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PAÍSES DO LESTE EUROPEU: AS REFORMAS PARA UMA ECONOMIA DE


MERCADO - O CASO DA HUNGRIA

Article · January 2011


DOI: 10.11606/issn.2179-0892.geousp.2004.73965

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Regina Salvador
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GEOUSP - Espaço e Tempo, São Paulo, Nº 16, pp. 193 - 209 , 2004
GEOUSP - Espaço e Tempo, São Paulo, Nº 16, pp. 193 - 209 , 2004

PAÍSES DO LESTE EUROPEU: AS REFORMAS PARA UMA


ECONOMIA DE MERCADO - O CASO DA HUNGRIA
Regina Salvador*

I - Introdução Assim, a nova ordem política e económica


Desde a queda do Muro de Berlim (a 10 ainda continua frágil em alguns países que
de Novembro de 1989) e a desintegração do adoptaram o modelo ocidental de economia de
COMECOM (Maio de 1991) que os novos Estados mercado, apesar de as reformas conducentes
da Europa Central, do Báltico, a Rússia e outros a este novo modelo estarem a ser
territórios da ex-URSS têm desenvolvido implementadas, em menor ou menor grau, em
esforços hercúleos no sentido de orientarem as todos os países em transição.
suas economias pelas leis do mercado e não
mais pelo planeamento centralizado que as II – As reformas para a transição económica
regeu durante décadas. A transição económica dos países de
Nos primeiros anos, esta transformação economia centralizada constitui um processo
económica foi acompanhada por uma profunda histórico que implica profundas mudanças em
instabilidade nos preços e na produção. Porém, quase todos os aspectos da sociedade. O seu
a implantação de programas de estabilização principal objectivo é a adesão dos países, até
económica por parte do FMI e do Banco Mundial então de planeamento económico centralizado,
ajudaram alguns países, criando um ambiente ao capitalismo: é a despolitização da economia,
propício à introdução de profundas reformas a activação dos mercados, a privatização da
estruturais. propriedade e dos meios de produção.
Mas os desafios ainda se mantêm A maioria dos analistas da transição
enormes como o testemunham a situação económica, nomeadamente Jeffrey Sachs, da
económica e social de países como a Albânia, a Universidade de Harvard, propôs o “shock
Bulgária ou a Roménia (entre 1996 e 1997) ou therapy model”, uma receita para uma transição
a grave crise russa de 1998. de sucesso que converge nos critérios
Desemprego, corrupção e criminalidade objectivos que têm sido “impostos” pelas
fazem ainda parte do dia-a-dia de grande parte instituições de Bretton Woods:
destes “países em transição”. E, em alguns 1) Liberalização da actividade económica,
deles, o nacionalismo descontrolado e a dos preços e dos mercados, que permita a
xenofobia, fenómenos até então controlados alocação dos recursos para a sua utilização mais
pelo comunismo, agravam ainda mais as eficiente;
profundas crises económicas e sociais.

* Doutorada em “Espaço e Economia”pela Universidade Nova de Lisboa (1993) e em “Economic Development” pela University of London
(1998).Professora associada com agregação da Universidade Nova de Lisboa, onde é responsável pelas cadeiras de “Teorias e Políticas de
Desenvolvimento”e “Geoeconomia da Europa” a nível de Licenciatura e “Organização Espacial das Sociedades” e “Políticas de
Desenvolvimento”, nível de Mestrado. “Visiting Professor”da Universidade de São Paulo (Brasil) e da “Catholic University of San Diego”
(EUA). Conferencista do Instituto Superior Técnico (IST) no Mestrado em “Engenharia e Gestão da Tecnologia”e no Programa IMPACT
(desenvolvido com a “University of Texas at Austin”, EUA). E-mail: regleo@netcabo.pt
194 - GEOUSP - Espaço e Tempo, São Paulo, Nº 16, 2004 SALVADOR, R.

2) Estabilização proporcionada pelo pelo que a questão essencial na análise das


desenvolvimento de instrumentos várias experiências de transição é saber a partir
macroeconómicos orientados para a economia de que ponto se pode considerar que a tão
de mercado; almejada economia de mercado foi (ou não)
3) Descentralização da propriedade e alcançada.
privatização da actividade económica; Por outro lado, estes critérios ou
4) Desenvolvimento de um quadro legal e “ingredientes” têm em conta o grau de aplicação
institucional que defenda os direitos de de políticas sistemáticas de liberalização dos
propriedade privada, balizado por uma preços, do comércio, dos mercados financeiros
reorientação do papel do Governo na economia. (incentivo ao investimento privado), de reformas
fiscais e monetárias e de criação e consolidação
Todos estes critérios objectivos, que se
de fortes instituições de apoio 1 .
sintetizam na Figura 1, podem ser quantificados,

FIGURA 1 - Os “ingredientes” da transição económica

REFORMA POLÍTICA

REFORMA ECONÓMICA
Transição para economia de
Mercado - Liberalização

PROGRAMA DE ESTABILIZAÇÃO ENQUADRAMENTO


ECONÓMICA INSTITUCIONAL

MACRO MICRO
Privatizações

institucional
Papel do

- Moeda - Preços
Reforma
Estado

-Orçamento -Mercado trabalho


- Rendimento - Tarifas
-Taxa de câmbio - Seg. social
Europa Central, isto é, nos países com melhor
performance económica e índices de II. 2. – A estabilização económica
crescimento. A lição menos controversa e
Alguns dos países em transição têm surpreendente da transição económica é que a
registado êxito na abertura das suas economias estabilização económica sustentada (baseada
e na reorientação das exportações para os entre outros factores no controlo da inflação,
mercados internacionais. As exportações e os no incentivo à poupança e ao investimento) é
serviços têm sido os motores do crescimento fundamental.
das economias em transição. A produção As economias em transição enfrentam, em
aumentou mais nos países com maior geral, graves problemas com a implementação
crescimento médio das exportações, o que dos programas de estabilização impostos pelo
sugere que a abertura das economias e a FMI. Um destes problemas consiste na
promoção das exportações são importantes determinação do tipo de taxa de câmbio (fixa
determinantes do crescimento. ou flexível) que se deve utilizar na redução da
Os países em transição têm registado inflação e dos custos da transição.
êxito na abertura das suas economias e na As várias experiências de transição
reorientação das exportações para mercados demonstraram que, tanto as taxas de câmbio
internacionais. Vários países diversificaram fixas (caso da Croácia, Estónia, Hungria e
rapidamente as exportações e alguns Polónia no início da transição) como as taxas
inverteram a tendência de queda do valor de câmbio flexíveis (Albânia, Eslovénia, Letónia
unitário das exportações de máquinas, o que ou Moldávia) permitem reduzir
indica que a qualidade dos seus produtos está consideravelmente a inflação.
a melhorar.
No início do processo de transição, as
Alguns analistas defendem que seja qual taxas de câmbio fixas constituem um
for o ritmo da liberalização, o comércio externo instrumento válido da política de estabilização.
e as transacções cambiais devem ser A troca automática de divisas por moeda local a
liberalizados mais lentamente do que os uma taxa de câmbio fixa permite que os agentes
mercados internos, com o intuito de diminuir a económicos reponham mais rápida e facilmente
queda inicial do emprego e da produção. os seus saldos reais. Todavia, com o avanço da
A liberalização rápida do comércio pode liberalização, as taxas de câmbio flexíveis
ser benéfica: a Estónia eliminou as barreiras à revelam-se mais eficientes na redução da
exportação, bem como as restrições inflação e na estabilização económica.
quantitativas à importação, o que permitiu uma
Os países onde a transição é incipiente
ausência de proprietários “fortes”. Tal situação
têm ainda pela frente a árdua tarefa de salvar
tem conduzido a que alguns mutuários, perante
as suas economias da instabilidade económica
a subida das taxas de juros, não reduzam o
e do controlo estatal que continua a dificultar a
crédito mas aumentem cada vez mais o seu
transição.
endividamento. Este endividamento crescente
origina juros reais muito altos, o que poderá É assim necessário encontrar e manter
originar graves crises financeiras. políticas macroeconómicas eficazes, de modo a
permitir o crescimento económico sustentado,
Assim, um dos aspectos cruciais da
seja através de taxas de câmbio fixas ou
estabilização é a necessidade de resolução do
flexíveis, de taxas de juros baixas e da solvência
problema da insolvência dos bancos e das
das instituições bancárias.
empresas, acompanhada da intensificação da
eficiência e da concorrência dos mercados
financeiros e da intermediação financeira. Assim II.3 – A descentralização da propriedade
se justifica que em diversos países em transição e a privatização da actividade económica
se verifique a exclusão dos leilões de crédito A descentralização da propriedade e a
das instituições bancárias mais instáveis. privatização da actividade económica foi/é uma
Neste contexto, a reforma do sector outra reforma necessária.
financeiro é fundamental para a promoção do Diversos autores citam Adam Smith (na
crescimento, permitindo o reforço da sua obra “An Enquiry into the Wealth of Nations”,
intermediação financeira e o aumento da publicada em 1776), para demonstrar que a
eficiência na alocação dos recursos financeiros. ideia de “privatização” estava já presente no
Porém, na maior parte dos países em pensamento económico clássico, embora sem a
transição a criação de um sistema bancário aplicação que viria a ter dois séculos mais tarde.
competitivo e aberto às instituições financeiras Para Adam Smith, a venda de terras da
estrangeiras encontra-se ainda numa fase Coroa libertaria dinheiro que, ao ser utilizado
muito incipiente. no pagamento da dívida pública, aumentaria os
Outro aspecto da estabilização económica rendimentos. Por outro lado, os terrenos
é, como referimos, o incentivo à poupança agrícolas ao se tornarem propriedade privada
interna dos agentes económicos como forma de passariam a ser melhor explorados.
aumentar o investimento interno, essencial na Vários estudos desenvolvidos, quer em
transição, já que o investimento estrangeiro países desenvolvidos com economias de
mercado consolidadas quer em países em
relações entre o Estado e as empresas. Por
públicas (em França, por exemplo) que se exemplo, na Rússia a maioria das quintas do
revelam mais produtivas do que muitas Estado foi privatizada mediante a sua conversão
empresas que se renderam ao capitalismo em grandes sociedades anónimas, apesar de
“selvagem”. esta não ser a forma de propriedade mais
Por outro lado, em todas as economias eficiente para a agricultura. Neste mesmo país,
em transição a privatização estimula a criação estima-se que cerca de 16 biliões de dólares (o
de instituições fundamentais: é o caso dos equivalente a 80% do PIB), é desviado para o
mercados de capitais, de sistemas jurídicos mercado informal e continuam a constituir
liberais ou de profissões relacionadas com a rendas para determinadas elites (rent seeking
actividade empresarial. Como diz Lombardini, Por outro lado, a privatização de
“the conditions must be created for both more empresas de pequena dimensão mostrou-se
efficient markets and a more efficient state: muito mais fácil que a das grandes empresas. A
privatisation is only one of the structural changes maioria das empresas de pequena dimensão
required” (1992:117). dedica-se ao comércio e aos serviços,
Os direitos de propriedade constituem actividades de tecnologia simples e de fácil
assim a alma da estrutura de incentivos da acesso, enquanto que as de grande dimensão
economia de mercado. enfrentam obstáculos relacionados com o
No modelo de planeamento centralizado, grande volume de capital, a necessidade de uma
as empresas estavam protegidas da reestruturação profunda e as deficiências nas
concorrência e funcionavam segundo a áreas da regulamentação e da gestão.
“economia de escassez” onde tudo o que Entre os sectores onde as privatizações
produziam era rapidamente tragado pelos têm sido proteladas por mais tempo contam-
consumidores. se, evidentemente, os serviços públicos e infra-
Com a transição económica, passou-se de estruturas (electricidade, telecomunicações, gás
um regime baseado nas transferências e nos natural, oleodutos, abastecimento de água,
subsídios para um novo sistema, baseado no portos e aeroportos). A privatização destes
risco, na disciplina financeira e na procura do sectores apresenta problemas específicos: as
lucro. empresas são de grande porte, de grande
intensidade de capital e, muitas vezes, são
A transição exige reformas eficazes que consideradas estratégicas do ponto de vista da
permitam a disciplina fiscal e favoreçam a Defesa Nacional.
concorrência, a entrada de novas empresas e o
encerramento de empresas que não sejam
instituições necessitam de ser acompanhadas do respeito pela propriedade privada e a
por um Estado forte que assuma um novo papel promoção de um enquadramento institucional
estratégico na economia. O Estado é favorável.
imprescindível na transição - “the efficiency of
markets depends to a large extent on the
efficiency of certain services provided by the III – Balanço de uma década de transição para
state” (Lombardini, 1992: 118) – e a a economia de mercado
credibilidade do seu empenho reformador é III.1 – A heterogeneidade na
crucial. adaptação às novas regras do jogo
O Estado deve ditar as regras do jogo da A nova ordem (ou desordem?) é ainda
economia de mercado, nomeadamente em frágil e incipiente em alguns países do Leste
sectores estratégicos como a segurança social Europeu.
e o direito de concorrência. O papel do Estado A própria composição interna dos
na economia assume-se assim numa óptica de territórios pós-comunistas representa um
complementaridade. “puzzle” de difícil ordenação, com distintas
Por outro lado, a criação de um quadro peças de natureza étnica, religiosa, social e
institucional eficiente, onde impere a abertura económica.
ao exterior e a transparência, é a chave do Verificamos que os países mais próximos
sucesso para uma das reformas estruturais – a da Europa Ocidental e com maior experiência
privatização. De facto, “to perform their tasks, de democracia política e económica (com
governments in market economies need some destaque para a Hungria e Polónia), têm
well-developed institutions run by competent revelado uma maior capacidade de adaptação
individuals and guided by appropriate às novas “regras do jogo”. O mesmo não
incentives” (Idem: 118). podemos dizer dos países geograficamente
O fim das regulamentações mais distantes da Europa Ocidental: nestes, os
discriminatórias do Estado e a criação de efeitos do planeamento centralizado são mais
instituições eficientes reduzem o risco, criam um profundos (para além de séculos de feudalismo
ambiente favorável ao investimento e fomentam ou de “despotismo asiático”).
a iniciativa privada. Segundo o Banco Europeu de
Por outras palavras, a criação de um Reconstrução e Desenvolvimento (EBRD), em
“market-friendly environment” encoraja a 1999, o PIB da ex- URSS foi cerca de 65% do de
poupança, o investimento privado, o crescimento 1989.
Promoção da igualdade social e de Market-friendly environment
novas oportunidades económicas

Novos investimentos, crescimento e


Reformas totais do mercado capacidade de atracção do investimento estrangeiro

Oposição à livre entrada no mercado, Fraca defesa do direito de propriedade


à competição e à total liberalização

Desenvolvimento do mercado informal


Protecção dos interesses de elites

Reformas e crescimento económico


Ciclo Vicioso

Existência de rent seeking


Lenta transformação do mercado
e corrupção

Adaptado
de:
Parciais reformas de mercado Crescimento fraco ou recessão
Havrylyshyn
Instabilidade financeira
(1999).
maior parte dos casos, o que prospera é o indicador económico atingiu já os 5%. Assim se
“capitalismo selvagem”, em todo o seu justifica que este país seja o favorito do
esplendor: crime, corrupção, falta de Professor Jeffrey Sachs, o famoso economista
estabilidade económica, crise social e rent neoliberal da New York University, que
seeking... recomenda desde o início da transição uma
No início da transição, países como a “terapia de choque” para os países ex-
Albânia, a Bulgária ou a Roménia registaram um comunistas.
período de crescimento, que durou entre 3 e 5 Todavia, mesmo para os alunos
anos, para mais tarde entrarem em profunda exemplares da Europa Central – Polónia e
recessão, dada a ausência de importantes Hungria –, o percurso para uma transição bem
reformas estruturais. Países como a Rússia, a

FIGURA 3 - Crescimento nos países em transição (1991=100)

140
120
100
80
60
40
20
0
1989 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998

Europa Central Bálticos CEI

Fonte: EBRD (1999).


registado nos países que conseguiram a A transição económica tem sido
estabilização económica, nomeadamente acompanhada por um rápido e profundo
através do controlo da inflação. aumento das desigualdades sociais. Segundo
Alguns países não registam sucesso nas estimativas da OCDE, a desigualdade social na
reformas da transição dadas as desfavoráveis Europa de Leste, no Báltico, na Rússia e em
condições iniciais (caso do sistema industrial do outros territórios da ex-URSS aumentou
período de planeamento centralizado). Com consideravelmente: em menos de 10 anos, o
efeito, são em parte as favoráveis condições coeficiente de Gini aumentou de 25-28 para 35-
iniciais que explicam o bom caminho para a 38 5 .
transição seguido pelos países da Europa

FIGURA 4 - Índice de Liberalização Económica (em 1997)

0,9
0,8
0,7
0,6
0,5
0,4
0,3
0,2
0,1
0
Europa Central Bálticos CEI

Fonte: Tanzi (1999).


a) Estes indicadores variam de 1 a 4, com o valor 1 a representar o mais baixo nível de progresso para a
transição económica. Os valores não representam portanto a taxa de crescimento anual de cada indicador, mas
o progresso acumulado na transição de uma economia de planeamento centralizado para uma economia de
novo papel na economia consiga reestruturar
O padrão de vida na maioria dos países as redes de protecção social e aliviar a pobreza.
em transição caiu nas etapes inicias da reforma: É decisiva a criação de um sistema mais
o emprego reduziu-se e o desemprego justo de distribuição dos rendimentos e da
aumentou, sobretudo nos países pertencentes riqueza.
à CEI, onde o ajustamento do mercado de
trabalho foi feito através de demissões e onde Apesar de a pobreza ter aumentado nos
as novas empresam privadas não foram primeiros momentos da transição, tende a
capazes de assimilar todos os activos oriundos estabilizar nos países que retomaram o
das empresas estatais. crescimento.

Neste contexto, um aspecto importante Se considerarmos a variedade muito maior


da transição é a tentativa de resposta à de produtos (sobretudo importados) e de bens
seguinte questão: no geral, as populações de consumo duráveis de alta qualidade à
sujeitas a um processo de transição económica disposição das populações, com o fim da
estão ou não a viver melhor do que antes? economia de escassez, podemos afirmar que o
bem-estar das populações sujeitas à transição
A forma em que os indivíduos foram económica tem aumentado.
envolvidos no processo de transição e os
benefícios que daí podem retirar são Por outro lado, através da liberalização
fundamentais para que se alcance o referido económica e da descentralização da
ciclo virtuoso, logo uma transição bem sucedida. propriedade, os indivíduos podem acumular
riqueza pessoal através de cupons, acções de
O relatório do Banco Europeu para a empresas, pequenas empresas, terras ou
Reconstrução e Desenvolvimento (BERD) de habitações.
2001 defende que o alívio da pobreza, o capital
humano e a sua adaptação às necessidades dos A maior parte dos analistas da transição
mecanismos de mercado são fundamentais para é portanto unânime em afirmar que, a longo
o crescimento sustentado, o desempenho prazo, a única forma de combater a pobreza é
económico e a promoção da sustentabilidade o fomento do crescimento económico através
política e da justiça social ou equidade. da introdução e consolidação de políticas
favoráveis às forças do mercado.
Contudo, é óbvio que as etapas iniciais
da transição acarretam custos sociais elevados
– é o princípio do “no pain no gain” da transição. IV - O caminho que ainda falta percorrer...
De facto, no início da transição, verifica- As experiências de transição para a
se um agravamento das disparidades em economia de mercado que duram, há mais de
a República Checa. Depois, a Eslovénia, a
Todavia, pelo exposto conclui-se que Letónia e a Estónia.
ainda resta um longo caminho a percorrer para Países como a Eslováquia, a Lituânia, a
que o sucesso da transição seja efectivado na Roménia e a Bulgária precisam ainda de fazer
maior parte dos países de Leste. grandes esforços para se possam inserir nas
Cinco obstáculos fundamentais continuam chamadas economias de mercado funcionais.
a ameaçar a transição de alguns países, Todavia, mesmo a Polónia, foi obrigada a
sobretudo os do antigo bloco soviético: realizar algumas reformas, nos sectores agrícola
1) O falhanço na construção das novas e mineiro, nomeadamente.
Nações, o que tem conduzido ao caos (exemplos A aposta na superação dos obstáculos à
da região do Cáucaso); transição e a implementação das reformas que
2) A dificuldade de acompanhamento, por descrevemos no início deste capítulo, ajudarão
parte de alguns países, da estabilização os países em transição do Leste Europeu e
económica e consequentes ciclos de persistente futuros membros da União Europeia a corrigir
inflação e desemprego elevados; as deficiências e desequilíbrios herdados do
3) A insuficiente liberalização e privatização planeamento centralizado e a encontrar o
e, consequentemente, a corrupção, o crime, o caminho certo do crescimento seguro, rápido e
rent seeking ou o crony capitalism; sustentado.
4) O crescimento excepcional da economia A escolha exacta deste caminho depende
informal, que incentiva a corrupção e enfraquece dos objectivos, do empenho e da consciência
a credibilidade do mercado formal e das das limitações de cada país...
instituições públicas, impedindo o
desenvolvimento do sector privado aberto e V – O Caso da Hungria
formal;
V. 1. – Enquadramento Geográfico e
5) O desaparecimento repentino das Breve Resenha Histórica
instituições do planeamento centralizado, sem
A Hungria é um país localizado na Europa
que antes tenham surgido instituições de
Central, sem ligação com o mar. Faz fronteira
mercado (por exemplo, diversos países
com sete países: Eslováquia a norte, Ucrânia a
desfizeram-se dos velhos sistemas de crédito
nordeste, Roménia a leste, Croácia e Jugoslávia
agrícola e distribuição da produção sem criarem
(Sérvia e Montenegro) a sul, Eslovénia a
novos sistemas baseados no mercado).
Aproximadamente 20% da superfície crescimento com 66,6% da população a residir
húngara, correspondente a áreas montanhosas, em aglomerados urbanos, em 1998. A capital,
é coberta por florestas de caducifólias. No Budapeste, concentra cerca de 18,5% dos
restante território predomina a actividade habitantes do país.
agrícola e as pastagens. A Hungria é um país que apresenta uma

FIGURA 1 - CENTRO DE BUDAPESTE


os serviços, em detrimento de incentivos à
Em 1699, grande parte da Hungria é produção agrícola e de bens de consumo.
incorporada no império dos Habsburgos. Em Ainda que a Hungria tenha sido o primeiro
1849, após a eclosão de uma revolta que PECO a realizar reformas viradas para o
pretendia alcançar a independência, o Império mercado, o que é facto é que a economia se
dos Habsburgos torna-se numa monarquia manteve controlada pelo Estado e pelas
dualista (Áustria-Hungria); em 1867, a Hungria cooperativas, até finais dos anos 80. Era o caso
obtém um estatuto em tudo semelhante ao da do estatuto da propriedade e das grandes
Áustria. decisões económicas, como a afectação de
A derrota na I Guerra Mundial leva à recursos, a concessão de crédito e de subsídios
queda do Império e à proclamação da República ou a origem das importações, que se
da Hungria, que perde cerca de dois terços do mantiveram sob firme domínio estatal.
seu território e metade da população. Apesar do crescente dinamismo do sector
A Hungria entra na II Guerra Mundial ao privado, apenas em Março de 1990, com a
lado da Alemanha Nazi na tentativa de derrota dos comunistas nas eleições, é que a
recuperar os territórios perdidos. Em 1945 é Hungria conseguiu criar condições políticas para
invadida pelo Exército Vermelho e, em 1949, é caminhar definitivamente para uma economia de
instalado um governo comunista. mercado. Rapidamente foram tomadas medidas
Em 1989 as eleições livres estabelecem no sentido de liberalizar o comércio externo, os
um governo democrático e inicia-se o processo preços, o investimento externo e iniciar o
de transformação política e económica. processo das privatizações.
No período compreendido entre 1990 e
1994 a transição para o mercado foi marcada
V.2 - A Transição Económica pelo crescimento negativo do Produto Interno
A Hungria é normalmente apontada como Bruto (PIB). Esta situação surgiu da combinação
o país que melhor efectuou a transição de uma das reformas económicas com o colapso do
economia de planeamento centralizado para COMECON 4 ; contudo, a recessão económica foi
uma economia de mercado. menor do que na generalidade dos PECO. Este
Já em 1968 tinham sido adoptadas melhor comportamento da economia húngara
algumas medidas orientadas para o mercado, face às suas congéneres do Leste europeu
que ficaram conhecidas por “Novo Mecanismo deveu-se, em grande parte, à já referida
Económico”. Apesar da natural timidez de tais introdução de mecanismos de mercado (desde
medidas, os anos 60 e 70 foram um período de 1968), que facilitaram a reestruturação dos
O processo das privatizações, iniciado na representava 62,2% do Produto Nacional Bruto
primeira metade da década de 90, está (PNB).
praticamente terminado. O ritmo de Dados de 2000 indicam um PIB per capita
privatizações foi elevado, passando de 1858 em PPC (Paridades de Poder de Compra) que é
empresas estatais em 1990, para apenas 3 em o terceiro mais alto de entre os PECO, atrás da
1999. Foi transferido para o sector privado Eslovénia e da República Checa.
grande parte da actividade económica do Em 1996, a Hungria aderiu à OCDE e, em
Estado, nomeadamente sectores estratégicos Março de 1999 à NATO, prevendo- -se que, em
como a banca, as telecomunicações e a energia. Maio de 2004, se torne membro de pleno direito
O diploma legal que dinamizou o processo da União Europeia.
das privatizações, pelo que ficou conhecido como
“Lei das Privatizações”, data de 1992 e foi HUNGRIA
modificado em 1995. Este diploma foi ainda
sujeito a algumas alterações em Julho de 1997,
entre as quais se destacam, a redução da
participação máxima do Estado para 25% mais
um voto ou para uma “golden share”, com
direitos preferenciais de voto.
Com esta medida, procurou-se estimular
a reestruturação económica, modificar a
organização empresarial, desenvolver a
aquisição de “saber-fazer” e a aprendizagem
de novas técnicas de gestão e vendas,
fomentar o mercado de capitais e reforçar o
papel dos investidores estrangeiros nas
empresas húngaras. De referir ainda a
importância do papel assumido pelo encaixe
financeiro decorrente das privatizações na
redução da dívida externa.
Em 1995, foi recriada a Agência Húngara
de Privatização e Gestão do Património e Gestão
do Estado (ÁPV Rt.), através da criação de uma
sociedade anónima responsável pela gestão,
Fontes estatísticas: PNUD, Relatório do Desenvolvimento
Humano 2000. CIA, The World Factbook 2000
eficiência produtiva).
URSS e pelos seus satélites da Europa Central e
3
A descentralização da propriedade pode ser vista Oriental, constituía um bloco económico que surgia
como uma fonte de saneamento financeiro, como resposta ao Plano Marshall e à OECE. O
através da entrada de dinheiro dos cofres do objectivo desta instituição era, a prazo, conseguir
Estado. a integração total das economias dos Estados-
4
O “capitalismo popular” relaciona-se com a Membros, nomeadamente recorrendo à
implementação de um sistema, dentro de uma Internacional do Trabalho (DIT). Foi extinto em
economia de mercado livre, segundo o qual a Junho de 1991.

Bibliografia

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Suplementa 2/99, Serviço das Publicações KONTLER, László. Millennium in Central Europe:
Oficiais das Comunidades Europeias, a History of Hungary, Atlantisz Publishing House,
Luxemburgo, 2000. Budapest, 1992.
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