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TEMAS EM DEBATE PORQUE O CONFLITO ENTRE TENDENCIAS METODOLOGICAS NAO E FALSO Maria Laura P, Barbosa Franco Da PUC-SP e Fundapso Carlos Chagas Intrigante e desafiador é o texto de Sérgio Luna, no {qual procura demonstrar que existe um falso confi entre tendéncias metodolégicas. ‘Com muita pertinéncia, denuncia uma série de afitu- des levianas que se instalam no meio académico e que ccontribuem para a desqualficacao da produce docente e discente, Com razio, identifica a existéncia de posquisadores que, no engajados no compromisso da andlise episte- mol6gica, utlizam-se de argumentos parciais para discutr, erroneamente, diferentes tendéncias metodolégicas. Sem vida, por trés de muitos radicelismos neste sentido, co- loca-se uma questéo poltica, pois a busca do poder tem reproduzido, na comunidade cientfica, formas de domina- ‘¢8o-subordinacéo semeihantes &s observadas na socie- dade mais abrangente, Em conseqiéncia, no raro, ob- Cad, Pesq., So Paulo (66): 75-80, agosto 1988 serva-se a criago de grupos hegeménicos que, habit mente articulados, lutam (e conseguem) conquistar espa {Gos com vistas apenas & concretizacéo de projetos indivi duais, sob a capa dissimulada de “pseudo"-posturas teb- rico-metodolégicas. Por isso, e conhecendo muito bem a luta contra os Principios metodolégicos sobre os quais se edificou ini- ialmente a Psicologia Experimental, Sérgio Luna deciara que @ matoria das pessoas critica outras tantas, acusan- o-as de positvistas “muito mais em fungao de um refe- Fente que congregue © que juigam pior na pesquisa, do que, efetivamente, em fungdo de um conhecimento de Causa quanto a uma corrente epistemolégica”. ‘Com muita sagacidade, também, aponta a fragile de te6rico-metodol6gica de muitos alunos que, para a rea Sago de suas dissertagtes ou teses, ndo saber res- 75 ponder & pergunta bésica e fundamental que implica a explicitago do problema de pesquisa no qual esto inte- ressados. No entanto (como se infere de suas coloca- Oes), esses mesmos alunos, sem condicSes de refletir ‘sobre 0 que significa a atividade de pesquisa, deixam-se levar por modismos e, mal informados, acreditam que os Procedimentos, a serem utiizados em suas investigactes, incorporam a capacidade de ser auténomos e, portanto, desvinculados do problema que pretendem estudar. Por ‘esta razo, como diz 0 autor, “no raro um aluno respon- deré & pergunta: ‘Qual & 0 seu problema de pesquisa?” ‘com ‘Vou usar um questionério para..’ ou ‘Nao sei ainda, ‘mas sei que no quoro fazer observacées!"". Essa questio reflete, em meu entender, a fragiida- de conceitual de muitos cursos de Metodologia que nfo enfrentam uma necesséria discusséo epistemolégica e fornecem aos alunos apenas um rol de técnicas, inviabil- zando, assim, a produc de pasquisas consistentes que, € partir de um fio condutor ¢ da discusso de uma proble- ‘mética, respeitem sua integrago com pressupostos te6ri- ‘co-metodolégicos pertinentes e a devida adequacéo aos Procedimentos de coleta, andlise e interpretacdo dos da- dos. Examinando essas e outras limitacbes, Sérgio Luna admite @ necessidade de rever as bases sobre as quais se tém estabelecido confitos entre tendBncias metodol6- sicas e se propée a ciscutir bases mais reais e saudaveis para ultrapassar equlvocos © atingir, assim, a possibiida- de de estabelecer um contito honesto, Substanclalmente, suas colocagbes s40 muito rele- vantes e, principalmente, oportunas. Numa época em que a Ciéncia se converte em uma {orga produtiva ¢ os avancos tecnolégicos alcangam mar- 0s cada vez mais amplos, cresce o interesse pelo estu- do da metodologia do conhecimento cienifica, O cresc- ‘mento observado em relagdo &s investigacbes cientficas © 0 répido aumento do ndmero de pessoas ocupadas com ‘ Cincia tém no apenas incrementado o interesse pu- ‘amente abstrato a respeito do processo de construgo do cconhecimento, como também tm imposto aos pesquisa- dotes tarelas ‘concretas com vistas & reflexéo sobre os Princfpios metodolégicos utlizados pela Ciéncia contem- poranea. © texto de Sérgio Luna & mais um dos reflexos essa imposi¢zo, Diante de novas posturas metodolégi- cas no enfrentamento das questées humanas e sociais, 0 momento exige um aprofundamento de estudos sobre 0 tema e, principalmente, uma tomada de posig&o por parte dos pesquisadores. No embate dessa tomada de posicfo é que vou tentar argumentar por que acredito que o confio entre ten- dencias metodolégicas no & falso. Espero, com isso, estar contribuindo para o avanco na direco que Luna ‘aponta em busca de um “debaie honesto”. Vou comegar questionando o tratamento dado & palavra Metodologia no texto de Sérgio Luna. Ele afirma ue “0 sentido da palavra Metodologia tom variado ao lon- 90 dos anos”. Diz ainda: “mais importante do que isso tem variado 0 status atrbulo a ela no contexto da pesquisa Em alguns &mbtos profissionais, Metodologla 6 associada a Estatfstica © Demo (1981) sugere que, na América Lat- nna, Metodologia aproxima-se mais do que se poderia 76 chamar de Filosofia ou Sociologia da Cifncia..” Prosse- gue dizendo que “qualquer que seja a conceltuaco que Se adote (grifo nosso), discussées relevantes foram sen- do produzidas a respeito de Metodologia”. Com isso, ro- duz a discuss acerca do significado da palavra Meto- dologia a uma questéo terminolégica e pressupte no ‘existr relago entre sua conceituacéo e as discussées relevantes produzidas a seu respeiio. Em meu entender, essas discuss6es existom justamente porque tém havido constantes revises acerca de seu significado, Neste sentido, faz uma grande dilerenca quando associada & Estatistica ou & Fllosofia da Ciéncia, Quando associada historicamente & Filosofia e int- mamente relacionada & Sociologia do Conhecimerto, j& traz a marca de sua conceituacdo. Neste caso tem status préprio e o proceso da investigagao cientfica constitur-se ‘am seu objeto de estudo. Diferentemente de uma tarefa de cunho psicol6gico, cujo interesse incide na andlise da atividade pessoal do cientista, ou no estudo de suas caracterfsicas psiquicas, ‘4 Metodologia, no mbito da Flosofia da Ciencia, examina © processo da investigagdo ciantfica como movimento do Rensamento humano do empltico ao tebrico e vice-versa. E também, neste contexto, que a tarefa da Metodologia volta-se para a anélise da problemética gnoseolégica que, de diferentes maneiras, busca expliitar a relagSo que se estabelece entre 0 sujet que conhece @ o objeto a ser conhecido, resultando, dessa interago, 0 conhecimento. Conseqientemente, neste caso a Metodologja inscreve- '5e nos contornos da Teoria do Conhecimento, afastando- se, assim, de uma concep¢o que procura associéla & Estatstica, Quando vinculada & Estatfstica, ou quando confun- ida com os procedimentos técnicas utlizados pelo esquisador para a captacéo do empfico, pressupte 0 proceso de construg5o do conhecimento humano como dado, neutro e linear, @ passa a ser entendida como des- crigo das sisteméticas adotadas para a coleta, andlise « inlerpretaco de um determinado objeto de estudo. Estabelecer essa diferenca néo significa relegar as atividades ligadas & defirico dessas sistemdticas a um segundo plano, A adequaco dos procedimentos pravis- tos para coleta, andlse @ interpretacso dos dados ao del- "reamento de uma problemética @ & formulagBo de um pro blema espectico 6 uma questo fundamental, Todavia, & importante demarcar os diferentes cam- Pos om que se situa o significado da palavra Metodologia, ois no bojo de sua conceituacéo instala-se 0 ponto de partida para reais confitos entre tendBncias metodolégh cas, (Ou seja, quando associada & epistomologia do co- hecimento, numa perspectva hist6rica e erica, pressu- be um proceso de construgo que leva em conta a apreenséo da realidade como um momento indissociével da intengo prética do sujeito a0 apreendé-ta. J6, quando concebida como 0 conjunto de procedimentos utlizados para a captagéo e interpretago do emptico, passa a ser fentendlda como 0 caminho que o sujeto percore para a ‘apreensfo da realidade, sem questionar que tipo de vine ‘culaglo se estaboloce, no percurso desse caminho, entre ‘© sujeito que conhece @ a reaidade a ser apreendida. Cad. Pesq. (66) agosto 1988 ‘Apesar de sua importéncia, no vou prolongar a dscusséo acerca das divergBncias tericas implicitas na airibuigao de diferentes sentidos & palavra Metodologia, pois tentel delined-la apenas para estabelecer uma ponte ‘com outros elementos existentes no texto de Sérgio Luna, ‘08 quais, sendo ucleares, pormitem sustentar uma ar- gumentago mais conereta a respeito dos confitos entre tendéncias metodot6gicas. Dentre eles destaco a presen- ‘6a, no referido texto, de uma falécia que transforma uma questo formal em uma questo substantiva. Em determinado momento, 0 autor adrite, com ra 280, que toda pesquisa implica 0 preenchimento de trés requisites: a exisifncia de uma pergunta que se deseja responder, a elaboraco e descrigéo de um conjunto de pasos que permitam obter informagBes necessérias para respond®a, e a indicagéo do grau de confabiidade na resposta obtida. Prossegue, sugerindo ao leitor que refita sobre as seguintes questdes: “exatamente, que tendéncia ‘metodolégica particular 6 caracterizada por estes tr8s re- auistos? Ou, de outra forma, que corrente metodolégica poderia dispensar qualquer um deles?”. E evidente que a resposta a ambas as pergunias acima 6 nenhuma, mas por motives que nao guardam, entre si qualquer semelhanca. ‘Se por um lado, a observancia desses trés requis tos 6 condigSo indispensvel para a realizacéo de pesqur as, por outto lado, indagar que tendéncia metodolégica particular é caracterizada por sua existéncia, uma per- gunta equivocada. A mera formalizac4o dos referidos re- quisitos nfo ter poder de expressar tend&ncias metodo- ‘6gicas nem nos permite inferir a abordagem tebrica que orienta 0 pesquisador e o fio condutor que imprime signifi cado & sua investigacéo. Explicité-los & uma exigéncia decorrente da necessidade de sistematizacéo © rigor a serem buscados na produgo de conhecimentos, Sem divide essa & uma tarefa da qual o pesquisador néo pode se furtar, No entanto, a Identificacao dessa ou daquela ten- déncia metodolégica passa por uma questéo bem mais complexa e nuclear do que aquela colocada por Sérgio Luna, pois, no decorrer de sua argumentagao, conclui que se um pesquisador atender aos trés requisitos aponta- dos... entéo ja serd possivel avaliar seu produto em ter- ‘mos de seu referencial tebrico-metodolégico, Gostaria de relterar que a auséncia desses quesitos permite identiicar a fraglidade da pesquisa e muitas vezes a improvisagso dos resultados. Porém, a simples presenga dos mesmos nada nos diz acerca da postura tebrico-metodolégica do investigador. Para avaliacdo dessa postura é necessério ‘analisar como o pesquisador delineia, monta, arruma, ou seja, concsbe sua investigagao 0 que, por sua vez, reflete uma determinada concepcdo de realidade, de Ciéncia © de conhecimento cientfico. Vejamos como essa questéo se inscreve no texto de Sérgio Luna. ‘A partir da concep¢ao de realidade explictada pelo ‘autor e do significado que atrbui aos termos “objetivo"- “subjetivo", & posstvel inferir no apenas seus pressu- postos tebricos, mas também que delineamento de pes- ‘quisa e que tipo de procedimentos deveriam ser privlegie- dos para garantr coeréncia & produg&o a ser obtida dentro do modelo te6rico que a informa, Porque‘o conflito entre tendéncias... ‘Ao admitir que “a realidade empfrica & complexa, mas objetiva, pois néo traz nela ambigdidades” (grito nos- '90), €, 20 admitir que “o homem individual 6 subjetivo por- ‘que incapaz de separar 0 objeto da concepcdo que faz de- le..", Sérgio Luna expressa uma interpretagao dicotémica centre sujelto @ objeto do conhecimento, efetuando, assim, uma transposi¢go mecénica para as Ciéncias Sociais dos rmétodos cientficos, originalmente construides para inves tigar a natureza fisica. Essa transposigéo tem seu fulcro corientador nos postulados tebricos que se edificam a partir de tr8s principlos fundamentais: © a Sociedade pode ser epistemologicamente assimilada Natureza; ‘© portanto, na vida social, & semelhanga da Natureza, feina uma harmonia natural (sem ambiglidades): ‘© em conseqiéncia toda a ruptura dessa harmonia passa a ser indicativa de desequilorio e desadaptacso; 1 a sociedade regida por leis naturais, quer dizer, leis invariéveis independentes da vontade e ago humanas. ‘Uma das conseqdéncias mais importantes desses princfiios diz respeito ao tratamento dado ao fato social ‘que, para ser convertido em “cientfico”, deve ser previa- mente isolado do sujeito que o estuda. Este aspecto nos conduz ao significado de “objeti- vo", impicito no texto de Sérgio Luna, Ao separar 0 objeto do conhecimento do sujeito que conhece, 0 autor relacio~ na “objetivo” Aquilo que pode ser observado, palpado, ‘medido. Para tanto, nesta concapéo 6 preciso tratar 0s fatos socials como coisas, exatamente como o cientista da natureza trata os fendmenos naturais. Isso implica ‘considerar, de um lado, os falos sociais desprovidos de tistoricidade, movimento de contradi¢ao e, de outro lado, © cientista social, “subjetivo", mas com a tarefa de se es- {orcar para estudar uma realidade, da qual participa, como se nao fizesse parte dela. ‘Aliés, essa concepcdo de objetividade caminha na mesma dire¢o daquela que pode ser encontrada em Ker- linger quando admite que “a objetividade ajuda 0 pesqui- sador a sair de si mesmo (grifo nosso), ajuda-o a conse- uir condicbes publicamente replicéveis e, consegiiente- ‘mente, descobertas publicamente averiguaveis... A Cién- cla, diz Kerlinger, 6 um empreendimento social ¢ pico. mas uma regra importantissima do empreendimento cien- ‘fico & que todos os procedimentos sejam objetivos — fei- tos de tal forma que haja ou possa haver acordo entre ju es, porque quanto maior a objetividade mais o procedi- mento se afasta das caracteristicas humanas ~e de suas limitagbes" (Kerlinger, 1980). Provavelmente, entre essas limitagdes esth incor porada aquela indicada por Sérgio Luna, quando salienta a subjetividade do homem individual que o impede de sepa- rar 0 fato da concepeao que dele faz. Essa maneira de ver a Ciéncia; essa dicotomia que pretende dissociar © conhecimento do objeto da intengo 1 Sabo-se que essa tarola 6, om geral, mal compreendida © asso- clada a uma imposigfo de "motodologiastadlionals”(e por i= ‘iase reacionésias). Por isoo tem sido desvalorzada e, em Seqdénda, sua negigéndla tom gerado uma grande quaniidade {de produtosInconsistontes, irelevartes e supercais.