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A ciranda de sexo, dinheiro e mentiras de Prem Baba

A reportagem de capa de ÉPOCA desta semana revela a vida que Janderson de Oliveira levava
por trás da imagem imaculada de guru do amor

Em janeiro de 1999, o paulistano Janderson Fernandes de Oliveira buscava um sentido para sua
vida. Havia largado a faculdade de psicologia e era sócio de uma clínica que oferecia terapias
alternativas, como massoterapia e acupuntura. O interesse por questões espirituais e religiosas
tinha sido herdado da avó materna, evangélica e benzedeira. Desde criança contestava os
ensinamentos da Bíblia. Não fazia sentido que a felicidade estivesse reservada apenas para um
futuro após a morte. Recém-casado, em busca do autoconhecimento, resolveu tentar achar
seu "eu" alhures. Embarcou com a mulher para a Índia. Disse aos amigos que obedecia a um
chamado espiritual que o acompanhara desde a adolescência. Segundo seu relato, ouvia vozes
que lhe diziam que ao atingir 33 anos deveria ir a Rishikesh — a cidade indiana aos pés do
Himalaia é um dos berços da ioga e ponto de peregrinação.

Na cidade sagrada conheceu Sri Sachcha Baba Maharajji, um importante guru da linhagem
hinduísta Saccha. Quatro anos depois, tornava-se ele próprio um mestre, o Sri Prem Baba. Em
sânscrito, “Sri” significa senhor, “Prem” amor divino e “Baba” pai espiritual. Ele desenvolveu
um método de autoconhecimento que batizou de “O caminho do coração”, uma mistura de
psicologia, filosofia, práticas xamanistas da Amazônia e ensinamentos da tradição saccha. Com
essa mixórdia espiritual, uma ferramenta para acalmar a mente e alcançar a felicidade,
acumulou milhares de seguidores – entre eles, celebridades como Reynaldo Gianecchini, Bruna
Lombardi e Marcio Garcia. Políticos como Aécio Neves, Marina Silva, João Doria e Marconi
Perillo passaram a visitá-lo e a divulgar fotos a seu lado.

 Prem Baba diz que refletirá sobre as relações humanas e nega abusos

Em ÉPOCA desta semana, você conhecerá a vida que Janderson de Oliveira levava por trás da
imagem imaculada de Prem Baba. Em meio a atividades de sua comunidade, ele mantinha com
seus seguidores uma relação de hipocrisia, desfaçatez e manipulação. Três mulheres relataram
à reportagem ter mantido relações sexuais com o guru e dizem ter sido vítimas de abuso. Elas
pediram sigilo sobre sua identidade para evitar a exposição das famílias. Ele até foi confrontado

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por uma delas e admitiu, numa conversa reservada com ela e seu ex-marido, que "abusou" de
sua posição como guru e que havia sido "desleal" (ouça abaixo a gravação).

Em gravação, Prem Baba admite "abuso"

Outros discípulos afirmaram que o mestre se aproveitava da boa vontade da comunidade, que
sempre contribuía financeiramente com seus projetos, para enriquecer. Se antes da primeira
viagem para a Índia ele tinha apenas um automóvel Tempra dourado e um terreno de 400
metros quadrados em Mairiporã, Região Metropolitana de São Paulo, agora possui ao menos
quatro apartamentos, entre eles uma cobertura comprada por R$ 1,7 milhão. É dono de oito
empresas no Brasil e uma agência de turismo na Índia. Prem Baba só aceita viajar em classe
executiva. Em São Paulo, desloca-se em um Mitsubishi Outlander branco.

Em áudio, Prem Baba assume que abusou de sua posição

Em conversa com ex-marido de discípula, o guru fala sobre a relação sexual que teve com ela

Um áudio de Sri Prem Baba, guru espiritual, que circula entre seus ex-seguidores gerou uma
comoção entre a comunidade que ainda o segue. Nele, o guru assume que abusou de sua
posição.

A gravação é de uma conversa entre Prem Baba e um dos ex-maridos de uma discípula com
quem o guru se relacionou sexualmente. Durante a conversa, Prem Baba diz: “Agora ela
[seguidora] me mostrou que eu realmente abusei da minha posição, ela era minha discípula.
Acabou se encantando comigo (…) sofreu muito e se machucou”

A gravação foi enviada depois que o guru negou que tivesse abusado de ex-seguidoras, quando
respondeu às denúncias de abuso sexual feitas pelos ex-maridos das mulheres.

Sobre o caso, a assessoria do mestre disse que “não reconhece a legitimidade da gravação”. E
finaliza: “O trecho selecionado — e retirado de contexto — de uma suposta conversa privada
menciona apenas o relato sobre a interpretação dos fatos sob a ótica de uma terceira pessoa”.

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Prem Baba diz que refletirá sobre as relações humanas e nega abusos

Acusado por discípulos, o guru diz que manteve relações consensuais e que não vê contradição
em suas ações e discursos

ÚLTIMAS DE ÉPOCA

Nos últimos quinze dias três mulheres relataram a ÉPOCA ter mantido relações sexuais com o
Sri Prem Baba e dizem ter sido vítimas de abuso. Elas pediram sigilo sobre sua identidade para
evitar a exposição das famílias. Uma delas, que conheceu o guru em 2016, diz que foi chamada
para uma “sessão terapêutica” de tantra. “Nas primeiras duas experiências, senti nojo. Na
segunda, fui ao banheiro e vomitei. Ele disse que era assim mesmo, que eu estava expurgando
as dores.” Segundo ela, na terceira sessão, o guru trouxe sua shakti, Marcela Zuccon, uma
mulher designada como sua companhia feminina. “Ele trazia a shakti dele e se masturbava na
minha frente, enquanto ela me massageava. Eu fechava os olhos, não sentia desejo algum por
ele. É asqueroso reviver tudo isso novamente e sinto muita vergonha. Nesses oito meses, eu
me sentia suja”, contou a mulher.

Veja também

 A ciranda de sexo, dinheiro e mentiras na vida de Prem Baba

Outros discípulos afirmaram que o mestre se aproveitava da boa vontade da comunidade, que
sempre contribuía financeiramente com seus projetos, para enriquecer. Antes da primeira
viagem para a Índia ele tinha apenas um automóvel Tempra dourado e um terreno de 400
metros quadrados em Mairiporã, Região Metropolitana de São Paulo, agora ele possui ao
menos quatro apartamentos, entre eles uma cobertura comprada por R$ 1,7 milhão. É dono de
oito empresas no Brasil e uma agência de turismo na Índia. Prem Baba só aceita viajar em
classe executiva. Em São Paulo, desloca-se em um Mitsubishi Outlander branco.

Desde junho ÉPOCA tenta entrevistar Sri Prem Baba. Ele chegou a agendar um horário em 27
de agosto e cancelou horas antes do encontro, o que ocorreu três dias antes das denúncias de
abuso de seus discípulos. Nas últimas duas semanas novas tentativas foram feitas. Na quarta-
feira (12), ele concordou em responder alguns questionamentos somente por email, ocasião
em que negou outra vez que as acusações feitas por mulheres de sua comunidade sejam casos
de “abuso”. Confira:

Conversamos com sete pessoas que estiveram na reunião na qual o senhor foi confrontado
com as acusações de abuso de duas discípulas. As mulheres dizem que não ficou claro que
passariam por exercícios de tantra e que não sabiam a que estavam submetidas e que
sentem que a confiança que existia da relação guru-discípulo, de uma entrega total, foi
quebrada. O que o senhor tem a dizer sobre isso?

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Os fatos sobre os quais conversamos ocorreram há mais de 10 anos e se trataram de relação
ocorrida de maneira consensual. Reconheci inclusive uma relação que durou por volta de 2
anos. Havia amizade e amor e, mesmo depois do término, perdurou a convivência e amizade
até o mês passado. Hoje, sentimentos afloraram juntamente com decepções e mágoas.
Compreendo esses sentimentos e sempre refletirei sobre as relações humanas e suas tensões
emocionais, mas, definitivamente, não houve abuso.

Elas dizem também que sofreram pressão psicológica para manter silêncio justamente
devido à relação guru-discípulo. O que o senhor tem a dizer sobre isso?

O silêncio recíproco foi consequência natural da relação consensual, visto que havia pessoas
que ainda mantinham compromissos conjugais à época.

Na reunião, o senhor disse que seriam apenas esses dois casos, mas conversamos com uma
terceira mulher que diz que também foi submetida a "exercícios de purificação". O que o
senhor tem a dizer sobre isso?

Reitero que tive relação consensual e desconheço por completo essa afirmação. Lamento que
decepções pessoais e individuais, compreensíveis em uma relação emocional que chega ao fim,
sejam agora objeto de um processo de tentativa de desconstrução de um projeto espiritual e
coletivo muito maior que indivíduos que o compõem.

Duas dessas três mulheres mencionam que o senhor levava uma mulher a quem o senhor se
refere como “sua Shakti” para essas “sessões terapêuticas”.

As relações estabelecidas foram de comum acordo e não me sinto no direito de expor outras
pessoas.

As mulheres negam que tenham mantido relações amorosas com o senhor. Não existe
chance de o senhor ter confundido as coisas?

Compreendo os sentimentos humanos. Não posso responder pelos sentimentos havidos por
outras pessoas, mas sei que, ao longo de quase 2 anos de relação consensual, meu sentimento
foi de carinho, amor e amizade. Mesmo quando optamos por nos afastar, continuamos com
muito carinho e amizade pelos últimos 10 anos até recentemente.

Essas pessoas que estavam na reunião dizem que o senhor teria feito um acordo com o grupo
para a redação de uma carta na qual reconheceria seus erros, cancelaria completamente a
temporada nos EUA e abdicaria de seu papel como guru. O senhor não fez esse acordo? Por
qual razão desistiu de escrever a carta?

O diálogo e a compreensão são qualidades que sempre preguei. Mesmo naquele momento de
intensa agressividade por pessoas que se sentiam decepcionadas pela relação extraconjugal ou
pelas consequências do fim de uma relação consensual, procurei e procurarei dialogar e
compreender. Compreendi que não deveria ter me envolvido com alguém ainda
comprometida, compreendi que decepcionei a amizade do seu companheiro, compreendi que
superestimei a amizade e o amor por uma pessoa que eu conhecia e convivia muito
proximamente há mais de 10 anos à época. A partir disso, fiz um breve pronunciamento a

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nossa comunidade e creio que milhares de pessoas compreendem o momento de tristeza que
estamos passando e a necessidade de recolhimento e reflexão. Tenho confiança no trabalho
coletivo que resultou na transformação de milhares de vidas ao redor do mundo e que agora
estão em corrente de oração para que consigamos atravessar esse momento.

No vídeo que o senhor gravou para a comunidade a sua versão é de que não esteve em
celibato completo durante todo o tempo. Então por qual razão só agora que foi confrontado
pelas mulheres é que o senhor assumiu que mantém a sua sexualidade?

Esse é um processo de desenvolvimento espiritual. Minha intimidade foi invadida e profanada


sem nenhum respeito e cuidado, despedaçando o coração de milhares de pessoas. Temos
inúmeras maneiras de ensinar. E minha obra diz muito sobre o valor de amar e ser livre, nome
de meu livro. Não consigo saber exatamente o que está impulsionando isso, mas lamento a
tentativa de desconstrução de um projeto espiritual e coletivo de tamanha importância como
que estamos construindo.

O senhor não se sente em contradição com tudo que escreveu em seus livros e pregou sobre
o assunto?

Em hipótese alguma. A sexualidade não se opõe à espiritualidade. Falei em diferentes discursos


e também no meu livro Amar e Ser Livre que a sexualidade é eminentemente sagrada. Que ela
não se opõe à espiritualidade. Que o Bramacharya é um florescimento onde a energia é
direcionada para Deus, mas não existe repressão. Somos livres. Não me foi pedido voto de
castidade ou pobreza. Posso até mesmo fazer sexo. Isso não afetaria em nada minha
consciência. Mas, hoje no meu caso, escolho ficar sem sexo pois naturalmente minha energia
se eleva e é direcionada ao serviço espiritual. Nunca fiz apologia à repressão sexual. Nunca fiz
apologia à pobreza. Assim como não faço apologia à dependência do Mestre. Meus discursos
são bem claros. Estou sempre repetindo inúmeras vezes que o foco é na espontaneidade, na
naturalidade, na lembrança de si mesmo.

Por qual razão o senhor esconde que ainda promove cerimônias com chá de ayahuasca?

Eu não escondo isso. Sou herdeiro de uma tradição Ayausqueira que tem como filosofia a
discrição. Não devemos fazer propaganda de tal trabalho pois consideramos que isso seja um
erro fraternal. Não estou mais à frente dos trabalhos regulares, como fazia antes, devido à falta
de tempo. Hoje dou suporte espiritual para os trabalhos e frequento a sessão eventualmente.
Acho isso mais um abuso e desrespeito a todos que espiritualmente estejam envolvidos na
tradição e filosofia. Mais uma vez, lamento a tentativa de desconstrução da fé e a confiança de
milhares de pessoas e, assim, tentar destruir o trabalho genuíno de 20 anos que eles mesmos,
até o mês passado, estavam ajudando a desenvolver e usufruindo dele. Isso tudo é um grande
aprendizado.

Muitas pessoas se sentem enganadas ao terem doado para a produção da sua "obra", mas
não terem visto um trabalho humanitário real. O senhor não se sente incoerente ao pedir
inúmeras doações para produção de seus projetos possuindo 4 apartamentos em São Paulo?

São coisas distintas. Há o projeto coletivo do qual faço parte, no qual há intenso trabalho de
caridade, ao qual dedico a maior parte do tempo gratuitamente durante temporadas e para o

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qual há doações feitas de maneira voluntária para manter a estrutura e viabilidade deste
trabalho. Na Índia mantenho o Ashram, alimentação para cerca de 400 pessoas diariamente.
Mantenho uma escola infantil que acolhe cerca de 300 crianças que vivem abaixo da linha da
pobreza. Damos escola, materiais, roupas e tudo mais. Tem o Ashram de Nazaré também. Além
disso mantemos o projeto de fazer com que autoconhecimento aconteça em escala por meio
de campanhas e intensa presença na internet. E dedico também parte do meu tempo para
outro projeto, também coletivo, do qual faz parte um grupo enorme de pessoas e
colaboradores. Nesse, tanto eu como outros profissionais se envolvem em workshops, retiros,
livros, palestras e outras atividades que significam resultado econômico para mim e muitos
outros. E sim, consegui algum patrimônio que me ajudaram a continuar o projeto e cuidar de
minha família. Dois desses apartamentos estão alienados ao consórcio. Não há contradição
alguma. Todo o meu empenho é para fazer deste mundo um lugar melhor para vivermos.

Por qual razão a Shakti figura como proprietária da Awaken Love Shop?

Essa é uma empresa que está registrada na Junta Comercial do Estado de São Paulo, e sua
titularidade é uma informação pública.

O que o senhor diria para aqueles que sentem vivendo em meio a uma mentira?

Tenho convicção dos esclarecimentos dos fatos e de que o tempo permitirá a superação desse
momento difícil. Não estou enganando ninguém. Gostaria de pedir compreensão por todos os
envolvidos nesse momento, com serenidade, paz e solidariedade, para que possamos ver que
o trabalho realizado até aqui é muito relevante e que os sentimentos oriundos de relações de
amor e amizade que se encerram são compreensíveis. Peço um pouco de paciência para
atravessarmos essa que é sem dúvida a maior das provas da nossa jornada enquanto
comunidade. E é também a minha maior prova enquanto um ser humano em desenvolvimento
aqui neste planeta. Confio nos ciclos da vida e, apesar de estar vindo com muita dor para
todos, está trazendo também uma transformação libertadora e luminosa.