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N o r b e r t Kl ias

A S o l i d ã o d o s M o r ib u n d o s
s e g u i d o tie

En ve I hcc e r c M o r re r

T n u lu c*ã o :
Plínio Denczien

ZAHAR
Rio de Janeiro
Título original:
Ober die Einsamkeit der Sterbenden

C o p y rig h t ^ 1982, N o r b e r t Elias

C o p y rig h t <0 1^85 d o Posfáeio à cd. ing., N o r b e r t Elias

C o p y rig h t da edição c m língua p o r tu g u e s a 2001:


Jorge Zahar Hditor Ltdn.
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Capa: Sérgio Campante


Ilustração da capa: Leonardo da Vinci,
Estudos A natôm icos

Cl P-Brasil. Catalogação-na-fonte
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ

Elias, Norbert, 1897-1990


E41s A solidão dos moribundos, seguido de, Envelhecer e morrer /
Norbert Elias; tradução, Plínio D entzien.— Rio de Janeiro: Jorge
Zahar Ed., 2001.

Tradução de: Über die Einsamkeit der Sterbenden


ISBN 978-85-7110-616-1

1. M orte - Aspectos sociais. 2. Envelhecimento. I. Título. II.


Título: Envelhecer e morrer.

CDD: 306
0 1 -1 0 4 9 CDU: 393
Su m ário

A solidão dos moribundos 7

Envelhecer e morrer:
alguns problemas sociológicos

índice remissivo 105


O texto principal deste livro foi p u blicado pela primeira vez em
a lem ã o em 1 9 8 2 . <%
Envelhecer e m o rrer” é um a versão revista de
u m a conferência apresentada c m u m congresso m éd ico em Bad
Salzufen em o u tu b r o d e 1983.
Há várias maneiras de lidar com o fato de que todas as
vidas, incluídas as das pessoas que amamos, têm um fim.
O fim da vida humana, que chamamos de morte, pode ser
mitologizado pela idéia de uma outra vida no Hades ou
no Valhalla, no Inferno ou no Paraíso. Essa é a forma mais
antiga e comum de os humanos enfrentarem a finitude da
vida. Podemos tentar evitar a idéia da morte afastando-a
de nós tanto quanto possível — encobrindo e reprimindo
a idéia indesejada — ou assumindo uma crença inabalá­
vel em nossa própria imortalidade — “os outros morrem,
eu não”. Há uma forte tendência nesse sentido nas socie­
dades avançadas de nossos dias. Finalmente, podemos
encarar a morte como um fato de nossa existência; pode­
mos ajustar nossas vidas, e particularmente nosso com­
portamento em relação às outras pessoas, à duração limi­
tada de cada vida. Podemos considerar parte de nossa
tarefa fazer com que o fim, a despedida dos seíes huma­
nos, quando chegar, seja tão fácil e agradável quanto pos­
sível para os outros e para nós mesmos; e podemos nos
8 N o rb ert Elias

colocar o problem a de com o realizar essa tarefa. Atual­


mente, essa é u m a pergunta que só é feita de maneira
clara p o r alguns médicos — no debate mais am plo da
sociedade, a questão raram ente se coloca.
E isso não é só um a questão do fim efetivo da vida, do
atestado de óbito e do caixão. Muitas pessoas morrem
gradualmente; adoecem, envelhecem. As últimas horas
são im portantes, é claro. Mas muitas vezes a partida co­
meça m uito antes. A fragilidade dessas pessoas é muitas
vezes suficiente para separar os que envelhecem dos vi­
vos. Sua decadência as isola. Podem tornar-se menos so­
ciáveis e seus sentim entos menos calorosos, sem que se
extinga sua necessidade dos outros. Isso é o mais difícil —
o isolamento tácito dos velhos e dos m oribu nd os da co­
m unidade dos vivos, o gradual esfriamento de suas rela­
ções com pessoas a que eram afeiçoados, a separação em
relação aos seres hum anos em geral, tudo que lhes dava
sentido e segurança. Os anos de decadência são penosos
não só para os que sofrem, mas tam bém para os que são
Heixados sós. O fato de que, sem que haja especial inten-
^ •*

ção, o isolam ento precoce dos m oribundos ocorra com


mais freqüência nas sociedades mais avançadas é um a das
fraquezas dêssãs^ociedades. É um testem unho das difi­
culdades que m uitas pessoas têm em identificar-se com
os velhos e m oribundos.
Sem dúvida, o espaço de identificação é mais amplo
que em outras épocas. Não mais consideramos um entre­
tenim ento de dom ing o assistir a enforcamentos, esquar-
tejamentos e suplícios na roda. Assistimos ao futebol, e
A solidão dos m orib undos 9

não aos gladiadores na arena. Se com parados aos da An­


tigüidade, nossa identificação com outras pessoas e nosso
co m p artilham ento de seus sofrim entos e m o rte au m en ­
taram . Assistir a tigres e leões famintos devorando pes­
soas vivas pedaço a pedaço, ou a gladiadores, p o r astúcia
e engano, m u tu am en te se ferindo e m atando, dificilmen­
te constituiria u m a diversão para a qual nos prepararía­
m os com o m esm o prazer que os senadores o u o povo
rom ano. Tudo indica que n e n h u m sen tim en to de identi­
dade unia esses espectadores e aqueles que, na arena, luta­
vam p o r suas vidas. C om o sabemos, os gladiadores sau­
davam o im perador ao entrar com as palavras “Morituri
te salutant” (Os que vão m orrer te saúdam ). Alguns dos
im p erad o res sem dúvida se acreditavam imortais. De
to d o m odo, teria sido mais apropriado se os gladiadores
dissessem “M orituri moriturum salutant” (Os que vão
m o rrer saúdam aquele que vai m orrer). Porém, num a
sociedade em que tivesse sido possível dizer isso, prova­
velmente não haveria gladiadores ou im peradores. A pos­
sibilidade de se dizer isso aos dom inadores — alguns dos
quais m esm o hoje têm poder de vida e m o rte sobre um
se m -n ú m e ro de seus semelhantes — requer u m a desmi-
tologização da m o rte mais ampla do que a que temos
hoje, e u m a consciência muito mais clara de que a espé­
cie h u m a n a é u m a c o m u n id a d e de m o rta is e de que as
pessoas necessitadas só podem esperar aju d a de outras
pessoas. O prob lem a social da m o rte é especialm ente
difícil de resolver p o rq u e os vivos ach am difícjJLidenti-
ficar-se com os m oribundos.
10 Norbert Elias

A m orte é um problem a dos vivos. Os m ortos não


têm problemas. Entre as m uitas criaturas que m orrem na
Terra, a m orte constitui um problem a só para os seres
hum anos. Em bora co m p artilh em o nascim ento, a doen­
ça, a juv en tu d e, a m atu rid ad e, a velhice e a m orte com
os anim ais, apenas eles, d en tre todos os vivos, sabem
que m o rrerão ; apenas eles po d em prever seu próprio
fim, estando cientes de que pode ocorrer a qualquer
m o m en to e tom ando precauções especiais — como indi­
víduos e com o grupos — para proteger-se contra a am ea­
ça da aniquilação.
D urante m ilênios essa foi um a função central de
grupos hum anos com o tribos e Estados, perm anecendo
um a função im po rtan te até nossos dias. No entanto,
entre as m aiores ameaças aos hum anos figuram os pró ­
prios hum anos. Em nom e do objetivo de se proteger da
destruição, grupos de pessoas am eaçam outros grupos
de destruição. Desde os prim eiros dias, sociedades for­
m adas p o r seres hum anos exibem as duas faces de Janus:
p a c ific íç ã o ^ a ra dentro, am eaça para fora. Também em
outras espécies a im portância da sobrevivência das so­
ciedades en controu expressão na form ação de grupos e
na adaptação dos indivíduos à vida com um como uma
característica de sua existência. Mas, nesse caso, a adap­
tação à vida do grupo se baseia em form as geneticam en­
te predeterm inadas de conduta ou, na m elhor das hi­
póteses, lim ita-se a pequenas variações aprendidas que
alteram o com portam ento inato. No caso dos seres h u ­
m anos, o equilíbrio entre a adaptação aprendida e a não
A solidão dos m oribundos 11

aprendida à vida em g ru p o foi revertido. Disposições


inatas a um a vida com os o utros requerem sua ativação
pelo aprendizado — a disposição de falar, por exemplo,
pelo aprendizado de um a língua. Os seres h um anos não
só podem , com o devem ap ren d er a regular sua conduta
uns em relação aos outros em term os de lim itações ou
regras específicas à com unidade. Sem aprendizado, não
são capazes de funcionar com o indivíduos e m em bros
do grupo. Em n en h u m a o u tra espécie essa sintonia com
a vida coletiva teve tão p ro fu n d a influência sobre a
form a e desenvolvim ento do indivíduo com o na espécie
hum ana. Não só m eios de com unicação ou padrões de
coerção podem diferir de sociedade para sociedade, mas
tam bém a experiência da m orte. Ela é variável e espe­
cífica segundo os grupos; não im p orta quão natural e
im utável possa parecer aos m em bros de cada sociedade
particular: foi aprendida.
Na verdade não é a m orte, mas o conhecim ento da
m orte que cria problem as para os seres hum anos. Não
devemos nos enganar: a m osca presa entre os dedos de
um a pessoa luta tão convulsivam ente quanto um ser h u ­
m ano entre as garras de um assassino, com o se soubesse
do perigo que corre. Mas os m ovim entos defensivos da
mosca quando em perigo m ortal são um dom não apren­
dido de sua espécie. Uma m ãe macaca pode carregar sua
cria m orta durante certo tem po antes de largá-la em al­
gum lugar e perdê-la. Nada sabe da m orte, da de sua cria
ou de sua própria. Os seres hum anos sabem, e assim a
m orte se to rn a um problem a para eles.
12 Norbert Elias

A resposta à pergunta sobre a natureza da m orte m uda no


curso do desenvolvim ento social, correspondendo a está­
gios. Em cada estágio, tam bém é específica segundo os
grupos. Idéias da m orte e os rituais correspondentes to r­
nam -se um aspecto da socialização. Idéias e ritos com uns
unem pessoas; no caso de serem divergentes, separam
grupos. Seria interessante fazer um levantam ento de to ­
das as crenças que as pessoas m antiveram ao longo dos
séculos para habituar-se ao problem a da m orte e sua
am eaça incessante a suas vidas; e ao m esm o tem po m os­
trar tudo o que fizeram umas às outras em nom e de uma
crença que prom etia que a m orte não era um fim e que os
rituais adequados poderiam assegurar-lhes a vida eterna.
Claram ente não há um a noção, p o r m ais bizarra que seja,
na qual as pessoas não estejam preparadas para acreditar
com devoção profunda, desde que lhes dê um alívio da
consciência de que um dia não existirão mais, desde que
lhes dê esperança num a form a de vida eterna.
Sem dúvida, nas sociedades avançadas os grupos não
insistem m ais tãc^ajpaixoniHãmente em que apenas sua
crença sobrenatural e seus rituais podem garantir a seus
m em bros um a vida eterna depois da vida terrena. Na
Idade M édia, os indivíduos com crenças m inoritárias
eram m uitas vezes perseguidos a ferro e fogo. N um a cru­
zada contra os albigenses no sul da França no século XIII,
um a com unidade mais forte de crentes destruiu outra
mais fraca. Os m em bros desta foram estigmatizados, ex­
A solidão dos moribundos 13

pulsos de seus lares e queim ados às centenas. “Com ale­


gria em nossos corações presenciam os sua m orte no
fogo” disse um dos vencedores. N enhum sentim ento de
identidade entre h u m an o s e hum anos; crença e ritual os
separavam. Com expulsão, prisão, tortura e fogueira, a
Inquisição reforçava a cam panha dos cruzados contra
povos de crenças diferentes. As guerras religiosas do iní­
cio da era m oderna são bem conhecidas. Suas conseqüên­
cias são sentidas ainda hoje, por exemplo na Irlanda. A
recente luta entre sacerdotes e governantes seculares no
Irã tam bém nos lem bra a apaixonada ferocidade do sen­
tim ento com unitário e a inim izade que sistemas de cren­
ças sobrenaturais foram capazes de desencadear em so­
ciedades medievais, p orque p ropunham a redenção da
m orte e a vida eterna.
Nas sociedades m ais desenvolvidas, com o disse, a
busca de ajuda em sistem as de crenças sobrenaturais con­
tra o perigo e a m orte se to rn o u m enos apaixonada; em
certa m edida, transferiu sua base para sistemas seculares
de crenças. A necessidade de garantias contra nossa p ró ­
pria transitoriedade d im in u iu perceptivelm ente em sécu­
los recentes, p o r contraste com a Idade Média, refletindo
um estágio diferente da civilização. Nos Estados-nação
mais desenvolvidos, a segurança das p e sso a v su a p ro te­
ção contra os golpes m ais brutais do destino com o a
doença ou a m orte repentina, é m uito m aior que an te­
riorm ente, e talvez m aior que em qualquer outro estágio
dò desenvolvim ento da hum anidade. C om parada com
estágios anteriores, a j/id a nêssas sociedades se tornou
14 Norbert Elias

mais previsível, ainda que exigindo de cada indivíduo um


grau mais elevado de antecipação e controle das paixões.
A expectativa de yida relativamente alta dos indivíduos
nessas sociedades é um reflexo do aum ento d ^ segurança.
Entre os cavaleiros do século XIII, um hom em de quarenta
anos era visto quase com o um velho; nas sociedades in­
dustriais do século XX, ele é considerado quase jovem —
com diferenças específicas de classe. A prevenção e o tra ­
tam ento de doenças hoje estão mais bem organizados
que nunca, p o r mais inadequados que ainda sejam. A
pacificação interna da sociedade, a proteção do indivíduo
contra a violência não sancionada pelo Estado, como
contra a fome, atingiu um nível inimaginável pelos povos
de outros tem pos.
É claro que, vista mais de perto, a situação revela
quão tênue ainda é a segurança do indivíduo neste m un­
do. E a tendência à guerra traz um a am eaça constante às
vidas dos indivíduos. Só a p artir de um a perspectiva de
longa duração, pela cojmparação com épocas passadas,
percebem os quanto aum entou nossa segurança contra os
perigos físicos imprevisíveis e as ameaças im ponderáveis
à nossa existência. Parece que a adesão a crenças no outro

pes do destino, e acima de tudo contra a transitoriedade


pessoal, é mais ajjaixonada naquelas classes e grugos cu­
jas vidas são mais incertas e menos controláveis. Mas, em
term os gerais, nas sociedades desenvolvidas os perigos
que am eaçam as pessoas, particularm ente o da m orte, são
mais previsíveis, ao mesmo tem po em que dim inui a ne-
A solidão dos m oribundos 15

cessidade de poderes protetores su pra-hum anos. Não há


dúvida de que, com o au m en to da incerteza social e com
a dim inuição da capacidade de as pessoas anteciparem e
— até certo ponto — controlarem seus próprios destinos
por longos períodos, essas necessidades se tornariam ou­
tra vez mais fortes.
/ A atitude em relação à m o rte e a im agem da m orte í
I em nossas sociedades não po d em ser com pletam ente en-
I tendidas sem referência a essa segurança relativa e à pre-
\ visibilidade da vida individual — e à expectativa de vida
j correspondentem ente m aior. A vida é mais longa, a m or-\
I
te é adiada. O espetáculo da m o rte não é mais corriquei-
j ro. Ficou mais fácil esquecer a m o rte no curso norm al da
j vida. Diz-se às vezes que a m o rte é “recalcada”. Um fabri-
/ cante de caixões n o rte-am erican o observou recentemen-
I te: “A atitude atual em relação à m orte deixa o planeja-
| m ento do funeral, se tanto, para m uito tàrde na vida.”1 \

Se hoje se diz que a m orte é “recalcada” parece-m e que o


term o é utilizado num duplo sentido. Pode tratar-se de
um “recalcam ento” tanto no plano individual com o no
social. No prim eiro caso, o term o é utilizado no mesmo
sentido de Freud. Refere-se a todo um grupo de mecanis-

1 B. Deborah Frazier, “Your coffin as furniture — for now” Inter­


national Herald Tribune, 2 out 1979.
16 Norbert Elias

mos psicológicos de defesa socialm ente instilados pelos


quais experiências de infância excessivamente dolorosas,
sobretudo conflitos na prim eira infância e a culpa e a
angústia a eles associadas, bloqueiam o acesso à m emória.
De m aneiras indiretas e disfarçadas, influenciam os senti­
m entos e o com portam ento da pessoa; mas desaparece­
ram da m em ória.
Experiências e fantasias da prim eira infância tam ­
bém desem penham papel considerável na m aneira como
as pessoas enfrentam o conhecim ento de sua m orte pró­
xima. Algumas podem olhar para sua m orte com sereni­
dade, outras com um m edo intenso e constante, muitas
vezes sem expressá-lo e até m esm o sem capacidade de
expressá-lo. Talvez estejam conscientes dele apenas como
do m edo de voar ou de espaços abertos. U m a m aneira
familiar de to rn a r suportáveis as angústias infantis sem
ter que enfrentá-las é im aginar-se im ortal. Isso assume
m uitas formas. C onheço pessoas que não são capazes de
envolver-se com m oribundos porque suas fantasias com ­
pensatórias de im ortalidade, que m antêm sob controle
seus terríveis m edos infantis, seriam perigosam ente aba­
ladas pela proxim idade deles. Esse abalo poderia perm itir
que seu grande m edo da m orte — da punição — pene­
trasse sua consciência, o que seria insuportável.
Aqui encontram os, sob form a extrema, u m dos pro ­
blemas mais gerais de nossa época — nossa incapacidade
ie dar aos m oribundos a ajuda e afeição de que mais que
lunca precisam quando se despedem dos outros homens,
exatamente porque a m orte do outro é um a lem brança de
A solidão dos m oribundos 17

nossa p ró p ria m orte. A visão de um a pessoa m oribunda


abala as fantasias defensivas que as pessoas constroem
com o um a m uralha contra a idéia de sua p rópria m orte.
O am o r de si sussurra que elas são im ortais: o contato
m u ito próxim o com m o rib u n d o s am eaça o sonho aca­
lentado. Por trás da necessidade opressiva de acreditar em
nossa própria im ortalidade, negando assim o conheci­
m en to prévio de nossa própria m orte, estão fortes senti­
m entos de culpa recalcados, talvez ligados a desejos de
m o rte em relação ao pai, à m ãe e aos irm ãos, com o tem or
de desejos análogos da parte deles. Nesse caso, a única
fuga possível da culpa-angústia em to rn o do desejo de
m o rte (especialm ente quando dirigido a m em bros da fa­
mília) e da idéia da vingança deles (o m edo da punição
p o r nossa culpa) é um a crença p articularm ente forte em
nossa própria im ortalidade, ainda que possam os estar
parcialm ente cientes da fragilidade dessa crença.
A associação do m edo da m o rte a sentim entos de
culpa pode ser encontrada em m itos antigos. No paraíso,
Adão e Eva eram im ortais. Deus os condenou a m orrer
porque Adão, o hom em , violou o m andam ento do pai
divino. O sentim ento de que a m orte é um a punição
im posta a m ulheres e hom ens pela figura do pai ou da
mãe, o u de que depois da m orte serão punidos pelo gran­
de pai p o r seus pecados, tam bém desem penhou papel
considerável no medo hum ano d a m orte por um iongo
tem po. Seria certam ente possível to rn a r a m orte mais
fácil para algumas pessoas se fantasias de culpa desse tipo
pudessem ser atenuadas ou suprim idas.
18 Norbert Elias

Esses problem as individuais do recalcam ento da


idéia da m orte andam de m ãos dadas com problem as
sociais específicos. Nesse plano, o conceito de recalca­
m ento tem um sentido diferente. No entanto, a peculiari­
dade do com portam ento em relação à m orte que prevale­
ce hoje na sociedade só é percebida se com parada à de
épocas anteriores ou de outras sociedades. Só então se
poderá situar a m udança de com portam ento em um q ua­
dro teórico mais am plo, tornando-a assim acessível à ex­
plicação. Form ulando a questão diretam ente, a m udança
de com portam ento social referida ao falarmos do “recal­
cam ento” da m orte nesse sentido é um aspecto do im pul­
so civilizador mais am plo que examinei com mais deta­
lhes em ou tro lugar.2 Em seu curso, todos os aspectos
elem entares e anim ais da vida hum ana, que quase sem
exceção significam perigo para a vida com unitária e para
o próprio indivíduo, são regulados de m aneira mais equi­
librada, mais inescapável e mais diferenciada que antes
pelas regras sociais e tam bém pela consciência. De acordo
com as novas relações de poder, associam-se a sentim en­
tos de vergonha, repugnância ou em baraço e, em certos
casos, especialmente durante o grande im pulso europeu
de civilização, são banidos para os bastidores o u pelo
menos rem ovidos da vida social pública. A m udança de
longa duração no com portam ento das pessoas em rela­

l N. Elias, O processo civilizador, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2 vols.,


1990 e 1993.
A solidão dos moribundos 19

ção aos m oribundos segue a m esm a direção. A m orte é


um dos grandes perigos biossociais na vida hum ana.
C om o outros aspectos animais, a m orte, tanto com o p ro ­
cesso quanto com o imagem m nem ónica, é em purrada
mais e mais para os bastidores da vida social duran te o
im pulso civilizador. Para os próprios m oribundos, isso
significa que eles tam bém são em purrados para os basti­
dores, são isolados.

Philippe Ariès, em seu instigante e bem docum entado


História da morte no Ocidente, tentou apresentar a seus
leitores um retrato vívido das m udanças no co m p o rta­
m ento e atitudes dos povos ocidentais diante da m orte.
Mas Ariès entende a história puram ente com o descrição.
Acumula im agens e m ais imagens e assim, em am plas
pinceladas, m ostra a m udança total. Isso é bom e estim u­
lante, mas não explica nada. A seleção de fatos de Ariès se
baseia num a opinião preconcebida. Ele tenta transm itir
sua suposição de que antigam ente as pessoas m orriam
serenas e calmas. É só no presente, postula, que as coisas
são diferentes. N um espírito rom ântico, Ariès olha com
desconfiança para o presente inglório em nom e de um
passado melhor. E m bora seu livro seja rico em evidências
históricas, sua seleção e interpretação dessas evidências
deve ser exam inada com m uito cuidado. É difícil concor­
dar com ele quando apresenta os Romans de la Table Ron­
20 Norbert Elias

de, a conduta de Isolda e do Arcebispo Turpin, como


evidência da calma com que os povos medievais espera­
vam pela m orte. Ele não diz que esses épicos medievais
eram idealizações da vida cortesã, imagens seletivas que
m uitas vezes lançam mais luz no que o poeta e seu públi­
co julgavam que deveria ser do que no que realm ente era.
O m esm o se aplica a outras fontes literárias utilizadas por
Ariès. Sua conclusão é característica e m ostra sua parcia­
lidade:

Assim [isto é, calmamente] morreram as pessoas durante


séculos ou m ilênios ... Essa atitude antiga, para a qual a
morte era ao m esm o tem po familiar, próxima e am eniza­
da, indiferente, contrasta com a nossa, em que a morte
provoca tal m edo que não mais tem os coragem de chamá-
la por seu nom e. É por isso que cham o essa m orte familiar
de morte domesticada. Não quero dizer que tenha sido sel­
vagem anteriorm ente.... Quero dizer, ao contrário, que se
tornou selvagem hoje.3

Se com parada à vida nos Estados-nação altam ente


industrializados, a vida nos Estados feudais medievais era
— e é, onde tais Estados ainda existem no presente —
apaixonada, violenta e, portanto, incerta, breve e selva­
gem. M orrer pode significar torm en to e dor. A ntigam en­
te as pessoas tinham m enos possibilidades de aliviar o
torm ento. Nem m esm o hoje a arte da m edicina avançou

3 Philippe Ariès, Studien zur Geschichte des Todes im Abendland,


Munique/Viena, L976, p.25. [Ed. fr.: Histoire de la mort en Occident,
Paris, Seuil, col. Points.)
A solidão dos moribundos 21

o suficiente para assegurar a todos um a m orte sem dor.


Mas avançou o suficiente para perm itir um fim mais pa­
cífico para m uitas pessoas que outrora teriam m o rrido
em terrível agonia.
O certo é que a m orte era tem a mais aberto e fre­
qüente nas conversas na Idade Média do que hoje. A lite­
ratura popular dá testem unho disso. M ortos, ou a M orte
em pessoa, aparecem em m uitos poemas. Em um deles,
três vivos passam por um túm ulo aberto e os m ortos lhes
dizem: “O que vocês são, nós fomos. O que som os, vocês
serão.” Em outro, a Vida e a M orte discutem. A Vida se
queixa de que a M orte está m altratando seus filhos; a
M orte ostenta seu sucesso. Em com paração com o p re­
sente, a m orte naquela época era, para jovens e velhos,
m enos oculta, m ais presente, m ais familiar. Isso não quer
dizer que fosse mais pacífica. Além disso, o nível social do
medo da m orte não foi constante nos m uitos séculos da
Idade Média, tendo se intensificado notavelmente d u ran ­
te o século XIV. As cidades cresceram. A peste se tornou
mais renitente e varria a Europa em grandes ondas. As
pessoas tem iam a m orte ao seu redor. Pregadores e frades
mendicantes reforçavam tal m edo. Em quadros e escritos
surgiu o motivo das danças da m orte, as danças m aca­
bras. Morte pacífica no passado? Q ue perspectiva históri­
ca mais unilateral! Seria interessante com parar o nível
social do m edo em nossos dias, no contexto da poluição
am biental e das arm as atôm icas, com o de estágios ante­
riores da civilização, em que havia m enor pacificação in­
terna e m enor controle de epidem ias e outras doenças.
22 Norbert Elias

O que às vezes reconfortava os m oribundos no


passado era a presença de outras pessoas. Mas isso de­
pendia das atitudes. D isseram -nos4 que Thom as More,
chanceler de H enrique VIII, abraçou seu pai m oribundo
no leito de m orte e o beijou nos lábios — um pai que
ele reverenciou e respeitou p o r toda a vida. Havia casos,
no entanto, em que os herdeiros em volta do leito de
m orte zom bavam e escarneciam do velho m oribundo.
Tudo dependia das pessoas. C onsiderada um estágio de
desenvolvim ento social, a Idade M édia foi um período
excessivamente instável. A violência era com um ; o con­
flito, apaixonado; a guerra, m uitas vezes a regra; e a paz,
exceção. Epidem ias varriam as terras da Eurásia, m ilha­
res m orriam ato rm en tad o s e abandonados sem ajuda
ou conforto. Más colheitas freqüentem ente faziam es­
cassear o pão para os pobres. M ultidões de m endigos e
aleijados eram u m a característica norm al da paisagem
medieval. As pessoas eram capazes tan to de grande gen­
tileza quan to de crueldade bárbara, júbilo pelo to rm en ­
to dos o u tro s e total indiferença em relação a seus
sofrim entos. Os contrastes eram mais m arcados que os
de hoje — entre a satisfação desenfreada dos apetites e
a auto-hum ilhação, o ascetism o e a penitência tam bém
desenfreados sob o peso de um sentido aterrorizante do

4 William Roper, The Life of Sir Thomas More, Londres, 1969. Ver
tam bém m inhas observações críticas sobre a confiabilidade de Roper:
“Thom as M orus Staatskritik”, in Utopieforschung, vol.2, Stuttgart,
Wilhelm Vosskamp, 1982, p .101-50, esp. 137-44.
A solidão dos m oribundos 23

pecado, e tam bém entre o fausto dos senhores e a m i­


séria dos pobres. O m edo da punição depois da m orte
e a angústia em relação à salvação da alm a se apossavam
igualm ente de ricos e de pobres, sem aviso prévio. Com o
garantia, os príncipes sustentavam igrejas e m osteiros;
os pobres rezavam e se arrependiam .
Tanto quan to posso ver, Ariès diz pouco sobre o
m edo do inferno espalhado pela Igreja. Mas há quadros
medievais que m ostram o que, de acordo com as idéias da
época, esperava pelas pessoas depois da m orte. Um exem ­
plo ainda pode ser encontrado num cem itério famoso do
final da Idade Média, em Pisa. Uma figura retrata vivida-
mente os terrores que aguardavam as pessoas depois da
m orte. M ostra os anjos conduzindo as almas salvas para a
vida sem fim no paraíso, e os horríveis dem ônios que
atorm entam os condenados ao inferno. Com tais im a­
gens aterrorizantes diante dos olhos, u m a m orte pacífica
não pode ter sido fácil.
Em resum o, a vida na sociedade medieval era mais
curta; os perigos, m enos controláveis; a m orte, m uitas
vezes mais dolorosa; o sentido da culpa e o m edo da
punição depois da m orte, a d o u trin a oficial. Porém, em
todos os casos, a participação dos outros na m orte de um
indivíduo era m uito mais com um . Hoje sabemos com o
aliviar as dores da m orte em alguns casos; angústias de
culpa são mais plenam ente recalcadas e talvez dom in a­
das. G rupos religiosos são m enos capazes de assegurar
sua dom inação pelo m edo do inferno. Mas o envolvi-
24 Norbert Elias

m ento dos o utros na m orte de um indivíduo dim inuiu.


Com o em relação a outros aspectos do processo civiliza­
dor, não é fácil equilibrar custos e benefícios. Mas o qua­
dro preto e branco pintado com o sentim ento do “bom
i

passado, m au presente” não serve a qualquer propósito. A


questão principal é com o e por que era assim, e por que se
to rn o u diferente. Um a vez certos das respostas a essas
perguntas, estarem os em condições de form ar um juízo
de valor.

No curso de um processo civilizador, m udam os proble­


mas enfrentados pelas pessoas. Mas não m udam de um a
m aneira desestruturada, caótica. Exam inando de perto,
detectam os u m a ordem específica m esm o na sucessão de
problemas sociais hum anos que acom panham o proces-
;o. Esses problem as tam bém têm formas que são específi-
:as de seu estágio particular.
Assim, p o r exem plo, as pessoas se to rn a ram cons-
:ientes das doenças causadas p o r vírus com o um pro-
>lema ind ep en d en te apenas depois de terem obtido su-
:esso na explicação e, até certa m edida, no controle das
;randes infecções por bactérias. O ganho não foi em
rão, pois representou progresso, mas não foi absoluto,
>ois não en cerro u a luta contra os agentes patogênicos.
) m esm o vale para o aum ento da população. O pro-
A solidão dos m oribundos 25

gresso na luta co n tra a doença, p articu larm en te o co n ­


trole das grandes epidem ias, é parcialm ente responsável
p o r esse processo cego, n ão-planejado e perigoso. Que
pensaríam os de alguém que, diante do perigo da explo­
são dem ográfica, ansiasse por um reto rn o ao “bom
passado” com suas restrições m althusianas ao au m en to
da população — peste, guerra, abstinência, fom e e m o r­
te precoce?
N o curso do nítido surto civilizador que teve início
há quatrocentos ou quinhentos anos, as atitudes das pes­
soas em relação à m orte e a própria m aneira de m orrer
sofreram m udanças, jun to com m uitas outras coisas. Os
contornos e a direção dessa m udança são claros. Podem
ser d em o n stra d o s p o r uns poucos exem plos, m esm o
num contexto em que não é possível fazer justiça à com ­
plexa estru tu ra dessa m udança.
Em épocas m ais antigas, m o rrer era um a questão
m uito mais pública do que hoje. E não poderia ser dife­
rente. Prim eiro porque era m uito m enos com um que as
pessoas estivessem sozinhas. Freiras e m onges podem ter
estado sós em suas celas, mas as pessoas com uns viviam
constantem ente juntas. As m oradias deixavam pouca es­
colha. N ascim ento e m orte — com o outros aspectos ani­
mais da vida hum ana — eram eventos m ais públicos, e
p o rtan to mais sociáveis, que hoje; eram m enos privatiza­
dos. N ada é mais característico da atitude atual em rela­
ção à m orte que a relutância dos adultos diante da fami­
liarização das crianças com os fatos da m orte. Isso é p ar­
ticularm ente digno de nota com o sintom a de seu recalca-
26 Norbert Elias

m ento nos planos individual e social. Uma vaga sensação


de que as crianças podem ser prejudicadas leva a se ocul­
tar delas os simples fatos.da vida que terão que vir a
conhecer e com preender. Mas o perigo para as crianças
não está em que saibam da finitude de cada vida hum ana,
inclusive a de seu pai, de sua mãe e de sua própria; de
qualquer m aneira as fantasias infantis giram em torno
desse problem a, e o m edo e a angústia que o cercam são
m uitas vezes reforçados pelo poder intenso de sua im agi­
nação. A consciência de que norm alm ente terão um a lon­
ga vida pela frente pode ser, em contraste com suas per­
turbadoras fantasias, realm ente benéfica. A dificuldade
está em com o se fala às crianças sobre a m orte, e não no
que lhes é dito. Os adultos que evitam falar a seus filhos
sobre a m orte sentem , talvez não sem razão, que podem
transm itir a eles suas próprias angústias. Sei de casos em
que um dos pais m orreu num acidente de automóvel. As
reações dos filhos dependem da idade e da estrutura da
personalidade, m as o efeito profundam ente traum ático
que tal experiência pode ter neles me faz acreditar que
seria salutar para as crianças que tivessem familiaridade
com o simples fato da m orte, a finitude de suas próprias
vidas e a de todos os demais. Sem dúvida, a aversão dos
adultos de hoje a transm itir às crianças os fatos biológicos
da m orte é um a peculiaridade do padrão dom inante da
civilização nesse estágio. Antigam ente, as crianças tam ­
bém estavam presentes q u an d o as pessoas m orriam .
O nde quase tu d o acontece diante dos olhos dos outros, a
m orte tam bém tem lugar diante das crianças.
A solidão d os moribundos 27

Nos estágios anteriores de desenvolvim ento social, as pes­


soas eram m enos cerceadas na esfera da vida social, inclu­
sive na fala, pensam ento e escrita. A censura pessoal, e a
dos com panheiros, assum ia form a diferente. Um poem a
de período relativam ente tardio — século XVII — pode
ajudar a ilustrar a diferença. É do poeta silésio C hristian
H ofm ann von H ofm annsw aldau e leva o título de “Tran-
sitoriedade da beleza”.

Por fim a m orte pálida com sua mão gelada


Com o tempo acariciará teus seios;
O belo coral de teus lábios empalidecerá
A neve de teus m ornos om bros será fria areia
O doce piscar de teus olhos / o vigor de tua mão
Por quem caem / cedo desaparecerão
Teu cabelo / que agora tem o tom do ouro
Os anos farão cair, uma com um madeixa
Teu bem form ado pé / a graça de teus m ovim entos
Serão em parte pó / em parte nada e vazio.
Então ninguém mais cultuará teu esplendor agora divino
Isso e mais que isso por fim terá passado
Só teu coração todo o tempo durará
Porque de diamante o fez a Natureza.

Leitores de nossos dias podem achar a metáfora da


m orte pálida acariciando os seios da bem -am ada com sua
mão fria um tanto grosseira, talvez de m au gosto. Podem,
28 Norbert Elias

ao contrário, ver no poem a um a profunda preocupação


com o problem a da m orte. Mas talvez só possam os nos
ocupar desse poem a em virtude de um singular surto de
informalização, que com eçou depois de 1918, foi forte­
mente revertido em 1933 e ganhou im pulso novam ente
de 1945 em diante. Com o m uitos poem as barrocos, ofen­
de grande núm ero de tabus vitorianos e guilherm inos.
Referir-se com tal detalhe, com tão pouco rom antism o e
mesmo num tom um tanto jocoso à m orte da amada
pode, até m esm o hoje, quando prevalece um certo relaxa­
m ento dos tabus vitorianos, parecer incom um . Até que
atentem os para as m udanças civilizatórias que encon­
tram expressão no presente, e, portanto, na estrutura de
nossa própria personalidade, ficaremos no escuro en­
quanto intérpretes, enquanto historiadores herm enêuti­
cos do passado. Interpretações arbitrárias serão a norm a
e conclusões erradas, a regra. O fato de que gerações ante­
riores falassem mais abertam ente da m orte, da sepultura
e dos verm es será tom ado com o indicação de seu interes­
se m órbido pela m orte; suas francas referências às rela­
ções físicas entre hom ens e mulheres, com o signos de
lascívia ou frouxidão moral. Só quando form os capazes
de m aior distanciam ento de nós mesmos, de nosso está­
gio de civilização, e nos tornarm os conscientes do caráter
específico de nosso próprio lim iar de vergonha e repug­
nância, poderem os fazer justiça às ações e obras de pes­
soas em outros estágios.
Um poem a com o esse provavelmente aflorou de m a­
neira m uito m ais direta do intercurso social de hom ens e
A solidão dos m oribundos 29

m ulheres do que os poem as mais privados e individuali­


zados de nossa época. Nele, seriedade e graça se com bi­
nam de um m odo sem paralelos hoje. Talvez fosse um
poem a escrito para um a ocasião particular; pode ter se
difundido nos círculos de H ofm annsw aldau e causado
m u ito divertim ento a seus am igos de am bos os sexos.
Falta aqui o tom solene ou sentim ental mais tarde muitas
vezes associado à lem brança da m orte e da sepultura. Que
tal advertência seja co m b in ad a com um a brincadeira
m ostra a diferença de atitude de m aneira especialmente
clara. As pessoas no círculo do poeta devem ter se diverti­
do com um a brincadeira que facilm ente escapa a um
leitor m oderno. H ofm annsw aldau diz à sua relutante
am ada que sua beleza desaparecerá na sepultura, seus
lábios de coral, seus om bros de neve, seus olhos insinuan­
tes, todo seu corpo decairá — exceto seu coração: ele é
du ro com o diam ante, pois ela não dá ouvidos a seus ape­
los. No registro dos sentim entos contem porâneos dificil­
m ente encontrarem os qualquer coisa que corresponda a
essa m istura de funéreo e irreverente, essa descrição deta­
lhada da decom posição hum ana com o m anobra de se­
dução.
Podem os talvez to m ar o poem a com o invenção indi­
vidual do escritor. Do ponto de vista da história da litera­
tura, poderia facilmente ser assim interpretado. Mas, no
contexto, como evidência da atitude em relação à m orte
existente num estágio diferente de civilização, o poema
g an h a significação precisam ente pelo fato de que seu
tem a é tudo m enos um a invenção individual. É um tema
30 Norbert Elias

com um da poesia barroca européia no sentido mais am ­


plo, que nos diz algum a coisa sobre o m odo dos jogos do
am or nas sociedades patrícias e cortesãs do século XVII.
Nessas sociedades, havia n um erosos poem as sobre o
mesmo tema. Apenas o tratam ento poético era individual
e variável. O m ais belo e famoso poem a sobre ele é “To his
Coy M istress” [“À sua am ada recatada” ], de Marvell.
Contém a m esm a brusca lem brança do que aguarda o
belo corpo na sepultura, advertindo a m ulher de coração
duro a não fazê-lo esperar tanto. Esse poem a tam bém foi
desprezado durante séculos. Hoje, alguns de seus versos
são citações de antologias:

A sepultura é um bom lugar privado,


Mas nela, creio, ninguém é amado.

Variações sobre o m esm o tema são encontradas em Ron-


sard, O pitz e o utros poetas da época. Representam um
limiar diferente do nosso de vergonha e em baraço e, p o r­
tanto, um a estrutura diferente de personalidade, que é
social e não individual. Referências à m orte, à sepultura e
a todos os detalhes do que acontece aos seres hum anos
nessa situação não eram sujeitas a um a censura social
estrita. A visão de corpos hum anos em decom posição era
lugar-com um . Todos, inclusive as crianças, sabiam como
eram esses corpos; e, porque todos sabiam, podiam falar
disso com relativa liberdade, na sociedade e na poesia.
Hoje as coisas são diferentes. Nunca antes na história
da hum anidade foram os m oribundos afastados de m a­
A solidão dos m oribundos 31

neira tão asséptica para os bastidores da vida social; n u n ­


ca antes os cadáveres hum anos foram enviados de m anei­
ra tão in o d o ra e com tal perfeição técnica do leito de
m orte à sepultura.

Intim am ente ligado em nossos dias, à m aior exclusão


possível da m orte e dos m o rib u n d o s da vida social, e à
ocultação dos m oribundos dos outros, particularm ente
das crianças, há um desconforto peculiar sentido pelos
vivos na presença dos m oribundos. M uitas vezes não sa­
bem o que dizer. A gama de palavras disponíveis para uso
nessas ocasiões é relativamente exígua. O em baraço blo­
queia as palavras. Para os m o rib u n d o s essa pode ser um a
experiência am arga. Ainda vivos, já haviam sido abando­
nados. M as m esm o aqui o p roblem a que a proxim idade
da m o rte e a m orte colocam para os que ficam não existe
isoladam ente. A reticência e a falta de espontaneidade na
expressão de sentim entos de sim patia nas situações críti­
cas de o utras pessoas não se lim itam à presença de al­
guém que está m orrendo ou de luto. Em nosso estágio de
civilização m anifesta-se em m uitas ocasiões que dem an­
dam a expressão de forte participação em ocional sem
perda do autocontrole. Algo sem elhante ocorre em situa­
ções de am o r e de ternura.
Em todos esses casos é especialm ente a geração mais
jovem que, mais que em séculos anteriores, fica entregue
32 Norbert Elias

a seus próprios recursos, a sua própria capacidade de


invenção individual, na procura das palavras certas para
seus sentim entos. A convenção social fornece às pessoas
um as poucas expressões estereotipadas ou formas padro­
nizadas de com portam ento que podem tornar mais fácil
enfrentar as dem andas em ocionais de tal situação. Frases
convencionais e rituais ainda estão em uso, porém mais
pessoas do que antigam ente se sentem constrangidas em
usá-las, porque parecem superficiais e gastas. As fórmulas
rituais da velha sociedade, que tornavam m ais fácil e n ­
frentar situações críticas com o essa, soam caducas e
pouco sinceras para m uitos jovens; novos rituais que
reflitam o padrão corrente dos sentim entos e com porta­
m entos, que poderiam to rn ar a tarefa mais fácil, ainda
não existem.
Seria falso sugerir que os problem as específicos do
estágio da civilização na relação dos saudáveis com os
m oribundos, dos vivos com os m ortos, são um dado iso­
lado. O que surge aqui é um problem a parcial, um aspec­
to de um problem a geral da civilização em seu estágio
presente.
Nesse caso, tam bém , a peculiaridade da situação pre­
sente pode ser m elh o r delineada por referência a um
exemplo do m esm o problem a no passado. No final de ou­
tubro de 1758, a m argravina de Bayreuth, irmã do rei Fre­
derico II da Prússia, estava à m orte. O rei não pôde viajar
para vê-la, mas m andou às pressas seu próprio médico
Cothenius, caso ainda pudesse ajudá-la. M andou também
poemas e a seguinte carta, datada de 20 de outubro:
A solidão dos moribundos 33

Ternamente amada Irmã,

Recebe com carinho os versos que te mando. Estou tão


cheio de ti, teu risco e m inha gratidão, que tua imagem
constantem ente governa m inh’alma e todos os m eus pen­
samentos, acordado ou sonhando, escrevendo prosa ou
poesia. Que o Céu atenda os votos por tua recuperação que
diariamente lhe dirijo! Cothenius está a caminho; venerá-
lo-ei se puder preservar a pessoa que é em todo o m undo a
mais próxima de m eu coração, que estim o e honro e por
quem continuo, até o m om ento de devolver m eu corpo aos
elem entos, mais ternamente amada irmã, teu leal e devota­
do irmão e am igo,
Frederico

O rei não escreveu essa carta em francês, m as em


alemão, o que raram ente fazia. Podemos im aginar que a
carta serviu de consolo à m o rib u n d a e facilitou sua p arti­
da do m undo dos vivos — se ainda foi capaz de lê-la.
A língua alem ã não é particularm ente rica em ex­
pressões nuançadas para ligações não-sexuais entre pes­
soas — não-sexuais, qualquer que seja sua origem . Fal­
tam palavras correspondentes à “afeição” e “afeiçoado”.
Zuneigung e zugetan, que sugerem a idéia de “inclinação”,
não carregam a sim patia com edida do nosso term o, e são
pouco usadas. A “niais ternam ente amada irm ã” de Fre­
derico é, sem dúvida, expressão exata de seus sentim en­
tos. Seria usada hoje? Sua ligação com sua irm ã era prova­
velmente o mais forte laço que o prendia a qualquer m u ­
lher ou pessoa em sua vida. Podemos supor que o senti­
m ento verbalizado em sua carta é sincero. A afeição entre
34 Norbert Elias

irm ão e irm ã era recíproca. Ele claram ente com preendia


que um a afirm ação de sua grande afeição levaria confor­
to à m oribunda. Mas a expressão desses sentim entos fica
mais fácil para ele por sua confiança im plícita em certas
convenções lingüísticas de sua sociedade, que conduzem
sua pena. O leitor m oderno, com ouvido afinado para
detectar os clichês do passado, pode perceber “tua im a­
gem” que “constantem ente governa m inh’alm a” como
convencional e “o Céu atenda os votos” com o teatral­
mente barroco, particularm ente na boca de um m onarca
que não era famoso pela piedade. De fato, Frederico utili­
za term os convencionais para exprim ir seus sentimentos.
Mas é capaz de usá-los de tal m aneira que sua sinceridade
é visível, e podem os supor que a irm ã percebeu essa sin­
ceridade. A estrutura das com unicações era tal que aque­
les a quem eram endereçadas podiam distinguir entre
usos sinceros e insinceros de expressões corteses, ao passo
que nossos ouvidos não podem mais d istinguir essas
nuances de civilidade.
Isso ilum ina os contrastes com a situação presente. O
breve surto de inform alização5 ainda em progresso nos
torna especialmente desconfiados em relação aos rituais
convencionais e às frases “floreadas” de gerações passa­
das. Muitas fórm ulas socialm ente prescritas trazem em

5 Cf. Cas Wouters, “Informalization and the civilizing process”, in


H um an Figurations. Essays fo r Norbert Elias, org. Peter R. Gleich-
m ann, Johan Goudsblom e Herm ann Korte, Amsterdã, 1977, p.437-
53.
A solidão dos m oribundos 35

torno de si a aura de antigos sistemas de dom inação; não


podem mais ser usadas m ecanicam ente com o o om mani
padm e nos círculos de oração dos m onges budistas. Mas
ao m esm o tem po a m u d an ça que acom panha o estágio
presente da civilização p ro d u z em m uitas pessoas um a
indisposição e m uitas vezes um a incapacidade de expri­
m ir emoções fortes, tan to na vida pública com o na vida
privada. Elas só podem ser ventiladas, assim parece, em
conflitos políticos e sociais. No século XVII, os hom ens
podiam chorar em público; isso tornou-se hoje difícil e
pouco freqüente. Só as m ulheres ainda são capazes, so­
cialmente livres para fazê-lo — p o r quanto tem po ainda?
Na presença de pessoas que estão para m orrer — e
dos que as pranteiam — vemos, p o rtanto, com particular
clareza um dilem a característico do presente estágio do
processo civilizador. U m a m udança em direção à infor­
malidade fez com que u m a série de padrões tradicionais
de com portam ento nas grandes situações de crise da vida
hum ana, incluindo o uso de frases rituais, se tornasse
suspeita e em baraçosa para m uitas pessoas. A tarefa de
encontrar a palavra e o gesto certos, portanto, sobra para
o indivíduo. A preocupação de evitar rituais e frases so­
cialmente prescritos au m en ta as dem andas sobre a capa­
cidade de invenção e expressão individual. Essa tarefa,
porém , está m uitas vezes fora do alcance das pessoas no
estágio corrente da civilização. A m aneira com o as pes­
soas vivem em conjunto, que é fundam ental neste estágio,
exige e produz um grau relativam ente alto de reserva na
expressão de afetos fortes e espontâneos. M uitas vezes, só
36 Norbert Elias

sob pressão excepcional elas são capazes de superar a


barreira que bloqueia as ações resultantes de fortes em o­
ções, e tam bém sua verbalização. Assim, a fala espontânea
com os m oribundos, da qual estes têm especial necessida^
de, to rn a -se difíc ^ A p e n ã s^ T ro tin a s institucionalizadas
dos hospitais dão algum a estruturação social para a situa­
ção de m orrer. Essas, no entanto, são em sua maioria
destituídas de sentim entos e acabam contrib uindo para o
isbkna£irto dos m o rib u n d o s^ / " —
Rituais religiosos de m o rte po d em provocar nos
crentes sentim entos de que as pessoas estão pessoalmente
preocupadas com eles, o que é sem dúvida a função real
desses rituais. Fora deles, m orrer é no presente um a situa­
ção am orfa, um a área vazia no m apa social. Os rituais
seculares foram esvaziados de sentim ento e significado;
as form as seculares tradicionais de expressão são pouco
convincentes. Os tabus proíbem a excessiva dem onstra­
ção de sentim entos fortes, em bora eles possam acontecer.
E a tradicional aura de m istério que cerca a m orte, com o
que perm anece dos gestos mágicos — abrir as janelas,
parar os relógios — , torna a m orte m enos tratável como
problem a hum ano e social que as pessoas devem resolver
entre si e para si. No presente, aqueles que são próxim os
dos m orib u n d o s m uitas vezes não têm capacidade de
apoiá-los e confortá-los com a prova de sua afeição e
ternura. Acham difícil apertar a mão de um m oribundo
ou acariciá-lo, proporcionar-lhe um a sensação de prote­
ção e pertencim ento, ainda. O crescente tabu da civiliza­
ção em relação à expressão de sentim entos espontâneos e
A solidão dos moribundos 37

fortes trava suas línguas e m ãos. E os viventes podem , de


m aneira semiconsciente, sentir que a m orte é contagiosa
e am eaçadora; afastam-se involuntariam ente dos m ori­
bundos. Mas, para os íntim os que se vão, um gesto de
afeição é talvez a m aior ajuda, ao Lado do alívio da dor
física, que os que ficam podem proporcionar.

O afastam ento dos vivos em relação aos m oribundos e o


silêncio que gradualm ente os envolve continuam depois
que chega o fim. Isso pode ser visto, por exemplo, no
tratam ento dos cadáveres e no cuidado com as sepultu­
ras. As duas atividades saíram das mãos da família, paren­
tes e amigos e passaram para especialistas rem unerados.
A m em ória da pessoa m o rta pode continuar acesa; os
corpos m ortos e as sepulturas perderam significação. A
Pietà de Michelangelo, a m ãe em prantos com o corpo de
seu filho, continua com preensível com o obra de arte, mas
dificilmente imaginável com o situação real.
Um a brochura publicada p o r jardineiros de cem ité­
rio m ostra quão distante o cuidado das sepulturas está
das famílias.6 N aturalm ente, adverte contra concorrentes

6 Friedhof. Grüner Raum iti der Stadt, publicado pela Zentrale


Marketinggesellschaft der deutschen Agrarwirtschaft G m bH , em co­
laboração com a Zentralverband G artenbau e V. Bundesfachgruppe
Friedhofsgärtner.
38 N orbert Elias

e rivais que podem reduzir a quantidade de flores ador­


nando as sepulturas. Podem os supor que a agência de
m arketing adaptou a brochura tanto quanto possível à
m entalidade dos possíveis consum idores. O silêncio so­
bre a significação das sepulturas com o lugares onde pes­
soas m ortas estão enterradas é, em função disso, quase
total. Com preensivelm ente, referências explícitas a qual­
quer conexão entre a profissão de jardineiro de cemitério
e o enterro dos cadáveres estão inteiram ente ausentes.
Essa ocultação cuidadosa, que reflete a m entalidade dos
clientes potenciais, surge de m aneira especialm ente clara
se lem brarm os o tom dos poem as do século XVII citados
acima. A franqueza com que eles falam do que acontece
ao corpo na sepultura ofeíece claro contraste à supressão
higiênica de associações desagradáveis do m aterial im­
presso e, sem dúvida, da conversação social de nosso tem ­
po. Que Marvell pudesse esperar ganhar os favores da
m ulher am ada advertindo-a de que os vermes am eaça­
riam sua “tão preservada virgindade” e de que sua “singu­
lar h o n ra se tornaria pó” na sepultura dá um a indicação
do quanto avançou o lim iar de repugnância desde então,
no curso de um processo civilizador não planejado. Lá,
mesmo os poetas falam com desem baraço dos vermes da
sepultura; aqui, m esm o os jardineiros do cem itério evi­
tam qualquer coisa que possa lem brar a conexão entre
sepultura e m orte. A m era palavra “m orte” é evitada sem ­
pre que possível; aparece só um a vez na brochura —
quando são m encionadas as datas com em orativas dos
m ortos; e a m á im pressão causada pela palavra é im edia­
A solidão dos m oribundos 39

tam ente equilibrada pela m enção aos dias de casam ento


— q u an d o tam b ém se requerem flores. As perigosas
associações de cem itério são neutralizadas apresentando-
o sim plesm ente com o um “espaço verde na cidade”:

Os jardineiros de cem itério a lem ães... gostariam de dar ao


cem itério m aior relevo na consciência pública com o uma
área cultural e tradicional, com o um lugar de recolhim en­
to e com o parte da área verde urbana. Pois uma consciên­
cia pública elevada é a m elhor garantia de que o tradicional
retrato do cem itério verde e em flor não será um dia am ea­
çado por estranhos costum es de enterro, por restrições
baseadas em argum entos econôm icos, por desm andos de
projetos descontrolados o u pelo planejam ento tecnocráti-
co dos espaços fundado exclusivam ente na racionalização.

Seria proveitoso discutir em detalhe as táticas da luta


contra os vários rivais comerciais, m as não aqui. De todo
m odo, os clientes potenciais são protegidos, tanto quanto
hum anam ente possível, da lem brança da m orte e de tudo
relativo a ela. Para a possível clientela, a m orte se to rn o u
de m au gosto. M as a atitude evasiva e encobridora, po r
sua vez, tem um efeito algo desagradável.
Seria m uito bom se o lugar de recordação dos m ortos
fosse realm ente planejado com o um parque para os vivos.
Essa é a im agem que os jardineiros do cem itério gosta­
riam de tran sm itir — “um a ilha silenciosa, verde e em
flor em m eio ao ruído frenético da vida cotidiana”. Se
fossem realm ente parques para os vivos, onde os adultos
pudessem com er seus sanduíches e as crianças, brincar!
40 N orbert Elias

Talvez isso tenha sido possível outrora, mas é impossível


hoje em função da tendência à solenidade, à idéia de que
a graça e o riso são inadequados na vizinhança dos m or­
tos — sintom as da tentativa semiconsciente dos vivos de
distanciar-se dos m ortos e de em p u rrar esse aspecto em ­
baraçoso da anim alidade hum ana para tão longe quanto
possível atrás das cenas da vida norm al. Crianças que
tentem brincar alegrem ente entre os túm ulos serão ad­
vertidas pelos guardiães da gram a bem aparada e dos
canteiros por sua falta de reverência e respeito aos m or­
tos. Mas quando as pessoas m orrem , nada sabem da reve­
rência com que são ou não tratadas. E a solenidade com
que funerais e túm ulos são Cercados, a idéia de que deve
haver silêncio em torno deles, de que se deve falar em voz
abafada nos cem itérios para evitar p ertu rb ar a paz dos
m ortos — tudo isso são realm ente formas de distanciar
os vivos dos m ortos, meios de m anter à distância uma
sensação de ameaça. São os vivos que exigem reverência
pelos m ortos, e têm suas razões. Essas incluem seu medo
da m orte e dos m ortos; mas m uitas vezes tam bém servem
como meio de aum entar o poder dos vivos.

Até o m odo com o é utilizada a expressão “os m ortos” é


curioso e revelador. Dá a im pressão de que as pessoas
m ortas em certo sentido ainda existem não só na m em ó­
ria dos vivos, mas independentem ente deles. Os mortos,
A solidão dos moribundos 41

porém , não existem. O u só existem na m em ória dos vi­


vos, presentes e futuros. É especialmente para as desco­
nhecidas gerações futuras que aqueles que estão agora
vivos se voltam com tudo o que é significativo em suas
realizações e criações. Mas nem sempre se dão conta dis­
so. O m edo de m o rrer é sem dúvida tam bém um m edo de
perda e destruição daquilo que os próprios m oribundos
consideram significativo. Mas só o tribunal daqueles que
ainda não nasceram pode decidir se o que parece signifi­
cativo para as gerações anteriores será tam bém significa­
tivo, para além de suas vidas, para as outras pessoas. Mes­
mo as lápides, em sua sim plicidade, dirigem -se a esse
tribunal — talvez um passante venha a ler na pedra, ju l­
gada imperecível, que ali estão enterrados tais pais, tais
avós, tais filhos. O que está escrito na pedra é um a m ensa­
gem m uda dos m ortos para quem quer que esteja vivo —
um sím bolo de um sentim ento talvez ainda não articula­
do de que a única m aneira pela qual um a pessoa m o rta
vive é na m em ória dos vivos. Q uando a cadeia da recor­
dação é rom pida, quando a continuidade de um a socie­
dade particular ou da própria sociedade hum ana term i­
na, então o sentido de tudo que seu povo fez durante
milênios e de tudo o que era significativo para ele tam ­
bém se extingue.
Hoje ainda é um tanto difícil dar um a idéia da di­
mensão da dependência das pessoas em relação às outras.
Que o sentido de tudo o que um a pessoa faz esteja no que
ela significa para os outros, não apenas para os que agora
estão vivos, mas tam bém para as gerações futuras, que ela
42 Norbert Elias

seja, portanto, dependente da continuidade da sociedade


hum ana por gerações, é certam ente um a das mais funda­
mentais das m útuas dependências hum anas, daqueles do
futuro em relação aos do passado, daqueles do passado
em relação aos do futuro. Mas um a com preensão dessa
dependência é particularm ente im pedida hoje pela recu­
sa de enfrentar a finitude da vida individual, inclusive a
nossa própria, e a dissolução próxim a de nossa própria
pessoa, e de incluir esse conhecim ento na m aneira como
vivemos nossa vida — em nosso trabalho, em nosso pra­
zer e, acima de tudo, em nosso co m p o rtam en to em rela­
ção aos outros.
M uitas vezes, as pessoas hoje se vêem com o indiví­
duos isolados, totalm ente independentes dos outros. Per­
seguir os próprios interesses — vistos isoladam ente —
parece então a coisa mais sensata e gratificante que uma
pessoa poderia fazer. Nesse caso, a tarefa mais im portante
da vida parece ser a busca de sentido apenas para si mes­
mo, independente das outras pessoas. Não é de surpreen­
der que as pessoas que procuram essa espécie de sentido
achem absurdas suas vidas. Raram ente, e com dificulda­
de, as pessoas podem ver a si mesmas, em sua dependên­
cia dos outros — um a dependência que pode ser m útua
— , com o elos lim itados na cadeia das gerações, como
quem carrega um a tocha num a corrida de revezamento, e
que por fim a passará ao seguinte.
No entanto, o recalcamento e o encobrim ento da
finitude da vida hum ana individual certam ente não é,
com o às vezes se diz, um a peculiaridade do século XX. É
A solidão dos m oribundos 43

provavelm ente um a reação tão antiga quan to a consciên­


cia dessa finitude, quanto o pressentim ento da própria
m orte. No curso da evolução biológica, podem os supor,
desenvolveu-se nos seres h u m an o s um a espécie de enten­
dim ento que lhes perm itiu relacionar o fim que conhe­
ciam no caso de outras criaturas — algum as das quais
lhes serviam de alim ento — a si m esm os. Graças a um
poder de im aginação exclusivo entre as criaturas vivas,
vieram gradualm ente a conhecer de antem ão o fim como
conclusão inevitável de toda vida hum ana. Mas junto
com essa previsão do p ró p rio fim provavelm ente ocor­
reu, desde o início, um a tentativa de suprim ir esse conhe­
cim ento indesejado e encobri-lo com noções mais satis­
fatórias. E aí a singular capacidade h um ana de im agina­
ção veio em sua ajuda. O conhecim ento indesejado e as
fantasias encobridoras são, p o rtan to , provavelm ente fru­
to do m esm o estágio de evolução. Hoje, com im enso acú­
m ulo de experiência, não podem os mais deixar de per-
guntar-nos se esses sonhos com placentes não têm, a lon­
go prazo, conseqüências bem m ais indesejáveis e perigo­
sas para os seres hum anos em sua vida com unal que o
conhecim ento b ru to e sem retoques.
O encobrim ento e o recalcam ento da m orte, isto é,
da finitude irreparável de cada existência hum ana, na
consciência hum ana, são m uito antigos. Mas o m odo do
encobrim ento m udou de m aneira específica com o correr
do tem po. Em períodos anteriores, fantasias coletivas
eram o m eio predom inante de lidar com a noção de m or­
te. Ainda hoje, é claro, desem penham um im portante
44 Norbert Elias

papel. O m edo de nossa própria transitoriedade é am eni­


zado com ajuda de um a fantasia coletiva de vida eterna
em outro lugar. Com o a adm inistração dos medos hum a­
nos é um a das mais im portantes fontes de poder das
pessoas sobre as outras, um a profusão de dom ínios se
estabeleceu e continua a se m anter sobre essa base. Com a
grande escalada da individualização em tem pos recentes,
fantasias pessoais e relativam ente privadas de im ortalida­
de destacam -se mais freqüentem ente da m atriz coletiva e
vêm para o prim eiro plano.7

7 Tenho a sensação de que Ariès, a despeito de um a admirável


erudição que se estende às fantasias de im ortalidade contemporâneas,
não faz justiça à estrutura da m udança de que nos ocupamos —
outra vez porque lhe faltam os modelos teóricos dos processos de
longa duração e, assim, o conceito de um im pulso à individualização.
Escreve com patente desprezo, quase aversão, sobre as fantasias de
im ortalidade dos contem porâneos, contrastando-as cruamente com
o que acredita tenha sido a atitude tradicional de calma espera pela
m orte. Cita com aprovação, fazendo um a crítica velada aos contem ­
porâneos, o Pavilhão dos cancerosos, de Solzhenitsyn: “Eles não se
rebelaram, nem resistiram, nem afirmaram que nunca m orreriam ”,
escreve sobre as pessoas de concepções tradicionais (Studien zur
Geschichte, p.25). Realmente não sei se os contem porâneos se rebelam
mais. A m aioria das pessoas com fantasias de imortalidade que
conheço está ciente de que são fantasias. De todo modo, o que está
em questão aqui tem uma estrutura claramente discernível. Em
tempos passados, fantasias coletivas institucionalizadas que garantiam
a im ortalidade individual tinham a primazia, e o peso que recebiam
da institucionalização e das crença coletiva tornava quase impossível
reconhecer essas noções com o fantasias. Hoje, o poder dessas idéias
coletivas sobre as mentes das pessoas dim inuiu, de tal forma que
fantasias individuais de im ortalidade, às vezes reconhecidas como
tais, tendem a surgir em prim eiro plano. Modelos teóricos de pro­
cessos de longa duração, tais com o os expressos no conceito de um
A solidão dos m oribundos 45

Freud sustentava que a instância psicológica que cha­


mava de “isso”, a cam ada mais anim al da psiquê, mais
próxim a do estado n atural prim itivo, que tratava quase
com o um a pequena pessoa, se acredita im ortal. Mas não
penso que possam os aceitar tal afirmação. No âm bito do
isso um a pessoa não tem capacidade de prever e, p o rtan ­
to, não tem n en h u m a noção antecipada sobre sua própria
m ortalidade. Sem esse conhecim ento, a idéia com pensa­
tória da im ortalidade pessoal não pode ser explicada: não
teria função. Freud atribui aos im pulsos do isso, que estão
inteiram ente voltados para o aqui e agora, um nível de
reflexão que não podem atingir.
M uitas o u tras fantasias descobertas p o r Freud se
agrupam em to rn o da im agem da m orte. Já me referi aos
sentim entos de culpa, à noção da m orte com o punição
po r más ações com etidas. É um a questão aberta a ajuda
que se pode d ar aos m o rib u n d o s aliviando angústias pro­
fundas referentes a punições por ofensas im aginárias —
m uitas vezes infantis. A instituição eclesiástica do perdão

impulso de crescente individualização, não são dogmas. Com seu


auxílio não é preciso, e nem possível, violar os dados observáveis.
Tais modelos podem ser m udados, dogmas com o substitutos de teoria
são inflexíveis. Não se pode deixar de lamentar, dada a grande riqueza
do conhecim ento de Ariès. Seria muito bom se ele pudesse se
convencer de que dogm as preconcebidos tornam os pesquisadores
cegos mesmo em relação a estruturas que são quase palpavelmente
óbvias, com o a d a transição das fantasias de im ortalidade de um
estágio em que predom inam as fantasias coletivas altam ente institu­
cionalizadas para outro, em que fantasias individuais e relativamente
privadas surgem com mais força.
46 Norbert Elias

e da absolvição m ostra um a com preensão intuitiva da


freqüência com que angústias de culpa se associam ao
processo da m orte, e Freud foi o prim eiro a oferecer uma
explicação científica para elas.
Não pode ser m inha tarefa aqui abordar todos os
vários motivos fantasísticos associados à idéia de nossa
p rópria m orte e ao processo de m orrer. Mas não se pode
subestim ar o fato de que, tanto no m undo mágico de
fantasias dos povos mais simples, quan to nas correspon­
dentes fantasias individuais de nossos dias, a imagem da
m orte está intim am ente ligada à de m atar. Povos mais
simples experim entam as m ortes de pessoas socialmente
poderosas, pelo m enos, com o algum a coisa que alguém
fez a elas, com o um a espécie de assassinato. Os sentim en­
tos dos sobreviventes estão envolvidos. Não colocam a
q u estã o m ais d istan te da causa im pessoal da m orte.
C om o é sem pre o caso quando fortes emoções estão en­
volvidas, p rò cu ra-se um cu lp ad o . Só q u a n d o sabem
quem ele é podem esperar vingar-se e descarregar as pai­
xões despertadas pela m orte. Não podem vingar-se de
um a causa impessoal. Im pulsos desse tipo, que em socie­
dades m ais simples guiam diretam ente as ações e pensa­
m entos das pessoas, tam bém desem penham um papel
indiscutível no com portam ento dos adultos em socieda­
des mais desenvolvidas. Mas nesse caso não têm controle
direto sobre o com portam ento. É o caso ainda com as
crianças pequenas, mas sua fraqueza física norm alm ente
oculta dos adultos a intensidade de seus im pulsos afeti­
vos. Além disso, as crianças pequenas não podem distin­
A solidão dos m oribundos 47

guir de m aneira apropriada entre o desejo de agir e o ato


realizado, entre a fantasia e a realidade. O surgim ento
espontâneo do ódio e dos desejos de m orte têm para eles
poder mágico; o desejo de m atar m ata. As crianças em
nossa sociedade às vezes ainda são capazes de exprim ir
tais desejos abertam ente. “Então colocarem os o papai na
lata de lixo”, disse o filhinho de u m amigo com evidente
prazer, “e fecharemos a tam pa.” Provavelmente se sentiria
culpado se seu pai realm ente tivesse se ido. A filhinha de
o u tro am igo assegurava a todos os que se dispusessem a
ouvir que não era culpa dela o fato de sua mãe estar tão
doente e ter que “ser operada”.
E n contram os aqui um co m p o n en te adicional da
particular aversão que hoje m uitas vezes afeta as pessoas
na presença de um m oribundo, o u — é preciso acrescen­
tar — da especial atração que m oribundos, sepulturas e
cem itérios exercem sobre algum as pessoas. As fantasias
destas últim as poderiam ser resum idas aproxim adam en­
te com as palavras: “Eu não os m atei!” Por outro lado, a
proxim idade de m oribundos o u sepulturas às vezes des­
perta nas pessoas não apenas o m edo da própria morte,
m as desejos de m orte e angústias de culpa suprim idos,
resum idos na pergunta “Poderia eu ser culpado de sua
m orte? Desejei eu vê-los m ortos p o r odiá-los?”
M esmo adultos em sociedades industriais mais d e­
senvolvidas têm níveis m ágicos de experiência que se
opõem a explicações im pessoais e objetivas de doenças e
m ortes. A força do choque que a m orte de um dos pais
produz nos adultos é um sinal disso. Pode ser parcial­
48 N orbert Elias

mente conectada à profunda identificação entre filhos e


pais, ou entre outras pessoas com laços em ocionais p ró ­
ximos: isto é, pode ser conectada à experiência de outras
pessoas com o parte ou extensão de nós mesmos. O senti­
m ento de que um com panheiro perdido era “parte de
m im ” é encontrado em relações dos tipos mais diferentes
— entre pessoas casadas há m uito tem po, amigos, filhos e
filhas. Mas nestes últim os, a m orte de um pai ou de um a
mãe muitas vezes desperta desejos de m orte enterrados e
esquecidos, associados a sentim entos de culpa e, em al­
guns casos, ao m edo da punição. A aguda intensificação
desses sentim entos pode enfraquecer as fantasias com ­
pensatórias de im ortalidade pessoal.
Tais fantasias, com o já disse, tornaram -se mais fre­
qüentes em conjunção com a individualização mais acen­
tuada dos tem pos recentes. Entretanto, fantasias coletivas
de im o rtalid ad e altam en te institu cio n alizad as co n ti­
nuam a existir com vigor apenas ligeiram ente m enor em
nossas sociedades. Um m anual escolar perfeitam ente
sensato descreve o que as pessoas dizem às crianças q u an ­
do um a pessoa m orre:

“Seu avô está n o céu agora” — “Sua mamãe olha para você
lá do céu” — “Sua irmãzinha agora é um anjo”.8

D exemplo m ostra quão firm em ente arraigada está em


nossa sociedade a tendência a ocultar a finitude irrevogá-

) Religion, Bilder und Wörter, org. Hans-Dieter Bastian, Hana Raus-


zhenberger, Dieter Stoodt e Klaus Wegenast, Düsseldorf, 1974, p. 121.
A solidão dos m oribundos 49

vel da existência hum ana, especialm ente das crianças,


pelo uso de idéias coletivas acalentadoras, e a assegurar o
encobrim ento por um a rígida censura social estrita.

10

N um a área sociobiológica diferente, mas tam bém isolada


por um a com plexa estru tu ra de norm as sociais — a área
das relações sexuais — , um a m udança perceptível teve
lugar nos últim os anos. Nessa esfera, um bom núm ero de
barreiras civilizadoras que eram previam ente considera­
das evidentes e indispensáveis foi desm ontado. A aceita­
ção social de com portam entos previam ente sob tabu ab­
soluto se to rn o u possível. Problem as sexuais podem ser
discutidos publicam ente num novo patam ar de franque­
za m esm o com crianças. O segredo sobre as práticas se­
xuais e m uitas proibições em torno delas, que serviam a
instituições estatais e clericais com o instrum entos de do­
m inação, deram lugar, num grau inimaginável na era vi­
toriana, a m aneiras mais abertas e pragm áticas de com ­
p o rtam en to e fala. A m aior exposição nessa área levou a
novos problem as e a um período de experim entação com
novas soluções, tan to na prática social q uanto na pesqui­
sa em pírica e teórica. Isso talvez venha a definir com
m aior exatidão as funções das regras sociais na esfera
sexual — tanto em relação ao desenvolvim ento indivi­
dual quanto à vida com unitária. Mas já está claro que
um a série inteira de regras sexuais tradicionais, que se
50 Norbert Elias

form aram durante o avanço não planejado do processo


civilizador, tinha função apenas para a certos grupos he­
gem ônicos, p a ra relações de p o d er específicas, como
aquelas entre m onarca e sudito, hom ens e mulheres ou
pais e filhos. Apareceram com o m andam entos morais
eternos enquanto um grupo esteve firm em ente estabele­
cido com o dom inante, e perderam m uito de sua função e
plausibilidade quando surgiu um a distribuição ligeira­
m ente m enos desigual do poder. Isso to rn o u possível ex­
p erim entar o utros padrões de com portam ento no campo
sexual, e assim tam bém outros padrões de autocontrole
compatíveis com um m odo m ais equilibrado de vida em
com um , perm itindo um a relação m enos frustrante entre
o controle dos instintos e sua realização.
O relaxam ento dos tabus sexuais já sem função ficou
particularm ente perceptível na educação dos adolescen­
tes e no com portam ento dos adultos em relação a eles. No
com eço do século XX, o m uro de silêncio entre adultos e
crianças sobre essa questão era quase intransponível.
Relações sexuais entre adolescentes, caso descobertas,
eram m uitas vezes punidas severamente. A sexualidade
era um a esfera de segredo sobre a qual as crianças podiam
falar, no máxim o, entre si, mas raram ente com os adultos,
especialmente os pais, e de m aneira algum a com os pro­
fessores. A severidade da com pulsão social à ocultação, a
pesada pressão social sobre os im pulsos sexuais de rapa-
ies e m oças solteiros e os riscos sociais aos quais eles e,
:laro, tam bém os adultos se expunham de todos os lados
guando deixavam de controlar os im pulsos sexuais como
A solidão dos m oribundos 51

requeria a estrutura norm ativa deixaram os indivíduos


por algum tem po sozinhos com os desejos freqüente­
m ente selvagens e apaixonados de sua idade — o que
levou a essa form a de puberdade prolongada assolada
perm anentem ente pela crise, que era vista na época com o
algo determ inado pela natureza. Hoje ela aparece cada
vez mais claram ente com o um a form a de puberdade p ro­
duzida p o r um código transitório de moralidade.
Nesse m eio tem po, o segredo que cercava a esfera
sexual dim inuiu. Para pais e professores tornou-se pos­
sível, em certa m edida depen d en d o da idade, falar com
as crianças sobre problem as sexuais sem quebrar tabus
sociais ou ter que enfrentar barreiras de vergonha pes­
soal e em baraço. Não é m ais preciso proteger as crianças
com vagas alusões, ou pequenas m entiras quando per­
guntam de onde vêm os bebês. Em suma, nessa área de
risco da vida social h u m an a — a sexualidade — os
padrões de controle social, a prática social e a consciên­
cia pessoal m u d aram consideravelm ente em conjunto
durante o século XX. Um a estratégia de encobrim ento e
recalcam ento, particularm ente n a relação entre grupos
de certa posição social e p o d er e as gerações emergentes,
estratégia que parecia àqueles com prom etidos com ela
auto-evidente e necessária para a sobrevivência da so­
ciedade hum ana, isto é, com o m oral per se, m ostrou-se
na prática um elo funcional d en tro de um a sociedade
fundada sobre estruturas de poder específicas. Q uando
essas estruturas foram substituídas por uma distribui­
ção de poder m enos desigual — entre dom inadores e
52 Norbert Elias

dom inados, entre os sexos e as gerações — , tam bém


m udou a estratégia de repressão. A ordem não cedeu ao
caos quan d o o alto p atam ar vitoriano de vergonha e
em baraço em to rn o da vida sexual se reduziu, e o se­
gredo form alizado deu lugar a um co m portam ento e
um discurso mais abertos.

11

Em relação à m orte, a tendência a isolá-la e ocultá-la


torn an d o -a um a área especial dificilm ente terá dim inuí­
do desde o século XIX, tendo possivelmente aum entado.
Talvez só com parando as diferentes zonas de risco biosso-
cial em diferentes estágios de desenvolvim ento social se
perceba a desigualdade na ascensão e queda dos tabus, da
form alização e inform alização nessas diferentes áreas da
vida social, em bora na experiência das pessoas os perigos
derivados da m orte e dos instintos possam estar intim a­
m ente ligados. As atitudes defensivas e o em baraço com
que, hoje, as pessoas m uitas vezes reagem a encontros
com m orib u n d o s e com a m orte são comparáveis às rea­
ções das pessoas a encontros abertos com aspectos da
vida sexual na era vitoriana. Em relação à vida sexual, um
relaxam ento lim itado, m as perceptível, se instalou; o
constrangim ento social e talvez individual não é mais tão
rígido e maciço com o costum ava ser. Mas em relação à
agonia e à m orte, a repressão e o em baraço possivelmente
aum entaram . Claram ente, a resistência a tratar a morte
A solidão dos m oribundos 53

abertam ente, num a relação m ais descontraída com os


m o rib u n d o s, é mais forte que no caso da sexualidade.
Pode-se supor que diferenças no grau de risco envol­
vido desem penhem um papel nessa questão. O perigo que
a sexualidade irrestrita ou su p er-restrita representa é,
pode-se dizer, um perigo parcial. Estupradores ou indiví­
d u o s sexualm ente fru strad o s podem representar uma
am eaça para os outros e para si m esm os, mas, via de regra,
não m orrem disso — a vida continua. C om parada a essa
ameaça, a da m orte é total. A m orte é o fim absoluto da
pessoa. Assim, a m aior resistência a sua desmitologização
talvez corresponda à dim ensão do tem or experimentado.
Mas ao refletir sobre tais questões não podem os ig­
no rar o fato de que não é a p ró p ria m orte que desperta
tem o r e terror, mas a im agem antecipada da m orte. Se eu
caísse m o rto aqui e agora sem qualquer dor, isso não seria
m in im am en te assustador para m im . N ão estaria mais
aqui, e, conseqüentem ente, não sentiria o terror. O terror
e o tem o r são despertados som ente pela imagem da m or­
te na consciência dos vivos. Para os m ortos não há tem or
nem alegria.
Há, portanto, um a ligação fundam ental entre os dois
aspectos da vida discutidos antes. E ela pode ser facilmen­
te ignorada. Tanto a sexualidade com o a m orte são fatos
biológicos m oldados pela experiência e pelo com porta­
m ento de m aneira socialm ente específica, isto é, de acor­
do com o estágio alcançado pelo desenvolvim ento da h u ­
m anidade, e da civilização com o um aspecto desse desen­
volvim ento. Cada indivíduo assum e os padrões sociais
54 N o rb ert E lia s

comuns à sua própria maneira. Se percebemos que o de­


terminante na relação das pessoas com a morte não é
simplesmente o processo biológico desta, mas a idéia, em
*

constante evolução e específica do estágio da civilização,


que se tem dela e a atitude associada a isso, o problema
sociológico da morte aparece com contornos mais claros.
Torna-se mais fácil perceber pelo menos algumas das ca­
racterísticas específicas das sociedades contemporâneas,
e das estruturas de personalidade associadas a elas, que
são responsáveis pela peculiaridade da imagem da morte,
e, portanto, pela natureza e pelo grau de recalcamento da
morte em sociedades mais desenvolvidas.

12

Essas características específicas incluem, em primeiro lu­


gar, a extensão da vida individual nessas sociedades,
como já foi dito. Numa sociedade com uma expectativa
de vida de 75 anos, a morte para uma pessoa de 20 ou
mesmo 30 anos é consideravelmente mais remota que
numa sociedade com uma expectativa de vida de 40. É
fácil compreender que, na primeira, uma pessoa seja ca­
paz de manter a idéia da morte à distância durante um
período maior de sua vida.9 Mesmo em sociedades avan­

9 Mas talvez houvesse menos acidentes de estrada nessas sociedades


se as pessoas não a mantivessem a tal distância.
A so lid ã o dos m o rib u n d o s 55

çadas, um perigo objetivo de morte está sempre presente,


como deve ser para todas as coisas vivas. M as pode ser
esquecido. Para parte considerável dessas sociedades, a
morte ainda está bem distante. No outro caso, em socie­
dades menos desenvolvidas com uma expectativa de vida
mais curta, a incerteza é maior. A vida é mais curta, a
ameaça da morte é trazida mais insistentemente à cons­
ciência, a idéia da m orte é mais presente, e práticas m ági­
cas para lidar com essa angústia maior, em bora oculta,
pela integridade da vida e do corpo, práticas que andam
de m ãos dadas com a maior insegurança, são am plam en­
te difundidas.
A segunda característica específica das sociedades
contemporâneas aqui relevante é a experiência da morte
com o estágio final de um processo natural, experiência
que ganhou significação pelo progresso na ciência m édi­
ca e em medidas práticas para elevar o padrão de higiene.
A idéia de um processo natural ordenado é característica
de um estágio específico no desenvolvimento do conheci­
mento e da sociedade. Essa concepção da natureza está
tão estabelecida em sociedades mais desenvolvidas que
dificilmente, tom am os consciência do quanto nossa con­
fiança nas inabaláveis leis da natureza contribui para a
sensação de segurança diante dos fatos naturais, caracte­
rística das pessoas em sociedades que vivem sob o signo
da ciência. Como tomam por certa essa segurança, e tal­
vez a imaginem como emanando da racionalidade hum a­
na, em geral não compreendem a incerteza muito maior
que as pessoas em sociedades pré-científicas sentem
56 N o rb e rt E lia s

diante do que nós — mas não elas — experimentamos


:om o um nexo impessoal de eventos naturais. A imagem
da morte que prevalece nas sociedades mais desenvolvi­
das é fortemente influenciada por esse conhecimento re-
:onfortante. As pessoas bem sabem que a morte chegará;
mas saber que ela é o fim de um processo natural ajuda a
iliviar a angústia. O conhecimento da implacabilidade
dos processos naturais é aliviado pelo conhecimento de
que, dentro de certos limites, eles são controláveis. Mais
do que nunca, podem os hoje esperar — com a habilidade
dos médicos, a dieta e os remédios — o adiamento da
morte. Nunca antes na história da humanidade os méto­
dos mais ou menos científicos de prolongar a vida foram
discutidos de maneira tão incessante em toda a sociedade
:om o em nossos dias. O sonho do elixir da vida e da fonte
da juventude é muito antigo, mas só assum iu uma forma
:ientífica — ou pseudocientífica — em nossos dias. A
:onstatação de que a morte é inevitável está encoberta
jelo empenho em adiá-la mais e mais com ajuda da m e­
dicina e da previdência, e pela esperança de que isso tal-
/ez funcione.

13

Profundamente ligada a essas características da estrutura


; da experiência das sociedades contemporâneas, há uma
:erceira que é responsável por traços comuns da imagem
da morte e da atitude em relação a ela — o grau relativa­
A s o lid ã o dos m o rib u n d o s 57

mente alto de pacificação interna nessas sociedades. Liga­


do a isso está o fato de que as pessoas que form am essas
sociedades normalmente visualizam a morte de maneira
bem específica. Q uando tentam imaginar o processo,
provavelmente pensam primeiro numa morte pacífica na
cama, resultado de doença ou do enfraquecimento causa­
do pela velhice. Esse retrato da morte que dá ênfase ao
caráter natural do processo aparece como normal, ao
passo que a morte violenta, particularmente pelas m ãos
de outra pessoa, aparece com o excepcional e criminosa.
O fato de que essa segurança física contra a violência dos
outros não seja tão grande em todas as sociedades como
na nossa não é tão claramente percebido.
É, portanto, necessário dizer que o grau relativa­
mente alto de proteção contra a violência causada por
terceiros, de que gozam os membros das sociedades
mais desenvolvidas, e o tratamento da morte violenta
como algo excepcional e crim inoso não surgem da visão
pessoal das pessoas envolvidas, mas de uma organização
muito específica da sociedade — um m onopólio relati­
vamente eficaz da violência física. Tal m onopólio não
pode ser alcançado de um dia para outro; resulta de um
longo e, em larga medida, não planejado desenvolvi­
mento. Em sociedades desse tipo atingiu-se um ponto
em que os dirigentes permitem o uso da violência ape­
nas a grupos específicos controlados por eles. Em m ui­
tos casos somente eles — a polícia e as forças arm adas
— são autorizados a portar arm as sem risco de punição
e, mesmo, a usá-las em certas situações. Em term os
8 N o rb e rt Elias

erais, foi só nos últimos duzentos ou trezentos anos


ue a organização dos Estados europeus e de seus des-
endentes atingiu o grau e padrão de m onopólio efetivo
o controle da violência que tornou possível o relativo
om ínio das paixões e a relativa exclusão da violência
as relações humanas, hoje tida com o assegurada nas
Dciedades mais desenvolvidas, e aos quais as relações
umanas implícitas na produção e distribuição de bens
evem seu caráter específico com o relações econômicas,
ois onde a coerção direta por meio da violência física
etermina a produção e distribuição de bens, nas formas
e rapina, guerra e escravidão, esses processos não têm
salmente o caráter propriam ente econômico; são difi-
ilmente calculáveis e lhes faltam as regularidades re-
orrentes e quantificáveis, fundamento da ciência da
conomia, e inerentes à “econom ia” não violenta como
sfera especial da sociedade.
Em sociedades que carecem de tais instituições alta-
íente especializadas de m onopólio da violência física, e
articularmente em sociedades guerreiras, ataques físicos
e pessoas umas contra as outras pessoas são um aspecto
íuito mais normal da vida social. Se não todos, pelo
íenos os membros do estrato mais alto nessas socieda-
es portam armas como apêndice indispensável em sua
iteração com os outros. Pessoas fisicamente fracas ou
ícapacitadas, velhos, mulheres e crianças permanecem
m geral confinados à casa ou ao castelo, vilarejo ou quar-
íirão urbano habitado por seu próprio povo; só podem
yenturar-se fora com proteção especial.
A so lid ã o dos m o rib u n d o s 59

O desenvolvimento da estrutura da personalidade


toma, nessas sociedades, um a direção diferente daquele
das sociedades in du striais altam ente organizadas. A
prontidão para o ataque e a defesa no combate físico, pelo
m enos entre os homens, é maior, a expectativa de morte
em confronto sangrento com outros está constantemente
presente, a expectativa de m orrer pacificamente na cama
é excepcional. Aqui também vemos em que medida estru­
turas de personalidade e concepções a elas relacionadas,
inclusive a imagem da morte, concepções que em nossa
própria sociedade tendemos a tom ar com o certas e talvez
a imaginar como características humanas universais, são
na realidade influenciadas por peculiaridades da estrutu­
ra social que se cristalizaram gradualmente no curso de
um longo processo social.
De todo modo, m esm o em sociedades que estão in­
ternamente pacificadas, a expectativa de morrer na cama
é mais enganosa do que parece à primeira vista. Afora os
números bastante elevados de acidentes e homicídios,
conflitos grupais que tendem à solução violenta aum en­
tam em nossos dias, conflitos cujos participantes acredi­
tam que só podem ser resolvidos pela morte de seus ini­
migos e pelo sacrifício dos membros do próprio grupo, e
que são em geral planejados, m esm o em tempos de paz,
como lutas violentas de vida e morte.
Entre os problem as de nossa época que talvez m ere­
çam maior atenção, portanto, figura o da transformação
psicológica sofrida por pessoas que fazem a transição de
uma situação em que o assassinato de outras pessoas é
so N o rb e rt E lia s

:stritamente proibido e rigorosamente punido para uma


ituação em que a morte dos outros, seja pelo Estado,
>elo partido ou outro grupo, não só é socialmente permi-
ida como explicitamente demandada.
Se falamos de um processo civilizador em cujo de-
orrer os moribundos e a morte são resolutamente bani-
los para os bastidores da vida social e cercados por senti-
nentos relativamente intensos de constrangimento e ta-
>us verbais relativamente rígidos, devemos qualificar a
firmação acrescentando que as experiências das duas
randes guerras européias, e talvez ainda mais a dos cam-
•os de concentração, mostram a fragilidade da consciên-
ia que proíbe matar e por isso insiste na segregação dos
moribundos e dos m ortos, tanto quanto possível, da vida
ocial normal. Os mecanismos de autocoerção envolvi-
os na repressão da morte em nossas sociedades clara-
lente se desintegram de m odo relativamente rápido
uando o mecanismo externo de coerção im posto pelo
stado — ou por seitas ou grupos de combate — , funda-
o em doutrinas e crenças coletivas respeitadas, m uda
iolentamente de rota e ordena matar outras pessoas. Nas
uas guerras mundiais, a sensibilidade em relação a ma-
ir, em relação aos m oribundos e à morte se evaporou
ipidamente para a maioria das pessoas. Com o a equipe
os campos de concentração se ajustou psicologicamente
dsassassinatos em massa diários é uma questão aberta
ue mereceria investigação cuidadosa. Essa questão é
mitas vezes obscurecida pela questão de quem é o culpa-
o por tais acontecimentos. Mas, para a prática social, e
A so lid ã o dos m o rib u n d o s 61

com o propósito de evitar tais acontecimentos, a primeira


questão, mais factual, é de importância capital. A resposta
estereotipada “Eu obedecia ordens” m ostra em que medi­
da a estrutura da consciência individual ainda dependia
do mecanismo externo de coerção do Estado.

14

A quarta característica específica das sociedades desen­


volvidas que merece menção com o pré-condição da pe­
culiaridade de sua imagem da morte é o alto grau e
padrão específico de individualização. A imagem da
morte na memória de uma pessoa está muito próxima
de sua imagem de si m esm a e dos seres hum anos preva­
lecente em sua sociedade. Em sociedades mais desenvol­
vidas as pessoas em geral se vêem com o seres individuais
fundamentalmente independentes, com o m ônadas sem
janelas, com o “sujeitos” isolados, em relação aos quais o
mundo inteiro, incluindo todas as outras pessoas, re­
presenta o “m undo externo”. Seu “ m undo interno”, ap a­
rentemente, é separado desse “m undo externo”, e p o r­
tanto das outras pessoas, como que por um m uro invi­
sível.
Esse m odo específico de experimentar a si mesmo, a
auto-imagem do homo clausus característica de um está­
gio recente da civilização, está intimamente ligado a um
modo igualmente específico de experimentar, como ante­
cipação de nossa própria morte e provavelmente na si-
52 N o rb e rt Elias

uação real, nosso próprio ato de morrer. Mas a pesquisa


obre a morte — por razões que não são independentes
la repressão social — ainda está num estado incipiente,
-lá ainda muito a fazer para uma melhor compreensão da
•xpçriência e das necessidades dos moribundos e da co-
íexão entre tal experiência e tais necessidades, de um
ado, e o m odo de vida e auto-imagem, de outro. De
orma velada, com a ajuda de conceitos como “mistério”
“ nada” escritos existencialistas às vezes projetam uma
magem quase solipsista de um ser humano em agonia. O
nesmo pode ser dito do “ teatro do absurdo”. Seus ex-
•oentes também partem implicitamente — e às vezes
xplicitamente — da suposição de que a vida de uma
•essoa, como a vêem — isto é, a vida de um ser funda-
nentalmente isolado e hermeticamente segregado do
nundo — , deve ter um sentido, e talvez mesmo um sen-
ido predeterminado, apenas em si mesma e para si mes-
~ia. Sua busca pelo sentido é um a busca pelo sentido de
ma pessoa individual em isolamento. Quando deixam
e encontrar essa espécie de sentido, a existência humana
ies parece sem sentido; sentem-se desiludidos; e o vazio
e sentido assim estabelecido para a vida humana geral-
lente encontra a seus olhos sua expressão suprema na
onstatação de que cada ser humano deve morrer.
É fácil compreender que uma pessoa que acredite
iver como um ser sem sentido morra da mesma forma,
las essa compreensão do conceito de sentido é tão enga-
adora quanto a imagem do ser humano a que corres-
onde. A categoria do “sentido” também é aqui marcada
A so lid ão dos m o rib u n d o s 63

pela imagem do homo clausus. O fato peculiar de que, pela


mediação da linguagem, dados de todos os tipos, inclusi­
ve nossa própria vida, podem ter sentido para as pessoas
foi durante um bom tempo objeto de copiosas reflexões
filosóficas. Mas, com poucas exceções, essas meditações
tentam obter acesso ao problema do sentido postulando
com o "sujeito” deste — à maneira tradicionalmente filo­
sófica — um indivíduo humano num vácuo, um a môna-
da isolada, um “eu” enclausurado, e então talvez, num
nível mais alto de generalidade, o ser hum ano isolado ou,
se for o caso, a consciência como um universal. De manei­
ra expressa ou não, espera-se então que cada pessoa por si
mesma, precisamente com o m ônada isolada, deva ter um
sentido, e a falta de sentido da existência humana é la­
mentada quando ele não é descoberto.
Mas o conceito de sentido não pode ser com preendi­
do por referência a um ser humano isolado ou a um
universal derivado dele. O que cham am os de “sentido” é
constituído por pessoas em grupos mutuamente depen­
dentes de um a form a ou de outra, e que podem comuni-
car-se entre si. O “sentido” é uma categoria social; o sujei­
to que lhe corresponde é uma pluralidade de pessoas
interconectadas. Em suas relações, sinais que trocam
entre si — que podem ser diferentes para cada grupo
— assum em um sentido, um sentido comunal, para co­
meçar.
Grupos hum anos que falam um a língua comum po­
dem servir com o modelo básico, ponto de partida para
qualquer discussão sobre problemas de sentido. A comu-
64 N o rb e rt E lia s

niçação por m eio de línguas é uma característica exclusi­


vamente hum ana, tanto quanto a exigência de sentido.
Nenhuma outra coisa viva se comunica dessa maneira;
nenhuma outra atribui sentidos aprendidos e específicos
do grupo a padrões sensoriais igualmente aprendidos e
também específicos do grupo, utilizados como meios de
comunicação dominantes. Em todos os outros casos, si­
nais não aprendidos e específicos da espécie dominam a
comunicação. Certamente, entre os humanos, padrões
sonoros produzidos por um a pessoa podem ter um “sen­
tido” para as outras. Mas só têm um sentido se — e
porque — o emissor e o receptor aprenderam a associar
aos conjuntos específicos de padrões sonoros as mesmas
imagens mnemónicas, ou, em outras palavras, o mesmo
sentido. Nesta forma, a mais elementar, de “sentido”, seu
caráter social se mostra claramente. Assim, um a pessoa
de língua inglesa pode esperar que, ao emitir o padrão
sonoro “Que horas são?” outra pessoa de língua inglesa
associará a esse padrão sonoro à mesma imagem mne­
mónica que o emissor e responderá com um apropriado
padrão sonoro, portador de imagens, como "Precisamen­
te quatro e quinze”. Emitido nas ruas de Paris, o padrão
sonoro “Que horas são?” em inglês pode não obter res­
posta alguma ou provocar um olhar de estranhamento.
Os sons careceriam de sentido num contexto social dife­
rente. Todo ser humano se torna vinculado aos outros
desde a mais tenra idade aprendendo a usar, como meio
de emitir e receber mensagens, um código de símbolos
específicos do grupo, ou, em outras palavras, uma língua.
A so lid ã o dos m o rib u n d o s 65

Cada pessoa pode — dentro de certos limites — variá-lo


individualmente; mas se for longe dem ais acaba por se
privar— no presente ou no futuro — da comunicabilida-
de do conhecimento e tam bém de seu sentido.
O sentido das palavras e o da vida de uma pessoa
têm em com um o fato de que o sentido associado a elas
por essa pessoa não pode ser separado do associado a
elas por outras. A tentativa de descobrir na vida de
alguém um sentido independente do que essa vida sig­
nifica para as outras pessoas é inútil. N a práxis da vida
social a conexão entre os sentim entos de uma pessoa e
a consciência de que eles são significativos para outros
seres humanos, e de que os outros são significativos para
essa vida, é fácil de descobrir. Nesse plano, normalmente
com preendem os sem dificuldade que expressões como
“significativo” e “ insignificante”, referidas a um a vida
hum ana, estão intimamente ligadas ao que significa para
os outros o que essa pessoa é ou faz. M as, nas reflexões
que a pessoa faz sobre si m esm a, essa compreensão
desaparece com facilidade. Aí, o sentimento am plam en­
te difundido nas sociedades mais desenvolvidas com
seus m embros altamente individualizados — de que
cada um existe apenas para si mesmo, independente de
outros seres humanos e de todo o “ m undo externo” —
em geral acaba prevalecendo, e com ele a idéia de que
um a pessoa deve ter um sentido exclusivamente seu. O
m odo tradicional de filosofar que vem junto com esse
m odo de pensar, e é ao m esm o tempo uma de suas
principais manifestações, m uitas vezes obstrui a inclu-
66 N o rb ert Elias

são daquilo que é imediatamente evidente na prática —


a participação da pessoa num m undo de outras pessoas
e “objetos” em reflexões de nível mais alto.
Todo ser humano vive de plantas e animais “exter­
nos”, respira ar “externo” e tem olhos para luzes e cores
“externas”. Nasce de pais “externos” e ama ou odeia, faz
amigos ou inimigos de pessoas “externas”. No nível da
práxis social as pessoas sabem disso. Numa reflexão mais
distanciada essa experiência é muitas vezes recalcada.
Membros de sociedades complexas então têm frequente­
mente a experiência de si m esm os como seres cujo “self
íntimo” é totalmente separado do “ mundo externo”. Uma
poderosa tradição filosófica parece ter legitimado éssa
dicotom ia ilusória. Discussões sobre o sentido foram
profundamente afetadas por isso. O “sentido” é em geral
tratado com o mensageiro do “ mundo íntimo” de um in­
divíduo enclausurado.
O resultado, a distorcida auto-imagem de uma pes­
soa como ser totalmente autônom o, pode refletir senti­
mentos muito reais de solidão e isolamento emocional.
Tendências desse tipo são bastante características da es­
trutura de personalidade específica das pessoas de nossa
época em sociedades altamente desenvolvidas e do tipo
particular de individualização que nelas prevalece. O per­
manente autocontrole, nesse caso, está muitas vezes tão
firmemente embutido nas pessoas que crescem nessas
sociedades que é experim entado como uma muralha
realmente existente, que bloqueia o afeto e outros impul-
A so lid ão dos m o rib u n d o s 67

sos espontâneos na direção de outras pessoas e coisas,


afastando-as como conseqüência.
Até aqui, o problema da solidão dos m oribundos foi
considerado acima de tudo em relação às atitudes dos
vivos. Mas isso precisa ser complementado. Nessas socie­
dades, compreensivelmente, tendências a sentimentos de
solidão e isolamento muitas vezes fazem parte da estrutu­
ra da personalidade dos próprios m oribundos. Sempre
há, é claro, diferenças relacionados a classe, sexo e gera­
ção. Pode-se supor que essas tendências são particular­
mente desenvolvidas em círculos acadêmicos, mais geral­
mente nas classes médias que nas classes operárias, talvez
mais entre os homens do que entre as mulheres. Mas isso
é, por ora, mera adivinhação, que tem por objetivo cha­
mar a atenção para problemas que raramente são tocados
e dizer que não foram esquecidos.
De todo modo, nessas sociedades uniformemente
pacificadas em que a vida comunitária dem anda um con­
trole completo e uniforme de todos os impulsos instinti­
vos vulcânicos, um arrefecimento permanente das emo­
ções violentas, há certas características comuns da estru­
tura da personalidade que transcendem a classe e outras
diferenças de grupo. E elas emergem claramente apenas
pela com paração com sociedades em diferente estágio de
civilização. Essas características comuns incluem o alto
grau de individualização, a ampla e constante contenção
de todos os impulsos instintivos e emocionais fortes e
uma tendência ao isolamento, que se dão paralelamente a
essas estruturas da personalidade até agora.
68 N o rb e rt E lia s

Essa tendência também pode ser percebida nos m o­


ribundos. Podem resignar-se a ela ou, precisamente por­
que estão para morrer, tentar um a última oportunidade
de transpor a muralha. Com o quer que seja, necessitam
mais que nunca da sensação de que não deixaram de ter
sentido para outras pessoas — dentro de certos limites: a
excessiva expressão de simpatia pode ser tão intolerável
para eles com o a falta dessa expressão. Seria incorreto
falar de rejeição e reserva, induzidas pela civilização,
dos vivos em relação aos m oribundos em sociedades
com o a nossa sem indicar ao m esm o tem po o possível
em baraço e reserva dos próprios moribundos em rela­
ção aos vivos.

15

A natureza especial da morte e de sua experiência em


sociedades avançadas não pode ser entendida de maneira
apropriada sem referência ao poderoso impulso à indivi­
dualização que se estabeleceu com o Renascimento e que,
com muitas flutuações, continua até hoje. Nas fases ini­
ciais encontra expressão na idéia do contraste entre a vida
sociável e a morte solitária — por exemplo, nas linhas de
Opitz:

Tenho pouco para legar


Mas tenho um nobre vinho;
A so lid ã o .d o s m o rib u n d o s 69

Alegrarei meus amigos


Ainda que morra sozinho . 10

Esse “sozinho”, a idéia de que se pode estar alegre com


os outros m as se deve morrer só, pode parecer tão auto-
evidente hoje que nos inclinamos a ver nele um a experiên­
cia de todas as pessoas em todos os tempos e lugares. Mas
essa idéia não é encontrada em todos os estágios do desen­
volvimento humano. É muito menos universal que as ten­
tativas das pessoas de encontrarem uma explicação de por
que devem morrer. E desempenha um papel importante
na mais antiga versão do épico sumério de Gilgamesh que
possuím os, datado do começo do segundo século antes de
Cristo. Por contraste, a idéia de ter que morrer só é caracte­
rística de um estágio comparativamente tardio da indivi­
dualização e da autoconsciência.
Esse “sozinho” aponta para um complexo de senti­
dos inter-relacionados. Pode referir-se à expectativa de
que não é possível com partilhar o processo de morrer
com ninguém. Pode expressar o sentimento de que com
nossa morte o pequeno mundo de nossa própria pessoa,
com suas m em órias exclusivas e sentimentos e experiên­
cias só conhecidos por nós mesmos, com seus próprios
conhecimento e sonhos, desaparecerá para sempre. Pode
referir-se ao sentimento de que, ao morrer, som os deixa­
dos sós por todas as pessoas a que nos sentim os ligados.

10 M artin O pitz, Weltliche Poemata 1644. Oden oder Gesänge X V III.


70 N o rb e rt Elias

Com o quer que seja visto, esse motivo do morrer isolado


ocorre mais freqüentemente no período moderno que
em qualquer anterior. É um a das formas recorrentes da
experiência das pessoas num período em que a auto-ima-
gem de alguém com o um ser totalmente autônomo, não
apenas diferente de todos os outros, mas separado deles,
existindo inteiramente independente deles, torna-se cada
vez mais marcada. A ênfase especial assumida no período
moderno pela idéia de que se morre em isolamento equi­
vale à ênfase, nesse período, do sentimento de que se vive
só. Sob esse ponto de vista também a imagem de nossa
própria morte está intimamente ligada à imagem de nós
mesmos, de nossa própria vida, e da natureza dessa vida.
Numa novela curta e não muito transparente, O se­
nhor e o homem, Tolstoi contrasta a morte de um comer­
ciante de origem camponesa com a de seu empregado
camponês. O comerciante venceu na vida — por sua ener­
gia, sua atividade constante, sempre em busca de bons
negócios, sempre em conflito com concorrentes que que­
riam derrubá-lo. Nikita, o empregado, que ele sustenta e a
quem vez ou outra trapaceia no pagamento do salário,
)bedece às suas ordens. Aceita o bem e o mal como se
ipresentam, pois não tem escolha. Para ele não há como
ieixar essa vida, não há escapatória — exceto a vodca. Às
rezes fica bêbado de cair. Torna-se então selvagem e peri-
joso. Sóbrio, é paciente, obediente, amigável e devotado a
eu senhor. Viajam juntos numa nevasca com um cavalo
òrte puxando o trenó. Um negócio, a compra de madeira
>ara não deixar que um concorrente a adquira, aguarda o
A so lid ã o d o s m o rib u n d o s 71

comerciante num vilarejo não muito distante. A neve fica


mais pesada durante a jornada. Perdem a trilha e final­
mente, durante a noite, atolam numa ravina e são lenta­
mente engolidos pela neve. Conseguem erguer, como é
habitual, uma espécie de bandeira numa vara comprida
para que possam ser socorridos no dia seguinte. Quase até
o fim, o comerciante continua ativo o quanto pode. Sonha
com tudo o que alcançou, e com o que ainda tem pela
frente, levanta-se quando percebe que o empregado está
morrendo congelado, deita-se sobre ele com seu grosso
casaco de pele para mantê-lo aquecido, cai lentamente no
sono e congela até morrer. Nikjta, seu empregado cam po­
nês, entregà-se à morte pacientemente e sem resistir:

A idéia da morte, a qual provavelmente o levaria nesta


mesma noite, cresceu dentro dele, mas não tinha nada de
dolorosa ou terrível. Isso porque ele tivera muito poucos
dias felizes e de festa em sua vida, mas muitas semanas
amargas, e estava cansado do trabalho incessante.

Tolstoi descreve a habitual subserviência do trabalha­


dor a seu senhor terreno — devoção só superada pela do
leal cavalo — e, assim, também ao Senhor no Céu. Tenta,
portanto, deixar bem explicitada a conexão entre a manei­
ra como uma pessoa vive e a maneira como morre. ’ 1

11 Para com plem entar o que diz Ariès da serenidade do cam ponês
russo m oribundo com o aparece na literatura, essa citação pode ser
interessante. M ostra m uito claram ente a conexão entre o m odo de
viver e o m odo de morrer, que Ariès até certo ponto negligencia.
72 N o rb e rt E lia s

Para o senhor, o comerciante lutando para vencer, a


vida, e portanto a sobrevivência, tem alto grau de sentido
e de valor. Ele continua ativo e tenta manter seu emprega­
do e ajudante vivo, até que o frio o derrota. O empregado,
a quem a vida custa muito trabalho, esforço e opressão,
mas raramente supõe uma tarefa ou objetivo próprios,
sonha pacientemente com a morte, e só escapa dela —
como quer Tolstoi — pela proteção do corpo e do casaco
quente de seu senhor.
O modo como uma pessoa morre depende em boa
m edida de que ela tenha sido capaz de formular objetivos
e alcançá-los, de imaginar tarefas e realizá-las. Depende
do quanto a pessoa sente que sua vida foi realizada e
significativa — ou frustrada e sem sentido. As razões des­
ses sentimentos nem sempre são claras — essa também é
uma área ainda aberta à pesquisa. Mas quaisquer que
sejam as razões, podemos talvez supor que morrer é mais
fácil para aqueles que acreditam terem feito a sua parte,
mais difícil para os que sentem terem fracassado na bus-
:a de seus objetivos, e especialm ente difícil para aque­
les que, por m ais que sua vida possa ter sido bem suce­
dida, sentem que sua m aneira de morrer é em si mesma
>em sentido.
Morte significativa, morrer sem sentido — esses con-
:eitos também abrem a porta para problemas que, pode-
se imaginar, recebem muito pouca consideração pública.
£m certa medida, isso bem pode ser porque são facilmen-
:e confundidos com outro problema, quase idêntico na
A so lid ão d o s m o rib u n d o s 73

formulação, mas totalmente diferente no sentido. Se que­


remos dizer que alguém se ocupa de algo totalmente inú­
til, podem os dizer por exemplo que ele ou ela está refle­
tindo sobre o sentido da vida. A inutilidade nesse caso
deriva do fato de que se está procurando um sentido
metafísico para a vida hum ana, um sentido que é, por
assim dizer, ditado para o indivíduo, seja por poderes
supra-hum anos, seja pela natureza. Mas tal sentido meta­
físico pode, na melhor das hipóteses, ser objeto de espe­
culação filosófica; podem os dar rédeas soltas a nossos
desejos e fantasias na busca desse tipo de sentido — as
respostas não poderão ser m ais que invenções arbitrárias.
Seu conteúdo não pode ser nem comprovado nem rejei­
tado.
M as o sentido em discussão aqui é de espécie dife­
rente. As pessoas experim entam os eventos que lhes
acontecem como sendo significativos ou não, com o ten­
do ou não sentido. É esse sentido experimentado que
está em questão. Se um hom em de trinta anos, pai de
duas crianças pequenas e casado com uma mulher que
ama e que também o am a, envolve-se num acidente de
estrada com um m otorista que vinha na contra-m ão e
morre, dizemos que é um a morte sem sentido. Não
porque o morto tenha deixado irrealizado um sentido
extra-humano, mas porque um a vida que não tinha
qualquer relação com a da família afetada, a vida do
outro motorista, de um só golpe, com o que vindo de
fora e por acaso, destruiu a vida, os objetivos e planos,
os sentimentos firmemente enraizados de um ser hu­
74 N o rb ert E lia s

mano, e, portanto, algo que tinha todo o sentido para


essa família. Não foram destruídas só as expectativas,
esperanças e alegrias do morto, mas também as dos
sobreviventes, sua mulher e filhos. Para as pessoas que
constituíam essa família, tal arranjo social, tal grupo
humano, tinha uma função investida de valores alta­
mente positivos. Se alguma coisa tem tal função para a
vida de alguém e um acontecimento a reforça, dizemos
que tem sentido para essa pessoa. Inversamente, quando
alguma coisa tem tal função para uma pessoa ou um
grupo e deixa de existir, torna-se irrealizável ou é des­
truída, falamos de uma perda de sentido.
O pouco que foi possível dizer sobre a natureza do
sentido e, portanto, sobre o “sentido de uma vida”, pode
não ser inteiramente destituído de valor para entender
um problema específico dos moribundos. A realização do
sentido para um indivíduo, como vimos, está intima­
mente relacionada ao significado que se adquire, ao longo
da vida, para as outras pessoas, seja através de sua própria
pessoa, de seu comportamento ou de seu trabalho. Hoje
as pessoas tentam ajudar os m oribundos acima de tudo
aliviando sua dor e cuidando na medida do possível de
seu conforto físico. Com esses esforços, mostram que não
deixaram de respeitá-los enquanto seres humanos. Mas
em hospitais atarefados, isso muitas vezes acontece, e
compreensivelmente, de modo um tanto mecânico e im ­
pessoal. Mesmo as famílias às vezes ficam sem as palavras
certas nessa situação pouco familiar de tentar ajudar um
moribundo. Nem sempre é fácil m ostrar aos que estão
f

A so lid ã o d o s m o rib u n d o s 75

para morrer que eles não perderam seu significado para


os outros.
Se isso acontece, se um a pessoa sentir quando está
morrendo que, embora ainda viva, deixou de ter signifi­
cado para os outros, essa pessoa está verdadeiramente só.
É precisamente dessa form a de solidão que há exemplos
de sobra em nossos dias, alguns corriqueiros, outros ex­
traordinários e extremos. O conceito de solidão tem um
am plo espectro. Pode referir-se a pessoas cujo desejo de
am or em relação aos outros foi muito cedo tão ferido e
perturbado que mais tarde dificilmente podem reviver a
experiência sem sentir os golpes anteriormente recebi­
dos, sem sentir a dor a que esse desejo as expôs em outros
tempos. Involuntariamente, pessoas assim afetadas ocul­
tam seus sentimentos em relação aos outros. É um a for­
ma de solidão. Outra form a de solidão, que é social no
sentido mais estrito, ocorre quando as pessoas vivem
num lugar ou têm um a posição que não lhes permite
encontrar outras pessoas da espécie que sentem precisar.
Neste, e em muitos casos afins, o conceito de solidão
refere-se a uma pessoa que por essa ou aquela razão é
deixada só. Tais pessoas podem viver entre as outras, mas
não têm significado afetivo para elas.
Isso, porém, não é tudo. O conceito de solidão inclui
também uma pessoa em meio a muitas outras para as
quais não tem significado, para as quais não faz diferença
sua existência, e que rom peram qualquer laço de senti­
mentos com ela. Pertencem a esse grupo alguns pedintes
e os bêbados que sentam nas soleiras e nem são percebi­
76 N orbert Elias

dos pelos passantes. As prisões e câmaras de tortura dos


ditadores são exemplos dessa espécie de solidão. O cami­
nho para as câmaras de gás é outro. Ali, crianças e mulhe­
res, jovens e velhos, eram levados nus para sua morte por
outros que se haviam livrado de todo sentimento de iden­
tidade e simpatia. Como, além disso, os que eram levados
para a morte eram reunidos ao acaso e eram desconheci­
dos entre si, cada um deles, em meio a várias pessoas,
estava sozinho e solitário no mais alto grau.
Esse exemplo extremo pode nos mostrar quão fun­
damental e incomparável é o significado das pessoas para
as outras. Também dá uma indicação do que significa
para os moribundos se sentirem — ainda em vida —
excluídos da comunidade dos viventes.

16

A morte não é terrível. Passa-se ao sono e o mundo desa­


parece — se tudo correr bem. Terrível pode ser a dor dos
moribundos, terrível também a perda sofrida pelos vivos
quando morre uma pessoa amada. Não há cura conheci­
da. Somos parte uns dos outros. Fantasias individuais e
coletivas em torno da morte são freqüentemente assusta­
doras. Como resultado, muitas pessoas, especialmente ao
envelhecerem, vivem secreta ou abertamente em cons­
tante terror da morte. O sofrimento causado por essas
fantasias e pelo medo da morte que engendram pode ser
tão intenso quanto a dor física de um corpo em deterio­
A solidão dos m o rib u n d o s 77

ração. Aplacar esses terrores, opor-lhes a simples realida­


de de uma vida finita, é uma tarefa que ainda temos pela
frente. É terrível quando pessoas morrem jovens, antes
que tenham sido capazes de dar um sentido às suas vidas
e de experimentar suas alegrias. É também terrível quan­
do homens, mulheres e crianças erram famintas pela ter­
ra estéril onde a morte não tem pressa. Há muitos terro­
res que cercam a morte. O que as pessoas podem fazer
para assegurar umas às outras maneiras fáceis e pacíficas
de morrer ainda está por ser descoberto. A amizade dos
que continuam vivendo e o sentimento dos moribundos
de que não causam embaraço aos vivos são certamente
um meio. E o constrangimento social, o véu de descon­
forto que freqüentemente cerca a esfera da morte em
nossos dias é de pouca ajuda. Talvez devêssemos falar
mais aberta e claramente sobre a morte, mesmo que seja
deixando de apresentá-la como um mistério. A morte
não tem segredos. Não abre portas. É o fim de urria pes­
soa. O que sobrevive é o que ela ou ele deram às outras
pessoas, o que permanece nas memórias alheias. Se a hu­
manidade desaparecer, tudo o que qualquer ser humano
tenha feito, tudo aquilo pelo qual as pessoas viveram e
lutaram, incluídos todos os sistemas de crenças seculares
e sobrenaturais, torna-se sem sentido.
Envelhecer e M o rrer:
A lg u n s P ro b le m a s S o cio ló g ico s

Uma experiência de juventude assu m iu certa significação


para m im agora que sou mais velho. Assisti a uma confe­
rência de um físico muito conhecido em ( lambridge. I-.lt*
entrou devagar, arrastan do os pés, um h om em muito ve­
lho. Hu me surpreendi pensando: “ Por que ele arrasta os
pés assim? Por que não pode ca m in h a r c o m o um ser
h u m a n o norm al?” Na hora, me corrigi: “ Não [iode evitar,
é muito velho.”
Minha espontânea reação juvenil a visão de um velho
é típica da espécie de .sentimentos que a visão dos velhos
suscita hoje, e talvez ainda m ais em te m p o s passados, em
pessoas saudáveis nos g ru p o s de “ idade n o r m a l”. Elas s a ­
bem que os velhos, m e s m o q u a n d o saudáveis, muitas ve­
zes têm dificuldade em m over-se da m e s m a m an eira que
p esso as saudáveis de o u tra faixa etária, exceto as crianças
pequenas. S ab e m disso, m as de m a n e ira rem ota. N ã o p o ­
dem im a g in a r a situ ação em que su as p ró p r ia s pern as e
tronco d e ix a m de ob ed ecer à su a vontade, c o m o seria
n o rm a l.
U so d e lib e ra d a m e n te a p alav ra “ n o r m a l ”. Q u e as p e s ­
soas se to rn e m diferentes q u a n d o envelhecem é muitas
vezes visto, e m b o r a in volun tariam en te, c o m o u m desvio

79
80 Norbert Elias

da norm.i social. Os outros, os grupos do “ idade normal",


muitas vozes tòm dificuldade em se colocar no lugar dos
mais velhos na cxporièiK ia cie envelhecer — o que é com
preensível. l’ois a maioria tias pessoas mais jovens nao
tem base de experiência própria para imaginar o que
ocorre quando o tecido muscular endurece gradualmen­
te, ficando as ve/es llacido, quando as juntas enrijecem o
a renovaçao das células se torna mais lenia. Os processos
fisiológicos sao bem conhecidos pela ciência e parcial­
mente com preen didos. Há extensa literatura sobre o
tema. Muito menos compreendida, e menos abordada na
literatura, é a própria experiência do envelhecimento. £
um tópico pouco discutido. Não deixa de ser importante
para o tratamento dos velhos por aqueles que não o são
— ou ainda não o são — , e não apenas para o tratamento
médico, ter um a com preensão m aior e mais detalhada da
experiência do envelhecimento, e também da morte. Mas
claramente, com o já disse, há dificuldades especiais que
im pedem a empatia. Não é fácil imaginar que nosso pró­
prio corpo, tão cheio de frescor e muitas vezes de sensa­
ções agradáveis, pode ficar vagaroso, cansado e desajeita­
do. Não podem os imaginá-lo e, no fundo, não o quere­
mos. Dito de outra maneira, a identificação com os ve­
lhos e com os m oribundos compreensivelmente coloca
dificuldades especiais para as pessoas de outras faixas
etárias. Consciente ou inconscientemente, elas resistem à
idéia de seu próprio envelhecimento e morte tanto qu an ­
to possível.
{ rivelheccr e m orrer 81

Ks.sa resistência, esse processo d<- re< aJcaniento, e, por


razoes as (jnais retornarei, provavelmente /nais evidente
nas sociedades desenvolvidas que na-, íiieno> desenvoh j -
d.is. Agora que estou v'ellio sei, por a-.sui, di/er, pelo outro
lado, quao difícil é para as pessoas |o\ens ou de meia-
idade entender a situação e a eMpencn*. :a do -. velhos. M u i­
tos de meus conhecidos me dj/em Ipalavras «eeníis como:
“ Impressionante! C om o você cor» segue -e manter sauda-
vel? Na sua idade!” ou ‘‘Você a:r.d<i nadar Que maravilha!”
Sinto-me um equilibrista, familiarizado com os risco.s de
seu modo de vida e razoavelmente certo de que alcançara
a escada na outra ponta da corda, voltando ao chão
tranqüilamente a seu devido tempo. Ma.s a> pessoas
que assistem a isso de baixo sabem que ele pode cair j
qualquer m om ento e o contem plam excitadas e um
tanto assustadas.
Lembro outra experiência que pode servir como
exemplo da não-identiticação dos mais jovens com os
velhos. Ura professor visitante numa universidade alemã
e tui convidado para jantar por um colega que estava no
auge de sua vida. Serviu-me um aperitivo antes do jantar
e me convidou a sentar numa moderna poltrona de lona,
muito baixa. Sua mulher nos chamou para a mesa. Le­
vantei, e ele me lançou um olhar de surpresa, talvez um
tanto decepcionado: “ Puxa, você está em muito boa for­
ma”, disse. “ Não faz muito tempo, o velho Plessner jantou
conosco. Sentou na poltrona baixa como você, mas não
conseguiu se levantar, por mais esforço que fizesse. Você
precisava ver. No fim, tivemos que ajudá-lo.” E ria que ria:
N o r b e r t E lia s

“ H a h a h a h a ! N ão con seguia levantar!” M eu anfitrião se


sacudia de rir. Evidentem ente, tam b é m nesse caso, a iden­
tificação entre os não-velhos e os velhos causava dificul­
dades.
A sensação “ talvez eu fique velho um dia” pode estar
inteiram ente ausente. Tudo o que sobra é o gozo espontâ­
neo de n o ssa p ró p ria superioridade, e do poder dos j.o-
ven s em relação aos velhos. A crueldade que se expressa
na zo m b aria dos velhos desvalidos, e tam bém da feiúra de
alguns velhos e velhas, era provavelmente maior antiga­
m ente do que hoje. Mas decerto não desapareceu. Está
intim am ente relacionada a um a m udança muito caracte­
rística nas relações interpessoais, que tem lugar quando
as pessoas envelhecem ou estão no leito de morte: quan­
do envelhecem ficam potencial ou realmente menos for­
tes em relação aos mais jovens. Ficam visivelmente mais
dependentes dos outros. A maneira como as pessoas dão
conta, quando envelhecem, de sua maior dependência
dos outros, da diminuição de sua força potencial, difere
amplamente de uma para outra. Depende de todo o curso
de suas vidas e, portanto, da estrutura de sua personalida­
de. Mas talvez seja útil lembrar que algumas das coisas
que os velhos fazem, em particular as coisas estranhas,
estão relacionadas a seu medo de perder a força e a inde­
pendência, e especialmente de perder o controle de .si
mesmos.
Uma das lormas de adaptação a essa situação é a
regressão ao comportamento infantil. Não tentarei deci­
dir se isso é simplesmente um sintoma de degeneração
Envelhecer e m orrer 83

física ou uma fuga inconsciente da crescente fragilidade


desses idosos em direção aos padrões de comportamento
da primeira infância. De todo modo, também representa
uma adaptação a uma situação de dependência total que
tem seu sofrimento, mas também suas vantagens. Há pes­
soas em muitos asilos hoje que têm que ser alimentadas,
postas no vaso sanitário e limpas como crianças peque­
nas. Também enfrentam o poder como crianças. Uma
enfermeira noturna que os trata um pouco bruscamente
pode ser chamada de hora em hora durante a noite intei­
ra. Este é apenas um dos muitos exempJos de como a
experiência das pessoas que envelhecem não pode ser
entendida a menos que percebamos que o processo de enve­
lhecer produz uma mudança fundamental na posição de
uma pessoa na sociedade, e, portanto, em todas as suas
relações com os outros. O poder e o status das pessoas
mudam, rápida ou lentamente, mais cedo ou mais tarde,
quando elas chegam aos sessenta, aos setenta, oitenta ou
noventa anos.

O mesmo vale para o aspecto afetivo das relações das


pessoas que envelhecem e, especialmente, das que estão
prestes a morrer com os outros. Meu tema e o tempo
disponível me obrigam a limitar-me a um aspecto dessa
mudança, o-.isolamento dos que envelhecem e.dos mori­
bundos que freqüentemente ocorre em nossa sociedade.
84 N orbert Elias

C o m o disse de início, ocu p o-m e não com o diagnóstico


dos sintom as físicos do envelhecimento e da morte —
que ãs vezes, de maneira pouco apropriada, são ch am a­
dos de sintom as objetivos — , mas em exam inar o que as
pessoas que envelhecem e as m oribun das experimentam
"su b jetiv a m en te’’. U u ero com p lem en tar o cliaj'ilór.ti< o
inédito liadit ional com um diagnóstico mu ioló^ii o, <en
trado no perigo do isolamento a que o:, velhos e mori
bundos eslao expostos.
Podemos notar a esse respeito a marcada diferença
entre a posição dos que envelhecem e dos m o rib u n d os
nas sociedades industriais de hoje e nas prc-industriais,
isto é, nas sociedades medievais ou do início da industria­
lização. Nas sociedades pré-industriais, em que a m aioria
da população vive em vilarejos e se o cu p a do cultivo da
terra e da criação de gado, ou seja, em que cam poneses e
lavradores fo rm a m o m aior g ru p o ocupacional, quem
ÜC2 com os que vão envelhecendo e com os m o rib u n d o s
e_ a_família. Isso p o d e ser feito de m aneira amável ou
brutal, m as há ta m b é m características estruturais que
distin su em o envelhecimento e a m orte nessas sociedades
dos m e sm o s fenóm enos nas sociedades industriais mais
avançadas. Atenho-m e a duas dessas diferenças. Qs_ve-
lhos que vão ficando fisicamente mais fracos em geral
perm anecem dentro do espaço de vida da família, ainda
que às vezes após um enfrentam ento com os m em b ro s
m ais jovens, e em geral jtam bém m o rre m dentro desse
espaço. Por isso m esm o, tudo o que diz respeito ao enve­
lhecimento e à m orte acontece m uito.m ais.publicam ente
E n v e lh e c e r e m o r r e r 85

que nas sociedades industriais altamente urbanizadas,


sendo ambos os processos form alizados p or tradições so ­
ciais específicas. O fato de que tudo ocorre de m odo mais
público dentro do domínio da família externa, em algum
casos incluindo o 4» vizinhos, nao 'ÁyjiiíU/.t jj"':'**/,aria/m */.-
Ic fjiif as pessoas qi/i* f‘iiVf’l l j i f’ o'/ fj/o n l/u jjd o s ape­
nas <'/.p<*rim<‘nlam um l/a la m ^ M o ;i//jíív#r1, .’;io é m'O
iiiiim qii<‘ ;i j'/'ia^ao mais jo'/'-m, ao ' h'-;'a/ ao c o m a n d o ,
Irak* mal a mais VflJia, a', '/<’/.<•', ;if'-' om cru''Ma d'*. ,';jo f;j/
park: da.*, tare/as do hsfado im isc uir v: nessas assunfos.
i íoje, nas sociedades industrializadas o hsta do pro fe­
ge o idoso ou o moribundo, corno quajquer outro cida­
dão, da violência física óbvia. Mas ao mesmo tempo as
pessoas, quando envelhecem e ficam mais fracas, são mais
.e mais isoladas da sociedade e, portanto, do círculo da
família e dos conhecidos. Há um número crescente de
instituições em que apenas pessoas velhas que não se co­
nheceram na juventude vivem iuntas. Mesmo com o alto
grau de individualização que prevalece, a maioria das
pessoas em nossa sociedade forma, antes da aposentado­
ria, laços afetivos não só com a família, mas com um
círculo maior ou menor de amigos e conhecidos. O enve­
lhecimento geralmente é acompanhado pelo esgarça-
.mento desses laços que ultrapassam o círculo familiar
mais estreito. Exceto quando se trata de casais velhos, a
admissão em um asilo normalmente significa não só a
ruptura definitiva dos velhos laços afetivos, mas também
a vida comunitária com pessoas com quem o idoso nunca
teve relações afetivas. O atendimento físico dos médicos e
N o r b e r t E li a s

v.oaJ cie e n fe rm ag e m p o d e m ser excelentes. M as ao


:rj'.">mo te m p o a se p a ra ç ã o d o s id o so s d a vida norm al e
sua reunião co m e stran h o s significa solidão p ara o indiví­
duo. N ão esto u p e n s a n d o a p e n a s nas n ecessid ad es se­
x u a is , q u e p o d e m ser m u ito ativas n a extrem a velhice,
p a r t ic u la r m e n t e en tre h o m e n s , m a s ta m b é m na p ro x i­
m id a d e e m o c io n a l entre p e sso a s q u e g o sta m de estar
ju n t a s , q u e tê m u m certo en volvim en to m ú tu o. Rela­
ç õ e s d e ss e tip o e m geral ta m b é m d im in u e m com a
tr a n s fe r ê n c ia p a r a u m asilo e raram en te encontram aí
u m a su b stitu iç ã o . M u ito s asilos são, portanto, desertos
de solidão.

A natureza especial da m orte nas sociedades industriais


™ desenvolvidas, com o isolamento emocional como uma
das características preeminentes, surge de m odo particu­
larmente claro se com pararm os os procedimentos e ati­
tudes relativos à morte nas sociedades em estágios mais
avançados aos dos países menos desenvolvidos. Todos
estamos familiarizados com pinturas de períodos ante­
riores, que rclratam famílias inteiras — mulheres, ho­
mens e crianças — em torno do leito da matriarca ou do
patriarca moribundo. Pode ser uma idealização românti­
ca. l-ainílias nessa situação podem ter sido muitas vezes
negligentes, brutais e frias. Quem sabe os ricos nem sem-
pre morreram de maneira suficientemente rápida para
seus herdeiros. Os pobres podem ter ficado estendidos
sobre sua sujeira e passado fome. Pode-se dizer que antes
do século XX, ou talvez do XIX, a maioria das pessoas
morria na presença de outras apenas porque estavam me­

nos acostumadas a viver e estar sós. Não havia muitos
»«

cômodos onde uma pessoa pudesse ficar só. Os moribun­


dos e os mortos não eram tão flagrantemente isolados da
vida comunitária como é geralmente o caso nas socieda­
des avançadas. As sociedades como tais eram mais pobres
antigamente; não eram tão organizadas em termos de
higiene como as sociedades posteriores. As grandes epi­
demias assolavam freqüentemente os países europeus;
pelo menos desde o século xui, iam e vinham em geral
diversas vezes em cada século até o século XX, quando as
pessoas finalmente aprenderam a lidar com elas.

Geralmente é difícil para as pessoas de épocas recentes


colocar-se no lugar de outras que viveram em períodos
anteriores; assim, as pessoas de hoje não podem entender
de maneira apropriada sua própria situação, ou a si mes­
mas. A situação é que simplesmente o estoque social de
conhecimentos relativos à doenças e suas causas era, em
sociedades antigas, a medieval, por exemplo, não só mui­
to mais limitado, mas também muito menos seguro do
que hoje. Quando as pessoas carecem de um conheci­
mento seguro da realidade, também ficam menos segu-
88 N o rb e rt Elias

ras; exaltam-se com maior facilidade, entram mais rapi­


damente em pânico; preenchem as lacunas de seu conhe­
cimento realista com conhecimentos fantasiosos e b u s­
cam aplacar o medo de ameaças inexplicáveis por meios
igualmente fantasiosos. Assim, as pessoas de outrora ten-
tavanx enfrentar as epidem ias recorrentes por meio de
amuletos, sacrifícios, acusações contra envenenadores,
bruxas e sua própria natureza pecam inosa, como m a ­
neira de apaziguar seus sentidos alarmados.
M esmo hoje pode acontecer de pessoas atingidas por
um a doença incurável, ou que por outras razões se en­
contrem às portas da morte, escutarem um a voz interior
sussurrando que é culpa de seus parentes ou punição por
seus próprios pecados. Mas hoje tais fantasias privadas
tendem a não se confundir com conhecimento público
factual; são norm alm ente percebidas com o fantasias pri­
vadas. O conhecimento das causas das doenças, do enve­
lhecimento e da morte tornou-se mais seguro e abran­
gente. O controle das grandes epidemias fatais é apenas
um dos m uitos exemplos de com o a expansão do conhe­
cimento congruente com a realidade desempenhou um
papel na m udança dos sentimentos e com portam entos
hum anos.

Talvez seja um tanto equivocado cham ar esse recuo das


explicações emotivas pela via da fantasia ou, para usar a
E n v e lh e c e r e m o rre r 89

fórmula emotiva de M ax Weber, esse “desencantamento


do mundo”, de processo de racionalização. C om o quer
que o termo seja utilizado, ele sugere que-_o,.que m udou
afinal foi a “razão” humana; parece implicar que as p e s­
soas se tornaram mais “racionais” ou, em linguagem sim-
pies, mais sensatas que em tempos anteriores. E uma au-
tovaloração que dificilmente faz jus aos fatos. Só se com e­
ça a entender a.mudança referida pelo conceito de.racio­
nalização. quando se reconhece que uma das mudanças
por ele acarretadas é o aumento do conhecimento social
orientado para os fatos, conhecimento capaz de conferir
uma sensação de segurança. A expansão-do conhecimen­
to real e a correspondente retração do conhecimento fan­
tasioso andam de mãos dadas com o aumento do contro­
le efetivo dos acontecimentos que podem ser úteis às pes­
soas, ou dos perigos que podem ameaçá-las. A idade e a
morte estão entre estes últimos. Encontramos uma situa­
ção curiosa ao tentar compreender o que o avanço do
conhecimento mais realista nessas áreas significa em ter­
mos das possibilidades de seu controle pela humanidade.
O estoque de conhecimentos da sociedade em rela­
ção aos aspectos biológicos do envelhecimento e da mor­
te aumentou muito nos dois últimos séculos. O próprio
conhecimento nessas áreas se tornou mais bem funda­
mentado e mais realista. E.nossa capacidade de controle
aumentou com o conhecimento. Mas nesse nível biológi­
co parecemos nos aproximar de uma barreira intranspo­
nível quando tentamos estender ainda mais o controle
humano sobre os processos de envelhecimento e morte.
N o r b e r t Elias

ü que nos faz lem brar que aqui e ali a capacidade dos
.sei es h u m an os em relação ao universo natural tem seus
limites.
O progresso no conhecim ento biológico tornou pos­
sível elevar consideravelmente a expectativa de vida do
indivíduo. M as por m ais que tentemos, com o auxílio do
p io g resso m edico e a capacidade crescente de prolongar a
vida do indivíduo e aliviar as dores do envelhecimento e
da agonia, a m orte é um dos fatos.que indica que o con­
trole h u m an o sobre a natureza tem limites. Sem dúvida a
abrangência desse controle é em muitas áreas extrema­
m ente grande. O que não significa que não existam limi­
tes ao que é realizável pelos seres hum anos em relação aos
fatos da natureza.
Tanto quanto se pode ver, isso não se aplica ao
plano social da vida hum ana. Aqui, não há limites ab­
solutos ao que pode ser feito, e é pouco provável que
sejam encontrados. Mas, ao ampliar a esfera de seu
é

conhecimento e controle, as pessoas certamente encon­


tram obstáculos difíceis, barreiras que podem atrasá-las
por séculos ou m esm o milênios, embora não sejam
invencíveis pelo controle humano. Barreiras absolutas
existem nos níveis pré-humanos do cosmo, que chama­
m os de “ Natureza” ; mas nos níveis sociais humanos,
referidos por palavras como “sociedade” e “ indivíduo”,
existem apenas na medida em que também contêm e
fazem parte dos níveis da natureza.
Mencionarei de passagem duas das barreiras que ofe­
recem atualmente sérios obstáculos à orientação humana
Envelhecer e morrer 91

e ao controle das pessoas sobre seus próprios afazeres,


embora não sejam de maneira nenhuma intransponíveis.
Primeiro, há a escala de valores vistos comumente como
auto-evidentes, pela qual a “ Natureza” isto é, os aconteci­
mentos naturais pré-humanos, compreende uma esfera
muito mais valorizada que a “cultura” e a “sociedade”, a
área formada e criada pelos próprios seres humanos. A
ordem eterna da “natureza” é contrastada favoravelmente
à desordem e mutabilidade do mundo humano. Muitas
pessoas adultas continuam a procurar por alguém que as
leve pela mão como a uma criança, uma figura materna
ou paterna que lhes aponte o caminho a seguir. A “Natu­
reza” é uma dessas figuras. Supõe-se que tudo o que ela
faz, tudo o que é “natural” deva ser bom e salutar para os
homens. A harmoniosa regularidade da descrição da
“Natureza” de Newton encontrou expressão na admira­
ção de Kant pelas leis eternas do céu estrelado que nos
cobre, a lei moral dentro de nós mesmos. Mas a bela
imagem da “Natureza” de Newton ficou para trás. Esque­
cemos facilmente que o conceito de “Natureza” é agora
sinônimo do que os cosmólogos concebem como a evo­
lução do universo, com sua expansão sem propósito, a
produção e destruição de sóis e galáxias incontáveis, e dos
“buracos negros” que devoram a luz. Não faz diferença
que descrevamos o processo como “ordem”, “acaso” ou
« >7
caos .
Nem faz muito sentido dizer que os fatos naturais são
bons para as pessoas, ou tampouco maus. A “Natureza”
não tem intenções; não tem objetivos; não tem propósi-
92 Norbert Elias

tos. As-únicas criaturas neste universo que podem estabe­


lecer objetivos, que podem criar e dar sentido, são os
próprios seres humanos. Mas sem dúvida é ainda insu­
portável para muita gente imaginar que lhes compete a
tarefa de decidir os rumos que a humanidade deve seguir
e os planos e ações que têm sentido para os homens.
Buscam constantemente alguém que as alivie desse peso,
alguém que dite as regras pelas quais devem viver e for­
mule os objetivos para que suas vidas sejam dignas de
serem vividas. O que esperam é um sentido pré-determi-
nado vindo de fora; o que é possível é um sentido criado
por elas mesmas e, em última analise, pelos homens em
conjunto, que dè direção às suas vidas.
p. amadurecimento da humanidade é um processo
difícil. O período de aprendizado é longo, erros graves
são inevitáveis e o perigo da autodestruição, da aniqui­
lação de nossas próprias condições de vida, no curso
desse processo de aprendizado, é grande. Mas esse pe­
rigo só tende a crescer, se as pessoas se mantiverem na
atitude de crianças para as quais alguém mais faz tudo
o que só elas podem fazer. A idéia de que a natureza, se
deixada por conta própria, fará o que é certo para os
homens, inclusive para sua vida em comum, é um exem­
plo. E mostra como decisões que só os seres humanos
podem tomar, e a responsabilidade que vem com elas,
são delegadas a uma figura materna imaginária, a “N a­
tureza”. Mas, entregue a si mesma, a natureza é cheia de
perigos. Certamente, a exploração humana da natureza
também implica grandes ameaças. Processos naturais
Envelhecer e m o rre r 93

extra-h um an os são incapazcs de ap rcn d iz ad o . A p r ó p r ia


sociedade h u m a n a é um estágio no desen volvim en to da
natureza. M as distingue-se de todos os estágios a n te r io ­
res pelo fato de que os seres h u m a n o s p o d e m m u d a r seu
com portam en to e sentim entos c o m o resultado de e x p e ­
riências com un s e pessoais, isto é, de p rocesso s de a p r e n ­
dizado, num a m edida m uito maior, c de m an eira d ife ­
rente, que as outras criaturas. Essa capacid ad e de m u d a r
pode ser de valor extraordinário para os hom ens. M as
seu desejo de im ortalidade constantem ente os leva a
atribuir a sinais de im utabilidade — por exemplo, à
"natureza” imaginada com o algo que não m uda — uni
valor muito mais alto do que a si m esm os, ao desenvol­
vimento de sua própria vida com unitária e à amplitude
e ao padrão cambiante de seu controle sobre a "n atu re­
za”, sobre a "sociedade” e sobre suas próprias pessoas.
Talvez até m esm o ao lermos isso sintamos um resíduo
da resistência à reavaliação exigida por essa exploração.
Esse é um dos obstáculos a que me referi.
O segundo obstáculo que apresento como exemplo
está ligado Ji presente incapacidade das pessoas de reco­
nhecer que, dentro da esfera da realidade que formam
junto com as outras, m udanças de longa duração e não
planejadas, ma.sjque têm u m a estrutura e direção espe­
cíficas, estão acontecendo, e que esses processos, como
processos naturais incontroláveis, as em purram , invo­
luntariam ente para u m lado e para o outro. C om o não
reconhecem esses processos sociais não planejados e,
portanto, não sab em com o explicá-los, não têm meios
N o r b e r t E lia s

.,,.„ipriados p ara in flu en ciá-lo s o u controlá-los. Exem ­


plo disso é a in c a p a c id a d e de as p e sso a s reconhecerem
os p ro c e sso s n ã o - p la n e ja d o s p elos qu ais são levadas
rep etid am en te à g u e r r a . 1 V ários E stad o s atin giram .um
estágio de civilização em que m a ta r os outros não dá a,
seu s m e m b r o s u m p raz e r especiaL.jaem_ sua própria'
m o rte n a g u e rra é co n sid e rad a particularm ente honro­
sa. M a s as p e s so a s h oje en con tram -se tão expostas ao
p e rig o d a gu erra co m o aquelas em estágios anteriores
de d esen vo lvim en to estavam sujeitas às cheias incon-
troláveis d os gran d es rios, ou às grandes epidemias in­
fecciosas que às vezes m atavam parte considerável da
p o p u lação do país.
Já falei da conceitualização da relação da natureza
extra-hum ana com esses processos sociais humanos cm
term os de opostos com o “ natureza” e “cultura”, com uma
valorização decididamente mais alta da primeira. Nem
sempre é fácil convencer as pessoas do final do século X X
de que a “natureza” em estado bruto não é particular­
mente adequada às necessidades humanas. Só depois que
as florestas primevas foram abertas, quando os lobos,
onças, cobras venenosas, escorpiões — em suma, todas as
outras criaturas que poderiam ameaçar os homens —
foram exterminados, só depois que a “natureza” foi-do-

1 A p en as m e n c io n o de p a ssa g e m que a d in â m ic a figurativa da livre


c o m p e tiç ã o entre Estados, a qual discuti em te rm o s de u m “ m e c a ­
n ism o m o n o p o lís t ic o ” n o se g u n d o v o lu m e de m e u Processo civiliza­
dor, d e se m p e n h a u m papel decisivo nesse cu rso p ara a guerra.
Envelhecer e morrer 95

mçsticada e fundamentalmente transformada pelos hu­


manos, é que ela com eçou a parecer para populações que
viviam geralmente nas cidades como bela e benigna para
a humanidade. Na realidade, os processos naturais se­
guem seu curso distribuindo cegamente coisas boas e
más, as alegrias da saúde e as terríveis dores da doença,
aos seres humanos. As únicas criaturas que, quando ne­
cessário, podem dom inar até certo ponto o curso sem
sentido da natureza e ajudar-se m utuam ente são os pró­
prios seres hum anos.
Os médicos podem fazé-lo; ou pelo menos podem
tentar. Mas talvez m esm o eles ainda sejam em parte in­
fluenciados pela idéia de que os processos naturais são
tudo o que im porta em seus pacientes. Pode ser, em al­
guns casos. Mas nem sempre. Doutrinas rígidas não aju­
dam muito aqui. O que é decisivo é o conhecimento não-
dogm ático do que é benigno e do que é maligno na natu­
reza. No presente, o conhecimento médico é em geral
tom ado com o conhecimento biológico. Mas é possível
imaginar que, no futuro, o conhecimento da pessoa hu­
m a n a , das relações das pessoas entre si, de seus laços
• m ú tu o s e das pressões e limitações que exercem entre si
faça parte do conhecimento médico.
É a esse r a m o do conhecim ento que pertencem os
p ro b le m a s que estou discutindo. É possível que o aspec­
to social das vidas das p esso as, suas relações com as
outras, tenha im p o rtâ n c ia especial para as que envelhe­
cem e p a ra as que estão p a ra m o rrer sim plesm ente
porque processos naturais cegos e incontroláveis ganha-
96 Norbert Elias

ram poder sobre elas. M as a consciência de que as p e s­


so as atingiram o limite de seu controle sobre os proces­
sos naturais freqüentemente engendra, nos médicos e
talvez nos conhecidos e am igos das pessoas que enve­
lhecem e se ap ro x im am da morte, um a atitude que está
em contradição com as necessidades sociais dessas últi­
mas. As pessoas parecem se dizer que não há nada que
p o ssa m tazer, dão de o m b r o s e seguem seu caminho
co m pesar. Os m édicos em particular, cuja tarefa c o n ­
siste em adquirir controle sobre as forças destrutivas e
cegas da natureza, parecem m u itas vezes observar estar­
recidos co m o tais forças q u e b r a m a auto-regulação n o r­
m al do o rg a n ism o dos doentes e dos m o rib u n d o s e
avan çam sem controle na destru ição do próp rio o rg a ­
nism o.
O bviam ente não é fácil testem unhar esse processo de
decadên cia com eq u an im id ad e. M as talvez as pessoas
nessa situação tenham u m a necessidade especial de o u ­
tras pessoas. Sinais de que os laços ainda não foram cor­
tados, de que aqueles que estão deixando o círculo h u m a ­
no ainda são valorizados dentro dele, são especialmente
im portantes, dado que agora estão fracos e talvez não
p assem de u m a so m b ra do que foram . Mas, para alguns
m o rib u n d o s, a solidão talvez seja u m benefício. Talvez
seiam capazes de sonh ar e não queiram ser perturbados.
D evem os sentir do que eles precisam . M orrer ficou mais
.informal em n ossos dias, e a g a m a de necessidades indivi­
duais, q u an d o conhecidas, se am pliou.
Envelhecer e morrer 97

Talvez tudo isso deixe claro que as atitudes que hoje p re ­


valecem em relaçao aos m o rib u n d o s e a rnorle nao são
inalteráveis nem acidentais. Sao peculiaridades de socie­
dades num estágio particular de desenvolvimento e, por
tanto, com uma estrutura particular. ( >s pais nessas socie­
dades são freqüentemente mais reticentes em la lar com
seus filhos sobre a morte e o morrer. As crianças podem
crescer sem nunca terem visto um cadáver. I.m es tág io s
anteriores de desenvolvimento o espetáculo de cadáveres
era muito mais comum. Desde então, o aumento da ex­
pectativa de vida tornou a morte mais distante dos jovens
e dos vivos em geral. Obviamente, numa sociedade com
uma expectativa de vida de trinta e sete ou quarenta anos,
a idéia de morte se apresenta muito mais imediatamente,
mesmo para os jovens, que numa sociedade com uma
expectativa de vida próxima dos setenta. É bem possível
que o compreensível horror da guerra atômica seja refor­
çado pelo fato de que os jovens em nossa sociedade po­
dem normalmente esperar um a vida mais longa que nun­
ca. Senti isso de perto quando um jornalista de vinte anos
que me entrevistava, franzindo o cenho, perguntou sobre
meu livro a respeito da “solidão dos moribundos” : “O
que o levou a escrever sobre tema tão curioso?”
Tudo isso contribui para empurrar a agonia e a mor­
te mais que nunca para longe do olhar dos vivos e para os
bastidores da vida normal nas sociedades mais desenvol-
iNoroert E lia s

Wcta. N u n c a a n te s a s p e s s o a s m o r r e r a m tfm « 1. •
h ig ie n ic a m e n te c o m o h o je n e ssa s so cied ad es, e n u T /e m
c o n d i ç õ e s t ã o p r o p í c i a s à so lid ã o .

N u m liv r o b e m c o n h e c id o d e B.G . G laser e A.L. Strauss,


Time fo r Dying ( C h ic a g o , 1968), o s autores fazem a se-
gu in te ob servação:

A m a i o i i a d o s p a c ie n te s pertence a u m a família. Se paren­


tes fic a m a o p é d o leito de u m m e m b r o m o rib u n d o da
fa m ília d u r a n t e o s ú ltim o s dias, su a presença pode ocasio­
n a r p r o b l e m a s sérios p a r a os m é d ic o s e a equipe de enfer­
m a g e m d o h ospital, re d u z in d o inclusive a eficácia dos cui­
d a d o s c o m o p acien te (p.151).

E s s a b reve a fir m a ç ã o a p o n t a p a r a u m grave conflito


n ã o - r e s o lv id o n a in stitu cio n aliz a çã o ostensivam ente ra­
c io n a l d a m o r t e — pelo m e n o s n o s h o sp itais n o rte-a m e­
ricanos^ a q u e as o b se rv a ç õ e s de G laser e Strauss certa­
m e n te se r e fe r e m e m p r i m e i r o lugar. O m o r i b u n d o
recebe o t r a ta m e n to m é d ic o m a is av an çad o e cientifi­
c a m e n te r e c o m e n d a d o disponível. M a s os contatos com
as p e s s o a s a q u e está ligado, e cu ja p resen ça p o d e p r o ­
p o r c io n a r o m a io r co n fo rto p a r a aquele que parte, fre­
q ü e n te m e n te são c o n sid e ra d o s inconvenientes p a ra o
t r a ta m e n to r a c io n a l do p a c ie n te e p a r a a ro tin a do
pessoal. E a ssim esses co n tato s são red u zid o s ou im pe-
Envelhecer e morrer 99

didos sempre que possível. Glaser e Strauss observam


no mesmo contexto (p. 152) que, em algumas regiões
menos desenvolvidas, pessoas próximas oferecem con­
forto e atenção aos moribundos por força da tradição.
Liberam assim a equipe de enfermagem para outras
tarefas. E também assumem os cuidados rotineiros de
pacientes em recuperação. A equipe então está acostu­
m ada à sua presença. Os próprios parentes, que preci­
sam de consolo, se ajudam mutuamente. Isso é um claro
contraste com o que, segundo Glaser e Strauss, acontece
nos hospitais em países mais desenvolvidos, onde a
equipe gasta parte de seu tem po confortando os paren­
tes aflitos.
O quadro dessa diferença é nítido. De um lado, o tipo
antigo: os membros da família se reúnem em torno da
pessoa doente, trazem comida, dão os remédios, limpam
e lavam o paciente e talvez, trazendo sujeira das ruas para
o leito do paciente, cuidam dele sem lavar as mãos. Possi­
velmente apressam o fim, pois nada disso é muito higiê­
nico. Possivelmente sua presença adia a morte, pois pode
ser um a das grandes alegrias dos moribundos estarem
cercados por parentes e amigos — última prova de amor,
último sinal de que significam alguma coisa para os ou­
tros. É u m grande apoio — encontrar eco dos seus senti­
mentos nos outros que se am a e a quem se está apegado, e
cuja presença faz surgir um sentimento terno de perten­
cer à família humana. Essa afirmação mútua das pessoas
através de seus sentimentos, o eco dos sentimentos entre
duas ou mais pessoas, desempenha um papel central na
100 Norbert I lias

a t r i b u i r ã o d e s i g n i f i c a d o c s e n t i d o de re a liz a ç ã o p a ra
u m a vida h u m a n a — a fe iç a o re c íp ro c a , p o r a s s im dizer,
até o lim .
Nao devemos nos iludir: as famílias em Estados m e­
nos desenvolvidos são muitas vezes tudo, menos h a rm o ­
niosas. Freqüentemente apresentam m aior desigualdade
de p od er entre hom ens e mulheres e entre jovens e velhos.
Seus m em bros p odem amar-se ou odiar-se, talvez as duas
coisas ao m esm o tempo. Pode haver relações de ciúme e
desprezo. Só um a coisa é rara nesse nível de desenvolvi­
mento social, especialmente nos casos em que as m ulhe­
res, as mães, fo rm am o núcleo integrador afetivo da fam í­
lia: não há neutralidade em ocional no quadro da família
extensa. D e certa m aneira, isso aju d a os m oribundos.
D espedem -se do m u n d o publicam ente, n u m círculo de
pessoas cuja m aioria tem grande valor em ocional para os
m o rib u n d o s, e p a ra os quais estes têm o m e sm o valor.
M o rre m m e n o s higienicam ente, m a s não sós. N a unidade
de terapia intensiva de u m jbuo.s.p.ital m o d e r n o , os m o r i­
b u n d o s p o d e m ser tratados de acordo co m o mais recente
conhecim ento biofísico especializado, m as m uitas vezes
de m aneira neutra em term os de sentimentos: p od em
m orrer em total isolamento.

A!c;r. di>>v\ a perfeição técnica do p r o lo n g a m e n to da vida


^crLinicnie r.ão e o unico fator qu e contribui para o iso-
Envelhecer e m orrer 101

lamento dos m oribun dos em nossos dias. A m aio r p acifi­


cação interna dos Estados industriais desenvolvidos e o
expressivo aum ento do limiar do em b araço face à violên­
cia fazem surgir nessas sociedades uma antipatia m u da,
mas perceptível, dos viventes em relação aos m o rib u n d o s
— uma antipatia que m uitos m em b ros dessas sociedades
não conseguem superar m esm o qu an do não a aprovam.
Morrer, como quer que seja visto, é um ato de violência.
Se as pessoas são as responsáveis ou se é o curso cego da
natureza que traz a decadência repentina ou gradual de
um ser hum ano em última análise não tem muita im p o r­
tância para a pessoa afetada. Assim, um nível mais alto de
pacificação interna tam bém contribui para a aversão à
morte, ou, mais precisamente, aos moribundos. E assim
também um nível mais alto de contenção civilizada. Não
faltam exemplos. A dem orada morte de Freud em decor­
rência de um câncer na laringe é um dos mais significati­
vos. O avanço da doença gerava um m au cheiro cada vez
pior. Mesmo o cão liei se recusava a aproximar-se do
doente. Apenas Anna Freud, torte e inflexível em seu
am or pelo pai moribundo, o ajudou nessas últimas sema­
nas, impedindo que se sentisse abandonado. Simone de
Beauvoir descreveu com assustadora exatidão os últimos
meses de seu companheiro Sartre, que não era mais capaz
de controlar o fluxo urinário e era forçado a andar com
sacos plásticos am arrados a seu corpo — e os sacos às
vezes transbordavam. *A decadência do organismo
V*
huma-
no, o processo a que cham am os morrer, quase sempre e
acom p an h ado de mau cheiro. Mas as sociedades desen-
\-oIvidas in c u lc a m e m s e u s m e m b r o s u m a g r a n d e se n sib i­
lidade a o s ch e iro s fo rte s.
T o d o s esses s ã o e m r e a lid a d e a p e n a s e x em p lo s de
c o m o f a l h a m o s a o e n fr e n ta r o s p r o b l e m a s d o s m o r i b u n ­
d o s n a s s o c i e d a d e s d e se n v o lv id a s. O q u e eu disse aqui é
a p e n a s u m a p e q u e n a c o n t r ib u iç ã o p a r a o d iag n ó stico de
p r o b l e m a s q u e a i n d a p r e c i s a m ser resolvidos. Esse d ia g ­
n ó s tic o , m e p a r e c e , deve ser d esen v o lv id o . E m term o s
a m p l o s , a i n d a n ã o e s t a m o s p le n a m e n te conscientes de
q u e m o r r e r n a s s o c i e d a d e s m a is d esen volvid as é a c o m p a ­
n h a d o d e p r o b l e m a s esp ecífico s q u e devem ser enfrenta­
d o s c o m o tais.
O s p r o b l e m a s q u e levantei são, c o m o se p o d e ver.
p r o b l e m a s de s o c io lo g ia m e d ic a . As p re ca u ç õ e s m edicas
de h o ie d iz e m resp e ite p r in c ip a lm e n te a asp ectos indivi­
d u a i s d o f u n c io n a m e n t o fisiológico de u m a p e sso a — o
c o ra ç ã o , a b exiga, as artérias e a ssim p o r diante — ; q u a n ­
to a isso, a técnica m é d ic a p a ra p rese rv ar e p ro lo n g a r a
v id a está se m d ú v id a m a is a v a n ç a d a q u e nunca. M a s c o n ­
centrar-se e m corrigir m e d ic a m e n te ó r g ã o s iso lad o s que
f u n c io n a m cada vez p io r só vale a p e n a em benefício da
p e s s o a dentro da q u al esses c o m p o n e n te s estão in tegra­
dos. E se os p r o b le m a s d o s c o m p o n e n te s in divid uais nos
levam a esquecer os d a p e sso a que os integra, realm ente
d e sv a lo riz a m o s o que faz e m o s p a ra os p r ó p r io s c o m p o ­
nentes. H o je a decad ên cia das p esso as, a q u e c h a m a m o s
de envelhecim ento e m o rte, coloca p a r a os o u tro s seres
h u m a n o s , aí incluídos os m é d ico s, certo n ú m e r o de tare­
fas n ão-realizadas e geralm en te n ão -re co n h e cid a s. As ta-
Envelhecer e morrer 103

refas que tenho em mente ficam ocultas se a pessoa indi­


vidual é considerada e tratada com o se existisse apenas
para si m esm a, independente de todas as outras. Não
estou seguro de até que ponto os próprios_médicos sabem
que as relações de u m a pessoa com as outras têm um a
influência co-determinante tanto na gênese dos sintomas
patológicos quanto no curso to m a d o pela doença. Levan­
tei aqui o problem a da relação das pessoas com os m o ri­
bundos. Assume, com o vim os, u m a form a especial nas
sociedades m ais desenvolvidas, porque nelas o processo
de m orrer está isolado da vida social n orm al n u m a m ed i­
da m aior que antigamente. U m resultado desse isolam en­
to e que a experiência de envelhecer e agonizar, que nas
sociedades antigas
C
era organ
C
izada 1por instituições e fan-
tasias públicas tradicionais, tende a ser ofuscada pelo
constrangimento nas sociedades posteriores. Talvez, ao
apontar para a solidão dos moribundos, fique mais fácil
reconhecer, nas sociedades desenvolvidas, um núcleo de
tarefas que continuam por fazer.
Estou ciente de que os médicos têm pouco tempo.
Também sei que as pessoas e seu círculo de relações rece­
bem deles mais atenção hoje do que antes. O que fazer se
sabemos que um a pessoa preferiria morrer em casa a
morrer no hospital, e se tam bém sabem os que em casa ela
m orrerá mais rapidamente? Mas talvez seja exatamente
isso o que ela quer. Talvez não seja supérfluo dizer que o
cuidado com as pessoas às vezes fica muito defasado em
relação ao cuidado com seus órgãos.
índice remissivo

Ariès, Philippe, 19-20, 23, 44n, culpa, 17, 23-4, 45-6; e desejo
7 ln de morte, 17-8,47-8
asilos para idosos, 85-6
assassinato, morte como, 46-7
atitudes em relação à morte, dependência mútua, 41-2
mudanças nas, 24-31, 43-4, desejo de morte ver culpa
52-4, 96 dor, 23, 76-7; controle médico
da, 20-1,37,74,89-90

Beauvoir, Simone de, 101


envelhecimento, não-identifi-
cação com o, 8-9,79-83
cadáveres, tratamento dos, 23- Estado como protetor dos ido­
4,37-8 sos e moribundos, 85-6
com portam ento infantil dos estágios específicos, idéias da
idosos, 82-3 morte segundo, 12, 28-32,
comportamento sexual, elimi­ 53-5
nação de tabus sobre o, 49- expectativa de vida, 14-5, 54-5,
53 90,97
c o n h e c im e n t o : da p r ó p r ia expressão dos sentimentos, 31-
morte, 11,16, 43, 46; maior 7,60-1,68
da realidade, 55-6, 87-8, 95-
6
constrangim ento: dos m ori­ família, envolvimento da, 37-8,
bu n dos, 68; em presença 74,84-5,98-100
dos moribundos, 31-2, 35- Frederico II da Prússia, 32-4
6,60-1,77 Freud, Anna, 101
crenças: seculares, 13, 77; so­ Freud, Sigmund, 15-6, 45-6,
brenaturais, 12-5,44n,77 101
crianças: e o desejo de morte,
46-7; e fatos da morte, 25-6,
30,97 Gilgamesh, 69

105
iNuruert tlia s

<ilaser, B.C. e Strauss A.L., 98-9


morte serena, 19-22,33, 57, 59,
77

H o f m a n n s w a l d a u , C h ristian
H ofm an n von, 27-9
natureza pública da morte no
hospitais, rotinas instituciona­
passado, 23-4, 25-6, 84-5,
lizadas dos, 36, 74-5, 98-9, 86-7, 100
102-3

Opitz, Martin. 30, t»8-9


ideias de morto para grupos es­
pecíficos, I ! -5,
im ortalidade, fantasias de,
l o - ~ , -13-5,-T-S, ^>3 pai, morte do, 47-8
mdividuali.wçào, -M, o 1-3, oo- perda, sentimentos de, 7o
" 0 , S5-o poder, distribuição de: e atitu­
interno, medo do, 23 des em relação ao idoso, 83-
intormali/ação, 2$, 34-5, 52, ‘•H-> 5; e monopolização da vio­
isolamento: da morte e do m o ­ lência, 58; e tabus sexuais,
51-2; e tabus sobre a morte,
ribundo, S, 19, 23, 30-1, 37-
18-9,52-4
8, 52, 60,67-8, 70, 83-6, 97-
problema social, morte como,
S, 101, 102-3; dos vivos, 42,
8-11, 18,35-7
61-3, 66-S, 70
processo natural, morte como
fim do, 55-6, 57, 95-6
p u n i ç ã o : d e p o is da m o rte,
linguagem: impropriedade da,
idéia de, 23; idéia da morte
31-4; e sentido, 63-5
como, 16-8,45-6, 88

Marvell, Andrew, 30, 38 recalcamento da idéia de m or­


medicina, 95-6; e adiamento da te, 7,15-6,37-43,47-9
morte, 55-6, 100-3 recalcam ento: do envelheci­
medo da morte, 16-7, 41, 76-7; mento, 80-2; da morte, 7,
na Idade Média, 19-23 15-9, 23, 26, 42-3, 52-4,60-
memória, mortos vivendo da, 1,77, 97, 103
40-1,77 rituais: necessidade de, 32, 34-
mitologização da morte, 7, 17 5; religiosos, 12-3, 36; secu­
More, Thomas, 22 lares, 36
índice remissivo 107

Sartre, Jean-Paul, 101 Tolstoi, L., 70-2


segurança relativa da vida, 13-4 túmulos, cuidado com os, 37-40
sentido: para os moribundos,
68, 72-3, 74, 76, 99, 102-3;
da vida individual, 41-2,62-
vida após a morte, idéias de, 7,
3, 64-7, 71 -7, 91 -2; natureza
12-3,43-4
social do, 63-6
solidão, conceito de, 67, 75-6, violência, morte por, 57-61,
85,103 101
Solzhenitsyn, A., 44

tabus sobre a morte, 28, 3b, 52- ^ b e i , íwax, 8 )


Wo u l or s, C a s, 3 4 n

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