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Parte Prática do Curso de Comissários: piquenique ou “tapa da cara e pede pra sair”?

André Braga*

O Curso de Comissários de Voo é dividido em parte teórica e prática. Ao longo da minha


experiência como diretor de escolas de aviação, coordenador de cursos e instrutor de aulas
teóricas e práticas, pude perceber a ansiedade que a parte prática de sobrevivência gera nos
alunos, de maneira quase que generalizada. Portanto, resolvi escrever este pequeno artigo para
desmistificar a Sobrevivência Prática do curso de Comissários e para que você candidato ou
aluno de uma escola de aviação possa ficar tranquilo em relação a esta importante etapa da sua
formação.

Bom, segundo o MCA 58-11, documento que norteia o curso de formação de comissários de
voo, a necessidade de fazer com que os alunos entrem em contato com situações que poderão
ter que enfrentar durante seu trabalho como comissários de voo, envolvendo risco de morte e
estresse, denota a necessidade de fazê-los vivenciar, da forma a mais próxima possível da
realidade, situações práticas de sobrevivência na selva, sobrevivência no mar, combate ao fogo
e primeiros socorros.

Assim, as escolas de aviação devem ministrar a instrução prática, vamos a alguns detalhes:

Objetivos da Instrução Prática: a instrução prática deve complementar e fixar conhecimentos


anteriormente adquiridos na instrução teórica. Como estes conhecimentos não serão aplicados
rotineiramente pelo comissário de voo e sim em situações raras, estressantes e que exigem
resposta pronta e adequada, treinar tais conhecimentos é de grande valor;

Instrutores: os instrutores deverão estudar casos já acontecidos e, mesmo sem terem


vivenciado essas experiências, obtêm, através de conversas, relatórios, fotos etc., informações
suficientes para transportar os alunos para situações simuladas da maneira mais real possível.

Ambiente de realização: deverão ser selecionados cuidadosamente ambientes que permitam a


realização das atividades práticas.

Para a “Sobrevivência na Selva e Primeiros Socorros após Acidente Aéreo” o ideal é que seja
desenvolvida em área de mata, para que os alunos, cuja grande parte está, até o momento,
habituada à vida urbana, possam entrar em contato, em ambiente hostil, com uma realidade
que poderão enfrentar um dia e que, justamente por não ser corriqueira, requer um
treinamento que seja encarado pelo aluno com seriedade. Para a atividade prática
“Sobrevivência no Mar”, o ambiente adequado é o próprio mar, a fim de se criar uma situação
o mais real possível e, assim, desenvolver um treinamento mais eficaz, capaz de incutir, no
aluno, a responsabilidade de que se reveste a função de comissário de voo. Caso não haja a
possibilidade de utilização do mar, a atividade poderá ser desenvolvida em rio ou, até, em uma
piscina que permita a realização dos trabalhos requeridos.

Conteúdo Programático: Conforme já mencionado, a instrução prática complementa a teoria


pondo-a em prática. Veja o que esperar da parte prática de Sobrevivência.

Prática de Combate ao Fogo (02 horas aula): reconhecimento e manuseio de equipamentos


extintores, aplicando-os no combate real em focos de incêndio;

Sobrevivência na Selva e Primeiros Socorros após Acidente Aéreo (10 horas aula): briefing
sobre as ações imediatas e simultâneas; briefing sobre as ações subsequentes; Cuidados
relativos à preservação da saúde; Primeiros socorros após acidente aéreo; Sinalização diurna;
Obtenção de abrigo; Obtenção e utilização de fogo; Obtenção e purificação de água doce;
Obtenção e preparo de alimentos de origem vegetal; Obtenção e preparo de alimentos de
origem animal; Deslocamento; Sinalização noturna; Orientação.

Sobrevivência no Mar (03 horas aula): Desembarque na água; utilização de equipamentos


individuais de flutuação; resgate de feridos na água (salvatagem); utilização de equipamentos
coletivos de flutuação.

Avaliação da Sobrevivência Prática: Compreendido o que se deve fazer, é importante que você
saiba como isto pode ser avaliado. Vamos aos critérios de avaliação:

1. Capacidade de tomar decisões e iniciativa – capacidade de adotar a melhor alternativa


entre várias, depois de avaliar com precisão os dados envolvidos;

2. Habilidade social – flexibilidade para tratar com pessoas, inclusive em situações


delicadas, demonstrando segurança e obtendo confiança;

3. Atenção concentrada e para detalhes – capacidade de concentrar-se em ambientes com


muitos estímulos, observando detalhes;

4. Adaptabilidade – capacidade de se adaptar a situações, pessoas e locais novos, sem


prejuízo de seu desempenho;

5. Raciocínio lógico-verbal – capacidade para compreender e utilizar conceitos de forma


adequada em sua comunicação;

6. Disciplina – capacidade de respeitar a regulamentação da entidade; e

7. Organização – capacidade de sistematizar tarefas, formando esquemas de execução.

Estes critérios serão expressos através de conceitos: “S” (satisfatório) ou “I” (insatisfatório), e a
presença a todas atividades práticas é obrigatória.

Tenho certeza que agora você é capaz de responder à provocação inicial feita no título deste
texto e espero que estes esclarecimentos sejam suficientes para deixá-lo tranquilo quanto à
parte prática do curso de comissários. Lembre-se que o treinamento não é, nem de perto, um
treinamento militar para o combate, e sim, um treinamento para que você sobreviva e auxilie
os passageiros, até a chegada das equipes de resgate, afinal, é isto que se espera de um
comissário de voo.

*Controlador de Tráfego Aéreo, Professor Universitário e CEO do Portal Braga Academy

URL do Vídeo:

https://youtu.be/wAzKNRoekZI

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