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XO na Escola:

Construção Compartilhada de
Conhecimento -
Lições Aprendidas

Organizado por:
M. Cecília C. Baranauskas,
M. Cecília Martins
e Rosangela de Assis

Editora - NIED/UNICAMP
2012 - Campinas/SP
FICHA CATALOGRÁFICA

Sistemas de Bibliotecas da UNICAMP /


Diretoria de Tratamento da Informação
Bibliotecário: Helena Joana Flipsen – CRB-8ª / 5283

X7 XO na escola: construção compartilhada de conhecimento:


lições aprendidas / organizadores: M. Cecilia C.
XO na Escola:
Baranauskas, M. Cecilia Martins, Rosangela de Assis.
Campinas, SP : UNICAMP/NIED, 2012. Construção Compartilhada de
Conhecimento -
358 p.

ISBN: 978-85-88833-08-1

1.Tecnologia educacional. 2. XO (Laptop educacional) 3. Infor-


mática na educação. I. Baranauskas, Maria Cecilia Calani, 1954-
Lições Aprendidas
II. Martins, Maria Cecília. III. Assis, Rosangela de. IV. Universidade
Estadual de Campinas. Núcleo de Informática Aplicada à
à Educação. V. Título.

CDD - 371.3078

Índices para Catálogo Sistemático:


1. Tecnologia educacional 371.3078
2. XO (Laptop educacional) 004.16
3. Informática na educação 371.3078

Este trabalho foi licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-CompartilhaIgual 3.0 Brasil.
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Este livro foi patrocinado pelo GGBS – Grupo Gestor de Benefícios Sociais
da Universidade Estadual de Campinas. Entretando, os pontos de vista aqui
expressos não representam necessariamente a opinião desta instituição.

Organizado por:
Maria Cecília Calani Baranauskas,Maria Cecília Martins, Rosangela de Assis
Editora - NIED/UNICAMP
Composição e Arte:
2012 - Campinas/SP
Gustavo Tomazi

Impressão e Encadernação:
Editora NIED/2012

2 3
Agradecimentos Alves Luchesi da Silva (alunos do ensino médio, bolsistas PIC-Jr -
Programa de Iniciação Científica Junior – UNICAMP-CNPq 2010),
Este livro foi possível graças a várias parcerias estabelecidas Juliana Megale, Interprete Libras (Língua Brasileira de Sinais).
ao longo do projeto de pesquisa, ao apoio e esforço de muitas Agradecimentos também ao Professor Dr. Rogério Moura, da
pessoas: Faculdade de Educação da Unicamp e alunos do Programa de
Aos autores, que abrilhantam essa obra com o produto do Estágios – SAE/UNICAMP, que participaram de atividades na escola
trabalho que desenvolvem na escola. no segundo semestre de 2010: Fábio R. Campos, Fábio R. Santos,
Yeda E. R. de Carvalho, Rodrigo Y. O. Ribeiro. Ao Gustavo Tomazi,
À OLPC (One Laptop per Child Foundation), pela doação dos que trabalhou na composição, diagramação e arte final do livro.
laptops educacionais XO para o NIED/UNICAMP.
Aos parceiros deste projeto de pesquisa junto à Prefeitura
Ao apoio do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Municipal de Campinas, que no período de proposição e
Científico e Tecnológico), para o projeto de pesquisa referenciado implementação do projeto (2009/2012) estiveram à frente da
neste livro (processo #475105/2010-9). Secretaria Municipal de Educação, os senhores secretários: José
Tadeu Jorge (maio/2009), Márcio Rogério Silveira de Andrade
Ao GGBS (Grupo Gestor de Benefícios Sociais) da Unicamp,
( junho/2011), Eduardo José Pereira Coelho (setembro/2011),
que viabilizou apoio financeiro para a realização desta obra.
Carlos Roberto Cecílio (abril/2012). À Rita Maria Manjaterra
Ao Ministério da Educação (MEC), Secretaria de Educação Khater, profissional desta Secretaria que viabilizou desde o início o
Básica pelo aporte financeiro de bolsistas para desenvolvimento contato com a escola e gestão da EMEF Pe. Emílio Miotti. À Angela
de ações de formação com alunos-monitores na escola. C. S. Fernandes, coordenadora do NTE (Núcleo de Tecnologia
Educacional de Campinas) e Wagner da Cunha Alvares, AIE-
Ao Prof. Dr. José Armando Valente, que viabilizou junto à
Assessoria de Informações Educacionais, pelo apoio as demandas
OLPC a doação dos laptops educacionais XO para o NIED/UNICAMP.
iniciais do projeto junto a Prefeitura. A Secretaria de Cidadania da
Sua colaboração foi fundamental também para o estabelecimento
Prefeitura de Campinas, na viabilização de bolsistas do Programa
de ideias e parcerias necessárias para o encaminhamento de ações
Jovem.com para apoio técnico ao uso dos laptops na escola.
neste cenário de pesquisa.
A todos os profissionais da escola (funcionários e
Ao Núcleo de Informática Aplicada à Educação da Unicamp,
professores), pais e alunos da EMEF Pe. Emílio Miotti, que
pelo apoio ao encaminhamento deste projeto de pesquisa desde
participaram ativamente na viabilização do projeto nesta unidade
a sua concepção. A Manoel Lourenço Filho (NIED) que, entre
de ensino. Ao apoio institucional configurado em ações da gestão
outras ações, enquanto membro da equipe do projeto, viabilizou
escolar: Cecília Aparecida Xavier (orientadora pedagógica) e Maria
a execução gráfica e gestão financeira do livro junto ao GGBS da
Aparecida Carmona Ianhes Anser (vice-diretora). Aos alunos-
Unicamp. Aos pesquisadores Tel Amiel, Flávia Linhalis Arantes,
monitores, estagiários, bolsistas que apoiaram atividades de uso
João Vilhete Viegas d’Abreu por colaborarem em oficinas semio-
do laptop educacional na escola.
participativas do projeto. Aos alunos do Instituto de Computação,
que por alguns programas da Universidade (iniciação científica, A todos, o nosso profundo reconhecimento e agradecimento.
SAE, PIC-Jr) participaram do projeto: Heiko Hornung, Leonelo
dell Anhol Almeida, Leonardo Cunha de Miranda, Maíra Codo
Canal, Elayne Moraes. Marcos Vinicius Pereira de Arruda, Michelle Os organizadores.

4 5
Apresentação ao longo das práticas e reflexões ocorridas nos cenários
educacionais em questão. Nesse sentido, a tecnologia (o
A tecnologia digital tem transformado a maneira laptop) deixa de ser figura e passa a ser fundo nesse cenário,
como interagimos, nos comunicamos e vivemos na isto é, o processo deixa de ser centrado na máquina e passa
sociedade contemporânea. A Escola, como instituição a ser centrado nas pessoas e suas organizações.
e organização social, não pode ficar alheia a estas
transformações. Este livro sintetiza os estudos e propostas O objetivo deste livro é apresentar à sociedade,
de soluções envolvidas na constituição de metodologia de modo geral, alguns dos resultados obtidos no
de base participativa para implantação de laptops projeto "XO NA ESCOLA E FORA DELA: UMA PROPOSTA
educacionais de baixo custo em contextos escolares. Não SEMIO-PARTICIPATIVA PARA TECNOLOGIA, EDUCAÇÃO
se trata, entretanto, da “implantação” de nova tecnologia E SOCIEDADE" 1 , nomeado internamente como “XO-
na escola, no sentido de estabelecer, fixar algo, nem UNICAMP”, sob a coordenação da Professora Doutora
tampouco se trata da “integração” do laptop, no sentido de Maria Cecília Calani Baranauskas, docente do Instituto de
tornar mais completo o já existente, mas o desafio que nos Computação e coordenadora do Núcleo de Informática
propusemos a enfrentar demanda reinventar métodos e Aplicada a Educação (NIED), da UNICAMP. O referido projeto
práticas escolares a partir da inclusão desse novo artefato tem como objetivo constituir um modelo compartilhado
da tecnologia no cenário da escola e de suas partes de inclusão de laptops na escola pública como alternativa
diretamente envolvidas: alunos, professores, gestores, ao realizado em Programas Governamentais de formação
funcionários e pais, para citar algumas. Nesse sentido a e implantação de laptops em contextos escolares, uma
“inclusão” pressupõe transformações no contexto escolar vez que está sendo desenvolvido a partir da análise de
,e fora dele, construídas e compartilhadas pelas partes contexto e prospecção de soluções construídas com as
interessadas. Portanto, entendemos que a apropriação de partes interessadas – alunos, profissionais da educação e
tecnologia digital pela comunidade escolar deve ser tratada comunidade.
como instrumento de transformação.
A concepção e execução do projeto são apoiadas
Desenvolver um modelo de inclusão de laptops em metodologia de bases semióticas, sustentadas
educacionais em escolas públicas, a partir de soluções que na compreensão socialmente compartilhada sobre
façam sentido e que tragam benefícios à comunidade escolar a apropriação tecnológica na vida em sociedade. As
e à sociedade como um todo, requer uma visão sóciotécnica, atividades do projeto são desenvolvidas na Escola Municipal
que tem sido o mote dos envolvidos neste projeto. Isso de Ensino Fundamental Padre Emílio Miotti, situada à Rua
significa que pensar o uso laptop no contexto educacional Beata Madre Plácida Viel, 36, no bairro Jardim Santa Lúcia,
requer considerar níveis diferenciados de ações - com e sem a na cidade de Campinas, São Paulo. Foram alocados para o
tecnologia - nos quais pessoas com atuações diferenciadas desenvolvimento do projeto 500 laptops educacionais XO,
são envolvidas com perspectivas e visões particulares que, doados pela One Laptop per Child Foundation – OLPC.
dinamicamente vão se constituindo e se transformando
1
Fomento CNPq 475105/2010-9

6 7
Por sua natureza genuinamente interdisciplinar e dois anos de seu inicio na Escola, foi lançada na sua 10ª
sóciotécnica, o projeto envolveu pesquisadores de várias Oficina Semio-participativa3 a ideia de registrar em um
unidades internas e externas à Universidade Estadual de livro um pouco de como se dá a construção compartilhada
Campinas (UNICAMP). Contou com a adesão da Secretaria de conhecimento a partir da metodologia proposta, e as
de Educação da Prefeitura Municipal de Campinas, primeiras lições aprendidas a partir do cotidiano da Escola
que viabilizou a pesquisa bem como possibilitou o ao experimentar transformações, na visão das partes
estabelecimento de diálogos e atividades no cenário envolvidas.
escolar e fora dele a partir do envolvimento de professores,
A concepção do livro foi apresentada como uma
gestores e funcionários da escola, alunos e pais.
possibilidade de se realizar uma construção compartilhada,
O livro aqui proposto reflete, portanto, a natureza com relatos de professores, funcionários, pais, alunos,
do Projeto, suas bases epistemológicas e as lições gestores e pesquisadores do projeto, pois estes, enquanto
aprendidas por várias pessoas que participaram – ao longo partes interessadas, trazem para o projeto contribuições em
do projeto – de iniciativas relacionadas ao uso de laptops diferentes perspectivas. Nesta construção compartilhada
educacionais na EMEF Padre Emílio Miotti (pesquisadores, seria possível explicitar a história do projeto XO com
professores, gestores, alunos e pais): familiarização variadas percepções a respeito do que foi realizado nas
com sistemas computacionais, formação continuada de dinâmicas ocorridas na escola, uma vez que tais atividades
professores e alunos-monitores e desenvolvimento de são produtos das colaborações dos participantes envolvidos
métodos que pudessem promover uma cultura de acesso no contexto do projeto: oficinas, utilização do laptop com
ao conhecimento via tecnologia digital. os alunos, formação continuada, atividades com o laptop
em eventos da escola, entre outras.
O livro foi organizado de modo participativo em
Oficinas Semio-participativas 2 realizadas na escola com os A dinâmica inicial envolveu a apresentação de um
vários personagens que estiveram associados ao Projeto. pôster (Figura 1) que foi preenchido com contribuições
Representa as principais áreas do conhecimento envolvidas individuais dos participantes, escritas em post its e coladas
no Projeto, articulando tecnologias, mídias e sociedade, no pôster, para responder as seguintes questões:
e conta com a participação de professores da Escola e Onde estaria a contribuição e como gostaria de contribuir?
pesquisadores de diferentes domínios do conhecimento, - ex. com relato de experiência, avaliação, monitoria (para
que estiveram associados ao Projeto. Professores); que perguntas gostariam de ver respondidas
O processo de construção deste livro representa, ou responder? (sobre Funcionários); que perguntas
ele próprio, uma instância da metodologia proposta, e é gost hariam de ver respondidas ou responder? (sobre Pais);
apresentado a seguir. o que gostariam de destacar? (como Gestão da Escola);
que trabalhos feitos por alunos indicariam? (sobre Alunos);
O Projeto e o Livro que temas abordariam? (para Pesquisadores).

Como todas as atividades do Projeto, após cerca de


2
Ver cap. 1
3
Realizada em abril de 2012.

8 9
Para os Professores há destaque para as palavras
Figura 1 e 2 . Pôster para prática participativa do livro sendo
“relato, experiências e dificuldades”. Para a Gestão, são
preenchido na oficina destacados “escola, histórico, importância, projeto e relato”.
Para Pais, evidencia-se “casa, aprendizado e aprendizagem”.
Preenchido com post its, o pôster foi posteriormente Para Alunos merecem destaque “trabalho, depoimentos,
analisado em suas partes; tag clouds - nuvens das palavras comportamento”.
mais recorrentes nas contribuições - foram construídas
para cada parte interessada (Professores, funcionários,
pesquisadores, gestão, alunos, pais) e expressam valores e
forma de contribuição sugerida para cada parte envolvida.
A Figura 2 mostra detalhe do preenchimento do pôster
durante a Oficina e a Figura 3 ilustra as tag clouds geradas
a partir do conjunto de post its.

Para ilustrar o tipo de contribuição da prática


participativa à concepção conjunta do livro, a parte
“Funcionários” foi preenchida com as seguintes expressões:

Respeito, Percepções sobre o uso do XO na escola, Você


percebeu diferença na dinâmica da escola com a vinda
do XO? XO poderia ser usado de acordo com a função?
Por ex.: programar planejamentos? Depoimentos de uso
Figura 3. Tag Cloud Geradas
do XO.
Dessa maneira, inspirados pela pragmática revelada
no pôster, organizamos a preparação do livro com
A Tag cloud gerada (a seguir) revela a vontade de
conteúdo assim constituído: O Projeto e sua linha do
se conhecer as percepções dos funcionários para o uso
tempo no desenvolvimento; a visão da Gestão da Escola
do XO na Escola, pela dinâmica e/ou diferença que tenha
para o histórico do Projeto e seu impacto; depoimentos
percebido para a vinda deste. Vale notar o valor “Respeito”
que captam fragmentos da percepção de funcionários e de
associado ao funcionário da Escola no Projeto.
pais para o Projeto; levantamento e análise da percepção da

10 11
gestão sobre a percepção dos alunos; trabalhos de alunos Prefácio
com o XO; tópicos de pesquisa articulados ao uso do XO
em sala de aula; relatos de experiências de professores “XO na escola e fora dela uma proposta semio-
em seu cotidiano escolar a partir da inclusão do XO em participativa para tecnologia, educação e sociedade” nos
novas práticas educacionais, frustrações, proposições e relata algumas vivencias do projeto coordenado pela profa
resultados. Dra Maria Cecília C. Baranauskas e realizado numa escola
pública do município de Campinas. A principal contribuição
Dessa maneira, o livro está organizado em quatro dessas narrativas é nos mostrar experiências bem sucedidas
Partes: a primeira apresenta as bases metodológicas e de de apropriação tecnológica digital em um contexto
concepção do Projeto na perspectiva da gestão da escola e escolar com impacto em toda comunidade. Os resultados
da gestão do Projeto; a segunda parte apresenta resultados evidenciados comprovam a proposta semio-participativa
da articulação de pesquisa com cotidiano da escola; a enquanto facilitadora da transformação social a partir da
terceira parte apresenta a percepção dos professores, em inclusão digital.
sua prática e reflexão; a quarta parte ilustra percepções
das outras partes envolvidas: funcionários da escola, pais e São vivencias de dois anos, nos quais pesquisadores
alunos. sentam nos bancos da escola para viabilizar que toda a
comunidade escolar se aproxime da academia e juntos
Boa Leitura! construam um exemplo bem sucedido de construção
compartilhada de conhecimento. O livro está organizado de
M. Cecília C. Baranauskas, M. Cecília Martins, Rosangela modo a refletir esse compartilhamento, em quatro partes.
de Assis.
O livro inicia com a coordenação da pesquisa
apresentando o Projeto no que se refere à concepção e ao
método, seguido de uma clara apresentação do contexto
histórico de sua implantação que se chamou de linha do
tempo possibilitando conhecer os acontecimentos na
sequência e nos permitindo perceber as descobertas e
desafios do percurso, interpretadas pelos autores como
aprendizagens inerentes ao processo.

Ainda na direção de contextualizar o leitor da trajetória


vivenciada, uma narrativa da direção da escola mostra ao
leitor o envolvimento de todos na construção desse percurso,
enfatizando essa participação como princípio onde o coletivo
se destaca como elemento solidário para se assumir os novos

12 13
desafios pertinentes à implantação do projeto no ambiente de ciências, a utilização da tecnologia cumpriu o sentido
escolar. didático de ensinar o conteúdo e mais do que isso, de
facilitar a compreensão dos alunos na construção de regras
O olhar dos alunos a respeito da chegada do XO nas relações inter pessoais do grupo em sala de aula.
e a narrativa feita pela direção da escola, reforçam a
acolhida positiva para um trabalho coletivo de apropriação Há também, a experiência da aplicação de um jogo
da novidade. Muitos pareceres resultantes da pesquisa de RPG,( Role Playing Game ou Jogo de Interpretação de
realizada pela direção, confirmam que o aluno se gratifica Papéis), em aulas de História, constatando que os jogos
com a possibilidade desse artefato participar da sua forma educacionais inovam na metodologia da aprendizagem e
de aprender na escola. A percepção dos funcionários é motivam os alunos.
também considerada pela relatora do capítulo, assim como
o parecer de alguns pais completando toda a comunidade O capítulo seguinte considera que o uso da tecnologia
escolar. Tais percepções são discutidas na parte quatro do para facilitar a aprendizagem, não pode prescindir do
livro. professor enquanto mediador entre essa tecnologia e
a criança, envolvendo afeto e emoção no processo de
A segunda parte do livro amplia esse conceito de aprendizagem.
comunidade escolar, quando relata a parceria pesquisador
e professor que evidencia a inclusão nessa comunidade Continuando o relato dos pesquisadores das
do pesquisador, antes um observador externo. A pesquisa experiências em sala de aula, temos as oficinas com alunos
articulada com a prática docente, apresentada nos utilizando Scratch no Laptop Educacional XO com resultados
capítulos seguintes, traz metodologias desenvolvidas por altamente satisfatórios.
professores e pesquisadores em sala de aula e constata o
sucesso da aceitação do XO como apoio didático. Segue a narrativa de uma vivência muito bem
sucedida de acessibilidade com duas crianças, usuárias
Porém, mais do que comprovar a eficácia do do apoio da educação especial da escola, envolvendo
computador em sala de aula, as experiências relatadas instrumentos musicais de cordas, madeiras e metais
mostram o entrosamento entre pesquisador e docente para introduzir conceitos básicos da música como ritmo,
em um trabalho onde a “pesquisa” coloca o docente mais harmonia, melodia, tonalidade, andamento e a forma de
próximo da academia, onde as pesquisas geralmente são tocar utilizando o aplicativo “Tam Tam Mini” como apoio
pensadas, e o pesquisador atuante em sala de aula, longe para improvisações com os mais diversos instrumentos e
da postura de mero observador e no lugar onde a ação sons.
acontece.
Ao evento da Olimpíada das Cores realizado a cada
Essa articulação pesquisa e prática se fez presente dois anos pela escola com a finalidade de reunir os alunos,
de várias formas e em cada capítulo: (relatos de vivencias professores e funcionários, e promover, assim, a integração
de diferentes contextos curriculares). Como no caso da aula e a confraternização de todos, foi incorporado a utilização

14 15
da tecnologia. Toda trajetória do projeto de introduzir o Assim o XO aparece como facilitador para a aprendizagem
XO a esse contexto das Olimpíadas nos é relatado pelos da Literatura de Cordel, como motivação para alfabetização,
pesquisadores na parte dois. como recurso pedagógico, como ferramenta na construção
de gráficos e tabelas a partir do cotidiano dos alunos,
Na mesma parte do livro relata-se a experiência com para significar o desperdício de papel: quantificando área
alunos e professores no uso de um software educacional e volume; nas aulas de história, em trabalhos articulados
para o laptop-XO, o GeoActivity, enquanto facilitador do interdisciplinarmente dentro e fora da sala de aula, nas
desenvolvimento da orientação espacial e da cognição. aulas de geografia e educação física, em projetos de
acessibilidade e monitoria.
Finaliza-se a segunda parte do livro com uma
experiência realizada com sucesso envolvendo redes As considerações finais dos organizadores sintetizam
de significados - histórias, formas, conteúdos, meios e o significado e a grandeza desse Projeto na construção de
movimentos . uma prática escolar inovadora na qual o computador foi o
facilitador da articulação do conhecimento em uma parceria
A terceira parte do livro está dedicada para relato entre professores, pesquisadores, alunos, funcionários e
de experiências dos docentes em sala de aula utilizando o pais; envolvendo a comunidade escolar e a academia, em
XO, artefato recém introduzido à metodologia de ensino e benefício do desenvolvimento de todos.
aprendizagem na escola em questão.
Com certeza esse desenvolvimento será extensivo ao
Nesta parte, são 12 capítulos com as mais variadas leitor interessado na pesquisa e na prática educacional.
práticas docentes nas diversas séries do ensino fundamental
que nos aproximam de algumas das muitas possibilidades
de uso da tecnologia nesse contexto de escolar. Rita M. M. Khater

Essas experiências chamadas, na parte 3, de vivências


com o XO, além de exemplos de eficiência metodológicas,
nos mostram a competência dos professores em aceitar o
novo para melhorar a práxis do cotidiano. Eles também nos
revelam que a docência na escola pública tem sim empenho
em oferecer ao aluno técnicas aprimoradas de ensino
e aprendizagem, tem aceitação pelo novo e abertura às
parcerias com o conhecimento acadêmico.

Cada capítulo dessa parte segue relatando as


iniciativas de introduzir a tecnologia tanto como recurso
metodológico, quanto como elemento de reflexão
das possibilidades do novo artefato na vida de todos.

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Agradecimentos.............................................................................................04 Parte 3 - Vivências com o XO na Escola................................................ 226
Apresentação.................................................................................................. 06 O uso do XO como Recurso Metodológico para o
Estudo de Literatura de Cordel - Kátia Cristina Martins......................229
Prefácio............................................................................................................. 13
Apropriação da tecnologia e motivação para alfabetização
Sumário............................................................................................................. 18 de alunos de 1º ano através do uso do XO -
Edileuza Pacheco da Silva e Jocinara Lopes de Oliveira........................ 234
Parte 1 - Histórico, Visão e Metodologia............................................20
O uso do laptop X.O como recurso pedagógico em sala de aula-
Uma abordagem sócio-situada para tecnologia e educação: Tânia Mara dos S. Gonçalves e Vanessa F. Pires...................................... 244
concepção e método – Maria Cecília Calani Baranauskas.....................23
Recurso Tecnológico como Ferramenta na Construção
XO na Escola em sua Linha do Tempo - de gráficos e tabelas a partir do cotidiano dos alunos -
Maria Cecília Calani Baranauskas e Maria Cecília Martins.....................42 Marilda Ferreira da Silva.............................................................................. 253

Projeto X-O – Descobertas, Desafios e Aprendizagens Desperdício de Papel: Quantificando Área e Volume -
do Percurso -Rosangela de Assis e Cecília A. Xavier................................60 Marilda Ferreira da Silva e Fernanda Silva Barbosa............................... 263

Registro de processos de significação: o vídeo como O uso do XO nas aulas de História: O professor como
ferramenta - Maria Cecília Martins e Maria Cecília mediador do processo ensino aprendizagem - Marcos Ramos......... 271
Calani Baranaukas........................................................................................... 84
Trabalhando com o XO Interdisciplinaridade com
Formação como processo transversal - o uso do XO dentro e fora da sala de aula -
Maria Cecília Martins e Maria Cecília Calani Baranauskas.....................99 Paula C M Balardin....................................................................................... 275

O consumo como cenário -


Parte 2 – Pesquisa e Prática Articuladas............................................... 116 Juliana Andrade Moura................................................................................ 279
XO, novo instrumento, novas regras? O caso da aula Relato de migrações e o uso do XO nas aulas de
de Ciências - Elaine Hayashi e Priscila Paionk........................................ 119 Geografia.- Juliana Andrade Moura.......................................................... 283
RPG na Aula de História - Vanessa R. M. L. Maike e O XO na Educação Física - Silvana Rossi Caobianco............................. 289
Marcos Ramos................................................................................................. 131
A acessibilidade através do XO - Aline Begossi,
Com o XO e com afeto: um turista na sala de aula Arlene Machado, Lívia Cristiane Pereira Dal Bello................................. 293
Elaine Hayashi, Jocinara Lopes de Oliveira e
Edileuza Pacheco da Silva.............................................................................151 Alunos Monitores na escola: uma parceria que deu certo! -
Jocinara Lopes de Oliveira e Vanessa F. Pires......................................... 298
Oficinas com alunos utilizando Scratch no Laptop
Educacional XO - Eduardo Mauricio Moreno Pinto Parte 4 – O Projeto na Percepção de Funcionários,
e Jucélio Evangelista Fonseca...................................................................... 162 Pais, Alunos......................................................................... 308
O XO na Percepção dos Funcionários da Escola -
XO – Educação e Acessibilidade - Gustavo Tomazi............................... 183 Maria Cecília Martins e Maria Cecília Calani Baranauskas...................311
Laptop XO nas Olimpíadas das Cores - Eduardo M. O XO na percepção de Pais e Alunos -
M. Pinto, Everton de M. Faleiros, Jucélio E. Fonseca, Maria Cecília Martins e Maria Cecília Calani Baranauskas...................324
Maria Cecília Martins, Romilva, Costa, Vanessa R.
M. L. Maike.......................................................................................................189 PROJETO X.O.: O olhar dos Alunos -
Rosangela de Assis.........................................................................................333
Aprendizado Geoespacial com o Laptop-XO – O exercício de subir e descer a escada semiótica:
Thomas Bartoschek, Henning Bredel, Philippe Rieffel............................211 considerações finais...................................................................................338
Redes de significados-Histórias, formas, conteúdos, Posfácio.......................................................................................................... 346
meios e movimentos – Romilva Costa...................................................... 214
Sobre os autores..........................................................................................355

18 19
20
Uma abordagem sócio-situada para
tecnologia e educação: concepção e
método
M. Cecília C. Baranauskas

O projeto relatado e discutido neste livro trata de


tecnologia digital e educação, situados no contexto
Brasileiro e localizados na escola municipal que nos
acolheu e compartilhou conosco esta caminhada.

Iniciando pelo contexto

O impacto da tecnologia na sociedade não é tão


simples de antecipar, especialmente quando se trata de
tecnologia computacional, em seus sessenta e poucos anos
de história desde a criação dos primeiros computadores.
Há trinta anos, poucos conseguiriam antecipar que as
pessoas pudessem ter razões para ter um computador em
casa.

Na sociedade contemporânea, o acesso ao


conhecimento passa pelo acesso à Internet, através de
tecnologia computacional. Se olharmos para a relação que
o cidadão brasileiro tem com essa tecnologia, constatamos
que a porcentagem de domicílios com acesso à Internet
está em torno de 30%, segundo o último relatório do
Comitê Gestor da Internet no Brasil1 (CGI). Em países como
Alemanha, Coréia, Japão essa porcentagem é de quase
90%.

Mas a má notícia é a constatação, em nosso país, das


diferenças de acesso, por exemplo, entre área urbana e rural,
(de 31% para 6% respectivamente); entre classes sociais
1
CGI.br http://www.cgi.br/

23
(de 90% na classe A para 3% nas classes D e E); e entre (OCDE)2. De acordo com o estudo, no Brasil, as escolas têm
regiões do país (de 36% no Sudeste para 11% no Nordeste), um computador para cada cinco alunos, o que é considerado
segundo dados do mesmo relatório. Não é por acaso que insuficiente. O estudo acrescenta que, em média, as escolas
essas porcentagens de acesso à Internet nas diferentes dos países ricos têm um computador para cada dois alunos.
regiões do país são inversamente proporcionais às Em alguns países, como é o caso da Austrália, o sistema de
porcentagens de analfabetismo funcional medidas nessas educação garante um computador por aluno. Ainda, essa
regiões. Por exemplo, a região Nordeste, que tem a menor publicação informa que estamos na terceira pior colocação
proporção de domicílios com acesso à Internet (11%) é a que na classificação de inclusão digital realizada pelo estudo, à
apresenta a maior taxa de analfabetismo funcional (30,8%). frente apenas de Tunísia e Indonésia.
É certo que houve um crescimento entre 2005 e 2010 na
proporção de domicílios com acesso à Internet, que passou Os dados e análise apresentados sugerem de forma
de 13% (em 2005) para 31% em 2010, mostrando taxa de contundente a necessidade de esforços na direção da
crescimento de 19%. Entretanto, o relatório do CGI também alfabetização digital da população e evocam a vontade e o
assinala que em 2010 as taxas de crescimento da posse compromisso em fazer a nossa parte.
e do uso do computador e da conexão à Internet estão
abaixo da taxa composta de crescimento anual dos últimos A inspiração
seis anos, evidenciando a necessidade de se investigar
mais, e de diferentes formas, fatores que podem interferir Impossível falar de educação e visão social sem nos
ou favorecer esse crescimento, visando à universalização referirmos a Paulo Freire e sua Pedagogia do Oprimido i:
das TIC (Tecnologias de Informação e Comunicação) nos
domicílios brasileiros. “ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo,
os homens se educam entre si, mediatizados pelo
O relatório do CGI também investigou, para os que mundo” (p. 78)”
não têm computador e Internet, o que estes alegam. Além
do custo elevado (74% das respostas para computador Paulo Freire (1921-1997), educador e filósofo
e 49% para Internet), chama atenção a resposta da falta brasileiro, é considerado um dos pensadores mais notáveis
de interesse e habilidade (conhecimento): 38% e 26% na história da Pedagogia mundial. Atualmente Patrono da
respectivamente. Educação Brasileira, destacou-se por seu trabalho na área
da educação popular, voltada tanto para a escolarização
O cenário que nos serve de fundo para situar a como para a formação da consciência política.
tecnologia digital em processos educacionais não é mais
animador: o de um país colocado como último em uma Freire é contrário ao processo denominado por
lista de 38 países avaliados em relação ao número de ele de “modelo bancário de educação”, segundo o qual
computadores por alunos. Essa informação é resultado de “ao educador não cabe nenhum outro papel que não o de
um estudo divulgado em junho de 2011 pela Organização
para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico 2
Publicado pela revista ARede nº 74, outubro de 2011

24 25
disciplinar a entrada do mundo nos educandos. Seu trabalho Paulo Freire e Seymour Papert, dois gigantes do
será, também, o de imitar o mundo. O de ordenar o que pensamento contemporâneo, são inspirações para situarmos
já se faz espontaneamente. O de “encher” os educandos de o tema deste projeto e livro: o acesso e a construção de
conteúdos. É o de fazer depósitos de “comunicados” – falso conhecimento, mediados por tecnologia digital, como
saber – que ele considera como verdadeiro saber.” (p. 72). forma de inclusão social. Ambos estiveram juntos em um
encontro memorável em SP, 1995, documentado em vídeo iii ,
Em vez disso, propõe o diálogo como base da
para discutir o futuro da escola e o impacto da tecnologia
educação:
na aprendizagem.
(...) Desta maneira, o educador já não é o que apenas
educa, mas o que, enquanto educa, é educado, em Mais do que discutir o “uso da tecnologia na escola”,
diálogo com o educando que, ao ser educado, também o debate mostra a maneira que os dois pensam a Escola
educa. Ambos, assim, se tornam sujeitos do processo como instituição no mundo contemporâneo, em particular
em que crescem juntos e em que os “argumentos repleto de tecnologia. Para Papert, na educação das
de autoridade” já não valem. Em que, para ser-se, crianças devemos dar a elas mais consciência do processo
funcionalmente, autoridade, se necessita de estar sendo
de aprendizado, mais controle e incentivá-las a participar
com as liberdades e não contra elas. (p. 79)
desse processo: “Tudo o que é o contrário de ter que perguntar
Assim como é impossível não resgatar Paulo Freire, é à professora: "O que eu aprendi hoje?". Ambos concordam
impossível falar de tecnologia computacional e construção nesse ponto, e Freire traduz a pergunta para sua metáfora
de conhecimento sem falarmos de Seymour Papert (1928-) da educação bancária: “a garota podia ter perguntado
em Mindstorms e A máquina das Crianças ii . também a professora, "quantos envelopes de saber a senhora
depositou em mim hoje?", como o antagônico de tudo o
Seymour Papert é matemático de formação,
que ele propôs em Educação.
professor do Massachusetts Institute of Technology (MIT)
nos Estados Unidos. Conhecido pela criação da linguagem
Com respeito à tecnologia propriamente dita, Freire
de programação Logo, para crianças, já em 1968, quando
projeta sua preocupação com relação à falta de acesso e
ainda não existiam computadores pessoais, interface
reconhece suas consequências ao longo do tempo, para a
gráfica, ou a Internet. Logo não é só uma linguagem de
maioria das crianças brasileiras:
programação, mas é parte de uma teoria que denominou
Construcionismo.
“qual é a repercussão da tecnologia junto dessas e da
Papert apresenta o Construcionismo como uma maioria das crianças brasileiras, hoje, e daqui a 20, 30
reconstrução pessoal do Construtivismo, que atribui anos esses milhões de meninos estarão mais distantes
“especial importância ao papel das construções no mundo ainda da tecnologia” (Paulo Freire)
como um apoio para as construções mentais” (p. 127). O
autor enxerga o aprendiz como um bricoleur, ou seja, Ambos são críticos com relação à Escola como
aquele que, dispondo de seu próprio conhecimento e de instituição no mundo atual e têm visões diferentes para
sua engenhosidade, constrói conhecimento enquanto o futuro da Escola. Para Papert, na vida real existe um
explora e constrói objetos de seu interesse. desequilíbrio entre o aprendizado e o ensino, que está

26 27
muito mais valorizado que o aprendizado e propõe como Um projeto que envolve o uso de tecnologia
tarefa dar valor ao aprendizado, à custa do ensino. Para computacional em processos educacionais transformadores,
ele, a presença da tecnologia irá substituir a escola que como o que nos propusemos a desenvolver, não pode
conhecemos. No entanto, espera que haja sempre lugares prescindir da discussão fundamental e crítica que ambos
para as crianças se encontrarem com pessoas para aprender. os pensadores nos colocaram a respeito do significado
Então o objetivo dos educadores deveria ser procurar da escola como organização social, da tecnologia como
novas maneiras de lidar com as crianças e de se relacionar artefato da sociedade, de processos de aprender e ensinar
dentro do triângulo: adulto, criança, saber. Segundo no mundo contemporâneo.
ele, precisamos de relacionamentos bem diferentes e, é
claro,isso não aconteceria automaticamente e facilmente. Tecnologia em educação
Mas acredita que a natureza fundamental da escola nesse
processo está acabando. A palavra tecnologia, em sua origem do Greco
techné, equivale aproximadamente à técnica, habilidade, e
Para Freire há a necessidade de “por a escola à altura tinha conotações práticas que podiam se aplicar a qualquer
de seu tempo; isso não é sepultá-la, mas refazê-la”: atividade humana. A história da tecnologia confunde-se com
a história da evolução humana; o mesmo se pode dizer de
“para mim a questão não é acabar com ela, mas é mudá-
seu papel na história da educação. Sem querer reconstruir
la completamente; é radicalmente fazer que nasça dela,
essa história, de maneira simplificada, podemos entendê-la
de um corpo que não mais corresponde à Verdade do
de várias perspectivas. Em uma perspectiva determinística,
mundo, um novo ser tão atual como a tecnologia...”
tecnologias fazendo coisas por nós: limitando o que fazemos
ou possibilitando que façamos determinadas coisas; nesse
Para Freire, interessa a existência de um determinado
sentido elas têm um papel no controle do que é possível
espaço e tempo onde determinadas tarefas se cumpram,
nas nossas ações. Já em uma perspectiva sócio-situada,
sociais e não só individuais, históricas, políticas e etc. Uma
enxergamos as pessoas fazendo coisas com as tecnologias;
das tarefas centrais da escola é proporcionar o conhecimento
essa visão nos permite colocar as pessoas no centro da
do conhecimento já existente e a produção do conhecimento
análise. Por conta disso, se as pessoas não podem fazer
ainda não existente. Para ele as modificações tecnológicas
algo com a tecnologia, elas podem optar por buscar uma
aceleram indiscutivelmente a apreensão do conhecimento,
diferente, reinventar seu uso ou trabalhar para criar uma
mas não necessariamente da razão de ser do conhecimento.
nova. A abordagem sócio-situada é, por conseguinte,
consistente com a visão dos construtivistas, centrada nas
O debate é estimulante e finaliza com o
pessoas, e reconhece a atuação individual de uma forma
reconhecimento de Freire de que há uma identidade entre
que a perspectiva determinística não faz.
ambos e, até certo momento da caminhada estão alinhados
querendo a mesma coisa. Suas linhas de pensamento
A tecnologia no contexto da educação na visão
diferenciam-se, para Freire, no ponto em que a análise de
determinística restringe-se a questões instrumentais, aos
Papert, lhe parece mais metafísica e a sua própria mais
histórico-política.

28 29
interesses técnicos associados ao trabalho ou à produção; afetam em seu contexto de trabalho, o que pode ser
e não alcança aspectos da prática, que tem a ver com caracterizado como democracia no design.
interpretação e significação, ou aspectos emancipatórios,
que tem a ver com superação de estruturas de poder. A Implícito em nosso modelo vii está o reconhecimento
tecnologia no contexto da educação, vista pelo enfoque de que a comunicação entre as partes interessadas é um
social, é alinhada a abordagens bem estabelecidas como fenômeno social culturalmente definido, e os artefatos
a de comunidades de prática, onde tecnologia já não construídos para mediação dessa comunicação devem
está posicionada como a causa da prática, mas como o assegurar seu uso criativo e colaborativo de forma a
resíduo da prática, é o que sobra quando o desempenho conduzir as propostas de uso de tecnologia que fazem
de uma prática acabou, e o que pode ser tomado como um sentido aos envolvidos.
recurso em futuras práticas IV. A contribuição da abordagem
de comunidades de prática encontra-se mais no plano
conceitual, mostrando como os movimentos da prática e Método
na prática podem ser analisados. Metodologias de áreas
de conhecimento fora do campo da tecnologia educacional Diante do quadro que se configurou, os desafios
têm sido utilizadas para explicar o papel da tecnologia em de um projeto envolvendo tecnologia digital, educação e
mudanças organizacionais. No caso deste nosso trabalho sociedade demandam uma visão sistêmica, sócio-situada e
a metodologia é inspirada em conceitos da Semiótica envolvem:
Organizacional V e Design ParticipativoVI .
• No nível de sociedade, reduzir as desproporcionalidades
A Semiótica Organizacional (SO) lida com sistemas no acesso e uso do conhecimento;
interativos de forma a balancear aspectos tecnológicos e • No nível formal, educar para/com o uso e apropriação
aspectos sociais, em termos de recursos de informação, de tecnologia e das novas mídias - o que é essencial
produtos e funções. No paradigma da SO, a realidade é vista para capacitar os cidadãos às habilidades necessárias
como uma construção social baseada no comportamento para garantir o direito universal à informação e à
de agentes que dela participam; as pessoas compartilham liberdade de expressão;
um padrão de comportamento governado por sistemas • No nível técnico, criar ambientes e sistemas inclusivos
de signos. Como as pessoas estão continuamente se que possam apoiar a constituição de uma cultura
comunicando, o mundo está em constante transformação. digital onde as partes sejam também produtoras de
O Design Participativo (DP) contribui ao método conhecimento.
aqui proposto com práticas e dinâmicas de ação que
possibilitam trazer as partes interessadas para dentro do A “cebola semiótica”, adaptada de Ronald Stamper viii ,
processo de desenvolvimento do projeto. Originalmente representa nosso entendimento para essa visão sistêmica
as abordagens participativas ao design têm uma e sócio-situada e ela tem sido a base conceitual de nossa
dimensão política relativa ao fortalecimento do papel metodologia.
do usuário em decisões sobre produtos de design que o

30 31
O Problema e a Cebola Semiótica As Oficinas Semio-participativas

Em nosso entendimento, conhecer um problema (a No método proposto, a clarificação do problema,


inclusão de nova tecnologia na escola, por exemplo) envolve análise e proposição de soluções e avaliação de resultados
situá-lo no núcleo da “cebola semiótica”. Essas camadas de de ações ao longo do Projeto, se dão pela ação dos
significados constituem níveis informais, formais e técnicos participantes em dinâmicas de oficinas. A fundação de todo
do grupo social com relação ao problema em questão. Nos o processo são as oficinas, chamadas semio-participativas
níveis mais externos (informais) significados e intenções em referência às suas bases, que articulam conhecimento
são estabelecidos, crenças são formadas e compromissos do mundo (social) em direção ao sistema (técnico) e vice-
são estabelecidos e alterados. Nos níveis formais, formas e versa. Iniciam pela utilização de três artefatos principais:
regras substituem significados e intenções dos níveis mais Diagrama de Partes Interessadas, Quadro de Avaliação e
externos da cebola. Finalmente, no nível técnico (núcleo da Escada Semiótica, que descrevemos brevemente a seguir.
cebola) soluções técnicas são geradas como consequência
dos significados dos níveis anteriores. O desenho de uma Partes Interessadas: Análise do Impacto e Alcance
solução para o problema envolve pensar articuladamente da Solução
as três camadas de significados relativos ao problema. A
Figura 1 ilustra a estrutura das camadas de significados Parte-se do pressuposto de que as partes interessadas
informal, formal e técnica, no modelo conceitual que no problema são governadas por forças de campos de
utilizamos para a visão sócio-situada do problema. informação e conhecimento e comportam-se de acordo
com elas. Essas forças são relacionadas a funções, tarefas,
valores pessoais, objetivos, metas sociais, etc.

Os objetivos da oficina sobre Partes Interessadas


são clarificar o problema e compartilhar conhecimento no
grupo determinando, de forma mais abrangente possível,
o escopo de partes direta ou indiretamente interessadas
no problema e no impacto de suas soluções. A análise
dos resultados da oficina informa e delimita o alcance de
soluções ao problema, tanto do ponto de vista técnico
quanto de inclusão social/digital.

A análise de Partes Interessadas ajuda o grupo de


participantes a entender a situação real do problema e os
requisitos de soluções pretendidas, por meio da discussão
Figura 1. O Modelo Conceitual da Cebola Semiótica instanciado no
e levantamento das partes, que direta ou indiretamente
Projeto XO
influenciam ou sofrem a influência do problema e/ou

32 33
sua solução. A Figura 2a ilustra o Diagrama de Partes Quadro de Avaliação: Levantando Questões e Ideias
Interessadas, antes de seu preenchimento pelo grupo. de Soluções
O artefato distribui as Partes Interessadas em diferentes
categorias que representam diferentes “forças de O Quadro de Avaliação é um artefato que possibilita
informação” em relação ao problema em análise. Utilizamos a articulação do problema em estágios iniciais de busca por
as seguintes categorias: soluções, apoiando o compartilhamento de significados
entre os participantes e informando sobre questões
• Atores e Responsáveis – aqueles que contribuem específicas das Partes Interessadas no problema e ideias
diretamente ao problema ou sua solução e/ou são ou soluções vislumbradas, que terão potencial impacto no
afetados diretamente por ele; desenho da solução para o problema. A Figura 2b ilustra
• Clientes e Fornecedores – aqueles que fornecem um Quadro de Avaliação antes de seu uso pelo grupo.
dados e/ou são fonte de informações ao problema
ou sua solução, ou fazem uso deles; O Quadro de Avaliação permite ao grupo identificar,
• Parceiros e Concorrentes – elementos de mercado para cada categoria de Partes Interessadas, seus interesses
relacionados ao problema; e principais questões para discutir ideias possíveis que
• Espectador e Legislador – representantes da impactarão em requisitos para soluções ao problema.
comunidade que influenciam e são influenciados
pelo problema no contexto social.
A Escada Semiótica: Definindo Requisitos

Da perspectiva semiótica, várias camadas de


significado devem ser consideradas no tratamento sistêmico
de solução a um problema. O Framework Semiótico de
Stamper – ou Escada Semiótica (ES)- é composto de seis
camadas (ou degraus) de significados que devem ser
considerados na elucidação de requisitos para solução
de um problema. Os três degraus superiores da ES são
relacionados às funções do sistema de informação humano,
no uso de signos, como eles funcionam na comunicação
de significados e intenções, e quais são as consequências
sociais de seu uso. Os três degraus inferiores respondem
questões relacionadas à plataforma tecnológica do sistema
de informação, como signos são estruturados, organizados
Figura 2a. Artefatos do Método de Articulação de Problemas (a)
Diagrama de Partes Interessadas, (b) Quadro de Avaliação.
e veiculados, que propriedades físicas possuem, etc.

34 35
No contexto de nosso modelo, a ES é um artefato que Quando feitas presencialmente, os artefatos das
foi adaptado para organizar ações e responsabilidades nas oficinas são produzidos na forma de pôsteres que são
seis camadas de requisitos de informação, considerando pendurados na parede, ao acesso das mãos. Neles são
aspectos desde sua infraestrutura tecnológica (mundo físico, colados os post its onde os participantes registram
empírico, camada sintática), até o sistema de informação as contribuições durante as oficinas. Dependendo da
humano (camada semântica, pragmática e mundo social). audiência, esses materiais são adaptados de formas variadas
A Figura 3 ilustra o uso da Escada Semiótica adaptada para acesso de todos; por exemplo com alto-relevo para
para análise de ações e responsabilidades no contexto do informação tátil. A Figura 4 a seguir ilustra os artefatos de
Projeto XO. Partes Interessadas e o Quadro de Avaliação após terem
sido preenchidos em oficinas participativas presenciais,
para o problema que envolvia o projeto em questão.

Figura 3. Ações e Responsabilidades na Escada Semiótica


Figura 4. Diagrama de Partes Interessadas e Quadro de Avaliação
preenchidos em Oficinas Participativas
Dinâmica das Oficinas:

A dinâmica das oficinas participativas envolve uma As oficinas participativas, na sua forma presencial,
breve apresentação pessoal dos participantes, seguida são realizadas por grupos de até 35 pessoas idealmente.
da apresentação do conceito e objetivos da oficina. Em A sala ou espaço físico deve acomodar os artefatos
seguida, com a coordenação de um facilitador, o grupo utilizados afixados em uma das paredes laterais e as
passa ao uso de cada artefato que media e também serve cadeiras podem ser dispostas em arcos ao longo da
de registro aos resultados. sala, de forma que todos tenham boa visão e acesso ao
conteúdo produzido via artefatos. Alternativamente,
grupos menores podem ocupar cantos da sala
separadamente, cada um com um conjunto dos artefatos.

36 37
Vale lembrar que os artefatos propostos e utilizados para Um termo de consentimento deve ser entregue aos
as oficinas devem ser adaptados no caso de algum dos participantes solicitando sua autorização para eventual uso
participantes assim o necessitar; por exemplo os pôsteres da imagem e fala registradas. Ainda, enquanto projeto de
podem ser adaptados com alto-relevo, para uso do tato se pesquisa, este deve ter a aprovação de um Comitê de Ética
necessário. em Pesquisa.

Os artefatos utilizados em cada oficina são propostos Considerações Finais


de acordo com os objetivos da oficina e a dinâmica
participativa; por exemplo a própria concepção e composição O que nos move neste projeto de inclusão de
deste livro contou com duas oficinas participativas que tecnologia digital na escola é o direito de todos a uma
utilizaram artefatos próprios criados para o fim específico, educação sem exclusões no acesso ao conhecimento. A
conforme ilustrado na apresentação do livro. A Figura 5 consideração de sistemas computacionais como mediadores
ilustra ambientes de oficinas participativas e seus artefatos. desse acesso tem sido um desafio que temos de enfrentar
neste momento de grandes transformações em todas as
Café, biscoitos e água podem ficar à disposição dos atividades humanas, o que inclui as atividades de ensinar e
participantes ao longo da oficina ou podem fazer parte da aprender.
agenda e cronograma de atividades.
Um projeto de inclusão de tecnologia na escola,
na nossa visão, deve ser construído com as partes que
envolvem a escola enquanto organização, em seus aspectos
formais, informais e técnicos. Essas ações incidem sobre o
comportamento dos principais envolvidos, que introduzem
novos conhecimentos, mobilizam o contexto em que
são desenvolvidas e exigem trabalhos colaborativos, que
expandam as novidades criadas, para que todos possam
usufruir de uma vida de melhor qualidade e ter participação
autônoma na sociedade.
Figura 5. Ambientes de Oficinas
A abordagem sócio-situada proposta compreende
Entende-se que o registro da oficina é parte da a tecnologia como uma invenção social e, no Projeto XO
documentação do trabalho. Recomenda-se registrar as assume a responsabilidade na sua reconceitualização, dando
atividades também com filmadoras e câmeras fotográficas, voz às Partes Interessadas no design e desenvolvimento
para análise posterior e classificações das Partes Interessadas do Projeto e seus mecanismos de interação. As situações
no problema em questão, análise do impacto e do alcance promovidas nas oficinas semio-participativas abrem
da solução e para dar prosseguimento às ações do projeto. espaço a essa manifestação expressiva das Partes e seu
entendimento exige imersão do facilitador em cenários
para os quais os métodos tradicionais não se adéquam.

38 39
Os capítulos a seguir instanciam a abordagem e os
instrumentos aqui apresentados, bem como explicam como
o papel de determinadas Partes Interessadas, levantadas
I
Freire, P. Pedagogia do Oprimido, Editora Paz e Terra S/A 45ª. Edição,
já nas primeiras oficinas, impactam na solução ou na falta 2007

dela aos problemas que são próprios da natureza do


Papert, S. Mindstorms: Children, Computers and Powerful Ideas. New
II
Projeto; por exemplo, ações necessárias da secretaria da
York: Basic Books, 1980
educação tanto podem promover quanto bloquear o curso
Papert, S. A máquina das Crianças, PAPERT, Seymour M. A Máquina
de atividades dos participantes.
das Crianças: Repensando a escola na era da informática (edição
revisada). Nova tradução, Porto Alegre, RS: Editora Artmed, 2007 (1a
Por fim, pensamos que a educação, em todos os edição brasileira 1994; edição original EUA 1993).
seus aspectos, é um dever nosso de cidadãos, professores,
pesquisadores e dos alunos e funcionários que compõem Biblioteca Digital Paulo Freire http://www.paulofreire.ce.ufpb.br/
III

as escolas brasileiras. Torná-las espaços de todos e para paulofreire/


todos é uma conquista diária e um sonho para sonharmos transcrição disponível em http://ticparaensinodeciencias.webnode.
juntos. com.br/news/paulo-freire-seymour-papert/ (acesso em 14/10/2012)

(...) A educação autêntica, repitamos, não se faz de A IV


Para um estudo mais aprofundado e atual sobre tecnologia
para B ou de A sobre B, mas de A com B, mediatizados educacional ver Oliver, M. Learning technology: Theorising the tools we
pelo mundo. Mundo que impressiona e desafia a uns e study, British Journal of Educational Technology (2012) doi:10.1111/
j.1467-8535.2011.01283.x
a outros, originando visões ou pontos de vista sobre ele.
Visões impregnadas de anseios, temas significativos, à V
Liu, Kecheng. 2000. Semiotics in Information Systems Engineering.
base dos quais se constituirá o conteúdo programático da
UK: Cambridge University Press.
educação. (Paulo Freire p. 97 em A Pedagogia do Oprimido)
VI
Kensing, F and Blomberg, J. Participatory Design: Issues and
Concerns. Computer Supported Cooperative Work 7: 167–185, 1998
Kluwer Academic Publishers. Printed in the Netherlands

Ver também Baranauskas, M. C. C. O Modelo Semio-participativo


VII

de Design em Codesign de Redes Sociais Inclusivas, Ed. Grupo a, Porto


Alegre

Stamper, R. K., Althaus, K., and Backhouse, J. 1988. “MEASUR:


VIII

Method for Eliciting, Analyzing and Specifying User Requirements.” In


Computerized Assistance during the Information Systems Life Cycle,
eds. by T. W. Olle, A. A. Verrijn-Stuart and L. Bhabuts, 67-116. The
Foto de atividade do XO com professores na oficina. Netherlands: Elsevier Science.

40 41
XO na Escola em sua Linha do Tempo
Para ilustrar algumas ações já realizadas, a Figura 1
a seguir destaca os grandes marcos e percurso do Projeto.
Maria Cecília Calani Baranauskas e Maria Cecília Martins Estes marcos possibilitam colocar em evidência períodos,
ações, ênfases na linha do tempo do Projeto.
Iniciamos esta narrativa apresentando a linha do
tempo do projeto de pesquisa "XO NA ESCOLA E FORA
DELA: UMA PROPOSTA SEMIO-PARTICIPATIVA PARA
TECNOLOGIA, EDUCAÇÃO E SOCIEDADE" 1 . Este projeto,
nomeado internamente pela equipe de pesquisa como
“XO-UNICAMP”2, é sediado no Núcleo de Informática
Aplicada a Educação (NIED) da UNICAMP e tem atividades
desenvolvidas na Escola Municipal de Ensino Fundamental
Padre Emílio Miotti3 , do município de Campinas, São Paulo.
Nesta escola foram alocados para o desenvolvimento do
Projeto 500 laptops educacionais XO, doados pela One
Laptop per Child Foundation – OLPC4 .

O referido projeto tem como objetivo constituir uma


proposta de implantação de laptops na escola pública Figura 1. Linha do Tempo do Projeto
como alternativa ao realizado pelo PROUCA 5 , uma vez que
está sendo desenvolvido a partir da análise de contexto O projeto XO-UNICAMP é centrado em oficinas de
e prospecção de soluções construídas com as partes trabalho que tem a participação de todos representantes
interessadas – pesquisadores, alunos, profissionais da que integram o contexto escolar. Paralelamente às oficinas,
educação e comunidade. outras ações foram sendo encaminhadas ao longo do
projeto, tais como: reuniões de planejamento, análise
de resultados, prospecção de novas ações a partir de
1
Projeto financiado pelo CNPq (475105/2010-9), coordenado pela professora
demandas evidenciadas em determinados períodos, suporte
doutora Maria Cecília Calani Baranauskas, docente do Instituto de Computação
e coordenadora do Núcleo de Informática Aplicada a Educação-NIED, da operacional aos recursos tecnológicos envolvidos no uso
UNICAMP. do laptop, ações de formação de professores, funcionários,
2
http://www.nied.unicamp.br/xounicamp alunos-monitores, entre outras.
3
http://miotticps.blogspot.com.br/
4
http://one.laptop.org/ Histórico
5
Programa Um computador por Aluno do Ministério da Educação que prevê
a implantação de laptops educacionais em escolas públicas. Informações
adicionais deste programa podem ser obtidas em www.uca.gov.br e também em
A linha do tempo ilustrada evidencia o marco de início
www.nied.unicamp.br/ucaunicamp. do projeto em agosto de 2009, quando houve a doação de

42 43
500 laptops educacionais XO pela OLPC (One Laptop per Este levantamento inicial do contexto da escola demarcou
Child) para o Núcleo de Informática Aplicada a Educação as primeiras ações em parceria com a Secretaria de
NIED UNICAMP. Após recebimento dos equipamentos e Educação do município e a Escola. Assim, a escola
processo de patrimoniamento, em novembro do mesmo formalizou encaminhamento de solicitação à prefeitura
ano, é elaborado um termo, junto a Secretaria de Educação especificando pontos relevantes para implantação de rede
do Município de Campinas, para doação dos equipamentos Wireless – banda larga (Internet sem fio) - na escola com a
para a EMEF Padre Emílio Miotti, que, após consulta, adere ao maior capacidade possível, inclusão de pontos de acesso
desenvolvimento do Projeto de Pesquisa nesta unidade de à rede sem fio (access points), aproveitando a ocasião da
ensino. A equipe inicial de pesquisa estabeleceu os contatos reforma do prédio projetada para ser realizada naquele ano,
junto a Secretaria de Educação do Município de Campinas aquisição de armários para armazenamento e carregamento
para definição da escola que iria receber os equipamentos dos 500 laptops XO, entre outros.
e assim ser integrada à pesquisa. Em dezembro de 2009,
paralelamente ao andamento do processo de importação Em 2010, a partir de junho, foram realizadas na
dos equipamentos, ocorreram os primeiros passos para escola (que nesse momento ocupava outro prédio, em
formalização do Projeto junto a EMEF Padre Emílio Miotti, função da reforma no seu próprio), as primeiras Oficinas
bem como com a Secretaria de Municipal de Educação de Semio-participativas 6 com participação de pesquisadores,
Campinas, SP. A primeira reunião com os três parceiros: professores, gestores, funcionários e representantes de
Universidade, Prefeitura e Escola, via representantes pais e alunos que integram o Conselho Escolar. A Figura
da Secretaria de Educação, equipe de pesquisadores da 2 ilustra alguns componentes dessas oficinas: pessoas,
Unicamp e gestores da escola, ocorre em dezembro de métodos e instrumentos.
2009.

Já em abril de 2010, os parceiros se encontram na


escola para apresentação do Projeto, conversa sobre
responsabilidades e parcerias, bem como o estabelecimento
de agenda inicial de atividades.

Nestes contatos iniciais, por meio de visitas à escola


e conversas com os gestores daquela unidade de ensino,
pode-se ter uma referência da infraestrutura tecnológica
Figura 2. Ilustração de Oficinas Semio-participativas realizadas na
disponível e necessária para o desenvolvimento do Projeto
escola.
na escola, tais como configuração de infraestrutura
Wireless da escola e com servidor gerenciando a rede, 6
As oficinas são formas de encaminhar atividades de pesquisa
número de pontos de acesso a Internet, capacidade de fundamentadas no referencial metodológico da Semiótica
acesso, largura de banda, previsão de número de conexões Organizacional (ver Capítulo anterior), que por definição envolvem
vários personagens relacionados ao contexto em estudo. Esta forma de
simultâneas que a configuração de rede suportaria, etc..
realizar ações de pesquisa será detalhada ao longo do texto.

44 45
Outro marco do Projeto ocorreu no final de 2010, com a reinauguração da escola, a apresentação do projeto XO
a chegada dos equipamentos na escola, viabilizando assim para a comunidade e a ampliação da biblioteca da escola.
as primeiras utilizações dos laptops com alunos a partir A Semana Literária contou com palestras com escritores,
da implantação de cenários projetados pelos professores contadores de histórias, teatro, oficinas literárias, ilustração
e demais participantes da terceira e quarta oficinas de e histórias em quadrinhos. Nesta ocasião os professores
trabalho. realizaram atividade com seus alunos utilizando o XO e
foi montado um “Telecentrinho” (Figura 4) para acesso da
Em novembro de 2010, como ainda funcionava em comunidade visitante.
prédio temporário, a escola escolheu receber parte dos
equipamentos (150), deixando os demais para recebimento
quando retornasse às suas instalações próprias. A Figura
3 ilustra momentos da chegada e da preparação inicial
dos XO na escola, bem como primeiras utilizações dos
equipamentos por alunos e professores.

Figura 4. (a) Momento no Telecentrinho e (b) atividade de


Geoprocessamento.

No início de 2011, com a continuidade das Oficinas


Figura 3. A chegada dos primeiros XO na Escola
Semio-participativas, também houve a intensificação da
A chegada dos XO na escola possibilitou que nos dois utilização dos laptops em atividades da escola. Ao longo
últimos meses de 2010 ocorressem as primeiras vivências de 2011 outras ações foram realizadas além das oficinas de
com o laptop educacional, com o desenvolvimento de trabalho, tais como: reuniões na Secretaria de Educação para
cenários de uso dos equipamentos com os alunos 7. Na quinta discussão de encaminhamentos relacionados ao Projeto,
oficina, realizada em dezembro 2010, professores e gestores visitas e desenvolvimento de atividades de pesquisadores,
apresentaram os primeiros resultados da implantação incluindo a participação de pesquisadores estrangeiros
dos cenários de uso dos laptops com os alunos na escola. na escola9 (Figura 4b). Esta última está documentada no
Capítulo 7 da Parte 2 deste livro (dos pesquisadores Thomas
Em março de 2011, mais 350 equipamentos Bartoschek, Henning Bredel, e Philippe Rieffel).
chegaram à sede escolar reformada. Na primeira quinzena
desse mês ocorreu a I Semana Literária 8 marcando
9
Atividade piloto “Geographic Information” realizada em 05/05/2011 com o
7
Cenários de uso do XO com os alunos foram idealizados na Oficina 2 uso de GPS, XO e aplicativo desenvolvido pelos pesquisadores estrangeiros
(Julho 2010), articulados na Oficina 3 (Setembro 2010) e os resultados do visitantes: Thomas Bartoschek, Henning Bredel, Philippe Rieffel do Centro
desenvolvimento dos cenários foram relatados pelos professores na Oficina 5 de Geoinformática da Universidade de Muenster, na Alemanha. Participação
(Dezembro 2010). nesta atividade de professores e alunos: Profa Lúbia C. Mesquita Bertaci (alunos
8
Informações sobre a I Semana Literária, acesso no blog oficial da Biblioteca da 4º ano) e Profa Edna M. Toledo Musolino (alunos 6º ano) e pesquisadores da
EMEF Padre Emilio Miotti: http://livrossaosementes.blogspot.com/ Unicamp: Heiko Hornung, Maria Cecília Martins.

46 47
Outro marco do Projeto foi realização de atividades dedicado a atividades de concepção, registro e análise de
“mão na massa”, desencadeadas em alguns momentos e resultados para escritura deste livro, incluindo as oficinas
contextos: no início do Projeto, com os equipamentos na do 1º semestre.
unidade escolar, as atividades práticas de uso do laptop
tiveram como ênfase apoiar os primeiros passos dos No final desta sessão serão listadas as 11 oficinas
professores e alunos com os computadores. Houve também realizadas no Projeto, para evidenciar alguns pontos que
períodos de formação continuada encaminhada ao longo permeiam o fluxo de construção do processo de uso do
do segundo semestre de 2011: 12 encontros realizados laptop educacional na escola.
com professores (6 com os ciclos I e II e 6 com os ciclos III
Caminhos trilhados no Projeto – em destaque as Oficinas
e IV). Nestes encontros, pôde-se articular teoria, prática e
Semio-participativas
técnica a partir de atividades que possibilitavam explorar
algumas aplicações existentes no laptop, acompanhar e Conforme apresentado no Capítulo anterior, este
discutir a prática pedagógica em desenvolvimento no projeto instancia uma abordagem sócio-situada para
período e estudar referenciais conceituais para educação e tecnologia e educação. Isso significa que as ações do
tecnologia. Atividades de formação específicas para apoiar Projeto, não são centradas na tecnologia (o laptop) mas,
alunos-monitores ocorreram em 2011 e 2012 possibilitando sim, nas partes interessadas/envolvidas, aquelas afetadas
assim que incrementassem seu conhecimento em relação pela tecnologia (comunidade escolar). O motor dessa
ao uso do dispositivo e aplicativos XO. abordagem são as Oficinas Semio-participativas, assim
chamadas em referência à construção compartilhada de
Ainda no 2º. semestre de 2011, surgem ideias iniciais
significados e participação no processo de clarificar o
para avaliação de resultados do Projeto e discute-se em
problema (inclusão do XO no cotidiano da escola), entender
oficinas indicadores/dimensões e instrumentos propostos
o alcance das soluções e a influência das demais partes
pela escola para avaliação do Projeto. Embora esse processo
interessadas (por ex. secretaria de educação, pais dos
tivesse apenas iniciado, alguns professores já haviam
alunos), antecipar problemas e propor/buscar soluções.
desenvolvido ações de avaliação como a documentada no
primeiro capítulo da Parte 3 deste livro (de Professora Kátia Sendo a abordagem centrada nas pessoas e não na
Cristina Martins). tecnologia per se, as oficinas são propostas de maneira a
O Ano de 2012 tem sido marcado pelo envolvimento envolver a todos (professores, gestores, representantes
articulado de pesquisa e prática no cotidiano da escola, de alunos, funcionários, representantes do conselho da
incluindo atividades específicas realizadas pela ação escola, pesquisadores e convidados); nelas a formação
coordenada de pesquisadores com professores em sala dos envolvidos privilegia a visão sistêmica do Projeto, sem
de aula, além da formação e acompanhamento técnicos, se ater a ações específicas de treinamento nos recursos
localizados e sob demanda, e ações relacionadas a outras da máquina, ações estas que são realizados em outros
atividades da escola, por exemplo, a Olimpíada das Cores. momentos, de forma situada e em geral sob demanda;
Os Capítulos da Parte II deste livro ilustram resultados por exemplo, alguns professores chegam com intenções e
destas ações. Além disso, um esforço especial foi objetivos específicos de uso do XO em sua prática escolar,

48 49
que demandam mais conhecimento, no nível técnico, sobre Articulação com pesquisa acadêmica e novos
recursos da máquina. Ações específicas de formação são temas também são trabalhados em parcerias professor-
realizadas, então, com a facilitação e o envolvimento de pesquisador, a partir de práticas iniciadas em oficinas
pesquisadores. A ideia geral do Projeto é possibilitar que (Oficinas 6, 7, 10); como pesquisador, a partir de práticas
os professores ganhem autonomia na exploração dos iniciadas em oficinas (Oficinas 6, 7, 10), como é o caso de
recursos da máquina, a partir de suas iniciativas, em vez investigação sobre aspectos afetivo-emocionais, design de
de “impor” um processo de treinamento técnico isolado de ambiente para prática de Role Playing Games, extensão do
suas práticas. uso do XO como ferramenta de comunicação com os pais,
entre outros.
Dessa forma, as oficinas são orientadas com
dinâmicas de trabalho de formação e construção conjuntas; A Tabela 1 sintetiza os focos principais das 11 Oficinas
por exemplo como ocorreu na construção de cenários realizadas até o momento de escrita deste livro.
envolvendo temas que foram trabalhados conjuntamente Tabela 1: Histórico das Oficinas
por várias disciplinas (Oficinas 2 e 4). Todas têm foco na
reflexão dos gestores e professores sobre o que realizam Oficina 1 Definição das partes interessadas e a clarificação de
Junho 2010 problemas e soluções relacionadas ao projeto.
com os alunos na escola em relação ao uso dos laptops Oficina 2 Construção preliminar de cenários de uso educacional do XO na
educacionais (Oficinas 5, 6, 9), incluindo planos da escola Julho 2010 escola e fora dela.
para realização de atividades específicas, como de avaliação Oficina 3 Discussão das propostas de distribuição dos laptops e de

(Oficinas 7 e 8), e planejamento do ano seguinte (Oficinas 5 e Setembro logotipo do projeto apresentados pela escola e definição dos
2010 próximos passos do projeto.
9). Vale lembrar que o processo inicia com a clarificação do Oficina 4 Formação dos professores da escola para trabalhar com os
“problema”, suas partes interessadas (Oficina 1) e decisões Novembro laptops contextualizados em cenários.
são tomadas e discutidas pelas partes envolvidas, a exemplo 2010
Oficina 5 Apresentação da escola e discussão sobre o uso inicial do XO
da própria proposta de distribuição das máquinas (Oficina
Dezembro nos cenários definidos. Definição dos próximos passos.
3), e continuam ao longo do processo. 2010
Oficina 6 Síntese dos trabalhos da escola de dezembro 2010 a março
Merece destaque a maneira como foi discutida e Abril 2011 2011. Apresentação de sub-projetos de pesquisa.
decidida a distribuição do XO uma vez que o número de Oficina 7 Ideias iniciais para avaliação do Projeto, Práticas com

pessoas da escola era maior que o número de equipamentos Junho 2011 subprojetos (SAM na Oficina, Geo-atividade, RPG no XO e
Caderno de Recados do XO)
disponibilizados no Projeto (Oficina 3). A forma como Oficina 8 Discussão e práticas sobre Métricas e Procedimentos para
a escola encaminhou esta ação foi bem significativa, Setembro avaliação do projeto XO : indicadores/dimensões e instrumentos.
pois envolveu assembleias dos alunos e os pais também 2011

opinaram trazendo ideias de como resolver o problema. Oficina 9 Apresentação e discussão sobre os usos do XO na Escola
Dezembro Planos da Escola e do Projeto para 2012
Surgiram ideias diferentes do que a lógica poderia sugerir: 2011
por exemplo, os alunos dos ciclos iniciais revelaram que Oficina 10 Articulações entre conteúdos educacionais, mídia e tecnologias
não queriam compartilhar o XO com irmãos (sobre isto ver Abril 2012 na construção de representações e narrativas
Oficina 11 Composição do livro relacionado às atividades do projeto X0-
também Capítulo 3).
Junho 2012 UNICAMP na EMEF Pe. Emílio Miotti.

50 51
Quem participa das Oficinas Construção compartilhada e Formação

Em geral há uma participação constante das diferentes A partir de dinâmicas em grupo ocorridas na Segunda
partes envolvidas, em torno de 60 pessoas. O gráfico da Oficina, foram propostos cenários que potencialmente
Figura 5 ilustra a participação nas 11 Oficinas desenvolvidas poderiam acontecer em relação ao uso do laptop na escola.
desde o início do Projeto. Pode-se observar que a A partir do delineamento dos cenários, a Quarta Oficina
participação de representantes da comunidade escolar tem foi centrada na formação para o uso do XO, puxada pelos
sido contínua ao longo do Projeto. Esta interação possibilita cenários construídos em conjunto. Desta forma, não era
o trabalho conjunto de alunos, professores, pesquisadores uma formação descontextualizada, não era apenas aprender
e representantes da comunidade no compartilhamento a usar o XO e seus aplicativos. Era aprender a usar o que
de ações, problemas e na tomada de decisão sobre o seria necessário para poder colocar em prática os cenários
computador na escola. idealizados anteriormente com os alunos, utilizando os
laptops educacionais.
A partir deste gráfico, pode-se observar que
professores mantêm um número estável ao longo de todas
Além das Oficinas Semio-participativas, no segundo
as oficinas. Houve uma maior participação de funcionários
semestre de 2011 foram realizados 12 encontros de formação
no início do Projeto e nas últimas oficinas. Representantes
com professores e gestores - conforme ilustrado na Figura
de alunos frequentam as oficinas desde o seu início, tendo
6 -, para exploração de aplicativos, troca de idéias, leitura
um aumento de frequência a partir da 8ª Oficina com a
e discussão de textos sobre a utilização de tecnologia na
participação de alunos-monitores XO, que teve equipe
educação. Os encontros eram quinzenais e envolviam: (1)
instituída na escola a partir da realização do Projeto.
Tutoriais de atividade no XO seguidos de discussão sobre
Representantes das famílias dos alunos também integram
leituras sugeridas; e (2) Relato dos professores sobre as
as oficinas com a participação de mães e pais pertencentes
experiências com as atividades na sala de aula e discussão.
ao conselho escolar. Além destes participantes, as oficinas
O Anexo 1 a este texto, resume o cronograma de atividades
contaram com outros atores envolvidos no desenvolvimento
e objetos de estudo desses encontros.
do Projeto na escola, tais como parceiros da Secretaria
Municipal de Educação, pesquisadores e convidados.

Figura 6 Ilustração de encontros de formação realizados na escola


Figura 5. Participantes das Oficinas por categorias

52 53
Para realização destes encontros de formação, houve desenvolvidos nas ações de formação encaminhadas nesta
necessidade de desenvolver materiais de apoio sobre pesquisa, possibilitou contatos com outras equipes, seja
aplicativos disponíveis no laptop educacional e adequá-los por interesse com aplicativos computacionais ou pelo
à prática dos professores. compartilhamento de idéias de utilização dos laptops
educacionais. Isso favoreceu contato com projetos de
Enquanto projeto de pesquisa, este Projeto envolveu países tais como Portugal – EduScratch12 - e EUA - Scratch 13 .
também formação de pesquisadores ligados a programas
de iniciação científica, mestrado e doutorado. Alguns Formação e acompanhamento de Aluno-Monitor
resultados foram obtidos em 2011 e 2012 da parceria de
pesquisadores em ações junto com professores na escola. A ação de formação desenvolvida na escola aqui
Os capítulos da Parte 2 deste livro ilustram resultados relatada refere-se à implantação, organização e orientação
dessas ações. Ainda, a disseminação dos trabalhos de ao trabalho de alunos-monitores - implantada na escola
pesquisa realizados no Projeto tem sido realizada na forma em 2011 - para apoio aos professores em atividades de
de publicações de artigos acadêmicos em congressos sala de aula utilizando o laptop educacional. A Figura 7 a
nacionais e internacionais, e em revistas científicas. Para seguir, mostra as equipes e algumas ações realizadas pelos
favorecer a brevidade deste texto, os exemplos desses alunos–monitores.
resultados de pesquisa podem ser encontrados no portal
do Projeto10 .

Material de Apoio

Nas atividades de formação específicas para o uso


do laptop educacional, encaminhadas no Projeto, foram
elaborados materiais que possibilitassem o entendimento
do funcionamento do equipamento, as possibilidades Figura 7. Equipe 2011 e alunos–monitores em atividades da escola
de armazenamento e acesso de arquivos com diferentes
extensões, instalação de aplicativos, formatação de sistema O desenvolvimento destas ações de formação foi
operacional entre outros. Ainda, tutoriais completos sobre encaminhado na escola por dois professores que ficaram
cada aplicativo utilizados nos encontros de formação foram responsáveis pela orientação e coordenação das atividades
desenvolvidos e disponibilizados a todos, com cópias de apoio destes alunos aos demais professores na utilização
inclusive na biblioteca da escola. dos laptops em atividades realizadas na escola. Em
2011, estes professores da escola estiveram diretamente
A disposição, no portal do Projeto11 , dos materiais envolvidos com as atuações de aproximadamente 16 alunos-
monitores em atividades de uso do laptop educacional.
10
http://www.nied.unicamp.br/xounicamp/producao
O material disponibilizado na formação de professores está disponível
11 12
http://eduscratch.dgidc.min-edu.pt/index.php
publicamente no portal do projeto, http://www.nied.unicamp.br/xounicamp/, 13
http://scratch.mit.edu/

54 55
As atividades realizadas em 2011, por esta equipe 1-APRENDIZAGEM DOS CONTEÚDOS: perceber
escolar, envolveram a orientação e acompanhamento do como e quanto a utilização do laptop, em projetos de
trabalho dos monitores, sistematização das ações de apoio trabalho escolar, interfere na aprendizagem dos alunos em
do aluno–monitor na escola, a interação com a família relação aos conteúdos de cada componente curricular: à
destes, a organização do armazenamento dos carregadores alfabetização, ao acesso a informações e conhecimentos
e dos XO de cada turma, verificação das dificuldades acumulados social e culturalmente. Capacidade de
encontradas e busca de possíveis encaminhamentos para organização. Instrumento: Estudo de Caso.
tais dificuldades.
2-APRENDIZAGEM COLABORATIVA: perceber
Nas Oficinas Semio-participativas realizadas no a interferência do uso do laptop na construção de
segundo semestre de 2011 foram relatados os resultados conhecimentos de forma colaborativa. O quanto as
desencadeados na escola a partir da ação dos alunos– possibilidades de ajuda mútua são ampliadas. Perceber
monitores na escola. Na nona Oficina do Projeto, por também a intensidade da troca de conhecimentos entre
exemplo, foram apresentados resultados obtidos com alunos e professores. Instrumento: Observação.
o projeto monitoria durante o período de setembro a
dezembro de 2011. Nesta ocasião, também houve a 3-TRABALHO INTERDISCIPLINAR: analisar as
entrega de certificados aos alunos–monitores, bem como possibilidades de estabelecimento de relações entre
foi apresentada a proposta da escola de continuidade do diferentes assuntos estudados, entre conteúdos que
projeto monitoria em 2012. A partir de uma pesquisa de envolvam mais de uma área de conhecimento e entre o que
opinião junto aos professores da escola, os professores se estuda na escola e o conhecimento real. Instrumento:
coordenadores apresentaram os resultados obtidos com Questionário.
a atuação dos alunos–monitores na escola, conforme
detalhado no Capítulo 12 da Parte 3 deste livro. 4-MOTIVAÇÃO: avaliar o quanto e como o uso do
laptop interfere na motivação para a aprendizagem e para
Avaliação as atividades escolares. Perceber a relação afetiva que se
desenvolve a partir do uso do computador. Instrumento:
Merece destaque também a Proposição de Autoavaliação.
Indicadores e Instrumentos feita pela escola e que deveriam
ser considerados no processo de Avaliação do Projeto Embora se reconheça a complexidade de um processo
(Oficinas 7 e 8). Foram especificados 4 indicadores e os de avaliação do gênero proposto e o tempo que demanda,
grupos de trabalho definiram que tipos de instrumentos alguns sinais desse processo de avaliação já começam a
deveriam utilizar para avaliar uma determinada referência aparecer; como exemplo ver Capítulo 1 da Parte 3 e demais
especificada pelo indicador (Oficina 9). A seguir a lista de estudos de caso relatados pelos professores; também
indicadores e os instrumentos escolhidos: Capítulo 4 da Parte 1.

56 57
Considerações Finais
Anexo 1 Agenda dos Encontros de Formação de 2011
Difícil sintetizar em algumas páginas tudo o que foi
construído por todas as partes interessadas ao longo de Quarta Quinta
quase três anos de Projeto. Este capítulo mostra como a Ciclos 1 e 2 Ciclos 3 e 4
abordagem apresentada no capítulo anterior foi sócio- 12:20 – 14:00 10:40 – 12:20

situada, isto é, como a escola pode ser entendida como 31 de agosto


 Funcionalidades
01 de setembro
 Funcionalidades
uma organização social que carrega os níveis “informal, Escrever
Ler
Calculate
Caderno Digital
formal e técnico” da informação e do conhecimento no Speak Bate papo
Traduzir Ler
desenvolvimento de seu sistema de ensino.
14 de setembro 15 de setembro
 Retorno  Retorno
Na proposta teórico-metodológica apresentada, a  Discussão da leitura:  Discussão da leitura:

entrada em cena de um artefato da tecnologia – o XO – - Aplicações Colaborativas na Internet e seu potencial educacional, Conteúdos elementares de Informática
I
torna-se o desencadeador de ações e de reflexões sobre a - Software Educacional, Conteúdos elementares de Informática II

prática e na prática educacional dos envolvidos: gestores, 28 de setembro 29 de setembro


 Mídias e criação  Mídias e criação
professores, pesquisadores, alunos, pais, funcionários Gravar Tam Tam Edit
Pintar Scratch
da escola. Tomar consciência desse processo sistêmico Tam Tam Mini Tam Tam Synthlab
Turtle Art
passa a ser facilitado quando a tecnologia deixa de ser o  Discussão da leitura:  Discussão da leitura:

ator principal na cena para ser o coadjuvante. Diferentes - Fluência Digital e Ambientes de Autoria Multimídia
- Repensando o aprendizado na era digital
momentos e situações desse processo são relatados nos 19 de outubro 20 de outubro
 Retorno  Retorno
demais capítulos deste livro, para os quais convidamos o  Discussão da leitura:  Discussão da leitura:

leitor. - Um Caderno Digital nos laptops educacionais: proposta conceitual e ferramenta


- Estendendo a Ideia do Projeto UCA ao Desenvolvimento Comunitário: Reflexão e Estratégias

09 de novembro 10 de novembro
”tudo foi sendo construído junto de verdade, não ficou só  Jogos
Maze
 Jogos
Sim City
no discurso” Cecília Xavier, Coordenadora Pedagógica, Memorize
Implode
(Oficina 9 ) SOO Brasileiro
 Discussão da leitura:  Discussão da leitura:

- SOO Brasileiro: Aprendizagem e Diversão no XO


- Modelando Ambientes de Aprendizagem Virtuais utilizando Role-Playing Games

23 de novembro 24 de novembro
 Retorno  Retorno
 Discussão da leitura:  Discussão da leitura:
- Relações entre os jogos digitais e aprendizagem: delineando percurso
- Um laptop para cada aluno: promessas e resultados educacionais efetivos

Referência completa das leituras em http://www.nied.unicamp.br/


xounicamp/material-interno/oficinas/encontros-de-formacao/

58 59
PROJETO XO: Descobertas, Desafios Em documento elaborado pelo NIED (Núcleo de
Informática Aplicada à Educação), pontos essenciais
e Aprendizagens do Percurso do Projeto de Pesquisa: “Interação Humano Artefato
Digital – Propostas Educacionais e Inclusão Digital” são
delineados com o objetivo de clarificar os propósitos e
Rosangela de Assis e Cecília A. Xavier fundamentos do mesmo, sob a coordenação da Profª Dra.
Maria Cecília Calani Baranauskas. O projeto aponta as
O início – Recuperando memórias grandes transformações na sociedade e a inclusão digital
como forma de ampliar as possibilidades da comunidade
Nossa unidade escolar, EMEF “Padre Emílio Miotti” escolar e locar o acesso à tecnologia e à informação.
situada no Jardim Santa Lúcia, bairro da região sudoeste
de Campinas, efetivou e viabilizou a utilização do LIED Ao contrário de muitos projetos, o design participativo
(Laboratório de Informática Aplicada à Educação) em que caracteriza este, garante um modelo construído junto
parceria com o Projeto Jovem.com 1 a partir de 2007. à comunidade escolar, levando em conta sua realidade,
limites e possibilidades.
Em 2009, já quase ao final do ano letivo, nós da
equipe gestora 2 da escola tomamos conhecimento, Construir uma articulação entre tecnologia, educação
através da professora do SME da Prefeitura Municipal de e sociedade: eis um grande desafio. Oportunizar o acesso
Campinas Rita M. Khater, do projeto, que a equipe do NIED dos alunos às tecnologias pode trazer às salas de aula um
da Unicamp estava para desenvolver em uma escola do ambiente motivador para a aprendizagem e garantir através da
Município de Campinas. O projeto consistia em que cada utilização e mediação adequada do professor mais qualidade
aluno tivesse um laptop para desenvolver suas atividades de ensino (Prado, M.E.B.B. 2008; Valente, J.A. e Almeida 2007).
na escola, chamado de PROJETO X.O. A escola já acumulava
experiências bem sucedidas com o Projeto Jovem.com. Hoje temos nas Escolas Municipais laboratórios de
informática, no entanto, segundo Almeida e Prado (2009),
Esse movimento do Projeto X.O foi fundado romper o isolamento dos laboratórios e viabilizar que
pelo norte-americano Nicholas Negroponte, que tinha isso possa ocorrer em diferentes espaços pode flexibilizar
como objetivo fazer com que crianças em idade escolar os tempos de aprender e qualificar o trabalho coletivo,
pudessem ter acesso a laptops com finalidades educativas. provocando mudanças reais quanto ao desempenho e
atitudes frente ao conhecimento.
1
Projeto da Secretaria de Promoção Social que viabiliza a formação de
Iniciamos em 2010 as primeiras reuniões entre equipe
adolescentes na área tecnológica para atuarem como monitores em diferentes
gestora da escola e equipe de pesquisadores do NIED. Como
setores, escolas, centros comunitários, etc.
2
A Equipe gestora é formada por profissionais que exercem os cargos de diretor, o grupo do NIED já realizava outro projeto próximo à escola,
vice-diretor e orientador pedagógico e tem a função de gerenciar a Unidade foi feito um acordo com a Secretaria Municipal de Educação
Escolar. que o projeto seria desenvolvido na EMEF Pe. Emílio Miotti.

60 61
Nossa escola reunia algumas condições favoráveis outros ficaram meio receosos, inseguros e preocupados;
ao desenvolvimento do projeto: o número de alunos muito outros ainda quiseram saber se teriam autonomia na
próximo do número de laptops disponíveis; a organização construção do trabalho ou se a escola seria apenas o “lugar
dos tempos de aula sempre com duas horas/aula; tempos de teste” de mais uma pesquisa acadêmica. A reunião foi
definidos para reuniões de planejamento e discussões marcada por muito diálogo e, como também para nós da
para o desenvolvimento do trabalho pedagógico; horários equipe gestora, o grande diferencial era justamente a ideia
específicos já organizados para discussões coletivas dos de ser agente no desenvolvimento do trabalho, ficou fácil
alunos, pais/mães, funcionários e professores; prática motivar o grupo a aceitar o desafio. Ao final da reunião,
de participação coletiva na forma de assembleias 3 . ficou combinado um encontro entre os profissionais da
escola e os pesquisadores.
A ideia era que o desenvolvimento do trabalho com
os laptops tivesse de fato a participação de todos. Não A postura da coordenadora do Projeto – profª
havia um projeto construído pelos pesquisadores que se- Drª Cecília Baranauskas e dos pesquisadores - Profª Drª
ria experimentado na escola, mas uma proposta de que a Cecília Martins e prof. Dr. José Armando Valente – foi
escola pudesse construir formas de utilização dessa tec- determinante para o envolvimento do pessoal da escola.
nologia para qualificar o processo de aprendizagem dos Ficou claro de imediato que o trabalho seria desenvolvido
alunos e viabilizar o acesso à internet não só a eles, mas em parceria e que o compromisso e a participação de
também a outras pessoas de suas famílias em parceria com todos seriam fundamentais nesse processo. Por parte
os pesquisadores. Nós queríamos obter respostas para as dos profissionais da escola havia a preocupação com
questões: o uso de um laptop por aluno faz diferença sig- a formação adequada para trabalhar com os laptops
nificativa em seu processo de aprendizagem? Como po- e também com as condições logísticas necessárias.
demos viabilizar o uso dessa tecnologia na escola? Quais
as possibilidades e limitações no desenvolvimento de A escola estava prestes a iniciar uma reforma total
um trabalho como esse? Que transformações a inserção do telhado, o que significaria mudança de local e nem
de um laptop por aluno provocam no cotidiano escolar? sabíamos ainda para onde. Mais tarde (em abril de 2010)
ficou definido que usaríamos o prédio de uma Faculdade
Como gostaríamos que profissionais – professores Particular próxima à escola. Os alunos seriam transportados
e funcionários – também desejassem que o projeto fosse diariamente de ônibus e lá não tínhamos acesso à internet. A
desenvolvido na escola, fizemos uma reunião com todos reforma estava prevista para durar de 1º de maio até o final
e, nós da equipe gestora, apresentamos a proposta de de agosto. Na verdade durou até dezembro e só pudemos
aceitar fazer parte desse projeto de pesquisa. Alguns retornar ao prédio da escola quando o ano letivo terminou.
profissionais logo acharam a ideia muito interessante
e manifestaram interesse imediato em participar; Os laptops chegaram neste momento da reforma
em que ocupávamos outro espaço. Analisando a situação,
3
Espaço de debate coletivo, onde todos os segmentos têm a oportunidade
seria o momento mais improvável para fazer as primeiras
de apresentar ideias e argumentá-las. Instituído pela escola na construção do
Projeto Pedagógico da unidade.
incursões nesse novo campo. Mesmo assim, os profissionais

62 63
da escola e os pesquisadores decidiram assumir o desafio A primeira oficina realizada ainda no prédio da
e apostar no início das primeiras experiências do Projeto, Faculdade que estávamos usando, teve a participação
mesmo nas condições de trabalho, que não eram as de professores, funcionários, pais e alunos do Conselho
melhores. de Escola, pesquisadores da UNICAMP e representantes
da SME (Secretaria Municipal de Educação). A dinâmica
Foi nesse espaço que se deram as primeiras oficinas da oficina foi bastante interessante, pois provocou a
de formação, envolvendo não só professores, mas também participação de todos na busca de definições dos primeiros
funcionários e os membros do Conselho de Escola 4 do passos do Projeto, antecipação dos possíveis problemas
qual fazem parte também pais e alunos. Nesses momentos a serem enfrentados e as possibilidades de superação
foram feitas as primeiras explorações da máquina, foram das dificuldades vislumbradas. Para aqueles que tinham a
pensadas soluções para o número de laptops que não preocupação de que a escola seria apenas um “lugar de
atendia todos os alunos, as propostas de utilização em sala teste”, esse primeiro momento demonstrou objetivamente
de aula, etc. que a proposta era mesmo de construção coletiva na forma
de parceria. O sentimento predominante foi a certeza de
Participar deste projeto trouxe a todos um misto que o Projeto seria viável e todos seriam muito importantes
de preocupação, curiosidade, orgulho e desafio, além do na construção dele.
desejo de que o Projeto pudesse melhorar a motivação dos
alunos para a aprendizagem. Duas questões foram levantadas como principais
preocupações naquele momento:
E o percurso começa...
- Como organizar o uso do laptop com os alunos, uma
vez que não havia exatamente um para cada aluno? O
O envolvimento gradativo das pessoas déficit passava um pouco de 100 computadores, pois
eram 500 laptops para 540 alunos, mais ou menos 40
O Projeto foi apresentado por nós da equipe gestora, profissionais e uns 30 para os pesquisadores;
aos membros do Conselho de Escola já com o convite para
participarem das oficinas de formação. Os pais e alunos - Os alunos poderiam ou não levar o laptop para casa?
do Conselho manifestaram grande interesse e curiosidade. Além destas questões, foi também proposto a criação de
Demonstraram satisfação em ver a escola fazendo parte de um logotipo para identificação do Projeto X.O. na escola.
um projeto como esse. Alguns se dispuseram a participar
das oficinas formativas. As propostas de encaminhamento a partir daí,
foram definidas nesta primeira oficina. O combinado,
então, foi discutir as questões com as pessoas envolvidas,
em assembléias, o que já era uma prática da escola.
4
O Conselho de escola é formado por representantes dos diferentes segmentos
da comunidade escolar: pais, alunos, professores, funcionários e equipe gestora. É
um colegiado criado por lei própria com função consultiva e deliberativa na escola.

64 65
As assembleias com os alunos foram desenvolvidas fosse entre alunos de períodos diferentes, pois caso o
da seguinte forma: a equipe de pesquisadores do NIED computador pudesse ser levado para casa não haveria
elaborou um pequeno vídeo apresentando de forma geral como usar, pois o computador sempre estaria na escola.
o Projeto X.O mostrando, inclusive algumas imagens de No fim, a proposta que pareceu mais adequada a eles era
duas escolas em que o Projeto já estava em andamento – o compartilhamento entre alunos da mesma classe.
uma no Rio Grande do Sul e outra em São Paulo. Nós da
equipe gestora, apresentamos o vídeo aos alunos reunindo- Quanto à questão de levar ou não para casa, os
os por ciclo, explicamos um pouco como o Projeto seria alunos demonstraram desejo de levar, mas entendiam que
desenvolvido em nossa escola e o quanto seria importante os pais deveriam opinar e tinham preocupação com o uso
a participação de todos. Em seguida, pedimos aos alunos do equipamento: e se estragasse? E se o irmãozinho menor
que pensassem em propostas para solucionar os dois quebrasse? E se algum adulto roubasse da criança? Essas
problemas levantados na oficina: como organizar o uso do preocupações eram também dos professores.
laptop pelos alunos e se deviam ou não levá-los para casa.
Quem desejasse poderia também elaborar um logotipo para Quanto ao logotipo do Projeto, todas as propostas
o Projeto. Fizemos uma apresentação rápida do que seria foram expostas aos alunos em murais durante uma
um logotipo trazendo alguns exemplos já usados no dia a semana e eles votaram. Os cinco desenhos mais votados
dia e conhecidos por eles. Os alunos já tinham experiência foram apresentados na oficina seguinte e por votação foi
neste tipo de trabalho, pois o logotipo usado nas camisetas escolhido um.
das olimpíadas das cores, realizadas na escola a cada dois
anos, era desenvolvido desta forma. Os alunos puderam
fazer perguntas e tirar as dúvidas daquele momento.

Assim, após esta apresentação cada professor


continuou um pouco mais a discussão em sua classe
e organizou com eles as propostas de solução para as
questões em pauta.

Surpreendemo-nos com algumas respostas. Por


exemplo: achávamos que eles iam propor que irmãos usassem
o mesmo laptop. Eles, ao contrário não queriam isso, pois Ilustração do Logo vencedor original e trabalhado graficamente.
entendiam que os irmãos mais novos seriam sacrificados
porque os mais velhos sempre dariam um jeito de ter Ficou sob a responsabilidade da equipe gestora
prioridade. Também não queriam que o compartilhamento e dos professores, a discussão com os pais em
assembleias gerais. Foram realizadas três assembleias
5
Evento que contempla atividades esportivas e desafios nas diversas
em horários que pudesse facilitar a participação dos
áreas do conhecimento fazendo parte do Projeto Pedagógico da escola
pais – final de tarde e sábado pela manhã. A escola
e que acontece bienalmente.

66 67
tem certa tradição em participação dos pais em reuniões, usaria as máquinas, etiquetagem do equipamento, compra
mas nos surpreendemos com a quantidade de pessoas de filtros de linha, cabos e extensões, forma de transportar
que participaram. O convite com a pauta da assembleia os laptops até as salas e carregamento das baterias,
foi enviado antecipadamente aos pais e, ao contrário providências junto à SME: um estagiário de informática
do que alguns de nós pensávamos, eles compareceram para auxiliar os professores etc.
mesmo sabendo que não seria uma reunião para discutir
a aprendizagem de seu filho. Nas assembleias de pais, A Construção de um Percurso – A participação como
princípio
a questão de levar os laptops para casa ou não foi mais
relevante do que discutir a forma de compartilhamento
Respeitando os princípios delineados no Projeto,
para uso das máquinas. A decisão foi tomada na terceira
o percurso de formação, a utilização das máquinas, a
assembleia depois de muitas discussões: os alunos levariam
construção das propostas pedagógicas e indicadores
os laptops para casa mediante consentimento dos pais, e de avaliação, foram sendo desenhados na expressão das
os professores informariam quando isso ia acontecer para dificuldades, inquietações e propostas aos primeiros traços
que eles se organizassem, inclusive prevendo uma pessoa de concretude do projeto.
adulta para acompanhar a criança, neste dia, evitando que
Unicamp leva computadores para estudantes de escolas públicas
ela fosse abordada por alguém que quisesse tomar-lhe o
equipamento. 11/03/2010
Universidade recebeu 520 computadores que serão entregues para
estudantes de escola municipal de Campinas
O uso dos laptops pelos alunos começou em outubro
de 2010 ainda no prédio da Faculdade, sem possibilidade de O movimento One Laptop per Child (OLPC) que, em português
quer dizer um computador por criança está chegando a Campinas,
acesso à internet e com mais ou menos 60 computadores por meio de uma parceria com o Núcleo de Informática Aplicada à
para uso dos alunos dos anos iniciais e 60 para os anos Educação (Nied) da Unicamp. Um lote de 520 computadores portáteis
doados pelo OLPC acaba de desembarcar na universidade para
finais. Os professores organizaram o compartilhamento serem entregues aos alunos da Escola Municipal Padre Emílio Miotti,
dos laptops com os alunos e a agenda de uso conforme o localizada na Vila União, periferia de Campinas. De acordo com o
projeto planejado por aqueles que se dispuseram a iniciar o professor José Armando Valente, pesquisador do Nied e professor do
Instituto de Artes, os estudantes deverão utilizar as máquinas em sala
trabalho. Sempre foi por adesão e não por imposição. Isso de aula no segundo semestre deste ano. "No primeiro semestre, vamos
deu liberdade aos professores para cada um se envolver e se acompanhar a instalação da estrutura necessária à operação dos laptops
e formar professores e alunos para trabalhar com os equipamentos.
comprometer conforme suas possibilidades no momento. Posteriormente, vamos verificar quais os impactos dessa tecnologia do
Nós, equipe gestora, tomávamos o cuidado de não impor ponto de vista pedagógico", informa.
obrigatoriedade de uso dos laptops, mas garantíamos
(retirado do Portal da Prefeitura Municipal de Educação de Campinas)
momentos de discussão sobre o trabalho nas reuniões
semanais entre professores. Além disso, procurávamos Envolver a todos é um dos princípios dessa proposta
facilitar auxiliando na organização logística – ajudando e partilhar dos diferentes “olhares”, uma aprendizagem
a elaborar as fichas para anotações dos alunos que para todos. Nesse processo o conhecimento teórico,

68 69
as bases de uma pesquisa científica se unem ao mergulho O percurso era tecido entre formação, dificuldades do
na realidade que se apresenta no cotidiano escolar para cotidiano e construção de cenários para focar os primeiros
que o percurso seja delineado. trabalhos. “Mão na massa”, “Lição de Casa”, foram modelos
organizacionais que trouxeram aprendizagens para o
Quando nos aventuramos no caminho de uma coletivo.
trilha, não sabemos o que encontraremos. Mas é no
desencadeamento das ações, nos erros, acertos, que vamos As oficinas de formação foram muito positivas e
construindo aprendizagens significativas. contaram com uma participação muito ativa e interessada
das pessoas. Pouco a pouco os professores começavam a
As oficinas representaram momentos de vislumbrar possibilidades de uso em suas aulas. Os alunos
enriquecimento, porque muitas vezes percebíamos que demonstravam uma facilidade de manuseio que parecia
as inúmeras dificuldades que julgávamos barreiras para natural. A relação de quem ensina e quem aprende foi
muitas realizações, quando partilhadas com todos, eram ficando mais dialógica e a linha divisória menos perceptível.
submetidas às reflexões que faziam modificar a visão inicial Ou seja, os professores assim como os alunos ensinavam
e construir novo referencial de ação. O diálogo, a sequência e aprendiam alternando, o tempo todo, o papel de quem
do trabalho, a sistemática e a didática dos encontros nos ensina e quem aprende. À medida que iam se familiarizando
envolviam e nos auxiliavam a materializar ideias e fazê-las com o laptop, novas possibilidades se abriam.
acontecer no cotidiano.
Achamos interessante ressaltar que nas aulas
A motivação dos profissionais foi crescendo pouco a planejadas pelos professores com o uso do laptop,
pouco e as resistências criadas pela percepção de algumas os problemas de indisciplina dos alunos eram quase
dificuldades, foram dando espaço à ousadia das primeiras inexistentes, ainda que as aulas fossem mais “barulhentas”
tentativas. e os alunos se movimentassem mais. Acreditamos que isso
nos faz refletir também sobre a importância do planejamento
A participação dos pesquisadores nos momentos de das aulas, a diferença de postura para estudo das crianças
CHP (Carga Horária Pedagógica) 6 , com os diferentes ciclos, e adolescentes de hoje em relação ao passado.
possibilitou um movimento mais produtivo ainda, visto
que nesses momentos mais inerentes a cada ciclo, num Os alunos também foram ampliando gradativamente
número menor de pessoas, dúvidas quanto ao domínio das suas formas de participação e envolvimento no Projeto.
questões operacionais da máquina podiam ser exploradas. Uma ação fundamental foi a instituição do trabalho com
Essa foi uma solicitação do próprio grupo de professores, os alunos monitores, que nasceu em debates na busca de
parte desse movimento de construção participativa. soluções para as dificuldades de gerenciamento dos laptops
em sala de aula. Ação essa que tem enriquecido muito o
desencadeamento do Projeto.
6
Espaço Pedagógico que faz parte da jornada do professor utilizado para
reuniões coletivas de estudo e reflexão.
Outras ações foram sendo delineadas ao longo do trabalho:

70 71
• Estabelecer um cronograma de oficinas de formação Em 2011, quando já estávamos de volta ao prédio
coordenadas pelo grupo de pesquisadores do NIED. da escola, pudemos dar mais consistência ao trabalho.
Foram realizadas 11 oficinas desde o início em 2010 Destacamos as seguintes ações:
e contaram com a participação de professores, 1-Lançamento oficial do Projeto: acreditamos que
funcionários e representantes do Conselho de Escola e a participação e o envolvimento das pessoas na escola
da SME. dependem muito do grau de conhecimento que todos têm
• Aproveitar a reforma elétrica do prédio da escola e do que a escola faz e do orgulho que sentem por fazer
colocar tomadas em todas as classes. Esta adequação parte dela. Por isso queríamos fazer um lançamento oficial
foi providenciada pela direção da escola com recursos do Projeto X.O para toda a comunidade. Em nosso projeto
repassados pela SME e mão de obra de profissionais da pedagógico estava previsto a realização de uma semana
Administração Regional 07. literária no mês de março. Então, o encerramento da semana
• Providenciar a rede wireless na escola. Foi realizado teve também a apresentação do Projeto à comunidade e
pela SME após a reforma. Portanto, no ano de 2011. a entrega oficial dos computadores aos alunos e salas de
• Adquirir um computador que funcionasse como uma atividades para os visitantes conhecerem e experimentarem
espécie de “servidor”. Em reunião com o Secretário os laptops.
de Educação da época (novembro de 2010) ficou
combinado que a SME repassaria recurso adicional à 2-Acesso à internet: ao final do primeiro semestre
escola, através do Conta Escola7 para que ela adquirisse a SME conseguiu instalar a rede wireless na escola, o que
a máquina. O grupo de pesquisadores se encarregaria abriu novas possibilidades. A dificuldade a transpor é a
de orientar sobre a configuração da máquina e a própria lentidão das máquinas e da própria velocidade da internet
SME faria a instalação. A parte de fazer a instalação não que já foi aumentada, mas ainda é bastante lenta quando
se concretizou até o momento. O NIED doou um HD maior número de usuários está online.
externo à escola para minimizar o problema.
3-Formação: além das oficinas periódicas,
• Os professores e funcionários teriam uma máquina
conseguimos organizar desde o início do ano letivo, um
assim que terminasse o processo de tombamento de
tempo quinzenal de duas horas/aula para atividades
patrimônio que estava sendo feito pela UNICAMP
específicas de planejamento, discussão, formação e avaliação
e começaríamos a utilizar o laptop com os alunos
do Projeto X.O na escola. O grupo de pesquisadores do
mesmo sem acesso à internet e ainda fora do prédio
NIED passou a participar deste momento usando-o para
da escola. Isto foi muito positivo: funcionários se
apresentar os aplicativos do laptop e ouvir dos professores
sentiram valorizados, professores e alunos mais
suas dificuldades e sugestões. Vale ressaltar o empenho
motivados e bastante comprometidos em fazer com
dos pesquisadores em buscar soluções para os problemas
que o trabalho desse certo, pesquisadores tiveram
apresentados e em atender pacientemente cada professor.
mais oportunidades de conhecer a rotina da escola e
Nós, da equipe gestora, procuramos participar de todos
se envolver efetivamente com o grupo de profissionais.
estes momentos, ainda que nem sempre tenha sido
7
Verba repassada pela Prefeitura Municipal de Campinas a cada trimestre
para manutenção, melhorias na escola e compra de material e equipamentos possível a presença da diretora, vice-diretora e orientadora
pedagógicos. pedagógica.

72 73
4-Planejamento e realização de atividades: o Projeto formação, deixou de existir; certificação da formação
X.O. passou a ser discutido em boa parte das reuniões recebida na escola, não foi realizada; não foi feito nenhum
coletivas. Os professores do ciclo I e II (1º ao 5º ano) já plano para a manutenção técnica das máquinas, reposição
organizaram a agenda semanal dos alunos prevendo o uso de baterias ou mesmo dos laptops. A escola continua a
do X.O., e os professores do ciclo III começaram um trabalho apresentar as demandas para a Secretaria, mas também
interdisciplinar desenvolvendo temas específicos em que aprendeu a buscar alternativas que não são as mais
o uso dos laptops era necessário. O avanço significativo adequadas, mas que possibilitam o trabalho. Lamentamos
foi perceber o esforço que a maioria dos professores foi que o poder público não demonstre compromisso devido
fazendo para planejar algum trabalho usando a máquina em viabilizar um projeto como este.
e a construção de projetos coletivos. Os problemas eram
debatidos e resolvidos no grupo. Por exemplo: as diferentes Preocupamo-nos, pois quando a vida útil destas
formas de guardar, carregar, transportar e compartilhar os máquinas terminar, como faremos para não perder o avanço
laptops. conquistado? Terá sido mais um projeto que funcionou,
mas não foi incorporado à escola? Quando a tecnologia
5 -Construção do grupo de alunos monitores: penetra outros espaços com lucratividade mais perceptível,
através do NIED também foi possível que dois professores imediata e mensurada em cifrões eles nunca mais são os
pudessem receber algumas horas de trabalho semanais mesmos. Como será na escola? Que investimento precisa
para desenvolvimento de atividades específicas do Projeto. ser feito e como vamos garantir que seja feito?
Destacamos a formação de um grupo de alunos monitores:
alunos do 6º ao 9º ano que aceitaram participar do grupo 7 -O laptop em atividades específicas da escola: o
auxiliando os professores e alunos do 1º ao 5º ano a realizar uso maior dos laptops é em atividades propostas pelos
atividades relativas ao Projeto. Tem sido bastante positivo. professores em sala de aula. Porém, em algumas atividades
Os alunos demonstram compromisso e dedicação. especiais da escola, os alunos têm feito uso deles. Na
festa junina, o correio elegante foi correio eletrônico. As
6 -Participação da Secretaria Municipal de Educação: mensagens eram enviadas e lidas no laptop; em reuniões de
esta participação foi sendo cada vez menor. Tivemos pais, alguns professores utilizaram os laptops para os pais
quatro secretários de educação de 2009 (início do projeto) lerem o relatório avaliativo de seus filhos; nas olimpíadas
até 2012. Esta descontinuidade fez com que a escola não das cores, a construção do projeto da bandeira e hino das
conseguisse contar com o apoio da Secretaria de Educação equipes, são alguns exemplos.
naquilo que deveria ser dela: estagiário de informática na
escola, que não tem mais; instalação do servidor que nunca 8 -Indicadores para Avaliação: Proposta da Escola
foi realizada; compra de armários específicos para guardar – A equipe da escola sentiu necessidade de estabelecer
e carregar os laptops, que nunca foi feita; adequação da alguns indicadores para avaliar os possíveis avanços de
rede elétrica, que acabou ficando por conta da escola; aprendizagem dos alunos, a partir da introdução dos
participação de representantes da Secretaria nas oficinas de laptops na escola. Então, discutimos e elencamos alguns
indicadores para nortear essa avaliação:

74 75
• APRENDIZAGEM DOS CONTEÚDOS: Perceber como e • Estudo comparativo de um determinado assunto em
quanto a utilização do laptop em projetos de trabalho duas classes (uma atual utilizando o laptop e outra de
escolar interfere na aprendizagem dos alunos em ano anterior sem o uso dos laptops).
relação aos conteúdos de cada componente curricular, à
alfabetização, ao acesso a informações e conhecimentos • Registro de dados referentes aos indicadores a partir
acumulados social e culturalmente. da observação dos próprios professores e dos alunos.

• APRENDIZAGEM COLABORATIVA: Perceber a • Realização de auto-avaliação (alunos e professores)


interferência do uso do laptop na construção de
conhecimentos de forma colaborativa. O quanto as Esse trabalho foi tema de discussão em uma das
possibilidades de ajuda mútua são ampliadas. Perceber oficinas em que nos debruçamos sobre os indicadores e
também a intensidade da troca de conhecimentos entre instrumentos que escolhemos, com a finalidade de organizar
alunos e professores e a capacidade de organização. a avaliação a partir deles. Mas não sistematizamos ainda e
com certeza vamos precisar retomar a questão e avançar.
• TRABALHO INTERDISCIPLINAR: Analisar as
possibilidades de estabelecimento de relações entre
diferentes assuntos estudados, entre conteúdos que A Cadência de uma Trilogia – Projeto Político-Pedagógico,
envolvam mais de uma área de conhecimento e entre o Formação e Tecnologia – Compromissos da Equipe Gestora
que se estuda na escola e o conhecimento real.
O Projeto X-O está incorporado nos princípios
• MOTIVAÇÃO: Avaliar o quanto e como o uso do laptop expressos no Projeto Político Pedagógico da escola e,
interfere na motivação para a aprendizagem e para as portanto, não deve ser compreendido como um processo
atividades escolares. Perceber a relação afetiva que se isolado de todo o contexto do dia-a-dia escolar.
desenvolve a partir do uso do computador.
Ele é instrumento, recurso, mas necessitamos
A partir daí, procuramos pensar nos instrumentos continuar a aprofundar nossa formação para utilizá-lo de
que poderíamos usar para de fato podermos afirmar que forma a garantir os objetivos de construção de conhecimento
o uso dos laptops altera significativamente a qualidade sobre qual nos pautamos.
da educação na escola. Construímos então a seguinte
proposta: O X-O já se tornou um diferencial no trabalho da
escola Padre Emílio Miotti e é momento de ousarmos ir
• Realização de questionário para os alunos com algumas além das pesquisas, dos aspectos informativos e aprender
questões mais objetivas que pudessem dar indícios em a exploração dos processos de criação e autonomia,
relação aos indicadores. qualificando cada vez mais a utilização desse instrumento.

76 77
Provocações, transformações construídas ao longo do Tudo depende da concepção que alavanca nossas
trabalho e perspectivas futuras ações. Desde 1955, existem estudos e experiências
para utilizar computadores no processo de ensino-
Vivemos mergulhados em um mundo tecnológico, aprendizagem e nos dias atuais os vemos em algumas
onde computadores, celulares, games ocupam esse cenário situações que até fazem lembrar as “máquinas de ensinar”,
na atualidade. Um universo de conexões e teclas que trazem idealizada por Skinner e que serviam tão somente para
diferentes possibilidades de acesso ao conhecimento, que armazenar informações em uma sequência e transmiti-las
aceleram informações, que aproximam espaços. posteriormente.

No contexto de todos esses avanços que a ciência Como já citamos, mudanças no interior da escola
da computação vem construindo, nos deparamos com a costumam necessitar o rompimento de resistências e assim
instituição escolar, espaço de transmissão de cultura e o processo se faz mais lentamente. Os computadores e toda
construção de conhecimento, portanto potencialmente a tecnologia que gravitam na atualidade são incorporados
um espaço que deveria ser permeado pelas inovações, pela escola em atividades extra-classe, eventos especiais,
buscas, e conectado com as mudanças que o tempo vai fotografias, cópias, pesquisas na internet, sem que gerem
descortinando. necessariamente uma alteração nos esquemas tradicionais
de ensino.
No entanto, se observarmos bem, a escola tem sido
a instituição que mais lentamente deixa-se permear pelas Professor Valente sintetiza muito bem as colocações
mudanças. E vemos que muitas inovações que rompem acima, quando ressalta:
seus muros, não rompem significativamente as relações
“A abordagem que usa o computador como meio
fragmentadas que a configuram.
para transmitir a informação ao aluno mantém a
prática pedagógica vigente. Na verdade, a máquina
Isso nos faz refletir que nem tudo o que vemos em um
está sendo usada para informatizar os processos de
ambiente educativo, pode-se traduzir em transformações
ensino existentes. Isso tem facilitado a implantação do
significativas no processo de ensinar e aprender, pois a área
computador nas escolas, pois não quebra a dinâmica
que separa o discurso da prática é muitas vezes ocupada
tradicional já adotada. Além disso, não exige muito
desses aspectos que tentam mudar o entorno, mas não a
investimento na formação do professor. Para ser
essência. Nesse sentido, podemos ver uma sala de aula em
capaz de usar o computador nessa abordagem, basta
circulo e, no entanto, estar diante de uma relação entre
ser capaz de inserir o disquete ou, quando muito,
professor e aluno extremamente autoritária, podemos
ser treinado nas técnicas de uso de cada software.
estar em uma sala onde os alunos têm seus laptops e os
No entanto, os resultados em termos da adequação
utilizam para digitar textos como formas de cópia e assim
dessa abordagem no preparo de cidadãos capazes de
por diante.
enfrentar as mudanças que a sociedade está passando,
são questionáveis. Tanto o ensino tradicional, quanto
sua informatização prepara um profissional obsoleto.

78 79
Por outro lado, o uso do computador na criação de O mundo digital tem atraído pessoas de todas as
ambientes de aprendizagem que enfatizam a construção idades e possibilitado muitas conquistas. Frente às inovações
do conhecimento, apresenta enormes desafios. tecnológicas, vamos encontrar diferentes utilizações dos
Primeiro, implica em entender o computador como que através delas constroem sonhos e dos que espalham
uma nova maneira de representar o conhecimento, vírus ou usam informações indevidamente. Projetos
provocando um redimensionamento dos conceitos já que oportunizam aos jovens, acesso ao mundo digital e
conhecidos e possibilitando a busca e compreensão possibilidades no mundo do trabalho, pessoas da terceira
de novas ideias e valores. Usá-lo com essa finalidade, idade encontrando motivações novas nas descobertas da
requer a análise cuidadosa do que significa ensinar informática, etc.
e aprender bem como, demanda rever o papel do
professor nesse contexto.” (Valente, p.2,1999) Aprendizagens novas, como já dizia Piaget,
desestabilizam, para depois se acomodarem e no equilíbrio
Assim, podemos entender que um Projeto que são apropriadas como conhecimento.
pretende ser mais do que um “tutor de máquinas”, que tem
como metodologia um design participativo, se constitui A inclusão dos laptops na escola trouxe possibilidades
uma tarefa desafiadora. Muitas são as inquietações e novas que modificam necessariamente as estratégias de
questionamentos de muitos educadores: computadores trabalho dos professores. A consciência de que a tecnologia
limitadores ou facilitadores no processo de ensinar e está no mundo atual e que os alunos, mesmo os mais
aprender? Afinal vemos crianças e adolescentes isolando- pobres, tem acesso a muitas delas, se tornou mais presente
se frente às telas de computadores, games, celulares, e os profissionais da escola se tornaram mais sensíveis a
conectados durante horas, sem limites, perdidos num essa realidade. Os alunos têm mais conhecimento a respeito
mundo virtual. E reflexões de educadores apontam que do funcionamento do computador, mas não tem ainda
muitos alunos já não sabem escrever cursivamente, a prática de usá-lo para construção de conhecimentos
não sabem desvendar os processos de calcular, pois as escolares ou mesmo para pesquisa. É aí que entra a ação
máquinas dão resultados prontos, sem contar as questões do professor. Há um esforço em mudar a concepção do
que envolvem a afetividade e os relacionamentos. papel do professor e da escola. Ainda que no discurso
já tenhamos declarado que ensinar é bem mais do que
Será mesmo que todas essas questões estão tão transmitir conhecimentos e informações, na prática ainda
somente ligadas ao advento das tecnologias ou à falta estamos buscando a forma mais adequada de fazer
de formação para mediar e extrair desses recursos suas com que o aluno aprenda e apreenda o conhecimento
possibilidades de construção de conhecimento e de historicamente acumulado e sistematizado na escola.
autonomia? A tecnologia pode ser uma grande aliada nesta tarefa.

De qualquer forma, não há possibilidades de barrar Por outro lado, não dá pra negar que a escola está
o progresso ou isolar a escola desse contexto. O melhor ainda muito distante do mundo real dos alunos. Mesmo no
então seria apropriar-se dele de forma significativa que caso de nossa escola que conta com um laptop por aluno,
venha a fazer da tecnologia uma aliada e um diferencial.

80 81
precisamos admitir que a máquina que temos é muito A Secretaria Municipal de Educação deixou a desejar
limitada e no mundo real a evolução é rápida. Celulares no que se refere a investimentos adequados para o
são cada vez mais sofisticados e não sabemos o que fazer desenvolvimento do Projeto X.O. Não temos perspectivas
com eles na escola. No mundo real os tablets estão se para a reposição das máquinas que deixam de funcionar;
popularizando e na escola ainda não temos um computador para a aquisição de armários que possibilitem guardar e
adequado para uso dos alunos e nem sabemos bem como carregar os laptops; para a instalação de um computador
construir o novo formato de aulas que se pareçam mais e servidor que facilite o trabalho de armazenamento de
com o século XXI do que com o século XIX. A entrada da dados; para a continuidade do Projeto e a modernização
tecnologia na escola ainda não alterou significativamente dos computadores.
sua estrutura de funcionamento, mas pouco a pouco, vai
nos obrigando a modificar nossas estratégias de trabalho Entretanto, sabemos que a escola não é mais a mesma
tanto dentro quanto fora da sala de aula. de antes do Projeto. Uma nova demanda tecnológica foi
aberta e não será mais possível retroceder.
Os professores estão usando cada vez mais os laptops
em suas aulas. O que ainda não estamos conseguindo é fazer
com que o laptop seja usado pelos alunos em momentos
não planejados pelos professores: ter acesso à máquina
para consultas e pesquisas por iniciativa própria dos alunos
a partir de um assunto estudado; levar sistematicamente
o laptop para casa e envolver os familiares no uso do
equipamento.

Outro desafio a enfrentar é a diversificação do


trabalho pedagógico com os alunos levando em conta os
diferentes saberes de cada um. Acreditar que todos os
alunos não precisam fazer as mesmas coisas ao mesmo
tempo e ainda assim ser possível a construção dos conceitos
fundamentais para o conhecimento, é um processo lento e
difícil de fazer acontecer no cotidiano escolar. Como uma
escola que tem um computador por aluno pode tornar
isso possível? Como fazer com que o aluno, usando essa
tecnologia amplie sua autonomia para a aprendizagem?
Com certeza essa é uma reflexão que precisamos fazer.

82 83
Registro de processos de significação:
o vídeo como ferramenta
Maria Cecília Martins e M. Cecília C. Baranauskas

Na trajetória do Projeto XO, foram editados vídeos1 que Imagens capturadas das atividades exibidas no vídeo
registram e ilustram vários momentos do Projeto ocorridos
na escola. A elaboração destes registros visava sintetizar uma Este vídeo foi apresentado aos participantes da
dada ação encaminhada na escola de forma a compor um oficina 1, visando oferecer referências concretas sobre
“histórico vivo”, com referências concretas (expressas pelos como era o laptop que seria disponibilizado na escola,
sons e imagens em movimento do evento documentado). materializar – com os exemplos de uso - possibilidades
Os vídeo-sínteses têm tempos diversos (02 a 15 minutos) e de se realizar um trabalho integrado com tecnologia
retratam contextos variados: resumo de oficinas do Projeto em vários espaços de vivência do aluno na escola.
realizadas na escola, professores e alunos em atividades Aproximando o cenário tecnológico ao contexto local, o
com o laptop, ações encaminhadas por pesquisadores com vídeo também situava a Emílio Miotti na pesquisa iniciada
a participação de professores e alunos (exemplo: oficina de na escola, mostrando fotografias desta unidade de ensino e
RPG), atividades de formação com professores e alunos- questionamentos iniciais de alunos quando viram o laptop
monitores, eventos da escola nos quais foram integradas pela primeira vez. As referências concretas de uso do laptop
atividades de uso do laptop (exemplo: Semana Literária- educacional ilustravam interações de professores e alunos
Telecentrinho; Olimpíada das Cores). com a tecnologia e relato de professores sobre o trabalho
desenvolvido na escola. Estas referências objetivavam
Desde o início do Projeto, os vídeos foram elaborados também promover um engajamento inicial com a proposta
com o intúito de compartilhar algum aspecto, ideia ou de trabalho apresentada por este Projeto de pesquisa.
concepção articulados ao uso do laptop em contextos Em suma, o vídeo visava oferecer referências para que os
educacionais. Na primeira oficina, por exemplo, um vídeo participantes da oficina pudessem estabelecer significados
foi editado2 a partir de trechos de atividades de uso do para o que estava sendo iniciado na escola em relação a
XO em uma escola de Porto Alegre. O final do vídeo dava integração do laptop ao cotidiano escolar.
destaque a fotografias da escola Pe Emílio Miotti, bem como
a um dos primeiros contatos de alunos com o equipamento Após a oficina 1, outro vídeo foi editado e apresentado
XO ocorrido em visita de duas pesquisadoras na escola para aos participantes. Considerando que o equipamento ainda
testes de acesso à Internet. não havia chegado à escola, este vídeo especificava detalhes
1
A filmagem das atividades na escola e edição dos vídeos foram realizadas sobre o equipamento e algumas de suas funcionalidades
por Romilva Costa, sob orientação de Maria Cecília Martins e supervisão de M.
Cecília C. Baranauskas, coordenadora do projeto. básicas: abrir o equipamento, editar um texto, estabelecer
2
O vídeo “XO na Escola” mostra o dia-a-dia da escola de Lucina Abreu, em comunicação em rede via bate-papo, tirar fotos, jogo
Porto Alegre (RS) vinculada ao Projeto UCA-LEC-UFRS em 2007 e situa a escola
EMEF Padre Emilio Miotti, de Campinas (SP) no contexto de uso do laptop XO. educacional disponibilizado no equipamento, etc.
Este registro foi apresentado na 1ª Oficina Semio-Participativa do Projeto XO

84 85
Para os novos participantes, que não estavam
presentes na oficina 1, assistir o vídeo possibilitava
contato deles com contexto inicial e resultados parciais já
obtidos no Projeto. Referências sobre os passos anteriores
orientavam também o grupo no estabelecimento de elos
com o presente, com o encaminhamento das atividades
do dia, que neste caso específico (oficina 2) contemplava
Imagens capturadas das atividades exibidas no vídeo a construção preliminar de cenários de uso educacional do
Já na oficina 2, foi elaborado e apresentado XO na Escola e fora dela.
um vídeo3 com a síntese do que havia ocorrido
na oficina 1, viabilizando assim um resgate da Assim, enquanto metodologia de trabalho, a cada
memória do grupo sobre a vivência anterior. oficina, um vídeo-síntese da atividade anterior era exibido
para os participantes. Estes vídeos eram elaborados a
partir de um processo de edição do arquivo digital gerado
na filmagem do evento. A edição do material envolvia
momentos de análise e síntese para seleção de trechos e
constituição do roteiro. Para se ter uma idéia do conjunto
de vídeos elaborados no Projeto apresentamos a seguir
alguns agrupamentos. Na “linha do tempo” do Projeto, 23
vídeos foram elaborados e disponibilizados para acesso na
Web 4 .

Oficinas do Projeto: ações, interações, resultados

Um dos conjuntos destes vídeos produzidos nas


(11) oficinas, sintetiza o que ocorreu em cada uma destas
atividades, ilustrando as ênfases e dinâmicas de trabalho
variadas. As imagens a seguir evidenciam ações e interações
estabelecidas nas 5 primeiras oficinas e compartilhadas nos
Imagens capturadas das atividades exibidas no vídeo vídeos do Projeto realizados ainda em 2010:
3
O vídeo sobre a Oficina 1 sintetiza 2 momentos principais encaminhados
na atividade: Interação dos participantes em sala visando o preenchimento
de pôsteres com a definição das partes interessadas e a clarificação de
problemas e soluções relacionadas ao Projeto XO- Escola Padre Emilio
Miotti. O segundo momento estava relacionado a uma atividade prática
de utilização do laptop em uma “feira” organizada no pátio da escola
4
Para acesso dos vídeos do projeto consultar: Menu Vídeos do Portal do Projeto
na hora do lanche. Os participantes da oficina puderam então visitar XO: www.nied.unicamp.br/linhadotempo ou ainda canal do projeto no youtube:
estações de trabalho que apresentavam recursos e aplicativos do laptop. www.youtube.com.br/xounicamp .

86 87
O vídeo como instrumento de registro e compartilhamento
de ações

Do ponto de vista educacional e de pesquisa, pode-


se dizer que o vídeo, enquanto instrumento de registro,
possibilitou a comunicação de ideias, sentimentos, ações,
percepções das pessoas que estavam envolvidas na
Oficina 1: grupos preenchem pôsteres e Oficina 2: grupos planejam cenários de uso do
articulam problemas e soluções laptop na escola. atividade. Articulando representações textuais, visuais
e sonoras, o vídeo, também enquanto instrumento de
expressão, colaborava para a promoção de um entendimento
mais amplo das pessoas sobre o que estava ocorrendo à
sua volta e com isso poderia potencializar seu efeito nas
atividades propostas nas oficinas, uma vez que requeria
que os participantes expressassem suas ideias, percepções,
Oficina 3: participantes escolhem logotipo do projeto na escola, criado pelos alunos
sentimentos. Neste sentido, pode-se dizer que, desde
o início deste Projeto, houve um comprometimento de
promover contextos em que a diversidade expressiva dos
participantes pudesse ocorrer.

A utilização do recurso do vídeo, enquanto


instrumento de expressão e comunicação em contextos
Oficina 4: atividade de formação na prática a partir dos cenários de uso do laptop projetados na
oficina 2. educacionais, também é relevante de ser destacado aqui,
pois vivemos em uma sociedade cada vez mais tecnológica
e repleta de elementos imagéticos, sonoros e textuais. Em
várias atividades exercitadas hoje em dia, as tecnologias de
comunicação e informação são utilizadas intensivamente.
Cada vez mais esses recursos são úteis e necessários para
atuar em situações que se transformam a cada momento,
para desenvolver ideias, atribuir sentido ao entorno e ver a
realidade sob ângulos diversos. No processo de atribuir um
sentido a algo novo as pessoas manipulam essencialmente
as ideias, os conhecimentos e as concepções que possuem
no momento. Pode-se dizer que as pessoas passam a
compreender o mundo a partir do momento em que elas
constroem para si conhecimentos momentaneamente
Oficina 5: Escola apresenta os cenários implementados na utilização do laptop com os alunos. pertinentes e viáveis, para agir sobre esse mundo. Materiais

88 89
simbólicos – como por exemplo a fotografia, o vídeo - Os vídeos editados foram compartilhados com os
que circulam na sociedade, são interpretados e usados, participantes da oficina e auxiliavam professores e/ou
são fontes de ações e de interações entre as pessoas e pesquisadores, na contextualização da ação encaminhada e
produzem efeitos de sentido. a descrição de dinâmicas e interações estabelecidas com os
alunos na atividade. Para os participantes das oficinas, os
“Olhar apenas para uma coisa não nos diz nada.
vídeos apresentados ofereciam uma referência concreta de
Cada olhar leva a uma inspeção, cada inspeção a
ações em andamento na escola: como eram desenvolvidas,
uma reflexão, cada reflexão a uma síntese”...assim
em que contextos ocorreram, como os alunos se envolveram
com olhar atento, o indivíduo lida com uma cadeia
nas atividades, etc.
flutuante de significados, dos quais pode escolher uns e
ignorar outros”. Goethe (citação em Leite, 1998, p. 40)5
O conjunto de vídeos destacados a seguir ilustra
Neste Projeto, a fotografia e o vídeo colocam em práticas de uso do laptop na escola em diferenciados
destaque algumas ações e interações estabelecidas neste cenários: eventos da escola, pesquisas em desenvolvimento,
contexto de pesquisa. Configuram modos de representar, atividades do professor em sala de aula.
de apresentar percepções sobre os processos vivenciados
ao longo do Projeto ocorrido na escola. Atividade de uso do XO em eventos da escola

Pode-se dizer que a observação destes materiais


simbólicos servem para apoiar a construção de múltiplos
pontos de vista sobre si mesmo e sobre os outros, de seus
comportamentos, seus pensamentos, seus sentimentos e
emoções em diferentes experiências de tempo e espaço.
São recursos relevantes para a constituição de uma “cadeia Vídeo “Telecentrinho” apresenta espaço de interação para utilização do XO pelos visitantes da Semana
flutuante de significados”, favorecendo assim que os Literária da escola

participantes entrem em contato com diversos modos de


ver, pensar e organizar o contexto social da escola.

Atividades, interações, contextos de uso do laptop pelos


alunos
Os vídeos da Olimpíada das Cores (2012) destacam: professora descrevendo o que é o evento, momento de

No segundo ano do Projeto, com o incremento planejamento de atividades para uso XO com alunos, atividade realizada com os alunos nas Olimpíadas.

de contextos de uso do laptop na escola, alguns vídeos


passam a evidenciar algumas das atividades realizadas com
os alunos. As articulações de utilização do laptop com os alunos
também desencadearam contextos específicos de pesquisa.
5
Leite, M. L. M. (1998). Texto visual e Texto verbal in Desafios da imagem:
Fotografia, iconografia e vídeo nas ciências sociais. Beça Feldman-Bianco, Os dois extratos a seguir ilustram esta perspectiva:
Miriam L. Moreira Leite (orgs). Campinas, SP: Papirus.

90 91
O vídeo em destaque, a seguir, mostra parte de um
trabalho conjunto das professoras Jocinara Lopes de Olieira
e Edileuza Pacheco com seus alunos de 1º ano em junho
de 2011. Este vídeo revela uma parceria estabelecida com
uma das mães de alunos para apoiar a utilização do laptop
pelos alunos na atividade encaminhada pelas professora.
(Daniela dos Santos Cardoso, mãe da aluna Brenda do 1º
ano A)

No vídeo é possível perceber o envolvimento dos


professores e alunos nas atividades
que realizam com o laptop. Os
alunos tiram dúvida sobre como
acessar um dado jogo e para
escolher o nível (fácil, médio, difícil)
da interação que estabelece com o
aplicativo.

Nos diálogos estabelecidos com os colegas e


professores, fica evidente a percepção de alguns alunos
sobre a sua atuação e seu grau de familiaridade com o
contexto de uso do laptop proposto. Assim, por exemplo, em
um dos diálogos, o aluno ao se referir ao jogo em questão
diz:“O difícil é muito fácil”. Em outro diálogo - estabelecido
com o pesquisador que elaborava a filmagem - é possível
verificar que os alunos estavam envolvidos na atividade,
que sabiam o que estavam fazendo ( jogo do Labirinto),
Cenários de uso do laptop na escola: atividades
que realizavam bem a atividade
encaminhadas pelos professores
em duplas (um jogava utilizando o
teclado e o outro acionava botões
Alguns dos vídeos editados abordam atividades
da tela do laptop). Na interação que
encaminhadas com alunos pelos professores em sala
estabelecem no trabalho em dupla,
de aula; evidenciam fatores envolvidos nos cenários
criam estratégias bem definidas
de uso do laptop, temáticas em estudo, dinâmicas de
para obter êxito na “corrida” de
trabalho envolvidas, interações ocorridas entre os alunos,
objetos no percurso configurado pelo jogo. O extrato a
participação de pais e alunos-monitores no apoio prático
seguir ilustra parte da interação ocorrida este contexto:
ao laptop na escola.

92 93
laptop). Nas interações são estabelecidos diálogos
entre os colegas, com os professores, com os visitantes.
É rapidinho!. Nós estamos seguindo um ao Estes diálogos expressam investigações em andamento
outro. ....
Isso não vale! Me espera!. Estou seguindo (hipótese de escrita de uma
atrás de você. Volta pra cá!..... palavra, estratégia de jogo etc).
É um círculo e um quadrado. Eu sou círculo e
Expressam também momentos de
ela é o quadrado.
compartilhamento de conquistas,
dúvidas, percepções sobre o que
O vídeo também releva a diversidade de atividades realizam, sobre o recurso que
que foram possíveis de serem encaminhadas com os alunos utilizam etc.
em um mesmo dia. Há vivências que incentivam a reflexão
dos alunos sobre palavras e maneiras de redigí-las, sendo Há também uma diversidade de contextos e meios
encaminhadas via computador e também via jogo de de expressão (texto, imagem, sons) que possibilitam aos
mesa. Assim o ambiente de aprendizagem é permeado alunos estabelecerem relações, comparações, combinações.
de diferenciados elementos de forma integrada: laptop, Na exploração do aplicativo “Tam, Tam”, por exemplo,
caderno, materiais concretos, cartazes etc. os alunos exploram várias combinações de dois sons
simultâneos: escolhem um som e o timbre, para ser uma
No computador, além de jogos de exploração de base sonora sendo emitida repetidamente, e outro tipo
formas e cores (Implode), de percursos e descolocamentos de som para soar em conjunto. Nestas combinações que
(Labirinto), os alunos gravaram fotos com a câmera do realizam as crianças expressam suas concepções prévias
laptop. Na definição da fotografia, compunham gestos, em relação a determinados instrumentos e sons de objetos,
expressões e buscavam colegas para compor o registro ou características de seus timbres. Este processo exploratório,
para mostrar a imagem gerada. em alguns momentos agrega alguma dança, movimentando
seu corpo enquanto ouve suas composições rítmicas que
Outra atividade realizada pelos alunos destaca o uso estabelecem no aplicativo que utiliza.
do o aplicativo Speak, que possibilita e escrita em um campo
e execução em áudio do que foi redigido. Por estarem em
fase de alfabetização, os alunos exploram várias hipóteses
de escrita, como por exemplo: “eu to fazendo o ABC”, “eu
estou escrevendo Silvio Santos... que é um apresentador de
programa”; “Eu escrevi meu nome... olha... ouve aqui ó”;
“Jean... o seu começa com Jota?”

As interações estabelecidas são múltiplas. É “Este som aqui é assustador”


“A bateria com a guitarra fica assim... “Deixa eu ouvir?”
perceptível o compartilhamento de ideias (como fazer, [criança emite som correspondente]” “Ah! agora eu estou onvindo”
como jogar, como escrever) e de recursos (fone de ouvido,

94 95
O vídeo, novembro de 2011, descrito a seguir coloca
em foco outro contexto prático de uso do laptop na escola.
A atividade em questão, encaminhada pela professora “É um jogo sobre a Branca de Neve. É um jogo difícil e fácil
Silvana Rossi de Educação Física, envolvia a criação de ao mesmo tempo”

um jogo e regras no laptop a partir do uso do editor de


texto. Após a criação dos jogos pelos alunos, as criações
seriam jogadas pela classe na quadra da escola. Participam “O jogo da Branca de Neve. O jogo da Branca de Neve tem
também da atividade a professora Vanessa Pires e alguns que levar ela para o palácio do príncipe e a bruxa vai fazer
muito feitiço e ela vai fazer a armadilha do sapo e dos
alunos-monitores. monstros e no fim do jogo tem os animais fazendo uma
linda festa um lindo beijo de amor no fim.”

Este cotexto releva o trabalho colaborativo entre


dois professores e apoio de alunos-monitores da escola.
“É jogo de pulo. Tem 10 jogadores e tem que por algumas
É também um contexto inclusivo, que integra alunos com coisas para pular.Tipo uma cesta. Aí vai pulando. Quem pular
necessidades especiais na realização da atividade com torto perde um jogador da equipe. E se pular alto ganha um
ponto para a equipe. Depois que os jogadores já terminaram
o uso do laptop, de forma integrada com professores e vê quem ficou com mais pontos e aí vê qual foi a equipe que
colegas. ganhou.”

“O jogo se chama pulos divertidos. O jogo tem que ter duas


equipes. Em cada equipe tem dez jogadores. Cada equipe
fica de um lado da quadra uma das equipes tem que pular e
a equipe que conseguir pular mais alto ganha um ponto e a
equipe que pular torto perde um jogador da equipe quando
todos os jogadores pularem o jogo termina e ve qual a
equipe que conseguiu mais pontos

A atividade encaminhada com os alunos ocorreu em


dois espaços: sala de aula e quadra esportiva da escola.
No vídeo fica em destaque a parte operacional dos Após o término do tempo da atividade na sala, o grupo foi
professores e alunos-monitores de forma a coletar em um para a quadra, podendo assim dar continuidade à escrita
pendrive os textos dos alunos elaborados na atividade. e ao salvamento dos textos no laptop. Neste sentido, este
contexto permite refletir sobre a mobilidade do laptop e
Nos relatos dos alunos a respeito dos jogos que as possibilidades que isso agrega ao contexto educacional:
criaram, pode-se perceber a integração do universo elaboração de textos e troca de idéias ocorrendo na sala
imaginário e a formatação de regras na especificação do de aula e na quadra de esportes; incremento o tempo para
contexto do jogo, dos personagens e ações que realizam: elaboração do trabalho pelo aluno e ocorrendo em espaços
diferenciados e articulados; o dispositivo tecnológico
acompanha o aluno nas atividades que realiza na escola.

96 97
Formação como processo transversal
Maria Cecília Martins, Maria Cecília C. Baranauskas

As atividades de formação encaminhadas no Projeto


estiveram articuladas ao referencial teórico de base desta
pesquisa, em relação a fatores que potencializam processos
de aprendizagem e a construção de conhecimentos. Neste
referencial, considera-se que o conhecimento se nutre
Imagens capturadas dos vídeos das atividades e se desenolve no contexto em que o indivíduo atua,
ou seja, o conhecimento é essencialmente situacional;
que conhecimento e a visão de mundo das pessoas são
Considerações Finais
construídos e constantemente reconstruídos através das
ações que realizam e das interações que estabelecem com
Pode-se dizer que, neste Projeto, o vídeo - utilizado
outras pessoas, bem como com os elementos da sua cultura.
como forma de registro e de compartilhamento de
vivências – em vários momentos, configurou-se como um
Assim, desde o início se buscou envolver os
elemento de referência para a construção de significações
participantes do Projeto no delinemaneto de contextos
do grupo, possibilitou a reconstrução de fragmentos de
práticos e incrementais de uso do laptop no cotidiano escolar.
uma dada trajetória, e a (re)descoberta de ações e espaços
Ao situar uma possibilidade de utilização da tecnologia
construídos no Projeto. O compartilhamento destes
na escola, era possível então encaminhar atividades de
materiais possibilitou inúmeras leituras sobre o contexto
exploração dos recursos e aplicativos existentes no laptop
e nesse sentido contribuiram para um aprofundamento e/
de forma articulada com o que se buscava ensinar, estudar,
ou redimensionamento do assunto, colocado em destaque
investigar com os alunos.
no vídeo ou de determinados fatores que evidenciavam
e caracterizavam uma determinada situação. Pôde-se
Desta forma, as ações de formação iniciais não
também constituir uma referência de identidade coletiva e
foram pautadas em cursos pré-formatados, distribuídos em
de interação do grupo em relação às ações encaminhadas
módulos ou então focados em exploração de aplicativos
na escola.
descontextualizados da ação educacional. Os momentos de
formação desencadeados ao longo do Projeto ocorreram
de forma subjacente a todas as ações encaminhadas
na escola (oficinas semio-participativas, reuniões de
professores e gestores focadas no Projeto, atividades de
alunos-monitores, interações dos pesquisadores com os
professores em atividades de sala de aula, encaminhamento
de atividades de uso do XO em eventos da escola).

98 99
As dinâmicas de trabalho, encaminhadas em situações As primeiras “mãos na massa”
específicas de formação, também foram diferenciadas. A
referência base é que o indivíduo, ao longo de sua vida, A primeira atividade de formação, ocorreu no início
aprende sobre coisas variadas em diferenciadas situações, do Projeto (Oficina 1, junho/2010) em uma “feira”, na qual
integrando e relacionando vários conteúdos, articulando os participantes tiveram os primeiros contatos com o laptop
inúmeras estratégias e formas de atuar. No processo de XO passeando por algumas “estações de trabalho” para
aprendizagem as pessoas são mobilizadas por necessidades realizar ações como editar texto, jogar, gravar imagens,
e interesses individuais e coletivos, assumindo desafios, bater-papo.
enfrentando suas limitações momentâneas e ampliando
suas possibilidades de ação.

Em relação à tecnologia como elemento de nossa


cultura e a incorporação de seu uso no cotidiano escolar, o
referencial de base considera que a sociedade hoje requer Na Oficina 2 ( julho/2010) dinâmicas de trabalho,
aprendizes que não apenas se apropriem das tecnologias, nomeadas de "mão na massa", ocorreram a partir da
mas, principalmente, que as utilizem como recursos para constituição de grupos heterogêneos (professores,
aprender. Com esta ênfase, Papert (1991)1 destaca que a alunos, funcionários, pais, pesquisadores) que interagiam
fluência tecnológica almejada deve estar em termos da na realização de algumas atividades com os laptops,
aprendizagem, do ganho intelectual que o indivíduo possa possibilitando assim elencar vários pontos de vista (foto
adquirir ao utilizar a tecnologia. abaixo). Este encaminhamento para formação difere da
concepção de “cursos” em que é necessário se atingir um
Este texto está organizado de forma a ilustrar três determinado grau de “domínio” da máquina para só então
momentos da formação, de naturezas diferentes: o primeiro começar a pensar o que pode ser realizado na escola. Ou
apresenta o contato inicial dos participantes das oficinas seja, normalmente se
com a tecnologia; o segundo orienta o foco da formação pensa em “instruir” os
para a essência da ação do professor: atividade que usuários na utilização
acha possível encaminhar com os alunos considerando o do laptop e aplicativos
conhecimento atual que tem do recurso (laptop/aplicativos) de forma que após um
e o que quer desenvolver com os alunos (conteúdo, tema); o número determinado
terceiro mostra atividades de formação com destaque para de horas de interação,
um aplicativo (tat art), como este potencializa o trabalho considera-se o aprendiz
cognitivo do aluno, as articulações com conceitos, além apto para realizar seus
de “puxar” reflexões do grupo a partir de leituras e vídeo trabalhos de forma
apresentados. autônoma.
1
Papert, S. (1991). Situating constructionism in Harel, I. & Papert, S. (Eds.)
Constructionism. New Jersey, Ablex Publishing Corporation, p. 1-11.

100 101
As considerações dos participantes sobre a atividade “mão na massa” viabilizam estar na “condição de aprendiz”,
“mão na massa” pode ser considerada na ilustração a seguir: o que possibilita experimentar, criar, explorar possibilidades
e com isso “vislumbrar” contextos relevantes para atuar
com os alunos na escola. Nestes contextos, os participantes
encontraram espaços para experimentar, trocar ideias com
as pessoas, tirar dúvidas, propor soluções. Reconhecem
também que processos de aprendizagem implicam
contextos relevantes que mobilizem a ação dos aprendizes
e também participação, envolvimento pessoal, tempo para
As percepções das pessoas sobre as atividades
realizar novas explorações de forma que cada um se sinta
práticas realizadas ao longo do Projeto ofereciam
cada vez mais autônomo em relação à utilização do laptop
referências sobre os processos de apropriação do grupo em
e aplicativos.
relação ao laptop, ideias emergidas, caminhos percorridos,
identificação de novos desafios. Como exemplo seguem
A formação baseada na construção coletiva de Cenários
algumas das visões expressas em relação às atividades
práticas de uso do XO ocorridas na Oficina 2, logo no
Ainda na oficina 2, outra atividade de formação
início do Projeto: “A reunião esclareceu algumas dúvidas.
previa a proposição de cenários de uso do XO na escola
Interessante utilizar novas ferramentas de ensino. Acredito
pelos participantes (fotos a seguir).
que as grandes dúvidas serão esclarecidas durante o processo
de utilização. A experiência foi boa. Penso que poderíamos
ter mais XO para podermos estudar melhor. Achei bastante
interessante. À medida que vamos conhecendo os aplicativos
do XO já conseguimos visualizar algumas aplicações para
as aulas. Foi uma ótima experiência, sobretudo por estar na
condição de aprendiz. É importante poder antecipar algumas
curiosidades e dúvidas pelas quais nossos alunos irão se
deparar. Novas descobertas. Novas possibilidades”. A definição de cenários de uso do XO fomentava o
envolvimento do grupo em diálogos orientados à projeção
As reflexões expressas pelas pessoas após atividade de ideias do que acreditavam ser possível realizar com
prática de uso do laptop, nos remetem ao processo os equipamentos na escola. Estes diálogos tinham como
de aprendizagem, à construção de significados que pano de fundo as percepções do grupo constituídas nas
ocorrem de forma situada, incremental e articulada a um vivências iniciais com os laptops. Assim, mesmo como
contexto social específico, que devem ser considerados um conhecimento básico dos recursos do laptop e seus
em propostas de formação. Assim, a partir de situações aplicativos, os participantes se mobilizaram para pensar
pontuais e práticas, os participantes identificam que sobre caminhos e possibilidades almejadas pelo grupo
com a articulação da tecnologia na escola, novas para a escola, aos contextos de aprendizagem desejados
possibilidades de ensino são disparadas. As atividades pela comunidade escolar.

102 103
Para nortear a elaboração dos cenários, os grupos Ao explicitar um cenário de uso do laptop na escola,
receberam orientações para detalhar, explicitar o universo os participantes focam na ação que os alunos estariam
de possibilidades idealizadas, com tópicos como: Tema, o realizando, o que seria utilizado, o que mobilizaria a ação
foco do cenário de uso do laptop na escola e fora dela; Título; destes alunos, o que seria necessário e com que propósito
Quem participa do cenário; Quais locais o cenário envolve, educacional a atividade estaria sendo encaminhada.
onde ele ocorre; que ações são previstas; o que as pessoas
estariam aprendendo no cenário projetado pelo grupo. No planejamento dos cenários, é relevante observar
que há uma diversidade de pessoas envolvidas e que
As figuras a seguir ilustram o planejamento de dois colaboram com as atividades (pais de alunos, alunos,
grupos: o primeiro aborda a possibilidade de usar o XO funcionários, professores). Os planos exploram também a
para os alunos explorarem o espaço da escola, e o segundo mobilidade dos laptops possibilitando utilização em vários
especifica questões de consumo relacionadas a casa do espaços da escola (sala de aula, pátio, entorno da escola,
aluno. casa do aluno). Os recursos do laptop são pensados a partir
da atividade que se propõe para os alunos (exemplo: tirar
fotografia da fauna e flora do entorno da escola ou dos
produtos de higiene pessoal utilizados pelo aluno).

Oito foram os cenários projetados na Oficina 2 e, após


reflexão do grupo na Oficina 3, três foram escolhidos para
serem implementados na escola, configurando assim as
primeiras vivências de uso do XO com os alunos. Focar em um
número menor de cenários para iniciar atividades na escola,
considerou o tempo de implementação das ações (1 mês)
e favoreceu o agrupamento de profissionais em contextos
de atuação similar, o que viabiliza o compartilhamento das
conquistas e dificuldades emergidas nesta fase inicial de
apropriação dos aplicativos e dos recursos do laptop.

Agrupados em blocos, os três cenários foram situados


em níveis diferenciados (formal e técnico), alinhando-se
assim com a concepção metodológica do Projeto (ver figura
a seguir). Os cenários da camada informal, por demandar
articulações fora da escola - visitas a parques, ações no bairro
- foram descartados pois requeriam providenciar outras
variáveis (como por exemplo autorização dos pais para uso
dos laptops em casas) que poderiam interferir na execução

104 105
dos planos iniciais, dado o tempo de implementação dos O computador na rua; O bairro na cidade; Um Olhar cidadão,
cenários iniciais de uso dos equipamentos com os alunos. embora diferenciadas, as três propostas se relacionavam.
Os cenários situados na camada formal têm mais ênfase em
questões que partem da escola (Casa do Aluno e Consumo,
Explorando o ambiente da Escola)

A visualização dos cenários nas três camadas tinha


como propósito desencadear uma reflexão mais ampla
sobre a implementação de ações com a tecnologia na
escola. Há a perspectiva técnica, ou seja, o foco da ação
dá ênfase às especificidades da máquina (possibilidades
e restrições), que não podem estar desarticuladas do
contexto maior em que as concepções e implementações
de ideias ocorrem. Há que se pensar também em questões
ligadas à esfera formal, no nível da escola, que - por ser uma
organização formal - tem funcionamento e especificidades
que precisam ser consideradas nas viabilizações dos
contextos de aprendizagem vivenciados pela comunidade
escolar. Outra camada relevante que requer articulação,
refere-se a questões informais, uma vez que se espera
que as ações mediadas pelos laptops causem impactos nas
vidas das crianças, façam relação com o que ocorre com
elas também fora de escola, com a percepção delas sobre
o seu cotidiano.

Apesar dos cenários abrangerem informações


relacionadas às três camadas, foi possível identificar que a
ênfase de cada um dos três cenários estava em uma camada
específica: informal, formal ou técnica. Considerou-se a
camada informal como a articulada mais à comunidade,
ao que ocorre nos espaços fora da escola. Assim três
grupos diferentes elaboraram cenários intitulados:

106 107
Com os cenários planejados e definidos os recursos e pedagógica. Há um exercício de organização da ação para
aplicativos do laptop que seriam utilizados com os alunos, compartilhar com o grupo, de refletir sobre o que é relevante
na Oficina 4 (novembro/2010), nova “mão na massa” ser explicitado, comentado. Neste percurso investigativo,
foi encaminhada com os participantes. Os professores o professor põe em prática, explicita significados e
- organizados em grupos - vivenciaram o uso do laptop concepções educacionais, revela o que considera ser uma
nos cenários planejados. O objetivo desta formação era boa prática pedagógica integrada ao uso da tecnologia
intensificar a familiarização do grupo com o laptop e uma com seus alunos.
maior autonomia em relação aos aspectos técnicos (uso de
aplicativos e recursos do laptop), que seriam necessários Nesta perspectiva, na Oficina 5 (dezembro/2010)
para realizar os cenários com os alunos. os professores apresentaram os primeiros resultados
de utilização do laptop com os alunos através da
As imagens a seguir ilustram momentos da atividade implementação dos cenários planejados anteriormente,
de formação na qual os professores exploravam a câmera em outros momentos de formação. Neste momento
do laptop para produzir fotografias e incluí-las em um texto. do Projeto, professores dos ciclos III e IV, por exemplo,
apresentaram as propostas, percursos e resultados obtidos
com a composição e viabilização de um cenário realizado
por diversas disciplinas a partir de uma mesma temática:
"Consumo".

A proposição e implementação de cenários comuns


Neste novo momento de apropriação dos laptops viabilizaram o encaminhamento de ações conjuntas na
pela equipe, houve resgate de aspectos básicos sobre o exploração inicial de uso do laptop no contexto escola. Desta
equipamento ("Será que a bateria está carregada? Como forma, várias parcelas contribuíram para a constituição
eu verifico isso? Como eu providencio isso?"). O processo de um todo, diferentemente de outros encaminhamentos
de formação transversal implica considerar que estas e pedagógicos, nos quais os conteúdos são encaminhados
outras questões aos poucos vão deixando de ser o foco da na escola a partir da junção de partes pequenas que são
interação à medida que a cultura de uso destas máquinas trabalhadas em cada disciplina.
vai sendo instituida no contexto da escola, à medida que
cada vez mais as pessoas vão realizando atividades com os Demandou um exercício do grupo em enxergar -
novos aparatos tecnológicos. num mesmo cenário - possibilidades de trabalhar um dado
conteúdo entre várias disciplinas, estabelecendo relações
Outro aspecto da formação transversal envolve entre o que é ensinado e o que é vivenciado pelos alunos
promover contextos nos quais as iniciativas, avanços, desafios, em seu cotidiano.
dificuldades possam ser compartilhadas e refletidas pelo
grupo. Neste enfoque, há preocupação de orientar o professor O cenário articulado pelos professores dos
a colher registo de sua prática, documentar, avaliar sua prática ciclos iniciais tinha como foco, por exemplo, verificar

108 109
o entendimento das crianças concretas de que é possível trabalhar um tema, um conteúdo,
sobre o novo espaço da em diferentes níveis (anos/séries/ciclos) escolares, a partir
escola (devido à reforma no de diferentes níveis de apropriação da mesma tecnologia.
prédio sede desta unidade de
ensino). Direcionando o foco Para os alunos dos ciclos maiores (III e IV) alguns
da ação no espaço da escola, trabalhos foram desenvolvidos na temática “consumo”,
as crianças utilizavam o laptop em várias disciplinas. Em matemática, por exemplo, foram
como recurso para expressar encaminhadas atividades na direção de subsidiar o aluno
este entendimento por meio de na construção de seu conhecimento sobre situações de seu
produção de fotografias e textos, cotidiano como olhar em uma conta de luz, as representações
interações estabelecidas entre alunos e professores, trocas gráficas, unidades de medidas, e a partir dos elementos
de ideias, visões, compreensões; um destes momentos está e dados observados, poder então interpretar onde está
ilustrado ao lado. ganhando ou perdendo e que iniciativas pode tomar para
manter ou alterar o estado atual do consumo energético
Em termos de potencial pedagógico, para o aluno em sua residência. O sentido real da matemática na vida
é interessante ver vários professores trabalhando dentro do aluno vai além dele saber fazer as operações e de ter
do mesmo cenário, pois o aprendiz é exposto ao mesmo habilidade de construir tabelas e gráficos. Nesse cenário,
tema sendo trabalhado por perspectivas diferentes: de o professor passa a mediar contextos nos quais este aluno
matemática, da história, do inglês, do português. Para experimenta possibilidades que o auxilie a se apropriar de
os professores também foi relevante, pois possibilitou um dado conhecimento, da vida real dele. Neste exemplo,
ver as relações e encaminhamentos realizados por um construir um gráfico, uma tabela, faz parte do processo de
colega de outra disciplina. As interações estabelecidas interpretação, do entendimento do aluno sobre o próprio
entre as equipes viabilizaram também contextos mais consumo. É aprendizado que o aluno pode carregar para
amplos de troca de ideias, de ajuda mútua, de formulação sua vida, que poderá ativar em outros contextos que
de trabalhos mais articulados, complementares. Em demandem produções de representações, interpretação
termos de formação, agregam-se assim momentos nos de dados. Pode assim construir referenciais que sejam
quais diferentes profissionais passam a vislumbrar novas significativos para suas escolhas, ações, posicionamentos
possibilidades emergidas nos diálogos estabelecidos, na sua vida cotidiana.
na concretização prática das ideias, na observação dos
Em termos de processo de formação, o que é
processos, resultados, na identificação de restrições e
relevante destacar aqui são os resultados relatados pelos
brechas para o estabelecimento de novas articulações,
professores a partir da implementação dos cenários iniciais
ajustes de rotas, percursos, planos.
de uso do laptop na escola. As reflexões dos professores
mais do que focadas em aspectos técnicos e operacionais
Para a escola, este alinhamento de cenários e
do laptop, estavam orientadas para estabelecer diálogos
articulações entre disciplinas e propostas pedagógicas foi
sobre a ação pedagógica e aspectos relevantes no processo
relevante enquanto experiência apresentando referências
de aprendizagem do aluno:

110 111
“eu quero saber se o aluno está entendendo o objetivo da
atividade com a qual ele esteve envolvido neste período
(analisar as contas de luz de sua casa ao longo do ano). Eu
ainda não tenho certeza disso. Por isso é que esta semana a
gente vai sentar e conversar para ver qual foi o entendimento
dos alunos do trabalho proposto, na vivência deste processo.”
Profa Marilda, Oficina 5, dezembro/2010.

Esta mobilização do professor em articular seu


trabalho pedagógico com as compreensões de seus alunos,
nos permite reavivar a ideia de que o processo de construção Neste contexto de formação foram apresentadas
deste conhecimento não termina na construção do gráfico referências aos professores sobre o potencial de cada
e da tabela, também não emerge no contato com o dado aplicativo especificando articulações educacionais. Assim,
que está no livro didático. É um processo dinâmico que é por exemplo, pode-se abordar que ao se utilizar o aplicativo
acrescido a partir da mobilização dos alunos em entender Tart Art – que requer a escrita de um programa utilizando
um dado conceito, fenômeno, em contextos reais, práticos, uma linguagem de programação – há um trabalho cognitivo
situados e próximos ao seu cotidiano, como neste caso, do aluno uma vez que o mesmo precisa “ensinar a tartaruga”
entender em casa o que está acontecendo com o consumo (na tela do laptop) a realizar movimentos, giros, riscos,
de energia elétrica. Todos estes elementos, cenários repetições, etc. (fotos a seguir).
e propostas de trabalho fomentam este processo de
construção do conhecimento e ninguém chega lá sozinho.
É um caminho trilhado em conjunto a partir de espaços
para expressar os entendimentos parciais, as dúvidas, as
conquistas, de cada um, e do grupo como um todo.

Formação localizada e reflexão

O relato a seguir destaca outra configuração de Do ponto de vista educacional, enquanto o aluno
formação: ocorrida em reuniões de professores encaminhadas ensina algo à tartaruga, aprende junto neste processo de
quinzenalmente na escola (figura ilustrativa a seguir). No descrever as ações necessárias. Para ensinar a tartaruga a
segundo semestre de 2011, houve atividades de formação fazer um quadrado na tela, o aluno pensa em deslocamento
envolvendo: práticas de uso do XO e ações de reflexão. e giro, qual ângulo vai utilizar para girar, que distância irá
As dinâmicas de trabalho articulavam aprofundamento especificar para a tartaruga andar na tela. Desta maneira,
dos aplicativos disponíveis no laptop educacional, leituras tendo a tartaruga na tela como elemento de referência, o
de textos e diálogos para compartilhamento de visões do aprendiz desenvolve noções conceituais sobre geometria,
grupo a respeito do uso de tecnologia na escola. enquanto especifica as ações para a tartaruga executar o
desenho. O aluno determina o que a tartaruga deve fazer,
tem um retorno na tela sobre o resultado de sua ação,

112 113
planeja um comportamento para a tartaruga, executa o que educacionais. Raízes estas situadas no construcionismo de
foi planejado e verifica se o plano foi realizado ou não. O Papert, derivado do construtivismo de Piaget. Piaget traz
Computador, como objeto de interação, viabiliza o retorno contribuições para entender os processos mentais e Papert
à ação do aluno que - ao constatar a solução que realizou enfatiza a relação da ação do indivíduo com tecnologia
– verifica se o resultado corresponde ou não ao que ele utilizando os processos mentais. Já Paulo Freire contribui
imaginou realizar. para reflexões sobre o papel do contexto social neste
processo de interação do indivíduo com a tecnologia. Com
A interação do aprendiz neste tipo de aplicação metodologia de “Pesquisa ação participativa”, este autor
disponível no laptop possibilita que a partir de sua ação, destaca a importância do contexto social no processo de
repense o próprio processo de pensar, de planejar a
construção de conhecimento dos indivíduos.
solução, e assim, caminhe em seu processo construção de
conhecimento.
Nos diálogos estabelecidos com os professores neste
encontro de formação, pode-se apreender a visão deles
A partir da ação prática sobre aplicativo e laptop eram
sobre os impactos da tecnologia em diferentes gerações
desencadeadas reflexões do grupo sobre as possibilidades
(“como as crianças se apropriam com rapidez e facilidade
que a tecnologia oferece no contexto educacional, formas de
de tecnologias que para a gente ainda é difícil utilizar” ). E
pensar o computador como algo que possibilita promover
também do papel do professor na mediação da interação
processos mentais dos alunos enquanto estão utilizando o
dos alunos com a tecnologia de forma a propor contextos e
computador e aplicativos como ferramenta.
temas geradores a partir de uma realidade que faça sentido
para os alunos, de forma que os impulsionem, mantendo a
Em um dos encontros de formação, foram
curiosidade de entender o mundo.
desencadeados diálogos com a equipe visando fomentar
o pensamento sobre aspectos relevantes a serem
considerados em um modelo de uso da tecnologia para
benefício da sociedade. As conversas com os professores
foram disparadas a partir da exibição de um vídeo com
diálogos estabelecidos entre Seymour Paper e Paulo Freire,
em evento na PUC-SP em 1995. No vídeo estes autores
discutem a relação entre a tecnologia e a educação,
expressando fundamentos do ponto de vista educacional,
da sociedade. Em relação à formação, este contexto
de reflexão mobilizada os participantes a situarem e
expressarem as visões do grupo a respeito de Tecnologia,
Educação, processos de ensino-aprendizagem.

A partir do vídeo também foram evidenciadas raízes


do Projeto XO em relação ao uso de tecnologia em processos

114 115
XO, novo instrumento, novas regras?
O caso da aula de Ciências
Elaine Hayashi e Priscila Paionk

Incorporar o uso de uma nova tecnologia na prática diária


da sala de aula pode trazer muitos desafios, tanto para
professores como para alunos. Entre esses desafios, fazem
parte não apenas questões técnicas (como por exemplo,
como manusear e dar manutenção para a tecnologia) como
também questões pragmáticas (o que fazer com a tecnologia
em atividades relacionadas com o conteúdo escolar),
semânticas (qual o sentido que pode ser criado com os
usos) e sociais (o que motiva, quais as respostas afetivas e
emocionais, possíveis mudanças no comportamento/regras
ou normas informais).

Nosso objetivo neste texto é exemplificar esse


processo de uso de uma nova tecnologia, narrando as
atividades vivenciadas nas aulas de Ciências de uma turma
do oitavo ano. Além dos exemplos práticos de uso do
laptop XO nas aulas de Ciências, esperamos que o texto
possa contribuir para motivar as comunidades escolares
por meio da identificação do caso de sucesso e do exemplo
de como desafios podem ser contornados com colaboração
e criatividade.

As regras do jogo

Alguém já viu quanta formiga tem dentro de


um formigueiro? São milhares. Para viverem em um
grupo tão grande, as formigas precisam ser bem
organizadas. Cada formiga segue as regras que cabe a
ela e assim, a organização do formigueiro fica garantida.

119
Imagine se cada formiga fizesse o que bem entendesse. O regras bem claras para que não haja mal entendido. Quando
formigueiro viraria uma enorme confusão. Elas poderiam tem aula com o XO, é mais ou menos como quando jogamos
até acabar morrendo de fome, como a Cigarra da fábula “A vôlei com a rede: algumas coisas mudam com a introdução
Cigarra e a Formiga” (La Fontaine, 1992). do novo elemento.

Assim como as formigas, nós também vivemos em O uso de um laptop por aluno em sala de aula é
sociedade e precisamos de algumas regras para garantir uma coisa nova, tanto para alunos, como para professores,
a ordem. Regras existem em todos os lugares: em casa, pais, pedagogos, enfim, para toda a comunidade da escola.
na escola, e até nas brincadeiras e jogos. Não tem como Podemos imaginar o que muda, mas fica difícil saber
jogar um jogo se ele não tiver regras. Vocês conseguem se exatamente tudo o que pode acontecer durante uma aula.
imaginar jogando futebol, com cada um seguindo a regra Isso dificulta o processo de tentar deixar as regras bem
que inventar na hora? Alguns pegariam a bola com a mão, estabelecidas de antemão. É algo que vai sendo aprendido
outros nem usariam a bola. Sem a regra para dizer que o e adaptado conforme a experiência. Como na primeira vez
objetivo do jogo é marcar gol, as pessoas poderiam correr que você jogou vôlei com rede depois de tanto jogar sem
de um lado para o outro, sem direção nem propósito. rede: você deu um toque leve e viu que a bola bateu na
Assim, sem regras, não tem como saber quem ganha. Sem rede. Aprendeu com a experiência e por isso deu o toque
saber quem ganha, não tem como torcer. Que graça tem mais forte.
uma copa sem torcedores? Sem toda aquela emoção e
sofrimento de ver o seu time ganhar de virada? Uma das contribuições deste texto é trazer nosso
relato que exemplifica o uso do XO, enfatizando a
Existem também as regras que são regras, mas que importância das regras e a ciência de que cada contexto
não são oficiais. Às vezes nem chamamos de regra, mas pede suas regras específicas. Também mostramos exemplos
elas também determinam como a gente age. Sabemos que do que fazer com o XO em atividades que façam sentido
elas existem e agimos de acordo com elas, mesmo sem ter para os envolvidos. Isso tudo influencia no resultado da
combinado nada explicitamente. aula: ter uma intenção de fazer algo, ter um objetivo, ter
regras, fazer sentido. Senão vira o futebol sem regras, com
Quando estamos no quintal de casa brincando de toda a sua frustração.
vôlei com o amigo, nem sempre temos uma rede. Jogando
sem rede, tanto faz a altura que a bola sobe. Quando Semântica, pragmática e social
jogamos vôlei em uma quadra que tem rede, a coisa muda.
O toque tem que fazer com que a bola vá mais alto, senão O laptop é um instrumento, tal como o lápis ou o
a bola bate na rede. Repare como a presença ou ausência caderno. Para cada instrumento, existe uma intenção de
da rede fez a gente mudar como a gente age. uso. Normalmente a intenção de uso do lápis é escrever, mas
dependendo da situação, posso usar para cutucar alguém, para
Na escola temos várias regras que nos ajudam a viver enrolar uma “massinha”, para alcançar alguma coisa que caiu
em harmonia. Os professores sempre tentam deixar as debaixo do armário ou para coçar o braço que está enfaixado.

120 121
Existe uma infinidade de utilidades para o lápis, que turma em grupos e cada um pesquisou algo sobre a dengue.
variar com a criatividade ou necessidade de cada um. Pode
ser que funcione, pode ser que não. Posso tentar coçar o Mas qual a diferença entre usar o laptop ou usar um
braço e me machucar, enquanto que outra pessoa pode livro para fazer essa pesquisa? Um livro é bem restrito.
tentar e realmente conseguir se aliviar da coceira. Você só tem informação daquela fonte. Com a Internet,
por exemplo, pode-se ler nos jornais online dados recentes
O XO nasceu nos Estados Unidos. Os pesquisadores de casos de dengue na região. Pode-se consultar sobre a
de lá fizeram o projeto do XO pensando nas crianças de dengue em diversas fontes, comparar informações, ver fotos.
países como o Brasil. Mas não é fácil conseguir, lá de longe, Além disso, o aluno pode ir recortando as informações mais
pensar nos detalhes de como é a realidade no Brasil para relevantes e montando um documento. Qual a diferença
adivinhar quais serão as necessidades de quem vai usar o XO de fazer isso no XO ou no computador do laboratório? O
aqui. As intenções de uso que os pesquisadores americanos computador do laboratório fica lá no laboratório. O aluno
pensaram para o XO podem ou não fazer sentido para nós só vai poder acessar o documento que ele criou se for até
no Brasil. o computador. Mesmo que ele armazene o documento na
Internet ou no pen drive, ele ainda precisa encontrar um
Incluir um instrumento novo na sala de aula não é só computador para ter acesso à informação. Em teoria, sendo
levar para a sala e pronto. É preciso pensar que uso esse um XO por aluno, o XO seria do aluno, então ele poderia
instrumento terá. Esse uso precisa fazer sentido. Pensando tê-lo sempre à mão e retomar quando quisesse.
nisso, a escola toda se reuniu em atividades participativas.
A comunidade toda, trabalhando em conjunto, pensou Na época dessa atividade, os laptops ainda não
em propostas para incluir o XO na escola em atividades ficavam com os alunos o tempo todo. Cada aluno tem um
interdisciplinares. Ou seja, uma mesma atividade, servia XO designado para ele, mas ficar com o XO em tempo
para várias disciplinas diferentes, passando uma ideia de integral era uma responsabilidade que os alunos ainda
trabalho conjunto. Mas isso é assunto para outro texto iriam ter que conquistar. Essa é uma das regras que foi
deste livro. criada com base em uma realidade específica da escola.
Provavelmente quando os criadores do XO fizeram a
Um dos temas deste ano na escola é saúde. Na proposta de um computador por aluno, eles não pensaram
época desta atividade, a escola estava com alguns casos em alguns problemas enfrentados na escola, como a
de alunos com dengue. Aproveitando esses dois ganchos, comoção exagerada dos alunos de terem um laptop, o
a proposta de uma aula de Ciências foi pesquisar sobre a vandalismo por parte dos próprios alunos usuários do
dengue: como ela é transmitida, quais os cuidados, quais laptop, falta de segurança nas ruas, indisciplina e violência
são os sintomas. Fez muito mais sentido para os alunos na sala de aula e em casa.
pesquisarem sobre a dengue nesse contexto, buscando
descobrir mais informações sobre algo que fazia parte A imagem (interpretação, sentido) que se pode ter
da vida deles naquele momento. O laptop, conectado à do XO é a de uma ferramenta que tem o potencial de
Internet, facilitou essa pesquisa. A professora dividiu a contribuir nos processos de construçãode conhecimento.

122 123
Outra imagem que se pode ter, é de uma fonte de distração ainda precisam ser estabelecidas e colocadas claramente.
e desculpa para não estudar. Talvez uma imagem mais Ao longo do uso, o grupo vai adaptando essas regras,
produtiva fosse a de uma forma de lazer que permite modelando-as de acordo com as necessidades desse grupo
que a pessoa se divirta e, ao mesmo tempo, construa
conhecimento. A imagem do XO está sendo construída O entendimento que se tem do laptop e de seu uso
informalmente por todos da escola. influencia a prática, que por sua vez influencia as regras.
Ao mesmo tempo, as regras influenciam a prática, que
A resposta em relação ao laptop pode ser diferente influencia o entendimento. É um ciclo virtuoso que um dia,
de acordo com a imagem dominante construída para ele. esperamos, nos levará ao ponto que o laptop será como
O XO pode ser visto como algo divertido e prazeroso, o lápis: será um instrumento transparente e não haverá
fazendo com que os alunos respondam de forma positiva: discussão sobre poder ou não levá-lo para casa.
gostam, estão empolgados com o uso, querem conhecer
mais, sentem-se à vontade para usar. Mas também pode A ideia de pensar nas questões pragmáticas,
ser visto como gerador de mais tarefas enfadonhas. Nesse semânticas e do mundo social (além das questões
caso a resposta provavelmente seria negativa: não gostam, tecnológicas do mundo físico) em Sistemas de Informação
ficam entediados com o uso, não têm vontade de conhecer veio da Semiótica Organizacional de Stamper (Liu, 2000). O
mais. Assim, a resposta afetiva em relação ao laptop vai e vem de um lado para o outro, iniciado pela introdução
também pode ser produto da construção feita pelo grupo de um novo artefato tecnológico no contexto cultural de
social que utiliza o laptop. um grupo social, começa com Hall (1959), sendo que uma
proposta mais enxuta pode ser lida em Pereira et al., (2010).
Lembram-se dos usos que podemos fazer do
lápis? O lápis também poderia ser usado como uma arma Tecnologia como ferramenta para a aula de Ciências
para apunhalar e ferir alguém. Isso poderia gerar medo
nas pessoas em relação ao lápis. Hoje em dia, pessoas Começo de ano na escola é sempre uma festa.
escrevem tanto textos lindos quanto chatos, desenham Pessoas se reencontrando, material novo, ideias novas. A
imagens maravilhosas ou tenebrosas com o mesmo lápis, professora de Ciências já conhecia a turma do oitavo ano,
mas ninguém mais atribui ao lápis o sentimento que o mas fazia tempo que ela não dava aula para eles.
resultado produzido com ele evoca. O lápis tornou-se uma
No primeiro dia de aula de Ciências do ano, a
ferramenta tão comum, que ninguém mais se preocupa com
professora começou as atividades com uma dinâmica
ele. É como se fosse um instrumento invisível, transparente.
para animar a turma e colocá-los para pensar. Depois ela
As regras passam a ser tão óbvias que não precisam mais
esclareceu para todos como seriam as aulas. A experiência
ser esclarecidas. Por exemplo, é difícil ouvir alguém dizer:
da professora no magistério mostrou que acordar as regras
“é obrigatório trazer o lápis para a escola todos os dias”.
com os alunos logo no começo facilitava o andamento das
dinâmicas de aula. A turma do oitavo ano, composta por
Como o laptop XO é algo novo, o entendimento que
alunos com idade em torno dos 14 anos, era uma turma
se tem dele ainda está sendo construído e as regras de uso
com muita energia e cheia de ansiedade.

124 125
A primeira atividade com o laptop XO levou
algum tempo para ser preparada. Inicialmente, foi feito
um levantamento das atividades existentes para o XO
relacionadas com o tema da aula: “células”. O Scratch é
uma atividade que já vem instalada no XO e trabalha com
comandos de programação. A partir do Scratch é possível
criar diversos tipos de atividades e compartilhá-las com o
mundo através da página do Scratch na Internet. Foi nessa
página (http://scratch.mit.edu) que encontramos várias
atividades relacionadas com as células. A atividade que
mais chamou a atenção, por sua apresentação e clareza,
exercitava o conhecimento dos nomes dos componentes Figura 1 - Telas da atividade original e da atividade adaptada.
da célula. Seria a primeira vez, naquele ano, que a turma usaria
o laptop. Durante as férias, a escola fez um levantamento
A tela principal da atividade era a imagem de uma de todos os laptops e redistribuiu para todas as turmas. A
célula. A proposta era nomear cada componente da célula. aula com o laptop começou, então, com a designação de
O aluno poderia verificar seus acertos ou erros quando um laptop para cada aluno. Enquanto a professora chamava
quisesse: ao clicar em “check”, a atividade anunciava a um por um para entregar o laptop, a pesquisadora (para
quantidade de acertos e tirava os nomes que estivessem entender o papel da pesquisadora como participante das
incorretos. Só que a atividade estava em inglês e trabalhava aulas, veja o relato do texto “Com XO e com afeto: um
menos conteúdo do que a professora esperava. Isso não foi turista na sala de aula“) ia organizando os carregadores e
um obstáculo para usar a atividade. Trocamos a imagem filtros de linha pela sala. Os laptops haviam sido carregados
da célula por uma que a professora já tinha, com mais previamente, mas a duração de uso poderia ultrapassar a
organelas1 . O texto e o som, que estavam em inglês, foi capacidade das baterias, justificando os filtros de linha.
trocado por equivalentes em português. Aproveitamos e
adaptamos a abordagem. Na versão original, os comentários Antes de começar a atividade, a professora conversou
do áudio desafiavam o aluno de maneira sarcástica, com a turma sobre a oportunidade que a escola estava
zombando dos erros. Trocamos por comentários mais tendo de usar o laptop. Foi muito triste ver, durante o
motivadores, apontando que faltava pouco para acertar levantamento feito nas férias, o estado de alguns laptops,
todos os nomes. Depois disso, instalamos, com a ajuda dos que estavam pichados e quebrados. Também antes de
alunos monitores (ver mais sobre os alunos monitores no começar a atividade, a professora relembrou algumas
texto correspondente), a atividade em todos os laptops da coisas básicas do uso: como entrar no SUGAR 2 e como abrir
turma do 8º ano. A Figura 1 mostra como era a atividade e a atividade. Os esclarecimentos dados antes de iniciar a
como ela ficou depois da nossa adaptação. atividade ajudaram a controlar a ansiedade da turma e a
diminuir o trabalho da professora.
1
Organela: estrutura encontrada no citoplasma das células 2
SUGAR: Interface gráfica do XO

126 127
Todos os alunos fizeram a atividade proposta e não adaptar atividades pode parecer complicado no início,
se via nenhum aluno distraído com outras coisas. Eles mas com poucas horas de uso já é possível aprender. A
estavam concentrados tentando acertar todos os nomes. A vontade de descobrir, somada à resposta imediata do
resposta imediata que a atividade proporcionava ajudava Scratch, motivam os alunos a continuar tentando. Nessas
aos que ainda não estavam acostumados com os nomes tentativas, com os erros e acertos, os alunos podem criar a
das organelas celulares. Foi interessante notar a diferença compreensão das sequências de comandos que compõem
entre a aula com e sem o laptop. Uma atividade semelhante a programação.
havia sido proposta algumas semanas antes, mas sem o
laptop. Um dos exercícios do livro dos alunos consistia No exemplo que contamos, usamos uma atividade que
exatamente em nomear as organelas celulares. A atividade estava pronta e disponível na internet. Bastou adaptarmos
foi feita sem muita animação, em silêncio e alguns paravam para nosso idioma e conteúdo. Outra possibilidade seria
no meio para fazer outras coisas. Feita a atividade, não os alunos criarem suas próprias células. Eles poderiam
sobrava outra escolha a não ser esperar pela correção. desenhar, montar com partes já prontas vindas de outras
Com o laptop, ao contrário, eles estavam empolgados, fontes, fotografar imagens do livro, pegar trechos de vídeos
comentando, tentando descobrir e aprender. da internet, etc. As possibilidades são inúmeras. Dá para
montar um conto, um jogo, uma história em quadrinhos, um
Os alunos saíram da sala de aula contando para os vídeo. Se ficar muito complicado e não tiver mais ninguém
colegas de outras salas como tinha sido a atividade. Entre que consiga ajudar na escola, existe a possibilidade de
os depoimentos, palavras como “muito legal”, “adorei”, “tem publicar na internet até onde ele conseguiu chegar e pedir
que ter sempre” foram constantemente usadas. ajuda. Isso poderia ser feito tanto em fóruns online como
na página do Scratch. A comunidade brasileira usando o
Colocar os nomes nas células é apenas uma pequena
Scratch ainda está um pouco tímida, mas está ganhando
parte do que pode ser desenvolvido com a atividade.
cada vez mais força.
Com um pouco mais de tempo disponível, seria possível
entender a lógica da atividade, como ela foi “programada”,

e mudá-la. O aluno poderia, por exemplo, personalizar a
Considerações finais
atividade, colocando sua voz nos comentários, trocando a
música de fundo, entre outras coisas.
Neste texto, vimos um pequeno exemplo de como
Desafios e colaboração uma nova tecnologia pode ser incorporada em um grupo
social. Novas regras são criadas para organizar o seu uso.
A atividade que acabamos de descrever foi feita em O crescimento do uso cria novas práticas que dão sentido
uma parceria da professora de Ciências, da pesquisadora a essa nova tecnologia. Por outro lado, a compreensão
participante e alunos monitores. A participação da que se cria gera novas práticas que pedem novas regras.
pesquisadora ajudou, mas não foi vital. Tanto alunos Nesse vai e vem, vamos construindo uma cultura em
monitores como os alunos da turma também poderiam relação à nova tecnologia. É um processo único, carregado
ter feito o que ela fez. Usar o Scratch para criar ou de especificidades daquele grupo social. Ainda assim,

128 129
esperamos que a nossa experiência possa servir para RPG na Aula de História
inspirar outros grupos. Alguns professores podem achar
desafiador pensar em atividades para usar o laptop. Outro Vanessa R. M. L. Maike e Marcos Ramos
desafio é aplicar a atividade. Tentamos mostrar neste texto
que esses desafios podem ser vencidos com a colaboração Um dos maiores desafios para os professores do ensino
(de alunos ou comunidades online). Também tentamos público é motivar os seus alunos e ajudá-los a compreender a
enfatizar a importância de conversar com os alunos e fazer importância ou a utilidade daquilo que está sendo ensinado
acordos. na sala de aula. Muitas vezes, é difícil mostrar para os alunos
que o conhecimento adquirido na escola vai além das notas
Referências e das provas. Os jogos educacionais se configuram como
uma solução para este problema, pois são naturalmente
Hall, E. T. (1959) “The silent language”, Anchoor Books. estimulantes, devido ao seu caráter lúdico, e, ao mesmo
tempo, oferecem aos alunos a oportunidade de construir
La Fontaine, J. de. (1992) “Fábulas de La Fontaine”, Belo o seu próprio conhecimento de uma maneira diferente
Horizonte: Itatiaia. da convencional. Neste texto, relatamos a experiência da
aplicação de um jogo de RPG, sigla para Role Playing Game
Liu, K. (2000) “Semiotics in Information Systems and (ou Jogo de Interpretação de Papéis), durante algumas
Engineering”, Cambridge University Press. aulas de História. Nas atividades aqui descritas, utilizamos
o laptop XO como apoio tecnológico, com o intuito de
Pereira, R., Baranauskas, M.C.C. e Silva, S.R.P. (2010) “A descobrir as funcionalidades mais importantes para uma
Discussion on Social Software: Concept, Building Blocks ferramenta de autoria de jogos de RPG educacionais.
and Challenges”. International Journal for Infonomics (IJI).
ISSN 1742 4712. Vol. 3(4), pp.533-542. Introdução

Uma criança sentada em frente à televisão. Nas mãos,


um controle cheio de botões coloridos. No rosto, uma visível
e profunda concentração. Os olhos mal piscam enquanto
as imagens vibrantes correm pela tela e os ouvidos não
captam nada além do barulho que sai da televisão.

Hoje em dia, é bastante provável que, para muitas


pessoas, esta seja a primeira imagem que vem à mente
quando ouvem a palavra “jogo”. Não é de se admirar,
visto que a indústria de jogos eletrônicos movimenta
milhões de dólares anualmente. Entretanto, neste texto
estaremos falando de um tipo diferentede jogo, que é,

130 131
na verdade, o precursor de muitos dos jogos eletrônicos de
hoje em dia. Ele é diferente porque não exige o computador
para ser jogado. Na verdade, ele não requer muito mais do
que papel, lápis, borracha e imaginação. Além disso, ele
também exercita diversas habilidades como leitura, escrita,
interação social e trabalho em grupo. É por estes e outros
motivos que o tipo de jogo ao qual estamos nos referindo,
conhecido pela sigla RPG, é visto como uma poderosa
ferramenta educacional. Ficou intrigado sobre como ele
funciona? Então continue lendo para saber mais.

O que é RPG?

A sigla Role Playing Game (RPG) pode ser traduzida


do Inglês como “Jogo de Interpretação de Papéis”, o que já
é um bom indicativo sobre como esse tipo de jogo funciona.
Os jogadores interpretam os protagonistas de uma história,
isto é, eles devem pensar e agir como esses personagens
pensariam ou agiriam. As ações, entretanto, são apenas Figura 1. Da esquerda para a direita, dados com 6, 8, 10 e 20 faces.
faladas, e não efetivamente realizadas. Por exemplo, se
um dos jogadores quer que seu personagem pule, ele não Além dos dados, a grande maioria das regras dos
deverá pular, mas sim descrever como o personagem faria jogos de RPG exige também que um dos participantes
esse pulo. exerça o papel de Mestre, que deverá atuar como o roteirista
e narrador da história, e também como árbitro do jogo. Isto
Como o RPG é um jogo, ele precisa de regras para significa que é ele quem deverá julgar o grau de sucesso
funcionar corretamente e evitar brigas entre os participantes. ou até mesmo a viabilidade das ações que os jogadores
Em geral, os jogos de RPG tem um livro de regras e, para querem que seus personagens realizem. Entretanto, parece
jogar, tudo o que os jogadores precisam é esse livro, papel, que o Mestre tem controle demais sobre o jogo, o que
lápis, borracha, imaginação e, eventualmente, dados. Por pode ser um pouco injusto, não é? Pois é aqui que entram
dados, nos referimos aos poliedros com diversas faces, os dados mencionados anteriormente. Eles introduzem o
numeradas de um até o número total de faces. O dado elemento da aleatoriedade, isto é, ao jogar um dado você
mais conhecido é o de seis faces, mas existem outros tipos, não sabe com antecedência que número vai sair. Mas como
como mostra a Figura 1. isso ajuda a diminuir o poder do Mestre? O exemplo da
Tabela 1, que ilustra como funciona a mecânica da maioria
dos jogos de RPG, responde essa pergunta.

132 133
Tabela 1. Exemplo de partida de RPG. Do exemplo da Tabela 1, podermos retirar duas
informações importantes. A primeira é a dinâmica básica
INTRODUÇÃO do jogo de RPG, ilustrada pela Figura 2.
Quatro pessoas reúnem-se em torno de uma mesa para jogar RPG. Chamaremos o
Mestre de M e os demais jogadores de J1, J2 e J3. A história que será vivenciada neste
jogo já foi previamente escrita por M. Os jogadores, por sua vez, já criaram cada um seu
personagem, conforme ilustrado a seguir.
JOGADOR PERSONAGEM
J1 P1
J2 P2
J3 P3
INÍCIO DA PARTIDA
O jogo começa com M contando o início da história que criou. Por exemplo: “Europa, 420
D.C. Andando apressadamente pelas ruas enlameadas de uma cidadela, um cavaleiro
durão (P1) se dirige à taverna local para cobrar uma dívida em nome de seu senhor. Ao
entrar no estabelecimento, depara-se imediatamente com o alvo de sua busca (P2), um Figura 2. Fluxo básico de um jogo de RPG.
homem com fama de aproveitador. P1 caminha com determinação até P2 e, sem querer,
tropeça em um camponês bêbado (P3) que estava caído no chão da taverna.” Neste
A segunda informação é a de que as características
momento, M pode pausar a sua narrativa e pedir para que J1 diga o que P1 fará a seguir.
AÇÃO DO JOGADOR dos personagens precisam estar descritas de alguma
Se o jogador não souber ou estiver em dúvida, poderá pedir conselhos a J2, J3 ou até a forma, para que o Mestre consiga definir as classes de
M. Neste caso, o papel do Mestre será enunciar algumas das possibilidades de escolha dificuldade das ações dos personagens. A chamada “Ficha
que P1 tem na cena. Por exemplo, M poderia dizer que P1 pode ignorar o bêbado e
dirigir-se diretamente ao homem que estava procurando, ou então poderá ajudar o
de Personagem” contém todas as informações relevantes
bêbado a levantar-se, removendo-o do caminho. J1 tem a liberdade de ignorar sobre um personagem. Em geral, ela consiste em uma
completamente esses conselhos e decidir que seu personagem P1, sendo muito durão e folha de papel com determinados campos que precisam
impaciente, levantará o bêbado pelo colarinho para dar uma bronca nele.
ser preenchidos. Esses campos auxiliam na caracterização
AVALIAÇÃO DO MESTRE
Apesar de P1 ser forte, o bêbado é relativamente pesado, por isso M estabelece que
do personagem. (Figura 3)
levantá-lo é uma ação de dificuldade média e pede que J1 jogue um dado para verificar
se P1 conseguirá erguer o bêbado ou não. Suponha que, neste jogo, são utilizados Note que na Ficha de Personagem da Figura 3,
dados de seis faces. Assim, para superar uma ação de dificuldade média, um jogador
retirada do livro “O Desafio dos Bandeirantes”, existem
precisa tirar um número maior do que 3 no dado. Logo, para que P1 consiga levantar o
bêbado, J1 deve tirar 4, 5 ou 6 no dado. Se J1 tirar 1, 2 ou 3, significa que P1 falhou na campos preenchidos com texto, como “Nome” e “Raça”,
ação. Em qualquer um dos dois casos, depois da rolagem de dados M traduzirá o e outros preenchidos com números, como “Força” e
resultado numérico para a forma de narrativa. Por exemplo, J1 tira 2 no dado e M, então, “Inteligência”. Esta ficha também possui uma lista das
diz: “Furioso, P1 se abaixa e pega o bêbado pelo colarinho. Quando tenta levantá-lo,
entretanto, ele não suporta o peso e cai de costas no chão. Ouve um coro de risadas
“Habilidades” do personagem e de seus pertences,
debochadas se espalhando por toda a taverna.” como “Dinheiro”, “Armas” e “Objetos pessoais”. Todas
PRÓXIMA CENA essas informações auxiliam o Mestre a verificar se o
Agora, M precisa envolver os outros jogadores na narrativa também. Poderia, assim, personagem consegue realizar determinadas ações
passar a palavra para J2 dizendo: “P2 está um pouco longe da cena, mas presencia o
cavaleiro caindo no chão. Reconhece-o como servo de um dos homens aos quais deve e a estimar quão difícil será realizá-las. Por exemplo,
dinheiro. Diante disso, P2 faz o que?”. O jogo se desenrolará desta forma até atingir a suponha que o personagem, representado pela Ficha de
conclusão da história. Personagem da Figura 3, está sendo interpretado por um

134 135
seu personagem utilizasse uma pistola, o Mestre poderia
imediatamente descartar essa possibilidade porque este
item não consta na lista de “Armas” da Ficha de Personagem.

O exemplo de ficha de personagem, ilustrado na


Figura 3, não necessariamente diz respeito a todos os jogos
de RPG. Existem centenas de livros de RPG no mercado e
cada livro adota fichas de personagem diferentes. Podemos
dizer que, em geral, quando mais complexas as regras de um
livro de RPG, mais complicada será a ficha de personagem.
Para entender melhor, veja os exemplos a seguir.

Figura 4. Ficha de personagem do jogo “Lady Blackbird”(Harper 2012),


em branco e preenchida .

A Figura 4 mostra a ficha de personagem do jogo de


RPG chamado “Lady Blackbird”. Comparando-a com a Figura
3, que mostra a ficha de personagem do jogo “O Desafio dos
Bandeirantes”, é possível notar a diferença na quantidade e
no tipo de informações presentes nas fichas de cada jogo.
Por um lado, a ficha da Figura 3 tenta descrever o máximo
Figura 3. Exemplo de uma “Ficha de Personagem”, do jogo “O Desafio dos possível de características do personagem, utilizando-
Bandeirantes” (Pereira et al. 1992). se de detalhes com os quais o Mestre e os jogadores
jogador durante uma partida de RPG. Suponha também provavelmente terão que se preocupar durante as aventuras
que, em determinada cena, o jogador decide que seu deste jogo. Por outro lado, a Figura 4 exibe uma ficha mais
personagem atacará alguém com uma faca. O Mestre minimalista, com poucos detalhes sobre o personagem.
saberá que o ataque é possível, já que na lista de “Armas” Note que, além do nome do personagem e do jogador,
da Ficha de Personagem há uma faca, e saberá que é uma existem três tipos principais de informação: características,
ação difícil, pois a “Habilidade” desse personagem em “Luta condições e “chaves” ou “segredos”. Cada característica
com faca” é baixa (20 em 100). Caso o jogador quisesse que tem um nome próprio e uma descrição bastante sucinta.

136 137
Se compararmos com a ficha da Figura 3 veremos que o A Figura 5 ilustra a ficha de personagem de um
que em “O Desafio dos Bandeirantes” é classificado como jogo de RPG chamado “Mutantes e Malfeitores”, no qual
habilidade, em “Lady Blackbird” é chamado de característica. os jogadores interpretam super-heróis, similares aos das
As condições são as caixas de marcação presentes no histórias em quadrinhos. Note que essa ficha tem duas
inferior da ficha e indicam um ou mais estados nos quais páginas e, portanto, requer muito mais detalhes do que a
o personagem se encontra em determinado momento da ficha exibida na Figura 3, que possui apenas uma página.
aventura (por exemplo, “Ferido” ou “Cansado”), algo que Podemos observar que em “Mutantes e Malfeitores”,
não aparece na ficha da Figura 3. As “chaves” e os “segredos” o jogador, ao criar seu personagem, precisará pensar
são objetos ou ações específicos do jogo “Lady Blackbird”, e em muito mais aspectos do que no jogo “O Desafio dos
cada um possui também um nome e uma descrição sucinta. Bandeirantes”. Por exemplo, ele terá que imaginar uma
Portanto, por meio deste exemplo, notamos que a ficha de história de origem para o personagem, seus defeitos
personagem é um reflexo das regras descritas no livro de (desvantagens) e sua representação visual (desenho). Essas
RPG, e que estas variam bastante de livro para livro. informações enriquecerão a história da aventura e, ao
mesmo tempo, guiarão o mestre e os jogadores a respeito
Da mesma forma que o jogo “Lady Blackbird” do que um personagem pode ou não fazer durante uma
possui uma ficha de personagem mais simples do que “O partida de RPG.
Desafio dos Bandeirantes”, existem jogos com fichas mais
Portanto, todos esses exemplos mostraram não
complicadas, como mostra a figura a seguir.
só que existem diferentes maneiras de representar um
personagem, mas também que essas representações
influenciam nas aventuras vivenciadas pelos jogadores
durante as partidas de RPG.

Para finalizar a definição de RPG, dois aspectos


importantes precisam ser destacados. O primeiro é que,
ao contrário de muitos jogos, o RPG não é baseado na
competição. Ao contrário, ele incentiva a cooperação, pois,
em geral, os jogadores precisarão trabalhar juntos para
atingir um objetivo em comum, estabelecido pelo Mestre no
decorrer da narrativa. O segundo aspecto a ser ressaltado é
a criação da história da aventura. Foi mencionado no início
do texto que o Mestre atua como roteirista e narrador, mas
isto significa que apenas algumas partes da história estão
pré-definidas. O restante será determinado pelas escolhas
e ações que os jogadores fizerem durante a partida. Em
Figura 5. Ficha de personagem do jogo “Mutantes e Malfeitores” suma, o RPG é um jogo que permite que jogadores criem, de
(Kenson 2008).
maneira colaborativa, uma história para seus personagens.

138 139
RPG na Educação os personagens da narrativa precisam trabalhar juntos. Isto
significa que os grupos terão que conversar entre si para
A partir de tudo o que foi descrito até agora, é possível decidir o que é melhor para todos os personagens.
notar que os jogos de RPG promovem a imaginação, a
leitura, a expressão, a interação e o trabalho em grupo. Por O valor educacional dos jogos de RPG está não
conta destes benefícios, os jogos de RPG são considerados apenas nos benefícios da própria modalidade do jogo,
excelentes ferramentas educacionais. É possível, inclusive, mas também no conteúdo que o Mestre decidir colocar na
utilizá-los como técnicas de ensino, dentro da sala de aula. aventura.

Como seria uma partida de RPG numa sala de aula? Por exemplo, um professor de Matemática pode
Quem assumiria o papel do Mestre e quem seriam os embutir na própria história desafios matemáticos que
jogadores? É bastante razoável imaginar que o papel do os jogadores precisarão vencer. Ou então, um professor
Mestre combina perfeitamente com o papel do professor, de Literatura pode fazer com que seus alunos vivenciem
já que ele criará a história e guiará os jogadores por ela, a narrativa de um livro. É possível até misturar várias
orientando-os sobre o que pode ou não ser feito. Então, disciplinas em uma mesma aventura, trabalhando, assim, a
quem interpretaria os personagens desta história? Ora, interdisciplinaridade.
naturalmente que seriam os alunos. A dúvida que resta,
portanto, é a seguinte: numa sala com mais de 10 alunos, No relato que faremos a seguir, contaremos sobre a
como gerenciar uma partida de RPG que envolva a turma experiência de utilizar o RPG para ensinar História do Brasil
inteira? para alunos do 8º ano da EMEF Padre Emílio Miotti, no ano
de 2012.
Bem, uma prática comum é dividir os alunos em
grupos e fazer com que cada grupo fique responsável por Relato de Experiência
um dos personagens da trama. O grupo deverá, também,
eleger um porta-voz. Assim, durante uma partida, quando No início do ano letivo, comparamos o conteúdo
o Mestre passar a palavra para um grupo, eles deverão de História que seria lecionado no primeiro trimestre com
discutir entre si sobre o que o personagem deverá fazer, alguns livros de RPG já existentes, contextualizados dentro
chegar a um consenso e, então, deixar que o porta-voz de algum período histórico específico. Dentre as opções,
comunique a decisão final ao Mestre. Portanto, o fluxo tínhamos jogos ambientados na 2ª Guerra Mundial, na
básico de jogo ilustrado pela Figura 2 é mantido. A única Era Medieval, na época do descobrimento do Brasil e no
diferença é que em vez de “Jogador”, teremos um “Grupo período do Brasil Colonial. Optamos pelo último porque ele
de Jogadores”. seria lecionado aos 8ºs anos. Portanto, escolhemos utilizar
o livro de RPG chamado “O Desafio dos Bandeirantes”
Por meio desta dinâmica de jogo, os alunos exercitarão (Pereira et al. 1992), ambientado na fictícia Terra de Santa
o trabalho em grupo, a interação social e a argumentação, Cruz, baseada no Brasil colonial.
não só porque terão que decidir o que é melhor para o
personagem interpretado pelo grupo, mas também porque Selecionado o período histórico e a turma, faltou

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planejar o conteúdo da narrativa. Optamos por utilizar Cada grupo sorteou um dos
a aventura pronta que o próprio livro de RPG oferece. personagens da Tabela 2 e recebeu,
Aproveitamos também algumas das fichas de personagem então, a ficha de personagem
preenchidas presentes no livro. Para oferecer mais correspondente. Cada porta-voz
diversidade aos jogadores, selecionamos personagens de leu as informações principais de
raças diferentes. Dentre as cinco raças descritas em “O sua ficha depersonagem e as
Desafio dos Bandeirantes”, selecionamos quatro: branca, dúvidas foram resolvidas. Por
indígena, negra e mestiça (mistura entre branca e indígena). exemplo, esclarecemos o que Figura 6. Grupos de alunos
O livro propõe também nove diferentes profissões, das quais é destreza e como ela afeta o durante a aventura de RPG.
escolhemos cinco. Raça e profissão são apenas algumas personagem durante o jogo. Foi um começo difícil porque
das informações possíveis a respeito de um personagem os alunos ficaram impacientes para que o jogo começasse
em “O Desafio dos Bandeirantes”, conforme já explicamos logo. Mas quem não ficaria, não é mesmo?
anteriormente. Para conferir uma ficha de personagem
Esclarecidas as regras e as fichas de personagem,
completa deste jogo, veja a Figura 3. A seguir, a Tabela 2
começou a narrativa da aventura. Em geral, quando um
sintetiza as informações principais sobre os personagens
Mestre vai criar a história de uma aventura, ele a divide
selecionados para a atividade.
em “situações-chave”. Como já foi dito antes, apenas parte
PERSONAGENS
do roteiro de uma aventura de RPG é pré-definido, e o
NOME RAÇA PROFISSÃO

Fernão Dias da Rocha Branca Bandeirante


restante será resultado das ações dos personagens dos
Padre Bernardo Branca Jesuíta jogadores durante a partida. Portanto, as “situações-chave”
Huarí Indígena Pajé
nada mais são do que os momentos principais da aventura,
Pedro Jaguanã Mestiça Rastreador

Lumumba Negra Feiticeiro


aqueles pelos quais o Mestre tem certeza que os jogadores
terão que vivenciar, até para que a história tenha sentido
Tabela 2. Informações sobre os personagens.
ou trabalhe os conteúdos educacionais desejados.
Com todos os elementos da atividade preparados, o
primeiro passo foi apresentar o jogo de RPG aos alunos da A aventura pronta do livro “O Desafio dos Bandeirantes”
turma escolhida (8ºA). A atividade completa durou um total está dividida em três situações-chave principais. Cada uma
de cinco tempos (de 1h 40mins cada), sendo que mais da descreve o cenário no qual os jogadores estarão e tenta
metade do primeiro tempo foi dedicada à explicação sobre prever o resultado de determinadas ações. Por exemplo, na
o que é RPG e como se joga. Primeiro, os alunos receberam primeira situação-chave, a fazenda devastada, um jogador
um texto de duas páginas que nada mais era do que a que olhasse para cima veria urubus sobrevoando o local.
introdução do livro “O Desafio dos Bandeirantes”. Lido o Caso ninguém quisesse que seu personagem olhasse para
texto, eles foram divididos em grupos de aproximadamente cima, o Mestre não necessariamente teria que contar sobre
cinco alunos. Cada grupo elegeu um porta-voz e um os urubus. Isto evidencia outro aspecto do RPG que ainda não
redator. O redator ficou responsável por escrever a história havia sido mencionado: é bastante comum o Mestre permitir
da aventura do ponto de vista do personagem do grupo. que seus jogadores tentem explorar os locais com seus
Para isto, o redator recebeu um laptop XO.

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personagens, para descobrirem certos detalhes por si A vivência da aventura durou um total de três tempos.
mesmos. Desta forma, a narrativa fica mais envolvente e A maioria dos alunos pareceu satisfeita com a atividade e
até misteriosa. com o sucesso de seus personagens em finalizar a missão.
Dois momentos durante a aventura foram dignos de nota,
A Tabela 3 reúne a descrição das situações-chave do ambos dentro da situação-chave do “Entreposto Comercial”.
livro, já com as decisões dos jogadores durante a atividade. O primeiro momento foi logo que os personagens chegaram
Ela contém, portanto, um resumo completo da narrativa ao entreposto comercial e foram recebidos pelo homem
construída juntamente com os alunos. rude e preconceituoso. Quando ele ofereceu-se para
Tabela 3. Roteiro completo da aventura. comprar os personagens de outras raças que não a branca,
1ª SITUAÇÃO-CHAVE: A FAZENDA alguns alunos não entenderam que aquilo significava uma
Os aventureiros estão procurando emprego na cidade de Piratininga, onde descobrem que um forma de preconceito e aceitaram a venda. Questionamos
fazendeiro está contratando pessoas para escoltar uma entrega de couro e drogas do sertão para
São Vicente. Os aventureiros se dirigem para a fazenda. Chegando lá tudo está muito quieto, e com eles se aquilo seria correto, e eles mudaram de ideia.
um cheiro estranho paira no ar. Todos os jogadores decidem entrar na fazenda para averiguar,
exceto o Jesuíta, que quer ir embora. O Rastreador consegue persuadi-lo a mudar de ideia. O segundo momento foi a união da sala para fazer uma
Entrando na fazenda, veem rastros de destruição e morte. Ao se dirigirem para a Casa “vaquinha” para comprar a canoa. Os alunos discutiram
Grande, são atacados por duas criaturas, um “ahor” e um “curupi”. Um combate se inicia entre
personagens e criaturas. Os jogadores conseguem vencer o combate e adentram na Casa Grande. sobre a quantidade de dinheiro que cada um deveria doar.
Lá, encontram o dono da fazenda semiconsciente. Acordam-no e ele, assustado, aponta uma
arma para eles. Os aventureiros conseguem acalmá-lo e, conversando com ele, descobrem que a No fim, chegaram a um consenso e compraram a canoa.
sua filha havia sido raptada pelo capataz da fazenda, Torres. O fazendeiro oferece uma
recompensa para os aventureiros encontrarem e resgatarem sua filha. Os jogadores negociam o
valor da recompensa, conseguindo aumenta-lo. Ao saírem da Casa Grande, o Rastreador Para enriquecer a experiência educacional, tendo em
consegue identificar o rastro de Torres no meio de toda a destruição. Seguindo o rastro, chegam
a um entreposto comercial. vista a natureza fantasiosa da aventura vivida, optamos por
2ª SITUAÇÃO-CHAVE: O ENTREPOSTO COMERCIAL
oferecer aos alunos uma atividade complementar. A atividade
Os aventureiros são recebidos pelo proprietário do entreposto comercial, um homem rude e
preconceituoso. Ao falar, ele dirige-se apenas aos personagens brancos e pergunta se não pode consistiu na elaboração de cartazes que comparassem a
comprar os de outras raças. Os aventureiros recusam a negociação e perguntam apenas se ele viu
Torres ou a filha do fazendeiro. Apesar de grosseiro, o proprietário do entreposto ajuda com a História do Brasil com a história da aventura. Os alunos
informação de que Torres havia comprado uma canoa há algumas horas e descido o rio. Ele
oferece canoas para alugar ou para vender. Os aventureiros decidem colaborar cada um com uma
novamente foram divididos em grupos e o objetivo foi
quantidade de dinheiro e compram, então, uma canoa. Com ela, descem o rio e chegam a um fazer com que refletissem a respeito do que foi realista e o
alagado.
3ª SITUAÇÃO-CHAVE: O ALAGADO foi fantasioso no jogo de RPG. Fornecemos todo o material
Enquanto navegam pelo alagado, os aventureiros são abordados por um curupira, que se necessário: cartolinas, canetinhas, tinta, pincéis, lápis de
comunica por linguagem indígena. O Pajé consegue entender o que ele fala e traduz aos seus
companheiros. O curupira indica onde estão Torres e a moça, e pede que os aventureiros cor, cola, tesoura e diversas figuras impressas relacionadas
impeçam Torres de continuar profanando a floresta.
Seguindo na direção indicada pelo curupira, os aventureiros começam a ouvir uma canção e, ou ao RPG ou à História. Cada grupo recebeu também um
em seguida, avistam uma iara deitada em uma pedra. Todos aventureiros, com exceção do laptop XO, que poderia utilizar para realizar pesquisas na
Bandeirante, ficam enfeitiçados pelo canto da iara. O Bandeirante tenta ataca-la com a
espingarda, mas está muito nervoso. Gasta toda sua munição e somente a acerta no último tiro. Internet.
Derrotada e impressionada com a força dos aventureiros, a iara encanta as armas dos
personagens, dando a elas um bônus de ataque.
Por fim, os aventureiros encontram Torres e a filha do fazendeiro, escondidos atrás de um
pequeno morro. Torres está armado com uma pistola e uma espingarda, e vai lutar até a morte.
Os aventureiros conseguem derrota-lo e, então, socorrem a filha do fazendeiro. Ela conta que
Torres fez um pacto com a criatura chamada “avasti”. Esta o ajudaria a obter a filha do fazendeiro
e, em troca, ele compartilharia seu corpo com a criatura. Assim, o avasti informou a Torres sobre o
alagado como um esconderijo seguro e o ajudou a atrair uma manada de criaturas agressivas
para a fazenda, criando a distração necessária para o rapto da moça. Assim, ficou explicada a
destruição da fazenda e a presença dos monstros nela. Por fim, os aventureiros levam a filha do
fazendeiro de volta a seu pai e recebem a recompensa prometida. Este é o fim da aventura.

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Impressões do Professor

A atividade elaborada a partir da integração


entre pesquisadora e professor possibilitou aos alunos
apresentarem, de maneira bastante dinâmica, os
conhecimentos aprendidos nas aulas de história. A atividade,
por ser bastante interativa motivou, a participação da
maior parte dos alunos, que, interessados no desenrolar
da narrativa, estavam bastante atentos, principalmente nos
Figuras 7 e 8. Grupo de alunos elaborando cartazes e cartaz feito por um dos primeiros momentos. Com o desenrolar da história - por
grupos.
ser um pouco longa - percebi que alguns alunos perderam
A elaboração dos cartazes durou dois tempos. A a concentração, demonstrando certo desinteresse. No
metade final do segundo tempo foi utilizada para que entanto, a necessidade de interação para o desenvolvimento
os grupos apresentassem seus cartazes. Isto, novamente da história contribuiu para que os alunos retomassem a
ajudou os alunos a exercitarem a sua expressão oral. A participação, envolvendo-se com o desfecho da aventura.
Tabela 4 sintetiza o cronograma geral da atividade, em
termo dos tempos (1h 40mins cada) utilizados. Vejo que a vantagem do uso do RPG nas aulas de
História é possibilitar aos alunos que eles sejam autores
Tabela 4. Cronograma geral da atividade. da narrativa, possibilitando uma maneira mais dinâmica
TEMPO ACONTECIMENTOS
de mostrarem os conhecimentos aprendidos no decorrer
 Explicação das regras do jogo das aulas. Além disso, a realização das atividades favorece

 Formação dos grupos maior integração entreh os alunos, desenvolvendo
 Distribuição dos personagens habilidades como a capacidade de negociar com o outro,
 Início da aventura
2º e 3º Continuação e finalização da aventura
elaborar questionamentos, apresentar sugestões, discordar
 Reflexão sobre fantasia e realidade e argumentar sobre outras ideias. Outra questão relevante
4º e 5º  Produção dos cartazes é o fato de possibilitar aos alunos com dificuldades na
 Apresentação dos cartazes
escrita, uma participação mais efetiva nas aulas, a partir
da oralidade. A confecção de cartazes a partir das imagens
Uma característica bastante apontada pelos alunos
e elaboração de desenhos favoreceu a integração dos
como sendo forte quebra da realidade foi o relacionamento
alunos possibilitando outra forma de demonstrarem os
entre os personagens. Como mostrado pela Tabela 2, os
conhecimentos aprendidos.
personagens selecionados para a aventura são de raças
diferentes. É historicamente improvável que, por exemplo, Acredito que a atividade poderia ser melhorada
um jesuíta e um índio convivessem pacificamente, sendo reduzindo o número de personagens presentes na história
que ambos tinham interesses conflitantes no Brasil colonial. e limitando as ações dos personagens, a fim de que o
Outros elementos apontados como fantasiosos foram a desenrolar da história seja mais dinâmico, pois os alunos
magia e as criaturas folclóricas, como o Curupira e a Iara. perdem com facilidade a concentração na atividade.

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Ainda assim, os alunos que estavam atentos e A partir desses exemplos simples, percebemos quão
interessados em participar da atividade demonstraram complexa é a criação desta ferramenta. A atividade que
comprometimento e buscaram integrar o grupo, propondo relatamos aqui ajudou a levantarmos características que
reflexões em relação às ações a serem tomadas. Os certamente a ferramenta precisará ter:
alunos com dificuldades na escrita conseguiram participar
• Prevenção contra problemas de salvamento dos
oralmente.
registros da aventura, pois alguns dos textos que os
redatores escreveram foram perdidos;
O Laptop XO
• Adaptação à tela pequena, isto é, os elementos da
interface (por exemplo, ícones, menus e botões) não
A atividade descrita no relato anterior faz parte de um
podem ser nem pequenos nem grandes demais;
projeto de pesquisa que estuda a criação de uma ferramenta
• Leveza para não causar lentidão ou travamento no XO;
computacional que tem dois objetivos principais:
• Acesso fácil, para todos os participantes, às regras do
jogo, às fichas de personagem e aos demais elementos
• Auxiliar alunos e professores no processo de autoria
relevantes do jogo; isso ajudaria a evitar a dispersão e
de aventuras de RPG;
a manter todos envolvidos na atividade;
• Facilitar o gerenciamento e o registro de partidas de
• Formulários para, por exemplo, registro da aventura,
RPG na sala de aula.
pois assim os alunos não se esquecerão de colocar
informações importantes em suas redações (como
Portanto, o uso do laptop XO durante as atividades
nomes dos membros do grupo).
foi importante para evidenciar quais são as principais
dificuldades que a ferramenta precisará vencer. Essas
Concluímos, então, que a tecnologia web (a tecnologia
dificuldades não dizem respeito somente à tecnologia,
dos aplicativos para Internet) facilita a resolução de todos
mas também ao aspecto humano. Por exemplo, sabemos
estes problemas. Primeiro porque ela permitiria que todas
que existem diversas maneiras de representar uma ficha
as informações sobre as aventuras e os jogadores ficassem
de personagem, conforme foi discutido no início do texto.
guardadas em um servidor, deixando-as mais seguras
No entanto, quais representações os alunos preferem?
e fáceis de acessar. Segundo porque é uma tecnologia
Quais os professores preferem? Quais são mais fáceis de
bem consolidada em termos de suporte a diversos tipos
utilizar? Quais auxiliam a realçar o conteúdo educacional?
de dispositivo, o que significa que ela já procura resolver
Estas são apenas algumas das perguntas que podemos
os problemas de adaptação ao tamanho da tela e ao
fazer com relação a um único aspecto do jogo de RPG,
desempenho, sem necessitar de muitas modificações.
que é a ficha de personagem. Os demais aspectos também
precisam ser questionados. Por exemplo, os alunos sentem- Assim, os próximos passos da pesquisa são começar
se confortáveis em usar dados (Figura 1), ou outra forma a desenvolver a ferramenta, utilizando tecnologias web,
de aleatoriedade seria mais simples, como, por exemplo, e aplicar os protótipos dela em novas aventuras de RPG,
sorteio de cartas de baralho? possivelmente dentro de outras disciplinas que não a
História.

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Considerações Finais Com o XO e com afeto: um turista na
A atividade foi bastante proveitosa. Para os alunos, sala de aula
foi uma maneira diferente de aprender e os colocou em
contato com um tipo de jogo que desconheciam. Para Elaine Hayashi, Jocinara Lopes de Oliveira e Edileuza Pa-
o professor, foi a primeira experiência de colocar em checo da Silva
prática uma partida de RPG numa sala de aula com quase
trinta alunos. Para a pesquisadora, além de também ser a Crianças demonstram ter muita facilidade para aprender
primeira experiência desse tipo, foi uma atividade bastante e incorporar o uso de novas tecnologias digitais. Essas
esclarecedora para a elaboração da ferramenta de autoria tecnologias possuem um grande potencial para enriquecer
e gerenciamento de aventuras de RPG. e facilitar processos de aprendizagem, como o da
alfabetização infantil. Porém, as tecnologias, por si só,
Todas as lições aprendidas nesta atividade com podem não fazer muito sentido para as crianças, podendo
certeza servirão para que a ferramenta esteja o mais gerar desmotivação e desinteresse. O uso da tecnologia é
próxima possível do seu público-alvo: os professores e importante, assim como são os elementos humanos, como
alunos da EMEF Padre Emílio Miotti. O aprendizado também afeto e emoção. Não podemos deixar que esses elementos
será útil para que as próximas atividades de pesquisa sejam se percam, muito menos deixar que a relação da tecnologia
mais proveitosas para todos os envolvidos (pesquisadores, com o contexto de vida dos alunos se perca. O papel do
alunos e professores), tanto educacionalmente quanto professor continua sendo fundamental como maestro dos
cientificamente. diferentes recursos que podem ser utilizados em sala de
aula, garantindo que as interações entre alunos, recursos e
Referências: conteúdo sejam harmônicas e coesas. Este texto apresenta
um exemplo de como professores do 2º ano trabalharam
Harper, J. (2012). Lady Blackbird (p. 17). Red Box Editora. com e sem tecnologia digital em atividades relacionadas à
Disponível em http://redboxeditora.com.br/lady-blackbird/ alfabetização. Este relato de experiência conta com a visão
externa de um pesquisador, que participou das atividades
Kenson, S. (2008). Mutantes e Malfeitores (1a ed., p. 256). de sala de aula como observador participante.
Jambô Editora.
Um olhar de fora
Pereira, C. K., Andrade, F., & Ricon, L. E. (1992). O Desafio
dos Bandeirantes - Aventuras na Terra de Santa Cruz (2a Quando estamos em férias, viajando e conhecendo
ed., p. 129). Rio de Janeiro, Brasil: GSA. cidades novas, normalmente ficamos encantados com a
beleza daquilo que é novo. Vemos a cidade toda com olhos
diferentes de quem mora lá. Muitas vezes, a rotina e a
correria fazem com que as pessoas deixem de notar alguns
detalhes, e como pode existir tanta coisa linda nesses
detalhes!

150 151
Imagine-se como um turista que compra um pacote participando, o pesquisador pode sentir na própria pele
de viagem para um lugar que você nunca foi e não tem como é ser um membro daquela comunidade. Como
nenhum amigo que more lá. Você chega, conhece os observador, o pesquisador consegue ter um distanciamento
lugares mais bonitos, tira várias fotos e volta conhecendo maior, isto é, ele consegue ter aquele olhar diferente, de
só uma parte do lugar. Agora imagine que você vai visitar fora, para notar a beleza e riqueza que podem morar nos
um parente de outra cidade. Também é a primeira vez detalhes.
que você vai para aquela cidade, mas agora, além de você
conhecer os lugares bonitos, você também convive com o Você pode dizer: “Ah, mas uma pessoa de fora vai
seu parente que mora lá. Você o ajuda a cozinhar e descobre ser tratada como uma visita, então não vai ter a mesma
os temperos diferentes que são usados naquela região. Vai experiência que alguém que é de lá mesmo”. Isso é verdade,
ao mercado com ele, e descobre algumas marcas diferentes o pesquisador não se transformou em professor ou aluno
de produtos. Acha engraçada alguma expressão que ele da escola (existem pesquisas em que isso acontece, mas
usa ao falar com o vendedor. não foi o caso aqui). Mas depois de um tempo, as pessoas
acabam se acostumando com a presença de um “intruso”.
Quando eu fui para a Argentina a passeio, vi as Você sabe que deixou de ser visita quando as regalias
pessoas dançarem o tango e comi ‘parrillada’, como todo terminam e você começa a ter que trabalhar mesmo. E foi
turista faz. Mas só quando eu fui a trabalho e passei alguns assim lá na escola: quando a pesquisadora/observadora
meses lá foi que descobri que os bebedouros, desses de participante começou a colocar “a mão na massa”, que ela
empresas, têm uma torneira que sai água em temperatura se sentiu parte do grupo.
ambiente e outra que sai água quente (dá para fazer o A primeira coisa que a pesquisadora observou quando
chimarrão que eles tanto gostam); e que os homens dão chegou à sala de aula da turma do segundo ano (crianças
beijinhos no rosto de outros homens para cumprimentar de cerca de 7 anos de idade), foi o carinho. Parece que
o colega quando chegam para trabalhar, assim como as maioria das crianças nessa idade ainda não tem vergonha
mulheres fazem. São detalhes que não se aprendem com o de mostrar afeto. São carinhosas mesmo. Abraçam,
guia turístico. beijam, sorriem, piscam, olham curiosas e tímidas. Logo
no começo, as crianças já incluíram a pesquisadora nas
Essa ideia da diferença entre o turista em férias e atividades diárias, chamando para pedir ajuda com a tarefa
o visitante, talvez ajude a descrever a experiência de um que a professora passou ou para contar alguma fofoca.
observador participante. Um observador participante é ao As professoras também, logo começaram a passar tarefas
mesmo tempo o turista e a pessoa que vai visitar o parente para a pesquisadora, como carregar a bateria dos laptops,
ou que vai passar um tempo trabalhando fora. O pesquisador salvar arquivos, guardar os carregadores nos armários. Mas
frequenta o local – por exemplo, a escola Emílio Miotti – mesmo deixando de ser visita, o carinho continuou.
com o objetivo de compreender como são as coisas na
vida real. Ele observa e anota tudo o que vivencia, assim É bonito ver a relação de carinho que professores têm
como o turista que tira fotos. Mas não fica só nisso, ele com os alunos e vice-versa. À primeira vista, parece difícil de
também participa nas atividades da escola. Dessa forma, enxergar isso em meio à bagunça e agito de uma escola com

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tantas crianças. Mas é só prestar um pouco mais de Nas linhas e páginas que se seguem neste capítulo
atenção para notar como os gestos de carinho e palavras nós (a pesquisadora/observadora participante e as
de incentivo estão sempre presentes. Olhando de fora professoras) vamos contar como foram as aulas tendo a
dá para perceber que parece mesmo ser verdade aquilo tecnologia como ferramenta para alfabetização, os desafios
que o Norman (2011) disse sobre afeto e emoções serem encontrados e como fizemos para superá-los.
contagiosos. É provável que algumas das crianças venham
de lares onde a agressividade impere e por isso estejam
acostumadas – ou contaminadas – a comunicarem-se Tecnologia como ferramenta para alfabetização
de maneira agressiva. Mas quem consegue manter-se
sério ou agressivo enquanto outras trinta pessoas estão A turma do segundo ano era bem diversificada:
gargalhando ou sendo carinhosas? Claro que nem tudo é enquanto alguns alunos já estavam mais seguros para
brincadeira. As professoras mantém a seriedade, mas sem ler e escrever palavras e até frases simples, outros mal
deixar as aulas serem chatas. Como disse Paulo Freire: reconheciam as letras do alfabeto. A maior parte dos alunos
já vinha tendo aula com as mesmas professoras desde
"tudo em favor da criação de um clima na sala de aula em o primeiro ano e por isso já conhecia e usava o laptop
que ensinar, aprender, estudar, são atos sérios mas também XO. Os alunos com maior dificuldade em usar o laptop
provocadores de alegria. Só para a mente autoritária eram aqueles que vieram de outra escola e não tiveram
o ato educativo é tarefa enfadonha. Para educadores e oportunidade de fazer atividades com computadores
educadoras democráticos o ato de ensinar, aprender, de no ano anterior. Da turma de 26 alunos; 17 meninas e 9
estudar são que fazeres exigentes, sérios, que não apenas meninos, e 4 deles vieram de outra escola.
provocam contentamento, mas que em si já são alegres"
(p. 72, Freire, 200). O laptop XO vinha sendo utilizado na escola há
cerca de um ano. Assim, era novidade também para os
Essa frase vem do livro “À sombra desta mangueira”. professores, que estavam aprendendo junto com os alunos.
A versão em inglês desse livro teve o título apropriadamente As professoras não se mostravam intimidadas com o laptop
traduzido para “Pedagogy of the heart” (Pedagogia do nem com medo por não saber usar direito.
coração).
“(...) o educador já não é mais aquele que apenas educa,
Foi esse clima de ‘pedagogia do coração’ que a mas o que, enquanto educa, é educado, em diálogo com
pesquisadora encontrou nas aulas. Ela participou das aulas o educando que, ao ser educado, também educa. Ambos,
do Miotti durante seis meses, indo lá três vezes por semana. assim, se tornam sujeitos do processo em que crescem
Uma vez por semana ela participava das aulas da turma do juntos (...)” Freire (2004).
segundo ano. Algumas aulas eram com o laptop XO, outras
no laboratório com computadores desktop e outras em
sala de aula, sem recursos de tecnologia digital.

154 155
A alfabetização estava sendo trabalhada pelas o que foi feito. Além disso, o próprio aluno pode relembrar
professoras sob o tema “Identidade”. Sempre que possível, algo que ele fez. A pesquisadora nem conhecia esse recurso
as atividades tinham a ideia central relacionada com a do Speak, foi um aluno que descobriu e mostrou para ela.
escrita de informações sobre os alunos e suas famílias. Em
uma das aulas com o laptop XO, as professoras propuseram Na tarefa de escrever a letra da música, frase por
um trabalho em dupla: um aluno tiraria foto do seu parceiro frase, os alunos lembravam-se da música e escreviam uma
e colocaria junto com um texto com informações dele. frase no Speak. Assim que eles escutavam o Speak, eles se
Os alunos pareciam estar se divertindo bastante com a davam conta se haviam escrito corretamente ou não. Usar
atividade. Tirar fotos foi a parte mais alegre, até porque, o Speak é uma forma divertida de praticar a escrita que os
ninguém quer sair triste na foto. Alguns precisaram de alunos do segundo ano parecem ter aprovado.
várias tentativas até encontrar uma foto que tivesse ficado
boa. Saber como tirar a foto com o laptop era apenas um
detalhe no meio do processo de realizar a tarefa. Alguns,
sem querer, acionaram a funcionalidade de filmar, ao invés
de tirar foto. Tentar e errar, às vezes, é motivo de frustração,
mas dessa vez foi motivo de alegria, já que filmar também
é divertido.

Em outra aula, a professora colocou uma música


para os alunos ouvirem. A letra da música era sobre família
e locais de nascimento. A turma trabalhou com a música
de várias formas: com a letra da música impressa, com
um mapa do Brasil (que a professora usou para mostrar
os estados onde as personagens da música nasceram) e
Figura 1 - XO e Speak.
com o desenho de uma árvore genealógica. Na sequência,
em outro dia, a professora usou o laptop XO. A tarefa era Desafios e colaboração
escrever a letra da música, frase por frase, usando o Speak.
O uso da tecnologia digital em sala de aula traz
muitas possibilidades, mas também alguns desafios. Como
O Speak é uma atividade do XO que lê em voz alta o
tudo na vida. Sem desafios ficaria até sem graça. Outros
que o aluno escreve. O sistema permite que o aluno escolha
texto deste livro já mencionaram a maior parte desses
o idioma e o sotaque. Como podemos ver na Figura 1, a tela
desafios: dificuldade para carregar a bateria de todos os
do Speak mostra o que parece ser um rosto do XO. Os olhos
laptops, para salvar as atividades que os alunos fizeram,
seguem a seta do cursor e a boca se move quando ele fala.
para levar os laptops para a sala de aula, para dar atenção
O aluno pode mudar essa carinha, aumentando o número
a todos os alunos ao mesmo tempo, preparar atividades
de olhos e o formato. O sistema mantém um histórico do
no XO que atingissem as necessidades de cada aluno ou
que o aluno digitou. Dessa forma, o professor pode verificar
grupo de alunos.

156 157
As professoras do segundo ano conseguiram vencer desafio lidar com esta nova tecnologia, mas, em nenhum
esses desafios, contando com algo que o próprio XO já momento ela desanimou. Demonstrou seriedade e
estimula nas crianças: a colaboração. Dividir tarefas, responsabilidade, e, mesmo auxiliando na sala da própria
trabalhar em grupo, ajudar o coleguinha. Desde cedo as filha, agiu de forma profissional e atenciosa com todos os
crianças já aprendem a importância da colaboração. O alunos. Os alunos aceitaram e reagiram bem à presença da
laptop XO conta com a rede mesh, que permite que os mãe da coleguinha. A Brenda também aceitou bem. No início,
laptops se comuniquem em rede, mesmo quando não achou que podia fazer algumas coisas diferentes dos outros,
existe uma conexão com a Internet. Várias atividades do mas, depois, aceitou bem as regras e combinados. Todos
XO permitem que um aluno possa ver e contribuir com a os pais foram convidados na reunião e, posteriormente,
atividade do outro. Algumas atividades permitem até que compareceram a uma Oficina para usar o XO junto com os
isso ocorra em um nível mundial: acessando a Internet, um filhos, na qual a mãe da Brenda participou e os auxiliou. Foi
aluno pode pegar uma atividade feita por alunos de outras muito produtivo e os pais aceitaram bem. Os comentários
partes do mundo, modificar a atividade, adaptando-a para foram positivos tanto dos outros alunos, como de outros
o contexto dele e usar e disponibilizar para outros. pais. Algumas crianças expressaram o desejo de que seus
pais também viessem, mas, entenderam que não era porque
Para vencer os desafios de trabalhar com o XO na não queriam, e, sim, porque não podiam, por estarem
sala de aula, as professoras contaram com a ajuda dos trabalhando.
Alunos Monitores – programa descrito com mais detalhes
em outro Capítulo deste livro. Seguindo as instruções das Este relato espera mostrar que, quando você
professoras, os alunos monitores eram encarregados de realmente quer fazer algo, você sempre encontra uma
carregar a bateria dos laptops antes das aulas e instalar solução para fazer. Desafios sempre vão existir, cabe a nós
atividades. Além dos alunos monitores, esta turma pode usarmos a criatividade e estarmos abertos para aceitar a
contar também com a colaboração de uma das mães de colaboração de outras pessoas.
alunos. Ela participava das aulas, dando suporte para os
alunos sempre que eles tinham alguma dificuldade com Alfabetização com afeto
o uso da tecnologia. Além dela, a pesquisadora também
estava presente e uma das suas tarefas também era a de Este texto tenta mostrar dois pontos de vista sobre
ajudar com o uso da tecnologia, principalmente em relação o mesmo assunto: o de um pesquisador, uma pessoa de
aos laptops XO. fora da escola, e do professor, diretamente envolvido nas
atividades escolares. Um consegue ver o que os olhos,
Numa das Reuniões de família e educadores, as acostumados com a mesma cena, já nem sempre enxergam
professoras explicaram sobre o Projeto XO na escola mais; o outro consegue dar o relato de como as coisas
e fizeram um convite a todos os pais que quisessem realmente são, mostrando onde o calo realmente aperta.
auxiliar, voluntariamente, neste trabalho. A mãe da aluna
Brenda, senhora Daniela, ex-aluna da escola, atendeu Mesmo com calos ou feridas, é lindo observar/
prontamente ao convite das professoras em ser voluntária reconhecer que o carinho e o afeto estiveram sempre
no auxílio do uso do XO. Para ela também foi um presentes durante as aulas: no jeitinho como a professora

158 159
fala com o aluno; na preocupação com cada um deles, não faz milagre sozinho. O interessante é usá-lo de maneira
dando atenção para todos ao mesmo tempo; na escolha das que ele faça sentido para os alunos. O papel do professor é
palavras usadas com os alunos, no tom de voz, no olhar... muito importante nesse processo. Isso não significa muito
trabalho a mais para o professor, pois com criatividade e
O reconhecimento da importância do afeto nos colaboração, é sempre possível encontrar soluções. Neste
processos educacionais não é uma ideia de hoje. O capítulo contamos um exemplo de como as professoras
trabalho de Piaget, por exemplo, tenta mostrar que não usaram uma atividade do XO dentro do contexto da
dá para considerar apenas o lado cognitivo no processo aula e seguindo o tema geral do semestre. Elas não
de desenvolvimento do intelecto. Tem-se que levar em precisaram trabalhar sozinhas, buscaram e conseguiram
conta o lado da afetividade também, senão o processo bastante gente para ajudar: alunos monitores, mães de
fica incompleto (La Taille, 1992). Para mostrar melhor a aluno e pesquisadores. O segundo lembrete é para os
importância do afeto, Piaget faz uma comparação: sem a desenvolvedores que estão por trás da tecnologia digital
gasolina, o motor do carro não funciona, certo? Essa é a utilizada: na hora de criar algo para ser usado no ambiente
importância da afetividade: ela é o combustível que permite escolar, é importante considerar também as questões de
que o motor da inteligência funcione (Wadsworth, 1992). afetividade, e não somente o conteúdo didático. É preciso
Além de Piaget, Vygotsky também faz uma crítica explícita que as atividades continuem a encantar as crianças.
à distinção que a psicologia tradicional costumava fazer ao
colocar os aspectos intelectuais de um lado e os afetivos de Referências
outro (Oliveira, 1992). Ambos precisam ser considerados.
Freire, P. (2004) “Pedagogia do Oprimido”. 39 ed. Rio de Janeiro:
Carinho, atenção, cuidado, gentileza – enfim, as Paz e Terra.
diversas formas de manifestação de afeto – são coisas
Freire, P. (2007) “Pedagogy of the Heart”. Continuum International
que a tecnologia ainda não consegue substituir. Algo
Publishing Group Inc.
que a tecnologia pode fazer é apresentar-se de maneira
a despertar afeto nos alunos, a permitir que eles possam Freire, P. (2001) “À sombra desta mangueira”. Olho D’água.
expressar afeto, ou ao menos de maneira a não impedir ou
suprimir essa expressão. Isso é um desafio com o qual os D. Norman (2011) “Living with Complexity”. MIT Press.
designers de tecnologia digital precisam se preocupar.
La Taille, Y. (1992) Desenvolvimento do juízo moral e afetividade
na teoria de Jean Piaget. Em “Piaget, Vygotsky, Wallon: Teorias
Considerações finais Psicogenéticas em Discussão”, São Paulo, Summus Editorial.

O laptop XO é um recurso educacional que pode ser Oliveira, M. (1992) “O problema da afetividade em Vygotsky”.
muito interessante por despertar nos alunos a motivação São Paulo: Summus Editorial.
de aprender de uma maneira divertida. Mas existem duas
Wadsworth, B. J. (1996) “Piaget’s Theory of Cognitive and
coisas para se lembrar. O primeiro lembrete vale para os
Affective Development: Foundations of Constructivism”. London:
professores: que o laptop – ou qualquer outra tecnologia – Longman Publishers.

160 161
Oficinas com alunos utilizando O trabalho realizado na escola teve como objetivo a
preparação para o evento Scratch Day 1 . Visando organizar
Scratch no Laptop Educacional XO a escola para tal evento, pensamos de antemão preparar
os alunos através de Oficinas específicas sobre o uso do
Eduardo Mauricio Moreno Pinto e Jucélio Evangelista Scratch, com estas oficinas foi possível graduar de forma
Fonseca crescente o conhecimento e o domínio do aluno sobre o
Scratch.

O Scratch é um projeto desenvolvido pelo Lifelong Learning Estimular os alunos em um evento mundial através
Group, do MIT Media Lab, que pode ser utilizado em de Oficinas dinâmicas e interativas com o programa e
computadores e notebooks. Neste capítulo, discutiremos a desenvolvendo a relação aluno-aluno e aluno-professor de
experiência de usar este programa no Laptop Educacional XO, modo contínuo e presencial, possibilitou ao aluno verificar
desenvolvido pela OLPC (One Laptop per Child), em oficinas uma hipótese do pensar estruturado, diferente do habitual
especificas junto com alunos de Ensino Fundamental, em caderno e lápis, aproximando o aluno ao mundo da
uma escola pública de Campinas. tecnologia de forma divertida e curiosa além de desenvolver
conteúdos na área de matemática e programação.
O Projeto teve como objetivo principal a participação
Este capítulo está organizado com as seguintes
no evento Scratch Day e envolve desde o planejamento
seções: O que é Scratch? Detalhamos os objetivos, o
até a execução das oficinas. O capítulo visa esclarecer o
público alvo e sua história; “O que é oficina?” Período de
que é o Scratch, sua história, seu funcionamento e suas
trabalho, metodologia das oficinas e descrição das Oficinas
experiências de uso junto aos alunos. As oficinas foram
na escola; Considerações finais: palavra dos autores sobre
gradualmente elevando seu nível de complexidade de
o uso do Scratch no evento.
acordo com o avanço no entendimento dos alunos. Enfim,
todo o contexto permitiu que os alunos compreendessem
O que é Scratch?
os projetos do Scratch com maior maturidade.
“O Scratch é uma linguagem de programação que
Introdução facilita a criação de histórias interativas, animações, jogos,
música e arte além de podermos compartilhar nossas
O Projeto “XO na escola e fora dela: Uma Proposta criações na web2 .”
Semio-Participativa para Tecnologia, Educação e Sociedade"
tem implementado na escola EMEF Padre Emílio Miotti vários Este ambiente de programação, quando bem
subprojetos com uso do Laptop Educacional XO, o texto a orientado, tem a capacidade de atrair crianças, jovens e
seguir descreve um dos subprojetos que trabalhamos na adultos. Permite desenvolver a criatividade e o raciocínio
escola. além da possibilidade de trabalhos em grupos. Com este
programa podemos entender conceitos fundamentais da
matemática e da computação, além de compreender os
princípios da animação.

162 163
“Scratch é desenvolvido por Lifelong Kindergarten Os primeiros projetos Scratch que foram criados e
Group do MIT Media Lab, com o apoio financeiro da National disponibilizados no site oficial são:
Science Foundation, Microsoft, Intel Foundation, MacArthur
Foundation, Google, Iomega e MIT Media Lab, consórcios de 1º) Weekend 8 – este projeto possui um café interativo
investigação”.
2º) Sandwich9 – neste projeto o usuário guia uma
Público alvo: crianças a partir de 8 anos, alunos de pessoa nas ruas e deve encontrar um sandwich
qualquer ano mas que estejam trabalhando o conteúdo das
aulas em conjunto com o desenvolvimento de um projeto 3º) Bubble Wrap10 – neste projeto o usuário pode
Scratch. estourar bolhas.

História do Scratch3 O que é Oficina?

O MIT (Massachusetts Institute of Technology) tem Para realizar o evento Scratch Day com sucesso, não
uma longa história de contribuição para a computação basta convidar os alunos para estarem presentes na escola
voltada para crianças, neste sentido iniciou suas atividades em um determinado dia, é necessário criar um ambiente
com a Linguagem de programação Logo, desenvolvida por favorável ao aluno, no dia do evento o aluno deve se
Seymour Papert4 , em 1970. sentir a vontade em querer aprender mais, para mostrar
as suas potencialidades e identificar-se como um sujeito
O MIT Lifelong Learning Group prosseguiu com promovedor/participante do evento.
o desenvolvimento do LOGO focando a programação
em bloco5 (StarLogo). Programação em blocos melhora a Visando atender as expectativas acima, procuramos
produtividade do programador removendo uma fonte criar as Oficinas11 permitindo que o aluno seja apresentado
comum de frustração para os iniciantes, permitindo que ao programa Scratch, desde a estaca zero até projetos mais
crianças de sete anos possam começar a programar. sofisticados. O desenvolvimento de diferentes contextos
ou ferramentas do Scratch permite ao aluno compreender
O grupo do MIT identificou que as aplicações de as potencialidades do sistema e suas próprias dificuldades.
multimídia, incorporando imagens e sons, são um grande Desta maneira os formadores puderam compreender o nível
favorito das crianças. Toda a trajetória do MIT junto às de entendimento e abstração dos alunos, o que resultaria
experiências vividas permitiu a elaboração do Scratch. mais tarde na elaboração do cronograma de atividades
para o evento Scratch Day.
O Scratch foi lançado na primavera de 2007. No
site oficial 6 do Scratch, encontramos muitos projetos de Período de trabalho
Scratchers7 do mundo inteiro, neste site temos a divulgação
do nosso projeto em âmbito mundial e temos acesso ao Para cada Oficina ficou decidido que haveria duas
projeto de outros Scrathers, isto colabora para o aprendizado turmas em horários diferentes, com limite máximo de 8 alunos
permitindo a evolução da complexidade nos projetos.

164 165
cada turma. A inscrição de alunos foi obrigatória para “alunos
Conceitos Conteúdo Matemático
monitores12 ”e voluntária para “alunos não-monitores”. A Nível do
Conceitos Computacionais
Envolvido
Aprendidos
oficina foi composta por alunos de diferentes anos 7º, 8º e Scratch
Movimento básico
9º anos. na horizontal e
vertical;
Incremento;
As oficinas ocorreram de acordo com um roteiro13 , Tocar Sons e Trajes;
Estrutura do script;
garantindo um padrão, deste modo não houve diferenças Ângulo;
Variável padrão
na instrução realizada para ambas as turmas. Básico
direção
Lógica de programação;
Plano cartesiano -
origem;
Looping.
Movimento em
Sobre as oficinas diferentes direções; Método iterativo.

Incremento.

Primeiras visitas na escola. Variável padrão


posição, direção e
As primeiras visitas14 na escola15 serviram para tamanho;

apresentar a proposta de trabalho tendo como objetivo Múltiplos Sprites


1
Geração de Números
com
principal a realização do Scratch Day, após a confirmação comportamento
Aleatórios;

da escola foi possível planejar o cronograma das oficinas e dependente e


Controle de Fluxo;
Plano cartesiano;
independente;
qual seria o público alvo. Intermediário Desvio Condicional;
Ângulo;
Modificações na
aparência dos trajes; Deslocamento no plano
A previsão da realização das Oficinas e do evento Repetições;
cartesiano;
seguiu o seguinte cronograma16: Operadores;
Operadores Aritméticos,
Porcentagem.
Relacionais e Lógicos.
Números Aleatórios;
26/04 03/05 10/05 17/05 19/05
Controle com o
teclado.
Nível básico Nível intermediário Nível intermediário Nível avançado Scratch Day
Uso de variável
personalizada;
Cada Oficina foi planejada com antecedência e o
cronograma do evento Scratch Day foi sendo construído Uso de listas
Manipulação de variáveis e
personalizadas;
de acordo com o desenvolvimento das Oficinas, seguindo Avançado
listas.
Conceito de variáveis
Sincronismo nas em uma tabela
a sugestão e a análise dos formadores com respeito à ações dos sprites.
Vetor

atuação dos alunos.


Uso da caneta;

A experiência junto com os alunos nos trouxe


a visão geral dos conceitos abordados pelo Scratch,
Estatísticas
1
Conhecido também como objeto, no programa Scratch é representado pelo Gato, Cão, Personagem ou
ora trabalhamos com conceitos de programação, ora qualquer objeto que possa executar uma ação.

trabalhamos com conceitos de matemática. Para simplificar


As oficinas foram presenciais e, em uma visão geral,
a nossa percepção do Scratch sobre ambos os conceitos e o
verificamos maior presença e interesse dos alunos do 8º
nosso entendimento da classificação dos níveis, destacamos
ano, como ilustra o gráfico a seguir.
a seguinte tabela:

166 167
• Em seguida analisar as ferramentas disponíveis no
Ano Presença Porcentagem Scratch que possam ser utilizadas para realizar o
9º 4 33,33% item acima, analisar os elementos e seus respectivos
8º 7 58,33% comandos;
7º 1 8,33%
• Pensar nas possibilidades de encaixe dos comandos;
Total 12
em alguns casos existe mais de uma maneira de
realizar um objetivo específico de construir o script.
Relação de presença por ano
escolar (em %) A organização do aluno em produzir perguntas e
contexto (no formato de história) são as bases para o aluno
explorar e adquirir domínio sobre a ferramenta.


7º Oficina 1 - nível básico

A primeira oficina teve como foco conhecer os


alunos, localizar o aplicativo19 no Laptop Educacional XO,
apresentar a tela inicial do Scratch, apresentar e trabalhar o
uso da metodologia nas oficinas e criar rotinas de diálogo
e de execução de ações 20 do aluno durante a oficina.
Metodologia das oficinas
Nesta oficina trabalhamos de forma a levar os alunos
Trabalhamos alguns procedimentos para o bom uso ao objetivo pretendido através de questões levantadas por
do Scratch, vejamos a seguir: nós, ou seja, visando analisar o comportamento do sprite
e seus respectivos comandos, comparando com o contexto
• Como devo proceder? Primeiro eu penso o que eu pretendido, estas questões eram respondidas pelos
quero com o sprite. próprios alunos, por exemplo:
• Pensar em um objetivo específico ou geral com
relação ao sprite17: por exemplo, quero caminhar Ao se perguntar por que o sprite 21 está saindo do
no sentido esquerda-direita. campo de visão da tela, permitiu-se que o aluno respondesse
• Realizar um movimento específico? O movimento as questões ou por já ter o conhecimento, ou por buscar o
depende apenas de um script 18? Ou depende de uma comando apropriado que respondesse a pergunta.
tecla, ou seja, posso fazer com que teclas diferentes
tenham scripts diferentes para o movimento?
• Meu objetivo é realizar um diálogo?

168 169
Exemplo de imagem da situação problema: gato fora da tela. Boa parte dos alunos nos dois horários já possuía
conhecimento do aplicativo, não tivemos necessidade de
detalhar o uso básico do Scratch. A dificuldade neste dia
era segurar o entusiasmo dos alunos em tomar rumos
distintos ao sugerido pela metodologia nas oficinas. Para
um aluno que procura aventurar-se no Scratch, fica visível a
sua postura com relação ao aplicativo, sempre buscando de
modo “aleatório” comandos que por algum motivo chamam
a sua atenção no momento e, quando o seu objetivo em
Exemplo de imagem da solução: gato na tela. alcançar um propósito no aplicativo fosse muito difícil de
ser alcançado, o aluno ou persistia sem alcançar resultados
satisfatórios ou mudava de propósito. Apresentar ao aluno
uma organização mental da forma de atuar junto com o
Scratch tomando como base a metodologia nas oficinas, foi
a novidade do dia para a maioria dos alunos.

Descrição da Oficina

A Oficina foi dividida em duas partes:

1ª parte - Roteiro: atividade induzida – como caminhar


no sentido esquerda-direita;

2ª parte - Desafio: o que é necessário modificar no


script para realizar um movimento no sentido subir-
E xemplo de imagem de um momento da Atividade 1. descer?

Em geral as duas partes apresentaram desafios


distintos:

ROTEIRO

A atividade22 apesar de simples foi orientada; nesta


oficina ficou claro a boa noção de uso da maior parte
dos alunos. Basicamente nesta atividade, o sprite
deveria apenas caminhar no sentido esquerda-direita
e para isto foi construído um script atendendo a um
conjunto de questões levantadas por nós.

170 171
DESAFIO Descrição da atividade

Atividade I: Na primeira atividade foi apresentado Trabalhamos apenas o roteiro: atividade conduzida,
como desafio realizar um movimento no sentido partindo sempre de uma posição fixa mover o sprite em
subir-descer, mudando o script e ao mesmo tempo sentido aleatório explorando um novo conhecimento:
pondo em questão o entendimento do aluno em ângulo fixo (último valor registrado) e incremento do
aplicar a metodologia das oficinas. Alguns alunos ângulo.
mostraram esta habilidade de pensar antes de aplicar,
modificando o script anterior de modo coerente
Conteúdo da atividade2: Aprender outros movimentos
mesmo que não sendo eficiente, enquanto que alguns
básicos utilizando alguns recursos disponíveis: ângulo e
não fizeram afirmando que estavam pensando – neste
caso fiquei com a impressão de que o aluno não tinha incremento. Nesta atividade trabalhamos com um sprite
muita ideia do que fazer, estava apenas aguardando (padrão).
alguma sugestão de minha parte. Exemplo de imagem de um momento da Atividade 2:

Atividade II: A segunda atividade23 , apesar de simples,


foi orientada desafiando novamente o aluno em
compreender a metodologia da oficina, trabalhamos o
conceito de incremento junto com a direção do sprite.
Temos a possibilidade de guardar a última direção
(ângulo representado pelo risco azul) do sprite, este
valor guardado pelo comando “direção” (conforme
figura a seguir), foi inserido dentro do operador “+”
permitindo que a última direção fosse incrementada
com um valor desejado pelo usuário, logo, sempre
que a atividade fosse inicializada teríamos o recurso
em andamento. Fiquei com a impressão de que alguns
alunos compreenderam com perfeição, nosso intuito
Dificuldade apresentada pelos alunos: confusão em
era apenas apresentar o conceito de incremento,
trabalhar com o comando “direção”, esta dificuldade está
quebrar o gelo, este conceito é muito útil no aplicativo
em sua estrutura, com relação aos eixos do plano cartesiano:
Scratch e foi visto em outras oficinas.

172 173
Vamos simular os valores obtidos pelo loop assim como não houve problema em compreender por
elaborado nesta atividade para compreender o que estava que da escolha dos número 0 e 360. Outra novidade foi o
acontecendo: uso do comando “pergunte ____ e espere” além de poder
manusear a variável padrão “resposta” dentro de um desvio
Primeiro valor adicionado para a variável “direção” = 90º: condicional “se” (conforme ilustra a figura a seguir). Neste
caso nenhum aluno mostrou ter conhecimento prévio e
“direção” “direção” + 16º Resultante no plano
a compreensão dos alunos sobre o manuseio da variável
90º 90º + 16º = 106º  90º + 106º = 196º
Subtrairmos pelo limite do eixo padrão “resposta” não ocorreu por completo. Ficou claro
196º - 180º = 16º que alguns alunos não entendiam o procedimento que
Ainda temos que incrementar 16º
Mas a partir de agora o ângulo é negativo
ocorria da variável padrão “resposta” do Laptop Educacional.
-180º + 16º = -164º
-164º -164º + 16º = -  -164º + (-148º) = -312º
Subtrairmos pelo limite do eixo
Ao mesmo tempo, outros alunos mostraram entender
148º
-312º + 180º = -132º o desvio condicional “se”, chegaram a manusear de acordo
Ainda temos que incrementar -132º
Mas a partir de agora o ângulo é positivo
com suas vontades, um exemplo foi a sugestão de inserir o
180º - 132º = 48º comando “mova 10 passos” dentro de um dos condicionais.
48º 48º + 16º = 64º  48º + 64º = 112º
Não ultrapassou o limite do eixo
Conteúdo técnico trabalhado:
112º 112º + 16º = 128º  112º + 128º = 240º
Subtrairmos pelo limite do eixo
240º - 180º = 60º Aprender novos comandos da aba controle, inserção
Ainda temos que incrementar 60º
Mas a partir de agora o ângulo é negativo
e edição simples de novos sprites, utilização de Palcos,
-180º + 60º = -120º ferramentas para um diálogo simples, relembrar os
conceitos vistos na última oficina.
Oficina 2 – nível intermediário
A Oficina se divide em duas partes:
Esta oficina teve um acréscimo importante, percebeu-
se que neste momento seria importante apresentar as 1ª) Roteiro: Atividade induzida pelo monitor.
novidades de uso dos comandos do Scratch fazendo uso 2ª) Desafio: Uma pequena atividade.
de um contexto, permitindo um maior interesse do aluno
pelo objetivo final da oficina e também criando expectativa Descrição da atividade
sobre como é realizado este objetivo.
Deletar e inserir sprites, escolher um número aleatório
Esta segunda oficina24 teve como foco dar continuidade dentro de um intervalo, gerar perguntas e respostas que
à metodologia das oficinas e continuidade de rotinas da interagem com o usuário, trabalhar com a resposta fazendo
oficina, a novidade sobre o uso de comandos veio com o uso do desvio condicional “se”.
comando “sorteie número entre 0 e 360” – que simula a
escolha de um número aleatório dentro de um intervalo –
não houve problemas em entender o conceito envolvido

174 175
Exemplo de imagem de um momento da Atividade Exemplo de imagem do script do sprite chamado Geleia

Os elementos computacionais, como desvio


condicional e variável padrão, são os mais difíceis de
serem compreendidos, pois requerem um nível maior
de abstração do que aqueles como o movimento que A reação dos alunos diante do contexto foi de
podem ser observados em tempo real. A ideia de desvio interrogação, “o que fazer??” O que passou pela cabeça dos
condicional não é trabalhada diretamente na matemática e alunos naquele instante não saberemos, mas a expressão
nem todos os alunos compreendem o conceito de variável do rosto apresentando dúvidas foi notável.
em matemática.
Além deste desafio inicial, os alunos trabalharam
Oficina 325 – nível intermediário novamente com o conceito de incremento com relação
às variáveis padrão tamanho
Esta oficina teve dois acréscimos importantes. O e posição (conforme figura ao
primeiro foi o teste prático dos monstrinhos 26 aplicado aos lado) no plano cartesiano.
alunos. Criamos um projeto com três sprites contendo seus
respectivos scripts. O objetivo era através do script deduzir Ao trabalharmos com a posição do sprite tivemos
a ação realizada pelo sprite. Esta atividade foi muito boa, que introduzir o conceito de plano cartesiano, foi utilizado
permitiu a discussão entre os alunos e, ao mesmo tempo, um plano de fundo do próprio do Scratch representando o
avaliar o rendimento com relação às Oficinas. plano cartesiano. (Figura A)

O segundo acréscimo foi o entendimento dos Percebemos uma resistência de compreensão por
formadores sobre a importância de apresentar as novidades parte do aluno. A dificuldade estava em assimilar a nossa
de uso dos comandos do Scratch, fazendo uso de um explicação visual em cima do plano cartesiano e comparar
contexto em papel. Os alunos tiveram tempo para pensar com o script, e entender que este realizava o que estávamos
e até mesmo tempo para iniciar a criação de um script que dizendo. Neste caso dizíamos aos alunos:
representasse o contexto.

176 177
“Queremos representar um sprite vindo de longe. Como Controle – repita. Incrementando os valores das variáveis
fazer? Podemos fazer esta representação posicionando padrão: tamanho, posição ‘x’ e posição ‘y’. Compreender o
o sprite no 1º quadrante e este deve deslocar-se em uso do plano cartesiano e sua aplicação dentro do palco.
cima de uma diagonal imaginaria para o 4º quadrante”
(Figura B) Descrição da atividade

O contexto apresentado aos alunos foi o seguinte:

O morcego perdido.

Um morcego vem voando de muito longe! Cansado de


voar ele para e pensa “estou perdido preciso de ajuda”. No
mesmo instante aparece o cão amigo e após se apresentar
Figura A e B
sugere duas opções:

Outro problema estava em perceber que o 1ª. opção) se você for para a esquerda chegará no deserto
deslocamento ocorria com relação ao eixo ‘x’ e com relação e pode se perder e passar mal;
ao eixo ‘y’. Este conceito primordial de deslocamento no
plano parecia ser novidade para os alunos. Resolvemos 2ª. opção) se for para direita você vai acabar no grand-
não estender o contexto, focando neste conceito de plano canyon;
cartesiano, pois este é um conceito importante para o
Scratch. Pergunta realizada ao aluno: como traduzir este contexto
no Scratch?
Ao trabalhar com o incremento envolvendo a variável
padrão tamanho não obtivemos problemas de compreensão; Exemplo de imagem de um momento da Atividade:

os alunos entenderam perfeitamente o incremento em


função da porcentagem do tamanho anterior.

Conteúdo trabalhado:

Diante de um contexto apresentado ao aluno: deixar


que ele livremente construa o script no Scratch, além
disto, conhecer/entender a manipulação de dois sprites –
movimento integrado e independente. Alteração de cenário
em função da ação do sprite e dependente de uma tecla
do Laptop Educacional. Utilização de um novo elemento:

178 179
Scratch Day: 19 de maio de 2012
1
Rede mundial de encontros que ocorre uma vez por ano; a escola que estiver
Embora a Oficina 4 não tenha sido realizada participando deve desenvolver em um dia específico Workshops, compartilhar
como planejado inicialmente devido a contingências de projetos e experiências no site oficial do evento. Para mais detalhes sobre este
paralisação de aulas no período, as atividades do Scrach Day evento ver site oficial day.scratch.mit.edu
foram realizadas em formato alternativo nas dependências
2
Ver http://info.scratch.mit.edu/About_Scratch
3
Parte da história foi traduzido dos seguintes sites: http://scratch.mit.edu/
do NIED.
forums/viewtopic.php?id=25084
http://scratch.redware.com/content/history-scratch
Considerações Finais 4
Ver http://pt.wikipedia.org/wiki/Seymour_Papert
5
Utiliza blocos gráficos para representar comandos do programa, eliminando
a digitação e erros de sintaxe.
A partir das Oficinas descritas fica evidente que as 6
Ver http://scratch.mit.edu/
dificuldades apresentadas pelos alunos se devem ao fato de Usuários do programa Scratch
abordarem conteúdo novo de matemática ou de construção 8
Ver http://scratch.mit.edu/projects/andresmh/104
de algoritmo computacional (lógica de programação). 9
Ver http://scratch.mit.edu/projects/andresmh/105
Solucionar um problema inicial mostrando outro ponto de
10
Ver http://scratch.mit.edu/projects/andresmh/106
11
Ocorreram em diferentes locais da própria escola (LIED (Sala de Informática)
vista, ou seja, outras linhas de pensamento com o uso dos e sala de aula), uma vez por semana com duração de uma hora.
comandos de linguagem de programação, foi estratégia 12
São alunos que auxiliam qualquer Professor que queiram fazer uso dos
bem aceita pelos alunos e também foi estimulante. Em Laptops Educacionais XO e são responsáveis também pelo carregamento das
geral, mostramos aos alunos outras ferramentas e formas baterias, levar/trazer do armário até a sala (vice-versa), auxiliam colegas de
classe no manuseio do Laptop Educacional XO e de seus aplicativos. Estes
de pensar estruturadas pelo uso do aplicativo Scratch, sem
alunos foram selecionados pelos Professores.
deixar de atender às finalidades educativas. 13
O material utilizado nas oficinas pode ser encontrado no seguinte link:
http://styx.nied.unicamp.br/xounicamp/producao/material-didatico/scratch/
Através destas oficinas, observamos que há oficinas-para-o-scratch-day/
14
Os encontros ocorreram em locais distintos: ora no LIED (Sala de informática)
ainda conceitos computacionais importantes a serem
ora na Biblioteca.
desenvolvidos. As possibilidades de aprendizado de 15
A escola possui dois representantes a Professora Vanessa Pires (período
conteúdo curricular que o Scratch oferece são muitas, se da manhã – ciclo básico I) e o Professor de História Marcos Ramos (período
bem exploradas. da tarde – ciclo básico II) eles são responsáveis pelos alunos-monitores e
representam a escola diante do projeto XO.
16
Antes do evento planejamos quatro Oficinas, porém apenas três oficinas
Trabalhar com o programa exige um toque de ocorreram a quarta oficina não ocorreu em decorrência de modificação do
criatividade, de maturidade para lidar com os comandos planejamento escolar.
disponíveis, paciência, pensar de modo estruturado, 17
Conhecido também como objeto, no programa Scratch é representado pelo
planejar e realizar ações sistemáticas. Para o aluno, bem Gato, Cão, Personagem ou qualquer objeto que possa executar uma ação.
18
Scripts: são linguagens de programação executadas do interior de programas
como para o formador, é um desafio constante. Durante as
e/ou de outras linguagens de programação, não se restringindo a esses
Oficinas, trabalhamos com o diálogo e este nos possibilita ambientes. As linguagens de script servem para estender a funcionalidade de
entender os processos de construção de conhecimento um programa e/ou controlá-lo.(FONTE: http://pt.wikipedia.org)
envolvidos na construção do programa.

180 181
Programa Scratch.
XO – Educação e Acessibilidade
19

20
Ações de pensar estruturado e ações de executar um script que resultará
uma ação no programa.
21
Conhecido também como objeto, no Scratch é representado pelo Gato, Cão, Gustavo Tomazi
Personagem ou qualquer objeto que possa executar uma ação.
22
O material da atividade 1 pode ser encontrado no seguinte link:
http://styx.nied.unicamp.br/xounicamp/producao/material-didatico/scratch/ Ao ser convidado a escrever para este livro sobre as
oficinas-para-o-scratch-day/descricao-das-oficinas.doc/view impressões e os aspectos pedagógicos que poderiam
Neste material procure pelo tópico “Descrição Oficina 1: Atividade 1: Nível
Iniciação” Os scripts desta oficina estão disponíveis no link:
ser destacados dentro do Projeto XO na escola, além da
http://scratch.mit.edu/projects/usuarioXO/2790424 satisfação, configurou-se um desafio: selecionar o que seria
23
O material da atividade 2 pode ser encontrado no seguinte link: mais relevante diante de tantos desdobramentos positivos
http://styx.nied.unicamp.br/xounicamp/producao/material-didatico/scratch/ que esta proposta tecnológica e educacional oferece.
oficinas-para-o-scratch-day/descricao-das-oficinas.doc/view
Neste material procure pelo tópico “Descrição Oficina 1: Atividade 2: Nível
Iniciação” Podemos começar destacando a importância da
Os scripts desta oficina estão disponíveis no link: utilização de uma ferramenta educativa tecnológica portátil
http://scratch.mit.edu/projects/usuarioXO/2790427 dentro do ambiente escolar, o XO. Um dos principais
24
O material da atividade 2 pode ser encontrado no seguinte link:
desafios da educação é buscar caminhos para acompanhar
http://styx.nied.unicamp.br/xounicamp/producao/material-didatico/scratch/
oficinas-para-o-scratch-day/descricao-das-oficinas.doc/view as mudanças que ocorrem na sociedade e trazê-las para
Neste material procure pelo tópico “Descrição Oficina 2: Nível Intermediário” a sala de aula, um computador por aluno propõe algo
Os scripts desta oficina estão disponíveis no link: grandioso e que contribui efetivamente para inclusão
http://scratch.mit.edu/projects/usuarioXO/2790427 social e para a escola que pretende oferecer ambientes de
25
O material da atividade 2 pode ser encontrado no seguinte link:
http://styx.nied.unicamp.br/xounicamp/producao/material-didatico/scratch/
aprendizado atualizados e contemporâneos.
oficinas-para-o-scratch-day/descricao-das-oficinas.doc/view
Neste material procure pelo tópico “Descrição Oficina 3: Nível Intermediário” Dentro das ações educativas ocorridas no Projeto,
Os scripts desta oficina estão disponíveis no link: as relações humanas de partida e contra partida entre
http://scratch.mit.edu/projects/usuarioXO/2790450 a universidade e a escola merecem destaque. Através
26
Ver http://scratch.mit.edu/projects/usuarioXO/2790450
das interações dos pesquisadores, professores e alunos,
contextualizamos e trabalhamos com o XO diversos
aspectos de relevância pedagógica que contribuirão para o
caráter educativo do Projeto.

Através das oficinas, intervenções e ações, os


pesquisadores tiveram a oportunidade de vivenciar e
conhecer o cotidiano da escola, o convívio e a relação
com a diversidade de alunos e de professores em sala
de aula, além dos prós e contras que o contexto escolar
atual oferece e engloba. Estas relações contribuem na
riqueza de variáveis na análise, reflexão e conclusão dos

182 183
trabalhos que estamos desenvolvendo e produzindo. O olhar educativo deve perceber conteúdo e
conhecimento nas mais diversas condições, interações ou
Nas atividades propostas do Projeto, os professores situações, deve estar livre e aberto às desconfortáveis e
vivenciaram através das oficinas algumas das possibilidades inevitáveis mudanças e se adequar ao que surge diariamente.
que, com a aceitação, adaptação e adequação ao XO nos
métodos em sala de aula, facilitam no desenvolvimento, Estamos num momento de mudanças significativas
aquisição e abordagem dos diversos conhecimentos de no formato do acesso à informação e os conteúdos são
formação básica, inclusive a própria tecnologia que sustenta expostos numa dinâmica intensa com as novas tecnologias,
o projeto. o acesso à informática. O computador para cada aluno e
contribui não somente com a acessibilidade da tecnologia
Na relação do XO e o aluno, fica evidente o potencial educativa e no uso como ferramenta pedagógica de apoio,
dentro da escola e fora dela, os alunos que conhecem mas oferece a chance de desenvolver a apropriação com
os recursos existentes nos aplicativos, rapidamente se critério e reflexão do aluno, pais e professores sobre como
apropriam e passam a trabalhar e utilizar nas suas atividades utilizar construtivamente este recurso disponível.
de aluno e de jovem consequentemente. Podemos adotar o
princípio de que não existe aluno desinteressado, mas sim Oficina de música
o mal estimulado ou não compreendido.
Lembrando que os métodos pedagógicos atuais já
Quando falamos do XO fora da escola, chama atenção consideram a arte fundamental para o desenvolvimento
encontrar nas entrevistas e depoimentos de partes distintas humano e que a arte original deve ser respeitada a qualquer
que consideram indiferente os alunos levarem o portátil XO preço, temos o XO como um grande aliado neste contexto.
para casa, justificando que os mesmos não o usavam para Dentro da diversidade de aplicativos educativos existentes,
estudar e sim para “viajar” na Internet, além do risco de os recursos possibilitam o desenvolvimento de atividades
danos ao aparelho. educativas que desenvolvem muitas percepções artísticas.
Não seria errado afirmar que o XO tem uma característica
Quando falamos em adequar a escola aos novos de abordagem apoiada fortemente na arte para sucesso
tempos, aproximar o mundo que vivemos ao da escola, educativo de seus aplicativos.
tornar o aprender uma atividade estimulante, que traga
Possuindo esta “personalidade” na sua concepção,
autonomia, parte-se do princípio de não ignorar o
muitas das ações do Projeto apresentaram a utilização de
potencial educativo em qualquer interação associada à
arte para educar, foram realizadas oficinas de animação no
informação, a tecnologia, os conteúdos da rede e também
Scracth e de design participativo realizadas com sucesso
os das pessoas que nos cercam. Seja dentro ou fora da
em sala de aula, que apresentaram excelentes resultados
escola somos construídos das vivências diárias. A escola
para o Projeto. Para aprofundar este recurso educativo e
pode cooperar neste processo orientando, propondo e
ampliar seu leque de utilizações, decidimos realizar uma
sugerindo atividades educativas mais adequadas e confiar
oficina de música utilizando o aplicativo “Tam Tam Mini”,
no aluno.
no Atendimento Educacional Especializado da escola.

184 185
Realizamos uma vivência com instrumentos musicais Trecho do relato da atividade pela Prof. Arlene
das chamadas famílias; peles, cordas, madeiras e metais, Machado e Cardoso Coelho - Emef. Pd. Emílio Miotti:
para apresentar alguns conceitos básicos da música como:
ritmo, harmonia, melodia, tonalidade grave ou aguda, “(...) No final ela novamente solicitou ao Gustavo que
andamento lento e rápido, a forma de tocar e a importância pudesse tocar a sanfona. Gustavo atendeu seu pedido e
de cada um deles. Após uma apresentação em grupo entre com a expressão de muita satisfação K. disse:
nós, onde todos participaram fazendo uma música livre,
- Pega o espelho, que eu quero ver.
introduzimos o “Tam Tam Mini” que oferece variações
rítmicas como “base” para improvisações com os mais Fui busca-lo e coloquei a sua frente. Ela ficou se olhando e
diversos instrumentos e sons; ao fim fizemos desenhos dos tocando a sanfona realmente interagindo com as pessoas
instrumentos para registrar o momento. e com a situação vivida naquele momento. Usou durante
todo o tempo a linguagem de personagens falando como
eles, porém nessa hora ela realmente estava ali presente,
dizendo o eu, se relacionando com as pessoas que estavam
naquele local. V. ficou muito interessada durante toda a
apresentação mostrando-se atenta durante todo o tempo
da oficina.
Nesta ocasião trabalhamos com duas alunas, uma Observei que essa oficina possibilitou a elas experiências
autista e outra com déficit de raciocínio e concentração; e aprendizagens muito diferentes das que são vividas no
com elas manuseamos um bongo, um tambor, um violão, cotidiano escolar. Essas experiências com os instrumentos
um acordeom e um trompete. As alunas não somente por serem novas, são muito apreciadas, trazendo muita
conheceram os instrumentos como os tocaram, emitiram satisfação. Poderemos dar continuidade e elas, com
sons e puderam sentir o resultado de seu empenho. Ao o uso do Tam Tam no XO, visto que agora o interesse
trabalhar com o “Tam Tam Mini”, reconhecemos os mesmos pelas possibilidades que esse aplicativo apresenta foram
instrumentos musicais no aplicativo, tocamos todos e instigados e cabe a nós explora-lo de diferentes formas.”
descobrimos outros e deixando um ritmo com “base”,
improvisamos em todos eles.

Fotos da Oficina de música no AEE da escola EMEF P. E. Miotti.

186 187
Considerações finais Laptop XO nas Olimpíadas das Cores
Toda a oficina ocorreu de forma intensa e participativa, Eduardo M. M. Pinto, Everton de M. Faleiros, Jucélio E.
até a professora Arlene tocou a “sanfona”, como chamamos Fonseca, Maria Cecília Martins, Gustavo Tomazi, Romilva
o acordeom; o ambiente criativo que geramos proporcionou Costa, Vanessa R. M. L. Maike
diversos momentos para discutir, comparar, testar, brincar
e aprender de forma lúdica e sem o compromisso de
impressionar ou se destacar, apenas fazer. Desta forma A Olimpíada das Cores é um evento realizado anualmente
acredito que a meta foi atingida e pudemos aperfeiçoar e pela EMEF Padre Emílio Miotti, com a finalidade de reunir
apresentar mais este recurso para trabalhar as percepções os alunos, professores e funcionários, e promover, assim, a
musicais nos alunos da escola e do AEE. integração e a confraternização de todos. Com o passar dos
anos, a equipe educacional da escola vem aprimorando as
O XO respeita a diversidade, sua interface, linguagem Olimpíadas das Cores. Em 2012, foi incluído nesse evento o
visual e proposta de aplicativos podem ser facilmente uso do Laptop Educacional XO, que estava sendo utilizado
apropriadas e usadas por todas as pessoas. na escola há mais de um ano.

Ao contrário do que se imagina, na minha visão de A ideia inicial para incluir atividades com o XO nas
educador, trabalhar com alunos desta situação que prefiro Olimpíadas das Cores, foi criar um álbum de figurinhas no
chamar somente de diversa, não se configura dificuldade ou programa Scratch. Essa ideia, porém, evoluiu até chegarmos a
barreira a vencer ou superar, ao contrário, realizar atividades propostas pedagógicas apropriadas para cada ciclo escolar.
com pessoas que estão satisfeitas em estar ali somente é Portanto, este capítulo tem como objetivo apresentar esta
uma relação construtiva e privilegiada. Erramos ao tentar evolução, desde o planejamento das atividades, passando
normalizar, contaminar com o “correto” ou padronizar os pela execução delas e, por fim, chegando à análise dos
seres humanos, esta é uma prerrogativa inexistente nestas resultados.
pessoas, e por conta disso encontramos nestas relações
rara sinceridade e verdade. Introdução

Em 2012, no período de 11 a 18 de agosto, ocorreu a


XII Olimpíada das Cores da EMEF Padre Emílio Miotti. Este
evento escolar foi idealizado pelo Professor de Educação
Física Marcelo Almada Leitão em 1996. O objetivo era
reunir alunos, professores e funcionários, promovendo
a integração e diversão dos participantes. Desta forma,
fomentava-se a confraternização e desmistificava-se a
questão da competição. Ao longo dos anos, a equipe
educacional da EMEF foi aprimorando e adequando a

188 189
realização das Olimpíadas das Cores, até chegar à
TEMAS GERADORES CORES SALAS MANHÃ SALAS TARDE
configuração descrita a seguir.
LARANJA 1º A 9º B

SAÚDE VERMELHO 2º A 6º A
Os alunos, organizados em equipes, são identificados
AMARELO 4º B 7º A
por camisetas de determinadas cores. A camiseta das VERDE BANDEIRA 3º B 6º B
Olimpíadas das Cores recebe um logo, escolhido por meio ESPORTE TURQUESA 1º B 9º A
de um concurso. Na primeira etapa deste concurso, alunos VERDE LIMÃO 4º A 8º A
do 4º ao 9º ano elaboram seus desenhos. Na segunda ROXO 2º B 8º B
etapa, todos os alunos da escola votam e escolhem os três CULTURA VINHO 3º A 9º C

melhores desenhos de cada sala. Em 2012, essa votação ROYAL 5º A 7º B

aconteceu em várias eliminatórias e o desenho vencedor


foi o do aluno Vinicius Caliente, do 9º ano.

Nos preparativos do evento, as equipes confeccionam


bandeiras, adereços de torcida, danças e o grito de alegria.
Durante as Olimpíadas, a mistura das cores simboliza a
alegria e a confraternização dos participantes. Ao longo
da semana, os alunos são envolvidos, de acordo com sua
faixa etária, em jogos, concursos, gincanas e brincadeiras e
pontuam para um grupo. Ao final das Olimpíadas das Cores,
o grupo com maior número de pontos ganha a medalha de
ouro, o que tem o segundo maior, fica com a medalha de
prata, e o terceiro maior ganha a de bronze. Há também a Alguns momentos das Olimpíadas das Cores
entrega de troféus para alunos e alunas que se destacaram
ao longo da semana de atividades. Planejamento das Atividades

Em 2012, as atividades encaminhadas nas Olimpíadas Em uma reunião junto com os professores da
estiveram vinculadas aos três temas geradores trabalhados escola, fomos convidados a participar das Olimpíadas das
ao longo do ano letivo: Saúde, Esporte e Cultura. Ao Cores. Aceitamos o desafio, mas sem saber, a princípio,
tema Saúde foram atribuídas as cores laranja, vermelho e como proceder, pois é nítida a diferença entre as
amarelo. Ao tema Esporte foram associadas as cores verde Olimpíadas em uma quadra poliesportiva e em uma sala
bandeira, azul turquesa e verde limão. Ao tema Cultura, as de aula. Estabelecemos os seguintes objetivos para nossa
cores roxo, vinho e azul Royal foram atribuídas. A tabela participação:
a seguir resume estas informações e mostra também as
turmas relacionadas a cada cor. • Iniciar ou aumentar a convivência dos alunos com o XO;

190 191
• Fornecer aos participantes um momento de interação Este planejamento foi apresentado às professoras
com o programa Scratch para explorar e conhecer a do Ciclo I e II numa reunião informal na escola. Todas as
ferramenta; atividades propostas foram aprovadas, exceto a planejada
• Propor um desafio que exigisse a aplicação dos para o 1º ano. Como os alunos do 1º ano, até aquele
conhecimentos adquiridos. momento, ainda não haviam tido contato com o Laptop
XO, as professoras consideraram o Scratch muito avançado.
A partir de então, passamos a planejar as atividades Assim, a equipe do NIED passou a trabalhar em propostas
por meio de reuniões internas do NIED e de reuniões alternativas para os alunos do 1º ano. A tabela a seguir
externas com representantes da escola. Esses encontros mostra algumas destas propostas.
serviram para planejarmos as atividades e alterarmos o 1ª Proposta

 Nome: Circle Adventure


planejamento conforme necessário.  Origem: jogo encontrado no
1
site oficial do Scratch .
 Objetivo: o círculo verde
(controlado pelo usuário) deve

Para os Ciclos I e II, elaboramos um planejamento de alcançar o portal, sem colidir


com os quadrados e piso/teto

atividades que oferecesse diferentes níveis de complexidade


vermelhos.
 Problema: o jogo mostrou-se
pesado demais para a placa
para cada ano escolar. A tabela a seguir resume a primeira gráfica do XO.
2ª Proposta
proposta de planejamento.  Nome: Memory Card
 Origem: jogo encontrado no
2
site oficial do Scratch .
Álbum de Figurinhas
 Objetivo: desvirar as 16 cartas,
duas por vez, para encontrar as
 Anos: todos dos Ciclos I e II duplas de cartas de mesma cor,
 Origem: criado no NIED e com o menor número possível
disponível no site oficial do de movimentos.
1
Scratch . 3ª Proposta
 Objetivo: arrastar a figura do
quadro branco para a sua  Nome: Maze
própria imagem fantasma.  Origem: aplicativo padrão do
XO.
Cartão Postal  Objetivo: o jogador (círculo
azul) deve mover-se até o
 Anos: 1º e 2º quadrado verde utilizando as
 Objetivo: construir um cartão setas do teclado.
postal no tema utilizando as
imagens do repositório do 4ª Proposta
próprio Scratch. Como mostra
o exemplo ao lado, a ideia é  Nome: editor de imagens do
inserir e editar as imagens no Scratch.
palco do Scratch.  Origem: aplicativo padrão do
XO.
 Ano: 3º  Objetivo: criar novos desenhos
 Objetivo: criar um cartão ou editar os já existentes no
postal no tema utilizando repositório do Scratch.
imagens do repositório do
5ª Proposta
Scratch, texto e foto do aluno.
Para tirar a foto, é possível  Nome: álbum de figurinhas
utilizar o aplicativo “Gravar”, do (mesmo da proposta original).
XO.  Origem: criado no NIED.
 Anos: 4º e 5º  Objetivo: arrastar a figura do
 Objetivo: criar um cartão quadro branco para a sua
postal no tema utilizando própria imagem fantasma.
imagens do repositório do
Scratch, texto, foto do aluno
e movimento. Para fazer o
movimento, os alunos tiram
duas fotos com o aplicativo http://scratch.mit.edu/projects/usuarioXO/2611038
1, 2, 3

“Gravar”: uma com o rosto


4
Para saber mais veja o capítulo: “Oficinas com alunos utilizando Scratch no
sério e outra sorrindo. Como Laptop Educacional XO”
2
desafio, os alunos podem 5
Existem três temas geradores (Saúde, Esporte e Cultura) optamos apenas por
colocar movimento em
outras imagens.
um (Esporte). A razão foi o limite de tempo tanto para criação das atividades
quanto para realização delas durante as Olimpíadas.

192 193
As professoras dos Ciclos I e II aceitaram a proposta
de apresentar diversos aplicativos simples aos alunos do 1º Análise da 1ª Pista de Corrida
ano. Após analisarmos o nível de
complexidade e o tempo para
executar a atividade, chegamos à
Para os Ciclos III e IV, a equipe do NIED pensou em conclusão que o projeto anterior
oferecer atividades similares às do Scratch Day, porém de não atenderia por completo as
nossas exigências. Logo, pensamos
maior complexidade e baseadas no tema gerador Esporte. em produzir um segundo projeto,
A ideia era envolver mais conceitos de programação e de mais viável aos nossos objetivos. O
jogo Olympics Demo (encontrado no
Matemática. A primeira proposta foi oferecer um álbum de 1
site oficial do Scratch ) foi usado
figurinhas mais elaborado do que o dos Ciclos I e II. Depois, como base para produzir uma nova
proposta.
pensamos também pedir que os alunos construíssem uma
pista de corrida que exigisse conceitos mais complexos 2ª Pista de Corrida

de movimentação dos objetos. Pensamos também em


A nova proposta utilizou o conceito
oferecer outros dois jogos criados no NIED, um sobre salto de movimentar o objeto e manter o
à distância e outro que propõe um desafio de lógica. A cenário estático. Ao lado temos uma
imagem do projeto onde os
tabela a seguir resume todo esse planejamento inicial. corredores percorrem, com
velocidades diferentes e em linha
reta, uma pista de corrida vista de
cima.
Álbum de Figurinhas

Long Jump
 Origem: criado no NIED, foi
baseado no álbum de
figurinhas mostrado antes,
mas agora com o tema
 Origem: criado no NIED e
Esporte.
disponível no site oficial do
 Objetivo: arrastar para o 2
Scratch .
espaço correto o atleta
 Objetivo: utilizando as setas
correspondente à dica que
do teclado, conduzir um atleta
aparece no Balão.
a realizar um salto à distância.
1ª Pista de Corrida

Queríamos construir um projeto Horse


que apresentasse alguma novidade.
Em geral, trabalhamos com objetos
que, de fato, se movimentam e o  Origem: criado no NIED e
cenário de fundo é estático. Desta disponível no site oficial do
3
vez, porém, pensamos em fazer o Scratch .
contrário: o objeto fica estático e o  Objetivo: usando os
cenário de fundo se movimenta, movimentos do xadrez, trocar
criando a ilusão de uma corrida. cavalos brancos de lugar com
cavalos pretos.

1
http://scratch.mit.edu/projects/mwd/2650090
194 2
195
http://scratch.mit.edu/projects/usuarioXO/2622244
No planejamento final das atividades, somente a Os roteiros utilizados durante as atividades foram
2ª proposta de pista de corrida foi mantida. As demais preparados pelos pesquisadores Eduardo e Jucélio. Os
atividades não foram aplicadas nas Olimpíadas das Cores outros instrutores tiveram a liberdade de adaptá-lo
porque percebemos que não haveria tempo suficiente para conforme suas necessidades e seus métodos. No período
utilizá-las. da manhã (Ciclos I e II), os roteiros giraram em torno
da confecção do cartão postal. Houve uma pequena
Aplicação das Atividades disparidade apenas entre as duas turmas do 1º ano. Para
uma delas, os pesquisadores Eduardo e Vanessa seguiram
Durante todas as Olimpíadas, tivemos uma sala o roteiro proposto pelas professoras dos Ciclos I e II, isto
exclusiva para a execução das atividades no Laptop XO. é, mostrar diversos aplicativos do XO para os alunos. Para
A equipe do NIED revezou-se durante a semana das a outra turma, os pesquisadores Everton e Elaine seguiram
Olimpíadas de forma que sempre houvesse pelo menos o roteiro proposto inicialmente, isto é, fazer um cartão
dois facilitadores na sala. Um deles atuava como instrutor postal no Scratch, proposta questionada pelas professoras
e o outro oferecia suporte, tirando dúvidas e problemas quanto à dificuldade que as crianças teriam para realizar a
individuais dos alunos. Houve sempre também a presença atividade. Para a surpresa de muitos, os alunos conseguiram
de pelo menos uma professora da EMEF Pe. Emílio Miotti executar, com sucesso, as atividades propostas.
para auxiliar com a disciplina e com questões específicas
das Olimpíadas das Cores, como a pontuação. No período da tarde (Ciclos III e IV), foi executada a
proposta de pedir que os alunos construíssem uma pista de
As mesas foram dispostas para trabalho em duplas, corrida. Esta atividade continha quatro etapas principais:
de forma a permitir que os alunos buscassem a interação
e cooperação entre eles. Entretanto, a disponibilidade de • Construir a pista de corrida e os corredores utilizando
laptops era de um por aluno. A execução individual ou o editor de imagens do Scratch. Fazer os corredores
em dupla das atividades variou conforme orientação dos deslizarem pela pista, numa velocidade pré-definida.
instrutores. Foram reservados no total 30 XO’s, além de • Fazer a corrida começar somente após uma tecla
alguns de reserva para eventuais problemas técnicos. Estes específica ser pressionada.
laptops eram todos de uma mesma turma, a da professora • Fazer os corredores se movimentarem com uma
Vanessa Pires. Os materiais utilizados foram estes: velocidade sorteada, isto é, aleatória.
• (Desafio) Construir uma nova pista de corrida, só que
• Projetor em vez de os corredores deslizarem na vertical, fazê-
• Laptop (com Scratch instalado); los movimentarem-se na horizontal.
• Roteiros das atividades:
- Um roteiro diferente para cada série da manhã (1º A pontuação das turmas nas Olimpíadas ficou
ao 5º anos); a cargo das professoras que estavam colaborando
- Um roteiro único para as séries da tarde (6º ao 9º na sala. Os pontos variavam de zero a três pontos e,
ano). para os Ciclos I e II, os critérios foram, principalmente,

196 197
a disciplina da turma e a quantidade de alunos que fizeram Além destas referências que encontram, para atuar os
o cartão postal. Para os Ciclos III e IV, em geral a turma alunos também encontram espaços para manter diálogos
recebia 1 ponto se completasse a primeira etapa atividade com os protagonistas deste ambiente de aprendizagem
da pista de corrida; recebia 2 pontos se concluísse até a (seus colegas e professores). Estes fatores em articulação
terceira etapa e, por fim, 3 pontos iam somente para a colaboram para manter a mobilização dos protagonistas
turma cuja maioria (pelo menos 80%) dos alunos concluísse a continuarem atuando, realizando a atividade. Ou seja, o
a quarta etapa (desafio). aluno encontra suportes que fomentam seu interesse em
continuar ativo no processo de sua criação, na elaboração
Momentos e interações de algo significativo para ele em seu laptop naquele
momento.
A seguir serão destacados trechos de uma das
Momentos da Atividade Ilustração Diálogos estabelecidos
atividades XO nas Olimpíadas das Cores: criação de Cartão
Postal pelos alunos. Para realizar esta atividade os alunos Formadora1 orienta ação dos Formadora1: "Agora, para inserir
acessaram o aplicativo Scratch, buscaram fotos da olimpíada alunos mostrando a imagem, olhem aqui na tela,
graficamente procedimento está escrito "diário"
armazenadas nas pastas do aplicativo, inseriram as imagens envolvido no uso do XO e do Aluno1: onde, onde?

na tela e escreveram algumas palavras. aplicativo Scratch, necessários


para realização da atividade.
Aluno2: aqui, aqui
Aluno3: Professora, onde é?
Formadora2: No diário. Você foi
no diário?
Aluno3: Aqui. Achei.
Formadora 2: Clica nele.
Conseguiu entrar e ver a pasta.
Aluno3: Hum, Hum! [sim]

Professora Vanessa Pires Professora: Passa a mão no


interagindo com seus alunos mouse devagarzinho até o cursor
no momento de busca de chegar na lá no canto da tela
arquivos em pastas do XO.
A seguir serão apresentados alguns extratos de Inserção de fotografias
criadas por alunos para
interações e diálogos ocorridos na atividade, que mostram compor o cartão postal em
elaboração.
alguns percursos dos alunos que pouco a pouco vão sendo
incrementados a partir das especificações e referências Formador acompanha Formadora 2: Você clicou na
concretas que compõem o ambiente de aprendizagem processo de identificação de pasta? ... Espera um pouquinho
fotografias no laptop pelos que o XO está processando...
proposto (demonstrações do funcionamento do XO e do alunos. Conseguiu ver suas fotos aí?
Aluno: Hum, hum!...Consegui!"
aplicativo em uso, recursos disponíveis, como acioná-
los, sequência de procedimentos para realizar uma ação
específica etc). Como se pode observar nos diálogos Aluno mostra para formadora Aluno: Nossa professora, olha
um de seus primeiros êxitos aqui. Achei as foto...legal!!!"
destacados na tabela a seguir, estes elementos auxiliam na realização da atividade Formadora 2: Hum, Hum!!! Isso
o aluno a entender o que está sendo proposto e se sua mesmo. Viu as suas fotos aí?

atuação está em consonância com o momento vivido pelo


grupo.

198 199
A partir do recorte destes momentos e diálogos
Aluno pergunta ao Aluno1: Professora,
estabelecidos na atividade, é interessante observar que formador como fazer como é que faz para
neste ambiente de aprendizagem o aluno encontra espaços para achar as fotos da entrar nisso?
mesma forma como os
para tirar suas dúvidas, para nortear seus próximos passos, colegas acabaram de Formador2: No diário do
fazer. Na interação um XO...Você já tá nisso!
para compartilhar suas conquistas, para expressar suas dos alunos que já
apreciações sobre o que encontra neste cenário, sobre o realizou este passo da Aluna2: na terceira
atividade, colabora com estrelinha
que realiza, concretiza, contribui. o colega incrementando
informação na
explicação do formador.
A articulação entre o que ocorre na escola e fora dela
também fica perceptível em um dos diálogos estabelecidos
Em determinados momentos da atividade, é
entre os alunos e um formador, ao colocar em evidência as
perceptível fluxos de troca de ideias entre alunos e
fotos geradas pela irmã de uma aluna.
professores. Percebe-se em alguns momentos alternância
Alunos em dupla Alunos/Dupla: de papéis: quem estava aprendendo minutos antes passa
destacam para o
formador uma das aluno1: Aqui é uma a ensinar um colega que dispara uma pergunta relativa
foto dela dormindo
fotografias criadas
por eles. na cadeira na casa a como fazer algo que vê realizado na tela do laptop. O
dela
processo de “aprender e ensinar”, inicialmente disparado
Formador: O que?
pelos professores, aos poucos vai sendo exercido também
Aluna2: Aqui tem
umas fotos que
pelos alunos que, com base em suas experimentações,
minha irmã tirou de passam a contribuir nas explicações, na oferta de ideias,
mim
na busca de solução de problemas de implementação das
Formador2: Ah!
Tá!..agora entendi. ideias do grupo. Assim, aos poucos, os próprios alunos
respondem as questões operacionais do aplicativo ou de
determinados passos da tarefa em andamento pelo grupo.
É interessante destacar também que estas interações

são desencadeadas a partir de uma proposta de trabalho
O trecho a seguir nos permite destacar que o processo
que incentiva o processo de aprendizagem, o processo
de aprendizagem pode ser potencializado quando ocorre
de criação do aluno a partir de elementos e vivências que
de forma situada, ou seja, a partir de um contexto real os
permeiam seu cotidiano.
alunos lançam mão de seus conhecimentos prévios em sua
atuação presente.
Outro ponto que pode ser evidenciado nas interações
estabelecidas, é o processo progressivo de conquistas e
As interações entre alunos e formador - focadas em
aprendizagens que vão ocorrendo ao longo da atuação
nortear a ação no laptop em um dado momento - deixam
prática das pessoas no contexto proposto. É um processo
transparecer uma fluidez entre orientação e implementação
de aprendizagem que vai sendo compartilhado entre os
de ações. Pode-se perceber que as orientações são
personagens que vivenciam juntos uma proposta comum e
“captadas” pelos alunos e executadas no computador quase
ativa de produção de algo no laptop.
que instantaneamente ao que é dito.

200 201
Dupla de alunas com autonomia no uso do Formador 2: - Agora é para colocar
equipamento exploram outros recursos do as fotos de vocês, tá.. Sabem como
aplicativo. Formador, identificando este colocar?.. Não?...Então vamos lá:
conhecimento prévio da dupla, fornece em Clica na última estrelinha. Clica em
bloco uma sequencia de novas informações importar, espera um pouquinho.
referentes ao uso do aplicativo e que Diário. Isso!!!. Aí vocês escolhem as
viabilizam a tarefa em questão: busca e fotos. Certinho?
inserção de fotografia na tela. Devido a
familiaridade da dupla com o XO e
aplicativo executa as orientações a medida
que são verbalizadas.

As interações, relatadas anteriormente, nos


permitem dizer que o envolvimento dos alunos no uso
do laptop estava focado em torno da concretização de
uma dada “atividade”, neste caso, criar um cartão postal
Esta diversidade de possibilidades e percursos de
das Olimpíadas utilizando fotografias, textos, elementos
aprendizagem requer uma aproximação do formador com
gráficos disponíveis no aplicativo Scratch. É interessante
as ideias dos alunos. Esta aproximação permite ao formador
observar que a proposição de uma tarefa comum para uma
identificar o que os alunos estão necessitando saber
dada classe e alunos não implica em soluções unificadas,
naquele momento, oferecendo assim subsídios relevantes
criações pré-determinadas ou uniformizadas.
para a materialização das ideias pelos alunos.
Assim, neste ambiente de aprendizagem no qual
os personagens estão envolvidos em uma ação comum A interação a seguir evidencia este momento de
(fazer um cartão postal das Olimpíadas da escola), houve alinhamento, de aproximação, de entendimentos entre os
espaço para a ocorrência de uma diversidade de soluções, interlocutores (aluno e formador). Para o formador é um
formas de implementação, articulação de ideias. Neste momento rico de interação, que lhe permite clarificar o que
cenário pode-se observar que, à medida que utilizavam o o aluno busca criar, que ideias ele apresenta, quais são as
laptop e o aplicativo sugerido para a tarefa, cada aluno intencionalidades e desejos para caminhar em seu processo
implementa seu trabalho de forma única, a partir das ideias de criação.
que surgiam em sua cabeça, a partir do que viu acontecer Neste diálogo uma aluna tem Aluna: - Agora escolhi editar.
em seu entorno (soluções implementadas pelos colegas), uma ideia de como quer fazer Formador 2: - O que você quer fazer agora?
seu cartão postal (uma Pintar a foto? Quer escrever?
a partir das referências que lhe foram oferecidas, a partir paisagem, fotografia e Aluna: - Agora eu quero escolher o palco.
bichos). Explica o que quer Formador 2: - Não entendi o que você quer fazer.
da compreensão do que o aplicativo em uso possibilitava fazer para o formador visando Me explica de novo?
obter orientação do mesmo Aluna: - Eu quero colocar a foto, uma paisagem e
fazer. de como materializar sua ideia colocar um bichinho.
no aplicativo Scratch (escolha Formador 2: - Você quer colocar a paisagem em
de uma imagem de fundo cima da foto?
Para ilustrar resultados desta criatividade em ação para o palco, inserção e Aluna: Não. - Eu quero colocar a paisagem em
diminuição da foto em cima baixo da foto.
seguem alguns dos cartões postais elaborados pelos do palco, inserção de outros Formador 2: - Você quer colocar a paisagem,
elementos como desenhos de diminuir a fotos e colocar em cima. É isso?
alunos. Cartões Postais e recursos utilizados: fotografias, bichos). Aluna: - Isso! [risos]

personagens, imagens de fundo de tela, efeitos gráficos,


textos.

202 203
Impressões dos Instrutores manter a ordem e a disciplina. As professoras apreciaram as
atividades e muitas verbalizaram seu interesse em aprender
Destacaremos algumas impressões gerais do grupo a utilizar o Scratch, para poder emprega-lo nas aulas. Uma
de instrutores. Citaremos também algumas situações delas, inclusive, pediu orientações sobre como ajudar os
específicas que chamaram a atenção. Focaremos nos alunos a continuarem o cartão postal e criarem o lado de
pontos positivos e negativos com respeito às turmas, aos trás do cartão no Scratch.
professores e aos alunos.
Com relação aos alunos, encontramos alguns
Com relação às turmas, em geral, a maioria delas que já sabiam trabalhar com o Scratch, seja por serem
acompanhou bem as atividades, mas nem todas atingiram alunos monitores, seja porque parentes ou amigos lhes
a pontuação máxima. Todas as turmas apresentaram apresentaram a ferramenta. Houve também casos de
um ou mais alunos fluentes no uso do XO, que foram alunos com grande facilidade em aprender. Uma aluna do
instigados a trabalhar em grupo. No Ciclo I, percebemos 9º ano conseguiu completar, sem orientações, as etapas
a falta de concentração por longos períodos, o que parece avançadas da atividade de criação da pista de corrida.
ser natural para a idade. Nos Ciclos III e IV, os 8ºs e 9ºs Outro aluno, alguns dias depois da atividade, contou que
anos se mostraram mais maduros e tornaram o trabalho baixou o Scratch em sua casa, encontrou tutoriais sobre a
dos formadores mais fácil do que 6ºs e 7ºs anos. Estes ferramenta e estava se “divertindo”.
demonstraram certa indisciplina e bastante impaciência.
Outro caso interessante foi o de um aluno com
Nos primeiros dias das Olimpíadas das Cores, deficiência motora, que começou trabalhando com ajuda
algumas turmas dos Ciclos III e IV, ao construir as pistas de outro aluno, mas, como a empolgação dele era maior
de corrida no editor do Scratch, frustraram-se bastante do que a do colega, ele “tomou conta” do XO. Apesar da
com o desempenho do XO e com o seu touchpad. Isto dificuldade para movimentar o cursor, conseguiu realizar a
nos levou a deixar as turmas subsequentes inserirem um atividade. As alunas com deficiência cognitiva mantiveram
desenho pronto da pista. Outro problema encontrado, com o interesse pela atividade, mesmo tendo dificuldade para
os Ciclos I e II, foi que muitos alunos saíram das atividades fazê-las.
esportivas com as mãos sujas, o que deixou muitos laptops
Depoimentos dos Pesquisadores
com o touchpad sujo, sendo necessário limpa-los com um
pano úmido. A seguir, temos os depoimentos de cada um dos
membros da equipe do NIED que atuaram nas Olimpíadas
Com relação aos professores, destacamos que, no das Cores, seja como instrutor, seja como apoio.
período da tarde, a presença das professoras Vanessa Pires
e Priscila Paionk foi essencial para ajudar na organização e “A importância de trabalhar no Scratch Day 6 com
para manter a disciplina das turmas. No período da manhã, turmas menores e sem competição, serviu de base para criar
em geral, cada turma foi acompanhada por sua respectiva as atividades para as Olimpíadas das cores com antecedência
professora dos Ciclos I e II, o que também foi importante para 6
Para saber mais veja o capítulo: “Oficinas com alunos utilizando Scratch no
Laptop Educacional XO”

204 205
e com segurança; neste novo evento o desafio era trabalhar “Na minha visão, no geral, a atividade foi um sucesso:
com todas as turmas da escola em uma única competição. realizamos o que havíamos proposto e a maioria dos alunos
saiu motivada”.
Ver alunos motivados durante o evento, entusiasmados Elaine C. S. Hayashi
com o resultado e animados com a pontuação são
comprovações de que obtivemos o resultado esperado apesar
das dificuldades: travamento de alguns laptops, dificuldades “O que me impressionou foi que dentre as turmas
de manusear o touchpad e a rebeldia de alguns alunos. que eu auxiliei, a que era tida como mais indisciplinada foi
a que melhor se saiu frente aos desafios propostos. Nessa
Sendo assim, se utilizarmos o mouse já estaremos turma, alguns alunos tidos como analfabetos funcionais
driblando em parte as dificuldades, além da confiança que a conseguiram também realizar as atividades.”
escola depositou em nosso trabalho; com isto e com a nossa
experiência adquirida no evento podemos nos articular com Everton de M. Faleiros
segurança para outros projetos que envolvem a escola por
inteiro. “De forma geral as atividades ocorreram
satisfatoriamente. O espaço era adequado, os alunos
A partir desta experiência e do feedback com os estavam motivados pela competição e procuravam colaborar
Professores fizemos uma auto análise e passamos a pensar nas atividades propostas, com destaque para resultados
nas próximas atuações na escola e nas lacunas que devemos criativos que superavam as etapas das ações. Os professores
cobrir. Dentre elas, destacamos oferecer uma atenção contribuíram com a organização da atividade em sala e
maior para os Professores no intuito de ajudar a criar o facilitaram todo o processo.
link de temas abordados em sala de aula e ferramentas do
Laptop Educacional XO, ou seja, eliminar as barreiras que Na minha visão todos os objetivos foram atingidos. O
atrapalham o Professor em utilizar o Laptop na sala de aula. formato das atividades era adequado às idades das turmas,
Neste caso, a dificuldade de uso do Laptop Educacional XO o XO estava integrado às Olimpíadas oferecendo de forma
não está apenas em elaborar aulas utilizando a tecnologia lúdica e educativa, mais uma utilização de interação de um
ou criar aulas contendo uma alternativa de ensinar, mas recurso disponível nesta ferramenta educativa. Ressalto o
também, em modificar a conduta do Professor em sala aula, companheirismo de todos os envolvidos que, notadamente,
ou seja, o Professor pode encontrar alunos que possuem deram seu esforço e dedicação para o sucesso da atividade.”
maior conhecimento ou prática de uso de tecnologias ou até
mesmo do Laptop Educacional XO; esta situação modifica a Gustavo Tomazi
postura do Professor como referência do saber para Professor
que compartilha de saberes.” “Apesar de ter ficado apenas no planejamento e ter
ido na escola apenas um dia, acredito que a Olimpíada
Eduardo Mauricio Moreno Pinto das Cores tenha sido um sucesso e talvez tenha despertado

206 207
um interesse maior aos alunos, principalmente para a área Posteriormente, em uma conversa com dois alunos monitores
da Computação e Criação de Jogos. O Scratch é um aplicativo que participaram da atividade no Scratch no âmbito das
que permite criar grandes jogos, animações e/ou histórias Olimpíadas, fiquei sabendo que a atividade que maisdespertou
tendo pouco conhecimento em programação. interesse e a mais motivadora para eles tinha sido a do
XO. Disseram que apesar de alguns problemas já citados
Quando criança, buscava ferramentas que permitissem anteriormente, gostaram mais de realizar as atividades
a criação de jogos. Todos os que eu encontrei, porém, eram no Scratch, e, além disso, tiveram apoio e orientação da
geralmente difíceis, principalmente pela pouca idade e pela equipe presente, pois segundo eles, os orientadores pareciam
pouca experiência com o computador. Acredito que nas dominar as atividades.
Olimpíadas das Cores as crianças tiveram uma experiência
que gostaria muito de ter tido quando era criança. No decorrer da atividade no Scratch, pude perceber
que alguns alunos ficaram muito entusiasmados ao conseguir
Apesar de não poder ser definido como um jogo, o realizar algumas tarefas, principalmente a de “dar vida” a
que foi criado pelos alunos permite que, se interessados, alguns objetos, tal foi a alegria deles, principalmente dos
eles busquem colocar suas ideias em prática e criar o pequeninos, que a cada etapa solicitavam a nossa presença
que desejarem. Além disso, permite que busquem novos para prestigiar a obra deles. Em momento algum senti a
conhecimentos e novas ferramentas, descobrindo onde apreensão dos alunos em relação à máquina, muito pelo
encontrar e como filtrar as informações relevantes. contrário, queriam mexer e explorar o aplicativo Scratch,
alguns queriam fazer tarefas além das solicitadas pelos
Enfim, nessa Olimpíada das Cores foi plantada uma orientadores, isso me deixa cada vez mais convencida de que,
nova semente nos alunos. Acredito que se o interesse e eles não terão grandes dificuldades no mercado do trabalho,
entusiasmo, que eles demonstravam, continuar, poderão ser demonstram cada vez mais proficiência e habilidades para
feitas novas oficinas com novos desafios e novos conceitos.” lidar com o computador.”
Romilva Costa
Jucélio E. Fonseca
“Acredito que nossa participação nas Olimpíadas das
“Achei as atividades propostas bem interessantes. No Cores foi um sucesso. Além de termos atingido os objetivos
começo fiquei um pouco preocupada porque achava que estabelecidos no início do planejamento, conseguimos
eram muito complexas para alguns anos, principalmente a instigar motivação em diversos alunos e professores. Para
atividade da pista de corrida. mim, além da satisfação em verificar a empolgação da
comunidade escolar, foi muito bom ter conseguido criar um
Mas fiquei maravilhada ao ver que os alunos conseguiram vínculo, semelhante ao de professor/aluno, com algumas
"dar conta" e gostaram da tal. Achei que a equipe soube muito turmas.
bem dirigir e trabalhar o conteúdo. Houve bastante organização,
desde o planejamento até a execução. Fiquei satisfeita com Como pesquisadora, isto é, uma pessoa que não
a oportunidade de poder ter um encontro mais direto com participa diariamente da rotina escolar, esse vínculo, no futuro,
os alunos, e acabei aprendendo também um pouco com eles.

208 209
será importante para meus trabalhos de pesquisa na EMEF Aprendizado Geoespacial com o
Padre Emílio Miotti.
Laptop-XO
Para o Projeto XO como um todo, realizar essas
atividades nas Olimpíadas das Cores, ajudou a demonstrar Thomas Bartoschek, Henning Bredel, Philippe Rieffel
como o laptop educacional pode ser utilizado na sala de aula
numa atividade divertida e motivadora para a maioria dos
alunos. Pelo que pude notar, muitos professores e alunos Em abril de 2011, Thomas Bartoschek, Henning Bredel e
adoraram o programa Scratch e, assim, acredito que a Philippe Rieffel, membros do laboratório de pesquisa GI@
maioria vai querer incorporar esse software na sala de aula School1 do Instituto de Geinformática2 da Universidade de
ou, espero, até fora dela.” Münster3 , na Alemanha, tiveram a oportunidade de visitar
Vanessa R. M. L. Maike o NIED - Núcleo de Informática Aplicada à Educação, em
Campinas. A visita teve como objetivos a troca de ideias
e visões, a apresentação de projetos e possibilitou aos
pesquisadores da Alemanha a oportunidade de trabalhar
com alunos da EMEF Padre Emílio Miotti, uma vez que esta
escola é uma das escolas no Brasil que estão totalmente
equipadas com os laptops-XO da OLPC.

O GI@School Lab recentemente desenvolveu um


software educacional para o laptop-XO, o GeoActivity, que
foi testado quanto a sua facilidade de uso e impacto de
aprendizagem na Escola Miotti com os professores e alunos
brasileiros, muito motivados e experientes.

O objetivo principal do GeoActivity é fortalecer


as competências das crianças em termos de orientação
espacial e apoiar o seu desenvolvimento cognitivo. A
parte principal do software no qual o jogo é baseado,
XO nas Olimpíadas das Cores é a geo-referência (geocaching), no qual em primeiro
lugar, uma caixa de presente pequena está escondida
em algum lugar, esse lugar é marcado no mapa com o
laptop-XO, e em seguida, os outros participantes têm que

1
http://www.gi-at-school.de
2
http://ifgi.uni-muenster.de
3
http://www.uni-muenster.de

210 211
usar seus laptops-XO, que mostram a sua própria posição A visita do GI@School ao NIED foi financiada pelo
(geo-referência) e marcação no mapa para procurar a caixa Ministério da Educação e Ciência alemão, no âmbito
escondida. Para permitir essa funcionalidade, os recursos do Ano Brasil-Alemanha da Ciência 2010/11. Os testes
do laptop-XO tiveram que ser estendidos com um receptor fazem parte do Projeto de Aprendizagem Geospatial 4
de GPS externo, alguns deles tendo sido posteriormente apoiado pela Esri inc. e pelo Instituto de Geoinformática
doados para a escola por GI@School para uso futuro do da Universidade de Münster. A pesquisa também faz parte
software. da tese de doutoramento de Thomas Bartoschek, e da
dissertação de mestrado de Philippe Rieffel. Os resultados
As figuras a seguir ilustram parte do jogo no XO.
serão publicados em ambas as teses em 2012 e 2013.

Os pesquisadores visitantes tiveram a oportunidade


de cooperar estreitamente com os membros da equipe
do NIED e experimentaram uma série de discussões
interessantes, apoio logístico e científico e insights
interessantes sobre a vida acadêmica no Brasil. Após a
estadia de duas semanas, Philippe Rieffel foi acolhido no
NIED por mais algumas semanas para ajudar a distribuir o
Para realmente avaliar a usabilidade do sistema e software em mais laptops-XO e oferecer mais treinamento
acompanhar, se o uso deste programa realmente melhora para o pessoal da escola sobre como usá-lo para gerar
o desempenho das crianças na orientação e navegação efeitos sustentáveis para todas as partes envolvidas. A
um pré e pós-teste com grupos de controle diferentes foi documentação em Português também foi criada, ele pode
realizado: as crianças foram convidadas a desenhar mapas ser encontrado nas páginas do Projeto XO do NIED.
esquemáticos do terreno da escola, um antes do uso do
software e um depois. Além disso, alguns alunos foram Gostaríamos de agradecer a todos os membros NIED
convidados a realizar a busca pela caixa escondida com e à EMEF Padre Emílio Miotti pela calorosa recepção, o
outras ferramentas: um mapa elaborado no papel com um apoio e o tempo maravilhoso em Campinas.
X marcando o local e com dispositivos de GPS portáteis
normais, que tinham a posição da caixa guardada. Suas Esperamos vê-los de novo!
performances também foram monitoradas para permitir
a comparação com os participantes dos grupos usando o
laptop XO. A figura acima ilustra momento dessa atividade
na escola.

Estes mesmos testes foram também realizados com


crianças da Alemanha e de Ruanda, em escolas equipadas
com laptops-XO. Todos tiveram de executar as mesmas
4
http://ifgi.uni-muenster.de/geospatiallearning
tarefas e os resultados foram avaliados da mesma maneira.

212 213
Redes de significados - Histórias, primeiramente como trans-media composition (Welsh,
1995, p.97), definido pelo compositor e instrumentista
formas, conteúdos, meios e Stuart Saunders Smith, para a peça Return and Recall de
movimentos 1976, como uma composição em que melodia, harmonia
e ritmo diferentes de cada instrumento são novamente
Romilva Costa compostos por cada executor, que complementaria a
obra em coerente harmonia e sincronia com os outros
Este texto apresenta uma atividade inicial de pesquisa instrumentistas/compositores da peça (Sauer, 2009).
relacionada à “narrativa transmídia”, encaminhada com dois
Somente em 1991, a transmídia chegaria aos estudos
alunos monitores da EMEF Pe. Emílio Miotti participante do
da comunicação, com a publicação do livro Playing with
projeto “XO na Escola e Fora Dela: uma Proposta Semio-
Power in Movies, Television, and Video Games: From Muppet
participativa para Tecnologia, Educação e Sociedade”. Antes
Babies to Teenage Mutant Ninja Turtles de Marsha Kinder,
de contar como a atividade foi desenvolvida com os alunos
professora de Estudos críticos na Escola de Cinema-Televisão
e os resultados obtidos, é relevante situar a concepção
da University of Southern California. Observando a relação
utilizada neste texto para narrativa transmídia.
de seu filho com produtos de entretenimento, vislumbrou
1-Narrativa transmídia um supersistema que chamou de transmedia intertextuality
de entretenimento, em que ele experimentava a ampliação
Segundo Henry Jenkins1 no seu livro “Cultura da da narrativa de uma história ao assistir à série de desenhos
Convergência”, uma história transmídia desenrola-se na TV, brincar com os brinquedos e ao assistir a um filme
através de múltiplas plataformas de mídia, com cada texto no cinema dos mesmos personagens (Kinder, 1993, pp. 39-
novo contribuindo de maneira distinta e valiosa para o 86).
todo. Ainda segundo Jenkins, na forma ideal de narrativa
transmídia, cada meio faz o que faz de melhor a fim de que 2-Exemplo de narrativa transmídia
uma história possa ser introduzida num filme, ser expandida
pela televisão, romances e quadrinhos; seu universo possa Um dos exemplos de narrativa transmídia citado no
ser explorado em jogos ou experimentado como atração livro do Jenkins é o fenômeno Matrix dos irmãos Wachowski.
de um parque de diversões. (JENKINS, 2009, p.138).
Filme: The Matrix, 1999:
As primeiras tentativas para conceituar narrativa O anúncio de pré-lançamento do primeiro filme ‘“The
transmídia tiveram início em 2000, porém são Matrix” provocava os consumidores com a pergunta “O que
desenvolvidos projetos transmidiáticos desde meados da é Matrix?”, instigando-os a buscar respostas na Internet. O
década de 90, mas nesta época não os chamavam assim. filme trata de um universo onde a linha entre a realidade e
a ilusão constantemente se confundam, e onde os corpos
Como conceito, a narrativa transmídia vem se de humanos são estocados como fonte de energia para
definindo aos poucos. Mas os primeiros usos do termo abastecer máquinas, enquanto suas mentes habitam um
são muito significativos (Gosciola, 2011). Aparece universo de alucinações digitais.

214 215
HQ-Histórias em Quadrinhos: Matrix Revolutions, 2003:
Conhecido por suas charges de sátira social mordaz, na HQ Foi lançado seis meses após Matrix Reloaded. E é a terceira
Ódio (hate) (1990-1998) e, mais recentemente, na revista e a última parte da trilogia Matrix.
Reason, Peter Bagge2 publicou 25 histórias em quadrinhos
no site de Matrix, uma dessas histórias em quadrinhos Videogame - Enter the Matrix:
mostra o contraste entre os que “entendem” o Matrix e Neste produto toda a mitologia foi transferida para um
os que não o entendem. Bagge desenhou uma charge jogo on-line para múltiplos jogadores em massa (MMOG-
imediatamente após o lançamento do primeiro filme de Massively Multiplayer Online Game).
Matrix.
Os vários produtos especificados anteriormente
The second Renaissance: servem para ilustrar as inúmeras possibilidades de narrativas,
“O Segundo Renascimento” foi criado e dirigido por Mahiro formas, conteúdos, meios e movimentos que permitem
Maeda, conhecido principalmente pela sua série anime envolver as pessoas no processo de constituição de redes
“Blue Submarine No. 6″. O curta, dividido em duas partes, de significados nas diferenciadas obras desenvolvidas pelos
é praticamente a gênese de Matrix, contando por exemplo produtores.
como começou o conflito entre humanos e máquinas, a
destruição do céu, e que culminou na escravização da Estas possibilidades de construção e articulação
humanidade. de significados são extremamente relevantes para serem
contempladas em contextos educacionais que tenham
Animatrix:
como proposta potencializar cenários significativos de
Uma coleção de nove curtas de animação criada por
aprendizagem. Cenários estes que possibilitem espaços
grandes nomes do anime japonês e americano, inclusive
e contextos para a criação, a expressão de ideias, de
pelos Irmãos Wachowski. Além disso, foi exibido em várias
percepções, de pontos de vista dos alunos de forma
mídias e disponível em grande parte inclusive na Internet,
que possam situar o que estão pensando ou estudando
com distribuição gratuíta. O Animatrix foi lançada em 2003,
via a constituição de redes de significados em formatos
ao mesmo tempo em que a seguência “Matrix Reloaded”
e meios diversificados. Nesta perspectiva um trabalho
chegava aos cinemas.
de pesquisa foi iniciado na escola de forma a prospectar
alguns cenários nos quais os alunos pudessem vivenciar
Matrix Reloaded, 2003:
a constituição de narrativas em direção à perspectiva
Outra versão do filme Matrix é o Matrix Reloaded,
transmídia, anteriormente apresentada. São primeiros
lançada sem recapitulação, presumindo que os fãs têm
passos que apontam uma direção a ser trilhada, e o relato
domínio quase completo sobre a complexa mitologia e
deste processo neste artigo destaca o que já foi possível
elenco sempre crescente de personagens secundários.
desenvolver com os alunos até o momento da escrita deste
Termina abruptamente, com a promessa de que tudo fará
texto.
sentido quando os fãs assistirem a terceira parte, Matrix
Revolutions (2003). Ou seja, para que eles possam entender,
é indispensável assistir a outra parte da sequência do filme.

216 217
3-Atividade de narrativa transmídia com os alunos da A ênfase deste trabalho era possibilitar contextos para
Escola Pe. Emílio Miotti que os alunos monitores pudessem constituir narrativas
que transitassem em determinadas plataformas a partir do
Na sociedade em que vivemos muitas crianças têm uso de alguns materiais disponibilizados aos participantes.
acesso e fazem uso de tecnologias e começam a enxergar
o mundo através das mídias, pois o desenvolvimento das 4-Iniciando a atividade
novas tecnologias de comunicação e informação, faz com
que a cada dia haja uma novidade. Escolha do tema:

Nesse caso específico, dentre outras mídias, os alunos Para construir a narrativa, era preciso primeiramente
da Escola Padre Emilio Miotti têm acesso ao laptop XO com delinear um tema, e o escolhido foi a Olimpíada das Cores
um leque de recursos, enriquecendo a possibilidade de da Escola, por ser um acontecimento recente da escola com
utilizarem a narrativa transmídia em suas aprendizagens. participação de quase todos os alunos. Por ser um evento
Nos exemplos citados da Matrix, a compreensão obtida em que os alunos participaram, havia referências pessoais
por meio de diversas mídias sustenta uma profundidade que poderiam favorecer a aproximação deles com o tema e
de experiências. Acreditamos que, na educação, a narrativa a motivação em criarem narrativas relacionadas.
transmídia pode ser utilizada para motivar os alunos
a se identificarem com a mídia preferida para acessar Primeira etapa:
diferenciadas narrativas ou mesmo para elaborar suas
No início das atividades, foi solicitado que os alunos
próprias produções. Nesta perspectiva foi iniciada essa
tomassem contato com 23 fotografias da olimpíada e
atividade de narrativa transmídia com os alunos desta
destacassem um significado para cada uma delas através
escola.
de palavras. Para iniciar a construção de uma narrativa,
os alunos, em dupla, receberam um conjunto de fotos
Para fazer essa atividade foi criada uma oficina
referentes a momentos do uso do laptop na Olimpíadas:
intitulada “Redes de significados - Histórias, formas,
algumas fotos destacavam a tela do equipamento e as
conteúdos, meios e movimentos”. Essa oficina foi disparada
produções dos alunos (desenhos, textos, animações
no dia 22/08/2012 com objetivo de constituir uma narrativa
etc), outras mostravam os alunos fazendo atividades em
transmídia a partir da vivência dos alunos com a Olimpíada
conjunto, e outras ilustravam outras pessoas interagindo
das Cores, ocorrida na escola em semana anterior à
com os alunos (professores, instrutores). As fotos também
realização desta atividade. Em linhas gerais, a proposta de
se diferenciavam em relação às expressões dos participantes
trabalho encaminhada com os alunos previa a construção
(entusiasmo, surpresa, risos), os closes, os planos conjuntos,
de narrativas utilizando algumas fotografias das Olimpíadas
os detalhes dos objetos. As pessoas que apareciam nas
das Cores, relacionadas à atividade de uso do laptop XO
fotografias também eram diversas.
e do aplicativo Scratch3 . As narrativas elaboradas pelos
alunos a partir de fotografias eram articuladas em cartaz No momento de observação das fotografias pelos
com imagens e textos. alunos, foi solicitado que atribuíssem uma palavra para

218 219
fotografia, criando assim elementos que poderiam ser
utilizados a seguir na constituição de uma história. O
trabalho da dupla nesta etapa ocorreu a partir de diálogos
estabelecidos entre os alunos e contribuições de cada um,
a partir da colagem (com post-its) de palavras nas imagens.

Fig: 3 Atribuição da palavra “Mago” na foto Fig: 4 Atribuição das palavras “Melhores Amigos”
na foto

Fig: 1 Gustavo recortando fotos para montar a Fig 2: Felipe procurando materiais
história

Foi interessante observar que os significados Fig: 5 Atribuição das palavras “Boca aberta” na
foto
Fig: 6 Atribuição das palavras “Impressionante”
na foto

atribuídos pelos alunos destacavam aspectos diferenciados:


palavra “Mago”, colada na foto com desenho de criança com
chapéu e óculos, palavra “Concentrados”, na foto de vários Segunda etapa:
alunos realizando atividades no laptop; palavras “Melhores
Amigos”, na foto de alguns alunos lado a lado na sala de Um novo desafio foi proposto aos alunos dando
aula, palavras “Cartão Postal com Fotos”, para imagem que continuidade a este processo de constituição de narrativas.
destacava uma produção realizada por alunos na tela do Foi sugerido que a dupla utilizasse palavras e imagens
laptop. Ou seja, os alunos estavam atribuindo significados da etapa anterior para um desdobramento da história já
pessoais para as fotografias e também envolvidos no criada.
processo de constituição de uma história.

Esta fase dos alunos expressarem suas percepções


das imagens possibilitou gerar elementos significativos
para pensar uma narrativa, foi uma estratégia de fazer
com que eles exercitassem a sua criatividade, quebrando
estigmas, pré-concepções sobre suas potencialidades,
uma vez que, no início da atividade, haviam dito que eram
“pouco ou nada criativos”. Nesse processo os alunos iam
pouco a pouco construindo - via diálogos estabelecidos Fig7: Gustavo montando a historinha no cartaz Fig 8: Filipe escrevendo a historia no cartaz

entre ambos - sua própria narrativa da Olimpíada, articulada


pelas imagens, palavras e percepções pessoais trazidas
para o contexto.

220 221
A intenção aqui era que os alunos, a partir de uma realizam atividades, ações (uso do laptop, do aplicativo
história constituída anteriormente (fotos, texto e falas), Scratch, criação de cartão postal, construção de jogo de
gerassem desdobramentos em outras plataformas. Para corrida). Na narrativa criada pelos alunos, os personagens
Jeff Gommez4 , uma boa narrativa transmídia é aquela que expressam suas visões sobre o dia em que a história se
se espalha por diferentes mídias, sendo que uma delas é a desenvolve (“bela manhã”), sobre o que foi produzido no
principal em que a maioria das pessoas vai acompanhar e laptop pelos personagens (“Impressionante”, “Bem Legal”)
se divertir (...)
Segundo Janet Murray 5 , no seu livro Hamlet no
Os alunos Felipe e Gustavo construíram a sua Holodec, a narrativa é um dos nossos mecanismos cognitivos
historinha em papel cartolina, a partir da escolha de primários para a compreensão do mundo (MURRAY, 2003,
fotografias e significados atribuídos anteriormente. A seguir p. 19). Ainda segundo Murray, ao contrário do passado, hoje
a produção dos alunos, com frases e fotos, compondo temos um novo elemento que reconfigura as relações entre
desse modo a historinha. pessoas e histórias: interatividade. Pode-se dizer que nessa
etapa os alunos estabeleceram uma interatividade com a
Acordei numa bela segunda feira sabendo que não haverá aula apenas jogar em minha escola. Chegando em
minha escola vi os meus melhores amigos fazendo atividade no XO.Eles estavam fazendo uma atividade no
história, uma vez que ao mesmo tempo em que assumem
scratch. E fizeram um cartão postal bem impressionante do Rio de Janeiro. Em seguida fizeram um jogo de o papel de autores, se colocam como personagens,
corrida numa ferramenta do XO e acharam bem legal.
interagindo com o texto.

Geoffrey Long 6 acredita que a principal característica


transmídia é a possibilidade de formar universos
complexos e mitológicos. Ou seja, é dizer que, ao contrário
dos processos comunicacionais tradicionais a narrativa
transmídia possibilita criar um mundo alternativo, um
mundo imaginário. Isso possibilita que os receptores
explorem ao máximo e se aprofundem, mergulhando no
que Janet Murray chama de “imersão narrativa”.

5-Conclusão

Brenda Laurel7 acredita que existem dois requisitos


indispensáveis para o transmidiático funcionar: primeiro o
envolvimento com o público e segundo o planejamento da
Nesta história os personagens transitam em ação. Estamos certos de que houve um envolvimento com
alguns cenários expressos na narrativa, constituída com esses alunos e houve um planejamento das ações. Porém,
textos e imagens (casa/quarto, escola/sala de aula). Estes nem todas as ações planejadas para desencadeamento das
personagens trazem elementos pessoais à narrativa narrativas foram realizadas nesta oficina até o momento
(“minha casa”, “minha escola”, “meus melhores amigos”),

222 223
da escrita desse texto. Acreditamos que a oficina com Referências
os alunos foi um começo de uma narrativa transmídia; Animatrix: O segundo Renascer.
porém, para poder chamá-la de uma narrativa transmídia Disponível em: http://smellycat.com.br/2009/05/26/
propriamente dita, há outras etapas a serem atingidas de animatrix-o-segundo-renascer/. Acessado no dia 14-10-
2012
forma a envolver o aluno nestes processos de criação e
significação, ampliando o desenvolvimento narrativo e Capítulo 08. Narrativa transmídia e sua potencialidade na
educação aberta. Disponivel em: http://oer.kmi.open.ac.uk/
expandindo a história. Assim, por exemplo, o aplicativo wp-content/uploads/cap08_redeice.pdf .Acessado no dia
Scratch e o laptop educacional poderiam ser utilizados pelos 14-10-2012
alunos no desdobramento da narrativa criada anteriormente Hipertexto e Quadrinhos: Uma Proposta De Leitura.
para a constituição de um jogo, uma animação, uma Disponível em: http://www.ufjf.br/darandina/files/2012/09/
História em Quadrinhos (HQ). Um roteiro de vídeo poderia Simp%C3%BD%C3%BDsio-2012-Maiara.pdf . Acessado no
dia 07-10-2012
ser criado e implementado com o uso da câmera do laptop, Sauer, T. (2009). Interview with Stuart Saunders Smith and
de celular ou com uma filmadora. A articulação de outras Sylvia Smith. Notations 21. Disponivel em: http://notations21.
wordpress.com/interview-with-stuart-saunders-smith-and-
formas, meios, conteúdos, permitiria o surgimento de novos sylvia-smith/ .Acessado no dia 14-10-2012
conflitos, histórias e até outros personagens secundários.
Narrativa transmídia: travessia entre Comunicação e Letras.
Mas de momento, a satisfação foi imensa com o trabalho Disponível em: http://ebooks.pucrs.br/edipucrs/anais/
realizado com os alunos, e eles demonstraram bastante IIICILLIJ/Trabalhos/Trabalhos/S11/munari.pdf .Acessado no
dia 07-10-2012
interesse em continuar a oficina. Gostaram da idéia de
utilizarem novas mídias para aprender e expressar. E com Narrativa Transmídia: a presença de sistemas de
narrativas integradas e complementares na comunicação
isso, acredito que a introdução de novas mídias no contexto e na educação1. Disponível em: http://www.uniso.br/ead/
escolar possa comportar-se como um elemento facilitador hipertexto/anais/93_VicenteGosciol.pdf . Acessado no dia
e motivador no aprendizado dos alunos. 08-10-2012
Jenkins H. (2009). A cultura da convergência, -2. ED.-São
Paulo: Aleph
Orofino, M. I. (2006) Mídias e mediação escolar, editora
CORTEZ
1
Henry Jenkins é professor de Jornalismo, Comunicação e Cinema da University
of Southern California e ex-Diretor do Programa de Estudos de Mídia Comparada
Gosciola, V. (2011). Narrativa Transmídia: a presença de
sistemas de narrativas integradas e complementares na
do MIT (Massachussets Institute of Technology) comunicação e na educação. Disponível em: http://www.
2
Peter Bagge é um desenhista de quadrinhos dos Estados Unidos da América uniso.br/ead/hipertexto/anais/93_VicenteGosciol.pdf .
3
Scratch (arranhar- em português), uma nova linguagem de programação Acessado no dia 14-10-2012
criada no Media Lab do MIT- Instituto de Tecnologia de Massachusetts-EUA).
4
Jeff Gomez é fundador da Starlight Runner, empresa pioneira na produção de Murray, J. (2003). Hamlet no Holodeck: O futuro da narrativa
no ciberespaço. São Paulo: Itau Cultural/Unesp.
franquias de narrativas transmídiacas
5
Janet Murray é professora na escola de literatura,Mídia e Comunicação no Kinder, M. (1993). Playing with Power in Movies, Television,
Instituto de Tecnologia da Geórgia and Video Games: From Muppet Babies to Teenage Mutant
6
Geoffrey Long é um analista de mída, estudioso e contador de histórias que Ninja Turtles. Berkeley: University of Califórnia
explora experiências transmídia
7
Brenda Laurel é designer e escritora
Welsh, J.P. (1995). The music of Stuart Saunders Smith. New
York: Excelsior

224 225
226
O Uso do XO como recurso
metodológico para o estudo de
Literatura de Cordel
Professora Kátia Cristina Martins

Atividade desenvolvida com os 9º anos de 2011.

As turmas dos 9º anos A e B deste ano foram meus


alunos pela primeira vez, tendo sido, até então, alunos da
professora Marly. Talvez pelo motivo de quererem me testar
e, por eu não abrir mão de meus ideais como professora,
tive bastantes embates com alguns alunos, o que tornou
um pouco difícil e um tanto lento o desenvolvimento da
programação proposta para o ano. Alguns alunos, tanto de
uma turma quanto de outra, na maioria das vezes criavam
conflitos por motivos fúteis normalmente com o intuito de
desestruturarem a aula, outros, ou até a maioria deles, não
se mostravam responsáveis com seus compromissos, então
eram raras as apresentações de trabalhos, principalmente
os que envolviam pesquisas e aprofundamento de estudo
e até as atividades cotidianas dificilmente eram realizadas
e/ou apresentadas em datas combinadas.

Até que, em meados do segundo semestre de 2011,


mais especificamente no dia 19 de setembro, quando
ocorreu a 8ª oficina do XO, surgiu a necessidade de se
avaliar o projeto na escola, através da observação direta
a motivação dos alunos ao realizarem determinada tarefa
usando o XO e o foco de atenção dos alunos envolvidos.
Para isso, seria necessário observar uma mesma atividade
que tivesse sido desenvolvida ora com, ora sem o uso do
laptop. Em 2010 trabalhei literatura de cordel com os 9º
anos, visando a valorização da tradição oral brasileira;
era um momento em que não tínhamos recursos para

229
pesquisa, nem tecnológicos, nem através de livros, ingenuidade de seus poemas, esconde-se uma profunda
enciclopédias, revistas, pois estávamos desalojados de experiência de vida cotidiana que confere uma dimensão
nossa escola que passava por reforma. Muitos alunos simbólica às obras.
não se mostraram animados a desenvolver as etapas do
trabalho, pois tinham como empecilho a dificuldade de Mas, nem tudo são flores, pois, vivendo numa
acesso à Internet ou, quando tinham, muitas vezes não sociedade onde a indústria cultural incorpora elementos
focavam no assunto em questão e a pesquisa vinha para a das diferentes culturas e as transformam em um produto,
escola deficitária, necessitando ser reorientada para então ou seja, a cultura de massa transforma os objetos culturais
ficar correta. Isso tomou bastante tempo das aulas, mas o em bens de consumo, ditando assim novos padrões de
envolvimento da maioria dos alunos e ajuda de suas famílias consumo e comportamento de cultura popular, não foi
fizeram com que o trabalho tivesse um resultado muito uma tarefa muito fácil, principalmente a que perpassa a
bom. Então, sugeri ao meu grupo em horário pedagógico tradição e possui característica dinâmica e transformadora,
coletivo que fosse desenvolvida a mesma atividade com que ao passo que se moderniza e transforma, não esquece
as respectivas turmas de 2011, só que agora tendo como suas raízes, como é o caso da literatura de cordel. Assim,
auxílio tecnológico o uso dos XOs. E foi o que fiz. tornou-se um desafio tornar a literatura de cordel algo
pelo que os alunos se interessassem, visto que para
Visando trabalhar a linguagem poética valorizando a maioria deles (assim como é para a maioria dos seres
a tradição oral brasileira, a atividade foi dividida em humanos), a comunicação e a informação só se dará àquilo
etapas, cada uma contemplando um ponto do conteúdo que lhe é interessante. E o desafio se estendeu à busca de
programado para este estudo: o que é e o porquê da estratégia para efetivar a comunicação de forma interativa
tradição oral, origem e características do cordel, poetas e transformadora contida no gênero em estudo, que retrata
representantes desta tradição no Nordeste brasileiro com a cultura do povo nordestino através da expressão de seus
destaque para Patativa do Assaré, com o estudo de sua valores, convidando a uma reflexão sobre a realidade da
biografia e de sua obra: “ABC do Nordeste Flagelado1”, sociedade atual, possibilitando a inserção de ideias que
que foi o ponto de partida para as práticas de leitura e influenciam e modificam o leitor através de seus folhetos.
análise e reflexão linguística. Os alunos analisaram a E o meio que acreditei ser mais pertinente e próximo dos
obra de Patativa, reconhecendo as especificidades do alunos, foi o desprendimento do suporte tradicional, o
discurso, apreendendo do contexto sociocultural como folheto, e o acesso ao mundo digital.
determinante na construção de significados de um
texto poético; identificaram versos, estrofes, refrães Assim sendo, em sala de aula, cada aluno com uma
observando a regularidade métrica para inferir ritmo ao máquina desenvolveu sua pesquisa sobre os assuntos
texto, ampliando o repertório lexical pela observação de propostos: tradição oral, literatura de cordel (origem e
novas palavras e seu emprego limitado a certas condições características estruturais e de apresentação), poesias
histórico-social-regionais; enfim, refletiram sobre as de cordel brasileiras, cordelistas brasileiros, Patativa do
ideias em torno da poesia popular que, sob a aparente Assaré, xilogravuras (imagens e técnicas), o ritmo na poesia
1
http://www.bahai.org.br/cordel/assare.html
(rima e extensão de versos). E, mediante conclusão de cada

230 231
etapa de pesquisa, práticas de leitura foram encaminhadas
, assim como debates e atividades de análise e reflexão AMIGO COCO VERDE E MELANCIA
linguística. As atividades deveriam ser desenvolvidas
A amizade é uma, Vem cumadi, vem cumpade
individualmente, porém muitos alunos, em muitos força permanente. Que hoje vou lhes conta
momentos, trabalharam juntos, ajudando uns aos outros, Que se planta, como Uma história de amor
uma semente Eu sei que 'oces' vão gosta
principalmente no que dizia respeito ao uso da máquina,
colaborando com buscas de pesquisas, na tentativa Cada dia que passa, Coco Verde era negro
de manutenção do aparelho quando ele “travava” ou ela desabrocha e Melancia era branca
jamais se esquece, Mesmo com diferenças
simplesmente não funcionava. Enfim, todos buscaram então, fortalece ! Se amavam desde criança
soluções para a efetiva realização das atividades. O tempo
A amizade é coração,
para a realização deste trabalho durou três semanas, dezoito Mas como o destino é cruel
paz e emoção para Gosta muito de brinca
horas-aula, tempo usado além do que foi planejado. Isso se todo sempre nas ruas Por causa das diferenças
deveu à deficiência da rede wireless que não suportava o do mundão, sempre ai pra Fez o casal se separa
estender a mão.
acesso de muitas máquinas à Internet ao mesmo tempo,
E dessa separação
levando a uma enorme lentidão ou à queda do acesso André Benetoli - 9º ano B Pai de Melancia se aproveitô
à rede, o que restringiu o uso dos demais professores e Arrumô para Melancia
Um casamento com um doutô
alunos com outras atividades em que seriam utilizados os AMOR E TRAIÇÃO
laptops. Mas, com a colaboração de alunos monitores do Mas a Coco Verde a amava
Vou contar uma história
XO e do monitor do projeto Jovem.com, que nos assessorou de amor e traição
E isso não podia deixá
Armô um plano pra Melancia
durante o processo, o resultado do trabalho foi positivo. que pode até ser bonita
aos seus braço voltá
mas eu acho que não.
Os alunos, em sua maioria, construíram seus folhetos de
Coco verde no casório
cordel com textos originais e xilografias criativas. Me apaixonei por uma garota
de penetra ele entrô
Do fundo do coração
Desculpou-se com Melancia
meu amor ela correspondia
Que da igreja se mandô
ficamos de pegação.
Desculpa minha gente
Namoramos e casamos
Desta igreja eu vou saí
mas depois de alguns anos
O cordel que canto agora
houve a triste situação
acabo de finalizar,
debaixo da minha cama
pois meu amor perdido
encontrei o Ricardão.
consegui reconquistar

E agora sou desquitado


Hosana Ferraz Oliveira - 9º ano B
procurando namorado
pois depois da traição
de mulher já gosto não.

Eloisa Rocha 9º ano A

Ilustrações das produções dos alunos nesse trabalho.

232 233
Apropriação da tecnologia e A quantidade de XO não era suficiente para que as
duas salas pudessem utilizá-lo diariamente, pois tínhamos
motivação para alfabetização de vinte e cinco laptops para serem revezados entre quarenta
alunos de 1º ano através do uso do e quatro alunos. As atividades preparadas para o uso do
XO foram de acordo com o tema gerador elaborado no
XO Plano Anual de trabalho, visando complementar o processo
de alfabetização e letramento dos alunos.
Professoras Edileuza Pacheco da Silva e Jocinara Lopes de
Oliveira O DESENVOLVIMENTO DO TRABALHO

Este artigo relata a experiência do ano letivo de 2011, na Dentro de classe, a opção foi por trabalhar sempre
EMEF “Padre Emílio Miotti”, no processo de alfabetização e em duplas, mesmo havendo a possibilidade de um por
letramento de alunos de primeiros anos, por meio do uso aluno, pois, acreditamos na Teoria da Zona proximal de
do XO. Vygostky1 .

INTRODUÇÃO No início do ano, os alunos tiveram os primeiros


contatos com o uso do XO, individualmente, junto com as
Em nossa escola, trabalhamos com o sistema de ciclo professoras. Enquanto os demais alunos realizavam uma
de forma diferenciada: os alunos têm duas professoras a atividade à parte, as professoras foram chamando um a
cada ano do primeiro ciclo. No ano de 2011, os alunos dos um para mostrar o XO e explicar as primeiras noções de
primeiros anos tiveram, então, duas professoras: Edileuza e funcionamento: ligar, desligar, entrar e sair dos aplicativos.
Jocinara. Num segundo momento, explicaram, de forma geral para
toda a classe, como o XO seria utilizado por eles. Foram
O horário de aulas era dividido igualmente entre
levantadas algumas regras: cuidados no uso, revezamento
as professoras dos 1º anos A e B (44 alunos, 22 em cada
com a dupla, e relembradas algumas regras de convivência
turma). Uma vez por semana, os alunos tinham duas aulas
decididas em Assembleia de classe: respeito ao colega e às
para uso do XO.
regras estabelecidas. Junto com a equipe do NIED/Unicamp,
Enquanto os professores de Artes ou Educação Física foi elaborado um pequeno manual instrucional para alunos
estavam com uma das turmas, as duas professoras estavam e pais, quando o XO fosse levado para casa.
com a mesma turma para a utilização do computador.
Tivemos também a colaboração de uma mãe de aluna, a 1
Conceito de Zona proximal é um conceito elaborado por Vygotsky, e define a
senhora Daniela dos Santos Cardoso, ex-aluna da escola. distância entre o nível de desenvolvimento real, determinado pela capacidade
Os alunos monitores, estudantes no período vespertino, de resolver um problema sem ajuda, e o nível de desenvolvimento potencial,
determinado através de resolução de um problema sob a orientação de um
tiveram uma grande participação no auxílio dos alunos e adulto ou em colaboração com outro companheiro. Quer dizer, é a série de
professores, só que a partir do mês de setembro (início do informações que a pessoa tem a potencialidade de aprender, mas ainda não
completou o processo, os conhecimentos fora de seu alcance atual que são
Projeto de Monitoria na escola). potencialmente atingíveis.

234 235
Iniciamos o trabalho em abril, quando os XO já haviam A seguir ilustramos alguns resultados dessa atividade.
sido distribuídos para cada sala. Através do aplicativo SPEAK, ÁRVORE É UMA PLANTA
um programa no qual tudo o que é digitado é repetido
pelo computador, após apertar a tecla ENTER, os alunos PARA PLANTA UMA ÁRVORE TEM QUE TE SEMENTE É
digitaram seu nome, o alfabeto, números. Posteriormente, MOLHA UM DIA SIM É UM DIA NÃO
conforme iam avançando na fase de aquisição da linguagem,
ÁRVORE PODEM SE VIVA É TEM BEM ÉLAS SOM BONITAS
foram digitadas palavras, frases, textos e músicas. Algumas
vezes, estes eram ditados pelas professoras, outras, por EVELYN É TAFNES 1 B
um dos integrantes da dupla. Este aplicativo auxiliou o
processo de aquisição da leitura e escrita, pois, quando (Tentativas de escrita no XO, a partir de uma foto de
os alunos digitavam de forma incorreta, eles percebiam o plantas tirada pelas alunas, dentro da escola)
“erro” ao ouvir o que haviam escrito. Dizemos “erro” entre
aspas, pois consideramos tentativas de escrita. Ao longo O uso dos aplicativos IMPLODE, MAZE, TAM TAM
do trabalho com o XO, pudemos observar que a ferramenta MINI, MEMORIZE, PINTAR, também foi muito importante
facilitou o nosso trabalho e o trabalho do aluno: quando o para desenvolvimento de raciocínio matemático, memória,
aluno escrevia a palavra, o teclado proporcionava que ele aprendizagem das cores; desenvolvimento da coordenação
encontrasse as letras com maior facilidade (em contraste motora fina; atenção e concentração; identificação de sons,
com as letras móveis, normalmente utilizadas em sala contribuição para um maior interesse dos alunos na
de aula). Apagar a letra que errou com a tecla foi muito participação nas aulas; aprendizagem do saber repartir,
mais prazeroso do que com a borracha. Após escrever a esperar sua vez (trabalho de revezamento); socialização
palavra e ouvir o aplicativo SPEAK repetir a escrita, dando com os colegas; compartilhando conhecimentos.
o feedback, tranquilizou a ansiedade, pois se a escrita da
palavra estava correta, a criança vibrava com o progresso; As atividades eram direcionadas e livres. As
no entanto, se não estivesse, ela tentava novamente, sem direcionadas eram as preparadas de acordo com o Tema
grandes problemas. Podemos afirmar que a maioria dos Gerador trabalhado e visando auxiliar os alunos no processo
alunos avançou no processo de leitura e escrita, com o uso de alfabetização. As livres eram permitidas assim que o
deste aplicativo. aluno cumprisse com a atividade orientada. No momento
livre, eles podiam usar livremente o XO: chegavam a
Outros aplicativos que também auxiliaram bastante produzir vídeos em sala de aula, tirar fotos, etc.
no nosso trabalho foi o uso do GRAVAR e do ESCREVER:
os alunos fotografaram uma planta a escolher, dentro do LEVANDO O XO PARA CASA
ambiente da escola, e escreveram sobre ela (Tema Gerador
“Meio Ambiente”). Os alunos tiveram oportunidade de levar o
XO para casa por duas vezes. Antes de enviar o XO
para casa, convidamos os pais a comparecerem numa
Oficina de uso do XO e utilizá-lo, junto com os filhos.

236 237
Houve uma frequência mínima, infelizmente, pois o horário
marcado coincidia com o horário de trabalho da família.
Mas, os pais que compareceram, participaram e gostaram
da atividade.

Foi enviado um Manual de Orientação, elaborado


junto com a equipe do NIED/Unicamp, para os pais que
tivessem alguma dúvida ou não puderam comparecer no dia
da Oficina. Como a quantidade de laptops era insuficiente
para as duas salas, uma levou numa sexta e devolveu numa
segunda-feira e, a outra sala, após quinze dias, com o
mesmo procedimento.

Precisamos dar um intervalo de quinze dias para


que verificássemos se todos os XO haviam retornado em
bom estado de funcionamento. Na primeira vez em que
enviamos o XO para casa, não orientamos a fazer nenhuma
atividade específica. Deixamos que escolhessem livremente
para explorar o uso junto com a família. Todos os laptops
retornaram em bom estado de funcionamento e os pais
relataram que aprenderam com os filhos e que a experiência
Alguns alunos conseguiram realizar bem a atividade
havia sido positiva.
em casa; outros tiveram dificuldade em localizar o arquivo
dentro do laptop, mesmo com a orientação por escrito aos
pais. Consideramos isto normal, pois, o importante foi a
tentativa de utilização do equipamento.

Lucas, Rafaela, Mayara e Lucas Gabriel com seus pais. Muitos pais começaram a procurar vagas em nossa
escola, não só pela referência que a escola tem no bairro,
Na segunda vez em que o XO foi levado para casa, mas também devido ao uso do XO.
já contávamos com o auxílio dos alunos monitores e
preparamos uma atividade sobre os jogos Pan Americanos, A PARCERIA COM A FAMÍLIA
conforme ilustra a tabela a seguir.
Na primeira reunião de família e educadores realizada
Os monitores nos auxiliaram gravando os arquivos em fevereiro, explicamos sobre o Projeto de utilização do XO e
no XO e, posteriormente, gravando as atividades feitas em convidamos pais que quisessem nos auxiliar no uso do laptop,
casa pelos alunos, para as professoras. junto com os alunos, voluntariamente. Tivemos a aceitação e

238 239
participação da senhora Daniela APRENDENDO COM OS ALUNOS
dos Santos Cardoso, mãe de
uma das alunas dos primeiros Entre outras descobertas que fizemos juntos, pois
anos e ex-aluna de nossa podemos afirmar que os alunos também nos ensinaram,
escola. Ela nos auxiliava no gostaríamos de destacar um aluno muito tímido, que quase
transporte dos computadores não se comunicava em sala de aula: um dia, estávamos
para a sala de aula e no uso utilizando o aplicativo PINTAR e uma aluna perguntou como
do computador, junto com os Daniela S.Cardoso, mãe faria para ampliar uma figura que ela havia desenhado.
alunos. Fomos conhecendo e voluntária no uso do XO. Respondemos que ainda não sabíamos, mas que iríamos
explorando juntos os aplicativos que não conhecíamos e o tentar pesquisar. O referido aluno, na mesma hora, mostrou
trabalho deu certo. A contribuição desta mãe foi de muita como deveria fazê-lo. Ficamos emocionadas e lhe dissemos
valia, pois, somente duas professoras para alunos de faixa “Hoje, você foi nosso professor”. Ele sorriu timidamente,
etária de seis anos de idade, não era suficiente para auxiliar demonstrando estar se sentindo orgulhoso de si mesmo.
toda a turma em tão pouco tempo: duas aulas de cinquenta
minutos. Outros alunos curiosos foram descobrindo formas
de utilização dos aplicativos e colaboravam, auxiliando uns
DIFICULDADES ENCONTRADAS
aos outros no uso do laptop.
Das duas professoras de primeiros anos, somente
O TRABALHO DOS MONITORES
uma já havia utilizado o XO no ano anterior, mas ainda,
não tinha total segurança no uso de todos os aplicativos,
A partir de setembro, quando se iniciou o trabalho
e a outra estava começando a aprender a utilizá-lo. Para
dos alunos monitores em nossa escola, tornou-se mais
nós, foi um desafio a apropriação desta nova tecnologia,
rápida e fácil a utilização do XO, pois eles carregavam as
associando seu uso às aulas do cotidiano escolar: “Pensar
baterias com antecedência, transportavam os laptops para
numa aula não somente de giz e lousa, lápis e papel”. Entre
a sala de aula, salvavam os arquivos no XO e no pen-drive,
as dificuldades encontradas, citamos: quando se utilizavam
além de auxiliarem os alunos no trabalho coordenado pelos
vários aplicativos, sem fechar o anterior, os computadores
professores. A maioria das dificuldades encontradas foi
travavam; descarregavam as baterias durante o uso;
superada com o auxílio dos monitores, exceto a dificuldade
não sabíamos como salvar no pen-drive; os alunos nos
do uso da nova tecnologia, das próprias professoras.
perguntavam algumas coisas que ainda não sabíamos e
dizíamos “Nós também estamos aprendendo!”; os laptops
A SUPERAÇÃO DAS DIFICULDADES
não tinham uma tecla específica para uso somente da letra
maiúscula, a qual era necessária para a utilização dos alunos
A partir de setembro, participamos de Oficinas
em processo inicial de alfabetização. A equipe do NIED/
promovidas na escola, pela equipe do NIED/Unicamp, nas quais
Unicamp resolveu este problema instalando um programa
utilizávamos cada dia determinados aplicativos e discutíamos
que possibilitou o uso da tecla da “mãozinha” para digitar
textos lidos previamente sobre o uso das tecnologias.
só em letras maiúsculas.

240 241
Os horizontes começaram a se ampliar e sentimos maior
segurança em elaborar atividades, dentro de nosso Projeto “Aprender os aplicativos, selecionando quais poderiam ser
de aula, complementando-o com o uso do XO. utilizados intencionalmente para realizar as estratégias
de leitura, quando e como realizá-las com o aluno, e, ao
CONCLUSÃO mesmo tempo, não só ofertar a ferramenta, mas possibilitar
ao nosso aluno a sua inclusão no mundo digital. Foi um
O uso do XO foi importante para motivar e aprendizado ímpar, pois nos possibilitou acreditar que
complementar o processo ensino-aprendizagem, de iniciativas como essa, é que fazem a diferença na vida
alfabetização e letramento dos alunos de 1º ano e para escolar.” Profa. Edileuza
auxiliar na reflexão sobre as regras de convivência e
maior interação entre aluno-aluno, aluno-família, aluno- Mesmo mediante as dificuldades enfrentadas,
professor, escola-comunidade. O vínculo entre as partes no início do trabalho com o XO, podemos afirmar que
citadas tornou-se maior, havendo uma certa cumplicidade conseguimos superá-las, encarando-as como um desafio
em busca do mesmo objetivo, com troca de experiências e pessoal e profissional. Consideramos que o trabalho
descobertas em conjunto. realizado foi promissor e os objetivos propostos foram
alcançados.
Foi possível adaptar algumas atividades que, antes,
eram realizadas somente em folhas de papel, para serem
feitas no computador. Os alunos demonstraram maior
interesse na realização das mesmas. BIBLIOGRAFIA

“Para mim, embora tenha conhecimento e utilize http://pt.wikipedia.org/wiki/Zona_de_desenvolvimento_


computador há anos, foi um desafio se apropriar de proximaPensamento e Linguagem - Lev Semenovich Vygotsky
uma tecnologia diferente; preparar aulas e utilizar o XO (1896-1934) – Edição Ridendo Castigat Mores - Versão para
com os alunos, mesmo ainda sem saber utilizar todos os eBook - eBooksBrasil.com - Fonte Digital www.jahr.org
aplicativos com segurança. Mesmo assim,não desisti e fiquei
estimulada a pesquisar, estudar e treinar os aplicativos
para utilizá-los com os alunos. Algo que achei muito
interessante foi a oportunidade de mostrar aos alunos que
o professor não é um “poço de sabedoria” e que tem que
estar sempre se atualizando. Adorei a oportunidade de
construir e descobrir novos conhecimentos, aprendendo
com os alunos (tanto monitores, como da própria classe).“
Profa. Jocinara

242 243
O uso do laptop XO como recurso hoje terceiros anos, que é o último ano do primeiro
ciclo. O compromisso do primeiro ciclo com as crianças
pedagógico em sala de aula é de alfabetizá-las e prepará-las para os desafios com os
conhecimentos e novos conteúdos nos ciclos posteriores.
Professoras Tânia Mara dos S. Gonçalves e Vanessa F. Pires Pensando nisso, o trabalho realizado com os terceiros
anos, desde o ano passado, foi todo relacionado com a
alfabetização e escrita de pequenos textos com o auxílio
Este artigo trata de uma reflexão sobre as experiências em do laptop X.O. Não obstante do que as crianças esperavam
sala de aula, utilizando diferentes aplicativos do laptop X.O na utilização dos laptops, foram organizadas pesquisas,
e integrando a práticas pedagógicas e atividades da rotina usos de outros aplicativos que pudessem ampliar o leque
com os alunos dos 3º anos. e a bagagem de letramento da turma, bem como espaços
para a diversão, para os jogos, para tirar fotos, para ver
INTRODUÇÃO “coisas legais” na Internet. O desafio de ensinar com a
presença dessa nova ferramenta e de buscar aprender e
Os avanços tecnológicos, ao mesmo tempo em que aprimorar nos foi colocado em todo o percurso do Projeto.
trazem comodidade, agilidade e facilidade na comunicação Mas não era aprender somente com os cursos oferecidos
entre seus usuários, também vêm trazendo novos desafios e com os professores de universidade. Era aprender de
e a cada dia ficando mais presentes em nosso dia-a-dia. quem supostamente está ali para aprender da gente. Era
Na escola não é diferente. As crianças imersas na cultura aprender das crianças, com as crianças. E muitas vezes ficar
digital já trazem para a escola seus conhecimentos em boquiaberta com a rapidez com que aprendem e lidam
com a tecnologia.
celular, computador, Internet. E nós, professores, pensando
Profª. Vanessa Ferreira Pires
no papel de mediadores e que instigam seus alunos a ir
além da manipulação, somos desafiados cada dia a colocar
Atuando como professora adjunta2 da rede municipal
a busca pelo conhecimento em primeiro lugar e fazer da
de ensino de Campinas, recebi o encaminhamento para
tecnologia nosso instrumento e parceira nessa busca. Além lecionar aos alunos de terceiro ano, durante o período de
disso, o espaço escolar em que atuamos, assim como muitos licença médica da professora titular da sala.
outros, coloca os valores, a formação pessoal e moral como
eixos norteadores de nossas ações. Juntamente com a professora Vanessa Ferreira Pires,
elaboramos o plano de ensino referente às duas turmas
PALAVRAS DAS PROFESSORAS de terceiro ano do ciclo I, formado por aproximadamente
trinta alunos em cada sala.
Por ocasião da continuidade do trabalho coletivo1 e
com os ciclos em nossa escola, já era conhecido por mim o Insegura por iniciar em uma nova comunidade
trabalho realizado com os segundos anos (no ano passado) escolar, tornou-se imprescindível conhecer os projetos e
1
Na EMEF E. Miotti os professores dos ciclos I e II compartilham as mesmas 2
Denominação da atividade dada ao professor efetivo que tem a função de
classes do ciclo ou do ano. substituir o titular em suas ausências.

244 245
atividades para adaptar-me à equipe docente e oferecer demonstrando indiferença às propostas de produção de
um trabalho pautado no Projeto Político Pedagógico da texto, reagiram de maneira oposta diante do computador:
unidade escolar. digitaram com erros, porém foi possível compreender sua
organização de frases e sentido empregado à mensagem.
Nos momentos de planejamento coletivo, a
professora Vanessa relatou todos os projetos escolares Os alunos que apresentam um conhecimento prévio
dando ênfase para o Projeto X.O, que iniciou no ano letivo acerca das tecnologias, ao término de sua atividade,
de 2011, dando continuidade neste ano letivo. permaneceram experimentando comandos de formatação
do programa, concomitantemente ao auxílio dos colegas
Portanto, seria necessário o manuseio e conhecimento que visualizavam os diferentes recursos na tela do
acerca dos softwares disponíveis no laptop X.O, para que computador.
fosse possível elaborar atividades utilizando-o como
recurso pedagógico em sala de aula, visando garantir uma Esta autonomia diante das tecnologias é abordada
aprendizagem significativa e colaborativa entre os alunos. pelas pesquisadoras Martins & Baranauskas (2010),
ao afirmarem que o contato com as redes sociais que
Profª Tânia Mara Gonçalves desempenham um papel ativo, ajuda a produzir e organizar
conhecimento de maneira não formal, sendo que muitas
O TRABALHO COM O XO destas ferramentas oferecem recursos para engajamento
profundo dos aprendizes com seu próprio processo de
Os alunos organizaram o ambiente físico com as aprendizado.
carteiras dispostas em grupos de quatro e cinco alunos
próximos às tomadas, para realizarem o carregamento A aprendizagem é um processo interior, próprio
dos laptops, pois as atividades desenvolvidas com os de cada pessoa, que gradativamente vai evoluindo sua
computadores ocorrem todas as terças-feiras no período capacidade mental construindo e reconstruindo novos
matinal nas primeiras aulas, conforme consta na rotina conceitos com base nas experiências vivenciadas, estudos
semanal; impossibilitando o carregamento do X.O. e interação com o meio físico e social.
anteriormente.

Em um primeiro momento, observou-se a insegurança O pesquisador Martins (2009), afirma que a escola é o lugar
de alguns alunos para realizarem tomadas de decisões ideal para desenvolver aprendizagem:
imediatas: ao verificarem que ao abrir o programa surgiam
textos salvos. Estes alunos não ousaram apagar ou pedir “A escola utiliza procedimentos para desenvolver as
auxílio aos colegas optando por aguardar a chegada da capacidades dos alunos e também pode oferecer-lhes
professora. situações de participação envolvendo-os em atividades nas
quais podem opinar, assumir responsabilidades, resolver
No decorrer das atividades, envolvendo o laptop X.O problemas, enfrentar desafios, refletir seus atos e tomar
como recurso pedagógico em sala de aula, verificamos decisões”. (MARTINS, 2009; p.13)
que os alunos que não realizam atividades no caderno,

246 247
Ao planejar as atividades com o laptop X.O., buscamos
reforçar as atividades de alfabetização desafiando os alunos “Tal tecnologia possibilita, cada vez mais, novos caminhos
a produzirem gêneros textuais utilizados no cotidiano, para maneiras personalizadas de aprender e maneiras
pois desta maneira poderiam expor seus conhecimentos coletivas de relacionar-se e compartilhar o conhecimento.”
prévios, utilizar da sensibilidade para produzir seus (Martins e Baranauskas, 2010)
escritos, colaborar com os amigos nas opiniões quanto à
empregabilidade das palavras, permitindo uma interação Não seria fácil colocar essa tarefa do uso do laptop
colaborativa entre os grupos de alunos. em nossas vivências. Talvez porque pensávamos muito e no
plano das ideias, muitas vezes, a cena em que queremos
Utilizando o programa “Escrever” (produção de chegar também não flui. Foram só aparecer os “travamentos”,
textos), uma das propostas direcionadas aos alunos foi as “lentidões” dos aplicativos, o sobrecarregamento da
referente à escrita de uma mensagem para o dia das mães. rede de Internet em nossa escola, a falta de filtros de linha
Solicitamos que, sentados em grupos, cada aluno utilizaria para ligarmos os equipamentos na energia, o cuidado com
o seu laptop para escrever e salvaria o arquivo na memória os fios estendidos no chão para começarem as primeiras
do computador, realizando a formatação da fonte, o lições de colaboração, paciência, compreensão, ajuda ao
tamanho, o alinhamento e a cor conforme a professora colega, a conservação e o cuidado com os equipamentos.
definiu previamente com o grupo de alunos nas orientações Muitas vezes, os alunos eram “testados” pela lentidão da
iniciais acerca da atividade. Internet para fazer sua pesquisa, ou pelos travamentos
que faziam o uso do mouse pad, um verdadeiro teste de
Orientamos que cada grupo seria responsável em paciência e coordenação motora fina.
colaborar com os seus membros no que diz respeito às
dúvidas e dificuldades quanto ao manuseio do equipamento, A partilha no uso do laptop entre duas crianças
bem como auxiliar os colegas na elaboração da atividade. muitas vezes era mais interessante, porque alguns textos
A aprendizagem colaborativa, presente em nossa prática, ficavam mais interessantes quando duas imaginações se
desenhou os primeiros passos para trabalharmos com o empenhavam para construí-lo, jogos que necessitam de
laptop X.O na sala de aula. As “duplas positivas”, em que dois adversários também ficavam interessantes no uso do
os alunos com diferentes habilidades são colocados para mesmo equipamento. Ajudar um colega com deficiência
aprenderem juntos, foi nossa estratégia nas primeiras vezes também era gratificante, porque o papel de “monitor” e de
em que utilizamos o laptop X.O. quem ajuda o colega com mais dificuldade, é recompensador
para quem aprende junto.
Pensando um pouco mais além, como poderíamos [...] as novas tecnologias estão mudando não apenas o
colocar o X.O como aliado nas vivências e nas atividades com que os alunos devem aprender, mas também o que eles
intencionalidade pedagógica dentro do eixo da formação podem aprender. (Resnik, 2006. p.4)
pessoal, moral e de valores? Poderia um equipamento
pequeno, usado como ferramenta e mais uma tecnologia
para a escola, nos deixar experimentar aprendizagens mais
subjetivas?

248 249
Fotos dos momentos de matemática no XO A escola deve propiciar o espaço que atinja o mundo
particular infantil, ao mesmo tempo em que propicia
situações de aprendizagens, sendo a função do professor
partir do conhecimento prévio do aluno, optando por uma
didática em que o ensino seja contextualizado à realidade
do aluno, fazendo a opção por um material que permita
desafiar os alunos de maneira que ele possa ser capaz de
buscar uma resolução.

Portanto, é fundamental que o docente realize


constantemente a avaliação de sua prática e reflita sobre
sua intervenção pedagógica.

Nesta perspectiva, o X.O enquadra-se à realidade


lúdica com seus softwares que auxiliam em sala de aula
nas diferentes atividades pedagógicas. Os comandos dos
softwares permitem que a criança pense, analise, reflita,
CONCLUSÕES E REFLEXÕES SOBRE A PRÁTICA reestruture suas hipóteses mentais ao mesmo tempo que
se socialize analisando criticamente as ideias contrárias
A escola é ambiente de aprendizagem, portanto e opiniões, permitindo a elaboração de argumentos para
“na educação é preciso ter ambientes agradáveis, lúdicos, uma atitude autônoma.
prazerosos para que a aprendizagem seja ativa”. (Almeida,
1993). Quando o sujeito envolve-se com aquilo que é do “Cada vez mais os jovens e as crianças podem acessar
seu cotidiano e conhecimento cultural, se disponibiliza a um conjunto de novas tecnologias e ferramentas,
observar, escutar, manipular, perceber e motiva-se a prestar exercendo grande autonomia em mais e mais aspectos
atenção no que pode lhe servir como valor e interesse de suas vidas, que vão além do aprendizado formal.”
pessoal. (Martins e Baranauskas, 2010)

Entretanto, é importante ressaltar que:

“Palavras não alcançam o mesmo efeito que conseguem


os objetos e imagens, estáticos ou em movimentos.
Palavras auxiliam, mas não são suficientes para, por
exemplo, ensinar”. (Lorenzato, 2010; p.89)

250 251
BIBLIOGRAFIA Recurso Tecnológico como
ALMEIDA, Paulo Nunes de. Educação Lúdica: técnicas e Ferramenta na Construção de
jogos. Loyola, São Paulo: 1993. Gráficos e Tabelas a partir do
MARTINS, M. C.;BARANAUSKAS, M. C. C. Aplicações Cotidiano dos Alunos
Colaborativas na Internet e seu potencial educacional,
Conteúdos elementares de Informática I. In: Maurício Professora Marilda Ferreira da Silva
Urban Klein; Jorge Megid Neto. (Orgs.). Fundamentos de
Matemática, Ciências e Informática para os anos iniciais do
Ensino Fundamental - Livro I. 1 ed. Campinas: FE/Unicamp, Uma das grandes dificuldades no ensino da matemática
2010, v. 1, 147 p, p. 7-23. [Publicação elaborada para o Curso é fazer com que os alunos interpretem dados e leiam
de especialização em Ensino de Ciências e Matemática, informações gráficas. Sendo assim, resolvi direcionar
Unicamp, 2010. minhas atividades para a construção de gráficos e tabelas
sobre temas relacionados ao cotidiano dos alunos. Estas
RESNIK, Mitchel. Repensando o aprendizado na Era Digital. atividades foram abordadas com alunos dos oitavos e
Trecho extraído do Workshop: Scratch e Cricket: Novos nonos anos do ensino fundamental.
ambientes de aprendizagem e de criatividade. Bradesco
Instituto de Tecnologia – Campinas, fevereiro de 2006. Sempre tive vontade de trabalhar com o recurso da
informática em minhas aulas, pensando no aluno como um
MARTINS, Jorge Santos. Situações práticas de ensino e ser que de alguma forma tem acesso à Internet em casa ou
aprendizagem significativa. Autores Associados, Campinas: em lan house; acreditava que este recurso seria uma forma
2009. (Coleção: Formação de professores). de motivar e despertar no aluno, cada vez mais, a vontade
de aprender matemática. Quando surgiu o “Projeto XO” na
LORENZATO, Sérgio. Para aprender matemática. 2ª edição
escola tive certeza que esta seria a oportunidade, confesso
rev. Campinas: Autores associados: 2008. - (Coleção:
que foi e ainda é um grande desafio para mim, já que entendia
Formação de professores).
muito pouco de computador. Cada aula preparada era e é
uma superação, os alunos me surpreendem a todo momento,
principalmente aqueles que apresentam dificuldades em
matemática, percebo que quando a atividade é no XO, eles
demonstram muito interesse e habilidades.

De acordo com os PCNs (Parâmetros Curriculares


Nacionais - 1998), as tecnologias em suas diferentes
formas e usos, constituem um dos principais agentes de
transformações da sociedade, pelas modificações que

252 253
exercem nos meios de produção e por suas consequências A figura a seguir ilustra momentos dessa atividade.
no cotidiano das pessoas. Estudiosos do tema mostram que
escrita, leitura, visão, audição, criação e aprendizagem são
influenciadas, cada vez mais, pelos recursos da informática.

Ainda conforme os PCNs, a visualização e a leitura


de informações gráficas em matemática são aspectos
importantes, pois auxiliam a compreensão de conceitos e
o desenvolvimento de capacidades de expressões gráficas. Quando me propus a desenvolver esta atividade
Tendo em vista que a habilidade de interpretar e construir foi um desafio, aliás como as demais, mas esta foi a mais
gráficos é requisito fundamental exigido na maioria das desafiadora de todas por três motivos:
empresas, acredito que se o aluno for capaz de construir
um gráfico ou uma tabela poderá ter mais oportunidades 1º. Foi a primeira atividade a ser feita com o XO;
no mercado de trabalho. A partir desta perspectiva, as aulas
de matemática aproximam-se do cotidiano dos alunos e, 2º. Por conta de uma reforma na escola mudamos as
dessa forma, deixam de ser algo abstrato. aulas para outro local, ou seja, estávamos fora de casa;

Nós professores de matemática, temos que 3º. As turmas eram extremamente falantes e, fora de
aproveitar ao máximo oportunidades como essa de poder casa, estavam ainda mais indisciplinadas.
trabalhar com recursos tecnológicos, principalmente
através de um Projeto inovador como o XO, no qual juntos Apesar das dificuldades citadas, aceitei o desafio e
com especialistas, pesquisadores e estudantes, podemos fui estudar o XO para aplicar a atividade. A atividade foi
construir e contar a nossa história e vivência rumo a um dividida em quatro etapas:
novo modelo de educação.
1ª. Etapa
DESCRIÇÃO DAS ATIVIDADES
Os alunos citaram alguns alimentos presentes em
Atividade 1 – TEMA: CONSUMO
seus cardápios, tais como: salgadinhos, suco de caixinha,
A atividade em questão foi desenvolvida com alunos chocolate, achocolatado, leite, refrigerante entre outros.
dos nonos anos do ensino fundamental de 2010, e teve Coloquei na lousa e dividi para turma. Eles deveriam trazer
como objetivo a construção de gráficos e tabelas. Para rótulos desses alimentos contendo, por exemplo, o valor
tanto, foram utilizados rótulos de alimentos e contas de luz energético, a quantidade de proteínas e etc. Marquei para
dos próprios alunos. Dessa forma, realizou-se a leitura dos aula seguinte e, para minha surpresa, a maioria dos grupos
valores nutricionais de alguns alimentos em seus rótulos, e trouxe e dividiu com os que não trouxeram. Utilizando o
o consumo de energia da residência dos alunos nos últimos recurso “Atividade Escrever” do XO, construíram uma tabela
seis meses. contendo o nome do alimento e os seus nutrientes.

254 255
2ª. Etapa

Nesta etapa os alunos deveriam construir a mesma


tabela na planilha eletrônica do programa Gnome (XO) e
depois um gráfico de barras. Através dessa atividade os
alunos puderam visualizar com maior clareza e fazer uma
leitura dos diferentes alimentos e seus valores nutricionais.
4ª. Etapa

Passei na lousa uma tabela retirada de uma questão


de vestibulinho, que mostrava o consumo de energia de
alguns eletrodomésticos como: ferro de passar, lâmpadas,
chuveiros e outros. O objetivo era mostrar para eles o
consumo e como fazer para economizar energia.

No final da atividade fizemos um debate, onde


pudemos analisar quem estava consumindo mais energia e
o que fazer para mudar tal realidade.

3ª. Etapa
Ao aplicar esta atividade, pude perceber o que eu
já imaginava, quando trabalhamos atividades inseridas no
Os alunos deveriam trazer uma conta de luz de casa.
contexto dos alunos o aprendizado torna-se significativo
Em classe fiz uma leitura da conta com eles, alguns não
e consequentemente mais prazeroso e motivador. O aluno
tinham porque segundo eles o pai fazia o tal “gato” na
vê sentido naquilo que esta aprendendo, sem contar que
energia do vizinho. Aproveitei a oportunidade para falar do
aprende a fazer relações da matemática com a sua realidade.
risco que corriam ao fazer isto e abordei outras questões,
mas isso só serviu para evidenciar a realidade deles e talvez Em cada atividade, a minha relação com os alunos
de nada fosse adiantar o que eu estava falando naquele melhorava porque aprendíamos juntos. Ao mesmo tempo
momento, mas quem sabe no futuro quando estivessem em que ensinava e mediava as atividades percebia o quanto
adultos não parassem e pensassem nisso. Na época que eles tinham habilidades com a máquina e, na maioria das
apresentei esta atividade na oficina do XO, não falei desse vezes, pedia ajuda para alguns deles.
detalhe, hoje, relembrando, acho que é importante falar
sobre isto.

Ao analisar as contas perceberam que nelas consta a


média, em forma de gráfico, dos últimos seis meses. O que
fizemos na planilha eletrônica foi reproduzir esse gráfico.

256 257
Atividade 2 - TEMA: MULHERES QUE FIZERAM HISTÓRIA 2ª. Etapa

Esta atividade foi realizada na Semana Literária; O grupo de alunos deveria utilizar o aplicativo
uma das tarefas dessa semana era dar nome à biblioteca processador de texto (Gnome - XO) para construir uma
da escola, por isso o grupo de professores decidiu fazer o tabela com esses dados.
levantamento de alguns nomes de mulheres que, de alguma
forma, fizeram parte da história do Brasil ou de outro país 9º.s anos
qualquer. Cada professor na sua disciplina deveria trabalhar
o tema. 1ª. Etapa

Em matemática, a atividade foi desenvolvida com De posse dessas tabelas, cada grupo de alunos
alunos dos 8º.s e 9º.s anos. A atividade foi desenvolvida deveria observar a nacionalidade dessas mulheres. Foram
em duas etapas: seis os países que mais se destacaram: Brasil, Inglaterra,
Estados Unidos, Polônia, Itália e Venezuela.
8º.s anos
2ª. Etapa
1ª. Etapa
Nesta etapa do trabalho os alunos deveriam tabular
Cada grupo de quatro alunos deveria pegar um quantas mulheres foram pesquisadas e dessas quantas eram
papel contendo o nome de uma das mulheres citadas no de cada um dos países acima citados, em seguida construir
levantamento e em seguida utilizar o XO para pesquisar um gráfico utilizando o aplicativo “planilha eletrônica”
alguns dados como: nome completo, nome com o qual ficou (Gnome - XO).
conhecida, data de nascimento, profissão, naturalidade e
nacionalidade e a área em que se destacou. Foi uma atividade muito boa e esclarecedora para
os alunos, que puderam conhecer melhor cada uma das
mulheres pesquisadas e ter clareza no momento de poder
votar em um nome para a biblioteca. A figura a seguir
ilustra um dos resultados da atividade.

Fotos desta etapa da atividade.

258 259
Atividade 3 - TEMA: MEIO AMBIENTE E RECICLAGEM • Alguns poluentes e suas características;
• Padrões Brasileiros de qualidade do ar;
O desenvolvimento desta atividade foi durante a • Estruturas de qualidades;
Semana do Meio Ambiente. Foi de grande valia a escolha • Mudanças climáticas;
desse tema, pois a escola há algum tempo tem trabalhado • Materiais de computadores que seriam descartados
com o projeto Meio Ambiente, e neste ano resolvemos até 2004;
abordar reciclagem. Esta atividade foi desenvolvida com • Economia da reciclagem redução em %.
alunos dos 8º.s e 9º.s anos.
Estas tabelas foram construídas no aplicativo “planilha
8º.s anos eletrônica” (Gnome - XO). Algumas dessas tabelas foram
transformadas em gráficos de barras e setores como, por
Para os oitavos anos o sub-tema da atividade foi exemplo, temos os gráficos cujos títulos foram: “Materiais
“Água”. de computadores e Economia da reciclagem, redução em
%”. Estes gráficos tiveram um grau de dificuldade maior na
1ª. Etapa construção, pois havia muitos dados. Ao construirmos o
gráfico sobre a Economia da reciclagem, percebemos que
Analisar uma conta de água, ler informações e o único gráfico possível e mais fácil seria o de barras. Esse
mostrar como se faz o cálculo do consumo mensal. Esta foi o que me deu mais trabalho, pois estava sozinha na
atividade consta no livro didático dos alunos (Matemática classe e tive que ir de grupo em grupo explicar o processo.
na medida Certa).
Fizemos também, uma tabela seguida de um gráfico
2ª. Etapa sobre a distribuição de água terrestre, que falava sobre:
a quantidade de água salgada nas calotas polares, nos
Utilizando o XO, os alunos deveriam entrar no site rios e lagos na atmosfera, umidade do solo e nos lençóis
da fornecedora de água local para analisar e ler algumas subterrâneos. Um dos alunos construiu um gráfico de
questões que colocam sobre o meio ambiente e também setores, os demais fizeram de barras.
fazer algumas atividades propostas neste site.
Enfim, esta atividade foi muito enriquecedora, pois
9º.s anos ao analisar a porcentagem de água disponível no planeta,
foi possível abordar a importância da preservação do
A proposta para os nonos anos consistiu na ambiente e da economia de água.
construção de tabelas e gráficos sobre o tema em questão.
A classe foi dividida em grupos de quatro alunos e cada um
deles construiria uma tabela. As tabelas foram:

260 261
REFLEXÕES Desperdício de papel: quantificando

Tendo em vista que o principal objetivo das atividades área e volume
desenvolvidas era fazer com que os alunos tivessem
habilidades para ler e interpretar informações gráficas, Professoras Marilda Ferreira da Silva e Fernanda Silva
acredito que de certa forma isso aconteceu. Barbosa

A contextualização dos temas abordados fez com


que a matemática tivesse mais significado para os alunos, INTRODUÇÃO
despertando neles maior interesse e vontade de aprender.
Sou professora da Rede Municipal desde 2004, lecionando
O uso do XO como ferramenta contribuiu muito nos 6ºs. e 7ºs. anos, do ciclo III, e por ter fechado um
no processo, pois além de motivar os alunos, fez com período de aulas na escola que lecionava em 2010, ao
que desenvolvessem habilidades para construir gráficos e pedir remoção, escolhi a EMEF Padre Emílio Miotti por uma
tabelas. questão geográfica, pela proximidade de minha residência.
Meu nome é Fernanda, leciono Matemática também na rede
O aluno hoje em dia tem acesso a computadores; ele estadual desde 1997, sendo que, esse ano, só no 3º ano do
faz uso dessa máquina para muitas coisas, mas infelizmente Ensino Médio. Após a minha escolha, descobri que na EMEF
não tem o hábito de usar esse recurso para estudar, fazer Miotti também havia um trabalho com uso de computador,
pesquisas e construir algo que pode ajudar sua vida no já que na escola de onde eu vinha, havia também um
futuro. projeto cujo nome era UCA (um computador por aluno),
com a supervisão da Unicamp, aparentemente nos mesmos
Enfim, como coloquei no início, os recursos
moldes. Na prática, descobri a diferença entre eles, tanto na
tecnológicos só vêm a acrescentar e enriquecer o cotidiano
forma de trabalho, quanto na operacionalização do laptop.
escolar. Além disso, facilitam a relação professor aluno.
Meu primeiro contato com a máquina foi durante a “Semana
Literária”, onde os alunos dos 7ºs. anos fizeram uma pesquisa
Bibliografia:
sobre as “Mulheres que Marcaram a História”, com a minha
________. MEC - Ministério da Educação, Secretária de supervisão, fazendo pesquisa na Internet, confeccionando
Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais cartazes sobre elas, escrevendo textos sobre as mulheres e
- Matemática. 1998. p. 43-46. vida de cada uma. Após esse primeiro contato operacional
com o XO, participei de oficinas, troquei informações com
Mendonça, Rita; Fontes, Cristiane; Matos, Ericka, et al . diversos professores, e como havia um horário em comum
Como cuidar do seu meio ambiente. Coleção entenda e com a Professora Marilda, também de Matemática, houve
aprenda, BEI cominicação. 2ª ed., 2004.
uma troca de experiências que enriqueceram minhas aulas,
AGRADECIMENTOS: Eduardo M. M. Pinto, Maria Cecilia ajudando a utilizar a máquina como ferramenta na sala de
Martins, Rosangela de Assis. aula.

262 263
Minha trajetória como professora é bem semelhante há alguns anos, o Projeto Meio Ambiente. Esta foi uma
a da minha colega, sou professora de matemática, meu forma de minimizar o quadro em que se encontrava o
nome é Marilda Ferreira da Silva. O que nos aproxima além ambiente externo da escola, pois nele era depositado
da escolha profissional, é o fato de também ter trabalhado toda espécie de lixo possível. Ao desenvolver tal projeto
com o ensino médio. Lecionei por dezesseis anos na rede fomos conscientizando a comunidade e os alunos a dar
estadual de educação e estou nesta escola há oito anos. um destino certo ao lixo. Não está sendo fácil, no entanto,
O diferencial entre nós é que essa é a minha primeira diminuiu muito o problema. Sendo assim, mais do que
experiência com um projeto como o do XO, ou seja, um nunca nós, professores, temos o dever de orientar nossos
laptop por aluno. Acredito que é, e está sendo, um grande alunos e mostrar para eles que com pequenos gestos,
desafio e oportunidade para eu poder trabalhar com uma como desperdiçar menos papel possível, podemos mudar
ferramenta como esta. Sempre quis usar esse recurso em esse quadro.
minhas aulas acreditando ser uma forma de motivar os
alunos e facilitar a aprendizagem, já que esses possuem A possibilidade de trabalhar o tema com o recurso
contato com o computador em casa ou em “lan house”. da informática, mais precisamente o XO, fez com que
os alunos ficassem mais motivados e interessados em
Sendo assim, resolvemos desenvolver esse projeto descobrir qual das salas iria produzir mais lixo (papel). Eles
juntas. puderam perceber claramente ao construir e interpretar os
gráficos.
Direcionamos o projeto a alunos dos ciclos III e IV do
ensino fundamental, cujo principal objetivo era mostrar de DESCRIÇÃO DO PROJETO
forma empírica, a quantidade de lixo produzido por eles,
diariamente, nas salas de aula. Utilizamos o “XO” para o O tema escolhido foi trabalhado com alunos do
tratamento dos dados e análise de resultados. ciclo III e IV durante da Semana do Meio Ambiente, evento
realizado na escola em 2011.
Sentimos a necessidade de conscientizá-los,
trabalhando o tema na Semana do Meio Ambiente, evento O objetivo principal foi mostrar aos alunos
realizado na escola no ano de 2011. Encontramos uma a quantidade abusiva de papel produzida por eles,
maneira concreta para o desenvolvimento dos conceitos diariamente, na classe, bem como, a diferença prática entre
de área e volume. Para nós, professoras de matemática, área e volume.
essa foi uma oportunidade de dar significado ao conteúdo
abordado em sala de aula. Hoje em dia, uma das maiores O tema foi dividido em três etapas:
dificuldades encontradas é fazer com que os alunos façam
relações entre o que aprendem e a sua realidade. 1ª - Cada classe recebeu um saco plástico
A ideia de ter uma semana para abordar questões devidamente identificado para recolher o papel (“lixo”)
relacionadas aos problemas ambientais surgiu a partir durante a semana. Em seguida escolhemos dois alunos de
de um projeto que vem sendo desenvolvido na escola cada sala para transportar o lixo durante a troca de sala, e
posteriormente recolher este lixo ao final de cada dia.

264 265
2ª - Dividimos as classes em grupos, cada um deles Tabela de área por sala
recebeu uma quantidade determinada de papel (lixo). Ano Área (m2)
Cada grupo deveria planificar este papel e calcular a área 8ºA 3,69
ocupada por ele. Utilizaram as tampas das carteiras ou um 8ºB 3,69
espaço retangular determinado no chão para cobrí-lo com 8ºC 5,15

o papel. Por fim, mediram o comprimento e a largura das 9ºA 4,9

carteiras ou dos retângulos no chão e calcularam a área 9ºB 5,26

ocupada pelo papel. A partir daí, foram somados os valores


de cada grupo pra se chegar ao total de papel consumido Tabela do volume por sala
na sala. Cada sala de aula fez o cálculo referente à sua
classe.
Ano Volume (litros)

3ª - Cada grupo recebeu uma caixa de papelão e 8ºA 20,7

depositou o papel aberto dentro dela. Em seguida verificaram 8ºB 20,7

as dimensões da caixa: comprimento, largura e a altura 8ºC 36,27

que o papel tinha alcançado. Depois calcularam o volume 9ºA 30

ocupado pelo lixo. A princípio utilizaram como unidade de 9ºB 36,3

medida o centímetro cúbico, e depois transformaram para


o litro.
A seguir apresentamos cópia de tabelas elaboradas
por alunos dos 6ºs e 7ºs anos, bem como os gráficos
4º - Construíram uma tabela com os dados de
efetuados pela aluna Maurem, do 7º ano B. Nota-se que
todos os grupos, por ciclo, utilizando o aplicativo
está faltando o título nos dois gráficos, mas isso aconteceu
planilha eletrônica do programa Gnome (XO) e depois
na transcrição do mesmo, efetuado no XO, para o Word,
um gráfico de barras. Fizeram uma comparação do lixo
pois no original sua construção está correta. O primeiro
produzido, quantificado em área e volume, entre as
refere-se à área do papel consumido (m2), e o segundo, ao
classes do ciclo. Para a confecção da tabela houve também
volume (l).
a transformação de cm 2 para m2, e depois de cm3 em
dm3 , e depois em litros. O desafio foi interessante, pois
a partir das amostras no papel, os alunos perceberam a Consumo de Papel
diferença entre essas unidades de medidas. Fazendo uma
comparação do volume em litros, perceberam o maior Ano Área (m2) Volume (l)

consumo com maior facilidade, do que em metros cúbicos. 6ºA 2,28 6,72

6ºB 0,86 4,86


A seguir apresentamos cópia de tabelas e gráficos 7ºA 4,69 7,74
construídos pelo aluno Emanuel da Silva Soares, na época, 7ºB 5,35 9,4
matriculado no 8º ano.

266 267
Depois dessa experiência, me senti capaz de utilizar
novos recursos para desenvolver conceitos, mas acredito
que, para tanto, não devemos efetuar um trabalho solitário,
e sim, em conjunto com outras pessoas que tenham os
mesmos objetivos que nós, que é enriquecer as aulas e
torná-las mais prazerosas.

Ao abordar o tema com os oitavos e nonos anos,


pude observar claramente que os alunos não sabiam
Tabela do volume por sala e gráficos da área e volume
diferenciar área e volume. Estes conteúdos já tinham
por classe.
sido trabalhados em sala de aula, porém como foi
REFLEXÕES
através de fórmulas, penso que para o aluno não teve o
menor significado. A proposta de trabalhar de forma
O uso dessa nova tecnologia me fez perceber que,
concreta foi de grande valia, pois assim o aluno teve a
de uma forma empírica, os alunos dos sextos e sétimos
possibilidade de contextualizar o que tinha aprendido.
anos conseguiram entender vários conceitos matemáticos
através do manuseio de material concreto, decisão
Outra questão também importante que merece ser
conjunta na forma da medição dos dados, análise dos
destacada é que os alunos não tinham a menor ideia da
valores, cálculos de áreas em grupos separados e depois
quantidade de papel desperdiçada por eles todos os dias.
em conjunto (para chegar aos valores totais da sala),
Com o desenvolvimento do projeto, puderam perceber
conversão de unidades de medidas, confecção de tabelas,
esse fato e pensar em como minimizar esse quadro. Isso
construção de gráficos e análise dos resultados obtidos.
foi gratificante para nós, já que esse era um dos objetivos.
Foi muito gratificante verificar que os alunos ‭
perceberam, na prática, a diferença entre área e volume, O trabalho, como citamos na descrição, foi
conceitos básicos em geometria, mas que muitos confundem realizado em grupo, e cada um ficou com quantidade
quando precisam utilizá-lo. de papel para planificar. Os alunos perceberam que
quanto maior o papel mais fácil e preciso era o cálculo
No início, não acreditava que chegaríamos a um da área e do volume. O grupo que recebeu muito papel
resultado tão rico, em que houve uma interação aluno- pequeno teve que fazer uma estimativa ao calcular a área
aluno, na forma de distribuição de funções no grupo, entre e o volume. Em um dos grupos houve uma discrepância
os grupos nos cálculos, bem como, aluno-professor de uma entre os resultados, pois, enquanto o valor da área
forma tranquila e natural, pois muitas vezes eu precisei da estava baixo o volume deu muito alto. Puderam perceber
ajuda de alunos-monitores, ou dos que tinham um maior claramente este fato na construção do gráfico de barras.
conhecimento do XO que eu, já que o Projeto iniciou em
2010.

268 269
Enfim, foi um projeto muito enriquecedor para o O uso do XO nas aulas de história:
aluno que, além de aprofundar e concretizar o conceito
de área e perímetro, também teve a oportunidade de O professor como mediador do
trabalhar com unidades de medidas como metro quadrado, processo ensino aprendizagem
metro cúbico e litros. Ter como ferramenta o XO foi muito
importante também para o aluno, que se mostrou motivado Professor Marcos Ramos
e interessado o tempo todo.

Apesar de ter tido alguns problemas para operar a Sou professor da rede pública há 19 anos e trabalho há 12
máquina como salvar trabalhos, o travamento de algumas, anos na rede municipal de ensino. Uma das preocupações
penso que foi muito gratificante poder contar com essa que sempre esteve presente em minha carreira foi o uso
ferramenta em minhas aulas. das Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) em
sala de aula, pois acredito que o uso das tecnologias de
informação e comunicação motiva o aprendizado de nossos
alunos, favorecendo também o estreitamento das relações
afetivas em sala de aula.

Entre os diversos trabalhos realizados com o XO –


laptop educacional – quero destacar o desenvolvimento
da história em quadrinhos a partir do tema: a vida no
paleolítico. Escolhi este caso para relatar, pois foi um
momento significativo para os alunos e para mim também.
Percebi nesta atividade, uma maior receptividade por
parte dos alunos, envolvendo-se significativamente com a
realização da atividade.

Desta atividade participaram os alunos dos sextos


anos. São duas turmas, que apresentam um desenvolvimento
cognitivo muito bom. São alunos que dominam a leitura e
a escrita e gostam de participar oralmente, argumentando
criticamente os temas abordados em nossos estudos.

Ao organizar esta atividade, o objetivo era possibilitar


aos alunos situações em que pudessem expressar de maneira
mais criativa os conhecimentos aprendidos nas aulas sobre
o período histórico do paleolítico. Primeiro estudamos o
período histórico, tendo como referência os textos do livro

270 271
didático e também as pesquisas realizadas junto à Internet. Percebi de forma concreta que o aprendizado
As pesquisas junto à Internet foram orientadas a partir de pode ser favorecido com o uso das tecnologias. O papel
sites educacionais, ampliando o conhecimento dos alunos do professor é bastante relevante como mediador e não
sobre o contexto histórico deste período. apenas como transmissor do conhecimento.

O passo seguinte foi solicitar aos alunos que Partes dos HQs resultante da atividade dos alunos:
confeccionassem os desenhos relativos ao tema. Em
seguida os alunos fotografaram e escreveram a história em O homem no Paleolítico: Larissa e Cristina

quadrinhos, utilizando as ferramentas do XO. A proposta


foi trabalhar em dupla, mas houve casos em que o aluno
decidiu trabalhar sozinho.

Os alunos foram autores da história e organizadores


da atividade. Meu papel nesta atividade foi de mediar o
processo, usando como estratégia a elaboração de uma
proposta que interligasse conhecimento dos conteúdos e
habilidades com o desenho e o gosto pela HQ (história em
Em um belo dia Pedrita estava fazendo o Ela pegou fecha e atirou no canibal e ele
quadrinhos). fogo quando de repente apareceu um morreu.
canibal.
A partir desta proposta, os alunos tiveram a Paulo 6b
oportunidade de elaborar uma atividade mais dinâmica,
apropriando-se dos conteúdos estudados em sala de aula.

Esta atividade possibilitou-me compreender na


prática, o quanto é significativo o uso das tecnologias
em sala de aula, pois além de favorecer a aprendizagem
dos alunos, motiva as relações afetivas em sala de aula
aproximando professor e alunos. Houve também uma
As pinturas rupestres do período
aproximação entre os alunos, preocupados em ajudar uns Eles também queriam deixar
paleolítico, importante para nós informações para seus descendentes,
aos outros. estudarmos como viviam os homens do mostrando qual era o seu alimento.
paleolítico.

Possibilitar e acompanhar os alunos em pesquisas


na internet contribuiu não apenas para ampliar o
conhecimento, mas favoreceu também o desenvolvimento
de alunos pesquisadores, o que, por sua vez, potencializou
sua aprendizagem.

272 273
Um dia no paleolítico - Lauriene: 6º A
Trabalhando com o XO:
Interdisciplinaridade com o uso do
XO dentro e fora da sala de aula
Professora Paula C. M. Balardin

De acordo com a associação OLPC (One Laptop Per Child),


uma possibilidade de melhorar a questão do ensino-
Pedro e Thiago eram grandes amigos, e Quando o mamute estava distraído eles o aprendizagem nas escolas públicas pode ser a utilização
também muito levados. Um dia resolveram atacaram.
caçar um mamute filhote... de laptops individuais de baixo custo - XO - em salas de
aula, como uma forma de dinamizar e revolucionar este
processo. Testes anteriores em outras regiões e países
indicaram que seria viável o seu uso como ferramenta
de apoio nos processos de aprendizagem. Por isso, em
2010, quando o Projeto XO foi apresentado na EMEF Pe.
Emilio Miotti pela equipe do Nied/Unicamp, comecei a me
questionar sobre como utilizar esta ferramenta sem que os
alunos perdessem o foco na atividade a ser desenvolvida –
Assustado eles correram até chegar na
Mas para a surpresa dos dois, o
mamutezinho os levou até a sua mãe e ela aldeia e entrar na caverna.
e os outros colegas de trabalho também. Com as Oficinas
quebrou a lança de Thiago. de Capacitação, decidimos que de início deveríamos ter um
único tema por ciclo de aprendizagem para abordar nas
diferentes disciplinas. Depois então, montar um projeto
para ser desenvolvido.

Como sou professora de inglês, escolhi o tema


“Consumismo” para o ciclo III – 6ºs anos, juntamente com
as disciplinas de português (Profa. Marly M Myazawa)
e de ciências (Profa. Priscila Paionk). Poderíamos ter
Dentro da caverna Thiago acendeu a Quando a tinta ficou pronta, Thiago
fogueira e Pedro aproveitou para fazer tinta. segurou para Pedro fazer a pintura feito um trabalho individual, porém, fazer um trabalho
rupestre na parede da caverna.
novo de forma interdisciplinar nos pareceu melhor
para iniciar o uso do XO no cotidiano escolar, ajudando
1 a nos familiarizar com o equipamento e com seu uso.
Além disso, esta atividade nos ajudaria a conhecer
melhor nossos alunos e seus mundos, proporcionando
maior estreitamento de relações entre alunos e

274 275
professores, fomentando o debate referente ao consumo Como é de se esperar, algumas dificuldades foram
de produtos industrializados; ao descarte de embalagens e encontradas: o carregamento da bateria, devido a falta
ao manuseio da máquina XO. de tomadas e extensões/filtros de linha; alguns alunos
não conseguirem trabalhar em equipe; alguns alunos não
Nossos objetivos específicos eram conhecer melhor conseguiam entender que precisávamos usar o XO como
o que pensa, gosta e consome, o adolescente e seu grupo, ferramenta de trabalho e não de diversão (bate papo,
através da produção de um “Diário de Adolescente”; jogos, etc.); o editor de texto não suportou todas as fotos
observar que a maioria dos produtos, palavras e expressões e redação, então tivemos que dividir os trabalhos finais;
que são ditas podem ser originárias do inglês e como elas alguns alunos tiveram dificuldade em manusear a máquina;
já se incorporaram no cotidiano e a maioria dessas palavras houve travamento da máquina, por vários programas
não comportam uma tradução adequada; adquirir maior estarem abertos ao mesmo tempo; dificuldade de salvar
conhecimento sobre uma alimentação saudável; saber ler documento e localizar depois e de manuseio sem a ajuda
os rótulos e tabelas dos alimentos consumidos; verificar se do “mouse”.
há aditivos químicos; etc; e ainda trabalhar a parte histórica
do consumismo e da industrialização. Os alunos também fizeram uma avaliação do trabalho
e do uso do XO nas aulas, e mencionaram como facilidades:
Bem, o XO possibilita o uso em dois ambientes conhecer uma máquina nova; fazer o que não conseguiam
distintos: o Sugar e o Gnome. Iniciamos com o uso do fazer no caderno (tirar foto e montagem); digitar os textos
Sugar, onde os alunos poderiam tirar fotos e escrever o ao invés de escrever e de maneira mais rápida; aulas mais
“Diário”. Sob nossa orientação, os alunos trouxeram rótulos, interessantes. E como dificuldades destacaram: não ter
embalagens, etiquetas, nomes e tiraram fotos (utilizando o mouse (ruim de controlar); o XO foi considerado lento;
ambiente Sugar) de todos os produtos que utilizam no dia- houve programa que travou; fotos “perdidas”; teclado
a-dia em casa e na escola: alimentos e bebidas, produtos de com “botões” pequenos; não tem memória suficiente; a
higiene e limpeza, produtos de entretenimento, confecções, bateria descarregou rápido; houve dificuldades em salvar
eletrodomésticos, etc. os documentos; dificuldade em montar o trabalho de
texto com fotos; houve brincadeiras dos colegas do grupo,
A atividade foi desenvolvida durante três semanas, querendo jogar ao invés de fazer o trabalho.
com cinco grupos de cinco alunos, usando um computador
para cada grupo, em sistema de revezamento entre os Em geral, mesmo com todas as dificuldades
membros, pois assim teríamos mais controle sobre o enfrentadas inicialmente, a maioria dos alunos gostou
uso inicial da máquina, sem que os alunos se distraíssem muito de usar a máquina XO nas aulas e nós, professores,
com outras atividades e também com mais praticidade também, pois os trabalhos
no salvamento e armazenamento dos documentos. A ficaram ótimos e as aulas foram
avaliação foi feita durante a realização do trabalho e no desgastantes, porém muito
projeto final, com a apresentação de um único trabalho produtivas e alcançamos nosso
por grupo de alunos, onde foram contempladas todas as objetivo.
disciplinas envolvidas.

276 277
Outros usos do XO em 2011 O consumo como cenário
Em 2011, o XO foi utilizado nas aulas de inglês Juliana Andrade Moura
principalmente como ferramenta de apoio á pesquisa,
usando o ambiente Gnome, a Internet e o Google Tradutor,
juntamente com o livro didático (que não tínhamos). O relato a seguir refere-se à primeira experiência de
realização de atividades com o XO em 2010, meu primeiro
A maior dificuldade dos alunos foi quanto ao uso do ano na Rede Municipal de Campinas.
tradutor da internet. Fazer com que se conscientizassem de
que a tradução não vem pronta e acabada, mas que eles O consumo tendo sido escolhido como o tema de
precisavam ler, adequar e reorganizar as palavras para que estudo e trabalho, propusemos aos alunos que pensassem
as ideias fossem coerentes na língua portuguesa, ainda é geograficamente a questão das etapas de funcionamento
um desafio. da economia: a produção, a distribuição e o consumo
das mercadorias e sua materialidade no espaço. Para isso
Os alunos e eu tivemos mais facilidade no manuseio trabalhamos principalmente com imagens.
do XO, pois a aula específica ficou mais interessante,
houve a comodidade de usar a máquina na própria sala, Foi entregue material impresso aos alunos dos 8º, e
e a automatização do processo de busca para a tradução 9º anos, com a seguinte proposta de atividade:
(podiam traduzir frases ao invés de palavra por palavra).

Também usei o XO nas Reuniões de Pais e Educadores O SISTEMA CAPITALISTA


para consultar e mostrar aos pais o sistema IMAEDU – Gestão
de Ensino – onde digitamos as notas, faltas e relatórios dos As origens do sistema capitalista remontam à Baixa
alunos e para poder mostrar os gráficos gerados e boletins Idade Média (séculos XI-XV), quando a economia de mercado
de cada um. A imagem a seguir ilustra mais essa utilização superou a economia de subsistência. Os bens produzidos
do XO. tornaram-se mercadorias, pois passaram a ser vendidos em
troca de dinheiro. Na economia de subsistência era diferente
O XO foi usado também em nossa Festa Junina em geral um grupo social ou uma unidade familiar produzia
como “Correio Eletrônico”, no ambiente Sugar, ao invés do apenas para seu consumo. Para o completo funcionamento
tradicional “Correio Elegante”, do sistema capitalista e o desenvolvimento da economia
por sugestão da direção, sob de mercado, é preciso que haja, além da produção, outras
a minha responsabilidade e etapas. Observe o esquema:
de alunas do 8º Ano e foi um
sucesso.

278 279
A ECONOMIA: PRODUÇÃO, DISTRIBUIÇÃO E CONSUMO

No capitalismo, todas as coisas que precisamos são


produzidas por muitas outras pessoas, a sociedade humana
organizada. E todas essas coisas são produzidas e lançadas
em um mercado, para serem compradas e vendidas, tendo
como principal objetivo o lucro de quem as produziu. Mas
graças a esse sistema é que temos acesso a tantas coisas
muito, muito legais como o XO, por exemplo.

Como este alimento com soja, produzido pela


Unilever Brasil Alimentos Ltda, é a mesma fábrica que
produz o sabão em pó para lavar roupas”.
Fonte: Igor Moreira. Construindo o Espaço Americano. São Paulo: Ática, 2002.

Orientações gerais:

01- Escolha um produto que você costuma consumir,


como por exemplo, arroz, bolacha, pasta dental ou
creme de cabelo.

02- Identifique as seguintes informações contidas na Outras informações do “leite de soja” obtidas do rótulo de sua

embalagem da mercadoria: a) nome fantasia e empresa embalagem:

produtora; b) cidade, estado e país de produção; c)


possuem fábricas em outras localidades, quais? d) Local de Produção: Principais Ingredientes:
exportado para outros países, quais? e) principais
matérias primas utilizadas na produção.
Unilever Brasil Alimentos Extrato de soja – água – açúcar –
Ltda. sal – lecitina de soja –
03- Faça outro esquema, com base no esquema acima, Av. Prefeito Olavo Gomes, aromatizante – estabilizante e
para demonstrar as etapas do processo de produção do 3701 – Pouso Alegre – Minas vitaminas.

produto que você escolheu até a venda. Ilustre seu com Gerais.

imagens pesquisadas na internet.

Segue o desenvolvimento da atividade proposta e


que tendo sido realizada conjuntamente professor e aluno
serviram como modelo do que poderia vir a ser realizado
por cada um deles:

280 281
As fotos a seguir foram resultados das pesquisas Relato de migrações e o uso do XO
realizadas na internet pelos alunos, acerca da produção do
leite de soja: nas aulas de Geografia
Setor Primário Setor Terciário Setor Secundário Juliana Andrade Moura
Agricultura Serviços Indústria
O uso das novas tecnologias na educação não é só positivo
como desejado e necessário, e a escola e os professores
devem preparar-se para se adaptarem às rápidas mudanças
da nossa era digital. Pensamento consensual, assim como
Produção de Alimento
a necessidade de proteger a natureza e cuidar do meio-
Plantação Irrigada Colheita e transporte ambiente, difícil discordar. No entanto, qual o real impacto
de soja
da introdução de uma ferramenta tecnológica tão poderosa
Fotos e textos produzidos no XO pelo aluno Allan do como um laptop no contexto educacional?
8ºC em 2010.
O que tenho observado na introdução do XO em
Produto: sabonete cremoso. minha prática pedagógica é a lentidão com que esse
Marca: Dove. recurso tem se inserido no dia a dia da sala de aula. Talvez,
Descrição: Esse produto é pelo medo do novo, por termos que sair de nossa zona de
para higiene do corpo, ou conforto (deixar de realizar o que já sabemos, para construir
melhor dizendo, para tomar o novo dá trabalho). Mas, principalmente, por não existirem
um delicioso e refrescante modelos prontos e por não sabermos muito bem o que
banho. Esse sabonete contém fazer e nem como. No entanto, acreditamos no sucesso da
um segredo para nossa pele, união educação-tecnologias se uma mudança radical no
a hidratação, por isso, dove tem de 1/4 de creme hidratante. processo educacional acontecer. O que hoje é centrado no
Desenvolvido pela “Unilever” (a empresa responsável e dona professor e no ensino deve vir a ser um processo interativo,
desse super-sabonete). Ele é feito e produzido no Brasil. dinâmico e estimulante, centrado na aprendizagem na qual
o aluno é um sujeito que aprende. Ou, então, estaremos
Dica: passe diariamente para ter melhores resultados e utilizando novas ferramentas em velhas práticas, o que já
tenha uma pele lisa e perfumada. se provou ser totalmente inócuo.

Exportado: Argentina, Paraguai, Bolívia, Colômbia, Uruguai Gostaríamos de destacar uma experiência realizada
etc. com os alunos dos 7°anos A e B, intitulada “Relatos de
migrações”. Foi um trabalho realizado ao final do primeiro
Principais Ingredientes: lauroil isetionato de sodio, ácido semestre/2012 e envolveu as professoras de geografia e
esteárico, sebato de sodio e etc. língua portuguesa, os alunos e seus familiares.

282 283
Ao longo de nossa vivência nessa comunidade escolar, 4 - Com o roteiro salvo em cada equipamento, os
pudemos observar que a quase totalidade das famílias alunos levaram seus XOs para casa. O objetivo era que a
de nossos alunos são migrantes vindas principalmente entrevista que fariam com os pais, mães, tios ou avós sobre
da região nordeste do Brasil. Interessou-nos investigar e as experiências pessoais de migrações fossem registradas
registrar as memórias dessas famílias, colocando os alunos em som e/ou imagem;
nos papéis de entrevistadores/pesquisadores e relatores
das histórias familiares. O estudo vinculado a laços afetivos 5 - Entrevista feita e registrada, os alunos fariam sua
e partindo de uma realidade conhecida, faz com que a transcrição e produziriam textos com o depoimento das
criança perceba que a história e a geografia são coisas histórias pessoais familiares;
reais e importantes para o seu presente, contribuindo para
a construção de sua identidade e tornando o aprendizado 6 - Os textos finais deveriam ser postados para a
mais significativo. professora no www.dropitto.me.

Nosso estudo sobre o tema das migrações no Os depoimentos trazidos pelos alunos estão
Brasil constitui-se basicamente de: leitura teórica para permeados de boas lembranças da infância e da juventude
construção de alguns conceitos (migrações pendulares, que os pais trouxeram, revelando apego à terra natal e
voluntárias ou forçadas, fatores de expulsão e atração); carinho por amigos e parentes desse tempo:
elaboração da cartografia dos principais fluxos migratórios
no país ao longo do tempo; leituras da história de vida “Na Bahia era muito divertido. As melhores lembranças
de migrantes; assistimos e fizemos uma reflexão sobre o são das brincadeiras” (Brenda 7°B).
filme: O caminho das nuvens (2003). Ao final de nossos
estudos regulares desenvolvemos, utilizando o XO como “A vida era boa, eu andava de cavalo, nadava no rio,
ferramenta, a atividade a seguir descrita: subia no pé de manga, pegava as mangas e começava
a comer, andava de bicicleta, corria atrás das vacas, as
1 – Os alunos sugeriram as perguntas a serem feitas, vacas corriam atrás de mim, caia do pé de goiaba e etc.
o professor as sistematizou com vistas à elaboração de um Era uma infância saudável no Crato-CE. Também quando
roteiro de entrevista; eu dormia no colo da minha avó e da minha tia chupando
o dedo” (Maria Izabel 7°B).
2 – Finalizado, o roteiro foi disponibilizado pelo
professor em uma conta da turma no site www.dropbox. Mas falam também e principalmente sobre a pobreza
com; e as dificuldades vividas:

3 – Em aula, fizemos o download desse roteiro de “As lembranças do meu pai eram que tinha que andar a
entrevista e também de histórias em quadrinhos de Will pé 10 km para chegar a sua escola e faltava bastante para
Eisner sobre o tema, para salvar os arquivos em cada XO, ajudar meu avô na roça” (Paola 7°A).
pois os alunos poderiam em casa não ter acesso à rede e
aos arquivos necessários;

284 285
“Casou porque a vida na roça era difícil. Ela veio junto casa mediante bilhete assinado pelos pais, que firmavam
com seu noivo para Campinas. Pensava que a cidade fosse o compromisso de colaborar para que a devolução do XO
grande e havia muitos recursos e uma vida mais fácil” acontecesse na data combinada e em perfeito estado. No
(Gabrielle 7°A). entanto, poderíamos no mesmo bilhete tê-los informado
sobre o teor do trabalho e a importância da participação,
A ausência de tecnologias também lhes chamou a também sobre a gravação da entrevista como uma
atenção: importante etapa da pesquisa, pois foi grande a resistência
a esse procedimento metodológico. Dos vinte alunos do
“Minha mãe nasceu em casa. Naquela época não havia 7°A apenas oito levaram o XO no dia previsto e outros oito
hospital” (Samuel 7°A). levaram um dia depois, permanecendo com o equipamento
apenas duas, das três noites previstas. Dos vinte alunos do
“Era andar a cavalo, léguas e léguas e não tinha energia 7°B, onze trouxeram o bilhete assinado e levaram o XO no
elétrica” (Gabriel 7°A). dia previsto, um levou posteriormente.

Notou-se a importância das redes de parentesco. Disponibilizamos um tempo de aula (100 minutos)
Muitos mencionaram irmãos, tios ou primos que aqui já para que o download do roteiro de entrevista fosse salvo
estavam e puderam acolhê-los de pronto, amenizando em cada XO (etapa 3); e mais um tempo para executarmos
um pouco a saudade e a falta que as grandes mudanças todos os procedimentos que seriam necessários em
provocam. A vinda para a cidade grande representa a casa como: salvar arquivos, tirar foto, localizar arquivos.
esperança de maiores oportunidades de estudar e trabalhar, Ainda assim, alguns alunos não conseguiram localizar, no
onde poderiam ter uma vida melhor. equipamento em casa, o arquivo que continha o roteiro de
entrevista.
“O seu objetivo era conseguir um bom emprego. Ele estava
muito ansioso para ver o que ia acontecer. Em poucos dias No entanto, o problema mais mencionado pelos
ele já teve que pagar aluguéis caros” (Paola 7°A) alunos foi não ter conseguido gravar um arquivo de imagem
e/ou texto, ocasionando a perda dos dados do trabalho. Dos
E aqui conseguiram encontrar empregos, muitos quarenta alunos envolvidos, apenas quatorze conseguiram
conseguiram adquirir a casa própria e tiveram filhos percorrer todas as etapas descritas e finalizaram seus
maravilhosos, como eles mesmos disseram. trabalhos, sendo oito alunos do 7°A e seis alunos do 7°B.

As ponderações que seguem sobre a execução da Lembro-me, em uma das primeiras oficinas com
atividade são no sentido de identificação dos problemas a equipe do NIED, de uma professora que já perto do
encontrados, visando o aperfeiçoamento das práticas. momento de sua aposentadoria dizia, em um misto de
preocupação e alegria, que estava chegando o momento
Conforme orientação da equipe gestora da escola, os em que os professores não saberiam mais do que os
equipamentos foram entregues para os alunos levarem para alunos, ambos aprenderiam juntos, mas o professor em

286 287
situação desprivilegiada, pois os alunos possuem muito O XO na Educação Física
mais afinidade com a tecnologia. Talvez ela tenha razão,
mas apenas em parte. Professora Silvana Rossi Caobianco

Pudemos constatar que essa facilidade ainda é Sou Professora de Educação Física há 12 anos na Emef Pe
potencial em nossos alunos, que não desenvolveram as Emílio Miotti. Em 2010, voltei a trabalhar com os ciclos 1 e
competências e habilidades necessárias para a utilização 2, permanecendo na escola por volta de 6 horas por dia.
de ferramentas tecnológicas como instrumentos de estudo Tenho boa relação com as novas tecnologias e utilizo, com
e pesquisa. Mais da metade deles não sabe ainda salvar mais frequência com os alunos, os jogos de computador, o
um arquivo e buscá-lo posteriormente, acessar a rede, data show para filmes e exposição de trabalhos e a internet
procurar informações, redigir um texto. Maior familiaridade para pesquisa.
do professor com a tecnologia e o uso mais sistemático do
XO em aula podem facilmente equacionar essa questão, A primeira experiência dos alunos com o XO nas
sem deixar de lado questões como a necessidade do aulas de Educação Física foram os jogos. Em 2010 quando
desenvolvimento e da disponibilidade de softwares iniciamos os trabalhos com o XO na escola, estávamos
educacionais ou dos alunos monitores em número suficiente em um ano atípico. Nossa escola passava por uma grande
enquanto agentes multiplicadores desse saber. reforma e fomos transferidos para o bloco C da FAC IV
(Faculdades Anhanguera de Campinas – Unidade 4) por
E, então, o medo inicial se desvanece diante de tanto sete meses. Essa mudança, mesmo esperada e preparada,
por fazer, pois quando alunos e professores possuírem as causou alteração na rotina dos trabalhos, principalmente
habilidades necessárias para o manejo dessa tecnologia, na Educação Física, que deixou de ter um espaço específico
poderemos aprender-ensinar mais e melhor utilizando para as atividades esportivas. Passei então a auxiliar as
todo o potencial que a tecnologia como aliada possui, Professoras do ciclo 1 na exploração do XO com os alunos
contribuindo assim para a formação de pessoas melhor e a descobrir com eles os primeiros jogos. Depois iniciamos
preparadas para o mundo do trabalho e para a vida; afinal as turmas no bate papo, mas sempre utilizando o XO nas
esse é o papel da escola. aulas como recreação.
Momentos da atividade em sala.
Foi na volta do recesso de julho em 2011, já de
volta ao prédio da Escola, que planejei um trabalho mais
específico para os alunos dos 3º anos. Nesse mesmo ano,
a Secretaria Municipal de Educação (SME) aumentou para
três o número de aulas dessa disciplina, para os ciclos 1
e 2, facilitando a inclusão de temas voltados à saúde e as
tecnologias.

288 289
O Caso Número 1: Matheus Cardoso
Brincadeira: A caçada de dinossauro
No início de setembro de 2011, quando cheguei com Regras: Para todo o grupo. Explicação: vale em toda
o XO na sala de aula do 3ºano A, foi grande a alegria dos quadra. Dividimos o grupo em trios e um deles será o trio
alunos. Depois das atividades de quadra, os jogos e bate pegador (dinossauros). Os dinossauros contam até 7 e
papo do XO era a atividade que mais gostavam na minha quando pegarem alguém essa pessoa deve deitar no chão
aula. e ser salva pelos colegas do seu trio. Para não ser pego as
pessoas devem correr.
Quando expliquei a proposta do trabalho, houve
certa resistência para a atividade, mas na mesma aula Número 2: Letícia Trevisan
alguns alunos já começaram a produzir. A partir desse Brincadeira: Pulos Radicais
dia, quinzenalmente nas aulas duplas de Educação Física, Regras: O jogo tem que ter duas equipes. Cada equipe tem
passamos a utilizar o XO para que os alunos, individualmente, que ter dez jogadores ou mais. Cada equipe fica numa fila
escrevessem uma brincadeira no editor de texto. Essa num dos lados da quadra e tem que pular o banco azul
brincadeira deveria ser inventada ou adaptada por eles para e fazer zigue-zague nos cones. A equipe que conseguir
que depois de escrita pudéssemos vivenciá-la na quadra ou pular mais alto ganha um ponto, e a equipe que pular torto
em outro espaço específico para a atividade. perde um ponto. Quando todos os jogadores pularem o
jogo termina. A equipe que conseguir mais pontos vencerá.
O roteiro da atividade era: nome do jogo ou
brincadeira, número de participantes, local de execução, Número 3: Nathan
explicação e regras do jogo ou brincadeira, e pontuação. Brincadeira: Pega Fut
Regras: Para todo o grupo, não pode dar rasteira e não
Criatividade foi um ingrediente que apareceu aos pode fica bravo, senão será expulso. Escolhemos dois
poucos no trabalho, apesar de ter sido explicada logo no “pegadores” e os demais irão fugir. Quando a pessoa for
início. A pressa em concluir o texto reproduziu muitos jogos pega ela deverá falar qualquer palavra que tenha a ver com
e brincadeiras conhecidos. Depois dessa fase de escrita, futebol, por exemplo: trave, goleiro, meio de campo dentre
as produções começaram a ganhar o toque da invenção. outras. Depois ela trocará de lugar com o “pegador”, as
Muitos trabalhos ficaram bons e, apenas três alunos não palavras não poderão ser repetidas e vale nome de jogador.
concluíram a atividade, por faltarem demais.
Número 4: João Vitor
Algumas brincadeiras que traziam personagens Brincadeira: Esconde-esconde “halloween”
violentos foram reorganizadas com minha intervenção, e, Regras: Para todo o grupo. Escolhemos um colega para
conseguimos em todos os casos adaptar a proposta do procurar. Os demais em segredo escolhem personagens
aluno num novo contexto de jogo. do “halloween” e escrevem num papel para o “pegador”.
Em seguida todos se escondem nos lugares combinados.
Seguem ao lado quatro exemplos produzidos pelos Quando a pessoa é encontrada o “pegador” tem que
alunos do 3º ano: adivinhar qual personagem ele encontrou.

290 291
A acessibilidade através do XO
Professoras Aline C. Begossi, Arlene M. C. Coelho, Lívia
Cristiane Pereira Dal Bello

Momento de atividade com o XO na aula de Educação Física. Nesses três anos trabalhando com o XO na sala de aula
tivemos várias experiências importantes com os alunos
Reflexão especiais na escola. Iremos relatar o uso desse instrumento
dentro da sala de aula regular.
Acredito que fazer uso das ferramentas tecnológicas
em nosso cotidiano e na escola abre uma nova perspectiva Enquanto professoras de educação especial na
de organização, de aproveitamento do tempo e de estímulo escola, nosso trabalho visa o suporte pedagógico aos alunos
para criarmos novidades. deficientes, aos seus pais e aos professores que tenham em
suas classes alunos com necessidades educativas especiais
Acompanhar o desenvolvimento dessa proposta só e que necessitem de algum tipo de apoio dentro da sala
confirmou o que vivenciamos na escola diariamente, que regular de ensino. Este trabalho envolve também a busca
os alunos se identificam e se motivam com a ferramenta por parcerias com as instituições e o apoio da área da
computador. saúde, bem como o Atendimento Educacional Especializado
no contraturno da escola.
Para os alunos com grande dificuldade na escrita, a
atividade estimulou a vontade de escrever. Constantemente Através do uso dessa tecnologia temos suporte para
perguntavam se essa ou aquela palavra estava correta. as diferentes deficiências. Estes recursos são fundamentais
Alguns desses alunos receberam a minha ajuda para diante da forma como as crianças hoje aprendem, diante
concluir o trabalho, outros foram orientados pelos colegas de tantas mudanças tecnológicas e o avanço das interfaces
da sala, mas a ideia original foi sempre mantida. As fotos digitais.
acima ilustram esse aspecto.
O uso do XO possibilitou, para nós professoras de
O uso do XO na atividade contribuiu para um educação especial, uma flexibilização e maior dinamicidade
maior interesse dos alunos na execução da tarefa. Foi um do currículo escolar, permitindo a convergência das
momento de perceberem que na Educação Física também condições do aluno com os objetivos da educação.
nos apropriamos de ferramentas tecnológicas para produzir
algo e não somente reproduzir jogos instalados. Ao iniciar o trabalho do XO com os alunos especiais,
algumas perguntas foram surgindo:

292 293
• Com que finalidade podemos utilizar o XO e seus Numa outra experiência com um aluno com
programas com os alunos especiais? hidrocefalia, que apresenta uma pequena dificuldade
• O XO pode melhorar a capacidade comunicativa desses de organização espacial, de lateralidade, além da visão
alunos, como apoiar a exteriorização ou expressão subnormal, uma simples ação melhorou em muito a sua
dos seus pensamentos? possibilidade de uso do XO. Numa aula de matemática,
• Como o XO pode contribuir para uma autonomia onde ele tinha que montar um gráfico dentro do tema ”Vida
desses indivíduos no trabalho em sala de aula? Saudável – Sexualidade”, reconfiguramos as propriedades
• Teríamos uma inclusão cognitiva dos alunos através do XO, aumentando a letra, o contraste letra-fundo e
do uso do XO? a fonte. Assim que ele foi recomeçar seu trabalho, disse
• O XO seria uma ferramenta de adaptação e flexibilização entusiasmado:
curricular?
“Nossa, que diferença! Agora posso fazer o gráfico sem
Com uma aluna deficiente auditiva, em fase de dificuldade! Estou enxergando bem melhor!”.
aprendizados das operações de adição e subtração,
trabalhamos no XO o jogo da memória de adição e Ou seja, um simples recurso de reconfigurar as
subtração. Usamos o jogo e, para auxiliar o jogo, fizemos propriedades fez toda diferença para a realização da
uso de palitos de sorvete para contagem. Cada soma atividade com a planilha eletrônica, uma adaptação que
era registrada no seu caderno, para que ela conseguisse qualquer professor poderia fazer antes de iniciar o trabalho
lembrar dos resultados das operações e jogar com mais em um computador, para aumentar a acessibilidade do
facilidade. A aluna gostou muito do jogo e vibrava a cada aluno e melhorar seu empenho na atividade.
acerto. Ficou muito tempo nessa atividade, por gostar do
que estava fazendo. Talvez, se estivéssemos trabalhando Tais recursos contribuem para proporcionar maior
somente com somas no caderno, não teria sido uma independência, qualidade de vida e inclusão na vida
atividade tão atrativa. social, manutenção ou devolução de suas capacidades
funcionais. Um aluno não verbal, por exemplo, pode
No mesmo dia, com o objetivo de trabalhar a atenção, falar ou escrever através do Speak1 , podendo participar e
concentração e a lateralidade, usamos o jogo Labirinto. realizar normalmente tarefas com maior independência e
Nele, percebemos a importância dos jogos e objetos de autonomia.
aprendizagem disponíveis nos softwares. Observamos que
as crianças e adolescentes têm especial predileção por Usamos essa ferramenta com alunos em fase inicial
jogos e games, o que tornou o desenvolvimento desses de alfabetização e percebemos o quanto ela é desafiadora
algo fundamental, já que essa é uma linguagem ativa, nos processos de aquisição, visto que a criança, ao escrever,
dinâmica, desafiadora e tão atraente para esse público. Tais ouve no final aquilo que tentou fazer.
recursos criam no aluno uma predisposição para aprender,
um esforço deliberado, cognitivo e afetivo para relacionar 1
Esta aplicação dispara uma animação – uma “face que fala” – a partir do que
os novos conhecimentos a níveis de desenvolvimento já aparece escrito na tela. Ou seja, este recurso dispõe de um sintetizador de voz
adquiridos. que “lê” o que foi digitado no teclado.

294 295
Em outra atividade desenvolvida com os alunos atenção em questões como: vegetação, energia elétrica,
com deficiência intelectual e uma aluna autista, vimos que trânsito, indústria, entre outros.
esses tinham suas hipóteses de conhecimentos em torno
da escrita e que tais hipóteses foram desestruturadas Através do uso do XO, recebemos suporte para
no uso do Speak, que serviu de mediador para que eles as diferentes deficiências e observamos, nas diversas
repensassem a estrutura da escrita e avançassem no seu possibilidades que ele oferece, o êxito no trabalho com
processo de alfabetização. as crianças com deficiência. Se desejamos de fato uma
escola inclusiva, precisamos pensar em diferentes formas
Dentro das propostas de trabalho com o XO, de trabalhar a grande diversidade de necessidades e
fomos percebendo o quanto desenvolvemos com as capacidades inerentes a heterogeneidade da sala de aula.
crianças habilidades básicas de atenção, participação e
adaptabilidade. Muitos jogos possuem uma sequência
gradativa de conteúdos, do mais simples para o mais
complexo, aumentando assim a inclusão cognitiva desses
alunos dentro do contexto ensino e aprendizagem.

Ainda podemos citar a importância das pesquisas


realizadas através da internet. Nas aulas de História, Geografia
e Ciências, por exemplo, usamos muito a ferramenta de
pesquisa para exemplificar o conteúdo trabalhado, através
de imagens que auxiliam na compreensão daquilo que
está sendo estudado, uma vez que os recursos visuais
estimulam o desenvolvimento de conceitos e de conteúdos
importantes para o trabalho em sala de aula.

Para alunos com deficiência auditiva, o uso da imagem


é fundamental e esse recurso deveria ser mais utilizado pelos
professores. Por exemplo: usamos vários sites para montar
um texto com imagens sobre as Olimpíadas. A turma tinha
um questionário para responder e um dos alunos especiais
respondeu as questões, procurando imagens relacionadas
às perguntas levantadas pela sala.

Numas das aulas de Geografia sobre crescimento Momentos de utilização do XO em atividades com as crianças.
urbano, usamos o programa Sim City, o que deu sentido ao
conteúdo para um aluno com deficiência intelectual, pois
ele conseguiu montar sua cidade, com auxílio da professora,

296 297
Alunos Monitores na escola: uma estudavam no período vespertino e seriam monitores no
período matutino. Além da organização e coordenação do
parceria que deu certo! Projeto de Monitoria, as professoras serviriam de referência
ao trabalho dos estagiários do Jovem.com e do técnico em
Professoras Jocinara Lopes de Oliveira e Vanessa F. Pires, informática.
Colaboração: Elaine Hayashi e Rita Khater, Maria Cecília
Martins e Maria Cecília Baranauskas, da Equipe do NIED – A proposta de trabalho
UNICAMP.
Algumas das dificuldades relatadas pelos
professores foram: transportar os laptops para a sala de
Este artigo trata de uma experiência de Projeto de Alunos
aula (não podiam deixar os alunos sozinhos para fazê-lo);
Monitores dos ciclos 3 e 4, na EMEF “Padre Emílio Miotti”,
disponibilizar horários para carregar as baterias, salvar
Campinas – SP, auxiliando os alunos e professores dos
arquivos do pen-drive para o XO e vice-versa; organização
ciclos 1 e 2, no uso do laptop XO em sala de aula. As
dos laptops e encaminhamentos nos casos de manutenção,
professoras Jocinara Lopes de Oliveira e Vanessa F. Pires
além da insegurança no uso do laptop, pois não sabiam o
foram coordenadoras destes monitores, junto com a equipe
que fazer caso o programa travasse, como salvar arquivos
do NIED-Unicamp, nos meses de setembro a dezembro de
no XO, acessar a Internet, entre outros.
2011. Várias parcerias foram formadas: família-escola, aluno-
aluno, aluno-professor, professor-professor, pesquisador-
Mediante o relato dos professores e orientação da
escola. Dificuldades foram apontadas, enfrentadas e
equipe gestora da escola e do NIED/Unicamp, os trabalhos
minimizadas e o processo ensino-aprendizagem se deu
a serem desenvolvidos deveriam ser: agenda de reuniões
entre todos os envolvidos no Projeto.
de treinamento com os monitores; organização do quadro
de horários de atendimento; orientação aos monitores na
Introdução
organização dos trabalhos; ser referência para organização
do trabalho dos estagiários do Jovem.com e do técnico
No ano de 2011, vários professores novos chegaram
em informática. Partindo da compreensão de que o nosso
à escola e não haviam participado das oficinas do XO,
trabalho no encaminhamento do Projeto, incluía também o
proporcionadas pela equipe do NIED-Unicamp no
auxílio e orientação aos professores, numa perspectiva de
ano anterior. Os laptops haviam sido patrimoniados e
conceber o trabalho com o XO, enquanto formação para
distribuídos numa sala com armários específicos para
o uso de novas tecnologias no ensino. Um processo que,
cada turma. Os professores tinham grandes dificuldades,
segundo Prado e Martins (1998), não se resume à aplicação
tanto em transportar o XO para a sala de aula, como
de técnicas para o uso de novas tecnologias no ensino,
em utilizá-lo com segurança. No mês de setembro do
mas implica em que cada professor busque contextualizar
referido ano, a equipe gestora da escola, juntamente com
suas aulas, integrando seu conteúdo no contexto de uso,
a equipe do NIED/Unicamp, com a intenção de formar na
tanto do cotidiano da escola, como em sua própria área de
escola um grupo de alunos monitores, nos fez a proposta
atuação:
de coordenação desse trabalho. Os alunos monitores

298 299
“Por essa razão a formação do professor em informática na Os primeiros passos
educação precisa ser vista além do espaço/tempo do curso,
contemplando nesse processo a dimensão do contexto do Iniciamos, a construção do Projeto Monitoria. Foram
dia a dia do professor. Nesse enfoque a preparação do convidados alunos de sexto ao oitavo ano para participar
professor envolve muito mais do que ele aprender a lidar de uma reunião inicial, na qual foi apresentada a proposta
com as ferramentas computacionais. O professor também de trabalho. De sessenta e oito inscritos, compareceram
precisa aprender a recontextualizar o uso do computador, dezesseis alunos, os quais foram automaticamente eleitos
integrando-o às suas atividades pedagógicas. Isto significa monitores. Eles estudavam no período vespertino e
que o processo de formação deve propiciar ao professor participavam do Projeto de Monitoria no período matutino,
construir novos conhecimentos, relacionar diferentes duas vezes por semana, durante meio período. Não houve
conteúdos e reconstruir um novo referencial pedagógico.” critério para a seleção dos monitores. Apenas os que se
(Prado e Martins, 1998). inscreveram e compareceram à primeira reunião já foram
eleitos para a continuidade da formação, que se estendeu
A inserção da informática, no contexto da sala de por três dias.
aula, passa pela observação de muitos outros fatores,
todos ligados à compreensão da complexidade do processo Nestes três dias, foram organizadas as reuniões
ensino-aprendizagem. Numa dimensão de repensar o de treinamento. No primeiro dia, foram mostrados aos
papel dos alunos, iniciamos o Projeto nos respaldando e monitores os vídeos de trabalhos semelhantes de alunos
acreditando na reflexão de Mitchel Resnick (2006): monitores, em São Paulo e Tocantins e feito uma reflexão
sobre os vídeos. Foi realizada também uma dinâmica de
“Os alunos podem se tornar mais ativos e independentes, um quebra-cabeça: os alunos foram divididos em grupos
com o professor atuando como um consultor, não como um e cada grupo recebeu um quebra-cabeça para montar.
executivo chefe. Em vez de dividir o currículo em disciplinas Em cada quebra-cabeça faltava uma peça (que havia sido
separadas (matemática, ciências, estudos sociais e línguas), propositalmente colocada no quebra-cabeça de outro
deveríamos focalizar temas e projetos que envolvessem as grupo) e sobrava uma, que não completava o quebra-
disciplinas, beneficiando-se das ricas conexões entre os cabeça. Depois de muito refletir os alunos descobriram
diferentes domínios do conhecimento. Em vez de dividir que a peça que faltava estava no outro grupo. O objetivo
os alunos pela idade, nós deveríamos incentivar alunos desta dinâmica foi refletir sobre a importância do trabalho
de todas as idades a trabalharem em projetos, permitindo e das trocas positivas dentro do grupo sempre pensando
que aprendessem uns com os outros. Em vez de dividir o na parceria e integração.
dia de aula em várias sessões, deveríamos deixar os alunos
Nos demais dias de treinamento, foram organizados
trabalharem em projetos por longos períodos, para que
os dias e horários de cada monitor e eles receberam
fossem atrás de maneira mais profunda e significativa das
orientações sobre o uso do XO e a função de monitor (buscar
ideias que surgem no curso do trabalho desenvolvido.”
XO, carregar baterias, ligar, desligar, abrir e fechar aplicativos,
organização do XO nos armários, acesso à Internet, gravação
de arquivos de pen-drive para XO e vice-versa, auxílio aos

300 301
professores e alunos). Foi enfatizada a importância da Além destas reuniões quinzenais, as professoras
postura de monitor como referência para os alunos mais Jocinara e Vanessa disponibilizaram alguns horários para
novos. Os monitores tiveram o direito de permanecer cada plantão de dúvidas e atendimento aos monitores. As
um com seu laptop, para utilização, estudo e treino em casa. pesquisadoras e as professoras coordenadoras reuniam-
Eles receberam um crachá de identificação para facilitar a se esporadicamente para conversar sobre os avanços e
comunicação com todos na escola e assinaram um termo dificuldades no Projeto e procurar juntas novas soluções
de compromisso de participação, com autorização assinada para o trabalho com os monitores.
pelos pais. Também receberam um caderno para registro
dos trabalhos realizados, ocorrências e dúvidas. O desenvolvimento do Projeto

A parceria com a família Após as reuniões de treinamento, a organização de


horários, reuniões com os professores para explicar como
Como parte do projeto político pedagógico da escola, funcionaria o Projeto, os monitores iniciaram os trabalhos.
a integração da família dos alunos monitores também foi Tomamos o cuidado de fazer uma escala de somente duas
importante para ajudar os alunos com as novas atividades vezes por semana no trabalho de monitoria, para evitar
e compromissos de monitor. Agendamos uma reunião excesso de atividades e não prejudicar o desenvolvimento
com os pais dos monitores para explicar a importância escolar dos alunos.
dos trabalhos que seus filhos estavam realizando e pedir a
colaboração dos mesmos no acompanhamento e incentivo Os professores, que já tinham um horário fixo
à participação dos alunos no Projeto. Nesta reunião, de uso do XO, recebiam a ajuda dos monitores no dia
compareceu a grande maioria dos pais e explicamos o programado. Como as professoras Jocinara e Vanessa
Projeto, mostramos os vídeos de trabalhos semelhantes (São trabalhavam no período da manhã, serviam de referência
Paulo e Tocantins). Os pais demonstraram boa participação para o trabalho dos monitores e organizavam suas funções
e vontade em colaborar com a escola. Além desta reunião, mediante as necessidades de cada dia, ou solicitação prévia
nos comunicávamos com frequência via bilhetes e telefone de professores. Foi feito um controle de frequência para
com os pais, para lembrarmos os compromissos dos que, ao final do ano, fosse elaborado um certificado de
monitores e conversar quando havia alguma necessidade participação no Projeto.
de intervenção.
Além desta organização dos monitores, ficamos
Parceria com as pesquisadoras responsáveis por conferir o patrimônio do XO, encaminhar
problemas técnicos e ocorrências ao técnico de informática
As pesquisadoras, Elaine Hayashi e Rita Khater, e organizar o trabalho dos estagiários do Jovem.com e
reuniam-se quinzenalmente com os monitores para do técnico em informática. Fizemos várias reuniões com
conversar sobre a convivência e o trabalho como monitor, os mesmos e elencamos algumas pendências necessárias
posturas e referencia para outros colegas e dialogar sobre de serem resolvidas, para uma melhor organização dos
as dificuldades encontradas no trabalho como monitor. trabalhos realizados. Tínhamos um caderno de registro

302 303
que servia de referência para anotações de ocorrências de O fato das duas professoras coordenadoras
problemas técnicos ocorridos nos laptops, como outras trabalharem no período da manhã dificultou algumas vezes
solicitações. uma interação mais direta com os monitores e os trabalhos
que estavam sendo realizados. Sugerimos que, para a
Dificuldades encontradas continuidade do Projeto no ano seguinte, um professor do
período da tarde, com horário livre de manhã, assumisse a
Algumas dificuldades surgiram, pois nem todos os
coordenação, junto com uma das coordenadoras.
monitores participaram do treinamento e tivemos que
agendar reposição dos alunos. Alguns não cumpriram
Conclusões e reflexões sobre a prática
com os horários determinados, deixando de atender
determinado professor que necessitava de ajuda.
Podemos afirmar que o uso das tecnologias facilitou a
Acabamos nos tornando uma referência para os interação entre todas as partes envolvidas: alunos, monitores,
alunos, professores e família dos monitores, pois quando professores, coordenadores do Projeto e comunidade
estes deixavam de cumprir com algum combinado, em seu escolar e extraescolar. Os alunos interagiram melhor, pois
horário de aula, éramos avisadas e conversávamos com tinham que trocar experiências e conhecimentos para o
eles, e, quando necessário, com a família. uso do XO. Os monitores e professores também criaram
um vínculo para que a realização das atividades propostas
Alguns professores não nos avisavam com ocorresse de forma efetiva. Com relação à comunidade, o
antecedência e tínhamos que organizar as atividades dos fato de levar o XO para casa, e dos pais virem à escola para
monitores mesmo assim, de modo a atender às solicitações. conhecer o trabalho dos monitores, também proporcionou
uma interação. Os alunos monitores serviram de referência
Com relação aos estagiários do Jovem.com e o
também para os professores e alunos da sua classe, em seu
estagiário de informática, também tivemos bastante
período de estudo.
dificuldade em fazer com que mantivessem a organização
e colaborassem para a realização dos trabalhos solicitados.
Para a escola, este Projeto minimizou as dificuldades
Mesmo após insistentes reuniões com registro em ata,
relatadas pelos professores para a utilização do XO e
muitas solicitações não foram cumpridas.
possibilitou maior frequência no uso desta ferramenta.
Mesmo com todo o trabalho de organização,
manutenção e conservação, bem como a conscientização Para os envolvidos no Projeto, foi um crescimento
dos alunos sobre o bom uso do equipamento, foram pessoal e profissional:
encontrados alguns laptops danificados e rasurados.
“Este trabalho de coordenação foi mais um desafio, entre
Outro dificultador para o uso dos laptops foi o sinal de tantos outros, de minha carreira de vinte e cinco anos de
Internet (wi-fi) dentro da escola, que era de baixa velocidade magistério. Aprendi muito com os monitores, com a equipe
e quando duas salas de aula utilizavam esse sinal, já havia do NIED/Unicamp, com a professora que me ajudou na
uma queda significativa da qualidade da Internet. Coordenação. A aprendizagem não foi meramente técnica,
mas, tive que lidar com os monitores como se fossem meus

304 305
alunos (conversar com eles problemas familiares,
problemas escolares, entre outros). Foi um crescimento
profissional e pessoal lidar com a situação de preparar e
orientar alunos para auxiliarem outros alunos de faixas
etárias diferentes.” (Professora Jocinara Lopes de Oliveira)

“O trabalho como tutora nesse projeto, foi de muito


aprendizado e de acréscimos positivos à experiência
enquanto professora. Além do brilhante trabalho
desenvolvido pela professora Jocinara e de suas orientações
para meu trabalho, aprendi muito com os alunos, suas
dificuldades e contribuições abriram um pouco o leque de
minha função de educadora.” (Professora Vanessa Pires)

Para os alunos monitores, consideramos que o


momento em que foram mais desafiados foi quando tinham Alunos Monitores do XO - 6a Oficina- EMEF Pe. E. Miotti 25/04/2012
que ser referência aos alunos menores e utilizar aplicativos
que ainda não tinham total segurança. Além disto, foi uma
oportunidade de crescimento, pois tiveram que exercer REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
uma função de responsabilidade e se sentiram importantes
nesta ação. Destacamos também o “amadurecimento” dos RESNICK, M. Repensando o Aprendizado na Era Digital
alunos monitores sobre o sentido da escola em suas vidas, Trecho extraído do Workshop: Scratch e Cricket: Novos
a postura enquanto alunos que têm uma visão de que a ambientes de aprendizagem e de criatividade, Bradesco
escola é sim importante para o crescimento humano e Instituto de Tecnologia – Campinas, fevereiro de 2006 The
profissional, o maior “respeito” com o espaço escolar, bem Media Laboratory - Massachusetts Institute of Technology
como com as pessoas que trabalham na escola. Para os (http://web.media.mit.edu/~mres/)
alunos atendidos, foi uma experiência gratificante, pois, se
sentiam mais seguros ao utilizar o XO e as atividades eram PRADO, M.E.B.B.; MARTINS, M.C: A formação do professor:
realizadas de forma mais tranquila. estratégias e intervenção no processo de reconstrução
da prática pedagógica, IV Congresso RIBIE, Brasília,
1998. Núcleo de Informática Aplicada à Educação – NIED,
Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP

306 307
O XO na Percepção dos Funcionários
da Escola

Maria Cecília Martins, M. Cecília C. Baranauskas

Este capítulo apresenta a transcrição de entrevistas


realizadas com vários funcionários da Escola Municipal
de Ensino Fundamental Padre Emílio Miotti, que têm
participado do Projeto. Alguns diretamente por meio das
Oficinas Semio-participativas, outros pela observação
a partir de sua função cotidiana, dos movimentos que
ocorrem na escola desde entrada dos XO.

A forma de captura da perspectiva dessas pessoas


para o projeto e seu impacto segue o levantado na Oficina,
que trabalhou o livro em sua concepção conforme relatado
na Apresentação. A ideia era tomar depoimentos desses
colaboradores, que nos respondessem se eles notam
alguma diferença na dinâmica da escola, a partir do Projeto.
Esses depoimentos foram registrados em vídeo a partir de
entrevistas não estruturadas no ambiente da escola.

Cada célula a seguir apresenta uma dessas pessoas,


sua função na escola, data do registro, opcionalmente uma
categorização nossa para o fragmento extraído e a fala
da pessoa (em itálico). Por fim, é apresentado um texto
elaborado pela bibliotecária da escola.

311
João Silva Rocha,
Vigilante, trabalha na escola ha oito anos, relato ocorrido em 13/06/2012 Maria Ap. Oliveira Veríssimo
Auxiliar de Limpeza, relato ocorrido em 13/06/2012 <in memorian, junho de 2012 >
-Percepção sobre o Projeto na Escola
“Eu participei do projeto no início.
“Acho o projeto interessante, principalmente para as crianças. Eu acho a ideia de uso do laptop na escola muito boa.
Não tive muita oportunidade de assistir as atividades de uso do XO na escola, como por Pena que não tenho filho em idade escolar para estar participando disso também.
exemplo geoatividade, mas gostaria de poder assistir Quem sabe os meus netos vão participar né?
Acompanho o projeto via lista de discussão na Internet” Eu não costumo mexer no computador. Tem em casa mas nem passo perto dele.
Mas acho que para as crianças é muito bom. Acho que devia ter nas outras escolas
-Em relação aos alunos também.
Vejo os alunos usando o XO no refeitório da escola.
“É um incentivo para eles, ficam mais incluídos. Ficam tão entretidos que eles nem ouvem o que a gente fala para eles. Acho muito
Ficam bem contentes de poder usar o XO. bom ver o envolvimento deles."
Não é uma novidade para os grandes, mas é para os pequenos, os olhos deles brilham mais.
As crianças ficaram mais responsáveis, mudou a autoestima deles.”

-Percepções sobre a escola

“Aumentou o fluxo de crianças na escola, os alunos estão mais presentes... Acho esse fluxo de
crianças positivo”
“também mudou o movimento, na escola vem mais pessoas, pessoas novas”

- Visão sobre o contexto do uso dos laptops na escola


José Pereira Filho
“Acho isso muito bom, porque está trazendo cultura para a escola. Servente, manutenção da escola – relato ocorrido em 13/06/2012
Para o futuro vai ser muito bom.
Devia ter esse projeto em todas as escolas, é muito bom.” - Percepção sobre impactos do projeto na escola – Inclusão Digital.

“O projeto foi ótimo para os alunos, para a gente que


não sabia.
Vocês vão ensinando e a gente vai aprendendo cada
José Henrique Amaurici
vez mais.
Assistente Administrativo, relato ocorrido em 13/06/2012
Acho que o laptop é um recurso bom para os
professores ensinarem. Todas as escolas deveriam ter
esta oportunidade.
“Meu filho participa no projeto e tá ai na foto. Participo do projeto desde o início. A gente fica
Os alunos ficaram bastante empolgados. Vejo isso curioso e admirado pois no tempo da gente não tinha isso. Agora com o projeto na
inclusive pelo que meu filho fala. Ele já levou o XO para escola a gente fica satisfeito tanto para nós, para os filhos, os netos, para os outros
casa, despertou a curiosidade dele, mostrou como usa. Foi alunos. Além de satisfeito a gente fica grato do projeto estar na escola. Da
bem legal. universidade ter iniciado os trabalhos e estar acompanhando a escola."
Participei no inicio do Projeto quando a escola estava na FAC. Achei muito bacana
esse projeto. - Percepção sobre impactos do projeto na escola –participação de todos, contexto para
No ambiente da escola eu percebi que os alunos se agrupam mais, não ficam mais desenvolvimento das pessoas em geral, laptop: ferramenta importante para
tão espalhados. aprendizagem-ensino.
Acho que a interatividade deles é bem maior do que antes quando era só aula
normal sem o uso do XO.” “Acho que melhorou porque incentiva os alunos, professores, funcionários, todos. Até
a gente que nunca tinha mexido no XO. Já usei o XO nas oficinas. Há algumas
dificuldades no início, mas tendo um instrutor que
orienta, a gente vai para frente, aos poucos a gente vai
aprendendo. Acho bom participar do projeto, a gente
vai crescendo cada vez mais.
Acho que o projeto na escola está crescendo. Também
acho interessante a presença dos pesquisadores na
escola.”

312 313
Vera Lucia da Silva
funcionária, relato ocorrido em 18/06/2012

- Inclusão digital de funcionários da escola.

“Quando a gente estava lá na FAC [sede da escola durante


reforma em 2010], nós funcionários participamos das
oficinas do projeto. Eu achava importante participar porque
a gente podia mexer um pouco no XO. Porque a gente não
sabe nada de informática então lá o pessoal ensinava como
mexia no laptop...”

- Percepção do interesse e entusiasmos dos alunos.

“O uso do laptop na escola me chamou atenção porque os alunos se interessaram


também por esta atividade.
No início do projeto, com a chegada dos laptops na escola, percebi que os alunos
ficaram bem entusiasmados e mostraram grande interesse com esta iniciativa”

- Percepção de atividades desenvolvidas na escola.

“eu vi alunos com os laptops fazendo atividades no pátio da escola. Por exemplo,
cheguei a ver os alunos andando com os XO na escola para localizar algum objeto
que estava escondido e, como eu não entendo muito, aí eu ficava imaginando como
isso acontecia.”

- Percepção de atividades desenvolvidas na escola e desenvolvimento dos alunos.

“Achei interessante também os alunos levarem os


laptops para casa e com isso eles tem que ser
responsáveis pelo uso do equipamento. Com isso
acho que é trabalhada a responsabilidade dos alunos:
de levar o equipamento para casa, responsabilidade
com ele mesmo, de ter mais cuidado com as coisas
deles.”

- Valoração do desenvolvimento pessoal, busca de entendimento das ações realizadas


na escola visando fomento da atuação profissional.

“Então... é por isso que eu acho importante quando tem reunião sobre o XO, do
Projeto na escola, chamar os funcionários, tanto os efetivos como os terceirizados,
para ficar acompanhando. Porque como a gente interage com alunos eu acho
importante, interessante saber o que ocorre na escola.”

314 315
- Viu alguma atividade com o XO na escola? Amélia P. Belan,
Inspetora de alunos, trabalha na escola há 12 anos, relato ocorrido em junho/2012
“Lembro de reuniões na biblioteca nas quais professores - que atuam com alunos monitores – conversavam sobre
como se “comportar com o XO” em sala de aula, sobre o respeito com os colegas que estão interagindo com ele. “Eu participo de algumas oficinas do projeto.
Nestas conversas observei que, geralmente, trabalham em grupo. Neste trabalho em grupo percebi que rende mais,
Eu acho que os alunos participam bem, que eles gostam muito de usar o
porque foi possível chamar a atenção para o cuidado com a máquina, o respeito com o colega que está trabalhando
XO. Como sou eu quem dou a chave para eles pegarem os equipamentos
com eles [alunos-monitores]; “Também observei que as reuniões que ocorrem com os alunos aqui [biblioteca]
favorecem a mudança de comportamento em relação ao uso do equipamento. Antes percebia que vinham e na sala, vejo que eles são muito responsáveis. Um vai falando para o outro:
colocavam o XO de qualquer jeito no carrinho. Achei que melhorou muito nessa forma. Acredito que as reuniões, as “Olha! cuidado não deixa cair.
conversas com os alunos surtiram bons efeitos.” Um dia uns alunos do 6º ano estavam em sala de aula, me chamaram e
disseram: “Vem ver Dona Amélia, mexe aqui com a gente”. Eles também
me disseram que sabem fazer pesquisa.
O que me chama atenção dentro da própria sala de
aula é que quando os alunos utilizam o XO, ficam mais
concentrados. Conversam bastante mas sobre o que
está se passando na sala de aula, sobre o XO, sobre a
pesquisa que estão fazendo. Em outras situações, há um
falatório deles dizendo: “Fulano fez isso, fulano fez
aquilo.”

Os relatos dos funcionários oportunizam reflexões


Reuniões com Alunos-monitores na Biblioteca
em várias dimensões. Dão referências do que as pessoas -
-Percepção sobre fotografias ilustrativas sobre o projeto. que atuam cotidianamente no espaço escolar - percebem
“Estas fotografias me chamaram a atenção porque parece que as (“me chamou a atenção o tamanho do computador, parecia
atividades realizadas ajudam as pessoas a ficarem mais próximas, acho
que aproxima o professor do aluno, aluno do professor, pais dos filhos.” de brinquedo; no ambiente da escola eu percebi; acho que
“Aqui o que me chamou a atenção são os “passos” para se realizar
algumas atividades, tem uma conectividade entre os processos, as
o projeto na escola está crescendo; a gente fica curioso e
pessoas.
Esse “preparo” é o que eu falo: há necessidade desse preparo para chegar
admirado” ); pensam (“eu ficava imaginando; acho isso muito
na máquina, porque é uma coisa que, por não ter muita familiaridade, bom”); acreditam (“está trazendo cultura para a escola; o
tenho receio.”

Pais-alunos (Prof. Jocinara e Edileuza)


trabalho com o livro tem que ser paralelo”); almejam (“todas
as escolas deveriam ter esta oportunidade”) e consideram
-Percepção sobre participação pessoal no projeto e Inclusão Digital. relevante (“eu acho importante, interessante saber o que
“Estar na escola que tem tecnologia tem sido ocorre na escola”). As falas destacam percepções de quem
uma oportunidade para desenvolvimento
pessoal em relação ao uso de computador.
circula cotidianamente na escola: “acho muito bom ver o
Como antes eu vivia mais em sala de aula e
também porque vim de uma cultura de roça.
envolvimento deles; acho esse fluxo de crianças positivo; Eu
Assim conheço muito sobre roça, planta. Para acho que os alunos participam bem, que eles gostam muito
mim foi uma evolução, acho que cresci muito
desde a chegada do computador na escola, as de usar o XO”.
possibilidades de uso de tecnologias em geral
nas atividades que desenvolvo atualmente.
Antes tinha receio de mexer, quebrar, até
mesmo com telefone tinha dificuldade.” Os sentimentos também são expressos pelos
“Então, sobre o Projeto XO, acho muito bom pra
mim, bom para mais pessoas, para as crianças.”
participantes em palavras como “além de satisfeito, a
“Cada pessoa tem uma vivência, para mim, a
vivência é essa.”
gente fica grato”. Algumas falas também revelam que as
Atividades da Professora Priscila com seus alunos apresentada pessoas se sentiam “apoiadas” (“estar acompanhando
na Oficina 10
a escola”) neste processo de apropriação de algo que
ainda é pouco conhecido em termos de recursos,
possibilidades e impactos. A metodologia participativa e

316 317
socialmente compartilhada também é refletiva nas A importância do Projeto na escola é evidenciada
percepções dos funcionários quando evidenciam aspectos principalmente para os alunos, mas também para os próprios
como incentivo, parceria, apoio, em relação a interação funcionários que identificam como um contexto, uma
estabelecida entre universidade e a escola, neste contexto oportunidade de aprenderem mais: “Vocês vão ensinando
de pesquisa “acho que melhorou porque incentiva os alunos, e a gente vai aprendendo cada vez mais”. Revelam, assim,o
professores, funcionários, todos”. interesse por espaços para aprender, com mediação que
mobilize, incentive, envolva as pessoas no processo de
O relatos oportunizam também reflexões do ponto de aprendizagem: “tendo um instrutor que orienta, a gente vai
vista de impacto social, quando identificam oportunidades para frente, aos poucos a gente vai aprendendo”. Aliado a
fomentadas na escola com o uso da tecnologia. Assim espaços e a contextos que potencializem a participação e a
os funcionários revelam que estas oportunidades são aprendizagem, outro ingrediente evidenciado é “o interesse,
relevantes para várias gerações (a do próprio participante, o envolvimento pessoal do indivíduo com o seu próprio
de seus filhos e netos): “com o projeto na escola a gente fica desenvolvimento e com o grupo com o qual ele interage; o
satisfeito tanto para nós, para os filhos, os netos, para os que faz a diferença é você se interessar” diante de novas
outros alunos”, bem como para outras unidades de ensino ações e desafios emergidos na prática, na ação cotidiana.
do município.
As percepções aqui relatadas mostram formas
Ainda do ponto de vista social, as falas destacam a
variadas de acompanhar o que ocorre na escola. Assim,
relevância de se sentir ”incluído” do ponto de vista “digital”:
algumas pessoas destacam que acompanham o Projeto
“Porque a gente não sabe nada de informática então lá (na
via participação em atividades (oficinas), pelo que veem
oficina) o pessoal ensinava como mexia no laptop; Estar na
acontecer na escola no pátio, no refeitório, na sala de
escola que tem tecnologia tem sido uma oportunidade para
aula, na interação que estabelecem com os alunos, nos
desenvolvimento pessoal em relação ao uso de computador”.
diálogos com os professores ocorridos no dia-a-dia e até
A inclusão também ocorre do ponto de vista pessoal: via mensagens eletrônicas, compartilhadas em lista de
“acho importante chamar os funcionários, tanto os efetivos comunicação da equipe na Web.
como os terceirizados, para ficar acompanhando; acho bom
participar do projeto, a gente vai crescendo cada vez mais”. As visões dos funcionários também revelam espaços
Há também identificação de possibilidade de crescimento da escola em que os laptops foram utilizados: “Observei que
profissional, no sentido de poder exercer melhor suas os alunos vinham na biblioteca buscar livros e iam para a
funções à medida que conhece mais o que ocorre na escola, sala de aula desenvolver alguma atividade com o XO; vejo os
quais são os desafios, as propostas de trabalho: “como a alunos usando o XO no refeitório da escola; eu vi alunos com
gente interage com alunos eu acho importante, interessante os laptops fazendo atividades no pátio da escola e também
saber o que ocorre na escola”. A inclusão assim se dá quando em espaços fora da escola; os alunos levarem os laptops para
os atores escolares passam a conhecer melhor as ações em casa”.
andamento na escola, podendo sugerir idéias, colaborando
nas tomadas de decisões.

318 319
Além dos espaços utilizados na escola e ações incremento de movimento na escola (“aumentou o
realizadas, há destaque de alguns contextos nos quais fluxo de crianças na escola” ); novas oportunidade de
interações alunos-funcionários são desencadeadas, estabelecimento de elos e interações no espaço escolar
ampliadas, potencializadas, como, por exemplo, no relato (“eu percebi que os alunos se agrupam mais” ) ou em casa
em que os alunos convidam a pessoa para ver como eles (“meu filho mostrou como se usa o XO” ). Alguns impactos
usam o equipamento: “mexe aqui com a gente”. Nestes são percebidos e correlações são estabelecidas pelos
diálogos os alunos também estabelecem interações com funcionários ao observarem ações encaminhadas na
os adultos visando mostrar o que sabem fazer ou o que escola, como por exemplo: levar o laptop para casa e o
estão aprendendo: “também me disseram que sabem desenvolvimento dos alunos ao vivenciarem esta ação “é
fazer pesquisa”. Há uma percepção de um “movimento trabalhada a responsabilidade dos alunos”.
concentrado” dos alunos nas ações que realizam em sala de
aula. A concentração, no entanto, não implica em silêncio, Enfim, há um fluxo de percepções que evidenciam a
ocorre sim uma interação entre os alunos focada na importância de que a tecnologia na escola esteja integrada
atividade que realizam no momento: “Conversam bastante, em espaços que sejam inclusivos, que mobilizem o interesse,
mas, sobre o que está se passando na sala de aula, sobre o a autonomia, a aprendizagem e a interação social.
XO, sobre a pesquisa que estão fazendo”.
Da Lousa à Era Digital
As falas também revelam as articulações estabelecidas
pelas pessoas em relação a inserção da tecnologia na escola, Aparecida Alves Jácomo
potenciais intrínsecos da realização de ações mediadas pela
tecnologia: Tecnologia como recurso didático: “Acho que o
laptop é um recurso bom para os professores ensinarem”. Computador 24hs, quando falamos em horas
Tecnologia e Cultura: “está trazendo cultura para a escola”. assustamos os pais: “meu filho ficar 24hs no computador!”
Há uma percepção de que a tecnologia, por fazer parte da Mas é no sentido figurado. O nosso adolescente esta em
era atual, desperta interesse dos alunos para utilizá-las nas sala de aula olhando para o professor e para a lousa, mas
ações que realizam na escola e na vida: “quando chegou o preocupado em que horas chegará em casa para ligar seu
XO houve curiosidade e interesse dos alunos, porque é da era computador, esta máquina poderosa que mostra o mundo
deles, não é algo utópico, é uma coisa do presente”. informatizado em que ele vive. O Professor se esforça
para dar aula, sem comentários, não é mesmo? Vejo esta
As percepções do que acontece com os alunos na briga pelo lado positivo: alguém; algum projeto vai ter um
escola destacam fatores que evidenciam: aspectos afetivos olhar voltado para esta angústia que tanto aflige a todos:
(“os olhos deles brilham mais” ); motivacionais (“os alunos O nosso adolescente sem poder aquisitivo de adquirir
ficaram bastante empolgados; os alunos se interessaram; ficam um computador, está na escola à espera da “sala lied”
tão entretidos; despertou a curiosidade; quando os alunos (laboratório de informática), assim a fuga da lousa e da fala
utilizam o XO, ficam mais concentrados” ); atitudinais (“mudou do professor.
a autoestima deles; as crianças ficaram mais responsáveis” ),

320 321
Já para a criança, o XO é um objeto de adulto, com uma É sabido que com a era digital, se tornou cada vez
nova aparência, que se torna mais atrativa e incentivadora mais prático o acesso às informações, assim o aluno fica
nas suas descobertas. Não é um contexto utópico como a desmotivado em buscar um conteúdo literário de qualidade.
frase “A fome vai acabar amanhã!”, mas sim uma realidade A família também, por falta de acesso a informações e
que mostra o mundo e o que esta acontecendo lá fora. a vida cotidiana que suprime quase todo o tempo nos
afazeres domésticos e trabalho, sem contar que muitos
Podemos afirmar, com certeza, que esta escola está ainda mantêm o pensamento retrógrado, não incentivam
a caminho da era digital, pelo imenso esforço de nossas seus filhos à leitura.
equipes em buscar Projetos edificadores e, neste sentido,
não se pode perder de vista este bem precioso que é o Contudo, ressalto que a tecnologia é um recurso
projeto XO. Fico ansiosa para que chegue mais tecnologia, importante na evolução da globalização. Sendo assim,
mesmo eu sendo da era da lousa: tecnologias como lousa é necessário que se tenha projetos constantes para o
digital, o uso do celular como ferramenta pedagógica. Assim, aprendizado de como utilizar estes novos recursos, tanto
teremos ganhos maiores para crianças e adolescentes e para os alunos, como também para os professores e todos
para as equipes envolvidas. Fico orgulhosa de ver o avanço os outros profissionais da escola. Como, por exemplo,
que esta escola tem, pelos esforços de nossos especialistas a escola poderá implantar programas de visitação à
para a aquisição de câmera, alarme e agora o almoço em biblioteca, esta deverá ser monitorada por um profissional
paralelo com a tecnologia. Isto é um luxo nos dias em que venha colaborar no esclarecimento de dúvidas e
que estamos vivendo, com tanta turbulência de nossas também incentivando a leitura. Um outro projeto que
autoridades competentes, sem nenhum olhar para estas também poderá ser de grande valia, é o próprio professor
coisas saudáveis para nossa educação. em sala de aula incentivar os alunos na troca de livros com
os demais da turma, assim sendo o professor estará cada
Firmo parabéns à vocês, que abraçam dia a dia esta vez mais incentivando os alunos na aquisição da cultura
luta para se ter mais possibilidades na escola sem pegar literária.
esta doença que é a indiferença com o nossas crianças
e adolescentes. Nossas autoridades competentes só tem
olhar para criticidade e não para o avanço positivo das
tecnologias em apreço, minha ansiedade é por isto também.

Agora iremos tratar de um assunto que também


me aflige, que é o uso do livro. É certo que a leitura é
um significativo recurso na construção do conhecimento,
porém ainda notamos que é baixa a porcentagem de
alunos que se interessam em visitar a biblioteca da escola
ou reservar um momento para leitura.

322 323
O XO na Percepção de Pais e Alunos Os questionamentos para os pais giram em torno
da utilização do laptop em casa, a percepção de impactos
Maria Cecília Martins e Maria Cecília Calani Baranauskas do uso de tecnologia pela criança, mais especificamente
em relação à aprendizagem ou à motivação para aprender.
Para envolver pais no registro de histórias do Projeto, A nuvem de palavras, a seguir, mostra as palavras
algumas entrevistas foram realizadas na tentativa de colher mais recorrentes coletadas das respostas nos post-its,
a percepção deles sobre a participação de seus filhos em representadas relativamente umas às outras, pelo seu
atividades encaminhadas na escola. Quando a ideia deste tamanho na nuvem.
livro foi lançada em uma oficina, os participantes foram
envolvidos no processo de especificar: Que perguntas você
gostaria de ver respondida pelos pais? O que eu gostaria de
perguntar para um pai sobre a experiência que está sendo
vivida com o uso dos laptops na escola? No caso de algum
participante ser pai de algum aluno, que pergunta gostaria
de responder sobre o projeto?

A seguir os tópicos apresentados pelos participantes


da oficina, para nortear diálogos com os pais, extraídos do
quadro de post-its utilizado na dinâmica da oficina.

PAIS
O XO na minha casa - relato de
experiências de pais
Perguntar sobre o que eles esperam
do projeto
O que você notou, se notou
diferença no aprendizado do aluno
Relato da mãe voluntária no uso do
XO - 1o ano 2011 / 2o ano 2012 A partir destas referências, na Festa Junina da
Relato dos pais quanto à utilização do laptop pelos filhos escola, ocorrida em julho de 2012, pôde-se conversar
A contribuição do XO na aprendizagem dos alunos.
com aproximadamente 15 pais, viabilizando assim a
Como a informática pode aproximar pais e escola?
Como foi a interação dos pais com uso do XO em casa coleta de algumas visões da família sobre o Projeto e
O XO tem contribuído no aprendizado do seu filho? sobre a participação das crianças em atividades com o
Caderno de recados digital. Lição de casa no XO. Vanessa e
Tânia 3o ano.
laptop educacional. A figura a seguir ilustra alguns desses
Questões sobre impactos na aprendizagem significativa e momentos.
motivação para aprender
Depoimentos de quando levaram o XO para casa

324 325
O relato a seguir evidencia opiniões de uma mãe cujo
filho teve oportunidade de levar o laptop para casa e realizar
atividade com a família:

Nome: Lucinéia do Amaral Gilberto Silva / Mãe do aluno Paulo Miguel da Silva da professora
Lúbia 4ºA

O que você acha de seu filho ter acesso ao laptop na escola?

"Acho muito interessante, porque é uma forma deles estarem trabalhando com a mente e terem
Festa Junina: uso do laptop e diálogo com pais e alunos bastante conhecimentos também. Então acho isso muito interessante, para eles estarem
desenvolvendo na vida deles mais para frente."

Nos diálogos estabelecidos nesta ocasião, alguns pais "Meu filho acha muito bom e eu acho que desenvolve a mentalidade das crianças. Bom também
para eles estarem buscando novos conhecimentos através da internet. Então esse XO vai ser um
comentaram que gostavam do Projeto e outros afirmaram trabalho muito interessante para as escolas, porque é dificil as crianças, hoje em dia, ter um
não conhecer este trabalho realizado na escola. Alguns pais trabalho com a internet como tem aqui na escola."

afirmaram que o filho já havia levado o laptop para casa.


Você acompanhou a atividade que ele fez com o XO em casa?
Alguns afirmaram que seus filhos estudavam mais com o
XO. Destacaram que gostariam que seus filhos levassem "Acompanhei. Foi gostosa. Era para trabalhar coisas que ele mais gostava. Então ele foi atrás, foi
pesquisar, tiramos fotos com a família reunida. Então foi muito interessante mesmo. Foi muito
mais vezes o equipamento para casa. Alguns pais revelam bom....Acho que aproxima bastante. É o momento de reunir a família pra ajudar ele com os
também que não utilizaram o laptop quando o filho levou trabalhos e a pesquisar na internet... então tem que ter bastante conhecimento também".

o equipamento para casa.

Em relação ao uso do equipamento em casa, uma Em outro diálogo estabelecido em conjunto, mãe e
das mães (Geiza Fernandes Ferraz, filha: Tailani, 9 anos) filha revelam suas percepções sobre a utilização do laptop
revela que não permitiu que a filha levasse o XO para casa na escola. Neste relato, a aluna tem uma clara percepção
porque “tem muitas crianças” e também porque sua filha da atividade proposta pela professora (“trabalho sobre
“vai para outra instituição depois das aulas”. Revela também a história da nossa vida; A gente tinha que tirar foto das
que tem uma sobrinha que já utilizou o laptop em casa: nossas famílias e escrever o nome delas, desde quando a
“A minha sobrinha, que levou uma vez só, comentou que gente mora ali."). A aluna destaca o processo de produção
poderia levar mais vezes, mas a minha menina não chegou do texto (escrita, leitura, ajustes) e etapa de socialização
a levar.” Esta mãe destaca que as crianças (filha e sobrinha) do trabalho produzido (impressão e apresentação no dia
brincam e comentam sobre o XO entre elas em casa. Revela dos pais). Quanto à sua opinião sobre as possibilidades de
também que sua filha gosta muito do Projeto e que em uso do equipamento, destaca a disponibilidade de poder
conversa a criança disse que usa o XO na sala de aula em acessar o computador e os trabalhos que realiza em lugares
grupo. Quando indagada, enquanto mãe, o que acha do diferenciados (sala de aula, casa). No diálogo estabelecido,
uso da tecnologia pelos alunos e se acredita que isso os a mãe destaca que pode acompanhar o trabalho realizado
mobiliza para aprender mais coisas, ela afirma: “Bem mais!” pela filha em casa e considera que há motivação e incentivo
da criança pelo estudo.

326 327
Mãe e Funcionária

O relato a seguir destaca a percepção de uma mãe


Nome: Zuleide D. Falda Bonine, Mãe de Juliane, aluna da prof.ª Lubia no 5ºA e também e funcionária da escola, sobre o envolvimento de sua
no ano anterior (4º ano). filha em relação ao uso do laptop na escola e em casa.
Ela considera que foi uma oportunidade de inclusão
O que vocês fazem com o laptop na escola?
Juliane - "A gente escreve texto, e depois a professora lê o texto, corrige e imprime as tecnológica iniciada na escola e continuada em casa com
vezes. A gente fez um trabalho sobre a história da nossa vida e ela imprimiu e apresentou a aquisição de computador pela família. Também foi um
no dia dos pais." contexto significativo para desenvolvimento da criança,
O que você acha do XO?
interação e compartilhamento de conhecimentos com os
Juliane - "Eu acho o XO bem legal porque, assim, a gente pode ter um computador que é pais.
emprestado pra gente sem ir para sala de computadores, a gente pode levar pra casa,
fazer os trabalhos e vai ficar o relatório ali."
Neusa Pereira dos Santos, cozinheira da escola e mãe de aluna:

Você já levou o XO pra casa? “Desde o início minha filha me disse “Mamãe você tem que aprender. Mamãe é legal”.
Juliane - "Já, só uma vez". Eu fui vendo também que ela se desenvolveu. No início ela não sabia nem ligar, agora
ela já sabe mexer no computador. O dia que minha filha levou o XO para casa ficou bem
Foi quanto tempo, um fim de semana?
Juliane - "Foi um fim de semama." interessada, focada. Ela mostrou para mim, para o pai dela como usar o XO. Antes a
gente não tinha computador em casa. Então o primeiro acesso da minha filha com
Levou para casa pra fazer o que?
computador foi com o XO na escola. Hoje como ela já mexeu no XO, sabe como liga e
Juliane - "A gente tinha que tirar foto das nossas famílias e escrever o nome delas, desde
quando a gente mora ali." desliga o nosso computador em casa. Então eu achei que foi uma coisa boa para a
cabecinha dela. Eu gostei muito do projeto, para minha filha achei ótimo.”
Você acompanhou isso, o que achou? [pergunta pra mãe]
Zuleide - "Acompanhei. Eu gostei porque eles ficam bastante motivados, para estar
estudando é um incentivo né. Gostei." Esta mãe e funcionária também compartilha sua
Achou legal essa ideia deles levarem o laptop para casa? percepção sobre o cotidiano da escola e destaca um contexto
Zuleide - "Sim, muito bom, gostei muito. Como trabalho com transporte escolar, percebi em que poderiam ser oferecidas outras oportunidades
que todos ficaram muito contentes. Eles não viam a hora de chegar o dia de levar pra
de uso do laptop pelos alunos: “O que eu gostaria que
casa. Foi muito legal."
acontecesse na escola futuramente é que o aluno tivesse
Você acha que tem alguma coisa que você gostaria de fazer a mais? opções de usar o XO quanto estivesse em aula vaga. Assim,
Juliane - "Gostaria de fazer trabalhos, tinha que ter mais trabalhos pra gente usar, pra
gente mexer, pra saber mais sobre o XO."
poderia reservar um cantinho na escola para que, os alunos
que quisessem, pudessem usar os equipamentos.”
Zuleide - "Você acha que usa pouco?"
Juliane - "Acho que usa pouco." Já em outro relato de uma mãe-funiconárioa, Aline C.
Deviria estar usando mais?
Nardi, secretária da escola, comenta uma vivência que teve
Juliane - "Isso." com seu filho no ano anterior, quando ele tinha 6 anos.
Aline tirou foto do filho em casa escrevendo historinhas
no XO e postou imagens e seus comentários no Blog da
escola1 , ilustrado a seguir:
1
http://miotticps.blogspot.com.br

328 329
há desafios a serem vencidos, pois o cotidiano da escola
Trechos do texto extraídos do Blog
às vezes dificulta a implementação de ideias que requerem
O X-O na minha casa: relato de uma mãe tempo, planejamento, ajustes.
Por Aline Cristiane Nardi
Ex-aluno
....Nesta sexta-feira, dia 05/08, o X-O
veio pela primeira vez para minha casa,
pelas mãos do meu filho Leonardo, O relato a seguir é de um ex-aluno que, ao participar
aluno do 1º ano. Seu formato pequeno da Festa Junina, falou sobre sua vivência com o XO na
e sua leveza são impressionantes, ele é
extremamente prático e tem uma alça escola, no início do Projeto. No seu relato ficam evidentes
para facilitar o transporte. As cores e suas lembranças sobre aprendizagens promovidas na
o tamanho confundem um desavisado:
parece um brinquedo. O Léo se divertiu
escola, percepções sobre atividades realizadas em sala de
com os jogos, ele tem vários. Em casa não aula (fábulas, jogos, cálculos) e ainda seu envolvimento
tem como acessar a rede wifi da escola, moramos há 8 km de distância,
com o contexto e mobilização para auxiliar os colegas no
mas se estivéssemos mais perto poderíamos ter acessado a interrnet.
Certamente seus outros colegas de classe conseguiram. A experiência foi uso de determinados aplicativos.
muito rica e como mãe fiquei feliz de ver que meu filho está aprendendo
e se divertindo ao mesmo tempo. Creio que essa foi uma das melhores
iniciativas para uma escola pública: prover a possibilidade de acesso à
tecnologia e uma educação de maior qualidade.
....
E você: o que acha desta experiência? Dê seu relato também. Mande-
nnos um email: emef_pem@yahoo.com.br
....

Em seu relato, durante a entrevista, essa mãe destaca


que achou interessante o envolvimento do filho na lição de
casa proposta pela professora, que envolvia a elaboração
de uma história. Foi uma atividade que manteve a criança
focada por um bom tempo. A mãe considera que estar focado
e envolvido na atividade viabiliza melhora na aprendizagem
da criança. O jogo labirinto também possibilitou um bom
tempo de integração entre a família (mãe, filho, filha).
Aline evidencia que a era digital é a era das crianças hoje
e, portanto, considera ser de grande importância agregar
as novas tecnologias à educação. Tendo a ferramenta à
disposição, uma infinidade de coisas pode ser realizada.
Aline destaca que um incremento nas atividades dos alunos
poderia ser a escrita no Blog da escola, que existe há 8 anos,
promovendo assim uma maior interação entre eles além do
fomento à leitura e à escrita. Esta mãe comenta ainda que

330 331
Embora esta seja uma pequena amostra da
percepção de pais para a presença do XO no cotidiano de
seus filhos na escola e fora dela, é interessante notar a PROJETO XO:
contemporaneidade na postura desses pais em relação à O OLHAR DOS ALUNOS
presença de tecnologia, no caso, instanciada com o XO.
Ao contrário de uma postura conservadora e formal, como
talvez alguns pudessem imaginar, uma vez que estamos Rosangela de Assis
falando da instituição Escola, há um claro reconhecimento
da importância da tecnologia na vida de suas crianças
e o fato desse processo ser iniciado na escola parece Alunos da Escola EMEF Pe Emílio Miotti participam do Projeto
absolutamente natural. X.O. (um computador por aluno) e experimentam estudar
com auxílio do laptop. O que eles pensam a respeito? O que
tem a dizer?

Para encontrar estas respostas, procuramos


conversar com os alunos, investigar suas opiniões. Fizemos
uma proposta para os alunos dos ciclos I e II (1º ao 5º
ano) que consistia no seguinte: cada aluno das três classes
pesquisadas, por escolha aleatória escolhia dizer sobre o
Projeto X.O.: o que gosta muito, o que não gosta ou o que
devia ser melhorado; conforme lustrações a seguir.

Com os alunos dos ciclos III e IV (6º a 9º anos), foi


proposto que respondessem a três questões mais abertas:
escrever duas palavras que mais representam o Projeto, o
que consideram mais importante no Projeto e sua opinião
geral sobre ele, conforme ilustrado a seguir.

332 333
Todos os alunos foram orientados sobre o motivo do
questionamento (registro de suas opiniões em um livro);
participar ou não era opcional e não havia necessidade de Os destaques do que não gostam foi para a lentidão
colocar nome, apenas a classe. Praticamente todos quiseram do equipamento, o travamento constante; o fato de não
responder. Dentre os alunos mais velhos - 9ºs anos – alguns ter mouse e nem entrada para Internet com fio, como
não quiseram opinar. Em uma classe, o número de alunos ilustrado a seguir. Os alunos do 2º ano disseram ainda que
que não opinaram foi em torno de 35%. Como a ideia não não gostam de usar o laptop em duplas.
era obrigá-los, não fizemos maiores investigações sobre o
motivo de não quererem emitir sua opinião, mas entendemos
que também esta postura representa uma opinião, que
no momento ainda não sabemos: não estavam a fim de
escrever? Não gostaram do projeto? Não acreditavam que
suas opiniões fossem realmente consideradas? Protestavam
contra alguma situação ou acontecimento na escola?; É Quanto às sugestões para melhorar foram coerentes
possível que mais adiante investiguemos um pouco essa com o que avaliaram negativamente, como ilustrado a
postura deles. No momento, vamos falar das respostas dos seguir. Ou seja: ter mouse, ter entrada para internet sem
alunos que escolheram dizer alguma coisa sobre o Projeto. fio, melhorar a velocidade tanto da máquina quanto da
internet, fazer com que não fique travando com frequência
Os alunos dos anos iniciais do Ensino Fundamental se e o maior destaque foi a questão de levar o laptop para
manifestaram mais entusiasmados com o trabalho usando casa. Os alunos querem poder usar o equipamento em casa
o laptop do que os alunos dos anos finais. Eles destacaram para lições de casa, pesquisa e os aplicativos que a máquina
principalmente o uso do X.O. em atividades de jogos, fotos e possui.
filmagem. Acharam que é bem legal trabalhar com o laptop
e que ajuda na aprendizagem, melhora a criatividade, ajuda
a produzir textos. As figuras a seguir ilustram algumas
dessas respostas.

334 335
Quanto aos alunos dos anos finais, as palavras mais
usadas para representar o projeto estão apresentadas no
“tag cloud” a seguir, considerando o tamanho da palavra
proporcional à quantidade de vezes que foi mencionada.

Ilustrações dessas percepções dos alunos.

Ao responderem a questão que solicitava opinião


geral sobre o Projeto, os alunos destacaram, de forma
bastante recorrente, a dificuldade com a falta do mouse,
o travamento constante e a lentidão do equipamento
e da internet que faz perder muito tempo. Ainda assim,
consideram que a proposta de cada aluno ter um laptop
para usar em seus estudos é boa, porque possibilita
o aprendizado de uma forma diferente, divertida e
Quanto ao que os alunos consideram mais importante interessante; percebem que ajudou alunos que não faziam
no Projeto, destacamos o seguinte: é um projeto novo seus trabalhos por não ter acesso à internet, a fazê-los
e muito interessante, pois através dele a gente fica mais agora; melhorou o interesse nas aulas, que ficaram mais
ligado nas pesquisas e podemos passar conhecimento para dinâmicas e também tem aplicativos de divertimento; é
outras pessoas; facilita a aprendizagem e ajuda a aprender uma ótima ferramenta auxiliar de estudo, possibilita ver
mais facilmente; os aplicativos são muito, legais, ajuda a imagens e pesquisas rápidas sobre o assunto estudado;
quem não gosta de estudar a se interessar mais pelo estudo une estudo e tecnologia. Houve ainda observações sobre
e também aqueles que tem mais dificuldade; é muito poder levar mais vezes o laptop para casa e a sugestão de
importante na aprendizagem, pois é prático, moderno, ajuda que sejam usados programas mais conhecidos, como os do
a entender as coisas mais claramente; facilita muito para sistema Windows.
fazer as lições e os trabalhos na hora; o fato de ter acesso
à internet melhora muito pois possibilita fazer pesquisas e Para finalizar, gostaria de destacar a seriedade com
melhorar o aprendizado de forma mais livre e acessando que os alunos participam do Projeto. A avaliação que fizeram
várias informações; estudar usando uma coisa que gostam: nos aponta que a escola não pode mais ficar à margem da
a internet, mesmo que seja lenta; faz economizar mais tecnologia. Com certeza, a escola será mesmo outra depois
tempo e assim aprender mais e aproveitar melhor as aulas. desta experiência. Os desafios
Eles destacaram ainda o empenho dos pesquisadores a serem enfrentados nos
na tentativa de melhorar o laptop, o fato de usar menos impelem a criar alternativas que
livros, menos cadernos e assim poupar árvores no planeta possam resultar em melhoria
no dia a dia e que com o X.O. tanto as aulas quanto as da qualidade da educação para
pesquisas ficaram mais legais. todos.

336 337
O exercício de subir e descer a escada Objetos materiais, assim como a linguagem, são
próprios da cultura e estão presentes em todas as suas áreas
semiótica: considerações finais (instrumentos medem o tempo, o espaço, certos objetos
são usados na diversão, no aprendizado, etc.). O XO é o
M. Cecília C. Baranauskas, M. Cecília Martins e Rosangela objeto para se pensar sobre e com neste projeto. Como
de Assis então entender a cultura subjacente a um projeto como o
que tratamos aqui? Como potencializar as transformações
desejadas?
XO na Escola: Construção Compartilhada de Conhecimento -
Lições Aprendidas. No Projeto relatado neste livro, a Escola Transformações se revelam também no espaço físico,
é vista como um espaço de saberes em transformação; o na forma como professores e alunos ocupam a sala, na
conhecimento é construído junto – a tecnologia serve de forma como as carteiras são organizadas para atividades
elemento catalisador das transformações. com o XO: (algumas vezes a carteira desaparece), o XO está
no colo do aluno; algumas vezes a sala de aula não tem
Transformações e elementos da cultura mais as paredes: o aluno está no pátio da Escola, na quadra
de esportes, em diálogo direto com o conhecimento, via
Transformações se revelam na interação entre as o XO. No espaço de saberes: o saber faz sentido para o
partes, na medida em que um novo objeto media esse aluno no momento de vida dele; o saber que a tecnologia
processo de construir e compartilhar saberes: o do professor evoca e disponibiliza no mundo contemporâneo; o saber
em sua autoridade; o do aluno, mais ágil no domínio desse que o professor tenta resignificar e refletir nesse mundo,
objeto da tecnologia; o de outras partes, que se juntam já diferente daquele em que aprendeu de seus mestres, e
a estes como em uma mistura química. A fala, o tom de seus mestres de seus mestres.
voz, o gesto e a escrita são formas especiais de interação
que usam conjuntos particulares de símbolos. A eles Espaço também é entendido como território, e
acrescentam-se os produtos da tecnologia, com os quais o territorialidade é um termo técnico utilizado por etólogos 2
aluno cria suas produções, mostra resultados da construção para descrever a posse, uso e defesa de um território por
de significados para o saber, como quando utiliza o Scratch parte de organismos vivos (ex. os pássaros tem territórios
para reconstruir a “Aventura dos Bandeirantes”. Espaço onde se alimentam e constroem seus ninhos). As pessoas
e tempo são dimensões nas quais a interação acontece, usam o espaço para todas as atividades nas quais se
assim como o ensino, o aprendizado, a diversão e a defesa engajam, nele estabelecem suas fronteiras e as defendem.
também representam formas especializadas de interação. O equilíbrio no uso do espaço é um dos mais delicados
Tudo o que as pessoas fazem envolve interação com algo no ecossistema. O espaço (ou territorialidade) mistura-
ou alguém de alguma forma, ela está no centro do universo se a outros elementos da cultura de maneira sutil. Essa
da cultura1 . territorialidade também é entendida, metaforicamente,
2
etologia 1 Estudo da formação do caráter do homem. 2 Biol Parte da ecologia
que trata dos hábitos dos animais e da acomodação dos seres vivos às condições
1
Hall, E. T. The Silent Language, Anchor Books Editions 1973, 1990, NY do ambiente. 3 Estudo dos costumes sociais humanos. (Dic. Michaelis)

338 339
quando mencionamos o espaço da Escola, o espaço do lúdicos e os jogos propriamente ditos. As partes 2 e 3 deste
aluno, o espaço do professor no sentido dos padrões de livro são repletas de exemplos positivos do uso do XO com
comportamento desses grupos sociais. A tecnologia (o jogos de várias naturezas, desde aqueles nativos da máquina
XO como instância dela) mexe com essa territorialidade até aqueles que as próprias crianças constroem com o XO.
na medida em que pode ameaçar as fronteiras desses Os textos dos professores, especilamente, são exemplos
territórios com seu potencial transformador. da forma como estes lidam com sua intencionalidade de
ensinar e como fazem sentido do uso de jogos em sua
Nos estudos da cultura, o tempo, ou a temporalidade, prática escolar.
é diretamente associado aos ciclos e ritmos da vida e da
natureza (como a respiração, os dias e noites por exemplo). No estudo da cultura, os etólogos têm examinado
No objeto de nosso estudo, os tempos do Projeto, os tempos os mecanismos de defesa dos organismos vivos, (ex. seus
do processo de conhecer a tecnologia, de apropriar-se dela aspectos de dieta, mudanças de cores para sobrevivência,
também devem ser respeitados. Os diferentes capítulos da etc.). Os seres humanos também elaboraram mecanismos
Parte 3 do livro mostram diferentes tempos dos professores sofisticados de defesa, não apenas no que se refere à
no processo de inclusão do XO no seu cotidiano e de seus proteção contra as forças hostis da natureza, mas também
alunos. dentro da própria organização da sociedade, propondo
normas para a defesa de seu espaço, por exemplo. Um
Ensino e aprendizado tem um papel central como
projeto, como o que estamos descrevendo, também revela
agentes da cultura: diferentes culturas aprendem a
suas fragilidades porque depende da quebra de fronteiras,
aprender de formas diferentes. O fato de tantas crianças
por exemplo, entre o que sabe mais e o que sabe menos da
não gostarem da escola ou terminarem seu período escolar
tecnologia; entre aquele que detêm o poder de viabilizar a
com deficiências, sugere que há muito a aprender ainda
infraestrutura tecnológica necessária, por força da norma
sobre aprendizado como processo. Não deveria o tempo
estabelecida, e aquele que depende desta. No estudo da
de escola ser prazeroso para a criança, em vez de doloroso
cultura, subsistência é de certa forma relacionada à defesa
e difícil? Não estaria o problema na falta de sintonia da
e inclui desde hábitos alimentares individuais à economia
escola com seu tempo, com as demais partes e os demais
de um país ou sociedade. Em relação a um projeto, como
elementos da cultura? Nos capítulos deste livro, há várias
o que tratamos, a subsistência do projeto (a inclusão
ilustrações de cenários desejáveis e possíveis para essa
de tecnologia na escola) depende das muitas partes
transformação. Certamente a escola não é o único agente
interessadas, que influenciam e/ou sofrem a influência
responsável pela educação, assim como ilustramos neste
deste, de suas forças de informação e de ação.
projeto são várias as partes interessadas: pais, comunidade
escolar, governo, etc.
Associação é estudada na cultura, como forma
Embora o aprendizado e o jogo estejam intimamente básica de interação social, que leva a agrupamentos
relacionados, do ponto de vista antropológico, a diversão humanos, organizações sociais. A Escola é uma dessas
não tem sido bem compreendida nos processos educacionais. organizações, com seus grupos de gestores, professores,
A tecnologia computacional tem resgatado os ambientes alunos, etc. Agrupamentos dos alunos nas escolas são de

340 341
várias naturezas: por gênero (meninos e meninas), por endereçam partes interessadas específicas.
idade, por competência (2º. Ano, 5º. Ano), por disciplina
(matemática, ciências, geografia, etc.). Ainda que os grupos Na plataforma tecnológica (ver Figura 3 cap. 1 parte
continuem existindo, um projeto, como o que relatamos 1), o 1º. Degrau - o mundo físico, refere-se à infraestrutura na
leva a transformações em tais agrupamentos como já escola necessária para viabilizar o uso da tecnologia. Essa
revelam algumas atividades relatadas na parte 2 do livro, infraestrutura envolve questões relacionadas ao espaço
como as ocorridas nas Olimpíadas das Cores, por exemplo. físico como ele é organizado e protegido para as ações
do Projeto, envolvendo desde se as salas de aula possuem
Essas transformações no espaço do aprender o número adequado de tomadas para carregamento das
e do ensinar, motivadas pela tecnologia no mundo máquinas, até sua infraestrutura de rede de computadores e
contemporâneo, talvez se aproximem um pouco do sonho Internet. O 2º. Degrau – o empírico, é relativo às condições
de Papert 3 de enxergar a escola do futuro como um necessárias para que a informação circule na infraestrutura
espaço de saberes, onde a criança encontre outras pessoas do mundo físico alcançando seu objetivo; por exemplo,
para aprender, sem ser segregada por gênero, idade ou quando falamos da largura de banda necessária para o
competência; onde o objetivo dos educadores é procurar uso adequado da Internet (em tempo adequado, sem
novas maneiras de lidar com as crianças e de se relacionar intercorrências e intermitências), ou do alcance da rede sem
dentro do triângulo: adulto, criança, saber. fio no espaço geográfico da escola (se ela alcança o pátio, a
quadra de esportes, por exemplo), estamos nos referindo a
Entender e potencializar essas transformações nos questões da ordem do empírico. O 3º. Degrau – o sintático,
vários níveis da cultura continua sendo um desafio para o completa a infraestrutura necessária para realização de
qual lançamos mão, neste Projeto, da Escada Semiótica (ver projetos dessa natureza e envolve a composição de forma
cap. 1 Parte 1). lógica dos elementos da infraestrutura; por exemplo,
quando nos referimos à configuração de servidores para
Revisitando a Escada Semiótica o armazenamento dos trabalhos dos alunos e professores,
ou à preparação de software ou configuração de aplicativos
Para entender os resultados do Projeto, precisamos
de software para uso no contexto do Projeto, estamos nos
situá-lo nos seis degraus da Escada Semiótica, dos quais os
referindo a esse terceiro degrau.
três degraus inferiores (mundo físico, empírico e sintático)
podem ser vistos como a plataforma tecnológica necessária Certamente esses três degraus da base da escada
ao funcionamento do proposto no Projeto, enquanto dependem fortemente da interação da escola com o
que os três degraus superiores (semântico, pragmático e governo e seus representantes no Projeto (secretaria de
mundo social) são relativos a funções do sistema humano educação, assessorias para assuntos de informática, etc.),
de informação. Em diferentes momentos, elementos de que tem o poder, a competência e responsabilidade
cada um dos degraus se mostram necessários à solução necessários para viabilizar essa plataforma tecnológica na
sistêmica para o problema da inclusão do XO na escola e escola. Nessa interação, os outros elementos da cultura se
3
Seymour Papert em “O Futuro da Escola:Paulo Freire & Papert” http:// fazem presentes: a questão do espaço, tempo, defesa, etc.
ticparaensinodeciencias.webnode.com.br/news/paulo-freire-seymour-papert/

342 343
Nos três degraus relativos ao sistema humano de em rede (empírico), configuração (sintático), possibilidades
informação (ver Figura 3 cap. 1 parte 1), o semântico diz de uso pelos professores e alunos (semântico) para, por
respeito aos significados construídos pelas partes (ao longo exemplo, armazenar os trabalhos da classe (pragmático)
do Projeto). Nele todas as ações do Projeto se refletem, por e não ser uma sobrecarga de trabalho no momento de
exemplo: quando a equipe de pesquisadores prepara uma recuperar e gerenciar a informação (mundo social).
ação de formação contextualizada, quando o professor
desenvolve material para a aula sobre células com o XO, A metáfora da escada serve para entendermos que
ou a professora de matemática leva os alunos a fazerem os resultados de um projeto, da natureza do que tratamos
sentido da informação na conta de luz da sua casa, etc.. No neste livro, dependem de um exercício de subir e descer os
degrau da pragmática está a intenção subjacente à ação, degraus da escada, quanto mais sólidos e ajustados ao passo
as maneiras como ocorrem comunicações, conversações e dimensões das pernas, menos esforço será necessário e
e negociação entre as partes, por exemplo, quando um mais benefício se poderá alcançar do exercício.
grupo de professores de áreas diferentes define um cenário
comum para uma prática com o XO, para a qual cada um tem Nossos agradecimentos a todos que acreditaram e
a sua intenção específica. Por fim, no degrau do mundo colocaram sua energia e motivação nesse Projeto.
social estão as influências que as crenças, expectativas,
compromissos, contratos, leis, cultura, exercem nas
ações dos participantes, e é nesse degrau que os efeitos
ou consequência das ações aparecem, por exemplo: a
distribuição e a decisão da escola sobre levar ou não o XO
para casa têm implicações sociais relativas a todos esses
elementos.

Processos de comunicação acontecem nos vários


níveis: no mundo físico (comunicação no sentido da
informação que circula pela rede física de cabos e
equipamentos) até no mundo social (comunicação no sentido
dos significados da informação, intencionalidade de quem
comunica e efeitos). Quando nos referimos à aquisição de
um servidor (computador) para viabilizar o armazenamento
e recuperação dos trabalhos dos alunos e professores, estão
envolvidos desde o processo de aquisição do equipamento
per se até a sua instalação, configuração e uso; todos os
degraus são necessários às ações de partes interessadas
diferentes. A presença da máquina (mundo físico) faz parte
da plataforma tecnológica, mas depende de sua instalação

344 345
Posfácio e implantação de laptops em contextos escolares, uma
vez que está sendo desenvolvido a partir da análise
José Armando Valente de contexto e prospecção de soluções construídas
com as partes interessadas – alunos, profissionais da
educação e comunidade”.
Tenho a honra de ser convidado para fazer o Posfácio
deste livro. Porém, o que é o posfácio? De acordo com O desenvolvimento do Projeto foi fundamentado
o Wikisource (2012) é importante que o posfácio de um na teoria da semiótica organizacional, que deu origem
trabalho acadêmico “retome o que estava prometido na à concepção das Oficinas Semio-participativas, onde
introdução, demonstrando que a pesquisa conseguiu atingir representantes das partes envolvidas no Projeto, como os
os objetivos propostos, apesar das dificuldades encontradas. pesquisadores e representantes dos usuários, quer sejam
Pode ainda sugerir que outros assuntos relacionados com alunos, professores, pais etc., se reúnem para compartilhar
o tema desenvolvido são passíveis de serem retomados em experiências e construir uma compreensão socialmente
trabalhos posteriores”. Assim, seguindo essa sugestão, este compartilhada sobre a apropriação tecnológica, em um
posfácio está dividido em duas partes: uma reflexão sobre processo de co-design.
o livro e a indicação de alguns temas para serem retomados
em trabalhos futuros. Neste sentido, o Projeto atingiu seus objetivos, já que
envolveu pesquisadores de várias unidades da UNICAMP e
Reflexão sobre o livro de outros órgãos externos, como a Secretaria de Educação
da Prefeitura Municipal de Campinas. No âmbito da escola,
De acordo com a “Apresentação”, que consta nas envolveu os gestores, professores, funcionários, alunos e
páginas 6 a 12, o objetivo do livro é apresentar “alguns dos pais, como pode ser atestado pela descrição dos capítulos
resultados obtidos no Projeto "XO na Escola e Fora Dela: uma da Parte 1 deste livro.
proposta semio-participativa para tecnologia, educação
e sociedade"”, ou Projeto “XO-UNICAMP”, como ficou O livro é constituído por capítulos cujos autores são
conhecido. Este Projeto está sendo financiado pelo CNPq, exatamente os representantes de cada um destes grupos
desenvolvido na Escola Municipal de Ensino Fundamental que participaram do Projeto. Na Parte 1, os coordenadores
Padre Emílio Miotti em Campinas, por pesquisadores do do projeto, bem como diretora e orientadora pedagógica da
Núcleo de Informática Aplicada à Educação (NIED), sob a escola apresentam as concepções do Projeto, a metodologia
coordenação da professora Maria Cecília Calani Baranauskas. adotada na perspectiva da gestão do Projeto e da escola.
Como mencionado na “Apresentação”, o Projeto tem como Na Parte 2, pesquisadores da UNICAMP e professores da
objetivo: escola, descrevem a articulação entre temas de pesquisa e
o cotidiano da escola. Na Parte 3, os professores descrevem
“constituir um modelo compartilhado de inclusão as experiências vividas em suas respectivas disciplinas.
de laptops na escola pública como alternativa ao E finalmente, na Parte 4, são apresentadas as visões dos
realizado em Programas Governamentais de formação funcionários, dos pais e dos alunos.

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Assim, é possível concluir que o livro, sem sombra de O aspecto teórico diz respeito ao fato de o modelo
dúvida, atinge os objetivos que foram propostos. Semio-participativo ter sido desenvolvido e aplicado em
outras situações, como o desenvolvimento de software
Porém, existem dois outros fatores que são e de redes sociais inclusivas (Baranauskas, no prelo). O
bastante interessantes para reforçar a afirmação do último Projeto “XO-UNICAMP” está utilizando este modelo como
parágrafo. Primeiro, o fato de o livro estar organizado parte da metodologia para a implantação de tecnologias
pelos três responsáveis mais diretos no desenvolvimento móveis em uma escola pública. Pelos resultados parciais
do Projeto. A coordenadora e a coordenadora adjunta do conseguidos até o presente momento, é possível concluir
NIED, e a diretora da escola. Portanto, não é um livro cuja que este modelo é promissor e pode ser usado em situações
responsabilidade está centrada somente na academia, mas semelhantes às encontradas na EMEF Padre Emílio Miotti.
tem a organização compartilhada entre as duas entidades No entanto, o Projeto ainda está em andamento e existem
parceiras no Projeto: a universidade e a escola. outros fatores que precisam ser considerados no sentido
de poder comprovar a eficiência deste modelo. Este tema
O segundo fator está relacionado com a própria será discutido no próximo tópico.
dinâmica como o livro foi produzido. De acordo com
a “Apresentação” o livro foi desenvolvido usando a Os fatores de ordem prática estão relacionados
metodologia das Oficinas Semio-participativas, que foram com os diferentes modelos que estão sendo utilizados
realizadas na escola envolvendo os vários personagens que para a implantação de laptops educacionais. Um modelo
participaram do Projeto. Portanto, existe uma coerência mais descentralizado tem sido proposto pela One Laptop
metodológica entre o desenvolvimento do Projeto e a per Child Foundation – OLPC; outro considerado mais
maneira como o livro foi produzido. centralizado tem sido usado no Projeto Um Computador
por Aluno – Projeto UCA.
Assim, uma vez o livro posto, qual é a sua
importância no cenário acadêmico? Esta importância está A missão da OLPC é empoderar, por meio da
fundamentalmente relacionada com a relevância do Projeto educação, as crianças mais pobres do mundo (OLPC, 2012).
“XO-UNICAMP”. A estratégia de implantação dos laptops XO tem como foco
a educação, porém está centrada na criança. Nesse sentido,
O Projeto tem relevância, principalmente, no contexto o modelo é descentralizado do sistema educacional formal.
da atual preocupação de órgãos públicos e entidades O esforço está concentrado em prover o acesso à tecnologia
privadas interessadas na implantação de tecnologias de modo que as crianças possam estar engajadas em sua
móveis nas escolas. Esta relevância pode ser caracterizada própria educação, possam estar conectadas entre si, com
como de cunho mais teórico, relativo ao modelo Semio- o mundo e, assim, aprender, trocar e criar juntas. Este
participativo, e de cunho prático, relacionado com os modelo tem norteado a implantação dos laptops XO em
modelos de implantação dos laptops em escolas públicas praticamente todos os sistemas educacionais, em diferentes
que estão sendo adotados. países, como Uruguai e Peru.

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O Uruguai iniciou, em 2007, a implantação de laptops projeto foi realizada com base em referenciais teóricos
educacionais XO em todas as escolas do interior e, em e princípios que foram explicitados em um documento
2009, completou com as escolas da capital, Montevidéu, (Princípios, 2007). Além disso, com bases nestes Princípios
de modo que todos os alunos do ensino fundamental (2º foram produzidos documentos que nortearam as ações de
ao 9º ano) têm o seu laptop XO (Ceibal, 2012). A ênfase formação (Formação Brasil, 2009) e a avaliação do Projeto
do projeto foi a implantação de infraestrutura digital e (Avaliação UCA, 2008).
acesso a internet em todo o pais, apoio técnico a todas
as escolas, e implantação de um sistema de manutenção No caso da formação, a proposta previa a realização
dos equipamentos via correio, de modo que os alunos não de um curso de 180 horas, distribuído em 5 módulos. Estes
fiquem mais de 5 dias úteis sem o uso dos laptops. Por módulos contemplavam a apropriação tecnológica; o uso
outro lado, a mesma ênfase não foi dada ao processo de de aplicações disponíveis no laptop e na Internet; trabalho
formação dos professores. Inicialmente, ela se restringiu com gestores; elaboração de projetos integrando tecnologia
aos aspectos técnicos e os professores ressentiram a falta ao currículo; a vivência de experiências de uso do laptop
de apoio e de mais informação sobre o uso pedagógico com os alunos na escola, e a partir da vivência de práticas
dos laptops (Severin; Capota, 2011). iniciais de uso dos laptops na escola; e o módulo final da
formação propunha que a escola elaborasse um Projeto de
No Peru, o Programa “Uma Laptop por Niño” (OLPC- Gestão Integrado com Tecnologia (ProGITEC) para o ano
Peru, 2012) consiste na maior implantação de laptops XO no letivo subsequente. Esta formação foi desenvolvida na
mundo, envolvendo mais de 8.300 escolas. O foco também escola, em alguns casos prevendo atividades com alunos, e
é o aluno, embora a preparação inicial dos professores com atividades a distância, via ambiente virtual e-Proinfo.
tenha sido diferente do que aconteceu no Uruguai. Essa
formação foi concentrada em cinco dias, com 8 horas de Certamente a aplicação destes módulos foi ajustada
atividades por dia, cujo conteúdo consistiu basicamente na às condições de cada escola e adequada por cada grupo
forma de utilizar os laptops, fornecendo pouca informação responsável pela formação. Porém, o MEC procurou
sobre os aspectos técnicos e pedagógicos (Severin; Capota, conduzir o processo de implantação do Projeto de forma
2011). centralizada, principalmente a formação, de modo que os
planos originais fossem seguidos na íntegra. A ideia era
No Projeto UCA, sendo implantado no Brasil pelo justamente poder entender os efeitos destes procedimentos
Ministério da Educação em parceria com Universidades e padronizados no contexto de cada escola, considerando as
as secretarias de Educação dos Estados e Municípios que diversidades regionais e as condições específicas de cada
participam do projeto, a estratégia é mais centralizada escola.
na escola, no sistema formal de educação. Trata-se de
um projeto piloto atingindo cerca de 350 escolas em No caso do Projeto XO-UNICAMP, a estratégia de
praticamente todas as regiões do país. Para efeito de implantação é totalmente diferente e consiste em um
avaliação do uso dos laptops nas escolas participantes modelo alternativo aos que estão sendo implantados nestes
e o impacto na educação dos alunos, a implantação do diferentes sistemas educacionais. Não cabe aqui nenhum

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juízo de valores. Ainda estes projetos estão em andamento, sala de aula? Finalmente, no caso do Projeto XO-UNICAMP,
como acontece com o Projeto XO-UNICAMP. À medida será que o modelo usado é capaz de criar condições para
que eles vão se consolidando, pode ser que os diferentes que a escola assuma de maneira autônoma a condução
modelos e estratégias de implantação sejam capazes de do Projeto? Será que a presença dos pesquisadores é
atingir seus objetivos originais. Em todos eles, o propósito é fundamental para a continuidade do Projeto na escola?
prover melhor educação e empoderar as crianças para que
sejam cidadãs preparadas para viver na sociedade digital. Com relação a escalabilidade, de certa forma, tanto
Assim, resta aguardar e verificar o que acontece no futuro. o modelo da OLPC quanto do Projeto UCA, têm embutido
a questão da escala. Eles já foram concebidos pensando
Temas para serem retomados no futuro na implantação dos laptops em sistemas educacionais
que preveem centenas ou milhares de escolas. No caso
Com relação aos projetos mencionados anteriormente do Projeto XO-Unicamp, ele está sendo desenvolvido em
cabe a discussão de alguns temas que ainda não foram uma única escola. A questão é como esse modelo pode
totalmente resolvidos, como a questão da sustentabilidade, ser escalado? Quais são as condições necessárias para que
e da escalabilidade. Estes temas implicam diretamente na esse modelo possa ser aplicado em sistemas educacionais
concepção do Projeto XO-UNICAMP, permitindo verificar prevendo centenas ou milhares de escolas?
a consolidação do modelo Semio-participativo como
estratégia de implantação de tecnologias em sistemas De todo modo, existem diversas questões que
públicos de educação. ainda permanecem abertas e podem ser retomadas para
futuras considerações. Para qualquer um dos modelos, as
Com relação à sustentabilidade todos os modelos de questões a serem resolvidas são pertinentes e bastante
implantação estão no mesmo patamar, prevendo resultados desafiadoras. Certamente ainda temos um longo caminho
promissores do ponto de vista educacional, porém ainda não a ser percorrido e este livro, no contexto do Projeto XO-
totalmente verificados. No caso do modelo descentralizado UNICAMP, pode ser considerado como os primeiros passos
da OLPC, será que as crianças se apropriando dos laptops fundamentais.
serão capazes de criar condições para que professores e
gestores, dos sistemas educacionais formais, se integrem
ao Projeto e estejam também conectados entre sim e com Referências
as crianças, de modo que possam aprender, trocar e criar
em conjunto? No caso de modelos mais centralizados, AVALIAÇÃO UCA Proposta para Avaliação do Projeto UCA.
como o do Projeto UCA, será que as escolas, sem a presença Documento não publicado, 2008.
dos pesquisadores das universidades, conseguirão dar
continuidade aos usos dos laptops? Será que conseguirão BARANAUSKAS, M. C. C. O Modelo Semio-participativo
fazer as transformações pedagógicas necessárias de modo de Design. In BARANAUSKAS, M. C. C, MARTINS, M. C.;
que estas tecnologias possam ser integradas às atividades VALENTE, J. A. Codesign de Redes Sociais Inclusivas, Porto
curriculares e, por conseguinte, criar novas dinâmicas de Alegre: Ed. Grupo a, no prelo.

352 353
CEIBAL Plan Ceibal. Disponível em: <http://www.ceibal.edu. Sobre os Autores
uy/>. Acessado em: outubro de 2012.
Organizadores:
FORMAÇÃO BRASIL Planejamento das Ações / Cursos.
Documento não publicado, 2009. M. Cecília C. Baranauskas
Professora Titular no Instituto de Computação - IC, Coordenadora do Núcleo
de Informática Aplicada à Educação - NIED/UNICAMP e coordenadora do
OLPC Mission. Disponível em: <http://one.laptop.org/
Projeto “XO na Escola e Fora Dela: Uma Proposta Semio-Participativa para
about/mission>. Acessado em: novembro de 2012.
Tecnologia, Educação e Sociedade

OLPC-Peru Programa “Uma Laptop por Niño”. Disponível M. Cecília Martins


em: <http://www.perueduca.edu.pe/olpc/OLPC_Home. Vice-coordenadora e profissional de Pesquisa em Educação do Núcleo de
html>. Acessado em: outubro de 2012. Informática Aplicada à Educação - NIED/UNICAMP

PRINCÍPIOS Orientadores para o uso pedagógico do laptop Rosangela de Assis


na educação escolar. Documento não publicado. 2007. Diretora da EMEF Pe. Emílio Miotti, Campinas, São Paulo

SEVERIN, E. ; CAPOTA, C. Modelos Um para Um na América Profissionais da EMEF Pe. Emílio Miotti:
Latina e no Caribe. Panorama e perspectivas. Texto do BID,
2011. Disponível em: <http://idbdocs.iadb.org/wsdocs/ Rosangela de Assis - Diretora da EMEF Pe. Emílio Miotti, Campinas-SP
getdocument.aspx?docnum=36855293>. Acessado em: Cecília A. Xavier - Orientadora Pedagógica
outubro de 2012. Priscila Paionk - Prof. do Ensino Fundamental - Ciências
Marcos Ramos - Prof. do Ensino Fundamental - História
Jocinara Lopes de Oliveira - Prof. do Ensino Fundamental – 1º ciclo
WIKISOURCE Pesquisando/IV/Conclusão e posfácio. Edileuza Pacheco da Silva - Prof. do Ensino Fundamental – 1º ciclo
Disponível em:<http://pt.wikisource.org/wiki/Pesquisando/ Kátia C. Martins - Prof. do Ensino Fundamental – Lingua Portuguesa
IV/Conclus%C3%A3o_e_posf%C3%A1cio>. Acessado em: Tânia Mara dos S. Gonçalves - Prof. do Ensino Fundamental – 1º ciclo
outubro de 2012. Vanessa F. Pires - Prof. do Ensino Fundamental – 1º ciclo
Marilda Ferreira da Silva - Prof. do Ensino Fundamental - Matemática
Fernanda Silva Barbosa - Prof. do Ensino Fundamental - Matemática
Paula C M Balardin - Prof. do Ensino Fundamental – Inglês
Juliana Andrade Moura - Prof. do Ensino Fundamental – Geografia
Silvana Rossi Caobianco - Prof. do Ensino Fundamental – Ed. Física
Aline Begossi - Prof. do Ensino Fundamental – Educação Especial
Arlene Machado - Prof. do Ensino Fundamental - Educação Especial
Lívia Cristiane Pereira Dal Bello - Prof. do Ensino Fundamental -
Educação Especial

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Pesquisadores do projeto junto ao NIED - Núcleo de Mães de alunos (relatos Parte 4)
Informática Aplicada à Educação/Unicamp:
Geiza Fernandes Ferraz - Mãe de Tailani, 9 anos
Elaine Hayashi – Doutoranda do Instituto de Computação da UNICAMP Lucinéia do Amaral Gilberto Silva - Mãe de Paulo Miguel da Silva - 4ºA
Vanessa Regina Margareth Lima Maike – Mestranda do Instituto de
Neusa Pereira dos Santos - Cozinheira da escola e mãe de aluna
Computação da UNICAMP
Aline C. Nardi - Secretária da escola e mãe do aluno Leonardo, 6 anos
Everton de M. Faleiros - Mestrando do Instituto de Computação da
UNICAMP
Eduardo Mauricio Moreno Pinto - Bolsista do Projeto junto ao NIED- Ex-aluno (relatos Parte 4)
UNICAMP
Jucélio Evangelista Fonseca - Bolsista do Projeto junto ao NIED- Caio Lima da Costa, 11 anos
UNICAMP
Gustavo Tomazi - Bolsista do Projeto junto ao NIED-UNICAMP
Romilva Costa - Bolsista do Projeto junto ao NIED-UNICAMP

Pesquisadores colaboradores:

Thomas Bartoschek, Henning Bredel, Philippe Rieffel


Centro de Geoinformática da Universidade de Muenster, na Alemanha.

José Armando Valente


Professor do Departamento de Multimeios, Mídia e Comunicação do Instituto
de Artes e pesquisador do NIED, Coordenador do Grupo Gestor de Tecnologias
Educacionais da Unicamp.

Rita Maria Manjaterra Khater


Professora da PUC-Campinas e Profissional da Secretaria Municipal de
Educação, Prefeitura de Campinas.

Funcionários da escola (relatos Parte 4)

João Silva Rocha - Vigilante


José Henrique Amaurici - Assistente Administrativo
Maria Ap. Oliveira Veríssimo - Auxiliar de Limpeza, <in memorian, 06/2012>
Vera Lucia da Silva - Funcionária
José Pereira Filho - Servente e manutenção da escola
Amélia P. Belan - Inspetora de alunos
Aparecida Alves Jácomo - Prof. de português (6º ao 9º ano) com função
de bibliotecária,

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