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A DISCURSIVIZAÇÃO DA LOUCURA EM COMENTÁRIOS NO FACEBOOK: Sentidos

e silenciamentos sobre um caso de violência

Cláudia Janice Hilgert – PPGL Unioeste 1

RESUMO: Este trabalho se propõe a estudar os sentidos para a loucura em comentários, postados em
um grupo da rede social Facebook – Elogios e reclamações Foz do Iguaçu – suscitados a partir da
postagem de uma reportagem sobre uma jovem com transtornos mentais que agrediu uma mulher na
rua, com um tijolo, na cidade de Foz do Iguaçu. Pela reportagem, os episódios de agressões praticados
pela jovem são frequentes. Para tal objetivo, esta pesquisa se inscreve, teórica e metodologicamente,
no campo da Análise de Discurso pêcheutiana (AD), para a qual, o sentido das palavras é dado
histórica e ideologicamente, em um determinado contexto (PÊCHEUX, 2014). A noção de silêncio
local, para a qual o acesso a certas regiões de significados é interditado aos sujeitos, o que constitui, de
certa forma, uma censura, é importante no gesto de análise do material proposto (ORLANDI, 2007). O
corpus desta pesquisa é formado por recortes de comentários que demonstram como os sujeitos
reagiram diante do fato apresentado na reportagem. Foram observados posicionamentos que
defendiam a violência contra a jovem, o internamento como forma de proteger as pessoas e críticas
contra o poder público.

PALAVRAS-CHAVE: Loucura; Análise de discurso; Silêncio.

INTRODUÇÃO
Este trabalho tem como objetivo analisar comentários em uma postagem, em um grupo
chamado Elogios e reclamações Foz do Iguaçu, da rede social Facebook, que trata sobre o caso de
uma agressão na rua, realizada por uma moradora de rua com transtornos mentais. A reportagem, que
tem o título “Mulher que agride pessoas na rua em Foz é acompanhada pela assistência social há
anos”, relata que a moradora de rua jogou um paver em uma mulher que passava na rua, causando
ferimentos, o que necessitou de cuidados médicos. Além disso, duas servidoras do município de Foz
do Iguaçu deram uma entrevista ao apresentador do jornal, explicando a situação da mulher e
encaminhamentos possíveis, que competem ao poder público. As servidoras explicaram que a
legislação permite a internação pelo tempo necessário para a recuperação da pessoa com transtorno
mental, mas não permite que esta internação seja permanente. Além do transtorno mental, a jovem é
usuária de entorpecentes e não tem contato com a família, isto é, o poder público não conta com o
apoio da família para o acompanhamento da jovem.
A postagem no grupo do Facebook, que reúne mais de 80 mil membros, gerou muitos
comentários. O que despertou o interesse por realizar estas análises que se propõe neste trabalho, foi o
teor dos comentários, os quais guardam relações com memórias da loucura, e com posicionamentos de
sujeitos nos meios virtuais de ataque às minorias, como as pessoas com transtornos mentais,
homossexuais, travestis, entre outros, em que os seres humanos que fogem à “normalidade”, são
destituídos de sua humanidade. Abaixo, figura 1, um print da página em que foi postada a reportagem.
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1
Mestranda em Letras, Programa de Pós-Graduação em Letras – Universidade Estadual do Oeste do Paraná,
Página

claudiahilgert@gmail.com.
Figura 1 - print da postagem no grupo do Facebook "Elogios e reclamações de Foz do Iguaçu”

Este trabalho tem como base teórica a Análise de discurso francesa (AD), que se constituí
como uma disciplina de entremeio entre três áreas do conhecimento: 1. teoria do discurso; 2.
Materialismo histórico; 3. Linguística. Essas áreas são atravessadas por uma teoria da subjetividade de
ordem psicanalítica. Dessa forma, para a AD, o discurso deve ser tomado sempre considerando a
história, ou seja, em uma conjuntura determinada pela luta de classes. (PÊCHEUX; FUCHS, 2014)
De acordo com Pêcheux (2014) os sentidos das palavras são construídos histórica e
socialmente, ou seja, são determinados pelas posições ideológicas que o sujeito ocupa, no contexto
sócio-histórico em que o discurso é produzido. Desta forma, o sentido do discurso é dado pelas
posições sustentadas por aqueles que o produzem, ou “em referência às formações ideológicas nas
quais essas posições se inscrevem” (p. 147). Assim, para a AD, o conceito de formação discursiva
permite compreender como se produz o discurso:

Chamaremos, então, formação discursiva aquilo que, numa formação ideológica


dada, isto é, a partir de uma posição dada numa conjuntura dada, determinada pelo
estado da luta de classes, determina o que pode e o que deve ser dito (articulado sob
a forma de uma arenga, de um sermão, de um panfleto, de uma exposição, de um
programa, etc.) (PÊCHEUX, 2014, p. 147)

De acordo com Pêcheux (2014), são as formações discursivas que dissimulam, pelo efeito da
transparência da linguagem a formação ideológica que constitui o sujeito. A ideologia funciona
interpelando os indivíduos em sujeitos, fornecendo a estes sua realidade. O funcionamento da
ideologia é inconsciente e acontece por meio de um efeito de sujeito e de sentido, o que o leva a
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acreditar que somente pode dizer algo da forma como é dito, ou seja, sob o efeito de uma autoria
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própria. (PÊCHEUX, 2014)


O sujeito, para a AD, é uma noção fundamental para a compreensão do funcionamento da
ideologia no discurso. A definição de ideologia, de acordo com Orlandi (2015), foi ressignificada pela
AD, de modo que é compreendida como condição principal de constituição dos sujeitos e dos sentidos.
A ideologia interpela o sujeito para que esta produza discurso, de forma inconsciente, pois este sujeito
não percebe o funcionamento da ideologia em seu discurso, acreditando ser a origem do que diz.
Segundo Orlandi (2015) a relação do sujeito com o mundo que o cerca é feita por meio da linguagem,
que, por sua vez, é sempre incompleta, passível de equívocos e moldada por discursos que a precedem.
O sujeito, assim, também é incompleto, jamais termina de se constituir, não é coerente, e pode mudar
de posição em momentos distintos.

É o gesto de interpretação que realiza essa relação do sujeito com a língua, com a
história, com os sentidos. Esta é a marca da subjetivação e, ao mesmo tempo, o traço
da relação da língua com a exterioridade: não há discurso sem sujeito. E não há
sujeito sem ideologia. Ideologia e inconsciente estão materialmente ligados. Pela
língua, pelo processo que acabamos de descrever. (ORLANDI, 2015, p. 45)

O sujeito, dessa forma, é duplamente assujeitado, à ideologia e ao inconsciente. A história


determina o sujeito, então o discurso deve ser tomado em relação às suas condições de produção, que é
o contexto sócio-histórico em que o discurso se dá. Além disso, conforme Orlandi (2015, p. 47) “o
sujeito deve ser pensado como ‘posição’ entre outras. Não é uma forma de subjetividade, mas um
‘lugar’ que ocupa para ser sujeito do que diz”. A posição sujeito é também constitutiva do sentido e
determinada ideologicamente, assim uma mulher, por exemplo, produz diferentes sentidos quando
ocupa a posição mãe, profissional, filha.

A LOUCURA EM DISCURSO: OS COMENTÁRIOS NO FACEBOOK


Nesta seção serão feitas análises de três sequências discursivas, que agrupam comentários por
similaridade e temas, que pareceram ser representativos dos comentários em geral. Esta reunião de
comentários por tema produz somente um efeito de que abrange a totalidade, mas constitui um gesto
de construção de um corpus que possa dizer algo sobre os sentidos que circulam a respeito de casos,
como o abordado, que envolvem moradores de rua com transtornos mentais. A sequência discursiva
número 1 (SD1), reúne alguns comentários, reproduzidos a termo, entre muitos, do que foi chamado
de discurso de ódio, como se pode observar abaixo:

SD1: 1.Quero ver se um dia alguém matar ela, daí vem os mimimi; 2. Só a morte
salva; 3. Desgraça da humanidade isso ai, lixo humano ambulante, Deus me perdoe,
mas si eu achar ela na calada da noite, faço cortar lenha para o capiroto, kkkk; 4.
Nem a polícia pode fazer nada, o jeito eh cemitério mesmo kkkk uma hora essa
loka mata alguém. (RODRIGUES, 2018, grifos nossos)

O comentário 1 soa como uma ameaça, “um dia alguém” mata ela, a expressão “mimimi”, que
vem na oração seguinte é utilizada para desvalorizar um discurso, “mimimi” são reclamações
exageradas, sem motivo ou sem sentido. Esta expressão é bastante comum no meio eletrônico, quando
se quer dizer que o discurso do outro é reclamação exagerada. O comentário seguinte, número 2,
decreta: “só a morte salva”, não há solução eficiente para a moradora de rua, só a morte. O comentário
número 3 é mais incisivo, deixa mais à mostra um ódio e uma agressividade dirigida à mulher com
transtorno mental, percebe-se uma desumanização dela pelas palavras desgraça da humanidade e lixo
humano. A mulher objeto da reportagem é um resto humano, ser abjeto, descartável. Neste comentário
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também existe uma relação interdiscursiva com o discurso religioso: Deus me perdoe. Porém o sujeito,
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mesmo reconhecendo que, perante a religião, o ato que propõe é errado, não deixa de divulgá-lo.
“Cortar lenha para o capiroto” é uma expressão que sugere morte e, não somente isso, sugere que a
mulher com transtorno mental será condenada ao inferno, a partir dos princípios religiosos do sujeito
deste comentário.
O quarto comentário da SD1 é da mesma linha dos outros, sugere a morte da moradora de rua
como solução para a questão: “o jeito é cemitério mesmo”. Outro ponto que chama atenção neste
comentário é a oração: “uma hora essa loka mata alguém”. Quer dizer, para evitar que ela mate
alguém, ela deverá ser morta. Esse discurso não iguala as mortes, a da mulher com transtornos mentais
é uma solução, a de outras pessoas seria um crime, uma violência. Isso tira da mulher o status de ser
humano. Além disso, as onomatopéias (figuras de linguagem que reproduzem o som, no caso, as
expressões kkkk, que reproduzem o som de uma gargalhada) produzem um efeito de humor em
comentários de extrema violência, onde não caberiam naturalmente. Seria talvez uma forma de
amenizar as expressões, como algo que soa de uma certa forma como uma brincadeira. Produz um
efeito de defesa diante de uma possível contestação, na verdade silencia possíveis respostas contrárias
sob o disfarce do chiste.
Ao analisar a questão dos chistes hostis, Freud (1905/1996, p. 102), explica que o sujeito, ao
passar pelo processo de civilização tem seus impulsos agressivos, assim como seus impulsos sexuais,
reprimidos. Porém, as regras de restrição do ódio “foram moldadas para uma pequena sociedade dos
membros de um clã”. A partir do momento em que estamos em um grupo maior “permitimo-nos
desconsiderar a maior parte dessas restrições”. Assim, o autor defende que o chiste hostil, como os
representados na SD1, pode ser uma forma de combater um “inimigo”, tornando-o “pequeno, inferior,
desprezível ou cômico” (p. 103).

Um chiste nos permite explorar no inimigo algo de ridículo que não poderíamos
tratar aberta ou conscientemente, devido a obstáculos no caminho; ainda uma vez, o
chiste evitará as restrições e abrirá fontes de prazer que se tinham tornado
inacessíveis. Ele, ademais subornará o ouvinte com sua produção de prazer, fazendo
com ele se alinhe conosco sem uma investigação mais detida [...] (FREUD,
1905/1996, p. 103)

Dessa maneira, além de possibilitar a quebra de uma restrição à agressividade dirigida a um


inimigo, o chiste também é uma forma de angariar o apoio de outras pessoas, por meio do prazer do
riso. Além disso, o autor coloca que o chiste é uma forma de prevenir as respostas ou réplicas
possíveis ao seu dito. (FREUD, 1905/1996)
Os comentários da SD1 fazem parte de uma formação discursiva que não reconhece o sujeito
que é retratado na reportagem como um ser humano que goze de direitos, cujo principal e primeiro
direito é o direito à vida. Por este motivo, pode-se afirmar que esta formação discursiva desumaniza os
sujeitos “anormais”, fora do “padrão” de sujeitos da sociedade e ao mesmo tempo produz esse
discurso de ódio voltado a este sujeito, representante de uma minoria.
Magalhães e Souza (2011, p. 54) explicam que a violência e o ódio voltados ao outro, ao
diferente está presente em todos os níveis da sociedade, e são dirigidos principalmente aos grupos de
maior vulnerabilidade, ou minorias (como as pessoas com transtornos mentais, por exemplo). Para os
autores, “uma das causas centrais da violência na contemporaneidade é a negação da diferença. O não
reconhecimento do como pessoa”.

Esse dispositivo de estranhamento, de exclusão, de autoafirmação pelo


rebaixamento do outro está presente em todos nós, frutos da modernidade agora
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naturalizada: existe um “Eichman” dentro de cada um de nós. Esse “Eichman” está


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desperto em alguns, controlado ou acorrentado em outros ou simplesmente


adormecido, podendo ser despertado em momentos históricos que reúnam as
condições para tal. Os genocídios podem ser explicados pelo despertar desse
“Eichman”, desse dispositivo interno moderno de afirmação perante o rebaixamento
do outro. (MAGALHÃES; SOUZA, 2011, p. 55)

Os autores (MAGALHÃES; SOUZA, 2011, p. 55), utilizam o personagem nazista Eichamann,


que “foi o responsável pela logística de extermínio de milhões de pessoas” como uma metáfora que
simboliza esta agressividade voltada ao outro, típica dos sujeitos da modernidade, que é mais ou
menos contida em cada sujeito, e que está na gênese dos grandes atos de violência da humanidade.
O conteúdo da SD1, também guarda relação com a memória sobre a loucura que Foucault
(2014) relata, em que o louco era considerado um ser perigoso e deveria ser isolado do convívio da
sociedade. Uma das principais características do homem, a racionalidade, escapa à loucura,
considerada o campo da desrazão. O autor explica que a partir do cogito cartesiano (Penso, logo
existo), “esse perigo está conjurado e que a loucura foi colocada fora do domínio no qual o sujeito
detém seus direitos à verdade: domínio este que, para o pensamento clássico, é a própria razão.
Doravante, a loucura está exilada”. Com isso surgiram as formas de controle e isolamento da loucura.
A memória é constituinte dos discursos, na medida em que também é da instância ideológica.
Orlandi (2015, p. 29) trata a memória discursiva como “o saber discursivo que torna possível todo
dizer e que retorna sob a forma do pré-construído, o já-dito que está na base do dizível, sustentando
cada tomada da palavra”. Considerando que as palavras significam por meio da história e da língua, as
memórias sobre a loucura retornam no discurso que se coloca em questão aqui sem que, no entanto, os
sujeitos tenham acesso a essa origem, pelo efeito da ideologia.
Na sequência, na SD2, foram agrupados comentários que estão relacionados à memória dos
internamentos como medida de proteção da sociedade da ameaça que a loucura representa. Da mesma
forma que a SD1, aqui também a loucura é considerada um perigo, mas diferentemente da pena de
morte, agora o internamento é a solução para esta formação discursiva. O comentário número 1
confere um sentido de doença ao transtorno mental, uma memória vinculada à loucura como domínio
da psiquiatria, de acordo com Foucault (2014):

SD2: 1. Faltam clínicas para doentes mentais; 2. Assistência social que nada. Ela
precisa de internação; 3. Já não tem um lugar adequado para tratamento dessa
infeliz, essas 2 poderiam levar ela pra casa. Revezando. Ta com pena? Leva prá
casa; 4. O Estado é omisso sim, vai um cidadão de bem fazer isso. (RODRIGUES,
2018, grifos nossos)

Na SD2 também se observa uma crítica às práticas do Estado que parece deixar os cidadãos
desprotegidos do perigo que a loucura representa. A crítica é dirigida às servidoras que foram
entrevistadas na reportagem, em que se ultrapassam os limites do público e do privado: “leva pra
casa”, responsabilizando as servidoras pela “não solução” do problema. Por serem “porta-vozes” do
poder público, a responsabilidade foi personalizada na figura das servidoras. O quarto comentário
opõe a posição sujeito da mulher com transtornos mentais da reportagem à posição do “cidadão de
bem”, isto é, aquela mulher não é uma “cidadã de bem”. Neste caso, para esta formação discursiva, a
condição de ter transtorno mental não a exime de seus “crimes”, as agressões, como a própria
legislação prevê. Nesta sequência também o internamento não é medida de tratamento ou assistência a
alguém que necessita de cuidados, ele tem o sentido de medida de exclusão, de isolamento do sujeito
que causa problemas aos “cidadãos de bem”.
Na sequência abaixo, (SD3), foram reunidos comentários que também toma a mulher retratada
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na reportagem como uma ameaça, mas desta vez colocam em dúvida (sem-vergonha) a veracidade da
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condição dela, pois “escolhe suas vítimas”, ou seja, pessoas vulneráveis, frágeis como mulheres e
crianças, por exemplo.

SD3: 1. É loca de sem vergonha. Porque ela não ataca homem? 2. Tão sem
vergonha que só pega senhora, crianças, idosas. Não entendo pq não bate em
homens, doente pra mim bate em todo mundo, não escolhe suas vítimas. 3. Homens
ela não agride né ou será que tem relatos geralmente só mulheres sozinha ou com
crianças. (RODRIGUES, 2018, grifos nossos)

Existe uma relação entre o discurso da SD2 e o da SD3 no sentido de que a mulher sobre
quem se fala na reportagem não é considerada alguém que seja confiável e mais, como uma não
“cidadã de bem”, adquire esse sentido de ameaça que é constante em todo este corpus. Com isso,
existe o sentido de um julgamento nessas sequências discursivas, pois inclusive a veracidade do
transtorno é colocada em questão, construindo um sentido para a loucura de uma maldade
premeditada.
Além disso, nesta última sequência está muito claramente presente uma questão de gênero, em
que para a mulher é atribuído um sentido de alguém vulnerável e portanto, sujeita às agressões da
moradora de rua em questão. A proteção à mulher, que é frágil e indefesa, surge como um argumento
que expõe a “maldade” e a agressividade. Mais uma vez o que ocorre é que se desconsidera que a
agressora da qual se está falando é também uma mulher e, pela lógica desta formação discursiva,
deveria ser protegida. Mas existe uma falha neste discurso, pois a mulher que vive na rua, a louca, não
goza das condições fornecidas à outras mulheres. Novamente existe uma diferenciação entre a loucura
e a normalidade, em que a loucura está em um patamar sub-humano.
As sequências discursivas que compõem o corpus deste trabalho têm em comum o imaginário
sobre a loucura como uma ameaça, porém cada uma apresenta isso de uma forma diferente. Da morte
como solução possível às insinuações de ser falta de caráter, a loucura é destituída de seu caráter de
humanidade. Em comum também está presente esse silenciamento que é imposto por esses discursos,
muitos de ódio como podemos perceber, àquele sujeito da loucura, que vive na rua, como um ser
humano que necessita de cuidados e atendimento. A defesa dos direitos daquela mulher é silenciada,
pois para as formações discursivas presentes nesse discurso, ela não é uma mulher, não é um ser
humano. O silêncio, em suas diversas formas, significa assim como as palavras.
Orlandi (2007), em As formas do silêncio, desenvolve a noção de silencio como produtor de
sentido. Distinguiu vários tipos de silêncio, seja o constitutivo, o da enunciação... São várias as formas
de silêncio, das quais são destacadas: 1. O silencio fundador, que é o silêncio “que existe nas palavras,
o que significa o não dito” e “que dá espaço de recuo significante” produzindo condições de significar;
2. o silêncio constitutivo, pois quando se diz uma palavra todas as outras são apagadas. É o silêncio
necessário da formulação do dizer; 3. o silêncio local, em que determinadas zonas de sentido são
negadas a determinados sujeitos. Esse silêncio é o da censura.
A noção de silêncio local, proposta por Orlandi (2007, p. 104), ou a censura, “é a interdição da
inscrição do sujeito em formações discursivas determinadas, isto é, proíbem-se certos sentidos porque
se impede o sujeito de ocupar certos lugares, certas posições”. Desta forma, sentidos não aceitos em
determinadas formações discursivas são silenciados no discurso dos sujeitos.
Com isso, o discurso na SD1 silencia a mulher da reportagem como ser humano e, a partir
disso, ela não tem nem o direito à vida. A ameaça que ela representa deve ser combatida de forma
cabal, e essa violência não é reconhecida, tanto que alguns dos comentários desse recorte são
realizados em forma de chiste. Na SD2, ocorre o silenciamento do movimento que propôs o fim dos
internamentos de longa duração para tratamento dos transtornos mentais, assim como da dependência
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química. As servidoras do município que foram entrevistadas na matéria televisiva são as


representantes desse movimento, que inclusive culminou com a mudança na legislação brasileira. Ao
informar essas questões no programa e as limitações do Estado em atuar no caso, comentários hostis
foram dirigidos a elas, silenciando todo um posicionamento de órgãos de classe, da legislação, entre
outros, que por décadas produzem pesquisas e ações nesta área. Na última sequência discursiva (SD3),
o discurso machista, em que a mulher tem sentidos de inferioridade e fragilidade, é utilizado como
argumento para provar a maldade contida na loucura. Desta forma, a mulher com transtornos mentais
é silenciada enquanto mulher, pois é má. Ocorre, então, um duplo silenciamento, dela enquanto
mulher, e enquanto uma pessoa que necessita ser protegida.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Em O mal estar da civilização, Freud (1930/1996), revela que a satisfação do homem é
impedida por três fatores: a falibilidade do corpo, que vai se deteriorando com o tempo; o mundo
externo, com suas catástrofes naturais; e o relacionamento com os outros. De acordo com o autor, “o
sofrimento que provém dessa última fonte talvez nos seja mais penoso do que qualquer outro” (p. 85).
Freud elenca várias formas de diminuir o sofrimento, como a busca pela religião, as drogas, o
isolamento da sociedade, a arte, entre outros. Enquanto parece mais fácil sublimar o sofrimento que
tem origem nas duas primeiras causas, em relação à terceira, “a fonte social do sofrimento, nossa
atitude é diferente” (p. 93).
Apesar de se reconhecer absolutamente benéfica e indispensável a regulação da sociedade para
o convívio possível entre os sujeitos, a civilização foi mal-sucedida na prevenção do sofrimento que a
submissão às normas impõe. Isso a tal ponto que não são incomuns os argumentos de que seríamos
mais felizes se estivéssemos em uma sociedade mais primitiva, com menos regras e leis. (FREUD,
1930/1996)
A civilização tem várias exigências, entre elas as de “beleza, limpeza e a ordem, que ocupam
uma posição especial”. Além disso, diz o autor, que “nenhum aspecto parece caracterizar melhor a
civilização do que sua estima e seu incentivo em relação à mais elevadas atividades mentais do
homem” ( p.100). A motivação para a atividade humana está na confluência de duas metas, “a de
utilidade e a de obtenção de prazer” (p. 101). Mas ainda resta um último aspecto da civilização, talvez
um dos mais importantes: “a maneira pela qual os relacionamentos mútuos dos homens, seus
relacionamentos sociais, são regulados” (p.101). Essa regulação é realizada pela poder das
comunidades, em oposição ao direito do indivíduo. Essa substituição é o passo decisivo da civilização,
em que a justiça é a principal força reguladora dos indivíduos que a ela não se ajustam, com o
sacrifício de seus instintos. (FREUD, 1930/1996)
Assim, a civilização exerce uma força descomunal para aplacar os instintos do sujeito, sejam
eles sexuais ou de hostilidade, por exemplo, para o seu bom funcionamento. Mas apesar de tudo isso,
o que se observa é uma imensa dificuldade da civilização para sujeitar os indivíduos. A máxima
“amarás teu próximo como a ti mesmo” (p. 114) é mais facilmente aplicável às pessoas mais
próximas. O mais comum, todavia é o seu contrário, pois “não meramente esse estranho é indigno do
meu amor; honestamente, tenho que confessar que ele possui mais direito a minha hostilidade e, até
mesmo, meu ódio” (p. 115). (FREUD, 1930/1996)

A existência da inclinação para a agressão, que podemos detectar em nós mesmos e


supor com justiça que ela está presente nos outros, constitui o fator que perturba
nossos relacionamentos com o nosso próximo e força a civilização a um tão elevado
dispêndio de energia. Em consequência dessa mútua hostilidade primária dos seres
humanos, a sociedade civilizada se vê permanentemente ameaçada de desintegração.
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O interesse pelo trabalho em comum não a manteria unida; as paixões instintivas são
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mais fortes que os interesses razoáveis. A civilização tem de utilizar esforços


supremos a fim de estabelecer limites para os instintos agressivos do homem e
manter suas manifestações sob controle por formações psíquicas reativas.

A hostilidade, como vemos em Freud (1930/1996), é um instinto natural nos sujeitos, e a


civilização utiliza máximos esforços para contê-la. Surgem estratégias como incentivar as pessoas a
criar identificações e relacionamentos amorosos e restringir a vida sexual para controle dos instintos.
Observamos no corpus analisado a manifestação dessa agressividade direcionada ao outro, ao
estranho, o diferente. A loucura, como diz Foucault (2014) é identificada pela figura do louco, que é o
diferente dos outros. Dessa forma é potencializado esse estranhamento do outro. Se é difícil conter a
hostilidade voltada a um sujeito “normal” quem dirá a um sujeito que não posso reconhecer como
igual a mim?
O discurso nas redes sociais é uma possibilidade para o sujeito de dar vazão ao seu instinto
agressivo, sem ter, no entanto, maiores consequências. Existe um efeito de não estar sujeito a punições
ao proferir discurso de ódio, apesar de já existirem leis que coíbem o mau uso da internet. Além disso,
o discurso de ódio nas redes sociais parece não ter efeito sobre a realidade, o que nem sempre é
verdade. Existe uma grande diferença entre o dizer e o agir, mas podemos observar em noticiários
muitos casos em que o ódio é levado ao ato. O discurso de ódio está na origem de muitas ações
violentas, pois dissemina ideologias que afetam os sujeitos, a ponto de não mais estarem sob o
controle das leis. Muito se fala sobre o efeito do digital sobre os sujeitos, e sobre a constituição do
sujeito contemporâneo nesta era em que tudo acontece de forma muito rápida.
O papel do analista é trazer à tona sentidos ocultos sob o efeito da transparência da linguagem.
É colocar em evidência os sentidos, sua construção histórica, e o efeito da ideologia constituindo os
sujeitos e produzindo discursos. Talvez isso possibilite questionar o que está posto, os sentidos
naturalizados, fatos e acontecimentos banalizados.

REFERÊNCIAS
FOUCAULT, M.. História da Loucura: na idade clássica. São Paulo: Perspectiva, 2014.
FREUD, S. Os chistes e sua relação com o inconsciente (1905). In: Ed. Standard Brasileira das Obras
completas de Sigmund Freud, v. VIII. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
__________. O Mal-Estar na Civilização (1930). In: Ed. Standard Brasileira das Obras completas de
Sigmund Freud, v. XXI. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
MAGALHÃES, J.L.Q; SOUZA, T.R. Violência e modernidade. In: ROSÁRIO,A. B; KYRILLOS
NETO, F; MOREIRA, J. O (Org.). Faces da violência na contemporaneidade: sociedade e
clínica. Barbacena: EdUEMG, 2011.
ORLANDI, E. As formas do silêncio. Campinas: Ed. da Unicamp, 2007.
___________. Análise de Discurso: Princípios e Procedimentos. Campinas, SP: Pontes, 2015. 12ª ed.
PÊCHEUX, M. Semântica e Discurso: uma crítica à afirmação do óbvio. (Trad. Eni P. Orlandi et al)
5º ed. Campinas: Editora da Unicamp, 2014.
PÊCHEUX, M. ; FUCHS, C. A propósito da análise automática do discurso : atualização e
perspectivas (1975). In: GADET, Françoise ; HAK, Tony (org.). Por uma análise automática do
discurso: uma introdução à obra de Michel Pêcheux. Trad. Bethânia S. Mariani et. al. Campinas :
Editora da Unicamp, 2014. 5ª ed.
RODRIGUES, Pedro (nome de usuário). "Mulher que agride pessoas na rua é acompanhada pela
assistência social há anos". 04 de julho de 2018. Post do Facebook. Disponível em:
<https://www.facebook.com/groups/ECFOZ/permalink/1813538605392632/>. Acesso em:
29/07/2018.
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