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Em 1960, em Buenos Aires, um comando israelense sequestrou e embarcou num avião de

carga, com destino a Tel-Aviv, Adolf Eichmann, um dos mais importantes funcionários (embora
de baixo escalão) encarregados da chamada solução final para o problema judeu no extinto III
Reich. Em poucas palavras, a Solução final ou solução final da questão judaica (do alemão
Endlösung der Judenfrage) refere-se ao plano nazista de remover a população judia de todos os
territórios ocupados pela Alemanha.

Eichmann foi condenado a morte. Na época, em 1962, Arendt ofereceu-se como repórter do
New Yorker para cobrir o evento. A série de artigos que escreveu sobre o caso foi publicada na
forma de livro com o título Eichmann em Jerusalém – Um Relato sobre a banalidade do mal
(1963).

O livro é caracterizado por uma lindíssima riqueza de detalhes e descrições; apôs lê-lo, sem
dúvida alguma, há um aumento incrível de seu conhecimento sobre o nazismo e detalhes pouco
conhecidos pelo público brasileiro, como, por exemplo, o nazismo na Hungria, na Romênia, na
Bélgica ou na Dinamarca. Hannah Arendt diz, no pós-escrito da obra que a maior lição que
podemos retirar do julgamento de Eichmann é a lição da “banalidade do mal”. Muitos

Hannah Arendt
interpretaram isso equivocadamente, acreditando que ela estaria defendendo o criminoso, o que
não é verdade. Veremos, então, o que ela quis dizer com a ideia de banalidade do mal e o que
isso tem a ver com o mundo de hoje.

Eichmann foi acusado de crimes contra o povo judeu, crimes contra a humanidade e crimes
de guerra. “Não sou o monstro que fazem de mim”, havia dito Eichmann. Arendt, após tê-lo visto
e ouvido na gaiola de vidro em que estava exposto na sala do tribunal, concluiu que “nem com a
maior boa vontade do mundo se pode extrair qualquer profundidade diabólica ou demoníaca em
Eichmann”. Ao contrário: ele era terrivelmente normal, nem sádico, nem pervertido, nem
monstruoso, mas assustadoramente normal. Vários psiquiatras atestaram que Eichmann era um
homem absolutamente normal, que sua atitude com a família era amável. Não havia nele
qualquer traço de ódio insano aos judeus ou algum fanático

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Em 1960, em Buenos Aires, um comando israelense sequestrou e embarcou num avião de
carga, com destino a Tel-Aviv, Adolf Eichmann, um dos mais importantes funcionários (embora
de baixo escalão) encarregados da chamada solução final para o problema judeu no extinto III
Reich. Em poucas palavras, a Solução
final ou solução final da questão judaica (do
alemão Endlösung der Judenfrage) refere-se ao
plano nazista de remover a população judia de
todos os territórios ocupados pela Alemanha.

Eichmann foi condenado a morte. Na época,


em 1962, Arendt ofereceu-se como repórter do
New Yorker para cobrir o evento. A série de
artigos que escreveu sobre o caso foi publicada
na forma de livro com o título Eichmann em
Jerusalém – Um Relato sobre a banalidade do
mal (1963).

O livro é caracterizado por uma lindíssima riqueza de detalhes e descrições; apôs lê-lo, sem
dúvida alguma, há um aumento incrível de seu conhecimento
sobre o nazismo e detalhes pouco conhecidos pelo público
brasileiro, como, por exemplo, o nazismo na Hungria, na
Romênia, na Bélgica ou na Dinamarca. Hannah Arendt diz, no
pós-escrito da obra que a maior lição que podemos retirar do
julgamento de Eichmann é a lição da “banalidade do mal”. Muitos
interpretaram isso equivocadamente, acreditando que ela estaria
defendendo o criminoso, o que não é verdade. Veremos, então,
o que ela quis dizer com a ideia de banalidade do mal e o que
isso tem a ver com o mundo de hoje.

Eichmann foi acusado de crimes contra o povo judeu, crimes


contra a humanidade e crimes de guerra. “Não sou o monstro que fazem de mim”, havia dito
Eichmann. Arendt, após tê-lo visto e ouvido na gaiola de vidro em que estava exposto na sala do
tribunal, concluiu que “nem com a maior boa vontade do mundo se pode extrair qualquer
profundidade diabólica ou demoníaca em Eichmann”. Ao contrário: ele era terrivelmente normal,
nem sádico, nem pervertido, nem monstruoso, mas assustadoramente normal. Vários psiquiatras
atestaram que Eichmann era um homem absolutamente normal, que sua atitude com a família
era amável. Não havia nele qualquer traço de ódio insano aos judeus ou algum fanático
antissemitismo e parece, inclusive, que teve uma amante judia. A pergunta que fica é: como um
homem absolutamente normal e banal, sem nenhum traço maligno, foi capaz de contribuir para
um dos maiores crimes da história da humanidade? Vamos abordar essa questão.

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Eichmann era um homem medíocre, normal, que sempre obedecia a qualquer comando, a
qualquer voz imperativa; na verdade, em vários momentos ele mostra que, se não há alguém
mandando nele, quando não havia nenhum comando, nenhum regulamento dizendo o que fazer,
ele sentia-se desorientado, desnorteado. Eichmann lembrava que sempre foi um homem, um
cidadão, um respeitador das leis e só ficava com a consciência pesada quando não fazia aquilo
que lhe ordenavam. Ele se orgulhava de nunca fazer muitas perguntas aos superiores e ter uma
“obediência cadavérica”. Ele falava dos campos de concentração em termos de “administração”
e dos campos de extermínio em termos de “economia”, e atos que contribuíram para o extermínio
eram colocados como atos de “rotina”. Fazia parte do nazismo, aliás, tratar o assassinato de
forma burocrática, usando palavras como “evacuação” para falar de extermínio, por exemplo.

Eram criados, dentro do nazismo, muitos


homens como Eichmann: assassinos em
massa que nunca mataram, uma criação
paradoxal do nazismo. O que deveria movê-los
era a consciência de estarem envolvidos em
“algo grandioso”. Enquanto, no mundo
civilizado, a consciência diz “não matarás”, a lei
de Hitler ditava à consciência de todos:
“matarás”. O Mal, que no mundo civilizado é
uma tentação (você é tentado a roubar, por
exemplo, mas não o faz), aqui é invertido – é o
Bem que se torna uma tentação. Geralmente, os sistemas legais prendem apenas aqueles que
tinham a intenção de matar, a intenção de fazer sofrer a outro; se essa intenção está ausente,
por insanidade mental, geralmente admite-se que não se merece prisão. Como isso fica no caso
Eichmann?

Eichmann era um homem incapaz de “pensamento”, isto é, de um diálogo consigo mesmo rumo
a independência, incapaz de se colocar do ponto de vista de outra pessoa; pelo contrário, ele
repetia as perguntas que lhe eram feitas com clichês, frases prontas, códigos de expressão e
condutas padronizadas. Certa vez ele disse: “minha língua é o oficialês”. As palavras de
Eichmann eram vazias; mas ele não dizia palavras vazias para encobrir outros pensamentos. De
fato, incapaz de pensar sozinho, ele sempre falava clichês e frases de efeito prontas. Quando foi
enforcado em Jerusalém, ele disse: “viva a Alemanha, viva a Argentina, viva a Áustria. Não as
esquecerei”. Essa frase, absolutamente patética, é um clichê, uma frase pronta; mesmo no fim
de sua vida, Eichmann foi incapaz de pensar sozinho. É a irreflexão, a banalidade de Eichmann
que permitiu a ele ficar tanto tempo contribuindo para os genocídios nazistas. Eichmann sempre
lembrava nunca maltratou ou matou pessoalmente um judeu, mas apenas “ajudou” no
planejamento, deportações e transporte. Diante da violência do nazismo – que ele conhecia –
Eichmann dizia ter uma sensação de Pôncio Pilatos, aquele que lava as mãos: quem era ele
para ter “as próprias ideias sobre o assunto? ”.

2
Ele poderia ter sido um diligente servidor de qualquer outro regime que lhe pagasse o salário:
o sonho de Eichmann era alguém que desejava ascensão social, desejava que alguém
reconhecesse seus méritos, lhe oferecesse uma carreira, pagasse aposentadoria – era um
homem banal, que não fez nada a não ser “cumprir ordens”, organizar um sistema eficiente de
transporte. Ele entrou na SS ("Tropa de Proteção", organização nazista liderada por Himmler)
não por convicção ou ideologia, mas por vontade de construir uma carreira, por ascensão social.
Eichmann não tinha motivações malignas, nunca percebeu o que estava fazendo; sua única
motivação era o sucesso pessoal. No julgamento, ele conseguia lembrar detalhes dos grandes
momentos de sua carreira; mas, em contrapartida, não conseguia relacioná-lo aos momentos
terríveis do regime nazista. O “pai de família” normal ou banal, que tolerou ou aderiu aos horrores
nazistas é o “grande criminoso do século”, posto que, para defender sua aposentadoria, seguro
de vida, segurança da esposa e dos filhos se disporia a sacrificar honra e dignidade. Eichmann
admirava Hitler por ele ser um caso de “sucesso pessoal”, um cabo que se tornou um dos homens
mais poderosos do mundo; para Eichmann, o que importa não é a moral, não são os valores,
mas o “sucesso”.

O mal de Eichmann, portanto, é um mal moderno: não é o


mal do pecado, de que falam as religiões, nem o mal dos vilões
da literatura, movido por inveja, traumas ou ressentimento, mas
um mal que, por não ter motivos especiais, pode ser um mal
infinito. Em seu diário na Sibéria, Dostoiévski já contava que, em
meio a multidões de assassinos, estupradores e ladrões, nunca
encontrou um único homem que confessasse ter agido mal. O
que era, para os judeus, uma tragédia terrível, o fim do mundo,
para Eichmann era uma rotina, um trabalho, uma carreira. Nasce
um novo tipo de criminoso, para o qual é impossível saber ou
sentir que esta agindo de modo errado. A maldade não é uma
condição necessária para fazer o mal: “Minha opinião é de que o
mal nunca é ‘radical’, é apenas extremo e não possui profundidade nem qualquer dimensão
demoníaca. Ele pode cobrir e deteriorar o mundo inteiro precisamente porque se espalha como
um fungo na superfície (...) essa é sua banalidade. Apenas o bem tem profundidade e pode ser
radical”. Em resumo, a irreflexão, o lugar comum, a vontade de sucesso, a banalidade, podem
causar mais mal do que os planos diabólicos de um vilão qualquer.

Muitos interpretaram o texto de Arendt de maneira absolutamente equivocada; pensaram


que ela estaria defendendo Eichmann ou algo do tipo. De maneira alguma. Eichmann poucas
vezes esteve em perigo de morte imediata e nada a tinha a ver com aquele soldado que, se não
obedecesse, seria fuzilado; Eichmann poderia, por exemplo, ter feito coisas para minimizar seus
crimes, mas não o fez. Ele presenciou as matanças do 3º Reich, ficou “chocado”, mas isso não
o fez abandonar seu trabalho.

3
O que Hannah Arendt quer nos lembrar é que, em política, nunca se esqueçam disso,
obediência e apoio são a mesma coisa. A Dinamarca é um exemplo que deve ser lembrado. Na
Dinamarca, por exemplo, a população declarou que não iria colaborar com o antissemitismo dos
nazistas e o rei se dispôs a usar a estrela de Davi, emblema que marcaria os judeus. Hanna
Arendt, profundamente liberal, opõe-se ao determinismo e defende a liberdade. Só existe justiça
se considerarmos que os homens agem em liberdade, que eles poderiam ter feito outra coisa
diferente do que fizeram. Hitler certa vez disse que em seu Reich sonhava com o fim da profissão
de jurista. Por quê? O sonho dos regimes totalitaristas é destruir a liberdade dos homens, e,
assim, destituí-los de responsabilidade, destituí-los de consciência, destituí-los da capacidade
de diferenciar o certo e o errado. Todos seriam engrenagens desumanizadas, e a justiça, assim,
seria impossível. Leia com atenção essa passagem: “Se o acusado se desculpa com base no
fato de ter agido não como homem, mas como mero funcionário cujas funções podiam ter sido
realizadas por outros, isso equivale a um criminoso que aponteasse para as estatísticas do crime
e declarasse que só fez o que era estatisticamente esperado”

Em todas as suas obras, Arendt, opõe-se aos diversos tipos de totalitarismo; é preciso lembrar,
em todas as circunstâncias, a manutenção de nossa liberdade, de nossa dignidade e de nossa
humanidade. Os homens têm a liberdade de agir de modo diferente, e muitos o fizeram na
Alemanha nazista. É verdade que em ditaduras ou regimes totalitários muitas pessoas se
conformam e aceitam; mas algumas pessoas dizem não a tirania. E isso basta para mantermos
a esperança.

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