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F L O R E S T A N F E R N A N D E S

A FAMÍLIA PATRIARCAL E
SUAS FUNÇÕES ECONÔMICAS
FLORESTAN FERNANDES

I
INTRODUÇÃO – A discussão socioló- tais está subordinado à atuação de pressões e
gica do tema proposto envolve natural- controles sociais concentrados nas mãos de
mente algumas dificuldades de ordem te- um senhor e nas dos seus apaniguados e su-
órica. De fato, apesar de seu emprego cor- bordinados, graças ao funcionamento de “um
rente na sociologia, os conceitos de “fun- sistema patriarcal” de atribuição do status e
ção econômica” e de “família patriarcal” papéis sociais. Doutro lado, a própria noção
não são conceitos logicamente “claros”. Com de “família patriarcal” não é precisa quanto às
freqüência, o recurso ao conceito de “função conotações propriamente sociológicas. O
econômica”, no contexto de pensamento símile mais geral para sua definição é o que se
implícito na formulação do ponto sorteado oferece através da antiga forma social assumi-
(“a família patriarcal e suas funções econô- da pela organização do poder senhorial nas tri-
micas”), se associa à idéia de que a família bos hebraicas. Nesse caso, um patriarca exer-
patriarcal representa uma espécie de estrutu- cia seu poder de mando (em vários sentidos:
ra social básica do sistema econômico ou econômico, militar, religioso e político), em
ainda à pretensão de comprovar que o exer- nome da tradição e de sua condição de des-
cício de atividades econômicas fundamen- cendente e sucessor de um ancestral mítico

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Prova escrita sobre tema sor-
teado no concurso de livre-
docência à cadeira de Socio-
logia I da Faculdade de Filoso-
fia, Ciências e Letras da Uni-
versidade de São Paulo, reali-
zada no dia 19 de outubro de
1953. Foi sorteado o ponto no
17. Compuseram a banca exa-
minadora os professores
Fernando de Azevedo, Roger
Bastide, Herbert Baldus, Má-
rio Wagner Vieira da Cunha e
Octavio da Costa Eduardo. Gil-
berto Freyre, escolhido para
compor a banca, enviou à Fa-
culdade a seguinte carta:
“Apipucos, Recife, 21 de Se-
tembro de 1953. / Exmo. Sr.
Prof. Dr. E. Simões de Paula,
M. D. Diretor da Faculdade de
Filosofia, São Paulo / Acabo
de receber a carta em que V.
Excia. me comunica haver sido
escolhido meu nome para in-
tegrar a comissão examinado-
ra do concurso para livre-
docência da I Cadeira de
Sociologia dessa Faculdade,
ao qual se inscreveu o Dr.
Florestan Fernandes, ilustre ci-
entista social que muito admi-
ro./ Infelizmente não me é pos-
sível tomar no momento com-
promissos de examinador, ao
lado, aliás, de eminentes pro-
fessores, que igualmente ad-
miro e estimo. O que muito la-
mento./ Creia V. Excia. na mi-
nha consideração e apreço
pessoais e na minha constan-
te simpatia pela Universidade
de São Paulo e pela Faculda-
de que V. Excia. dirige./ Gil-
berto Freyre” (Arquivo da Fa-
culdade de Filosofia, Letras e
Ciências Humanas da Univer-
sidade de São Paulo). (Nota
de José de Souza Martins.)

Florestan recebe

o prêmio Fábio

Prado, 1948,

em foto com

Fernando de

Azevedo; abaixo,

Campanha em

Defesa da Escola

Pública, no Rio

Grande do Sul

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Imagem antológica

— Ginásio Riachuelo,

Madureza, em 1936

(Florestan é o 5º

da esquerda

para a direita,

na fila do centro)

comum. A tribo poderia não possuir uma po- mássemos como ponto de referência a dis-
sição ecológica definida e persistente, mas pos- cussão do problema tendo em vista a situação
suía uma organização interna estável, graças descrita por Pirenne e por Brentano, sería-
à qual se garantia a unidade permanente de mos levados a considerar a “família patriar-
diversos grupos, através da ordem de suces- cal” como uma unidade econômica. Pois, de
são e da comunhão religiosa, que servia de fato, fora dela não existiam outros limites e
fundamento à comunidade de interesses polí- meios ao desenvolvimento da vida econômi-
ticos, econômicos e militares, e que assegura- ca em uma economia sem mercados, dotada
va a continuidade das parentelas no espaço e de meios restritos de troca. Contudo, essa
no tempo. Contudo, esse símile, que serviu maneira de encarar o problema seria
para a cunhagem sociológica do conceito, não insatisfatória, pressupondo uma confusão
foi observado posteriormente. Aonde se apre- lamentável entre as condições materiais e
sentaram modalidades de exercício da domi- rurais da produção econômica com os efeitos
nação senhorial começaram a ver os sociólo- por elas produzidos. Daí pensarmos que seria
gos manifestações típicas da família patriar- mais conveniente definir de uma maneira
cal. Graças a isso o conceito de “família patri- estrita as funções econômicas da família pa-
arcal” foi aplicado ao estudo de povos primi- triarcal. Para fins interpretativos, entendemos
tivos (por Thurnwald, por exemplo); ao estu- por “funções econômicas” da família patriar-
do do sistema feudal na China antiga (por cal as atividades sociais dos componentes da
Granet, por exemplo); ao estudo do sistema família patriarcal, independentemente da si-
feudal nas sociedades ocidentais (por Pirenne tuação econômica relativa delas dentro do
e por Brentano, por exemplo); e no estudo da sistema social por ela constituído, que contri-
organização da família, que resultou da ex- buíssem para manter direta ou indiretamente
pansão da Europa ocidental, através da colo- a constituição e o funcionamento do sistema
nização européia do continente americano. correspondente de vida econômica.
Em nosso entender, porém, não se deve Quanto ao conceito de “família patriar-
confundir a “família patriarcal” com as ativi- cal”, evidencia-se atualmente a tendência para
dades econômicas que se desenvolviam den- ressaltar certos traços típicos, pondo-se de
tro de seus quadros humanos e sociais. Se to- lado os aspectos peculiares e manifestações

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culturais do fenômeno, por mais relevantes entende sociologicamente pelos dois concei-
que estes sejam quanto à definição, descrição tos, pode estar sujeita a interesses científicos
e interpretação da família patriarcal entre os particulares. No programa atual da cadeira de
hebreus, entre os romanos, entre certos povos Sociologia I, ele se inscreve claramente como
primitivos contemporâneos, etc. Aliás, é este um tema de história econômica. E de fato não
procedimento que oferece consistência lógi- foram os sociólogos mas os economistas da
ca ao emprego indiscriminado do conceito na escola histórica que puseram pela primeira
sociologia. Nesse caso, os traços essenciais vez em evidência a significação sociológica
Fac-símile da prova
da família patriarcal são: a crença na existên- de uma análise da vida econômica sob os
de Florestan
cia de laços consangüíneos, definidos através quadros sociais da família patriarcal. Doutro
de um antepassado comum, mítico ou real; a lado, foram os historiadores que se dedicam Fernandes para a

vigência de critérios de transmissão hereditá- à investigação da Europa medieval que des- Livre Docência da

ria da posição de “chefe” ou de “senhor” em cobriram as ligações mais profundas de um Cadeira de


linha masculina, com preferência ao certo tipo de organização da vida doméstica Sociologia, realizada
primogênito da esposa legal ou de uma das com a organização da vida econômica. Se
a 19 de outubro de
esposas legais; ao exercício do poder senho- aceitássemos essa orientação, seríamos leva-
1959, com o tema:
rial através de normas estabelecidas pela tra- dos a discutir o tema concretamente tomando
como ponto de referência a situação históri- "A Família Patriarcal
dição, independentemente de sua origem ou
fundamento religioso; o princípio de unidade co-social que abrange um período bem deter- e suas Funções

econômica e política dos componentes da minado da história européia, que abrange Econômicas"
unidade familial, sob a liderança do “senhor”;
a comunhão religiosa; e o princípio de solida-
riedade no grupo de parentes, em todas as
ações ou situações em que estes ou seus apa-
niguados ou subordinados se envolvessem
como e enquanto membros ou representantes
de uma unidade familial. Como se vê, trata-
se de uma caracterização que alcança um
“mínimo de definição”, como se diz atual-
mente na sociologia. E esse mínimo lógico de
definição é obtido por meio da deslocação da
ênfase científica dos aspectos estruturais va-
riáveis para aqueles que são por assim dizer
aspectos estruturais constantes. Embora se
admita que existe uma relação entre a “famí-
lia patriarcal” e a estrutura do meio social em
que ela se insere, para alcançar alguma coe-
rência em sua definição foi preciso abando-
nar a pretensão de defini-la em termos de
fatores estruturais característicos de algumas
de suas manifestações histórico-culturais.

A ORIENTAÇÃO SOCIOLÓGICA
NA INVESTIGAÇÃO DAS FUNÇÕES
ECONÔMICAS DA FAMÍLIA PATRIARCAL

Visto isso, poderíamos passar a outro as-


pecto sugerido pela formulação do tema. A
aplicação do ponto de vista sociológico à in-
vestigação das funções econômicas da famí-
lia patriarcal, ainda que se defina o que se

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aproximadamente o lapso de tempo entre os põe uma escolha rigorosa do tema a ser exa-
séculos XI-XV (ou, como fazem outros: a minado. Sabe-se que a família patriarcal se
organização da família patriarcal romana). manifesta em diversos níveis de civilização e
Além desse, porém, a sociologia moderna em variados tipos de organização estrutural
elaborou dois pontos de vista diferentes: um da sociedade. Além disso, o valor original de
consiste em tomar cada uma das manifesta- uma dissertação diminui a olhos vistos quan-
ções histórico-culturais da família patriarcal, to mais ela se concentra em fenômenos de-
analisá-las detidamente com o propósito de masiado conhecidos no próprio campo de
pôr em evidência seus aspectos peculiares e investigações. Por isso, preferimos limitar o
de elaborar uma análise comparativa; outro alcance do tema proposto, no que concerne à
consiste em escolher uma das manifestações sua discussão empírico-indutiva, propondo-
histórico-sociais do fenômeno, e analisá-la nos a considerar a seguir, nos limites de
segundo as implicações e os critérios da pró- proporcionalidade facultados pela condição
pria investigação sociológica. O fundamento em que nos encontramos, as
lógico deste procedimento monográfico de-
riva da necessidade de lidar, para fins FUNÇÕES ECONÔMICAS DA FAMÍLIA
interpretativos que almejam à comparação, PATRIARCAL EM SÃO PAULO
com investigações particulares realizadas
pelos próprios sociólogos (e não por histori- É sabido que um dos fenômenos melhor
adores, por economistas, por especialistas em estudados da vida social brasileira é exata-
ciência política e em direito comparado). Com mente o da “família patriarcal”. Pondo de lado
isso, a comparação não é negada, propria- investigações que encontraram menor resso-
mente falando; mas transferida para uma épo- nância, por causa da delimitação do tema ou
ca mais propícia, em que a sociologia tenha do caráter geral da própria orientação. Al-
acumulado por meios próprios e segundo as guns trabalhos lograram alcançar grande no-
exigências do espírito de investigação positi- toriedade e mereceram, pela própria contri-
va os seus materiais de trabalho. buição que traziam, grande interesse entre os
Ora, acontece que o primeiro tipo de con- especialistas. Entre eles, cumpre-nos pôr em
sideração do fenômeno tem merecido uma evidência os que possuem maior relevância
atenção cuidadosa por parte dos especialistas. para a interpretação sociológica (1):
E uma obra como a de Max Weber (Economia 1o) Os estudos de Oliveira Viana. Este
e Sociedade) chega a conter os resultados mais autor deve ser considerado como o inegável
frutíferos e fecundos que se pretendesse alcan- precursor sociológico na investigação desse
çar por meio da investigação comparativa, tal tema. Sua obra se confina historicamente, mas
como ela pode ser desenvolvida no presente incide de preferência nas manifestações da
pelos sociólogos. Como não pretendemos fa- família patriarcal que poderiam nos interes-
zer aqui um resumo dos resultados a que che- sar mais de perto e que dizem respeito ao sul
gou aquele sociólogo, inclinamo-nos a consi- do país.
derar o tema proposto em termos da segunda 2o) A obra de Gilberto Freyre, cujo alcan-
orientação assinalada. Ela apresenta o risco de ce sociológico repousa na contribuição que
confundir-se com os antigos ensaios de histó- nos legou para o estudo da família patriarcal
ria econômica; mas, por seu próprio espírito, no Brasil (inclusive sobre os seus aspectos
distingue-se destes pelo fato de pretender apre- econômicos).
sentar uma explicação dos fatos que atenta em 3o) As obras em que são por assim dizer
conexões funcionais e causais, em vez de in- analisadas as funções econômicas propria-
sistir somente na caracterização de seqüências mente ditas da família patriarcal no Brasil:
e fases da vida econômica que assumem um são as obras de Caio Prado Júnior (Formação
1 Deixamos de mencionar a
padrão definido quando encaradas de uma pers- do Brasil Contemporâneo) e de Fernando de
obra recente de Luís Martins pectiva temporal. Azevedo (Canaviais e Engenhos na Vida
(O Patriarca e o Bacharel),
porque ainda não tivemos Coloca-se, porém, uma dificuldade. Essa Política do Brasil), que trataram igualmente
oportunidade de lê-la na sua
edição recente. orientação, por sua própria natureza, pressu- das relações existentes entre a constituição

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interna da família patriarcal em suas cone-
xões com as condições da vida econômica no
Brasil e da influência exercida, com base na
situação econômica, pelos senhores rurais
brasileiros e por suas famílias.
4o) A análise comparativa desenvolvida
por Emílio Willems (Assimilação e Popula-
ções Marginais no Brasil Meridional e A
Aculturação dos Alemães no Brasil), através
do confronto da organização da família patri-
arcal com a dos migrantes alemães, que colo-
nizaram ou se fixaram em Santa Catarina e
Rio Grande do Sul.
5°) A única tentativa de síntese que conhe-
cemos e que procura compreender a organiza-
ção da família patriarcal tendo em vista as
condições de sua organização, de sua desinte-
gração e da formação da família conjugal Na foto do alto, Fernando Henrique Cardoso,
moderna, que coincide com a integração de e Samuel Noah Eisenstadt (à esquerda de Florestan),
novos tipos de organização da família em nos-
na Universidade de Münster, Alemanha;
so meio – o ensaio de Antonio Candido, “The
acima, durante o 2º Congresso Sindical dos
Brazilian Family” (publicado parcialmente
como capítulo da obra editada por T. Lynn Trabalhadores do Estado de São Paulo, 1960,

Smith, Brazil: Portrait of a Half Continente). Caio Prado Júnior e Florestan estão em pé,

No estado atual da investigação socioló- à esquerda, na fila dos oradores

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gica no Brasil poderíamos analisar o tema ra relativamente invariável em sua substân-
proposto aproveitando os resultados das in- cia – a propriedade territorial e a exploração
vestigações dos autores citados. Mas tería- do trabalho servil.
mos que repetir, inevitavelmente – e sem Esse background sugere, naturalmente,
nenhum mérito pessoal – o que escreveram que na análise das funções econômicas (es-
esses autores, em particular Gilberto Freyre. pecíficas) da família patriarcal é preciso se-
Por isso, preferimos explorar o pouco que parar os aspectos que revelam certa estabi-
conhecemos sobre esse assunto, e que obti- lidade dentro da instabilidade geral da evo-
vemos através de nossa própria iniciativa, lução do sistema de relações sociais de São
em investigações cujos resultados já são par- Paulo, dos que se transformam continuamen-
cialmente conhecidos do público. Lamenta- te, através dos diferentes períodos ou ciclos
mos não nos ser possível aprofundar a aná- da história econômica de São Paulo. E indi-
lise dos problemas sugeridos. Não nos dare- ca, em segundo lugar, a conveniência de as-
mos por satisfeitos se ela sugerir de forma sinalar concretamente as imputações feitas
adequada como enfrentaríamos a tarefa de funcionalmente, quanto às relações da eco-
pôr em evidência, sociologicamente, as fun- nomia paulista com a organização da famí-
ções econômicas da família patriarcal em lia patriarcal. A isso limitaremos a nossa
São Paulo. dissertação, por julgarmos que aí está o es-
Na análise que empreendemos sobre as sencial em uma análise como a presente.
relações entre economia e sociedade na evo- Quanto às funções econômicas, que po-
lução de São Paulo (sinteticamente exposta, deríamos considerar “constantes”, é preciso
ainda que de forma superficial, no primeiro considerar três aspectos distintos – o que a
capítulo do trabalho escrito em colaboração família patriarcal significou em nosso meio
com Roger Bastide, o qual capítulo se do ponto de vista adaptativo e do ajustamen-
intitula: “Do Escravo ao Cidadão”*) fica to recíproco dos homens como condição da
evidente que há fases estruturalmente dis- vida econômica; o que ela significava como
tintas na história econômica do nosso esta- meio de classificação social e de ajustamen-
do. Contudo, todo um longo período que vai to dos indivíduos a um sistema senhorial e
do século XVI aos fins do século XIX apre- escravocrata de relações de produção; e a
senta uma relativa homogeneidade social que sua função propriamente ativa na
não é afetada pelas alterações que se produ- dinamização da vida econômica. Quanto ao
zem na organização da vida econômica. Os primeiro ponto, é óbvio que a família patri-
núcleos de atividades econômicas fundamen- arcal não se explica em São Paulo (encarada
tais se alteram (passa-se sucessivamente do sociologicamente) senão pelas condições
apresamento para a mineração e desta para a econômicas que favoreceram e tornaram
lavoura de subsistência e depois para a ex- possível a transferência e revitalização de
ploração propriamente colonial do café), com um padrão de organização da vida domésti-
eles se transformam substancialmente os ca que se encontrava em desagregação na
* Florestan Fernandes se refe-
re ao que viria a ser o primeiro padrões de instituição e de organização do Europa. A produção baseada na mão-de- obra
capítulo do livro de Roger
Bastide e Florestan Fernandes: sistema de trabalho (passa-se da exploração escrava, o gênero de atividade econômica
Brancos e Negros em São
Paulo (Ensaio Sociológico so-
dominante do trabalho escravo indígena para (apresamento, lavoura extensiva de produ-
bre Aspectos da Formação,
Manifestações Atuais e Efeitos
a do trabalho escravo africano e depois à tos de subsistência ou depois dos produtos
do Preconceito de Cor na So- exploração combinada do trabalho escravo coloniais e a grande propriedade territorial)
ciedade Paulistana), 2ª. edi-
ção, São Paulo, 1959, pp. 1- negro e do trabalho livre), sem que a estrutura e a facilidade (relativa) de obter mão-de-obra
76. Esse capítulo foi escrito por
Florestan Fernandes e publi- social sofresse nenhum abalo realmente pro- escrava parecem ter agido como fatores de
cado originalmente na revista
Anhembi (bol. X, número 30, fundo. É que essas transformações se opera- perpetuação e de integração da família pa-
São Paulo, 1953). O conjunto
do livro teve uma primeira edi- ram sem pôr em jogo os próprios princípios triarcal ao novo meio geográfico, econômi-
ção como parte de obra maior:
Roger Bastide e Florestan
da organização social: a posse de escravos e co e humano. Sob este aspecto, somos leva-
Fernandes (organizadores),
Relações Raciais entre Negros
a exploração de grandes extensões territoriais. dos a definir como funções econômicas es-
e Brancos em São Paulo, Edi- A sociedade transformara-se nos aspectos pecíficas da família patriarcal um conjunto
tora Anhembi, São Paulo, 1955
(N. de J. S. M.). exteriores de sua economia, mas permanece- de atividades que repousavam em sua estru-

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tura e em seu funcionamento. Tais ativida- Era porém uma decorrência dessa função da
des são as que contribuíam para a adaptação família patriarcal (que, aliás, variou nos pe-
dos brancos à vida nos trópicos, à mentali- ríodos de história econômica de São Paulo)
dade de exploração mercantil do trabalho restringir a operação dos mecanismos da vida
humano sob a forma de escravização de entes econômica, que só podia expandir-se, assim,
humanos e à idéia de que o ajustamento inter- dentro dos limites próprios a uma economia
humano podia se ajustar a outros padrões, sem mercado e posteriormente a uma eco-
que não existiam mais em plena vigência nomia baseada na exploração de produtos
nas sociedades européias. A família patriar- tropicais sob regime escravocrata.
cal forneceu assim o próprio arcabouço do Quanto ao terceiro ponto, é claro que a
novo regime social, em que a divisão família patriarcal só operava dentro de cer-
estamental foi completada por uma divisão tos limites como fator restritivo da vida
em castas: em sua estrutura ela continha o econômica. Vista à luz da época histórico-
próprio modelo da sociedade inclusiva, que social que nos interessa, é óbvio que ela
ela representava como um pequeno mundo operava como um agente de dinamização da
autônomo e completo. Os seus três núcleos vida econômica. A experiência histórica
fundamentais (o núcleo legal, o núcleo de demonstra como os imperativos surgidos ou
dependentes e o núcleo de escravos) conti- impostos pela concepção patriarcal do mun-
nham todas as situações sociais possíveis na do puderam ser atendidos sob atividades
sociedade escravocrata brasileira e ofere- econômicas distintas (apresamento, lavoura
ciam todos os estímulos que alimentavam de subsistência e exploração de produtos tro-
os ideais de vida da camada senhorial, suas picais). Desse modo, a defesa de uma situa-
pretensões de direito absoluto, suas aspira- ção econômica e socialmente privilegiada
ções de nobreza e sua ética social, que abran- atuou contra as normas legadas pela tradi-
gia uma vasta gama de diferenciação dos ção e contra os preconceitos dos paulistas
homens e do seu destino social. Nesse plano por várias atividades econômicas senhoriais
de relações adaptativas e de ajustamentos (é o que atestam, principalmente, os depoi-
dos homens uns aos outros, a família patri- mentos legados ou coordenados pelo
arcal desempenhou sempre a mesma fun- Desemb. Machado de Oliveira).
ção, que é estritamente econômica no que Falta-nos tempo para examinar os ele-
concerne às condições de existência mate- mentos variáveis. Mas podemos apontá-los
rial que repousavam em semelhante estru- sucintamente:
tura social. 1o) a função de equipar a camada senho-
Quanto ao segundo ponto, ele é evidente rial com os meios legais e propriamente eco-
e se inclui parcialmente nos processos já nômicos das atividades econômicas básicas;
mencionados. De fato, desde o século XVI a 2o) restringir o acesso de indivíduos da
classificação social dos indivíduos e sua dis- mesma “raça” ou indivíduos mestiços mas
tribuição no sistema de ocupações sociais de outros estamentos à situação econômica
depende diretamente da própria posição dos da camada senhorial;
sujeitos na estrutura da família patriarcal. 3o) restringir a competição e os confli-
Esta provê o sistema econômico mediante a tos no próprio nível senhorial, restringir o
combinação de preceitos tradicionais com exercício de atividades não-nobilitantes a
argumentos pecuniários – o que o membro membros da mesma “raça” de outros
do núcleo legal da família patriarcal não pode estamentos e a representantes de outra
fazer, faz por ele o seu dependente e, princi- “raça” e abrir critérios plásticos de classi-
palmente, o seu escravo. Essa combinação ficação a todos os indivíduos pertencentes
(que se repete em outros casos análogos) ofe- ao núcleo legal da família. Isso permitia
rece barreiras mais ou menos conhecidas à uma renovação periódica de seus quadros
expansão econômica, tanto no que concerne humanos sem pôr em risco o exercício da
à divisão do trabalho e à especialização, que dominação senhorial, confinada assim a
ao desenvolvimento da produção e da troca. uma só camada social.

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