, [o que é igualmente] seu esforço de oferecer uma visão positiva, sem recair mos de poder admirar Blake e Arnold, Nietzsche e Mül, Marx
na tradição dogmática". Na visão que sugiro, Nietzsche talvez tenha sido o pri- L d e l a l , Trotski e Eliot, Nabokov e Orwell. Assim, esperamos
meiro filósofo a fazer conscientemente o que Hegel fizera inconscientemente.
J
^ Contingência, ironia e solidariedade
Ironia privada e esperança liberal 147

que um crítico nos mostre como é possível juntar os livros desses


ver com a maneira como os intelectuais conseguiram empregar-
homens para formar um belo mosaico. Esperamos que os críti-
se em universidades, fingindo seguir especialidades acadêmicas,
cos possam redescrever essas pessoas de maneiras que ampliem o nome ficou. Assim, em vez de trocarmos a denominação "críti-
o cânone e que nos dêem um conjunto de textos clássicos tão ri- ca literária" por algo como "crítica da cultura", o que fizemos foi
cos e variados quanto possível. Essa tarefa de ampliar o cânone esticar a palavra "literatura", para que ela abrangesse o que quer
assume, para o ironista, o lugar da tentativa dos filósofos morais que os críticos literários criticavam. Esperava-se que um crítico li-
de equilibrar intuições morais comumente aceitas sobre casos es- terário do que T. J. Clarke chamou de cultura "trotskiano-eliotia-
pecíficos com princípios morais gerais comumente aceitos3. na" da Nova York das décadas de 1930 e 1940 houvesse lido A re-
É fato conhecido que a denominação "crítica literária" foi ca- volução traída e A interpretação dos sonhos, bem como The Wasteland,
da vez mais alargada no decorrer do século xx. Originalmente, A esperança e Uma tragédia americana*. Na atual cultura orwellia-
significava a comparação e a avaliação de peças, poemas e ro- no-bloomiana, espera-se que tenha lido O arquipélago Gulag, In-
mances - talvez com uma olhadela ocasional para as artes plás- vestigações filosóficas e As palavras e as coisas, além de Lolita e O livro
ticas. Depois, foi alargada para abarcar a crítica do passado (por do riso e do esquecimento**, A palavra "literatura" abarca hoje pra-
exemplo, da prosa de Dryden, Shelley, Arnold e Eliot, bem como ticamente qualquer tipo de livro que se possa imaginar que tenha
de sua poesia). Em seguida, com muita rapidez, estendeu-se aos relevância moral - que se possa imaginar que altere o sentido do
livros que haviam fornecido aos críticos do passado o seu voca- que é possível e importante. O emprego desse termo nada tem
bulário crítico e que vinham fornecendo aos críticos atuais o de- a ver com a presença de "qualidades literárias" em um livro. Em
les. Isso significou estendê-la à teologia, à filosofia, à teoria social, vez de detectar e expor tais qualidades, espera-se hoje que o crí-
aos programas políticos reformistas e aos manifestos revolucio- tico facilite a reflexão moral, mediante a sugestão de revisões do
cânone de exemplos e orientadores morais, e mediante a sugestão
nários. Em suma, significou estendê-la a qualquer livro propenso
de maneiras pelas quais as tensões internas desse cânone possam
a fornecer candidatos ao vocabulário final de uma pessoa.
ser aliviadas - ou, quando necessário, acentuadas.
Uma vez ampliado a esse ponto o alcance da crítica literá-
ria, é claro que faz cada vez menos sentido chamá-la de crítica
literária; no entanto, por razões históricas acidentais, que têm a A ascensão da crítica literária à preeminência na cultura su-
perior das democracias - sua assunção gradativa e apenas semi-
Tomo emprestada, neste ponto, a idéia de "equilíbrio reflexivo" de Rawls Po- consciente do papel cultural antes reivindicado (sucessivamente)
deríamos dizer que a crítica literária tenta produzir esse equilíbrio entre os no- pela religião, pela ciência e pela filosofia - foi paralela ao aumen-
mes próprios dos autores, e não entre proposições. Uma das maneiras mais
fáceis de expressar a diferença entre a filosofia "analítica" e a "continental" é to da proporção de ironistas em relação aos metafísicos, entre os
dizer que a primeira lida com proposições e a segunda, com nomes próprios.
Quando a filosofia continental surgiu nos departamentos de literatura anglo-
americana, sob a forma de "teoria literária", isso não constituiu a descoberta de * Respectivamente de Trotski, Freud, Eliot, André Malraux e Theodore Dieiser.
um novo método ou abordagem, mas o simples acréscimo de outros nomes (os (N. de T.)
nomes dos filósofos) ao leque daqueles entre os quais se buscava o equilíbrio ** Respectivamente de Soljenitsin, Wittgenstein, Foucault, Nabokov e Kundera.
(N. de T.)
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intelectuais. Isso aprofundou o abismo entre os intelectuais e o lectual preponderante, de polêmicas como a de Habermas. Mi-
público. É que a metafísica está entremeada na retórica públi- nha defesa depende de estabelecer-se uma distinção rigorosa
ca das sociedades liberais modernas. O mesmo ocorre com a dis- entre o privado e o público. Enquanto Habermas vê a linha de
tinção entre o moral e o "meramente" estético - uma distinção pensamento ironista que vai de Hegel a Foucault e Derrida como
usada com freqüência para relegar a "literatura" a uma posição destrutiva para a esperança social, vejo essa linha de pensamen-
subalterna na cultura e para sugerir que os romances e os poe- to como basicamente irrelevante para a vida pública e as ques-
mas são irrelevantes para a reflexão moral. Grosso modo, a retóri- tões políticas. Teóricos ironistas como Hegel, Nietzsche, Derrida
ca dessas sociedades toma por certa a maioria das oposições que e Foucault me parecem de valor inestimável em nossa tentah-
afirmei (no começo do capítulo 3) terem se tornado empecilhos va de formar uma auto-imagem privada, mas praticamente inú-
para a cultura do liberalismo. teis em matéria de política. Habermas pressupõe que a tarefa da
Essa situação levou a acusações de "irresponsabilidade" filosofia é fornecer uma espécie de cola social que substitua a
contra os intelectuais ironistas. Algumas delas vieram de igno- fé religiosa, e vê o discurso iluminista da "universalidade" e da
rantes - pessoas que não leram os livros contra os quais adver- "racionalidade" como o melhor candidato a constituir essa cola.
tem outros indivíduos, e que apenas defendem instintivamente Assim, vê esse tipo de crítica ao Iluminismo e à idéia de raciona-
seus próprios papéis tradicionais. Entre os ignorantes incluem- lidade como algo que dissolve os vínculos entre os membros das
se os fundamentalistas religiosos, os cientistas que se ofendem sociedades liberais. Ele pensa no contextualismo e no perspect,-
com a sugestão de que ser "científico" não é a mais alta virtude
vismo pelos quais elogie: Nietzsche em capítulos anteriores co-
intelectual, e os filósofos para quem é um artigo de fé que a ra-
mo um subjetivismo irresponsável.
cionalidade exija a utilização de princípios morais gerais, do ti-
Habermas compartilha com os marxistas, e com muitos da-
po formulado por Mill e Kant. As mesmas acusações, porém, são
queles a quem critica, a suposição de que o verdadeiro significado
feitas por autores que sabem do que estão falando e cujas opi-
de uma visão filosófica consiste em suas implicações políticas,
niões são dignas de respeito. Como já sugeri, o mais importante
e de que o quadro de referência supremo em que julgar um es-
desses autores é Habermas, que montou uma polêmica contínua,
pormenorizada e cuidadosamente ponderada contra os críticos critor filosófico, em oposição a um autor meramente "literário',
do Iluminismo (por exemplo, Adorno e Foucault) que parecem é político. Para a tradição dentro da qual Habermas trabalha, e
voltar as costas às esperanças sociais de sociedades liberais. Na tão óbvio que a filosofia política é central para a filosofia quanto
visão habermasiana, Hegel (assim como Marx) tomou o rumo er- é óbvio, para a tradição analítica, que a filosofia da linguagem e
rado ao se ater a uma filosofia da "subjetividade" - ou da refle- central, mas, como afirmei no capítulo 3, melhor seria evitar pen-
xão sobre si mesmo -, em vez de tentar desenvolver uma filosofia sar na filosofia como uma "disciplina" com "problemas nuclea-
da comunicação intersubjetiva. res" ou dotada de uma função social. Também seria melhor evitar
Como disse no capítulo 3, quero defender o ironismo, bem a idéia de que a reflexão filosófica tem um ponto de partida na-
como o hábito de tomar a crítica literária como a disciplina inte- tural - a idéia de que uma de suas sub-áreas, em alguma ordem
150 Contingência, ironia e solidariedade Ironia çtivaàa e esperança Yvbetai 151

natural de justificação, tem prioridade sobre as outras. Isso por- eleições e as universidades são livres, a mobilidade social é fre-
que, na visão que venho oferecendo acerca do ironista, não existe qüente e rápida, a alfabetização é universal, o ensino superior é
uma ordem "natural" de justificação das crenças ou dos desejos. comum, e a paz e a riqueza já possibilitaram o lazer necessário
Também não há muito motivo para usar as distinções entre lógi- para escutarmos uma porção de pessoas diferentes e pensarmos
no que elas dizem. Compartilho com Habermas a afirmação, no
ca e retórica, ou entre filosofia e literatura, ou entre métodos ra-
estilo de Peirce, de que a única descrição geral a ser dada sobre
cionais e não racionais de fazer os outros mudarem de idéia4. Se
nossos critérios de verdade é aquela que se refere à "comunica-
não existe um centro do eu, há apenas maneiras diferentes de
ção não distorcida" 5 , mas penso que não há muito a dizer sobre o
entretecer novos candidatos a crenças e dos desejos com redes
que figura como "não distorcido", exceto "o tipo [de comunica-
previamente existentes de crenças e desejos. A única distinção
ção] que se tem quando há instituições políticas democráticas e
política importante nessa área é a que se faz entre o uso da força
condições para fazer com que elas funcionem" 6.
e o uso da persuasão.
A cola social que liga a sociedade liberal ideal descrita no ca-
Habermas e outros metafísicos que desconfiam de uma con-
pítulo anterior consiste em pouco mais que o consenso de que
cepção meramente "literária" da filosofia acham que as liberda-
o objetivo da organização social é permitir que todos tenham a
des políticas liberais requerem um certo consenso sobre o que é
oportunidade de criar a si mesmos, segundo o melhor de sua ca-
universalmente humano. Nós, ironistas que também somos libe-
pacidade, e de que essa meta requer, além de paz e riqueza, as
rais, cremos que tais liberdades não precisam de consenso quanto "liberdades burguesas" de praxe. Essa convicção não se basea-
a nenhum tópico mais básico do que sua própria desejabilidade. ria numa visão de objetivos humanos universalmente partilha-
Visto por nosso ângulo, só o que importa para a política liberal é dos, de direitos humanos, da natureza da racionalidade, do Bem
a convicção amplamente compartilhada de que, como afirmei no para o Homem nem de qualquer outra coisa. Seria uma convic-
capítulo 3, chamamos de "verdadeiro" ou "bom" o que quer que ção fundamentada em nada mais profundo do que os fatos histó-
resulte do debate livre - a convicção de que, se cuidarmos da liber- ricos que sugerem que, sem a proteção de algo como as institui-
dade política, a verdade e o bem cuidarão deles mesmos.
"Debate livre", aqui, não significa "livre de ideologia", mas 5 Isso não quer dizer que "verdadeiro" possa ser definido como "aquilo em que
se acreditará no fim da investigação". Para uma crítica dessa doutrina peircia-
apenas o tipo que acontece quando a imprensa, o judiciário, as na, cf. Michael Williams, "Coherence, justification and truth", Review o/Mcta-
physics, 34,1980, pp. 243-72, e seção 2 de meu ensaio "Pragmatism, Davidson
and truth", em Ernest Lepore (org.), Truth and interpretation: perspectives cm the
4 Quando essas redes de crenças e desejos são basicamente as mesmas para
philosophy o/Donald Davidson (Oxford, Basil Blackwell, 1986), pp. 333-55. [In-
um grande número de pessoas, torna-se realmente útil falar de "apelo à ra-
cluído também em Objetivismo, relativismo e verdade: escritos filosóficos, vol. 1,
zão" ou à "lógica", pois isso simplesmente significa o apelo a um terreno co-
trad. Marco A. Casanova, Rio de Janeiro, Relume-Dumará, 1997).]
mum largamente compartilhado, relembrando às pessoas as proposições que
6 Em contraste, Habermas e os que concordam com ele em que a Ideologiekritik
fazem parte desse terreno. Em linhas mais gerais, todas as distinções metafísi-
[crítica da ideologia] é central para a filosofia acham que há muito a dizer. A
cas tradicionais podem receber um sentido ironista respeitável, mediante sua
questão gira em torno de se achar ou não que é possível dar um sentido in-
sociologização - mediante seu tratamento como distinções entre conjuntos de
teressante à palavra "ideologia" - fazer com que ela signifique mais do que
práticas que têm uma existência contingente, ou estratégias empregadas den-
"má idéia".
tro dessas práticas, e não entre espécies naturais.
152 Contingência, ironia e solidariedade Ironia privada e esperança liberal

ções da sociedade liberal burguesa, as pessoas ficam menos ap- seres humanos, enfraqueceria e desarticularia as sociedades libe-
tas a elaborar sua salvação pessoal, criar sua auto-imagem priva- rais É possível que essa previsão esteja certa, mas há pelo menos
da e tecer de novo suas redes de crenças e desejos, à luz das no- uma razão excelente para considerá-la errada. Trata-se da analo-
vas pessoas e dos novos livros com que lhes suceda encontrar-se. gia com o declínio da fé religiosa. Esse declínio - mais especifi-
Nessa sociedade ideal, a discussão das questões públicas giraria camente, o declínio da capacidade de as pessoas levarem a serio
em torno de (1) como equilibrar as necessidades de paz, riqueza a idéia de recompensas depois da morte - não enfraqueceu as
e liberdade, quando as condições exigem que uma dessas metas sociedades liberais mas, efetivamente, as fortaleceu. Muita gen-
seja sacrificada a uma das outras, e (2) como igualar as oportuni- te dos séculos xvni e xix previu o inverso. Tais pessoas achavam
dades de automação e deixar as pessoas em paz para usarem ou que a esperança do Paraíso era necessária para suprir a fibra mo-
desprezarem suas oportunidades. ral e a cola social - que de nada adiantava, por exemplo, fazer
A sugestão de que essa é toda a cola social de que necessitam um ateu jurar dizer a verdade num tribunal de justiça. Como se
as sociedades liberais está sujeita a duas grandes objeções. A pri- constatou, entretanto, a disposição de suportar o sofrimento em
meira é que, como questão prática, essa cola simplesmente não é nome da recompensa futura mostrou-se passível de ser transfe-
espessa o bastante; a retórica (predominantemente) metafísica da rida das recompensas individuais para as recompensas sociais,
vida pública nas democracias é essencial para a continuação das das esperanças pessoais do Paraíso para as esperanças referem
instituições livres. A segunda é que é psicologicamente impossí- tes aos netos 7 .
vel ser um ironista liberal - ser alguém para quem "a crueldade A razão de o liberalismo ter se fortalecido com essa mudança
é a pior coisa que fazemos" - e não ter crenças metafísicas sobre foi que, enquanto a crença em uma alma imortal foi sendo açoi-
o que todos os seres humanos têm em comum. tada pelas descobertas científicas e pelas tentativas dos filóso-
A primeira objeção é uma previsão sobre o que acontece- fos de acompanhar o ritmo da ciência natural, não está claro que
ria se o ironismo substituísse a metafísica em nossa retórica pú- nenhuma mudança de opinião científica ou filosófica possa pre-
blica. A segunda é uma sugestão de que a cisão público-priva- judicar o tipo de esperança social que caracteriza as sociedades
do que defendo não pode funcionar: ninguém é capaz de se di- liberais modernas - a esperança de que um dia a vida seja mais
vidir num criador privado de si mesmo e num liberal público livre, menos cruel, mais ociosa e mais rica em bens e experiên-
- uma mesma pessoa não pode, em momentos alternados, ser cias, não apenas para nossos descendentes, mas para os descen-
Nietzsche e J. S. Mill. dentes de todos. Se você disser a alguém cuja vida extrai sentido
Quero descartar bem depressa a primeira dessas objeções, a dessa esperança que os filósofos estão ficando irônicos quanto a
fim de me concentrar na segunda. A primeira eqüivale à previ- essência real, à objetividade da verdade e à existência de uma na-
são de que o predomínio de idéias ironistas no público em geral,
a adoção generalizada de concepções antimetafísicas e anties-
sencialistas sobre a natureza da moral, da racionalidade e dos sa idéia.
154 Contingência, ironia e solidariedade Ironia privada e esperança liberal 155

tureza humana anistórica, é pouco provável que desperte °ran- por um conjunto de contingências históricas. Essas contingên-
de interesse, e muito menos que cause algum prejuízo. A idéia de cias têm facilitado a visão das últimas centenas de anos da histó-
que as sociedades liberais são unidas por crenças filosóficas me ria européia e norte-americana - séculos de esperança pública e
parece ridícula. O que une as sociedades são os vocabulários co- ironismo privado crescentes - como uma ilha no tempo, cercada
muns e as esperanças comuns. Os vocabulários costumam ser pela miséria, pela tirania e pelo caos. Como disse Orwell, "as pai-
parasitários das esperanças - no sentido de que sua função prin- sagens democráticas parecem terminar no arame farpado".
cipal é contar histórias sobre resultados futuros que compensem Voltarei a essa questão da perda da esperança social ao dis-
os sacrifícios do presente. cutir Orwell no capítulo 8. Por ora, tento apenas desvincular a
As modernas sociedades seculares e letradas dependem da pergunta pública "A ausência da metafísica é politicamente pe-
existência de cenários políticos razoavelmente concretos, otimis- rigosa?" da pergunta privada "O ironismo é compatível com o
tas e plausíveis, em contraste com cenários de redenção depois sentimento de solidariedade humana?". Para tanto, talvez seja
da morte. Para conservar a esperança social, os integrantes de útil distinguir a aparência que têm hoje o nominalismo e o his-
tais sociedades precisam poder contar a si mesmos uma histó- toricismo, numa cultura liberal cuja retórica pública - a retórica
ria sobre como as coisas podem melhorar, sem ver obstáculos em que os jovens são socializados - ainda é metafísica, da apa-
intransponíveis à materialização dessa história. Se a esperança rência que eles poderão ter num futuro cuja retórica pública seja
social tornou-se mais difícil ultimamente, não é porque os cléri- retirada dos nominalistas e historicistas. Tendemos a presumir
gos venham cometendo uma traição, mas porque, desde o fim da que o nominalismo e o historicismo são propriedade exclusiva
Segunda Guerra, o curso dos acontecimentos tornou mais difícil dos intelectuais, da cultura superior, e que as massas não podem
contar histórias convincentes desse tipo. O cínico e inexpugnável ser tão sofisticadas a respeito de seus vocabulários finais, mas é
Império Soviético, a miopia e a ganância contínuas das democra- bom lembrar que houve época em que o ateísmo também era
cias sobreviventes e as populações famintas e explosivas do he- propriedade exclusiva dos intelectuais.
misfério sul fazem com que os problemas enfrentados por nossos Na sociedade liberal ideal, os intelectuais continuariam a ser
pais na década de 1930 - o fascismo e o desemprego - pareçam ironistas, mas não os não intelectuais. Estes últimos, entretanto,
quase tratáveis. As pessoas que tentam atualizar e reescrever o seriam nominalistas e historicistas pelo senso comum. Assim, ver-
roteiro social democrático padrão sobre a igualdade humana, se-iam como inteiramente contingentes, sem sentirem qualquer
aquele que seus avós escreveram mais ou menos na virada do dúvida particular sobre as contingências que eles porventura apli-
século, não vêm tendo muito sucesso. Os problemas que os pen- cassem. Não seriam livrescos nem recorreriam a críticos literários
sadores sociais de inclinação metafísica acreditam ser causados como conselheiros morais, mas seriam sensatamente não metafísi-
por nossa incapacidade de encontrar o tipo certo de cola teórica cos, tal como mais e mais pessoas das democracias ricas vêm sen-
- uma filosofia que possa impor um vasto assentimento em uma do não teístas, com base no senso comum. Não sentiriam maior
sociedade individualista e pluralista - são causados, a meu ver, necessidade de responder a perguntas como "por que você é libe-
,., , 157
156 Contingência, ironia e solidariedade Ironia privada e esperança liberal

soa inapta para ser liberal, e de que a simples cisão entre os inte-
ral?", ou "por que se importa com a humilhação dos estranhos?"
do que o cristão quinhentista médio sentia necessidade de respon- resses privados e públicos não basta para superar a tensão.
der à pergunta "por que você é cristão?", ou do que a maioria das Pode-se tornar plausível essa afirmação, dizendo que há no
pessoas de hoje sente necessidade de responder à pergunta "você mínimo uma tensão à primeira vista entre a idéia de que a orga-
está salvo?"8. Uma pessoa desse tipo não precisaria de justificativa nização social visa à igualdade humana e a idéia de que os seres
para seu sentimento de solidariedade humana, pois não teria sido humanos são simples vocabulários encarnados. A idéia de que
criada para jogar o jogo de linguagem em que se indaga e se obtém todos temos a obrigação primordial de reduzir a crueldade, de
a justificação desse tipo de crença. Sua cultura seria tal que as dú- igualar os seres humanos com respeito a seu risco de sofrimento,
vidas sobre a retórica pública da cultura não seriam enfrentadas parece presumir que há algo nos seres humanos que merece res-
por solicitações socráticas de definições e princípios, mas por soli- peito e proteção, independentemente da linguagem que eles fa-
citações deweyanas de alternativas e projetos concretos. Tal cultu- lem Sugere que uma capacidade não lingüística, a capacidade
ra, pelo que posso ver, seria tão autocrítica e tão dedicada à igual- de sentir dor, é o que importa, e que as diferenças vocabulares são
dade humana quanto nossa cultura liberal conhecida e ainda me- muito menos importantes.
tafísica - se não mais até. A metafísica - no sentido de uma busca de teorias que che-
Contudo, mesmo que eu tenha razão em achar que uma cul- guem à essência real - procura dar sentido à afirmação de que os
tura liberal cuja retórica pública seja nominalista e historicista é seres humanos são mais do que redes de crenças e desejos, des-
possível e desejável, não posso fazer também a afirmação de que providas de um centro. A razão por que muitas pessoas conside-
poderia ou deveria haver uma cultura cuja retórica pública fos- ram essa afirmação essencial para o liberalismo é que, se de fato
se ironista. Não posso imaginar uma cultura que socializasse seus os homens e mulheres nada mais fossem do que atitudes senten-
jovens de um modo que os fizesse duvidar continuamente de seu ciais - nada além da presença ou ausência de predisposições para
próprio processo de socialização. A ironia parece ser uma ques- o uso de frases formuladas num vocabulário historicamente con-
tão intrinsecamente privada. Por minha definição, o ironista não
dicionado -, não apenas a natureza humana, mas também a soli-
pode arranjar-se sem o contraste entre o vocabulário final que
dariedade humana, começariam a parecer idéias excêntricas e duvi-
herdou e aquele que tenta criar para si mesmo. A ironia, se não
dosas Isso porque a solidariedade com todos os vocabulários pos-
intrinsecamente ressentida, é ao menos reativa. Os ironistas têm
síveis parece impossível. Os metafísicos nos dizem que, a menos
que ter algo de que duvidar, algo de que possam se alienar.
que haja algum tipo de vocabulário primitivo comum, não temos
"razão" para não ser cruéis com aqueles cujos vocabulários finais
Isso me traz à segunda das duas objeções que listei aqui e,
são muito diferentes dos nossos. A ética universalista parece in-
com isso, à idéia de que há algo em ser ironista que deixa a pes-
compatível com o ironismo, pelo simples fato de que é difícil ima-
8 Nietzsche disse, com um sorriso desdenhoso: "A democracia é o cristianismo ginar a enunciação de tal ética sem uma doutrina sobre a natureza
tornado natural" (WUI to power, Nova York, Vintage, 1968, p. 215). Tirando-se do Homem. Esse apelo à essência real é a antítese do ironismo.
o desdém, ele tinha toda a razão.
158 Contingência, ironia e solidariedade Ironia privada e esperança liberal 154

Portanto, o fato de a maior abertura, o espaço maior para a antiliberais. Uma porção de pessoas, de Julien Benda a C. P. Snovv,
criação de si mesmo, ser a demanda-padrão feita pelos ironis- considerou quase evidente a ligação entre o ironismo e o antilibe-
tas a suas sociedades é contrabalançado pelo fato de que essa ralismo. Hoje em dia, muitos presumem que o gosto pela "des-
demanda parece ser, meramente, a de liberdade para falar uma construção" - uma das atuais palavras de ordem dos ironistas - é
espécie de metalinguagem teórica irônica que não faz sentido um bom sinal de falta de responsabilidade moral. Presumem que a
para o homem da rua. Podemos facilmente imaginar um iro- marca do intelectual moralmente fidedigno é uma espécie de pro-
nista que queira intensamente uma liberdade maior, um espa- sa direta, desenvolta e transparente - exatamente o tipo de prosa
ço mais aberto para os Baudelaires e os Nabokovs, sem pensar que nenhum ironista criador de si mesmo quer escrever.
minimamente no tipo de coisa que Orwell queria: por exemplo,
Embora algumas dessas inferências possam ser falacio-
introduzir mais ar puro nas minas de carvão, ou tirar o Partido
sas e alguns desses pressupostos, infundados, há algo acertado
das costas dos proletários. Essa sensação de que o vínculo entre
na desconfiança que o ironismo desperta. O ironismo, tal como
o ironismo e o liberalismo é muito frouxo, ao passo que é muito
o defini, resulta da consciência do poder da redescrição, mas a
estreito entre a metafísica e o liberalismo, é o que faz com que as
maioria das pessoas não quer ser redescrita. Quer ser aceita em
pessoas desconfiem do ironismo na filosofia e do estetismo na li-
seus próprios termos - levada a sério tal como é e da maneira
teratura como "elitistas".
como fala. O ironista lhes diz que a linguagem que falam está aí
E por isso que escritores como Nabokov, que dizem despre-
para ser posta em questão por ele e por outros como ele. Há nes-
zar o "lixo local" e almejar um "êxtase estético", parecem moral-
sa afirmação algo de potencialmente muito cruel. É que a melhor
mente duvidosos e, quem sabe, politicamente perigosos. Filóso-
maneira de causar um sofrimento duradouro às pessoas é humi-
fos ironistas como Nietzsche e Heidegger muitas vezes parecem
lhá-las, fazendo com que as coisas que lhes parecem mais impor-
iguais, ainda que esqueçamos o uso que os nazistas fizeram de-
tantes se afigurem fúteis, obsoletas e impotentes 9 . Consideremos
les. Em contraste, mesmo quando atentamos para o uso feito do
o que acontece quando as posses preciosas de uma criança - as
marxismo por gangues de bandidos que se denominaram "go-
pequenas coisas em torno das quais ela tece fantasias que a tor-
vernos marxistas", para o uso feito do cristianismo pela Inquisi-
nam um pouco diferente de todas as outras crianças - são redes-
ção e para o uso feito do utilitarismo por [Thomas] Gradgrind,
critas como "porcaria" e jogadas no lixo. Ou então, pensemos no
não podemos mencionar o marxismo, o cristianismo ou o utili-
tarismo sem respeito. É que houve época em que cada um deles que acontece quando essas posses são ridicularizadas, na com-
serviu à liberdade humana. E não é óbvio que o ironismo jamais paração com as posses de outra criança mais rica. É presumível
o tenha feito. que aconteça algo parecido com uma cultura primitiva, quando

O ironista é o típico intelectual moderno, e as únicas socieda- 9 Cf. a discussão de Judith Shklar sobre a humilhação, na p. 37 de seus Ordínanj
des que lhe dão a liberdade de articular sua alienação são as libe- vices ["Vícios comuns"] (Cambridge, Mass., Harvard University Press, 1984),
e a discussão de Ellen Scarry sobre o uso da humilhação pelos torturadores,
rais. Assim, é tentador inferir que os ironistas são naturalmente no capítulo 1 de The body in pain ["O corpo dolente"].
161
160 Contingência, ironia e solidariedade Ironia privada e esperança liberal

o desvelamento do verdadeiro eu do interlocutor, ou da ver-


ela é dominada por outra mais avançada. O mesmo tipo de coisa
dadeira natureza de um mundo público comum, compartilha-
às vezes acontece com os não intelectuais na presença de intelec-
do pelo falante e pelo interlocutor, sugere que a pessoa redes-
tuais. Tudo isso são formas mais brandas do que sucedeu a Wins-
crita está sendo capacitada, e não tendo seu poder diminuído.
ton Smith quando ele foi preso: quebraram seu peso de papel e
Essa sugestão é favorecida quando se combina com a sugestão
deram um soco na barriga de Julia, com isso dando início ao pro-
de que sua falsa autodescrição anterior fora imposta pelo mun-
cesso de fazer com que ele se descrevesse nos termos de 0'Brien,
do, pela carne, pelo diabo, pelos professores ou pela sociedade
e não nos seus*. O ironista redescritivo, ao ameaçar o vocabulá- repressiva. O convertido ao cristianismo ou ao marxismo é le-
rio final de uma pessoa e, com isso, sua capacidade de compreen- vado a sentir que ser redescrito eqüivale a um desvendamento
der a si mesma em seus próprios termos, e não nos dele, sugere de seu verdadeiro eu, ou de seus interesses reais. Passa a acre-
que o eu e o mundo da pessoa são fúteis, obsoletos, impotentes. A ditar que sua aceitação dessa redescrição sela uma aliança com
redescrição comumente humilha. uma força mais poderosa do que qualquer das que o oprimiram
Observe-se, porém, que a redescrição e a possível humi- no passado.
lhação não têm uma ligação mais estreita com o ironismo do O metafísico, em suma, pensa que há uma ligação entre a
que com a metafísica. O metafísico também redescreve, embo- redescrição e o poder, e que a redescrição certa pode nos liber-
ra o faça em nome da razão, e não da imaginação. A redescrição tar. O ironista não oferece qualquer garantia parecida. Tem que
é um traço genérico do intelectual, e não uma marca específica dizer que nossas chances de liberdade dependem de contingên-
do ironista. Então, por que os ironistas despertam um ressenti- cias históricas que só ocasionalmente são influenciadas por nos-
mento especial? Encontramos a pista para uma resposta no fato sas redescrições de nós mesmos. Não conhece qualquer poder do
de que, em geral, o metafísico respalda sua redescrição na argu- mesmo porte daquele com que o metafísico se diz familiarizado.
Quando afirma que sua redescrição é melhor, não consegue dar
mentação - ou, tal como esse processo é redescrito pelo ironista,
ao termo "melhor" o peso tranqüilizador que lhe confere o me-
disfarça sua redescrição sob a fachada da argumentação. Em si,
tafísico, ao explicá-la como tendo "melhor correspondência com
porém, isso não resolve o problema, porque a argumentação, tal
a realidade".
como a redescrição, é neutra entre o liberalismo e o antilibera-
Assim, concluo que aquilo de que se acusa o ironista não é
lismo. Presumivelmente, a diferença relevante está em que ofe-
uma propensão para humilhar, mas uma impossibilidade de ca-
recer um argumento para corroborar uma redescrição eqüivale
pacitar. Não há razão por que o ironista não possa ser liberal, mas
a dizer à platéia que ela está sendo educada, em vez de apenas
ele não pode ser um liberal "progressista" e "dinâmico", no sen-
reprogramada - que a verdade já estava nela e precisava mera-
tido em que os metafísicos liberais às vezes afirmam ser. É que
mente ser trazida à luz. A redescrição que se apresenta como ele não pode oferecer o mesmo tipo de esperança social oferecido
Personagens de 1984, de Orwell. (N. de T.)
pelos metafísicos. Não pode afirmar que a adoção de sua redes-
— Contingência, ironia e solidariedade Ironia privada e esperança liberal 163

crição da pessoa ou da situação dela a torne mais capaz de domi- distinguir entre a redescrição para fins privados e para fins pú-
nar as forças que se juntam contra ela. A seu ver, essa capacidade blicos. Para meus objetivos privados, posso redescrever você e
é uma questão de armas e de sorte, e não de ela estar do lado da todas as outras pessoas em termos que nada têm a ver com mi-
verdade ou haver identificado o "movimento da história". nha postura perante seu sofrimento real ou possível. Meus obje-
Há, portanto, duas diferenças entre o ironista liberal e o me- tivos privados e a parte de meu vocabulário final que não é per-
tafísico liberal. A primeira concerne ao sentido do que a redescri- tinente a meus atos públicos não são da sua conta, mas, como sou
ção pode fazer pelo liberalismo; a segunda, ao sentido da ligação liberal, a parte de meu vocabulário final que é pertinente a esses
entre a esperança pública e a ironia privada. A primeira diferen- atos exige que eu me conscientize de todas as várias maneiras em
ça é que o ironista julga que as únicas redescrições que servem aos que outros seres humanos sobre os quais eu aja podem ser hu-
propósitos liberais são aquelas que respondem à pergunta "que é milhados. Portanto, o ironista liberal precisa de toda a familiari-
que humilha?", ao passo que o metafísico também quer respon- dade imaginativa possível com vocabulários finais alternativos,
der à pergunta "por que devo evitar humilhar?". O metafísico li- não só para sua própria edificação, mas para compreender a hu-
beral quer que nosso desejo de sermos bons seja fomentado por um milhação real e potencial das pessoas que usam esses vocabulá-
argumento, um argumento que implique uma auto-redescrição rios finais alternativos.
que destaque uma essência humana comum, uma essência que
O metafísico liberal, em contraste, quer um vocabulário fi-
seja algo mais do que nossa capacidade compartilhada de sofrer
nal que tenha uma estrutura interna e orgânica, que não seja di-
humilhações. O ironista liberal quer apenas que nossas probabi-
vidido ao meio por uma distinção público/privado, que não seja
lidades de sermos bons, de evitarmos humilhar o outro, sejam am-
apenas uma colcha de retalhos. Acha ele que o reconhecimen-
pliadas pela redescrição. Ele acha que o reconhecimento de uma
to de que todos querem ser aceitos em seus próprios termos im-
susceptibilidade comum à humilhação é o único vínculo social ne-
põe-nos o compromisso de encontrar um mínimo denominador
cessário. Enquanto o metafísico considera que o aspecto moral-
comum desses termos, uma descrição única que seja suficiente
mente relevante dos outros seres humanos é sua relação com um
para os fins públicos e privados, para a autodefinição e para as
poder comum m a i o r - a racionalidade, Deus, a verdade ou a his-
relações do sujeito com outros. Seguindo Sócrates, ele reza para
tória, por exemplo -, o ironista considera que a definição moral-
que o homem interno e o externo sejam um só - para que a iro-
mente relevante de uma pessoa, de um sujeito moral, é ser "algo
nia já não seja necessária. Seguindo Platão, é propenso a acredi-
passível de ser humilhado". Seu senso de solidariedade humana
tar que as partes da alma e as do Estado correspondem umas às
baseia-se no sentimento de um perigo comum, e não de uma pos-
outras, e que distinguir o essencial do acidental na alma nos aju-
se comum ou de um poder compartilhado.
dará a distinguir a justiça da injustiça no Estado. Essas metáforas
Como fica, então, a afirmação que fiz antes, de que as pes- expressam a crença do metafísico liberal em que a retórica meta-
soas querem ser redescritas em seus próprios termos? Como já física pública do liberalismo deve permanecer central no vocabu-
sugeri, o ironista liberal enfrenta isso dizendo que precisamos lário final de cada liberal, por ser a parte que expressa o que ele
... | 165
164 Contingência, ironia e solidariedade Ironia privada e esperança UDeiai

ironista liberal não é descobrir essa razão, mas certificar-se de no-


tem em comum com o resto da humanidade - a parte que possi-
tar o sofrimento quando ele ocorre. Sua esperança é não ser limi-
bilita a solidariedade 10 .
tado por seu próprio vocabulário final ao deparar com a possibili-
Contudo, essa distinção entre uma parte central, comparti-
dade de humilhar alguém de vocabulário final muito diferente.
lhada e obrigatória e uma parte periférica, idiossincrática e op-
Para o ironista liberal, a habilidade na identificação ima-
cional do vocabulário final de alguém é, justamente, a distinção
ginária executa o trabalho que o metafísico liberal gostaria de
que o ironista se recusa a fazer. Ele acha que o que o une ao res-
realizar por meio de uma motivação especificamente moral - a
tante da espécie não é uma linguagem comum, mas apenas a sus-
racionalidade, o amor a Deus ou o amor à verdade. O ironista
ceptibilidade à dor e, em particular, ao tipo especial de dor que
não vê sua capacidade de contemplar e querer prevenir a hu-
as feras não compartilham com os seres humanos - a humilha-
milhação real e possível de outrem - apesar das diferenças de
ção. Segundo sua concepção, a solidariedade humana não é uma
sexo, raça, tribo e vocabulário final - como mais real ou cen-
questão de partilhar uma verdade comum ou uma meta comum,
tral, ou "essencialmente humana", do que qualquer outra parte
mas de partilhar uma esperança egoísta comum: a esperança de
dele. Na verdade, encara-a como uma capacidade e um desejo
que o mundo de cada um - as pequenas coisas ao redor das quais
que, tal como a capacidade de formular equações diferenciais,
o sujeito teceu seu vocabulário final - não seja destruído. Para
surgiu muito tardiamente na história da humanidade, e ainda
fins públicos, não importa que o vocabulário final de todos seja
é um fenômeno bastante local. Associa-se primordialmente à
diferente, desde que haja superposição suficiente para que todos
Europa e à América dos últimos três séculos. Não está associa-
tenham algumas palavras com que expressar a desejabilidade
da a nenhuma força maior do que a encarnada em situações
de entrar nas fantasias de outras pessoas, assim como nas pró-
históricas concretas, a exemplo do poder das ricas economias
prias. Porém, essas palavras superpostas - termos como "bonda- européias e norte-americanas de disseminar seus costumes em
de", "honradez" ou "dignidade" - não formam um vocabulário outras partes do mundo, poder este que foi ampliado por algu-
que todos os seres humanos possam alcançar mediante a reflexão mas contingências passadas e diminuído por certas contingên-
sobre sua natureza. Tal reflexão não produz nada além da cons- cias mais recentes.
ciência acentuada da possibilidade de sofrer. Não produz uma ra- Enquanto o metafísico liberal acha que o bom liberal sabe
zão para nos importarmos com o sofrimento. O que importa para o que algumas proposições cruciais são verdadeiras, o ironista li-
10 Habermas, por exemplo, procura salvar algo do racionalismo iluminista me-
beral acha que o bom liberal tem um certo tipo de know-how.
diante uma "teoria discursiva da verdade", que mostrará que o "ponto de vis- Enquanto o primeiro pensa na cultura superior do liberalismo
ta moral" é um "universal" e "não expressa meramente as intuições morais
do integrante médio, masculino e de classe média de uma sociedade ociden- como centrada na teoria, o segundo a vê como centrada na litera-
tal moderna" (Peter Dews [org.], Aiitonomy and solidarity: intervicius ivith Jüv- tura (no sentido mais antigo e estreito do termo - peças, poemas
gen Habermas, Londres, Verso, 1986). Para o ironista, o fato de ninguém nunca
ter tido essas intuições antes da ascensão das sociedades ocidentais modernas e sobretudo romances). Um acha que a tarefa do intelectual é pre-
é perfeitamente irrelevante para a questão de determinar se ele deve compar-
servar e defender o liberalismo, respaldando-o com proposições
tilhá-las.
-^ Contingência, ironia e solidariedade Ironia privada e esperança liberal 167

verdadeiras sobre grandes temas, mas o outro acha que essa ta- perar que a filosofia realize uma certa tarefa - a de responder a
refa é aumentar nossa habilidade de reconhecer e descrever os perguntas como "por que não sermos cruéis?" e "por que ser-
diferentes tipos de pequenas coisas em que os indivíduos ou as
mos bons?" - e acham que qualquer filosofia que recuse essa
comunidades centram suas fantasias e sua vida. O ironista enca-
atribuição deve ser desalmada. Essa expectativa, porém, resulta
ra as palavras fundamentais da metafísica e, em particular, da re-
de uma formação metafísica. Se pudéssemos livrar-nos da ex-
tórica pública das democracias liberais como sendo apenas mais
pectativa, os liberais não pediriam à filosofia ironista para fazer
um texto, apenas outro conjunto de coisinhas humanas. Sua ca-
um trabalho que ela não pode fazer, e que se define como inca-
pacidade de compreender como é fazer a vida centrar-se nessas
paz de fazer.
palavras não se distingue de sua capacidade de apreender como
A associação que o metafísico faz entre teoria e esperança
é fazer a vida centrar-se no amor a Cristo ou ao Grande Irmão.
social e entre literatura e perfeição privada inverte-se na cultu-
Seu liberalismo não consiste em sua devoção a essas palavras es-
ra do ironista liberal. Numa cultura metafísica liberal, as disci-
pecíficas, mas em sua capacidade de captar a função de muitos
plinas encarregadas de penetrar nas muitas aparências privadas
conjuntos diferentes de palavras.
e chegar a uma realidade comum geral - teologia, ciência, filoso-
Essas distinções ajudam a explicar por que a filosofia iro- fia - eram as que deveriam unir os seres humanos e, desse modo,
nista não fez nem fará muito pela liberdade e pela igualdade, ajudar a eliminar a crueldade. Em uma cultura ironista, ao con-
mas explicam também por que a "literatura" (no sentido anti-
trário, as disciplinas especializadas na descrição densa do priva-
go e mais estrito), assim como a etnografia e o jornalismo, têm
do e do idiossincrático é que recebem a atribuição dessa tarefa.
feito isso. Como eu disse antes, a dor é não lingüística: é aquilo
Em particular, os romances e as etnografias que sensibilizam
que temos, nós, os seres humanos, que nos liga aos animais não
para o sofrimento dos que não falam nossa linguagem devem
usuários da linguagem. Assim, as vítimas da crueldade, as pes-
fazer o trabalho que se esperava que fosse feito pelas demonstra-
soas que estão sofrendo, não têm grande coisa em termos de lin-
ções de uma natureza humana comum. A solidariedade deve ser
guagem. É por isso que não existem a "voz dos oprimidos" nem
construída a partir de pequenos fragmentos, e não já encontrada
a "linguagem das vítimas". A linguagem antes usada pelas víti-
à espera, sob a forma de uma linguagem primitiva que todos re-
mas já não funciona, e elas estão sofrendo demais para juntar no-
conheçamos ao ouvi-la.
vas palavras. Portanto, a tarefa de transformar sua situação em
Inversamente, em nossa cultura cada vez mais ironista, a filo-
linguagem tem que ser executada para elas por outras pessoas. O
sofia tornou-se mais importante para a busca da perfeição priva-
romancista, o poeta ou o jornalista liberais são bons nisso. O teó-
da que para qualquer tarefa social. Nos próximos dois capítulos,
rico liberal geralmente não o é.
afirmarei que os filósofos ironistas são filósofos privados - filóso-
A suspeita de que o ironismo na filosofia não contribuiu fos interessados em intensificar a ironia do nominalista e do his-
para o liberalismo é correta, mas não porque a filosofia ironis- toricista. Seu trabalho presta-se mal aos fins públicos e não tem
ta seja intrinsecamente cruel. É que os liberais passaram a es- serventia para os liberais qua liberais. Nos capítulos 7 e 8, forne-
168
Contingência, ironin e solidariedade

cerei exemplos do modo como os romancistas podem fazer algo


socialmente útil - ajudar-nos a atentar para as fontes da cruelda- 5
de em nós mesmos, bem como para a realidade de sua ocorrência Autocriação e filiação:
em áreas em que não a havíamos notado. Proust, Nietzsche e Heidegger

Para ilustrar minha afirmação de que para nós, os ironistàs, a


teoria tomou-se um meio para a perfeição privada, e não para a só-
lidariedade humana, discutirei alguns paradigmas da teoria iro-
nista: o jovem Hegel, Nietzsche, Heidegger e Derrida. Usarei a
palavra "teórico", em vez de "filósofo", porque a etimologia de
"teoria" me dá a conotação que desejo e evita algumas que não
quero. As pessoas que discutirei não pensam que exista nada cha-
mado "sabedoria", num sentido do termo que Platão pudesse
reconhecer. Por isso, a expressão "amante da sabedoria" parece
imprópria, mas theoria sugere ter a visão de uma ampla faixa de
território, a uma distância considerável, e é justamente isso que
fazem as pessoas que discutirei. Todas se especializam em tomar
distância e em ter uma visão ampla do que Heidegger chamava
de "tradição da metafísica ocidental" - o que venho chamando de
"cânone pia tônico-kantiano".
Os componentes desse cânone, as obras dos grandes meta-
físicos, são as tentativas clássicas de ver tudo com uniformidade
e vê-lo por inteiro: as tentativas dos metafísicos de se erguerem
acima da pluralidade das aparências, na esperança de que, vis-
tas das alturas, elas evidenciem uma unidade inesperada - uma
unidade que é sinal de que se vislumbrou algo real, algo que está