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Ano 64 | jul/set de 2014 | Nº 03

http://www.sba.com.br
A união nos torna fortes
e solidários ao sofrimento
daqueles que necessitam dos
nossos cuidados.

16 de outubro
Parabéns pelo Dia da Anestesia.

“A todos os que sofrem e


estão sós, dai sempre um
sorriso de alegria. Não lhes
proporciones apenas os
vossos cuidados, mas também
o vosso coração.”
Madre Teresa de Calcuta
SBA
Editorial

SBA | Editorial
Por Erick Freitas Curi *

Defina sua ética…

• Prezado leitor, artigo tem como título “Ambição e Assim, penso que, na vida, é pru-
Ética”. O autor se refere à ambição dente que definamos nossa ética
A Anestesia em revista, em sua ter- como tudo aquilo que uma pessoa antes de definir nossas ambições.
ceira edição, congrega uma série de pretende fazer na vida, sendo os Conhecedores de nossos limites,
textos relacionados à ética e bioética. objetivos, os sonhos, as resoluções ajudaremos a construir um país
Além de transparecer um extraordi- para o novo milênio. Ele acredita melhor para as gerações futuras.
nário trabalho de um dos departa- que a mais pobre de todas as ambi-
mentos mais importantes da SBA, Por fim, aconselho que nossos as-
ções seja querer ganhar muito di- sociados se dirijam diretamente à
o Departamento de Defesa Profis- nheiro, citando que o dinheiro por
sional, responde a vários anseios de seção Prata da Casa. Ao ler parte
si só não é objetivo, sendo apenas da história de vida de nosso colega
nossos associados. um meio para alcançar a verdadeira Dr. Gustavo Rech dos Santos, você
ambição. Mas Kanitz é brilhante ao se emocionará, aprenderá e estará
Acredito ser impossível uma leitura
apontar que não há nada de errado mais bem preparado e inspirado
fria desta edição. Cada frase lida nos
em ser ambicioso na vida. para ler as demais matérias.
remete a uma situação cotidiana,
uma experiência vivida e a nossos Quanto à ética, define: “(...) são
próprios conflitos. Seria pouco nobre os limites que você se impõe na Boa leitura! ■
deixar de fazer aqui uma confissão: busca de sua ambição.” Ou seja,
em alguns momentos, ruborizei-me tudo aquilo que você se recusa a
ao associar atitudes indevidas que, * O autor é diretor do
fazer para conseguir realizar seus Departamento Administrativo e
em alguma ocasião, tive com os ensi- objetivos. E é dentro dessa filoso-
namentos aqui editados. responsável por esta publicação.
fia que afirma que o problema do
Ler quase sempre nos faz recordar mundo é que, normalmente, de-
sem querer. E durante a editoração, cidimos nossa ambição antes de
me lembrei de um belíssimo texto nossa ética, quando o certo seria
escrito por Stephen Kanitz. O o contrário.

Editorial | 3
Bandeira do Brasil
A bandeira do Brasil é um dos quatro símbolos
oficiais da República Federativa do Brasil,
conforme estabelecido pelo art. 13, § 1.º, da
Constituição do Brasil.
As cores da bandeira brasileira representam:
Retângulo verde: significa as extensas matas e
florestas de todo o Brasil.
Losango amarelo: representa o ouro e a
riqueza do país.
Esfera azul: representa o céu da noite do nosso
país.
Branco: o branco as estrelas representam a paz
com a qual somos premiados e que abençoa o
nosso país.

Fonte: http://bandeiradobrasil.net

Apesar de todas as dificuldades,


somos um país abençoado.
O Brasil está doente, mas ainda tem cura.
Precisamos resgatar a saúde e
a dignidade do povo brasileiro.
Ordem e Progresso deve ser o nosso lema.
Patriotismo nas urnas e consciência social
pode ser o remédio que vai nos curar.

Expediente
Foto do Sumário: Bandeira do Brasil.
Capa: Destaque da Obra de Maria Bernardete, pintura óleo em tela.
Conselho Editorial: Sylvio Valença de Lemos Neto, Oscar César Pires, Ricardo Almeida de Azevedo, Sérgio
Luiz do Logar Mattos, Getúlio Rodrigues de Oliveira Filho, Antônio Fernando Carneiro e Erick Freitas Curi.
Diretor Responsável: Erick Freitas Curi.
Editora: Mercedes Azevedo.
Diagramação: Marcelo Marinho.
Impressão e Acabamento: Walprint Gráfica e Editora - Tiragem 11.000 - Distribuição Gratuita.

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Os artigos publicados na Anestesia em revista são de inteira responsabilidade dos seus respectivos autores
Sumário
07
Palavra de Diretoria
Moral e ética lidam com valores

09
Mensagem Especial
Sinal verde para ética e bioética

10
Matéria de Capa
A descoberta de uma estrela por meio de sua obra

11
Artigo Especial
Marketing e gestão norteiam decisões e ações

14
Artigos Científicos
O que é bioética e quais seus princípios?
Princípios éticos na prática da anestesia
A avaliação pré-anestésica é realmente obrigatória? Como
documentá-la?
O consentimento informado deve ser específico para a anestesia
A realização de anestesias simultâneas em relação à ética e bioética
O uso de celular no centro cirúrgico durante procedimento médico é
ato antiético? Pode caracterizar crime doloso ou culposo?
O valor do preenchimento correto da ficha de anestesia para a defesa
do anestesiologista
O anestesista deve seguir o cirurgião nas ordens para não reanimar
um paciente anestesiado?
Substituição do anestesiologista no curso do ato anestésico-cirúrgico
Dor pós-operatória e dor crônica pós-operatória são responsabilidade
do anestesiologista?
A importância da ficha de avaliação pós-anestésica
Situações especiais na prática médica do anestesiologista
O que fazer quando denunciado na Justiça ou no CRM?

61
Prata da Casa
Resiliência - sobrevivência ou superação?

64
Responsabilidade Social
Meditando vida afora
Máscara Laríngea LMA Supreme®
A mais avançada máscara laríngea
da LMA® que reduz o risco
de aspiração

o orofarínge
Solução Suprema açã a)
ed
(v

A vedação orofaríngea facilitada pela tecnologia First Seal™da máscara


al ™

laríngea Supreme® da LMA é importante para o proporcionamento


First Se

Second Seal ™

da troca gasosa. A tecnologia Second Seal™ foi projetada para reduzir


o risco de insuflação durante a ventilação, proporcionar um canal
passivo para uma regurgitação inesperada, fornecer um canal para a 2 rotas separadas
sucção ativa do estômago e aumentar a eficácia da vedação orofaríngea.
(ve

Para obter mais informações, visite www.lmaco.com da


çã
o es
ofágica)

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SBA

SBA | Palavra da Diretoria


Palavra da Diretoria
Por Sylvio Valença de Lemos Neto *

Moral e ética lidam com valores


• Prezados colegas,
A bioética é hoje um ramo, ou campo, da filosofia, em particular, da ética, com característi-
cas próprias suficientes para lhe assegurar individualidade, sobretudo por sua abrangência
(ciências da vida, saúde e meio ambiente, em interface), por sua multi e transdisciplinaridade
e pelo pluralismo, com a participação de todos os atores que possam estar envolvidos em de-
terminada questão ética.
Moral e ética lidam com valores. Moral, do latim “costumes”, se volta para os valores consoli-
dados por uso e costume de determinada sociedade, podendo, pois, variar eventualmente de
uma sociedade para outra e mesmo dentro da mesma sociedade, com o decorrer do tempo.
A ética, do grego “conduta humana”, e, portanto, a bioética, é basicamente uma reflexão, um juízo
crítico sobre valores, frequentemente em conflito – daí o tal dilema ético, que implica opções.
Assim, uma condição essencial para o exercício da ética é a liberdade. Liberdade para poder
fazer opção.
Optar é angustiante. Mas a opção significa liberdade, e não se deve abrir mão dessa liberdade
para fugir à angústia da opção. Devemos aprender a trabalhar a angústia, valorizar a liberdade
e respeitar valores. E, para isso, não há receita pronta.
O caminho é o processo de aprendizado, de formação, de elaboração, de revisão constante de
cada um de nós.
Usufruam o conteúdo desta edição de nossa Anestesia em revista.
Bom proveito! ■
* O autor é presidente da SBA.

Palavra da Diretoria | 7
SBA

SBA | Mensagem Especial


Mensagem Especial
Por Antônio Fernando Carneiro *

Sinal verde para ética e bioética


• Colegas,
A Diretoria de Defesa Profissional da Sociedade Brasileira de Anestesiologia (SBA) recebeu o
sinal verde para focar, neste número da Anestesia em revista, os temas ética e bioética, marcantes
e ilimitados em seu conceito.
Definir a ética e a bioética é tarefa difícil. Além do mais, tentar explicá-las seria coibir a magni-
tude de seus significados, que sofrem modificações e se completam segundo o desenvolvimento
da tecnologia, do conhecimento, da aprendizagem e do pensamento humano.
A ética emerge da razão, religião, filosofia e inteligência. Reflete sobre o comportamento hu-
mano e suas dimensões. Resgata os princípios dos cuidados essenciais, o respeito humano, a
responsabilidade e a solidariedade.
A macrovisão da bioética considera desde a relação do homem com seus iguais até sua sobrevi-
vência e preservação.
Diante dessa incontestável afirmação, não há como ignorar a necessidade de um novo olhar
sobre a relação entre médico e paciente em nosso fazer cotidiano. A medicina – especificamente
para os anestesiologistas – não pode mais ignorar esse novo paradigma, que aponta o fim de um
relacionamento de mão única entre médicos e pacientes.
Einstein já dizia: “Tolice é fazer as coisas do mesmo jeito e aguardar resultados diferentes.”
Temos que abrir a mente para o diferente, para o que vem agregar qualidade e significância à
vida humana.
É importante considerarmos que nem todas as nossas práticas devem ser deletadas do dia a dia
profissional, que há critérios a serem seguidos nessa seleção, como também na incorporação de
novos procedimentos, desde que o foco principal não tire de cena a ética e a bioética, lemes que
conduzirão o relacionamento entre médico e paciente rumo ao acolhimento amoroso, tranquilo
e compassivo, pautado, principalmente, pela humildade. ■

* O autor é Diretor do Departamento de


Defesa Profissional da SBA

Mensagem Especial | 9
SBA

SBA | Matéria de Capa


Matéria de Capa
Por Eric Benedet Lineburger *

A descoberta de uma estrela por meio de


sua obra
Seguindo nossa linha editorial negaram a realização do estudo, por O motivo da escolha do tema da
de capa para 2014, destacamos ser distante. obra, que é a capa desta edição, foi
nesta publicação a artista Maria Na primeira exposição de artes na a forma que ela e seu filho anes-
Bernadete Benedet Lineburger. cidade de Tubarão, SC, em julho tesiologista (na época membro
de 1970, feita por Willy Zumblick, aspirante da SBA) encontraram
• Maria Bernadete, 65 anos, na- ela estava lá fazendo um curso de para agradecer a seu preceptor sua
tural da cidade de Criciúma, Santa aperfeiçoamento para professores formação na especialidade, por se
Catarina, professora licenciada e ficou extasiada com seus traba- tratar de uma cena anestésica dos
aposentada, artista plástica auto- lhos. Seu interesse pela pintura primórdios da anestesia.
didata, iniciou seus trabalhos em sempre existiu: tela, pincéis, pa-
1994, após sua aposentadoria. Seus lhetas, tintas sempre a acompa- A obra destacada nesta matéria, foi
trabalhos não são conhecidos, pois nharam. O cheiro de tinta a óleo é doada à SBA e encontra-se exposta
nunca os expôs, são seus “ou- o “melhor perfume”. em sua sede.
tros filhos”. Com a publicação dessa obra,
Desde menina, se interes- homenageamos todos os co-
sou pela pintura. Comprava legas da especialidade pelo
telas minúsculas e tinta, fa-
zendo do porão de casa seu Dia da Anestesia –
ateliê. No colégio de freiras,
onde se formou professora 16 de outubro. ■
normalista, foi-lhe ofereci-
da uma bolsa de estudos
do governo do estado de
Santa Catarina para cur-
sar belas artes em Curiti-
ba, porém, seus pais não
permitiram. Foram duas * O autor é filho da
gerações cortadas pela artista plástica e
raiz, pois, há poucos anos, ela soube Suas telas que estão com terceiros associado da SBA; MSc;
que uma parente sua, de geração foram feitas para as pessoas por se TSA-SBA; instrutor do curso ETI/
anterior, também ganhou essa bolsa identificarem com elas por algum SBA Área de Atuação em Dor –
da diretoria do grupo escolar e do motivo. Foram sempre presentes AMB; diretor científico da SAESC.
prefeito da época. Seus pais também feitos com amor.

10 | Anestesia em revista - Nº 03/2014


SBA

SBA | Artigo especial


Artigo Especial
Por Hamilton de Souza Pinto *

Marketing e gestão norteiam decisões e ações


• O médico anestesiologista com- mudando e, com isso, remodelando desenvolvimento das organizações
põe uma equipe de profissionais o ambiente dos negócios e das pro- e dos profissionais envolvidos nessa
essenciais à vida humana, porque fissões na área da saúde. missão sublime.
promove a ausência de dor decorren-
Muitos profissionais que atuam Por outro lado, os pacientes estão
te do ato cirúrgico. A anestesiologia
na área da saúde ainda não para- se conscientizando de sua impor-
é uma especialização fundamental
ram para pensar que, apesar de tância no contexto da saúde e, atu-
para o sucesso de uma cirurgia e de
sua visão e ação humanitária, ela é almente, querem ser considerados
vários outros procedimentos clíni-
um negócio como outro qualquer, clientes, e não meros pacientes.
cos, como a medicina paliativa e o
porém, com características espe- Não querem mais ser pacientes
tratamento de dores crônicas.
ciais de prestação de serviço, com passivos, exigem ser clientes, não
Um simples olhar “leigo” pode ava- viés humanitário. no sentido de “quem compra ou
liar a relevante função do anestesio- quem consome”, e sim de “pessoa
logista como “apenas” uma execução Surge, então, o dilema da área protegida”, como o próprio signifi-
técnica e discreta de um trabalho, que da saúde: assumir ou não que é cado do termo.
é muito mais do que um conjunto de um negócio? Na verdade, a saúde
sempre foi um negócio, mas as or- Esse paradigma revelou um novo
ações operacionais. Infelizmente,
ganizações de saúde e seus profis- e relevante fator crítico de sucesso
ainda hoje, muitos pacientes desco-
sionais nem sempre pensam nesse tanto das organizações quanto dos
nhecem o fato de o anestesiologista
contexto como uma base funda- profissionais de saúde: a necessida-
ser médico.
mental para o seu aprimoramento, de de marketing e gestão de suas
Assim como nas demais profissões, e não reconhecer esse fato pode decisões e ações.
o médico anestesiologista deve rever representar uma “miopia” tanto na Gestão é a capacidade humana de
sua profissão e a amplitude dela gestão do negócio quanto no ma- projetar, estruturar e operar um ne-
na sociedade como um todo. Uma rketing pessoal, o que pode gerar a gócio que represente reciprocidade
profissão, em seu sentido amplo, precariedade do ambiente organi- de necessidades e desejos tanto de
constitui um mercado, um sistema zacional e profissional. quem oferta quanto de quem de-
organizado de oferta e demanda de manda. Exige eficácia (qualidade
valores tangíveis e intangíveis que Um negócio tem como missão, ou
seja, sua verdadeira razão de exis- de “o que deve ser feito”) e eficiên-
estabelecem equilíbrio para as ne- cia (qualidade de “como deve ser
cessidades humanas. tência, cumprir uma responsabili-
dade social. Na área da saúde, sua feito”), além de coordenação de pes-
E já que estamos falando em mer- missão é promover qualidade de soas para a sinergia dos resultados.
cado, devemos reconhecer que ele vida através da saúde para a socieda- Marketing, que é uma das funções
é dinâmico e possui características de e, ao mesmo tempo, estabelecer da gestão – e que, equivocadamente,
particulares. As necessidades da retorno financeiro que permita a é confundido com propaganda ou
oferta e da demanda estão sempre manutenção do conhecimento e do vendas –, é, na verdade, uma filosofia
Artigo Especial | 11

Gestão é a capacidade humana
de projetar, estruturar e operar

SBA | Artigo especial


um negócio ...

organizacional que estabelece que o contemporâneas, mas o motivo empresas privadas com o objeti-
propósito fundamental de um negó- para a preocupação não deve ser vo de serem mais bem geridas e
cio é atender às necessidades e aos apenas o fato de elas ocorrerem, mais eficientes.
desejos dos clientes com lucrativida- mas a velocidade acelerada que
de para a própria organização. esses processos de mudança assu- O ritmo da mudança se tornou
miram desde o início do século. tão rápido que a capacidade de
O propósito deste artigo é promo- adequação a essa exigência passou
ver a reflexão do médico aneste- As forças competitivas do mercado, a ser uma vantagem competitiva
siologista não apenas pela ótica da as tecnologias e as exigências dos para as organizações. A disposi-
saúde, mas por uma ótica holística clientes mudam significativamente ção para inovar requer do marke-
que desperte a necessidade de deci- no decorrer do tempo. O modelo ting e da gestão perceber, captar,
sões e ações orientadas pelo e para de gestão dos negócios do ano ante- analisar, avaliar, planejar, decidir,
o mercado. rior pode ser o caminho mais certo executar e controlar, aprendendo
Esse propósito será materializado para o fracasso nesse ano. sobre as tendências e os avanços
em termos que podem representar O atual panorama econômico está que afetam e poderão afetar as
contextos não usuais (ou até mesmo moldado por duas forças poderosas: organizações, a estrutura da con-
impensáveis) para um médico anes- tecnologia e globalização. A tecno- corrência em seu setor econômico,
tesiologista, mas é, sem dúvida, um logia, em última análise, configura seus clientes e fornecedores.
contexto cada vez mais discutido na não apenas a infraestrutura mate- O mercado está mudando radical-
área da saúde: marketing e gestão de rial da sociedade, mas também os mente e essa dinâmica está criando
organizações de saúde. padrões conceituais e culturais. A novos comportamentos e desafios.
tecnologia impulsiona outra grande Os clientes estão exigindo cada vez
Marketing, gestão e o médico força: a globalização. A globalização mais qualidade, serviços superio-
anestesiologista do século XXI torna os países uma “aldeia glo- res de assistência e customização
O tão esperado século XXI se ini- bal”. A profecia anunciada de que destes, de acordo com suas neces-
ciou. Parece que foi ontem mesmo o mundo ainda será um só já está se sidades. A era do conhecimento
e já estamos em 2014. Muitas pes- tornando uma realidade. eletrônico leva muitas informações
soas e organizações esperam ver sobre serviços e produtos, facilitan-
Além de tecnologia e globalização, do, assim, a aquisição de seu objeto
para crer, mas ainda não sabem exa-
outras forças estão reconfigurando de desejo de maneira mais racional.
tamente o que realmente querem
a economia: a desregulamentação Os clientes estão mostrando maior
ver. Muitas pessoas e organizações
tem lugar em muitas economias, sensibilidade à qualidade e ao preço,
esperam a mudança, mas não pen-
inclusive no Brasil. Organizações em sua busca por valor.
sam em mudar nem a si mesmas. É
protegidas normalmente por mo-
necessário entender que a mudança
nopólios de repente se veem dian- Deve-se estar sempre alerta para
se inicia com a própria mudança.
te de novos concorrentes globais. o fato de que, no mundo globali-
O ritmo acelerado das mudanças Outra força de impacto é a privati- zado, com a velocidade da trans-
tornou-se parte inerente do contex- zação: organizações anteriormen- missão de dados e informações, o
to das pessoas e das organizações te estatais passaram a constituir uso de aplicativos e redes sociais
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SBA

SBA | Artigo especial


Artigo Especial

no ambiente de trabalho pode clientes, deve despertar para a ne- de qualquer orientação no contexto
ser um diferencial extremamente cessidade imperativa e imediata da medicina para a sociedade como
positivo ou devastador, conside- de construir uma nova proposta um todo. Concluo que o médico
rando cada profissão e especia- profissional, fundamentada na anestesiologista, assim como os de-
lidade. As informações chegam gestão estratégica de sua estru- mais profissionais da área de saúde,
em tempo real, até mesmo para as tura profissional e em ações de podem exteriorizar a relevância e
pessoas que não estão preparadas marketing que desenvolvam a im- a aplicabilidade de seu trabalho,
academicamente para entender portância de sua profissão, pro- cuidar do marketing profissional/
determinados assuntos. mova, nos padrões éticos de sua pessoal e estruturar melhor suas
atuação, sua imagem e diferencie atividades, baseando-se em práticas
O novo marketing não está mais a oferta de serviços essenciais à de gestão. É uma questão de se dedi-
apenas desenvolvendo produtos sociedade, como exige o contexto car a um novo aprendizado, estar de
e serviços, está proporcionando atual dos negócios. mente e coração abertos para ouvir a
“experiências”. A nova gestão não orientação de profissionais especia-
Existem vários cursos de pós-
está mais só desenvolvendo e ope-
rando negócios, está promovendo -graduação na área de gestão ■
lizados na área.
bem-estar social. hospitalar que podem representar
um referencial complementar aos * O autor é mestre em sistemas
Diante desse contexto, o médico profissionais da área de saúde. É
anestesiologista assume uma fun- de gestão pela Universidade
sempre importante deixar claro Federal Fluminense; bacharel
ção ampla na área da saúde e na que os fundamentos de marketing
sociedade como um todo: criar as em administração pelo Instituto
e gestão são complementares à ati- Metodista Bennett; professor/
bases para o sucesso dos procedi- vidade do médico anestesiologis-
mentos anestésico-cirúrgicos e coordenador de cursos de
ta, que, apesar da visão orientada administração e de marketing pela
suas áreas de atuação e, ao mesmo pelo marketing e pela gestão fruto
tempo, fazer dessa missão rele- Universidade Estácio de Sá.
de cursos ou orientação de con-
vante uma estrutura bem admi- sultores, sempre será um médico,
nistrada, que permita promover a um profissional com uma missão
importância de sua imagem como diferenciada na sociedade, apesar
profissional de extrema relevância, de considerar e respeitar a impor-
único e primordial para a saúde da tância das demais profissões.
sociedade e incomparável em sua
missão sublime de proporcionar a Voltando ao propósito deste artigo,
ausência de dor aos pacientes. de promover o repensar profissio-
nal, especialmente do médico anes-
O médico anestesiologista, dian- tesiologista, relatado inicialmente,
te do dilema de ver sua profissão/ propomos complementar a ótica
especialidade como um negócio da saúde com a do marketing e da
estruturado e orientado pelo e gestão. Sou um administrador e, é
para o mercado e seus respectivos claro, minha proposta é desprovida

Artigo Especial | 13
SBA

SBA | Artigos Científicos


Artigos Científicos
Por Onofre Alves Neto *

O que é bioética e quais seus princípios?


• Introdução - Preocupado com organizar e promover a difusão do anestesia e sua relação com a bioé-
o avanço desenfreado da ciência, ensino da bioética entre as nações. tica começou a ser apresentada em
Van Rensselaer Potter1, biólogo A partir dos anos 1990, a bioética publicação em 2003 4.
envolvido na pesquisa do câncer difundiu-se para a América Latina. A deterioração da relação médico-
na Universidade de Wisconsin, em Em 1993, nosso Conselho Federal -paciente, cada vez mais evidente,
Nova York, EUA, no início dos anos de Medicina criou a revista Bioéti- constitui-se uma questão central
1970, empregou o termo “bioética” ca2, publicação regular semestral nas queixas apresentadas não só à
para, segundo ele, desenvolver um para incentivar o debate e a publi- Justiça como aos conselhos de ética,
novo campo da ética que pudesse cação de questões doutrinárias, contra os anestesiologistas, origina-
fazer a defesa do homem, de sua temas emergentes e os pertinentes das por mal-entendidos, desinfor-
sobrevivência e da melhora de sua à área. Em 18 de fevereiro de 1995, mação e, principalmente, falta de
qualidade de vida. Considerava que fundou-se a Sociedade Brasileira de diálogo entre médicos e pacientes5.
a ciência não era mais o elemento Bioética, para congregar as diversas
fundamental para a continuidade correntes existentes até então. Como não poderia deixar de ser, a
e o bem-estar do homem, em vista bioética possui diversas linhas de
da agressão ao meio ambiente e à A bioética se transformou numa pensamento em seu desenvolvimen-
boa convivência global. Objetivou, radical mudança da chamada ética to, mostrando que caminha para
criando o termo bioética, integrar médica, representando a interseção uma visão mais global e que, em-
os conhecimentos da filosofia exis- da ética com as ciências da vida, até bora não prescinda dos princípios
tentes até então às ciências da vida, mesmo uma nova força política, emanados, deve abranger opiniões
numa fase inicial voltada quase que principalmente na medicina, com muito diferentes. Veja-se o que
exclusivamente para a ecologia. uma área de atuação muito ampla. acontece na cultura japonesa, que
Como não poderia deixar de ser, se posiciona não como contrária ao
Atribui-se ao obstetra de origem princípio da autonomia, já que esse
holandesa que trabalhava na Ge- também na anestesiologia a bio-
ética teve, e tem, sua aplicabili- princípio é praticamente inexisten-
orgetown University, nos Estados te na cultura oriental. Até mesmo
Unidos, a utilização do termo “bio- dade, especialmente quando se
reconhece o inegável desenvolvi- uma “bioética brasileira” foi sugeri-
ética” na medicina e nas ciências da, como forma de se construir um
biológicas, no início dos anos 1970, mento técnico-científico de nossa
especialidade, com a introdução modo de enfrentar, mediar e dar
difundindo-se rapidamente para ou- respostas aos conflitos morais ema-
tras áreas do conhecimento, como de novas drogas e coadjuvantes,
assim como a utilização de novos nados nas diferentes questões éticas
direito, economia, política, psicolo- relacionadas com nossos costumes.
gia e enfermagem. equipamentos e técnicas. Em
20003, já se chamava a atenção para Pela sua cada vez maior abrangên-
Em 1992 fundou-se a International esse fato em nossa revista, mas a cia, inexiste um conceito simples
Association of Bioethics para tentar discussão de temas específicos da e universal sobre o que é bioética,

14 | Anestesia em revista - Nº 03/2014



Beneficência quer dizer fazer o

SBA | Artigos Científicos


bem, sendo uma manifestação
da benevolência.

mas se aceita que a sugestão apre- que deve ser considerado corre- ––O princípio da não maleficência
sentada por Reich, em 1995, em to, a busca de fundamentos que Desde a tradição hipocrática de pri-
sua Encyclopedia of Bioethics, seja possam servir às diversas linhas mum non nocere, o princípio da não
a mais adequada, em que a “Bio- ideológicas e até religiosas, Be- maleficência seria a obrigação de
ética é o estudo sistemático das auchamp e Childress8 sugeriram não causar danos, sendo sua aplica-
dimensões morais – incluindo a o chamado modelo de principia- ção inerente a todas as pessoas. Sua
visão moral, as decisões, a con- lismo, em que buscam critérios aplicação é discutível, pois autores
duta e as linhas que guiam – das que possam ser estendidos a todos reafirmam que a prática da medi-
ciências da vida e da saúde, com (como beneficência, autonomia e cina pode, às vezes, causar danos
o emprego de uma variedade de justiça), mas que não agradam a para a obtenção de um benefício
metodologias éticas e uma im- todos, pois muito entendem que maior, tendo como exemplo um pa-
postação interdisciplinar 6”. a linha geral da bioética não po- ciente com melanoma num braço
Em nosso meio, a utilização cada deria se limitar a simples aplica- que poderia tê-lo extirpado em prol
vez maior dos princípios da bio- ção dos princípios sugeridos por de salvar a vida.
ética na nova área de atuação do Beauchamp e Childress, mas que
direito, o chamado biodireito, acabaram sendo aceitos e cada ––O princípio da autonomia
trouxe a necessidade de publica- vez mais aplicados nas situações Como princípio da ética geral, a
ção de um novo Código de Ética de conf lito, principalmente na aplicação da autonomia da pessoa é
Médica, em 2009, descrito pelo área da saúde. antiga, mas sua introdução na ética
então presidente do CFM como médica é recente9. Diz respeito à
––O princípio da beneficência capacidade da pessoa de se autogo-
“um novo código para um novo Beneficência quer dizer fazer o
tempo” 7, em que o princípio da vernar, autodeterminar, escolher,
bem, sendo uma manifestação da compartilhar, avaliar, sem restri-
autonomia foi exaltado, definin- benevolência. Esse princípio não
do que o médico deve discutir e ções internas ou externas, e foi
nos diz como distribuir o bem e o muito enfatizado no novo Código
aceitar as escolhas de seus pacien- mal, sugerindo apenas promover
tes relativas aos procedimentos de Ética Médica, no Brasil, em que,
o bem e evitar o mal. Na saúde e no seu Art. 24, veda ao médico dei-
diagnósticos e terapêuticos pro- na anestesia é operacionalizado
postos, assim como a obrigato- xar de garantir ao paciente o exercí-
no sentido de agir no interesse do cio do direito de decidir livremente
riedade de obtenção do termo de paciente, agindo junto com o outro
consentimento livre e esclarecido sobre sua pessoa ou sem bem-estar,
princípio de não causar danos, bem como exercer sua autoridade
e a aceitação de recusa de pacien- prevenir danos e retirar os danos
tes terminais a tratamentos consi- para limitá-lo.
ocasionados. Os médicos, com a
derados excessivos e inúteis. aplicação desse princípio, correm o A autoridade única do médico é
––Os princípios da bioética risco de adotar atitudes paternalis- questionada por esse princípio,
Ao lado dos diversos modelos exis- tas, especialmente com pessoas de especialmente num campo como
tentes (utilitarismo, moral secular, baixa instrução, como superprote- a anestesia. Assim, temas como
personalismo etc.), na tentativa de ção, autoritarismo, desqualificação a escolha do tipo de anestesia, a
se encontrarem diversas visões do da comunicação. ocorrência de dor pós-operatória,

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Artigos Científicos

a pesquisa envolvendo seres hu- o horizonte de todas as virtudes 3. Alves Neto O, Garrafa V. Anestesia e bioé-
tica. Rev Bras Anestesiol, 2000;50:178-88.
manos sem seu devido consenti- humanas. Sem a justiça, os valores
4. Alves Neto O. Bioética em Anestesia, em:
mento, o atendimento aos desejos deixariam de ser valores ou nada Urban CA. Bioética Clínica. Rio de Janeiro,
de não reanimação expressos le- valeriam, sendo prioritária ao ser Revinter, 2003; 363-77.
galmente pelo paciente etc. são de humano. Muitos acham que esse 5. Charles JE. Todo mundo perde quando a
aplicação imediata e, muitas vezes, princípio se aplicaria principal- relação médico-paciente não é boa. Anest
conflitantes, principalmente, para mente aos dirigentes, gestores ou Rev, 1998:48(5):2.
aqueles que ainda resistem a acei- responsáveis maiores, já que nor- 6. Callahan D. Bioethics, em: Reich WT. En-
cyclopedia of Bioethics. New York, Mac-
tar o despojamento dos médicos mas preveem que saúde é um di- millian, 1995;247-56.
de regalias seculares, trazendo, reito de todos e dever do Estado, 7. D’Avila RL. Um Novo Código para Um
obviamente, novas preocupações mas sua aplicação é uma luta diá- Novo Tempo, em: Conselho Federal de
e perspectivas, mas a própria Ame- ria e deve colocar o anestesiologis- Medicina (Brasil). Código de Ética Médi-
ca. Código de Processo Ético-Profissional.
rican Society of Anesthesiologists ta em defesa, principalmente dos
Brasília, Conselho Federal de Medicina,
orienta que os anestesiologistas pacientes que mais necessitam da 2014;31-33.
devem monitorar a si próprios no aplicação universal do princípio 8. Beauchamp TL, Childress JF. Principles of
sentido de proteger os pacientes, da justiça nas questões de saúde. Biomedical Ethics. 4ª ed. Oxford, Oxford
especialmente em situações de University Press, 1994;120-394.
vontades expressas previamente. ––Conclusão 9. Pessini L, Barchifontaine CP. Problemas
atuais de bioética, 4ª ed. São Paulo, Loyola,
A globalização da informação nos Se o surgimento da bioética e, prin- 1997;41-58.
dias atuais, o princípio intrínseco cipalmente, a aplicação do princí-
que temos do paternalismo, o tipo pio da autonomia trouxeram novas
preocupações para nós, anestesio- *O autor é TSA-SBA, atua na Área
de educação e ensino na medicina e
logistas, despojando o médico de de Atuação em Dor; é professor
na anestesiologia, particularmente,
regalias seculares, não se pode negar associado de anestesiologia da
o risco de endeusamento de técni-
sua ideia de igualdade, devendo o Universidade Federal de Goiás;
cas com radicalizações irracionais,
anestesiologista, assim como o mé- membro do Conselho Regional de
a responsabilidade social, a intole-
dico, de maneira geral, procurar o Medicina de Goiás – CREMEGO.
rância e as dificuldades próprias e
cada vez mais gritantes do exercí- equilíbrio em suas ações, lançando
cio ético e legal da anestesiologia, mão da tolerância e da prudência
no Brasil de hoje, devem levar a nas situações mais difíceis, assegu-
todos a exercitarem suas condutas rando-se do respeito à autonomia do
baseadas na aplicação do princípio paciente na tomada de decisões. ■
da autonomia das pessoas, para não Referências:
se exporem a infrações ético-legais. 1. Urban CA. Introdução à Bioética, em:
Urban CA. Bioética Clínica. Rio de Janei-
––O princípio da justiça
ro, Revinter, 2003;3-10.
Difícil definir de maneira simples,
2. Costa SIF, Oselka G, Garrafa V et al. Inicia-
a justiça é uma busca permanente, ção à bioética. Brasília, Conselho Federal
sendo sua aplicação a finalidade e de Medicina, 1998;13-18.

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Por José Abelardo Garcia de Meneses *

Princípios éticos na prática da anestesia


• A prática da anestesiologia, como característica da especialidade che- atingiu; verificar as reações nervo-
especialidade técnica e cientifica- gam aos conselhos regionais de me- sas, o ritmo da respiração, a pressão
mente autônoma1, está subordi- dicina consultas, visando esclarecer sanguínea; c) evitar todas as com-
nada aos princípios estabelecidos pontos controversos na interpreta- plicações possíveis: espasmos de
pelo Código de Ética Médica2 . ção do Código de Ética Médica e laringe; convulsões; perturbações
A importância da especialidade das resoluções normativas, o que de- cardíacas ou respiratórias; d) após
decorre da presença indiscutível e manda a emissão de pareceres sobre o ato cirúrgico, sua missão é ainda
indispensável do profissional espe- a atuação médica especializada. mais delicada: auxiliar o paciente
cializado para um número cada vez a voltar a si; evitar acidentes com a
Necessário firmar neste texto que obstrução das vias respiratórias, a
mais crescente de procedimentos o anestesiologista atende à soli-
diagnósticos e terapêuticos, mere- manifestação de choque e minis-
citação médica, portanto, jamais trar-lhe líquidos fisiológicos”5.
cendo especial atenção do Conselho deve anestesiar pacientes para
Federal de Medicina ao lhe dedicar outros profissionais de saúde, ex- A prática do ato anestésico e a
uma série de regulamentos, por meio ceto os cirurgiões-dentistas, nos Resolução CFM 1.802/2006
de resoluções e pareceres, como bali- termos da Resolução CFM nº Essa normativa é um aperfeiçoa-
zadores de uma prática científica que 1.950/2010 4. Assim também não mento de duas versões anteriores,
não deve se afastar do objetivo final: deve anestesiar pacientes na au- a 851/78 e a 1.963/93. A resolução
o bem-estar dos pacientes. sência do cirurgião titular. atual, 1.802/2006, manteve prin-
Para se ter uma pálida ideia, são Miguel Kfouri Neto, em sua obra cípios basilares aos da revogada,
nove resoluções que, direta ou in- Responsabilidade Civil do Médico, ao destacando-se o item “segurança”
diretamente, interessam ao anes- abordar a atuação do anestesiologis- como princípio e fim da norma.
tesiologista em sua prática diária e ta, aduz sinteticamente os deveres do Alguns pontos devem ser desta-
uma exclusiva que dispõe sobre a especialista, in verbis: “Incumbe-lhe, cados no instrumento normativo:
prática do ato anestésico3. especialmente: a) preparar o pacien- a necessidade de prévia avaliação
É interessante destacar que o médi- te, no campo médico e psicológico: das condições clínicas do pacien-
co anestesiologista, diferentemente prever possíveis dificuldades; acal- te e as condições de segurança
da maioria dos médicos, em regra, mar o doente; conquistar-lhe a cola- do ambiente onde será aplicada a
compartilha seu paciente com ou- boração e confiança; preparar-lhe o anestesia; a responsabilidade do
tros especialistas. A atividade em organismo para o ato cirúrgico; es- diretor técnico para suprir as ne-
sentido restrito é um dos meios colher o anestésico mais convenien- cessidades indispensáveis à segu-
para a realização de procedimentos te; b) vigiar, de perto, o estado do rança do paciente; a documentação
médicos, sem demérito ou desdou- paciente, durante a intervenção: ob- necessária ao registro de sua evo-
ro para aqueles que estudam e se servar os mais leves sintomas; saber lução; os cuidados na recuperação
aplicam a suas obrigações. Dessa exatamente o grau que a anestesia do paciente; a vigilância a cargo

Artigos Científicos | 17

A vigilância é condição indispensável ao

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bom andamento de uma anestesia e é
a demonstração inequívoca de respeito
ao paciente que confiou sua saúde e
integridade física ao profissional.

do anestesiologista; as condições norma, e, ao mesmo tempo, fazer desvio do regramento ético, dentro
mínimas para a prática da anestesia cumprir os dispositivos a cargo da de padrão convencionado.
detalhadamente descritas em qua- equipe médica.
tro anexos. Sobre a matéria já se pronunciou o
––A vigilância Conselho Regional de Medicina do
––Avaliação prévia Destaque-se nesse ponto a obri- Estado de Tocantins, por meio da
Este é um item que, de certa forma gatoriedade da presença do anes- Resolução nº 072/20097, que disci-
e a depender das situações do dia a tesiologista ao lado do paciente. A plina no artigo 3º: “Ocorrendo situ-
dia, tem sido pouco valorizado e do vigilância é condição indispensável ação de urgência ou emergência que
qual o anestesiologista sofre alguma ao bom andamento de uma aneste- obrigue o profissional médico anes-
influência. Entretanto, em obediên- sia e é a demonstração inequívoca tesiologista a realizar anestesias
cia à autonomia do médico, estabe- de respeito ao paciente que con- simultâneas, o fato deverá ser co-
lecida no inciso II do Capítulo II do fiou sua saúde e integridade física municado, por escrito, no prazo de
Código de Ética Médica (“É direito ao profissional. 48 (quarenta e oito) horas, contadas
do médico indicar o procedimento a partir do término do procedimen-
adequado ao paciente, observadas Proteja seu Paciente. Não o Deixe to, ao diretor técnico, à comissão de
as práticas cientificamente reco- Só. Com essa frase, as regionais da ética do nosocômio e ao CRM-TO,
nhecidas e respeitada a legislação SBA do Ceará e da Bahia realiza- descrevendo os nomes dos pacien-
vigente”), o anestesiologista tem o ram elogiada campanha de alerta tes e cirurgiões, acompanhado de
dever de se cercar de todos os meios na década de 1990, sob o título Se- cópia dos respectivos prontuários
possíveis para não comprometer a gurança e Dignidade. e de justificativa da necessidade do
qualidade de seu trabalho, tanto do ––Res. CFM 1.802/2006, artigo 1º ato simultâneo.”
ponto de vista das condições clíni- II – Para conduzir as anestesias
cas do paciente como da infraes- Algumas consultas têm surgido
gerais ou regionais com seguran- quanto à assistência durante a anal-
trutura hospitalar disponível para a ça, deve o médico anestesiologista
condução da anestesia. gesia de parto. O consenso estabe-
manter vigilância permanente a lecido é que, nesses casos, devem
A consulta pré-anestésica é ato seu paciente. ser obedecidos os ditames da segu-
exclusivo do especialista e jamais IV – É ato atentatório à ética médi- rança, não sendo possível realizar
pode ser transferida para outros ca a realização simultânea de anes- analgesia de parto simultaneamen-
profissionais. A importância da ava- tesias em pacientes distintos pelo te a outros procedimentos8.
liação em consultório ou ambula- mesmo profissional.
tório está fartamente comprovada, A excepcionalidade deve ser trata-
como pode ser compreendido da Em diversos debates surge a dúvi- da com o maior cuidado possível,
leitura do Parecer CFM 56/996. da: é possível realizar anestesias devendo ser evitada a habitualida-
simultâneas em situações de emer- de da ocorrência. Para isso, o di-
Ressalte-se que o diretor técnico gência quando há risco iminente retor técnico deve compor equipe
da instituição tem o dever de ofe- de morte? Situação muito delicada mínima para atender à demanda
recer as condições necessárias para que deve ser tratada sob o signo da da unidade sob sua responsabili-
a prática da anestesia, previstas na exceção, no qual se considera um dade. Por outro lado, o cirurgião
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que solicita ao anestesiologista a Noutro passo, o anestesiologista Devem ser dispensados todos os
realização da segunda anestesia deve monitorizar os sistemas car- cuidados necessários aos pacientes
deve fundamentar seu pedido por- diovascular e respiratório e dispor com possibilidade de instabilida-
menorizadamente em prontuário. dos equipamentos descritos no de de seus sistemas de controle,
E o anestesiologista também tem o artigo 3º da Resolução CFM nº sendo indispensável a utilização de
dever de registrar os fatos, expondo 1.802/2006, utilizando o instru- equipamentos de monitorização e
a situação vivenciada. mental, material e fármacos deta- reanimação, à semelhança do que
––Segurança do paciente lhados em seus anexos II, III e IV. ocorre na sala de cirurgia. A orga-
O item segurança do paciente nas ––A documentação nização físico-funcional da SRPA
instituições hospitalares tem preocu- está estabelecida na RDC An-
Compete ao médico o dever de visa/MS 50, de 21 de fevereiro
pado instituições, gestores, estudio- prestar informação como princípio
sos e organizações de fiscalização da de 200211,12.
basilar na relação de confiança com
prática médica em todo o mundo. o paciente. Dessa forma, o registro O chamado quinto sinal vital, a
Para a redução da morbi-mortalida- em prontuário deve observar os pre- dor, não pode ser negligenciado no
de por cirurgia em todos os países, ceitos éticos, uma vez que estes são período de recuperação da anes-
a Organização Mundial da Saúde, revestidos de credibilidade. Para dis- tesia, uma vez que sua ocorrência
atendendo à Resolução 55.18, da ciplinar a documentação e o registro é perfeitamente previsível e, por-
55ª Assembleia Mundial da Saúde, das anestesias em todas as fases, pré e tanto, evitável13 . A dor no pós-
ocorrida em maio de 2002, por pós-operatória, o legislador dedicou -operatório deve ser controlada e
meio da Aliança Mundial para a especial atenção à Resolução CFM tratada convenientemente.
Segurança do Paciente, lançou, 1.802/2006, em seu anexo I. Sobre a presença de anestesiolo-
em outubro de 2004, o programa Dantas e Coltri comentam sobre
10 gista plantonista na SRPA, o Con-
Cirurgias Seguras Salvam Vidas, a importância do prontuário mé- selho Regional de Medicina do
adotado pelo Ministério da Saúde9. dico, citando a Resolução CFM nº Estado de Pernambuco assim dis-
Nesse contexto, se insere a aneste- 1.638/2002, aduzindo: “o prontuá- ciplinou: “É obrigatória a presença
siologia, como pode ser inferido em rio é o documento valioso para o pa- permanente de um médico, prefe-
vários dispositivos do Capítulo I, ciente, para o médico que o assiste rencialmente anestesiologista, na
Princípios Fundamentais do Códi- e para as instituições de saúde, bem SRPA, responsável pelos cuidados
go de Ética Médica (“Inciso II – O como para o ensino, a pesquisa e os dos pacientes”14. Nesse mesmo sen-
alvo de toda atenção do médico é a serviços públicos de saúde, além de tido, também o Conselho Regional
saúde do ser humano, em benefício instrumento de defesa legal.” de Medicina do Estado do Ceará
da qual deverá agir com o máximo editou a Resolução nº 44/201215.
de zelo e o melhor de sua capacidade ––A recuperação
profissional. Inciso V – Compete ao A última etapa da anestesia deve ––Conclusão
médico aprimorar continuamente ser conduzida em sala de recu- Por fim, cabe-nos concluir, reco-
seus conhecimentos e usar o melhor peração pós-anestésica (SRPA) mendando aos anestesiologistas, a
do progresso científico em benefício ou unidade de terapia intensiva estrita obediência às normas legais
do paciente.”). (UTI), quando houver indicação. e infralegais, entre estas o Código
Artigos Científicos | 19

O item segurança do paciente

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nas instituições hospitalares tem
preocupado instituições, gestores,
estudiosos e organizações de
fiscalização da prática médica em
todo o mundo.

de Ética Médica, as resoluções e os áreas bucomaxilofacial e craniomaxilofacial. 11. Roichman CBC, Meneses JAG, Alves
Diário Oficial da União, 7 jul 2010; Seção ML. Regulamentação da Sala de Recupe-
pareceres dos conselhos de medici- I. Acesso em 24 maio 2014. Disponível em: ração, em: Recuperação Pós-anestésica.
na, em consonância com as práti- http://www.portalmedico.org.br/resoluco- Recife, Sociedade de Anestesiologia do
cas cientificamente reconhecidas, es/CFM/2010/1950_2010.htm. Estado de Pernambuco, 2009.
sem olvidar da saudável relação 5. Kfouri Neto M. Responsabilidade Civil em 12. Agência Nacional de Vigilância Sa-
médico-paciente, inclusive da ob- Anestesiologia, em: Kfouri Neto M. Res- nitária (Brasil). Resolução RDC nº.
ponsabilidade Civil do Médico. 7ª ed. São 50, 21 fev 2002. Acessado em 31 maio
tenção do consentimento informa- Paulo, Revista dos Tribunais, 2010. 2014. Disponível em: http://portal.
do após os devidos esclarecimentos 6. Conselho Federal de Medicina (Brasil). anvisa.gov.br/w ps/wcm/connect/Ca-
e compreensão do paciente ou seu Processo-Consulta no 3.575/98 – PC/CFM 36b200474597459fc8df3f bc4c6735/
responsável legal16, respeitando sua no 56/1999. Pagamento de consulta aneste- R DC+N% C 2%B A .+5 0 ,+DE+21
siológica. Acesso em 31 maio 2014. Dispo- +DE+F E V E R E I RO +DE+2 0 0 2 .
autonomia, a cidadania e a dignida- pdf?MOD=AJPERES.
de da pessoa humana. ■ nível em: http://www.portalmedico.org.br/
pareceres /CFM/1999/56_1999.htm. 13. Meneses JAG. Ética no Tratamento da
7. Conselho Regional de Medicina do Es- Dor Pós-Operatória, em: Cavalcanti IL,
Referências: tado do Tocantins. Resolução nº 072/09. Gozzani JL. Dor Pós-Operatória. Rio de
Dispõe sobre a realização de ato anesté- Janeiro, Sociedade Brasileira de Aneste-
1. França, GV. Anestesia: Obrigação de siologia, 2004;417-25.
sico em cirurgias realizadas no estado
meios ou de resultados? Acessado em 24
do Tocantins. Acesso em 31 maio 2014. 14. Conselho Regional de Medicina de Per-
jun 2014. Disponível em: http://www.
Disponível em: http://www.portalmedi- nambuco. Resolução nº 1, de 3 abril 2006.
ibemol.com.br/sodime/artigos/obriga-
co.org.br/resolucoes/CR MTO/resoluco- Acesso em 31 maio 2014. Disponível em:
ção_meio_resultado.htm
es/2009/72_2009.htm. http://www.cremepe.org.br/leitorReso-
2. Conselho Federal de Medicina (Brasil). lucoes.php?cd_resolucao=56.
8. Conselho Federal de Medicina (Brasil).
Resolução nº 1.931/2009. Aprova o Código
Parecer nº 43/2003. O anestesista não 15. Conselho Regional de Medicina do Esta-
de Ética Médica. Diário Oficial da União,
deve realizar analgesias obstétricas si- do do Ceará. Resolução nº 44, de 1º out
24 set 2009; retificação publicada no Diá-
multâneas pelo risco a que pode expor 2012. Define e regulamenta as atividades
rio Oficial da União, 13 out 2009. Acesso
as pacientes de que cuida. Acesso em da sala de recuperação pós-anestésica
em 3 maio 2014. Disponível em: http://
31 maio 2014. Disponível em: http:// (SRPA). Acesso em 31 maio 2014. Dis-
w w w.portalmedico.org.br/resolucoes/
w w w.por ta l med ico.org.br/pa receres/ ponível em: http://www.cremec.com.br/
CFM/2009/1931_2009.htm.
CFM/2003/43_2003.htm resolucoes/res4412.pdf.
3. Conselho Federal de Medicina (Brasil).
9. Organização Mundial da Saúde. Segundo 16. Meneses JAG. Dilemas bioéticos na prá-
Resolução nº 1.802/2006. Dispõe sobre a
Desafio Global para a Segurança do Pacien- tica da anestesia. Rev Bras Anestesiol,
prática do ato anestésico. Revoga a Reso-
te: Cirurgias Seguras Salvam Vidas (orien- 2001;51:426-30.
lução CFM 1.363/1993. Diário Oficial da
tações para cirurgia segura da OMS). Rio
União, 1 nov 2006; retificação publicada no
de Janeiro: Organização Pan-Americana
Diário Oficial da União, 20 dez 2006. Aces-
so em 3 maio 2014. Disponível em: http://
da Saúde; Ministério da Saúde; Agência * O autor é presidente do
Nacional de Vigilância Sanitária, 2009.
w w w.portalmedico.org.br/resolucoes/
Acesso em 31 maio 2014. Disponível em:
Conselho Regional de Medicina
CFM/2006/1802_2006.htm. do Estado da Bahia
http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicaco-
4. Conselho Federal de Medicina (Brasil). es/seguranca_ paciente_cirurgias_segu-
Resolução nº 1.950/2010. O Conselho Fe- ras_salvam_vidas.pdf.
deral de Medicina e o Conselho Federal de
Odontologia estabelecem, conjuntamente, 10. Dantas E, Coltri M. Comentários ao Có-
critérios para a realização de cirurgias das digo de Ética Médica. 1ª ed, GZ, 2011.

20 | Anestesia em revista - Nº 03/2014


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Por Antônio Vanderlei Ortenzi *

A avaliação pré-anestésica é realmente


obrigatória? Como documentá-la?
• O clássico livro de anestesia do Dr. solicitará ou não exames com- Federal e Regionais de Medicina
Collins (1968) já possuía um capítu- plementares e/ou avaliação por ou desrespeitá-los.
lo sobre avaliação pré-anestésica1. outros especialistas.
Capítulo IV - Direitos Humanos
Pelo parecer CFM no 56/1999, a As seguintes fichas fazem parte
avaliação pré-anestésica é direi- É vedado ao médico:
obrigatória da documentação
to do paciente e dever do médi- da anestesia: Art. 22. Deixar de obter consen-
co anestesiologista 2 . timento do paciente ou de seu re-
1. Ficha de avaliação pré-anestési- presentante legal após esclarecê-lo
Na Resolução CFM no ca, incluindo: a. Identificação do sobre o procedimento a ser realiza-
1.802/20063 constam: anestesiologista; b. Identificação do, salvo em caso de risco iminente
do paciente; c. Dados antropomé- de morte.
“Art. 1o - Determinar aos médicos tricos; d. Antecedentes pessoais
anestesiologistas que: e familiares; e. Exame físico, in- Art. 24. Deixar de garantir ao pa-
cluindo avaliação das vias aéreas; ciente o exercício do direito de de-
I – Antes da realização de qualquer cidir livremente sobre sua pessoa
anestesia, exceto nas situações de f. Diagnóstico cirúrgico e doen-
ças associadas; g. Tratamento ou seu bem-estar, bem como exer-
urgência, é indispensável conhe- cer sua autoridade para limitá-lo.
cer, com a devida antecedência, (incluindo fármacos de uso atual
as condições clínicas do paciente, ou recente); h. Jejum pré-opera-
tório; i. Resultados dos exames Capítulo V - Relação com Pacien-
cabendo ao médico anestesiolo- tes e Familiares
gista decidir da conveniência ou complementares eventualmente
não da prática do ato anestésico, solicitados e opinião de outros es- É vedado ao médico:
de modo soberano e intransferível pecialistas, se for o caso; j. Estado
físico; k. Prescrição pré-anestési- Art. 31. Desrespeitar o direito do
(já constava na Resolução CFM no paciente ou de seu representante
1.363/934, revogada pela 1.802). ca; l. Consentimento informado
específico para a anestesia 3.” legal de decidir livremente sobre a
a) Para os procedimentos eletivos, execução de práticas diagnósticas
recomenda-se que a avaliação No Código de Ética Médica5 ou terapêuticas, salvo em caso de
pré-anestésica seja realizada em constam: iminente risco de morte.
consulta médica antes da ad- Art. 34. Deixar de informar ao
missão na unidade hospitalar. “Capítulo III - Responsabilidade
Profissional paciente o diagnóstico, o prog-
b)
Na avaliação pré-anestésica, nóstico, os riscos e os objetivos
baseado na condição clínica do É vedado ao médico: do tratamento, salvo quando a
paciente e procedimento pro- Art. 18. Desobedecer aos acórdãos comunicação direta possa lhe
posto, o médico anestesiologista e às resoluções dos Conselhos provocar dano, devendo, nesse
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A consulta tem como principal

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objetivo o melhor planejamento da
anestesia, com a diminuição do risco
anestésico e a devida orientação ao
paciente para o dia da cirurgia.

caso, fazer a comunicação a seu além de estimular a relação interpes- instituição e fornecido ao paciente
representante legal.” soal entre médico e paciente6. quando solicitado6.
A jurisprudência brasileira revela Recomenda-se que, durante a con- O Superior Tribunal de Justiça
que, na maioria dos casos em que o sulta pré-anestésica, se obtenha entende, através de jurisprudência
anestesiologista é condenado a in- o consentimento informado do consolidada, que deve ser aplicado
denizar o paciente, a principal causa paciente, através de documento o Código de Defesa do Consumi-
de condenação é a ausência de prova próprio que esclareça, de modo dor (CDC) aos serviços prestados
documental acerca do ato anestési- suficiente e verdadeiro, os riscos por médicos, incluindo-os entre a
co. Devem-se preencher, de forma envolvidos no procedimento, for- categoria de profissionais liberais
fiel e pormenorizada, todas as fichas necendo-lhe possíveis opções de abrangida pelo artigo 14 do referi-
obrigatórias da documentação da tratamento. É essencial para a pre- do diploma legal6.
anestesia, na forma exigida pela Re- venção de responsabilidade médica
solução CFM no 1.802/2006. Isso Os aspectos gerais da avaliação
por se tratar de instrumento pelo pré-anestésica podem ser vistos na
pode resguardar juridicamente o qual se comprova que o médico
anestesiologista, produzindo prova referência 9. Ela deve ser feita de
cumpriu com seus deveres de dar modo profissional e sem pressa,
sobre os procedimentos adotados informação de forma transparente.
durante o ato anestésico, o que via- com uma postura que gostaríamos
Deve ter linguagem acessível ao de encontrar num médico que fosse
bilizará eventual defesa em processo grau de conhecimento e instrução
de reparação de danos6. nos consultar. Isso melhora nossa
do paciente, devendo ser por ele imagem de médico especializado
Essas fichas obrigatórias devem ser examinado, tomando o médico o em anestesia.
arquivadas pelo médico pelo tempo cuidado de explicar os termos mé-
recomendado pelo CFM (20 anos). dicos nele contidos, bem como elu- O anestesiologista deve propiciar
O prontuário médico pode ser ar- cidar todas as dúvidas do paciente uma relação médico-paciente in-
quivado eletronicamente7. sobre os riscos do ato anestésico a tensa, de modo que permita que
Algumas condenações decorreram ser praticado e das consequências o paciente verbalize seus temores,
da ausência da consulta da ava- dos medicamentos anestésicos que faça todas as perguntas e receba
liação pré-anestésica ou de falha forem ministrados. Recomenda- respostas. Assim, estará tranquili-
da anamnese6. -se que, nas situações em que o ato zando o paciente, diminuindo sua
anestésico constitua excepcional angústia e ansiedade. A ansiedade
A consulta tem como principal ob- risco (isto é, fuja do risco inerente dificulta a retenção de informação
jetivo o melhor planejamento da a qualquer anestesia), essas condi- pelo paciente e, daí, a comunicação
anestesia, com a diminuição do risco ções clínicas peculiares e excepcio- inadequada. Nenhum paciente vê
anestésico e a devida orientação nais sejam registradas no Termo de sua cirurgia como “pequena”8.
ao paciente para o dia da cirurgia, Consentimento Informado6.
mediante o conhecimento, pelo A avaliação é feita através da
profissional médico, das doenças pre- A ficha de avaliação pré-anestésica anamnese, do exame físico e
existentes, o que permitirá relacioná- faz parte do prontuário médi- da verificação de exames com-
-las com a melhor técnica anestésica, co, que deve ser arquivado pela plementares, de modo dirigido
22 | Anestesia em revista - Nº 03/2014
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aos propósitos da anestesia. Os do sistema cardiovascular (dispneia, procurar indícios de patologia. Para
dados obtidos devem ser datados tosse seca, palpitações, arritmia, as crianças, explicar antes e clara-
e registrados na ficha de avaliação edema, hipertensão arterial, doen- mente o exame que vai ser feito8.
pré-anestésica, que é o primeiro ças vasculares cerebrais e periféri-
O exame físico deve ser realizado
documento médico-legal da anes- cas, dor pré-cordial, história antiga
tendo em vista altura; peso; cons-
tesia. Documentar tudo o que for ou recente de infarto do miocárdio;
tituição física; estado nutricional;
feito de modo que, se necessário, avaliar o grau de tolerância ao exer-
coloração da pele e das mucosas;
um perito possa entender. cício físico e alterações recentes dos
boca, nariz e orofaringe; previsão de
sintomas etc.); sistema respiratório
Letra bonita é um dom; letra legível via aérea difícil; sistemas respirató-
(dispneia, tosse, expectoração, chia-
é obrigação ética. Avisar o paciente rio (ronco, sibilo, estertores etc.) e
deira, história pregressa de asma
que se ele for atendido por outro cardiovascular (exame cuidadoso);
brônquica, enfisema, ronco, síndro-
anestesiologista, este terá todas as veias periféricas; exame da coluna
me da apneia obstrutiva do sono,
informações colhidas na ficha8. para anestesias espinais ou de outras
prematuros e ex-prematuros etc.);
regiões para outros bloqueios anes-
A anamnese deve ser realizada com sistemas endócrino e hematológico
tésicos; estado psicológico8.
o próprio paciente ou, se for o caso, (anemia, transfusão sanguínea pré-
com seus familiares. Pode-se iniciar via, coagulopatia, anemia falcifor- Os exames complementares fre-
com a pergunta: “Além do problema me etc.); sistemas gastrintestinal e quentemente são essenciais. Entre-
pelo qual vai ser operado, tem algu- hepático (vômito, hérnia de hiato, tanto, vários estudos têm mostrado
ma doença?” A seguir e com lingua- refluxo gastroesofágico, sintomas a falta de utilidade de bateria de
gem compreensível, indaga-se sobre de disfagia, icterícia, hepatite, co- exames feita por “rotina”. Por essa
outros itens, aprofundando-se mais agulopatia nas hepatopatias etc.); razão, os exames devem ser solici-
se a resposta mostrar a possibilidade sistemas urinário e musculoesquelé- tados com base na anamnese e no
de patologia associada8. tico (doenças musculoesqueléticas exame físico cuidadoso, bem como
podem estar associadas com maior na natureza do procedimento8.
Pelo menos os seguintes itens e suas incidência de hipertermia maligna);
implicações devem fazer parte da sistema nervoso central e âmbito Muitos pacientes tomam regular-
anamnese: anestesia anterior (in- psiquiátrico (avaliar eventuais alte- mente um ou mais medicamentos,
tercorrências, problemas com anes- rações neurológicas para comparar aos quais se acrescentarão outros
tesia na família, como hipertermia com mudanças pós-operatórias; nos durante a anestesia. O importan-
maligna, rigidez, anormalidades da pacientes com distúrbios psiquiátri- te é reconhecer a possibilidade de
colinesterase, porfiria, anemia fal- cos, avaliar a capacidade cognitiva, uma interação medicamentosa
ciforme etc.); hábitos (tabagismo, a capacidade de assinar o consen- antes que ela ocorra8.
alcoolismo, uso crônico de opioi- timento informado etc.); medica-
des, cocaína, maconha etc.); alergia mentos utilizados pelo paciente8. Todo esforço deve ser feito no sen-
(medicamentos, antissépticos, espa- tido de se obterem informações
radrapo, látex etc.); data da última Durante a anamnese e o exame fí- sobre os medicamentos e as doses
menstruação (“Está grávida ou exis- sico, devem ser usados os sentidos que o paciente vem utilizando,
te essa possibilidade?”); patologias de visão, audição, olfato e tato para incluindo os fitoterápicos, muitas

Artigos Científicos | 23

Todo esforço deve ser feito no

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sentido de se obterem informações
sobre os medicamentos ...

4. Conselho Federal de Medicina (Brasil).


Resolução nº 1363/93. Diário Oficial da
União, 22 mar 1993; Seção I. Revogada
pela Resolução CFM nº 1802/2006. Aces-
so em: 25 jun 2014. Disponível em: http://
w w w.portalmedico.org.br/resolucoes/
CFM/1993/1363_1993.htm
5. Conselho Federal de Medicina (Brasil).
Código de Ética Médica. Acesso em 23 jun
2014. Disponível em: http://www.portal-
medico.org.br/novocodigo/campanha.asp
6. Bagatini A, Gomes GJ, Luchtenberg AA et
al. A Responsabilidade Civil na Anestesio-
logia, Rio de Janeiro, Sociedade Brasileira
de Anestesiologia/SBA, 2013.
7. Conselho Federal de Medicina (Brasil).
vezes não relatados espontanea- devem ser arquivados no prontu- Resolução no 1821/2007. Aprova as nor-
mente. É útil seguir uma rotina. ário médico tão logo seja possível. mas técnicas concernentes à digitalização
e uso dos sistemas informatizados para a
Pode-se começar com uma pergun- guarda e manuseio dos documentos dos
ta genérica, como “Toma algum Pelo exposto, não há dúvidas de
prontuários dos pacientes, autorizando a
remédio?”. Em seguida, pode-se que, sob todos os aspectos, a ava- eliminação do papel e a troca de informa-
indagar a razão de seu uso, se para liação pré-anestésica é realmente ção identificada em saúde. Diário Oficial
obrigatória e deve ser documenta- da União, 23 nov 2007; Seção 1. Acesso
o coração ou a pressão, sempre de
forma acessível ao paciente. Costu- da em ficha apropriada. ■ em 26 jun 2014. Disponível em: http://
w w w.portalmedico.org.br/resolucoes/
mava-se suspender o uso de vários CFM/2007/1821_2007.pdf
medicamentos alguns dias antes 8. Ortenzi AV. Avaliação Pré-Anestésica, em:
da anestesia. Atualmente, prefere- Referências: Cangiani LM, Slullitel A, Potério GMB et
al. Tratado de Anestesiologia SAESP, 7a ed.
-se manter a maioria da medicação 1. Collins VJ. Valoracyón y preparación São Paulo, Atheneu, 2011;1.301-22.
necessária por problemas clínicos8. preanestésicas, em: Collins VJ - Aneste-
siologia, 1a ed, México, Interamericana,
Após a descrição sobre o tipo 1968;148-70.
*O autor é professor doutor
2. Conselho Federal de Medicina (Brasil).
proposto de anestesia/analgesia, aposentado do Departamento
Processo Consulta no 3575/98 – PC/CFM
orientação sobre o jejum e a medi- no 56/1999. Pagamento de consulta aneste- de Anestesiologia (FCM – UNI-
cação pré-anestésica (se indicada), siológica. Acesso em 25 jun 2014. Disponí- CAMP); TSA-SBA com cer-
pode se dizer ao paciente: “Tem vel em: http://www.portalmedico.org.br/ tificado de atuação na Área de
pareceres/CFM/1999/56_1999.htm
alguma pergunta a fazer sobre a Tratamento da Dor SBA – AMB;
3. Conselho Federal de Medicina (Brasil).
anestesia?”8. Com a resposta às Resolução nº 1802/2006. Dispõe sobre a Título de Especialista em Acu-
eventuais perguntas, encerra-se a prática do ato anestésico. Diário Oficial da puntura (TEAC) AMB, Colégio
entrevista e solicita-se a assinatu- União, 1 nov 2006; Seção I. Retificação pu- Médico de Acupuntura; membro
ra do consentimento esclarecido blicada no Diário Oficial da União 20 dez
2006, Seção I. Acesso em: 26 jun 2014. Dis-
da Comissão Científica SAESP
e informado. Idealmente, este e a ponível em: http://www.portalmedico.org. 2014-2015; coordenador do curso
ficha de avaliação pré-anestésica br/resolucoes/cfm/2006/1802_2006.htm Controle da Via Aérea - SBA.
24 | Anestesia em revista - Nº 03/2014
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Artigos Científicos
Por Luis Antonio dos Santos Diego *

O consentimento informado deve ser


específico para a anestesia
• O consentimento informado é um método, mostrando as implicações O Termo de Consentimento Infor-
elemento essencial ao atual exercício da das possíveis escolhas, desmitificando mado de Anestesia (TCIA) deve ser
medicina, como um direito do paciente dúvidas, medos, crenças sobre o ato aplicado em qualquer unidade em que
e um dever moral e legal do médico. O anestésico e o profissional. Também sejam realizados procedimento anes-
respeito à autonomia do paciente que, nesse aspecto é relevante a consulta tésico, sedação ou cuidado anestésico
então, se apresenta apto a decidir se pré-anestésica realizada antes do pro- continuado. Ou seja, não apenas em
prefere se manter no estado de saúde cedimento e em ambiente ambulato- centros cirúrgicos, mas também em
em que se apresenta ou se submeter a rial, de modo que paciente e familiares hospital-dia, ambulatório, clínicas
um tratamento relativamente perigoso, envolvidos possam vir a ter a oportuni- odontológicas, de imagem ou outras
deve ser devidamente esclarecido pelo dade de refletir sobre o que foi apresen- de atendimento externo e até em uni-
profissional que o atende. tado e discutido sobre o procedimento dades de cuidados intensivos. A Reso-
anestésico. Essa discussão faz parte do lução CFM 1.886/20082 apresenta as
A Resolução 1.802/2006, do Con-
processo de obtenção do consentimen- normas para os procedimentos anes-
selho Federal de Medicina (CFM)1,
to para a anestesia. tésicos nessas respectivas unidades.
que determina o ordenamento legal
da prática assistencial do anestesio- O consentimento informado é cons-
logista em nosso país, relaciona, no tituído por cinco elementos distintos: Posto que o Termo de Consentimento
item 1 de seu anexo, os documentos competência, comunicação, compre- Informado de Anestesia é necessário
que devem ser apresentados duran- ensão, voluntariedade e consentimen- e obedece aos preceitos éticos atuais,
te a avaliação pré-anestésica. Entre to propriamente dito. Esses elementos deve-se ter atenção a sua apresentação
esses documentos está o consenti- são a base da elaboração de um con- e aos detalhes que surgirem durante a
mento informado específico para a sentimento informado com validade entrevista. Os profissionais de saúde
anestesia, de modo que os procedi- ética e moral. devem compreender a importância da
mentos eletivos que, eventualmente, educação do paciente, que ajuda no
O paciente vai fornecer seu consen-
necessitem de intervenção do anes- entendimento da informação que os
timento se for competente para agir,
tesista, seja com monitoração do pa- pacientes e familiares recebem. Por
receber a informação completa, com-
ciente consciente, sedação ou outros isso, ela deve ser consistente e o mais
preender essa informação, decidir-se
procedimentos anestésicos, deverão abrangente possível. Por esse motivo,
por vontade própria e, por fim, con-
ser, antecipadamente, explicados ao convém que a apresentação do TCIA
sentir a informação.
paciente e esclarecidos os possíveis seja realizada por profissional que
riscos de complicação e eventos ad- Na visita pré-anestésica, já em am- tenha conhecimento do assunto, além
versos não esperados previamente. biente hospitalar e realizada poucos de vontade de ensinar e de se comuni-
momentos antes do procedimento car efetivamente, isto é, em linguagem
O planejamento da anestesia, realizado anestésico, essa oportunidade de re- adequada ao paciente ou familiar.
preferencialmente no consultório de flexão, embora possível em situações Convém utilizar-se de formas e figu-
anestesia, deve contemplar as escolhas menos críticas, pode ficar comprome- ras de linguagem que adaptem o con-
do paciente e seus familiares, cotejan- tida e vir a aumentar a ansiedade de teúdo necessário ao entendimento
do as vantagens e as limitações de cada pacientes e familiares. mínimo esperado.

Artigos Científicos | 25

O Termo de Consentimento Informado de

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Anestesia (TCIA) deve ser aplicado em
qualquer unidade em que sejam realizados
procedimento anestésico, sedação ou
cuidado anestésico continuado.

Considerações sobre a aplicação adequado, sem alarme, possíveis conse- não venha a interferir sobremaneira
do TCIA quências desfavoráveis, sem esquivar-se na conduta médica, comprometendo
de tratar das dificuldades inerentes à o prognóstico do paciente. A possi-
O profissional de saúde deve omitir de
gravidade do ato anestésico em ques- bilidade do uso de hemoderivados e
seus pacientes detalhes clínicos ou sobre
tão. Informações sobre os riscos mais hemocomponentes deve ser abordada
o procedimento, com o intuito de retar-
frequentes na conduta escolhida e sua em consentimento específico de he-
dar o medo e a ansiedade que podem sur-
probabilidade de ocorrência não devem motransfusão e claramente estabeleci-
gir após a revelação de possíveis eventos
ser omitidas e, na maioria das vezes, da antes do procedimento anestésico
desfavoráveis? A decisão é difícil, sobre-
orientam o paciente e seus familiares na eletivo, de modo a se evitarem proble-
tudo porque são diversas as formas e os
tomada de decisão junto com o profis- mas éticos e até judiciais.
graus possíveis de danos, assim como são
sional. O anestesista não deve se esque-
inúmeras consequências e resultados. As A apresentação clara, judiciosa e,
cer, nesse momento, de que a atenção
razões de certas violações dos fatos – e a principalmente, em termos adequa-
necessária à apresentação do TCIA é
omissão é também uma forma de falta dos à capacidade cognitiva do pa-
diretamente proporcional à gravidade
com a verdade – ocorrem na maioria das ciente e familiares será um reforço à
das consequências possíveis e inversa-
pessoas e com relativa frequência. Algu- boa relação médico-paciente e vai co-
mente proporcional à capacidade de
mas vezes, pode ser que haja razões “su- laborar para o entendimento entre as
compreensão (cognitiva) do paciente e
ficientes” para mentir, mas quando? Na partes na eventual ocorrência de um
maioria das vezes, não há. A honestida-
de seus familiares. Quanto maior o risco
e menor a capacidade de compreensão,
desfecho desfavorável. ■
de, por outro lado, talvez seja o valor que
mais detalhes devem ser apresentados e
mais importa para os pacientes nos mo- Referências
discutidos adequadamente.
mentos críticos que envolvem sua saúde. 1. Conselho Federal de Medicina (Brasil). Re-
Tais escolhas há muito pertenciam à Havendo necessidade de ato anesté- solução nº 1.802, de 4 de outubro de 2006.
Dispõe sobre a prática do ato anestésico.
relação médico-paciente tão somente e sico em procedimentos de urgência, Revoga a Resolução CFM nº 1.363/1993.
derivavam de um posicionamento pater- nos quais se observa a impossibilidade Diário Oficial da União, 1 nov 2006; Seção
nalista, oriundo da presunção da deten- de um familiar estar presente e poder 1; retificação publicada no Diário Oficial da
consentir e firmar o TCIA, o aneste- União, 20 dez 2006, Seção 1.
ção absoluta do conhecimento científico
2. Conselho Federal de Medicina (Brasil).
por parte do médico. siologista e o cirurgião devem fazer as Resolução nº 1.886, de 13 de novembro
devidas anotações no prontuário do de 2008. Dispõe sobre as normas mínimas
A filosofia moral foi, por algum tempo, paciente, caracterizando o risco imi- para o funcionamento de consultórios
o guia para a análise dessas questões e nente de morte ou dano irreversível3. médicos e dos complexos cirúrgicos para
procedimentos com internação de curta
a formulação de padrões de conduta. Assim, o consentimento é considerado permanência. Diário Oficial da União, 21
Entretanto, a bioética, ainda no século implícito, presumindo-se que o pacien- nov 2008, Seção 1.
XX, considerou não só as questões éti- te concordaria com ele se capaz fosse de 3. Gifoni JMM, Alves Neto O. O Termo de
cas e filosóficas, mas também as ques- ser informado pelo médico. A justifica- Consentimento Informado: aspectos bioé-
ticos e legais, em: Salman FC, Diego LAS,
tões legais e humanísticas. ção ética é o princípio da beneficência, Silva JH et al. Qualidade e Segurança em
aplicado na maioria desses casos. Anestesiologia. Rio de Janeiro. Sociedade
Ao levar em conta essas questões éticas,
Brasileira de Anestesiologia, 2012;113-119.
a aplicação do TCIA requer do profis- As religiões e crenças sobre saúde,
sional a transparência das informações doença e tratamentos podem influen- * O autor é presidente da
sobre o procedimento a ser realizado. ciar as escolhas dos pacientes quanto Comissão de Qualidade e
O anestesista deve encontrar tempo e aos cuidados de saúde, devendo-se Segurança em Anestesia - SBA
discernimento para informar, de modo respeitar a sua preferência, desde que

26 | Anestesia em revista - Nº 03/2014


SBA

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Artigos Científicos
Por Desiré Carlos Callegari *

A realização de anestesias simultâneas em


relação à ética e bioética
• O Conselho Federal de Medici- simultânea pode ser tipificada como pacientes, o que se baseia no ditame
na (CFM) ao editar a Resolução nº desrespeito ao artigo 18, pois é vedado “primum non nocere”. Assim, ao realizar
1.802/06, o fez com muita proprieda- ao médico desobedecer aos acórdãos e procedimentos simultâneos, o médico
de, pois é de extrema relevância para às resoluções dos Conselhos de Medi- estará contribuindo com o risco de
pacientes que terão de se submeter a cina. Se houve dano a um dos pacientes causar danos aos pacientes.
qualquer tipo de ato anestésico. O texto e haja nexo causal, houve desrespeito
atualiza os critérios para sua prática, ao artigo 1º, que proíbe o profissional No que se refere ao princípio da auto-
além de dispor sobre as condições de de causar prejuízo por ação ou omissão, nomia, pode-se dizer que sua base de
segurança obrigatórias do pré ao pós- caracterizável como imperícia, impru- fundamentação é a moral. Ele se ori-
-operatório, indicando equipamentos e dência ou negligência. Saliente-se que gina no reconhecimento de que todas
requisitos mínimos para sua realização a responsabilidade médica é sempre as pessoas têm valor incondicional e
em qualquer instituição de saúde. pessoal, não podendo ser presumida. capacidade para determinar o próprio
destino. Nesse sentido, a autonomia
Publicada no Diário Oficial da União Se o médico transferiu para um en- visa o reconhecimento do direito indi-
em 1º de novembro de 2006, a Re- fermeiro ou técnico de enfermagem a vidual às opiniões e escolhas. Se esse
solução 1.802/06 resultado trabalho tarefa de executar ações que deveriam entendimento é violado, o indivíduo
conjunto de Câmara Técnica do CFM, ser feitas por ele, houve infração do passa a ser tratado como meio e não
Associação Médica Brasileira (AMB) e artigo 2º, pois lhe é vedado delegar a como fim, limando-lhe a possibilidade
Sociedade Brasileira de Anestesiologia outros profissionais atos ou atribuições de opinar sobre os processos aos quais
(SBA). Quando de sua edição, substi- exclusivas da Medicina. Dependendo seria submetido.
tuiu a Resolução CFM nº 1.363/93. do caso outros artigos poderão acom-
Finalmente, evocamos o princípio da
panhar a tipificação do processo ético.
Em seu artigo 1º, inciso IV, a Re- justiça, que em bioética entendemos
solução 1.802/06 define que é ato Não podemos esquecer da impor- como uma manifestação da equidade.
atentatório à ética médica a reali- tância que uma condenação ética A igualdade de direitos para todos os
zação simultânea de anestesias em pode ter, especialmente se tipificada seres humanos se refere às normas re-
pacientes distintos, pelo mesmo segundo o artigo 1º do CEM. Já que conhecidas por indivíduos livres. Por-
profissional. Do ponto de vista ético, havendo recurso jurídico pela parte tanto não seria justo para os pacientes
o anestesiologista ao realizar proce- prejudicada poderá resultar também serem submetidos a procedimentos
dimentos simultâneos infringe essa em condenação na justiça cível, com simultâneos com todos seus riscos o
regra e, se houver denúncia, fica sujei- reparação indenizatória, e condena- que, certamente, implica em necessário
to a sindicância, abertura de processo ção na justiça criminal. respeito mútuo. Será que o médico gos-
ético-profissional e penas decorren- taria de ser submetido a uma anestesia
tes de eventual condenação. Do ponto de vista bioético, o aneste- por um colega profissional que realizas-
Essas situações podem ser enquadra-
siologista que infringe a Resolução se um procedimento simultâneo? ■
1.802/06, também agride alguns de
das como infração a diferentes itens seus princípios. A beneficência e a não * O autor é presidente da Comis-
do Código de Ética Médica (CEM). maleficência afirmam que os profis- são de Honorários Médicos - SBA
Por exemplo, a realização de anestesia sionais não devem causar danos aos

Artigos Científicos | 27
SBA

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Artigos Científicos
Por José Mauro Mendes Gifoni*, José Ajax Nogueira
Queiroz**

O uso de celular no centro cirúrgico durante


procedimento médico é ato antiético?
• Pode caracterizar crime dolo- qualidade de vida, diante de uma fatos dessa ordem não são tão raros e
so ou culposo? doença irrecuperável. ocorrem, às vezes, mesmo na presen-
Do ponto de vista ético, conside- ça de familiares do paciente que, com
É incontestável que o telefone celular a anuência dos médicos, acompa-
é um instrumento de comu­nicação rando-se o momento especial e
delicado experimentado pelo pa- nham pessoalmente o ato cirúrgico.
extremamente importante nos
tempos atuais. Na relação médico- ciente durante um ato anestésico- Em 1998, o nobre conselheiro
paciente, é uma ferramenta de muita -cirúrgico, é indiscutível que o foco Alcino Lázaro da Silva, do CRM-
utilidade para o manejo do paciente, da atenção da equipe como um -MG, em parecer eivado de sóli-
pois permite ao profissional tomar todo, especialmente do cirurgião e dos argumentos técnicos e éticos,
conhecimento de alterações, com- do anestesiologista, deve se voltar chamava a atenção para o fato de
plicações ou agravamento do estado para as decisões e condutas neces- que um procedimento desse nível
de saúde do doente em tempo hábil, sárias à segurança do paciente. de responsabilidade exige sempre
tornando possível nova tomada de de- Imagine o constrangimento e a sen- dos profissionais competência,
cisão por meio de contatos com outros sação de menosprezo à vida e à saúde concentração e respeito, sendo
colegas médicos, para beneficiá-lo. experimentados por um paciente inaceitável sua interrupção ainda
submetido a procedimento cirúrgico que passageira durante uma liga-
Todavia, a relação médico-pacien- ção telefônica (salvo em caso de
te é sui generis em sua natureza, sob anestesia regional, epidural ou ra-
quidiana, ainda que sob leve sedação, extrema urgência), caracterizando
razão pela qual deve ser apreciada notório desvio de atenção, o qual,
caso a caso, o que exige sempre mas plenamente consciente e capaz
de ouvir e entender que o cirurgião dependendo de suas consequên-
respeito à autonomia do doente, cias, poderia resultar na imputação
ressalvadas as condições de ex- ou o anestesista está se comunicando
por telefone, conversando sobre um de negligência e/ou imprudência
trema urgência e risco iminente aos médicos assistentes, passíveis
de morte, bem como confiança jogo de futebol, uma festa ou outro
problema qualquer não relacionado de processo ético-profissional
mútua pautada no compromisso (PEP) e de condenação por seu
do paciente de seguir rigorosa- com a cirurgia.
conselho regional.
mente a orientação e prescrição do O fato pode assumir proporções
médico assistente. Por outro lado, apavorantes se ele notar que o uso Hoje a situação tornou-se mais
o médico deve se empenhar para do aparelho é concomitante com a frequente, agravada pela univer-
envidar todos os esforços, recur- utilização de um bisturi elétrico, uma salização da telefonia móvel, bem
sos diagnósticos e terapêuticos sutura etc., pelo cirurgião, ou mesmo como pelo desenvolvimento de alta
disponíveis, dedicando ao pacien- com a verificação de um simples sinal tecnologia, o que possibilita aos
te o máximo de zelo e atenção em vital pelo anestesiologista! Quem tra- usuários acessar a internet, trocar
prol de sua saúde ou de melhor balha no centro cirúrgico sabe que mensagens a qualquer instante,
28 | Anestesia em revista - Nº 03/2014

... o foco da atenção da equipe

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como um todo, especialmente do
cirurgião e do anestesiologista, deve
se voltar para as decisões e condutas
necessárias à segurança do paciente.

anexar e utilizar jogos (baralho, xa- Nesse sentido, Roberto Figueiredo, responsabilidade médica nas es-
drez e outros), caracterizando um biomédico de notório conhecimen- feras ética, administrativa, civil
flagrante desrespeito ao paciente e to no ramo, declarou enfaticamen- e penal, o médico só deve ser
descaso para com sua vulnerabili- te que “o aparelho celular tem mais punido pela prática de ato ilícito
dade naquele instante. bactéria do que a sola de um sapato caracterizado por uma ou mais
Como se não bastasse esse enfo- e que não deveria nunca estar pre- modalidades de culpa previstas
que ético irrefutável, é também sente no centro cirúrgico”. no Código de Ética Médica (CEM
de pleno conhecimento da comu- – negligência, imperícia e impru-
nidade científica internacional, dência) e recepcionadas nos Códi-
inclusive dos experts em eletrôni- gos Civil e Penal brasileiros, sendo
ca, engenharia elétrica e demais ainda estritamente obrigatória a
áreas do conhecimento em bios- comprovação de um liame (nexo
segurança hospitalar, que o uso causal) entre o dano resultante e o
desses sistemas de comunicação ato praticado.
em ambientes restritos e repletos Dependendo da consequência e
de outros instrumentos eletroe- da maneira como foi efetuado o
letrônicos pode, dependendo da ato, no âmbito penal, o crime po-
distância e da magnitude de suas derá ser considerado culposo (sem
emissões, afetar e comprometer o intenção de obter o resultado),
bom funcionamento de aparelhos com pena mais branda, ou dolo-
de ECG, desfibriladores, bisturis Recentemente, um ato antiético so, muito mais grave, quando está
elétricos, monitores etc. se tornou público quando estu- presente a intenção.
Além da distração dos profissionais dantes do Hospital Universitário É importante ressaltar que, mesmo
e da interferência em outros apare- Estadual de Londrina, postaram, sendo extremamente raro e inaceitá­
lhos, há o risco de contaminação via internet, imagens de um pa- vel, sob todos os aspectos, o crime
microbiológica pelo uso dos celu- ciente obtidas por fotos atra- doloso cometido por profissionais
lares no centro cirúrgico, ambiente vés de celulares, durante um de saúde em geral, merecendo, sim,
que precisa de extremos cuidados ato anestésico-cirúrgico naquela severa punição, em alguns casos,
tecnológicos para reduzir e/ou instituição, sem seu prévio con- ainda que não havendo a manifesta
eliminar a presença de agentes mi- sentimento. Tal fato culminou intenção de prejudicar o doente (o
crobianos causadores de indeléveis com ato administrativo exarado que seria um verdadeiro absurdo), o
prejuízos para os pacientes, me- pela Magnífica Reitora da Uni- Ministério Público e a jurisprudência
diante o desenvolvimento de gra- versidade Estadual de Londrina, têm-se manifestado pela caracteriza-
ves infecções hospitalares, o que proibindo definitivamente o uso ção de crime doloso eventual quando,
tem preocupado o mundo inteiro, de aparelho celular no centro ci- por desídia, o profissional assumiu o
sobretudo os competentes médicos rúrgico daquela instituição. risco ao perpetrar uma ação nitida-
atuantes nas comissões de controle Do ponto de vista ético e legal, mente deletéria para o paciente, ainda
de infecções. considerando-se a magnitude da que não fosse essa sua intenção.

Artigos Científicos | 29
SBA

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Artigos Científicos

Convém destacar publicação re- Nessa mesma linha, o Hospital da deve-se levar em conta cada pecu-
cente da Academia Mineira de Baleia (Belo Horizonte, MG), refe- liaridade desse comportamento (uso
Medicina (16/9/2013), em que rência em atividades assistenciais, do celular no centro cirúrgico ou na
ressalta que as ondas eletromag- de ensino e pesquisa, proibiu o uso UTI), consoante exemplificado a
néticas dos aparelhos celulares de celulares nos ambientes dos cen- seguir: diante de uma intercorrên-
interferem nos sensíveis equipa- tros cirúrgicos e da UTI, por conta cia anestésico-cirúrgica, o cirurgião
mentos eletrônicos de aeronaves, do risco de interferência nos equi- responsável ou o anestesiologista
razão pela qual seu uso é proibido pamentos médicos e hospitalares. entra em contato, por telefone, com
em viagens nacionais e/ou inter- outro profissional de sua área de
nacionais. Do mesmo modo, há Em Portugal, o Ministério da atuação, para discutir objetivamen-
uma recomendação expressa para Saúde, por meio da Direção-Geral te o caso, tomando uma decisão a
que sejam desligados em postos de da Saúde, emitiu a Circular Infor- partir daí bem mais fundamentada.
gasolina, por ocasião do abasteci- mativa no 26/DAS, de 2/6/2006, É notório que o foco do diálogo é
mento, pelo risco de incidentes por determinando, após três anos de a segurança do paciente, estando o
vapores de combustão; no Brasil, pesquisa com grupos de trabalho profissional amparado em um prin-
na Inglaterra e em muitos outros sobre campos eletromagnéticos cípio fundamental do Capítulo I,
países, seu uso é vetado pelo moto- relacionados com a interferência inciso II, do CEM, que estabelece
rista ao volante, posto que afeta a de celulares em equipamentos mé- que alvo de toda a atenção do mé-
concentração, aumentando consi- dico-hospitalares, que “estes apare- dico é a saúde do ser humano, em
deravelmente o risco de acidentes lhos não devem ser utilizados em benefício do qual deverá agir com
de trânsito. Como justificar, então, salas de cuidados intensivos, uni- o máximo de zelo e o melhor de sua
o uso indiscriminado de celular dades coronarianas, blocos opera- capacidade profissional.
em ambientes como o centro ci- tórios e salas de emergência”.
rúrgico e/ou a UTI, lugares re- Durante uma operação, o telefone
pletos de aparelhos eletrônicos de do cirurgião toca e, sem parar o pro-
alta precisão, indispensáveis para cedimento, ele pede que uma auxi-
a monitorização, segurança, ma- liar de enfermagem coloque o fone
nutenção e até reanimação de um no seu ouvido. Inclina a cabeça para
paciente, em que, além da presença apoiar o aparelho e prossegue por
de gases combustíveis usados pelo alguns minutos, conversando sobre
anestesista e do bisturi elétrico do assuntos particulares e operando.
cirurgião, se exige o máximo de Está ou não passível de desconcen-
atenção ao paciente? tração com elevado potencial de
risco, semelhante ao experimenta-
Não foi, portanto, sem razão que do por um motorista que faz uso do
a nobre academia de medicina celular ao volante? Se dessa prática
supracitada sugeriu ao CFM a resultar dano para o paciente, por
proibição rígida do seu uso nesses Focando especificamente na aná- exemplo, uma lesão arterial segui-
ambientes hospitalares. lise do mérito do tema proposto, da de hemorragia de vulto ou uma

30 | Anestesia em revista - Nº 03/2014



“o aparelho celular tem mais

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bactéria do que a sola de um
sapato e que não deveria nunca
estar presente no centro cirúrgico”.

lesão neural com sequelas motoras mesmos atos supracitados, pre- a lesão é de natureza grave, com
e/ou sensitivas, é evidente que pode domina, na doutrina e jurispru- incapacidade para as ocupações
ser responsabilizado pelo dano, dência nacional, o entendimento habituais por mais de 30 (trin-
nos termos do Art. 1o, do CEM, de que o quantum indenizatório ta) dias, resultando em perigo de
que veda ao médico causar dano deve ficar ao prudente arbítrio do vida ou debilidade permanente
ao paciente, por ação ou omissão, juiz, não devendo ser meramente de membro, sentido ou função, a
caracterizada como imperícia, im- simbólico ou irrisório, sem repre- pena é de reclusão de 1 (um) a 5
prudência ou negligência. sentar qualquer punição ao infra- (cinco) anos; se resulta em incapa-
tor, tampouco ensejar fonte de cidade permanente para o traba-
Numa cirurgia de cabeça e pesco- enriquecimento ilícito, claramen- lho, enfermidade incurável, perda
ço, o anestesiologista se desconcen- te vetada em nossos dispositivos ou inutilização de membro, sen-
tra, conversando ao telefone, até constitucionais. Assim, deve o tido, função ou deformidade per-
que, subitamente, é chamado pelo magistrado agir com moderação e manente, a pena de reclusão pode
cirurgião porque “o sangue está proporcionalidade, considerando variar de 2 (dois) a 8 (oito) anos.
escuro”. Só então ele percebe que o o dano causado, a intensidade da
paciente está com grave hipotensão Ao particularizar o uso do tele-
culpa, as condições econômicas fone móvel na medicina, temos
arterial ou que ocorreu uma desco- da vítima e do ofensor, atento às
nexão do tubo endotraqueal com o vantagens e desvantagens. Entre
peculiaridades de cada caso. as vantagens, verifica-se a possi-
respirador, culminando com para-
da cardiorrespiratória. Já o Código Penal é bem específico: bilidade do uso do celular na tele-
medicina, em seu sentido amplo,
Nos dois exemplos hipotéticos ci- Art. 121 – Homicídio simples (inclu- como estabelece a Resolução no
tados, dependendo da gravidade e ído aqui o dolo eventual). Pena – re- 1.643/2002, do CFM, “Art. 1o
extensão do dano (lesão corporal clusão de 6 (seis) a 20 (vinte) anos; – Definir a telemedicina como
leve, grave ou óbito), na esfera dos Art. 121, § 3o – Homicídio culpo- o exercício da medicina através
conselhos de medicina, uma vez so (sem intenção de matar). Pena da utilização de metodologias
caracterizados ao longo do PEP, os – detenção de 1 (um) a 3 (três) interativas de comunicação au-
atos éticos ilícitos como negligên- anos, com a possibilidade de diovisual e de dados, com o ob-
cia e/ou imprudência, levando-se aumento de pena relativa a erro jetivo de assistência, educação e
em conta ainda outros aspectos, profissional estabelecida; no § 4 o pesquisa em saúde”. Assim, é ple-
como reincidência ou não, a pena – No homicídio culposo, a pena é namente aceitável seu uso, inclu-
poderá variar em ordem crescente: aumentada de 1/3 (um terço) se sive em ambiente hospitalar e de
advertência confidencial; censura o crime resulta de inobservância assistência médica, desde que de
confidencial; censura pública; sus- de regra técnica de profissão, arte forma adequada e em benefício
pensão das atividades profissionais ou ofício; do paciente (primeiro exemplo
por 30 dias e, em último caso, cas- citado anteriormente).
sação do registro profissional. Art. 129 – Lesão corporal. Ofen-
der a integridade corporal ou a Nos Estados Unidos, Pereira
Havendo ação reparatória por saúde de outrem. Pena – detenção BMT e col, em 2011, publicaram
danos morais na área cível pelos de 3 (três) meses a 1 (um) ano. Se interessante trabalho científico
Artigos Científicos | 31
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com uma lista de avaliação da todos os celulares de médicos e en- *O autor doutor em farmacolo-
interrupção/distração na sala de fermeiras que atuam nesses locais, gia; professor associado III da
cirurgia de trauma e concluíram atendendo e filtrando as ligações, Faculdade de Medicina – UFC;
que as interrupções e distrações avisando aos interessados sobre especialista em medicina interna
são uma realidade e devem ser cada uma delas, após o final do – AMB; especialista em medicina
estudadas pelo cirurgião do trau- trabalho ou de um procedimento. intensiva – AMIB; especialista em
ma, com estratégias de prevenção Em casos excepcionais e urgentes, direito público (área de Direito
e linhas de defesa que devem ser sobretudo aqueles de interesse dos Processual Civil); especialista em
desenvolvidas para minimizar e pacientes, a informação seria pas- direito constitucional; membro
reduzir seus efeitos. sada de imediato. ■ do Comitê de Ética em Pesquisa
(CEP) do Hospital Universitário
Pelas razões expostas, conside- Wálter Cantído, da UFC; mem-
ramos que as entidades médicas Referências:
bro da Comissão de Bioética do
como um todo, especialmente a 1. Cabral SC, Muhlen SS. Interferência
Hospital Infantil Albert Sabin;
Sociedade Brasileira de Aneste- eletromagnética em equipamentos
eletromédicos ocasionada por tele- TSA-SBA.
siologia, o Colégio Brasileiro de fonia celular. Rev Bras Eng Biomed,
Cirurgiões e o Conselho Federal 2002;18:141-149.
de Medicina, precisam estabelecer 2. Conselho Federal de Medicina (Brasil). **O autor é doutor em imuno-
diretrizes e normas (recomenda- Resolução no 1.643 de 2002. Define e logia; professor associado IV da
ções, pareceres e/ou resoluções) disciplina a prestação de serviços atra-
vés da Telemedicina. Diário Oficial da
Faculdade de Medicina – UFC;
para coibir, restringir o máximo União 26 ago 2002, Seção 1. membro do Conselho Regional
possível e/ou regulamentar o uso de Medicina do Estado do Ceará
3. Gifoni JMM, Matos FAS, Maia PEG.
de aparelhos celulares em centros Da Responsabilidade Por Erro Médico: – CREMEC; membro do Comitê
cirúrgicos, SRPA e UTIs, em be- Aspectos Éticos, Cíveis e Penais. Forta- de Ética em Pesquisa do Hospital
nefício da população assistida e da leza, Expressão Gráfica, 2007. Universitário Wálter Cantídio –
boa prática médica. 4. Morrissey JJ, Swicord M, Balzano Q. UFC.
Characterization of electromagnetic
Uma hipótese razoável do uso de interference of medical devices in the
telefones celulares em ambientes hospital due to cell phones. Health
hospitalares de maior risco seria Phys, 2002;82:45-51.
a criação de uma central regula- 5. Pereira BMT, Pereira AMT, Correia CS
et al. Interrupções e distrações na sala
dora (anexa ao centro cirúrgico e de cirurgia do trauma: entendendo a
à UTI, por exemplo), com funcio- ameaçado erro humano. Rev Col Bras
nários habilitados para guardar Cir, 2011;38:292-298.

32 | Anestesia em revista - Nº 03/2014


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Por Irimar de Paula Posso *

O valor do preenchimento correto da ficha de


anestesia para a defesa do anestesiologista
• Um tema que vem preocupando das peculiaridades da atividade mé- serem feitos de forma clara, para que
sobremaneira os anestesistas é a dica. Por envolver eventos muitas peritos e juízes, que não têm conhe-
crescente demanda de processos vezes involuntários e alheios à von- cimento científico, possam entendê-
éticos e ações de responsabilidade tade de todos, não pode o anestesista -los, sem que haja a perda da precisão
civil em que, com caráter pejora- ser responsabilizado pelo resultado. das informações.
tivo, o termo “erro médico” é em- Ao anestesista cabe empregar sua A experiência tem mostrado que a
pregado. O aumento dos processos sabedoria e experiência para atingir ficha de anestesia é o mais importan-
éticos e judiciais com vistas a res- o melhor resultado possível, mas a te instrumento de prova na defesa
ponsabilizar o anestesista eviden- noção de contrato de meio envolve do anestesista, cujo conteúdo pode
cia a necessidade de que a ficha de também a ideia de empenho. Isso negar a responsabilidade do médico
anestesia, como um dos elementos significa que, além do emprego dos anestesista sobre o fato e provar que
do prontuário médico, seja preen- meios materiais e profissionais de os cuidados dedicados ao paciente
chida de modo correto. forma regular, o anestesista deve foram adequados. Porém, quando
O respeito e a consideração que provar que os aplicou corretamen- os registros são omitidos ou ano-
o anestesista sempre procurou te e que, além deles, não fez mais tados de forma displicente, o anes-
manter são obtidos pela excelên- porque não foi possível, embora tesista pode perder a possibilidade
cia de sua atividade médica, sendo querendo, procurando e tentando de comprovar a adequação de seus
essa excelência o resultado de sua melhor resultado. atos, e o que poderia absolver passa
conduta, que se exterioriza e per- Nos casos de indenização por erro a condenar.
petua pelos documentos do prontu- médico, visto que a responsabilidade Quando um anestesista é chama-
ário médico de responsabilidade do do médico é subjetiva, com a culpa do para um processo judicial, cabe
anestesista, entre os quais se inclui devendo ser provada, cabe à parte a ele demonstrar que agiu com a
a ficha de anestesia. A elaboração litigante provar a negligência, impru- diligência necessária. Para tanto,
de documentação que retrata fiel- dência ou imperícia do profissional. muitas, se não em todas as vezes, o
mente a anestesia, desde a avaliação caminho para provar a adequação
pré-anestésica até a evolução do A prova da culpa é, sem dúvida, difí-
cil de ser produzida, portanto, nesse de sua conduta, se culposa ou não,
paciente durante o período de recu- é por meio da ficha de anestesia,
peração, é um importante fator para ponto recai a enorme importância
dos registros feitos na ficha de aneste- que deve estar adequadamente pre-
confirmar a diligência do anestesio- enchida, o que é responsabilidade
logista na condução da anestesia. sia, tanto para o paciente demonstrar
a atitude culposa do médico quanto específica do anestesista.
A obrigação assumida pelo anestesis- para o médico provar o contrário. A ficha de anestesia é documento
ta é de meio, e não de resultado, e não Também vale ressaltar a importância aceito pelos tribunais como evi-
poderia ser de outra forma, por causa de os registros na ficha de anestesia dência dos atos praticados pelo
Artigos Científicos | 33

... ficha de anestesia possa ser

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admitida como elemento de prova, ela
deve ser elaborada com cuidado;

anestesista, e tanto pode servir


para exonerar o anestesista da res-
ponsabilidade como para demons-
trar que o autor da demanda tinha
razão e que seu caso não foi condu-
zido de maneira adequada.
Antes, a ficha de anestesia servia
como registro para auxiliar no ra-
ciocínio diagnóstico, delinear con-
duta terapêutica, ajudar em estudos
e pesquisas, colaborar para evolução
de conhecimento, troca de experi-
ências com outros colegas e cobrar
honorários. Ela ainda serve para os
mesmos fins, porém, nos dias atuais,
a ficha de anestesia tem um valor
não imaginado há algumas décadas,
o valor como prova judicial.
Para que a ficha de anestesia possa
ser admitida como elemento de
prova, ela deve ser elaborada com
cuidado; porquanto, a ausência de
informações pode significar má
qualidade da assistência prestada
ao paciente. A ficha de anestesia
deve ser uma descrição o mais pre-
cisa possível de tudo o que ocorreu,
demonstrando todo o procedimen-
to anestésico, os dados fisiológicos
e os eventos que porventura acon-
teceram, como vômito.
A ficha de anestesia deve conter
nome completo do paciente; data de
nascimento ou idade; sexo; núme-
ro de registro de internação; data;
hora de início e término da aneste-
sia e do procedimento diagnóstico Figura 1

34 | Anestesia em revista - Nº 03/2014


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ou terapêutico, cirúrgico ou não, os mecanismos para mantê-la em mínimo cinco anos. Não rasurar
que foi realizado; diagnóstico antes valores fisiológicos, bem com o a ficha de anestesia. Em caso de
e depois do procedimento reali- posicionamento do paciente. necessidade de retificações, as ano-
zado; procedimento diagnóstico tações erradas devem ser escritas
ou terapêutico, cirúrgico ou não, A ficha de anestesia deve sempre ser entre parênteses com a anotação
proposto e realizado; nome com- assinada pelo anestesista, com seu sem efeito ou expressões análogas,
pleto do anestesista ou anestesistas número de inscrição no CRM. A e só depois deve ser escrita a corre-
e dos cirurgiões com o respectivo aposição de carimbo é facultativa, ção, já que rasuras comprometem o
número do CRM. (Figura 1) Deve dependendo do hospital. No caso valor legal do documento.
registrar ainda o horário de entra- do preenchimento da ficha de anes-
da do paciente na sala cirúrgica ou tesia por médicos em treinamento, É essencial ter sempre em mente
de exames; o horário de início da é fundamental que o CRM, o nome que a ficha de anestesia como parte
anestesia e do procedimento, bem e a assinatura legível dele constem integrante do prontuário é do pa-
como o horário de término da anes- da ficha, além dos mesmos dados ciente e que ele pode usá-la contra
tesia, do procedimento e da saída do anestesista titular. o anestesista em uma demanda
do paciente da sala onde se realizou administrativa, ética ou judicial. A
Se ocorrer algum evento adverso, pressa em seu preenchimento con-
o ato médico. Devem ser anotados devem ser anotados, na ficha de
peso; altura; os sinais vitais e a sa- corre para sua má utilização e pre-
anestesia, o momento e o tipo de juízo do anestesista e do hospital,
turação de oxigênio no momento evento adverso, bem como a des-
de entrada e saída do paciente da portanto, as anotações precisam
crição detalhada do fato em um ser legíveis, com linguagem clara,
sala. Os sinais vitais devem ser ano- impresso timbrado do hospital, no
tados sequencialmente na ficha de concisa, sem códigos pessoais,
qual são descritos meticulosamen- sem excesso de siglas e sem abre-
anestesia, no mínimo a cada 10 mi- te e com letra legível o evento e as
nutos, sendo recomendado que as viaturas desconhecidas.
condutas tomadas, pois, normal-
anotações sejam feitas a cada cinco mente, na ficha de anestesia não Com o preenchimento adequado
minutos. (Figura 1) existe espaço suficiente para uma da ficha de anestesia será possível
descrição pormenorizada dos even- comprovar que os atos praticados
Devem ser indicadas, na ficha de tos ocorridos e seu tratamento. O pelo anestesista foram realizados
anestesia, as doses dos fármacos anestesista não pode se esquecer em consonância com o que preco-
anestésicos ou coadjuvantes da de colocar seu nome legível, assi- niza a boa prática da anestesia, per-
anestesia, meticulosamente, o nar, datar e colocar o horário da mitindo a formulação de uma boa
mais próximo possível do horário elaboração do documento feito em defesa e prevenindo, mesmo que
em que foram aplicadas. Registrar outro impresso diferente da ficha relativamente, as temidas decisões
os dados relativos aos monitores de anestesia. desfavoráveis nos processos éticos
usados com seus valores; os re- e judiciais.
ferentes a bloqueios anestésicos O anestesista deve sempre guardar
realizados; o tipo de ventilação uma cópia da ficha de anestesia e A Resolução CFM n° 1.802/2006,
pulmonar e o equipamento uti- de eventual documento com a des- publicada no DOU de 1° novembro
lizado; a temperatura corporal e crição do evento adverso por no de 2006, que dispõe sobre a prática
Artigos Científicos | 35

O preenchimento inadequado da

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ficha de anestesia é considerado
infringência aos artigos 18 e 87 do
Código de Ética Médica

do ato anestésico, é muito clara no f. Registro da oxigenação, gás permaneceu junto ao paciente
que concerne à ficha de anestesia. carbônico expirado final (nas na sala de operações e transferiu
A referida resolução, no inciso III situações onde foi utilizado), a responsabilidade do paciente
de seu artigo 1º, determina aos pressão arterial e frequência para o outro anestesista, que as-
médicos anestesiologistas que: cardíaca a intervalos não sumiu o plantão às 7h, momento
“III – A documentação mínima superiores a dez minutos; em que o paciente estava hemo-
dos procedimentos anestésicos g. Soluções e fármacos dinamicamente estável, sob res-
deverá incluir obrigatoriamente administrados (momento de piração artificial. O primeiro
informações relativas à avaliação administração, via e dose); anestesista não registrou os dados
e prescrição pré-anestésicas, evo- h. Intercorrências e eventos de monitorização dos sinais vitais
lução clínica e tratamento intra e adversos associados ou não à e os dados da respiração artificial
pós-anestésico (ANEXO I).” anestesia.” depois do término da operação
e também no momento em que
A citada resolução, em seu anexo O preenchimento inadequado da transferiu o paciente para o outro
I, também dispõe que “As seguin- ficha de anestesia é considerado anestesista. O paciente evoluiu
tes fichas fazem parte obrigatória infringência aos artigos 18 e 87 do com parada cardiorrespiratória
da documentação da anestesia” e, Código de Ética Médica, motivo às 8h15, portanto, depois que o
no item 2, o Anexo I confirma que suficiente para que o anestesista segundo anestesista assumiu a
a ficha de anestesia é um desses possa ser condenado em processo responsabilidade, mas, como não
documentos e especifica quais são ético profissional, mesmo que não havia anotação dos dados de ven-
os itens mínimos que integram a tenha cometido nenhuma infrin- tilação artificial e sinais vitais, o
ficha de anestesia, a saber: “Ficha gência a nenhum outro artigo do segundo anestesista afirmou que
de anestesia, incluindo: Código de Ética Médica. recebeu o paciente moribundo,
a. Identificação do(s) Apenas com fins ilustrativos, são e o primeiro anestesista foi con-
anestesiologista(s) apresentados três casos reais sobre siderado culpado, sendo punido
responsável(is) e, se for o processos ético e cíveis em que o com a pena C.
caso, registro do momento anestesista foi considerado cul-
de transferência de pado por mau preenchimento da 2. Paciente gestante a termo, com
responsabilidade durante o ficha de anestesia. quadro de descolamento prematuro
procedimento; de placenta, foi admitida em caráter
1. O anestesista conduziu a anes- de urgência no hospital às 23h25. A
b. Identificação do paciente; tesia de modo adequado desde o equipe cirúrgica e o neonatalogis-
c. Início e término do início até o término da operação, ta foram convocados por volta das
procedimento; porém, se tratava de um paciente 23h e o anestesista, por volta das
grave que necessitava ser remo- 23h15. O anestesista chegou ao hos-
d. Técnica de anestesia vido para a Unidade de Terapia pital minutos depois de a paciente
empregada; Intensiva. Como a operação ter- ser admitida e, quando ele entrou
e. Recursos de monitoração minou às 5h30 da manhã e não na sala de operações, a paciente já
adotados; havia vaga na UTI, o anestesista estava na mesa de operações com
36 | Anestesia em revista - Nº 03/2014
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monitorização da pressão arterial e 3. Paciente diabético e hipertenso, não havia nenhuma prova da esta-
cardioscópio, que evidenciaram leve com 51 anos, com politraumatis- bilidade cardiocirculatória antes
hipotensão e taquicardia. Foi feita mo por acidente automobilístico do início do evento adverso. ■
raquianestesia e o feto foi retirado foi admitido no centro cirúrgico
às 23h35 com Apgar zero. O anes- para redução cruenta de fratura Referências:
tesista foi auxiliar o neonatalogista de fêmur. Foi feita anestesia geral 1. Conselho Federal de Medicina (Brasil).
na reanimação do recém-nascido, e a operação durou duas horas. Resolução nº 1931, de 17 de setembro de
que foi reanimado com sucesso O paciente se manteve estável 2009. Aprova o Código de Ética Médica.
Diário Oficial da União, 24 set 2009; Seção
e encaminhado para a UTI Neo- hemodinamicamente, porém, 90 1; Retificação Diário Oficial da União, 13
natal, mas evoluiu com sequelas minutos do início da operação, out 2009.
muito graves. Quando o aneste- desenvolveu quadro de embolia 2. Conselho Federal de Medicina (Brasil).
sista retornou à sala de operações, pulmonar, que iniciou com hi- Resolução nº 1802, de 4 de outubro de
a cirurgia estava terminando. De- potensão arterial, taquicardia e 2006. Dispõe sobre a prática do ato anesté-
pois de sedar levemente a partu- dessaturação, seguidas de acentu- sico. Diário Oficial da União, 1º nov 2006;
Seção I.
riente, o anestesista fez a ficha de ada bradicardia, que foi revertida
anestesia e colocou como horário depois de quatro a cinco minutos, 3. Kfouri Neto M. Responsabilidade civil
do médico. São Paulo, Livraria do Advo-
de início da anestesia 23h55. porém, o paciente evoluiu com se- gado, 2013.
quelas neurológicas leves, fican-
4. Posso IP, Lima OS. Responsabilidade Ética
O anestesista foi processado pelos do impedido de realizar os atos e Legal do Anestesiologista, em: Cangiani
pais, que requereram indenização da vida cível. Os familiares acio- LM, Slulitel A, Potério GMB et al. Tratado
por danos materiais e morais em naram o hospital, o ortopedista e de Anestesiologia SAESP. 7ª ed. São Paulo,
Atheneu, 2011;61-68.
valores elevados, alegando que o anestesista por danos morais e
as graves sequelas de seu filho materiais e o anestesista foi con- 5. Sociedade Brasileira de Anestesiologia. A
Responsabilidade Civil na Anestesiologia.
foram causadas pela demora do siderado culpado, pois, na ficha E-Book. 2014.
anestesista chegar ao hospital, de anestesia, ele anotou apenas
pois, segundo eles, a paciente foi a pressão sistólica e a frequência
admitida as 23h25 e o anestesista cardíaca com um traço contínuo *O autor é membro da SBA-TSA
só chegou ao hospital às 23h55, tortuoso até o momento do even-
horário em que ele anotou na to adverso, e o perito considerou
ficha de anestesia como do início que essas anotações não represen-
da anestesia. tavam a realidade dos fatos e que

Artigos Científicos | 37
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Por André Luiz Braga *

O anestesista deve seguir o cirurgião nas ordens


para não reanimar um paciente anestesiado?
• A documentação mais antiga de da RCP em pacientes terminais de tudo), não causar dano. Essa má-
uma ressucitação cardiopulmonar e pacientes com prognóstico re- xima é frequentemente invocada
(RCP) data do Velho Testamento, servado de sobrevida deve-se, em pelos profissionais de saúde, embora
que descreve como o profeta Eliseu parte, à sensação de que estarão sua origem seja obscura e sua impli-
ressuscitou uma criança aparente- desistindo deles e ao desconforto cação não seja clara. Muitas vezes
mente morta ao soprar ar em sua em lidar com assuntos que envol- proclamado o princípio fundamen-
boca. A moderna RCP começou em vem a vida e a morte. Em nosso tal da tradição hipocrática da ética
1960 com o estudo fundamental meio, deve-se, também, ao medo médica, ele não figura no “corpus”
de Kouwenhoven, Jude e Knicker- de serem processados por omissão hipocrático, e uma louvável senten-
bocker, que relataram uma com- de socorro. Daí a necessidade de ça que é, às vezes, confundida com
binação de compressão fechada ampliar a discussão para melhor essa máxima – “ao menos não cause
do tórax, respiração boca a boca e entendimento desse assunto7,10. dano” – é, na verdade, tradução
desfibrilação externa. Desde então, distorcida de uma passagem isola-
Vários fatores influenciarão a deci- da da obra de Hipócrates. Todavia,
a RCP e as técnicas avançadas de
são de interromper as manobras de no juramento de Hipócrates estão
suporte cardíaco à vida (ACLS)
reanimação. Nesses fatores estão expressas uma obrigação de não
salvaram muitas vidas, mas também
incluídos a história da patologia do maleficência e uma obrigação de
levantaram uma série de dilemas
paciente e seu prognóstico anteci- beneficência: “Usarei o tratamento
éticos. O consentimento para a rea-
pado, o período que transcorreu para ajudar o paciente de acordo
lização de procedimentos de RCP é
entre a parada cardíaca e o início com minha habilidade e com meu
universalmente presumido. Contu-
das manobras de reanimação, o julgamento, mas jamais o usarei
do, há ocasiões em que o direito do
intervalo de tempo entre a parada para lesá-lo ou prejudicá-lo.”
paciente de receber RCP contrasta
cardíaca e a desfibrilação e o tempo
com a impressão de seus cuidadores Alguns filósofos unem a não ma-
em que são realizadas as manobras
de que esse tratamento não é clini- leficência e a beneficência, decom-
avançadas de vida com a continu-
camente indicado. Por outro lado, ação da assistolia e a não identifi- pondo a beneficência em quatro
alguns pacientes recebem ressusci- cação ou não reversão da causa da obrigações gerais: 1) Não devemos
tação que não queriam ter recebido. parada cardíaca7,8,10. infligir males ou danos (obrigação
As decisões referentes à ressucitação de não maleficência); 2) Deve-
e à duração dos esforços de ressus- Na ética médica, o princípio de não mos impedir que ocorram males
citação frequentemente acarretam maleficência, que determina a obri- ou danos; 3) Devemos eliminar
diversas questões éticas cruciais⁹. gação de não infligir dano inten- males ou danos; 4) Devemos fazer
cionalmente, esteve intimamente ou promover o bem. Como esses
A relutância dos profissionais de associado com a máxima Primum princípios se sobrepõem de forma
saúde em sugerir a não indicação non nocere: acima de tudo (ou antes hierárquica, as obrigações de não

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O ônus moral é, com frequência, mais

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duro no caso da decisão de se abster
de iniciar um tratamento.

maleficência são mais rigorosas tratamentos. Muitos profissionais e o abandono do paciente. A interrup-
que as obrigações de beneficência. membros das famílias pensam estar ção pode se dar em conformidade
Em caso de conflito, a não malefi- justificados ao rejeitar tratamentos com as diretrizes do paciente e ser
cência normalmente é prioritária, aos quais nunca deram início, mas acompanhada e seguida por outras
mas os pesos desses princípios não em interromper tratamentos formas de cuidado.
morais – como de todos os princí- já iniciados. Julgam que a decisão
pios morais – variam em cada situ- de interromper tratamentos é mais O ônus moral é, com frequência,
ação, e, portanto, não pode haver a importante e mais grave que a de mais duro no caso da decisão de
regra “a priori”, que determina que não iniciá-lo. se abster de iniciar um tratamento.
evitar danos é preferível a propor- Somente após iniciar o tratamento é
cionar benefícios1. Tal desconforto dos profissionais que é possível realizar diagnóstico e
de saúde com a interrupção do tra- prognóstico adequados e ponderar
Nas tradições religiosas, no dis- tamento de suporte de vida parece os custos e os benefícios prospec-
curso filosófico, nos códigos refletir a ideia de que essa ação o tivos. A aparente importância da
profissionais e na lei, desenvolve- torna responsáveis – e, portanto, distinção entre não iniciar e parar é
ram-se muitos parâmetros para a culpáveis – pela morte do paciente, indevidamente responsável, embora
especificação dos requerimentos enquanto não são responsáveis se não justifique a facilidade com que
da não maleficência na assistência não iniciarem o tratamento. Outra os hospitais e os profissionais de
à saúde, especialmente no que diz fonte de desconforto para os pro- saúde têm aceito ordens do tipo “no
respeito à decisão por tratamento fissionais, referente à interrupção code” ou DNR (não ressuscitar).
ou à decisão pelo não tratamento. de tratamento, é a convicção de que
A posição de deferência que essas iniciar um tratamento muitas vezes
distinções tradicionais ocupam cria a expectativa de que ele pros-
em muitos códigos profissionais, seguirá, enquanto interrompê-lo
políticas institucionais e escritos parece contrariar as expectativas,
de ética biomédica não fornecem promessas e obrigações com a famí-
uma razão adequada para mantê- lia. Tais expectativas e promessas
-las. São distinções sem uma equivocadas deveriam ser evitadas
diferença relevante e devem ser desde o princípio. A promessa ou
substituídas pela concepção da re- expectativa apropriada é a de que
lação custo-benefício. os profissionais agirão de acordo
Muitos debates sobre o princípio com os interesses e os desejos do Não é justificável considerar as
da não maleficência e a absten- paciente (dentro dos limites dos decisões sobre reanimação car-
ção do tratamento de suporte de sistemas defensáveis para a alocação diorrespiratória diferentes das de-
vida giram em torno da distinção dos serviços de saúde e das regras cisões sobre outras tecnologias de
entre a omissão e a comissão, es- sociais defensáveis sobre matar). suporte de vida. Nem a distinção
pecialmente da distinção entre Interromper um tratamento par- entre a abstenção e a interrupção
a abstenção (o não dar início) e ticular, incluindo o de suporte de de tratamento, nem a distinção
a interrupção (a suspensão) dos vida, não envolve necessariamente entre os meios comuns e os meios

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especiais de tratamento propor- os doentes devem ser tratados condições que não trazem mais
cionam uma justificação. com dignidade. As recomendações nenhum benefício ao paciente
ERC 2010 incluem os seguintes pode gerar inúmeros questiona-
As políticas hospitalares usual- tópicos relacionados com a ética mentos por parte da equipe de
mente exigem a reanimação, a e as decisões de fim de vida: prin- saúde, e quando o dilema da RCP
menos que exista uma ordem de cípios éticos essenciais; morte for questionado, os comitês de
não reanimação (DNR “no code”), súbita numa perspectiva global; bioética são uma fonte de consul-
que inclua o consentimento do prognóstico e resultados; quan- ta que pode auxiliar na tomada de
paciente ou da família. Contudo, do iniciar e quando suspender a decisão, visto que, no Brasil, ainda
alguns argumentam que, quan- reanimação; declaração anteci- não existe uma legislação específi-
do a reanimação claramente não pada de vontade e decisão de não ca que proteja o médico na decisão
forneceria nenhum benefício mé- tentar a reanimação; presença da de não reanimação ou de abando-
dico para o paciente, os hospitais família durante a reanimação; no de esforços ressuscitatórios,
não deveriam exigir que as op- captação de órgãos; investigação embora discussões já caminhem
ções fossem discutidas nem com sobre consentimento informado para o estabelecimento de diretri-
o paciente, nem com a família. em reanimação; investigação e zes a esse respeito.
Tanto a beneficência como a não treino em cadáver recente⁶.
maleficência apoiam uma políti- Os comitês de bioética suscitam
ca paternalista de não apresentar A decisão de interromper a reani- discussões e criam diretrizes que
intervenções não benéficas como mação deve ser tomada pelo líder podem garantir a legitimidade da
opção de decisão. Além disso, essa do grupo que está oferecendo as recusa do prolongamento da vida
abordagem poderia, em vez de fa- manobras. Porém, ela deve ser nos casos de morte iminente, com
vorecer, prejudicar a decisão autô- sempre tomada após consulta ao o objetivo de oferecer subsídios
noma, trazendo a ideia de que há grupo, que pode levantar ques- aos médicos, bem como a pacien-
uma escolha significativa quando tões que contribuam com a deci- tes e seus familiares, apresentando
de fato não há. É preciso, portanto, são ou não. Atualmente, a decisão as seguintes recomendações em
um julgamento moral que leve em é baseada no julgamento clínico relação à RCP:
consideração os diferentes fatores de que a parada cardíaca não res-
ponde a cuidados avançados de 1. A ressuscitação cardiopulmo-
contextuais para decidir se é apro- nar (RCP) é procedimento no
priado ou obrigatório informar o vida já empregados10 .
qual o consentimento do pa-
paciente e ou a família de que uma No cotidiano da área da saúde, ciente e de sua família é presu-
reanimação cardiorrespiratória os dilemas éticos e legais mais mido e universalmente aceito,
ou outra intervenção não benéfica frequentes dizem respeito ao li- porém, nem sempre atende aos
não será realizada. mite em que o tratamento deve interesses do paciente.
ser efetuado, no sentido de evitar
Há várias considerações neces- futilidade terapêutica, obstinação 2. A equipe multiprofissional deve
sárias para assegurar que a de- terapêutica ou tratamento inútil. participar da discussão para pro-
cisão de tentar ou não iniciar a A decisão sobre a terminalidade por à família a decisão de não
reanimação é apropriada e que da vida ou de sua continuidade em reanimar. Havendo incertezas,

40 | Anestesia em revista - Nº 03/2014



A decisão de interromper a

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reanimação deve ser tomada pelo
líder do grupo que está oferecendo
as manobras.

deve-se recorrer ao parecer de de sustentação de funções vegeta- 10. Vinagre RCO. Ética e Questões Legais
outros médicos para um jul- em RCP: quando iniciar e quando in-
tivas, deverá comunicar o fato à
terromper a RCP, em: Cavalcanti IL,
gamento preciso da situação família do paciente. Cantinho FAF, Assad AR. Medicina
clínica. Todo esse processo e Perioperatória. Rio de Janeiro, Socieda-
consequente proposta de condu- “Enquanto alguns profissionais to- de de Anestesiologia do Estado do Rio
de Janeiro, 2006;1.303-11.
ta devem ser registrados e justifi- marem a decisão e ordenarem sua
11. Gifoni JMM. Ética e Questões Legais
cados no prontuário do paciente. implementação por outros profis- em RCP: Responsabilidade Civil e
sionais que não participaram do Penal, em: Cavalcanti IL, Cantinho
3. Situações em que a família de- processo de decisão, os problemas FAF, Assad AR. Medicina Perioperató-
seja que a RCP seja efetuada,
conflitando com a opinião da
éticos e morais persistirão”16. ■ ria. Rio de Janeiro, Sociedade de Anes-
tesiologia do Estado do Rio de Janeiro,
2006;1.313-19
equipe multiprofissional, exigem
Referências 12. Hackler JC, Hiller FC. Family con-
que a RCP seja realizada. Os fa- sent to orders not to resuscitate. Re-
miliares devem receber apoio, 1. Beauchamp TL, Childress J. Principles
considering hospital policy. JAMA,
of biomedical ethics. 5th ed. Oxford,
informação e esclarecimento Oxford University, 2001.
1990;264:1.281-3.
apropriado para que o assunto 13. Kipper DJ. O problema das decisões
2. França GV. Comentários ao código de médicas envolvendo o fim da vida e pro-
possa ser discutido novamente ética médica, 3ª ed, Rio de Janeiro, Gua- postas para nossa realidade. Rev Bioéti-
em outra oportunidade. nabara Koogan, 2000. ca, 2009;7:1-5.
3. Conselho Federal de Medicina (Bra- 14. Serrano Jr. CV, Safi Jr. J, Timermann A.
4. Nas situações em que os respon- sil). Iniciação à Bioética. Brasília, Aspectos éticos e legais da reanimação
sáveis pelo paciente encontram- CFM, 1998. cardiorrespiratória. Rev Soc Cardiol
-se divididos, a RCP deve ser 4. Neves C. Ética moderna. Algumas Estado de São Paulo, 1998;8:879-84.
realizada; se mesmo após apoio, considerações em particular da ex- 15. Serrão D. O doente terminal. Rev Port
periência hospitalar. Acta Med Port, Med Geriatr, 1990; 28:35-8.
informação e esclarecimento 1998;11:373-7.
adequado ainda não houver con- 16. Marco CA. Ethical issues of resusci-
5. Spinsanti S. Ética biomédica. Milão, tation. Emerg Med Clin North Am,
senso, deve-se recorrer à decisão Paoline, 1987. 1999;17:528-38.
judicial, com a participação da 6. Baskett PJF, Lim A. The varying ethical
comissão de ética da instituição. attitudes towards resuscitation in Euro-
pe. Resuscitation, 2004;62:267-73. * O autor é membro da Comissão
5. A decisão de não reanimar, ado- 7. Morrison LJ, Kierzek G, Diekema DS et de Saúde Ocupacional da SBA.
tada em conjunto pela equipe al. Part 3: Ethics: 2010 American Heart
Association Guidelines for Cardiopul-
multiprofissional e pelos respon- monary Resuscitation and Emergency
sáveis pelo paciente, deve ser cla- Cardiovascular Care. Circulation,
ramente registrada e justificada 2010;122;S665-S675.
no prontuário do paciente. 8. Merchant RM, Yang L, Becker LB et
al. Incidence of treated cardiac arrest
6. Na morte encefálica não se apli- in hospitalized patients in the United
States. Crit Care Med, 2011;39:2.401-6.
ca o conceito de preservação da
9. Rubulotta F, Rubulotta G. Cardiopul-
vida. Nesse caso, o médico, antes monary resuscitation and ethics. Rev
da suspensão dos meios artificiais Bras Ter Intensiva, 2013;25:265-9.

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Por Maria Lúcia Bomfim Arbex *

Substituição do anestesiologista no curso do ato


anestésico-cirúrgico
• Introdução - A evolução da técnico e de recursos humanos dis- pós-anestésica, realizar anestesia
anestesiologia ao longo dos tempos poníveis para a execução de seu ato fora do ambiente cirúrgico, fazer
trouxe, junto com o avanço técnico profissional, tendo sua autonomia avaliação pré-anestésica etc.
da especialidade, o crescimento da limitada pelas muitas variáveis que Também ocorre de o anestesiolo-
responsabilidade ético-profissional envolvem a prática anestésica. gista ser integrante do quadro de
do anestesiologista. Se, na medi- plantonistas de mais de um hospital,
cina como um todo, questões que A eticidade em que trabalha rotineiramente com
envolvem a prática profissional são A necessidade de um anestesiolo- diferentes equipes cirúrgicas que
uma constante, na anestesia, em gista precisar ser substituído por operam em horários e locais diver-
particular, a repercussão de even- outro colega em um ato anestési- sos, sendo contumaz que esse profis-
tuais insucessos revela-se intensa, co não é incomum e decorre do sional tenha plantões sequenciais em
pois suas consequências são quase formato de trabalho desses profis- locais diferentes no mesmo dia, le-
sempre graves ou irreversíveis. sionais. A anestesiologia é especia- vando-o a se deslocar de imediato ao
Ao atuar em área médica de carac- lidade médica com peculiaridades término do seu turno de trabalho em
terísticas próprias, o anestesiologis- que a difere das demais. Na imensa determinada unidade, sob pena de
ta, com frequência, se vê diante de maioria, os anestesiologistas, tanto algum paciente em outra instituição
conflitos éticos com respostas ainda os organizados em grupos como de saúde ter prejudicada a execução
não pacificadas, cuja prevenção aqueles que trabalham individu- de seu procedimento anestésico-
passa pela aplicação dos princípios almente, o fazem em esquema de -cirúrgico. Nessas circunstâncias, é
da bioética em prol do paciente, ou plantão em turnos de 6, 12 ou 24 necessário que haja outro anestesio-
seja, os princípios da beneficência, horas, buscando disponibilizar seus logista para suprir o plantão e dar
da não maleficência, da justiça e do serviços, ininterruptamente, às continuidade a algum ato anestésico
respeito à autonomia do ser huma- equipes cirúrgicas de determina- que, porventura, esteja ocorrendo.
no1, como citado na publicação Bio- da instituição hospitalar. Podendo
ética clínica, no capítulo que trata da estar escalado para diferentes ser- Ressalte-se que, independente-
bioética em anestesia. viços de cirurgia em uma mesma mente de o anestesiologista ter ou
semana ou em um mesmo dia, não um compromisso profissional
Como membro da equipe anesté- cabendo ao coordenador do servi- após seu plantão, uma instituição
sico-cirúrgica que assiste o pacien- ço, através de escala prévia, deter- que se propõe a prestar assistência
te, o anestesiologista deve sempre minar qual profissional, naquele cirúrgica em tempo integral deve
trabalhar em consonância com o turno, será o responsável por cada manter em seus quadros médicos
cirurgião, adequando sua conduta uma das atividades inerentes à es- anestesiologistas em número sufi-
às necessidades cirúrgicas, às condi- pecialidade, como assistir o centro ciente para atender à demanda pre-
ções clínicas do paciente e ao suporte cirúrgico e a sala de recuperação vista, de forma que os profissionais
42 | Anestesia em revista - Nº 03/2014

... coordenador do serviço, através

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de escala prévia, determinar qual
profissional, naquele turno, será o
responsável por cada uma das atividades
inerentes à especialidade ...

tenham os turnos regulares de tra- No Artigo 1º, inciso II, observa-se disponível para realizar sua aneste-
balho e de descanso a que têm di- que “Para conduzir as anestesias sia. É pertinente aplicar essa mesma
reito, especialmente nas situações gerais ou regionais com seguran- argumentação nos casos em que o
em que o anestesiologista tenha ça, deve o médico anestesiologista anestesista precisa ser substituído
acordo mútuo com a instituição de manter vigilância permanente a no decorrer do ato anestésico5.
cumprir determinada carga horária seu paciente”4. Por sua vez, a ementa do Parecer
de trabalho. O Anexo I dessa resolução de- Consulta CREMEB 22/11 refere
Importante salientar que, em de- termina, no Item 2 – Ficha de que “não constitui infração ética
terminadas circunstâncias, prin- Anestesia, que esse documento a continuidade de realização de
cipalmente nas instituições que deve incluir a “Identificação do(s) ato cirúrgico por outro cirurgião
têm urgência e emergência, o aten- anestesiologista(s) responsável(is) que se faça presente no centro ci-
dimento ao paciente é feito pela e, se for o caso, o registro do rúrgico, quando do final do plan-
equipe de plantão disponível no momento de transferência de tão do profissional que deu início
momento, e essa assistência será responsabilidade durante o proce- ao procedimento. Mantém-se a
continuada pelas equipes médicas dimento”. Igual determinação se responsabilidade solidária entre
subsequentes, sempre cumprindo repete no Item 3 – Ficha de Recu- cirurgiões. Devem-se observar
rotinas e protocolos que visem evi- peração Pós-anestésica4. as cautelas específicas quando
tar prejuízos na atenção ao paciente. Resta claro, portando, que a citada da transferência do ato médico”.
resolução prevê a possibilidade de Referindo ainda “...que os atos
Fundamentos que haja substituição do anestesio- de cirurgião e anestesiologista se
Vários dispositivos emitidos pelos logista que iniciou o procedimento completam e, nesse particular, são
conselhos de medicina brasileiros ainda no decorrer deste, desde que semelhantes; guardando estreita
proveem bases para fundamentar a em condições técnicas adequadas relação, pode-se aplicar subsidia-
posição sobre a matéria em análise. à manutenção da segurança e do riamente entendimento do Egré-
bem-estar do paciente4. gio Conselho Federal de Medicina
A Resolução CFM 1.802/2006,
sobre a substituição de médico em
que dispõe sobre a prática do ato O Parecer Consulta CREMEB
procedimento especializado...”6
anestésico em todas as suas etapas, 27/04, que trata da Consulta Pré-
prevê, já nos “considerandos”, que -Anestésica e da Responsabilidade Ainda sobre o acompanhamento
“é dever do médico guardar absolu- Solidária, considera sem impedi- ao paciente, o autor do parecer, ci-
to respeito pela vida humana, não mento ético a realização, por pro- tando a Resolução CFM 1.493/98,
podendo, em nenhuma circuns- fissionais distintos, da consulta refere que “...Por óbvio que todo
tância, praticar atos que a afetem pré-anestésica e do ato anestésico, paciente tem o direito a um médico
ou concorram para prejudicá-la” posição baseada em arrazoado sobre assistente(...), no entanto, a herme-
e que “não é permitido ao médico a forma de trabalhar do anestesiolo- nêutica nos permite interpretar o
deixar de ministrar tratamento ou gista – cuja rotina prevê constantes texto em sentido amplo, podendo
assistência ao paciente, salvo nas plantões em locais diferentes – que admitir que o médico assistente
condições previstas pelo Código o impede de garantir ao paciente responsável possa ser ampliado
de Ética Médica”4. avaliado em consulta que estará para a equipe médica responsável,

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uma vez que a assistência em equipe introduzidas pelo seu substituto, a equipe anestésico-cirúrgica ou,
hoje é festejada ante as característi- este é que será responsabilizado. afastada a culpabilidade dos cirur-
cas da prática contemporânea...”6. giões, entre os anestesiologistas que
Na publicação Responsabilidade realizaram o procedimento7.
Responsabilidade solidária médica: civil, criminal e ética, Juran-
Se a doutrina citada conduz a que dir Sebastião, no capítulo “Respon- Também o Código de Ética
se permita a substituição do médi- sabilidade individual ou solidária Médica apresenta normas que
co durante a execução de ato pro- do médico”, cita: “Tratando-se de corroboram o exposto sobre res-
fissional, relevante discorrer sobre conduta cirúrgica, há fase em que o ponsabilidade solidária. Tanto
a responsabilidade dos profissio- procedimento médico é desenvolvi- o artigo 3º, que veda ao médico
nais envolvidos no fato. Se houver do apenas pelo anestesiologista, sem “deixar de assumir responsabili-
algum incidente ou acidente anes- interferência dos demais membros, dade sobre procedimento médico
tésico e for deflagrada uma deman- como, por exemplo, no início e no que indicou ou do qual partici-
da ético-legal, o anestesiologista final. Nessas fases, cumpre ao anes- pou, mesmo quando vários médi-
substituído continua membro da tesiologista proceder de acordo com cos tenham assistido o paciente”,
equipe que assiste o paciente e sua competência, não podendo se como o artigo 6º, que, da mesma
corresponsável por todas as con- subordinar a outrem, chefe ou não. forma, veda ao médico “atribuir
sequências do ato médico prati- A responsabilidade é só sua. Entre- seus insucessos a terceiros e a
cado, podendo responder ética e tanto, há fases do procedimento circunstâncias ocasionais, exceto
legalmente se, após apuração dos cirúrgico em que todos os membros em casos em que isso possa ser
fatos, ficar caracterizado que o (incluído o anestesiologista) estão devidamente comprovado”, asse-
evento adverso decorreu da con- vinculados à boa conservação do es- guram que, ao mesmo tempo em
duta técnica adotada por ele até tado do paciente, para o bom resul- que se concede ao médico o direi-
o momento da transferência da tado da cirurgia.” Instala-se, nessa to de adaptar a suas necessidades
anestesia para outro profissional. fase, a responsabilidade solidária – práticas a forma de conduzir sua
Assim como, sendo comprovado para o caso de eventual erro médico atividade profissional, também lhe
que o dano decorreu de medidas –, que pode ser aplicada entre toda impõe o dever de assumir suas de-
cisões e devidas consequências2 .

Conclusão
Dessa forma, ocorrendo ato anesté-
sico durante a passagem do plantão,
não há impedimento ético para que o
plantonista do turno que se inicia as-
suma o procedimento daí em diante.
Ressalte-se que substituto significa
a pessoa que exerce as funções de
outra, na ausência ou no impedimen-
to desta, assim, aquele que substitui
44 | Anestesia em revista - Nº 03/2014

... tão importante quanto a adoção

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dos princípios ético-legais nos atos
médicos, é o uso de prudência,
cautela e bom senso.

deve estar tecnicamente capacitado cuidados para que essa transição Referências
para preencher os quesitos necessá- ocorra sem contratempos: que tal 1. Alves Neto O. Bioética em Anestesia, em:
rios à adequada continuação da fun- substituição seja informada e justi- Urban CA. Bioética Clinica. Rio de Janeiro,
Revinter, 2003;363-77.
ção previamente desenvolvida pelo ficada à equipe cirúrgica e, quando
2. Conselho Federal de Medicina (Brasil).
profissional substituído, buscando possível, ao responsável pelo pa- Resolução 1.931/2009. Aprova o Código de
garantir a eficácia do ato, a segurança ciente; que o anestesiologista que Ética Médica. Diário Oficial da União, 24
e o bem-estar do paciente, objetivo iniciou o procedimento informe set 2009; Retificação publicada em 13 out
maior da medicina. a seu substituto as condutas téc- 2010, Seção 1.
3. Conselho Federal de Medicina (Brasil). Re-
nicas adotadas e as manifestações
Nos tempos atuais, em que a medi- clínicas do paciente no decorrer
solução 1.493, de 15 de maio de 1998. Diá-
rio Oficial da União, 20 maio 1998, Seção 1.
cina e a assistência à saúde exigem da intervenção; que seja anotado, 4. Conselho Federal de Medicina (Brasil).
novas condutas, o trabalho em equi- na ficha de anestesia, além dos Resolução nº 1.802, de 4 de outubro
pe tem sido estimulado na prática registros de praxe, o horário da de 2006. Dispõe sobre a Prática do Ato
médica como alicerce para o acom- substituição e os dados clínicos do Anestésico.  Revoga a Resolução CFM n.
panhamento contínuo de pacientes, 1.363/1993. Diário Oficial da União, 1 nov
paciente naquele momento. 2006; Seção 1; retificação publicada no Di-
seja em nível ambulatorial, seja após ário Oficial da União, 20 dez 2006, Seção 1.
internamento em unidades médicas A documentação minuciosa sobre 5. Conselho Regional de Medicina do Estado
assistenciais, propiciando mais segu- todo o ato anestésico, com desta- da Bahia. Parecer nº 27, de 16 de setembro
rança à sociedade e maior garantia de que para a etapa intraoperatória, é de 2004. Assunto: Implicações éticas da
assistência médica ininterrupta. consulta pré-anestésica realizada por médi-
indispensável, pois permite iden- cos anestesiologistas que não participarão
Para que esse sistema de assistência tificar no prontuário os elementos do ato anestésico. Relator: Cons. Maria

funcione a contento, é fator primor- que vão subsidiar possível apura- Lúcia Bomfim Arbex.

dial que o conjunto de anestesiolo- ção naquelas situações que venham 6. Conselho Regional de Medicina do Estado
da Bahia. Parecer nº 22, de 20 de setembro
gistas parte do processo desenvolva a gerar demandas ético-legais e nas de 2011. Assunto: Possibilidade de outro
suas atividades com profissionalis- quais seja necessário apurar a devi- cirurgião que se faça presente no centro
mo, responsabilidade e solidarie- da responsabilidade dos profissio- cirúrgico dar continuidade à realização de
nais envolvidos. ato cirúrgico, quando do final de plantão do
dade, evitando, assim, que ocorra profissional que deu início ao procedimen-
qualquer solução de continuidade to. Relator: cons. José Abelardo Garcia de
na assistência médico-anestésica Ao tempo em que se conclui pela Meneses.

ofertada ao paciente ou, inclusive, o ausência de ilicitude ética na subs- 7. SEBASTIÃO J. Responsabilidade Indivi-

descumprimento do determinado tituição do anestesiologista no dual ou Solidária do Médico, em: SEBAS-


TIÃO J. Responsabilidade médica: civil,
no Código de Ética Médica, Arti- decorrer do ato anestésico, ratifica-
criminal e ética. 3ª ed. Belo Horizonte, Del
go 9º, que veda ao médico “deixar -se que o trabalho em equipe não Rey, 2003;123-33.
de comparecer a plantão em horá- exime os profissionais de suas res-
rio preestabelecido ou abandoná-lo ponsabilidades ético-legais indivi-
duais e que, tão importante quanto *A autora é médica anestesiologis-
sem a presença de substituto...”2 .
a adoção dos princípios ético-legais ta, conselheira vice-corregedora do
Recomenda-se, entretanto, que os nos atos médicos, é o uso de pru- Conselho Regional de Medicina
anestesiologistas adotem alguns dência, cautela e bom senso. ■ do Estado da Bahia.

Artigos Científicos | 45
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Artigos Científicos
Por João Batista Santos Garcia* e José Osvaldo
Barbosa Neto**

Dor pós-operatória e dor crônica pós-operatória


são responsabilidade do anestesiologista?
• A dor é um dos sintomas mais A dor pós-operatória tem sido negligenciado. A extensão do pro-
desconfortáveis no perioperató- muito discutida nos últimos anos blema veio à tona no início da dé-
rio, especialmente no período e sabe-se, de acordo com o citado cada de 1990, quando um estudo
pós-cirúrgico, em que é clara a ne- anteriormente (Quadro 1), que há realizado em uma clínica de dor no
cessidade de seu reconhecimento, potencialmente muitos benefícios norte da Inglaterra mostrou que
sua efetiva avaliação e do estabele- clínicos a serem obtidos com uma um percentual de 20% de pacientes
cimento de protocolos específicos analgesia adequada em pacientes atendidos com dor crônica tinham
de tratamento. cirúrgicos. Com base nessa premis- um procedimento cirúrgico impli-
O alívio da dor é, antes de tudo, sa, houve a criação dos primeiros cado como uma das causas de dor
um ato humanitário e é eticamente protocolos para tratamento da dor e, em torno de metade destes, era o
inaceitável negligenciá-lo. Entre- aguda na década de 1980 e 1990, único fator causal3.
tanto, além das razões humanitá- modificados e atualizados nos anos
A Associação Internacional para
rias, o manuseio adequado da dor subsequentes, que foram introdu-
o Estudo da Dor (International
pós-operatória é importante pelo zidos no arsenal dos anestesiolo-
Association for the Study of Pain –
fato de causar redução nas res- gistas e cirurgiões como métodos
IASP) define a DCPO como uma
postas aos impulsos nociceptivos eficazes de avaliação e documen-
síndrome desenvolvida no período
induzidos pelo trauma, atenuando tação da dor, para influenciar de
pós-operatório, com duração su-
reflexos somáticos e autonômicos maneira decisiva o manejo da dor
perior a dois meses, na ausência de
que podem influenciar, de forma perioperatória e o prognóstico des-
outra causa para dor. De tal forma
adversa, o funcionamento de vários ses pacientes2 .
que a dor provocada por uma do-
órgãos e contribuir para o aumento A dor crônica pós-operatória (DCPO) ença preexistente (ex.: recorrência
da morbidade (Quadro 1)1. é um tema até pouco tempo atrás de câncer, infecção crônica) não
Quadro 1 – Consequências fisiológicas da dor pós-operatória pode ser incluída nessa síndrome4,
que é uma situação clínica comum,
Cardiovascular ↑FC,↑ PA,↑ RVS,↑ trabalho cardíaco
porém, com avaliação ainda defi-
Hipóxia, retenção de CO2 , atelectasia, dificuldade em tossir,
Pulmonar
↓ VC, ↓ CRF, alteração da ventilação/perfusão ciente, o que pode retardar o início
Gastrointestinal Náusea, vômito, íleo paralítico
de seu tratamento.
Renal Oliguria, retenção urinária Os dados de incidência de DCPO
Sistema nervoso central Ansiedade, medo, fadiga, falta de sono são estimados com base na extra-
Imunológico Imunossupressão polação de estudos retrospectivos,
Extremidades Dor muscular, estase venosa, tromboembolismo que são limitados pela dificuldade
FC - frequência cardíaca; PA – pressão arterial; RVS – resistência vascular sistêmica; de diferenciar adequadamente entre
VC – volume corrente; CRF – capacidade residual funcional dor preexistente e DCPO, pois, após

46 | Anestesia em revista - Nº 03/2014



O alívio da dor é, antes de tudo,

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um ato humanitário e é eticamente
inaceitável negligenciá-lo.

alguns dias, os pacientes já não con- Os pacientes que evoluem com essa pacientes desenvolvem DCPO
seguem recordar com precisão se síndrome apresentam dor de inten- ainda é uma questão sem resposta.
a dor já estava presente, se surgira sidade variável, dependendo do pro- No entanto, algumas condições
após a cirurgia e quanto tempo teria cedimento ao qual foi submetido, e parecem ter maior influência sobre
durado. Portanto, uma superestima- sensibilidade individual. Em geral, o risco de aparecimento dessa sín-
ção da incidência real não pode ser a dor é de caráter misto, havendo drome, como estímulo nociceptivo
descartada, já que os poucos estu- participação importante do com- intenso; presença de contexto pró-
dos prospectivos publicados sobre ponente neuropático. Até 30% dos -inflamatório (ex.: câncer) e vulne-
o tema apresentaram incidências pacientes que desenvolvem DCPO rabilidade do paciente. Usualmente,
menores que as dos estudos retros- têm resultado positivo no questio- exposição prolongada a estímulos
pectivos5-7. Essa síndrome ocorre nário DN4 (Doleur Neuropatique lesivos, inflamação ou trauma em
em 10%-50% dos indivíduos sub- 4), o que sugere dor com compo- tecido neuronal, decorrentes do
metidos a cirurgias comuns, como nente neuropático8. A DCPO impõe trauma cirúrgico induz hipersensi-
herniorrafia inguinal, mastectomia, impacto variável na população aco- bilidade neuronal autolimitada. No
toracotomia, amputação de mem- metida, promovendo desde conse- entanto, quando essas condições
bros, cirurgias ortopédicas e revas- quências desprezíveis até casos em especiais são encontradas, modifi-
cularização do miocárdio (Quadro que o paciente se considera inapto cações mais profundas nos neuro-
2)5. Destes, até 2%-10% desenvol- para o trabalho e busca o afastamen- transmissores, receptores e canais
verá dor crônica intensa. Quando to de suas atividades laborais9. iônicos promovem alterações plás-
consideramos o crescente número ticas irreversíveis na conectividade
de procedimentos cirúrgicos reali- A DCPO decorre da disfunção dos no sistema nervoso cental10.
zados por ano, a DCPO se apresenta mecanismos fisiológicos relaciona-
como um potencial problema de dos ao fenômeno de hiperalgesia Uma vez estabelecido o fenômeno
saúde pública. secundária. A razão pela qual alguns fisiológico da hiperalgesia secundá-
ria após trauma cirúrgico, a razão
Quadro 2 – Incidência de dor crônica pós-operatória pela qual há a progressão para o
Procedimento cirúrgico Incidência (%) estado patológico não é muito
clara. Entre as teorias formuladas
Amputação de membro 60-80 para responder essa questão está
Artroplastia total de quadril 30 a intensidade do trauma cirúrgico
Histerectomia 5-30 sobre os nervos periféricos, uma
Cesariana 10 vez que esse tipo de lesão está rela-
cionado com a extensa neuroplas-
Cirurgia de mama 20-50
ticidade. Essa hipótese é amparada
Tratamento de hérnia inguinal 10 pelo fato de que, em sua maioria, a
Revascularização do miocárdio 20 característica de DCPO é neuropá-
Toracotomia 25-60 tica8. Contudo, esse conceito é con-
Kelhet H, Jensen T, Woolf C. Persistent postsurgical pain: risk factors and troverso, uma vez que nem todo
prevention. Lancet 2006;367:1.618-25. paciente que sofre trauma de nervo

Artigos Científicos | 47
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Artigos Científicos

periférico evolui com DCPO, nem A melhor maneira de abordar a clonidina, pregabalina e gabapen-
a DCPO é percebida exclusivamen- DCPO é focar em sua prevenção. tina, e a associação de técnicas re-
te como neuropática11. A elaboração dessa estratégia deve gionais, como analgesia peridural,
levar em consideração o paciente espinal, bloqueio de plexo e de ner-
Algumas características individuais e suas características individuais, vos periféricos 6,9,10,15,16.
do paciente podem contribuir para bem como a cirurgia à qual será
o desenvolvimento da síndrome, Associada a essas medidas intra-
submetido. O primeiro passo na operatórias, a analgesia pós-ope-
como estado pró-inflamatório pré- execução desse planejamento é a
-operatório. Por exemplo, a obesi- ratória adequada é fundamental
escolha da técnica cirúrgica, que para a redução da excitabilidade.
dade é uma doença que induz um deve ser a menos invasiva possível
estado inflamatório sistêmico, e há Para tanto, o uso de uma estraté-
(cirurgia protetora), sempre op- gia multimodal, com a associação
evidência de que a DCPO surge mais tando por técnicas com incisões
frequentemente em obesos6. Ainda, de anti-inflamatórios e analgési-
reduzidas, uso de recursos como cos opioides, promove resultados
há associação entre a presença de laparoscopia, toracoscopia e ro-
DCPO e o processo inflamatório satisfatórios. Dessa forma, será
bótica. É de grande relevância, no possível reduzir a dose total de
ativo na região operada. Além disso, entanto, entender que a redução
estados hiperalgésicos, como a fibro- opioides, diminuindo, assim, o
na DCPO não pode ser compro- risco de indução de hiperalgesia.
mialgia, em que o paciente apresenta vada pela modificação de técnica
percepção amplificada de todas as Ainda com esse objetivo, pode-
laparoscópica em detrimento de -se optar pela escolha de opioides
modalidades sensoriais, inclusive cirurgia aberta. A habilidade do ci-
a dor, também poderiam estar re- como o tramadol, que tem ação
rurgião também é importante, pois na inibição do receptor NMDA e
lacionados com o surgimento de permite que o procedimento seja
DCPO12. Pacientes com fibromial- pode prevenir hiperalgesia 2,6,9,10,15.
executado no menor tempo pos-
gia possuem muitas características sível, expondo o paciente a menor Apesar dessas recomendações, au-
em comum com os que notadamen- trauma cirúrgico2,14. tores que investigaram a qualidade
te apresentam maior risco para dor do tratamento de dor pós-operató-
aguda pós-operatória e DCPO, entre O planejamento anestésico com ria têm demonstrado que até 40%
os quais pacientes do sexo feminino, atenção ao tratamento da dor aguda dos pacientes ainda sentem dor mo-
ansiosos e catastrofistas12. Por essa pós-operatória é fundamental para a derada a intensa17. Estudo recente
razão, a DCPO pode estar inserida prevenção da DCPO6. Para tanto, é que avaliou a evolução das técnicas
em um contexto de doença hipervi- importante o uso de fármacos com de analgesia pós-operatória mos-
gilante, precipitada nessa população o menor potencial de indução de trou que, apesar dos avanços, nos
vulnerável pelo estresse pré-operató- estado hiperalgésico (ex.: fentanil e últimos 20 anos, não houve modifi-
rio e pela cirurgia em si13. Os fatores sufentanil), em detrimento dos que cação importante no percentual de
associados relacionados à cirurgia impõem maior risco (remifentanil); pacientes que evoluíram com dor
são cirurgia invasiva e de longa du- o emprego de medicamentos que sa- aguda pós-operatória18. Haveria
ração; cirurgia em área previamente bidamente reduzem a dor e o consu- então um fator humano, profissio-
inflamada e tempo de uso de retrato- mo de opioides no pós-operatório, nal, de subavaliação e subtratamen-
res/afastadores5,7, entre outros. como cetamina dexmedetomidina, to nesse resultado?

48 | Anestesia em revista - Nº 03/2014



O anestesiologista pode influenciar de

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maneira decisiva os desfechos de dor
pós-operatória e sua cronificação.

Diante do contexto da medicina 3. Davies HTO, Crombie IK, Macrae WA et cutaneous and auditory stimuli: an eva-
al. Pain clinic patients in northern Britain. luation of the generalized hypervigilance
perioperatória, em que todos os Pain Clin, 1992;5:129-135. hypothesis. Pain, 2009;141:215-21.
cuidados ao paciente estão incluí- 4. Macrae WA, Davies HT. Chronic post- 14. Oefelein MG, Bayazit Y. Chronic pain
dos, desde o momento da indicação surgical pain, em: Crombie IK, Croft PR, syndrome after laparoscopic radical ne-
de tratamento cirúrgico até a alta Linton SJ et al (ed.). Epidemiology of Pain. phrectomy. J Urol, 2003;170:1.939-40.
hospitalar, a intervenção da anes- Seattle (WA), IASP; 1999;125-42. 15. American Society of Anesthesiologist
tesiologia no tratamento da dor 5. Kehlet H, Jensen T, Woolf CJ. Persistent Task Force on Acute Pain Management.
postsurgical pain: risk factors and preven- Practice guidelines for acute pain mana-
também está inserida. Ainda do tion. Lancet, 2006;367:1.618-25. gement in the perioperative setting. An
ponto de vista de responsabilida- 6. Grosu I, de Kock M. New concepts in acute updated report by the American Society
de médica, conforme a Resolução pain management: strategies to prevent of Anesthesiologist Task Force on Acute
CFM n° 1.802/2006, que regula a chronic postsurgical pain, opioid-induced Pain Management. Anesthesiology, 2004;
hyperalgesia, and outcome measures. Anes- 100:1.573-81.
prática do ato anestésico, a função
thesiol Clin, 2011;29:311-27. 16. Jain G, Bansal P, Ahmad B et al. Effect of
do anestesiologista consiste em vá- the perioperative infusion of dexmedeto-
7. Gerbershagen HJ, Dagtekin O, Rothe T et
rias obrigações que aparecem em al. Risk factors for acute and chronic pos- midine on chronic pain after breast sur-
todas as etapas do atendimento ao toperative pain in patients with benign and gery. Indian J Palliat Care, 2012;18:45-51.
paciente, que vai desde o pré, intra malignant renal disease after nephrectomy. 17. Apfelbaum JL, Chen C, Metha SS et al.
até o pós-anestésico e inclui clara- Eur J Pain, 2009;13:853-60 Postoperative pain experience: results
8. Steegers M, Snik D, Verhagen A et al. One from a national survey suggests postope-
mente monitorização e tratamento rative pain continues to be undermana-
half of the chronic pain after thoracic sur-
da dor. gery shows a neuropathic component. J ged. Anesth Analg, 2003;97:534-40.
Pain, 2008;9:955-61. 18. Correll DJ, Vlassakov KV, Kissin I. No
O anestesiologista pode influenciar evidence of real progress in treatment
de maneira decisiva os desfechos 9. Sentürk M, Ozcan PE, Talu GK et al. The
effects of three different analgesia techni- of acute pain, 1993-2012: scientometric
de dor pós-operatória e sua cronifi- ques on long-term postthoracotomy pain. analysis. J Pain Res, 2014;7:199-210.
cação, uma vez que o planejamento Anesth Analg, 2002;94:11-5.
anestésico direcionado é uma ferra- 10. Eisenach JC. Preventing chronic pain
menta essencial na prevenção e no after surgery: who, how, and when? Reg * O autor é professor doutor da
tratamento dessa situação clínica. ■ Anesth Pain Med, 2006;31:1-3. disciplina de anestesiologia, dor e
11. Omoigui S. The biochemical origin of cuidados paliativos da Universida-
pain: proposing a new law of pain: the de Federal do Maranhão (UFMA);
Referências: origin of all pain is inflammation and the
inflammatory response. Part 1 of 3 - a responsável pelo Serviço de Dor e
1. Kehlet H, Holte K. Effect of postoperative
analgesia on surgical outcome. Br J Anaes- unifying law of pain. Med Hypotheses, Cuidados Paliativos do Hospital
th, 2001;87:62-72. 2007;69:70-82. Universitário da UFMA e do Insti-
2. Joshi GP, Beck DE, Emerson RH et al.
12. White KP, Carette S, Harth M et al. tuto Maranhense de Oncologia.
Trauma and fibromyalgia: is there an as-
Defining new directions for more effec-
sociation and what does it mean? Semin
tive management of surgical pain in the
Arthritis Rheum, 2000;29:200-16.
** O autor é anestesiologista e
United States: highlights of the inaugu- especialista em dor.
ral Surgical Pain Congress™. Am Surg, 13. Hollins M, Harper D, Gallagher S et al.
2014;80:219-28. Perceived intensity and unpleasantness of

Artigos Científicos | 49
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Artigos Científicos
Por Oscar César Pires *

A importância da ficha de avaliação


pós-anestésica
• O entendimento e a incorpo- e na liderança e referência que se analgésicos e hipnóticos potentes
ração da medicina perioperató- tornou em busca de qualidade, e conhecimento das repercussões
ria pela anestesiologia são tão a anestesiologia é reconhecida do ato anestésico é, sem dúvida,
importantes quanto a medicina como a especialidade que contri- o profissional mais habilitado a
intensiva, a terapia antálgica e buiu de forma significativa para o prestar atendimento integral a
os cuidados paliativos. Essa assi- progresso da medicina. esses pacientes2 .
milação exige uma adaptação do
Essa contribuição se deve à cons- Assim, sendo essas atividades
atual papel que o anestesiologis-
tante e progressiva transformação consagradas pela experiência, o
tas ocupa, necessitando de trei-
que, há muito, não deixa o anes- papel do médico anestesiologis-
namento específico em medicina
tesiologista restrito às atividades tas o torna muito mais abrangen-
ambulatorial, clínica médica e
no centro cirúrgico, visto ser esse te, exigindo envolvimento cada
clínica de pós-operatório1.
profissional possuidor de habili- vez maior desse profissional com
Considerando a origem e a necessi- dades ímpares, fundamentais não seus pacientes, desde o momento
dade da anestesiologia na cirurgia, somente para o atendimento de da indicação do procedimento
ao longo das últimas décadas, houve pacientes cirúrgicos, mas também cirúrgico até a alta hospitalar,
distanciamento dessas origens e clínicos, habilidades que devem ser incluindo avaliação e preparo
aproximação da clínica médica a desenvolvidas, exploradas e extra- pré-anestésico, anestesia propria-
ponto de hoje ser o anestesiologista poladas, objetivando melhor aten- mente dita com vigilância e acom-
considerado um clínico do período ção aos pacientes2 . panhamento constante, cuidados
transoperatório, pois suas respon- na recuperação e no pós-anesté-
sabilidades em muito transcendem A incorporação efetiva da medici- sico imediato, bem como conti-
o ato de administrar fármacos para na perioperatória requer atendi- nuada atenção durante o período
suprimir a consciência, a dor e mento integrado de todas as fases pós-anestésico1,2 .
a mobilidade1. do procedimento anestésico-ci-
rúrgico pelo médico anestesiolo- Nesse sentido, para a obtenção do
Com base na troca de experi- gista. Este, por seu envolvimento almejado sucesso anestésico-cirúr-
ências das salas de recuperação na fase mais crítica do processo, o gico, o anestesiologista se torna o
pós-anestésica, nas técnicas de momento cirúrgico propriamente profissional mais habilitado para
ventilação artificial para as uni- dito, e também por causa de seus o acompanhamento e gerencia-
dades de terapia intensiva, no tra- conhecimentos em fisiopatologia, mento das alterações fisiológicas
tamento da dor aguda e crônica, farmacologia clínica e prática na e de outras ocorrências no perío-
na assistência aos pacientes que emergência cardiorrespiratória, do pós-operatório imediato, visto
necessitam de cuidados paliativos familiaridade com o manuseio de a infinidade de eventos adversos
50 | Anestesia em revista - Nº 03/2014

... registro da visita pós-anestésica

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deve incluir os principais sinais
e sintomas encontrados no pós-
operatório, os pontos fracos e fortes
referentes à internação ...

associados à anestesia e à cirurgia


que podem ocorrer nesse período1,2.
Estudo sobre a qualidade de cui-
dados pós-operatório, em que foi
comparado um grupo que não
recebeu visita pós-anestésica com
outro cuja visita foi feita pelo
anestesiologista que realizou a
visita pré-anestésica e o proce-
dimento anestésico, encontrou
resposta negativa em relação à
anestesia em 77,1% no primeiro
grupo em comparação com 13,5%
no segundo (p < 0,001), eviden- procedimentos odontológicos e Referências:
ciando maior satisfação com a psiquiátricos, entre outros 4. 1. Adesanya AO, Joshi GP. Hospitalists and
anesthesiologists as perioperative physi-
continuidade de cuidados presta- Um instrumento específico para cians: are their roles complementary? Proc
dos por esse profissional 3 . o registro da visita pós-anestésica Bayl Univ Med Cen, 2007;20:140-2.

Embora não esteja totalmente de- deve incluir os principais sinais 2. Leite F, Silva LM, Biancolin SE et al. Per-
cepção do paciente sobre a anestesia e o
finida, essa prestação de cuidados e sintomas encontrados no pós- anestesiologista antes e depois do pro-
aos pacientes além do período de -operatório, os pontos fracos e cedimento cirúrgico. São Paulo, Med J,
recuperação pós-anestésica é de fortes referentes à internação, a 2011;129:224-9.

reconhecida importância, poden- ocorrência ou não de náuseas, vô- 3. Saal D, Heidegger T, Nuebling M et al.
mitos, dor, sangramento, tremores Does a postoperative visit increase patient
do até mesmo reduzir o número satisfaction with anaesthesia care? Br J
de internações pós-operatórias em e outros desconfortos, além de in- Anaesth, 2011;107:703-9.
unidades de cuidados intensivos. formações relativas à qualidade do 4. Weingarten TN, Venus SJ, Whalen FX
Porém, na atualidade, esse acom- atendimento das ocorrências 4-5. et al. Postoperative emergency response
team activation at a large tertiary medical
panhamento aos pacientes na center. Mayo Clin Proc, 2012;87:41-49.
enfermaria é baseado na cultura De fundamental importância para a
efetivação desse avanço na atenção 5. Herrera FJ, Wong J, Chung F. A system-
profissional individual, não sendo atic review of postoperative recovery out-
uma recomendação legal4. aos pacientes, com a adoção de um comes measurements after ambulatory
instrumento específico para regis- surgery. Anesth Analg, 2007;105:63-9.
Em nosso meio, essa responsa- tro pós-anestésico, é a chancela dos 6. Barnett SF, Alagar RK, Grocott MP et al.
bilidade do anestesiologista na órgãos que norteiam a boa prática Patient-satisfaction measures in anesthe-
sia: qualitative systematic review. Anes-
gestão do paciente carece de pro- médica, que certamente promoverá thesiology, 2013;119:452-78.
tocolos que devem ser adotados e melhorias tanto na satisfação do pa-
aplicados a todas as áreas de atu- ciente como na imagem do médico * O autor é vice-presidente da SBA
ação da anestesiologia, incluindo anestesiologista e das instituições
obstetrícia, exames diagnósticos, ■
de assistência à saúde4-6.
Artigos Científicos | 51
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Por Onofre Alves Neto *

Situações especiais na prática médica


do anestesiologista
•Anestesia com Médicos com duração de um ano, sendo op- participar ativamente das tarefas
Residentes cional para o PRM em acupuntura, a ele designadas, cabendo a seu
anestesiologia, medicina física e rea- preceptor sua orientação e fiscali-
A residência médica é uma moda- bilitação, neurocirurgia, neurologia, zação. Fica claro, então, que, para
lidade de ensino de pós-graduação ortopedia ou reumatologia. Tam- exercer o treinamento de médico
destinada a médicos, sob a forma de bém a área de atuação em medicina residente, é indispensável a presen-
curso de especialização, instituída paliativa é contemplada para os for- ça do preceptor.
pelo Decreto-lei nº 80.281, de 5 de mandos no PRM de anesesiologia. Num parecer de processo-consulta
setembro de 1977, que funciona em
Para ser médico residente, o can- CFM nº 4405/94, o relator cons.
instituições de saúde sob a orien-
didato deve ser formado por facul- Carlos Alberto de Souza Martins,
tação de profissionais médicos de
dade de medicina regularmente do CFM, respondendo à consulta
elevada qualificação ética e profis-
reconhecida e ser portador de formulada pelo Hospital das Clíni-
sional, sendo considerada o “padrão
registro no conselho regional de cas da Universidade Federal de Per-
ouro” da especialização médica no
medicina correspondente, para, nambuco ao CREMEPE, enfatiza
Brasil. Esse mesmo decreto também
segundo a lei, ter todos os direitos que, em nosso país, o curso médico
criou a Comissão Nacional de Resi-
e deveres no exercício da profissão. é considerado terminal e que os já
dência Médica (CNRM), que regu-
formados procuram a residência
lamenta sua execução no país.
As denominações R1, R2 e R3 médica como forma de aprender,
Depois de cumprir integralmente caracterizam hierarquização na ganhar conhecimento e habilidade
o Programa de Residência Médica aquisição de conhecimentos e ha- que o tornem um especialista, refle-
(PRM) confere-se, a partir daí, o tí- bilidades e impõem, progressiva- tindo que não existe obrigatorieda-
tulo de “especialista” ao concluinte. mente, a necessidade de atuação de para as instituições oferecerem
O termo “residência médica” só pode nas tarefas práticas. Na definição programas de residência médica,
ser empregado para programas que da CNRM, há a exigência de qua- mas, se o fazem, têm a obrigação de
sejam credenciados pela CNRM. lificação dos preceptores das re- possuir preceptores adequados em
sidências médicas. É o preceptor número suficiente para atender à
Em anestesiologia, o PRM prevê que realiza a supervisão direta do demanda dos MR. Considera que é
sua formação em três anos, de trabalho teórico e prático do MR, ato atentatório à ética médica a rea-
acordo com a Resolução CFM nº sendo seu orientador. Já o super- lização simultânea de anestesias em
1.973/2011, publicada no DOU visor é o responsável pelo PRM, pacientes distintos pelo mesmo pro-
de 1º de agosto de 2011, seção I, como normatiza a CNRM. O mé- fissional, ainda que seja no mesmo
p. 144-147. dico residente, diferentemente de ambiente cirúrgico, interpretando
Atualmente, em anestesiologia, está um estagiário, não pode ficar só o centro cirúrgico com várias salas
prevista a área de Atuação em Dor, assistindo passivamente, mas deve que ofereça treinamento ao MR.
52 | Anestesia em revista - Nº 03/2014

... anestesista, como membro da

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equipe, é corresponsável pelas
decisões cirúrgicas, respondendo,
obviamente, pela anestesia.

Anestesia para Cirurgias sem cirúrgicos sem a presença de um comissão de ética médica do hospi-
Auxiliares Médicos médico auxiliar, conferindo essa tal e ao próprio conselho regional de
responsabilidade a enfermeiros, medicina, como forma de fiscalizar
Inúmeras são as resoluções e os instrumentadores etc., quase sem-
pareceres, tanto do CFM quanto o exercício profissional, lembrando-
pre por motivações econômico- -se de que a responsabilidade médi-
dos diversos conselhos regionais, -financeiras, sabe-se que tanto o
a respeito da composição de uma ca é sempre pessoal e não pode ser
médico quanto a instituição res- presumida, conforme indica o pará-
equipe cirúrgica, ficando claro que pondem por essa ilicitude, quando
o responsável pelo ato cirúrgico é grafo único do art.1º do atual CEM.
denunciada e configurada.
o cirurgião, cabendo a ele a esco-
Claro, na opinião deste que subscre- Anestesia para Cirurgias por Não
lha de seus auxiliares, bem como
ve, que operar sendo auxiliado por Médicos (Odontólogos)
o estabelecimento do número e da
qualificação exigidos. O primeiro médicos residentes (em treinamen- O exercício da odontologia no Bra-
auxiliar deverá ser sempre um mé- to) não se constitui ilicitude ética, sil está estabelecido na Lei 5.081,
dico-cirurgião, conhecedor da téc- pois o médico residente é médico e de 24 de agosto de 1966, em cujo
nica e da metodologia do primeiro deve, em seu treinamento, auxiliar artigo 6º trata das competências
cirurgião e apto a terminar o ato primeiro para aprender, para depois do cirurgião-dentista, enquanto o
cirúrgico no impedimento do titu- se responsabilizar por um ato cirúr- artigo 7º trata dos limites de sua
lar. A necessidade de um primeiro gico, e, aí, sim, ser auxiliado também atuação ético-profissional.
auxiliar e até um segundo auxiliar por um médico preceptor.
está na dependência da complexi- O anestesista não deve fazer a
dade e do porte da cirurgia, caben- anestesia quando não existirem
do ao cirurgião a responsabilidade auxiliares médicos para a cirurgia?
exclusiva de sua escolha. Sabendo que o alvo de toda a aten-
Claro está no atual Código de Ética ção do médico é a saúde do ser hu-
Médica, em seu artigo 2º, que diz mano, em benefício da qual deverá
que é vedado ao médico delegar a agir com o máximo de zelo e melhor
outros profissionais atos ou atribui- de sua capacidade profissional, a
ções exclusivos da profissão médi- responsabilidade direta pelo ato ci-
ca, chegando, no seu artigo 10, a rúrgico é do próprio cirurgião, e o Controvérsias existem quanto
responsabilizar os médicos que se anestesista, como membro da equi- à área de atuação de médicos e
acumpliciam com os que exercem pe, é corresponsável pelas decisões cirurgiões-dentistas, sendo in-
ilegalmente a medicina ou com cirúrgicas, respondendo, obviamen- questionável o fato de o cirur-
instituições médicas nas quais se te, pela anestesia. A não ser em con- gião-dentista não poder realizar
pratiquem atos ilícitos. dições de emergência e/ou urgência, anestesia geral nem assinar atesta-
se a atitude de se fazer cirurgia sem do de óbito. Já em 1978, através da
Embora sabendo que é prática cada auxiliar médico for corriqueira e du- Resolução CFM 852/78, com base
vez mais comum, em nosso país, que radoura, o fato deve ser denunciado nos resultados de estudos realiza-
cirurgiões façam procedimentos à direção da entidade hospitalar, à dos pela Comissão Paritária dos

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Conselhos Federal de Medicina óbito será fornecido pelo serviço de de: ossos da mandíbula; dentes;
e de Odontologia, estabeleceu-se patologia, de verificação de óbito músculos da língua; músculos fa-
que as solicitações para a realiza- ou pelo Instituto Médico Legal, de ciais, especialmente o bucinador e
ção de anestesia geral em pacientes acordo com a organização institu- o orbicular dos lábios; músculos da
a serem submetidos à cirurgia por cional local e em atendimento aos mastigação (temporal, masseter,
cirurgião-dentista somente pode- dispositivos legais. pterigóideo medial, pterigóideo
rão ser atendidas pelos médicos Os conselhos federais de medi- lateral, digástrico, geno-hióideo
anestesiologistas quando forem cina e de odontologia, através da e milo-hióideo); ramo motor do
realizadas em ambiente hospitalar, Resolução CFM nº 1950/2010, nervo facial que inerva a maio-
cujo diretor técnico seja médico e estabeleceram critérios para a ria dos músculos da mastigação,
disponha das indispensáveis con- realização de cirurgias das áreas sendo que o processo mastigatório
dições de segurança comuns a am- bucomaxilofacial e craniomaxi- é controlado por núcleos no tron-
bientes cirúrgicos, sendo prática lofacial, considerando as então co cerebral e ramos da artéria ca-
atentatória à ética a solicitação e/ existentes controvérsias, e estabe- rótida externa (ramo infra-hióideo
ou a realização de anestesia geral leceram que nos procedimentos da artéria tireóidea superior; arté-
em consultórios ou ambulatórios. eletivos realizados conjuntamen- ria lingual e seus principais ramos
te por médico e odontólogo, vi- e artéria facial com seus ramos
Em lesões de interesse comum à concernentes; as veias seguem a
medicina e à odontologia, a equipe sando à adequada segurança, a
responsabilidade assistencial ao mesma nomenclatura e topografia
cirúrgica deve ser constituída, obri- das artérias).
gatoriamente, de médico e cirurgião- paciente é do profissional que in-
-dentista, para adequada segurança dicou o procedimento, e seu art. A realização de anestesia para ci-
do resultado, ficando sempre a equi- 2º prevê que é da competência rurgia feita por ondontólogos, em
pe sob a chefia do médico. exclusiva do médico o tratamen- âmbito ambulatorial, deve estar de
to de neoplasias malignas, neo- acordo com os critérios contidos na
Em parecer consulta CFM nº 32/91, plasias das glândulas salivares Resolução CFM nº 1409/94.
o CFM, através do conselheiro Cláu- maiores (parótida, submandibu-
dio de Carvalho Lisboa, respondeu lar e sublingual), acesso pela vida *O autor possui TSA-SBA; traba-
que, em ato cirúrgico-odontológico, cervical infra-hióidea, bem como lha na Área de Atuação em Dor;
o cirurgião-dentista é o responsável a prática de cirurgia estética, res- é professor associado de aneste-
pela cirurgia e por seu resultado ou salvadas a estética funcional do siologia da Universidade Federal
consequências, e o anestesiologis- aparelho mastigatório. de Goiás e membro do Conselho
ta é o responsável pela anestesia e Regional de Medicina de Goiás,
suas consequências. Respondendo a questionamento
feito, pelo parecer consulta CRM- CREMEGO.
Em caso de óbito do paciente sub- -GO nº 056/2007, o conselheiro
metido à cirurgia bucomaxilofa- parecerista Dr. Fernando Paceli
cial, realizada exclusivamente por Neves de Siqueira definiu a com-
cirurgião-dentista, pela Resolução posição estrutural do sistema mas-
CFM nº 1536/98, o atestado de tigatório como sendo constituída

54 | Anestesia em revista - Nº 03/2014


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Por Montanha, Alcântara & Advogados Assoc. *

O que fazer quando denunciado na Justiça ou


no CRM?
•Defesa Administrativa e Judicial civil decorrentes de ato anestésico, Finalmente, a responsabilidade penal
do Médico Anestesiologista analisados pelo Judiciário entre 2003 advém da violação, com dolo ou
e 2013, assim como dos casos de va- culpa, de tipos penais existentes na
O mundo contemporâneo tem exi- lores de reparação. legislação pátria, sobretudo, no Có-
gido crescente aprimoramento de digo Penal. É também apreciada pelo
todos os profissionais liberais, não A apuração de responsabilidade Poder Judiciário, sendo a ação penal
só em suas áreas de atuação espe- médica pode acontecer, principal- precedida do inquérito policial, no
cíficas, mas também em uma visão mente, em três esferas distintas: qual são apuradas as infrações penais
holística e transdisciplinar, que ética, cível e criminal. A respon- e sua autoria, com a elaboração, ao
abranja outras áreas do conheci- sabilidade ética decorre da viola- final, de minucioso relatório, a ser
mento, ainda que correlatas à área ção de normas deontológicas da encaminhado ao juiz competente,
de especialidade de sua profissão, medicina (preceitos do Código de que, em seguida, o direcionará para
como gestão, atuação no mercado e Ética Médica e normas da prática o Ministério Público para o ofereci-
defesa profissional e judicial. médica vigentes no país). É apu- mento, ou não, de denúncia crime.
E com o médico anestesiologista rada administrativamente pelos O processo penal elege como bem
não é diferente, uma vez que sua órgãos de classe, em especial pelo maior a proteção da sociedade.
área de atuação foi mais amplia- Conselho Federal de Medicina
(CFM) e os conselhos regionais O objetivo do presente trabalho é
da, de forma a exigir um preparo apresentar, de forma sucinta e acessí-
mínimo dos médicos para lidar de medicina (CRMs), que disci-
plinam a conduta profissional mé- vel a profissionais que não possuem
com questões alheias ao exercício formação em direito, os principais
da medicina. É o que ocorre, por dica no Brasil.
aspectos e medidas envolvidos na
exemplo, quando um médico anes- Por sua vez, a responsabilidade defesa do profissional da medicina
tesiologista enfrenta uma denúncia civil tem por objetivo a reparação em tais casos de responsabilidade.
no CRM ou um processo judicial de danos causados ao paciente e à
de caráter cível ou até criminal. Nos tópicos seguintes, serão
sua família. É apurada pelo Poder apresentados os aspectos gerais
Em pesquisa realizada em 2013 Judiciário, com base, principalmen- sobre as medidas de defesa em
pela SBA (A Responsabilidade Civil te, no Código Civil Brasileiro, no cada uma das referidas hipóteses
da Anestesiologia – Uma Visão da Código de Defesa do Consumidor de responsabilidade.
Jurisprudência Brasileira Contem- e na legislação correlata. A análise
porânea), em conjunto com a asses- da responsabilidade no processo Quais as Medidas a Serem
soria jurídica, que analisou mais de civil busca, de forma geral, apurar Tomadas após uma Denúncia na
8 mil julgados nos tribunais brasilei- a existência do dano e seu nexo de Justiça ou no CRM?
ros, constatou-se um grande aumen- causalidade com a conduta culposa Ao sofrer uma denúncia de infra-
to dos casos de responsabilidade ou dolosa do médico. ção ético-profissional no CRM
Artigos Científicos | 55

O processo penal elege como bem

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maior a proteção da sociedade.

competente ou ter contra si ajui- Isso porque, em qualquer das ins- O médico será intimado à sindi-
zado um processo de reparação tâncias responsáveis pela análise do cância e deverá dirigir-se imediata-
de danos ou, ainda, ser apontado processo, caberá ao médico demons- mente a seu conselho regional para
como indiciado em inquérito po- trar que atuou de forma diligente e obter cópia integral do procedi-
licial, é importante que o médico escorreita. Não se espera do médico mento instaurado, bem como apre-
anestesiologista prepare-se adequa­ anestesiologista necessariamente o sentar defesa no prazo assinalado.
damente para sua defesa. resultado positivo para o paciente;
Perante o Conselho Regional de
Entretanto, é necessário advertir que espera-se somente a adoção adequa-
Medicina (CRM), a defesa pode
o objetivo deste texto é apenas escla- da das técnicas existentes e auto-
ser produzida pelo próprio médi-
recer as principais condutas a serem rizadas, bem como o atendimento
co investigado, não sendo exigida
adotadas pelos médicos em cada um ao paciente com toda a diligência
intervenção de advogado. Acon-
dos referidos procedimentos. Assim, e atenção possíveis. A obrigação
selha-se, entretanto, conforme já
alerta-se que não é recomendada a do anestesiologista é, portanto, de
ressaltado, que o médico procure
autodefesa, pois os processos que en- meio, e não de resultado.
auxílio especializado, que poderá
volvem a apuração da responsabili- Feita essa consideração, passa-se à promover com maior eficiência a
dade do médico possuem meandros analise do procedimento de apu- defesa, de forma a neutralizar as
técnicos que demandam a assessoria ração de responsabilidade ética acusações existentes e, inclusive,
de advogados com experiência nesse perante os conselhos regionais de obter o arquivamento da denúncia.
ramo do direito. medicina (CRMs).
Tal recomendação possui especial
Como recomendação geral, indica-se Do Processo Administrativo de Res- relevância, pois os fatos apurados
que o médico partícipe do ato mé- ponsabilidade Ético-Profissional pelo CRM e eventual condenação
dico que originou o procedimento nessa esfera podem ser utilizados
judicial ou extrajudicial deve reunir No âmbito de atuação do Conselho com efeitos nefastos nos processos
todas as provas documentais possí- Regional de Medicina, o processo cível e criminal.
veis, principalmente os prontuários é regido pela Resolução CFM n.º
2.023, de 20/8/2013, que estabele- Caso o médico opte por apresentar
médicos detalhados, com o máximo
ce todos os critérios e prazos para a pessoalmente sua defesa, deverá
de informações. Desse modo, como
apresentação da defesa. ater-se às questões relativas à de-
forma de se precaver com relação a
núncia, de forma a elucidar os fatos
qualquer problema futuro, é impres- A referida resolução determina que, e municiar o Conselho Regional
cindível que o médico anestesiolo- ao ser recebida a denúncia, será ins- de Medicina (CRM) em relação ao
gista registre, pormenorizadamente, taurada uma sindicância e nomea- evento descrito.
nos prontuários médicos, todas as do um conselheiro sindicante, que
informações acerca dos atos médicos coletará a manifestação escrita do Uma das técnicas de defesa a ser
praticados e dos procedimentos rea- médico, assim como todas as pro- adotada pelo médico (ou por seu
lizados, na forma estabelecida pelo vas, e apresentará um relatório final, advogado) é a demonstração de
Código de Ética Médica, Resolução opinando acerca do arquivamento que sua conduta está de acordo
CFM n° 1.802/2006, e demais nor- da denúncia ou da transmutação da com a literatura médica, citando as
mativas aplicáveis à matéria. sindicância em processo disciplinar. obras consultadas. Poderá, ainda,
56 | Anestesia em revista - Nº 03/2014
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anexar à sua defesa todos os do- judicial, possuindo prazos próprios Importante ainda salientar que o
cumentos (prontuários médicos e procedimentos específicos, como resultado do processo disciplinar
e fichas anestésicas) relacionados a apresentação de razões finais orais. pode ser contestado judicialmente,
ao atendimento, bem como apre- Assim, se considerar que os médicos pois a Constituição Federal garante
sentar declaração de testemunhas, em geral possuem menor familiari- o livre acesso ao Judiciário, confor-
com indicação de nome completo, dade com prazos processuais, pro- me previsão do seu artigo 5º, inciso
dados pessoais e endereço, para dução de provas e apresentação de XXXV: “A lei não excluirá da apre-
posterior tomada de depoimento. defesa oral, o mais adequado é que ciação do Poder Judiciário lesão ou
Durante a sindicância, são observa­ eles estejam sempre acompanhados ameaça a direito.”
dos os princípios da ampla defesa e de seus advogados.
Do Processo Judicial Cível
do contraditório, disponibilizando- A contratação de advogado, desde
-se aos médicos oportunidade de Em paralelo ao que ocorre no pro-
o início da sindicância, dá ao mé- cesso disciplinar, na esfera judicial,
afastarem as alegações da denúncia. dico a oportunidade de criar uma há os processos cível e criminal,
Se comprovado que os fatos alega- estratégia de defesa a ser seguida cada qual com seu procedimento
dos não eram verdadeiros ou que o em todas as instâncias, aumentan- próprio, previsto no Código de
médico atuou sem nenhuma infra- do consideravelmente suas chances Processo Civil, no Código de Pro-
ção ética, a sindicância será arquiva- de êxito. cesso Penal e na legislação correla-
da. Caso contrário, será instaurado ta à espécie.
Na ocasião do julgamento do proces-
um processo disciplinar para a apu-
so disciplinar também é permitida No processo cível, o primeiro ato
ração da prática infracional. Como
a sustentação oral prévia aos de chamamento do médico ao pro-
visto, a sindicância é um procedi-
debates, bem como a apresentação cesso judicial é a carta de citação,
mento de apuração preliminar.
de considerações finais orais após que concede ao médico o prazo de
O processo disciplinar é instaurado o término do debate. Ato seguinte, 15 (quinze) dias para a apresenta-
por meio do “termo de abertura”, que serão coletados os votos e anuncia- ção de defesa judicial.
conterá o relatório conclusivo da sin- do o resultado do julgamento.
dicância, com a indicação fundamen- O processo judicial brasileiro exige,
tada dos fatos considerados possíveis Todo procedimento no CRM é de modo geral, que as partes envol-
infrações ao Código de Ética Médica guardado pelo sigilo, e o julgamento vidas no processo estejam devida-
e sua capitulação fundamentada. ocorre com portas fechadas, admi- mente representadas por advogados,
tindo-se a presença exclusivamente os quais possuem capacidade postu-
Na sequência, o médico denuncia- das partes e de seus advogados, dos latória, pois não é permitida a defesa
do será citado para apresentar sua integrantes da assessoria jurídica apresentada pelo próprio médico.
defesa prévia e arrolar testemunhas dos conselhos de medicina, dos O médico que opta pela autodefesa
no prazo de 30 dias, contados a par- corregedores e dos funcionários será tido como revel no processo e
tir da data de juntada do compro- necessários para o funcionamento arcará com os “efeitos da revelia”,
vante de recebimento. do Tribunal de Ética Médica. Da que consistem, principalmente, em
A instrução do processo disciplinar decisão final cabe a interposição de considerar verdadeiros os fatos ale-
muito se assemelha ao processo recurso administrativo. gados pelo autor da ação.
Artigos Científicos | 57

Uma das técnicas de defesa a ser adotada

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pelo médico é a demonstração de que sua
conduta está de acordo com a literatura
médica, citando as obras consultadas.

No processo cível é imprescindível, contrário ao laudo pericial foram A fase instrutória encerra-se com a
para o convencimento do juiz, a pro- reformadas pelas instâncias supe- prolação da sentença. A sentença é
dução de todas as provas existentes, riores. Tais conclusões permitem a decisão de primeira instância, que
em especial a prova pericial, com a afirmar que a prova pericial é uma poderá ser alterada mediante a inter-
finalidade de comprovar a inexis- das mais relevantes nos processos posição, pela parte vencida, do recur-
tência de nexo causal entre a con- que envolvem a responsabilidade so de apelação, que será julgado pelo
duta do médico e o dano ou, ainda civil do anestesiologista. tribunal estadual (Justiça comum)
se possível, verificar a existência de É preciso esclarecer que, diante do ou pelo tribunal regional (Justiça
excludentes de responsabilidade, dano, a responsabilidade deverá ser Federal). A decisão colegiada do
como complicações ou intercorrên- apurada de acordo com o grau da tribunal poderá ser objeto, ainda, de
cias médicas que decorram não de culpa, o nexo de causalidade e a di- recurso especial (endereçado ao Su-
ato médico específico, mas de uma mensão do dano sofrido, cabendo ao perior Tribunal de Justiça) e recurso
série de fatos, como reação adversa médico responder exclusivamente extraordinário (endereçado ao Su-
do organismo do paciente ou pouca pelos serviços prestados pessoal- premo Tribunal Federal).
resistência imunológica. mente, naquilo em que o ato médico Todos esses recursos possuem
Isso porque a amplitude da respon- fora prejudicial ao paciente, sendo procedimento próprio previsto no
sabilidade do médico somente po- necessário existir nexo causal entre Código de Processo Civil e nos re-
derá ser verificada após a necessária o ato médico danoso e o prejuízo gimentos internos dos tribunais.
e imprescindível realização da perí- experimentado, bem como sendo
A decisão somente se tornará de-
cia médica, a qual analisará todos os imprescindível a verificação do con-
finitiva após o trânsito em julga-
procedimentos médicos envolvidos, teúdo do “resultado”, ou seja, se esse
do, quando não couber qualquer
bem como as drogas ministradas ao resultado advém da conduta exter-
outro recurso.
paciente, buscando, assim, verificar nada pelo médico ou não.
se existe nexo de causalidade entre Nas ações indenizatórias por erro Após o trânsito em julgado, forma-
os atos médicos praticados e o dano médico cabe ao médico aneste- -se o título executivo judicial (sen-
sofrido pelo paciente, bem como se siologista demonstrar que prestou tença), sendo concedido à parte
todos os atos médicos foram rea- ao paciente os melhores cuidados vencida o prazo de 15 (quinze)
lizados corretamente e dentro dos possíveis nas circunstâncias do dias para pagamento espontâneo
padrões recomendáveis. caso concreto, bem como que o da dívida, sob pena de aplicação
Na referida pesquisa A Responsa- ato anestésico fora praticado sem de multa no percentual de 10%
bilidade Civil da Anestesiologia, nenhuma violação aos deveres mé- (dez por cento) e prosseguimento
de 2013, constatou-se que, em dicos e à boa técnica. do feito com a instauração da fase
praticamente todos os casos de Portanto, é primordial e indis- executiva, que culminará com pe-
responsabilidade civil, a posição pensável que o médico aneste- nhora e alienação de bens.
do magistrado ou do tribunal se- siologista conheça e cumpra as
guiu o parecer do perito judicial. exigências previstas na Resolução Do Processo Judicial Criminal
Demonstrou-se que quase todas CFM n° 1.802/2006 e no Código Ao contrário do processo cível,
as decisões proferidas em sentido de Ética Médica. que não depende da instauração
58 | Anestesia em revista - Nº 03/2014
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de nenhum procedimento prévio, autos ao Ministério Público, que, Trata-se de garantia constitucional
a ação penal (nos crimes de lesão após exame do relatório e das prevista no artigo 5º, inciso XXXIX,
corporal e homicídio) decorre da provas coletadas poderá: a) ofe- da Constituição Federal, e no artigo
apuração prévia dos fatos, através da recer denúncia; b) pedir arqui- 1º do Código Penal, que possuem a
instauração de um inquérito policial, vamento; c) requerer o retorno mesma redação: “Não há crime sem
que não é o processo. do inquérito à autoridade policial lei anterior que o defina. Não há
O inquérito policial consiste em para novas diligências. pena sem prévia cominação legal.”
um procedimento preparatório da A denúncia oferecida pelo Minis- Os prazos no processo penal
ação penal de competência das au- tério Público é uma das formas de devem ser contados da data da
toridades policiais, com o objetivo instauração da ação penal e conte- intimação, e não da juntada aos
de municiar, mediante a colheita de rá a exposição do fato criminoso, autos do mandado ou da carta pre-
provas, o Ministério Público, titular com todas as suas circunstâncias, catória ou de ordem. Sendo assim,
da ação penal pública, ou a vítima, a qualificação do acusado ou os es- ao receber a citação de uma ação
no caso das ações penais privadas. clarecimentos pelos quais se possa penal, o médico deve procurar
São produzidas provas no inquérito identificá-lo, a classificação do imediatamente um advogado es-
policial por meio da realização de crime e, quando necessário, o rol pecializado para defendê-lo.
diligências, perícias, acareações, oi- de testemunhas. O Código de Processo Penal exige,
tiva da vítima, do indiciado (supos- No direito penal vigora o princí- em seu artigo 158, para os crimes
to autor do fato) e das testemunhas, pio da tipicidade penal, ou seja, materiais (que deixam vestígios),
entre outras. são considerados ilícitos penais a realização da prova pericial, que
O procedimento do inquérito po- exclusivamente os fatos descritos poderá ser feita diretamente na ví-
licial é inquisitório, com o menor na legislação penal cometidos com tima ou indiretamente, através do
espaço de intervenção do investi- dolo ou culpa: Código Penal, Lei exame dos prontuários médicos (fi-
gado. Entretanto, é importante que de Contravenções Penais e outras chas de anestesia, exames e demais
haja acompanhamento da coleta leis esparsas. prontuários médicos).
de provas, a fim de garantir os di-
reitos fundamentais da parte. Para
tanto, o advogado do indiciado tem
a prerrogativa legal de acesso aos
autos do inquérito, não lhe sendo
oponível a alegação de sigilo.
Após a instrução completa do
inquérito policial, a autoridade
policial elabora um relatório mi-
nucioso, que é encaminhado ao
juiz competente, o qual, por meio
de despacho inicial, direciona os

Artigos Científicos | 59

... recomenda-se que o médico

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anestesiologista preencha, de forma fiel e
pormenorizada, todas as fichas obrigatórias
da documentação da anestesia ...

Assim como no processo cível, a aspecto que talvez seja mais relevan- é tão somente demonstrar diligên-
fase instrutória se encerra com a te é a produção da prova. cia, pois as descrições devem ser
prolação da sentença final de conde- condizentes e compatíveis com a
nação ou de absolvição. A sentença Assim, recomenda-se que o médi- conduta adotada.
é a decisão de primeira instância, ou co anestesiologista preencha, de
forma fiel e pormenorizada, todas Concluindo, é possível resumir as
do tribunal do júri, conforme o caso, condutas a serem adotadas pelos
que poderá ser alterada mediante a as fichas obrigatórias da docu-
mentação da anestesia, na forma médicos anestesiologistas ante
interposição, pela parte vencida, do os processos éticos e judiciais da
recurso de apelação, que será julga- exigida pela Resolução CFM n°
1.802/2006, quais sejam: 1) ficha seguinte forma: a) providenciar a
do pelo tribunal estadual (Justiça documentação necessária (laudos,
comum) ou pelo tribunal regional de avaliação pré-anestésica; 2) ficha
de anestesia; 3) ficha de recupera- exames e prontuários médicos); b)
(Justiça Federal). A decisão colegia- observar os prazos constantes das
da do tribunal poderá ser objeto de ção pós-anestésica, para produzir
provas sobre os procedimentos cartas de intimação/citação, lem-
Recurso Especial (endereçado ao brando que a defesa a ser produzida
Superior Tribunal de Justiça) e Re- adotados durante o ato anestésico,
o que viabilizará eventual defesa é trabalhosa; c) procurar um advo-
curso Extraordinário (endereçado gado de sua confiança em tempo
ao Supremo Tribunal Federal). em processo ético ou judicial.
hábil; d) sempre e em qualquer
O preenchimento de todas as infor- circunstância documentar adequa-
Todos esses recursos possuem mações concernentes ao ato anes-
procedimento próprio previsto no damente todos os procedimentos
tésico terá o condão de resguardar médicos realizados.
Código de Processo Penal e nos re- juridicamente o médico anestesio-
gimentos internos dos tribunais. logista, demonstrando sua diligên- Somente com a adoção de tais me-
Cada crime possui pena específica, cia na condução do ato anestésico. didas será possível reduzir ou até
que é calculada de acordo com a mesmo eliminar os riscos de eventu-
Reitera-se que a prova pericial é o al condenação em quaisquer esferas
dosimetria e a previsão legal.
O processo penal, assim como os
principal elemento probatório em
todas as ações judiciais e será, na

(administrativa, cível ou penal).
demais ramos, possui uma série de maioria das vezes, produzida com
peculiaridades, somente assimi- base nos dados coletados das fichas * Os autores são advogados do
láveis pelos profissionais da área, anestésicas e na avaliação do dano escritório Montanha, Alcântara
sendo inviável e contraprodutivo sofrido pela vítima. & Advogados Associados,
tratarmos de todas as nuances pro- O anestesiologista deve tomar o contratados como assessoria
cessuais possíveis. cuidado de registrar pormenoriza- jurídica da SBA:
damente todos os procedimentos Adriana de Alcântara Luchtenberg
A Relevância da Produção e medicamentos utilizados, veri- Cláudia Montanha
da Prova ficando, ainda, se a equipe cirúr- Gabriel Jamur Gomes
De acordo com o exposto, verifica-se gica o fez adequadamente. Não se
que, em todas as esferas de apuração trata, evidentemente, de modificar
da responsabilidade do médico, o os fatos. Pelo contrário, o objetivo
60 | Anestesia em revista - Nº 03/2014
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Por Mercedes Azevedo *

Resiliência - sobrevivência ou superação?

• A resiliência é um conceito a viver e enxergar um rico sen-


psicológico emprestado da física, tido na vida. O sentido da vida é
definido como a capacidade de o constituído fundamentalmente de
indivíduo lidar com problemas, su- autoconhecimento, percepção do
perar obstáculos ou resistir à pres- outro e leitura do ambiente.
são de situações adversas.
Qualidade de vida, educação, pro-
O recurso que a pessoa resiliente fissionalização, cultura e religião
utiliza para sobreviver é a maturida- normalmente aprimoram e enri-
de em equacionar, de modo sensato, quecem a sobrevivência. Baixos
o conjunto de crenças, para possibi- índices de resiliência significam
litar uma postura de transcender os ameaça à sobrevivência em uma
empecilhos na vida, ler o ambiente dessas áreas.
e outras pessoas com acuidade e Gustavo, Márcia, Pedro e Augusto.
imaginar um futuro com superação. Destacamos um exemplo de resili-
A maturidade se expressa em não ência dentro da família SBA. 1. Como é constituída sua família?
ser apegado em demasia às crenças É constituída por esposa e filhos gê-
ao ponto de se tornar intolerante ou meos, de 3 anos.
Dr. Gustavo Rech dos Santos
ser apático a ponto de se tornar sub- 2. Ser médico foi sua primeira opção
misso demais nas situações de en- –– Ingressou na Universidade Católica profissional desde a infância? Essa de-
frentamento e controle das emoções de Pelotas aos 19 anos, tendo con- cisão teve alguma influência familiar?
instintivas para reagir à adversidade. cluído sua graduação aos 24 anos, Não. A opção pela medicina foi tardia.
em 2004. Só ao completar o segundo grau (hoje
Pessoas com bons índices de resi- ensino médio) em técnico em mecâni-
–– Especializado em anestesiologia: ca que optei pela medicina.
liência são capazes de utilizar as CET da Clínica de Anestesia de Ri-
pistas que leem nas outras pessoas beirão Preto – CARP. 3. Ao longo de sua graduação, o que
para reorientar seu comportamen- o fez optar pela anestesiologia como
to, promovendo a autorregulação, –– Período da especialização: 1/2/2005 especialidade?
o desenvolvimento da capacidade a 31/1/2009, com paralisação de um No terceiro ano de faculdade, na
ano para tratamento após acidente: cadeira de farmacologia, conheci o
de elaborar estratégias de como
1/7/2006 a 30/6/2007. anestesiologista Dr. Márcio Horta. Na
se posicionar na vida de forma
–– Responsabilidade do CET: Dr. José época, ele estava realizando a parte
calculada, assumindo riscos que prática de sua tese de doutorado e fui
assegurem a sobrevivência. O Roberto Nociti.
bolsista de iniciação científica sob sua
caminho da sobrevivência e da –– Admissão na SBA como membro orientação. Assim, acabei completa-
superação leva a pessoa resiliente aspirante: 2/5/2005. mente envolvido pela especialidade.

Prata da Casa | 61

O sentido da vida é constituído
fundamentalmente de
autoconhecimento, percepção do

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outro e leitura do ambiente.

4. Onde e em quais circunstâncias e queremos; assistência de profissio- retorno conversei com o chefe do
aconteceu o acidente que mudou nais qualificados, por exemplo, os que CET sobre meus anseios, limitações
sua vida? trabalham ou, melhor, dedicam suas e vontade de retomar as atividades.
Foi um acidente automobilístico em vidas para a reabilitação de pacientes Recebi um feedback extremamente
uma viagem de férias no município de na Rede Sarah de Hospitais de Reabi- positivo. Acordamos um período de
Tapes, a aproximadamente 80 km de litação; e, sem dúvida, o mais impor- testes e uma avaliação da viabilidade
Porto Alegre. tante, o apoio da família. de permanecer na especialidade no
fim do período.
5. Quanto tempo decorreu entre o 8. Como foi seu retorno ao convívio
acontecimento e a confirmação de com os colegas da especialização? 11. Quão difícil foi ou é sua readap-
sua nova condição de vida? Meus colegas, hoje amigos, assim tação profissional?
Na fase imediata, tive um lapso de me- que souberam que eu tinha sofrido Hoje, ao fazer uma breve avaliação,
mória de aproximadamente 48 horas. um acidente e minha real situação, não vejo dificuldades intransponíveis.
Além da lesão medular (T3), sofri um mantiveram-se sempre a meu lado e Sempre estive extremamente bem as-
traumatismo crânio encefálico leve. de minha família. Digo sem medo de sistido, e ser adepto do trabalho em
Mas no momento em que passei a ter errar: tenho os melhores amigos que equipe é fundamental, principalmen-
consciência da situação, imediata- se pode ter. te nas adversidades.
mente percebi que se tratava de uma
Mas o retorno ao convívio profissio- 12. Quais os principais desafios enfren-
lesão medular grave.
nal foi um misto de medo e ansiedade, tados com relação à acessibilidade?
6. Como foi o despertar de sua cons- dada a situação até então nova para Temos normas técnicas da ABNT,
ciência para a nova realidade? todos. Fui extremamente bem recebi- extremamente minuciosas, que,
Assim como todo paciente, primeiro a do por colegas, preceptores do CET e quando adotadas, são perfeitas.
negação; depois, uma espécie de luto até pelos cirurgiões (risos). Porém, em muitos locais, são com-
e, por fim, a percepção de que havia pletamente negligenciadas ou apli-
duas alternativas: lamentar o que se 9. Quais os principais obstáculos en- cadas de forma empírica. Faltam
perdeu ou otimizar o que restou. E frentados para sua readaptação? rampas de acesso, elevadores, portas
como dizia Gabriel Garcia Marques, Costumo dizer que nosso maior obs- com largura mínima para a passa-
“A vida é uma sucessão contínua de táculo somos nós mesmos. Quanto a gem da cadeira de rodas, banheiros
oportunidades”, optei, então, pela se- minha readaptação, tive a alegria de e meios de transportes adaptados.
gunda alternativa. estar entre pessoas especiais e dife- Além de informações básicas para
renciadas. Preceptores do CET, cole- que a sociedade como um todo
7. Apenas um ano se passou entre o gas e eu adaptamos algumas técnicas seja beneficiada, se desmistifiquem
acidente e seu retorno ao treinamen- para minha completa autonomia na preconceitos e regras de convivên-
to da especialização no CET CARP. realização de procedimentos, além de cia sejam assimiladas. Locais com
Podemos entender que esse tempo mudanças em alguns espaços físicos. acesso beneficiam idosos, mulheres
de retorno já foi um marco em sua Graças ao envolvimento de todos, ob- grávidas ou com crianças de colo,
história. Houve algum fator funda- tivemos êxito. indivíduos com alguma lesão tem-
mental para essa recuperação em porária e seus familiares.
tempo relativamente curto? 10. Em algum momento pensou
Eu diria que não foi “apenas” um em desistir da profissão ou da 13. Diante de todas as dificuldades
ano, e sim um longo e árduo ano de especialidade? que, com certeza, enfrentou nesses
trabalho intenso. Para mim, há três Nunca pensei em desistir da profis- últimos anos, em algum momento
fatores fundamentais para a resolução são. Tive muitas dúvidas a respeito pensou em desistir de se reinventar?
de qualquer situação difícil: perseve- da viabilidade de prosseguir na espe- Estive tão atarefado que não houve
rança, a qual depende do que somos cialidade. Alguns dias antes de meu tempo para pensar nesse assunto.

62 | Anestesia em revista - Nº 03/2014


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14. Em algum momento, ao longo nasceram. Eles, minha esposa e fa- 23. Pessoas de fundamental impor-
de sua trajetória de superação, so- miliares são a alavanca para continu- tância em sua vida.
freu algum tipo de constrangimen- ar a trilhar pelos pagos (caminhos) A Márcia (esposa), meus filhos Pedro
to ou preconceito? da vida, como dizemos aqui no Rio e Augusto, pais, irmão e sogros.
Seria hipocrisia negar. Lamentavel- Grande do Sul.
mente, existe a segregação. Ainda 24. Uma convicção.
hoje, tudo que foge da normalidade 19. Acha que o Brasil está preocupa- Honestidade para ser íntegro e trans-
gera certa desconfiança. Sociedade do e/ou preparado em atender esse parência para merecer ter.
esclarecida e educada pode não acei- tipo de adversidades?
Encontramos segmentos de mercado 25. Um sonho.
tar as diferenças, mas sabe conviver A cura para as doenças locomotoras
com elas. que estão começando a despertar para
atender pessoas com algum tipo de e desabilitantes.
15. Como se sente com relação ao limitação. Porém, plenamente prepa- 26. Um agradecimento.
mercado de trabalho? rado o Brasil ainda não está. A Deus a oportunidade de viver; a
A forma necessária de atuação em Márcia a dedicação; aos pais as opor-
nossa área, aliada a um preparo ade- 20. Algo mudou em sua relação mé-
dico-paciente após o acidente? tunidades; o meu irmão a amizade e
quado, fez-me entrar no mercado de a confiança; aos preceptores e colegas
trabalho assim que terminei a residên- Sem dúvida. Passei a ter uma visão
mais ampla das necessidades, ca- do CET – CARP.
cia médica. Atualmente, trabalho em
hospitais com realidades bem diferen- rências e dos temores que nossos 27. Uma mensagem para pessoas que
ciadas e consigo prestar atendimento pacientes apresentam. Muitos se estejam passando por qualquer tipo
de qualidade e humanizado, mesmo identificam por verem que o médi- de dificuldade e que pensem em de-
com tantas adversidades. co, em algum momento, também sistir de sonhar.
foi paciente. Que elas deletem o “desistir” de seus
16. Qual o maior aprendizado adqui- dicionários.
rido nos últimos oito anos? 21. Como encara a vida de agora e
Todas as vezes em que me deparo com a de antes. Acha que se seu momen-
minhas inúmeras limitações, mais eu to fosse diferente poderia ser mais
me convenço de que qualquer pessoa feliz? A Anestesia em revista agradece ao
pode vencer. Posso apenas responder pelo momen-
to que estou vivendo. Sou feliz profis- dr. Gustavo a entrevista e o congra-
17. Quais foram as maiores motiva- sionalmente porque faço o que gosto. tula pelo sucesso.
ções para seu recomeço? Pessoalmente, tenho uma família
Atitudes vencedoras precisam mais do linda! A felicidade é um estado de es- Parabéns por sua trajetória! ■
que motivação; precisam de coragem pírito, construída com os tijolos pes-
para enfrentar o novo e sair da zona de soais. A vida não é um mar de rosas. * A autora é gerente administrativa
conforto. Minhas motivações foram Às vezes, trabalho mais do que gosta- e financeira da SBA e editora da
a família e meu desejo de transpor ria, as cirurgias demoram mais do que
barreiras. Além, é claro, das contas no o previsto, os cirurgiões se atrasam. revista Anestesia em revista.
final do mês (risos). Mas, no balanço final, há mais aspec-
tos positivos que negativos.
18. O que motiva seu dia a dia, não só
na especialidade como na vida? 22. Qual sua visão de tudo o que
Aprendi realmente a viver e ter cons- aconteceu até os dias de hoje?
ciência plena de como vale a pena Minha perspectiva é que estar vivo e
lutar no dia em que meus filhos viver sempre será o melhor negócio.

Prata da Casa | 63
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Por Manoel Rodrigues Medeiros Neto *

Meditando vida afora


• Vou começar este texto com uma práticas regulares específicas para significa “atenção plena”; embora
sugestão: à medida que você lê este a obtenção de efeitos benéficos o conceito oriental, um pouco
parágrafo, encolha os dedos dos pés à saúde, entre eles a diminuição mais detalhado, envolva foco de
alternadamente e sinta o movimento do estresse (ansiedade, angústia, atenção que abrange o momento,
deles contra a sola do calçado; agora medo); o aumento da resiliência o momento anterior e o seguinte,
que você sabe, conscientemente, psíquica; o aumento da disposição numa atitude de análise observa-
onde estão seus pés, tente quantifi- intelectiva e performance em ta- cional/ imaginativa minimalista
car o peso que suas pernas exercem refas variadas; a diminuição da re- sem emissão de juízo ou opinião,
sobre o chão e imagine, sem olhar percussão do estresse sobre outras ou seja, uma contemplação atenta
para elas, seu contorno e volume. funções orgânicas (cardiovascular, a alguma coisa ou a um fenômeno
Detenha-se nessa análise por uns 20 digestiva, inflamatória etc.) e, por que se desenrola no mundo exte-
segundos e... pronto! último mas não menos importante, rior ou num fluxo imaginário: seu
a atenuação da angústia ante a pers- corpo; movimentos: durante uma
Talvez você nunca tenha nem pectiva da finitude. caminhada, no tai chi chuan, no
mesmo ouvido falar de mindfulness surfe, quando tocamos um ins-
ou sati, mas, por meio da sugestão É como se o budismo reconhecesse trumento ou mesmo quando pra-
do primeiro parágrafo, você acaba os níveis mais altos de cognição ticamos um bloqueio espinhal,
de fazer uma experiência prática na (mais recentes, lentos e gastadores por exemplo.
essência desse método de medita- de energia) como altamente suscetí­
ção de origem budista que vem se veis à impulsividade dos centros O sati tem sido aceito como um
difundindo por todo o mundo em subcorticais de interação com o método efetivo de combate a
função de seus benefícios à saúde. ambiente (mais antigos, rápidos e ansiedade e depressão por mais
aptos a funcionar com baixo con- de uma década e, popularizado
O budismo, mais do que uma dou- sumo de energia). Se nosso interes- por sites como o GetSomeHea-
trina (em minha modesta opinião), se for viver a vida numa dimensão dSpace.com, tem sido adotado
é uma espécie de neurociência humana de alto nível, é fundamen- por escolas, equipes esportivas,
intuitiva que dispensou Darwin, tal que reconheçamos que nosso unidades militares e empresas
Freud, a ressonância magnética e, córtex intelectivo soberano é alvo como ferramenta para a melhora
principalmente, os fármacos para de frequentes intrigas palacianas! de performance e como aborda-
se validar com práticas focadas na À medida que o soberano aprende gem coadjuvante em oncologia,
propriedade do cérebro que mais a se distanciar se postando como adicção, clínica da dor, síndrome
interessa à humanidade: a neu- observador, vamos ganhando a ver- do cólon irritável e até mesmo no
roplasticidade. É como se, desde dadeira autonomia cognitiva. tratamento de tinnitus.
sempre, houvesse o conhecimento
de que o cérebro e nossa cognição Traduzindo para a língua portugue- Não se chegou ainda a um regime
podem ser moldados ao longo de sa, o termo “sati” (ou “mindfulness”) mínimo de prática para a obtenção

64 | Anestesia em revista - Nº 03/2014


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Se nosso interesse for viver a vida
numa dimensão humana de alto nível,
é fundamental que reconheçamos que
nosso córtex intelectivo soberano é
alvo de frequentes intrigas palacianas!

de resultados, embora esteja claro entre essas duas regiões (figurati- sciencedirect.com/science/arti-
para mim que quanto mais se pra- vamente, o “ouvido” do córtex e os cle/pii/S0304394012004806).
tica (sessões de 20 a 30 minutos) “gritos” da amígdala) começa a ficar Praticantes avançados parecem
maior impacto neuroplástico obte- mais fraca. Uma amígdala domada apresentar um limiar doloroso sig-
remos. Uma piadinha budista diz significa um cérebro mais eficiente nificativamente mais elástico que os
que se você quiser meditar comece também em outras regiões. A capa- não praticantes, embora o cérebro
praticando duas sessões diárias de cidade de concentração e a atenção mostre um aumento significativo de
15 minutos; porém, se você não se aprimoram globalmente, e isso atividade nas áreas correspondentes
tiver tempo, comece com duas de nos habilita tanto a melhor resolu- à dor que estão sentindo, contraria-
30 minutos! ção de problemas quanto a vivência mente ao que se observa com a anal-
Atualmente, com a crescente po- mais completa das situações de gesia mediada por fármacos.
pularidade da meditação, técnicas deleite (sim, isso mesmo que você O grupo de pesquisa do Max Plan-
de imageamento cerebral vêm está pensando!). ck Institute for Human Cognitive
revelando a ação dessa prática an- and Brain Sciences, de Leipzig,
cestral sobre a conectividade entre De acordo com Adrienne Taren, Alemanha, corrobora esses acha-
diferentes partes do cérebro e pesquisadora da Universidade de dos paradoxais com relação à noci-
como isso pode afetar, permanen- Pittsburgh, “a prática da medi- cepção: aumento da atividade das
temente, o modo como pensamos. tação aumenta nossa habilidade áreas somáticas correspondentes
de recrutar massa neuronal pré- associado à diminuição da ativida-
Sem medo -frontal para a tomada de decisões de nas áreas de avaliação subjetiva,
À ressonância magnética (http:// e manutenção de foco, ao mesmo processamento emocional e me-
sca n.ox fordjou r na ls.org /con- tempo em que suprime a ativida- mória da dor.
tent/5/1/11.short), após período de de centros cerebrais de baixa
de oito semanas de prática, o ordem envolvidos com as respos- Meditadores experientes parecem
centro cerebral de “luta ou fuga” tas mais instintivas ao estresse – ter sucesso em desacoplar o cór-
(a amígdala cerebral) diminui concomitantemente, observa-se a tex cingulado anterior (associado
de volume a ponto de parecer redução dos níveis séricos de mar- à aversividade à dor) do córtex
encolher. Essa região primitiva cadores, como proteína C-reativa, pré-frontal sem necessariamente
do cérebro, associada ao medo e interleucina-6 e cortisol –, todos bloquear a experiência dolorosa;
às emoções, está envolvida com associados a doenças derivadas de eles conseguem bloquear a “micro-
o início das repercussões somá- estados mantidos de inflamação fonia” do processo de nocicepção
ticas do estresse de origem am- crônica e imunossupressão”. ao impedir a reverberação de pen-
biental ou psicológica. samentos e emoções associados a
Nocicepção quadros de dor.
Enquanto a amígdala encolhe, o As coisas parecem ficar ainda mais
córtex pré-frontal (centro de pro- interessantes quando os pesquisa- Sentindo-se zen
cessamento de alto nível associado dores do tema estudam pratican- É importante que se enfatize que
com atenção, foco e tomada de de- tes de meditação na vigência de os meditadores testados nos es-
cisões) se espessa. A conectividade quadros dolorosos (http://www. tudos que tentam desvendar os

Responsabilidade Social | 65
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benefícios da meditação não são uso mais eficaz da atenção e menos de um instrumento musical, do pi-
examinados durante estados de suscetível ao “ruído” subcortical, lates ou da atividade esportiva.
meditação. Os benefícios da medi- inclusive o causado externamente Depois de algum tempo pratican-
tação não dependem de estarmos por profissionais de neuromarke- do, o autor deste texto chegou a
em estado meditativo: eles são fru- ting para que compremos o que esta simplória conclusão: meditar
tos de modificações de longo prazo não precisamos com o dinheiro não é nenhum bicho de sete ca-
em nossa percepção. O cérebro dos que não temos, mas que achamos beças; ao contrário do que muita
meditadores é significantemente que poderemos ganhar trabalhan- gente pensa, meditar NÃO é esva-
diferente do que seria se seus donos do mais, nos estressando mais e nos ziar o pensamento; é deixá-lo fluir
não tivessem enveredado pela prá- divertindo menos. livremente enquanto nos resguar-
tica regular de um exercício capaz damos na posição de observadores
de re-esculpir sua cognição. Após Talvez o verniz new age ou místico de nossa mente.
15 anos de meditação diária por das técnicas de meditação tenha
uma hora, a atividade cortical basal criado certa barreira ao exame sério Separe um tempo mínimo de 20
(durante as tarefas comuns da por parte da ciência oficial. No en- minutos para você, desligue o tele-
vida) começa a se aproximar da de tanto, à medida que os métodos de fone, imunize-se contra interferên-
um status meditativo contínuo. A imageamento cerebral e biomar- cias e chatos de plantão e escolha
partir de então, o córtex pré-frontal cadores evoluem, os estudos sobre a atitude: movimento ou imobili-
volta a involuir em direção ao ta- meditação vão se multiplicar e per- dade; o foco: respiração, mantras,
manho original, mas com uma ar- mitir comparações com situações contagens, seu corpo, mentaliza-
quitetura totalmente voltada a um de atenção plena, como na prática ções, posição no espaço; defina o
tempo; input sensorial: olfativo,
visual, auditivo, tátil, gustativo
(durante uma refeição) ou todos;
comprometa-se a praticar com re-
gularidade em plena introspecção
e determinado a assistir, examinar
e a não bloquear os fluxos espontâ-
neos com julgamentos.
Agora é com você! ■

* O autor é membro da SBA-TSA

66 | Anestesia em revista - Nº 03/2014


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