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CasadeLukácsemBudapeste,emmeadosdadécadade1910.Foto:DemeterBalla.

CasadeLukácsemBudapeste,emmeadosdadécadade1910.Foto:DemeterBalla.

"DecretosobreosTeatros.Deagoraemdiante,osteatrospertencemaopovoAartenãoserámais
"DecretosobreosTeatros.Deagoraemdiante,osteatrospertencemaopovoAartenãoserámais

"DecretosobreosTeatros.Deagoraemdiante,osteatrospertencemaopovoAartenãoserámais

umprivilégiodosricosdesocupados.Aculturaéumdireitodaclassetrabalhadora.GyõrgyLukács,

vice-comissáriodoPovo.ZsgimondKunfi,comissáriodoPovoparaaEducação."

GyõrgyLukács

SobreOromancehistórico

CarlosEduardoOrnelasBerriel

Oromancehistórico,trabalhomaissignificativodeGyõrgyLukácsescritoemseusanosdeexíliona

UniãoSoviética,foipublicadooriginalmenteemrusso(1936-7),emseguidaemalemão(1954)e

agoraéentreguepelaprimeiravezaoleitordelínguaportuguesa.Deacordocomoautor,deveser visto como umestudo "preparatório tanto paraumaestéticamarxistaquanto paraumtratamento materialistadahistóriadaliteraturamoderna".Amadureciamaqui,portanto,osfundamentosdesua estéticaedesuateoriadosgênerosliterários.

AsorigensdoromancehistóricosãolocalizadasporLukácsemdoismomentos:noromancesocial do século XVIII (Henry Fielding, Jonathan Swift, William Thackeray) e na nova percepção da históriaquesurgenaEuropatransformadapelaRevoluçãoFrancesa.Comacriaçãodosprimeiros exércitosdemassas,comaaçãopolíticadeNapoleão,queconvulsionaerenovaascondiçõesdevida depovosinteiros,ahistóriairrompeirresistivelmentenavidadosindivíduos,fazendo nascer as condiçõesconcretasparaqueoshomensconcebamsuaexistênciacomoalgofundadohistoricamente evejamnahistóriaumainfluênciaprofundasobreseucotidiano.

Lukácsafirmaqueinvestigou"ainteraçãoentreoespíritohistóricoeagrandeliteraturaqueretrataa totalidadedahistória".Em decorrência,o romancehistórico éentendido como umavarianteno interiordomaisamplogêneroromanesco,ouseja,oromancecontemporâneotemnaaltaliteratura burguesa uma ancestralidade indeclinável.Essa afirmação o colocava, tacitamente, na trincheira opostaàdaartedevanguardaedo"realismosocialista"soviético.AcomposiçãodeOromance históricodeveserentendidacomoindissociáveldacríticalukacsianaàvanguarda(deesquerdaoude direita), que se caracterizaria pela interrupção programática da tradição literária burguesa progressista - para o autor uma herança irrenunciável.O contrário desse procedimento estaria justamentenoromancehistórico.

Por meiodestesestudos,Lukácspôdeamadurecer suateoriasobreorealismo,queparaelenão correspondeaumaescolaliterária,massimaumaformaliteráriaquereconstituiohomememsua totalidade, tanto em sua interioridade como em suas relações sócio-históricas - o que seria particularmenteperceptívelnaobradeWalterScott,definidonestaobracomoo"grandepoetada História".

Apresentação-ArleniceAlmeidadaSilva Notaàediçãoalemã Prefácio 1.Aformaclássicadoromancehistórico

Apresentação-ArleniceAlmeidadaSilva

Notaàediçãoalemã

Prefácio

1.Aformaclássicadoromancehistórico

1.Ascondiçõessócio-históricasdosurgimentodoromancehistórico

II.WalterScott

III.Oromancehistóricoclássicocontraoromantismo

2.Romancehistóricoedramahistórico

1.Fatosdavidacomobasedaseparaçãoentreépicaedramática

II.Aparticularidadedafiguraçãodramáticadohomem

III.Oproblemadocaráterpúblico

IV.Afiguraçãodoconflitonaépicaenadramática

V.Esboçodaevoluçãodohistoricismonodramaenadramaturgia

3.Oromancehistóricoeacrisedorealismoburguês

1.MudançasnaconcepçãodahistóriaapósaRevoluçãode1848

II.Privatização,modernizaçãoeexotismo

III.Onaturalismodaoposiçãopopular

IV.ConradFerdinandMeyereonovotipoderomancehistórico

V.Astendênciasgeraisdadecadênciaeaconstituiçãodoromancehistóricocomogênero

particular

1.Característicasgeraisdaliteraturahumanistadeprotestonoperíodoimperialista

II.Caráterpopulareespíritoautênticodahistória

III.Aformabiográficaesuaproblemática

IV.OromancehistóricodeRomainRolland

V.Perspectivasdedesenvolvimentodonovohumanismonoromancehistórico

índiceremissivo

Referênciasbibliográficas

Obrasdoautor

Para aprimorar a experiência da leitura digital, optamos por extrair desta versão eletrônica as

Para aprimorar a experiência da leitura digital, optamos por extrair desta versão eletrônica as páginasembrancoqueintercalavamoscapítulos,índicesetc.naversãoimpressadolivro.Poresse motivo,épossívelqueoleitorpercebasaltosnanumeraçãodaspáginas.Oconteúdooriginaldo livrosemantémintegralmentereproduzido.

ArleniceAlmeidadaSilva A obra que agora se apresenta ao leitor, em tradução primorosa, surpreende pela clareza

ArleniceAlmeidadaSilva

A obra que agora se apresenta ao leitor, em tradução primorosa, surpreende pela clareza e honestidade,oquenãosignificaquesejafáciloudestituídadecomplexidade.Estamosdiantedeum ensaiofeitodedeslocamentoseaproximaçõesqueentrelaçamliteratura,experiênciaefiguraçãodo tempo.Elesedesdobraemesboçodeumaontologiadaarteouprolegômenosparaumaestética marxista,concebidacomoumateoriahistóricanãonormativadosgênerosliterários,e,sobretudo, enunciadelugar improvávelumacríticacorajosacontrao pensamento socialistaortodoxo,dito vulgar. Eis o que pode ser encontrado no monumental O romance histórico, escrito

predominantementeemMoscou,pelofilósofohúngaroGyõrgyLukács,entre1936e1937.

Adécadade1930édetemposamargoscomaexpansão do nazismo,o início daGuerraea consolidaçãodostalinismo,mastambémédaformaçãodaFrentePopular antifascista.Noinício desse período, Lukács, bastante esperançoso no socialismo, sustenta que o stalinismo, mesmo prenunciandoproblemas,poderiarepresentaruma"potênciaanti-hitleriana".Foiumaavaliaçãodo stalinismo ambígua, ora encoberta por uma crítica discreta, ora abafada em considerações laudatórias,que soçobrou, no final da década,no conhecido ceticismo diante da burocratização crescente.Porexemplo,Lukácsconfessouposteriormentequesóescreviacom"liberdade"narevista

LiteraturnyiKritik[CríticaLiterária],daUniãoSoviética,nadécadade1930,quandointercalavaao

texto algumascitaçõesdeStalin:"Oleitor advertido dehojepodecertamenteperceber o queos censoresdaépocanãonotavam:quetaiscitaçõespoucotinhamavercomoconteúdoreal,essencial,

dosartigos"'.Merleau-Ponty,emAventurasdadialéticaz,de1955,acertou,portanto,aodenunciaros

recuoseconcessõesdeLukács,preservando,contudo,ateoriadaliteratura,porser,nasuaavaliação,

"oquerestoudedialéticoemsuafilosofia".

Tendo em vista esse embaraço de origem,qual a atualidade de uma reflexão sobre o modo materialista de tratar a história literária? Seria uma extravagância extemporânea procurar reatar formaehistóriaemplenoséculocrivadodeexperimentalismosartísticose,aindaassim,pretender dizeralgooriginalsobreaartedanarração?Oromancehistóricomereceserlidoemfunçãodos limitesestabelecidospeloautor.Comefeito,jánasprimeiraslinhas,lê-sequeolivroéumexercício denaturezateóricaoudeumapropedêuticaparaumaestéticamarxista.Nãosetratadebuscarnele umahistóriadoromance,jáqueocritérionãoéhistórico-literário;nemumaabrangênciaouum caráterenciclopédico,umavezquenãotemoshistóriageraldoromancehistórico.É,portanto,um ensaiodenaturezateóricaquecircunscreveumtipomuitoparticulardereflexãosobrea"grande literaturaqueretrata[darstellt]atotalidadedahistória"ou,ainda,umateoriadescritivaquebuscao momento deconfluênciaentresentido eexperiênciano qualfoipossívelàfilosofiaapreender a

"interaçãoentreoespíritohistóricoeagrandeliteraturaqueretrataatotalidadedahistória"3.

Comisso,aquestãodatotalidadeimpõe-secomopressupostodaanálise,afrontandodeimediato

osresultadosjuvenisdeAteoriadoromance4.Lukácsnãoafirmaranessaobraque"umatotalidade

simplesmenteaceitanãoémaisdadaàsformas"equeoromance"éaepopeiadomundoabandonado pordeus",naqualosentidonãoécapazdepenetrarinteiramentearealidade?Defato,emOromance histórico, a totalidade não é mais essencial, fechada em si mesma, perfeita e homogênea; não obstante,elaretornadesmitificada,comototalidadehistóricaemdevir.Issoporque,adespeitodos acertos,AteoriadoromancepermaneceraparaLukácsabstratadevidoàfaltade"umverdadeiro

métodohistóricosistemático",carênciacorrigidanosescritosdosanos1930.Issonãosignificaquea

novateoriadoromancepretendasubstituiraantigaintotum,tampoucoqueafugadoabstratoparaa

históriaresultenaaderênciaaosfatostidoscomoabsolutos,mas,seguindoacategoriaaristotélicada

verossimilhança,oquesevisaéaumaordenaçãointeligíveldosfatosemumatendência.

Ora,emAteoriadoromanceoautorjáapontavanessadireçãoemumaperspectivaidealista:"O quefazdotodoumverdadeirotodoéapenasavivênciadeumestadodeânimocujofundamentode vidaécomumeo reconhecimento dequeessavivênciacorrespondeàessênciadavidaatual"5. Assim,

Somentenoromance,cujamatériaconstituianecessidadedabuscaeaincapacidadedeencontrar a essência,o tempo está implicado na forma:o tempo é a resistência da organicidade presa meramente à vida contra o sentido presente, a vontade da vida em permanecer na própria imanênciaperfeitamentefechada.'

Delineado o contorno do problemadaforma,restaacrescentar que,paraLukács,Marxteria levado adiante o problema ao pensar uma temporalidade cuja cognoscibilidade é aberta pela autocrítica do presente que se lança ao futuro.Em História e consciência de classe,de 1923,o filósofo esclarece o elo decisivo na aproximação entre forma e história ao afirmar que "todo conhecimentohistóricoéumconhecimentodesi.Opassadosótorna-setransparentequandosepode operar,convincentemente,umacríticadopresente"[ ]"Ocritériodeadequaçãodopensamentoé sem dúvida a realidade. Mas a realidade não é, torna-se, advém, não sem a colaboração do pensamento"'.

Comoorealé"totalidadeconcretaemdevir",Lukácsprocuraacorrespondênciaentreacriação

artísticaeaconsciênciasocialnãonoplanodosconteúdos,masnodascategoriasqueseestruturam

reciprocamente.Aobradeartenãorefletesimplesmenteaconsciênciacoletiva,nãoéredutívelaela,

comonomarxismovulgar,e,demaneiracontrária,constituiumdegraudecoerênciaúnicoparao

qualtendemasconsciênciasdosindivíduosquecompõemogrupo.Ouseja,ovínculoentreasforças

artísticasprodutivaseasrelaçõesdeproduçãoépensadocomonoesquemamarxistadetotalização

dahistória,pormeiodascategoriasquepermitema"apreensãodoaspectovivodaeconomia",tendo

emvistaque

seascategoriaseconômicassãoapreendidasemsuaconcretudeviva,seelasaparecemdemodo distintoemcadahomemsingular,( )entãoanecessidadeeconômicaimpõe-senaformadalei que é a tendência dominante, vitoriosa do desenvolvimento no emaranhado dos acasos individuais.'

AcomplexidadedeOromancehistóricoconsisteemincorporaromarxismosemabandonara herançahegeliana,sejadopontodevistadoconteúdo,aorefletircombasenoprincípioontológico do ser como devir, "engajado em um processo de humanidade", pensando a história como progressivareconciliaçãodosindivíduosnasociedade,sejasoboaspectoformal,noqualnarrar significaligar-seaopassado,àretomadadaanálisehistórico-filosóficaeàsuainserçãoemuma periodicidadefilosófica.Ouseja,oentrecruzamentodaontologiacomaperspectivahistóricasitua

Lukácsnocentrododebatequeacríticamarxistafezàdialéticahegeliana,renovando,em1936,a

mesma pergunta feita por Marxnos Manuscritos econômico-filosóficos:"O que fazer diante da

dialéticahegeliana?"9.

Anovidadedasoluçãolukacsianaconsisteempercorrerocaminhoinverso,deMarxaHegel,em

buscadagênesedomaterialismodialético;percursonecessário,aseuver,paraaexegesehistórico-

filosóficadastendênciasatuantesnopresente,istoé,paraumacríticaaopresente,demodoquea

totalidadequereaparecerenovadaemOromancehistóricoseencontre,comoemtodosostextos

estéticosdeLukács,efetuadanaobra,naformaliteráriaquecabeàreflexãoestéticadecifrar.Aforma

nãoéaprópriarealidade,masonexoestabelecidocomela:ainteraçãoouaaçãorecíprocaentre

históriaeformapormeiodaqualumauniversalidadeconcretaéapreendidanahistóriaenãoposta

exclusivamentepelosujeitodoconhecimento.

Nãoéporoutrarazãoque,curiosamente,aindanoprefácio,Lukácsadverteoleitordequeo empreendimento teórico a que se propõe só frutificará se a questão da forma for abordada adequadamente,ouseja,seasmudançasformais,osurgimentoedesaparecimentodeumgênerooua

imbricaçãoemisturadegênerosforemconsideradosnareflexãoteórica.Noprefáciode1954paraa

ediçãoalemã,reiteradoem1960paraaediçãofrancesa,oautorapontaoslimitesdeumaestética

marxistaqueaindanãoenfrentaradeformacabalaquestãodadiferenciaçãodosgêneros.Nosseus termos:"Umateoriamarxistadogênerodignadessenomeseráimpossívelenquantonãoaplicarmos

ateoriadoespelhamentodadialéticamaterialistaaoproblemadadiferenciaçãodosgêneros"10

Setalideiaparecesoarameaçadoraerestritivaàforma,diantedoconsensosobreautonomiada arte,oensaiodeLukácsinsurge-secontraaindiferença,ousandohistoricizarasváriasdimensõesde talespelhamento,aocircunscrever omomento noqualumainteligibilidadepodeser apresentada paraarelaçãoentreformaetempo.Nodecorrerdestetextoforamapontadasalgumasinflexõesdo itinerárioedaestruturadeOromancehistóricocomointuitodequeoleitor possasuspeitar da críticadeAdorno,repetidaadnauseam,quevianolivroapenasneoingenuidadee"reconciliação usurpada".

DesdeAalmaeasformas1'atéAteoriadoromance,passandopelostextosinacabadosEstéticade

Heidelberg12e Filosofia da Artel3,Lukács debruça-se sobre a forma literária, articulando uma concepção deformaemumfundo trágico:emlinhasgerais,aformaédesejo detotalidade,de unidade perfeita; forma abstrata que se consola, diante de uma pátria perdida, com a pátria transcendental.Assim,aformaéaparência,puro campo ficcional queintroduzum valor euma diferença qualitativa na vida, única realidade substancial diante de um mundo insatisfatório e contingente,masquenão suprimeaimediatidadedo vivido.Ofundo trágico sinalizaesseduplo movimentodeafastamentoeaproximaçãodavida,umavezqueaformaé,sobretudo,aconsciência lúcidadequetaltotalidadeéirrealizávelnavida.

EmFilosofiadaarte,eEstéticadeHeidelberg,ojovemfilósofoestruturaumaparelhoconceitual próprioparaexprimir aautonomiaeanaturezaespecíficadaarteedofatoestético.Opontode partidanãoéojulgamento,masairredutibilidadedaobra.Duplaousadia:Lukácsbuscasuperartanto a estética kantiana, ainda pautada na natureza, como as estéticas da expressão, presentes no neokantismodeKonradFiedlereAloisRiegl.Ora,paraojovemLukácsumaestéticaimanentedeve pressuporque"asobrasdearteexistem",paraemseguidainterrogá-lascriticamente:"Comoelassão possíveis?". Se a pergunta vem da problemática kantiana, o ponto de partida é também fenomenológicoaoproporumainvestigaçãoquealmeja"darvozaoobjeto",ouseja,Lukácsadota um ponto devistametodológico híbrido paradefender aideiadequeumaestéticasó podeser edificadasobreaexistênciaefetivadasobrasdearte.Segundoele,comoemKantojuízodegosto tomaolugardofenômeno,aestéticapós-kantianacontinuououdeduzindoumametafísicadobelo oupartindodaanálisedocomportamentodoshomensemrelaçãoaele,istoé,passandoaolargoda obra,permaneceuconcentradanoconceitodebelo.ParaLukács,mesmoasestéticasforjadaspor artistas ou pesquisadores próximos ao "fazer" artístico, como Riegl e Fiedler, caíram no "esteticismo",naacentuaçãodostraçospsicológicosdoartista,ouseja,numaformade"esoterismo

deateliê",e,portanto,tambémnãoexplicaramasobras14.

Emsegundo lugar,Lukácsdefendeaideiadeumaespecificidadedo estético,diferentedado lógicoedoético.Aobraéautônomaporterumalegalidadeprópria,daíanecessidadedeassinalara diferençaentreoconceitode"forma"nalógicaenaestética.Entreoutrasdiferenças,Lukácssublinha quealógicapressupõeuma"similitudeinternadetodosossujeitos",enquantoocomportamento estéticonãosuprimeasuadiversidade.Épreciso,assim,impediracontaminaçãodoestéticopelo lógico,o queerafeito atéentão,por meio deum impulso rumo ao concreto; seháaqui certo empirismo,eleémenosavalorizaçãodosensório-motor,eémaisafacticidadedaobra,vistoquea esferadaarteédiferentedarealidadeempírica.

Porfim,anaturezaúnicadaartedecorredaarticulaçãoentredoisconceitoscentraisnaprimeira estéticalukacsiana:o dedissonânciaeo deduplo mal-entendido.Adissonância"éo principium specificationis" da arte, a compreensão da realidade na perspectiva do "non-sens" [Widersinn]

afirmado naforma,cujo fundamento éaideiado fracasso dacomunicação15.Demaneiramais branda,adissonânciaéo"conceitorelacionalqueestabeleceumaligaçãoentrerealidadevividae realidade utópica", já que a diferença entre signo e significado é irredutível".Assim, a arte é constituída,deacordocomojovemLukács,porumduplomal-entendido[Missverstãndnis]:oda expressãoeodacompreensão.Auniversalidadedaartenãoconsistenaideiadequeé"paraqualquer um"(emtermoskantianos),masresideemumarelaçãonegativadosujeitocomovalor.Daídecorre a função autônoma da linguagem artística, pois ela opera independentemente das intenções do enunciadoredoespectador.

EperceptíveladistânciaentreessesprimeirostextosdeLukácseOromancehistórico,sejana linguagemutilizada,sejanoplanoconceitual.Umaleituracuidadosa,contudo,encontraráamesma questão,nosanos1930,em chão marxista; sem meiaspalavras:queaobratem umalegalidade própria,aqualnãoéredutívelaogênio,hajavistaquenãodecorredeumasubjetividadeconsciente

deseuatocriador,demodoqueelanãopodeserinstrumentalizada.Aviradapolíticadosanos1920,

valeressaltar,não produziuo predomínio dapolíticaemdetrimento daliteratura:váriosartigos

continuaramaserpublicadosnaDieRoteFahneapropósitodeBalzac,GoetheouLessing.Em1919

LukácspublicaTáticaeética",primeirolivrodeinspiraçãomarxista,emqueaprofundaseusestudos sobre Marx e Lenin. Paralelamente, torna-se coeditor de Kommunismus, órgão teórico da III

InternacionalComunista.Em1923publica,enfim,Históriaeconsciênciadeclasse,umaobrade

grandefôlegoteóricoeprático.

Nesta última obra, Lukács busca sair dos impasses aflorados em A teoria do romance, reconhecendoqueanecessidadedetotalidadeprecisavaaindaserdemonstradadialeticamente.Nas obras anteriores, o mundo aparecia como não totalizado e as formas artísticas eram tentativas artificiaisdetotalizá-lo,aformaromanceeraalucidezsuprema,masapenasumindícioparcialda fratura,poisnãosabíamosporqueouquandohavíamosperdidoosentidodaexistência.Apartir disso,aúnicasaídaeraaéticaindividual,istoé,sustentarumvalorcomoessencialatéofimpor meiodeumaobradearte,deumaideiaouumgesto,jáqueeraimpossívelvivê-lonomundo.Em Históriaeconsciênciadeclasse,Lukácsretomao temado mundo daconvenção como "segunda natureza" abordado em Ateoria do romance, examinando a autonomia da cultura e da ordem simbólicapormeiodoconceitodereificação.Lukácspropõequeoindivíduosópodetranscendera si mesmo esair dasituação desolidão naprópriasociedade; não émaispossível sustentar um princípiotranscendentalespiritualporqueoessencialacontecenointeriordaprópriasociedade,de indivíduoparaindivíduo.Nãosetratadesociologismoederecaídanopositivismo,masdogrande passoemdireçãoaomaterialismohistóricoeaMarx,aindacomamarcantepresençadeHegel.

Em todo caso, o enorme esforço teórico de Lukács não foi bem recebido: provocando estranhamentoedebatesaoexibirummarxismoaindahegeliano,aobrafoiacusadadeidealistae acaboucondenada,definitivamente,noVCongressodaInternacionalComunista.Emreação,ainda

emViena,Lukácsnãorecua,publicando,em1926,MosesHesseoproblemadadialéticaidealista18

e,em1929,aspolêmicasTesesdeBlum19,nasquaisseafasta,acertadamente,deBélaKun,apoiando

Eugen Landler na proposta de organização de uma urgente frente antifascista. Lukács defende precocemente uma ampla aliança com as forças democráticas e o abandono do sectarismo doutrinário.Eleéderrotado,ameaçadodeexpulsãodopartidoeobrigadoafazerumaautocrítica.

Entre1931e1933viveemBerlimsemiclandestinosobopseudônimodeKeller.Escreve,contudo,

ativamentenarevistaDieLinkskurve,órgãodosEscritoresProletáriosRevolucionáriosvinculado aoPartidoComunistaAlemão.Semmuitasalternativasdiantedaascensãodonazismo,parteentão paraMoscou,pesquisandoasobrasdeMarx,emparticularosManuscritoseconômico-filosóficosde

1844,noInstitutoMarx-Engels-Lenin.

DaíaimportânciadasobrasqueLukácsescreveude1930a1945,emBerlimouMoscou,nas

quais,equilibrando-seemumacordabamba,buscouaproveitar-sedasdisputasinternasdopartido, no contexto dalutacontrao nazismo,paradizer o querealmentepensava,desafiando oslimites impostos pela oficialidade comunista.O resultado revela-se em obras como O jovem Hegel20,

Goetheesuaépoca21,Oromancehistórico,Balzaceorealismofrancês".Nessesescritos,Lukács

realiza uma reflexão estética em uma perspectiva marxista propondo, para a produção e crítica culturalsocialistas,umadialéticaentreautonomiaeheteronomiadaarte.Aomesmotempo,afasta-se tantodorealismosocialista-quechamade"naturalismoagrário"eéatesevitoriosanoPrimeiro Congresso dosEscritoressoviéticos,em1934-,dePlekhanoveMehring,quanto dastendências formalistas e experimentais, presentes no percurso da literatura ocidental, do naturalismo ao surrealismo,istoé,daartemoderna.Oduplodistanciamentonãoagradavaninguém,hajavistaque Lukácsassumia,curiosamente,umarotainvertidaqueo conduziaao século XIXeao realismo burguês.

Nolugardapolarizaçãoentreliteraturaproletáriaeartedevanguarda,comooexpressionismoe suas técnicas de montagem, Lukács examina a literatura humanista e democrática. A análise lentamente se desloca da oposição entre o materialismo e o idealismo para a oposição entre o racionalismo e o irracionalismo. Para tal era fundamental voltar à gênese histórica na qual a burguesiaeradepositáriadeprojetosdemocráticoseemancipatórioseassimcombaterascorrentes reacionáriasdopensamentoalemãonaraiz,istoé,naslutasepolíticasqueproduziramaliteratura clássica alemã. No contexto da apropriação de Goethe e Schiller pelo nazismo como suporte ideológicoedarenegação deHeine,Lukácsrealizaumaanálisedialéticado Iluminismo alemão [Aufklãrung],confrontandohistoricamenteastendênciasprogressistasereacionáriasnaliteratura, salvaguardando Goethe e Schiller como grandes realistas e representantes da democracia revolucionária.

Eisocontextoemqueseexplicaanecessidade,paraLukács,dereverateoriageraldaliteratura

quesempretrataraoromancedemodomarginal.Eraessencialpesquisarnãosóasleisprópriasdo

gêneroliterário,masfazerahistóriadogêneroromance.Seogêneromantémumaligaçãoorgânica comaartenarrativadaIdadeMédiaeprovémdoromancesocialdoséculoXVIII,desenvolve-se comoromancehistóricopelaformasingularcomonelefiguraaapreensãodotempo.Dessamaneira, oromancehistóriconãoéepisódicoouumgêneroparticular,masaformalizaçãoqueoromance assume ao figurar o passado como a pré-história do presente.Para Lukács, Walter Scottfoi o principalcriadordessaforma,influenciandoBalzac,Púchkin,ManzoniouTolstói,quesãorelidose valorizados como exemplares casos de apreensão formal da totalidade. São, portanto, herança literáriaemedidadereferênciaparaaproduçãocontemporâneaecríticadearte.

Tendoemvistataisesclarecimentos,quaissãoospontosmaisrelevantesdaobra?Lukácsiniciao capítulo 1("Aformaclássicado romancehistórico")comaperiodização delastro histórico ao

apontarafase"clássica"doromancehistórico,entre1815e1848,comoumaexigênciaabertapelo

período pós-revolucionário."ARevolução Francesa, as guerras revolucionárias, a ascensão e a quedadeNapoleão"sãotratadascomoeventosquereorganizamotempoaoredordesi,umavezque

"fizeramdahistóriaumaexperiênciadasmassas[Massenerlebnis],eemescalaeuropeia"-'3.Evento

nãotraumáticoeheroiconamedidaemqueinduzàproduçãodesentidoenãoaomutismoouà irrepresentabilidade. As rápidas e sucessivas reviravoltas produzidas nos acontecimentos intensificamaaceleraçãotemporaldiantedaqualapercepçãodasmudançascomofatosnaturaisnão ocorre,fazendocomqueoshomenssevejamcomosujeitosdahistória,emumaexperiênciasem precedentesdereconhecimentodasmultidões,nomeadaporLukácsde"sentimentohistórico".Oque significanãosóapercepçãodequeosdestinosindividuaisestavamconectadoscomouniversal, mas,sobretudo,ademandaporumanovacompreensãodahistórianacionaledesuascorrelações comomovimentointernacional,istoé,comahistóriauniversal.NaprimeirametadedoséculoXIXa filosofiadahistóriadeHegelcumprepapeldecisivoaodemonstrarqueasrevoluçõesconstituem momentosnecessárioseorgânicosdaevoluçãodoespírito;bastalembrarqueaRevoluçãoFrancesa, nostermoshegelianos,éo"clarão"ouo"saltodanoiteparaamanhã",arupturaqualitativanaquala liberdade não foi apenas concebida, mas realizada. A filosofia não é mais "sonambulismo", conhecimentodoqueémorto,soterradoedecomposto,masdopresentevivonoqual"osestados pretéritosestãosuprassumidosemseuestadoatual,demodoqueaplenacompreensãodopresente requer umconhecimentodopassado"14.Ora,seaGrécianão émaiso modelo por ser passado morto é porque a Revolução Francesa é o presente vivo, e a filosofia é colocada diante da contingênciaedatarefadeapreendernadescontinuidadeaespecificidadedamodernidade.

OidealseriaqueOromancehistóricofosselidojuntocomoutraobramonumentalescritana

mesmaépoca,OjovemHegel25,que,infelizmente,aindanãofoitraduzidaparaoportuguês.Nela,

LukácssublinhacomoaconcepçãodahistóriadeHegelvaisendoelaboradaatéficar explícitaa ligaçãoentreasucessãológicaemetodológicadascategoriaseaevoluçãohistóricanaqualotodoé entendidocomocompenetração,oquepossibilitouaHegelsuperaradicotomiaentresujeitoeobjeto aodemonstrarqueodireitoabstratonãoéresultadodeumaformulaçãodoentendimento,masa

autoproduçãodaprópriasociedade,istoé,oconceitoespeculativonecessárioemfacedaabstração queéconstitutivadasociedade.E,destacaLukács,combasenopapelqueoconceitodetrabalho

adquirenaFenomenologiadoespírito26foipossívelaHegelpenetrarnos"segredos"daeconomia

política moderna, preparando o materialismo histórico. Ao sustentar a tese de um progresso históricoobjetivo-anecessidadedocapitalismo-,independentedodever[Sollen]edosubjetivismo moral,e,aomesmotempo,atesedosfinsespirituaisopostosàrealidadedasociedadeburguesa, Hegelapreendeuascontradiçõesdoprogresso.ParaLukács:"éoprimeiropensadornaAlemanhaa

terreconhecidoofatodequeavidaeconômicaestásubmetidaàssuasprópriasleis"27.

Ao contexto daRevolução Francesacorresponde,portanto,o surgimento deumanovaforma artísticaquereconheceeinteriorizaessamobilidade,pondoasquestõesemperspectivahistórica,isto é,naperspectivadodevir queelacomporta.Ditodeoutromodo,contemplaçãodaexperiênciae produçãodesentidoseentrecruzam,sendopossívelaexplicaçãodeque,aooperarcomoconceito de correspondência, Lukács utilize reiteradas vezes o termo "resultar" [heraus erwachsen] ou "recapitulação" [Zusammenfassung] e poucas vezes o de "reflexo" [Widerschein], como quando afirma,porexemplo,que

Scotttorna-seumgrandepoetadahistória:porquetemumsentimentomaisprofundo,legítimoe diferenciadodahistória( ).Anecessidadehistóricaésempreumresultado,nãoumpressuposto; ela é, de modo figurado, a atmosfera trágica do período, e não o objeto das reflexões do

escritor.28

Issopossibilitaqueoproblemadahistoricidadesejapercebidocomointernoaoromance.Com rigor estético,ouseja,realizandoanáliseformaldasobras,nocapítulo2("Romancehistóricoe drama histórico") Lukács examina a confluência entre gênero, filosofia da história e história, articulandoelementosinovadoresaocampodateorialiterária.Eisalgumasnovidadesformaisdo romancehistórico:oromanceafasta-setantodaapropriaçãosubjetivadahistóriacomodautópica,o queseverificanofatodequeseudesfechojamaiséumjuízomoral,porqueoescritoréumafigura detransição[Ubergangsgestalten]queviveuumaexperiênciadedissoluçãosocial,edeladecorreum distanciamentoquelhefacultaapossibilidadedeexpressaro"triunfodorealismo",novocabulário deEngels,emuma"calmaépica".Istoé,suahabilidade,queFredricJamesonnomeiade"invenção singular",éadecolocaremcontato,naintriga,osextremosdaluta,pormeiodaconstruçãodeum terreno neutro no qual as forças sociais distintas são aproximadas.Decorre daí que o romance históriconãosejaorientadoporumveioempiristaouporumespíritodeantiquário,jáquesebusca

umaintersecçãoentreforçasouumencadeamentohistóriconoqualopassadoaparececomopré-

históriadopresente.

Aindasobreaestruturaformaldogênero,oheróijamaiséclássicoouromântico,umavezqueas narrativascosturam-seemtorno depersonagensficcionaismédiasqueemergemdesituaçõesde crise,caracterizadasemmúltiplacomplexidade.Ouseja,oheróimédiooumedíocreéohomem

comumquesetornalídernãodemodovoluntarioso,masaoacaso,noemaranhadodascomplexas relações sociais,o que permite resumir em si "os lados mais marcantes,tanto positivos quanto

negativos,dedeterminadomovimento"29esignificaque"todoocomplexodecomponentessociais

exprime-senatramadaspaixões,aosabordacontingênciaenocernedascontradições"30,comodiz

LukácsapropósitodeBalzac.Emoutrostermos,oromancehistóriconutre-seinúmerasvezesde processos inconscientes de figuração. A característica formal mais significativa, contudo, é a intensificaçãodosacontecimentosemumaconcentraçãodramáticaefetuadanousofartododiálogo, naqualo heróiseinscrevenaação,jamaisabstratamente,por meio depensamentos,mascomo aglutinadoregeneralizadorprático.

Dessa maneira, atingimos o corpo conceitual da obra que é o debate sobre a mistura ou a dissoluçãodosgêneros,paraoqualLukácsbuscacontribuiraosustentarsuaestéticahistóricacontra omodeloabstratoeintemporal.Assim,parece-meincorretaaavaliaçãodePeterBürger,emTeoria da vanguarda31 que condena a análise lukacsiana do romance por ela pretender articular uma concepçãodahistóriamarxistacomumateoriaestéticanormativa.OpontodepartidadeLukácsnão éapoéticaclássicanormativaesuasvariações,masadiferençaestabelecidapor Goetheentreo dramaquenarrao"inteiramentepresente"eoépicoo"inteiramentepassado"eastransformações históricasdosgêneros,apontadas,porexemplo,naanálisemodernadeFriedrichSchlegel.Ogênero nãorespondeàspreceptivasdaretóricaenãoéum"modelodeescritura"ou"mododeenunciação" estável.Elenãoéapenasumadimensãolinguística,masaintersecçãoentreoplanodascategoriaseo dahistória.Seogênerodecorredefundamentossociaisobjetivos,eleéummétodo"criador"em constantealteração.Novamente,vê-seaimportânciacentraldeHegelaoapreenderoproblemado romanceemperspectivahistórica:"oromance,essaepopeiaburguesamoderna"".

LukácspartedasoluçãohegelianaetambémdaposturaanticlassicistadeSchlegelparaasquaisa epopeiaadquireumnovovaloreoromance,quedeladeriva,nãoémaisumaformanatural,mas umaformaartificial.Realizandoumacríticahistórica,portanto,tantodoidealismoalemãocomodo romantismo, Lukács ousa propor uma nova relação entre epopeia e drama e nela apreender a singularidade formal e histórica do romance. Ora, Hegel nos Cursos de estética partia da diferenciaçãoentreépicoedrama,istoé,daoposiçãoentrea"totalidadedosobjetos"ea"totalidade domovimento"paradefiniroromance.Emseustermos:noromancevemosreaparecer"oamplo

panodefundodeummundototal,bemcomoaexposiçãoépicadeeventos"33;nodrama"aaçãose

apresentanatotalidadedasuarealidadeexterioreinterior1114paraconcluirqueaoromancefalta"o

estado de mundo originariamente poético, do qual nasce a epopeia propriamente dita"35. Para Lukács,odramanãoéaformasuperiorqueintegraeultrapassanecessariamenteosoutrosgêneros, comodiziaHegel,poraparecer,descontinuamente,sempreemépocasdecrise;nemoromanceé uma desqualificação em relação à epopeia antiga. Com base na aproximação marxista entre desenvolvimentodramáticoeideiaderevolução,Lukácsdefendequeosgrandesdramascoincidem commudançashistóricasdecisivas,equeasingularidadedodramaéadeefetuaraconcentração

intelectualearecapitulaçãodessesmomentos,demodoqueoheróiéhistóricoporquenolugarda figuração subjetiva, apontada por Hegel, predomina o caráter público. Contudo, diante da intensificaçãodadivisãosocialdotrabalhoedoaumentodafraturaentreopúblicoeoprivado,as condiçõeshistóricasnãosãofavoráveisaodrama.ParaLukács,nãosignificaamortedefinitivado gênero, mas o deslizamento do drama em direção à epopeia: a refundição de seus materiais [Umarbeitung]noromancehistórico.

Oromancehistóricoadquire,emsuma,comafusãodramática,maishistoricidade.Ele,defato, decorre do romance social do século XVIII, mas a migração de tendências dramáticas é o que possibilitaànarrativanãoapenasdescreveramultiplicidadedosconflitos,masintensificaraação épica,fazendodoromanceapré-históriadopresente.

A influência recíproca entre as formas épica e dramática como característica essencial da literaturamodernafoiconstatadaprimeiroporGoetheeSchiller.Balzac,referindo-seemespecial aWalterScottcomoiniciadordoprocesso,ressaltouoelementodramáticocomomarcadistintiva

donovotipoderomance,emoposiçãoaostiposanteriores.36

Frutodedistorçãoformal,oromancehistóricocorrespondeàfasedesenvolvidadasociedade burguesanaqualaformadramáticadeve"aparecercomonãodramática","nacompletaemergência daessênciaempuraaparência",acarretandooeclipsedoheróiépico.Senaantigaepopeiaotema centraleraodalutaentreoindivíduoeodestino,amoderna"exprimeodomíniodascondições sociais sobre um indivíduo e a realização da necessidade social por meio da cadeia de acasos

aparentesdavidaindividual"37."Acalma-te",disseLousteauaLucianodeRubempré,emAsilusões

perdidas,deBalzac,"aceitaoshomenspeloquerealmentesão:merosinstrumentos."38

Balzacseráocasomaisemblemáticodafusão;noentanto,éoúltimorepresentantefrancêsde umaliteraturarealistadeproblemáticahistórica.NociclodeobrasintituladoComédiahumana,o tempoéencurtado,reduzindoanarrativaaoromancedecostumes."SeguindoaspegadasdeGoethe" eafastando-sedaslinhasgeraisdelongaduração,BalzacsuperaScottnacaracterizaçãodopresente edesuapré-históriamaisimediata.Naexperiênciadahistória"pessoalmentevivida",Balzacvivencia ocomeçoeofimdeumciclohistórico;comoespectadordascontradiçõesdaRevoluçãodeJulho,

de1830,elepercorreo"reinodarazão",dasesperançasàsdesilusões,sendoafetadosobremaneira

pelosproblemascontemporâneos.Noseucaso,umatemporalidadereduzidaeconcentradaabreo acessoaumapormenorizadacaracterizaçãodaspaixõesedasrelaçõessociaisfrancesasnafasedo capitalismo."Simpatizantedeumaclassequedesaparece"emovidopela"procuradesesperadapor autenticidade",eleefetuanaComédiahumanaaexperiênciasubjetivadanecessidadedopresente,mas tendosempreporbasearedeinfinitadecontingênciasqueformaseuspressupostos.Daísuacélebre frase:"Nãoéporculpadoautorseascoisasfalam,elasmesmas,efalamalto".Emoutrostermos, Balzac aproxima-se da história para devolvê-la problemática, isto é, repleta de fissuras e de embaraços.

Naperiodizaçãolukacsiana,apartirde1848nota-seodeclíniodaformahistóricadoromance,

perceptível na perda da sensibilidade épica e da capacidade de narrar, agora substituídas pela tendênciaàdescrição.O realismo deBalzaccedeao naturalismo deZola,no qual predominaa descrição unilateral e niveladora que transforma tudo em um presente estático, esfacelando as

conexõesentrepresenteehistória.Ora,1848éprincipalmenteomomentonoqual,nostermosde

Marx,"aburguesiatinhaanoção corretadequetodasasarmasqueelahaviaforjado contrao feudalismo começavam a ser apontadas contra ela própria"39. A acomodação dos anseios democráticos da classe burguesa em um liberalismo de compromisso anuncia, para Lukács, a consolidação da "marcha triunfal da prosa capitalista", que coincide com a nova concepção de história, o declínio da filosofia hegeliana e o predomínio de um materialismo mecanicista.Em

Salambô40,deFlaubert,porexemplo,ahistóriaéreduzidaacenárioqueservedemolduraparaum

eventoíntimocujainteraçãodostemposcedeàmonumentalizaçãodecorativanaqualahistóriaé

desumanizadaelimitadaàvidaprivada.

EmOromancehistórico,Lukácsjáantecipaadefesado realismo naarte,quefezemobras posteriores.Convém ressaltar queo realismo não éempirismo:elesenutredaoposição entre naturalismoerealismoqueestáemjogonasegundametadedoséculoXIX.Combasenessaluta estéticaepolíticaqueadentraoséculoXX,Lukácsanalisaaartemodernacomoumprolongamento donaturalismoenãodorealismo;namesmaperspectiva,condenatambémorealismosocialistada épocadeStalin,quepermaneciacomoum"naturalismoagrário".Orealismosópodeserrealizado quandooâmbitodarealidadecotidianamédiaamplia-senahistóriaepermiteaoescritoralcançarna arteopáthosdavidaprivada,ouseja,asublimaçãodarealidadeinteriorindividualatéopontoem queelasefundeemaçõesconcretas,nãoemabstrações.Valeressaltar queatipicidade,conceito fundamental de sua estética madura, pressupõe como artisticamente necessário o distanciamento contemplativodarealidadecotidianaparaquesurjamsituaçõesépicas.Talexigênciatambémestá presenteemsuaprimeiraestética.

Dopontodevistadahistóriadaliteraturaoudacríticadearte,oesquemalukacsianosugereque asobrasquecoincidemcommudançashistóricassignificativasformamumfluxoqueasinterligaaos acontecimentos,queéconstituídoemmomentosontológicosdaevoluçãodahumanidade.Asobras não seaproximamentresino sentido benjaminiano,por meio desaltos[Sprung]redentoresdo passado em direção ao presente, mas, ao contrário, por meio de apropriações do presente que buscamnopassadoumcontinuumparasevincular.

Se há uma noção de evolução na periodização proposta em O romance histórico, ela é descontínuaenãoteleológica.ValeressaltarqueLukácsapenasvislumbrapossibilidadesépicasea

retomadadatradiçãoclássicadoromancehistóriconaliteraturasocialistapós-1917.Napartefinal

dotexto,adespeitodeTheodorFontane,LionFeuchtwangerouHeinrichMann,elereconheceapenas

tentativasfrustradas,comoseahistóriadaqualarevoluçãosocialistafaziaparte,diantedonazismoe

da persistência do capitalismo, estivesse ainda em suspensão. Por outro lado, a periodização lukacsianaexibeumadialéticanegativaprópriaaoprivilegiarasformassurgidasdeprocessosde dissoluçãoemdetrimentodasqueresultamdecontinuísmoeconservação.Ofluxohistórico-literário construídoporLukácstemmuitooquedizersobreamobilidadeenegatividadequeconduziuao presente,maspoucosobreapróprialógicadele.Algopróximo,nessesentido,aodesejodeWalter Benjamimdecaptaromundoem"estadodeeclipse".NocasodeBalzac,omundomodernoaparece jácomoilusãonomovimentodeduplanegatividade:aconstataçãodadestruiçãodoVelhoMundo encetaadescrição do novo;o reconhecimento do novo como horror ecomo ilusão decorreda constatação damortedo velho.Ao privilegiar o tempo quemudano lugar do tempo quepassa, Lukácspropõeumahistórianaqualosentidoapareceemformaderuptura,explicando,emparte,sua dificuldade,comoreiteramseuscríticos,emanalisarasobrasmodernasoucontemporâneas.

AstesesdeLukácssobreorealismoatraíram,fatalmente,forteoposição,sobretudodeBrecht,em

1940.Adefesadagrandearterealistacontraaartedevanguarda,aavaliaçãodapoesiadeBaudelaire

comodecadente,acaracterizaçãodahistóriadaAlemanhaemDõblineMusilcomoexcêntrica,a oposiçãoentreThomasManneKafkaou,ainda,acondenaçãodeJoyceeBeckettgeraramagudos afastamentos e rupturas definitivas.Para Lukács, as obras de vanguarda produziam um tipo de maneirismoprofundamentetãoesquemáticooumaisdoqueorealismosocialista.Nelas,oescritor apresentavaumaimagemparcial,deformadaealegóricadarealidade,imobilizando-seemumpavor cegodiantedela.Aformanãoconseguiasuperaressasubjetividadeimobilizada,queseorientava rumoàdissoluçãodoobjetoemumaespéciedenadatranscendental.Orealismo,comoodeThomas Mann, em contrapartida, criticava o dado imediato, situando o fenômeno no conjunto, ou seja, configurando-oartísticaeorganicamentecomototalidade.Seháméritosemsuateoriadorealismo, nosjulgamentossobreaartemoderna,hojepodemosafirmarqueforamtotalmenteequivocadose explicam,emparte,omal-estargeneralizadodiantedesuaproduçãofutura.

Aperspectivainterpretativadotextonãoestá,contudo,nosequívocos,masnadistinçãosutilfeita na conclusão. "Encontramo-nos em meio a um período heroico", "na aurora de uma nova democracia"41, conclui Lukács. A nova democracia, contudo, não é somente a "democracia socialista",mastambémeemespeciala"democraciarevolucionáriadaFrentePopular",umavezque "oheroísmodoscombatentesdaFrentePopular"produzia"conteúdosnovos,superiores,avançados, maisgenerosos,democráticosesociais".SeaFrenteencarnaalutacontraaopressãoemtodoo mundo,podemosafirmarqueotemadademocraciaédefatoograndeeixodotexto.Emoutros

termos,nosanos1930,ofilósofodenunciaaofalarem"aurora"queosocialismodemocráticonão

estava plenamente realizado, pois a "prosa capitalista" continuava impondo suas exigências, até mesmonaUniãoSoviética.

Essessãoostermosnosquaisoautorpostulaarenovaçãodaepopeia,"aepopeiadocidadão",no

chãodeumahistoricidadecomum,paraalémda"épocadaperfeitapecaminosidade".Ofilósofonão

procuramaisreencontraro"céuestrelado"daharmoniaperfeita,talcomofiguradonaépicaantiga, nemabandonao princípio épico daconfiguração deumaexperiênciacomum.Elevislumbraser possívelqueoindivíduoatomizadonasrelaçõescapitalistassupereasrelaçõesreificadasemum futuropróximo,envolvendo-seemumaaventuracoletiva,masjamaisaqualquerpreço,poiscomo

dizHõlderlin,emHipérion12:"Acreditoquesomos,declaraHipérionaBelarmino,pornósmesmos

equesomenteporlivreeespontâneavontadeéquenosligamosintimamenteàtotalidade".

Estelivrofoiescritoem1936-37epublicadoemrussologodepoisdeconcluído.Sehojeoapresento ao leitor alemão

Estelivrofoiescritoem1936-37epublicadoemrussologodepoisdeconcluído.Sehojeoapresento

ao leitor alemão emsuaformaoriginalinalterada,háumarazão paraisso.Poiséclaro queos dezesseisanosquesepassaramaumentaramconsideravelmenteomaterialdoúltimocapítulo.Para citarapenasumexemplo:umaanáliseminuciosadasegundapartedeHenriqueIV,deHeinrichMann, publicadonesseínterim,aumentariadecertoasolidezeaatualidadedoúltimocapítulo.Omesmo valeparaosnovosromancesdeLionFeuchtwanger.Contudo,maisimportantequeissoéofatodeo retratodaépoca,aperspectivaqueneleseexpressatersidoformuladahádezesseisanos,oquetraza desvantagemdequecertasexpectativassemostrarammuitootimistasenãoforamconfirmadaspelos acontecimentos históricos.Assim, o livro deposita esperanças exageradas, ou mesmo falsas, no movimentoautônomodeemancipaçãodopovoalemão,narevoluçãoespanholaetc.

Senãopreenchoessaslacunas,senãocorrijoesseserrosepublicoolivrotalcomofoiescritohá

maisdedezesseisanos,issosedevesobretudoaofatodequeminhascondiçõesatuaisdetrabalho

dificilmentemepermitiriamreformular,emsuaessência,aquiloquefoidesenvolvidoentão;sendo

assim,vi-mediantedaalternativadepublicarestetextoemsuaformainalteradaousimplesmentenão

publicá-lo.

Todavia,dopontodevistacientífico,talmotivonãoseriasuficientesealiteraturadasúltimas duasdécadastivesseinfluenciadodemododecisivoaresolubilidadedasquestõesaquitratadas,o valoreosignificadodosresultadosalcançados.Assimseriaseaproblemáticademeulivrofosse puramentehistórico-literária,setivesseporobjetoeconteúdoapenasodesenvolvimentodoromance histórico(oudodramahistórico),oumesmoosimplesdesdobramentodoespíritohistórico,seu ocasoerevitalização.Comooleitor verá,nãoéesseocaso.Oescopoquepretendiatingir éde naturezateórica.Oquebusqueirealizarfoiumainvestigaçãodainteraçãoentreoespíritohistóricoe agrandeliteraturaqueretrataatotalidadedahistória,eissoapenasemrelaçãoàliteraturaburguesa; a mudança provocada pelo realismo socialista ultrapassa os limites de meu estudo. Em tal problematização,jáestápresente,éclaro,adialéticainterna,amaisteóricaeabstrata,doproblema docaráterhistórico.Oobjetivodomeuestudolimita-se,noentanto,àelaboraçãodoslineamentos principais dessa dialética histórica. Quer dizer: desse desenvolvimento histórico, ele analisa e investigasimplesmenteaquelascorrentes,ramificaçõesepontosdeconfluênciaque,dopontode vista da teoria, são característicos e imprescindíveis.Por isso, não tem pretensão à completude histórica.Oleitor nãodeveesperar encontrar aquiummanualdodesenvolvimentododramaou romancehistóricos,masumtratamento apenasdaquelesescritores,obrasecorrentesdotadosde importânciarepresentativadessepontodevistateórico.Essaéarazãoporqueescritoresdepouca relevânciadopontodevistapuramenteliteráriopuderametiveramdesertratadosdemaneiramais detalhada, enquanto, em outros casos, tive de desconsiderar obras literariamente muito mais importantes.

Dessepontodevista,pudetambémmanterinalteradaaantigaconclusãodaobra,queexplorao

desembocardessedesenvolvimentonopresentedaépoca,naliteraturaantifascistaalemãde1937.A

meuver,issopôdeocorrerporquefoijustamentenessaliteraturaquequestõesteóricasimportantes-

sobretudoaquestãodaforçaedafraquezatemporária,tantoemsentidopolíticoedevisãodemundo quanto emsentido estético -encontraramsuamaisclaraexpressão.Ofato deminhaperspectiva políticanaépocatersereveladodemasiadootimistanãoalteraemnadaosignificadodasquestões teóricasabordadaseosentidoemquesuasoluçãotemdeserbuscada.

Essepropósitodeterminaosproblemasmetodológicosdemeulivro.Emprimeirolugar,como mencioneiacima,aescolhadomaterial.Estelivronãoapresenta,nosentidoestritodapalavra,um desenvolvimento histórico, mas, apesar disso, procura tornar visíveis as linhas principais desse desenvolvimento, as questões mais importantes que nele emergem. O ideal seria, sem dúvida, combinaraelaboraçãototaldopontodevistahistóricocomotratamentoexaustivodatotalidadedo desenvolvimento histórico.Apenas assim poderia ser apreensível a todos a verdadeira força da dialéticamarxista:tornar-se-iacompreensívelque,por suaessência,elanão éfundamentalmente natureza ideada, mas sim um espelhamento ideado [gedankliche Widerpiegelung] do processo histórico.Contudo,nãomeimpusesseidealaoiniciararedaçãodestetrabalho;porisso,considero meulivroumatentativadefixarospontosprincipaisdaquestão,naesperançadequeseseguirãoa eleobrasmaisabrangentes,maiscompletas.

O segundo ponto metodológico decisivo é a investigação da interação do desenvolvimento econômico esocialcomavisão demundo eaformaartísticaqueseengendram apartir desse desenvolvimento.Aquisurgiuumasériedeproblemasnovos,atéentão pouco analisados:abase socialdoisolamentoedaaproximaçãodosgêneros,osurgimentoeodesaparecimentodenovos elementosformaisnessecomplexoprocessodeinteração.Tambémnessesentido,considero meu livrofragmentário;vejo-oapenascomoumcomeço,umatentativa.Nodecorrerdaconcretizaçãoda estética marxista, essa questão praticamente não foi colocada.Contudo, uma teoria marxista do gênero dignadessenomeseráimpossívelenquanto não aplicarmosateoriado espelhamento da dialéticamaterialistaaoproblemadadiferenciaçãodosgêneros.Nocontextodaanálisedalógica dialética, Lenin mostrou de modo genial que os silogismos mais abstratos são também casos abstratosdeespelhamento darealidade.Tenteiaplicar taisideiasemmeulivro sobreosgêneros épicoedramático.Mas,domesmomodoquenotratamentohistórico,tambémtivedemelimitara indicarmetodologicamenteoprocedimentoinvestigativo.Estelivro,portanto,nãotemapretensão defornecerumateoriacompletadasformasdramáticaseépicas,tampoucoapresentaraoleitor,no terrenodahistória,umaexposiçãodetalhadadodesenvolvimentodoromanceedodramahistóricos.

Assim, o livro é, apesar de seu conjunto, apenas uma tentativa, um ensaio: um trabalho preparatóriotantoparaumaestéticamarxistaquantoparaumtratamentomaterialistadahistóriada literaturamoderna.Comisso,pretendoressaltarque,nofimdascontas,consideroestelivroapenas

uma primeira abordagem, à qual faço votos de que outras se sigam em breve e, onde forem necessárias,façamasdevidascorreçõesaosresultadospormimalcançados.Creio,contudo,queesse primeirocomeçotemumajustificativanessesoloaindatãopoucoarado.

Budapeste,marçode1954

Budapeste,marçode1954 Lukácsesuaesposa,GertrudBortstieber,em1951.

Lukácsesuaesposa,GertrudBortstieber,em1951.

Estamonografianãotemdemodoalgumapretensãodefornecerumahistóriacompletaedetalhada

Estamonografianãotemdemodoalgumapretensãodefornecerumahistóriacompletaedetalhada doromancehistórico.Alémdofatodequenãodisponhodostrabalhospréviosparatalempreitada, este nunca foi meu propósito. Quis apenas tratar das questões de teoria e de princípio mais importantes.Dadoopapelextraordinárioqueoromancehistóricodesempenhatantonaliteraturada URSScomonaFrentePopularantifascista,talinvestigação,voltadaparaosprincípios,parece-metão indispensávelquantoatual.Tantomaisqueoromancehistóricodenossosdias,comtodooenorme talentodeseusmelhoresrepresentantes,continuaapadecer,emváriossentidos,dosrestosdaherança nocivaeaindanãoplenamentesuperadadadecadênciaburguesa.Sesepretenderealmentedesvelar essafalha,aatençãodocríticotemdesedirigiràsquestõesdeprincípio,nãoapenasdoromance histórico,masdaliteraturaemgeral.

Masainvestigaçãoteóricaassenta-seaquiemumabasehistórica.Adiferençafundamentalentreo romancehistórico dos clássicos eo dos autores do período da decadência etc.tem suas causas históricas.Eestetrabalhopretendemostrar como agêneseeo desenvolvimento,aascensão eo declíniodo romancehistórico são consequênciasnecessáriasdasgrandesconvulsõessociaisdos temposmodernos,eprovarqueseusdiferentesproblemasformaissãoreflexosdessasconvulsões histórico-sociais.

Assim, o espírito deste trabalho é histórico.Mas aqui não se aspira a nenhuma completude histórica.Sãotratadosapenasaquelesautorescujasobrassãorepresentativas,emcertosentido,e marcampontosdeconfluênciatípicosno caminho do desenvolvimento do romancehistórico.O mesmoprincípiodaescolhaserviuparaainclusãodosantigoscríticos,estetaseliteratosquese ocupamdaliteraturadopontodevistateórico.Emambososterrenos,esforcei-mepordemonstrar que,tambémemrelaçãoaoromancehistórico,nãosetratadeintroduzirasofisticaçãodeumsuposto "radicalmente novo", mas sim - como mostrou Lenin - de apropriar-se de tudo que o desenvolvimentoanteriortemdevaliosoetrabalhá-lodemaneiracrítica.Aatualidadeeocaráter modelardosclássicossãoumproblemacentraltambémparaoromancehistóricocontemporâneo.

Nãocabeamimjulgarquantoouquãopoucominhasintençõesseconcretizaram.Trata-seapenas

deinformaressasintençõesaoleitorparaqueelesaiba,desdeoinício,oquedeveenãodeveesperar

destelivro.

Todavia,desdejáprecisochamaraatençãodoleitorparaumdefeitoqueéconsequênciademeu desenvolvimentopessoal:osromanceshistóricosrussossópuderamsertratadosemtraduçõesem língua estrangeira.Disso resultam, para a história, lacunas sérias e dolorosas.Já em relação à literatura mais antiga foi possível tratar de obras russas mais decisivas no campo da literatura mundial.Daliteraturasoviética,porém,háapenasalgumastraduçõesocasionaisdisponíveis,um

materialtãoinsuficienteedefeituosoqueminhaconsciênciacientíficanãopermitiuque,detaisbases, eupudesseextrairalgumaconclusão.Porisso,tivederenunciaraotratamentodoromancehistórico daliteraturasoviética.Masespero que,apesar disso,minhasconsideraçõespossamdar ao leitor soviético alguma contribuição para o esclarecimento desses importantes problemas, e que essas lacunasemmeutrabalhosejampreenchidasporoutrosomaisbrevementepossível.

Moscou,setembrode1937

1.Ascondiçõessócio-históricasdosurgimentodoromancehistórico
1.Ascondiçõessócio-históricasdosurgimentodoromancehistórico

Oromancehistórico surgiuno início do século XIX,por voltadaépocadaquedadeNapoleão

(Waverley*,deWalterScott,foipublicadoem1814).Éóbvioque,jánosséculosXVIIeXVIII,havia

romancesdetemáticahistórica,equemdesejarpodeatéconsiderarasadaptaçõesdehistóriasemitos antigosnaIdadeMédia"precursoras"doromancehistóricoeiralém,retrocedendoàChinaeàÍndia. Maspor essavianãoseencontraránadaquepossadealgummodoiluminar,emsuaessência,o fenômeno do romance histórico. Os chamados romances históricos do século XVII (Scudéry, Calprenèdeetc.)sãohistóricosapenasporsuatemáticapuramenteexterior,porsuaroupagem.Não sóapsicologiadaspersonagens,comotambémoscostumesretratadossãointeiramentedaépocado escritor.Omaisfamoso"romancehistórico"doséculoXVIII,OcastelodeOtranto**,deWalpole, trata a história apenas como roupagem; somente importa aqui a exposição da curiosidade e da excentricidadedomeio,enãooretratoartísticofieldeumaépocahistóricaconcreta.Oquefaltaao pretensoromancehistóricoanterioraodeWalterScottéoelementoespecificamentehistórico:ofato deaparticularidadedoshomensativosderivardaespecificidadehistóricadeseutempo.Ogrande crítico Boileau, que se mostrava muito cético em relação aos romances histó ricos de seus contemporâneos, considera importante apenas a verdade social e psicológica das personagens e exigequeumsenhoramedemododiferentedeumpastoretc.Aquestãodaverdadehistóricana descriçãoficcionaldarealidadepermaneceforadeseuhorizonte.

Mas o grande romance social realista do século XVIII, que na figuração [Gestaltung]* dos costumesedapsicologiadeseutempopromoveumaaberturaseminalparaarealidade,tambémnão colocaoproblemadadeterminidadetemporal[Zeitbestimmtheit]concretadoshomensretratados.O presentehistóricoéfiguradocomextraordináriaplasticidadeeverossimilhança,maséingenuamente aceitocomoumente:apartirdeondeecomoelesedesenvolveuéalgoqueaindanãosepõenoato de figuração do escritor. Essa abstratividade na figuração do tempo histórico também tem consequênciasparaafiguração do espaço histórico.Semgrandesproblemas,Lesageaindapode transferirparaaEspanhaapinturaaltamentefidedignaquefazdaFrançadesuaépoca.Swift,Voltaire emesmoDiderotfazemseusromancessatíricossedesenrolarememumnuncaeemumlugaralgum queaindaassimrefletemfielmenteostraçosessenciaisdaInglaterraedaFrançadaqueletempo. Essesescritorescaptamostraçosessenciaisdeseupresentehistóricocomumrealismoousadoe perspicaz,masnãoveemhistoricamenteaquiloqueéespecíficodeseuprópriotempo.

Essaposturainicialnãoéalteradaemessênciapeloavançocadavezmaisfortedorealismo,que

trazàtonaostraçosespecíficosdopresentecomgrandevigorficcional.Considerem-seromances

comoMollFlanders**,TomJones***etc.Nessarepresentaçãomagnificamenterealistadopresente

incluem-seacontecimentossignificativosdaépocaque,noenredo,estãoligadosaosdestinosdos homens figurados. Com isso, especialmente em Smollett e Fielding, o tempo e o espaço do acontecimento são concretizados de modo muito mais intenso do que nos períodos iniciais do romance social e como era regra nos franceses contemporâneos. Fielding até possui certa consciênciadessapráxis,desseprocessodeconcretizaçãodoromanceemdireçãoàapreensãoda particularidadedoshomensedoseventosfigurados.Elechamaasimesmo,como escritor,de historiadordasociedadeburguesa.

Umaanálisedahistóriapregressadoromancehistóricoteriaabsolutamentedederrubaralenda romântico-reacionáriadequeoIluminismoteriasidoestérildequalquersentidoecompreensãoda históriaesomenteosadversáriosdaRevolução Francesa,osBurke,DeMaistreeoutros,teriam descoberto o sentido histórico. Basta que se pense nas extraordinárias conquistas históricas de Montesquieu,Voltaire,Gibbonetc.paralançartallendaporterra.

Paranós,porém,trata-sedeconcretizar o caráter particular dessesentido dahistóriaantese depoisdaRevoluçãoFrancesaparavisualizar comclarezasobrequalsolosocialeideológicoo romancehistóricopôdesurgir.EaquitemosderessaltarqueahistoriografiadoIluminismofoi,em suaslinhasessenciais,umapreparaçãoideológicadaRevoluçãoFrancesa.Aconstruçãodahistória, quepor vezes revelafatos econtextos novos egrandiosos,servepara provar a necessidade de revolucionar asociedade"irracional"doabsolutismofeudalafimdeextrair dasexperiênciasda história aqueles princípios com os quais se pode criar uma sociedade "racional", um Estado "racional".Porisso,aAntiguidadesesituanocentrodateoriahistóricaedapráxisdoIluminismo.A investigaçãodascausasdagrandezaedodeclíniodosEstadosantigoséumdosmaisimportantes pressupostosteóricosparaafuturareconfiguraçãodasociedade.

IssosereferesobretudoàFrança,opaísquemaissedestacouintelectualmentenoperíododo Iluminismomilitante.AsituaçãodaInglaterraéumpoucodiferente.Defato,noséculoXVIIIopaís encontrava-se em um profundo processo de transformação econômica, em plena criação das precondiçõessocioeconômicasdaRevoluçãoIndustrial,masdopontodevistapolíticojáeraumpaís pós-revolucionário.Quantoàrealizaçãoeàcríticadasociedadeburguesa,àlapidaçãodosprincípios daeconomiapolítica,aapreensãoconcretadahistóriacomohistóriadesempenhaumpapelmais importantenaInglaterraquenaFrança.Masaconsciênciaeaconsistêncianaexecuçãodessespontos devistahistóricosespecíficosaindasãoepisódicasnodesenvolvimentogeral.Porvoltadofimdo século XVIII, o teórico mais importante é Adam Smith.James Steuart, que pôs o problema da economiacapitalistademodomaishistóricoededicou-seàinvestigaçãodoprocessodeformação docapital,logocaiuemesquecimento.Marxcaracterizadaseguintemaneiraadiferençaentreesses doisimportanteseconomistas:

O mérito de Steuartpara a apreensão do capital consiste na demonstração de como se dá o processodeseparaçãoentreascondiçõesdeprodução,comoapropriedadededeterminadaclasse

e a força de trabalho. Para esse processo de formação do capital - sem ainda apreendê-lo diretamentecomotal(grifosmeus,G.L.),emboraoapreendacomocondiçãodagrandeindústria -,eleseocupabasicamentedaagriculturaenelaobservaesseprocesso;somentepormeiodesse processo de separação na agricultura é que se forma,como ele vê corretamente,a indústria manufatureira.EmAdamSmith,talprocessodeseparaçãojáseencontrapressuposto.*

Essedesconhecimentodoalcancedosentidohistóricoqueocorrenaprática,dapossibilidadede universalizaçãodaespecificidadehistóricadopresenteimediato,observadacorretamentedemodo instintivo,caracterizao lugar queo granderomancesocialinglêsocupano desenvolvimento de nossoproblema.Foielequeconduziuoolhardoescritoraosignificadoconcreto(istoé,histórico) doespaçoedotempo,dascondiçõessociaisetc.;foielequecriouomeiodeexpressãoliterário, realista,paraafiguraçãodessaespecificidadeespaço-temporal(istoé,histórica)doshomensedas relações.Masisso,talcomonaeconomiadeSteuart,deu-seporuminstintorealistaenãochegoua uma clareza sobre a história como processo, sobre a história como precondição concreta do presente.

Somente no último período do Iluminismo o problema do espelhamento artístico de épocas passadas emergecomo umaquestão central daliteratura.Isso ocorreunaAlemanha.Todavia,a ideologiadoIluminismoalemãosegue,antesdetudo,atrilhadoIluminismofrancêseinglêse,no essencial, as grandes realizações de Winckelmann e Lessing não abandonam a linha geral de desenvolvimentodoIluminismo.Lessing,decujaimportantecontribuiçãoparaoentendimentodo problema do drama histórico falaremos mais adiante, ainda define a relação do literato com a históriainteiramentenosentidodafilosofiadoIluminismo.Elesustentaqueahistória,paraogrande dramaturgo,nãoseriamaisqueum"repertório"denomes.

Contudo,logodepoisdeLessing,no"SturmundDrang",odomíniodahistóriapeloescritorjá emergecomoumproblemaconsciente.OdramaGõtzvonBerlichingen,deGoethe,nãoapenastraz consigoumreflorescimentododramahistórico,mastambémexerceumainfluênciaforteediretana formação do romancehistórico emWalter Scott.Essaascensão conscientedo historicismo,que encontrasuaprimeiraexpressãoteóricanosescritosdeHerder,temsuasraízesnasituaçãoparticular da Alemanha, na discrepância entre o atraso econômico e político do país e a ideologia dos iluministasalemães,que,apoiando-seemseuspredecessoresinglesesefranceses,levaramasideias doIluminismoaumpatamarmaiselevado.Comisso,nãosóascontradiçõesgeraisqueestãonabase detodaaideologiadoIluminismoaparecemdemodomaisagudoquenaFrança,comotambéma oposiçãoespecíficaentreessasideiasearealidadealemãsãoalçadasenergicamenteaoprimeiro plano.

Na Inglaterra e na França, a preparação econômica, política e ideológica, a consumação da revolução burguesa e o processo de constituição do Estado nacional são um único e mesmo processo.Opatriotismorevolucionárioburguêsaindapodeserforteeproduzirobrasimportantes(a

Henríada*,deVoltaire),mas,aoorientar-separaopassado,oquepredominaéacríticailuministado "irracional".NaAlemanha,asituaçãoétotalmentediferente.Opatriotismorevolucionáriocolide comadesuniãonacionalecomumafragmentaçãopolíticaeeconômicacujaexpressãoculturale ideológicaéumamercadoriaimportadadaFrança.Poistudoquefoiproduzidonaspequenascortes alemãsemtermosdeculturae,sobretudo,depseudoculturanãopassoudeumaimitaçãoservilda cortefrancesa.Aspequenascortessão,portanto,nãoapenasumempecilhopolíticoparaaunidade alemã, mas também estorvam ideologicamente o desenvolvimento de uma cultura que teria de originar-se das necessidades da vida burguesa alemã. A forma alemã do Iluminismo tem necessariamentedemanter-seemagudapolêmicacomessaculturafrancesa,eelaconservaessetom depatriotismorevolucionáriomesmoondeoconteúdoessencialdalutaideológicaéoconflitoentre diferentesgrausdedesenvolvimentodoIluminismo(alutadeLessingcontraVoltaire).

Dessa situação resulta necessariamente um retorno à história alemã. A esperança de um renascimentonacionalextraisuasforçasempartedoreavivamentodagrandezanacionalpassada.A lutaporessagrandezanacionalrequerqueascausashistóricasdodeclínioedaruínadaAlemanha sejampesquisadaseapresentadasartisticamente.Porisso,naAlemanha,quenoséculopassadofoi apenasobjetodastransformaçõeshistóricas,ahistorizaçãodaartesurgiumuitoantesedemodo maisradicalquenospaíseseconômicaepoliticamentemaisavançadosdoOcidente.

PrimeirofoiaRevoluçãoFrancesa,asguerrasrevolucionárias,aascensãoeaquedadeNapoleão

quefizeramdahistóriaumaexperiênciadasmassas,eemescalaeuropeia.Entre1789e1814,as

naçõeseuropeiasviverammaisrevoluçõesqueemséculosinteiros.Eaceleridadedasmudanças

confereaessasrevoluçõesumcaráterqualitativamenteespecial,apaganasmassasaimpressãode

"acontecimentonatural",tornaocaráterhistóricodasrevoluçõesmuitomaisvisíveldoquecostuma

ocorreremcasosisolados.Paradarmosapenasumexemplo,bastalerasmemóriasjuvenisdeHeine

emOlivrodeLeGrand*,emqueeleretratacomvivacidadeomodocomoarápidamudançados

governosafetouomeninoHeine.Seaessaexperiênciavemunir-seoreconhecimentodequetais

revoluçõesocorremnomundointeiro,fortalece-seextraordinariamenteosentimentodequeexiste

umahistória,dequeessahistóriaéumprocessoininterruptodemudançase,porfim,dequeela

interferediretamentenavidadecadaindivíduo.

Essa elevação quantitativa ao patamar qualitativo mostra-se também na diferença entre essas guerrasetodasasanteriores.AsguerrasdosEstadosabsolutistasdaépocapré-revolucionáriaforam travadaspor pequenosexércitosmercenários.Ocomandodaguerratinhapor princípioafastar o máximopossíveloexércitodapopulaçãocivil(abastecimentopormeiodearmazénsmóveis,medo dedeserçãoetc.).NãofoiàtoaqueFredericoIIdaPrússiaexpressouaideiadequeaguerradeveria sertravadadetalmodoqueapopulaçãocivilnadapercebesse."Aordeméaprimeiraobrigaçãodo cidadão"eraadivisadasguerrasdoabsolutismo.

IssomudadeumsógolpecomaRevoluçãoFrancesa.Emsuaguerradefensivacontraacoalizão

dasmonarquiasabsolutas,aRepúblicaFrancesafoiforçadaacriarexércitosdemassa.Noentanto,a diferençaentreosexércitosmercenárioseosdemassaéqualitativaedizrespeitoprecisamenteà relaçãoestabelecidacomamassadapopulação.Sesetratadeformarumexércitodemassas,emvez derecrutarpequenoscontingentesdemarginaisparaoserviçomilitarouforçá-losaservir,entãoo conteúdoeafinalidadedaguerratêmdeserexpostosàpopulaçãodemaneiraclara,naformade propaganda.Isso ocorreunaprópriaFrança,no momento dadefesadaRevolução eemguerras ofensivas posteriores,mas outros Estados também foram obrigados a lançar mão desses meios quando tiveramdecriar exércitosdemassa.(Bastapensar no papelquealiteraturaeafilosofia alemãsdesempenharamnessapropagandaapósaBatalhadeJena.)Essapropaganda,noentanto,não podelimitar-seaumaúnicaguerraisolada.Elatemderevelaroconteúdosocial,ospressupostos históricoseascircunstânciasdaluta,estabeleceraconexãodaguerracomavidaemsuatotalidadee comaspossibilidadesdedesenvolvimentodanação.Bastaapontarmosaquiaimportânciadadefesa dasconquistasdaRevoluçãonaFrança,ovínculoentreacriaçãodoexércitodemassaseasreformas sociaisnaAlemanhaeemoutrospaíses.

Avidainterior do povo estáligadaao moderno exército demassasdemodo muito diferente daquelecomosexércitosabsolutistas.NaFrança,caiabarreirasocialentreooficialnobreeatropa:

aascensãoaosmaisaltospostosdoExércitoestáabertaatodos,esabe-sequetaisbarreirascaem precisamenteporobradaRevolução.EmesmonospaísesemlutacontraaRevoluçãoéinevitável que surjam ao menos algumas brechas nas barreiras sociais.Asimples leitura dos escritos de Gneisenauésuficienteparaquesevejao claro vínculo entreessas reformas eanovasituação históricacriadapelaRevoluçãoFrancesa.Acrescenta-seaissoofatodeque,duranteaguerra,é precisodestruir asantigaslinhasdivisóriasentreoExércitoeopovo.Nocasodosexércitosde massas,oabastecimentoporarmazénsmóveiséimpossível.Comotêmdegarantirsuasprovisões porrequisição,éinevitávelqueessesexércitosestabeleçamumvínculoimediatoeininterruptocom opovodopaísondeaguerraétravada.Éverdadeque,nomaisdasvezes,essevínculoconsisteem roubosesaques.Masnemsempreéassim.EnãosepodeesquecerdequeasguerrasdaRevoluçãoe, decertomodo,asdeNapoleãoforamconscientementetravadascomoguerrasdepropaganda.

Porfim,aenormeexpansãoquantitativadasguerrastemumnovopapelqualitativoetrazconsigo uma extraordinária ampliação de horizontes.Enquanto as guerras dos exércitos mercenários do absolutismoconsistiamemsuamaioriaempequenasmanobrasemtornodasfortalezasetc.,agoraé aEuropainteiraquesetransformaempalcodeguerra.OscamponesesfranceseslutamnoEgito, depoisnaItáliaeentãonaRússia;tropasauxiliaresalemãseitalianasparticipamdacampanhacontra aRússia;tropasalemãserussassãodeslocadasparaParisdepoisdaquedadeNapoleãoetc.Oque antessomenteindivíduosisoladosecomvocaçãoaventureirapodiamvivenciar,istoé,conhecera Europaou,nomínimo,determinadapartedaEuropa,torna-se,nesseperíodo,umaexperiênciade massa,acessívelacentenasdemilharesoumilhõesdepessoas.

Assim,criam-sepossibilidadesconcretasparaqueoshomensapreendamsuaprópriaexistência comoalgohistoricamentecondicionado,vejamnahistóriaalgoquedeterminaprofundamentesua existênciacotidiana,algo quelhesdizrespeito diretamente.Édesnecessário falar dasconvulsões sociaisnaprópriaFrança.Éevidentedesdejácomoasgrandes,rápidasesucessivasreviravoltas desseperíodoconturbaramavidaeconômicaeculturaldetodaanação.Masdevemosapontarparao fatodequeosexércitosdaRevoluçãoe,maistarde,osdeNapoleãoliquidaramtotalouparcialmente osremanescentesdofeudalismoemmuitoslugaresconquistadosporeles,porexemplo,naRenâniae nonortedaItália.AposiçãosocialeculturaldaRenâniaemrelaçãoaorestantedaAlemanha,que

aindapodeserfortementesentidanaRevoluçãode1848,éumaherançadoperíodonapoleônico.E

amplasmassastomamconsciênciadonexodessasconvulsõessociaiscomaRevoluçãoFrancesa.

Tambémaquinoslimitamosaapontaralgunsreflexosliterários.Aoladodasmemóriasjuvenisde

Heine,ébastanteinstrutivoleroprimeirocapítulodeAcartuxadeParma*,deStendhal,paravera

marcaindelévelqueodomíniofrancêsdeixounonortedaItália.

Édaessênciadarevolução burguesa,quando levadaseriamenteatéo fim,queo pensamento nacionalsejaapropriadopelasmassas.FoisomenteemconsequênciadaRevoluçãoedodomínio napoleônico que o sentimento nacional se tornou vivência e propriedade do campesinato, das camadasmaisbaixasdapequenaburguesiaetc.EssafoiaúnicaFrançaqueelesvivenciaramcomo paíspróprio,comopátriacriadaporeles.

Masodespertardosentimentonacionale,consequentemente,dasensibilidadeedoentendimento paraahistórianacionalnãoocorreapenasnaFrança.Asguerrasnapoleônicasprovocamportoda parteumaondadesentimentonacional,derevoltanacionalcontraasconquistasnapoleônicas,uma experiência de entusiasmo pela autonomia nacional. E claro que, na maioria das vezes, esses movimentossão,comodizMarx,umamisturade"regeneraçãoereação"**.AssiménaEspanha,na Alemanha etc.Já na luta pela independência da Polônia, a deflagração do sentimento nacional polonêséummovimentoprogressistaemsuatendênciaprincipal.Independentementedomodocomo amisturade"regeneraçãoereação"seapresentenosmovimentosnacionaissingulares,estáclaro quetaismovimentos,queforammovimentosdemassas,levaramaamplasmassasavivênciada história.Areivindicaçãodaautonomiaedaparticularidadeestánecessariamenteligadaaumnovo despertardahistórianacional,comrecordaçõesdopassado,daglóriapassada,dosmomentosde humilhaçãonacional,epoucoimportaseissoresultaemideologiasprogressistasoureacionárias.

Assim,nessavivênciadahistóriapelasmassas,porumlado,oelementonacionalvincula-seaos problemasdareconfiguração social,e,por outro,o vínculo dahistórianacionalcomahistória mundialtorna-seconscienteemcírculoscadavezmaiores.Essaconsciênciaprogressivadocaráter históricododesenvolvimentotambémcomeçaaseevidenciarnojuízocríticosobreascondições econômicaseaslutasdeclasses.NoséculoXVIII,apenasalgunscríticosisoladosebrilhantemente paradoxaisdocapitalismoincipientecompararamaexploraçãodotrabalhopelocapitalàsformasde

exploraçãodosperíodosanteriores,revelandoassimocapitalismocomoaformamaisdesumana (Linguet).NalutaideológicacontraaRevoluçãoFrancesa,essacomparaçãoemlargaescala-sem dúvida,economicamenteinconsistente,reacionáriaetendenciosa-entreasociedadeantesedepoisda Revoluçãotorna-seogritodeguerradoromantismolegitimista.Adesumanidadedocapitalismo,o caosdaconcorrência,aeliminaçãodopequenopelogrande,orebaixamentodaculturapelofatode todasascoisassetornaremmercadoria,tudoissoécontrastado,emgeraldeformareacionáriae tendenciosa,comoidíliosocialdaIdadeMédia,comooperíododacooperaçãopacíficadetodasas classes,comoaeradocrescimentoorgânicodacultura.Mas,seemgeralatendênciareacionária predominanessesescritospolêmicos,nãodevemosesquecerqueéapenasnesseperíodoquesurgea primeira representação do capitalismo como um período historicamente determinado do desenvolvimento da humanidade, e isso não nos grandes teóricos do capitalismo, mas em seus oponentes.BastamencionaraquiSismondi,que,apesardetodaaconfusãoteóricadesuasposições deprincípio,expôscommuitaclarezaproblemashistóricosdodesenvolvimentoeconômico.Basta citarsuaafirmaçãodequenaAntiguidadeoproletariadoviviaàcustadasociedade,aopassoque,na épocamoderna,éasociedadequeviveàcustadoproletariado.

Apartirdessasconsiderações,ficaclaroqueatendênciadohistoricismoatornar-seconsciente atingeseuápicenoperíodoapósaquedadeNapoleão,naépocadaRestauração,daSantaAliança.É evidente que o espírito desse historicismo, que pela primeira vez domina e torna-se oficial, é reacionário e, em sua essência, pseudo-histórico. A concepção da história, o periodismo e a beletrísticadolegitimismodesenvolvemoespíritohistóricoemásperaoposiçãoaoIluminismo,às ideias da Revolução Francesa. O ideal do legitimismo é o retorno às condições anteriores à RevoluçãoFrancesa,expurgandodahistóriaasmaioresrealizaçõesdaépoca.

Ahistória,segundoessaconcepção,éumcrescimentocalmo,imperceptível,natural,"orgânico". Querdizer:umdesenvolvimentodasociedadequeemessênciaéestagnação,quenãoalteraemnada as instituições legítimas e consagradas da sociedade e, sobretudo, não altera nada de modo consciente.Aatividadedohomemnahistóriadevesertotalmentedescartada.AEscolaHistóricado Direitoalemãconfiscaaopovoatémesmoodireitodedarnovasleisasimesmoedefendequetudo deve ser deixado a cargo do "crescimento orgânico" dos antigos e variegados direitos consuetudináriosfeudais.

Surge nesse terreno, sob a bandeira do historicismo, do combate ao espírito "abstrato" e "anistórico"doIluminismo,umpseudo-historicismo,umaideologiadoimobilismo,doretornoà

IdadeMédia.No interessedessesobjetivospolíticosreacionários,o desenvolvimento histórico é inescrupulosamentedistorcido,eocarátermentirosointrínsecoàideologiareacionáriaéaindamais

intensificadopelofatodequearestauraçãonaFrançaéforçadaporrazõeseconômicasaconformar-

sesocialmentecomocapitalismo,quecresceunesseínterim,eatéaapoiar-seneleeconômicae politicamente.(Asituação dosgovernosreacionáriosnaPrússia,naÁustriaetc.ésemelhante.)É

sobreessabaseentãoqueahistóriadeveserreescrita.Chateaubriandseesforçaparareverahistória

antigae,comisso,depreciarhistoricamenteovelhomodelorevolucionáriodoperíodojacobinoe

napoleônico.Eleeoutrospseudo-historiadoresdareaçãofornecemumquadroidílicoementiroso

dainsuperadaeharmônicasociedadedaIdadeMédia.TalconcepçãohistóricadaIdadeMédiatorna-

secrucialparaafiguraçãodaépocafeudalnoromanceromânticodoperíododaRestauração.

Apesar dessa mediocridade ideológica do pseudo-historicismo legitimista, ele tem um efeito extraordinariamenteforte.Éumaexpressãodistorcidaementirosa,mashistoricamentenecessáriado grande período de convulsão pro vocado pela Revolução Francesa. E o novo grau de desenvolvimento que começa justamente com a Restauração obriga os defensores do progresso humano a criar uma nova armadura ideológica. Vimos que o Iluminismo combateu com inescrupulosaenergiaalegitimidadeeacontinuidadedosresquíciosfeudais.Vimostambémqueo legitimismopós-revolucionáriodetectousuaconservaçãocomoessênciadahistória.Adefesado progresso após a Revolução Francesa tinha de resultar necessariamente em uma concepção que demonstrasseanecessidadehistóricadaRevoluçãoFrancesa,apresentasseprovasdequeestaforao apogeu de um desenvolvimento histórico longo e gradual, e não um súbito obscurecimento da consciênciadahumanidade,umacataclísmica"catástrofenatural"nahistóriadahumanidade,edeque aevoluçãofuturadahumanidadesóépossívelporessecaminho.

Comisso,porém,operou-seumagrandemudançadevisãodemundonaconcepçãodoprogresso humano,emcomparaçãocomoIluminismo.Oprogressodeixadeservistocomoumprogressona lutaessencialmenteanistóricadarazãohumanistacontraarazãofeudalabsolutista.Segundoessa nova concepção, a racionalidade do progresso humano é desenvolvida de modo cada vez mais acentuadoapartir doconflitointernodasforçassociaisnaprópriahistória;deacordocomessa concepção,aprópriahistóriadeveseraportadoraearealizadoradoprogressohumano.Omais importanteaquiéaconsciênciahistóricacadavezmaior do papeldecisivoquealutadeclasses desempenhanoprogressohistóricodahumanidade.Onovoespíritodehistoricidade,quepodeser vistocommaisnitideznosgrandeshistoriadoresfrancesesdoperíododaRestauração,concentra-se precisamentenestaquestão:nasprovashistóricasdequeasociedademodernasurgiudaslutasde classesentreanobrezaeaburguesia,daslutasdeclassequefulminarama"IdadeMédiaidílica"e cujaúltimaedecisivaetapafoiagrandeRevoluçãoFrancesa.Dessecírculodeideiassurgepela primeiravezumatentativadeperiodizaçãoracionaldahistória,umatentativadeapreenderdemodo racionalecientíficoaespecificidadehistóricaeagênesedopresente.Aprimeiratentativaabrangente de periodização é realizada em meio à Revolução Francesa na obra histórico-filosófica de Condorcet.No período daRestauração,essasideiasrecebemumdesenvolvimento ulterior esão cientificamentedesmanteladas.Nasobrasdosgrandesutopistas,aperiodizaçãodahistóriatranscende ohorizontedasociedadeburguesa.Eseessatransição,essepassoparaalémdocapitalismoaindase dápor caminhosfantasiosos,suafundamentação científica,crítico-históricaestávinculadaauma críticaarrasadoradascontradiçõesdasociedadeburguesa.EmFourier,apesar detodo o aspecto

fantasioso dasrepresentaçõesdo socialismo edasviasparaatingir o socialismo, a imagem do capitalismo é mostrada de forma tão clara em seu caráter contraditório que a ideia do caráter transitóriodessasociedadeaparecedemodotangíveleconcreto.

Essanovaetapanadefesaintelectualdoprogressohumanoencontrousuaexpressãofilosóficaem Hegel.Comovimos,aquestãohistóricacentraleraprovar anecessidadedaRevoluçãoFrancesa, provarquerevoluçãoedesenvolvimentohistóriconãoseopõem,comosustentavamosapologistas do legitimismo feudal. Afilosofia hegeliana dá a essa concepção histórica sua fundamentação filosófica;quandoconsideradahistoricamente,aleiuniversaldatransformaçãodaquantidadeem qualidade, descoberta por Hegel, é uma metodologia filosófica para a concepção de que as revoluçõessãocomponentesorgânicosnecessáriosdaevoluçãoedequeumaevoluçãoefetivasem um"pontonodaldasproporções"éimpossívelefilosoficamenteimpensávelnarealidade.

Opera-sesobreessabaseumasuprassunção[Aufhebung]filosóficadaconcepçãoiluministado homem.Omaior obstáculo paraacompreensão dahistóriaestavano fato dequeo Iluminismo pensava a essência humana como imutável, de modo que a mudança no decorrer da história significaria,emcasosextremos,apenasumaalteraçãodocostumee,emgeral,umameraoscilação moraldohomem.Afilosofiahegelianaextraitodasasconsequênciasdohistoricismoprogressista quesurgia.Elavêohomemcomoprodutodesimesmo,desuaprópriaatividadenahistória.Ese esse processo histórico também aparece idealisticamente invertido, se seu portador também é mistificado como "espírito do mundo"[Weltgeist],Hegel concebeesseespírito do mundo como encarnaçãodadialéticadodesenvolvimentohistórico.

Assim o espírito é contrário a si mesmo (na história), deve superar-se como o verdadeiro obstáculohostilaseuobjetivo:odesenvolvimento( )énoespírito( )umalutaárduaeinfinita contrasimesmo.Oqueoespíritoqueréalcançarseupróprioconceito,maselepróprioesconde desimesmoesseconceitoepermaneceorgulhosoeplenodesatisfaçãoconsigomesmonessa alienaçãodesi( ).Comaformaespiritual,issosedádemododiferente(danatureza):aqui,a mudançanãoocorreapenasnasuperfície,masnoconceito.Opróprioconceitoéretificado.

Nessapassagem,Hegelfornece-demodoidealistaeabstrato,semdúvida-umacaracterística precisadaviradaideológicaqueocorreuemsuaépoca.Opensamentodaépocaantigaoscilavano interior da antinomia entre uma concepção fatalista-legalista de todo evento social e uma sobrevalorizaçãodaspossibilidadesdaintervençãoconscientenodesenvolvimentodasociedade.Nos doisladosdaantinomia,osprincípioserampensadoscomo"supra-históricos",comoprovenientes daessência"eterna"da"razão".Hegel,aocontrário,vênahistóriaumprocessoimpulsionadopelas forças motoras intrínsecas da história, cujo efeito atinge todos os fenômenos da vida humana, inclusiveopensamento.Elevêavidadahumanidadecomoumgrandeprocessohistórico.

Comisso,surgeumnovohumanismo,umnovoconceitodoprogresso,tantodopontodevista

históricoconcretoquantofilosófico.UmhumanismoquequerpreservarasconquistasdaRevolução Francesa como fundamento irrenunciável do futuro desenvolvimento humano, que concebe a Revolução (e, de modo geral, todas as revoluções da história) como parte indispensável do progressohumano.Certamente,essenovohumanismohistóricotambéméprodutodeseutempoe não pode ultrapassar seu horizonte, a não ser de forma fantasiosa, como fizeram os grandes utopistas.Osgrandeshumanistasburguesesdesseperíodoencontram-seemumasituaçãoparadoxal:

emboracompreendamanecessidadedasrevoluçõesnopassadoevejamnelasofundamentodetudo

queéracionaleafirmativonopresente,concebemodesenvolvimentofuturocomoumaevolução

pacíficaapartirdessasconquistas.Comomostramuitocorretamenteosr.Lifschitzemseuartigo

sobreaestéticahegeliana,procuramopositivonanovarealidademundialcriadapelaRevolução Francesa e creem que para a realização definitiva desse positivo não seja necessária uma nova

revolução.Essaconcepçãodoúltimograndeperíodo-emtermostantoracionaisquantoficcionais-

dohumanismoburguêsnãoguardanenhumarelaçãocomaapologéticarasaevaziadocapitalismo quefoi instauradadepoisdele(e,em parte,ao mesmo tempo queele).Elasealicerçaem uma investigação e em uma descoberta impiedosamente verdadeiras de todas as contradições do progresso.Nãoseintimidadiantedenenhumacríticadopresente.E,mesmonãopodendoultrapassar

de maneira consciente o horizonte espiritual de seu tempo, a experiência sempre opressiva das contradiçõesdesuaprópriacondiçãohistóricalançaumasombraprofundasobretodaaconcepção

dahistória.Emrazãodeseucaráterinconsciente,essesentimento-contrárioàconcepçãofilosófico-

históricaqueanunciaumprogressocalmoeinfinito-deviverumúltimoflorescerintelectualda humanidade, curto e único, é expresso de forma bastante distinta nos últimos representantes significativosdesseperíodo.Pelomesmomotivo,oacentosentimentalémuitosemelhanteemtodos eles.Pensemosnateoriada"renúncia"[Entsagung]do velho Goethe,na"corujadeMinerva"de Hegel,quesóalçavooaoentardecer,nosentimentodedecadênciadomundoemBalzacetc.Apenasa Revolução de 1848 pôs os sobreviventes dessa época diante da alternativa de reconhecer a

perspectivadonovoperíododedesenvolvimentodahumanidadeeafirmá-la,mesmocomumacisão trágicadosentimento,comoemHeine,oudecairaoníveldeapologistasdocapitalismodecadente, como Marx mostrou criticamente, logo após a Revolução de 1848, a respeito de homens tão importantescomoGuizoteCarlyle.

H.WalterScott

Foisobreessabasehistóricaquesurgiu,comaobradeWalter Scott,oromancehistórico.Esse contexto não pode ser apreendido no sentido idealista da "história do espírito".Isso levantaria hipótesessutisacercadoscaminhospelosquais,por exemplo,opensamentohegelianochegoua Scott,ouonde,emquaisescritoresesquecidosdevemserbuscadasasfontesdohistoricismodeScott eHegel.Sabe-secomtodacertezaqueWalterScottnãoconheceuafilosofiahegeliana,eéprovável que,seativesseemmãos,nãoentendesseumapalavrasequer.Anovaconcepçãodahistóriados

grandeshistoriadoresdoperíododaRestauraçãoéposteriorasuasobraseatéinfluenciadaporelas noquedizrespeitoacertasproblematizações.Orastreamentofilosófico-filológicode"influências" queestánamodahojeemdiaétãoinfrutíferoparaahistoriografiaquantoovelhorastreamento filológicodeinfluênciasrecíprocasentreescritoressingulares.NocasodeScottemespecial,jáfoi moda listar uma longa série de escritores de segunda e terceira categorias (Radcliffe etc.) que supostamenteteriamsidoseusprecursoresliterários.Masesseprocedimentonãonosfazavançar nem um passo sequer na compreensão do novo na arte de Scott, na compreensão do romance histórico.

Nas observações anteriores, procuramos delinear os contornos gerais daquelas convulsões econômico-políticasqueocorreramportodaaEuropaemconsequênciadaRevoluçãoFrancesae esboçamosbrevementesuasrepercussõesideológicas.Essesacontecimentos,essaconvulsãodosere daconsciênciadoshomensemtodaaEuropaformamasbaseseconômicaseideológicasparao surgimentodoromancehistóricodeWalterScott.Aprovabiográficadosmotivossingularesque levaramScottatomarconsciênciadessascorrentesnãotemnenhumaimportânciaparaahistóriareal daformaçãodoromancehistórico.EmenosaindanamedidaemqueScottintegraogrupodaqueles grandesescritorescujaprofundidadeseexpressasobretudoemsuaspersonagens,umaprofundidade queelespróprioscomfrequêncianão compreendem,porquesurgedo domínio verdadeiramente realistadomaterial,emconflitocomsuasvisõesepreconceitospessoais.

Oromancehistóricoscottianoécontinuaçãodiretadogranderomancesocialrealistadoséculo XVIII.OsestudosdeScottsobreessesescritores-estudosque,dopontodevistateórico,nãosão muitoprofundosemgeral-denotamumconhecimentomuitointenso,muitopormenorizadodessa literatura. Mas sua criação, em relação à deles, significa algo inteiramente novo. Seus contemporâneosviramcomclarezaessanovidade.Púchkinescrevesobreele:

AinfluênciadeWalterScottpodeserpercebidaemtodososterrenosdaliteraturadesuaépoca. Anovaescolados historiadores franceses formou-sesobainfluênciadaideia do romancista

scottiano. Ele lhes mostrou fontes inteiramente novas, até então desconhecidas, apesar da

existênciadosdramashistóricosdeShakespeareeGoethe(

).

EBalzacressalta,emsuacríticaaAcartuxadeParma,deStendhal,osnovostraçosestéticosque o romance de Walter Scott introduziu na literatura épica: o amplo retrato dos costumes e das circunstânciasdosacontecimentos,ocaráterdramáticodaaçãoe,emestreitarelaçãocomisso,o novoeimportantepapeldodiálogonoromance.

NãofoiporacasoqueessenovotipoderomancesurgiuexatamentenaInglaterra.Járessaltamos, aotratardaliteraturadoséculoXVIII,osimportantestraçosrealistasdoromanceinglêsnessaépoca e caracterizamo-los como consequências necessárias do caráter pós-revolucionário do desenvolvimentodaInglaterraemoposiçãoàFrançaeàAlemanha.Agora,emumaépocaemque

todaaEuropa,inclusivesuasclassesprogressistaseseusideólogos,édominada-temporariamente-

porumaideologiapós-revolucionária,essestraçosdevemmostrar-senaInglaterrademodomuito especial, pois agora ela voltou a ser, para a maioria dos ideólogos continentais, o modelo do desenvolvimento,emboraemumsentidodiferentedaqueledoséculoXVII.Emtempospassados,a realizaçãodasliberdadesburguesasatuoucomomodeloparaosiluministascontinentais.Hoje,éo progressodaInglaterraquesurgeaosolhosdosideólogoshistóricoscomooexemploclássicodo desenvolvimentohistóricotalcomooconcebem.Ofatodetertravadosuarevoluçãoburguesano séculoXVIIe,desdeentão,terpassadoporumperíododedesenvolvimentoduradouro,pacíficoe progressistasobreasbasesdasconquistasdarevoluçãoburguesamostravaaInglaterracomoum exemplo prático para o novo estilo de concepção histórica. Do mesmo modo, a "Revolução

Gloriosa"de1688tinhadeaparecercomoumidealparaosideólogosburguesesquecombatiama

Restauraçãoemnomedoprogresso.

Por outrolado,osescritoresqueperscrutavamdeboa-féosfatosdodesenvolvimentosocial, comoWalterScott,deviamvercomnitidezquetaldesenvolvimentosomenteerapacíficocomoideal deumaconcepçãodahistória,apenasdaperspectivaaltaneiradeumafilosofiadahistória.Ocaráter orgânico do desenvolvimento inglês é apenas o resultado da conjugação dos componentes das ininterruptas lutas de classes e de suas pequenas e grandes disputas, bem ou malsucedidas.As enormesconvulsõespolíticasesociaisdasdécadasanterioresdespertaramnaInglaterratambéma sensibilidadeparaahistória,aconsciênciadodesenvolvimentohistórico.

Arelativaestabilidadedodesenvolvimentoinglêsnessaépocaconturbada,emcomparaçãocomo continente,possibilitouqueosentimentohistóricorecém-despertadopudessesecondensaremuma formagrandiosa,objetivaeépica.Essaobjetividadeéintensificadaaindapeloconservadorismode Walter Scott.Com sua nova visão de mundo, ele permanece fortemente ligado às camadas da sociedadearruinadaspelaRevoluçãoIndustrial,pelorápidodesenvolvimentodocapitalismo.Scott não faz parte nem dos entusiastas do desenvolvimento nem de seus apaixonados e patéticos contestadores.Pormeiodainvestigaçãodetodoodesenvolvimentoinglês,procuraencontrar um caminho"mediano"entreosextremosemluta.Nahistóriainglesa,encontraoconsolodeaviolenta oscilaçãodaslutasdeclassestersempreacabadoporapaziguar-seemumglorioso"meio".Assim como dalutaentresaxõesenormandossurgiuanação inglesa(nem saxãnem normanda)eda sangrentaguerraentreasduasrosasseguiu-seoregimegloriosodadinastiaTudor(emespecialoda rainha Elizabeth), as lutas de classes que ganharam expressão na Revolução de Cromwell encontraram equilíbrio - após muitas oscilações e guerras civis - no resultado da "Revolução Gloriosa":aInglaterraatual.

Dessa maneira, a concepção da história inglesa nos romances de Walter Scott fornece uma perspectiva-nãoexplícita-paraodesenvolvimentofuturotalcomooescritoroconcebe.Enãoé difícilverqueessaperspectivaapresentamuitassemelhançascomaquela"positividade"resignada

queobservamosnosgrandespensadores,eruditoseliteratosdocontinentenessemesmoperíodo. WalterScottintegraasfileirasdoshonestostoriesdaInglaterradeentão,quenãopoupamcríticasao desenvolvimento do capitalismo e não somente veem claramente, como também demonstram profunda compaixão pela infinita miséria do povo que a derrocada da velha Inglaterra trouxe consigo,mas,justamenteporseuconservadorismo,nãochegamaserumaoposiçãoferozaostraços do novo desenvolvimento que eles rejeitam.Éraro que Walter Scottfale do presente.Em seus romances,não aborda as questões sociais do presente inglês, como o acirramento incipiente e incisivodalutadeclassesentreaburguesiaeoproletariado.Namedidaemqueelepoderesponder porsimesmoaessasquestões,eleofazpeloviésdafiguraçãoficcionaldasetapasmaisimportantes dahistóriainteiradaInglaterra.

Paradoxalmente,agrandezadeScottestáligadaaseulimitadoconservadorismo.Eleprocurao "caminho do meio"entreosextremoseesforça-separademonstrar suarealidadehistóricapela figuração ficcional das grandes crises da história inglesa. Essa tendência fundamental de sua figuração se expressa de imediato no modo como ele inventa a trama e escolhe a personagem principal.O"herói"doromancescottianoésempreumgentlemaninglêsmediano,maisoumenos medíocre.Emgeral,estepossuicertainteligênciaprática,porémnão excepcional,certafirmeza moralehonestidadequebeiramosacrifício,masjamaisalcançamoníveldeumapaixãohumana arrebatadora,deumadevoçãoentusiasmadaaumacausagrandiosa.NãosãosóosWaverley,Morton, Osbaldiston etc. que encarnam esses representantes medianos, corretos e honestos da pequena nobrezainglesa,mastambémIvanhoé,ocavaleiro"romântico"daIdadeMédia.

Essa escolha do herói foi muito atacada pela crítica posterior, por Taine, por exemplo; ela detectouaíumsintomadamediocridadedopróprioWalterScottcomoficcionista.Averdadeéo exato contrário. Na construção desses heróis "medianos", apenas corretos e nunca heroicos, expressa-seoextraordináriotalentoépicodeWalterScott,talentoquemarcoutodaumaépoca,ainda que,dopontodevistapsicológicoebiográfico,émuitoprovávelqueseuspreconceitospessoais, presosàpequenanobrezaeaoconservadorismo,tenhamdesempenhadoumgrandepapelnaescolha dessesheróis.

Oqueseexpressaaquiésobretudoumarecusaeumasuperaçãodoromantismo,assimcomoum desenvolvimentooportunodastradiçõesliteráriasdorealismodoperíodoiluminista.Daoposiçãoà prosadegradante,quetudo nivelava,edo capitalismo emascensão surgiuo "heróidemoníaco", mesmo em ficcionistaspolíticaeideologicamenteprogressistasquecom frequênciaedeforma injustaforamtratadoscomoromânticos.Essetipodeherói,talcomoaparecenapoesiadeByronem especial,éaexpressãoliteráriadaexcentricidadeesuperficialidadedasmelhoresemaisautênticas aptidõeshumanasnesseperíododaprosa,umprotestolíricocontraodomíniodessaprosa.Maso reconhecimentodasraízessociais,emesmodanecessidadeejustificaçãohistóricasdesseprotesto, não significa que sua absolutização lírico-subjetivista possa ser um caminho para a grande

plasmaçãoobjetiva,ficcional.Asgrandespersonagensrealistasdeumperíodoumpoucoposterior, queseaproximamdafiguraçãodessetipo,comoemPúchkinouStendhal,superaramobyronismo comoutraforma,maiselevadaqueaqueladeWalter Scott.Elesconceberamederamforma,em sentidosócio-históricoeobjetivo-épico,àquestãodaexcentricidadedessetipo:elevaram-seauma concepçãodasituaçãohistóricadopresenteemqueatragédia(ouatragicomédia)desseprotesto tornou-sevisívelemtodaasuariquezadedeterminaçõessociais.AcríticaearenúnciadeScotta essetiponãochegamaessaprofundidade.Seureconhecimento,oumelhor,seusentimentoarespeito daexcentricidadedessetipoleva-oaeliminá-lodoâmbitodaplasmaçãohistórica.Eleseesforça parafiguraraslutaseasoposiçõesdahistóriapormeiodehomensque,emsuapsicologiaeemseu destino,permanecemsemprecomorepresentantesdecorrentessociaisepotênciashistóricas.Scott estendeessemododeconceber aosprocessosdemarginalização;considera-asempreemsentido social,enãoindividual.Seuentendimentodoproblemadopresentenãoéprofundoosuficientepara resolver essa questão dos processos de marginalização. Por isso, ele se desvia da temática e conserva,emsuafiguração,agrandeobjetividadehistóricadoépicolegítimo.

Sópor essarazãojáétotalmentefalsover Walter Scottcomoumescritor romântico,senão quisermosestenderoconceitoderomantismoapontodeabarcartodaagrandeliteraturadoséculo XIX.Dessemodo,apaga-seafisionomiado romantismo em seusentido próprio eestrito.Etal fisionomiaé,paraWalterScott,degrandeimportância,jáqueatemáticahistóricadeseusromancesé bastante próxima daquela dos verdadeiros românticos.Mais adiante, porém, teremos ocasião de demonstraremdetalhesqueasconcepçõesdessatemáticaemScottenosromânticossãototalmente contráriase,porconseguinte,trata-sededuasformasmuitodiferentesdefiguração.Essaoposiçãose manifesta em primeiro lugar e imediatamente na composição de seus romances, tendo o herói mediano,prosaico,comofiguracentral.

ÉóbvioqueaquitambémapareceofilisteísmoconservadordeWalterScott.Balzac,seugrande admiradorecontinuador,jáseincomodavacomessefilisteísmoinglês.Diz,porexemplo,quetodas as heroínas de Walter Scott, com raras exceções, representam o mesmo tipo de mulher inglesa filistinamentecorretaenormal eque,em seus romances,não háespaço paraas interessantes e complicadastragédiasecomédiasdoamoredomatrimônio.Balzactemrazão,eapropriedadeda críticavaimuitoalémdoplanoeróticoressaltadoporele.Scottnãopossuiagrandiosaeprofunda dialéticapsicológicadaspersonagensquecaracterizamo romancedo último grandeperíodo do desenvolvimentoburguês.Tambémnãoalcançaaalturaaquechegouoromanceburguêsdasegunda metadedoséculoXVIIIcomRousseau,ChoderlosdeLacloseGoethe,comseuWerther.Púchkine Manzoni, seus maiores sucessores no romance histórico, também o superaram largamente em profundidadeepoesiadasfigurashumanasindividuais.MasareviravoltaqueWalterScottrealizana história da literatura universal é independente dessa estreiteza de horizonte humano-ficcional.A grandezadeScottestáem dar vidahumanaatipos sociais históricos.Antes deScott,os traços humanos típicos, em que se evidenciam as grandes correntes históricas, jamais haviam sido

figuradoscomtalgrandiosidade,univocidadeeconcisão.E,acimadetudo,jamaisessatendênciada

figuraçãohaviasidotrazidaconscientementeparaocentrodarepresentaçãodarealidade.

Isso tambémseaplicaaseusheróismedianos.Aliás,essesheróissão insuperáveisno modo realistacomoexpressamostraçostantohonradosecativantesda"classemédia"inglesaquantoos limitados.Éexatamentepelaescolhadessasfigurascentraisqueaexposiçãoscottianadatotalidade histórica de determinados graus críticos [krisenhaften]* da transição da história alcança um acabamentonuncasuperado.FoiograndecríticorussoBelinskiquemidentificoumaisclaramente essecontexto.EleanalisadiferentesromancesdeWalterScottjustamenteemrelaçãoaofatodequea maioriadaspersonagenscoadjuvantesémaisinteressanteeimportantedopontodevistahumanoque oheróimedianoprincipal.Mas,aomesmotempo,contestaasacusaçõesqueforamfeitascontraScott porcausadisso.

Éassimquedeveseremumaobradecaráterpuramenteépico,emqueapersonagemprincipal servesomentedecentroemtornodoqualosacontecimentossedesdobramenoqualelasedeixa descreverapenasportraçosgeraisquemerecemnossasimpatiahumana,poisoheróidaepopeia é a própria vida, e não o homem.Na epopeia, o homem é, por assim dizer, submetido ao acontecimento;este,comsuagrandezaeimportância,encobreapersonalidadehumana,desvia nossaatençãodohomempelaprópriadiversidadeequantidadedesuasimagens,bemcomopelo interessequedespertam.

BelinskitemrazãoaoressaltarocaráterépicodoromancedeWalterScott.Emtodaahistóriado romancehistóricoquasenãoexistemobrasqueseaproximemtantodocaráterdaantigaepopeia, talvezcomexceçãodasdeCoopereTolstói.Isso,comoveremos,estáestreitamenteligadoàtemática históricadeScott-nãocomumaviradaemdireçãoàhistóriaemgeral,mascomaformaespecífica desuatemáticahistórica,comaescolhadeperíodosecamadasdasociedadeemquesãoplasmadasa antiga atividade épica dos homens, o antigo aspecto épico do caráter diretamente social e espontaneamentepúblicodavida.ÉassimqueWalterScottsetornaograndefiguradorépicoda"era dosheróis",daeraemque-eapartirdeque-brotaaverdadeiraépica,nosentidodadoporVicoe Hegel.Esse verdadeiro caráter épico da temática e da forma de figuração de Walter Scottestá intimamenteligadoaocaráterpopulardesuaarte,comomostraremosmaisadiante.

Apesar disso, as obras de Scott não são de modo algum tentativas modernas de galvanizar esteticamenteaantigaépicacomumanovavida,massimverdadeiroselegítimosromances.Sesua temáticaremetemuitofrequentementeà"eradosheróis",aoperíododainfânciadahumanidade,o espíritodafiguraçãojáéodaidadeadulta,doatraenteevitoriosoprosaísmodavidahumana.Essa diferençadeveser ressaltadadesdejá,poisvincula-seinternamenteàcomposição dosromances scottianos,àconcepçãodo"herói".Oheróidoromancescottianoétãotípicodessegêneroquanto AquileseoOdisseusãodaverdadeiraepopeia.Adiferençaentreessesdoistiposdeheróiilustracom muitanitidezadistinçãofundamentalentreepopeiaeromance,eprecisamenteemumcasoemqueo

romancealcançasuamaiorproximidadecomaepopeia.ComodizHegel,osheróisdaepopeiasão "indivíduostotais,quereúnememsi,demodobrilhante,aquiloquepermanecedispersonocaráter nacionale,assimfazendo,permanecempersonagensgrandes,livres,humanosebelos".Comisso, "taispersonagenscentraisganhamo direito desituar-seno topo eter o acontecimento principal vinculadoasuaindividualidade".AspersonagensprincipaisdosromancesdeWalterScotttambém são personagensnacionaistípicas,masantesno sentido davalentemedianiado queno do ápice sinóptico.Aquelessãoosheróisnacionaisdaconcepçãopoéticadavida;estes,osdaprosaica.

Éfácilpercebercomoessasconcepçõesopostasdoheróibrotamdosrequisitosfundamentaisda epopeia e do romance.Do ponto de vista da composição,Aquiles não só é a figura central da epopeia,comotambémésuperioratodososoutroscoadjuvantes;eleédefatoosolemtornodo qual giram os planetas.Os heróis scottianos têm, como personagens centrais do romance, uma funçãooposta.Suatarefaémediarosextremoscujalutaocupaoromanceepelaqualéexpressa ficcionalmenteumagrandecrisedasociedade.Pormeiodatrama,quetemesseheróicomoponto central, procura-se e encontra-se um solo neutro sobre o qual forças sociais opostas possam estabelecerumarelaçãohumanaentresi.

AengenhosidadedeWalterScott,queaquiserevelasimplese,noentanto,deumamagnificência inesgotável,épouco apreciadaemgeral,sobretudo nosdiasdehoje-emboraGoethe,Balzace Púchkinatenhamconsideradoagrandezadesseautor.WalterScottapresentaemseusromancesas grandescrisesdavidahistórica.Assimcomonestaúltima,emseusromancesentramemchoque potências sociais inimigas que visam destruir-se mutuamente. Como os representantes dessas potênciassãoemgeralpartidáriosapaixonadosdesuastendências,háoperigodequealutasetorne apenasumadestruiçãoexterna,incapazdedespertar noleitor acompaixãoeaempatiahumanas. Apareceaquiaimportânciacomposicionaldoheróimediano.Scottescolhesemprepersonagensque, porseucaráteredestino,põememcontatoosdoisladosdoconflito.Odestinoquecabeaoherói mediano,quenagrandecrisedeseutempo não sealiaanenhumadaspartesem conflito,pode fornecer facilmente, do ponto de vista da composição, esse elo. Tomemos o exemplo mais conhecido.Waverleyéumnobreinglêsque,apesardepertenceraumafamíliaafavordosStuart, nãodemonstraporelesmaisqueumasimpatiaserenaepoliticamenteinócua.Durantesuaestadana Escóciacomooficial,Waverleyélevadoporsuasamizadeseaventurasamorosasparaocampodos prosélitos revoltosos dos Stuart.Em consequência de suas antigas relações de família e de sua indecisãoquantoaenvolver-senarebelião-suficienteparaumacorajosaparticipaçãomilitar,mas nãoparaumatomadadepartidofanática-,elemantémasrelaçõescomopartido hannoveriano. Desse modo, o destino de Waverley é bastante apropriado para resultar em uma trama cujo desenrolarnãoapenasapresentaalutadosdoispartidos,mastambémnosaproximahumanamente dosrepresentantesmaisimportantesdeambososlados.

Essemodo decompor não éresultado deuma"buscaformal",deuma"maestria"planejada;

provém,antes,doladotantograndiosoquantoestreitodapersonalidadeliteráriadeWalterScott.Em primeirolugar,aconcepçãoscottianadahistóriainglesaé,comovimos,uma"linhamediana",que passapelomeiodalutadosextremos.Aspersonagenscentrais,dotipodeWaverley,representam paraScottessaconstânciadodesenvolvimentoinglêsemmeioacrisesterríveis.Mas,emsegundo lugar,ogranderealistaScottvêdemaneiramuitoclaraquenuncahouvenahistóriaumaguerracivil quefossetão encarniçadaquelevassetodaapopulação,semexceção,aumatomadafanáticade partido.Narealidadehistórica,grandesparcelasdanaçãosempremantiveramsimpatiasconstantes ouflutuantespor umlado ououtro.Eforamprecisamenteessassimpatiaseflutuaçõesquecom frequênciadesempenharamumpapeldecisivoparaasaídarealdascrises.Acrescenta-seaissoainda, comomaisumtraçodarealidadehistórica,queavidacotidianaprossegueemmeioàguerracivil. Deveprosseguir,desdejá,emsentidoeconômico,pois,docontrário,opovopereceria,morreriade fome.Masprosseguetambémemtodososoutrossentidos,eesseprosseguirdavidacotidianaéum fundamentorealimportantedacontinuidadedodesenvolvimentocultural.Éclaroquenãotemuma importânciatão grande que consiga manter intocadas pela crise histórica essas massas que não tomampartidoou,pelomenos,nãoofazemdemodoapaixonado.Aomesmotempo,acontinuidade ésempreumacontinuaçãododesenvolvimento.Os"heróismedianos"deWalterScottrepresentam tambémesseladodavidadopovo,dodesenvolvimentohistórico.Masosignificadoartísticodesse mododecomportemoutrasconsequênciasimportantes,alémdessas.Aprimeiravista,issopodesoar estranhoaoleitorpresoàstradiçõescontemporâneasdoromancehistórico,maséprecisamentepor esseladodesuacomposiçãoqueWalter Scottsetornouumfigurador incomparáveldasgrandes personagensdahistória.NaobracompletadeScott,encontramosasmaisimportantespersonalidades dahistóriainglesa,etambémdafrancesa:RicardoCoraçãodeLeão,LuísXI,Elizabeth,MariaStuart, Cromwelletc.TodasessaspersonagensaparecememScottemsuarealgrandezahistórica.Todavia, Scottnuncaseinspiranosentimentodeumcultodoheróiromanticamentedecorativo,àIaCarlyle. Para Scott, a grande personalidade histórica é precisamente o representante de uma corrente importante,significativa,queabrangeboapartedanação.Elaégrandeporquesuapaixãopessoal, seuobjetivo pessoal,coincidecom essagrandecorrentehistórica,porquereúneem si oslados positivoenegativodetalcorrente,eporqueéamaisnítidaexpressão,omaisluminosopendão dessasaspiraçõespopulares,tantoparaobemcomoparaomal.

Por isso,Scottnuncamostracomo surgeessapersonalidadehistoricamentesignificativa.Ele sempreaintroduzjápronta.Pronta,masnãosemumacuidadosapreparação.Contudo,nãosetratade umapreparaçãopessoal,psicológica,esimobjetiva,sócio-histórica.Scottdescreve,porintermédio do desvelar dascondiçõesreaisdavida,dacriserealmentevitalecrescentedanação,todosos problemasdavidanacionalqueconduzemàcrisehistóricaporelefigurada.E,depoisdenostermos transformado em participantes compassivos e conscientes dessa crise, depois de termos compreendidobemosfundamentosdosquaiselaemerge,porquerazõesanaçãosecindiuemdois camposcontrários,depoisdetermosvistocomoasdiferentescamadasdapopulaçãosecomportam emrelaçãoaessacrise,somenteentãoograndeheróihistóricoentraemcenanoromance.Portanto,

quandoaparecediantedenós,eleestáprontoemsentidopsicológico,eéatéobrigadoaestarpronto,

poisapareceparacumprirsuamissãohistóricanacrise.Masoleitornuncatemaimpressãodealgo

rigidamentepronto,poisaslutassociais,amplamenteretratadasantesdaapariçãodoherói,mostram

comprecisãocomo,emtalépoca,talheróitevedesurgirparasolucionartaisproblemas.

É óbvio que Scott não aplica essa forma de figuração apenas às grandes personagens representativas, historicamente autênticas e universalmente conhecidas. Ao contrário, em seus romances mais importantes, o papel de destaque é desempenhado justamente por personagens históricasdesconhecidas,históricasapenasemparteoupuramentefictícias.PensemosemVichJan Vohr,deWaverley,Burley,deOldMortality[Eternamortalidade],CedriceRobinHood,deIvanhoé*, RobRoy**etc.Essastambémsãopersonagenshistóricasmonumentais,figuradascomosmesmos princípiosartísticosválidosparaasgrandespersonagensconhecidasdahistória.Defato,ocaráter popular daartehistóricadeWalter Scottmostra-sejustamenteno fato dequeessaspersonagens destacadas,diretamenteligadasàvidadopovo,alcançamnafiguraçãoumadimensãohistóricamaior queaspersonagenscentraiseconhecidasdahistória.

MasqualéarelaçãoentreosucessodeScottnafiguraçãodagrandezahistóricadaspersonagens historicamentesignificativaseofatodeelasseremapenascoadjuvantesnoenredo?Balzacentendeu demaneiramuitoclaraosegredodacomposiçãodeWalterScotteafirmouqueoromancedeste chegaaosgrandesheróisdomesmomodoqueahistóriadeseutempofomentaaapariçãodeles. Assim,o leitor vivenciaagênesehistóricadaspersonagenshistóricasimportantes,eatarefado escritorconsisteemtratá-lasdeformatalqueapareçamcomorepresentantesefetivasdessascrises históricas.

Dessamaneira,Scottdeixaqueas personagens importantes surjam apartir do ser daépoca, jamais explicando a época a partir de seus grandes representantes, como faziam os adoradores românticosdosheróis.Porisso,elasnuncapodemserfigurascentraisdopontodevistadoenredo. Poisaprópriaapresentação amplaemultifacetadado ser daépocasó podechegar claramenteà superfíciemedianteafiguraçãodavidacotidianadopovo,dasalegriasedastristezas,dascrisese dasdesorientaçõesdoshomensmedianos.Apersonagemdedestaqueedeimportânciahistórica,que resumeumacorrentehistórica,resume-anecessariamenteemdeterminadoplanodeabstração.Ao retratarantesocarátercomplexoesinuosodavidanacional,Scottretrataaqueleserquereceberána personagem historicamente importante sua forma abstrata, sua universalização intelectual e sua concentraçãoemumatohistóricosingular.

O modo scottiano decompor mostraaquiumparalelo muito interessantecomafilosofiada históriadeHegel.TambémemHegelo"indivíduohistórico-mundial"[welthistorischesIndividuum] surge das amplas bases do mundo dos "indivíduos conservadores" [erhaltenden Individuen]. "Indivíduosconservadores"é,emHegel,acaracterizaçãoresumidadoshomensda"sociedadecivil" [bürgerlichenGesellschaft],acaracterizaçãodacontínuaautorreproduçãodestaúltimapormeioda

atividade daqueles indivíduos. A base é constituída da atividade pessoal, privada, egoísta dos indivíduos.Énelaepormeiodelaqueseafirmaouniversalsocial.Nessaatividade,desdobra-se"a conservação da vida ética". Mas Hegel pensa a sociedade não apenas no sentido dessa autorreprodução,comoalgoestagnado;elasesituanomeiodacorrentedahistória.Aqui,onovo defronta-secomovelhocomocomuminimigo,atransformaçãoestá"ligadaaumadepreciação, desintegraçãoedestruiçãodasformasanterioresdarealidade".Ocorremgrandescolisõeshistóricas, nasquaisjustamenteos"indivíduoshistórico-mundiais"são portadoresconscientesdo progresso histórico(do"espírito",segundoHegel),masapenasnosentidodequedãoconsciênciaeorientação clara ao movimento que já existe na sociedade.É necessário ressaltar esse lado da concepção históricahegelianaporqueéaqui,apesardeseuidealismo,apesardesuasupervalorizaçãodopapel dos "indivíduos histórico-mundiais",queemergecom nitideza oposição ao culto romântico ao herói.EmHegel,afunçãodoindivíduohistórico-mundialédizeraoshomensoqueelesquerem. "Eleé",dizHegel,"oespíritoocultoquepalpitanopresente,queaindaésubterrâneo,aindanãose elevouaumserpresenteequersemanifestar;éoespíritoparaoqualomundopresenteéapenasum invólucroequetrazdentrodesiumnúcleodiferentedaquelequepertenciaaoinvólucro."

AgenialidadehistóricadeWalter Scott,nuncamaisatingida,evidenciapela forma como ele apresenta as qualidades individuais de suas personagens históricas centrais que estas realmente reúnememsiosladosmaismarcantes,tantopositivosquantonegativos,dedeterminadomovimento. Em Scott, essa conexão sócio-histórica entre líderes e liderados se diferencia de um modo extraordinariamenterefinado.EnquantoofanatismoheroicodeBurley,quenãohesitadiantedenada, marcaopontoculminantedospuritanosescocesesrebeladosnaépocadarestauraçãodosStuart,a misturapeculiareaventureiraemVichJanVohrentreoestilopalacianofrancêseopatriarcalismo doclãrepresentaoladoreacionário,porémintimamenteligadoaoladoatrasadodopovoescocês, dastentativasderestauraçãodosStuartapósa"RevoluçãoGloriosa".

EmScott,essacombinaçãointerna,essevínculoprofundoentreosrepresentanteshistóricosde ummovimentopopulareomovimentopopularpropriamenteditoéincrementado,dopontodevista dacomposição,pelaintensificaçãodosacontecimentosesuacompactaçãodramática.Tambémaquié necessáriodefenderaformaclássicadanarrativacontraospreconceitosmodernos.Hoje,costuma-se acreditarque,pelofatodeoépicoterumaformamaisextensaeamplaqueodrama,aessênciada arte épica consiste na pura extensão, na sucessão e na justaposição cronológica de todos os acontecimentos de um período. Todavia, isso se mostra falso já em Homero.Consideremos a composição daIlíada.Opoemacomeçacomumasituação extremamentedramática:o confronto entreAquileseAgamenon.Nanarrativapropriamenteditafiguramapenasaquelesacontecimentos quesão consequênciaimediatadesseconfronto,atéamortedeHeitor.Aestéticaantigajáhavia reconhecidoaquiumprincípio conscientedecomposição.Como surgimento do romancesocial moderno,anecessidadedeintensificaçãodoagirépicotornou-seaindamaispremente.Acorrelação entre a psicologia dos homens e as circunstâncias éticas e econômicas da vida tornou-se tão

complicada que passou a ser necessária uma ampla descrição dessas circunstâncias, uma ampla figuraçãodessacorrelaçãoafimdemostraroshomenscomofilhosconcretosdeseutempo.Nãoé poracasoqueodesenvolvimentodaconsciênciahistóricaemWalterScotttenhalevadoexatamentea essemododefiguração.Parafazercomquetemposhámuitodesaparecidospossamserrevividos, eletevederetratardamaneiramaisamplapossívelessacorrelaçãoentreohomemeseuambiente social.Ainclusãodoelementodramáticonoromance,aconcentraçãodosacontecimentos,asuma importânciadosdiálogos,istoé,doconflitoimediatoentreconcepçõesopostasquesemanifestamna conversação,têmíntimaconexãocomoempenhoemfigurararealidadehistóricatalcomodefato ocorreu,deummodoquesejahumanamenteautênticoeatornepassíveldeservivenciadapeloleitor deumaépocaposterior.Trata-seaquideumaconcentraçãocaracterizadora.Sóosmuitoestúpidos afirmavam(eafirmamaindahoje)queacaracterizaçãohistóricadehomensesituaçõesconsisteem umacúmulodetraçosisolados,historicamenterepresentativos.WalterScottnuncasubestimoutais elementospictóricosedescritivos.Utilizou-osatécomtantaforçaquecríticossuperficiaisviram nesseaspectojustamenteoessencialdesuaarte.Mas,paraele,acaracterizaçãohistóricadoespaçoe do tempo, o "aqui e agora" histórico, é algo muito mais profundo. Significa o coincidir e o entrelaçar-se-condicionadospor umacrisehistórica-dascrisesqueseabatemsobreo destino pessoaldeumasériedehomens.Justamenteporisso,aformadefiguraçãodacrisehistóricanunca permaneceabstrata,afraturadanaçãoempartidosbeligerantessempresemostranasmaisíntimas relações humanas.Pais e filhos, amados e amadas, velhos ami gos etc.são confrontados como inimigos,ouanecessidadedessaconfrontaçãointroduzoconflitoemsuavidapessoal.Masesse destinoseabatesobregruposdehomenscorrelatos,ligadosunsaosoutros,enuncaéumacatástrofe única,masumacadeiadecatástrofes,emqueasoluçãodeumatrazconsigoumnovoconflito.De modoqueacompreensãoprofundadomomentohistóriconavidahumanaforçaumaconcentração dramáticadacomposiçãoépica.

OsgrandesescritoresdoséculoXVIIIpodiamcompordemodomaislivreporqueconsideravam óbviososcostumesdeseutempoe,apartirdaí,pressupunhamaobviedadeimediatadeseuefeito sobreosleitores.Nãodevemosesquecer,porém,queissodizrespeitoàestruturadacomposição,e nãoaomododefiguraçãodemomentoseacontecimentossingulares.Essesescritoressabiammuito bemquenãoéacompletudeextensivadadescrição,aenumeraçãodoselementosconstitutivosdeum objeto,acompletudedasériedeacontecimentosqueformaavidadeumhomem,masaevidenciação das determinações essenciais, tanto humanas quanto sociais. Goethe, que concebeu o Wilhelm Meister*demaneiramuitomenosdramáticadoquefariammaistardeemseusromancesWalterScott ouBalzac,caminhanosentidodaintensificaçãonarepresentaçãodosacontecimentossingularesde suaextensatrama.Porexemplo,arelaçãodeWilhelmMeistercomoteatrodeSerloconcentra-se quasetodanoproblemadaencenaçãodeHamlet.TambémemGoethe,nãosetratadeumadescrição extensivaecompletadoteatro,deumacrônicaextensivaecompletadosacontecimentosdoteatrode Serlo.

A concentração e a intensificação dramáticas dos acontecimentos em Walter Scott não são nenhuma inovação,portanto.São apenas um resumo e uma continuação peculiar dos princípios artísticosmaisimportantesdoperíodoanteriordedesenvolvimento.MascomoScottfezissoemum momento degrandeviradahistórica,emconformidadecomasnecessidadesreaisdaépoca,isso significouumaviradanahistóriadoromance.Porque,noromancehistóricojustamente,atentação dereproduzirinteiramenteatotalidadedascoisaséimensa.Hásempreumriscomuitopróximode acreditarqueafidelidadehistóricasópodeseratingidapormeiodatotalidade.Masessaéumailusão paraaqualBalzacemespecialchamouaatenção,comgrandeperspicáciaeclareza,emseusescritos críticos.EmumacríticaaoromancehistóricoLeo,deLatouche,totalmenteesquecidohoje,elediz:

Oromanceconsisteemduzentaspáginas,nasquaissãotratadosduzentosacontecimentos;nada revelamaisaincapacidadedoautorqueoamontoadodefatos( ).Otalentoflorescenoretrato das causas que geram os fatos, nos segredos do coração humano cujos movimentos são desprezados pelos historiadores. As personagens de um romance são forçadas a ser mais racionais que as personagens históricas.Aquelas devem ser despertadas para a vida, estas já viveram.Aexistênciadestasnãoprecisadenenhumaprovadequãobizarrassuasaçõestambém podemser,enquantoaexistênciadaquelasprecisadeumconsentimentogeral.

É claro que, quanto mais distantes de nós se encontram o período histórico figurado e as condiçõesdeexistênciadeseusatores,maisoenredotemdeseconcentrar emnosapresentar de maneiraclaraeplásticaessascondiçõesdeexistência,paraquenão vejamoscomo curiosidades históricas a psicologia e a ética peculiares que surgem dessas condições de vida, mas antes as experimentemoscomo umaetapado desenvolvimento dahumanidadequenosdizrespeito enos move.

No romancehistórico,portanto,não setratado relatar contínuo dosgrandesacontecimentos históricos,masdodespertar ficcionaldoshomensqueosprotagonizaram.Trata-sedefigurar de modo vivo asmotivaçõessociaisehumanasapartir dasquaisoshomenspensaram,sentirame agiramdemaneiraprecisa,retratando como isso ocorreunarealidadehistórica.Eéumalei da figuração ficcional-leiqueemumprimeiro momento pareceparadoxal,masdepoissemostra bastanteóbvia-que,paraevidenciarasmotivaçõessociaisehumanasdaação,osacontecimentos maiscorriqueirosesuperficiais,asmaismiúdasrelações,mesmoobservadassuperficialmente,são maisapropriadasqueosgrandesdramasmonumentaisdahistóriamundial.Balzac,emsuacríticaaA cartuxadeParma,deStendhal,dedicouàgenialidadedoautorumelogioentusiasmado,jáqueeste realizouumagrandiosarepresentaçãodavidapalaciananointeriordeumpequenoEstadoitaliano. BalzacsublinhaofatodequeaspequenasdisputastravadasnacortedeParmamostramtodosaqueles conflitos sociais e psicológicos que se manifestavam, por exemplo, nas grandes disputas entre Mazarin e Richelieu.E é desse modo que tais disputas podem, segundo Balzac, ser mais bem figuradasficcionalmente,poisoconteúdopolíticodasintrigasemParmaéfácildeapreender,pode ser transposto sem dificuldades no agir imediato e mostra com evidência direta seus reflexos

psicológicos, ao passo que a representação dos grandes problemas políticos que compõem as intrigasemtornodeMazarinouRichelieuconstituiriamumlastromuitopesadoparaoromance.

Balzacpormenorizasuasideiasaténosmínimosdetalhesdotratamentoépicodahistória.Critica,

entreoutros,umromancedeEugèneSue,quetemcomotemaarebeliãodeCevenassobLuísXIV.

Suedescreveuextensamente,demodomodernoediletante,todaacampanha,decombateacombate.

Balzacatacaoempreendimentosempiedade.Diz:

Éimpossível paraaliteraturaultrapassar certos limites ao pintar os fatos daguerra.Querer mostrarasmontanhasdasCevenas,osvalesentreasCevenas,asplaníciesdoLanguedoc,fazeras tropasmanobrarem,explicarasbatalhas,éalgoquemesmoWalterScotteCooperconsiderariam uma tarefa acima de suas forças.Eles jamais apresentaram uma campanha militar completa, apenassecontentaramemmostrar,empequenosconfrontos,oespíritodasduasmassasemluta. E,mesmopararetrataressespequenosembates,necessitaramdelongaspreparações.

Aqui,BalzaccaracterizanãoapenasaintensapeculiaridadedarepresentaçãodahistóriaemScott eCooper,comotambémaespecificidadedodesenvolvimentoposterior doromancehistóricoem seusgrandesrepresentantesclássicos.

Seriaumerroacreditar,porexemplo,queTolstóitenharetratadoascampanhasnapoleônicasde modorealmenteextenso.Elenosapresenta,decadacampanha,apenasalgunsepisódiosextraídosdo conjunto, episódios especialmente importantes e significativos para o desenvolvimento de suas personagensprincipais.Esuagenialidadenoromancehistóricoresideemescolherefiguraresses episódiosdemaneiraquetodooestadodeânimodoExércitoe,porintermédiodeste,dopovorusso sejaexpressocomconcisão.Quandotentoutratardosvastosproblemaspolíticoseestratégicosda guerra-porexemplo,noretratodeNapoleão-,Tolstóiperdeu-seemefusõeshistóricasefilosóficas, e não apenas por atribuir a Napoleão uma atitude historicamente falsa, por não compreendê-lo historicamente, mas também por razões literárias. Tolstói era um escritor grande demais para oferecerumsucedâneodeliteratura.Quandoseumaterialultrapassouoficcionalmentefigurável,ele abandonouosmeiosdeexpressãodaliteraturaeprocuroutratarotemapormeiosconceituais.E exatamentedessemodoquecomprovanapráticaoacertodaanálisedeBalzacsobreoromancede Scotte,ainda,desuacríticaaSue.

Portanto,oqueimportaparaoromancehistóricoéevidenciar,pormeiosficcionais,aexistência, oser-precisamente-assimdascircunstânciasedaspersonagenshistóricas.OqueemScottsechamou demaneiramuitosuperficialde"verdadedaatmosfera"é,narealidade,essaevidênciaficcionalda realidade histórica.É a figuração da ampla base vital dos acontecimentos históricos, com suas sinuosidadesecomplexidades,suasmúltiplascorrelaçõescomaspersonagensemação.Adiferença entreindivíduos"conservadores"e"histórico-mundiais"apareceprecisamentenessaconexãoviva com abaseontológica[Seinsgrundlage] dosacontecimentos.Os"conservadores"vivem asmais

ínfimas oscilações dessa base ontológica como convulsões imediatas de sua vida individual, enquantoos"histórico-mundiais"ligamostraçosessenciaisdosacontecimentosaosmotivosdeseu próprio agir e de sua condução do agir das massas.Quanto mais próximos da terra e menos inclinados à liderança histórica são os "indivíduos conservadores", mais nítidas e evidentes se revelam as convulsões da base ontológica em sua vida cotidiana, em suas exteriorizações psicológicasimediatas.Éclaroque,então,taisexteriorizaçõessetornamfacilmenteunilateraise mesmo falsas. Mas a composição do quadro de conjunto consiste exatamente em figurar uma interaçãorica,matizada,cheiadetransiçõesentreosdiferentesníveisdereaçãoàconvulsãodabase ontológica, em desvelar ficcionalmente o nexo entre a espontaneidade vigorosa das massas e a máximaconsciênciapossíveldaspersonalidadesdirigentes.

Taisnexossãodecisivosparaoconhecimentodahistória.Osverdadeirosgrandesguiaspolíticos do povo destacam-se justamente por uma extraordinária sensibilidade para compreender essas reaçõesespontâneas.Suagenialidadeseexpressanacapacidadedepercebercomgranderapidez,nas maisínfimaseinvisíveisexteriorizações,amudançadedisposição do povo oudeumaclassee generalizar o nexo entre essa disposição e o curso objetivo dos acontecimentos. Essa grande capacidadedeapreensão egeneralização éabaseparaaquilo queosgrandeslíderescostumam chamardeaprendizadocomasmassas.Lenindescreveumcasomuitoinstrutivodessainteraçãoem

seuopúsculoOsbolcheviquesdevemtomaropoder?*.Noanode1917,depoisqueolevantedo

proletariado de Petrogrado fracassou, Lenin foi obrigado a se refugiar no subúrbio, entre os operários.Eledescrevecomooalmoçoerapreparado:"Adonadacasatrazopão.Eladiz:`Olheque pãoexcelente.Agoraelesnãoousammaisnosdarpãoruim.Játínhamosquaseesquecidoqueem Petrogradotambémpodemosterpãobom"'.Leninacrescenta:

FiqueisurpresocomaquelaapreciaçãoclassistadosDiasdeJulho.Meuspensamentosgiravam emtornodoaltosignificadopolíticodosacontecimentos( ).Eu,umhomemquenuncahavia conhecidonecessidade,nãohaviapensadonopão( ).Pelaanálisepolítica,opensamentochega porcaminhosinusitados,complicadoseenredadosaoqueestánabasedetudo:alutadasclasses pelopão.

Nessa passagem, podemos ver tal interação em um contexto grandioso. O trabalhador de PetrogradoreagedemaneiraespontâneaecomconsciênciadeclasseaosacontecimentosdosDiasde Julho.Comamaisplenasensibilidade,Leninextraiumaprendizadodessasreaçõeseasaproveita, com impressionante rapidez e precisão, para fundar, ampliar e propagar a perspectiva política correta.

Éclaro queseriahistoricamentefalso seessasinteraçõesfossemfiguradasemromancesque tratamdaIdadeMédia,doséculoXVIIouXVIII,porqueseencontravammuitoalémdohorizontedos fundadoresclássicosdoromancehistórico.Esseexemploserveapenasparailustraraestruturageral dainteração.E,seéverdadequetodososheróisdashistóriasplasmadasporWalterScottagiram

com"falsaconsciência",essa"falsaconsciência"nãoéumesquemanememsentidoconteudístico nemempsicológico.Aolongodetodaahistória,adiferençaentreaespontaneidadepróximaàvidae acapacidadedegeneralização distanciadado ambientedevidaimediato apresenta-secomo uma diferença tanto histórico-conteudística quanto psicológica.E a tarefa do romancista histórico é figurar damaneiramaisricapossívelessainteração concreta,quecorrespondeàscircunstâncias históricasdaépocarepresentada.AquiresideumadasmaioresforçasdeWalterScott.

A riqueza de cores e variações do mundo histórico de Walter Scott é consequência da multiplicidadedessasinteraçõesentreoshomenseaunidadedosersocial,que,emtodaessariqueza, éoprincípiodominante.Comisso,aquestãodacomposição,jámencionadaaqui,retornasobuma novaluz:asgrandespersonagenshistóricas,oslíderesdasclassesedospartidosemlutasão,do pontodevistadatrama,apenasfigurascoadjuvantes.WalterScottnãoestilizaessaspersonagens,não ascolocaemumpedestalromântico,masretrata-ascomopessoasdotadasdevirtudesefraquezas,de boasemásqualidades.Noentanto,elasnuncadãoaimpressãodemesquinhez.Comtodasassuas fraquezas, agem de modo historicamente grandioso, o que se deve, é claro, à profundidade do entendimentodeScottacercadapeculiaridadedosdiferentesperíodoshistóricos.Masofatodeque eleconseguirexpressarseussentimentosarespeitodoshomenshistóricosdemodoaomesmotempo grandiosoehumanamenteverdadeirodeve-seàsuamaneiradecompor.

Agrandepersonagemhistórica,nopapeldecoadjuvante,podegozarplenamenteavidacomoser humano,aplicarnaaçãotodasassuasqualidadesgrandiosasemesquinhas;porém,noenredo,elaé figuradademodoquesóage,sóchegaàexpressãodesuapersonalidadeemsituaçõeshistoricamente importantes.Assim, atinge um desdobramento pleno e multifacetado de sua personalidade, mas apenas na medida em que essa personalidade está ligada aos grandes eventos da história.Otto Ludwig,commuitaperspicácia,dizoseguintesobreoRobRoydeScott:"Estesóganhaimportância porquenãoseguimossuavidapassoapasso,porquevemosdeleapenasosmomentosemqueeleé importante; ele nos surpreende com sua onipresença e mostra-se sempre nas atitudes mais interessantes".

Essasconsideraçõesnão só contêm umacaracterização acertadado modo de composição de Scott, como também apontam para as leis gerais da figuração:o modo de representar homens importantes.Eaquiprecisamentequesurgemdiferençasprofundasentreaepopeiaeoromance.O caráterfundamentalmentenacionaldotemacentraldaepopeiaearelaçãoentreindivíduoepovona épocadosheróisfazemcomqueapersonagemmaisimportantetenhadeassumirolugarcentral,ao passoquenoromancehistóricoessapersonagemocupanecessariamenteumlugarsecundário.

Todavia,oprocedimentomencionadoporOttoLudwigdelimitarafiguraçãodapersonagema

apariçõessignificativastambéméeficiente,mutatismutandis,naepopeia.Hõlderlinobservouissode

maneirajustaecorretaquantoàpersonagemdeAquiles.Dizele:

MuitasvezescausouadmiraçãoofatodequeHomero,quequeriacantarairadeAquiles,quase nãoopõeemcenaetc.( )ElenãoqueriaprofanarofilhodosdeusesnaagitaçãodeTroia.O idealnãopodiaaparecercomoalgocotidiano.Eelerealmentenãopodiacantá-lodemodomais sublimeeafetuosodoqueoretirandodecena( ),demaneiraquecadabaixaentreosgregos, desdeodiaemquefaltaoúniconoExército,sirvaparaexortarasuperioridadedesseindivíduo sobretodaaquelapomposamultidãodesenhoreseservos,eosrarosmomentosemqueopoetao deixaaparecerdiantedenóssejamaindamaisiluminadosporsuaausência.

Nãoédifícilnotarospontosdeconexãoaqui.Emtodaformaderepresentaçãoquepenetraos pequenoseatéosmaisinsignificantesdetalhesdavida,oheróideverianecessariamente,afimde continuaraagirnoprimeiroplano,serrebaixadoaonívelgeraldavidafigurada.Nessecaso,apenas umaestilização forçadapoderiaproduzir adistâncianecessáriaedesejadaentreelee as outras personagens.Mastalestilizaçãocontradizaessênciadetodaépicaautêntica,que,comoumtodo, sempreprocuradar aimpressão deespelhar avidatalcomo elanormalmenteé.Esseéumdos muitos encantos imperecíveis das epopeias de Homero, enquanto a chamada épica literária, que trabalhaquaseexclusivamentecomumdistanciamentoestilizadoentreopoetaeoambiente,coma elevaçãoestéticadapersonagemcentral,torna-se,comisso,epicamentesemvidaeafetada,retóricae lírica.EmHomero,Aquilesaparecesempretãonaturalehumanoquantoqualqueroutrapersonagem. Homerodestaca-oemseuambientepormeiosépicos-que,comotais,sãoaomesmotempoafetados enaturalistas-,pelainvençãodesituaçõesemque,decertomodo,oimportanteseoferece"porsi mesmo"eoefeitodecontrastedaausênciadoheróifazcomqueestesecoloque"porsimesmo"em umpedestal,semquesejanecessárioforçá-loaisso.

Todas essas funções épicas também estão presentes em Walter Scott.Mas, como vimos, no romancehistórico arelação entreo "indivíduo histórico-mundial"eo mundo emqueeleageé totalmente diferente daquela que ocorre na épica antiga.Aqui, os traços significativos não são simplesmenteomodomaiselevadodemanifestarumasituaçãoglobal[Weltzustand],quepermanece essencialmenteinalteradanaficção,mas,ao contrário,amaisnítidaexacerbação dastendências sociaisdedesenvolvimento emmeio aumacrisehistórica.Acrescenta-seaisso o fato dequeo romancehistórico figuraum mundo muito mais diferenciado socialmente que a epopeia antiga. Contudo,comacrescentecisãoeoposiçãoentreasclasses,opapelrepresentativodo "indivíduo histórico-mundial",queresumeostraçosmaisrelevantesdeumasociedade,ganhaumaimportância totalmentediferente.

Nasepopeiasantigas,asoposiçõessãosobretudonacionais.Osgrandesadversáriosnacionais, como Aquiles e Heitor, representam situações muito semelhantes no sentido social e, portanto, moral;amargemdeaçãoéticadeseusatosémaisoumenosamesma,eospressupostoshumanos dosatosdeumsãobastantetransparentesparaooutroetc.Nomundodoromancehistórico,ascoisas não são assim.Nele, o "indivíduo histórico-mundial" é visto social mente como partido, como representantedeumadasmuitasclassesecamadasemconflito.Mas,alémdecumprirsuafunçãode

cumeecoroamentodomundoficcional,eletambémdeve-demaneiramuitocomplicadaepouco direta-tornardiretaouindiretamentevisíveisostraçosprogressistasgeraisdetodaasociedade,de toda a época. Contudo, esses complicados pressupostos da compreensibilidade de seu papel representativo são figuradosem Walter Scottpor meio da ampla história pregressa que sempre preparaoterrenoparasuaapariçãoecujanecessidadejáseriaporsisósuficienteparafazer dele umafiguracoadjuvantedoenredo.

Como o leitor jádeveter percebido pelasconsideraçõesanteriores,não setrataaqui deum industriosotruquetécnicodeScott,masdaexpressãocomposicionaleartísticadeseusentimento histórico da vida.Écultuando as grandes personalidades da história como fatores decisivos do processo histórico queelechegaaessemodo decompor.Eérenovando com originalidadeas antigasleisdaficçãoépicaqueeleencontraparaoromancehistóricooúnicomeio possívelde espelhar de maneira adequada a realidade histórica, sem monumentalizar romanticamente as personagens significativas da história nem lançá-las à vala comum das miudezas psicológicas. Assim,Scotthumanizaseusheróishistóricos,porémevitaaquiloqueHegelchamadepsicologiado criado dequarto,isto é,aanáliseminuciosadepequenasqualidadeshumanasquenão possuem nenhumarelaçãocomamissãohistóricadohomememquestão.

MasessemododecompornãosignificadeformaalgumaqueaspersonagenshistóricasdeScott nãosejamindividualizadasatéemsuasqualidadeshumanasmaisínfimas.Elasjamaissãosimples representantes de correntes, ideias históricas etc. A grande arte de Scott está justamente em individualizarseusheróishistóricosdetalmodoquetraçosdeterminados,individuaisepeculiaresde seucarátersãopostosemumarelaçãomuitocomplexaevivacomotempoemqueelesvivem,com acorrentequeelesrepresentam eacujavitóriaelesdedicam seusesforços.Scottapresenta,ao mesmo tempo,a necessidade histórica que liga essa individualidade particular ao papel que ela desempenhanahistória.Dessenexoespecíficoresultanãoapenasavitóriaouaderrotadaluta,mas tambémocaráterhistoricamentesingulardessavitóriaouderrota,seuvalorhistoricamentepeculiar, seutimbredeclasse.

Umadasmaioresrealizaçõesdaliteraturamundialéo modo como napersonagemdeMaria Stuart,porexemplo,concentram-sevárioselementosque,desdeoinício,condenamaofracassoseu golpe de Estado e sua fuga. A sombra dessas qualidades pode ser sentida antes mesmo de a personagemserapresentadaaoleitor,nacomposiçãoenomododeagirdeseuspartidáriosenquanto preparamogolpedeEstado.Omodocomoagemtornaessesentimentoaindamaisconsciente,eo fracassoéapenasocumprimentodeumaexpectativaalimentadadurantemuitotempo.Comamesma maestria,mascommeiostécnicostotalmentedistintos,Scottpintaasuperioridadeeadiplomacia vitoriosadoreiLuísXIdaFrança.Deinício,aoposiçãosocialehumanaentreoreieseuséquito, queemsuamaioriaaindaconservasentimentosfeudaisecavalheirescos,évistaapenasempequenos combatesprévios.Então,depoisdeencarregaroheróiprincipal,ocorretoecavalheirescoQuentin

Durward,deumamissãoperigosa,oumesmoinsolúvel,oreisaidecenaduranteamaiorpartedo romance.Elesóaparecenovamentenaconclusão,emumasituaçãodesesperadora,comoprisioneiro no campo do duque da Borgonha, uma personagem feudal e cavalheiresca, aventureira e politicamenteestúpida.Ali,usandoapenasarazãoeaesperteza,oduqueconseguevantagenstaisque avitóriadoprincípioqueeledefendetorna-seevidenteparaoleitor,apesardoempatefinal.Essas relaçõescomplicadas,porémunívocas,entreosrepresentantesdasdiferentesclasses,entreo"alto"e o"baixo"dasociedade,criamumaatmosferahistóricaincomparavelmenteautênticanosromances deScott,umaatmosferacomqueeledávidaadeterminadaépocanão apenasem seuconteúdo históricoesocial,mastambémemseusaspectoshumanoseemocionais,comseuaromaesuamarca especial.

EmScott,alegitimidadeeaexperienciabilidade[Erlebbarkeit]daatmosferahistóricarepousam

nocaráterpopulardesuaarte.Talcaráterseperdeucomadecadêncialiteráriaecultural.Tainejá

afirmava,totalmenteequivocado,queaartedeScottprofessavisõesfeudais.Essafalsateoriafoi

tomadaemblocopelasociologiavulgar,apenascomadiferençadequeScottpassaaseroescritor

nãodomundofeudal,masdoscomerciantesecolonizadoresingleses,doimperialismoinglêsde

então.Tais"teorias"doromancehistórico-construídascomafinalidadedeerigirumamuralhada

ChinaentreopassadoclássicoeopresenteeassimnegaràmodadeTrotskyocarátersocialistade

nossaculturaatual-nãoveememWalterScottmaisdoqueobardodoscomerciantescolonizadores.

Averdadeéexatamenteocontrário.Eissoéreconhecidocomclarezapeloscontemporâneose pelossucessoresdeWalter Scott.GeorgeSanddissecom razão sobreele:"Eleéo escritor do camponês,do soldado,dos pros critos,do artesão".Pois,como vimos,Scottfigura as grandes convulsõesdahistóriacomoconvulsõesdavidadopovo.Seupontodepartidaésempreafiguração domodocomomudançashistóricasimportantesafetamavidacotidianadopovo,quaismudanças materiaisepsicológicaselasprovocamnoshomens,que,nãocompreendendosuascausas,reagem deformaimediataeveemente.Apenasapartirdessabaseéqueelefiguraascomplicadascorrentes ideológicas,políticasemoraisquenascemnecessariamentedessasmudanças.Ocaráterpopularda arte de Scott não consiste, portanto, na figuração exclusiva da vida das classes oprimidas e exploradas. Isso significaria uma concepção estreita desse caráter popular. Como todo grande ficcionistapopular,WalterScottpartedafiguraçãodatotalidadedavidanacionalemsuacomplicada interaçãoentre"alto"e"baixo";aqui,aenérgicatendênciaaocaráterpopularsemanifestanofatode queeleenxergano"baixo"abasematerialeaexplicaçãoliteráriadafiguraçãodaquiloqueocorre no"alto".

Assim,emIvanhoé,Scottfigurao problemacentraldaInglaterramedieval:aoposição entre saxãosenormandos.Elemostracommuitaclarezaqueessaoposiçãosedásobretudoentreservos saxõesesenhoresfeudaisnormandos.Mas,deummodohistoricamentecorreto,nãosedetémnessa oposição.Elesabequepartedanobrezasaxã,mesmolimitadamaterialmenteeprivadadeseupoder

político, continua a ter privilégios, estando precisamente aí o cerne ideológico e político da resistênciadossaxõesaosnormandos.Contudo,comograndeintérpretedavidahistóricadopovo, Scottvêefigura,comextremaplasticidade,ofatodequeumaspartessignificativasdanobrezasaxã afundamnaapatiaenainaçãoenquantooutrasesperamapenasumaoportunidadeparafirmar um compromisso com asfacçõesmaismoderadasdanobrezanormanda,cujo representanteéo rei RicardoCoraçãodeLeão.Portanto,seBelinskiafirmacomrazãoqueIvanhoé,oheróidoromance, membrodanobrezaerepresentantedessecompromisso,éofuscadoporfigurascoadjuvantes,issose deveaofatodeesseproblemadeformadoromancehistóricoterumconteúdohistóricoepolítico, umconteúdopopularmuitoclaro.EntreasfigurasqueofuscamIvanhoé,encontra-seseupai,onobre saxãoCedric,valenteeascético,mastambémseusservosGurtheWambae,emprimeiroplano,o líderdaresistênciaarmadacontraodomínionormando,RobinHood,olendárioheróipopular.A interação entre"alto"e"baixo",cujo conjunto formaatotalidadedavidado povo,manifesta-se, portanto,daseguinteforma:seéverdadeque,no essencial,astendênciashistóricasrecebemno "alto" uma expressão mais nítida e generalizada, é sobretudo no "baixo" que encontramos o verdadeiroheroísmodaslutasincessantesdasoposiçõeshistóricas.

Eexatamenteassimqueaimagemdavidadopovoépintadanosoutrosromances.EmWaverley, oheróitrágicoéVichJanVohr,queterminanocadafalsopor causadesuafidelidadeàdinastia Stuart.Mas não é nessa figura ambígua e aventureira que encontramos o heroísmo verdadeiro, humanamentearrebatadorenãoproblemático,massimemseuspartidáriosnoclãescocês.Umadas maioresfiguraçõesdoheroísmosimplesesemfraseologiaséomomentoemqueEvanDhu,queera companheirodeclãdeVichJanVohrepoderiasairlivredotribunal,propõeduranteojulgamento queoscondenaàmortequeeleealgunsoutroscompanheirosdeclãsejamexecutadosemtrocada liberdadedeseulíder.

Emtaistraçosmostram-sedemaneiramuitoclaraaunidadeemWalterScottdoespíritopopulare a profunda compreensão da autenticidade histórica. Para ele, autenticidade histórica significa a singularidade temporalmente condicionada da vida psicológica, da moral, do heroísmo, da capacidadedesacrifício,daperseverançaetc.Éissoque,naautenticidadehistóricadeWalterScott,é importante,imperecível,emarcaépocanahistóriadaliteratura,enãootãofalado"coloridolocal" dasdescrições,queéapenasumentremuitosrecursosartísticosparafiguraraquestãoprincipale, porsisó,jamaispoderiadespertaroespíritodeumaépoca.Scottdeixaqueasgrandesqualidades humanas,assimcomoosvícioseaslimitaçõesdeseusheróis,brotemdosolohistóricoclaramente figurado do ser.Elenosfamiliarizacomaspeculiaridadeshistóricasdavidapsicológicadesua épocanãopormeiodaanáliseoudaexplicaçãopsicológicadeseusconteúdosmentais,maspela amplafiguração deseuser,pelademonstração decomo asideias,sentimentosemodosdeagir crescemapartirdessesolo.

Issoésempreapresentadodeformamagistral,nocurso deumaaçãointeressante.Eemuma

negociaçãoentreoclãeumproprietáriodeterrasescocês,porocasiãodeumroubodegado,que Waverleyentraemcontatopelaprimeiravezcomosmembrosdoclã.Nessemomento,elessãotão incompreensíveisparaelequantoparaosleitores.Elepassaentãoumlongoperíodoimersonoclã, aprende a vida cotidiana de seus membros em todos os detalhes, seus costumes, alegrias e sofrimentos. Quando o clã e, com ele, Waverley entram na guerra, ele - e o leitor - já está familiarizado com o ser e a consciência específicos desses homens que ainda vivem em uma estruturasocialgentílica.Naúltimabatalhacontraastropasreais,quandoWaverleyquersalvarum soldadoinglêsoriundodomesmocondadoqueele,deinícioosmembrosdoclãprotestamcontraa ajudaqueseriaprestadaauminimigo.Sódepoisquetomamconsciênciadequeoinglêsferido pertenceao"clã"deWaverleyéqueoajudamehonramcomochefeprovidente.Oefeitoarrebatador doheroísmodeEvanDhusópodeseratingidocombasenesseamplodesdobramentoontológicoe prático da especificidade material e moral da vidado clã.Demodo bastante semelhante,outras formas específicas de heroísmo em épocas passadas tornam-se testemunháveis em Scott, por exemplooheroísmodospuritanosetc.

OgrandeobjetivoficcionaldeWalterScott,aofigurarascriseshistóricasdavidanacional,é mostraragrandezahumanaquesedesnudaemseusrepresentantessignificativosapartirdacomoção detodaavidadanação.Nãohádúvidadeque,conscienteouinconscientemente,aexperiênciada RevoluçãoFrancesadespertouessatendêncianaliteratura.Elajáemerge-demodomuitoisolado,é claro - no período que prepara a Revolução, sobretudo na personagem Clara, no Egmont*, de Goethe.Neste,o heroísmo ganhavidapor ocasião darevolução holandesa,porémsemostrade imediatonoamordeClaraporEgmont.ApósaRevoluçãoFrancesa,opróprioGoetheencontrana figuradesuaDoroteiaumaexpressãoaindamaispuramentehumanaeheroicaparaessatendênciade figuração.Nelaencontram-sequalidadesmodestasefortes,decididaseheroicas,quedecorremdos acontecimentosdaRevoluçãoFrancesa,dodestinoqueessesacontecimentosreservaramparaseu ambienteimediato.AgrandearteépicadeGoethemostra-senamaneiracomoeleretrataoheroísmo deDoroteiaemplenaharmoniacomseucarátersimplesemodesto,comoalgoqueestevesempre latente e foi chamado à vida pelos grandes eventos da época,mas também como algo que não provocanapersonagemumamudançadecisivadesuavida,desuapsicologia.Quandoanecessidade objetivadoagirheroicoseesvai,Doroteiaretornaàvidacotidiana.

SaberemquemedidaWalterScottconheciaessaobradeGoethe,oumesmosechegouaconhecê-

la,éabsolutamentesecundário;porém,écertoqueeledácontinuidadeeaperfeiçoahistoricamente essatendênciadeGoethe.Todososseusromancessãorepletosdessesdestinos,dessearderdeum grandee,noentanto,simplesheroísmoemfilhosmodestoseaparentementemedianosdopovo.O desdobramento datendênciagoethianaconsiste,em primeiro lugar,no fato de que Walter Scott trabalhaocaráterhistóricodoheroísmo,apeculiaridadehistóricadagrandezahumanaqueserevela. Goethetraçacomextraordináriafidelidadeoscontornosgeraisdosmovimentosnacionais,tantodos holandeses quanto daRevolução Francesa.Contudo, embora as figuras coadjuvantes de Egmont

apresentemtraçosdecididamentecontemporâneoseClara,emcadareaçãosuscitadaporseuamor idílicoporEgmont,continuefilhadesuaclasseedeseupovo,averdadeéquefaltaaseusvoos heroicosumcaráterdecididoemarcadamentehistórico.Goetheéfielàrealidadeeverdadeiro,jáque mostraagrandezahumanaemcircunstânciashistóricasdeterminadaseprocedeorganicamentea partir da psicologia de Clara; porém, a peculiaridade dessa personagem não é caracterizada historicamente.O mesmo ocorre na caracterização de Doroteia.Em nenhuma dessas figuras, o ficcionistalançamão detraçosespecificamentesócio-históricosparaafiguração positivadeseu saltoheroico.Nosdoiscasos,Goethesitua-osnopreâmbulodadescrição(e,nocasodeDoroteia, tambémemseguida).Noentanto,elesservemapenascomomolduraparaosaltoheroicoenãolhe dãonenhumcoloridohistórico.

Aquestãoapresenta-sedeoutromodoemWalterScott,oquesepodeverclaramenteemThe HeartofMidlothian[OcoraçãodeMidlothian].Nessaobra,Scottcriousuamaisimportantefigura feminina:a jovem e puritana camponesa Jeanie Deans.Os acontecimentos põem a filha de um soldado radical do exército de Cromwell diante de um terrível dilema.Sua irmã é acusada de infanticídio;deacordocomasleisdesumanasdaépoca,bastaparacondená-laàmorteaprovadeque manteveagravidezemsegredo.Ocorrequeelafoiobrigadaaisso,masnãocometeuoinfanticídio. Jeaniepoderiasalvarsuairmã,sejurasseemfalso.Mas,apesardeseugrandeamorporela,apesar desuainfinitacompaixãoporseudestino,aconsciênciapuritanaprevaleceeseutestemunhoéfielà verdade.Airmãécondenadaàmorte.Então,apobrecamponesa,inculta,ignorantedomundo,vaia péatéLondresparapediraoreimisericórdiaporsuairmã.Ahistóriadesseconflitodaalma,dessa lutapelavidadairmã,mostraumahumanidadericaeumheroísmomodestodeumser humano realmente significativo. Com isso, Scott fornece um retrato de sua heroína no qual os traços camponeses,estreitamentepuritanose escoceses não esmorecem em nenhum momento, mas, ao contrário,compõemcontinuamenteocaráter específicodoingênuoegrandiosoheroísmodessa figurapopular.

Apósrealizar com sucesso suaintenção,JeanieDeansretornaàvidacotidianaenuncamais ocorreemsuavidaumsaltocapazderevelaraexistênciadetaisforças.Scottdescreveessaúltima etapacompormenoresexageradamenteamplosefilisteus,enquantoGoethe,quesegueabelezado traçadoeoacabamentoclássico,contenta-seemdizerqueavidaheroicadeDoroteiaestáacabadae agora,paraela,começaaimersãonamodéstiadavidacotidiana.

Nosdoiscasos,trata-sedeumanecessidadedaformaépica.Mas,emambos,essanecessidade formal exprime uma profunda verdade humana e histórica. Trata-se, para esses dois grandes escritores,dedesvelar demaneirafiguradaasimensaspossibilidadeshumanaseheroicasquese encontramlatentesnopovoeemergemàsuperfície"derepente",comfúriamonstruosa,sempreque umagrandeocasiãoseapresenta,semprequeháumacomoçãoprofundanavidasocialoumesmona vidapessoalmaisimediata.Agrandezadosperíodosdecrisedahumanidaderepousa,emgrande

medida,nofatodequetaisforçasocultaspermanecemlatentesnopovoesónecessitamdeuma ocasião que as deflagre para vir à tona.Anecessidade épica da reimersão dessas figuras após cumprirem sua missão heroica sublinha justamente a universalidade desse fenômeno. Goethe e Walter Scott não queriam mostrar, com suas respectivas personagens Doroteia e Jeanie Deans, nenhumserhumanoexcepcional,nenhumtalentoextraordinárioerguendo-sedomeiodopovopara tornar-selíderdeummovimentopopular(emScott,essepapelérepresentadoporRobinHoodeRob Roy).Ao contrário, o que queriam mostrar é que as possibilidades desse salto humano, desse heroísmo,estãopresentesnasmassaspopularesemuitosmembrosdopovovivemtranquilamente sua vida, sem nenhum salto, apenas porque não passam por uma experiência que leve a tal concentração de forças. Precisamente por isso é que as revoluções são as grandes épocas da humanidade,porquenelasepormeiodelasocorremosmovimentosdeascensãodascapacidades humanas.

Poressaformadefiguraçãohumanaehistórica,Scottdávidaàhistória.Comomostramos,ele representa a história como uma série de grandes crises.Sua representação do desenvolvimento histórico - da Inglaterra e da Escócia, em primeiro lugar - é uma série ininterrupta de crises revolucionárias.SeaprincipaltendênciaemtodososromancesdeScott-oque,decertomodo,faz delesumaespéciedeciclo - éapresentar edefender o progresso,esteéum processo cheio de contradições,cujaforçapropulsoraebasematerialéacontradiçãovivadasforçashistóricasemluta umascontraasoutras,aoposiçãodasclassesedasnações.

Scottafirmouesseprogresso.Eleéumpatriota,orgulhosododesenvolvimentodeseupovo.Isso

éabsolutamentenecessárioparaacriaçãodeumverdadeiroromancehistórico,quetrazopassado

para perto de nós e o torna experienciável.Sem uma relação experienciável com o presente, a figuraçãodahistóriaéimpossível.Mas,naverdadeiragrandeartehistórica,essarelaçãoconsiste nãoemreferênciasaacontecimentoscontemporâneos-oquePúchkinridicularizousemnenhuma

piedadenosimitadoresincompetentesdeWalterScott-,masnarevivificaçãodopassadocomopré-

históriadopresente,navivificaçãoficcionaldaquelasforçashistóricas,sociaisehumanasque,no

longodesenvolvimentodenossavidaatual,conformaram-naetornaram-naaquiloqueelaé,aquilo

quenósmesmosvivemos.Hegeldiz:

Assim,o elemento histórico só éo nosso próprio (

consequênciadaqueleseventosemcujacadeiaaspersonagensouosatosapresentadosformam umeloessencial( ).Poisaartenãoéfeitaparaumcírculopequenoefechadodeunspoucos,de preferênciabem-educados,masparatodaanação.Masoquevaleemgeralparaaobradearte encontratambémaplicaçãonoladoexternodarealidadehistóricarepresentada.Tambémelatem deser,semumavastaerudição,claraeapreensívelparanós-poistambémpertencemosanosso tempoeanossopovo-,demodoquepossamosnossentiremcasaenãopermaneçamosdiante delacomodiantedeummundoestranhoeincompreensível.

podemosver o presentecomo

)quando

Esse vínculo intenso com o passado é o pressuposto do patriotismo de Scott. Mas apenas sociólogosvulgarespodemvernessepatriotismoaexaltaçãodecomerciantesexploradores.Goethe apreendeuessarelaçãodeWalterScottcomahistóriainglesademodoinfinitamentemaisprofundoe verdadeiro. Em uma conversa com Eckermann, ele fala sobre Rob Roy. E interessante, e

característicodo"equivalentesocial"deScott,ofatodesetratardeumromancecujapersonagem principal é um herói popular escocês, uma mistura peculiar de rebelde, ladrão de gado e contrabandista.Goethedizsobreesseromance:"Nele,tudoégrandioso:omaterial,oconteúdo,os

o queéahistóriainglesaeo quesepodeobter quando um

talentoso ficcionista recebe tal legado".Goethe percebe claramente, portanto, o que torna Scott

orgulhosodahistóriainglesa:por umlado,éevidente,oamadurecimentogradualdaforçaeda grandezanacionais,cujocarátercontínuoScottdesejailustrarcomseu"caminhodomeio";maspor outro,einseparavelmente,ascrisesdessecrescimento,osextremoscujalutalevouafinalaesse "caminho do meio" e que jamais poderiam ser eliminados da imagem do caráter de grandeza nacionalsemeliminarjustamentetodaasuagrandeza,riquezaeconteúdo.

caráteres,atrama(

).Vê-seentão

Scottvêefigurao complicado etortuoso caminho queconduziuàgrandezadaInglaterra,à formação deseucaráter nacional.Como membro sóbrio econservador dapequenanobreza,ele naturalmenteafirmaoresultado,eanecessidadedesseresultadoéofundamentosobreoqualelese apoia.MasissonãoesgotademodoalgumavisãoficcionaldemundodeScott.Elevêosdestroços dasexistênciasaniquiladas,adestruiçãoeodesperdíciodosheroicosanseioshumanos,asformações sociaisarruinadasetc.queforamospressupostosnecessáriosparaesseresultadofinal.

Aquireside,semdúvida,certacontradiçãoentreacomplexavisãopolíticaimediatadeWalter Scottesuaimagemficcionaldomundo.ComoBalzac,Tolstóietantosoutrosrealistas,Scotttambém setornouumgranderealista,adespeitodesuasprópriasvisõespolítico-sociais.Tambémnelepode serconstatadaaengelsiana"vitóriadorealismo"sobresuasvisõespessoaisepolítico-sociais.Sir Walter Scott,membro da pequena nobreza escocesa,afirma esse movimento sem hesitar e com sóbria racionalidade.O ficcionista Scott encarna, ao contrário, o sentimento do poeta romano Lucanus:Victrixcausadiisplacuit,sedvictaCatoni(acausavitoriosaagradaaosdeuses,masa vencida,aCatão).

No entanto, seria falso conceber essa oposição de modo rígido e sem mediações: ver na afirmação sóbria da realidade inglesa, do "caminho do meio" do desenvolvimento inglês, algo exclusivamentenegativo,algoquesóteriaestorvadoodesdobramentodagrandeartehistóricade Scott.Aocontrário,éprecisoverqueessagrandeartehistóricasurgiujustamentedessainteração, dessainterpenetraçãodialéticadosdoisladosdapersonalidadedeScott.Éprecisamenteporesseseu caráterqueScottnãofoiumromântico,umveneradorouumpoetaelegíacodostempospassados. Precisamenteporisso,elepôdefigurardemodoobjetivoaruínadasformaçõessociaispassadas, apesar de toda a sua simpatia humana, de toda a sua sensibilidade artística pelas qualidades

magníficaseheroicasquepossuíam.Demodoobjetivo,istoé,emsentidograndioso,históricoe

ficcional:comomesmoolhar,eleviusuasqualidadesextraordináriaseanecessidadehistóricade

seudeclínio.

Essa objetividade, no entanto, apenas exalta a verdadeira poesia do passado. Vimos que na imagemhistóricadeWalter Scott,totalmenteemdesacordo comaopinião distorcidadecríticos posteriores,os representantes oficiais das antigas classes dominantes não desempenham o papel principal.Entreaspersonagensnobresdeseusromances-se,entreelas,nãoconsiderarmoso"herói mediano"correto,quesópodeserchamadodeheróipositivoemumsentidomuitoespecífico-,há relativamentepoucaspersonagensconcebidasdeformapositiva.Ao contrário,Scottmostra,em geraldemodohumorístico,satíricooutrágico,asfraquezaseadecadênciahumanaemoraldas camadasaltas.ÉverdadequeopretendenteemWaverley,MariaStuartemTheAbbot[Oabade]eaté mesmo o príncipe regente em The Fair Maid of Perth [Abela moça de Perth] mostram traços simpáticos e amáveis, porém a linha principal da figuração vai no sentido de mostrar sua incapacidadedecumprirsuasmissõeshistóricas.Nessecaso,apoesiadaobjetividadehistóricade Scottconsistenofatodequenós,apartirdaatmosferadotodo,vivemosaomesmotempoesem análisespedantesosmotivoshistóricosesociaisobjetivosdessaincapacidadepessoal.Alémdisso, Scottdescreveemtodaumasériedepersonagensosaspectosterrivelmentebrutaisdodomíniodos nobres(porexemplo,oscavaleirostempláriosemWaverleyetc.),assimcomoaincompetência-já fustigada na comédia - da nobreza palaciana, cada vez mais alheia à vida nacional.As poucas personagens positivas tornam-se positivas, em sua maioria, no transcorrer do cumprimento despretensioso do dever, no caráter do gentleman. Apenas grandes representantes isolados do progressohistórico,emespecialLuísXI,preservamumamonumentalidadehistórica.

Namaioriadoscasosemquepersonagensnobresdesempenhamumpapelpositivo pleno ou problemático, este repousa sobre seu nexo com o povo, porém quase sempre sobre relações patriarcaisvivasou,nomínimo,aindanãodetodomortas(porexemplo,oduquedeArgyle,emThe HeartofMidlothian).ÉavidarealmenteintensadarealidadehistóricadeScottqueconfiguraavida doprópriopovo.Todavia,comomembrodapequenanobrezainglesafortementeligadoàburguesia no quedizrespeito àstradiçõeseao estilo devidaindividual,Scotttemprofundasimpatiapela obstinadaautoconfiançado cidadão urbano anglo-escocêsdaIdadeMédiaedo camponêslivree autônomo.EmparticularnafiguradeHenryGow(TheFairMaidofPerth),eleforneceumbelo retratodessadisposiçãoeautoconsciência[Selbstbewusstheit]medievaleburguesa.Comoguerreiro, HenryGowéigualaqualquercavaleiro,masdeclinacomorgulhodaofertadocondeDouglasde armá-locavaleiro,porqueéburguêsequerviveremorrercomoumburguêslivre.

NoconjuntodaobradeScott,encontramoscenasepersonagensadmiráveisqueretratamavida dosservosedoscamponeseslivres,osdestinosdosexcluídosdasociedade,dostraficantes,dos ladrões,dossoldados,dosdesertoresetc.Masésuainesquecívelfiguração dossobreviventesda

sociedadegentílica,doclãescocês,queconstituiapoesiaprincipaldesuafiguraçãodavidapassada. Aqui já aparece, no material e na temática, um elemento tão poderoso do período heroico da humanidadequeosromancesdeScottaproximam-se,emseuspontosaltos,diretamentedasantigas epopeias.Scott demonstra um grande talento para descobrir e despertar esse passado há muito desaparecido.ÉclaroqueoséculoXVIIIjáamavaefruíaapoesiadacondiçãoprimitiva.Ecoma ondadeentusiasmoporHomero,queacabouporsuplantarVirgíliocomomodelo,revela-se,sem dúvida, a incipiente tomada de consciência acerca desse período da infância da humanidade. PensadoresimportantescomoFergusonviramatéumparentescoentreosheróishoméricoseos índiosamericanos.Masessapredileçãopermaneceuabstrata,intimamentemoralizante.Scottfoio primeiroarealmentedespertaresseperíodo,introduzindo-nosnavidacotidianadosclãse,apartir dessabasereal,plasmandotantoaextraordináriagrandezahumanadessacondiçãoprimitiva,nunca maisatingida,quantoanecessidadeinternadesuaderrocadatrágica.

Precisamentepelavivificaçãodosprincípiosobjetivamentepoéticosqueseencontramnabaseda poesiadavidapopular edahistória,Scotttornou-seograndeficcionistadasépocaspassadas,o verdadeirofiguradorpopulardahistória.Heinereconheceuessapeculiaridadedapoesiascottianae viuquesuaforçaconsistejustamentenessarepresentaçãodavidapopular,nofatodequeosgrandes acontecimentosoficiaiseasgrandespersonagenshistóricasnãosãopostosnocentrodanarrativa. Dizele:"Àsvezes,osromancesdeWalterScottfornecemoespíritodahistóriainglesademodo muitomaisfieldoqueHume".Osmaissignificativoshistoriadoresefilósofosdahistóriadessa época,ThierryeHegel,tendemparatalconcepçãodahistória.Masestapermanecenelescomouma exigência,umadeclaraçãoteóricadessanecessidade.Pois,nateoriaenahistoriografia,apenaso materialismohistóricopodedesenterrarmentalmenteessefundamentodahistóriaetrazer àluza infânciadahumanidade.MasaquiloqueemMorgan,MarxeEngelséelaboradoecomprovadocom clarezateóricaehistóricaganhavidaepoesianosmelhoresromanceshistóricosdeWalterScott.Por isso,commuitarazãoHeinesublinhaesseaspectodocaráterpopularemScott:"Raracigarrado povo!Esteexigesuahistóriadamãodopoeta,nãodohistoriador.Eleexigenãoorelatofieldos fatosnus,masosfatosdissolvidosmaisumaveznapoesiaorigináriadeondeprovêm".

Repetimos: essa poesia está objetivamente ligada à necessidade da decadência da sociedade gentílica.NosdiferentesromancesdeScott,vivemosasetapassingularesdessadecadênciaemtoda suaconcretudeediferençahistórica.Scottnãoquisfazerdeseusromancesumciclocoerente-no sentidopedantedeDieAhnen[Osantepassados],deGustavFreytag.Mas,emrelaçãoaodestinodo clã,mostra-secomenormeplasticidadeestegrandecontextohistórico:aimplacávelnecessidadeda

tragédiadosclãs.Eelajáaparecenofatodequeseusdestinossurgemsempredainteraçãovivacom o meio sócio-histórico.Tais destinos jamais são figurados de modo independente,isolado,mas semprenocontextodeumacrisegeraldavidanacionalescocesaouangloescocesa.Acadeiade crisesestende-sedesdeasprimeirasgrandeslutasdanascenteburguesiaescocesacontraanobrezae

atentativadarealezadeutilizaressaslutasparafortaleceropodercentral(TheFairMaidofPerth-

fim do século XIV) até as últimas tentativas dos Stuartde girar a roda da história para trás e reproduziroobsoletoabsolutismoemumaInglaterrajámuitoavançadarumoaocapitalismo(Rob Roy-fimdoséculoXVIII).

Nesse processo, os clãs são sempre por necessidade histórica os usados, os descartados, os logrados.Sãoprecisamentesuasqualidadesheroicas,provindasdoprimitivismodeseusersocial, quefazemdelesojoguetedosrepresentantes-humanamentemuitoinferioresaeles-daspotências dominantesdecadaetapadacivilização.AquiloqueEngelsmostradeformacientífica,istoé,comoa civilizaçãorealizacoisasqueaantigasociedadegentílicanãopodiarealizar,éfiguradoporScottde modo ficcional.Ele figura em especial aquele contraste no campo humano que Engels ressalta quandoanalisaofracassonecessáriodasociedadegentílicadiantedacivilização:"Masacivilização se aperfeiçoou, pondo em movimento os impulsos e as paixões mais torpes dos homens e desenvolvendo-osàcustadetodasassuasoutrasdisposições".

Jáatendênciaàinstauraçãodeumamonarquiaabsoluta-quesurgiuemmeioàslutasdeclasses daépocamedieval-nãoteveescrúpulosemseaproveitardasbeligerânciasirrelevantesdosclãspara provocar sua destruição mútua.O extermínio recíproco nos dois clãs de todos os homens em condiçõesdelutar-oquecompõeoenredodoprimeiroromancemencionadoaqui-é,nessaforma extrema,umcasocertamenteexcepcional,cujatipicidadeéextraídaapenaspelagrandeartedeScott. Mas este só pode fazê-lo porque, em sua dimensão espontânea, mais isolada e episódica, essa incapacidadedoclãdedefenderseusinteressescontraanobrezaouaburguesia-eadissipaçãode todasassuasenergiasnaestreitezalocaldessaspequenaslutas-decorrenecessariamentedabase existencialdoclã.AguardadoreiLuísXIcompõe-sedemembrosdispersos-demodomaisou menosinvoluntário-doantigoclã(QuentinDurward).Eospartidosnasguerrascivisulteriores, tantooParlamentoquantoosStuart,jáseutilizamdemaneiraintensaeinescrupulosadasbravase dedicadaslutasentreosclãsparafinspolíticostotalmenteestranhosaeles(UmalendadeMontrose*, Waverley,RobRoy).

Segundo Engels, com a repressão do levante de 1745 (retratada em Waverley), começa o verdadeiro declínio da sociedade gentílica na Escócia.Algumas décadas depois (em Rob Roy), vemos os clãs já em plena dissolução econômica.Uma das personagens desse romance,Jarvie, prefeitodeGlasgowecomercianteesperto,vêclaramentequeadissoluçãodesesperadaeinevitável dosclãstornou-seumanecessidadeeconômica.Elesnãopodemmaissobrevivercombaseemsua economia primitiva. Existe uma superpopulação permanentemente armada, treinada na guerra, forçadaaroubar,comaqualnãosepodevoltaranenhumanormalidade;arebeliãoapresenta-sea ela como a única saída para essa situação desesperada. Com isso, aparece aqui um traço da dissolução,damarginalização,queaindafaltavanoretratodoclãemWaverley.

Éadmirável,maisumavez,aextraordináriaerealistarepresentaçãodahistóriadeScott,coma

qualeleconverteessesnovoselementosdamudançaeconômicaesocialemdestinoshumanos,em

psicologia transformada das personagens.Seu autêntico caráter popular mostra-se aqui de duas maneiras. Por um lado, no tratamento enérgico, implacável e realista que dá a esses traços marginalizados,emespecialnaaçãoromânticaeaventureiradopróprioRobRoy,quesedestaca commuitanitidezdasimplicidadeprimitivadoschefesdeclãdosperíodosanteriores.Poroutro,na figuração dessa derrocada dos clãs com seu verdadeiro heroísmo popular:em meio a todas as tendênciasàmarginalização,apersonagemdeRobRoyreúneemsiasqualidadesgrandiosasdos antigosheróisdosclãs.Odeclíniodasociedadegentílicaé,emScott,umatragédiaheroica,nãouma miseráveldegradação.

Assim, Walter Scott torna-se um grande poeta da história: porque tem um sentimento mais profundo,legítimoediferenciadodahistóriaquequalqueroutroficcionistaantesdele.Anecessidade históricaé,emseusromances,damaisrigorosaimplacabilidade.Contudo,nãoéumfadoalémdo humano,masumainteração complexadecircunstânciashistóricasconcretasemseuprocesso de transformação,em suainteração com homensconcretos,quecrescem nessas circunstâncias, são influenciadospor elasdeformasmuito diferenteseatuamindividualmente,deacordo comsuas paixõespessoais.Nafiguração,portanto,anecessidadehistóricaésempreumresultado,não um pressuposto;elaé,demodofigurado,aatmosferatrágicadoperíodo,enãooobjetodasreflexões doescritor.

E óbvio que isso não significa que as personagens de Walter Scottnão reflitam sobre seus objetivos e tarefas.Mas essas reflexões são de homens ativos,em circunstâncias concretas.Ea atmosferadanecessidadehistóricasurgeprecisamentedessadialéticamuitosutilentreapotênciaea impotência do discernimento correto em circunstâncias históricas concretas. Em Uma lenda de Montrose,Scottfigura um episódio ocorrido durante a Revolução Inglesa.Tanto o exército do Parlamentoquantoosrealistasprocuramatrairosbelicososclãs.Seusinstrumentossãodoisgrandes chefes,ArgyleeMontrose.Ora,émuitointeressanteque,emtalsituação,umpequenochefedeclã percebaclaramentequesejuntaraoreiouaoParlamentosignifica,nofimdascontas,aruínados clãs.Desdeo início,porém,suaperspicáciaestácondenadaàimpotênciapelaadesão do clãaos grandeschefespolíticos.EcomeçaaguerraentreArgyleeMontrose.

MasessamesmanecessidadeinternaqueencorajaoplanodeMontroseimpõeestreitoslimitesà sua realização, proporcionais aos do clã.Ele mata o adversário e pretende voltar-se contra os inimigosinglesesdorei.Umacampanhamilitardeforçamáximaatéseriacapazdeprovocaruma reviravolta na Inglaterra, mas isso é objetivamente impossível.Com um exército formado por membrosdosclãs,sósepodetravarumaguerraescocesadeclãs.OsseguidoresdeMontrosese sacrificamporele,massuaconvicçãodequeoverdadeiroinimigonãoéoParlamento,masogrupo de clãs inimigos liderados por Argyle, não se abala com nenhum argumento, com nenhuma autoridade de chefe político, e continuará assim, por mais ilimitada que seja a autoridade de Montrose,enquantoelesemovernoquadrodaideologiadeclã.OfatodeScottnãodeixarqueessa

oposição se revele de modo puramente exterior diz respeito ao caráter sutil e histórico de sua caracterização.Montroseéumaristocrata,umrealistaconvicto,generaldetalentosnotáveis,homem degrandesambiçõespolíticas,mastambémé,intimamente,umchefedeclã.Omododepensardos membrosdoclãatuaneleinternamente;éporumanecessidadeexternaeinternaqueeledesistede seusgrandesplanosedissipasuasforçasnainsignificanteguerradeclãscontraArgyle.

Figurandoessagrandenecessidadehistórica-queseimpõepelaaçãoapaixonadadosindivíduos, mas com frequência contra sua psicologia -, fundamentando essa necessidade sobre bases socioeconômicasreaisdavidapopular,WalterScottexpressasuafidelidadehistórica.Emrelaçãoa essaautenticidadenareproduçãoliteráriadosverdadeiroscomponentesdanecessidadehistórica,não seconsideraseessesdetalhesefatosisoladossãohistoricamenteprocedentesounão.Semdúvida, Scottémuitovigorosoeautênticonessesdetalhes,masnuncanosentidoprópriodoantiquárioouno sentidoexóticodosescritoresposteriores.ParaScott,osdetalhessãoapenasummeioparaatingira fidelidadehistóricaretratada,paraevidenciardemaneiraconcretaanecessidadehistóricadeuma situação concreta.Essa fidelidade histórica é, para Scott, a verdade da psicologia histórica das personagens,dolegítimohicetnunc(aquieagora)deseusmóveispsicológicosedeseumodode agir.

É justamente na concepção humana e moral de suas personagens que Scott conserva essa fidelidade histórica. As reações contrárias e contraditórias a certos acontecimentos movem-se sempre,em seus romances bem-sucedidos,no quadro dadialéticaobjetivadedeterminadacrise histórica. Nesse sentido, ele jamais cria personagens excêntricas, personagens que, por sua psicologia,fogemdaatmosferadaépoca.Serianecessáriaumaanáliseminuciosaparamostrarisso pormeiodeexemplosmarcantes.FaremosapenasumacurtareferênciaaEffie,irmãdeJeanieDeans. Àprimeiravista,elaconstituiamaisagudaoposiçãopsicológicaemoralemrelaçãoaopaieàirmã. MasScottfigura,comgrandesutileza,omodocomoessaoposiçãonasceprecisamentedaoposição aocarátercamponêsepuritanodafamília,comoumasériedecircunstânciasdurantesuaeducaçãodá chanceaessedesenvolvimentosingular ecomo,mesmoemsuatrágicacriseeemsuaascensão social posterior, seu caráter mostra vários traços que conservam elementos daquele coletivo sociotemporal. Essa forma de figuração deixa claro que Scott, em radical oposição ao

desenvolvimentodoromancehistóricopós-Revoluçãode1848,jamaismodernizaapsicologiade

suaspersonagens.

Essamodernizaçãonãoécertamenteumanova"realização"doromancehistóricopós-Revolução de1848.Ao contrário,éafalsaherançasuperadajustamentepor Walter Scott.Ealutaentrea fidelidadehistóricadapsicologiaeamodernizaçãopsicológicadaspersonagenshistóricascompõe oproblemacentraldadivisãodosespíritostambémnaépocadeWalter Scott.Voltaremosaesse problema mais adiante.Neste momento, limitamo-nos a considerar que, enquanto os romances pseudo-históricos dos séculos XVII e XVIII justapõem simplesmente de modo ingênuo a vida

sentimentaldopassadoeadopresente,outracorrentemaisperigosadamodernizaçãosurgeem Chateaubriand e no romantismo alemão. Os românticos alemães em especial dão um peso extraordinariamentegrandeàfidelidadehistóricadosdetalhes.Descobremoatrativopictóricoda IdadeMédiaereproduzem-nocomumaexatidão"nazarena"*:docatolicismomedievalatéosmóveis antigos, tudo é reproduzido com uma exatidão de artesão especialista que beira muitas vezes o pedantismopitoresco.Contudo,oshomensfiguradosnessemundopitorescotêmapsicologiadeum românticodilaceradooudeumneófitoapologistadaSantaAliança.

NaAlemanha,essacaricaturadecorativadafidelidadehistóricafoifirmementerejeitadapelos grandesrepresentantesdoprogressoliterárioecultural:GoetheeHegel.Oromancehistóricode Walter Scott é a contrapartida viva dessa nova tendência de um falso historicismo e de sua concomitante modernização não artística do passado. Mas fidelidade ao passado significa uma reproduçãocronológicaenaturalistadalinguagemedomododesentirdopassado?Éóbvioque não.EosgrandescontemporâneosalemãesdeScott,GoetheeHegel,formularamesseproblema comgrandeclarezateórica.Goethelevantaessaquestãoemumaresenhasobreatragédiahistórica Adelchi,deManzoni.Eleescreve:

Proferiremos,parasuajustificação,palavrasquepodemparecerparadoxais:todapoesiatransita propriamenteemmeioaanacronismos.Todopassadoqueinvocamossópodesercomunicado aoscontemporâneosconcedendo-seaeleumaformamaiselevadaqueaquelheeraprópria( ).A Ilíada,assimcomoaOdisseia,todosospoetastrágicoseaquiloquenosrestoudaverdadeira poesia,sóganhamvidapormeiodeanacronismos.Atodasassituaçõesempresta-seoqueémais

novoafimdetorná-lasevidentesoumesmotoleráveis(

).

QuantoessasconsideraçõesdeGoetheinfluenciaramdiretamenteaestéticahegelianaéalgoque nãosabemos.Emtodocaso,universalizandooproblemaemsentidoestético-conceitual,Hegeljáfala deumanacronismonecessárionaarte.Maséclaroque,emrelaçãoàconcretizaçãoeàdialética histórica do problema, suas considerações vão mais longe que as de Goethe e exprimem teoricamenteoprincípioquedeterminouapráxishistóricadeScott.Hegeldiscuteoanacronismoda seguinte forma: "A substância interna do representado permanece a mesma, mas a forma desenvolvida na representação e no desdobramento dessa substância necessita sofrer uma transformaçãoparasuaexpressãoefiguração".

EssaformulaçãosoamuitopróximadadeGoethe,poréméumdesenvolvimentoulteriordesta. Hegelapreendearelaçãodopresentecomopassadodemodoconscientementemaishistóricoque Goethe. Para este, trata-se essencialmente de extrair os princípios humanistas, universalmente humanos,dosolohistóricoconcreto;trata-sedetransformaressesolohistóricodemodoquetal extração possa ser realizada sem a eliminação da verdade histórica essencial. (Quanto a isso, remetemosànossaanálisedafiguraçãodaspersonagensdeDoroteiaeClara.)Hegel,aocontrário, apreendehistoricamenteessarelaçãocomopresente.Afirmaqueo"anacronismonecessário"pode

brotarorganicamentedoconteúdohistóricoseopassadofiguradodosficcionistasdopresentefor reconhecidoevivenciadocomclarezacomopré-histórianecessáriadopresente.Nessecaso,aúnica intensificação queseapresenta-no modo deexpressão,naconsciênciaetc.-éaquelaquepode esclarecer eressaltar essarelação.Eanovaformulação doseventosedoscostumesdo passado consiste apenas no fato de que o ficcionista permite que as tendências que conduziram real e historicamenteaopresente,masnãoforamreconhecidasporseuscontemporâneoscomosignificado queevidenciariamdepois,surjamcomopesoquepossuemobjetivaehistoricamenteparaoproduto dessepassado,istoé,paraopresentehistóricodoficcionista.

EssespassosconceituaisdeHegelcontêmumadelimitaçãoestéticadatemáticahistórica,pois,no traçadoulteriordesuasideias,eleconfrontaoanacronismonecessáriodospoemashoméricosedas tragédiasantigascomaformamedieval,feudalecavalheirescadeAcançãodosNibelungos*."Essa remodelaçãoétotalmentediferentequandovisõeserepresentaçõesdeumdesenvolvimentoposterior daconsciênciareligiosaeéticasãotransmitidasaumtempoouaumanaçãocujavisãodemundo contradiz inteiramente essas novas representações." Portanto, a modernização nasce de uma necessidadeestéticaehistóricatodavezqueessarelaçãovitalentrepassadoepresentenãoexisteesó podeserproduzidademodoviolento.(Trataremosdesseproblemadamodernizaçãodahistóriamais emdetalhenaspróximasseções.)

É evidente que subsiste uma imensa diferença histórica, que se reflete também na figuração estética,entre,porumlado,ainconsciênciaingênuaeodescuidocomqueopoetadeAcançãodos Nibelungos remodelou as lendas da época gentílica em sentido feudal e cristão e, por outro, a apologética extravagante com que os românticos reacionários imputaram os princípios do legitimismo à Idade Média, transformada por eles em um idílio social povoado de marginais decadentesnopapeldeheróis.

Scott,semterconhecimentodecertodasreflexõesdessesautores,converteuempráticaficcionalo "anacronismonecessário"deGoetheeHegel.Tantomaissignificativa,portanto,éessaconcordância dos importantes ficcionistas e pensadores progressistas desse período com seus princípios de figuração.Sobretudoselevarmosemcontaqueessaprática-mesmosemnenhumafundamentação filosófica-étotalmenteconsciente.ScottescrevesobreessaquestãonoprefácioaIvanhoé:

Defato,não posso nemquero pretender àexatidão completa,sejaquanto acoisasquedizem respeitoapenasàroupagemexterna,seja,menosainda,quantoaospontosmaisimportantesde expressãoecomportamento.Masamesmarazãoquemeimpededeescreverodiálogodeuma obraemlínguaanglo-saxãounormando-francesa,eproíbe-medemandarimprimiresseescrito comtiposgráficosdeumCaxtonouumWynkendeWorde,tambémimpedequeeumeconfine noslimitesdaqueleperíodoemquesepassaminhahistória.Paraprovocardealgummodono leitor o sentimento departicipação,o objeto escolhido deveser traduzido noscostumesena linguagemdaépocaemquevivemos( ).Everdadequeessaliberdadetemseuslimitespróprios;

o autor não podeintroduzir àforçaaquilo quenão seharmonizacomoscostumesdaépoca retratada.

Ocaminhoparaaverdadeirafidelidadehistórico-ficcionalé,emWalterScott,umacontinuação dosprincípiosdefiguraçãodosgrandesescritoresrealistasinglesesdoséculoXVIIIesuaaplicação na história.E isso, certamente, não apenas no sentido de um prosseguimento temático, de uma apropriação da temática histórica para o grande realismo, mas no sentido da historização dos princípiosfigurativosdoshomensedosacontecimentos.OqueemFieldingestavapresenteapenas demodolatentetorna-se,emScott,aalmadafiguraçãoliterária.O"anacronismonecessário"de Scottconsiste,portanto,no fato de conferir aos homens uma expressão nítida de sentimentos e pensamentossobrecontextoshistóricosreaisqueelesnãopoderiamalcançaremsuaépoca.Maso conteúdo dos sentimentos e pensamentos, a relação destes para com seu objeto real é sempre importanteparaScott,tantohistóricaquantosocialmente.Eseugrandetalentoficcionalconsiste,por umlado,emelevaracimadotempoessaexpressãonítidadossentimentosedospensamentosapenas oestritonecessárioparaesclarecerocontextoe,poroutro,emconferiraessaexpressãootimbre,o colorido,atonalidadedotempo,daclasseetc.

H.Oromancehistóricoclássicocontraoromantismo

Como vimos,aartedeWalter Scottexpressaatendênciaprogressistaessencialdesseperíodo,a defesahistóricado progresso,deformaartisticamenteperfeita.Defato,Scotttornou-seum dos escritoresmaispopularesemaislidosdeseutempo,emescalamundial.Ainfluênciaqueexerceu sobretodaaliteraturadaEuropaéincomensurável.Osescritoresmaissignificativosdesseperíodo, dePúchkinaBalzac,encontraramnovoscaminhosemsuaproduçãopormeiodessenovotipode figuraçãodahistória.Contudo,seriaumerroacreditarqueagrandeondaderomanceshistóricosna primeirametadedoséculoXIXtenhaevoluídodefatosobreosprincípiosscottianos.Jávimosquea concepçãohistóricadoromantismoeradiametralmenteopostaàdeWalterScott.Eéclaroque,com isso,acaracterizaçãodasoutrascorrentesdoromancehistóricoestálongedeseesgotar.Indicamos apenasduascorrentesimportantes:porumlado,oromantismoliberal,queemtermosdevisãode mundoemododefiguraçãotemmuitoemcomumcomosolooriginaldoromantismo,comaluta ideológicacontraaRevoluçãoFrancesa,masrepresenta,sobreessabasecontraditóriaeoscilante,a

ideologiadeumprogressomoderado;poroutro,escritoresimportantes-comoGoetheeStendhal-

que conservaram muito da visão de mundo do século XVIII e cujo humanismo contém fortes elementosdoIluminismo.Éclaroquenãopodemosesboçaraqui,nemmesmoemlinhasgerais,a lutaentreessasduascorrentes.Queremosapenasanalisarbrevementealgunsexemplosimportantes de continuidade e combate aos princípios ficcionais do romance histórico. Faremos alusão a escritoresquesetornaramsignificativosporexercereminfluênciadiretasobreodesenvolvimento posterior, ou, em contraste com esse desenvolvimento, por possuírem, assim como Scott, uma grandeatualidadenaatualcrisedoromancehistórico.

Podemos desconsiderar nesse resumo os discípulos ingleses e contemporâneos de Scott.Em línguainglesa,esteteveapenas um discípulo queadotoueatédeucontinuidadeadeterminados princípiosdesuatemáticaeformadefiguração:onorte-americanoCooper.Emseuimortalciclode romancesTheLeatherstockingTales[HistóriasdoMeiasdeCouro]*,Coopercolocanocentroda figuraçãoumimportantetemadeWalterScott:odeclíniodasociedadegentílica.Emconformidade com o desenvolvimento histórico da América do Norte, esse tema ganha uma fisionomia inteiramentenova.EmScott,trata-sedeumdesenvolvimentoconflituosoquedurouumséculo,de diferentesformasdeassimilaçãodosresquíciosdasociedadegentílicapelosistemafeudal-e,mais tarde, pelo capitalismo nascente - e do lento e tenso declínio dessa formação. Na América, a contradiçãodahistóriaépostademodomuitomaisbrutaleimediato:ocapitalismocolonizadorda FrançaedaInglaterradestruiufísicaemoralmenteasociedadegentílicadosíndios,quedurante milêniosseconservouquaseinalterada.

AconcentraçãodeCoopersobreesseproblema,sobreaderrocadafísica,adesintegraçãomoral dastribosindígenas,confereaseusromancesumagrandeeamplaperspectivahistórica.Aomesmo tempo,porém,aunivocidadeealinearidadedacontradiçãosocialsignificamumempobrecimento domundoficcionalemcomparaçãocomodeScott.EmCooper,issosemanifestasobretudona figuradosinglesesedosfranceses,queemsuagrandemaioriasãoretratadosesquematicamente, comumapsicologiarasaeumhumormonótono,chargista.Balzacjáhaviacriticadodemodoacerbo essafraquezadeCooper,que,deresto,eleconsideraumdignoseguidor deScott.Afontedessa fraquezarepousa,acreditoeu,nofatodequeoseuropeusqueaparecemnosromancesdeCooper levamumavidamuitomaisisoladaqueossenhoresfeudaisouosburguesescitadinosdeScott,sem grandesinteraçõessociais.

O interesse ficcional de Cooper concentra-se na figuração da sociedade gentílica dos peles- vermelhas,queseencontraemtrágicoprocessodedecadência.Comumalegítimagrandiosidade épica,Cooperseparaosdoisprocessosdatrágicaderrocadaedamarginalizaçãohumanaemoral. Concentra os traços trágicos e comoventes do declínio em algumas grandes personagens de sobreviventesdatribo delaware,ao passo queossintomasdedegradação moral dosíndiossão representadosdeformaamplaedetalhadanastribosinimigas.Comisso,suafiguraçãoécertamente simplificada,porém,aomesmotempo,atingeumesplendorquaseépico.

No entanto,amaisaltaempresaficcionaldeCooper éo singular aperfeiçoamento do "herói mediano" de Scott.Apersonagem principal de seu romance é o inglês Nathaniel Bumppo, um caçadoranalfabeto,simplórioehonestoquefoiumdosprimeiroscolonizadoresdaAméricae,no entanto,como um homem simples do povo, como um inglês de inclinações puritanas, sente-se profundamenteatraídopelagrandezasimplesdahumanidadedosíndioseestabeleceumaligação indissolúvelcomosúltimosdelawares.Aslinhasfundamentaisdesuasconcepçõesmoraiscontinuam sendoasdeumeuropeu,masseuamordesenfreadopelaliberdade,suaatraçãoporumavidasimples

ehumanaoaproximammaisdosíndiosquedoscolonizadoreseuropeus,dosquaiselefazparte objetivaesocialmente.Poressapersonagemsimples,popular,quevivesuatragédiaapenasnoplano dosentimento,semcompreendê-la,Cooperfiguraaviolentatragédiahistóricadaquelesprimeiros colonizadoresque,parapreservarsualiberdade,emigraramdaInglaterra,masnaAmérica,porsua própria ação, destruíram essa mesma liberdade. Maksim Górki definiu essa tragédia de modo esplêndido:

Como explorador das florestas e das estepes do "Novo Mundo", ele abre caminhos para os homens que mais tarde o condenam como criminoso por ter infringido suas leis cobiçosas, incompreensíveisparaseusenso deliberdade.Inconscientemente,eleserviusuavidainteiraà grandecausadaexpansão geográficadaculturamaterialno paísdosselvagensemostrou-se incapazdeviversobascondiçõesdaculturaparaaqualestabeleceraasprimeirasviasdeacesso.

Górki mostra aqui, de maneira sublime, como uma grande tragédia histórica, e mesmo mundialmentehistórica,podeserrepresentadanodestinodeumhomemmedianodopovo.JáCooper mostraquetal tragédiaseexpressademodo muito maiscomovente,do ponto devistapoético, quandoérepresentadaemummeioemqueascontradiçõeseconômicasimediataseascontradições morais decorrentes brotam organicamente dos problemas cotidianos. A tragédia dos pioneiros vincula-segrandiosamenteao declínio trágico da sociedade gentílica e,assim,uma das grandes contradiçõesdomovimentodeprogressodahumanidadealcançaaquiumaesplêndidaformatrágica.

Essa concepção das contradições do progresso humano é um produto do período pós- revolucionário.Já mencionamos a afirmação de Púchkin em que ele alude de maneira clara e conscienteaofatodequeafiguraçãoscottianadahistóriasignificaumanovaeraemrelaçãotambém aShakespeareeGoethe.Essanovasituaçãohistóricapodeserestudadadeformamaisevidenteem Goethe.Estefoi,atéofimdavida,umdefensorapaixonadodoprogressoemtodasasáreas.Atéo fimdavida,acompanhoucomatençãoecritérioosnovosfenômenosdaliteratura.Estudouecriticou minuciosamentenãoapenasScotteManzoni,comotambém,quaseemseusúltimosdiasdevida,as primeirasgrandesobrasdeStendhaleBalzac.

Apesardisso,arelaçãodeGoethecomScottéproblemáticaeainfluênciadestesobreaformade figuraçãodaqueleestálongedeserdecisiva.Nafiguraçãodohicetnunchistórico,napreservação históricadapsicologiadaspersonagensatéemsuasmanifestaçõesvitaismaiselevadas,Goetheé sempreumpoetadoperíodoanterioraScott.Nãotemoscomoanalisaraquiasváriasdeclaraçõesde GoethesobreScott,seudesenvolvimentoecontradição.Serásuficienteapontarmosessacontradição. JámencionamosaentusiasmadaafirmaçãodeGoethesobreRobRoy;poderíamoscitartodauma sériedeafirmaçõesdessetipo.Entretanto,emsuasconversascomochancelervonMüller,Goethe aindacolocaByronacimadeScotte,sobreesteúltimo,dizoseguinte:"DeWalter Scott,lidois romancesesei,portanto,oquequereoquepodefazer.Elemedivertirásempre,masnãotenhonada aaprendercomele".

AafirmaçãoaEckermann,citadaanteriormente,decertoédeumaépocaposterior,demodoque seriacorretosuporqueGoethereavaliousuaopiniãosobreScott.MasaproduçãodecisivadeGoethe emseusúltimosanosdevidanão mostranenhumtraço deinfluênciaefetivadanovaconcepção históricado homemedosacontecimentos.OhorizontesocialdeGoethetorna-secadavezmais abrangente,suavisãodadialéticatrágicadavidaburguesamodernaaprofunda-secadavezmais; porém,noquedizrespeitoàconcretizaçãohistóricadoespaçoedotempo,dapsicologiahistórica conduzidaatéo fim,elenão vaialémdo nívelqueatingiuemsuamaturidade.Nessesentido,o caráterhistóricodeobrascomoEgmontéopontoculminantedesuaprodução.Éverdadeque,jáno tempodacolaboraçãocomSchiller,eletinhafortetendênciaafigurarosgrandesacontecimentosdo momento de acordo com sua essência puramente histórica, a fim de encontrar uma redação ficcionalmenteconcretaparaaessênciahumanaesocialqueédestiladadessesacontecimentos,sem deter-seemumaépocahistóricaconcretadomundoqueéfigurado.Essatradiçãomodificadada épocadoIluminismopodeservistacomclareza,cadaqualàsuamaneira,emReinekeRaposo*eDie natürliche Tochter [A filha natural]. E os grandes acontecimentos sociais e históricos que se desenrolam,porexemplo,emWilhelmMeister(guerraetc.)sãomantidosintencionalmenteemum planoabstrato-aindamaisabstratoqueemFieldingouSmollett,porexemplo.Aqui,Goethesegue maisatradiçãofrancesaqueainglesa.Todasessastendênciasdefiguração,queseformaramem GoetheantesdoperíododeWalterScott,sãoconservadas-eatéintensificadasemsuavelhice(As afinidades eletivas**, Fausto Parte II***). Também como crítico dos novos acontecimentos, permanecevivaemGoethe,comovimos,umafortetradiçãolessingiana.

Assim, o essencial da realização de Goethe situa-se no nível da concretização histórica pré- scottiana.Apesar disso,como tambémvimos,Goethereconheceudeterminadascondiçõesparao surgimento e a tematização do romance histórico mais claramente que qualquer outro de seus contemporâneosalemães.Complenarazão,reconheceuosignificadodahistóriadaInglaterra,em suacontinuidadeeemseuaspecto glorioso paraageração presente.Essabaserealdo romance históricoéalgoquefaltaemalgunspaísesimportantesdaEuropa,sobretudonaprópriaAlemanhae naItália.

Nosanos1840,emrespostaaumacríticadeWillibaldAlexisaumdramadesuaautoria,Hebbel

concordaeémuitocontundentearespeitodessarelação:

Éabsolutamentecorretoquenós,alemães,nãoestamosconectadoscomahistóriadenossopovo

( ).Masporqueissoéassim?Porqueessahistóriafoisemresultado,porquenãopodemosnos

considerarprodutodeseuprocessoorgânicocomo,porexemplo,podemfazerosingleseseos

franceses,porqueissoquecertamentedevemoschamardenossahistórianãoénossahistóriade

vida,massimdenossadoença,queaindahojenãonosconduziuàcrise.

Eacercado fracasso necessário datemáticadadinastiadosHohenstaufen,própriadospoetas alemães,eledizcomumagrosseriabrutalqueessesimperadores"nãotinham"comaAlemanha

"outra relação senão a da tênia com o estômago".Dessa situação resulta, necessariamente, uma temáticaacidental,oumesmoinverídica,quandoosescritoresnãoestãoemcondiçõesdetrazerpara ocentrodarepresentaçãoessecarátercrítico[Krisenhaftigkeit],fragmentárioetrágicodaprópria história.

Na Alemanha, não existiam condições ideológicas para tal concepção.Aúnica obra que se aproximadeumanarrativahistóricadegrandeestilo,naqualestãopresentesdemodoinconscientee instintivoelementoseideiasdessetrágicocarátercrítico,istoé,MichaelKohlhaas*,deKleist,éum episódio isolado não apenasdaliteraturaalemã,mastambémdaprópriaprodução do autor.Tal comoGoethefezemGõtzvonBerlichingen,Kleistrecorre,comcorretosentimentohistórico,auma grandecrisedahistóriaalemã,àépocadaReforma.Emambasasobras,oconflitoaparecepormeio do choque entre a autonomia medieval do indivíduo (a partir da psicologia e da moral de um "período heroico",no sentido deVico eHegel)eajustiçaabstratadaformaestatalmodernado feudalismo.EtantonojovemGoethecomoemKleistécaracterístico,naformulaçãodojuízoacerca dodesenvolvimentoalemão,queodesenvolvimentodemocráticoposteriordaReforma,aGuerra dosCamponeses,sejaexcluídadoquadroouapareçaapenascomotendêncianegativa.Apesar de todasasposiçõespolíticasesociaisconservadorasdeKleist,suasnovelasevidenciamclaramenteos traçosideológicosdatransformaçãohistóricaconcluídadesdeodramajuvenildeGoethe:enquanto neste último a Reforma e, com ela, Lutero mostram um aspecto exclusivamente progressista (a libertação da ascese e da coerção medievais), em Kleist as tendências problemáticas, senão declaradamente negativas, e a conexão com o absolutismo dos pequenos Estados aparecem em primeiroplanoetornam-semomentosdecisivosdoconflitocentral.

Aposição excepcional dessa novela na literatura histórica alemã repousa, além disso, nessa continuidade - intuitiva - da concretização da verdadeira problemática da história alemã. Essa excepcionalidadeseexpressa-mutatismutandis,comoemGoethe-nofatodequeessamarchapara aapreensãoficcionaldahistóriaalemãnãopodeter continuidadenaobradeKleist.Éclaro que

Goetheextraiconscientementetodasasconsequênciasdessasituação:comexceçãodosatos1eIIda

segundapartedoFausto,emqueomotivodeGõtzreapareceadequadamentecorrigido-agoraem contrastecomasexperiênciashistóricasenriquecidaseaprofundadasdeGoethe-,elenãoretorna maisàtemáticadahistóriaalemã.Kleist,aocontrário,apropria-seemsuadramatizaçãodosmais variadosmateriaisdahistóriaalemã.Contudo,omodocomoeleseapropriadessesconteúdosnão mostranenhumsinaldoprogressismoqueestánocentrodeKohlhaas;seusdramassãoepisódicose tomamofundamentohistóricoapenascomoocasiãoparaexpressarvivênciaspuramentepessoaise subjetivas, fornecendo respostas reacionárias às grandes questões da história. (Pensemos no sonambulismodeHomburg,emqueosaspectosepisódicoereacionárioseentrecruzam.)Osdois casostãoagudamentecontrastantesdeGoetheeKleistdenunciam,demodoinequívoco,apobrezada históriaalemã,mencionadaacima.

AlinhadominantedaficçãohistóricanaAlemanhafoiadareaçãoromântica,daglorificação apologéticadaIdadeMédia.TalliteraturaseconstituiumuitoantesdeWalterScott,comNovalis, Wackenroder e Tieck. Aqui, a influência de Walter Scott foi, quando muito, no sentido do fortalecimentodatendênciaaumafiguraçãomaisrealistadosdetalhes,comonaproduçãotardiade ArnimeTieck.Masnãoprovocouumaverdadeirarevolução-nempoderiaprovocar.Issosedeveu, sobretudo,arazõespolíticasedevisãodemundo;pois,peloquedissemosatéaqui,estáclaroqueo romantismoreacionárionãopodiaassimilareutilizarosmeiosdeexpressãomaissignificativosda composição e da caracterização scottiana. Os românticos reacionários podiam, na melhor das hipóteses,aprenderexterioridadescomWalterScott.

Asituaçãonãoémuitomelhornocasodoromantismoliberaleliberalizadorposterior.Tieck,em seudesenvolvimento subsequente,livrou-sedemuitasmaniassubjetivistasereacionáriasdeseus primeirosanos.Eseuscontoshistóricostardiossituam-se,aomenosdeacordocomatendênciaque apresentam,emumplanoessencialmentesuperioraseuscontosiniciais;issovaleemparticularpara ograndefragmentoDer Aufruhr indenCevennen[ArevoltanasCevenas].Entretanto,essaobra também mostra que Tieck não conseguiu apropriar-se de nada essencial de Walter Scott. Sua composição parte das representações religiosas da última revolta dos huguenotes na França.O enredoédominadopelosdebatesreligiosos,pelasformasbizarrasdefémística,pelosproblemas puramentemoraisdaação(crueldadeoumagnanimidade),pelasconversõesreligiosasetc.Nãodiz nenhumapalavrasobreasbasesvitaisdarebelião,osproblemasvitaisdoprópriopovo.Avidado povoéapenasummaterialbastanteabstratodeilustraçãoparaosconflitosespirituaisemoraisquese desenrolamno"alto",emummundoisolado.

Oúnicoescritoralemãodoqualsepodedizer,comalgumarazão,querepresentaastradiçõesde WalterScottéWillibaldAlexis.Trata-sedeumverdadeirocontista,dotadodeumtalentorealparaa autenticidadehistóricadoscostumesedossentimentosdoshomens.Nele,ahistóriaémuitomaisque roupagemedecoração;éelaquedeterminadefatoavida,opensamento,omododesentireagirdas personagens.Porconseguinte,omundomedievaldeWillibaldAlexisestámuitodistantedoidílio românticoereacionário.Maséjustamentenessetalentosoedecididorealistaquesepercebecom maisnitidezaestreitezadatemáticaalemã.Seusromancespadecemdamisériadahistóriaprussiana, datacanhicehistóricadaslutasentrenobreza,coroaeburguesianaPrússia.PrecisamenteporAlexis serumverdadeirorealistahistóricoéqueessestraçosmesquinhosaparecemtãofortementeemseus enredos,emsuacaracterizaçãodaspersonagens,eimpedemquesuasobras,tãobemconcebidase escritas,tenhamauniversalidadeeaforçadepenetraçãodasobrasdopróprioWalterScott.Apesar de seu talento, ele permanece preso à sua terra. Gutzkow reconheceu isso desde logo. E um admiradorindisfarçáveldeAlexiscomoTheodorFontaneconcordousemreservascomessejuízo crítico.ElecitaGutzkow:"Noentanto,queocorranaAlemanha( )atransformaçãodahistórialocal daMarcadeBrandemburgoemhistóriado Império éalgo quesó podeser umsonho".Fontane resumeessasideiasdaseguinteforma:

Quãograndeoudiminutofoiosignificadohistóricoepolíticodosprocessosretratadosnesse romance? Talvez não inteiramente diminuto, mas decerto não tão grande, e nenhum esforço jamaisconseguiráfazerdaMarcadeBrandemburgoumpaíslouvadoporconterdesdeoinícioa promessadafuturaAlemanha.Noentanto,essaéaideiaqueatravessatodososromances,ao passo que,naverdade,o Eleitorado deBrandemburgo foiummero apêndicedo Império ea grandiosidade rústica de nos sas cidades, no que concerne à riqueza, ao poder e à cultura, desapareceu diante da Alemanha propriamente dita, diante das cidades do Império e da Liga Hanseática.

TalinsuficiênciadatemáticahistóricatambémseaplicaàItália.MasScottencontrounessepaís umseguidorque,emboratenhaescritoapenasumaobraisolada,deucontinuidadeasuastendências com originalidade e grandiosidade, chegando a superar em muitos aspectos o próprio Scott. Referimo-nos,éevidente,aOsnoivos*,deManzoni.OpróprioWalterScottreconheceuagrandeza desseautor.EmMilão,quandoconfessouaScottqueeraseudiscípulo,esterespondeuque,nesse caso,aobradeManzonierasuamelhorobra.Contudo,émuitocaracterísticoque,enquantoScott escreveuumaabundânciaderomancessobreahistóriainglesaeescocesa,Manzonitenhaselimitado aapenasessaúnicaobra-prima.Isso,semdúvida,nãosedeveaumalimitaçãoindividualdotalento deManzoni.Seudomdeinvençãoparaatrama,suafantasianarepresentaçãodaspersonagensdas maisdiversasclassessociais,seusentimento paraaautenticidadehistóricatanto davidainterior comoexteriorsãoqualidadesnomínimoequiparáveisàsdeWalterScott.Eéprecisamentenessa variedade e profundidade da caracterização, nesse esgotamento de todas as possibilidades psicológicasextraídasdosgrandesconflitostrágicosqueManzoni chegaasuperar Scott.Como figuradordeindivíduos,eleéumescritormaiorqueScott.

Como grande ficcionista, Manzoni também encontrou um tema em que pôde superar a insuficiênciaobjetivadahistóriaitalianaecriarumverdadeiroromancehistórico,capazdemover intensamenteopresenteefazer seuscontemporâneossenti-locomorepresentaçãodesuaprópria história. Ainda com mais vigor que o próprio Scott, ele relega a pano de fundo os grandes acontecimentoshistóricos,emboraospinteemumaatmosferadeconcretudehistóricaqueseapoia emScott.Masseutemafundamentalnãoédeterminadacrisedahistórianacional,comoéocasoem WalterScott,masantesasituaçãocrítica[krisenhaftige]davidadopovoitalianoemdecorrênciada fragmentaçãodaItália,docaráterfeudalereacionárioquemantinhaaspartesfragmentadasdopaís em pequenas guerras umas contra as outras e dependentes da intervenção de grandes potências externas.Manzoniretrataapenasumepisódioconcretodavidanacionalitaliana:oamor,aseparação eareconciliaçãodedoisjovenscamponeses.Masahistóriaergue-se,emsuarepresentação,aoplano datragédiageraldopovoitalianosobadegradaçãoeafragmentaçãonacionais.Semabandonaro quadrocompletodoespaçoedotempo,dapsicologiacondicionadapelaépocaepelasclasses,esse destinodoparamorosodeManzonieleva-seaopatamardeatragédiadopovoitalianoemgeral.

Pormeiodessaconcepçãograndiosaehistoricamenteprofunda,Manzonicriaumromanceque

chegaasuperar seumestreemcapacidadedecaracterização do ser humano.No entanto,dadaa temáticainternadeseumodelo,écompreensível queestelevasseaum único romance,sendo a repetiçãoapenasumarepetiçãonomausentidodapalavra.WalterScottnuncarepeteasimesmoem seusromancesbem-sucedidos;poisaprópriahistória,arepresentaçãodedeterminadascrisesnão cessadetrazeronovo.AhistóriaitaliananãodeuaogêniodeManzoniessainesgotávelvariedade temática.Asobriedadedopoetaestáemterabertoessecaminhoúnicoparaagrandeconcepçãoda históriaitalianae,aomesmotempo,tercompreendidoque,aqui,apenasumúnicoacabamentoera possível.

Mas,naturalmente,issotambémteveconsequênciasparaopróprioromance.Destacamosaquios traços humanos e poéticos que levaram Manzoni a superar Scott em alguns momentos de sua figuração.Contudo,afaltadaquelegrandesubstratohistóricoquetantoimpressionouGoetheaoler Scottnão pode limitar-se apenas ao plano da temática.Ela também tem consequências artísticas intrínsecas:afaltadeatmosferahistóricamundial-que,emScott,podesersentidamesmoquandoele seestendenarepresentaçãodepequenaslutasentreclãs-manifesta-seemManzonipormeiodecerta limitação interna do horizonte humano de suas personagens.Com toda autenticidade humana e histórica,comtodaprofundidadepsicológicaqueoficcionistaemprestaasuaspersonagens,suas figurações da vida não conseguem alcançar as alturas históricas típicas que constituem o ponto culminantedasobrasdeScott.Diantedadramatização heroicadeJeanieDeansoudeRebeca,o destinodeLúciaéapenasumidílioameaçadoexternamente;poroutrolado,existenaspersonagens negativasdesseromancecertotraçodemesquinhezqueasimpede,poressamesmanegatividade,de desmascarardialeticamenteaslimitaçõeshistóricasdetodooperíodoe,comelas,aslimitaçõesdas personagenspositivas,comoéocaso,porexemplo,docavaleirotemplárioemIvanhoé.

TotalmentedistintassãoaspossibilidadesdoromancehistóriconaRússia,opaísmaisatrasadoda Europanaépoca.Apesardetodoatrasoeconômico,políticoecultural,oabsolutismoczaristafundou e defendeu a unidade nacional contra os inimigos estrangeiros. Por essa razão, os eminentes representantesdoczarismo-emespecialquandosãoaomesmotemporepresentantesdaintrodução daculturaocidentalnaRússia-fornecerampersonagensparaumromancehistóricoqueopresente, mesmotemporalmentedistanteetendoobjetivossociais,políticoseculturaistotalmentedistintos, pôdesentircomobaserealdesuaprópriaexistência.Assim,ocursointeirodahistóriarussanão apresenta,emsentidonacional,aquelamesquinhezdasrelaçõesquecaracterizaahistóriaalemãou italiana.Essagrandiosidadehistóricadavidanacionaltambémconfereàsgrandeslutasdeclassesum pano de fundo histórico significativo, uma magnitude histórica considerável. As revoltas dos camponeses de Pugatchov e Stenka Razin têm uma grandeza trágica histórica cuja extensão foi alcançadaporpoucasrevoltascamponesasdaEuropaocidental.ApenasaGuerradosCamponeses podesuperá-lasemgrandiosidadetrágicahistórica,comomomentododestinodopovoalemãoem queasalvaçãodadegradaçãonacionaleaproduçãodaunidadedopaísaparecemnohorizontecomo umaperspectivaque,noentanto,submergetragicamentecomoesmagamentodarevolta.

Nãoéporacaso,portanto,queprecisamentenaRússiaareviravoltadecisivarealizadaporWalter Scottnafiguraçãodahistóriatenhasidocompreendida,talvez,demodomaisrápidoemaisprofundo quenorestantedaEuropa.Púchkin,emaistardeBelinski,fornece-ao lado deBalzac-amais corretaeprofundaanálisedosnovosprincípiosdaficçãohistóricascottiana.Púchkin,emparticular, entendedesdeoprimeiromomento,ecomclarezaimpecável,aoposiçãodiametralentreScotteo romancepseudo-históricodosromânticosfranceses.Põe-secomextremaperspicáciaemlutacontra toda forma de modernização da figuração histórica,contra o vício de aproximar o passado do presente,introduzindo,comroupagemhistórica,insinuaçõesafenômenosdopresenteefazendocom queaspersonagens,apesardessaroupagem,tenhamsentimentosmodernos:`Asheroínasgóticassão educadaspormadameCamman,eosestadistasdoséculoXVIleemoTimeseoJournaldesDébats". PúchkincombatetambémamaniaromânticadeVignyeVictorHugodetrazer"grandeshomens" paraocentrodesuasrepresentaçõeshistóricaseentãocaracterizá-loscomanedotasverídicasou inteiramente inventadas pelos próprios autores. Ele nos dá assim uma irônica e destruidora caracterizaçãodapersonagemdeMiltonemCromwell,deHugo,eemCinq-Mars[Cincodemarço], de Vigny. Aqui, ele contrasta de modo muito agudo o oco sensacionalismo romântico com a profundaelegítimasimplicidadehistóricadeWalterScott.

OromancehistóricoAfilhadocapitão*,dePúchkin,eseufragmentoderomance,Onegrode Pedro,oGrande**,mostramumestudomuitoaprofundadodosprincípiosdecomposiçãodeWalter Scott.Éclaro quePúchkinjamaispodeser considerado umsimplesdiscípulo deScott,poisseu estudo de Scott, sua apropriação de seus princípios de composição não é de modo algum uma simplesquestãoformal.AgrandeinfluênciadeWalterScottsobrePúchkinrepousa,aocontrário,no fatodeter sidopor meiodaobradaqueleautor queelepôdefortalecer suatendênciaaocaráter popular concreto, igualmente antiga.Se, portanto, Púchkin compõe seus romances históricos da mesma maneira que Walter Scott, isto é, transformando um "herói mediano" em personagem principal e conferindo à figura histórica significativa um caráter episódico, essa forma de composição surge do parentesco com seus sentimentos em relação à vida.Em seus romances, Púchkinpretendiaretratar,tantoquantoScott,grandesedecisivospontosdeviradanavidadanação. Tambémparaeleoabalodavidamaterialemoraldopovoeranãoapenasopontodepartida,masa missãocentraldafiguração.Tambémparaeleograndehomemtinhaimportâncianahistórianão isolado,emsieparasi,emconsequênciadeumaenigmática"grandiosidade"psicológica,mascomo representantedascorrentesmaisimportantesdavidanacional.Sobreessabase,Púchkinconfigura, em Pugatchov e Pedro 1, personagens históricas inesquecíveis, com autenticidade histórica e veracidadehumanaarrebatadoras.Eabaseartísticadessagrandezatambémseforma,emsuaobra, com o retrato dos traços decisivos davidado povo em suacomplexidadeesinuosidadereal e histórica.PúchkinsegueScotttambémnisto:elelevaseusheróis"medianos"paraocentrodacrise histórica,dosgrandesconflitoshumanos,sobrecarregando-oscomprovasemissõesextraordinárias afimde,nessassituaçõesextremas,retratarosobrepujamentodesuamediocridadepassada,levá-los àvisão daquilo queéhumanamenteautêntico everdadeiro,do caráter humanamenteautêntico e

verdadeirodopovo.

MasPúchkinnãoédemodoalgumumsimplesdiscípulodeScott.Elecriaumromancehistórico deumtipoesteticamentesuperior aodomestre.Nãoépor acasoqueenfatizamosaquiapalavra "esteticamente".Pois,noquedizrespeitoàconcepçãodahistória,PúchkinsegueocaminhodeScott, aplica seu método à história russa. Mas, assim como Manzoni - se bem que de outra forma, determinadapelapersonalidadedosdoispoetasepeladiferençadeseuspaíses-,elesuperaScottna figuraçãoartísticadoshomens,nafiguraçãoestéticadatrama.PormaisgenialqueWalterScottseja nos grandes traços históricos de sua trama, na profunda psicologia sócio-histórica de suas personagens,emmuitoscasoselenãoatinge,comoartista,suaprópriaaltura.Pensoaquimenosna caracterizaçãocomfrequênciabanaleconvencionalqueelefazdesuaspersonagens-sobretudode suaspersonagenscentrais-quenoarremateartísticofinaldetodososdetalhes,doconstantejorrar derecônditasbelezashumanasnasexteriorizaçõesvitaissingularesdesuaspersonagens.Emtais questões, Walter Scott, se comparado a um Goethe ou a um Púchkin, é muitas vezes leviano e superficial.Seuolhargenialfazcomqueeledescubranosacontecimentoshistóricosumapletora quaseinvisíveldetraçoshistóricaesocialmentecorretos,humanamentesignificativos.Masemgeral elesecontentaemreproduziroquevêsobumaformaépicaclaraeagradável,demonstrandoalegria emnarrar,porémnãoultrapassaesseslimitesdopontodevistaartístico.(Acreditamosquenãoé maisnecessário destacar que,por trásdessaespontaneidadegenial,encontra-seum saber rico e historicamenteprofundo,umaexperiênciadevidasignificativaetc.)

Contudo,Púchkinultrapassaessenívelnaartedeapreender etrabalhar arealidade.Eleénão apenasumpoetaquevêarealidadedemodoricoecorreto-comotambémfazWalterScott-,masé, aomesmotempoeacimadetudo,umartista,umpoeta-artista,comodisseBelinski.Seriamuito superficial,noentanto,compreenderessaartedePúchkinapenascomoumtrabalhoartístico,uma buscaincansáveldabeleza(oumesmo,comoaindahojeàsvezesocorre,nosentidodoesteticismo moderno).Aatraçãopelabeleza,peloacabamentoartísticodasobrasé,emPúchkin,muitomais profundoehumano.Nele,voltaaexistirumahumanidadepura,mas,aocontráriodaqueladeGoethe, quepertenceaumperíododaconcepçãodahistóriaanterioraScott,elanãoabandonaemnenhum momentooqueécondicionadohistoricamente,oqueédeterminadopelaépocaepelasclasses,e,por meio do delineamento estético simples e claro, por meio da limitação clássica da trama e da psicologiaaoqueéhumanamentenecessário(semrenunciaràconcretudehistórica),elevaqualquer acontecimentoàesferadabeleza.EmPúchkin,abelezanãoémeroprincípioestéticooumesmo esteticista.Elanãopartedeexigênciasformaisabstratas,nãorepousaemumadecisãodopoetade afastar-sedavida,masé,aocontrário,aexpressãodeumvínculomuitoprofundoeinabaláveldo poeta com a vida. A especificidade do desenvolvimento russo tornou possível esse estágio intermediário clássico e único na arte moderna: uma arte à altura ideológica de todo o desenvolvimento europeu até então, uma arte que, quanto ao conteúdo, trabalha dentro dela a problemáticadavida,massemserobrigadaadestruirapurezadeseusdelineamentosartísticos,sua

beleza,porcausadessaproblemática,ouasedesviardariquezadavidaemnomedabeleza.

Operíodopuchkinianofoilogosubstituídoporoutrascorrentesemtodaaliteraturarussa.Em

suafiguraçãodabeleza,Púchkinpermaneceisolado,enãoapenasnaliteraturarussa.Gógol,um

grande contemporâneo um pouco mais jovem que ele, aborda o romance histórico de forma totalmente distinta. O grande conto histórico de Gógol, Taras Bulba*, dá continuidade à mais

importantelinhatemáticadaproduçãodeScott:afiguraçãododeclíniotrágicodassociedadespré-

capitalistas,aderrocadadosistemagentílico.EmcomparaçãocomScott,ocontodeGógolfornece doisnovoselementosdefiguração,oumelhor,ressaltadeterminadosaspectosdessatemáticade modo mais sucinto que Scott.Sobretudo, o tema fundamental da obra, a luta entre cossacos e poloneses,émaisnacional,unitário eépico queatemáticadeScott.Gógolencontranaprópria realidadehistóricaapossibilidadedessafiguraçãograndiosa,épica,poisomundodeseuscossacos podeaparecereatuarcommaisindependênciaeunidadequeosclãsdeScott,queforamintroduzidos à força em uma cultura mais desenvolvida e sempre foram um joguete nas lutas de classes da InglaterraedaEscócia.Dissoresultaumaamplidãotemáticagrandiosa,épicanacional,porvezes quasehomérica,cujaspossibilidadesGógol,comoartistaextraordinárioqueé,bempodeesgotar.

Mas,apesar disso,Gógoléumficcionistamoderno queentendeplenamenteanecessidadeda derrocada do mundo cossaco.Ele figura essa necessidade de modo muito peculiar,erigindo na magníficacomposiçãoépicadotodoumacatástrofetrágica,quasedramaticamenteconcentrada:a tragédiadeumdosfilhosdo heróiprincipal,quesetornaumtraidor do povo por amor auma aristocratapolonesa.Belinskijáobservavaqueestápresenteaquiummotivomaisdramáticodoqueé ocasoemgeralemScott.E,noentanto,essaacentuaçãodoelementodramáticonãoeliminaocaráter fundamentalmenteépicodotodo.Comumaeconomiadetraçosdignadeummestre,Gógolentende esseepisódiocomoalgoquedeveserconstruídocomoumtodoorgânicoe,noentanto,demodoque fiqueclaronãosetratardeumcasoindividual,masdoproblemafundamentaldocontágiodeuma sociedadeprimitivacomaculturamaisdesenvolvidaqueacerca,datragédiadanecessáriaderrocada dessaformação.

Contudo,énaFrançaqueocorremaslutasespirituaisdecisivasemtornodoromancehistórico, ospassosdecisivosdeseudesenvolvimentoposterior,emboranessaépocanãosetenhaescritonem umúnico romancehistórico naliteraturafrancesaquemostrassetal continuidadedastendências scottianas,comoéocasodosromancesdeManzoniouPúchkin,CooperouGógol.Mas,porum lado,naFrançaoromancehistóricodoromantismosurgiucompersonagensmaissignificativasque norestantedaEuropa,eaformulaçãoteóricadoromancehistóricoromânticoalcançouumpatamar mais elevado em comparação com a de outros países. Isso não aconteceu por acaso; é antes consequêncianecessáriadofatodequenaFrança,precisamentenoperíododaRestauração,alutaem tornodaconcepçãoprogressistaoureacionáriadahistóriafoi,demodomuitomaisdiretoqueem qualqueroutrolugar,umproblemasocialepolíticocentraldetodoodesenvolvimentonacional.

Éóbvio quenão podemosexpor aqui,historicamente,essalutainextenso.Parailustrar essa oposição,apenasdestacamosomanifestoteóricomaisimportantedacorrenteromânticadoromance histórico, isto é, o ensaio de AIfred de Vigny, intitulado "Réflexions sur Ia vérité dans l'art" [Reflexõessobreaverdadenaarte],publicadocomoprefáciodeseuromanceCinq-Mars.

Vignypartedofatodaexpansãoextraordináriadoromancehistóricoedapreocupaçãocoma históriaemgeral.Apreendeessefatointeiramenteemsentidoromântico.Diz:"Todosvoltamosos olhosparanossascrônicas,comose,agoraadultosevivendograndesacontecimentos,parássemos porummomentoparaprocederaumaavaliaçãodenossajuventudeenossosenganos"(grifosmeus, G.L.).Essadeclaraçãoédeextraordináriaimportânciapolíticaeideológica.Vignyexprime,com grandefranqueza,afinalidadedahistoriografiaromântica:amaturidadevirilqueaFrançaalcançara emdecorrênciadaslutasdaRevoluçãopermitelançarumolharretrospectivoaoserrosdahistória.A preocupaçãocomahistóriaserveparadesvelaressesenganos,afimdeevitá-losnofuturo.Éóbvio que, para Vigny, tal engano é sobretudo a Revolução Francesa.Mas ele, assim como inúmeros legitimistasfranceses,vêahistóriademodotãoclaroquenãovislumbranaRevoluçãoFrancesaum acontecimento isolado e repentino, mas antes a consequência última dos "enganos juvenis" do desenvolvimentofrancês:adestruiçãodaautonomiadanobrezaporobradamonarquiaabsoluta,o avançodopoderdaburguesiae,comela,docapitalismo.Emseuromance,eleretornaàépocade Richelieupararevelardemaneirafigurativaasfonteshistóricasdesse"engano".Naconstataçãodo fato propriamente dito não há, entre Vigny e os ideólogos progressistas, nenhuma oposição inconciliável.BalzacconsideraCatarinadeMediciprecursoradeRobespierreeMarat,e,porvezes, HeinereúnecomgraçaRichelieu,RobespierreeRotschildcomoostrêssubversoresdasociedade francesa.O princípio romântico e pseudo-histórico em Vigny consiste "apenas" no fato de ele vislumbrarum"engano"dahistóriaquedeveserreparadopormeiodeumolharcorreto.Eporessa razão que ele pertence àquele gênero de ideólogos limitados da época da Restauração que não percebemque,sobomantodareconstituiçãodopoderlegítimodamonarquiaedanobreza,avança comimpetuosidadeocapitalismofrancês,instauradoveementementecomoTermidor.(Éumsinal essencial da genialidade de Balzac ter reconhecido essa realidade econômica do período da Restauraçãoetê-lafiguradoemtodasuacomplexidade.)

É claro que essa concepção, segundo a qual a história francesa mais recente foi um longo caminho rumo ao "engano" da Revolução, é uma avaliação do conteúdo social desse desenvolvimentoquecontémemsiumametodologiadeabordagemdahistória,umaconcepçãoda subjetividadeouobjetividadedahistória.Comotodoescritorautêntico,Vignynãosesatisfazcomos fatosempíricosdadosdeimediato.Mastambémnãoseaprofundanelesparaapreenderseusnexos intrínsecos e então encontrar a trama e as personagens que possam expressá-los melhor que o materialencontradopreviamente.Eleabordaosfatosdahistóriacomumapriorisubjetivista,moral, cujoconteúdoéjustamenteolegitimismo.Dizsobreosfatosdahistória:"Falta-lhessempreuma ligação apreensível evisível quepossaconduzir diretamenteaumaconclusão moral".Assim,o

defeito dos fatos históricos é, para Vigny, que eles não podem oferecer nenhum amparo suficientemente esclarecedor para as verdades morais do autor. Partindo desse ponto, Vigny proclamaaliberdadedoescritorparatransformarosfatoshistóricoseoshomensativosnahistória. Essaliberdadedafantasiaficcional consisteem que"averdadedosfatosdeverecuar diante da verdadedaideia,aqualcadaumadelas(daspersonagenshistóricas,G.L.)temderepresentaraos olhosdaposteridade".

Desse modo,emerge em Vignyum pronunciado subjetivismo no tratamento da história,que muitasvezesseelevaatéaconcepçãodaincognoscibilidadefundamentaldomundoexterno."Ao homem",dizVigny,"nãoédadonenhumoutroconhecimentoalémdoconhecimentodesimesmo." OfatodeVignynãodesenvolverdemodocoerenteessaconcepçãoextremamentesubjetivistaéalgo quealteramuitopoucosuasconsequências,poisosprincípiosdaobjetividade,nosquaiselebusca umapoio,são,porsuavez,irracionaisemísticos.DequeadiantaeleacrescentarqueapenasDeus

podeapreenderatotalidadedahistória?Dequeadiantapresumirumtrabalhoinconscientedafantasia popular na elaboração da história se tal trabalho consiste em apenas deixar surgir as "palavras aladas"ouasanedotashistóricas,comoadaexecuçãodeLuísXVI,quandoalguémteriadito:"Filho desãoLuís,subiaoscéus"?Pois,poressesupostotrabalhodafantasiapopular,arealidadehistórica étransformadaemumasériedesconexadeficções.Esseé,segundoVigny,umprocessoprecioso:"O

fato trabalhado ésempremaisbemcomposto queo fato real(

condiçãodequetodaahumanidadenecessitaqueseudestinolhesejaapresentadonaformadeuma

sedeveprecisamenteà

),eisso

sériedelições".

Dadosessesprincípios,éperfeitamentecompreensívelqueVignysejaumoponentefundamental

da composição scottiana do romance histórico."Também creio que não preciso imitar aqueles estrangeiros(referênciaaWalterScott,G.L.)que,emseusquadros,malretratamnohorizonteas personagensdominantesdahistória.Quantoàsnossas,coloquei-asinteiramenteemprimeiroplano,

fiz delas os atores principais dessa tragédia (

conformidadecomessateoria.Defato,asgrandespersonagenshistóricasdaépocasãoosheróisde seusromancese,emconformidadecomo"trabalhodafantasiapopular",elessãorepresentadospor umasériedeanedotasdecaráterpitorescoeacompanhadosdereflexõesmoralistas.Amodernização decorativadahistóriaservecomoilustraçãodaatualtendênciapolíticaemoral.Fizemosreferênciaa esseescritodeVignyporqueneleseexpressamdomodomaisconcisoastendênciasespecíficasdo romantismo no âmbito do romance histórico. Mas Victor Hugo, incomparavelmente mais significativocomohomemepoeta,constróiseusromanceshistóricossegundoessemesmoprincípio desubjetivização emoralização dahistória,eisso muito tempo depois deter rompido com os princípiospolíticosdolegitimismoreacionárioetersetornadooguialiterárioeideológicodos movimentosliberaisdeoposição.SuacríticaaQuentinDurward,deScott,émuitocaracterísticade suaconcepçãodessesproblemas.Comohomemeescritormaissignificativo,suaposiçãosobreScott éobviamentemaispositivaqueadeVigny.Defato,elereconhececomabsolutaclarezaastendências

A práxis artística de Vigny mostra total

)."

realisticamente atuais da arte scottiana, o conhecimento de Scott da "prosa" dominante. Mas, precisamenteessegrandeaspecto realistado romancehistórico scottiano,eleo vêcomo aquele mesmoprincípioquedevesersuperadoporsuapráxis,apráxisdoromantismo.

Depoisdoromancepitoresco,porémprosaico,deWalterScott,aindarestacriaroutroromance, que,segundonossaconcepção,serámaisbeloemaiscompleto.Umromancequeseráaomesmo tempo drama e epopeia, pitoresco, porém poético, real, porém ideal, verdadeiro, porém monumental,quenosconduzirádeWalterScottdevoltaaHomero.

Paratodoconhecedor dosromanceshistóricosdeVictor Hugo,estáclaroqueelenãoapenas criticaScott,mastambém lançaum programadesuaprópriaatividadeficcional.Ao rejeitar "a prosa"deScott,renunciaàúnicamaneiraverdadeiradeseaproximardagrandezaépica,àfiguração fidedignadascondiçõesemovimentosdopovo,dascrisesnavidadopovo,fatoresquecontêmemsi os elementos imanentes da grandeza épica.A"poetização" romântica da realidade histórica, ao contrário,ésempreumempobrecimentodessapoesiaautêntica,específica,efetivadavidahistórica. Victor Hugo vai muito além, política e socialmente, das finalidades reacionárias de seus contemporâneos românticos. Mas conserva, com conteúdos modificados, seu subjetivismo moralizador.Tambémneleahistóriasetransformaemumasériedeliçõesmoraisparaopresente.E muitocaracterísticoque,comsuainterpretação,eletransformejustamenteessaobradeScott,um modeloderepresentaçãoobjetivadasforçashistóricasemluta,emumatramamoralista,quedeve provarasupremaciadavirtudesobreovício.

Éclaroque,naFrançadaépoca,haviafortestendênciasantirromânticas.Masnemsempreocorre deessastendênciastransitaremdeformadiretaesimplesparaumanovaconcepçãodahistóriae, com ela, para uma continuação do romance histórico. Na França, a tradição do Iluminismo conservou-se mais forte e viva que em qualquer outro país. Essa nação justamente opôs ao obscurantismoromânticoamaisferozresistênciaideológicaedefendeucomenergiaastradiçõesdo séculoXVIIIe,comelas,astradiçõesdaRevoluçãocontraaspretensõesdoromantismorestaurador. (TaistradiçõessãomuitofortesediversificadasnaFrança.ComooIluminismotambémteveuma pretensaalapalaciana,essastradiçõescontinuamefetivasnoromantismo,comoMarxobservaem relaçãoaChateaubriand;noanistoricismodeVigny,oleitor encontrarámuitosdesseselementos transformados do Iluminismo.) É óbvio que os representantes significativos das tradições do Iluminismonãopermaneceramincólumesànovasituaçãoeasuasnovastarefas.Alutacontraa reaçãotevedetrazerconsigoumcaráterhistóricomaisconscientequeaqueledasconcepçõesdos antigos iluministas. Contudo, nessa concepção vivem ou fortes elementos de uma concepção linearmenteprogressistadoprogressodahumanidade,outendênciasaumceticismogeraldianteda "racionalidade"dahistória.

OsrepresentantesmaissignificativosdacontinuaçãodastradiçõesdoIluminismonesseperíodo são Stendhal e Prosper Mérimée. Aqui, podemos investigar suas ideias apenas em relação ao

problema do romance histórico.Mérimée discute suas concepções no prefácio de seu romance históricoChroniquedurègnedeCharlesIX[CrônicadoreinodeCarlosIX],assimcomoemum capítulo desse romance, em que autor e leitor travam um diálogo.Ele se posiciona de forma pungentecontraaconcepçãoromânticadoromancehistóricosegundoaqualasgrandespersonagens dahistóriadevemserosheróisprincipais.Designaessatarefaàáreadahistoriografia.Escarnecedo leitorque,seguindoastradiçõesromânticas,exigequeCarlosIXouCatarinadeMedicitenhamuma marcademoníacaemtodososseustraçosprivados.NodiálogoacercadeCatarina,oleitorexige:

"Fazecomqueeladigapalavrasnotáveis.ElaacaboudeenvenenarJeanned'Albert,oupelomenoshá rumoresaesserespeito,eissodevesermostradonapersonagem".Oautorresponde:"Demaneira alguma;pois,seissofossemostrado,ondeestariasuatãofamosahipocrisia?"Comessaseoutras considerações semelhantes, Mérimée zomba com muita correção da monumentalização e da desumanizaçãoromânticasdaspersonagenshistóricas.

Tem-se aqui, portanto, uma primeira tentativa, muito séria, de dar continuidade ao romance histórico apartir dainvestigação imparcialdavidarealdo passado.Aoposição ao romantismo reacionárioévisívelemtodosospontos.Eclaroquetambémsepercebeumaoposiçãoigualmente severaàsconvençõesclassicistas,assimcomoaomodoretóricoeheroificantederepresentar os heróishistóricoseàstradiçõesestilísticasrestritivasqueimpedemumareproduçãofidedignadavida histórica.ÉapartirdessaoposiçãoquesetornoupossívelacomunhãotemporáriadeMériméeede seus amigos com uma parte dos românticos.Mas sua oposição às limitações do classicismo, a rigorosa crítica que dirigem a este último não conseguem obscurecer as divergências entre os aliados.

Tambémnãoconseguemobscurecerasdivergênciasliteráriasedevisãodemundonocampo

progressista,asdiferençasnaconcepçãodahistória,naformadelapidá-laliterariamente,deutilizá-

laparadefender o progresso contraareação.Jáfizemosreferênciaao fato deMériméeeseus amigosseenraizaremnastradiçõesfilosóficasdoIluminismo.Comrespeitoaoromancehistórico, issotemadesvantagemdemanterodualismoentrerealidadeempíricaeleisgerais,abstratas,do ponto de vista tanto ideológico quanto artístico.Isto é:Mérimée quer extrair da história lições universais,válidasparatodosostempos(e,entreeles,opresente),maseleasextraidiretamenteda observaçãointensaerigorosadosfatosempíricosdahistória,nãodaapreensãodasmodificações específicas,concretas,dasleisdavida,daestruturadasociedade,dasrelaçõesentreoshomensetc.,a partir das quais Walter Scott - inconsciente das consequências gerais, metodológicas de suas descobertas-criouorealismodesuasfigurashistóricas.Mériméeé,portanto,maisempiristaque WalterScott,apegando-semaisintensamenteaostraçossingulareseaosdetalhes;aomesmotempo, eleextraidosfatoshistóricosconsequênciasgeraismaisimediatasqueScott.

O empirismo mostra-se sobretudo no fato de que Mérimée não apresenta as ocorrências históricas a partir do distanciamento do narrador atual, como uma etapa da história prévia do

presente,comofaziaWalterScott,masbuscaantesaproximidadeeafidelidadeíntimasprópriasdo

observadorcontemporâneo,quecaptatambémosdetalhescontingentesefugazes.Vitet,companheiro

delutaeamigodojovemMériméecujascenashistóricastiveramforteinfluênciasobreaJacquerie

desteúltimo,expressadeformamuitoclaraessaintençãoemumprefácio:

Imaginei-mepasseandoporParis,emmaiode1588,naagitadajornadadasbarricadasenosdias

queaantecederam;entreisucessivamentenossalõesdoLouvre,noHôteldeGuise,nastavernas, nasigrejas,nascasasdospartidáriosdaLiga,depolíticosouhuguenotes,ecadavezquese apresentavaaosmeusolhosumacenapitoresca,umretratodoscostumes,umtraçodocaráter, procureiguardarsuaimagemeesboçarcomelaumacena.Sente-sequesurgirádissoapenasuma série de retratos ou, para falar como os pintores, estudos, esboços, que não têm direito a reivindicaroutroméritoalémdasemelhança.

Vitetfezessasobservaçõescomrespeitoàscenasdramáticasqueextraiudahistória.Voltaremos, mais adiante, às consequências dessas visões para o drama histórico - e a Jacquerie, de Vitet, representa uma tentativa nessa direção.O romance histórico de Mérimée segue de perto essas tentativas dramáticas, porém mostra uma concentração estilística maior, mais consciente. Tal concentraçãorefere-seessencialmenteàexpressãoliteráriaenãosignificanenhumaaproximação realdomodoclássicodeconceberoromancehistórico.Mériméeconcentra-seaquiemumestilo novelístico-anedótico.Noprefáciojácitadopornós,diz:"Aprecionahistóriaapenasasanedotase, entre elas, prefiro aquelas em que acredito encontrar um retrato legítimo dos costumes e dos caráteresdaépoca".Por essarazão,asmemóriasresultam,paraele,emalgomaisdoqueobras históricas,poissãoconversasíntimasdosautorescomseusleitoreseporissofornecemumretrato daépocaquetemaproximidadeeaintimidadedaobservaçãodireta,emqueMérimée-assimcomo Vitet-vêoelementodecisivodarepresentaçãohistórica.

Assim,aconcepçãodeMériméenãoéoreconhecimentodasubjugaçãoconcretaecomplexado próprioprocessohistórico.Aoretirarocaráterheroicodaspersonagenshistóricasprincipais(com correto ceticismo),eletornaprivado o curso dahistória.Em seuromance,elefigurao destino puramente privado de homens medianos e, por meio dessa figuração, visa apresentar de modo realistaoscostumesdaépoca.Tambémnissoelefoimuitobem-sucedido,aténosmínimosdetalhes. Suatrama,porém,temduasfraquezas,ambasestreitamenteligadasàsuaposturacético-iluminista. Porumlado,ahistóriaprivadanãosevinculademodosuficientementeestreitoàvidarealdopovo; emmomentosessenciais,desenrola-senasesferassociaismaiselevadasetorna-se,comisso,uma sutildescriçãopsicológicadoscostumesdessasclassesenãoesclareceseunexocomosproblemas reaisedecisivosdopovo.Assim,asquestõesideológicasdecisivasdaépoca,sobretudoaoposição entreprotestantismoecatolicismo,aparecemcomoproblemaspuramenteideológicos,eessecaráter sóéaindamaisressaltadopelaposiçãocéticaeantirreligiosaquesurgenodecorrerdaação.Por outrolado,eemestreitacorrelaçãocomisso,nãohánenhumaligaçãoorgânicarealentreogrande acontecimentohistóricoqueMériméequerapresentar-aNoitedeSãoBartolomeu-eosdestinos

privados dos heróis principais. Aqui, a Noite de São Bartolomeu tem um pouco o caráter de "catástrofenatural"deCuvier;anecessidadehistóricadeseuser-precisamente-assimnãoéfigurada porMérimée.

Portrásdeseuceticismo,esconde-seumprofundodesprezopelasociedadeburguesadoperíodo daRestauração,sociedadeoriundado"períodoheroico"doIluminismoedaRevolução.Adescrição queMériméefazdoscostumesé,por isso,umacomparaçãoirônicadopresentecomopassado, emboratragaconsigo,emfrontaloposiçãocomoromantismo,umjuízototalmentedistintosobreo presenteeopassado.Dizeleemseuprefácio:"Parece-meinteressantecompararessescostumes(do períododaNoitedeSãoBartolomeu,G.L.)comosnossose,nestesúltimos,observaroocasoda intensapaixãopelatranquilidadee,talvez,pelafelicidade".

Aqui,aestreitarelaçãoentreasconcepçõeshistóricasdeMériméeedeStendhalévisível.Na literaturafrancesa,StendhaléoúltimogranderepresentantedosideaisheroicosdoIluminismoeda Revolução.Suacríticadopresenteesuarepresentaçãodopassadorepousam,emessência,sobreesse contraste crítico entre as duas grandes etapas do desenvolvimento da sociedade burguesa. A implacabilidadedessacríticatemsuasraízesnapossibilidadedeexperienciação vitaldo período heroicopassado,naféinabalável(apesardetodooceticismo)dequeodesenvolvimentoconduziráa umarenovaçãodessegrandeperíodo.Assim,apaixãoearetidãodesuacríticadopresenteligam-se maisintimamentecomalimitaçãoiluministadesuaconcepçãodahistória,comsuaincapacidadede vero"períodoheroico"dodesenvolvimentoburguêscomoumanecessidadehistórica.Édessafonte quesurgecertopsicologismoabstratodesuaspersonagenshistóricasimportantes;umaveneraçãoda grande,inquebrantáveleheroicapaixãoemsieparasi.Daíprovémsuainclinaçãoaabstrairoser dascircunstânciashistóricasatéatingir suaessênciauniversaleapresentar taiscircunstânciasna formadessauniversalidade.Masessaposturatemcomoconsequênciasobretudoofatodeconcentrar suaenergianacríticadopresente.EmStendhal,ocontatocomosproblemashistóricosdaépoca produzmenosumnovoromancehistóricoqueumacontinuaçãodoromancedecríticasocialdo séculoXVIII,naqualdeterminadoselementosdonovohistoricismooperamparaelevareenriquecer seustraçosrealistas.

Essacontinuaçãodoromancehistóriconosentidodeumaconcepçãoconscientementehistórica

dopresenteéagranderealizaçãodeBalzac,seueminentecontemporâneo.Balzacéoescritorque

desenvolveudamaneiramaisconscienteoimpulsoqueWalterScottdeuaoromance,criandoassim

umtiposuperioreatéentãoinéditoderomancerealista.

AinfluênciadeWalterScottsobreBalzacéextraordinariamenteforte.Pode-sedizeratéquea formaespecíficadoromancebalzaquianosurgiuduranteumadiscussãoideológicaeartísticacom Walter Scott.Referimo-nos aqui menos aos romances históricos propriamente ditos que Balzac escreveu,ouaomenosplanejou,noiníciodesuacarreira,sebemqueseuromancedejuventude,A

Bretanhaem1799*,apesardahistóriadeamorumtantoromanescaqueocupaocentrodatrama,

sejaumdignosucessordeWalterScott.EmBalzac,ocentrodoenredonãoéocupadopeloschefes aristocráticosdarevoltareacionáriadoscamponeses,tampoucoporumgrupodelíderesdaFrança republicana,mas,porumlado,pelopovoprimitivo,atrasado,supersticiosoefanáticodaBretanhae, poroutro,pelosimplessoldadodaRepública,profundamenteconvictoemodestamenteheroico.O romanceéconcebido no espírito deWalter Scott,mesmo que,vezpor outra,Balzacsupereseu mestre na figuração realista de certas cenas, extraindo a desesperança da revolta contrarrevolucionáriado contrastesocial ehumano dasduasclassesem luta.Com um realismo extraordinário,ele mostra a avareza egoísta e a degradação moral dos líderes aristocráticos da contrarrevolução,entreosquaisosvelhosaristocratasque,porconvicção,defendemdefatoacausa doreisãoraridade.Mas,emBalzac,essadeterminaçãonãoé-comoemRedgauntlet,deScott,em quesedevebuscar omodelodessascenas-umsimplesretratohistóricodoscostumes.Antes,é precisamenteessadissoluçãomoral,essaausênciatotaldededicaçãodesinteressadaàsuaprópria causa que deve evidenciar o motivo do fracasso, o sintoma da luta retrógrada, historicamente perdida.Alémdisso,Balzacmostra-demodomuitosemelhanteaScottemrelaçãoaosclãs-queos camponesesdaBretanhaestãopreparadosparaumaguerradeguerrilhaemsuasmontanhas,mas, apesardesuacoragemselvagemedesuaastúciaparaaspilhagens,elesnãotêmnenhumachancede vencerasforçasregularesdaRepública.E,acimadetudo,elemostranassituaçõesdesfavoráveisaos republicanos, nas situações que levam às tragédias pessoais, uma coragem inquebrantável, uma superioridadehumanamodesta,cheiadehumor,quenascecomaconvicçãoprofundadelutarpela boacausadaRevolução,pelacausadoprópriopovo.

EsseexemplojábastariaparaesclareceraprofundainfluênciadeScottsobreBalzac.Opróprio Balzacnãoapenasfalouváriasvezesdessarelação,comoaindaretratoupor meiodaficção,em Ilusões perdidas*, a influência e a tendência à superação do romance histórico scottiano. Nas conversasdeLuciendeRubemprécomD'ArthezacercadoromancehistóricodeScott,Balzactrata dograndeproblemadesuaprópriaépocadetransição:atarefadeapresentar ahistóriafrancesa moderna na forma de um ciclo coerente de romances que figuraria a necessidade histórica do surgimentodanovaFrança.NoprefáciodeAcomédiahumana,aideiadeciclojáaparececomouma críticacuidadosaecriteriosadaconcepçãoscottiana.Balzacvênaausênciadeconexãocíclicados romancesdeScottumacarênciadesistemaemseugrandeantecessor.Essacrítica,ligadaàquelade que Scottseria muito primitivo na representação das paixões, porque estaria preso à hipocrisia inglesa,éomomentoestéticoformalemqueatransiçãodeBalzacdafiguraçãodahistóriapassada paraafiguraçãodopresentecomohistóriasetornavisível.

Emumdeseusprefácios,opróprioBalzacseexpressoudemaneiramuitoclarasobreoaspecto temático dessa mudança: "Walter Scott esgotou o único romance possível sobre o passado. O romancedalutadoservooudoburguêscontraonobre,donobrecontraaIgreja,donobreeda Igrejacontraarealeza".Aqui,asrelaçõeseascircunstânciasfiguradassãorelativamentesimples, sãopermanentes."Hoje,aigualdadeproduziunuancesinfinitasnaFrança.Antes,acastadavaacada

umafisionomiaprópriaquedominavasuaindividualidade;hoje,oindivíduorecebesuafisionomia

desimesmo."

AexperiênciamaisprofundadeBalzacfoiadanecessidadedoprocessohistórico,anecessidade históricadoser-precisamente-assimdopresente,emboraele,commaisclarezaquequalqueroutro, tenhasabidodistinguiraredeinfinitadecontingênciasqueformaospressupostosdessanecessidade. Nãoéàtoaqueseuprimeiroromancehistóricosignificativonãovámaislongequeàépocada grande Revolução.O impulso de Scotttornou consciente sua tendência a figurar a necessidade históricadopassado.E,comisso,amissãodeBalzacfoiretrataremseucontextohistóricoesse

períododahistóriadaFrançaquevaide1789a1848.Apenasocasionalmenteeleseocupadeépocas

anteriores.O grande projeto inicial de retratar, a partir das lutas de classes da Idade Média, o desenrolardosurgimentodamonarquiaabsolutaedasociedadeburguesanaFrançaatéopresente recua cada vez diante do tema central, da representação do último e decisivo ato dessa grande tragédia.

Ocaráterunitáriodaconcepçãodasociedadeedahistória,queemBalzacproduziuesteticamente opensamentodociclo,sóeraexequívelcomessaconcentraçãotemporal.Oplanodejuventudede D'Arthez de um ciclo de romances históricos só podia ser estruturado de modo pedante; a continuidadedoshomensativossópodiaseracontinuidadedasfamílias.Portanto,sópoderiasurgir daí,segundoesseespírito,umcicloàmodadeZolaoumesmodeAhnen,deGustavFreytag,masnão umciclocomaformalivre,grandiosaenecessáriadeAcomédiahumana.Poisonexoentreos romancessingularesdesseciclonãopodiaserumnexoorgânicoevivo,verdadeiramenteativo.A estruturadeAcomédiahumanamostraquãoinsuficienteéafamília,oualigaçãoentreasfamílias, pararetrataressesvínculos,mesmoquandoaduraçãodocicloabrangeapenasalgumasgerações. Com a transformação extremamente radical de grupos sociais importantes durante o desenvolvimentohistórico(destruiçãoederrocadadaantiganobrezanaslutasdeclassesdaIdade Média,dissoluçãodasantigasfamíliaspatríciasnascidadesduranteosurgimentodocapitalismo etc.),osromancessingulares,parapreservaracontinuidadefamiliardefilhos,netosetc.,teriamde trabalhar com um conjunto de personagens muito elaboradas e, com frequência, pouco típicas socialmente.

Masoúltimoatodecercadecinquentaanosretratadopor Balzaccompartilhaplenamentedo grandeespíritohistóricodeseuantecessor.BalzacsuperaScottnãoapenasemumapsicologiamais livreediferenciadadaspaixões,comoeleafirmaàguisadeprograma,mastambémnaconcretude histórica. O entrelaçamento dos acontecimentos históricos em um período relativamente curto, repletodegrandesreviravoltasqueinfluenciamumasàsoutras,obrigaBalzacacaracterizarcada ano do desenvolvimento,aconferir umaatmosferahistóricapeculiar aetapashistóricasbastante curtas,aopassoqueScottpodiasecontentaremretratardemodohistoricamentelegítimoocaráter universal de uma época mais extensa.(Basta pensar, por exemplo, na atmosfera opressiva que

antecedeogolpedeEstadodeCarlosX,emEsplendoresemisériasdascortesãs*.)

Éóbvioqueacontinuaçãodoromancehistóriconosentidodahistorizaçãodarepresentaçãodo presente,acontinuaçãodahistóriapassadanafiguraçãodahistóriavivida,tem,nofimdascontas, razões que não são estéticas, mas sócio-históricas. O próprio Scott viveu em um período da Inglaterra em que o desenvolvimento progressivo da sociedade burguesa parecia assegurado e, assim,dava-lheapossibilidadedeolharretrospectivamente,comtranquilidadeépica,paraascrisese lutasdahistóriaanterior.JáagrandeexperiênciajuvenildeBalzacéjustamenteadaintensidade vulcânicadasforçassociaisqueseencontravamadormecidassobaaparentecalmadoperíododa Restauração. Ele identificou, com uma clareza que nenhum de seus contemporâneos literários conseguiuigualar,aprofundacontradiçãoentreastentativasdarestauraçãofeudaleabsolutistaeas forçasdocapitalismoemrápidaascensão.Suapassagemdafiguraçãoscottianadahistóriafrancesa paraafiguraçãodahistóriapresentecoincide-demodoalgumporacaso-comaRevoluçãode

Julhode1830.FoinaRevoluçãodeJulhoqueascontradiçõesexplodiram,eoaparenteequilíbrio

obtido pela "realeza burguesa" de Luís Filipe foi uma compensação tão instável que o caráter contraditório eoscilantedetodaaestruturasocialtevedeocupar o ponto central daconcepção histórica de Balzac.Com a Revolução de Julho, a orientação histórica sobre a necessidade do progresso,adefesahistóricadoprogressocontraareaçãoromânticaencerra-se:nasgrandesmentes daEuropa,oproblemacentraléagoraoconhecimentoeafiguraçãodaproblemáticahistóricada própriasociedadeburguesa.Nãoéporacaso,porexemplo,queaRevoluçãodeJulhotenhadadoo primeirosinalparaadissoluçãodamaiorfilosofiahistóricadesseperíodo,osistemahegeliano.

Assim,oromancehistórico,queemScottteveorigemnoromancesocialinglês,retornacom Balzacàrepresentaçãodasociedadecontemporânea.Comisso,aeradoromancehistóricoclássico acaba.Masissonãosignificaqueoromancehistóricoclássicosetornouumepisódioencerradoda históriadaliteratura,umepisódiodeimportânciaapenashistórica.Muitopelocontrário:oponto culminantequeoromancedopresenteatingiucomBalzacsópodeserentendidocomocontinuação dessa etapa de desenvolvimento, como elevação a um patamar superior.No momento que, em consequência das lutas de classes de 1848, desaparece a consciência histórica que caracteriza a concepçãobalzaquianadopresente,inicia-seaderrocadadoromancesocialrealista.

Asleisdessapassagem do romancehistórico deScottparaahistóriaficcional dasociedade burguesadopresentesãosublinhadasmaisumavezporsuarepetiçãonodesenvolvimentodeTolstói. Játratamosemoutroscontextos'doscomplicadosproblemasquesurgemnaobradeTolstóipelo

fatodeelesercontemporâneodorealismoeuropeuocidentalapós1848(e,emmuitossentidos,o

maisinfluenciadoporele)eviveraomesmotempoemumpaísemquearevoluçãoburguesase armalentamentenodecorrerdesualongavida.Paraaquestãoquenosinteressaaqui,bastadizerque Tolstói, como poderoso narrador do período de convulsão social da Rússia desde a época da libertaçãodoscamponesesem1861atéarevoluçãode1905,éoprimeiroaretomar osgrandes

problemashistóricosquecompõemahistóriapregressadessaconvulsãoecriaramseuspressupostos

sociais.Pondoemprimeiroplanoasguerrasnapoleônicas,eleprocededemodotãocoerentequanto

Balzac,queprocurava-inconscientemente-nafiguraçãodaRevoluçãoFrancesaasbasessociais

paraAcomédiahumana.

E,não querendo alongar demaiso paralelo,o quesempreacabapor conduzir adistorçõese excessos,devemosnotarqueessesdoisgrandesescritoresrecuaramaindamaisprofundamenteno passado, e sendo ambos atraídos pelas grandes mudanças da história que introduziram o desenvolvimento moderno deseuspaíses:Balzacpor CatarinadeMedici eTolstói por Pedro I. Entretanto,Balzacescreveuapenasumensaio interessanteepsicologicamentesignificativo sobre Catarina de Medici e, de Tolstói, chegaram-nos apenas alguns fragmentos e ideias básicas.Em ambos,apressão exercidapelosproblemasdo presenteeramuito grandeparaquepudessemse demorarnahistóriapregressadessasquestões.

Comisso,encerra-seoparaleloemsentidoliterário.Suafunçãoeraapenasmostrarnaobrados doismaioresrepresentantesdeépocasdetransiçãodegrandespovosanecessidadesocialqueos empurrouparaoromancehistóricodotipoclássicoe,emseguida,afastou-osdele.Dopontodevista literário,Guerraepaz*ocupanaobradeTolstóiumaposiçãomuitodiferentedaqueladeABretanha em1799naobradeBalzac;tambémnão épossívelcompará-losdo ponto devistadeseuvalor literário,detãoaltaqueéaposiçãodaobradeTolstóinahistóriadoromancehistórico.

ConsiderarGuerraepazumromancehistóricodetipoclássicomostraquenãosepodetomar essaexpressãoemsentidoestritodehistórialiteráriaouformaartística.Aocontráriodeescritores importantes como Púchkin, Manzoni ou Balzac, Tolstói não dá a perceber nenhuma influência literáriaimediatadeWalterScott.Atéondesei,TolstóinuncaestudouScottemtodososseusdetalhes. Apartirdascondiçõesreaisdevidadessaépocadetransição,elecriouumromancehistóricode caráterabsolutamentepeculiareéapenasnosprincípiosdefiguraçãomaisgeraiseúltimosqueeste constituiumarenovaçãoeumacontinuaçãodotipoclássicoscottianonoromancehistórico.

Esseprincípioemcomuméoprincípiodocaráterpopular.Tolstóitinhaemaltacontanãosó

BalzaceStendhal,mastambémFlauberteMaupassant.Masostraçosreaisedecisivosdesuaarte

remontamaoperíodoclássicodorealismoburguês,porqueasforçassociaiseavisãodemundoque

moviamsuapersonalidadeextraíamsuaforçadovínculoprofundocomosproblemascentraisda

vidadopovoemumagrandeépocadetransiçãoesuaarteaindatemcomotemacentralosentido

contraditoriamenteprogressistadessaépocadetransição.

Guerraepazéaepopeiamodernadavidadopovoemumaformaaindamaisdecisivaqueaobra deScottouManzoni.Aqui,oretratodavidadopovoéaindamaisamplo,coloridoerico.Aênfase navidadopovocomoverdadeirabasedosacontecimentoshistóricosémaisconsciente.EmTolstói, essaformaderepresentação ganhaumacento polêmico queelanão tinha-nempodiater -nos

primeirosclássicosdoromancehistórico.Estesretratavamsobretudoocontexto;osacontecimentos históricossurgiamcomopontosculminantesdasforçascontraditóriasdavidadopovo.(Ofatode Manzoniterfiguradodeterminadosacontecimentoshistóricosdeformapuramentenegativa,como perturbaçõesnavidadopovo,éconsequênciadodesenvolvimentohistóricoparticulardaItália.)Em Tolstói,olugar centraléocupadopelacontradiçãoentreosprotagonistasdahistóriaeasforças intensasdavidadopovo.Elemostraqueosquecontinuamalevarnormalmentesuavidaprivadae egoísta, apesar dos grandes acontecimentos do pano de fundo histórico, são os que promovem inconscientementeesemperceberoverdadeirodesenvolvimento,enquantoos"heróis"dahistória, queagemcomconsciência,sãomarionetesridículaseprejudiciais.

Essaconcepçãofundamentaldahistóriadeterminaagrandezaeoslimitesdafiguraçãotolstoiana. Avidaindividualdohomem-queosacontecimentosdefundoapenascontaminam,apenasafetam, masnãoabsorvem-desdobra-secomumavivacidadepoucovistanaliteraturamundialanterior.A concretude histórica dos sentimentos e dos pensamentos, a autenticidade histórica da qualidade particulardareaçãoaomundoexteriorematosesofrimentosalcançaaquiumaalturasublime.Mas justamente a ideia central tolstoiana de que o curso da história é movido por esses esforços individuais - que resultam da ação espontânea, ignoram seu significado e suas consequências e formamjuntosforçaspopularesigualmenteespontâneas-éalgoqueaindapermaneceproblemático.

JádissemosqueTolstóiacertouquandocriouumverdadeiroheróipopularnapersonagemde Kutusov:umhomemsignificativopornãoserenãoquerersermaisdoqueumsimplesórgãoque resumeepõeemaçãoasforçasdopovo.Porseucarátermuitasvezescontraditórioeatéparadoxal, suasqualidadesmaispessoais,maisíntimas,reúnem-seesplendidamenteemtornodessasuafontede grandezasocial.Seucaráter popular no"baixo"esuaposiçãoambivalenteno"alto"explicam-se sempredemodoevidenteedecisivoporsuasituação.Mas,paraTolstói,oconteúdonecessáriodessa grandezaéapassividade,umaesperaquedeixaagir por contaprópriaahistória,o movimento espontâneodopovo,ocursoespontâneodascoisas,enãoquerperturbarolivredesenrolardessas forçascomumaintromissãoqualquer.

Essaconcepçãodoheróihistórico"positivo"mostracomoseintensificaram,mesmonaRússia czarista,ascontradiçõesdeclassedesdeaépocadeWalterScott.AgrandezadeTolstóiestáemnão depositarnenhumaconfiançanos"líderesoficiais"dahistória,sejanosreacionáriosassumidos,seja nosliberais.Seuslimites-oslimitesdasrevoltasdasmassascamponesas-residemnofatodeque essadesconfiançahistoricamentejustificadaserestringeaumadesconfiançapassivadetodo ato históricoconscienteedesconheceinteiramenteademocraciarevolucionáriaquejáseinstauravana época.Essedesconhecimento do papeldaação conscienteno próprio povo levaTolstói,emsua valoração do significado da ação consciente, a uma negação abstrata e extrema também nos exploradores.Oexageroabstratonãoresidenacrítica,narecusadoconteúdosocialdessasações, masnofatodelhesnegar,desdeoinício,todoequalquersignificado.Nãoéàtoaquenasmelhores

figurasretratadasporTolstóisejavisívelummovimentonadireçãododezembrismo*,assimcomo nãoéàtoaqueeletenhasededicadopor umbomtempoaoplanodeumromancedezembrista. Contudo,tambémnãoéàtoaqueesseimpulsonãotenhapassadodeummovimentonadireçãodo dezembrismoenuncatenhalevadodefatoatéele,emenosaindaqueoromancedezembristanão tenhasidocompletado.

Essaduplicidadecontraditóriadafiguração tolstoianadavidahistóricado povo noslevado passadoparaopresente.Guerraepazintroduziunessafiguração-naformadeumamploretratoda vidaeconômicaemoraldopovo-ograndeproblematolstoianodaquestãocamponesa,darelação entreasdiferentesclasses,camadaseindivíduos.AnuaKariênina*mostraomesmoproblemadepois dalibertação doscamponeses,masem um graumaior deacirramento dascontradições:aqui,a concretudehistóricadafiguraçãodopresentesuperatodaaliteraturarussaanterior,domesmomodo como afiguração balzaquianado capitalismo francês superaratodos os seus antecessores.Com Guerraepaz,Tolstóitornou-se"seupróprioWalterScott".Mas,enquantoGuerraepazsurgiudo romancesocialrealistadaRússiaedaFrança,afiguraçãoscottianadahistóriasurgiudorealismo inglêscríticosocialdoséculoXVIII.

Apartirdoquefoiexpostoatéaqui,podesurgiraseguintequestão:admitindo-sequeaderivação

Apartirdoquefoiexpostoatéaqui,podesurgiraseguintequestão:admitindo-sequeaderivação

históricadonovohistoricismotambémsejacorretanaarte,porquedessesentimentodavidateriade

surgirprecisamenteoromancehistórico,enãoodramahistórico?

Arespostaaessaquestãorequerumainvestigaçãosériaeminuciosadarelaçãodosdoisgêneros com a história. Desde já, tem-se o fato notável de que, já muito antes desse período, havia verdadeirosdramashistóricos-tambémartisticamentecompletosemsentidohistórico-,aopasso que a maioria dos chamados romances históricos dos séculos XVII e XVIII não pode ser consideradasnemespelhamentodarealidadehistóricanemproduçãoartísticadeimportância.Do mesmomodo,sedesconsideramosoclassicismofrancêseamaiorpartedodramaespanhol,éclaro que tanto Shakespeare como alguns de seus contemporâneos criaram dramas verdadeiros e importantes,comoEduardoII,deMarlowe,PerkinWarbeck,deFordetc.Acrescenta-seaisso,no fim do século XVIII,o segundo grandeflorescimento do dramahistórico tanto na produção de juventudequantonoperíodoweimarianodeGoetheeSchiller.Todosessesdramasseencontramnão apenasemumpatamarartísticomuitomaiselevadoqueodoschamadosprecursoresclássicosdo romancehistórico,comotambémsãohistóricosemumsentidototalmentediferente,emumsentido legítimoeprofundo.Alémdisso,éprecisoreconhecerofatodequeanovaartehistóricaintroduzida porWalterScottnaliteraturadramáticasógeraprodutosrealmentesignificativosdemodobastante isolado:BorisGodunov*,dePúchkin,osdramasdeManzonietc.Onovoflorescimentoartísticoda concepçãohistóricadarealidadeconcentra-senoromanceechega,nomáximo,aosgrandescontos.

Paraentenderessadesigualdadedodesenvolvimento,éprecisoaprofundaradiferençadarelação

comahistórianodramaenoromance.Essaquestãosetornacomplicadapelofatodetersurgidona

modernidadeumainteraçãoextraordinariamenteforteentredramaeromance.Semdúvida,existem

profundosnexosentreagrandeepopeiaeatragédia;nãoéporacasoqueAristótelesjáressaltava

essacomunhão.Masaepopeiahoméricaeatragédiaclássicapertencemaduasépocasdiferentesda

Antiguidadee,apesardetodoseuparentesco,adotammeiosclaramentedistintosdefiguraçãoem

algumasquestõesdecisivasparaoconteúdoeaforma.Odramaantigosurgedomundoépico.O

germinarhistóricodosantagonismossociaisnavidaproduzatragédiacomogênerodafiguraçãodo

conflito.

Essarelaçãohistóricaeformalsealteracomcertovigornamodernidade.Oflorescimentodo dramaantecedeograndedesenvolvimentodoromance,apesardeCervanteseRabelais,apesarda influêncianadainsignificantedanovelísticaitalianasobreodramarenascentista.Poroutrolado,o dramamoderno-inclusiveodoRenascimentoemesmoodeShakespeare-reveladesdeoinício determinadas tendências estilísticas que o aproximam cada vez mais do romance ao longo do desenvolvimento.Einversamente:oelementodramáticonoromancemoderno,emespecialemScott

eBalzac,origina-se,emprimeirolugar,dasnecessidadeshistóricasesociaisdaépoca,porémnão deixadesofrerinfluênciaartísticadodesenvolvimentoanteriordodrama.Odramashakespeariano emparticular,comoressaltoucomrazãoMichailLifschitznadiscussãosobreateoriadoromance, exerceuumainfluênciadecisivanodesenvolvimentodonovoromance.EssevínculoentreWalter Scott e Shakespeare foi reconhecido claramente por Friedrich Hebbel, que considerava Scott o sucessormodernodeShakespeare.

EmWalterScottemergeaquiloqueShakespeareressuscitounaInglaterra( ),poisScott,como maisadmirávelinstintoparaoscondicionamentosfundamentaisdasrealidadeshistóricas,uniuo maissutilolharpsicológicoemcadaparticularidadeindividualaomaisclaroentendimentodo momentotransitórioemqueseconjugamosimpulsosgeraiseparticulares;eéàuniãodessastrês propriedadesqueavarinhamágicadePrósperodevesuaonipotênciaeirresistibilidade.

Masesseamplo ecomplicado entrelaçamento histórico dosdoisgêneros-queafinal não se desenvolveramnovazio,metafisicamenteisoladosumdooutro,novácuo-nãopodeobscureceras distinçõesfundamentaisentreeles.Temosderetornar,portanto,àsdiferençasformaisbásicasentre dramaeromance,desvelarafontedessasdiferençasnaprópriavidaparaapreenderasdiferenças entreessesdoisgênerosnoqueconcerneàsuarelaçãocomahistória.Somenteassimpoderemos compreender os fatos históricos no desenvolvimento desses dois gêneros - nascimento, florescimento,declínioetc.-dopontodevistatantohistóricoquantoestético.

1.Fatosdavidacomobasedaseparaçãoentreépicaedramática

Tantoatragédiacomoagrandeépica-epopeiaeromance-retratamomundoobjetivoexterior;a vidainternadohomeméapresentadaapenasatéopontoemqueseussentimentosepensamentosse mostram,emobraseações,emumacorrelaçãovisívelcomarealidadeobjetiva,externa.Esseéo traçodecisivodeseparaçãoentreaépicaeadramática,deumlado,ealírica,deoutrolado.Mais ainda:agrandeépicaeo dramafornecem um retrato total darealidadeobjetiva.Éisso queos diferenciatantoemconteúdoquantoemformadosoutrosgênerosépicos,dosquaisanovelaem particulartornou-sesignificativaparaodesenvolvimentomoderno.Epopeiaeromancediferemde todososoutrossubgênerosdaépicaprecisamenteporessaideiadetotalidade:essadiferençanãoé quantitativa,deconjunto,masqualitativa,deestiloliterário,deplasmaçãoartística,umadiferença queperpassatodososmomentossingularesdafiguração.

Masépreciso apontar deimediato aimportantediferençaqueexisteentreformadramáticae épica:nodramasópodehaverumgênero"total".Nãoháumaformadramáticaquecorrespondaà novela,àbalada,àsfábulasetc.Aspeçasemumato(Einakter)queaparecemdemodoisoladoesão concebidascomoumgêneroparticularnofimdoséculoXIXemgeralnãopossuem,segundosua natureza,umelemento verdadeiramentedramático.Depoisqueo dramasetornouumanarrativa

curta,compostacompoucorigor,dispersanodiálogo,eranaturalquesurgisseaideiadedaraos

esboçosnovelísticosessaformadecenadialogada.Mas,obviamente,aquestãodecisivanãoéado

simplesformato,assimcomoadiferençaentreoromanceeanovelanãoéadoconjunto.Doponto

devistadafiguraçãorealmentedramáticadavida,ascurtascenasdramáticasdePúchkinconstituem

dramasperfeitoseacabados.Abrevidadedesuaextensãoédeextremaconcentraçãodramáticaem

termosdeconteúdoedevisãodemundo;suascenasnãotêmnadaavercomoepisódiomodernoem

formadediálogo.

Tratamosaquiapenasdoproblemadatragédia.(Nacomédia,oproblemasecolocademodoum poucodiferente,pormotivosquenãocabediscutiraqui.)Aristótelesressaltaesseparentescoentre epopeiaetragédiaquandodiz:"Quemsouber julgar oquetornaumatragédiaboaoumásaberá tambémjulgaraepopeia".

Tantoatragédiaquantoagrandeépicatêmpretensõesàfiguraçãodatotalidadedoprocessovital. Éclaroque,nosdoiscasos,issosópodeserresultadodaestruturaartística,daconcentraçãoformal no espelhamento artístico dos traços essenciais da realidade objetiva.Pois é evidente que, por princípio,atotalidadereal,substancial,extensivaeinfinitadavidasó podeser reproduzidapelo pensamentodemodorelativo.

Contudo,no espelhamento artístico darealidade,essarelatividaderecebeumaformapeculiar. Pois, para ser arte, esse espelhamento jamais pode trazer em sua manifestação a marca dessa relatividade.Umespelhamento puramenteintelectualdosfatosouleisdarealidadeobjetivapode admitir abertamenteessarelatividade,edeveatéfazê-lo,pois,seumaformadeconhecimentose pretendeabsolutaeignorao fator dialético dareprodução apenasrelativa,isto é,incompletada infinitudedarealidadeobjetiva,resultanecessariamenteemumadistorçãodaimagem,emalgofalso. Naarte,acoisaétotalmentediferente.Éevidentequenenhumserhumanofiguradonaliteraturapode conterariquezainfinitaeinesgotáveldostraçoseexteriorizaçõesqueavidacontém.Masaessência dafiguraçãoartísticaconsisteprecisamenteemqueesseretratorelativoeincompletofuncionecomo sefosseaprópriavida,eatécomoumavidamaiselevada,intensaevivaqueaqueladarealidade objetiva.

Esseparadoxogeraldaartenoespelhamentodariquezainfinitadarealidadeobjetivaaparecede formaparticularmenteagudanosgênerosque,apartirdanecessidadeinternadeseuconteúdoede sua plasmação, têm a pretensão de ser um retrato figurado vivo da totalidade da vida.E essa necessidadesecolocasobretudoparaatragédiaeagrandeépica.Elasdevemseuprofundoimpacto, seusignificadocentraledecisivonavidaculturaldahumanidadeaodespertardessaexperiênciano planodarecepção.Senãoconseguemdespertar essaexperiência,fracassamtotalmente.Nenhuma autenticidadenaturalistadasexteriorizaçõesvitaisindividuais,nenhuma"maestria"nodomínioda composição oudosefeitossingularespodeoferecer umsubstituto paraafaltadaexperiênciada totalidadedavida.

Éclaroque,aqui,setratadeumaquestãodeforma.Masaabsolutizaçãoartisticamentejustificada doretratorelativodavidatemseusfundamentosnoconteúdo.Elasópodesurgirnodestinodos indivíduos, assim como no da sociedade, com base na apreensão real dos contextos legítimos essenciaisemaisimportantesdavida.Contudo,éclarotambémque,paraisso,nãobastaomero conhecimento dos contextos essenciais.Esses traços essenciais,esses aspectos constitutivos mais importantesdavida,têmdeapareceremumanovaimediaticidade,criadapelaarte,comotraçose conexõespessoaisúnicosdehomensconcretosesituaçõesconcretas.Masessaproduçãodeuma imediaticidadeartísticanova,essareindividualização do universalno homemeemseudestino é justamenteamissãodaformaartística.

Oproblemaespecíficodaformanagrandeépicaenatragédiaéprecisamenteotornarimediataa

totalidadedavida,odespertardeummundodeaparênciaemque-mesmonaépicamaisvasta-cabe

aumnúmeromuitolimitadodehomensededestinoshumanosdespertaraexperiênciadatotalidade

davida.

Aestéticadoperíodoposteriora1848perdeucompletamenteasensibilidadeparaosproblemas

deformatomadosnessesentidoamplo.Quandonãonegoucomumespíritoniilistaerelativístico qualquer diferença entre as formas, ela fez simplesmente uma classificação externa, formalista, segundo as características superficiais das formas singulares.Aestética clássica alemã, que foi certamentepioneiraeantecedeuaestéticadoIluminismonaformulaçãodemuitasquestões,deuum tratamentoverdadeiroaessasquestões,penetrandonoessencial.

EncontramosnaestéticadeHegeladeterminaçãomaisfundamentaleprofundadadiferençaentre afiguraçãodatotalidadenagrandeépicaenodrama.Esseautorcoloca,comoprimeirademandada figuraçãodomundodagrandeépica,atotalidadedoobjeto,figurada"emnomedacoerênciadaação particularcomseusolosubstancial".Hegelressaltademaneiraprecisaecorretaquenãosetrata jamaisdeautonomiado mundo objetivo.Quando éretratado pelo autor épico como ummundo autônomo,omundoobjetivoperdetodoconteúdopoético.Napoesia,ascoisassósãoimportantes, inte ressantes e atraentes como objetos da atividade humana, como mediações das relações dos homensedosdestinoshumanos.Apesardisso,porém,nagrandeépicaelasnuncasãomeropanode fundo decorativo ou instrumentos técnicos de condução da narrativa, desprovidos do direito a qualquerinteresserealpróprio.Umaficçãoépicaquefigureapenasavidainternadohomem,sem correlaçãovivacomosobjetosdeseuambientesócio-histórico,dissolve-senaausênciadeformae desubstância.

Averdade e a profundidade dessa definição hegeliana residem justamente na ênfase dada à correlação,noargumentodequea"totalidadedosobjetos"figuradospeloautorépicoéatotalidade deumgraudo desenvolvimento histórico dasociedadehumanaedequeéimpossívelretratar a sociedadehumanaemsuatotalidadesenãoforemretratadasasbasesqueacercameoambiente

materialqueformaoobjetodesuaatividade.Assim,emsuadependênciadaatividadedohomem,em relação permanente com a atividade humana, os objetos tornam-se não apenas importantes e significativos,masalcançamsuaautonomiaartísticacomoobjetosdafiguração.Aexigênciadequea grandeépicatenhadefigurara"totalidadedosobjetos"significafundamentalmenteaexigênciade um retrato da sociedade humana tal como ela se produz e reproduz em seu processo de vida cotidiano.

Comovimos,tambémodramacaminhanadireçãodeumafiguraçãototaldoprocessovital.Essa

totalidade,porém,concentra-seemumcentrofirme,noconflitodramático.Éumretratoartísticodo

sistema-seéquepodemosdizerassim-daquelasaspiraçõeshumanasque,lutandoumascontraas

outras,participamdessesconflitos.DizHegel:

Por isso,aação dramáticarepousaessencialmentesobreumagir conflituoso,eaverdadeira unidadesópodeterseufundamentonomovimentototal(grifosmeus,G.L.),nofatodequeo conflito,segundoadeterminidadedascircunstâncias,personagenseobjetivosparticulares,tanto seexpõeemconformidadecomosobjetivosepersonagensquantosuprassumesuacontradição. Essasolução,talcomoaprópriaação,temdeser,pois,aomesmotemposubjetivaeobjetiva.

Desse modo, Hegel confronta a "totalidade do movimento" no drama com a "totalidade dos objetos" na grande épica.O que isso significa do ponto de vista da forma épica e dramática? Procuremosilustraressaoposiçãocomumgrandeexemplohistórico.EmReiLear*,Shakespeare retrataamaioremaisavassaladoratragédiadadissoluçãodafamíliacomocomunidadehumanaque aliteraturamundialjáconheceu.Ninguémescapadessafiguraçãosemaimpressãodeumatotalidade quetudoesgota.Mascomoessaimpressãodetotalidadeéproduzida?Shakespeareretrata,narelação entreLearesuasfilhas,entreGlostereseusfilhos,asgrandestendênciaseosgrandesmovimentos humanosemoraisqueemanam,deformaextremamenteaguda,dadecadênciaedadissoluçãoda

famíliamedieval.Essesmovimentosextremos-porémtípicosjustamenteporseucaráterextremo-

formam um sistema totalmente fechado, que, em sua dialética, esgota todos os possíveis posicionamentoshumanosacerca desse conflito.Seria impossível acrescentar a esse sistema um novoelo,umanovaorientaçãodomovimento,semcairemumatautologiapsicológicaemoral.E por meio dessariquezapsicológicadaspartesemluta,agrupadasemtorno do conflito,edessa totalidadeexaustivacomaqual,completando-semutuamente,elasespelhamtodasaspossibilidades desseconflitovital,quesurgea"totalidadedomovimento"nessedrama.

Entretanto,oquenãoestánessafiguração?Faltaocírculovitaldarelaçãodospaiscomosfilhos, faltamasbasesmateriaisdafamília,seucrescimento,seudeclínioetc.Compare-seessedramacom osgrandesretratosfamiliaresquefiguram aproblemáticadafamíliademodo épico,como Os Buddenbrooks*,de Thomas Mann, ou Afamília Artamonov**, de Górki.Com que amplidão e abundância aparecem, neste último, as circunstâncias reais da família? E, no primeiro, que generalizaçãodasqualidadespuramentemoraisevolitivasqueserealizamnaaçãoconflituosa!E

somos obrigados a admirar a extraordinária arte da generalização dramática de Shakespeare precisamenteporincorporarageraçãomaisantigadafamíliaapenaspormeiodeLeareGloster.Se tivessedadoumamulheraLear,aGlosterouaambos,comoumpoetaépiconecessariamenteteria defazer,eleteriadeenfraqueceraconcentraçãonoconflito(seoconflitocomosfilhosgerasseum conflitocomospais)ouarepresentaçãodamulherseriaumatautologiadopontodevistadramático, e ela só poderia ser um débil eco do homem. No ar rarefeito da generalização dramática, é característico que essa tragédia atue necessariamente sobre o espectador como uma imagem arrebatadoraeaquestãodaausênciadeesposas,porexemplo,nãosecoloqueemnenhummomento. Emumafiguraçãoépicacorrespondente,comdoisdestinosparalelos,essasituaçãoatuariasobreo espectador como algo calculado e exigiria uma fundamentação especial, se é que poderia ser fundamentadademodoconvincente.Poderíamosprosseguiressaanáliseatéafiguraçãomaisíntima dosdetalhes.Masoquenosinteressaaquiéapenasaexposiçãodessecontrasteemseusaspectosmais gerais.

Concentrandooespelhamentodavidanafiguraçãodeumgrandeconflito,agrupandotodasas manifestaçõesvitaisemtornodesseconflitoefazendo-osviverapenasnessarelaçãocomoconflito, o drama simplifica e generaliza os possíveis posicionamentos dos homens em relação a seus problemas vitais. A figuração é reduzida à representação típica dos posicionamentos mais importantesecaracterísticosdoshomens,àquiloqueéindispensávelparaaconfiguraçãodinâmicae ativadoconflito,portantoàquelesmovimentosmoraisepsicológicosnoshomensqueprovocamo conflito e sua resolução. Toda personagem, todo traço psicológico de uma personagem que ultrapasseanecessidadedialéticadessecontextoeadinâmicavivadoconflitotemdesersuperficial dopontodevistadodrama.ÉporissoqueHegel,comtodaarazão,caracterizacomo"totalidadedo movimento"acomposiçãoqueseresolvedessemodo.

Quãoricoeamploéesseaspectotípicodependedoestágiodedesenvolvimentohistóricoatingido

pelodramae,nointeriordesseestágio,éclaro,daindividualidadedodramaturgo.

Masoquemaisimportaéadialéticainternaeobjetivadopróprioconflito,quedecertaforma circunscreve o perímetro da "totalidade do movimento", independentemente da consciência do dramaturgo.TomemoscomoexemploAntígona*,deSófocles.Creonteproíbeosepultamento de Polinice.Apartirdessasituação,oconflitodramáticorequerduasirmãsdePolinice,masnãomais queduas.SeAntígonafosseaúnicairmã,suaresistênciaàordemdo reipareceriaumareação socialmentemedianaeóbvia.Afiguradairmã,Ismene,éabsolutamentenecessáriaparamostrarque, aomesmotempoqueéumaexpressãoheroicaeóbviadeumaeticidadequejáseperdeu,aaçãode Antígonaexcedeoplanodareaçãoóbviaeespontâneanascondiçõespresentesnodrama.Ismene condenaaordemdeCreontetantoquantoAntígona,masexigequesuaheroicairmã,porsermais fraca,submeta-seaopoder.Acreditoestarclaroque,semIsmene,atragédiadeAntígonanãoseria convincente,nãoproduziriaoefeitodeumretratoartísticodatotalidadesocialehistórica,comuma

terceirairmã,sendoumapuratautologiadopontodevistadramático.

Lessingtemrazão,portanto,quando,emsuapolêmicacontraatragédieclassique,ressaltade maneiraenfáticaqueosprincípiosdramáticosdecomposição deShakespearesão exatamenteos mesmosdosgregos.Adiferençaentreelesépuramentehistórica.Emconsequênciadacomplicação sócio-históricadasrelaçõeshumanas,aestruturado conflito naprópriarealidadetorna-se mais emaranhada e multifacetada.Acomposição do drama shakespeariano reflete de modo tão fiel e grandioso essa nova situação da realidade quanto a tragédia de Ésquilo e Sófocles reproduzia artisticamenteoestadomaissimplesdecoisasnaAtenasantiga.Essaalteraçãohistóricasignifica umamodernidadequalitativadaestruturadramáticaemShakespeare.Éclaroqueo moderno não reside,nele,emumsimplesincrementoexternodariquezadomundoartisticamentefigurado.Ao contrário,consisteemumsistemanovoeoriginal,genialmentedescoberto,dosmovimentossociais ehumanostípicosediversos,mascujadiversidadeéreduzidaàquiloqueépornaturezanecessário.É justamenteporqueemShakespeareaessênciamaisíntimadodramaseconstróisobreosmesmos princípiosdosgregosquesuaformadramáticaénecessariamentediferente.

AcorreçãoeprofundidadedaanálisedeLessingrevelam-sesobretudonosexemplosnegativos.É umpreconceitobastantedifundidoafirmarqueaconcentraçãoexternadaação,areduçãodonúmero depersonagensaumaspoucasetc.representamumaorientação puramentedramática,enquanto a mudançafrequentedascenas,ograndenúmerodepersonagensemaçãoetc.sãoumaorientação épica.Essaconcepçãoésuperficialeequivocada.Overdadeirocaráterdramáticoou"romanceado" deumdramadependedasoluçãodoproblemada"totalidadedosmovimentos",enãodesimples característicasformais.

Tomemos,porumlado,aformadecomposiçãodatragédieclassique.Elatentarealizarafamosa unidadedeespaçoetempo.Reduzaummínimoaspersonagensemcena.Nointeriordessemínimo, porém, há personagens totalmente supérfluas do ponto de vista dramático, em especial os famigerados"confidentes".Alfieri,queeraelemesmopartidáriodessaformadecomposição,nãosó criticaopapelnãodramáticodessaspersonagensnateoria,comotambémaseliminanaprática,em seus dramas. Mas qual é o resultado disso? Embora não tenham nenhum "confidente", em contrapartidaosheróisdeAlfieritêmlongosmonólogos,comfrequênciatotalmentedesprovidosde dramaticidade.AcríticadeAlfierirevelaumladopseudodramáticodatragédieclassiqueetroca-o porummotivomanifestamentenãodramático.Overdadeiroerrodecomposiçãoqueestánabasede todoesseconjuntodeproblemaséofatodeoconflitotersidoabstraídodeformamecânicaebrutal poressesescritos-porváriosrepresentantessignificativosdessaorientação,porrazõeshistóricase individuaisdiversasedediferentesmaneiras.Comisso,perdeu-seadinâmicavivada"totalidadedo movimento".PensemosmaisumavezemShakespeare.Mesmoseusheróis"maissolitários"nunca estão sozinhos.Mas Horácio, para Hamlet, não é um "confidente", mas uma força autônoma e necessária, uma força motriz do conjunto do enredo.Sem o sistema de contraste entre Hamlet,

Horácio,FortinbraseLaerte,oconflitoconcretodessatragédiaseriaimpensável.Domesmomodo, Mercúcio e Benvólio têm funções autônomas e necessárias no contexto dramático de Romeu e Julieta*.

Odramanaturalistapodeservirdecontraexemplo.Emcomposiçõesrazoavelmentedramáticas comoOstecelões**,deHauptmann,amaioriadasfigurasénecessáriadopontodevistadramáticoe representa um componente inquieto e ativo da totalidade concreta da revolta dos tecelões. Ao contrário,namaioriadosdramasnaturalistas-mesmoosquetêmrelativamentepoucaspersonagens econcentramseuenredonoespaçoenotempo-háumasériedepersonagensqueservemapenas para ilustrar para o espectador o meio social em que a ação se desenrola. Cada uma dessas personagens,cadaumadessascenas"romantiza"odrama,poisexpressaummomentoda"totalidade dosobjetos"queéestranhoaopropósitododrama.

Essasimplificaçãoparecedistanciarodramadavida,edesseaparentedistanciamentosurgiram muitasteoriasfalsasarespeitododrama:emtempospassados,asdiferentesteoriasquejustificavam atragédieclassique;emnossaépoca,asteoriasdocaráter"convencional"daformadramática,da "legalidade própria" do teatro etc.Estas últimas são apenas reações ao fracasso necessário do naturalismonodramae,caindonoextremooposto,movem-senomesmofalsocírculoviciosodo próprionaturalismo.

Noentanto,devemosentenderesse"distanciamento"doprópriodramacomoumfatodavida,um

espelhamentoartísticodaquiloqueavidaéobjetivamenteemcertosmomentosdeseumovimentoe

doque,porconseguinte,elaparecesernecessariamente.

Emgeral,pode-seadmitirdemodoincontestávelqueodramatemcomoargumentocentralo conflitodeforçassociaisemseupontomaisextremoeagudo.Enãoéprecisoserparticularmente perspicazparanotararelaçãoentreoconflitosocialextremoeaconvulsãosocial,arevolução.Toda teoria do trágico legítima e profunda destaca como traço essencial do conflito, de um lado, a necessidadedeaçãonosdoisladosdasforçasemlutae,deoutro,anecessidadederesoluçãoviolenta desse conflito. Contudo, quando essas exigências formais do conflito trágico se traduzem na linguagem davida,veem-seaí ostraçosdasconvulsõesrevolucionáriasdaprópriavida,traços generalizadosaoextremoereduzidosàformaabstratadomovimento.

Certamente não é por acaso que o fim dos grandes períodos do florescimento da tragédia coincidecomasgrandesconvulsõeshistóricasmundiaisdasociedadehumana.Aindaquedemaneira mistificada,HegeljáreconhecianoconflitodeAntígona,deSófocles,ochoqueentreaquelasforças sociaisque,narealidade,conduziramàdestruiçãodasformassociaisprimitivaseaosurgimentoda pólisgrega.NaanálisequefazdeOréstia*,deÉsquilo,BachofenlevaaindamaislongequeHegelas tendênciasmistificadoras,porémformulaesseconflitosocialdemodomaisconcreto:umconflito trágicoentreaordemmatriarca)quecomeçaadeclinareanovaordemsocialdopatriarcado.A

análisepenetranteeprofundaqueEngelsfornecearespeitodessaquestãoemAorigemdafamília,da propriedadeprivadaedoEstado**recupera,dopontodevistamaterialista,ateoriamístico-idealista de Bachofen e estabelece de forma clara tanto teórica quanto historicamente a necessidade da conexão entreo surgimento datragédiagregaeessaconvulsão histórico-mundialnahistóriada humanidade.

OcorrealgosemelhantenosegundoflorescimentodatragédianaépocadoRenascimento.Dessa vez,oconflitohistórico-mundialentreofeudalismoemdeclínioeaúltimasociedadedeclassesque vinhanascendoforneceospressupostosmateriaiseformaisparaumnovoimpulsododrama.Marx expôscommuitaclarezaessecontexto do dramano Renascimento.Tambémapontouemvários escritosanecessidadesocialdosurgimentoedofimdosperíodostrágicos.Assim,em"Críticada

filosofiadodireitodeHegel-Introdução",de1844,eleressaltacomopressupostodatragédiao

momentodenecessidadeeosentimentoprofundodejustificaçãoprovenientedessanecessidadeentre

apartedasociedadequeseencontraemdeclínio."Enquantooancienrégime,comoordemdomundo

existente,lutoucontraummundoqueestavaprecisamenteaemergir,houvedasuaparteumerro

histórico,masnãoumerropessoal.Oseudeclínio,portanto,foitrágico."*

Nesseensaiodejuventude,comomaistardeemO18debrumáriodeLuísBonaparte**,Marx

forneceumaanálisepenetrantedosmotivosporquedeterminadosconflitossociais,nodecorrerdo desenvolvimentohistórico,deixamdeser conflitostrágicosetornam-seobjetosdecomédia.Eé extremamenteinteressanteedeimportânciafundamentalparaateoriado dramaqueo resultado objetivodosdesenvolvimentoshistóricosinvestigadosporMarxconsistasempre,nessecaso,nofato dequeanecessidadetrágicadoagirésuprassumidahistóricaesocialmenteemumdosladosemluta, naquelequeseopõeaoprogressohumano.

Mas seriademasiado estreito limitar,demodo rígido emecanicista,os fatos davidaquese encontram nabasedaformadramáticaàs grandes revoluções históricas.Isso significariaisolar idealmentearevoluçãodastendênciasgeraiseatuantesdavidasocialemaisumaveztransformaro fatodarevoluçãoemumaespéciede"catástrofenatural"àmaneiradeCuvier.Aocontrário,deve-se notar sobretudo que nem todos os conflitos sociais que traziam em si os germes da revolução conduziramarevoluçõesnarealidadehistórica.MarxeLeninmostraramemdiversasocasiõesa ocorrênciadesituaçõesobjetivamenterevolucionáriasque,emconsequênciado desenvolvimento insuficientedofatorsubjetivo,nãoconduziramanenhumaerupçãorevolucionária.Bastapensarno

fimdosanos1850enoiníciodosanos1860naAlemanha(a"novaera"e,emseguida,oconflito

constitucionalnaPrússia).

Mas isso está longe de esgotar o problema dos conflitos sociais.Uma verdadeira revolução popularjamaissedeflagraemconsequênciadeumacontradiçãosocialúnica,isolada.Operíodode preparaçãoobjetivo-históricodasrevoluçõesépreenchidonaprópriavidaportodaumasériede contradições trágicas.O amadurecimento da revolução mostra de maneira sempre mais clara o

contextoobjetivodessascontradições,quesurgemmuitasvezesdeformaisolada,eresume-asem algumasquestõescentraisedecisivasno agir dasmassas.Do mesmo modo,certascontradições sociaispodemcontinuarsemsoluçãomesmodepoisdarevoluçãoou,justamenteemconsequênciada revolução,surgirfortalecidasemaisagudas.

Tudoissotemconsequênciasmuitoimportantesparaaquestãoquenosinteressaaqui.Éevidente,

porumlado,oimportantenexonavidaentreoconflitodramáticoeaconvulsãosocial.Aconcepção

deMarxeEngelssobreonexoentreoperíododeflorescimentodramáticoearevoluçãoconfirma-

se plenamente; pois é claro que a concentração sócio-histórica de contradições da vida leva

necessariamenteaumafiguraçãodramática.Poroutrolado,vê-sequeafidelidadeàvidadaforma dramáticanão pode,por assimdizer,ser "localizada"demodo estreito emecânico nasgrandes revoluçõesdahistóriadahumanidade.Pois,seéverdadequeoconflitorealmentedramáticoreúneos traçoshumanosemoraisdeumagranderevoluçãosocial,épelofatodeafiguraçãodeter-sesobreo humanamenteessencialqueoconflitoconcretonãoéobrigadoarevelar,emseumodoimediatode manifestação,umaconvulsãosocialqueseencontraemseufundamento.Essaconvulsãoconstituio sologeraldoconflito,masaligaçãodessabasecomaformaconcretadoconflitopodesermuito complexa e mediada.Veremos mais adiante que é assim que surge o historicismo presente nos dramasmaismadurosesignificativosdeShakespeare.Acontradiçãododesenvolvimentohistórico,a elevaçãodessascontradiçõesatéoconflitotrágicoéumfatouniversaldavida.

Essacontradiçãodavidanãodeixadeexistirquandooantagonismodeclassesésuprimidopela revoluçãosocialistavitoriosa.Seriaumaconcepçãorasaenão dialéticadavidaacreditar quesó haverianosocialismoaalegriatediosadeumasatisfaçãopessoalnãoproblemática,semlutaesem conflito.Éevidentequeosconflitosdramáticosadquiremumafacetotalmentenova,jáque,como desaparecimento social do antagonismo de classe, das contradições antagonistas, a derrocada necessariamentetrágicadoheróinodrama,porexemplo,nãodesempenhamaisomesmopapelde antes.

Mastambémemrelaçãoaodramadasociedadedeclasses,émaisquesuperficialveraderrocada trágicaapenascomoaniquilaçãobrutaldavidahumana,comoalgo"pessimista"-aqueoporíamos, emnossodrama,um"otimismo"igualmenteraso.Nãopodemosnosesquecerjamaisdeque,nos poetasdramáticosverdadeiramentegrandesdo passado,o caminho paraaderrocada trágica foi sempreumdesdobramentodasmaisintensasenergiashumanas,domaiselevadoheroísmohumano, edequeessaelevaçãodohomemépossíveljustamenteporqueoconflitoélevadoatéofim.Defato, AntígonaeRomeumorremdemaneiratrágica,masamoribundaAntígonaeomoribundoRomeu sãoseresmuitomaiores,maisricosemaiselevadosdoqueeramantesdeseremdilaceradosno turbilhãodoconflitotrágico.

Hoje,trata-sesobretudodeacentuaresseaspectodoconflitotrágico,vercomoumfatogeralda vidaconverte-senaformadramáticae,por meio dela,universaliza-seetorna-sepassíveldeser

intensamenteexperienciado.E,assim,esseaspectohumanodoconflitodramático,quenãoestáde modo algum ligado à derrocada trágica, pode se tornar a base de uma figuração dramática significativa.

Portanto,noconhecimentodaverdadedaformadramática,éprecisocapturar demodomuito concretooproblemadoconflitocomofatodavida.Semamenorpretensãodeesgotaroproblema, mesmo que de maneira apenas aproximada, enumeramos aqui alguns fatos típicos da vida cujo espelhamentoartísticoconduznecessariamenteàcriaçãodaformadramática.

Comecemos com o problema da encruzilhada que separa a vida do indivíduo da vida da sociedade.NatragédiaHerodesundMariamne[HerodeseMariana],deHebbel,aheroínadizao herói:"Tensagorateudestinoemtuasmãosepodesdirigi-loparaondeacharesmelhor?Paracada serhumanochegasempreoinstanteemqueaconduçãodesuaestrelaéentregueaele.Masoruimé queelenãoconheceesseinstante,quepodeserqualquerinstantequepassa?"

Apenasrepresentantesdeumfatalismomecanicistapodemduvidardarealidadedesses"instantes" davida.Anecessidadedavidasocialimpõe-senãoapenaspormeiodascontingências,mastambém por essasdecisõesdehomensegruposhumanos.Éevidentequetaisdecisõesnão são livresno sentidodeumvoluntarismoidealista,nãofantasiamumaautonomiahumanaexistentenovácuo.Mas

esses"instantes"seencontram-emdecorrênciadabasedetododesenvolvimentosócio-histórico-

noslimiteshistoricamentedadosenecessariamenteprescritosdetodaaçãohumana.

Pusemos entre aspas a palavra "instantes"porque, tomada em sentido literal, ela tem caráter fetichista.Contudo,umdostraçosessenciaisdarealidadeéqueessaencruzilhadasurjarepetidas vezeseacarreteapossibilidadeeaimpossibilidadedeumadecisãoacercadequaldireçãosedeve tomar. Mas, em primeiro lugar, essa escolha nem sempre existe, pois pressupõe determinado acirramentocrítico[krisenhafte]dasrelaçõespessoaise,emsegundolugar,aduraçãotemporalda possibilidadededecisãoésemprerelativamentelimitada.Essefatoébemconhecidodetodos,por experiênciapessoal.

Os escritos de Lenin, sobretudo os de épocas agudamente revolucionárias, mostram quão significativo é o papel desses instantes na própria história e quão breve é sua duração.Após a

insurreiçãodejulhode1917,quandopropõeaossocialistasrevolucionárioseaosmencheviquesa

formaçãodeumgovernoresponsávelperanteosconselhos,Leninescreve:"Agoraeapenasagora, talvezapenasdurantealgunsdiasounoespaçodeduassemanas,serápossívelformareconsolidar umtalgovernodemaneiraplenamentepacífica".Osignificadopolíticodessapropostaultrapassaos limitesdenossadiscussão.Paranós,trata-seapenasdemostrar,lançandomãodasdeclaraçõesdeum táticoeestrategistadalutadeclassestalcomoLenin,queofatoda"encruzilhada",do"instante"da decisão,não éumaestilização extravagantequedramaturgosidealistasapanhamno ar nemuma "exigênciadaformadramática",comodistorceramosteóricosneoclássicosdodramanoperíodo

imperialista,massimumfatodavidarecorrenteedeextremaimportânciaquedesempenhaumpapel

crucialnodestinodosindivíduosedasclasses.

Podemosresumiressesegundoconjuntodefatosdavidacomaexpressão:"apresentaraconta"a alguém.O que isso significa? Asinuosidade causal da vida é extraordinariamente complexa.É evidente que toda ação de um homem ou grupo humano tem efeitos sobre seus destinos; estes dependem, em grande parte, da orientação que se dá à ação em determinadas circunstâncias históricas.Masnavidaessasconsequênciascostumamserevelardemodomuitolento,irregulare contraditório. Muitos chegam ao fim da vida, ou dão outra direção a ela, bem antes que as consequênciasdeseusatosanterioressemanifestem.Contudo,éfatouniversalefrequentedavida queessasconsequênciasdeatosanteriores-esobretudodocomportamentogeraloudaatitudeem relaçãoàvidaqueinspirarataisatos-concentremtodasuaforçanavida,eentãoohomemtenhade acertarsuascontascomavida.Aqui,éevidentemaisumavezacorrelaçãoentreosatosdramáticos davidaeascrisesrevolucionáriasdasociedade.Emespecialnocasodegrupossociais,porexemplo ospartidos,aexigênciadeumacertodecontasocorreemgeralemtemposdecrise.Ospartidos distanciaram-sepoucoapoucodaverdadeirarepresentaçãodosinteressesdasclasses(tarefaparaa qual foram criados) e, com isso, cometeram um erro após outro, sem provocar nenhuma consequência efetiva. Mas eis que estoura "de repente" uma crise social e um partido outrora poderosovê-se"derepente"desacreditadoeabandonadosobosolhosdeseusantigosseguidores.A históriaestácheiadessesfatos,enão só emrelação aospartidospolíticosemsentido estrito.A grandeRevoluçãoFrancesaestárecheadadecatástrofesqueporsisósjásãodramáticasnaprópria vida.Desde o fim "repentino" do absolutismo no dia da queda da Bastilha, uma sequência de derrocadassemelhantesconduzdaquedadaGironda,dosdantonistasedoTermidoratéaquedado impérionapoleônico.

Taismomentosjátêmumcaráter dramático naprópriavida.Não ésurpresa,portanto,quea "apresentaçãodaconta"constituaumdosproblemascentraisdafiguraçãodramática.DesdeÉdipo rei*,deSófocles,quedurantedoismilêniosfoio modelo trágico dafiguração dramática,atéA mortedeDanton**,deBüchner,podemosseguir esseproblemacomo umleitmotivdasgrandes tragédias.Eéespecialmentecaracterísticodafiguraçãodramáticaqueelanãofigureaacumulação lentaegradualdasconsequências,mascapteemgeralumperíodorelativamentecurtoeconclusivo, omomentodramáticodavidaemqueumconjuntodeconsequênciasacumuladassetransformaem ações.ApartirdoexemploformaldeÉdipo,costuma-sevincularessetipodedramaàconcentração clássicadosacontecimentos,deumlado,eàantiga"ideiadedestino",deoutro.Nenhumadelas correspondeaosfatos.Aobra-primadeBüchner,porexemplo,foitotalmenteconcebida,quantoà suaforma,nosentidodeShakespeareenãodosgregos.Eésobreessefundamentoquerepousao elementotrágicodeDanton.Ocentrodafiguraçãonãoéocupadonempeloviolentoestrategistada vitória revolucionária nem pelo político burguês vacilante que se recusa a dar continuidade à Revolução.NapeçadeBüchner,tudoissoocorreuhámuitotempo.Eleapenasfigura,comumaforça

dramáticaincomparável,comoogranderevolucionárioDanton,queseafastoudopovoedesua

missão,échamadoa"acertarascontas"comahistóriajustamenteporessaconduta.

Sigamosadiante.Lenindizemváriasocasiõesque,emumasituaçãoemqueéprecisoagir,deve-

se agarrar com firmeza determinado elo da cadeia, dentre uma série infinita de possibilidades, porquesóassimsepodeternamãoacadeiainteira.Comisso,Leninnãosócaracterizoudemodo incomparável um importante princípio do agir político, em especial em períodos de mudanças necessárias,comotambémforneceuumtraçodoagirhumanoemgeral.Oumelhor:dedeterminado tipodeagirhumano,umtipodeagirhumanoemcertosmomentosdemudançadavida.Queremos apenasindicaraquiqueaescolhaeaapreensãodeumelodacadeiaencontram-seemrelaçãointerna com o problema da encruzilhada do qual tratamos anteriormente.Contudo, queremos chamar a atençãoparaocaráterespecíficodessefatodavida.Oqueéespecíficonoproblemadoelodacadeia é,acimadetudo,aimportânciaquesedáaesseelo,ofatodecolocá-lonocentro.Poraíaprópria vida,eparaseusprópriosfins,ésimplificadaegeneralizada.Essasimplificaçãoegeneralizaçãodão àvidaumcaráterenérgico,queavançapassoapasso,evidenciaoscontrasteseleva-osaoextremo.

Ofatodecaptarumelodacadeianãoprecisaestarligadoaumconflitoousurgirdele,masa concentraçãodosproblemasdavidaemtornodessecentrogera,namaioriadoscasos,conflitos. Poisnavidadohomemsingularaconcentraçãonãoocorrenovazio,massimnavivainteraçãocom asaçõesdeoutroshomens.E,naturalmente,aconcentraçãodopróprioagiremumpontodecisivo causaumaconcentraçãodasforçaspessoaisdesseponto.Esseefeitodoelodacadeiaévisívelem particularnavidapolítica.Nomomentoemqueoproblemadoelodacadeiasurgeeocupaocentro da vida política, a natureza em geral amorfa das diferentes tendências e correntes adquire uma fisionomiaclaraedistintatanto deum lado quanto deoutro.Bastapensarmos na diferenciação extraordinariamentefortedosdiversospontosdevistaprovocadospelograndediscursodeLenin quando da implementação da Nova Política Econômica (NEP).Mutatis mutandis, esse problema desempenhanavidadoindivíduoumpapelsemelhante.

Ressaltemos,porfim,outroproblemaestreitamenteligadoaessaquestão:ocarátercongênitoda

ligaçãodohomemcomsuaobra.Mesmonavidapuramentepessoalsurgem,apartirdaí,colisões,

embatesdramáticoseimbróglios.Pois,pormaisqueaobradeumavidarepresenteocentrodetodos

osesforçosdeumhomem,nãohánenhumhomemnoqualeparaoqualoutrasforçasvitaisnão

sejamtambémdecisivas.Quantomaisprofundaéadevoçãodeumserhumanoàsuaobra,maiseleé

umserhumanoautêntico,istoé,quantomaisnumerososeíntimossãooslaçosqueoligamàvida,às

diferentescorrentesdavida,maisdramáticoseráoconflito.

Masnemsemprealigaçãodeumhomemcomumaobraéumassuntoprivado.Quandosetratade

umaobraartísticaoucientífica,elapodeapresentarsuperficialepsicologicamenteessaaparência.

Mas,quandoessaobratemumvínculodiretocomavidadasociedade,entãosurgeumconjuntode

entrelaçamentosqueporessênciacarregadiretamenteumcarátersocial.

Com isso, retornamos ao problema de que já tratamos na primeira parte: o problema dos "indivíduoshistórico-mundiais"nosentidodeHegel.Daprimeiravez,partimosdotratamentodo próprio processo histórico e investigamos o papel que tais "indivíduos" desempenham em sua figuração épica.Chegamos à conclusão de que seu significado histórico é mais bem expresso epicamentequando,noquedizrespeitoàcomposição,éformadodefigurascoadjuvantesdatrama. Agora,abordamosoproblemasoboutroaspecto,odavidainternadoindivíduo.Vemoscomoo profundovínculohumanocomasociedadeecomastarefasdohomemnasociedadeconduzaotipo do "indivíduo histórico-mundial",no qualaparecem,como ponto culminante,tanto aligação do homem com sua tarefa social, seu desempenho na execução dessa tarefa, como o significado extensivoeintensivodela.Hegeldiz,sobreessecontexto:"Sãoessesosgrandeshomensdahistória, cujosprópriosfinsparticularescontêmosubstancial,queéavontadedoespíritodomundo.Esse conteúdoéseuverdadeiropoder( )".

Sejáidentificamosnadevoçãopessoalabsolutaaumaobraumadramatizaçãodavidanaprópria vida,estáclaroqueessecasoextremodetalligaçãorepresentaumpontoculminantetambémem sentidodramático,eissonãoapenasnaarte,masnaprópriavida.Navidatambém,essaunidade pessoal e essencial entre o indivíduo, sua obra e o conteúdo social dela torna mais aguda a concentraçãodaquelecírculovitalemqueemergeo"indivíduohistórico-mundial",aconcisãodos conflitosmaterialmentevinculadosàrealizaçãodessaobra.O"indivíduohistórico-mundial"temum caráterdramático.Eleédefinidocomoherói,comofiguracentraldodrama,porobradaprópria vida.

Poisoconflitosocialcomopontocentraldodrama,emtornodoqualtudogiraeaoqualtodosos componentesda"totalidadedomovimento"sereferem,exigeafiguraçãodehomensque,emsuas paixõespessoais,representamdeimediato forçascujoschoquesformamo conteúdo materialdo conflito.Estáclaroquequantomaisumhomeméum"indivíduohistórico-mundial",nosentidode Hegel,istoé,quantomaissuaspaixõespessoaisseconcentramnoconteúdodoconflitoesefundem comele,maisaptoeleéparaseroheróiprincipal,apersonagemcentraldodrama.Tambémessa verdadedaformadramáticaé,comovimos,umaverdadedavida,nãoumasofistariaformalista.

Por isso, ela não pode nunca ser interpretada em um sentido mecânico e exagerado, como fizeram, por exemplo, muitos teóricos da tragédie classique e seus modernos imitadores neoclassicistas,nosentidodequesomenteasgrandespersonagensdahistória-oudomito-seriam capazesdefornecerheróisparaodrama.Paraavidaeseuretratoartístico,istoé,odrama,trata-se não de uma representação formal e decorativa, mas de uma convergência de forças material- conteudísticas,deumaconcentraçãoefetivaepessoaldeumaforçasocialconflituosa.

Hebbel,com engenho e beleza,comparoua tragédia a um relógio mundial cujo movimento mostra a sucessão de grandes crises históricas. E, ampliando a comparação, acrescenta: "E

indiferente,emsieparasi,seoponteirodorelógioédeourooudelatão,enãoimportaseumaação emsimesmasignificativa,istoé,simbólica,dá-seemumaesferasocialmentemaisbaixaoumais elevada".EssaspalavrasforamescritasnoprefáciodesuatragédiaburguesaMariaMagdalenepara defender teoricamente esse drama. E, nessa defesa, ele tem plena razão. Personagens como o camponês Pedro Crespo de O alcaide de Zalamea*, de Calderón, assim como as personagens burguesas de Emilia Galotti, Intriga e amor** e Gewitter [Tempestade]***, de Ostrovski, e da tragédia de Hebbel são, nesse sentido, "indivíduos histórico-mundiais". O fato de o conflito individualconcretotratadonessesdramasnãoterumagrandezahistóricaextensa,istoé,nãodecida diretamenteodestinodasnaçõesoudasclasses,éalgoquenãoalteraemnadaaquestão.Oque importaéque,nessesdramas,oconflitoéumeventohistórico-socialdecisivo,segundooconteúdo socialquelheéinerente,eosheróistrazemconsigoovínculoentreapaixãoindividualeoconteúdo socialdoconflito,istoé,justamenteovínculoquecaracterizao"indivíduohistórico-mundial".A ausência desses dois momentos dramáticos da própria vida é que torna a maioria dos dramas burgueses-e,infelizmente,tambémdosdramasproletários-tãorasa,tediosaesemsignificado.O fracasso do material consiste sobretudo na dificuldade de desenvolver dramaticamente o caráter histórico-mundialdoconflito,edoheróiqueneleseencontra,semlançarmãodaestilizaçãoesem introduzir momentos falsamente monumentais.Mas o drama moderno move-se, no período do declínio geral do realismo, na linha da menor resistência.Quer dizer: ele adapta seu meio de figuraçãoaosaspectosmaistriviaisdomaterial,aosmomentosmaisprosaicosdavidacotidiana moderna.Dessemodo,abanalidadeirrelevantetorna-seimagemartísticadafiguração,sublinhando justamenteosaspectosdomaterialdesfavoráveisaodrama.Surgemencenaçõesqueseencontram, emsentidodramático,emumplanomaisprofundoqueaprópriavidafiguradaporelas.

Repetimos:nossaintençãoaquiéressaltaralgunsexemplossucintosdagrandesériedefatosda vidacujo espelhamento concentrado eartisticamenteconsciente,esgotando todasasmodalidades dessaconcentração,constituiodrama.Asleisformaisdodramasurgemdamatériadavida,cujo espelhamentomaisuniversal-generalizadoaomáximoartisticamente-éjustamentesuaforma.Por isso,osgrandespoetasdediferentesépocascriamdramasdosmaisdiversostipos.Maséporisso precisamenteque,nessasobrasdeartestão distintas,imperaumamesmaregraformalinterna:a regra do movimento na própria vida, em cujos retratos artísticos consistem os dramas; neles, imperamasleisdoespelhamentoartístico,pormeiodecujaaplicaçãoeobservânciaelessetornam verdadeirasobrasdearte.

Todasasteoriasdodramaque-mesmoinconscientemente,comoaestéticaidealistadeperíodos

anteriores-nãopartemdessesfatosdavida,massimdeproblemasde"estilização"dramática,caem

necessariamenteemdesviosformalistas.Poiselasnãoveemqueochamado"distanciamentodavida"

daformadramáticaéapenasumaexpressãoelevadaeconcentradadedeterminadastendênciasda

própriavida.Aincompreensãodessefato,opontodepartidanodistanciamentoformaldaexpressão

dramáticaemrelaçãoàsformasgeraisemedianasdeexpressãodavidacotidianaproduznãoapenas

umafalsateoria,mastambémumafalsapráxisdramática,distorcendo não somenteaformado drama,comotambémseuconteúdosocialehumano.

DeSaint-ÉvremondaVoltaire,muitoscríticosdatragédieclassiqueexperimentaramcertomal-

estardiantedosdramasmaissignificativosdeCorneilleeRacine.Sentiramumaabstratividade,um distanciamentodavida,umafaltade"natureza"nessasobras.Todavia,apesardeLessingterfeito críticasessenciaise,emmuitasquestões,teratentadoparaproblemasformaisimportantes,Manzoni foio primeiro apôr o dedo naferidadatragédieclassique.Seintroduzimosaquisuacrítica,é porque nela se pode ver de modo muito claro que a tarefa da concentração dramática é um espelhamento correto defatosverdadeirosdavida,detendênciasreaisdavida,poiso efeito da concentraçãoformal,quedistorceoconteúdohumanododrama,decorremaisevidentementedessas tendências.

Durantetodasuavida,Manzonicombateuasexigênciasformaisdaunidadedoespaçoedotempo porquevianelasimpedimentosintransponíveisparaatarefadeseutempo,paraodramahistórico. Mas assim como seu grande contemporâneo Púchkin, ele não as combateu em nome da "naturalidade",daverossimilhançaoudainverossimilhança.Elepartedepreferênciadofatodeque oshomensfigurados,assimcomosuaspaixões,sãodeformadosnaconcentraçãodotempodaação

em24horas.

Foi preciso, por isso, dar vida a essa vontade mais rapidamente, exagerando suas paixões,

desnaturando-as.Paraqueumhomemchegueaumadecisãofinalem24horas,éprecisoquenele

seencontrenecessariamenteum graudepaixão totalmentedistinto daquelecontrao qual ele lutariaummêsinteiro.

Comisso,todasasnuancessãoeliminadas.

Ospoetastrágicossãoreduzidosaretratarapenasumpequenonúmerodepaixõesdeclaradase

dominantes ( ).O

abstratosdedeterminadaspaixõesquecomohomensplenosdepaixões( ).Daídecorremesse

teatro é preenchido por personagens fictícias,que agem mais como tipos

exagero,essetomconvencional,essauniformizaçãodaspersonagenstrágicas(

).

Aconcentraçãoespacialetemporalforçaosautorestrágicos"aconferiràscausas,aqualquer preço,umaforçamaiordoqueascausasreaisteriam( ).Sãonecessárioschoquesbrutais,paixões

expõedemodo convincente

terríveis,determinaçõesavassaladoras(

comoapredominânciaexcessivadomotivodoamor,tambémcombatidaporoutroscríticos,guarda

conexãocomessesproblemasformais,comseuefeitodedistorção.

)".E,maisainda,Manzoni

Éóbvioqueatendênciaàdistorçãotemcausasimediatas,sócio-históricas.Masaformaartística nuncaéumasimplescópiamecânicadavidasocial.Ecertoqueelasurgecomoespelhamentodesuas tendências,porém possui,dentro desseslimites,umadinâmicaprópria,umatendênciaprópriaà

veracidadeouao distanciamento davida.Por isso,o grandepoetadramático ecrítico profundo Manzonicriticoucomrazãoesseefeitodedistorçãodaplasmaçãoartística,justamenteaoapreender emumaestreitacorrelaçãoosproblemasdaformadramáticaeosdavidahistórica.

H.Aparticularidadedafiguraçãodramáticadohomem

Poderíamos,semdúvida,lançaraquiapergunta:emboraseadmitaquetodosessesfatosdavida,cujo espelhamentoartísticoapreendemosnaformadramática,sejamfatosreaiseimportantesdavida,eles nãosãofatosuniversaisdavida?Aépicatambémnãodeveespelhá-los?Aperguntaéplenamente justificada.Nessaformagerale,porisso,abstrata,elatematédereceberumarespostaafirmativa. Comofatosuniversaisdavida,elestêmnaturalmentedeserfiguradosportodaformadeficçãoque espelha a vida.Perguntamos apenas:que papel e significado lhes são conferidos nas diferentes formasdaliteratura?E,aqui,aperguntatemdeserconcretizada.Realçamosessesfatosvitaisdo grandecomplexodavidaporque,assimrealçados,elesformamjustamenteosproblemascentraisda figuraçãodramática;porque,nafiguraçãodramática,tudogiraemtornodoespelhamentodaquelas elevaçõeseculminânciasdavidaquesãocríticas[krisenhaften]egeramcrises;porque,nodrama,o paralelogramodasforçasda"totalidadedomovimento"surgedessecentro;porqueodramaespelha avidanessaelevaçãoreal.

Todosessesfatosdavidatambémaparecem,éclaro,no espelhamento épico darealidade.A diferençaconsiste"apenas"emque,aqui,elesocupamolugar quelheséconferidonoprocesso inteirodavida.Aqui,nãosãoocentroemtornodoqualtudoéagrupado.Emaisainda:comoa representaçãodramáticafiguraessesmomentoselevadosdavida,desaparecemdesuarepresentação todosaquelesfenômenosdavidaquenãoseencontramemcorrelaçãoimediatacomtaismomentos. Nodrama,asforçasmotrizesdavidasãorepresentadasapenasatéopontoemqueconduzemaesses conflitoscentrais,emqueelasprópriassãoforçasmotrizesdessesconflitos.Nagrandeépica,ao contrário,avidaapareceemsuaamplidão.Ospontosculminantesdramáticospodemexistir,porém constituemcumesdosquaisfazempartenão apenasumacadeiademontanhas,como tambémas colinaseasplanícies.E,obviamente,essetipodeespelhamentogeranovosaspectos.Eevidenteque asproporções"normais"davidasãomantidasdemodomuitomaisrígidonaépicaquenodrama,de maneiraquenãosurpreendequeproblemasformaisnovosepeculiaressurjamjustamentenodrama. IssofoivistocomclarezajáporAristóteles.Nacontinuaçãodapassagemquecitamos,emquefala dacomunhãoentreepopeiaetragédia,elediz:"Poisoquepertenceàepopeiaestátambémpresente natragédia,masnem tudo o quepertenceàtragédiaseencontranaepopeia".Tal isolamento de determinadosmomentosdavida,como ocorreno drama,tem deser elemesmo umaformade manifestaçãodavidaafimdepoderservircomobaseparaaconstituiçãodeumaformaliterária. Poisaperguntaquefizemostambémtemoutroimportanteaspecto,tantodopontodevistahistórico quantoestético.Assimcomoestáclaroqueosfatosdavidaespelhadospelodramapodemedevem

serfiguradostambémnaépica,estáclarotambémqueessesfatosocorremnavidacomfrequência;

issosignificariaqueavidaofereceininterruptamenteapossibilidadedeumgrandeeverdadeiro

drama.

Ora,issocontradizosresultadosdodesenvolvimentohistóricodaliteratura.Aformadramática certamente não experimentou no curso da história uma subversão tão fundamental quanto a metamorfosedaantigaepopeianoromanceburguêsmoderno.Aformadramáticatemumcaráter mais perene, suas regras essenciais são mais bem conservadas em seus diferentes modos de manifestação.Masessacontinuidadeseoperaemumdesenvolvimento muito descontínuo,muito fragmentado.Écaracterísticodahistóriadodramaofatodequeelatenhaconhecidoperíodosde florescimentointensoserelativamentecurtos,antecedidosesucedidosdelongosperíodos,séculos inteiros,emquenãosecriounadadesignificativonessegênero.Eessefatoétantomaisevidentena medidaemqueacondiçãoexternaparaarepresentaçãododrama,istoé,opalcoeaencenação, mostraumdesenvolvimentobemmaiscontínuo.Quantomaisfundoanalisamosacorrelaçãoentre dramaepalco-precisamenteapartir dasregrasinternasdaformadramática-,maisseriamente temosdelevantaraperguntadasrazõessócio-históricasdosurgimentodescontínuododrama.

Osimplesfatodessadescontinuidadejáindicaque,seosmomentosdavidaenumeradosaquise espelham no dramaecompõem abasedeseusproblemasformais específicos,algo tem deser acrescentadoaelesou,melhordizendo,éavidaquetemdeproduzi-losdemaneiradeterminadae específica,afimdequesuafiguraçãoficcionaladequadaconduzaàverdadeiraformadramática.Ea descontinuidade do desenvolvimento da vida explica-se então pelo fato de que esses momentos específicosadicionais,por meio decujo acréscimo surgeaverdadeiraformadramática,podem aparecerapenassobcondiçõessociaisehistóricasmuitoespeciais.Elesnãotrazem,portanto,nada fundamentalmentenovoparaosfatosdavidaqueexaminamos,mascontribuemparaqueessecaráter dramáticosempreintrínsecosemostredemodoclaro,visíveleadequado.

Anecessidade, assim como a orientação e o tipo de tal concretização, pode ser facilmente explicadapormeiodealgunsexemplossignificativos,tantopositivosquantonegativos.Tomemos aquelecaso aquenosreferimoscom aexpressão "apresentar aconta".Essemotivo aparecena literatura das mais variadas formas, sem que seja necessariamente, em cada caso, um motivo dramático.Porexemplo,asencenaçõesdemistériosmedievais,quesãoestruturadas,segundosua formaexterna,demododialógicoecênico.Encontramosaquiumtemarecorrente,cujaformamais célebreéomistérioinglêsEveryman:odaMortequeapresentaaohomem,nomomentodeseu últimosuspiro,acontadesuavida;nessahorafatal,revela-sedemodoresumidoeconcentradoa falênciadeumavidamalconduzida.Apesardafiguraçãodialógicaecênicadomistério,apesardo motivodramático-setomadoabstratamente-,nãoháaqui,emnenhummomento,nadadramático. Por quê? Porque as consequências do "apresentar a conta", em tais condições, só podem ser puramenteinteriores,psicológicasemorais,enãosedeixamtransporparaaação,paraaluta.O

conflitodesenrola-senaalmadoherói,comotemor,penitência,lutainterioretc.Porconseguinte,seu mododeexteriorizaçãosópodeser líricooudidático-retórico.Apesar daobjetivaçãocênica,os conflitosexistentesnãorecebemnenhumaformadramáticavisível;apesardaformadialógica,não surgenenhumalutadramáticaentreasduaspotênciassociaishumanas.(Eéinteressanteobservar comqueforçaadramaticidadeinternadessemotivoéexpressaquandoesse"apresentaraconta"é figuradodemodoépico,comonanovelamagistraldeTolstóiAmortedeIvanIlitch*.)Naencenação dosmistérios,comsuaformaexteriormentedramática,o"apresentaraconta"étãogeralquenão podeseexpressaremumcasodramáticoindividualizado:aindividualidadedoportadordaaçãoé, quantoàgeneralidadedoproblema,umexemplodeumalei-introduzidoporacasoearbitrariamente substituível-,nãoaincorporaçãodramáticadeumadasforçasemconflito.

Essa generalidade abstrata das forças em conflito não precisa ser necessariamente uma contraposiçãorígidaentreavidaeamorteemgeral,umarelaçãoreligiosacomarealidade.Ao contrário.Essetipoespecialdafiguraçãopseudodramáticavincula-seaofeudalismomoribundoesó voltaaencontrarimitadoresisoladosnadecadênciaimperialista.

Entretanto,justamenteemrazãodonovosentidoatribuídoàhistóriamuitosescritorespuderam darasuasfiguraçõesficcionaisumatalquantidadededetalhesempíricos,defatossimples,quea necessidadehistórica,emsuaplenitude,sópodiaaparecerdemodoabstrato.Poistodapotênciaou necessidadehistóricafiguradanodramaéabstrata,emsentidoficcional,quandonãoseincorporade modoadequadoeevidenteemhomensconcretos,emdestinosconcretosdesereshumanos.Issoerao quenãoqueriaenãopodiafazer,porexemplo,acorrenterepresentadaporMérimée,Viteteseus amigos, da qual tratamos anteriormente. Eles queriam plasmar, a partir do modelo mal compreendidodosdramashistóricosdeShakespeare,umdramabaseadonafiguraçãoampla,extensa ecompletadosdetalheshistóricos.

Vitet,omaiscoerenterepresentantedessacorrente,viucombastanteclarezaacontradiçãoque

aquiseapresentanaessênciadodrama.NoprefáciododramahistóricoLesbarricades,jácitadopor

nós,elediz:

Defato,essascenasnãosãoseparadasumasdasoutras:elasformamumtodo;háumenredopara cujodesenvolvimentoelasconcorrem.Masesseenredoserveapenasparaseusurgimentoesua ligação.Seeuquisessecriarumdrama,teriadeteremvistasobretudoocursodoenredoe,para torná-lovivo,teriadeabrirmãodemuitosdetalheseacessórios;paraaumentaratensão,seria obrigadoasilenciarmuitacoisa;teriadepôr,àcustadaverdade,algumaspersonagensesituações emprimeiroplano,mostrandoasoutrasapenasdemodoresumido,emumgrandepanorama. Preferideixar ascoisascomo elasseapresentam,pondo todasaspersonagensesituaçõesno primeiroplanoquandoissocorrespondiaaosfatos,enãosedevevernenhumainvençãoouerro nofatodeeucomfrequênciainterromperaaçãocomdigressões,quesãocomoasquecostumam ocorrernavidareal.Parapoderimitardomodomaisexato,tivederenunciar adespertarum

interessemaisvibrante.(Grifosmeus,G.L.)

Vimos que Mérimée nunca foi tão longe quanto Vitet,seuamigo e companheiro de luta,na retenção dosdadosempíricosdetodososacontecimentoshistóricos,no sacrifício conscienteda verdadepoéticaenafidelidadehistóricaaosfatossingulares.Apesardisso,seudramahistóricoLa Jacquerieéestruturadosobreprincípiosmuitosemelhantes.Seugrandeeduradouroméritofoinão apenasterrecuperadoagranderevoltadoscamponeses,quecaíranoesquecimentodahistoriografia, eassimtercontrapostoaoidilismoromânticodaIdadeMédiaumaantítesepalpáveldalutamais agudaeferozdasclasses.Mériméeforneceu,maisdoqueisso,umquadroautênticoeficcionalmente avivadodetodasasclassesdaIdadeMédiaemdecomposição;encontrouefigurourepresentantes típicosimportantesdasdiferentesclasses;retratouochoqueentreasdiversasclassesemsituações vivasetípicas.

Apesardessafiguraçãoautenticamenteficcional,quevaimuitoalémdamerafidelidadehistórica àIaVitet,nãosurgiudaínenhumaobradramáticadeimpacto.Umcríticocontemporâneo,próximo do círculo de Mérimée, Charles Rémusat, expôs as causas desse fracasso com argumentos pertinentes.DepoisdetratarminuciosamentedetodasasqualidadesdaJacquerie,passaafalardo GõtzvonBerlichingen,deGoethe,quetambémforneceumamploretratodavidadetodasasclasses daIdadeMédiaeaindaapresentaumarevoltadecamponeses.Elevênaverdadeenaprofundidade humanasdafiguradeGõtzosegredode"suagrandezaficcional,queseduzeelevaacapacidade imaginativa", uma figuração humana que não existe nas tentativas ficcionais posteriores, que se baseiamemprincípiosformalmentesemelhantesebuscamumafidelidadehistóricasemelhante.Em seguida,RémusatfazumaanálisecompletadapersonagemdeGõtzemtodaasuariquezaindividual, resumindoseujulgamentodaseguinteforma:

Esse(istoé,Gõtz,G.L.)éohomemmaisimportantedetodosostemposcomafisionomiadeseu

século.Assim,nodrama,apoesiaeahistóriapodemserreconciliadas;assim,semabandonara

verdade,ogêniopodeelevar-seaograndioso.Comtaisobras,oteatromodernopodeocuparseu

lugaraoladodoantigoteatronacional.Aarteseriaincompletaedefeituosase,emsuaficção,ela

nãoreproduzissetudooqueestácontidonanaturezademodotãobomoutalvezmelhorquea

próprianatureza.

Paraosobjetivosquenospropomos,éindiferentecomo avaliamoso GõtzvonBerlichingen histórico e o modo como Goethe o concebe; se, como Hegel, vemos nele um dos últimos representantesda"épocadosheróis"ouse,comoMarx,definimo-locomoum"sujeitomiserável"*. PoisHegeleMarx(este,comvigor polêmico contraLassalle)concordamqueGoethefoibem- sucedidonacriaçãodeumapersonagememqueostraçosmaispuramenteindividuaisepessoaisse fundemcomaautenticidadeeaverdadehistóricaemumaunidadeorgânica,inseparáveleefetiva.E essetambéméosentidodasobservaçõesdeRémusatquecitamosaqui.Portanto,odestinoqueas circunstânciashistóricasreservamaGõtznãosóéapropriadoemsentidogeral-dopontodevista

ficcional,demodoabstratoehistórico-,comoéodestinoindividualespecíficodeGõtz-semperder nadadeseucaráter histórico,mas,aocontrário,aprofundando-oeconcretizando-o-noseuser- precisamente-assim.

Manzoni,orepresentantemaissignificativododramahistóriconaEuropanaépoca,vêdemodo muito coerente que é precisamente nessa individualização das personagens dramáticas que se encontraopontomaissalientedodramahistórico,queele,comumacríticaáspera,contrapõeao classicismoabstracionista.Afirma,emclaraoposiçãotantoaVitetquantoaMérimée,quenãohá nem pode haver nenhuma contradição fundamental entre fidelidade histórica e individualização dramática.Atradiçãohistóricatransmiteosfatos,asorientaçõesgeraisdodesenvolvimento.Opoeta dramáticonãotemnenhumdireitodealteraressematerial.Maseletambémnãotemnenhumarazão paraisso,pois,sedesejafigurarsuaspersonagensdemodorealmenteindividualizadoevivo,énos fatoshistóricosqueeleencontraosprincípiosnorteadoreseosmeiosparaisso:quantomaisfundo penetranahistória,maisosencontra.

Onde o verdadeiro dramaturgo pode se encontrar melhor do que naquilo que os homens realmentefizeram?Opoetaencontranahistóriaumcaráterimponente,queodetémeparecelhe dizer:"Observa-me e eu te ensinarei algo novo sobre a natureza humana".O poeta aceita o convite.Quercomporapersonagem.Ondepoderáencontraraçõesexternasquecorrespondam melhor à ideia daquele homem que ele procura compor do que naquelas ações que foram realmenterealizadas?

"Oquerestaaopoetafazer,então?",perguntaManzoni.

"O que resta? A poesia: sim, a poesia. Pois, no fim das contas, o que nos dá a história? Acontecimentos,quenossãoapresentados,porassimdizer,apenasexteriormente.Masoqueos homensfizeram,oquepensaram,ossentimentosqueacompanhamsuascogitaçõeseseusplanos, seussucessosesuascatástrofes,aspalavrascomasquaiselestentaramafirmarsuaspaixõese seusdesejosdiantedaspaixõesedosdesejosdeoutroshomens,comasquaiselesexpressaram seuódioedeixaramfluirsuatristeza,comasquais,emsuma,revelaramsuaindividualidade:por tudoissoahistóriapassaquaseemcompletosilêncio.Eéprecisamenteesseoterrenodapoesia."

Alutadodramarealehistóricocomosimpedimentoscausadospelamanifestaçãoficcionalmente abstratanahistóriamostramuitoclaramente,tantocomexemplospositivosquantonegativos,queo pontodecisivoéjustamenteoproblemadaindividualidadedoheróidramático.Todososfatosda vida que encontram na forma dramática seu espelhamento adequado só podem cristalizar suas demandasdemodocorrespondentequandoaspotênciasemconflito,cujochoqueéprovocadopor taisfatosdavida,sãoarranjadasdetalmaneiraquesualutaestáemcondiçõesdeseconcentrarem personalidadesdistintivas, igualmente evidentes, segundo tanto sua fisionomia individual quanto sócio-histórica.

Paranãorestardúvidassobreacorreçãodessaconcretizaçãodenossasobservações,devemos analisaralgunsoutroscasosemqueapresençadefatosdavidadramáticosemsitambémnãoconduz aum verdadeiro drama,aindaquepor razões contrárias.Somenteassim podemos esboçar com contornosnítidosoespaçoconcretodoespelhamentoespecificamentedramático,dosurgimentoda forma dramática a partir da necessidade intrínseca do material da vida que é levado por ela à figuração.

Consideremosagora,portanto,oextremooposto:osconflitosquesurgemdetalbaseemocional, mas não possuem nenhuma universalidade social, embora estejam incorporados em diferentes indivíduos. Em Shakespeare, quando o amor de Romeu e Julieta entra em conflito com as circunstânciassociaisdofeudalismodecadente,ocorremsituações,reviravoltaspsicológicasetc.que atingemtodosdiretamente.E,quantomaisindividualéafiguraçãodaspersonagensprincipais,mais avassalador é o sentimento de empatia. A individualização dos heróis principais não pode enfraquecer,masapenasfortalecer o caráter universalmentesocialdo conflito.É,semdúvida,o amorindividualquequebraasbarreirasdaslutasentreosclãsfeudais.Ograumáximodeexaltação das paixões - que aponta necessariamente para a individualização do amor e, com isso, para a acentuaçãodaspeculiaridadespessoais,subjetivas,daspersonagensprincipais-énecessário para conferiraoconflitosuadimensãotrágica,paraimpossibilitardesdeoinícioqualquercompromisso, qualquersoluçãomediadora.Aprofundidadepoética,asabedoriatrágicadeShakespearemostram-se precisamentenofatodequeamáximaintensificaçãodacaracterizaçãoindividual,dasubjetividadeda paixãoéorgânicaeinseparavelmenteligadaàuniversalidadedoconflito.

Masessenãoéocasodetodapaixão,pormaisirresistívelquesejasubjetivamente.JohnFord,um jovemetalentosocontemporâneodeShakespeare,adotoucomotematrágicodeseudramaTispity she'sawhore[Quepenaqueelasejaumaprostituta]apaixãoincestuosaentredoisirmãos.Ford dispõenãoapenasdeumnotáveltalentodramático,comotambémdeumacapacidadeespecialde figurar paixõesextremascomvigor everossimilhança.Algumascenasdessapeçaalcançamuma grandiosidadequaseshakespearianapelasimplicidade,pelaobviedadeepelaautenticidadecomque essaspaixõestotaisdominamavidadeseusheróis.Contudo,aimpressãodramáticadoconjuntoé problemáticaeambígua.Éimpossívelcompartilharmosapaixãodeseusheróis.Elaéepermanece humanamenteestranhaanós.Essaestranhezaparecenãoterpassadodespercebidaaopoetatambém. Pois,dramaticamente,no quedizrespeito ao enredo,o caráter incestuoso dapaixão amorosaé apenasumingredienteperverso.Oconflitopropriamenteditosurge,dopontodevistadramático,do choque entre uma paixão amorosa qualquer e as circunstâncias externas; das cenas realmente dramáticas,amaioriaseriapossível(quasesemmodificação)seestivéssemosdiantedeumsimples dramasobreumamor proibido econtrariado (por qualquer razão),umdramaqualquer sobreo amor,ocasamentoeaseparação.Esseamorentreirmãoséexcêntricoesubjetivodemaisparase tornarabasedesustentaçãodeumenredo.Talbaseserefugianaalmadosheróis,cujapaixãoé contraposta, dramaticamente, apenas por uma proibição em geral, um impedimento em geral,

portantoalgoabsolutamenteestranhoeabstratoemrelaçãoàpaixão.

Todaação,todaencenaçãodeumconflitoemaçõesexigedeterminadoterrenocomumentreos oponentes, mesmo quando essa "comunidade" é dominada por uma hostilidade social mortal:

exploradoreseexplorados,opressoreseoprimidospodemteremcomumoterrenodaluta,masa

perversidadesexual,emseuconflitocomasociedade,nãoencontraesseterreno.Faltaaessapaixão

ajustificaçãorelativa,subjetiva,queseenraízanaordemsocialdopassadoouantecipaofuturo.

Assim,alutaentreossistemassucessivosdoamor,casamento,famíliaetc.nãotemnenhumarelação

comaproblemáticadodrama.Deacordocomainterpretaçãomoderna,todososconflitosquena

tragédiaantigaparecem"semelhantes"são,naverdade,choquesentreduasordenssociais.

PodemoscomprovarquãopoucoacidentaléofracassodotalentosoFordnessetema,tomando umexemplomaisrecente:Mirra,deAlfieri.Esseautoréumpensadortrágicoeprofundo.Elerejeita qualquerefeitoquenãoresultediretamentedaessênciatrágicadoconteúdoemquestão.Se,nessa obra,eletambémtocanotemadaperversidadesexual-dapaixãofataldafilhapelopai-,eleevita todososefeitosgeraisdoamorproibido,todososobstáculosqueesseamoraspiravasuperar.Alfieri renuncia a todos aqueles meios pelos quais Ford, com seu instinto espontaneamente dramático, conferiuaseumaterialumaaçãoeumatensãoaparentes.Elequerdramatizarrealmenteoconflito psicológico,oconflitohumanodapaixãoperversa,doamorincestuoso.Suasintençõessãopurase grandes;masqualéoresultadodissonatragédiapropriamentedita?Emresumo:Alfieritransforma o dramainteiro emummonólogo oprimido.Eleretratasuaheroína-demodo muito correto e dramático-comomoralmentesuperioredelicada,comoalguémquetremediantedaprópriapaixão, mas,apesardeumheroicoesforçoderesistência,acabapor sesubmeter àsuaforçairresistível. Vemos,ao longo detodaapeça,como essanobreessêncialutadentro desi contraum destino obscuro,silenciado,comoelatoma,umaapósaoutra,decisõessemsentido,afimdesepultaremsia paixãoemudecida,desconhecidadetodososhomens,daqualsuspeitamosdemodoobscuroecujo conteúdojamaisserevela.AtéqueMirra,ameaçadapeloinfortúniodeseuamadopai,declara-sesem quereredáumfimaseusofrimento,suicidando-se.

Dopontodevistadramático,Alfieriencontra-seemumplanomaiselevadoqueFord,namedida emquedáumlugarcentralaoconflitoreal,interno,daspaixõesperversaseestruturaoenredoa partir daí e apenas a partir daí. No entanto, com isso, ele revela o caráter profundamente antidramático do tema. O único verdadeiro instante dramático no drama só pode ser a última confissãodeMirra.Masoalcancetrágicodessacena-tomadoemsentidoestreito-ésuficiente apenasparaumameiaconfissãobalbuciadapelaheroína,paraumaexclamaçãodeterrordopaie, então,osuicídio.Todoorestoéapenaspreparação,adiamentohabilmentedistribuído.

Overdadeiroconflitodramáticotemdeconteremsitodaumacadeiademomentoscapazesde produzirumaelevaçãoininterruptaepossibilitarumaricasequênciadealtosebaixosnalutaexterna de potências sociais que entram em conflito.Essa fertilidade do verdadeiro material dramático

depende,porém,dequãoprofundaéaligaçãointernaentreaspersonagensqueocupamocentrodo dramaeoconflitoconcretodaspotênciassócio-históricas,istoé,desabermosseedequemodo esseshomensestão engajados,comtodaasuapersonalidade,no conflito representado.Somente quandoopontocentraldesuapaixãotrágicacoincidecomomomentosocialdecisivodoconflitoé quesuapersonalidadepodeobterumaplasticidadedramáticaplenamentedesenvolvidaerica.Quanto maisvazia,abstrataeperiféricaéessarelação,maiso heróidramático temdeexperienciar seu desenvolvimentoaoladododramapropriamentedito,istoé,dopontodevistaartístico:lírica,épica, dialética,retoricamenteetc.

A grandeza da figuração dramática humana, da vivificação dramática do homem depende,

portanto,nãodoquãointensaéaforçacriadoradeumpoetaemsieparasi,mas-eatésobretudo-

atéondelheédado,subjetivaeobjetivamente,descobrirnarealidadeefetivapersonagenseconflitos

quecorrespondemaessasexigênciasinternasdaformadramática.

Éclaroquenãosetrataaquiapenasdeumaquestãodetalento,mastambémdeumproblema social.Poisnemo dramaturgo maisimportantepodeinventar taistramas(trama,aqui,entendida comounidadedepersonagemeconflito)demodolivre,comobementender.Eletemantes-oqueé expressocomgrandeênfaseporManzoniemespecial-deachá-las,descobri-lasnasociedade,na história,narealidadeobjetiva.

Éevidente,porém,quenãoapenasoconteúdosocialdosconflitosdeumaépocaéoprodutode seu desenvolvimento econômico, mas também as formas de manifestação desses conflitos são produzidaspelasmesmasforçashistórico-sociais.Essasúltimasrelaçõessão,semdúvida,muito menos passíveis de dedução direta das bases econômicas, das tendências econômicas de desenvolvimentodaépoca.Mas,paranossaquestão,issosignificaapenasqueogêniodescobridor dos grandes dramaturgos encontra aqui um espaço de ação mais amplo, e não que um talento qualquerparaainvençãosejacapazdecriarformasdemanifestaçãodosconflitosquenãoexistem nasociedade,substituindo suas qualidades eventualmentedesfavoráveis parao dramapor outras favoráveis, livremente criadas, sem eliminar o caráter realista do drama. O verdadeiro gênio dramático mostra-se "apenas"em sua capacidade de,no complicado e confuso emaranhado dos modosempíricosdeaparição,encontrar aquelesemqueo conteúdo dramático interior daépoca podeserespelhadodemaneiraadequada,segundoasexigênciasdaformadramática.

QuandocomparamosShakespeareeFord,acentuamos,noessencial,aoposiçãoentreostalentos dramáticos.Apenasnoessencial,pois,comorápidoagrupamentodeforçassociaisqueocorrena época, a diferença de cerca de vinte anos entre os dois autores significa também um ambiente socialmentemudado.Investigaressaquestãoemseuspormenores,mesmoquedemodoresumido,é algoqueultrapassaoslimitesdenossotrabalho.Oqueimportaaquiémostrarqueapossibilidadede figurardemododramaticamenteadequadoasforçassociaisemconflito,istoé,defigurá-lasem personalidadesplenamentedesenvolvidaseindividualizadas,nãoresultaprontaediretamentedeum

conflitoqualquer,maspressupõeaexistênciadecondiçõessubjetivaseobjetivasmuitocomplexas.

Prosseguimosentãocomaconcretizaçãodoespaçodedesenvolvimentodramáticodaquelesfatos

davidaque,decertaforma,impelememdireçãoaodramanaprópriavida.Emnossasconsiderações

anteriores,quandoinvestigamososperigosdeumaobjetividadeexageradaedeumasubjetividade

extremadosconflitosparaosurgimentodeumverdadeirodrama,deixamosdeconsideraratéque

pontoosficcionistasforambem-sucedidosaoatribuirasuaspersonagensumaverdadeiraeadequada

capacidadedeexpressão.

Paraodrama,issoéumanecessidadeincontornável.Massuahistóriamostraqueoesforçodo dramaturgonemsempreoimpelecomomesmorigornessadireção.Sobainfluênciadamoderna correntenaturalista,soborecitar"natural"habilmenteimitadodasfigurascênicas,tendemosaver apenas as causas dos modos de expressão não dramáticos. Com isso, no entanto, a questão é empobrecida,poissetrataaquidaexpressãopessoaldapersonagemdramática.Estatemdeexpressar demaneiraadequadaospensamentos,sentimentos,vivênciasetc.queamovemnessasituaçãoprecisa. E,doponto devistado drama,hátambémo perigo dequeaexpressão ultrapasse,naabstração ideada,asituaçãoconcreta,oshomensconcretos(comoocorrecomfrequêncianatragédieclassique ou,àsvezes,emSchiller)ou,porumafalsacompreensãodoquesignificaoesforçodeseaproximar etentarextrairaautenticidadedavida,dequeelalimiteacapacidadedeexpressãodoshomensà expressãotípicadavidacotidiananormal.

Aqui não se trata, em primeiro lugar, da linguagem, embora o diálogo dramático seja naturalmenteaformaconcretademanifestaçãodetodosessesproblemas.NememSchillernemem GerhartHauptmann,paratomarmosdoiscasosextremos,pode-sefalardeincapacidadeliteráriade expressar adequadamentepelalinguagemsuaintençãopoética.Ambossãomestresdapalavra-é claroquedemodomuitodiferenteeemgrausmuitodistintosdeelevaçãopoética;noâmbitoda técnicadalinguagem,ambos são capazes de fazer o que bem entendem.Mas,em Schiller,isso ultrapassaoníveldaspersonagensdramáticas,caracterizaalgodiferente,algomaisuniversalqueas personagensdadasqueagemesofrem.EmGerhartHauptmann,porsuavez,odiálogoexpressade maneiraadequadaoaquieagoradoshomensemquestão,masmantém-setãoexclusivamentenesse aquieagoraquesuaexpressãopermaneceabaixodauniversalizaçãoqueaspersonagensdodrama deveriamalcançarafimdeobteraplasticidadenecessáriaasuaspersonalidades.

Oheróidramáticofazcontinuamenteobalançodesuavida,obalançodasdiferentesetapasdeseu caminho para a tragédia. Em sua expressão, portanto, também deve haver uma tendência à universalização, uma efetivação linguística, ideada, emocional dessa tendência. Mas - e isso é essencial-essauniversalizaçãonãopodenuncaseafastardapessoaconcreta,dasituaçãoconcreta; elatemdeser,emtodosossentidos,auniversalizaçãodasideias,sentimentosetc.precisamentedesse homemnessaprecisasituação.

Issosignificaqueodiálogodramáticotemdeatingirtambém,demaneirauniformeesobretudo

emseuspontosaltos,umaconcentraçãoideadaeumconjuntoemque-semprejudicarocaráter

profundamentepessoaldoconteúdoedaformadoqueéexpresso,emesmoprecisamentepormeio

desuamáximaintensificação-todososmomentosquefazemdodestinodessehomemumdestino

universaldevemalcançarsuaexpressão.Shakespeareé,tambémnessesentido,opontoculminanteda

históriadodrama.Quesepense-parailustrarcomumúnicoexemploessaquestãonadasimples-

naspalavrasdeOtelo*,quandolagooconvencedainfidelidadedeDesdêmona:

Oh!Mas,agora,adeus,sossegodaalma!Oh!Adeus,minhapaz?Adeus,tropasdepenacho,guerra

altiva,queemvirtudeconvertetodaambição!Adeus!Adeus!Adeus,cavalosrelinchantes,trompas

belicosas,tamboresanimosos,pífarosestridentes,reaisbandeirasetodobrilho,esplendor,pompa

earmamentodagloriosaguerra!Eavóstambém,adeus,mortaisengenhos,cujasrudesgargantas

imitamosestrondosterríficosdoeternoJúpiter.Adeus!AobradeOteloestáacabada.

Opoderlinguísticodessaspalavrasnãotem,éclaro,umafonteapenaslinguística.Trata-separao poeta, sobretudo, de criar tais homens e pô-los em tais situações em que palavras como essas resultem"naturalmente".Emoutrolugar,játrateiemdetalhedospressupostossociaisehumanos, ideológicosepoéticosdetalcriaçãolinguística'.Aqui,podemosapenasressaltaralgunsmomentos importanteseespeciaisarespeitododrama.

Comisso,chegamosaantiquíssimasdisputassobreodrama,emparticularàquestãodomodo comoseusheróistêmdeserconstituídosedesuarelaçãocomoshomensnarealidadecotidiana.Tal questão jádesempenhouumimportantepapelnaAntiguidade.Elaformaumconteúdo centralda discussãosatíricaentreEsquiloeEurípides,emAsrãs*,deAristófanes.Nessapeça,apersonagemde Eurípidessevangloriadeter introduzidonodramaavidaprivadaeseuscostumescotidianos,e caracteriza isso como um feito muito audacioso.E é precisamente esse ponto, assim como as questõesdeformaedelinguagemligadasaele,queconstituemoconteúdocentraldoataqueda personagemdeÉsquiloàsuaarte.Asdiscussõesteóricasdoperíododatragédieclassiquetambém retomamrepetidasvezesessasquestões.Aqui,elasrecebemaseguinteformulação:apenasosreis, generaisetc.podemserheróisdatragédia?Equaissãoasverdadeirasrazõesdessa"legitimidade"?A históriadaformaçãododramaburguêspõeváriasvezesessaquestãoapartirdenovosaspectos,por exemplodaaptidãodohomemdo"terceiroestado"asetornarheróidatragédiaetc.

Todasessasdiscussõesdramatúrgicasbrotam,éclaro,daslutasdeclassesdasrespectivasépocas. Mas,seaefetivaçãodeumaououtraorientaçãoé,defato,artisticamenteproveitosaparaodrama, issoéresultadodeinfluênciasmuitocomplexasqueasbasessociaisdacriaçãoedocrescimentodo drama exercem sobre as possibilidades formais de seu florescimento.O motor, a força motriz primáriasãoasforçassociais;oespaçodesuaefetivação,porém,édelimitadopelasleisdaforma dramática.

Naspáginasanteriores,quandofalamosdodramaburguês,tratamosdoproblemado"indivíduo histórico-mundial"como o heróinecessário do drama.Aqui,tratando dospressupostossociaise humanosdaexpressãodramáticaadequada-nemaltanembaixademais,nemabstratanemsubjetiva demais-,temosderetornar maisumavezaessaquestão.Essaproximidadeconceitualdo herói dramáticocomo"indivíduohistórico-mundial"nãosignifica,éevidente,umasimplesidentidade.Há também personagens extremamente importantes da história cuja biografia não tem nenhuma possibilidadeparao drama,assimcomo háheróisdramáticosquesó são "indivíduoshistórico- mundiais"nosentidoampliadoetranspostoquedefinimosemnossasconsideraçõessobreodrama burguês.

Em todas essas limitações, porém, as seguintes determinações convergentes devem ser conservadas.Antesdemaisnada,adimensãohistóricadotratamentoficcionaldoconflito.Nodrama, esta também não é idêntica ao significado histórico superficial dos acontecimentos que são representados.Omaioracontecimentohistóricopode,nodrama,funcionardemodototalmentevazio enãoessencial,enquantoeventosqueemsisãomenosimportantesdopontodevistahistórico-e mesmoaquelesque,naverdade,nuncaocorreram-podemdespertaraimpressãodeumahecatombe histórica,donascimentodeumnovomundo.Bastalembrar asgrandestragédiasdeShakespeare, comoHamlet*ouReiLear,paradeixarclarocomotaldestinopessoalpodedespertaraimpressãode umagrandereviravoltahistórica.

OexemplodasgrandestragédiasdeShakespeareémuitoinstrutivo,poisnelasexpressa-sede maneira clara esse caráter especificamente dramático das mudanças históricas, do historicismo dramático. Como autêntico dramaturgo, Shakespeare dá pouca atenção à pintura detalhada das circunstânciashistóricasesociais.Suacaracterizaçãodaépocaéacaracterizaçãodoshomensativos. Querdizer:todosaquelestraçosdeumapersonagem,daspaixõesdecisivasatéasexteriorizações vitaismaisínfimasesutis,porémaindaevidentesedramaticamente"íntimas",trazemconsigo a atmosfera não da época em sentido amplo, universal-histórico ou épico, mas no sentido da condicionalidadetemporaldoconflito:seumododesertemdebrotardosmomentosespecíficosda época.

Comefeito,essahistoricidadeéprópriadeumaépoca.Tomemosoexemplo,jácitadoantes,de RomeueJulieta.SuaatmosferaéaItáliadofimdaIdadeMédia.Contudo,seriamuitoerradobuscar nessatragédiaumaconcretização do aquiedo agora,cujafiguração incomparávelconferiaaos romances de Walter Scottum espírito verdadeiramente histórico.Às vezes, espaço e tempo são concretizados de modo mais nítido no próprio Shakespeare e, mais ainda, em dramaturgos proeminentescomoGoetheouPúchkin.Mas,porumlado,essapossibilidadedenuncia,desdejá,uma importantepeculiaridadedafiguraçãodramática,istoé,talconcreçãoé,àsvezes,dramaticamente supérfluaesuaausêncianãoeliminaohistoricismodramático;poroutro,osdramasposteriorese mais concretos buscam uma caracterização dos traços mais gerais da época, de modo

incomparavelmente mais direto, indo mais longe que o romance histórico na superação da particularidadedasetapassingularesedacomplexacapilaridadedastendências.

Observadasoboutroaspecto,essaconcepçãohistóricagrandiosadaépocasóépossívelporque todos os momentos característicos do tempo foram total e organicamente apreendidos nas personagensativas,porqueelesformammomentosdeseumodopróprioepessoaldeagir.Podemos vercomclarezaaquiasimilaridadedosprincípiosúltimosdafiguraçãonospoetastrágicosantigose emShakespeare,queLessingobservoucommuitaperspicácia:ambosreduzemomundodaação humanaarelaçõespurasediretasdoshomensunscomosoutros.Opapelmediador quecoisas, instituiçõesetc.desempenhamaíélimitadoaummínimo;elasaparecemcomosimplesacessórios, meropanodefundoetc.esãoconsideradasdramaticamenteapenasdemodoindireto,namedidaem queessepapelmediadorsefazimprescindívelparaacompreensãodasrelaçõeshumanas.(Agrande épica também nunca fetichiza as relações dos homens, mas figura essas relações com essas mediações,atémesmopormeiodesuaamplautilização.)Ariquezaeaprofundidadedafiguração dramáticadaspersonagenseainvençãodesituaçõesservemparaisto:criarsereshumanosque,em sua personalidade, estão em condições de comportar a plenitude de tal mundo e revelá-lo com clareza.

Hegelchamouaatençãoparaocaráterplásticodosheróisdodrama.Paraele,issonãoémera comparação, mas parte de sua filosofia histórica da arte:da concepção das artes plásticas e da tragédiacomoprincipaisartesdaAntiguidade,emcontrastecomapinturaeoromancecomoartes daépocamoderna.Nãoconvémdiscutirmosaquicertasunilateralidadesidealistasdessaconcepção. Oquenosimportaéantescaptaraprofundaverdadeestéticanesseparaleloentreartesplásticase drama.Ambassãoformasdearteemqueomundodohomeméefetivadoexclusivamentepormeio dafiguraçãodoprópriohomem.Edeve-seapreendercomo,detal"redução"aoshomens,surgeuma representação enriquecida de todo o mundo do homem. Nessas considerações, procuramos esclarecer esse caminho para a plasticidade dramática do homem, o caminho para sua individualizaçãodramática,queé,aomesmotempo,seucaminhoparaohistoricismodramático.As condiçõessociaisdessaconcepçãoefiguraçãodohomem,desuaindividualização,sãoascondições doverdadeirodrama.

Adeterminaçãohegelianados"indivíduoshistórico-mundiais",emespecialaquelaquedizque seus"finsparticularescontêmosubstancial,queéavontadedoespíritodomundo",aproxima-se muito, portanto, da caracterização do herói dramático. Basta que se traduza toda a mística do "espírito"emefetividadematerialista,histórica,epode-sepensaressacomunhãodapersonalidadedo heróicomaessênciahistóricadoconflitodemodotãoimediatoquantopossível.Essaimediatidadeé aquiomomentodecisivo.AspersonagenshistóricasfielmenteconcebidasdeumVitetoudeum Mérimée, mesmo em concordância com os fatos, não alcançam o páthos dramático da história mundialporfaltadessaimediatidade,aopassoqueocamponêsPedroCrespo,deCalderón,ouos

pequeno-burguesesdeSchiller,emIntrigaeamor,imersosemsuamesquinharealidadecotidiana,

estãorepletosdessepáthoshistórico.Édesnecessáriorecorreraexemplosdenívelsuperior,como

Romeu,HamletouLear.

Pensemos-pararesumirtodaaquestãocomajudadeumexemplonegativo-emumdramaturgo

modernotãoimportantequantoFriedrichHebbel.SuaJuditelibertaopovojudeuoprimidomatando

Holofernes,ogeneraldoinimigo.Maspararealizaresseatodeheroísmonacional,asalvaçãodeseu

povo,elatemdesacrificarsuahonrademulher,cedendo-aaHolofernes.Aquiexiste,semdúvida,

umlegítimoconflitotrágico.Hebbeltambémfazsuaheroínadizer,antesdedecidirentregar-sea

Holofernes:"SeTu(oDeusdosjudeus,G.L.)põesumpecadoentremimemeuato,quemsoueu

paraTecontrariar,paramesubtrairaTeupoder?"MasentãoatragédiaentreJuditeeHolofernesse

desdobraemumalinhatotalmentediferente.E,depoisdeJuditetermatadoHolofernes,temosum

diálogodecisivo,muitocaracterístico:

Judite:Por queeuvim?Amisériademeupovo meimpeliuatéaqui,aameaçadorafome,o pensamentofixonaquelamãequecortaopulsoparadardebeberaofilhoexaurido.Oh!E,então, aquiestoueudenovo,empazcomigo.Tudoissoeuhaviaesquecidopensandoemmimmesma!

Mirza:Tuohaviasesquecido.Entãonãofoiissoquetemoveuquandomergulhastetuamãono

sangue!

Judite(lentamente,esgotada):Não-não,tutensrazão,nãofoiisso-,nadamemoveuanãosero

pensamentoemmimmesma.Oh!Aquiétudotãoconfuso!Meupovoestásalvo,mas,seuma

pedrativesseesmagadoHolofernes,elaseriamaismerecedoradegratidãodoqueeusouagora!

E,devoltaaBetúlia,emmeioaojúbilodopovoqueelasalvou,eladiz:"Sim,mateioprimeiroe

últimohomemdaTerraparaquetu(dirigindo-seaumhomem)criestuascabrasempaz,tu(aum

segundo)plantesteurepolhoetu(aumterceiro)executesteutrabalhoepossascriarfilhosquese

pareçamcontigo?"

ApersonagemdeJuditeéconcebidaporHebbelcomverdadeiramaestriapsicológica,aestrutura cênicadramáticadatragédiaépoderosa,alinguagem-aforaalgunsdeslizesbombásticos-éforte, concisa, dramaticamente ágil. E, no entanto, falta à expressão trágica de Judite justamente a individualizaçãodramática:paraseudestinotrágicopessoalcomomulher,suamissãohistóricana vidadeseupovoéapenasumpretextoocasional,contingente;poroutrolado,asalvaçãodopovo judeunãosurgeorganicamentedesuavida:dopontodevistadopovo,elatambémécontingente.

Essascontingênciassuprimemoelementodramático.Shakespearetratacomsoberananegligência oseloscasuaisdosfatossingulares.(PensemosnodesenlacetrágicoemRomeueJulieta.)Como dramaturgonato,elesabiaqueanecessidadedramáticanãodependedaausênciadelacunasnoselos contingentes singulares, assim como é suprimida pelas contingências singulares do enredo. A

necessidadedramática,amáximaforçaconvincentedodramadependejustamentedaconcordância

interna-queacabamosdeanalisarbrevemente-entreapersonagem(comsuapaixãodominante,que

provocaodrama)eaessênciasócio-históricadoconflito.Seessenexoestápresente,entãotoda

contingênciasingular,comonofimdeRomeueJulieta,desenrola-senaatmosferadanecessidadee

nesta-epormeiodesta-édramaticamentesuprimidoseucarátercontingente.Poroutrolado,seessa

necessidadegeradapelaconvergênciadramáticadepersonagemeconflitonãoestápresente-como

naJudite*,deHebbel-,entãoamaisbemencadeadamotivaçãocausaltemoefeitodeumamera

sofistaria,antesabrandandoqueintensificandoaimpressãotrágica.

Essaconvergênciaentrepersonagemeconflitoéabasemaisdeterminantedodrama.Mas,quanto mais profundamente é concebida, mais imediato é seu efeito. Utilizamos em sã consciência a expressão"atmosferadenecessidade";comela,pretendemoscaracterizaromododeserorgânico, imediatodesseencadeamentoentrepersonagemeconflito,queseencontramuitodistantedequalquer

sofisticação.Odestinocontraoquallutaoheróidodramachegaaeletão"defora"quanto"de dentro". Seu caráter, por assim dizer, "predes tina-o" a esse conflito, pois nenhum conflito é

inexorávelparaoindivíduo.Navida,amaioriadoscasosemquesemanifestaumconflitosócio-

históriconãoseresolvedeformadramática.Odramasurgeapenasquandooconflitoenvolveseres humanoscomoAntígona,RomeuouLear.ÉoqueafirmaoEsquiloaristofânicoquandoprotesta contraaconcepçãodoEdipopresentenoprólogodeEurípedesàAntígona,emespecialcontraa afirmação dequeÉdipo erafelizetornou-seo maisinfelizdosmortais.Elenão setornou,diz Ésquilo,masnuncadeixoudesê-lo.

Seriaumexageroperigosotomardemodomuitoliteralessadeficiênciapolêmicaesuperestimá-

la.Esquilo protesta,com razão,contra a exterioridadepela qual,naconcepção de Eurípedes,o destinodeÉdiposetornadefato"destino",nosentidodeumfatoinexorável.Osheróisdastragédias verdadeiramentegrandiosasnãosãodemodoalgum,emsuamaioria,personagensque,emvirtude deseucaráter,estariamincondicionalmentecondenados.Elesnãosão demodoalgum"naturezas problemáticas" para usarmos termos modernos. Pensemos em Antígona, Romeu, Lear, Otelo, Egmontetc.Suaessênciadramáticasóédesencadeadapeloconflitoconcretoqueseabatesobreeles, noqualseexpressaaconvergência-quediscutimosacima-deseucarátercomessedeterminado conflito.Mas eles não entram em contato com um conflito em geral, um princípio abstrato e universaldoelementotrágicoqueseincorporariaquaseporacidentenoconflitoconcreto,como pensammuitosteóricosdoséculoXVIII.

Dissoresulta,contudo,queoconflitodramáticoesuasaídatrágicanãopodemserapreendidos

emumsentidoabstratamentepessimista.Seriaumcontrassenso,éclaro,negarabstratamenteaqueles

momentospessimistasnodramaqueseapresentamanósapartirdahistóriadasociedadedeclasses.

Ocaráterterrívelenotoriamentedesesperadorqueoconflitonasociedadedeclassesassumeparaa

maioriadoshomensé,semdúvida,ummotivo-enãosemimportância-paraaformaçãododrama.

Masnãoédemodoalgumoúnicomotivo.Tododramaverdadeiramentegrandiosoexpressaao mesmotempo,emmeioaoterrordaperdainevitáveldosmelhoresindivíduosdasociedadehumana, emmeioàdestruiçãomútua,aparentementeinexorável,doshomens,umaafirmaçãodavida.Ele figuraumaglorificaçãodagrandezahumanaque,nalutacomasmaisfortespotênciasobjetivasdo mundosocial,naextrematensãodetodasassuasforçasnessecombatedesigual,revelaqualidades importantesque,deoutramaneira,permaneceriamocultasenuncachegariamasemanifestar.Por meio do conflito, o herói dramático atinge um patamar que estava presente nele apenas como possibilidade desconhecida e cuja passagem para a realidade constitui o elemento vibrante e edificantedodrama.

Étambémporissoqueesseaspectododramatemdeserressaltado,poisasteoriasburguesas,que setornaramdominantessobretudonasegundametadedoséculoXIX,põemosaspectospessimistas sempre em primeiro plano, e a polêmica contra elas limita-se com frequência a contrapor escolasticamenteumotimismoabstratoerasoaessepessimismoabstratoedecadente.

Narealidade,ateoriaunilateralmentepessimistado dramapossuiumaligação estreitacoma destruiçãodeseuhistoricismoespecífico,comadestruiçãodesuaunidadeimediatadehomeme ação,de personagem e conflito.Schopenhauer,o fundador dessas teorias,resume a essência da tragédiadizendo"queafinalidadedessealtoesforçopoéticoéarepresentaçãodoladoterrívelda vida,quenossejammostradosadorinominável,adesgraçadahumanidade,otriunfodamaldade,o domínioescarnecedordoacasoeaquedairremediáveldosjustosedospuros".Elereduzassimo conflito concreto,sócio-histórico,aumconflito maisoumenosfortuito,aumasimplesocasião desencadeadora da "tragédia humana universal" (da inanidade da vida em geral). Expressa filosoficamenteumatendênciaque,apartirdametadedoséculopassado,tornou-secadavezmais dominanteelevoucomcadavezmaisfirmezaàdissoluçãodaformadramática,àdesintegraçãode seuselementosrealmentedramáticos.

Vimos o efeito dessas tendências desintegradoras na obra de um autor tão talentoso como FriedrichHebbel.Vimosque,antesdetudo,oprópriocentrodaunidadedramática,aunidadeentre heróieconflitofoiafetada.Surgedissooseguintedilemaparaaexpressãodramática:ostraçosmais pessoais,maisprofundamentecaracterísticosdapersonagem principal não têm nenhumarelação interna e orgânica com o conflito concreto. Por conseguinte, eles exigem, por um lado, uma amplituderelativamentegrandedeexplanação,afimdetornar-seperceptíveisecompreensíveisem gerale,por outro,meiosmuitocomplexosparaqueaproblemáticapsicológicainternadoherói possaserrelacionadaaoconflitohistóricoesocial.(AJuditedeHebbel,porexemplo,éviúva,mas permaneceu virgem enquanto durou seu casamento.E a complexa psicologia que resulta de tal situaçãopeculiarquecria,nodrama,aponteparaaaçãodramática.)Taistendênciastêmumefeito épico. Elas são um fator importante no desenvolvimento daquele processo que chamamos de "romancizaçãogeraldodrama".

Masoestabelecimentocomplexoesubsequentederelaçõespsicológicasentreheróieconflito sócio-histórico não ésuficienteparao drama.Emquasetodososdramaturgosdetalento -que, apesar disso, fracassam no ponto decisivo -, ela é acrescida de um êxtase lírico nos grandes momentos,emparticularnofim.Oconteúdodetaisêxtasespodesermuitovariado.Namaioriadas vezes, no entanto, é a percepção da necessidade da derrocada trágica. A ausência de unidade dramáticaobjetivadeveserdepoiscorrigidaerecompostaartificialmenteporessalíricasubjetiva.E é claro que, quanto mais os dramaturgos decompõem essa unidade, menos sua concepção da personageménaturalmentehistórica;quantomaisauniversalidadeconjuntivaseaproximadomodo depensar deSchopenhauer,maior éoabismoentreapsicologiasubjetivaeauniversalidadedo destinoemaisindispensáveléoêxtaselíricocomosubstitutodoelementodramático.

NãoéporacasoqueopróprioSchopenhauertenhavistonaóperaNorma*omodelodatragédia.

TampoucoqueseudiscípuloRichardWagnertenhatentadosuperaroselementosproblemáticosdo

dramamodernocomaajudadamúsica.Noentanto,seudramamusicaléapenasumcasoextremodo

dramamodernoemgeral.Diversosbonsobservadores-ThomasMann,emprimeirolugar-viram

claramentequãopróximoéoparentescododramamusicalwagnerianocom,porexemplo,odrama

emprosadeIbsen.

Comisso,acreditamosterfornecidoadesejadaconcretizaçãodastendênciasvitaisenumeradas

anteriormentequeconduzemaodrama.Sempretendermosserexaustivosdopontodevistahistórico

ousistemático,oquesóseriapossívelemumadramaturgiaestudadaemdetalhes,parece-nos,no entanto, que a encarnação especificamente dramática desses fatos da vida está clara para nós:a personalidadeplenamentedesenvolvida- do ponto devistadramático eplástico - do "indivíduo histórico-mundial"éfiguradadetalmodoquenãosóelaencontrasuaexpressãoimediataecompleta naaçãoproduzidapeloconflito,comoessaexpressãofazoresumogeral,social,históricoehumano

doconflito,semperderseucaráterimediatoepessoal,oumelhor,semnemaomenosenfraquecê-

los.

Acapacidadeimediataeplenadeexpressãodeumapersonalidadeemumenredoéumaquestão

dramaticamentedecisiva.Todaliteraturaépicaapresentaoaumentodosacontecimentos,amudança

gradualouarevelaçãoprogressivadoshomensativose,portanto,aspiraedespertaaomáximoessa

convergênciaentreohomemeaaçãonatotalidadedaobra,eéporissoqueafiguranomáximo

enquantotendência;aocontrário,aformadramáticaexigeumaevidênciainstantâneaeimediatadessa

coincidência,acadaetapadeseucurso.

Aconcretizaçãohistóricadosfatosdavidaenumeradosnocapítuloanteriorconsistiria,portanto,

eminvestigarascondiçõessócio-históricasdeperíodossingularesedescobrirseedequemodosua

estruturaeconômica,anaturezadesuaslutasdeclassesetc.sãofavoráveisoudesfavoráveisauma

realizaçãoverdadeiramentedramáticadessesfatosdavida.

Sefaltamnavidasocialospressupostosparaaguçarastendênciasemsidramáticasquelevamao verdadeirodrama,entãoelasirrompememdireçõesque,deumlado,tornamproblemáticaaforma dramática e, de outro, levam elementos dramáticos a outras formas literárias. Ambas as possibilidadessãovisíveissobretudonaliteraturadoséculoXIX.Ainfluênciarecíprocaentreas formasépicaedramáticacomocaracterísticaessencialdaliteraturamodernafoiconstatadaprimeiro por Goethe e Schillerz. Balzac, referindo-se em especial a Walter Scott como o iniciador do processo, ressaltou o elemento dramático como marca distintiva do novo tipo de romance, em oposição aos tipos anteriores. Essa introdução do elemento dramático no romance foi extraordinariamentefértilparaoromancemoderno,enãoapenastornousuaaçãomaisviva,sua caracterizaçãomaisricaeprofundaetc.,comotambémcriouumamaneiraadequadadeespelhamento literárioparaomododevidamodernonasociedadeburguesadesenvolvida:paraosdramastrágicos (etragicômicos)davida,quesãodramáticosnaprópriavida,masaparecemdeformanãodramática porquesãoincompreensíveissemseupequenoeatémesquinhomovimentoparaadianteesópodem serfiguradoscomdistorções.

Ainfluênciadessasmesmasforçassociaissópodia,portanto,sermuitoperigosaparaodrama, pois,quantomaissignificativoéumdramaturgo,maiseletrazemsiavidadeseupresentehistórico emenoseletendeaviolentar,emnomedaformadramática,decisivasmanifestaçõesdavidaque sejamestreitamenteligadasàessênciadeseusconflitoseàpsicologiadeseusheróis.Tambémessas tendênciasacabaramporintensificarcadavezmaisa"romancizaçãododrama".MaksimGórki,o maior escritor de nosso tempo, sublinhou energicamente esses momentos - em uma autocrítica impiedosaemuitoinjusta-emrelaçãoaumadesuasváriaspeças:

Escrevi quase vinte peças e todas são cenas mais oumenos debilmente encaixadas umas nas outras,nasquaisalinhatemáticanãoémantidaeaspersonagenssãoincompletas,confusase malsucedidas.Umdramatemdeserrigorosamenteativodoinícioaofim,poisapenassobessa condiçãopodeservirparadespertaremoçõesatuais.

Atendênciadomomentopresente,desfavorávelaodrama,écaracterizadaaquidemodoagudoe certeiro.Paradeixarbemclaraacorreçãofundamentaldessacrítica-independentementedoexagero daautocrítica-,lembremosacenadecisivadeumdosmelhoresdramasdeIbsen,umdramaturgo representativodasegundametadedoséculoXIX:oRosmersholm*.RebekkaWestamaRosmer.Ela quer selivrar detodososimpedimentosqueosseparam;paratanto,elalevaBeate,amulher de Rosmer,asesuicidar.Masavidaaoladodeledespertaepurificaseusinstintosmorais:agoraela senteseuatocomoumabarreiraintransponívelentreelaeoamadomarido.Quandoesseatosetorna objetodediscussãoedeconfissãodaheroína,emdecorrênciadesuamudança,issosedádaseguinte forma:

Rebekka(agitada):Mas,acreditem,euagicompremeditaçãofriaecalculada!Eunãoeranaépoca

oquesouhoje,quandomeencontrodiantedevocêscontandooquefiz.E,depois,pensoque

existemdoistiposdevontadeemumserhumano.EuqueriamelivrardeBeate!Dealgumaforma.

Masnãoacreditavaqueissochegariaaacontecer.Acadapassoqueeuousavadaradiante,havia

algoemmim,comoumgrito:"Para!Nemumpassoamais!"E,noentanto,eunãopodiaparar.Eu

tinhadeavançar,nemquefosseumpassominúsculo.Apenasmaisumpassominúsculo.-Então

maisum-emaisum.-Eassimfoi.-Edessemodoqueumacoisacomoessaacontece.

Ibsen,comainabaladahonestidadedeumgrandeescritor,dizporqueRosmersholmnãopoderia setornarumverdadeirodrama.Eleconseguiutudooqueainteligênciaartísticapodiaextrairdesse material.Mas,precisamentenopontodecisivo,ficaevidentequeodramapropriamentedito-aluta, o conflito trágico eaconversão deRebekkaWest-compõe,no quedizrespeito ao material,à estrutura,aoenredoeàpsicologiadaspersonagens,nãoumdrama,masumromancecujoúltimo capítulo foi travestido por Ibsen,com grandemaestrianacondução cênicaenaconstrução dos diálogos,naformaexternadodrama.Apesardisso,éclaro,suasbasespermanecemcomoasdeum romance,preenchidocomadramaticidadenãodramáticadavidaburguesamoderna.Comodrama, portanto,Rosmersholméproblemáticoedefeituoso;comoretratodotempo,éautênticoefidedigno.

OcasodeIbsen-assimcomoodeHebbel,dequetratamosanteriormente-interessa-nosapenas porseuaspectotípico,sintomático.Asdiferençasdoespelhamentodosmomentosemsidramáticos davidanodramaenoromance,queaparecememIbseneHebbel,remontamaumproblemacentral de nossa investigação:ao modo de figuração do "indivíduo histórico-mundial" no drama e no romance.

Játratamosemdetalhearazãoporqueosclássicosdoromancehistóricofiguraramasgrandes personagensdahistóriasemprecomo coadjuvantes.Agora,nossasconsideraçõesmostramquea peculiaridadedodramaexigequeelastenham,dopontodevistadacomposição,opapeldefiguras centrais.Essesdoismodoscontráriosdecomposiçãoderivamdomesmosentimentopelaautêntica historicidade, pela grandeza verdadeiramente histórica: ambos se esforçam por apreender, de maneirapoéticaeadequada,aquilo queéhumanaehistoricamentesignificativo naspersonagens importantesdenossodesenvolvimento.

Aanálisesucintaquefizemosatéaquidaformadramáticademonstracomoestaúltimaforçaà

extraçãoimediataeevidentedaquiloqueésignificativonohomemenoenredo,assimcomoresume

asdemandasessenciaisdesuarealizaçãoemumaunidadeplástica,fechadaemsimesma,doheróie

daação.Maso"indivíduohistórico-mundial"jáécaracterizadonarealidadeportenderatalunidade.

Ora,comoodramaconcentranoconflitoosmomentosdecisivosdeumacrisesócio-histórica, eletemnecessariamentedeser composto detalformaquecaibaao graudeapreensibilidadedo conflitoadecisãosobreoagrupamentodaspersonagensdecisivasdocentroatéaperiferia.E,como aconcentraçãodosmomentosessenciaisdetalcrise-apontodelevaraumconflito-consisteem que se ressalte nela aquilo que é mais significativo humana e historicamente,esse ordenamento

composicionaldevecriar,aomesmotempo,umahierarquiadramática.Nãoemumsentidogrosseiro

eesquemático,comoseafiguracentraldodramativessedeser-emtodosossentidospossíveis,ou

apartirdeumpontodevistaabstratoqualquer-necessariamenteo"maiordoshomens".Oheróido

dramasuperaseuambientesobretudograçasàsuaconexãoíntimacomosproblemasdoconflito,

comacrisehistóricaconcretaemquestão.Aescolhaeafiguraçãodoconteúdo,omododeligação

dapaixãodoheróicomessepoder,decidemseosignificadoformalqueosmeiosderepresentação

dodramaconferemasuaspersonagensépreenchidocomumconteúdorealeverdadeiro,históricoe

humano.Mas,parafazervaleresseconteúdosocial,éindispensável,comovimos,aquelatendência

formaldaconstruçãodramáticaqueressaltaosmomentossignificativosnoconjuntodarealidade,

concentra-osecria,apartirdesuasconexões,umretratodavidaemnívelmaiselevado.

Ocasodaépicaétotalmentediferente.Aqui,osmomentossignificativossão figuradoscomo partes, como elementos de uma totalidade mais ampla, extensa e abrangente, em seu complexo processo de gênese e crescimento, em seu vínculo inseparável com o desenvolvimento lento e confusodavidadopovo,nainteraçãocapilardopequenocomogrande,dodesimportantecomo importante.Mostramos antes que,nos clássicos do romance,o caráter histórica e humanamente significativo dos "indivíduos histórico-mundiais" brota precisamente desse complicado contexto. Tambémmostramos-emconexãocomasimportantesobservaçõesdeBalzaceOttoLudwig-que ummododecomposiçãomuitoespecialénecessárioaquiparaqueosignificativonãodesapareçana infinitudeconfusadavida,sendoreduzidoàmediocridadepordetalhesfrequenteenecessariamente mesquinhos,eaautenticidadeeariquezadarealidadesocialnãosejamperdidasemvirtudedeuma estilizaçãoartificial,umaexaltaçãoexageradadavida.

O romance não exige necessariamente a figuração de homens importantes em situações importantes.Emcertoscasos,elepodeabdicardisso,apresentandoaspersonagenssignificativassob umaformaquedêaseustraçosumaexpressãopuramenteinternaemoral,demodoqueaoposição figuradaentreocotidianomesquinhodavidaeessesignificadopuramenteintensivodohomem,essa inadequaçãoentrehomemeação,entreinterioreexterior,torne-seoatrativoprópriodoromance.

Oromancehistóricotambémnãosedistinguefundamentalmentedoromanceemgeralnoquediz respeitoaessesmeiosepossibilidades;nãoconstituiumtipodegêneroousubgêneropróprio.Seu problemaespecífico,afiguraçãodagrandezahumananahistóriapassada,temdeserresolvidono interiordascondiçõesgeraisdoromance.Eestaslhefornecem-comonosmostrouapráxisdos clássicos-tudooqueseexigeparaarealizaçãobem-sucedidadessatarefa,poisaformadoromance não exclui de modo algum a possibilidade de figuração de homens importantes em situações importantes.Emcertascircunstâncias,elapodeserealizarsemesseselementos,massuafiguração tambémépossível.Trata-seapenasdecriarumenredoemqueessassituaçõesimportantessetornem partesnecessárias,orgânicasdeumaaçãomuitomaisamplaerica;trata-sedeconduziressaaçãode tal modo que ela, a partir de sua própria lógica interna, imponha-se tais situações como seu

verdadeiroconteúdo.Trata-se,alémdisso,dedisporapersonagemdo"indivíduohistórico-mundial" demodoqueelasemanifesteemtaissituações,eapenasnelas,apartirdeumanecessidadeinterna própria. Definimos assim, com outras palavras e por outra via de pensamento, aquilo que já havíamos dito antes, isto é, o "indivíduo histórico-mundial" é necessariamente uma figura coadjuvantenoromancehistórico.

Essemododiametralmenteopostodecomposiçãonodramaenoromancederiva,portanto,das mesmasintençõesfigurativasemrelaçãoao"indivíduohistórico-mundial":vercomolhospoéticos suaimportânciaesuagrandezaeapresentá-lasdamelhorforma,semverterpseudossabedoriassobre suasqualidades"demasiadohumanas".Masessaigualintençãoérealizadacommeiosartísticosbem distintose,comoésempreocasonaarte,escondeumconteúdomuitoessencialnessadiferençade formas.Eainteressanteedifíciltarefadoromancehistóricoconsisteprecisamenteemrepresentaro significativono"indivíduohistórico"detalmodoque,nele,todososcomplexosmomentoscapilares dodesenvolvimentoemtodaasociedadedaépocanãosejammuitoencurtadoseque,aocontrário, ostraçossignificativosdo"indivíduohistórico-mundial"nãoapenasbrotemorganicamentedesse desenvolvimento,mas,ao mesmo tempo,esclareçam-no,tornem-no consciente,elevando-o aum patamar superior.Aquilo queno dramahistórico éum pressuposto necessário,isto é,amissão concretadoherói(porsuaconduta,oheróiintroduznoprópriodramaaprovadequeeletemtal missão e de que está preparado para enfrentá-la), é, no romance histórico, desdobrado e desenvolvido demodo amplo egradual.Como mostramos,Balzacchamaaatenção,com pleno direito,paraofatodeque,noromancehistóricoclássico,o"indivíduohistórico-mundial"nãosóé umafiguracoadjuvantenecessária,como entraemcena,namaioriadasvezes,apenasquando o enredoseaproximadeseuápice.Suaapariçãoépreparadaporumamploretratodaépoca,afimde que esse caráter específico de seu significado se torne veraz, compreensível e passível de revivificação.

Oportadordramáticoecentrodesseretratodotempoéoherói"mediano"doromancehistórico. O que qualifica essas figuras a ocupar o centro composicional dos romances históricos são justamente aqueles traços sociais e humanos que banem tais figuras do drama ou fazem-nas desempenharumpapelsubordinadoeepisódico.Poisafaltadeclarezadoscontornosdeseucaráter, aausênciadegrandespaixõesqueconduzamatomadasdeposiçãoresolutaseunilaterais,ocontato com osdoiscamposinimigosem lutaetc.,tudo isso tornaessaspersonagensaptasaexpressar adequadamente,emseuprópriodestino,acomplexacapilaridadedosacontecimentosromanceados. OttoLudwigfoitalvezoprimeiroareconhecercomclarezaessadiferençaentredramaeromance, ilustrando-o,deformabastanteexata,comalgunsexemplos.

Essaéaprincipaldiferençaentreosheróisdoromanceedodrama.SeimaginarmosLearcomo umromance,entãoEdgarteriadeseroherói( ).Se,aocontrário,quiséssemostransformarRob Royemdrama,entãoopróprioRobteriadeseroherói,masahistóriateriadesermodificadaea personagemdeFranzOsbaldistonteriadeserremovida.Domesmomodo,oheróitrágicoem

WaverleyseriaVichJanVohre,emTheAntiquary[Oantiquário],acondessaGlenallen.

H.0problemadocaráterpúblico

Parecequevoltamosacair emumproblemaformal,composicional,masaqui,maisumavez,a verdadeiraformaéapenasumespelhamentoartísticogeneralizadordefatoslegítimoserecorrentes da vida.Do ponto de vista do conteúdo, o que importa é a diferença que especificamos até o momento:ocaráterpúblicododrama.Segundosuaorigemhistórica,aépicatambémfoiumaarte pública.Essaé,semdúvida,umadasrazõesporqueadistânciaformalentreaepopeiaantigaeo dramaeramenordoqueaquelaentreoromanceeodrama-apesardagrandeinfluênciaqueum exerciasobreo outro.Masessecaráter público daepopeiagregaantiganão énadamaisqueo caráterpúblicodavidaemumasociedadeprimitiva.Etinhanecessariamentededesaparecercomo desenvolvimentoposteriordasociedade.Senosativermosàdefiniçãodaepopeiacomo"totalidade dosobjetos"-easepopeiashoméricasformamabaseeamelhorconfirmaçãopráticadacorreção dessadefinição-,entãoéclaroqueessemundosópodeconservaraplenadimensãodeseucaráter público em um grau muito primitivo de desenvolvimento social. Pensemos, por exemplo, nas considerações históricas de Engels sobre o caráter público da economia doméstica em uma sociedadeprimitivae,emumgrauumpouco maiselevado do desenvolvimento,naprivatização necessáriadetodososfatoseaçõesrelacionadosàmanutençãodavida.Enãonosesqueçamosdo papelqueocaráterpúblicodasexteriorizaçõesvitaisdessesfenômenosdesempenhanasepopeias homéricas.

Masemtodasassociedadesosfatoresdramáticosdavidasãonecessariamentepúblicoscomo partesindependenteseelevadasdoprocessovital.Eessaseparaçãonãopodeser concebidacom pedantismoe,sobretudo,nãopodejamaisconduziraumaclassificaçãodosfatosdavidaempúblicos enãopúblicos,emdramáticoseépicos.Quasetodofatodavidapode,emdeterminadascondições, alcançarumagrandezademanifestaçãopelaqualeleadquireumcaráterpúblico;eletemumlado quedizrespeitodiretamenteàesferapúblicaecujarepresentaçãoexigetalesfera.Vemosaqui,de modomuitoclaro,apassagemdaquantidadeparaaqualidade.Oconflitodramáticonãosediferencia dosdemaisacontecimentosdavidaporseuconteúdosocial,masapenaspelomodoepelograude intensificação das contradições; é óbvio que o que interessa é a intensificação que produz uma qualidadenovaepeculiar.

Essaunidadedeunidadeediferençaéindispensávelparaoefeitoimediatododrama.Oconflito dramático deve ser diretamente experienciável pelo espectador, sem qualquer esclarecimento especial,sobpenadenãosurtirefeito.Devepossuir,portanto,umagrandequantidadedeconteúdo comumcomosconflitosnormaisdavidacotidianae,aomesmotempo,representarumaqualidade novaepeculiar,paraentão,combasenessesfundamentoscomunsdavida,poderexerceroamploe profundoefeitododramaautênticosobreamassapublicamentereunida.Osexemplosdedramas

burguesesdeimportânciahistórico-mundialquejácitamos,comoOalcaidedeZalamea,Intrigae amoretc.,mostramclaramenteessedesdobramento.Mostramqueéjustamenteessaintensificação quedeslocaparaoforopúblicoocasoqueemsiécotidiano.Masesseéumprocessoqueocorre comgrandefrequêncianaprópriavida.Odrama,comoficçãodaesferapública,pressupõe,portanto, uma temática e uma elaboração tais que correspondam, em todos os aspectos, a esse grau de generalizaçãoeintensificação.

Apublicidadedodramatemumcaráterduplo.Púchkinafirmavaissocomtodanitidez.Diz,em

primeirolugar,sobreoconteúdododrama:"Queelementosedesdobranatragédia?Qualéseu

escopo?Ohomemeopovo.Odestinodohomem,odestinodopovo".E,emestreitaconexãocom

essadefinição,falasobreosurgimentoeoefeitopúblicosdodrama.

Odramanasceuempraçapública,comodivertimentopopular.Opovo,talcomoascrianças, exigeentretenimento,ação.Odramalhepareceumeventoextraordinárioeverdadeiro.Opovo exigesensaçõesfortes-porisso,asexecuçõessãoumespetáculoparaele.Atragédiamostrava sobretudocrimesterríveis,sofrimentosexcepcionais,mesmofísicos(porexemplo,Filoctetes*, Edipo,Lear),masocostumeembotaassensações,aforçaimaginativaacostuma-seàstorturase àsexecuçõesepassaaobservá-lascomindiferença;aocontrário,arepresentaçãodaspaixõese das efusões da alma humana é sempre nova para o povo, sempre interessante, grandiosa e instrutiva.Odramaveiogovernaraspaixõeseaalmahumana.

Estabelecendo o nexo entreessesdoisaspectosdo caráter público do drama,Púchkincaptaa essênciadesteúltimodemodoprofundoeabrangente.Odramatratadedestinoshumanos,enãohá outrogêneroliterárioqueseconcentretãoexclusivamentenodestinodoshomense,emparticular, nosqueresultamdasrelaçõesconflituosasdeunscomosoutrose,acrescente-se,apenasdessas relações,àsquaisdátantaênfase.Precisamentepor isso,osdestinoshumanossãoconcebidosde modotãoparticular.Eledáexpressãoaosdestinosimediatamenteuniversais,aosdestinosdepovos inteiros,declassesinteiraseatédeépocasinteiras.Essenexoinseparávelentreefeitoimediatonas massasealtageneralizaçãodosentidodoconteúdoparaoshomensfoiformuladoporGoethecom muitaprecisão:"Tomadocorretamente,sóéteatralaquiloqueé,aomesmotempo,simbólicoparaos olhos:umenredoimportantequeremeteaoutroaindamaisimportante".

Vimosquãoestreitaéaligaçãoentreaquestãodocaráter públiconecessáriodoconteúdodo dramaeaquestãodaforma.Aessênciadoefeitodramáticoéoefeitoinstantâneo,imediatosobre uma multidão. (Esse pressuposto social da forma dramática é destruído e degenerado pelo desenvolvimentocapitalista.Daísurge,porumlado,umdramamaisoumenos"puramenteliterário", aquefaltamessascaracterísticasnecessáriasdaformadramáticaouemqueestãopresentesdemodo muito débil;por outro,tem-seumapseudoarteteatralvaziaesemconteúdo que,comhabilidade formalista, explora os momentos de tensão originários do princípio dra mático para o entretenimento sem consistência da classe dominante.Com isso, retorna-se em certo sentido ao

períodoinicialdoteatro,citadoporPúchkin.Masoqueanteseraumacruezaprimitiva,daqualcom

otempodesenvolveram-seumCalderónouumShakespeare,torna-seagoraumabrutalidadevaziae

refinadaquevisaàdiversãodeumpúblicodecadente.)Arelaçãorealeimediatadaformadramática

comoefeitoinstantâneonasmassastemconsequênciasmuitoprofundasparatodaasuaestrutura,

paraaorganizaçãodetodooconteúdodramático,emagudaoposiçãoàsexigênciasformaisdetoda

grandeépica,àqualfaltaessevínculoimediatocomamassa,essanecessidadedoefeitoinstantâneo

sobreela.

Em conclusão à sua longa discussão - em conversas pessoais e por correspondência - com Schillersobreascaracterísticascomunsedistintivasdasformasépicaedramática,Goetheresume suasposiçõesemumopúsculocurtoebasilar.Eleparteaquideumconceitobastantegeraldoépicoe dodramático.Porisso,nãoconsiderateoricamenteanaturezapeculiardaépicamoderna:aperdado caráterpúblicodaexposição.MasmesmonadescriçãogeneralizadaqueGoethefazdadeclamação dapoesiaépicapelosrapsodosaparececlaramenteumadiferençamuitoimportanteentreosdois gêneros.DizGoethe:"Suadiferençaessencialrepousa( )nofatodequeopoetaépicoexpõeo acontecimento como plenamente passado enquanto o dramaturgo o representa como plenamente presente".

Éclaroqueessesdoistiposderelaçãocomomaterialfiguradoestãoestreitamentevinculadosao

caráterpúblicodaexposição.Apresencialidadejáimplica,emsieparasi,umarelaçãoimediatacom

omododeapreensão.Paratestemunharumacontecimentorepresentadoeapreendidocomoalgodo

tempopresenteéprecisoqueseestejapessoalmentepresentenele.Jáatomadadeconhecimentode

umacontecimentoplenamentepassadonãoédemodoalgumvinculadaàimediatidadecorporalda

participaçãoe,comisso,aseucaráterpúblico.Vemos,portanto,que,aindaqueGoethe,partindoda

tradiçãoclássica,dêàrecitaçãoépicaumcaráterpúblico,destaca-seclaramenteemsuasobservações

anaturezacontingentedessecaráter,istoé,ofatodeelanãoserirrevogavelmenteligadaàforma

épica.

Dessaconfrontaçãoresultamdistinçõesposterioresimportantesentreformaépicaedramática. Ressaltamosaquiapenasalgumasdelas.Anecessidadedoefeitoimediatododrama,anecessidadede quecadafasedoenredo,dodesdobramentodaspersonagenssejacompreendidaevivenciadainstan tâneaesimultaneamentecomoacontecimento,queodramanãodeixeaoespectadornenhumtempo paraareflexão,paraorepousoearecapitulaçãodoseventospassadosetc.,tudoissocriamaior rigidez da forma tanto para o criador quanto para o receptor.Schiller resume claramente essa diferença,emsuarespostaaoopúsculodeGoethe:"Aaçãodramáticamove-sediantedemim,ao passoque,naépica,soueumesmoquememovoemtornodela,eestapareceemrepouso".E,em seguida,ressaltaamaiorliberdadedoleitordaépicaemcomparaçãocomoespectadordodrama.

Écomessadiferençaqueserelacionaaamplitudedeterminadaelimitadadodrama,emoposição

àextensãoeàvariabilidadequaseilimitadasdaépica.Comoodramatemdedespertar,dentrodesses

limites, uma impressão de totalidade, segue-se daí que todos os traços que sobressaem nas personagensenatramatêmdesernãoapenascompreensíveis,claroseefetivosdeimediato,como têm,aomesmotempo,deseraltamentesignificativos.Odramanãopodetratardemodoseparado, comdeterminadadivisãoartísticadotrabalho,elementosque,naépica,sãomaterialmenteligados unsaosoutros.Epermitidoaoromancistaintroduzir cenas,relatosetc.quenão fazemo enredo avançar,mas,por exemplo,relatamumfatopassadoe,comisso,tornamcompreensívelumfato presenteoufuturo.Nodramalegítimo,atramatemdeavançaracadaréplica.Eorelatodopassado deveterafunçãodefazeroenredoavançar.Porisso,cadaréplicadeumdramalegítimoconcentra nelatodaumasériedefunções.

Medianteessemododefiguraçãodramática,ohomeméempurradoparaocentrocommuito maisenergiaquenaépicae,antesdetudo,como essênciamoralesocial.Odramafiguraseus homenseaçõesexclusivamentepormeiododiálogo;sóoqueéfiguradocomvivacidadenodiálogo entraartisticamenteemconsideraçãoparaodrama.Napoesiaépica,aocontrário,aessênciafísica doshomens,anaturezaqueoscircunda,ascoisasqueformamseuambienteetc.desempenhamum papelextraordinário;ohomeméfiguradonainteraçãodetodoesseconjunto,seustraçosmoraise sociaissãoapenasumapartedessetodoe,comcerteza,nãoamaisimportante.Porisso,nodrama, reinaumaatmosferamuitomaisespiritualquenaépica.Issonãosignificaquehajaumaestilização idealistadoshomensedesuasrelações,masapenasqueostraçosdospróprioshomensquenão sejamdiretamentemoraisesociaissópodemaparecercomopressupostosemotivosparaconflitos moraisesociais,equeomundodeobjetosqueformaoambientedoshomenspodefigurarsomente comosóbriaalusão,panodefundoouinstrumentomediador.(Odesconhecimentodasleisinternas dodramalevou,nosúltimostempos,aumadireçãoteatralrebuscada,confusaevazia,queconsiste emsucedâneosépicosparacompensaradramáticadefeituosa.)

Todosessesmomentosdaconcentraçãodramáticasemostramcommaisnitideznofatodequeo tempo dos acontecimentos dramáticos figurados de modo real deve coincidir com o tempo da figuração,enquanto,naépica,umgrandehiatotemporalpodeserresolvidocomalgumaspalavrase, àsvezes,nocasodorelatodeumeventobastantecurto,opoetaépicopodelançarmãodeumtempo defiguraçãomuitosuperioràduraçãodesseevento.Acreditoqueéaquiqueafamosaexigênciade "unidadedetempo"temsuasorigens.Defato,asjustificaçõesdessaexigênciaeramcomfrequência falsaseartificiais,masmuitosdeseusoponentespassaramaolargodoproblemapropriamentedito. Manzoni, que combateu as "unidades" da tragédie classique em nome da criação de um drama verdadeiramente histórico, também reivindicou, com toda razão, o direito de o dramaturgo intercalar,entrecenasfiguradasdemodoreal,umacenaintermediáriaqualquer.

TodasessasdiferençasentredramaeépicaaparecemcondensadasnaexplicaçãodeGoethe,citada anteriormente,sobreo caráter simbólico daspersonagensdramáticas,aunidadedaimediatidade sensíveledaimportânciadecadamomentodefiguraçãonodrama.Aunidadedessesdoismomentos

tambémestápresentenaépica,éclaro,masaliémuitomaisfrouxa.Nodrama,essaunidadedeveser

constantementeefetivadaeapresentar,acadafase,umresultadoinstantâneo,aopassoque,naépica,é

suficientequeessaunidadeseimponhacomotendência,aospoucos,nodecorrerdoenredo.Também

aquipodemospercebernitidamenteasconsequênciasformaisdocaráterpúblicododrama.

Há,contudo,doismal-entendidosquedevemser evitados.Estabelecemosumarelaçãoentreo

problemado caráter público eo problemado efeito imediato einstantâneo do drama.Masessa imediatidade não é a marca essencial de toda arte? É evidente que sim. Belinski pôs muito corretamentenocentrodesuateoriadaarteanecessidadedafiguraçãoedoefeitoimediatos.Masa imediatidadedocaráterpúblicododrama,queressaltamosaqui,éalgoparticular,algocaracterístico apenasdodramanointeriordaimediatidadeuniversaldetodaaliteratura.Essestraçosespeciaisdo caráterpúblicododramasemanifestamdemodocadavezmaisagudoeacentuadonodecorrerdo desenvolvimentohistórico,àmedidaque,comodesenvolvimentodadivisãosocialdotrabalhoeda

complexificaçãodasrelaçõessociaisnassociedadesdeclasses,asesferaspúblicaeprivadaseparam-

se na própria vida.Aliteratura, como espelhamento da vida, não pode deixar de retratar esse

processo.Masissoocorrenãoapenasdopontodevistadoconteúdo,jáquealiteraturafiguraos problemas humanos que surgem desse desenvolvimento. As formas literárias, como formas generalizadasdoespelhamentodostraçospermanenteserecorrentesdavida-quesereforçamcom otempo-,nãopodempermanecerintocadasporesseprocesso.

Quantoaisso,dramaeépicatomamcaminhostotalmenteopostos.Aépica,comoespelhamentoda totalidadeextensivadavida,da"totalidadedosobjetos",deveadequar-seaesseprocesso.Oromance, como"epopeiaburguesa",surgeprecisamentecomoumprodutodacoerênciaartísticaapartirda qualtodasasconclusõessãotiradas,tambémemsentidoformal,dasmudançasdavida.(Ocaráter ambíguo dachamada"épicaliterária"deve-se,entreoutrasrazões,ao fato dequedeterminados elementos formais da antiga epopeia foram conservados em uma época em que a realidade correspondenteaelajánãoexistianaprópriavida,aofatodequeesseselementoseramaplicadosa ummaterialvitalcomoqualseconfrontavacomoalgoestranhoe,porisso,demodoformalista, poisesseselementospertenciamaespelhamentosespecíficosdeumperíododedesenvolvimentojá ultrapassado.)

Ocasododramaétotalmentediferente.Aformadramáticasubsisteousucumbecomseucaráter públicoimediatoeespecífico.Portanto,oueladesaparecedavidaoutentafiguraraseumodo-em condiçõesadversas,lutandocontraummaterialdesfavorávele,decertamaneira,nadandocontraa corrente-oselementospúblicosqueaindaexistemnavidasocial.Taisproblemassurgiramcom particular intensidade na passagem do século XVIIIpara o XIX e em estreita conexão com os esforçosparacriarumgrandedramahistórico.Osdramaturgosmaissignificativosdesseperíodo experimentaramfortementeosdoisladosdodilemadiantedoqualseencontravam:tantoocaráter desfavoráveldavidacontemporânea-que,comosentimentodavida,tambémafetaafiguraçãodo

materialhistórico-quantoanecessidadedaformadramática.

Asdiscussõesemtornodeumprincípioqueàprimeiravistaépuramenteformal-apossibilidade deutilizarocoroantigonodramamoderno-mostram,talvezdemodomuitoplástico,osmotivos sociaisquesetornaramdecisivosparaessaforma.EmseuprefácioàtragédiaAnoivadeMessina*, Schillerfalasobreesseproblemacomgrandeclareza.Sobreousodocoronatragédiaantiga,ele diz:"Elaoencontrounanaturezaeprecisoudeleporqueoencontrou.Asaçõeseosdestinosdos heróisedosreisjásãopúblicosporsimesmos,emaisaindaemtemposprimevos".Asituação,para Schiller,étotalmentedistintanocasodopoetamoderno.Avidanasociedadeatualtornou-seabstrata eprivada."Opoetadeveabrirdenovoasportasdospalácios,levarostribunaisparaoar livre, recuperarosdeuseserestabelecertodaaimediatidadequefoisuprimidapelainstituiçãoartificialda vidareal( )."Schillerintroduzocoronessatragédiaprecisamentecomessefim.

NãosetrataaquiderepetirofatonotóriodequeautilizaçãodocoroporSchillerresultouem umaexperiênciaformalartificial,emseudramamaisfraco.Oquenosinteressaéoproblemageral. E Schiller sentiu muito corretamente que, se a presença do coro na tragédia grega surgiu naturalmentedascondiçõessócio-históricasdavidagrega,noverdadeirodrama-eessaéaprincipal questãoparaodramaturgomoderno-,todososacontecimentostêmdeserfiguradosdetalmodoe todasasexteriorizaçõesvitaistêmdeserelevadasatalalturaquepossamsuportarapresençado coro.

DesdequeaquartaparededopalcosetornouotetoinvisíveldeLediableboiteux[Odiabocoxo], deLesage,odramadeixoudeserrealmentedramático.Oespectadordodramanãopresenciapor acasoumacontecimentofortuitoqualquerdavidaprivada,nãoespreitaavidadeseuscongêneres porumburacodefechaduragigante;aocontrário,oquelheéoferecidodeveserumacontecimento públicoquantoaseuconteúdomaisíntimo,suaformaessencial.Oárduotrabalhodosdramaturgos modernosconsistejustamenteem encontrar tal material navidaesubmetê-lo aumaelaboração dramáticaqueostornecapazesdecomportar um caráter público do começo ao fim.E,aqui,o dramaturgomodernotemdelutartantocontraamatériadavidanasociedademodernaquantocontra seu sentimento diante da vida, que brota dessa sociedade.Em relação a esse sentimento, o que Grillparzerdissesobreocoroémuitocaracterístico:

Desvantagensmanifestasdo coro.Suapresençaconstanteé,namaioriadasvezes,nocivaaos segredos.Ocorodavaumcaráterpúblicoaosdramasdosantigos.Sim!Talvezaindapiorque isso.Deminhaparte,não gostariadeumainstituição queme forçasse a abandonar todas as sensaçõesesituaçõesquenãosuportassemumcaráterpúblico.

Grillparzer expressa aqui, muito antes do surgimento do chamado Kammerspiel*, as bases emocionaisdessaformadramática.Fazissocomafranquezaeahonestidadeprópriasdeumgrande escritor.Masnãonota-comonotammenosaindasucessoresmenores-queapredominânciadesse

sentimento diante da vida transforma o drama em um produto artificial, em um objeto de experiênciasformalistasinfrutíferasequefoijustamenteessedesenvolvimentoquerompeuocontato vivoentreodramaeopovo.

Aqui,oquenosimportanãoéoproblemadocoropropriamentedito,masoproblemaquese escondepor trásdessaquestão.AsexperiênciascomocorosãoproblemáticastantoemSchiller quantoemManzoni,masesseproblemaencobreadificuldadequeéfigurarocaráterpúblicodavida no drama moderno. Os grandes dramaturgos da época moderna, de Shakespeare a Púchkin, procuraramsolucionaresseproblemaintroduzindocenaspopulares,enãohádúvidadequeessaé umasoluçãonaturalesaudável,emborahajaumadistinçãofundamentalentreocoroantigoeacena popularmoderna.Eimpossívelanalisaraquiesseproblemaemtodaasuadimensão.Limitamo-nosa indicarumaspectoessencial:enquantoocoroantigoestásemprepresente,ascenaspopularessão momentossingularesdodrama.Ascenasmaisimportantesentreosprotagonistasocorrememgeral naausênciadessastestemunhas.Masissonãosignificaquetaiscenasnãotêmrelaçãocomopovo presentenodrama.EmShakespearejáhavia,comgrandefrequência,umaintensarelaçãodessetipo. Bastapensarmosnaintensidadecomqueoshumoresdo povo são representadosnascenasentre BrutusePórcia,ouentreBrutuseCássio.Anovacorrentedodramahistóricotornouessasrelações aindamaisíntimas.SchillerutilizaoquarteldeWallensteinapenascomoprólogodesuatragédia, mas, quanto à dramatização interna, esse anteato é mais que um simples prólogo.E, no drama posterior a Walter Scott, essas relações se reforçaram ainda mais.Tomemos mais uma vez um exemplo eloquente:aíntimainteração entreas cenas populares eas cenas da"vidaprivada"de DantonemAmortedeDanton,deBüchner.Decertomodo,essascenasconsistememumasériede réplicasemqueaperguntafeitaemumaérespondidaemoutra,eassimpordiante.

Chegamos então ao segundo conjunto de possíveis mal-entendidos sobre a imediatidade específicadodrama.Comosabemos,essaimediatidadeéadeseucaráterpúblico.Eparecenatural queosaspectosdavida(edahistória)modernaquesãonecessáriaeimediatamentepúblicosquantoa seumaterialsejamaquelesquefornecemoconteúdomaisadequadoaodrama,istoé,avidapolítica comotal.Noentanto,aadequaçãoimediatadavidapolíticaaodramaé,nessesentido,umprejuízo. Vimosqueaaceitaçãopacíficadatendênciaaprivatizarimportantesexteriorizaçõesindividuaise sociaisdohomemconduzàsupressãododramanoKammerspiel.Masessa"privatização"éapenas umaspectodeumprocessocujooutrolado-inseparáveldele-manifesta-senaabstraçãosempre crescente,naindependênciaenaautonomiaaparentementecadavezmaiordavidapolítica.Portanto, seopoetadramáticonãorompeessaseparaçãovisívelqueMarxapontaentrecitoyenebourgeois,se nãorevelaasbasessociaisdapolíticapor meiodeumafiguraçãodosdestinoshumanosvivos- destinos individuais que resumem os traços representativos desses contextos em sua essência individual-,entãoomaterialpolíticopermaneceinfrutíferoparaodrama.NoséculoXVII,surgea vãepatéticaHaupt-undStaatsaktion*e,noséculoXIX,ovazioedeclamatórioTendenzdrama**etc.

Sobreessetema,Schiller tambémsemanifestoudemodo instrutivo.Naépocadacriação de Wallenstein***,eleescreveaKõrner:

O material é(

Staatsaktionquetrazemsi,emrelaçãoaousopoético,todososmaushábitosquesóumaação políticapodeter,umobjetoinvisíveleabstrato,meiospequenosenumerosos,açõesdispersas, umandamentoterrível,umaadequaçãoaofimdemasiadofriaeárida,quenãolevataladequação àsuacompletudee,comisso,àsuagrandezapoética;nofim,oesboçofracassaunicamentepor inépcia.AbasesobreaqualWallensteinfundasuaaçãoéoexército,porconseguintealgoque, para mim,constitui um terreno infinito,que não tenho diante dos olhos e só posso trazer à imaginaçãocomumaarteinefável.Portanto,éimpossívelparamimmostraroobjetosobreo qualelesebaseia,emenosaindaosfatoresqueolevamàqueda;etaisobjetossãoomoraldo exército,acorte,oimperador.

fundo,uma

),em

grandemedida,inapropriado paratal finalidade(

).É,no

Essaanálisenospareceextremamenteinstrutiva.Mostrasobretudoqueomaterialpolíticoédado aopoetademodoimediato,emumaabundânciainfinitaefragmentadaquesósedeixafigurarcom osmeiosdaépica.Aqui,aestilizaçãodramáticaconsisteemextrairaquelesmomentosrarosemque o nexo interno do político com sua base social e as paixões humanas que a expressam podem aparecerdeformaimediataeconcentrada(lembremos,maisumavez,o"elodacadeia"),demodo que essa concentração não reduza a abundância das tendências sociais relutantes que o conflito políticodesperta.Nessesentido,uma"estilização"-portantoumcorteouumaatrofiada"totalidade dosmovimentos"-acabariapordeformaroconteúdodomaterialereduziroconflitodramático. Maséprecisoaquimaisqueumasimplesescolhademomentos:aprofusãoinfinitaedispersade momentosdeveseconcentrarnaquelesquerepresentamrealmentetodososmomentos,oconjunto dasforçasmotrizesdoconflitopolíticoehistórico.

São particularmenteinteressanteseinstrutivasasobservaçõesdeSchiller arespeito da"árida adequaçãoaosfins"edoscaminhosparaquesejapoeticamentesuperada.Eleassinalateoreticamente, ecomtodarazão,quesóindoatéofiméquesepodeconseguiressasuperação.Issosignificaque, nocasoextremoeconcentradodorepresentantedoconflito,sãoasbasessociaisehumanasdessa "áridaadequaçãoaosfins"quedevememergir,eéjustamenteofatodeiratéofimnessecaminho,de desvelarsuasdeterminaçõesespecíficas,quedeveabolirasqualidadespoeticamentedesfavoráveis do material.Apráxis de Schiller mostra a pouca utilidade dos "ingredientes humanos" para o domíniodessematerial.Elessemantêmcomoingredienteseacréscimos,ea"aridez"doscontextos políticospermanece,apesardetudo.Poroutrolado,sósetornavivonodramaaquiloquesedeixa transpor para o humano, para a imediatidade sensível. O conflito político que é corretamente apreendido em seu conteúdo, a oposição histórica que é sutilmente assimilada em seu sentido histórico-filosófico permanecemmortossemessatransposição imediata.E,do ponto devistada destruiçãodaformadramática,équaseindiferentequeessafaltadevitalidadedaproduçãoideadade contextospolítico-históricossejaexpressademodomísticooupropagandista.Tambémnessescasos,

odesenvolvimentomaisrecentedodramamove-seemumalinhaqueoscilaentrefalsosextremos.

Shakespearemostrou,domodomaispoderoso,comograndesconflitospodemser transpostos em termos humanos e, com isso, penetrados de vida dramática. Nesse sentido, é interessante mencionaraobjeçãodeHegelcontraMacbeth*.Eleachaqueafontehistórica**deShakespearecita umtítuloqueconferiaaMacbethodireitodeocuparotronodaEscóciaelamentaqueessemotivo nãotenhasidoaproveitado.Anossover,eleésupérfluoparaoproblemadadissoluçãodasociedade feudaledanecessáriadestruiçãoquejávinhaocorrendo.Emseuciclodedramasreais,Shakespeare deuinúmerosexemplosdomodototalmentearbitráriocomoessestítuloseramusadosnalutaentre

monarquia e feudalismo. Na representação concreta dessas lutas inglesas, ele conferiu a esses motivosopapelepisódicoquelhescorresponde.EmMacbeth,aocontrário,aquintessênciahumana dessaascensãoequedaprecisavaserfiguradademodoconcentrado.Shakespearemostraaqui,com

admirávelfidelidadeeconcisão,ostraçoshumanosquesurgemnecessariamentedessesolosócio-

histórico. Mas tem toda razão quando figura essa essência humana - social e historicamente condicionada-enão sobrecarregaseustraçoscommotivosmenores.Asugestão deHegelteria conduzidoaumdramadotipodeHebbel,enãodeShakespeare.

Nesseponto,porém,Hegel reconheceumaisclaramenteasnecessidadesdo dramano quese refereaoconteúdohistóricoeàformadramáticaqueamaioriadosteóricos.Eleadverterepetidas vezesdoperigodeacaracterizaçãodasformasdramáticascairemdoisextremos:porumlado,a imersãodapersonagemnoconteúdodasforçashistóricasabstratase,poroutro,namerapsicologia privada.Quandoexigeum"páthos"daspersonagensdramáticaseprocuradelimitá-lo,distinguindo-o dapaixão,Hegelseguenocaminhocorretoparacaracterizaraespecificidadedohomemativono drama.Eledenominapáthos"umapotênciadaalmalegitimadaemsimesma,umconteúdoessencial daracionalidade"ereporta-seao"sagradoamorfraterno"deAntígona,aofatodequeOrestesmata suamãenãoemummovimentotempestuosodoânimo,maso"páthosqueomoveàação"é"bem ponderadoeplenamentesensato".Éóbvioqueissonãosignificaqueosheróisdatragédiadevamser homenssempaixões.AntígonaeOrestestambémtêmsuaspaixões.Aqui,aênfasenopáthossignifica queo decisivo éacoincidênciaimediatado grandeconteúdo histórico,dasgrandeseconcretas tarefashistóricascomapersonalidade,apaixãoparticulardoheróidramático.Nessesentido,oherói deumdramahistóricodeveserum"indivíduohistórico-mundial".Maséprecisamenteessaformade seupáthos,ocaráterpeculiardessapaixão,nemabstratamentegeralnemindividualmentepatológica, quetornapossívelqueaconcentraçãodapersonalidadenopáthosencontreressonâncianasmassas;a universalidade,aracionalidadeeaimediatidadeconcretasdeseuconteúdofazemoheróisuscitarem cadahomemdamassa,imediataehumanamente,aspectossemelhantesdesseconteúdo.

IV.Afiguraçãodoconflitonaépicaenadramática

Nossacomparaçãoentreromanceedramamostraqueaformadefiguraçãodoromanceémais

próximadavida,oumelhor,domodonormaldemanifestaçãodavida,queadodrama.Mas,como vimos,ochamadodistanciamentodavidaqueocorrenodramanãoéuma"estilização"formalista, mas antes o espelhamento ficcional de determinado tipo de fato da vida. Do mesmo modo, a proximidadedaformaromanescacomavidanãosignificaqueelacopieaefetividadeempíricatal comoelaé;onaturalismonãoéoestiloinatodoromance.Omaispoderosodosromancestambém tem alcancelimitado.Mesmo queAcomédia humana fosse considerada um único romance,ela forneceriaapenas,emsuaextensão,umapequenaparteevanescentedaincomensurávelrealidade social de seu tempo. Um espelhamento artístico da infinitude da vida, medido em termos quantitativos,nãoestáemquestão.OtrabalhodeSísifodoescritornaturalistaécaracterizadonãosó pelofatodeatotalidadedomundoaserespelhadopelaartesempreseperder,afiguraçãoliterária resultarsempreemumrecorte,emumfragmentoincompletoemsi,mastambémpornemomaior acúmulo naturalista de detalhes ser capaz de reproduzir de maneira adequada a infinitude de qualidades e relações que um único objeto da realidade possui.E o romance não se propõe a reproduzirdeformaverossímilumsimplesrecortedavida,masquerantes-comsuacaracterização deumapartelimitadadarealidade,apesardetodaariquezadomundofigurado-despertarnoleitor aimpressãodatotalidadedoprocessosocialdedesenvolvimento.

Os problemas formais do romance surgem, portanto, do fato de que todo espelhamento da realidadeobjetivaénecessariamenterelativo.Oromanceépostodiantedatarefadedespertaruma impressãoimediataprecisamentedaextensaabundânciadavida,dacomplexidadeedatortuosidade deseuscaminhosdedesenvolvimento,daincomensurabilidadedeseusdetalhes.Comoapontamos váriasvezes,oproblemada"totalidadedosobjetos"comofinalidadedafiguraçãonagrandeépica temdesercompreendido,portanto,emsentidoamplo;istoé,essetodonãoselimitademodoalgum aabarcarosobjetosmortosnosquaisavidasocialdohomemseexpressa,mastodososcostumes, atos,hábitos,usosetc.nosquaissemanifestamaespecificidadeeosentidododesenvolvimentode determinadafasedasociedadehumana.Oobjetoprincipaldoromanceéasociedade:avidasocial doshomensemsuacontínuainteraçãocomanaturezaqueoscercaeconstituiabasedesuaatividade social,assimcomocomasdiferentesinstituiçõesoucostumesqueseinterpõemnasrelaçõesentreos indivíduosnavidasocial.Lembramosque,nodrama,todosessesmomentossópodemserfigurados emumaformamuitoabreviada,alusiva,apenasnamedidaemqueconstituemmotivosparaomodo deaçãosocialemoraldoshomens.Noromance,asproporçõessãobemdistintas.Omundoaparece nãoapenascomomotivo,mascomoumentrelaçamentomuitoconcretoecomplexo,comtodosos detalhesdocomportamentoedaaçãodoshomensnasociedade.

Maséclaroque,sedesseconjuntodevesurgir aimpressãodeumatotalidade,seumcírculo limitadodehomens,umgrupolimitadode"objetos"deveserfiguradodemodoqueprovoqueno leitor a impressão imediata da sociedade inteira em movimento, então é claro também que é necessáriaumaconcentraçãoartísticaequalquer simplescópiadarealidadedeveser abandonada radicaleresolutamente.Emconsequência,assimcomoodrama,oromancedevereservarumlugar

centralaoelementotípicodaspersonagens,dascircunstâncias,dascenasetc.emtodososmomentos de seu percurso. A única diferença é que o conteúdo e a forma desse elemento típico serão constituídosdemaneiradistinta.Aqui,arelaçãodoindividualmentepeculiar comotípicoémais complexa, solta e frouxa que no drama. Enquanto a personagem dramática atua instantânea e imediatamente como típica - preservada, é claro, sua individualidade -, o caráter típico de uma personagemdo romanceé,commuito frequência,apenasumatendênciaqueseafirmapouco a pouco,chegandoàsuperfícieapenasdemodogradualepartindodotodo,dacomplexainteraçãodos homens,dasrelaçõeshumanas,dasinstituições,dascoisasetc.Tantoquantoodrama,oromance deverepresentaralutadasdiferentesclasses,camadas,partidoseorientações.Massuarepresentação é muito menos concentrada e econômica.Na figuração dramática, ao contrário, tudo deve ser concentrado narepresentação dospossíveisposicionamentosessenciais,emumconflito central. Assim,dramaticamenteesegundosuaessência,umatendênciaessencialdoagirhumanosópodeter umrepresentante;qualquerduplicaçãoseria,comovimos,umatautologiaartística.(Éclaroqueisso nãodeveserentendidodemodoesquemático.QuandoGoethe,aoanalisarHamlet,apontaagrande sutilezacomqueShakespearecaracterizouocortesãoservilesemcaráternaduplaRosenkrantze Guildenstern,issonãocontradizaleigeraldaestilizaçãodramática.Elesaparecemsemprejuntose formam,dopontodevistadaestruturadaaçãodramática,umaúnicapersonagem.)

Noromance,aocontrário,deveserfiguradanãoaessênciaconcentradadeumatendência,maso modocomoestanasce,morreetc.Ocarátertípicodapersonagemdoromance,omodocomoela representa tendências sociais é, por esse motivo, muito mais complexo. No romance, trata-se precisamente de figurar os diferentes aspectos nos quais uma tendência social se manifesta, as diversasformasnasquaiselaseafirmaetc.Assim,oquenodramaseriaumatautologiaéaqui,ao contrário,umaformaindispensávelparaalapidaçãodoqueérealmentetípico.

Essapeculiaridadedoromancetemcomoconsequênciaofatodearelaçãodoindivíduofigurado comogruposocialaqueelepertence-eéporelerepresentadonaficção-sermuitomaiscomplexa quenodrama.Masessacomplexificaçãodarelaçãoentreindivíduoeclassenãoéumprodutodo desenvolvimento da literatura; ao contrário, todo o desenvolvimento das formas literárias, em especialdaformaromanesca,nãoémaisqueumespelhamentodoprópriodesenvolvimentosocial. Marxexpressouessamudançadarelaçãoentreindivíduoeclassenocapitalismodemodomuito preciso.Dizele:

)nodecorrerdodesenvolvimentohistórico,ejustamentedevidoàinevitávelautonomização

das relações sociais no interior da divisão do trabalho, surge uma divisão na vida de cada indivíduo,namedidaemqueháumadiferençaentreasuavidapessoaleasuavidaenquanto

subsumida a um ramo qualquer do trabalho e às condições a ele correspondentes. ( No

(

)

estamento (e mais ainda na tribo) esse fato permanece escondido; por exemplo, um nobre continuasempreumnobreeumroturier*continuaumroturier,abstraçãofeitadesuasdemais relações; é uma qualidade inseparável de sua individualidade.Adiferença entre o indivíduo

pessoaleoindivíduodeclasse,acontingênciadascondiçõesdevidaparaoindivíduoaparecem apenas juntamente com a classe que é, ela mesma, um produto da burguesia. Somente a concorrênciaealutadosindivíduosentresiéqueengendramedesenvolvemessacontingência enquantotal.Porconseguinte,narepresentação,osindivíduossãomaislivressobadominaçãoda burguesiadoqueantes,porquesuascondiçõesdevidalhessãocontingentes;narealidadeeles são,naturalmente,menoslivres,porqueestãomaissubmetidosaopoderdascoisas.*

Issosemostrademodomaisnítidonasfigurasdetransição.Enquantooconflitodramáticodivide os homens ativos em dois campos de luta contrários, no romance não só é permitida, como plenamentenecessária,umaneutralidade,umaindiferençaetc.daspersonagensquantoàsquestões centrais.

Éevidentequetaldesenvolvimentodarelaçãoentreindivíduoesociedadeémuitodesfavorável paraomododefiguraçãododrama.Poroutrolado,éjustamenteessedesenvolvimentoqueformao elemento vital do romance. Não foi por acaso que as peculiaridades do romance surgiram artisticamenteapenasnocursododesenvolvimentosocialdasrelaçõesentreindivíduoeclasse.O anistoricismo absolutamente grosseiro da sociologia vulgar contribuiu para que esses contextos fossem desconsideradoseo "romance"grego,persaetc.fossesubsumido no mesmo gênero da formamodernada"epopeiaburguesa".

Masessenexoíntimoentreaformaromanescaeaestruturaespecíficadasociedadecapitalista nãosignificademodoalgumqueoromancepossaespelharessarealidadesemnenhumproblema,tal como é imediata e empiricamente.Sucumbiram a tais preconceitos não só os naturalistas, mas tambémosdefensoresclassicistasdasformasantigas,tradicionais.Estes,tantoquantoaqueles,não entenderamosproblemasartísticosquesurgiramdessenovoestadodecoisas,apenasemitiramum juízo devalor contrário.Assim,Paul Ernst,por exemplo,o líder teórico do neoclassicismo na Alemanha,chamaoromancedeuma"meiaarte".

Nossasconsideraçõesanterioresjámostraramquetalconcepçãodoromanceedesuarelação com a realidade que ele espelha é, no fundo, falsa. Assim como na análise do chamado distanciamento do drama em relação à vida mostramos que esse distanciamento é uma forma específicadoespelhamentoartísticodefatosdavidamuitoconcretos,temosagorademostraralguns fatosgeraisdavidaqueconstituemabasedaformaromanesca.Éevidentequenossaexposiçãotem aqui uma finalidade oposta.Lá,tivemos de provar que o espelhamento da vida está na base da estilizaçãoaparente;aqui,temosdemostrarqueessaproximidadeaparenteentreoromanceeavida requerdemodotãocabalquantoodramaaelaboraçãoartísticadomaterialvitalquelheservede base,aindaquecomoutrosmeioseoutrasfinalidades.

Comecemos com o ponto em que a oposição entre o romance e o drama é mais visível:o problemadoconflito.Noromance,nãosetrataderepresentarasoluçãoviolentadeumconflitoem

sua forma extrema e mais aguda. Aqui, a tarefa consiste antes em figurar a complexidade, a diversidade,asinuosidade,a"astúcia"(Lenin)daquelescaminhosquegeram,resolvemouamenizam taisconflitosnavidasocial.Comisso,deparamoscomumfatomuitoimportantedavida.

Seoconflito trágicoéumadasformasnecessáriasdemanifestaçãodaprópriavidasocial,é apenas em condições e circunstâncias muito determinadas. É outro fato da vida social que os conflitosseamenizem,nãodeememnada,nãoconduzamanenhumasoluçãoinequívocanavida pessoaldosindivíduosounasociedadeemgeral.Eissoemdoissentidos:emprimeirolugar,há determinadasfasesdedesenvolvimentodocrescimentodasociedadeemqueoabrandamento das contradiçõeséumaformatípicadeatuaçãodasoposiçõessociais;emsegundolugar,étambémum fatodavidasocialque,mesmoemperíodosdegrandeagudizaçãodasoposiçõesnavidasocialdos indivíduos,nemtodososconflitosseacirremaoextremo,emníveistrágicos.Comooromancese estendeàrepresentação datotalidadedavidasocial,o conflito levado acabo é,no conjunto da figuraçãodoromance,apenasumcaso-limite,umcasoentremuitosoutros.Emcertascircunstâncias, esseconflitonãoprecisaaparecer nafiguração;mas,seaparece,éapenasumnointerior deum sistema de muitos elos. Nesse caso, são retratadas aquelas circunstâncias especiais que, em determinadosembates,provocamoconflitotrágico;porém,taiscircunstânciassemostramaolado deoutras,quesãoigualmenteefetivasenãonecessitamdesdobrar-seemumapurezaimperturbada.

Portanto, se se acrescentar no drama uma ação paralela como tragédia, esta servirá para complementaresublinharalinhaprincipaldoconflito.Pensemosnaaçãoparalelaquemencionamos entreosdestinosdeLeareGloster,emShakespeare.Noromance,asituaçãoéoutra.Tolstói,por exemplo,adicionadiferentesaçõesparalelasaodestinotrágicodesuaAnnaKariênina.OsparesKitty eLiévineDáriaeOblónski,quefazemcontrasteaoparAnnaeVrónski,sãoapenascomplementos centrais;aoladodeles,háumgrandenúmerodeaçõesparalelasepisódicas,aindamaisfortes.Essas ações,queiluminamumasàsoutras,completam-se,porémemsentidototalmentecontrário.EmLear, odestinodeGlosteracentuaanecessidadetrágicadodestinodoheróiprincipal.EmAnnaKariênina, asaçõesparalelassublinhamjustamenteofatodequeodestinodaheroínaédecertoumdestino típicoenecessário,maséumcasoabsolutamenteindividual.Semdúvida,elerevelacomamáxima forçaascontradiçõesinternasdocasamentoburguês,mastambémmostra,emprimeirolugar,que essascontradiçõesnão surgemdemodo necessário,sempreeemtodapartenamesmadireção, podendoreceber,portanto,conteúdosouformasradicalmentedistintos,e,emsegundolugar,que conflitossemelhantessópodemserconduzidosaodestinotrágicodeAnnaemcondiçõessociaise individuaismuitodeterminadas.

Vemosaquiquearelaçãoentreparalelosecontrastesquesecompletamémuitomaisestreitano drama que no romance.Neste, basta um parentesco distante com o problema social e humano fundamental para haver uma ação paralela complementar. No drama, essa igualdade geral do problemanãobasta;éprecisoque,emambososcasos,oconteúdo,osentidoeaformadoproblema

tenhamumarelaçãovisível.

Essadiferençaaparecetalvezaindamaisclaramentequando consideramosacomposição das personagensquefazem contrasteumasàsoutrasno dramaeno romance.Pensemosem grupos contrastantescomoHamlet,LaerteeFortinbras,emShakespeare,ouEgmont,OranieneAlba,em Goethe,ecomparemosomodocomoessaspersonagensserelacionameseiluminammutuamente comomodocomo,porexemplo,aspersonagensdeOpaiGoriot*,deBalzac,completamumasàs outras. O próprio Balzac ressalta, em um de seus escritos teóricos, que Goriot e Vautrin são personagensparalelasquesecompletam;eopróprioromanceressaltaainfluênciacomplementar, "pedagógica",daviscondessadeBeauséantedeVautrinsobreRastignac;alémdomais,Rastignac, DuMarsayeDeTraillesformam,porsuavez,umasériedeparalelosecontrastesquesecompletano grupodeUautrin,Nucingen,Taillefferetc.Oqueimportanessacontraposiçãoéqueaspersonagens nãorecebemessasfunçõesnecessariamentedotraçoprincipaldeseucaráteroudoessencialdeseu destino,mastalvezdemomentosfortuitos,episódicosesecundáriosque,emdeterminadocontexto geral,sãoapropriadosparaproduziressescomplementosecontrastes.

Tudoissoestáligadoaocaráterparticulardoromance,comodestacamosnoinício:ofatodeo conflitoaparecernão"emsi",masemsuaconexãoobjetivaesocial,amplamentedesdobrada,como partedeumgrandedesenvolvimentosocial.Nessesentido,émuitoinstrutivaacomparaçãoentrea composiçãodeReiLeareadeOpaiGoriot,sobretudoporqueaobradeBalzacmanifestamente sofreu uma forte influência de Shakespeare.O destino à Lear do próprio Goriot é apenas um episódiodoromance,emboramuitoimportante.AafirmaçãodeOttoLudwigquecitamosemoutro contexto,segundoaqualEdgarseriaoheróiprincipalseReiLearfossetransformadoemromance, realiza-seaquicomalgumasmodificações.NodestinodeRastignac,tambémexisteoproblemada relaçãoentrepaisefilhos,eanaturalidadeingênuaeegoístacomqueeleexplorasuafamíliatem certasemelhança,aindaqueatenuada,comocomportamentodasfilhasdeGoriotemrelaçãoaseu pai.Adiferençamais importantena composição, porém, é que aqui a relação com a família é plenamentedeslocadaparaopanodefundo.BalzacapenasinsinuaesseaspectoemRastignac;para ele,oqueimportaéodesenvolvimentodopróprioRastignaceminteraçãocomasmaisdiferentes pessoaserelaçõeshumanas.Eéinteressanteobservar queéprecisamenteamaior amplitudedo romance,odesenvolvimentogradualeamplamentedesdobradodaspersonagensqueproduz,como finalidade principal (em oposição à explosão dramática das propriedades já existentes nas personagens),umaconcentraçãomaioreumaênfaseinovadoradotípico,algoquenecessariamente deviaestarmuitodistantedeShakespeare.

AobservaçãodeLudwigsobreEdgarcomoheróideumromancedeLearéextremamentesutil, masapráxisgenialdeBalzaclhedeumaisprofundidadeeamplidão.PoisRastignacénãoapenas umaespéciedeEdgar,masumaversãoinferior,umaversãoque,sobainfluênciadascircunstâncias, desenvolve-se como um Edgar mais fraco e acomodado, menos inescrupuloso e extremo. Ou

melhor,eleéassimseconsiderarmosemsioromancequesedesenvolvenessadireção.Portanto,

assimcomoodrama,oromanceconheceaunidadeeaoposiçãodosextremose,porvezes,acentua-

osdemaneirassemelhantes.Mastambémconheceformastotalmentedistintasdemanifestaçãoda unidadeedaoposiçãodosextremos:casosemque,desuainteração,surgeumdesenvolvimento novo einesperado,um novo rumo.O traço maissignificativo dosromancesrealmentegrandes consisteprecisamentenafiguraçãodessasorientações.Oqueéfiguradonãoédeterminadoestadode

coisasdasociedade,oupelomenosumestadodecoisasaparente.0maisimportanteémostrarcomo

adireçãodeumatendênciadodesenvolvimentosocialsetornavisívelemmovimentospequenos,

poucoostensivosou,poderíamosdizer,capilaresdavidaindividual.

Aqui,umfatodecisivodavida,subjacenteàformaromanesca,éabsolutamenteclaro.Odrama

figurouasgrandesconvulsões,osdesmoronamentostrágicosdeummundo.Aofimdecadagrande

tragédiadeShakespeare,ummundointeirodesabaeassistimosaodespontardeumtemponovo.Os

grandesromancesdaliteraturamundial,emespecialosdoséculoXIX,figurammenosaderrocada

deumasociedadecomoápicedeseuprocessodedissoluçãoqueumpassorumoaessadissolução.

Nomaisdramáticodosromances,tambémnãoénecessárioqueapareçaaderrocadasocialcomotal,

mesmoquedeformadiscreta.Osobjetivosdafiguraçãosãoplenamentealcançadosquandoocurso

irresistíveldodesenvolvimentosocialehistóricoérepresentadodemodoconvincente.Oescopo

essencialdoromanceéarepresentaçãodadireçãoemqueasociedadesemove.

Paradeterminadasclasseseemdeterminadascircunstâncias,essemovimentopodeserascendente, naturalmente. Mas também nesse caso o autor épico coerente mostrará apenas a direção do movimento,nãosendodemodoalgumnecessáriofiguraravitóriafinaldomovimento,muitomenos suavitóriadefinitiva.PensemosnoexemploclássicodeAmãe*ecomparemosairresistívelmarcha adiantedessaobra-prima,quefiguraavitóriafinal,comoclimadedesmoronamentogradualdo velhomundoburguêsnograndedramaYegorBulichov,ambosdeGórki.

Depois disso, penso que não precisamos discutir muito demoradamente para mostrar que a escolhaeoagrupamentodeumnúmerolimitadodehomensedestinoshumanos-aindaqueseu númerosejagrandeemcomparaçãocomaeconomiadodrama-sópodemapresentarcomclareza taisdireçõesdodesenvolvimentodeacordocom,eemconsequênciade,umaelaboraçãoficcional bastante enérgica.Éóbvio que essas direções do desenvolvimento estão dadas nos destinos dos homensefetivos,navida"emsi".Masoconflitodramáticotambémestápresentenosconflitosda vida"emsi".Aelaboraçãoficcionaldavida,aformaficcionaldoespelhamentodarealidadeconsiste namesmamedida,emambososcasos,aindaquecommeiosdiferentes,emfazerdesse"emsi"um "paranós".Isso estámaisoumenoscontido tanto no materialdo romancequanto no do drama. Tambémaquiasleisdoacontecimentosócio-históricotêmdeaparecerdeimediatonoshomensque atuamdiretamentecomoindivíduossingularesenosdestinoshumanos.Aunificaçãoficcionalde aparênciaeessência,amanifestaçãocompletadetodaaessêncianapuraaparênciaexige,nomínimo,

que se abdique da empiria crua e imediata, tanto se aparência e essência se apresentam muito próximasumadaoutranomaterialdadoquantoseestãovisivelmenteafastadas.Asdificuldadesque devemsersuperadaspelaartenoromancesãodiferentesdaquelasdodrama,masnãomenores.

Avariedadedosfatosdavidaqueessesdoisgênerosespelhamemsuasformasaparececommuita nitideznavariedadedacomposiçãodaação.Goetheexaminouessaquestãofundamentalmenteem seutratadosobreépicaedramática,jácitadopornós.Aoanalisarosdiferentesmotivosquemovem aação,encontra,entreeles,motivosquesão,porumlado,comunsàépicaeàdramáticae,poroutro, tantoumacaracterísticaparticularquantoumdessesgênerospropriamentedito.Taismotivossão, segundo Goethe:"1.Progressivos,queincentivam a ação e servem principalmente ao drama.2. Regressivos,queafastamaaçãodeseuescopoeservem,quasecomexclusividade,àpoesiaépica".

Paracompreender essaúltimaafirmação deGoethe,temosderessaltar em particular queele diferencia de modo muito preciso os motivos regressivos dos retardativos. Segundo Goethe, retardativossãomomentos"quedetêmocursoouprolongamocaminho;osdoisgênerosseservem deles,comgrandevantagem".Poderíamosdizerque,entreosmotivosretardativoseosregressivos, existe apenas uma diferença quantitativa; quando o motivo retardativo se torna dominante na conduçãodaação,eleéeoipsoummotivoregressivo.Talobjeçãonãoédetodoerrada,porémnão levaemcontaoelementoqualitativamentenovonessaascensãoaparentementeapenasquantitativado motivoretardativoamotivodominantedoconjuntodaação.Essaquestãopodeserencontradano dramademodorelativamentesimpleseesclarecedor:oheróiavançanadireçãodeseupropósitoe combatecomgrandeviolênciatodososobstáculosqueseerguemdiantedele;aaçãoéumchoque constantedemotivosprogressivoseretardativos.Nagrandeépica,noentanto,oesquemadaaçãoéo oposto:osmotivosqueafastamoheróideseuescoposãojustamenteosquetriunfam,enãoapenas nascircunstânciasexternas,poissetornamumaforçamotoranopróprioherói.Bastapensarmosnas grandesepopeiashoméricas.QuaismotivosmovemaaçãonaIlíada?Emprimeirolugar,airade Aquileseosacontecimentosqueseseguem,portantomotivosque,semexceção,afastamcadavez maisoobjetivoqueconstituiotemadaIlíada:atomadadeTroia.OquemoveaaçãonaOdisseia?A iradePoseidon,quetentaimpedirarealizaçãodofimépicodopoema:oretornodeOdisseu.

Eóbvioqueessaaçãoregressivanãosedásemluta.Nãoapenasopróprioheróicomotambém umgrupodepersonagenscoadjuvantesesforçam-separaatingir ofimépicoelutamsemcessar contraessemovimentoqueafastaaaçãodeseuobjetivofinal.Senãohouvesseluta,aépicainteira naufragariaemumadescriçãodoestadodecoisas.Masopredomíniodessetipodeconduçãodaação conjuga-sedomodomaisíntimocomoescopoficcionaldagrandeépica,comomodoparticular daquelesfatosdavidacujaexpressãopo