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Material de Apoio – Leitura Necessária e Obrigatória


KIMBANDA E QUIMBANDA I Curso Online
Desenvolvido e Ministrado por Ed. Pellizari
Direitos Autorais deste material Centro Candeia da Anunciação

EXU E POMBA GIRA NA KIMBANDA


A Kimbanda cultua o Mpungu Pangiro (ou Pambu Njila), o Orixá Exu dos yorubás, bem
como os Nfuiris (almas) que trabalham sob sua proteção.
Os Nfuiris machos são chamados de exus e as fêmeas de pombas giras. Os exus tem
origens diversas. A maioria foi um Tata ou Yaya bantu ou de outra nação da Mãe África.
Também são cultuados exus de origem cabocla, indígena, européia e mestiça.

Cada filho ou filha de Fé possui seu exu principal, que sempre trabalha sob a guarda
de seu Mpungu (Orixá) principal. Também possui um exu auxiliar, trabalhando com seu
Mpungu auxiliar.

O Nfuiri principal pode ter um exu de companhia ou capangueiro. O mesmo acontece


com o Nfuiri auxiliar, que poderá ter um compadre a seu lado.
Muita atenção é dada ao exu principal da coroa, pois é ele que cuida da “esquerda” do
filho ou filha. Sem esta devida atenção, todo o passo na Kiimbanda será um tropeço e os
resultados sempre resultarão em kizilas (proibições rituais).

Muitas vezes, o Nfuiri principal é um exu ou pomba gira. Quando isso acontece, o
kimbandeiro tem um carrego (obrigação especial) com o Mpungu Pangiro.

Cada exu e pombagira possuem seu Ponto Riscado e Cantado, que seguem as leis da
Magia de Pemba. Também possuem suas qualidades, representadas e anexadas a seu “nome
de guerra” (nome que usam no terreiro).
Assim, um exu Tranca Ruas pode identificar-se como: Tranca Ruas das Almas, do
Embaré, da Campina, da Gruta, etc... Além dos exus e pombas giras, identificamos os
Nfuiris que estão sob o comando de Pangiro e se apresentam traçados com outos Mpungus.

Por exemplo:
BABASSA (Ibeji) – exus e pombas giras mirins.
DANDALUNDA (Iemanjá) – kalungas ou exus marinhos (não confundir com os
marinheiros).
TAUAMIM (Oxossi) – caboclos quimbandeiros.
KAVIUNGO e ZUMBARANDÁ (Obaluaye e Nanã) – pretos ou pretas velhas quimbandeiros.
As vezes o Mpungu Pangiro é chamado de “Maioral” ou “Maioral da Kimbanda”. Isto é
uma influência dos cultos mágicos europeus, que fazem um sincretismo da Kimbanda com a
Magia daquelas terras.

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CARACTERÍSTICAS ESPECIAIS DE POMBA GIRA

Pombas Giras Ciganas na Umbanda


PG Cigana Sete Saias, PG Cigana das Almas PG Cigana dos Sete Cruzeiros, PG Cigana
do Pandeiro, PG Cigana da Praça, PG Cigana do Oriente, PG Cigana da Lua, PG Cigana
Menina (Ciganinha), PG Cigana da Calunga, PG Cigana da Rosa, PG Cigana Zoraida, PG
Cigana Sara, PG Cigana Sarinha da Estrada, PG Cigana da Praia, PG Cigana Maria, PG Cigana
Sulemí, PG Cigana da Estrela, PG Cigana do Acampamento, PG Cigana das Matas, PG Cigana
das Sete Encruzilhadas, PG Cigana Paloma, PG Cigana Margarida, PG Cigana do Egito, Maria
Mulambo Cigana, Maria Padilha Cigana, Maria Cigana.

As Marias
Maria Mulambo, Maria Quitéria, Maria Mirongueira, Maria das Almas Maria da Praia,
Maria Cigana, Maria Tunica, Maria Rosa, Maria Colodina, Maria Farrapos, Maria Alagoana,
Maria Bahiana, Maria Navalha, Maria Lucrécia.

Marias Padilhas
Maria Padilha do Cruzeiro, MP da Calunga, MP das Sete Encruzilhadas (Dona Sete), MP
das Almas, MP das Sete Navalhas, MP da Figueira, MP das Sete Catacumbas, MP da Praia, MP
da Mata, MP Menina (MP mirim).

Marias Quitérias
Maria Quitéria da Campina, MQ da Figueira, MQ da Calunga, MQ das Almas, MQ das
Sete Encruzilhadas, MQ do Cruzeiro.

As Rosas
Rosa Caveira, Rosa Preta, Rosa Amarela, Rosa Roxa, Rosa Maria, Rosa Baiana, Rosária,
Rosinha (PG mirim).

Pombas Giras do Mar


PG da Praia, PG Areia do Mar, PG Sete Saias da Praia, PG Morena da Praia, PG Menina
da Praia, PG Calunga do Mar, PG das Ondas do Mar, PG Sete Marolas do Mar.

Pombas Giras pouco conhecidas


PG Anã, PG Sete Chocalhos, PG Sete Folhas, PG das Cobras, PG do Sol, PG Adália, PG
Anita das Almas, PG Anita das Encruzilhadas, PG Antonieta das Encruzilhadas, PG Antonieta
das Almas, PG Nina.

A PROVA DE FOGO

A Kimbanda, como todas as escolas iniciáticas tradicionais, costuma colocar seus


adeptos a todo o tipo de provas.

Sendo um caminho onde o poder é almejado, as provas ganham um colorido especial e


muitas vezes constrangedor.

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Nos velhos e saudosos tempos, uma das provas mais frequentes era a do CANDARÚ.
Um cuscuzeiro de barro era colocado na cabeça do iniciado e dentro eram colocados
carvões em brasa. Depois, lentamente, se despejava azeite de dendê.

Quem estava firme no transe, nada sofria. Quem não estava...

Outra prova, mais terrível, era a do BAMBURRAL.

Antigamente os reinos (terreiros de Kimbanda) eram nas bocas das matas, longe do
burburinho das cidades. Ali construíam algumas casinhas simples de barro, plantavam as
árvores sagradas e faziam os fundamentos. Perto da casa principal, onde se guardava o peji
com suas engangas (assentamentos), era armado um cercado muito alto de bambu. Ele era
feito na forma de um grande círculo e no meio dele se fincava um mastro de madeira mais
dura.

Numa noite de Lua Cheia escolhida, o iniciado era amarrado com as mãos para trás. A
meia-noite entrava ali o Tata e uma cambone.

O sacerdote invocava um ganga (exu bravo) sobre a cambone e o armava com um


facão afiado. O Tata trancava o cercado e só retornava pela manhã.
O kimbandeiro era deixado sozinho com o ganga enraivecido. O objetivo era
sobreviver! A única ferramenta do iniciado era seu poder pessoal. Olhos nos olhos, o ganga
devia ser desarmado e despachado.

Nos tempos modernos, urbanos e menos valentes de hoje, as provas do Candarú e


Bamburral estão desaparecendo. Mas sobrou uma: o CATECISMO.
Nesta prova, que acontece durante uma gira de Kimbanda, o Tata chama o exu de um
iniciado e faz uma série de perguntas para ele:

- Quem guarda da porta do Reino?


- Quais os nomes e títulos do Maioral?
- Quem é o Tata Nkuyo?
- O que tem dentro da enganga de Tata Caveira?
- Qual o maior Fundamento?

Se o médium incorporado bambeia nas palavras ou erra na resposta, cai em desgraça e


é banido da irmandade.

Às vezes um catecismo menor é aplicado nos membros Kimbandeiro que deseja ficar
de pé, tem sempre que se cuidar.

Dona Rosa Caveira, uma Pomba Gira nos Himalaias.

Dona Rosa Caveira é um mistério só. Pomba gira pouco conhecida, tem reputação de
maravilhosa curandeira e aspecto inquietante. Nas imagens populares, ironicamente
difíceis de encontrar no Brasil, ela exibe um corpo meio esquelético e meio humano
coberto com capa e capucho.

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Nos meios tradicionais é dito que ela é a “esposa” de Seu João Caveira, exu da “Velha
Guarda” do cemitério e Chefe da Linha dos Caveiras, um grupo de servidores fiéis e muito
prestativos.

Em conversa ao pé do congá, com alguns irmãos de fé que também circulam pelos


caminhos de algumas religiões de origem bantu (Kimbanda, Cangerê, Cabula), ouvi que
Dona Rosa Caveira é protagonista de inúmeras lendas.

Uma delas conta que Rosa nasceu no Oriente. Sétima filha de uma simples família do
campo, desde cedo aprendeu com seus pais as artes da cura, pois eles eram afamados
curandeiros. Sua falecida avó foi sua primeira guia espiritual. Em sonhos, a querida alma
da ancestral instruia e aconselhava a neta. Rosa era uma menina privilegiada.

Aos dezenove anos ela conheceu um curandeiro muito mais velho. Eles se apaixonaram
e casaram. Ela então começou um período muito intenso de atendimento espiritual aos
cidadãos de sua vila e arredores. Sua vida transcorreu cheia de méritos e bênçãos. Rosa
morreria depois de seu marido, saboreando o prazer de uma existência dedicada os mais
necessitados.

Outra lenda nos conta o segredo de seu nome... Ao redor da casinha onde sua família
morava existia um roseiral selvagem. No final da gravidez, sua mãe não teve tempo de
pedir ajuda à parteira local e a menina nasceu ali mesmo. Daí o nome: Rosa.

Por que caveira ?

Em certas regiões do Oriente, sobretudo na Índia, Tibet e Butão, alguns xamãs e


yogues utiizam a caveira humana como um cálice ritual. A caveira, assim utilizada, não
está relacionada com magia negra ou qualquer arte malévola.

No Budismo Tibetano os Lamas utilizam uma caveira como cálice. Também fazem um
pequeno tambor com duas metades de caveira... Na Índia ele é chamado de Damaru e a
caveira de Kapala.

Quando conheci a lenda de Rosa Caveira, imediatamente percebi a conexão com as


tradições yogues e tibetanas.

Na minha imaginação eu “vi” a grande mestra sentada numa alta montanha,


segurando uma caveira e em profundo estado de meditação. Seria Rosa Caveira tibetana?

Pode ser que a lenda tenha se ocidentalizado e a planta original, que poderia ser o
lótus, tenha se transformado em rosa. Neste caso seu nome seria Pema em tibetano. Em
sânscrito, seu nome espiritual seria Kapalapadma (Lótus Caveira).

Na tradição budista e mágica do Tibet, Mongólia e arredores existem muitas histórias e


lendas com as mesmas características das aqui mencionadas.

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O fato é que como Pomba Gira brasileira, na gira do dia-a-dia dos terreiros, Rosa
Caveira é um pouco diferente de suas irmãs. Ela não se firmou como “mulher da vida” ou
errante marginal, mas se perpetuou como curandeira poderosa e ponte entre os diversos
reinos do astral.

Uma outra curiosidade circunda esta Pomba Gira. Rosa Caveira trabalha e vibra no
cemitério... Em algumas tradições orientais, as mesmas mencionadas acima, certo grupo de
adeptos utiliza o cemitério para trabalhos espirituais de cura e transformação. Eles são
chamados de Kapalikas ou portadores da caveira! As mulheres do grupo, além da caveira
transportam um tridente.

Certa vez eu estava caminhando com um amigo indiano pelas ruas do centro de São
Paulo. De repente, diante de uma loja de artigos religiosos, ele literalmente ficou
paralizado! Uma grande e vermelha estátua de Pomba Gira estava diante de nós. Nua,
majestosa, segurando um tridente e com uma caveira nos pés.

Shivaji, meu amigo indiano, se curvou aos pés da imagem e disse: “Trishula Kapala
Ma! O que você faz aqui?”

Trishula Kapala Ma é a Mãe do Tridente e da Caveira, uma representação do feminino


sagrado que pode rondar os lugares de cremação. Ela destrói os fantasmas malignos e os
demônios, come as ilusões humanas e resgata as almas das mãos dos seres das trevas. Seu
aspecto pode ser “terrível”, mas a luz e a bondade emana de seu coração.

Atrás do aspecto funesto de Rosa Caveira com certeza brilha a mesma luz. Nela se
encontram o Oriente e o Ocidente, o vermelho e o negro, a vida e a morte.

Espero ter a humildade de Shivaji e também sempre me curvar diante do sagrado


feminino. Terrível ou bondoso, que importa?

PONTO RISCADO GERAL DE ROSA CAVEIRA

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Imagem de Rosa Caveira

MAGIA DE EXU
EXEMPLOS TRADICIONAIS (KIMBANDA, LUCUMI)

AFOSHE PARA TIRAR INFLUÊNCIAS NEGATIVAS


Ingredientes:
- casca de laranja
- casca de limão (verde)
- casca de gengibre
- cebola (branca)
- efun
- noz-moscada
- cinamomo
- cravo-da-índia (cinco unidades).
Preparação: reduzir tudo a pó e soprar sobre a pessoa ou ambiente. Muito usado antes
de iniciar os trabalhos no terreiro, soprando este afoshe nos quatro cantos e no centro do
mesmo.

AFOSHE DE CALÇO
Afoshe de calço é um pó que os feiticeiros colocam dentro do sapato de uma pessoa.
Ele é feito para provocar terríveis feridas nos pés, muito difíceis de cicatrizar ou problemas
na pele. Também causam horríveis coceiras, briga e confusão.
Eles são feitos com várias plantas, como a urtiga, jequiriti (planta muito usada na
Kimbanda e cercada de vários mistérios) e secreções de animais, como sangue de cobra ou
sapo.
Um destes afoshes é feito com os seguintes ingredientes:

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- pó de jequiriti
- pó de urtiga
- pó de vidro
- sete gotas de sangue fresco de cobra.
Preparação: os vegetais são queimados e transformados em pó. Mistura-se o pó de
vidro e depois se coloca o sangue por cima. O afoshe deve secar antes de ser misturado de
novo e usado.

OS PADÊS DE ESHU
Na Kimbanda utilizamos uma série de padês em oferendas, ebós, etc...
PADÊ DE DENDÊ – principal padê, utilizado como oferenda geral de Eshu.
PADÊ DE ÁGUA – padê utilizado para cura ou restabelecimento de uma pessoa.
PADÊ DE MEL – padê para prosperidade.
PADÊ DE MARAFO – pade para proteção ativa e passiva.
Todos os padê são feitos com farinha de mandioca misturada aos materiais acima
citados, dentro de um alguidar médio. Tradicionalmente misturamos com a mão esquerda e
mojubamos (isto é: ao se misturar a farinha e o respectivo material, com a mão esquerda,
se reza e louva a Eshu mentalizando o “problema” em questão).
Observação: O padê de dendê pode ir acompanhado de fatias de cebola branca
cortadas em rodelas e algumas pimentas vermelhas (colocadas acima da mistura de
farinha).

EBÓ DE PROTEÇÃO PARA O TERREIRO


Ingredientes:
- folhas de jurema
- espada de ogum
- folhas de aroeira
- alfazema
- benjoim
- mirra.
Preparação: junte os galhos de jurema, aroeira e a espada de São Jorge fazendo uma
espécie de “vassourinha”. Bata a vassourinha nos quatro cantos do terreiro. Misture
alfazema, benjoim e mirra num braseiro e defume os quatro cantos do terreiro e depois
todo o ambiente (do peji para a porta de entrada). Despache a vassourinha e as cinzas da
defumação numa encruza de terra (não no centro, mas num canto da mesma).

IMPORTANTE NOTA SOBRE OFO


Ofo é um encantamento falado, recitado ou cantado. Cada ofo é como uma seta que é
atirada na direção de um alvo. Existem ofos para todas as necessidades.
Quando fazemos um afoshe, temos que recitar um ofo sobre ele. Existem fórmulas
especiais para ofos, mas normalmente (na Kimbanda) sempre é invocado o ashe de Exu
sobre o afoshe.

EXU NO CARIBE – PAPA LEBA (LEGBA)


Leba é o Sol, o senhor das encruzilhadas (kafou) e o Loa Ancestral da sabedoria. Ele é
o Avô e nós somos seus netos.

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ORAÇÃO A PAPA LEBA (em kreyol / creole)


POU LEBA, GADIEN POT, LOA SOLEY. PAPA AK PATRON.
MISTE KAFU, SUS RELASION VISIB AK ENVISIB.
POTO MITAN KI MONTE JIS NAN SIE-LA.
AYBOBO !
(Para Pai Leba, que guarda a porta, Loa do Sol. Brilho da Criação, Pai e patrão.
Mistério das encruzilhadas. Meio de comunicação entre o visível e o invisível. O pilar que se
alonga do Sol até a raiz. Amen !).

OFERENDAS A PAPA LEBA

Fumo de cachimbo, rum, três moedas de R$ 1,00, uma bengala.


Lugares de oferenda: no altar pessoal de trabalho doméstico (rogatuá), na
encruzilhada (preferivelmente de terra) ou nos trabalhos do templo.
Qualidades de Leba.
A principal é LEBA LAFLANBO, o Leba de Fogo, que abre o portal astral para o contato
com as entidades deste elemento. Ele é também chamado quando necessitamos aumentar
nosso poder masculino, fálico ou guerreiro (tanto os homens como as mulheres) e ao fazer
as devoções ao panteão do Fogo.
As oferendas de Leba Flanbo: rum com pimenta (vermelha), tabaco forte socado com
rum, molho de pimenta (vermelha).
ORAÇÃO A LEBA FLANBO (kreyol)
POU LEBA LAFLANBO, LOA SOLEY, ZOZO NAN TAN LONTAN KI SE FOS VOLONTE.
PRINCIP LAVI, MANMAN ENEJI. KOD KI MARE NU AK LOA YO. MET MAJI KAFU. AYBOBO !
(Para Pai Leba Laflambo, Loa do Sol, pênis ancião da Vontade, Principio da vida,
energia primordial. O cordão que conecta o Universo com sua origem primordial. Mestre
da Magia da Encruzilhada. Amen!).

A VIAGEM DE PAPA LEBÁ AO BRASIL - por Ed Pellizari

A VIAGEM DE PAPA LEBÁ


Certo dia, contam os mais velhos, Papa Lebá acordou bem cedo e resolveu viajar.
Pegou seu bastão mágico, capaz de voar pelo céu, saltar pela terra e flutuar pelo mar,
despediu-se dos outros Loas e saiu cantando.

Elevou-se da ilha abençoada da Guinen que fica debaixo das águas e rumou para o Sul,
espiando lá longe a terra do Maranhão. Num instante, aportou na praia dos Lençóis,
brincou nas brancas dunas e embrenhou-se mata adentro.

Andou, andou e chegou em Codó, lugar de negro valente, caboclo bravo, feiticeiro
danado e bruxo temível. Papa Lebá encantou-se com o povoado e resolveu passar umas
férias, pois desde a criação do Mundo, ele não descansou um só dia sequer.

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Ali, bem faceiro e tranquilo, Legbá assumiu rosto caboclo, mestiço de negro com
índio, vestiu couro e chapelão de palha. Trocou o rum pelo marafo, mas não dispensou o
bom charuto.
Virou exu caboclo, exu boiadeiro e exu marinheiro. Gritou bem alto sua felicidade e
chamou a família todinha para baixar na guma. Pai Lebá mudou o nome para Seu Légua,
Légua Boji Buá da Trindade, dando uma estrondosa gargalhada.
Insatisfeito, ele girou para a direita e resolveu passar pelo árido sertão. No rastro de
Lampião, ele cruzou na Jurema e serpenteou no Toré. Dizem que virou mestre arretado,
junto com a familiada unida. Bateu na mesa de chão, tremeu o altar e balançou o maracá
no sereno da madrugada.
Na Bahia, visitou terreiros de gente negra como ele. Falou em nagô, bateu cabeça e
devorou todas as pimentas da cozinha dos santos. Brincou na praça, jogou capoeira e
ganhou esmolas na porta da igreja, que depois distribuiu para a meninada da rua.
Lebá, agora Seu Légua, gostou tanto da coisa feita, que resolveu dar uma olhadela
mais ao Sul ainda, despencando pelas macumbas cariocas e umbandas paulistas.
Na Tenda da Yayá, deu para mexer como os pretos velhos. Vestiu roupa branca,
mudou a voz e deu muita consulta. Traçou ponto riscado e tirou cantiga. Foi até na Festa
de Iemanjá, nadando como criança nas ondas do mar.
Nas noites secretas de Kimbanda, pediu seu garfo, queimou fundanga e bateu tambor.
Ganhou presentes, fez amizades e trocou abraços até o raiar do Sol.
Soube que tinha gente fazendo Obeah no Brasil. Curioso, intrigado, deu um pulo na
irmandade local e perguntou aos Guedhes que ali zoavam, onde estava seu toco.
Com um ar maroto, Lebá resolveu mostrar a sua magia. O obeahman que estava
calado num canto do Dofo, sentiu um calafrio na alma e puxou a ladainha de Orixá Bones.
Mais rápido que o homem, Lebá montou nele e disse com voz de trovão “também sou
brasileiro !”
A comunidade achou estranho, mas respeitou o ancião. Daí em diante passaram a
invocar seu panteão. Lebá foi dando seu novo nome e gravou sua presença no coração de
todos. Foi assim que a Obeah virou tupiniquim.
Os mais velhos não sabem o final desta história. Para alguns, Papa Lebá ficou por aqui
e jamais voltou para o Caribe. Um mistério.......

Que bonito cantar em creole e lembrar as verdes águas do Caribe. Sentir as forças dos
Loas subindo do chão e entrando na alma. É a magia saudosa e furiosa dos tempos de
outrora...

Mas Obeah é terra. Ela fala mais alto, chegando a gritar nas entranhas dos filhos e
filhas. Chegou a hora, dizem os “véios” barbados lá de cima. Vamos olhar para os pés e
não para a cabeça.
Os espíritos daqui estão pedindo licença, querem participar. Pai Legbá tomou a
frente, de bengala na mão e pito aceso, ele convoca a irmandade a buscar as suas raízes
nas profundezas da mata.

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Zé Raimundo Maria de Légua

Segundo a professora e pesquisadora Mundicarmo Ferretti, a Família de Encantados de


Codó (os codoenses) "são entidades caboclas menos civilizadas e menos nobres, que vivem,
geralmente, em lugares afastados das grandes cidades e pouco conhecidos e que costumam
vir beirando o mar ou igarapés."
PRINCIPAIS FAMILIARES DE SEU LÉGUA:
Zé Raimundo Boji Buá Sucena Trindade, Joana Gunça, Maria de Légua, Oscar de Légua,
Teresa de Légua, Francisquinho da Cruz Vermelha, Zé de Légua, Dorinha Boji Buá, Antônio
de Légua, Aderaldo Boji Buá, Expedito de Légua, Lourenço de Légua, Aleixo Boji Buá,
Zeferina de Légua, Pequenininho, Manezinho Buá, Zulmira de Légua, Mearim, Folha Seca,
Maria Rosa, Caboclinho, João de Légua, Joaquinzinho de Légua, Pedrinho de Légua, Dona
Maria José, Coli Maneiro, Martinho, Miguelzinho Buá, Ademar.
CORES (velas, guias e brajás)
Mariscado de Nanã, marrom, verde e vermelho.
CURIADORES
Vinho tinto, cerveja branca e marafo.

VESTIMENTAS (quando na matéria)


Gostam de chapéu de couro ou de palhinha, na maioria das vezes se descalçam e/ou
tiram a camisa (homens). Usam guias nas cores de sua Linha.
OFERENDAS
Curiador da Linha : vinho tinto, cerveja branca e marafo. Tabaco : charuto ou no
cachimbo. Frutas doces e velas nas cores respectivas.

QUALIDADES
São entidades bravas, espertas e justiceiras. Gostam de conversa e alegria, mas sem
perder a compostura.

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CURIOSIDADES DO UNIVERSO DE EXÚ.


Nomes curiosos de alguns Exus:
Abre Tempo, Aranha Negra, Arrebata Tudo, Boca de Fogo, Cabrito Negro, Caburé,
Coquinho dos Infernos, Falange Negra, Francês, Jibóia, Junco Preto, Pé-de-Ferro,
Serapião, Terno Branco, Zé da Encruza.

A família dos Exus “João”: João Calunga, João Caveira, João da Capa Amarela, João
da Capa Azul, João da Capa Branca, João da Capa Vermelha, João da Conquista, João da
Rua, João das Águas, João das Almas, João das Quatro Portas, João das Quatro Ruas, João
do Amor, João do Dinheiro, João do Desespero, João do Êxito e da Prosperidade, João do
Triunfo, João dos Caminhos, João dos Obstáculos, João dos Quatro Caminhos, João dos
Quatro Ventos, João dos Sinos, João dos Tormentos, João Mandinga, João Mironga, João
Pepeu, João Retornado.
Alguns nomes de espíritos (kiumbas) utilizados por feiticeiros na Quimbanda:
Gritona, os Sete Espíritos Intranquilos, os Três Enforcados, os Três Afogados, os Três
Condenados, os Três Mutilados.

UM POUCO DE SIMBOLISMO

Pontos Riscados da Família Tranca Ruas:

Tranca Ruas na Quimbanda sincretizada com Goécia

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Tranca Ruas do Luar (Umbanda, Quimbanda)

Tranca Ruas atuando na Kalunga Pequena (Quimbanda)

Tranca Ruas do Cruzeiro (Umb./Quimb.)

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Tranca Ruas das Almas (Umb./Quimb.)

Tranca Ruas – Ponto Geral (Umb./Quimb.)

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Pontos Riscados diversos:

Ponto Riscado de Kimbanda (Kwimbanda)

Ponto Riscado (Veve) de Pai Legba (Leba)

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Ponto Riscado (Firma) de Lucero Mundo Quatro Vientos

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