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A questão da habitação social no ensino de projeto integrado ao

desenho urbano

Catharina Christina Teixeira, Denise Falcão Pessoa, Giselly Barros Rodrigues,


Mariana Cicuto Barros, Rogerio Akamine, Solange de Aragão e Vinícius Luz de Lima
Fonte: http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/18.210/6818


Conjunto Habitacional do Jardim Edite, escritórios MMBB Arquitetos & H+F Arquitetos
Foto Nelson Kon

O tema da habitação social tem ganhado importância nos últimos anos no Brasil com
os avanços das políticas públicas pós 2008, com programas de incentivo à construção
de moradias populares para famílias de baixa renda, como o Programa Minha Casa
Minha Vida e o Programa de Aceleração do Crescimento com foco na urbanização de
assentamentos precários.

Em 2015, esse panorama de crescimento econômico propiciou empregabilidade aos


jovens profissionais e aos estudantes de arquitetura, o que colabora no interesse
dos alunos em participar e interagir com o tema. Os alunos da Universidade Nove de
Julho são postos em contato com a informalidade e ilegalidade das habitações,
diante da complexidade urbana de uma cidade como São Paulo, na periferia do
capitalismo global. Essa realidade, muitas vezes não é tratada nos cursos de
graduação de arquitetura e urbanismo.

A disciplina de projeto arquitetônico evolui no eixo vertical do curso em


complexidade projetual, e na integração horizontal com as demais disciplinas do
semestre. No sexto semestre, o tema de projeto arquitetônico é habitação social.
Esse é o primeiro semestre que integra o projeto da edificação com o entorno urbano
abordado na disciplina de desenho urbano e com a disciplina de sociologia urbana,
que subsidia o conhecimento com questões sociais da cidade.
O projeto arquitetônico da habitação social, não se diferenciaria dos demais
semestres, se não fosse o aspecto intrínseco ao tema: o problema econômico, social
e político no qual se insere, imprimindo no urbano suas contradições. Em uma cidade
como a capital paulista onde 34% da população vive na precariedade, em assentamentos
informais, a abordagem do uso habitacional e a morfologia urbana, não pode ser
deixada de lado na formação dos futuros profissionais, que terão que se deparar
com esta problemática como arquitetos e também como cidadãos.

Área de intervenção
A escolha da área de intervenção deveria atender as necessidades didáticas das duas
disciplinas – Projeto e Desenho Urbano – em local de fácil acesso aos estudantes.
A área escolhida apresenta um potencial de estudo especial, pois agrega a
especificidade de uma Operação Urbana Consorciada – OUC, na região da Água Branca.

Perímetro da OUC – Agua Branca e Área de intervenção, disciplina Desenho Urbano e


Projeto Arquitetônico VI
Imagem divulgação [Prefeitura de São Paulo, PMSP, 2014]

Essa região encontra-se em franca transformação de uso, num bairro originalmente


configurado por ocupação horizontalizada, constituída por galpões de herança
fabril, lindeira à linha férrea e à avenida marginal do Rio Tietê, importante eixo
de circulação da cidade de São Paulo. Com o processo de transformação econômica
ocorrido no mundo globalizado, ao longo dos últimos 40 anos, a região tornou-se
central mas seu uso industrial perdeu sentido.

Em 1995 foi aprovada a lei 11.774 que instituiu a Operação Urbana Consorciada Água
Branca – OUCAB (1), iniciando os estudos para implementação dos estudos urbanísticos
e econômicos em 2007/2008.

Desde então, tem ocorrido um intenso processo de transformação do bairro, mesmo


com a implementação parcial da OUCAB, dando frente a novas ocupações que promovem
o adensamento residencial e de serviços, fruto do incentivo do poder público na
concessão de aumento do potencial construtivo e da pressão do capital financeiro e
imobiliário atuantes na valorização da terra. Este fato tem promovido a
gentrificação e expulsão da população de baixa renda residente nos cortiços ou em
assentamentos precários remanescentes do bairro.
Nos Planos Regionais Estratégicos da cidade de São Paulo de 2004 e no Plano Diretor
Estratégico de 2014, foram demarcadas, na gleba de estudo, áreas para habitação de
interesse social, definidas na lei como Zonas Especiais de Interesse Social – ZEIS
cujas características variam segundo suas especificidades.

ZEIS demarcadas na área de intervenção das disciplinas Projeto VI e Desenho Urbano


Imagem divulgação [Plano Diretor Estratégico, PMSP, 2014 Elaboração dos autores]

O novo projeto da OUCAB apresenta diretrizes de transporte coletivo e mobilidade


não motorizada, a inclusão e diversidade social, o adensamento construtivo e
populacional com uso misto, ordenamento e valorização da paisagem, melhorias
ambientais e na infraestrutura. No que se refere a inclusão e diversidade social,
as diretrizes buscam viabilizar a construção de Habitação de Interesse Social –
HIS com empreendimentos que atendam a diferentes demandas, referentes tanto ao
tamanho das unidades habitacionais quanto ao atendimento das diversas faixas de
renda.

A integração com a disciplina de desenho urbano


A complexidade das metrópoles na contemporaneidade impõe uma reformulação de
conceitos de como conceber espaços e ordenar as transformações urbanas, uma vez
que as recentes mudanças da sociedade alteram o planejamento e a gestão das cidades.
Dada essa complexidade, existe uma dificuldade para compreender a metrópole como
um todo, identificar os fatores que causam degradação de algumas áreas enquanto,
concomitantemente, ocorre o florescimento de outras. Somada a essa dificuldade, há
também uma demanda para que a cidade contemporânea seja pujante e ofereça boa
qualidade nos espaços públicos, reduza o tempo de deslocamento, sendo acessível a
pessoas com mobilidade reduzida, expectativas que devem ser contempladas nos
Projetos de Desenho Urbano.

Sabe-se que o Desenho Urbano tanto possibilita a elaboração de loteamentos para


terrenos ainda não ocupados, como a requalificação de áreas degradadas da cidade,
considerando-se, em ambos os casos, o traçado, a dimensão e o desenho das quadras
e lotes, a volumetria pretendida, o uso dos edifícios, a distribuição da vegetação,
a possibilidade de criação de praças e parques, os recuos definidores de
características da paisagem, a constituição de monumentos e marcos, o desenho do
mobiliário urbano, a demanda por determinados equipamentos, bem como questões
sociais, políticas e históricas, entre tantos outros aspectos relevantes.

Sendo a requalificação de trechos da área urbana de grande interesse para os alunos,


seja pela análise que suscita, seja pelo olhar crítico sobre o urbano que provoca,
é a linha comumente adotada na disciplina, abordando-se basicamente os mesmos
tópicos ou elementos morfológicos do trabalho com loteamentos, muito embora pelo
viés da requalificação urbana.

O aluno é convidado então a responder as seguintes questões: “O que eu posso fazer,


como futuro arquiteto e urbanista, para melhorar a cidade ou trechos da cidade onde
eu vivo? Que aspectos históricos, políticos, sociais e urbanísticos devem ser
considerados na minha proposta? Quais são as questões atuais concernentes à
revitalização ou requalificação urbana? Em que situações são viáveis trabalhar com
uso misto, fachada ativa ou quadra aberta? Como evitar o processo de gentrificação,
muitas vezes resultante das próprias melhorias da paisagem e do lugar?”. Para isto,
há uma série de aulas teóricas que garantem o embasamento necessário a essas
discussões, cujo conteúdo abrange desde o conceito de Desenho Urbano até a crítica
de Jane Jacobs à cidade moderna, a leitura da cidade proposta por Kevin Lynch e a
defesa da quadra aberta por Christian de Portzamparc (2). A prática do Desenho
Urbano deve somar às análises e diagnósticos tradicionais, baseados nos
levantamentos de uso do solo, gabaritos das edificações, estado de conservação dos
imóveis, hierarquia do sistema viário, etc., valores subjetivos da experiência
urbana. Assim como a cidade contemporânea, o Desenho Urbano atual não pode ser
linear e se apoiar em uma ou outra teoria, mas deve buscar soluções projetuais com
princípios que tratem da melhoria da qualidade urbana em suas diversas abrangências:
sociais, econômicas e ambientais. A complexidade das cidades faz com que o exercício
do projeto seja baseado no reconhecimento das frequentes mutações ocorridas na
sociedade de risco onde o projeto não é um desenho final, e sim um veículo para
discussões de novas transformações (3).

A integração com a disciplina de Projeto Arquitetônico ocorre não apenas pela


localização do terreno do Conjunto Habitacional na área de intervenção urbana de
Desenho Urbano, mas também pelas relações intrínsecas entre a requalificação do
espaço urbano e a produção habitacional.

No primeiro semestre de 2015, adotou-se como área objeto da proposta de intervenção,


para a realização das etapas de diagnóstico, elaboração de diretrizes e projeto de
Desenho Urbano, um trecho do bairro da Água Branca, em São Paulo (Brasil),
delimitado pela Avenida Marquês de São Vicente, a rua Comendador Martinelli, a
marginal do rio Tietê e o córrego, a área trabalhada em Projeto VI está inserida
dentro desta área macro, em frente ao córrego – Rua José Nelo Lorenzon. Esse bairro
de origem industrial, ocupado em sua maior parte por antigos e recentes galpões em
lotes de grandes dimensões que formam quadras igualmente amplas – especialmente se
considerado o percurso do pedestre –, com a presença marcante de rios e córregos
atualmente poluídos e que atualmente passa por gradativo processo de transformação
em função da Operação Consorciada Água Branca, ainda apresenta espaços degradados
e habitações deterioradas em situação de alta precariedade, que ratificam a
necessidade de requalificação.
Áreas comuns do o Conjunto Habitacional do Jardim Edite, escritórios MMBB Arquitetos &
H+F Arquitetos
Foto Nelson Kon

Áreas comuns do o Conjunto Habitacional do Jardim Edite, escritórios MMBB Arquitetos &
H+F Arquitetos
Foto Nelson Kon
Desenho dos alunos para as áreas comuns do Conjunto Habitacional do Jardim Edite,
escritórios MMBB Arquitetos & H+F Arquitetos, disciplina Projeto VI, Uninove
Equipe: Amanda de Oliveira Ruiz, Beatriz Vieira, Bianca Maciel Ribeiro Rosa, Bruna
Ribeiro

Dentre os trabalhos apresentados pelos alunos, alguns se limitaram à substituição


das edificações existentes por novas, à atribuição de novos usos aos edifícios
existentes e à criação de um parque linear ao longo do córrego, enquanto outros,
mais complexos, propuseram um novo parcelamento para as quadras e lotes associados
à volumetria edificada promotora do adensamento populacional – aumentando-se o
número de residentes na área – a criação de praças e parques e a previsão de
equipamentos sociais como escolas, creches e bibliotecas junto às áreas
residenciais, além do novo traçado viário, a partir do alargamento de ruas e
calçadas buscando promover diversos meios de circulação, conformando, assim, um
espaço com o qual a população pudesse criar relações de identidade, ou seja, um
bairro com características próprias. Independentemente do grau de complexidade
alcançado pelos alunos, esses projetos revelam a reflexão de estudantes de
arquitetura sobre a cidade e sobre a habitação.

Metodologia e estratégias pedagógicas


A disciplina Projeto Arquitetônico VI tem como objetivo desenvolver a habilidade
projetual do aluno diante do entendimento das condicionantes legislativas,
urbanísticas e sociais do tema da habitação e criar instrumentos para o
desenvolvimento de um projeto habitacional sintonizado com as diretrizes previstas
na intervenção da disciplina de Desenho Urbano, qualificando os espaços de transição
entre áreas de caráter público, semipúblico (quadra aberta) e privado da unidade
habitacional.

Para atingir os objetivos propostos, foram desenvolvidas a apresentação de conteúdo


histórico e referencial e atividades práticas, divididas nos seguintes momentos:

1. Aulas teóricas com conteúdo histórico e referências de projetos habitacionais


internacionais e nacionais e apresentação dos conteúdos da disciplina com todas as
condicionantes do exercício de projeto arquitetônico, tais como localização do
terreno e sua relação com a área de intervenção da disciplina de Desenho Urbano,
número de unidades habitacionais a serem projetadas, topografia com desnível de no
mínimo 1 metro, tipologias habitacionais e áreas, os usos permitidos (residencial,
comercial e institucional), zoneamento vigente, conjuntos habitacionais existentes
no entorno e condicionantes ambientais em decorrência do córrego existente próximo
ao terreno. Teorias urbanas embasaram a proposta de desenho urbano, apresentando-
se criticamente as premissas projetuais de renovações urbanas, planejamento de
bairros e cidades novas.

2. Visita ao local de intervenção pelos alunos, para o reconhecimento da área e


apropriação das condicionantes apresentadas em sala de aula. Visitas monitoradas
nos conjuntos habitacionais Jardim Edite e Heliópolis Gleba G, selecionados como
principais referências projetuais para este semestre. Através das visitas
monitoradas foi possível identificar as áreas comuns e unidades habitacionais nas
suas diferentes tipologias (4). Após a visita, os alunos, divididos em grupos,
apresentaram em sala de aula os pontos positivos e negativos relacionados aos
conjuntos habitacionais visitados, desde a implantação, passando pelas áreas comuns
até as unidades habitacionais. Na relação conjuntos habitacionais/ entorno, os
alunos identificaram as relações com o sistema viário e a ocupação existente
relacionada à paisagem urbana, dando suporte para o diagnóstico e diretrizes
urbanísticas.

Conjunto Habitacional Heliópolis Gleba G, São Paulo, escritório Biselli & Katchborian
Arquitetos
Foto Nelson Kon
Áreas comuns do Conjunto Habitacional Heliópolis Gleba G, São Paulo, escritório Biselli
& Katchborian Arquitetos
Foto Nelson Kon

Desenho dos alunos de pérgola e praça externa para as áreas comuns no Conjunto
Habitacional Heliópolis Gleba G, São Paulo, escritório Biselli & Katchborian Arquitetos,
disciplina Projeto VI, Uninove
Equipe: Bianca Barbosa dos Santos, Diana Midori Makabe, Fabio Passos, José Rodolfo
Oliveir

3. Como continuidade do processo avaliativo, antes da entrega do projeto individual


final, para uma maior apropriação das referências, foi sugerido que os grupos
desenvolvessem intervenções pontuais nos conjuntos habitacionais visitados,
incorporando uma proposta interna a unidade habitacional e outra externa,
contemplando implantação, layout das áreas externas ou aspectos estéticos (fachada
e materiais construtivos). Os grupos apresentaram propostas para o conjunto
habitacional Jardim Edite, em que foi identificada a falta de equipamentos de lazer
em áreas comuns ociosas. Assim, propuseram intervenções paisagísticas com a
instalação de mobiliários, para melhorar o convívio e utilização do local pelos
moradores. Foram propostas também modificações no layout das unidades
habitacionais. No conjunto habitacional Heliópolis, os alunos também sugeriram
intervenções nas áreas comuns através da implantação de áreas para descanso e estar
no pátio de uso comum com mobiliário, no interior do conjunto. Na área externa foi
proposta uma praça na frente principal e, na parte de uso comercial no térreo do
conjunto habitacional, foi indicado o alargamento da via existente para pedestres
e automóveis, buscando melhorar a integração e convívio dos moradores com os
transeuntes.

4. A partir da apropriação das questões levantadas nas escalas de projeto


arquitetônico e desenho urbano, o aluno iniciou o desenvolvimento do projeto
habitacional de forma individualizada, elaborado com o apoio dos professores
através de atendimentos em sala de aula ao longo do semestre. A entrega do projeto
arquitetônico foi divida em três momentos: Primeira etapa: pré-entrega
(implantação, definição do pavimento tipo, corte esquemático com a volumetria do
entorno); Segunda etapa: entrega do projeto preliminar completo; e Terceira etapa:
maquete volumétrica com a apresentação do pavimento tipo desmontável, para melhor
visualização das unidades habitacionais e circulação vertical e horizontal. As
avaliações pautaram-se em questões estéticas como fachada e composição volumétrica,
materiais aplicados, estruturação e tratamento do espaço aberto, e a relação com a
volumetria do entorno adjacente e a correlação com as diretrizes da disciplina
Desenho Urbano. Com aspectos urbanísticos identificados os alunos propuseram
soluções de espaços semipúblicos em quadras abertas com calçadões, ciclofaixas,
ciclovias, usos mistos e adensamento construtivo para diferentes faixas de renda.

Propostas elaboradas para a Disciplina de Projeto VI, maquete


Foto divulgação

Resultados obtidos e Conclusão


A experiência pedagógica apresentada neste artigo traz inovações significativas
que podem ser referências para outras disciplinas similares em que o mote seja a
habitação social.

Uma das inovações introduzidas no primeiro semestre de 2015 tinha como objetivo a
familiarização por parte dos alunos com as questões de habitação. Além de vivenciar
o local do projeto, em visitação in loco, algumas referências de projeto tinham
sido implantadas. Ao adentrarem as áreas comuns de edifícios executados, os alunos
já percebiam a tridimensionalidade do espaço e entendiam pessoalmente a relação
dos novos moradores com o ambiente de moradia por meio de depoimentos legítimos.
Os estudantes assimilaram os ganhos de qualidade de vida e as alterações no
cotidiano dos moradores devido à qualidade das habitações do edifício condominial,
em contraponto à precariedade habitacional anterior.
Ao propor alternativas de modificação ao espaço existente, uma na unidade
habitacional e outras nas demais áreas do conjunto, os estudantes puderam
compreender a importância da integração entre esses espaços, naturalmente. O
estabelecimento de relações entre o existente e as proposições em projeto se
apresentou como a etapa mais preciosa e marcante do processo projetual.

Outro avanço, comparado aos semestres anteriores de condução da disciplina, foi a


proposta da maquete ao final do processo. No dia da verificação dos modelos físicos,
após a avaliação dos professores, foi possível realizar uma dinâmica onde aspectos
de projeto puderam ser recuperados, demonstrados e discutidos em três dimensões,
utilizando a produção dos próprios alunos. O trabalho com as fachadas, composição
volumétrica entre os blocos dentro do projeto e a relação com a volumetria do
entorno adjacente tiveram suas relações explicitadas, sem deixar dúvidas das
qualidades e problemas. Um problema recorrente identificado foi a dificuldade em
estabelecer a melhor relação entre a distância entre os edifícios e altura das
edificações, trabalhada principalmente na implantação. Altas torres ou blocos
laminares como solução para dispor as unidades habitacionais tiveram suas
implantações facilmente questionados por conta da falta de distanciamento
horizontal. Alguns ajustes e testes no início do processo de projetação, que
solicitava a simulação da volumetria apenas com papel dobrado, controlando-se o
perímetro imaginado, a altura e o posicionamento do conjunto no lote.

Como condicionante de projeto, as questões de topografia foram introduzidas, e os


alunos deveriam utilizar um desnível construído entre 1,0m a 4,0m dentro do lote.
O que parecia uma limitação foi muito útil para demarcar separações a partir da
área pública e da semipública em relação à área mais privativa dos moradores,
adotando-se em muitos casos como solução a quadra aberta. As unidades localizadas
no térreo, ou áreas de lazer infantil puderam também receber maior privacidade em
relação fluxo de pedestres na área pública.

A presença de um córrego à leste do lote permitiu exercitar a compreensão sobre as


questões urbano-ambientais e as soluções para estabelecer relações espaciais e de
projeto no espaço não edificado, mantendo-se a permeabilidade do solo e interferindo
o mínimo na retirada de vegetação. A proposição de trilhas ao longo do córrego ou
mesmo o uso de deques de madeira com apoios de palafitas no solo para ambientes de
estar nas margens foram soluções adotadas em muitos projetos, superando as práticas
bastante difundidas como a canalização e o tamponamento de córregos, ainda hoje
muito utilizadas em áreas com situações urbanísticas semelhantes.

A estratégia de intervir nos conjuntos habitacionais existentes pelos grupos de


alunos trouxe um melhor reconhecimento da escala projetual. A apropriação da
problemática, através das visitas e reconhecimento da área de intervenção
contribuiu para o desenvolvimento do projeto habitacional individual e aproximou a
teoria da prática projetual. O resultado das intervenções propostas pelos alunos
nos conjuntos Jardim Edite e Heliópolis será apresentada aos moradores, com o
objetivo de aprimorar a leitura da realidade e de contribuir para uma vivência que
extrapola as condições teóricas aplicadas em sala de aula.

notas
NA – Artigo apresentado no 2° Encuentro “La formación universitária y La dimensión
social del profesional” a 46 años del Taller Total, Universidad Nacional de Córdoba, 31
de Agosto, 1 y 2 de setiembre de 2016.
NE – Sob a coordenação editorial de Abilio Guerra (editor do portal Vitruvius), esta
edição especial da revista Arquitextos sobre Ensino de Arquitetura e Urbanismo contém
textos selecionados dos artigos apresentados em dois eventos ocorridos na Universidade
Nacional de Córdoba, na cidade de Córdoba, Argentina: 1° Encuentro “La formación
universitária y la dimensión social del profesional” a 45 años del Taller Total (2, 3
e 4 de setembro de 2015; eixos temáticos: 1. O ensino da arquitetura. 2. O primeiro ano
universitário: expectativas, conquistas e frustrações. 3.A formação universitária e o
compromisso com os problemas sociais, políticos, econômicos e culturais da região);
2° Encuentro “La formación universitária y la dimensión social del profesional” a 46
años del Taller Total (31 de agosto, 1 e 2 de setembro de 2016; eixos temáticos: 1.
Hábitat, cidadania e participação. 2. A formação universitária e o compromisso com os
problemas sociais,políticos, econômicos e culturais da região. 3. O papel do estudante
universitário no seu processo de formação professional e cidadã). Em ambos os encontros
o processo de avaliação dos artigos foi realizado por pareceristas, membros da comissão
cientifica, especialistas na área de submissão, pelo sistema duplo cego, para garantir
o anonimato e sigilo tanto do(s) autor(es) como dos pareceristas. Os eventos tiveram
como objetivos a reflexão, debate e a recuperação da memória do Taller Total, experiência
que se desenvolveu na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, da Universidade Nacional
de Córdoba, FAU UNC, entre os anos 1970 e 1975. Avançou-se na discussão sobre o papel
social do profissional universitário e suas capacidades para analisar integralmente e
contribuir à solução dos problemas sociais locais e regionais que a presente realidade
demanda. Dentre os eixos temáticos correspondentes aos dois encontros, se realizou um
processo de seleção dos artigos referentes ao tema Ensino de Arquitetura e Urbanismo
que resultou nos textos presentes na edição de Arquitextos. Foram responsáveis por esta
seleção, Sylvia Adriana Dobry e Nora Zoila Lamfri (participantes do Comité Organizador
e Cientifico de ambos encontros). Considerou se importante dar um panorama do assunto
em vários países da América Latina privilegiando critérios de qualidade e pertinência
ao tema. Para tanto, selecionaram-se artigos de autores provenientes de Argentina,
Brasil e México, que foram convidados a adequá-los às normas da revista; os que
responderam à solicitação são os seguintes artigos que formam o número especial de
Arquitextos sobre os 1° e 2° Encuentro “La formación universitária y La dimensión social
del profesional” a 45 y 46 años del Taller Total/ 2015 e 2016:
DOBRY, Sylvia Adriana; LAMFRI, Nora Zoila. Ateliê Total, um olhar desde o século
21. Arquitextos, São Paulo, ano 18, n. 210.00, Vitruvius, nov. 2017
<www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/18.210/6790>.
GOROSTIDI , Roberto Enrique; RISSO, Marta Teresa. Formación y docencia en la Universidad
de hoy. Desafíos y Realidades. Arquitextos, São Paulo, ano 18, n. 210.01, Vitruvius,
nov. 2017 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/18.210/6791>.
SANCHES, Débora. ArquiCriança: estudo a partir das crianças moradoras de cortiços e
pensões em São Paulo. Arquitextos, São Paulo, ano 18, n. 210.02, Vitruvius, nov. 2017
<www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/18.210/6792>.
GIRÓ, Marta; FRANCO, Rafael; PELLI María Bernabela; PACE, Elizabeth; CAMPOS, Mariana;
DEPETTRIS, Noel; OLMEDO, Rosario; PONCIO, Diego. La Cátedra Gestión y Desarrollo de la
Vivienda Popular. Arquitextos, São Paulo, ano 18, n. 210.03, Vitruvius, nov. 2017
<www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/18.210/6793>.
PORTER, Luis; MIGLIOLI,Viviana. La enseñanza de la arquitectura hoy, las limitaciones
del modelo de taller de proyecto y alternativas posibles.Arquitextos, São Paulo, ano
18, n. 210.04, Vitruvius, nov. 2017
< www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/18.210/6794>.
PEDRO, Beatriz. Formación para el proyectar con la comunidad en la producción social
del hábitat – Articulación de saberes populares y disciplinares. Arquitextos, São Paulo,
ano 18, n. 210.05, Vitruvius, nov. 2017
<www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/18.210/6795>.
ARANTES, Pedro Fiori; SANTOS JÚNIOR, Wilson Ribeiro dos; LEITE, Maria Amélia Devitte
Ferreira D’Azevedo. Um projeto de práticas pedagógicas transformadoras. A formação do
arquiteto e urbanista no Instituto das Cidades da Unifesp na Zona Leste de São
Paulo. Arquitextos, São Paulo, ano 18, n. 210.06, Vitruvius, nov. 2017
<www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/18.210/6803>.
CARVALHO, Maria Albertina Jorge. A experiência do laboratório de arquitetura e urbanismo
e seus desdobramentos como atividade de extensão universitária. Arquitextos, São Paulo,
ano 18, n. 210.07, Vitruvius, nov. 2017
<www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/18.210/6804>.
TEIXEIRA, Catharina Christina; et. al. A questão da habitação social no ensino de
projeto integrado ao desenho urbano. Arquitextos, São Paulo, ano 18, n. 210.08,
Vitruvius, dez. 2017 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/18.210/6818>.
1
SP-URBANISMO. Operação Urbana Consorciada Água Branca
<www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/urbanismo/sp_urbanismo/operacoes_urbanas/
agua_branca/index.php?p=19589>.
2
JACOBS, Jane. Morte e vida de grandes cidades. São Paulo, WMF Martins Fontes, 2000;
LYNCH, Kevin. A imagem da cidade. São Paulo, Martins Fontes, 1997; PORTZAMPARC,
Christian de. A terceira era da cidade. Óculum, São Paulo, n .9, FAU PUC-Campinas, 1997.
3
COPANS, Rose. Intervenções de recuperação de zonas urbans centrais: experiências
nacionais e internacionais. DiverCidade, n. 2, Centro de Estudos da Metrópole, jul./set.
2004. Disponível em: <http://cebrap.org.br/wp-content/uploads/2017/03/08Rose-
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4
PALLAMIN, Vera M. Sobre o ensino e aprendizagem de arquitetura e urbanismo: as lições
de o mestre ignorante. Caderno Pós USP, n. 22, São Paulo, USP, 2008, p. 52-60
<www.revistas.usp.br/posfau/article/view/43531/47153>.
sobre os autores
Catharina Cristina Teixeira é doutoranda do IAU USP São Carlos, Mestre em Habitação
pelo IPT/SP (2006), arquiteta pela Universidade Católica de Santos (1988), professora
da Universidade Nove de Julho desde 2012 e arquiteta responsável da Assessoria Técnica
Brasil Habitat.

Denise Falcão Pessoa é doutora pela FAU USP (2003), mestre em Arquitetura e Planejamento
Urbano pela Universidade de Michigan (1982) e Arquiteta e Urbanista pela Universidade
Mackenzie (1979). Professora do mestrado e da graduação do Centro Universitário Belas
Artes de São Paulo e da Universidade Nove de Julho.

Giselly Barros Rodrigues é doutoranda em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade


Presbiteriana Mackenzie. Mestre em Habitação pelo IPT/SP. Arquiteta e Urbanista pela
Universidade Anhembi Morumbi. Professora da Universidade Nove de Julho e Universidade
Estácio de Sá. Arquiteta do escritório GBARQ.

Mariana Cicuto Barros é doutoranda na UFABC, Mestre pelo IAU USP (2011), Arquiteta e
Urbanista pela Belas Artes (2003). Arquiteta na Assessoria Técnica Brasil Habitat entre
2004/2014. Professora na Universidade Nove de Julho.

Rogerio Akamine é pós-doutorado pela FAU USP (2010). Doutor em Architectural Engineering
pela Osaka University (2004). Mestre (1998) e graduado em Arquitetura e Urbanismo pela
FAUUSP (1992). Professor da Universidade Nove de Julho e Universidade São Judas Tadeu.

Solange de Aragão é pós-doutora em História do Brasil pela FFLCH USP e em História da


Arquitetura pela FAU USP. Doutora, mestre e arquiteta e urbanista pela FAU USP.
Professora na Universidade Nove de Julho.

Vinícius Luz de Lima é mestre em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Presbiteriana


Mackenzie (2011), especialista em Saúde Ambiental e especialista em Ensino Superior
pelo IFSP (2017), arquiteto e urbanista pela Universidade Presbiteriana Mackenzie
(2005). Professor da Universidade Nove de Julho e Arquiteto e Urbanista da Prefeitura
Municipal de São Paulo.