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•:-JÓ


INTRODUÇÃO
o tema do livro sofrem, ou o sofrimento é sempre me-
Percebemos na leitura desse livro magní- recido? Esta é uma questão que o livro
fico que seu tema é o problema do sofri- apresenta e também responde de maneira
mento. Mas qual é exatamente o problema convincente. Ao insistir em que o Jó que
do sofrimento? Para muitas pessoas é a sofre é um homem justo, o livro se opõe
pergunta: Por que acontece o sofrimento? abertamente à ideia de que o sofrimento é
Quais são sua origem e causa? Ou de modo sempre uma punição pelo pecado. Além do
mais pessoal: Por que eu tenho de passar narrador (1.1) e do próprio Jó (e.g., 6.30;
por este tipo de sofrimento? Talvez, no en- 9.15), Deus também afirma (42.7,8) que Jó
tanto, no mundo de hoje, essas perguntas é inocente. Não obstante, a tendência hu-
reflitam principalmente nossa obsessão em mana muito natural diante do sofrimento
descobrir a origem das coisas - como se é perguntar: "O que eu fiz para merecer
somente por esse meio pudéssemos obter o isso?". O livro de Jó admite que, às ve-
verdadeiro conhecimento. zes, o sofrimento é totalmente merecido,
Quanto à origem do sofrimento, em- contudo sua resposta mais importante à
bora a pergunta seja séria, o livro de Jó questão é afirmar que talvez não haja ne-
não apresenta uma resposta satisfatória. cessidade de nos acusarmos a nós mesmos;
Certamente a questão é levantada e res- o sofrimento nem sempre é o que deveria
postas parciais são dadas pelos amigos de nos acontecer. Entretanto, essa pergunta e
Jó. O sofrimento, dizem eles, geralmente sua resposta não são a mensagem principal
é uma punição ao pecado e, vez ou outra, do livro a respeito do sofrimento.
um alerta contra o pecado no futuro. O li- A terceira e essencial questão tratada
vro como um todo esclarece que, às vezes, pelo livro de Jó em relação ao sofrimento é
como no caso do próprio Jó, o sofrimento de caráter mais pessoal: Como agir no so-
não vem por razão terrena alguma, mas frimento? O que devo fazer quando estou
simplesmente para justificar a alegação di- sofrendo? Com que espírito eu encaro o
vina de que os seres humanos podem ser- sofrimento? Comparada a essa questão de
vi-lo sem visar a recompensas. Apesar, no como reagimos, de fato, ao sofrimento, a
entanto, de o livro oferecer essas diferentes primeira questão (a origem do sofrimento)
razões para a origem do sofrimento, os lei- parece meramente acadêmica, e a segunda
tores não ficam sabendo qual é a causa dos (se existe sofrimento inocente) pode ser
seus próprios sofrimentos e, assim, ficam facilmente respondida. A terceira questão
na mesma situação do próprio Jó, que con- é a mais difícil; sua resposta exige todo o
tinua sem saber o porquê de suas agruras. livro de JÓ.
Para ele, o mistério permaneceu até o fim. O livro oferece duas respostas diferen-
Podemos concluir que o livro não conside- tes, mas complementares, à questão, uma
ra a questão das origens como a mais im- vez que expõe a reação de Jó ao sofrimento.
portante a respeito do sofrimento. A primeira resposta é dada na introdução
Há uma segunda questão relacionada do livro, feita nos dois primeiros capítu-
ao sofrimento: Pessoas inocentes também los. A reação de Jó aos infortúnios que lhe
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advêm é de calma aceitação da vontade de respeito (42.7,8). Isso pode significar tão
Deus; ele bendiz ao Senhor tanto pelo que somente que, no sofrimento, Jó conversou
lhe foi dado como pelo que lhe foi tirado com Deus e exigiu uma explicação.
(1.21). Os sofredores que tiverem a mes- Se o livro fosse ouvido como uma pala-
ma atitude de aceitação que Jó teve são vra aos que estão nas mesmas condições de
verdadeiramente afortunados. Se, como Jó (pessoas que estão sofrendo por razões
ele, não se refugiarem no passado numa desconhecidas), ele diria o seguinte: Dei-
tentativa de ignorar a realidade do sofri- xem que Jó, o sofredor paciente, sirva de
mento, e se não ficarem tão oprimidos exemplo para vocês até onde for possível.
pela tristeza atual a ponto de esquecerem Porém, quando não puderem mais supor-
as bênçãos do passado, terão se beneficia- tar, direcionem sua tristeza, indignação e
do com a história de JÓ. Entretanto, mui- impaciência a Deus, pois ele é, em última
tos não aceitam o sofrimento com tanta instância, a origem do sofrimento, e é so-
facilidade; são antes uma combinação do mente por meio do encontro com ele que a
Jó paciente e do Jó impaciente. angústia pode ser aliviada.
A segunda resposta à pergunta: "O Naturalmente, Já é a personagem cen-
que devo fazer quando estou sofrendo?" tral no livro, mas não é a única. O que os
emerge da aflição e do tumulto da mente amigos de Jó têm a lhe oferecer durante o
de Jó como se revelam nos seus discursos sofrimento? Que tipo de ajuda outros so-
poéticos (entre cp. 3 e cp. 31). Quando ele fredores encontram ao ler o que eles disse-
simplesmente não pode mais aceitar o que ram? Elifaz afirma que, se você é inocente,
lhe está acontecendo, e fica amargurado e o seu sofrimento será apenas temporário,
irritado quando a sensação de isolamen- e pergunta: "Acaso, já pereceu algum ino-
to de Deus o oprime, e chega a se sentir cente? E onde foram os retos destruídos?"
perseguido pelo Senhor, Jó faz o que tem (4.7). Se Jó é basicamente um homem te-
de fazer. Ele não tenta reprimir sua hosti- mente a Deus, ele pode ter certeza de que
lidade para com Deus em vista do que lhe não sofrerá por muito tempo. Bildade, um
acontece; ele diz que falará "na angústia do seguidor convicto da doutrina da retribui-
meu espírito" e se queixará "na amargura ção, vê sua teologia confirmada na morte
da minha alma" (7.11). Ele não reclama dos filhos de Jó, que deviam ter sido gran-
nem brada no ar para expressar sua indig- des pecadores (8.4). Como Jó ainda vive,
nação e frustração; sua amargura é dirigida o pecado que lhe causou o sofrimento não
a Deus. deve ter sido tão sério, e ele pode se conso-
Embora às vezes Jó seja rude e injus- lar com o fato de sua vida ter sido poupa-
to em seu modo de falar sobre Deus, seus da. Zofar acredita que todo o sofrimento é
protestos são direcionados corretamente; resultado de pecado, mas também crê que
ele reconhece que é com o próprio Deus Deus é misericordioso, ele só pode acre-
que tem de lidar. É justamente porque Jó ditar que Jó está sofrendo menos do que
continua se dirigindo a Deus que, no fim, realmente merece da parte de um Deus jus-
Deus se revela a ele (cp. 39--41). O so- to (11.5,6). Eliú quer avaliar o sofrimento
frimento de Jó não cessa porque Deus lhe como um canal da comunicação divina,
responde. Ele descobre que julgou Deus uma advertência contra o pecado futuro.
de forma equivocada, mas sua angústia, Ninguém no livro de Jó afirma que os
de certo modo, foi acalmada pelo encontro amigos estão totalmente errados. Mesmo
com Deus. E apesar das palavras rancoro- quando Deus os reprova (42.7), é por-
sas de Jó contra Deus ao longo de todo o que eles não disseram "de mim o que era
livro, no fim, por incrível que pareça, Deus reto"- no caso de Já, ou seja, pois Jó não
o elogia por dizer o "que era reto" a seu havia pecado, e seu sofrimento não era, de
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modo algum, uma punição de Deus. O que veitoso compará-los teologicamente. Pro-
os amigos dizem acerca do sofrimento em vérbios é um resoluto defensor da doutrina
geral pode ser verdadeiro em outras cir- da retribuição. Seu princípio básico é que
cunstâncias. Mas falham com Jó porque se a sabedoria conduz à vida e a tolice conduz
baseiam em suas doutrinas, e não no que à morte, e assegura por todo o livro que a
seus olhos e ouvidos observam. Eles sa- justiça é recompensada e o pecado é puni-
bem que Jó é um bom homem, e o tratam do. Eclesiastes não duvida da importância
injustamente por acharem que o seu sofri- de se buscar sabedoria, mas parece inscre-
mento testemunha contra a sua bondade. ver um desafiador ponto de interrogação à
O livro de Jó não é contra os amigos, mas margem de Provérbios. Pois ele questiona:
quer deixar claro que o sofrimento aconte- O que acontece com a sabedoria na morte?
ce a pessoas boas, que não merecem sofrer, A morte cancela todos os valores, incluin-
e também a pessoas que merecem tudo o do a sabedoria, e o significado da vida não
que lhes acontece. pode estar fundamentado em algo que vai
se perder. É melhor, diz Eclesiastes, consi-
A origem do livro derar a vida como uma oportunidade para
Não há como estabelecer a data precisa em se alegrar (Ec 2.4); pois a alegria não é
que o livro foi escrito, a não ser que tenha uma possessão cumulativa que, em última
sido entre o século VII e o século II a.C. É instância, pode ser destruída; ela é utilizada
provável que a história de um sofredor jus- e gasta no processo da vida. O livro de Jó
to tenha se tomado popular bem antes de o também confronta a ideologia de Provér-
poema em questão ter sido escrito. O so- bios, mas de modo diferente. No pensa-
frimento do inocente também é comentado mento de Provérbios, um homem como Jó
em textos de Jeremias e Isaías, procedentes é uma impossibilidade. Se ele fosse verda-
do século VI. Assim, é possível que o sofri- deiramente justo, encontraria vida, riqueza
mento de Jó simbolizasse o sofrimento dos e saúde. O livro de Jó, porém, retrata al-
judeus no período do exílio. guém que é tanto justo como sofredor. E ao
O autor do livro foi, sem dúvida, um is- mesmo tempo mostra que uma atitude reli-
raelita. A terra natal de Jó é retratada como o giosa verdadeira não é a resignação passiva
norte da Arábia; sua história é retratada em ao infortúnio e à calamidade, mas inclui a
uma era patriarcal distante; e o próprio Jó coragem para entrar em disputa com Deus.
não conhece Deus pelo seu nome israelita
distinto - Javé. O autor, entretanto, insinua Leitura adicional
o caráter universal das perguntas de Jó, em- ATKINSON, D. The message of Job. BST.
bora seja óbvio que seus pensamentos e es- Inter-Varsity Press, 1991.
tilo literário sejam totalmente hebraicos. ANDERSEN, F. I. Jó: introdução e comentá-
Entre os estudiosos contemporâneos rio. SCB. Vida Nova, 1984.
da Bíblia, o livro de Jó é considerado par- HABEL, N.C. The book ofJob. OTL. SCM,
te do grupo conhecido como "Literatura 1985.
Sapiencial", Duvida-se que tenha havido HARTLEY, 1. E. The book of Job. NICOT.
um contexto social comum dos "sábios" a Eerdmans,1988.
partir do qual esses livros (Provérbios, Jó CLINES, D. 1. A. Job }-20. WBC. Word,
e Eclesiastes) se originaram, mas é pro- 1989.
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ESBOÇO
1.1-2.13 Prólogo
1.1-5 Cena 1: Já e sua integridade
1.6-12 Cena 2: A reunião celestial
1.13-22 Cena 3: O primeiro julgamento
2.1-6 Cena 4: A nova reunião celestial
2.7-13 Cena 5: O segundo julgamento

3:1-31:40 O diálogo
3.1-26 O primeiro discurso de Já, no qual ele expressa a sua
tristeza
4.1-5:27 O primeiro discurso de Elifaz: "Seja paciente, tudo acaba-
rá bem"
6.1-7.21 O segundo discurso de Já: "Deus, me deixe em paz"
8.1-22 O primeiro discurso de Bildade: "Se você é inocente não
morrerá"
9.1-10.22 O terceiro discurso de Já, no qual reconhece que não
pode obrigar Deus a ser justo
11.1-20 O primeiro discurso de Zofar: "Arrependa-se!"
12.1-14.22 O quarto discurso de Já: A "sabedoria" dos amigos e a
justiça de Deus
15.1-35 O segundo discurso de Elifaz: "Cuidado com o destino
dos ímpios"
16.1-17.16 O quinto discurso de Já: "Morrerei eu sem vindicação?"
18.1-21 O segundo discurso de Bildade: Mais sobre o destino ter-
rível dos ímpios
19.1-29 O sexto discurso de Já, no qual ele age com raiva.
20.1-29 O segundo discurso de Zofar: "Você deve se arrepender
ou será destruído"
21.1-34 O sétimo discurso de Já: "O perverso prospera e o justo
sofre"
22.1-30 O terceiro discurso de Elifaz: A grande perversidade de

23.1-24.25 O oitavo discurso de Já : "Deus deveria estar sempre
disponível"
25.1-6 O terceiro discurso de Bildade: "Como pode um homem
ser justo perante Deus?"
26.1-14 O nono discurso de Já: "O conselho de vocês é inútil"
27.1-28.28 O décimo discurso de Já: A sabedoria de Deus
29.1-31.40 O décimo primeiro discurso de Já, no qual ele reflete so-
bre suas calamidades

32.1-37.24 Os discursos de Eliú


32.1-33.33 O primeiro discurso de Eliú: "O sofrimento é advertência
de Deus"
34.1-37 O segundo discurso de Eliú: "Já está errado em acusar
Deus de injustiça"
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35.1-16 O terceiro discurso de Eliú: "Já não deveria ter reclama-


do, e sim apelado a Deus"
36.1-37.24 O quarto discurso de Eliú: Em louvor ao poder e à sabe-
doria de Deus

38.1-42.6 Os discursos do Senhor


38.1-40.2 O primeiro discurso do Senhor: "Considere o mistério da
criação"
40.3-5 A primeira réplica de Já: Ele não tem nada a dizer
40.6-41.34 O segundo discurso do Senhor: "Considere o poder da
criação"
42.1-6 A segunda réplica de Já: Suas demandas se transformam
em adoração

42.7-17 Epílogo
42.7-9 A vindicação perante os amigos
42.10-17 A vindicação pública

COMENTÁRIO mulas, valiosas pelo seu leite, e os seus po-


tros eram mais preciosos do que os burros.
1.1-2.13 Prólogo Já com os seus filhos e as suas filhas a his-
Nesse prólogo em forma de prosa, há cinco tória era diferente! Cada um dos filhos de
cenas artisticamente arranjadas: a primeira, Jó morava em sua própria casa: pois com
a terceira e a quinta (1.1-5,13-22; 2.7-13) um pai rico como Jó eles podiam viver
acontecem na terra; a segunda e a quarta como príncipes. Quando os filhos se reu-
(1.6-12; 2.1-6) acontecem no céu. Jó e as niam para a celebração dos seus aniversá-
outras personagens na terra ignoram o que rios, Jó cuidava para que nada inadequado
acontece no plano celestial; somente nós, acontecesse durante as festividades. Sendo
os leitores, temos acesso ao segredo da ra- a cabeça da família, Já atuava como sacer-
zão do sofrimento de JÓ. dote e oferecia sacrifícios, no caso de seus
filhos terem acidentalmente dito ou feito
1.1-5 Cena 1: Já e sua integridade algo profano. Toda a cena é de harmonia
Jó não é um israelita, ele é um integrante e tranquilidade doméstica, mas o retrato
dos "povos do leste", ou seja, que ficam a da riqueza, do conforto e do escrúpulo
leste do Jordão (Uz é Edom, a sudeste de extremos já apresenta um forte indício de
Israel). Ele é, entretanto, um adorador do alguma violência que em breve perturbará
verdadeiro Deus, embora o chame Elohim essa perfeição.
(Deus), não "Javé", o nome pessoal de
Deus. Jó é um homem íntegro; isso signifi- 1.6-12 Cena 2: A reunião celestial
ca que ele está além da repreensão, não que Em contraste com essas inocentes reuniões
fosse impecavelmente perfeito. Uma con- familiares, uma reunião muito mais impor-
sequência da sua bondade é que ele tinha tante acontece no céu, a reunião dos filhos
uma família ideal: os números sete e três, de Deus. Eles são assistentes do Senhor,
somando dez, simbolicamente sugerem os anjos (cf também Is 6.1; Jr 23.18,22),
completude (os mesmos números simbóli- e entre eles está "o Satanás" (não apenas
cos são encontrados também na contagem "Satanás"). Ele não é o diabo em pes-
das suas posses). No mundo patriarcal, as soa, mas um dos servos de Deus (o nome
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...
J62 . , .

significa "acusador", v. NVI mrg.). Satanás vida continua irrepreensível como sem-
é, sem dúvida, o adversário de Jó, mas nes- pre. Satanás agora concorda que Jó sofrerá
sa cena ele não é um inimigo de Deus, pois qualquer dificuldade externa de maneira
tudo que faz é aprovado por Deus, e ele piedosa desde que não seja afligido fisica-
não pode agir sem a autorização de Deus. mente e garante que a história será dife-
Sua tarefa normal é ser os olhos e ouvidos rente, caso Jó venha a sofrer pessoalmente.
de Deus sobre a terra. Pele por pele pode significar que Jó pou-
Jó é urna pessoa de quem Deus pode pou a si mesmo ao aceitar piedosamente a
se orgulhar; poucos no Antigo Testamento morte dos filhos, mas que se Deus agora
são chamados pelo título dignificante de o atacar fisicamente, irá descobrir, com
meu servo (e.g., 2Sm 7.5; Is 42.1). Sata- toda a probabilidade, que Jó irá responder
nás não duvida da bondade de Jó; o que ele com maldições.
questiona é se Jó é justo por amor à justiça
ou por almejar a recompensa advinda da 2.7-13 Cena 5: O segundo
conduta justa. julgamento
A narrativa apressa-se para o clímax, quan-
1.13-22 Cena 3: O primeiro do a quarta cena se dissolve na quinta. A
julgamento saída do Satanás da presença do Senhor
Nessa cena central, quatro mensageiros encerra a quarta cena, e o sofrimento de Jó
chegam-se a Jó anunciando quatro tragé- inicia a quinta cena; não há intervalo entre
dias. As tragédias (duas naturais e duas in- o sofrimento autorizado por Deus e a afli-
fligidas por seres humanos) vêm de todas as ção de Jó proveniente do Satanás.
direções: os sabeus (15) vêm do sul (Seba), Jó se sentou sobre cinzas, fora da cida-
os caldeus (17) vêm do norte; o relâmpago de, para realizar os rituais de lamentação.
(jogo de Deus, 16) vem das tempestades Para expressar o sentimento de desolação e
que assolam o Mediterrâneo no oeste; e o isolamento, ele mesmo se retirou da socie-
grande vento (19) vem do deserto no leste. dade e identificou-se com o lixo. Enquanto
Vemos Jó sobremaneira oprimido pelas ca- está assentado ali, tumores malignos ata-
lamidades anunciadas, sequer tendo tempo cam seu corpo (7), e ele utiliza cacos de
de se recuperar de um choque antes da che- barro, retirados de um montão de lixo, para
gada do próximo mensageiro. se coçar e aliviar a irritação. Essas feridas
A reação de Jó não é acusar os even- são obviamente doenças de pele (cf 7.5;
tos naturais ou os inimigos humanos (o 30.30); identificações mais específicas
Senhor o tomou), nem esquecer as bênçãos como elefantíase ou lepra não podem ser
de Deus (o Senhor o deu) e nem fechar comprovadas. Jó teve muitos outros sin-
seus olhos para a realidade (tomou), mas tomas também, tais como perda de peso
louvar o Senhor tanto pelo bem como pelo (19.20), febre (30.30), pesadelos (7.14)
mal (21). A confiança de Javé em Jó tinha e insônia (7.4), mas estes podem bem ter
razão de ser. sido efeitos psicossomáticos de sua de-
O ventre [da] mãe de Jó, ao qual ele pressão em vez de efeitos colaterais da
irá retomar na morte, deve ser entendido doença de pele. Outras referências a estes
como mãe-terra, de onde os seres humanos sofrimentos são, provavelmente, metafóri-
foram criados. cas, como quando ele reclama de que os
seus ossos estão apodrecendo (30.17) ou
2. 1-6 Cena 4: A nova queimando (30.30).
reunião celestial A esposa de Jó deve ter se sentido terri-
O relato de Javé sobre Jó é que ele ainda velmente enganada pelo marido, uma vez
mantém a sua integridade, ou seja, a sua que toda a piedade dele resultou na perda
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dos seus dez filhos, do status social e da grau, o sofrimento que lhe sobreveio. Eles
subsistência. E espera-se que ela mantenha aceitam passivamente a teologia ortodoxa
sua lealdade ao marido, apesar da culpa que atribui todo o sofrimento à pecamino-
que, por associação, ela tem de carregar. sidade humana.
Seja em função do ódio que tem de Deus
por causa do que ele fez a Jó, seja pela
3.1-31.40 O diálogo
vontade de que o sofrimento do marido
termine de uma vez, ela manda Jó amaldi- 3.1-26 O primeiro discurso de Já,
çoar a Deus (9) e, assim, causar a própria no qual ele expressa a sua tristeza
morte. Jó não a repreende por lhe sugerir Com esse monólogo de Jó, repentinamente
que blasfeme, mas por falar como qual- somos arrancados da grandiosidade épica e
quer doida. Talvez ele esteja se referindo da intencionalidade do prólogo (cp. 1-2)
a mulheres de baixa classe, ímpias, incapa- para o tumulto dramático do poema (3.1-
zes de entender a verdade que está por trás 42.6); da descrição exterior do sofrimento
dos eventos. Jó tem algo de aristocrata e, para a experiência interior de Jó. No dis-
embora nesse momento esteja desprovido curso há um movimento do passado (3-10)
de riqueza, não entende muito bem a con- para o futuro (20-26), e da experiência do
dição de quem é permanentemente pobre homem Jó (3-19) direcionada para a expe-
(cf 30.2-8). Jó responde à esposa que Deus riência da humanidade em geral (20-22).
é livre tanto para mandar o bem e os pro- Nesse discurso não há referência ao
blemas quanto para dar e tomar (cf 1.21). significado do sofrimento, nem se ques-
Isso não é resignação fatalista à vontade de tiona se o sofrimento é merecido ou não,
um Deus incognoscível, mas um tipo de e também não há indagação acerca de sua
confiança em que Deus sabe o que está fa- origem. Jó não se culpa a si mesmo pelo
zendo. Ao dizer que não pecou Já com os que está passando, nem culpa a Deus. Isso
seus lábios (lO), o narrador não está dizen- virá posteriormente, mas aqui temos sim-
do que ele pecou em pensamentos, e sim plesmente o homem Jó na violência de
que Jó desmentiu a afirmação do Satanás sua aflição.
de que ele pecaria com os lábios, ao amal- 3.3-10 Ele amaldiçoa os dias de sua
diçoar Deus, se fosse atingido fisicamente. concepção e nascimento. Uma maldição
Jó, sendo um líder de grande impor- é usualmente direcionada ao futuro, mas o
tância (1.3), tinha amigos em vários paí- desespero de Jó é tamanho que ele amal-
ses, embora não possamos identificar diçoa o passado. Trata-se de uma maldi-
com segurança os seus países de origem. ção completamente fútil, é claro, pois o
As intenções deles em relação a Jó são de passado não pode ser alterado. Ele deseja
bondade, não há como duvidar, porém, é que o dia de seu nascimento e concepção
bastante estranho que, ao verem como ele (considerado poeticamente como um único
está sofrendo, não ofereçam nenhum con- evento) tivesse sido transformado em es-
solo. Eles não lhe dirigem uma palavra curidão (4-6a) para que não fosse incluído
sequer, mas passam a tratá-lo como se já no calendário do ano (6b,c); ele deseja que
estivesse morto. Eles creem que estão lhe os feiticeiros, que amaldiçoam os dias, ti-
mostrando simpatia (e o nosso silêncio vessem transformado a data num dos dias
ao ouvir alguém em dificuldade pode ser agourentos, em que teria sido impossível a
muito benéfico), mas a lamentação silen- seus pais o terem concebido ou à sua mãe
ciosa deles por sete dias e sete noites (13) o ter dado à luz (8a,lOa). 8 Alguns mági-
é inevitavelmente alienante. Como suas cos do passado obviamente acreditavam
palavras irão mostrar depois, os amigos que tinham poder para despertar Leviatã,
não creem que Jó não mereça, em certo o monstro marinho (cf SI 104.26; Is 27.1)
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e dragão do abismo, que, talvez, tragasse o deles trouxe uma mensagem tão conforta-
sol, causando assim a escuridão do eclipse. dora quanto este. Mas há também uma iro-
3.11-19 Ele deseja que tivesse nasci- nia aqui, como nos discursos de todos os
do morto. Jó, em seu discurso, vai do de- amigos de Jó; o autor não compartilha a vi-
sespero ao questionamento. Uma vez que, são dogmática deles de que o sofrimento é
claramente, a maldição sobre o dia de seu sempre merecido, e pretende retratar como
nascimento nunca fora proferida, ele ques- crueldade o suposto conforto deles.
tiona por que, já que teve de nascer, não A essência do primeiro discurso de
morreu no parto (Lla) ou, pelo menos, não Elifaz a Jó é esta: Você é um homem
houve um aborto oculto (16). A morte para piedoso, como bem sabemos. Não há,
ele tomou-se agora mais doce do que a portanto, necessidade alguma para se de-
vida, e ele contrasta a tranquilidade e a cal- sesperar; no final das contas, o inocente
ma do submundo (sheol) com sua presente nunca sofrerá. Você está sofrendo agora
sorte perturbadora e angustiante (13-19). porque não é perfeito e precisa de algu-
14 Os reis do Oriente Próximo frequen- ma "correção" e "disciplina" (5.17); mas
temente se gabavam de ter reedificado as tudo isso acabará logo, porque você é
ruínas das cidades antigas. praticamente um homem bom (4.6). Em
3.20-26 O enigma da existência do resumo, a mensagem a Jó é: "Seja apenas
sofrimento. Jó passa a uma questão mais paciente; tudo acabará bem".
complexa. Agora ele não apenas quer saber 4.2-6 "Você é um homem piedoso".
por que tem de prosseguir vivendo - uma A preocupação genuína de Elifaz por Jó
vez que já nasceu - mas por que as pesso- é ouvida nas suas palavras iniciais; ela é
as em geral não podem simplesmente mor- respeitosa e quase apologética (2a). Ele
rer quando estão prontas para isso (20-23). não é desdenhoso quando lembra a Jó o
Nos últimos versículos (24-26), ele fala quanto este confortou as pessoas que ha-
diretamente a seu respeito, de novo. O viam passado pela mesma situação (3,4);
poema termina com a nota que ecoou por sua admoestação é suave quando ele diz:
ele todo: ao contrário do repouso do sub- tu te enfadas; sendo tu atingido, te pertur-
mundo, que é o que Jó deseja, sua vida não bas (5). O encorajamento de Jó aos outros,
tem descanso, sossego nem repouso, mas como um ato de verdadeiro temor de Deus
somente perturbação (26). (6), é uma boa razão para ele acreditar que
23 Previamente, o cerco de proteção di- Deus irá restaurá-lo brevemente.
vina em sua vida (cf 1.10) assegurara o seu 4.7-11 "Os inocentes nunca pere-
bem-estar, porém, agora que ele quer mor- cem". Ao descrever o perverso, Elifaz não
rer, só consegue pensar que Deus preserva pretende dizer que Jó seja um deles. Pelo
a vida como uma prolongação artificial de contrário, está falando a Jó que ele não tem
sua infelicidade; o cerco de Deus tornou-se nenhuma razão para ansiedade, uma vez
uma muralha de prisão, e não de defesa. 25 que não é um dos perversos, que semeiam
O medo anterior de Jó acerca de um desas- e colhem preocupações (8; cf Os 10.13;
tre futuro explica seu cuidado extremo em GI6.7).
assegurar que nenhum pecado fosse ligado 4.12-21 "Todavia, nem mesmo o pie-
à sua família (1.5; cf 15.20-26). doso é perfeito". Para sustentar o seu argu-
mento de que mesmo o justo não é perfeito,
4.1-5.27 O primeiro discurso Elifaz relata suas visões noturnas (12-16)
de Elifaz: "Seja paciente; e tira conclusões a partir delas (17-21). O
tudo acabará bem" próprio Elifaz se acha muito audacioso
Elifaz, como todos os amigos de Jó, preten- em ter essa visão profética. O autor talvez
dia apoiá-lo em seu sofrimento, e nenhum queira nos divertir com a alegação de Elifaz
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sobre uma revelação divina que a maio- Elifaz não está dizendo que Jó é um tolo,
ria das pessoas comuns - sem nenhuma mas nos horrorizamos ao notar a insensi-
educação teológica - aceita como fato bilidade de Elifaz com o infortúnio de Jó
consumado: Seria, porventura, o mor- quando ele fala da casa do louco sendo
tal justo diante de Deus? (17). Embora amaldiçoada (3; cf o v. 25)! Tudo o que
a frase devesse ser traduzida por: "Pode ele está dizendo é que nem mesmo o jus-
um mortal ser justo [quer dizer, absoluta- to Jó pode achar que escapará ileso de tal
mente sem pecado] à vista de Deus?", a sofrimento - a aflição não se produz a si
ideia continua óbvia e banal. E mais ainda, mesma (6); é produzida pelas pessoas (7).
é bastante inadequada a Jó. Ele não está 5.8-16 "Tudo que você deve fazer
padecendo de uma aflição qualquer por- é entregar o seu caso aDeus". Elifaz
que escorregou da perfeição moral abso- volta a afirmar que Jó é essencialmente
luta; ele foi completamente devastado. E um homem piedoso e, assim, não deve
embora não tenha sido morto (consumido se desesperar (4.2-6), e agora recomenda
como os perversos do v. 9), ele está, de paciência a Jó: Se eu fosse você, eu colo-
certa maneira, em situação pior que o ím- caria minha causa nas mãos de Deus (8),
pio, pois deseja morrer, mas Deus insiste pois ele é o grande inversor das venturas
em mantê-lo vivo (3.20-23). (11-16). Nesta vívida descrição dos feitos
14 O sonho, ou visão, de Elifaz o apa- de Deus, Elifaz se entusiasma um pouco
vorou porque ele estava ciente da presen- com a própria retórica. Muito do que ele
ça do sobrenatural. 18 Se nem mesmo os diz não se aplica em nada a Jó; o único
servos celestiais de Deus, seus anjos, são ponto de conexão é que Jó, como o aba-
infalivelmente confiáveis (não existe aqui tido ou o necessitado (11,15), pode ter
cogitação de anjos "maus"), muito menos esperança de que Deus mudará drastica-
os mortais que, diferentemente dos anjos, mente seus atuais infortúnios.
podem morrer num único dia (20a). Além 8 Pelo menos, Elifaz diz uma coisa sen-
disso, os mortais podem ser tão insignifi- sata: Quanto a mim, eu buscaria a Deus,
cantes (em comparação aos anjos) que mor- ou, em outras palavras: "Se fosse eu, ape-
rem sem que ninguém perceba (20b) e sem laria a Deus". Este é um conselho de amigo
obter a sabedoria compassiva que norteia a que Jó segue, embora ele dificilmente ne-
vida de Elifaz e dos outros amigos (21). cessite que Elifaz o encoraje a tal. Sua cau-
5.1-7 "O sofrimento deve ser espe- sa é tanto o seu presente infortúnio quanto
rado". Elifaz não acredita que Jó queira sua "causa" no sentido mais jurídico, e que
mesmo morrer (como ele disse no cp. 3), ouviremos, muitas vezes, Jó apresentar a
e ele agora supõe que Já deva estar bus- Deus em discursos posteriores (cf 7.20,21;
cando algum meio de se libertar do sofri- 10.18-22; 13.20-23). 11-16 Aqui os atos
mento. Elifaz diz que se é isso que Já está destruidores de Deus (12-14) estão incluí-
buscando, é melhor esquecer, pois não há dos no conjunto de seus atos salvadores
poder, nem ainda entre os seres celestiais, (10-11,15), assim o principal efeito desse
que possam libertar Jó da sua punição. O retrato do trabalho de Deus é levar espe-
sofrimento é natural para os seres huma- rança ao pobre (16; cf Lc 1.51-53).
nos, que sempre trazem perturbações a si 5.17-27 "Se você fizer assim, Deus o
mesmos (o v. 7 provavelmente deveria ser restaurará". Elifaz adverte Jó que se ele
traduzido por: "É o homem que gera o pró- simplesmente esperar com paciência a ação
prio sofrimento"). de Deus, descobrirá que o seu sofrimento é
Este ciclo de causa e efeito é especial- disciplinar (17) e que ele faz aferida e ele
mente óbvio no caso do tolo (2), cujo res- mesmo a ata (18). Elifaz está determinado
sentimento [ira] e inveja o levam à ruína. a findar seu discurso de um modo positivo.
705

Ele acha (e isso também é irônico) que está Jó não pede nada a Deus, a não ser que o
fazendo um grande favor a Jó ao lhe dizer deixe sossegado, para que ele viva o res-
que sua situação é boa demais! Bem-aven- tante dos seus dias livre de sofrimento. É
turado é o homem a quem Deus disciplina, claro que há muito mais aqui do que pode-
ele diz (17) como se tivesse algum direito mos entender; no próprio ato de suplicar a
de dizer a Jó como ele é abençoado em so- Deus para deixá-lo em paz, Jó está, de fato,
frer a perda de sua família e bens. se aproximando do Senhor.
O quadro não é um mar de rosas total: 6.1-13 "Que Deus me mate!". No
Jó deve satisfazer algumas condições. Ele início desse discurso, Jó não está, de fato,
não deve desprezar a disciplina do Todo- se dirigindo a Deus, mas expressando um
Poderoso (17) e deve ouvir o conselho de desejo aflito de que Deus ponha fim a esse
Elifaz e aplicá-lo à sua vida (27). Na su- sofrimento. O texto-chave nesta seção são
perfície, não parece difícil cumprir essas os v. 8,9: Quem dera que se cumprisse o
condições, mas, claro, elas são impossíveis meu pedido, e que Deus me concedesse o
de ser aceitas por JÓ. Como aceitar a "dis- que anelo! Que fosse do agrado de Deus
ciplina" de Deus, se ele não considera o esmagar-me, que soltasse a sua mão e
seu sofrimento uma disciplina, e sim uma acabasse comigo! Jó acha que se morresse
injustiça cruel? E como aplicar em sua agora, antes que o sofrimento o levasse a
vida o conselho de Elifaz quando ele sabe blasfemar, poderia ao menos ter a conso-
que o conselho é resultante de reflexão teo- lação de não ter negado as palavras, os
lógica e não corresponde minimamente à mandamentos, do Santo.
verdadeira experiência de vida? Elifaz pede que Jó seja paciente, mas
a paciência necessita de um vigor de que
6.1-7.210 segundo discurso de Jó não dispõe (11-13). Elifaz não havia
Jó: "Deus, me deixe em paz" reconhecido o peso que estava sobre Jó.
As palavras de Elifaz não atingiram em Se a sua infelicidade pudesse ser pesada,
nada o problema de Jó. Assim ele ignora o ela pesaria mais que a areia dos mares
discurso quase por inteiro. Isso é uma mar- (3); não é de admirar que suas palavras
ca característica do livro: vários oradores tenham sido precipitadas (ou melhor,
falam sem se dirigir a ninguém em parti- "desesperadas"). Jó não está se descul-
cular. Essa característica é obviamente um pando de nada, nem confessando coisa
meio usado pelo livro para abordar as di- alguma. Exatamente como no prólogo
ficuldades de se estabelecer uma conexão (1.21; 2.10), ele reconhece que, em última
entre teologia e vida real. instância, o seu sofrimento vem de Deus;
Nesse discurso veemente, há três seg- aqui no poema, os seus sofrimentos resul-
mentos. No primeiro (6.1-13), que é um tam dasflechas envenenadas do Todo-Po-
monólogo endereçado a ninguém em par- deroso (Shaddai), enquanto os terrores de
ticular, Jó vai bem além da sua posição no Deus, seu inimigo, são arregimentados na
cp. 3. Ali ele desejou nunca ter nascido, e batalha contra ele (4). Não é o sofrimento
perguntou por que, uma vez que nasceu, é físico ou o tormento mental que esmaga a
obrigado a prosseguir vivendo. Mas agora Jó; é a consciência de que se tomou ini-
anseia pela morte imediata (6.8,9). No se- migo de Deus.
gundo segmento (6.14-30), Jó se dirige aos 5,6 Os clamores de Jó têm suas razões,
amigos e lamenta-se por terem roubado assim como o jumento ou o boi somente re-
dele a única coisa que esperava: compai- clamam quando suas necessidades não são
xão compreensiva. No terceiro segmento satisfeitas. As necessidades de Jó não têm
do discurso (7.1-21), ele, surpreendente- sido satisfeitas ~ pelo menos não por
mente, dirige-se a Deus. Por um instante, Elifaz, cujas palavras são insípidas e cujo
J66 706

conselho não pode ser engolido mais facil- com um apelo para que Deus o deixe sozi-
mente do que a clara do ovo (6). nho num canto para morrer em paz.
11-13 O sentimento que retoma a Jó 1-10 Aqui, Jó lança seu desespero so-
não é tanto de fraqueza fisica quanto psi- bre a existência humana em geral: o des-
cológica. Não lhe restam recursos interio- tino comum da humanidade é penoso (1).
res; sua auto estima foi minada porque não Sua depressão agora não o conduz tanto à
vê em si mesmo razão nenhuma para Deus raiva como ao queixume sobre o labutar
tratá-lo com tanta falta de misericórdia. infrutífero da vida. Seus dias que são mais
6.14-30 "Vocês não são amigos de velozes do que a lançadeira do tecelão (6)
confiança". Jó acabou de reclamar que também são os dias da humanidade como
não tem mais forças (13), mas agora di- um todo; a vida que nada mais é do que
rige um ataque amargurado e sarcástico um sopro (7) é o destino da humanidade;
contra os amigos. A depressão se trans- e o fato de que aquele que desce à sepul-
formou em raiva. Ele começa indireta- turajamais tornará a subir (9) é comum a
mente, com a imagem de uma torrente ou todos os homens. E ainda, paradoxalmen-
ribeiro sazonal (uádi), que seca no calor te, a vida que é tão breve pode parecer tão
e não tem água quando alguém precisa. monótona: o único evento que Jó deseja
Jó acusa seus amigos de não retribuírem a - a morte - parece infinitamente adia-
devoção ou "lealdade" que lhes dedicou, do, de modo que ele é como o escravo que
a amizade leal e a aceitação incondicional suspira pela sombra (2). As únicas altera-
em quaisquer situações. Para os amigos, ções que ele observa acontecem em suas
"lealdade" tem outro significado. Eles feridas: um dia elas incrustam e no outro,
oferecem solidariedade e apoio, mas ape- supuram (5).
nas dentro da coerência. Não conseguem 11-16 Jó teve duas razões para o seu
dizer: "Amigo, certo ou errado, estamos pedido espantoso de que Deus o deixasse
com você" quando acham que os sofri- sozinho num canto (16). A primeira foi
mentos de Jó mostram claramente que o estado lastimável da sua vida cheia de
ele está errado e Deus o está punindo por sofrimento (1-5); a segunda, a certeza da
um pecado ou outro. Deveriam eles fazer aproximação da morte (6-10). Ele não tem
pouco caso das evidências e do conheci- nada mais a perder. Entretanto, sua recla-
mento confirmados pelos próprios olhos, mação é que Deus, longe de deixá-lo em
e apoiar Jó no que acreditam ser uma pos- paz, trata-o como um monstro lendário
tura de falsa retidão? das profundezas, Yam (o mar) ou Tannin
21 Os amigos, diz Jó, estão receosos (o monstro das profundidadess que teve
de que, caso se identifiquem demais com de ser amordaçado por Deus (cf 38.8-11;
ele, também cairão sob o julgamento de Is 51.9). É absurdo Deus imaginar que Jó
Deus. Eles não o tratam como amigo, mas seja uma ameaça para seu universo, e mes-
como alguém que pede um empréstimo: mo assim ele recebe o mesmo tratamento
oferecem muitos conselhos, mas nenhum dado a essas forças do abismo (12).
tostão (22,23)! 24 Jó pergunta aos amigos 17,18 Nesta paródia amarga do salmo
que crime ele cometeu para estar sofrendo 8, Jó retoma ao tema da desproporção (12).
assim. A resposta a essa pergunta é tudo o No livro de Salmos, "O que é o homem"
que ele precisa para se calar. expressa gratidão maravilhada porque os
7.1-21 "Por que, ó Deus, o Senhor me seres humanos, aparentemente tão insigni-
mantém vivo?". A vontade de Jó de mor- ficantes na escala do universo, são os ob-
rer impõe-se novamente, mas dessa vez, jetos do cuidado do Deus Todo-Poderoso.
está ligada à sua experiência com a futili- Em Jó, "O que é o homem" inicia uma re-
dade e tristeza da vida humana em geral e provação a Deus porque sua atenção (para
707 JÓ8( l1li

que tanto o estimes) aos seres humanos não perverteria [00'] ajustiça (3). Se Deus
não visa ao beneficio deles, mas tem sido, enviou o sofrimento é porque deve haver
antes, um escrutínio impiedoso, um teste um pecado que o faça merecer. O caso dos
perpétuo, uma crueldade inexplicável, um filhos de Jó prova a afirmação de Bildade:
tormento sádico. Se teus filhos pecaram contra ele, também
19-21 Jó não é nada, a não ser um des- ele os lançou no poder da sua transgressão
ses seres humanos insignificantes. E se ele (4). Em contraste, o próprio Jó não morreu,
tiver mesmo pecado? Terá seu pecado cau- assim ele deve ser inocente de qualquer
sado tantos problemas a Deus que mereça coisa que mereça a morte. Jó tem apenas
punição tão severa? De qualquer modo, que [buscar] a Deus em oração (5) e se ele
Jó em breve morrerá. Que aborrecimentos é puro e reto, sua oração será ouvida. Para
Deus terá de enfrentar, caso retarde a puni- Bildade tudo é muito simples: o destino
ção por um tempinho? Não que o pecado dos seres humanos está diretamente ligado
humano seja trivial, mas o suposto pecado aos méritos humanos.
que está lhe causando tanto sofrimento não 8.8-19 "Não há efeito sem causa,
deve merecer tanta atenção de Deus. Por como o exemplo dos perversos demons-
que ele "não faz vista grossa" (em vez de tra". Bildade apela para a tradição (como
perdoas) a qualquer ofensa que Jó supos- o faz Elifaz em 5.27) porque a sua própria
tamente tenha cometido? Observemos que experiência não consegue lidar com o pro-
Jó não está confessando nada. blema teológico do sofrimento de Jó. Em
dois cenários diferentes (11-13,14-19),
8. 1-22 O primeiro discurso cada um terminando com seu próprio resu-
de Bildade: "Se você é mo, Bildade descreve o destino do ímpio
inocente não morrerá" com uma imagem da natureza, pretenden-
Bildade, como os outros amigos, acredi- do dizer que onde há punição com certeza
ta que o sofrimento é a punição, e que a também há a culpa. No primeiro cenário, o
morte dos filhos de Jó é a prova do pecado papiro que seca por falta de água ilustra a
deles. Elifaz admitiu que Jó era essencial- questão e é, ao mesmo tempo, uma metá-
mente um homem justo, embora estives- fora para o destino do ímpio. No segundo
se sendo temporariamente castigado por cenário, a teia de aranha é um símbolo da
Deus por algum erro que os mortais não instabilidade e questionabilidade da con-
conseguem evitar. Porém, Bildade tem fiança do ímpio (14,15), e o desenraiza-
menos confiança na integridade de Jó. mento de uma planta é uma metáfora para
Todo o seu encorajamento a Jó depende da a destruição da pessoa perversa.
condição se fores puro e reto (6). Bildade 8.20-22 "Ainda há esperança para
não é hostil a Jó, mas insiste em que ele você". Bildade conclui com uma palavra
examine sua consciência, pois é somente de esperança: Deus não rejeita ao íntegro
por meio da inocência que Jó será liberto (20). E ele obviamente crê que Jó ainda
das suas tribulações. provará a sua integridade. Mas a sabedo-
A maior parte dos discursos de Bildade ria de Bildade é superficial demais para a
(8-19) aborda o tema de que não há efei- situação de Jó. E há uma ironia cruel aqui
to sem causa; a morte do perverso ilustra também. Pois se Jó fizer o que Bildade re-
o tema. O discurso é concluído com uma comenda e pedir misericórdia ao Todo-Po-
nota comparativamente alegre (20-23), e deroso (5), e utilizar sua integridade para
sua mensagem a Jó é: "Se você é inocente, se livrar do sofrimento, não irá comprovar
não morrerá". inconscientemente que Satanás estava cer-
8.2-7 "Sua morte e a de seus filhos". to ao dizer que Jó não teme a Deus sem
A opinião básica de Bildade é que Deus pensar em recompensa?

•• JÓ9 708
••
9.1-10.22 Terceiro discurso de seu lugar na sociedade, cura da sua enfer-
Já, no qual ele reconhece que não midade e devolução das suas posses.
pode obrigar Deus a ser justo 9.2-13 "Não posso obrigar Deus a me
Nesses capítulos, alcançamos um nível de vindicar". Ao perguntar: Como pode o ho-
intensidade mais profundo. Neles ouvi- mem ser justo para com Deus?, Jó não está
mos a declaração mais intensa que Jó fez falando como Paulo, de como um pecador
até agora do seu sentimento de impotên- é "justificado" ou declarado justo perante
cia (e.g., 9.3,4,14-20,30,31) e sensação de Deus, mas de como uma pessoa justa pode
ter caído numa armadilha (9.15,20,27-31). ser "justificada" ou publicamente vindica-
Acima de tudo, observamos sua crença de da por Deus. Isso acontece porque Deus é
que todo o aparente cuidado que recebeu Deus, e não um ser humano; seu poder e
de Deus a vida inteira não foi, na verda- sabedoria são infinitos (4), como demons-
de, em seu beneficio, mas para tê-lo preso trado pelo seu controle sobre o universo. Jó
à culpa: Estas coisas, as ocultaste no teu se concentra mais nos aspectos negativos
coração [...] Se eu pecar, tu me observas do poder de Deus - ele move montanhas,
(10.13,14). Não é de surpreender que Jó move a terra, sela as estrelas (5-7) - não
conclua seu discurso reiterando a vontade de modo a retratá-lo como um Deus do
de nunca ter nascido (10.18,19; cf 3.3-13) caos, mas para destacar sua liberdade de
e pedindo a Deus que o deixe em paz nos agir, seja para o bem, seja para o mal. A
poucos dias que lhe restam antes da morte liberdade de Deus o toma incompreensível
(10.20-22; cf 17.16). (faz maravilhas tais que se não podem con-
No entanto, esse discurso não é mera tar; 10), livre de dar explicações (Quem lhe
repetição, pois nele Jó também levanta a dirá: Quefazes?; 12) e incontrolável (ele
questão de como será vindicado, i.e., pu- não revogará a sua própria ira, se esta for
blicamente declarado inocente. Ele admite sua decisão; 13). 3 O retrato aqui é de um
que fazer com que Deus o declare inocente tribunal, onde o querelante faz as queixas
é uma tarefa sem muita esperança (9.2), e o acusado responde. Se Jó levasse Deus
e a desesperança da situação, no final do ao tribunal, metaforicamente falando, ele
discurso, envolve-o numa aflição profun- teme que não seria capaz de resistir aos ar-
da (10.15,16). Mas a vindicação tomou- gumentos e contra-argumentos de Deus.
se uma ambição que ele não rejeitará, e a 9 Os quatro grupos de estrelas aqui não
atração que tem por ela fica mais intensa à podem ser identificados com certeza, mas
medida que o livro avança (cf 13.13-23; é óbvio que fazem parte das estrelas mais
16.18-21; 19.23-27; 23.2-14). grandiosas. 13 Os auxiliares do Egito: Al-
Jó não está afirmando que Deus é injusto, gumas versões trazem: "Raabe" (e.g., Nvr).
embora algumas linhas possam ser interpre- É um nome (como Leviatã) para o lendário
tadas dessa maneira (9.16,20,22,24,30,31; monstro marinho do abismo contra quem
10.15). Ao contrário, está dizendo que é (de acordo com alguma tradição folclórica
inútil tentar obrigar Deus a fazer algo - hebraica não encontrada na Bíblia) Deus
mesmo dar-lhe a vindicação merecida. O batalhou na criação (v. também 26.12; SI
seu sofrimento atual é uma prova silencio- 89.10; Is 51.9).
sa para os vizinhos de que ele é um peca- 9.14-24 "Nem mesmo no tribunal
dor terrível; pois eles, como seus amigos, Deus me vindicaria". Jó imagina levar
creem na doutrina da retribuição, de que o Deus ao tribunal para forçá-lo a pronun-
sofrimento é resultado de culpa. Assim, de- ciar-lhe o veredicto público de "inocente".
pois de tudo, a vindicação que Jó necessita, Mas isso é realmente impossível; como
e deseja, não é uma declaração verbal de um reles mortal escolheria palavras ou
inocência, mas uma restauração pública do "simples" argumentos contra Deus? E se
alguém conseguisse argumentar com Deus,
709

motivos de Deus para o tratamento que


J611
.
rJI•

como teria certeza de que ele estaria mes- Jó recebe dele (3-7); a contradição entre
mo ouvindo, uma vez que, nesse instante, os propósitos reais e aparentes de Deus ao
está massacrando Jó com uma tempestade criar Jó e mantê-lo vivo (8-17) e um apelo
(16,17)? Embora seja inocente, Jó não du- para a libertação da presença opressiva de
vida que fale inadequadamente: a minha Deus (18-22).
boca me condenará (20). 1,2 Jó tenciona fazer disto uma con-
9.25-35 "É mesmo necessário haver trovérsia jurídica com Deus. Como aquele
julgamento formal?". Agora o monólogo que se defende em um tribunal, ele pede
se toma um discurso a Deus. Começando contas das acusações contra ele (2).
com uma reflexão sobre o infortúnio dos 3-7 Nos três questionamentos, Jó espe-
seus dias (25,26), Jó reconhece que os cula acerca dos motivos por trás do compor-
seus sofrimentos são lembretes constantes tamento de Deus em relação a ele. Deus tem,
de que Deus o considera culpado (27,28) de algum modo, se beneficiado disso (3)?
e prosseguirá dessa forma, não importa Certamente ele não tem nada a ganhar mal-
o que Jó fizer para provar sua inocência tratando a JÓ. É a visão de Deus apenas a
(29-31). Então, o que ele pode fazer? Ten- de um mortal, que ele passa a agir como
tar acabar com o sofrimento mental (27) ou se fosse míope ao tratar com Jó (4)? Tem
tentar se livrar da suposta culpa, jurando Deus tão pouco tempo de vida para agir
inocência (28-31). Mas nenhuma dessas com tal urgência contra Jó (5,6)?
atitudes oferece muita esperança de suces- 8-17 Aqui nós temos uma bela descri-
so e ele retoma à ideia da disputa judicial ção de como Jó foi criado e preservado por
com Deus (32-35). Deus (8-12): ele foiformado como em bar-
32-35 O problema do confronto legal ro, envasilhado como leite, sendo coalhado
com Deus é que as duas partes não podem como queijo, entretecido como a obra de um
estar no mesmo nível (32). O que Jó pre- tecelão que lhe concedeu vida. Mas o tempo
cisa é de um árbitro que intermedeie en- todo, ao que parece, Deus tinha um propósi-
tre os dois, que ponha a mão sobre ambas to bem diferente e totalmente sinistro (13):
as partes como um gesto de reconciliação intensificar a culpa sobre Jó, o qual, por sua
(ou, talvez, como um símbolo do seu po- vez, não está admitindo que é culpado; está
der sobre ambos). Mas é claro que não há dizendo que, quer seja perverso ou inocente
tal árbitro. "Pois bem" diz Jó, "eu mesmo (15), o "cuidado" de Deus por ele tem sido
deverei pleitear o meu caso. Mas não tenho o de tomá-lo alvo de seu ataque (cf 7.20).
coragem de iniciar uma disputa com Deus, 18-22 Foi para isto que Jó nasceu? Ele
a não ser que ele prometa não me aterro- está duplamente desesperado agora; ele
rizar com sua força superior" (34,35). No não sabe como se aproximar de Deus para
cp. 10, Jó diz as palavras que ele usaria (ou conseguir a vindicação (9.11), e ele sente
antes, as palavras que ele mesmo usa) na que está nas garras de um Deus zangado
disputa aqui imaginária. que o fará sofrer, seja ele inocente ou não
10.1-22 "Eu falarei na amargura do (10.7). Não é de surpreender, então, que
meu lamento". Como muitos dos discursos Jó caia no desespero que vimos no cp. 3,
de Jó, este termina com um apelo ardente misturado com o apelo a que Deus se afas-
diretamente a Deus. Jó não se contenta tasse, que vimos em 7.16,19.
em falar de Deus na terceira pessoa, mas
sabe que, uma vez que está se relacionan- 11.1-20 O primeiro discurso
do com o próprio Deus, é a ele que tem de Zofar: "Arrependa-se!"
de se dirigir. Há quatro partes no discurso: Zofar é o menos solidário dos três amigos.
sua intenção (1,2); a reconsideração dos Sua mensagem para Jó é simples: você está
J611 710

sofrendo porque Deus sabe que você é um na primeira, Jó se dirige aos seus ami-
pecador secreto (6); portanto, arrependa-se gos (12.2-13.18), e na segunda, a Deus
(13,14)! (13.19-14.22). O fluxo de pensamento,
11.1-6 "Deus sabe que você é peca- ainda na primeira seção, está sempre dis-
dor em secreto". Zofar é um homem de tanciado dos amigos e dirigido a Deus. A
princípios, que concorda com Jó em que a essência do discurso como um todo é: Eu
verdadeira questão é o pecado. Não é ób- não quero nem saber de vocês, médicos
vio que Jó seja um pecador; então ele deve que não valem nada (13.4); mas falarei ao
ser um pecador em secreto, e foi descober- Todo-Poderoso (13.3).
to por Deus. Jó afirma que sua doutrina 12.2-13.19 A sabedoria dos amigos
é pura e que ele é limpo diante de Deus comparada à sabedoria de Deus. Jó aqui
(4), mas Deus sabe que não é bem assim se dirige a todos os amigos, não apenas a
- e de certa forma Zofar também ficou Zofar, que discursou por último. Jó nega
sabendo - que Jó é um malfeitor. Prova- que seus amigos sejam mais sábios do que
velmente seu pecado é tão sério que, ain- ele (2-12), e contrasta a sabedoria deles
da com toda esta punição, Deus tenha se com a sabedoria de Deus (13-25). Pela
esquecido ou subestimado parte da [tua] primeira vez, Jó mostra desprezo por eles.
iniquidade (6). Talvez Jó nem esteja rece- "Na verdade", ele inicia sarcasticamente,
bendo tudo o que merece! vós sois o povo, e convosco morrerá a sa-
11.13-20 "Portanto você deve se ar- bedoria, mas eu não vos sou inferior (2,3).
repender!". Zofar agora tenta persuadir Na verdade, isso significa que Jó realmente
Jó acerca das bênçãos do arrependimento. se acha superior, pois a experiência o tor-
Onde Elifaz foi hesitante, Zofar é cate- nou mais sábio do que os amigos. Ele co-
górico. Ele deixa claro que a restauração nhece algo que eles desconhecem: é pos-
depende inteiramente do arrependimento sível a um homem justo ser afligido e, do
profundo de Jó: para ter alguma esperan- mesmo modo, os atos do perverso ficarem
ça, Jó precisa apenas seguir o conselho impunes (4-6).
do amigo. Jó deve devotar o seu coração 7-12 Aqui, Jó não se dirige aos amigos,
a Deus, direcionar sua mente a Deus com todavia imagina ironicamente o que eles
força total e não se contentar com sinais lhe diriam. Jó afirma que eles têm uma
exteriores de arrependimento, e deve orar opinião muito simplista da maneira como
(13) e abandonar o comportamento iníquo Deus trabalha; eles acham que tudo acerca
que está vivendo. do pecado e punição é tão claro e eviden-
O resultado será uma consciência tran- te que até mesmo os animais entendem do
quila (levantarás o rosto sem mácula) e assunto. As palavras brandas e óbvias dos
o sentimento de segurança (estarás segu- v. 10,11 são ditas pelos amigos, e são eles
ro; 15). Mas o leitor percebe a ironia da que afirmam que a sabedoria [está] com os
situação, pois tudo o que Zofar recomen- idosos (12).
da a Jó, este tem praticado durante toda 13-25 Esse hino ao poder destrutivo do
a sua vida (1.1). Todo-Poderoso apresenta a nova sabedoria
de Jó (3). O Deus que ele agora conhece
12.1-14.22 O quarto discurso não é um regente calmo de um universo
de Jó: A "sabedoria" dos amigos bem ordenado, mas uma divindade ex-
e a justiça de Deus cêntrica; ele não pode ser compreendido
Esse discurso importante de Jó aparece e não pode ser manipulado. O que é mais
no final do primeiro ciclo de discursos, característico deste Deus é a sua inversão
depois que cada um dos amigos lhe diri- da ordem estável. Em outros hinos (como
giu a palavra. Há duas seções principais: o de Elifaz em 5.9-16), o propósito de tais
711 JÓ 14

inversões é oferecer salvação e corrigir a para uma discussão (22). É perigoso (14),
injustiça. Mas não há nenhum propósito suicida, de fato (15); mas Jó tem certeza de
moral ou benéfico nesses transtornos rea- que está com a razão (18).
lizados por Deus. 13.20-14.22 O que Deus tem contra
13 1-3 O que Jó deseja, acima de tudo, Jó? Há duas ideias centrais no questiona-
é argumentar com Deus; ele usa a lingua- mento que Jó faz a Deus. A primeira (13.19-
gem jurídica. Mas seu objetivo não é tanto 27) é uma exigência para que Deus revele o
vencer uma disputa contra Deus quanto que ele tem contra Jó; a segunda (13.28-
esclarecer um desacordo. Ele não propõe 14.22) é, bem paradoxalmente, que ele dei-
uma ação judicial na qual acusará Deus xe Jó sossegado para morrer em paz. Jó já
de injustiça por lhe reter a absolvição; em fizera esses apelos anteriormente.
vez disso, ele chama Deus a acusá-lo, de 19-27 Jó convoca Deus a uma discussão
modo que saiba o que Senhor tem contra judicial com o propósito de que o Senhor
ele (13.13). pronuncie o veredicto de "inocente" a seu
4-12 Mas Jó ainda tem algo a dizer a respeito (19). Jó apresenta duas condições
seus amigos. O modo como eles têm se para a imparcialidade (20): primeira, Deus
comportado, ele diz, ainda usando a lin- deve aliviar a sua mão de sobre ele; segun-
guagem jurídica, é um falso testemunho da, ele deve parar de espantá-lo com o seu
em nome de Deus. Embora J tenha muitas
ó terror (21). Só então é que Deus poderá
dúvidas acerca da justiça de Deus, ele não iniciar os procedimentos, ou, se ele pre-
duvida de que Deus punirá os amigos pela ferir, Jó o fará (22). Em linguagem jurídi-
parcialidade que eles mostram em relação ca, Jó pede a lista de acusações contra ele
a ele (13.10) e pela falta de objetividade. (23). Jó, é claro, não está admitindo crime
Seria melhor que eles o ouvissem (6), algum, mas se referindo ao que o "senhor
não tanto pelo que lhes dirá pessoalmente afirma serem meus pecados". Jó tem a im-
(7-12), mas pelo que dirá em sua discus- pressão de que Deus está fazendo tempes-
são com Deus (13.13-14.22). Mas an- tade em copo d'água (25), punindo-o por
tes de iniciar seriamente a discussão, Jó erros da infância (26) e, conforme ouvimos
quer informar que Deus não ficaria feliz anteriormente (e.g., 3.23), limitando e con-
ao descobrir que (9) os amigos recorre- finando-o (27).
ram a mentiras sobre pecado e castigo ao 14.1-22 Aqui, o foco muda de Jó (como
tentarem justificar a maneira de o Senhor em 13.20-28) para a humanidade em geral.
lidar com Jó. Qualquer teologia que não Jó, é claro, continua falando de si mesmo;
tenha espaço para a experiência de Jó no entanto, como anteriormente, projeta
- a respeito do sofrimento de um justo seus sentimentos e experiências sobre toda
- é mentirosa, e é inconcebível que se a humanidade (cf 3.20; 7.1-10). O tema
digam mentiras a respeito de Deus. Em desse capítulo é que os seres humanos são
uma série de perguntas retóricas (7-9,11), muito insignificantes para merecerem o
Jó expressa o seu espanto com a ideia de tipo de escrutínio divino que Jó está expe-
que alguém possa se valer de mentiras a rimentando. Uma vez que os humanos têm
serviço da verdade. vida curta, Deus bem que poderia ignorar
13-19 Finalmente, Jó pretende explicar os seus pecados; dificilmente eles conse-
aos amigos o significado de seu novo dis- guiriam alterar a ordem do universo (4).
curso aDeus(13.2o-l4.22). No capitulo 7, 7-12 O contraste entre a esperança de
assim como nos cp. 9 e 10, ele pede a Deus uma árvore e a esperança da humanidade
que deixe de prestar atenção nele. Mas por uma vida além da morte destaca a ideia
aqui ele envereda por um caminho mais do v. 5. A vida humana tem um fim determi-
arriscado e deliberadamente chama Deus nado e não pode ser estendida. Uma árvore
11III
JÓ 15 712

pode esperar uma nova vida (7); para os bondade de Deus e pouca fé na justiça de
seres humanos, não há esperança enquanto Deus, mas crê tão profundamente em sua
existirem os céus (12), ou seja, nunca, até inocência que está convencido de que mais
onde Jó saiba. Jó estremece ao pensar na cedo ou mais tarde será absolvido.
esperança da ressurreição: se tão-somente Toda essa linguagem de ações judiciais
o sheol não fosse um lugar de repouso final é, naturalmente, uma metáfora. Contudo,
de onde não há saída, e sim um lugar onde isso não significa que se trata apenas de
pudesse se esconder do escrutínio e da ira uma linguagem decorativa. É a linguagem
de Deus (13), um lugar de servidão que um do sentimento; do sentimento de estar em
dia tivesse fim (14)! Quem dera fosse um desarmonia com Deus. Após viver de ma-
lugar de onde Deus alegremente retirasse neira justa desde sempre, Jó observa sua
as pessoas, depois de parar de procurar vida ser esmagada, e ele tem de aprender
pecados que acaso tivessem cometido e uma linguagem nova e mais amarga para
de ter selado num saco a sua transgressão dar voz à discórdia em seu universo. A lin-
(16,17). Mas a esperança é em vão, diz Jó. guagem agora precisa ser de compulsão e
Ele pergunta: Morrendo o homem, porven- divisão, de disputa e frustração.
tura tornará a viver? (14). Não! Como o
monte que se esboroa e se desfaz, e a rocha 15. 1-35 O segundo discurso
que se remove do seu lugar, como as águas de Elifaz: "Cuidado com o
gastam as pedras, e as cheias arrebatam o destino dos ímpios"
pó da terra, assim destróis a esperança do Na primeira parte desse discurso (2-16),
homem (18,19). Os seres humanos não têm Elifaz se dirige diretamente a Jó; na segun-
esperança alguma, exceto serem, finalmen- da (17-35), ele fala mais indiretamente do
te, "subjugados" por Deus (20) e conduzi- destino dos ímpios. Nesta segunda seção,
dos, em solidão total, ao sheol, sem nem a intenção de Elifaz é inferir que Já não é
mesmo saberem o que está acontecendo na tal homem e, assim, não tem razão para te-
superfície, sem saberem se os seus filhos mer. Todo o discurso, portanto, é feito com
recebem honra (21). No seu isolamento, a intenção de incentivar Jó, e a posição de
sentem apenas as dores do seu próprio Elifaz é a mesma do seu primeiro discurso
corpo (22). A esperança do cristão pela (cp. 4-5).
ressurreição responde, a seu próprio modo, Do ponto de vista de Elifaz, Já tem
ao desejo aflitivo de JÓ. Embora Jó estives- duas culpas: uma intelectual e outra moral.
se disposto a aguardar uma eternidade pela O erro intelectual é não ver que mesmo o
vindicação, na sua história o que acontece ser humano mais perfeito está maculado
nesta vida é o que realmente importa. aos olhos de Deus (14-16). Jó se engana ao
Algo dramático acontece nesse dis- achar que é melhor que os outros (9) e ao
curso. Depois de tanto exigir ser liberto o solapar a teologia tradicional a favor de sua
mais breve possível de seus infortúnios, própria experiência (4). A culpa moral está
e de todas as suas afirmações de que não em não suportar o sofrimento com bravura
adianta discutir com Deus, Jó se pega fa- e paciência. Para começar, qualquer que
zendo uma coisa perigosa e impossível. Já tenha sido a falta que lhe causou o sofri-
agora formalmente obriga Deus a lhe dar mento, ela não é nada em comparação ao
um relatório dos crimes pelos quais está erro que ele está cometendo agora com seu
sendo punido. E essa demanda, uma vez comportamento. É um pecado contra si pró-
feita, não pode ser cancelada. Já não se di- prio (6) e contra Deus (13) falar de modo
rigiu ao fórum com a intenção de implorar tão unilateral e áspero acerca de Deus.
por sua vida nem por misericórdia, mas A intensa veemência do discurso de Jó é
para limpar o seu nome. Ele não tem fé na prova de que ele está errado (12,13); uma
713

J616 - : .

pessoa verdadeiramente sábia é calma em no temor da morte, e a segunda seção (27-


seu discurso. Elifaz não despreza a Jó como 35) tem que ver com o seu destino final,
pessoa, não consegue ver que Jó não é um que ele morrerá antes do tempo (31-33).
homem com quem se possa argumentar. Jó Desde o início, Elifaz tem afirmado que
é uma pessoa ferida e enraivecida; incenti- Jó não é um dos verdadeiramente ímpios
vá-lo à paciência é exigir que ele seja de- e, assim, essa descrição é exatamente
sonesto. Se Jó sofresse em silêncio, estaria o que não se aplica a ele. Jó não sofreu
aceitando o julgamento de Deus contra ele, tormento todos os dias (20), ele não está,
e ele só poderia fazer isso se abrisse mão como eles, concebendo malícia, iniqui-
de sua integridade. dade e enganos (35). Jó deve reconhecer
15.2-16 O discurso tolo e impio de então que não pertence à companhia dos
Jó. Jó não está se comportando como sábio ímpios (34) e cuidar para que, em sua hos-
com sua infinidade de ciência de vento (2; tilidade para com Deus, não se associe a
"ideias vãs", xvt). E, além disso, ao exigir eles (25). Nessa cena há, evidentemente,
vindicação da parte de Deus e ao falar do po- uma boa dose de fantasia em relação aos
der destrutivo de Deus como tem feito (tal- dois temas principais.
vez Elifaz esteja pensando em 12.13-25),
Jó está sendo irreligioso (diminuis a devo- 16.1-17.6 O quinto discurso de Jó:
ção; 4). É este erro (tua iniquidade, 5), e "Morrerei eu sem vindicação?"
não a verdadeira teologia, que determina o Até agora, este é o mais incoerente dos dis-
que Jó está dizendo. cursos de JÓ. Seus discursos prévios atin-
7-16 Elifaz diz novamente que Jó não giram o ápice nos cp. 12-14, e, a partir
está se comportando sabiamente, mas dei- de então, ele não tem realmente nada de
xando sua língua conduzi-lo ao pecado. novo a dizer. Neste discurso, são repetidos
Apesar de toda sua reivindicação de sa- vários temas com os quais já deparamos:
bedoria (e.g., 12.3; 13.1), ele não é sábio Jó critica os discursos dos amigos (16.2-6);
como o primeiro homem, Adão (v. refe- faz um monólogo de lamento por causa dos
rências ao primeiro homem sábio no santo ataques vindos de Deus (16.7-17); imagina
monte de Deus em Ez 28.12-14) nem tem sua possível vindicação (16.18-22); faz um
sido um ouvinte do conselho celestial de lamento acerca dos amigos (17.1-10); e la-
Deus (8) como os profetas que conheciam menta que, provavelmente, morrerá sem
os planos secretos do Senhor (Jr 23.18,22) ser vindicado (17.11-16). Ao contrário dos
e nem tem a sabedoria que os seus amigos cp. 12-14, o tema aqui é sempre o próprio
têm por serem mais velhos do que ele (10). Jó, não a humanidade em geral.
Não é vergonhoso ser um pouco imperfei- 16.2-6 O tema principal aqui é "pala-
to; nem mesmo os anjos (que são santos) vras" e sua ineficácia. Houve uma abertura
são perfeitos (15); mas por não ser abso- semelhante no cp. 12, mas a disposição de
lutamente perfeito, Jó deve esperar certa ânimo é agora menos agressiva, e o que
porção de sofrimento. 16 Elifaz não está vem à tona é principalmente o sentimento
insultando Jó pessoalmente quando fala do de desilusão com as palavras dos amigos.
homem, que é abominável e corrupto; ele 7-17 A disposição de ânimo se transfor-
está simplesmente generalizando, ainda ma de um mero sentimento de mágoa para
que extremamente, acerca da raça humana o de opressão, quando Jó reconta os atos
comparada à pureza de Deus. adversos do Senhor contra ele. Jó pensa
15.17-35 A vida miserável e o destino nas investidas de Deus como se fossem os
terrível dos ímpios. Nesse retrato da histó- ataques de vários tipos de oponentes: um
ria da vida do ímpio, a primeira seção (20- animal selvagem (9,10), um traidor (11),
26) diz respeito a sua ansiedade por viver um lutador (12), um arqueiro (12c,13a)
JÓ 17 714

e um guerreiro empunhando uma espada zombaria ao redor que ele está em depres-
(13b,14). É como uma rápida sucessão de são. A zombaria é, mais precisamente, a
fotos num filme, uma cena fundindo-se acusação de que ele merece o que está so-
com a seguinte. frendo. 3 Uma vez que ninguém garantirá
18-22 É claro que Deus não respondeu sua inocência, Jó tem de pedir a Deus que
à exigência de Já de apresentar as acusa- aceite sua própria pessoa como garantia
ções contra ele (13.23). Jó ainda continua (penhor, fiador). 5 Essa frase obscura pa-
esperando, mas, entrementes, procura uma rece retratar Deus como um fanfarrão que
segunda linha de argumento. Ele foi injus- convida seus amigos para um banquete
tamente atacado por Deus e, provavelmen- enquanto seus filhos (Já neste caso) estão
te, morrerá devido ao ataque. Assim, apela morrendo de fome.
à terra para que vingue seu sangue quando 8-10 O ponto de vista aqui é dos ami-
ele morrer-e contra Deus! (18). O brado: gos. Homens íntegros que são, eles estão
Ó terra, não cubras o meu sangue é igual chocados com a presente condição de Já, e
ao de Abel, que foi assassinado injustamen- passam a denunciar o ímpio (Já).
te (Gn 4.10). Claro que a terra só poderá 11-16 Já entra em desespero de novo,
responder depois que Jó estiver morto; po- mas não um desespero que lhe rouba a
rém, mesmo agora, enquanto está vivo, Já fé na própria inocência; é um desespero
tem uma testemunha, um advogado e um de quem não consegue nunca provar sua
intercessor nos céus (19,20). Dificilmente inocência. O que ele deve esperar daqui
isso se refere a Deus, pois Já crê que Deus para frente? Ele perdeu sua família, e tudo
nada mais é do que um inimigo (7-14). O o que pode aguardar é unir-se à família
que permanece nos céus a favor de Já é o de vermes embaixo da terra (14). Se essa
seu protesto de inocência, junto à demanda é a sua expectativa, dificilmente pode
para que Deus lhe explique as razões de ter ser chamada de "esperança", não é mes-
investido contra ele (13.18,19,22,23). Ain- mo? Ele não está deprimido porque sofre
da que não espere obter respostas em vida, de uma enfermidade fatal, mas porque
a verdade sobre sua inocência foi registra- não existe nenhum sinal da vindicação
da no tribunal celeste. O assassínio realiza- que ele demanda.
do por Deus, depois que tiver acontecido,
será a evidência final de que ele foi vítima 18.1-21 O segundo discurso
de uma falha da justiça. de Bildade: Mais sobre o
17.1-16 Já tem certeza de que está cor- destino terrível dos ímpios
reto, mas não acha que viverá o suficiente Depois da abertura dirigida a Já, este dis-
para ver sua inocência vindicada. Como curso só apresenta uma descrição do destino
em seus discursos anteriores, ele passa, dos ímpios. Isso poderia ser entendido como
finalmente, a considerar a morte, pois é a uma predição de Bildade sobre o futuro de
única certeza em seu futuro, e ele sente que Já, contudo é mais provável que devamos
ela está cada vez mais próxima, Esse capí- entender o segundo discurso de Bildade à
tulo todo gira em tomo do contraste entre luz do seu primeiro, e vê-lo descrevendo
"esperança" e "morte". Entretanto, mes- o tipo de pessoa que Já não é. Ele conti-
cladas a estas expressões de desesperança, nua a insistir no ensino já conhecido, mas
há algumas críticas incisivas em relação sua descrição é tão excessiva, tão preto e
aos seus amigos. branco, que só podemos achar o ensino e a
1 Já não está literalmente à porta da doutrina pouco convincentes. Bildade quer
morte (cf 16.22), mas psicologicamente que o mundo seja previsível e sistemático.
ele já está em suas garras; parece que sua Ele pode ver em Já, que está batalhando en-
sepultura já foi cavada. 2 É por causa da tre doutrina e experiência, apenas alguém
111
715 JÓ 19 fIfI
fIfI

que está se destruindo. Bildade acha a de- pecado, não teria sido contra eles; portanto,
manda de Jó por uma nova teologia pro- é injusto da parte deles atacá-lo (4). Se eles
fundamente inquietante: remover-se-ão as pretendem tratá-lo como a um inimigo,
rochas de seu lugar? (4). argumentando que seu opróbrio ("humi-
Elifaz, em sua descrição do destino lhação", NVI) devido ao sofrimento é prova
dos ímpios (15.20-35), enfatizara como de seu pecado (5), devem saber que não
o ímpio experimenta terror e insegurança é ele quem está errado, mas Deus que o
durante toda a sua vida. Aqui Bildade se tem oprimido (6).
concentra nos dias finais do ímpio, descre- 19.7-20 "O erro que Deus tem come-
vendo como ele cai na armadilha da morte tido contra mim". 7-12 Jó descreve o erro
(8-10), é arrancado de sua habitação e tra- de Deus contra ele usando uma variedade
zido perante o senhor do submundo (14). de imagens de assalto: o habitante da ci-
13,14 Na mitologia antiga, a morte era dade que foi roubado, mas não encontra
representada como um rei que governava ninguém para socorrê-lo, ainda que grite
o submundo. O primogênito da morte será muito (7); o viajante que encontra o seu
um de sua prole, como uma doença, e os caminho bloqueado e é engolfado pela
terrores são seus agentes, que arrastam as noite (8); o príncipe que é humilhado por
pessoas para o seu reino. um governador estrangeiro (9); a planta
Em toda a descrição de Bildade sobre que é retirada ou arrancada da terra (10); a
o perverso há vários paralelos com a expe- pessoa que descobre que o amigo tornou-
riência de Jó (e.g., 13,15,19,20). Embora se inimigo (11) e o rei ou cidade sitiados
esses paralelos sejam de mau gosto, o seu pelos inimigos (12).
propósito não é frisar que Jó é pecador, mas 13-20 Nos v. 7-12, não havia nada que
antes adverti-lo acerca do que acontecerá não fosse imagem da violência física; aqui
se ele não mudar o seu comportamento ninguém levanta a mão ou a voz. Esta é
(como Bildade lhe aconselhou em 8.5-7). a verdade literal do que Jó está experi-
Jó pode decidir se esta descrição sobre o mentando; os v. 7-12 expressam qual é a
destino dos ímpios será ou não verdadeira sensação dessa verdade literal. A visão de
em relação a si mesmo. Jó vai dos parentes e conhecidos (13,14),
passa pelos servos de sua casa (15,16),
19. 1-29 O sexto discurso de Já, por sua esposa e irmãos (17), e faz a volta
no qual ele reage com raiva novamente para as crianças da vizinhança
Este discurso se dirige aos amigos no iní- (18) e todos aqueles que o conhecem (19).
cio, no meio e no fim (2-6,21,22,28,29). Não importa para onde olha, Jó se encon-
Entre estas falas há uma queixa (7-20) e tra isolado e alienado. E é Deus quem tem
uma expressão de anelo, conhecimento e causado isso, não diretamente, mas por
desejo (23-27). fazê-lo sofrer. Pois o sofrimento significa
19.1-6 "O que vocês precisam saber, que, não obstante o que todos os conheci-
meus amigos, meu inimigos". Jó fala aqui dos pensem e achem a seu respeito, Jó tem
menos com tristeza do que com raiva. Ele sido um pecador terrível. É perigoso asso-
não diz que, na verdade, se sente "afligido" ciar-se com uma pessoa tão ímpia. O re-
pelos amigos (2), mas que está começando sultado de todas as investidas contra ele é
a vê-los como inimigos, que tentam "que- que os meus ossos se apegam à minha pele
brantá-lo" com seus argumentos. Eles têm e à minha carne (em vez de "não passo de
procurado humilhá-lo (em vez de "vocês pele e ossos", como na NVI, 20). Normal-
já me repreenderam", como traduz a NVI), mente os ossos são a estrutura do corpo
mas sem sucesso (3). Ele não confessa ne- humano, e a carne e a pele "se penduram"
nhum pecado, mas protesta que, se tivesse neles; mas a debilitação emocional de Jó é
716

tamanha que ele está a ponto de entrar em ele se levantará no fim para falar comigo,
colapso, como se os ossos não tivessem mesmo depois de minha pele ter sido extir-
mais força nenhuma. pada de mim. Porém, contemplar a Deus
19.21,22 "Tenham piedade de mim, enquanto estiver em minha carne - esse é
meus amigos". Parece estranho que Jó, o meu desejo, vê-lo eu mesmo, com meus
depois de ter ofendido os amigos, clame próprios olhos, não como um estranho".
a eles por piedade (e.g., 6.15-17; 12.2,3; O "defensor" de Jó dificilmente é Deus, o
13.2). Faz mais sentido se nós percebermos qual tem sido apenas seu inimigo; deve ser
que ele não está pedindo solidariedade em sua própria declaração de inocência que
geral, mas simplesmente que eles parem de testifica por ele nos céus (16.17). Como em
persegui-lo com seus discursos. um tribunal terreno, onde a última pessoa
19.23-27 O anelo, o conhecimento e a falar é o vencedor na disputa, ele crê que
o desejo de Jó. A ênfase principal nessas o seu próprio juramento terá a palavra final
importantes palavras de Jó está em seu e decisiva. Mas isso, é claro, só pode acon-
desejo de que, enquanto estiver vivo (em tecer depois de ser revestido este meu cor-
minha carne, 26), consiga ver Deus face po da minha pele (26), ou seja, após a sua
a face, como seu oponente jurídico em al- morte. Isso é o que J espera. Entretanto,
ó

gum tribunal, de modo que seu pedido de o que ele deseja é ver o seu nome limpo
vindicação do seu bom nome seja ouvido. ainda em vida.
Jó não crê que Deus aceitará o seu ape- 19.28,29 "Por que vocês estão teme-
lo de ir ao tribunal; então seu desejo é que rosos, meus amigos?". Há um tom de ir-
a sua reivindicação de inocência seja regis- ritação aqui, semelhante à sua impaciência
trada de forma duradoura, que permaneça nos v. 25-27. Jó não se aconchegou num
após sua morte, de modo a ser provada al- porto tranquilo de confiança em Deus; ao
gum dia. No entanto, é um desejo impossí- contrário, tem proclamado vigorosamen-
vel que suas palavras e suas reivindicações te, mais uma vez, a sua fé na retidão de
legais sejam esculpidas na rocha com pena sua causa. Não é surpreendente que fale de
de ferro (24), pois o único relato perma- modo tão severo contra aqueles que duvi-
nente de suas reivindicações é o juramento dam dele. Os amigos continuam a perse-
de inocência que ele tem proferido aos ou- gui-lo, o que deve significar acusá-lo de
vidos dos céus (cf 16.19,20). delito, afirmando que a causa deste mal
O que Jó sabe é que Deus é seu ini- se acha nele, isto é, ele é o autor de seus
migo (cf 6.4; 10.8-14; 13.24; 16.7-14; próprios infortúnios. Isso tudo é mentira,
19.7-12), que jamais verá o bem de novo assim os amigos devem temer a espada. Jó
(7.7), que em breve estará morto, (7.21; não cometera nada digno de punição, mas
10.20; 16.22), que será assassinado por os seus amigos cometeram! Eles o têm
Deus (12.15; 16.18) e assim por diante. acusado injustamente, e isso é crime; eles
Mas o que ele deseja é entrar em discussão correm o risco de descobrir por si mesmos
com Deus (13.3,22) na esperança de obter que há umjuízo.
vindicação antes de sua morte. É por isso
que o seu coração desfalece dentro dele 20.1-29 O segundo discurso de
(27). Ele jamais creu que seria vindicado Zofar: "Você deve se arrepender
no final; porém, agora ele diz eu sei (25), ou será destruído"
embora a vindicação venha somente após De forma semelhante ao segundo discurso
a morte. de Bildade, o segundo discurso de Zofar
25-27 Provavelmente, esses versícu- destaca principalmente o tema da conde-
los-chave deveriam ser traduzidos assim: nação dos ímpios (4-28). Mas diferente-
"Mas eu sei que o meu defensor vive e que mente de Elifaz (para quem o destino dos
717 JÓ21(
ímpios é um exemplo do que Jó não é) ou o estomago e é vomitado (12-15). Outro
de Bildade (para quem esse destino é um exemplo é o do alimento que se transforma
exemplo do que Jó pode vir a ser), para em veneno mortal (16-19). Num terceira
Zofar, o destino do ímpio é um retrato do exemplo, o malfeitor é tão ganancioso que
que Jó não poderá evitar, a não ser que se consome todo alimento disponível e depois
transforme radicalmente. morre de fome (20-22).
20.1-3 Uma resposta às declarações 20.24-29 "A condenação final dos ím-
de Jó. Zofar afirma estar perturbado por pios é inescapável". Aqui várias imagens
causa de Jó; e ainda que sua linguagem estão interconectadas, como em um pesa-
seja apenas convencional, sua alegação pa- delo, para ilustrar como é impossível ao
rece verdadeira. Pois se Jó está certo, tudo ímpio escapar da condenação final. Há um
o que Zofar defende está errado. retrato militar (se escapar de uma arma, en-
20.4-11 "A destruição que o perverso frentará outra ainda mais fatal; 24,25b), e
enfrenta é total e completa!". Jó argu- um jurídico (ele é sentenciado à morte pelo
mentou que os amigos estavam tentando testemunho combinado dos céus e da ter-
humilhá-lo (19.3), e agora Zofar declara- ra; 27). Ele é consumido pela ira de Deus
se humilhado ou "envergonhado" (3) pelo (26); e uma inundação o arrasta, junto com
que chama de a repreensão de Jó. Ele res- sua família (28).
ponde com um apelo ao entendimento, mas Zofar ainda tem Jó em mente no final
de fato seu argumento é somente um apelo de seu discurso ou se deixou levar pela
à tradição, como mostram suas palavras, própria retórica? Ele certamente tem uma
logo a seguir (4). queda para o dramático. Mas será que ele
A imagem fundamental aqui é de "au- acha que está aterrorizando Jó com todas
sência" ou "desaparecimento" (especial- estas imagens? Jó tem vivido um pesadelo
mente nos v. 7-9). O homem perverso dei- tão horripilante quanto as cenas descritas
xa de existir, como o combustível para o por Zofar, e não precisa ser relembrado
fogo (7a), como um sonho que nunca pode que este é o destino convencional que os
ser realizado (8), ou como alguém que de- justos devem esperar das mãos dos ímpios.
saparece da vista da família e dos amigos Também não precisa ser avisado - embo-
(7b,9). Não importa o quão proeminente ra Zofar precise - que o retrato pintado
ou visível o perverso tenha sido, ainda que não é muito condizente com a vida real.
tenha sido tão alto como os céus (6). Os
perversos nesse capítulo são os que pra- 21.1-34 O sétimo discurso
ticam o mal aos outros da comunidade, e de Jó: "O perverso prospera
não especialmente irreligiosos ou imorais e o justo sofre"
em si mesmos. Todos os três discursos dos amigos no se-
20.12-23 "A má ação não tem bene- gundo ciclo foram concentrados no tema
fícios eternos". A imagem fundamental do destino dos ímpios, e Zofar, em seu
aqui é a de "comer". Boca, língua, palato, último discurso, até mesmo alegou que o
estômago, vísceras e ventre são citados; ímpio usufrui do seu pecado por bem pou-
fala-se de saborear, beber, vomitar, sugar co tempo. "Não", diz Jó, "os perversos
e comer, e também de alimento, doçura, passam os seus dias em prosperidade, e
óleo, mel e creme. Mas nenhum dos obje- em paz descem eles à sepultura" (13). A
tos que o malfeitor toma para si mesmo lhe posição de Jó é igualmente extrema, mas
traz beneficio permanente. O alimento que parece mais próxima da vida real.
ele come não lhe propicia nutrição, mas 21.2-6 "Ouçam-me, meus amigos".
sim a morte. Um exemplo é o do alimento Jó se deve fazer ouvir nesse assunto, pois
que é agradável ao paladar, mas que azeda todos os amigos se juntaram contra ele.
li
: - JÓ 21 718
II1II

Ser ouvido pelo menos uma vez traz mais amargura [da alma] do justo (25). Ao con-
consolação a Jó do que uma porção de trário, Jó parece estar dizendo que, assim
discursos (2). Sem dúvida, eles zombarão como na morte as diferenças morais entre
(3), pois sua queixa não é contra o homem, os seres humanos não explicam o destino
mas contra Deus, e ele não espera nenhu- comum a eles, tais diferenças também não
ma solidariedade do justo, quando esse for são importantes na vida.
o caso. Se eles realmente ouvirem o que 21.27-34 A experiência humana pro-
ele tem a dizer (olhai para mim; 5), fica- va que Jó está correto. Jó sabe o que seus
rão tão chocados com o que Jó lhes dirá amigos estavam pensando (27) enquanto
sobre a maneira de o universo ser dirigido descreviam o destino dos ímpios: os per-
que porão a mão sobre a boca num gesto versos sofrem - Jó está sofrendo - en-
de silêncio atônito. É horrível demais para tão, Jó faz parte dos perversos. Mas a cren-
Jó aceitar a verdade de que no mundo de ça dos amigos prova-se falsa por meio da
Deus o perverso tem possibilidade de pros- experiência humana comum. Jó disse que
perar (6). se você perguntar a qualquer viajante, ou-
21.7-16 "Por que os ímpios prospe- virá que os perversos são poupados no dia
ram?". Jó contradiz tudo que os amigos da calamidade (30). Ninguém lhe lançará
disseram. Os perversos envelhecem (7), em rosto (31), ninguém lhe retribuirá os
veem os seus filhos estabelecidos (8), seus feitos. Na morte, assim como na vida, ele é
animais não sofrem acidente nenhum (10), honrado por milhares, e sua tumba ainda é
e eles até blasfemam contra Deus (14,15) guardada contra os ladrões de sepultura.
e sobrevivem. Já cruelmente arremeda o
retrato que Elifaz pinta da prosperidade 22:1-30 O terceiro discurso de
do justo (5.17-27). Em três versículos Jó Elifaz: A grande perversidade de Já
contradiz Zofar (7; cf 20.11), Bildade (8; No primeiro ciclo de discursos, os amigos
cf 18.19) e Elifaz (9; cf 5.24). Jó não quer tinham os seus pontos de vista individuais;
o tipo de prosperidade dos perversos (16), no segundo ciclo, todos se concentraram
e em cada frase que fala sobre o assunto, no destino dos ímpios; agora no terceiro
ele pergunta: "Por que se permite que isso ciclo (22.1-31.40), é mais difícil ver al-
aconteça?" (7). guma lógica nos discursos. Elifaz contra-
21.17-21 "Com que frequência o diz evidentemente sua posição original,
ímpio sofre?". Raramente os perversos Bildade apresenta apenas o prefácio a um
sofrem', diz Jó (7), contradizendo Zofar discurso (25.1-6) e Zofar não faz discurso
(20.5). Ele imagina os amigos responden- nenhum. Talvez algo do texto original te-
do: "Ora, se os perversos não sofrem, os nha se perdido, mas do jeito que está, pa-
filhos deles sofrem". Jó, porém, responde: rece que os amigos não têm nada de muito
"Se o princípio da retribuição deve vigo- novo a acrescentar.
rar, que seja aplicado a quem merece!". 22.2-11 "É grande a sua perversida-
21.22-26 "Não faz nenhuma diferen- de, não é?". Em relação a um aspecto, esta
ça ser bom ou mau". Talvez o v. 22 seja mensagem de Elifaz é igual à do seu pri-
(como o v. 19) outra citação não pronun- meiro discurso (cp. 4-5): ele crê que Jó
ciada por seus amigos, que estão inferindo será libertado graças à pureza de [suas]
que Jó está criticando a sabedoria e a justi- mãos (30). Seu conselho é para que ele se
ça de Deus. Jó replica que, de fato, parece reconcilie com Deus (21). Mas em relação
não haver diferença entre uma pessoa boa e a outro assunto, Elifaz parece discordar in-
outra má; o mesmo destino sobrevém a to- tensamente de sua última posição: eviden-
dos. Ele não parece estar contrastando aqui temente acusa Jó de maldade oculta (5),
a prosperidade dos ímpios (23,24) com a principalmente de injustiça social (8,9).
719 JÓ24

Essas são as palavras mais específicas, fazia no passado (4.3,4). Diferentemente


mais ásperas e mais injustas faladas contra dos discursos recentes dos amigos, este
Jó em todo o livro, e é estranho que, dentre discurso termina com uma nota positiva
todos os amigos, tenham saído dos lábios - à qual Jó responde com desespero ainda
de Elifaz. Elifaz não pode ter falado os cp. mais profundo.
4---5, se ele acreditava que Jó tinha mesmo
sem causa [tomado] penhores e [despoja- 23.1-24.25 O oitavo discurso
do] aos seminus [...] das suas roupas (6), de Jó: "Deus deveria estar
retido água e alimento do cansado e famin- sempre disponível"
to (7), rejeitado os apelos das viúvas e dos Há dois temas principais nesse discurso. O
órfãos (9). O que Elifaz está pretendendo primeiro é o apelo constante de Já a Deus
dizer é que, uma vez que Jó está sofrendo por vindicação, junto com o seu sentimen-
por alguma causa, e uma vez que a causa to renovado de quão inútil é tentar obter
não pode ser encontrada em algum erro co- acesso a Deus (cp. 23). O segundo tema é
metido por Jó, seu pecado deve-se ao fato a condição do pobre inocente comparada à
de ele ter deixado de fazer algo. Não que prosperidade do rico; uma situação sobre a
Jó tenha despojado o pobre de suas vestes, qual Deus parece não fazer nada (cp. 24).
mas talvez ele tenha deixado de oferecer Ponderando-se tudo, embora Já acredite
vestimentas a um necessitado, e assim por que se obtivesse acesso a Deus poderia ser
diante. Não é pela retidão de Jó (da qual vindicado, ele perde a esperança de receber
Elifaz não duvida) que Deus o repreende tal vindicação, já que Deus claramente não
(4), mas porque ele deixou de fazer o que agenda horas de julgamento regulares em
deveria ser feito. que o mal é corrigido e a justiça é feita.
22.12-20 "Deus pode ver o seu pecado 23.2-17 "Ah, se eu soubesse onde
oculto". Foi Zofar quem primeiro acusou encontrá-lo". Já acredita que se tão-so-
Jó de pecado oculto (11.5,6), porém agora mente tivesse acesso a Deus, o problema
encontramos Elifaz advertindo Já de que de sua vindicação estaria resolvido. Deus
Deus deve ter conhecimento dos pecados não seria violento para com ele, mas ou-
de omissão que Elifaz acabou de mencio- viria os seus protestos de inocência (6) e
nar. Já não pode esperar fugir ao escrutínio o vindicaria (7). Mas Deus é inacessível:
penetrante de Deus (13). Os homens mal- ele não está nem à frente e nem atrás, nem
dosos não conseguiram escapar do juízo de à esquerda nem à direita (8,9). E mesmo
Deus, embora, temporariamente, suas ca- assim, se Já não pode encontrar a Deus, ele
sas estivessem cheias de bens (18), eles fo- sabe que Deus pode encontrá-lo (ele sabe o
ram arrebatados antes do tempo (16), para meu caminho; 10) e que se Deus escolheu
o prazer do justo (19,20). Seus pecados prová-lo, ele sairá como o ouro, declarado
foram descobertos por Deus, assim como inocente (10,11). Mas Deus não está agin-
também os de Já. do de forma justa nem legal; ele faz o que
22.21-30 "Como você pode ser li- ele deseja (13), e é somente para o sofri-
bertado". Elifaz fala outra vez como nos mento de Já. Ele está lutando no escuro
cp. 4-5. Ele está praticamente do lado contra um oponente invencível e inacessí-
de Já e esperançoso que Já se reconcilie vel, mas continuará lutando (17).
com Deus. Apropriando-se de um tema do 24.1-25 "Por que Deus não marca
discurso de Bildade (cf 8.5,6), Elifaz con- tempos de julgamento?". Já percebe
clama Já a se converter ao Todo-Poderoso que ele não é a única pessoa atormentada
(23), orar e pagar seus votos (27). Então, no mundo. Ao olhar além de si mesmo
tudo o que Já fizer prosperará (28), e ele e ver as pessoas em geral, tanto inocen-
ainda propiciará bênção aos outros, como tes como culpadas, ele pergunta por que
JÓ25 720

Deus não estabelece sessões regulares de sem a abertura costumeira e tem apenas
inquérito (tempos de julgamento; 1), em cinco versículos. Não há nenhum discurso
que as injustiças que dominam a terra se- de Zofar, e há três discursos seguidos de Jó
riam resolvidas. (cp. 26; 27-28; 29) sem palavra alguma
Primeiro, por que se permite que a dos amigos. Aqui, algumas passagens dos
injustiça do sofrimento do pobre inocen- discursos de Já não parecem dele de jeito
te seja tão prolongada? Os pobres têm as algum. Talvez, originariamente, o discur-
divisas de suas terras removidas (2, cf so de Bildade fosse constituído de 25.2-6
Dt 19.14) e seus rebanhos roubados (2b,3); e 26.5-14. Do jeito que está, o discurso de
têm de se esconder (4); só podem colher Bildade assemelha-se a alguns conceitos
os restos da lavoura (6); passam frio por de Elifaz, especialmente a ideia de que,
falta de cobertores (7,8) e trabalham por em comparação a Deus, não há nada no
um salário de fome (11). É um quadro cho- mundo que seja completamente puro (4-6;
cante, mas parece que Deus não se deixa cf 4.17-19). O abismo que separa os seres
comover, uma vez que ignora os brados do humanos de Deus é enfatizado pelas pala-
pobre (12c). vras iniciais de Bildade acerca do poder
Segundo, por que se permite que a in- de Deus, cujos exércitos são inumeráveis
justiça do malfeitor bem-sucedido continue (2,3). O mesmo tema do governo onipoten-
(13-17)? Assassinos e adúlteros que amam te de Deus continua em 26.5-14, se é que
as trevas e não a luz continuam vivendo, estes versículos são de fato de Bildade.
embora seus amigos sejam os terrores da
noite (17) e deveriam, por justiça, estar com 26.1-14 O nono discurso de Jó:
eles no mundo das trevas. Nesses questio- "0 conselho de vocês é inútil"
namentos, Jó não está pensando apenas em Parece que no cp. 26 temos apenas o frag-
si mesmo, mas em como o mundo, de ma- mento de abertura de um discurso de Já,
neira geral, é governado por Deus. um sarcasmo dirigido a Bildade afirman-
18-25 Alguns aspectos dessa seção, por do que ele não está auxiliando em nada.
serem tão diferentes do argumento de Já, A resposta de Já é muito mais apropriada
levam-nos a crer que foram ditas por seus se o discurso anterior de Bildade incluir
amigos. São os amigos que afirmam que 26.5-14, ressaltando o poder de Deus. Já
os culpados são levados rapidamente na pretenderia então dizer que é muito bom
superficie das águas (18), que a sepultura falar sobre a majestade de Deus, "mas
em breve os desfará (19), que logo serão qual é a vantagem disso para alguém que,
esquecidos (20), que por mais importantes como eu, está sem força [2]?". "E como
que pareçam, serão cortados brevemente o louvor de vocês à sabedoria de Deus
como pontas de espigas (24). Talvez esses [7,12] socorreria, de algum modo, alguém
versículos sejam o final perdido do discur- como eu que, supostamente, não tem sa-
so de Bildade (cp. 25), ou talvez Já esteja bedoria nenhuma [3]?". Talvez o discurso
aqui citando seus amigos (cf a RSV, que de Jó continue no cp. 27.
acrescenta: "Vocês dizem" no início do v. 5-14 Esses versículos, na verdade, tal-
18 e considera os v. 18-25 como as pala- vez façam parte do terceiro discurso de
vras dos amigos). Bildade. Eles meditam na sabedoria e no
poder de Deus. Foi Deus quem criou o uni-
25.1-6 O terceiro discurso de verso e fez com que a terra ficasse suspen-
Bildade: "Como pode um homem sa no nada (7). Vários aspectos da criação
ser justo perante Deus?" são mencionados, muitos deles não se en-
A essa altura, parece que algo está errado contram em Gênesis, tal como as colunas
com o texto. O discurso de Bildade inicia do céu (11) e o desenho da superficie das
721 JÓ28

águas em um círculo (10). Há também re- pessoa o que ele aprendeu com a expe-
ferências a outras histórias da criação, nas riência. Contudo, os próprios amigos já
quais é descrita como uma vitória de Deus deveriam ter aprendido quando ouviram
sobre os monstros do abismo (adversário, tudo o que tinha para ensiná-los (12). Con-
[12], em heb.: "Raabe", 12; o dragão ve- siderando o que eles ouviram até agora,
loz [13], seria uma referência a Leviatã). causa surpresa o fato de seus discursos te-
O poder criativo de Deus se estende até rem sido vãos (12).
hoje, é claro. Ele prende as águas em den- 27.13-23 O destino do homem per-
sas nuvens (8), os reservatórios de água do verso. Após a autodefesa veemente de Jó,
céu, e "cobre a face da lua cheia" (9, NVI; esta parte talvez seja um tanto enfadonha.
Encobre aface do seu trono, ARA). O ponto Ela contém apenas as ideias tradicionais
principal, contudo, é que essas provas da que vimos antes sobre o destino dos ím-
grandiosidade de Deus que são visíveis e pios. Este fato sugere que o discurso não
conhecidas dos homens não passam de as é de Jó, mas possivelmente de Zofar. O
orlas dos seus caminhos, e representam destino do homem perverso é aqui des-
apenas um leve sussurro do trovão do seu crito como o que acontece à sua família,
poder (14). Os seres humanos não têm es- sua riqueza e sua própria pessoa. Seus fi-
perança de compreender o Deus verdadei- lhos estão destinados à morte pela espada
ro, mas conseguem um vislumbre dele. ou praga (14,15), sua riqueza é deixada a
pessoas mais justas (16-19), enquanto ele
27.1-28.28 O décimo discurso é carregado como por uma inundação,
de Jó: A sabedoria de Deus uma tempestade ou pelo devastador ven-
Novamente estamos diante do problema de to oriental (20-23). Naturalmente, grande
quem está realmente falando nesses capí- parte do destino dos ímpios já aconteceu
tulos. Não há dúvida de que em 27.2-12 é o a Jó. Isso se encaixa na atitude de Zofar
próprio Jó quem fala, mas talvez o restante em todo o livro: "Sabe, portanto, que Deus
dos cp. 27 e 28 não sejam provenientes de permite seja esquecida parte da tua iniqui-
seus lábios. Certamente ele não está repe- dade" (11.6).
tindo as mesmas ideias antigas sobre o des- 28.1-28 "Onde a sabedoria pode ser
tino dos ímpios que os seus amigos já pro- encontrada?". O tema deste poema ma-
feriram (27.13-23). Talvez 27.13-28.29 jestoso é que a "sabedoria" é inacessível
fosse originariamente o terceiro discurso aos seres humanos. Não se trata do tipo de
de Zofar, pois os temas aqui encontrados sabedoria prática ensinada em Provérbios,
- o destino dos impios (27.13-23), a sabe- mas do pleno entendimento do mundo e da
doria impenetrável de Deus (28.1-27) e a ordem que ele segue. Este uso da "sabedo-
obrigação dos homens de praticar a justiça ria" fazia sentido para o autor de Eclesias-
e evitar o mal (28.28) - foram previamen- tes, que enfatiza que os homens "não po-
te abordados por Zofar em 11.7-20. dem descobrir as obras que Deus fez desde
27.2-12 "Eu nunca abandonarei a o princípio até ao fim" (Ec 3.11; cf 8.17).
minha integridade". Deus negou justiça a Vindo de Jó, o poema parece estranho, por-
Jó (2), e embora seus amigos continuassem que é somente após Deus lhe ter falado du-
a acusá-lo de estar no erro (5), ele continua rante um longo tempo (cp. 38---41) que ele
afirmando que é justo (6). Qualquer um passa a aceitar suas ideias (cf 42.3). Esta
que atacar a inocência de Jó ficará debai- é mais uma razão para concluirmos que tal
xo de sua maldição e sofrerá o destino dos poema era, originariamente, parte do dis-
ímpios (7-10). Jó agora sabe tanto acerca curso de Zofar.
dos "caminhos ocultos do Todo-Podero- Há um abismo entre a sabedoria divina
so" (11, NVI) que pode ensinar a qualquer e a humana, mas não precisamos menos-
JÓ 29 722

prezar a sabedoria humana para exaltar- seres humanos, entretanto, é outro tipo de
mos a sabedoria de Deus. O poema come- sabedoria, que é mais manejável e prática.
ça com um hino de louvor à engenhosidade É uma sabedoria que consiste em ação: é
do ser humano (1-11) e só então afirma que o temor do SENHOR, ou seja, a verdadeira
mesmo assim a verdadeira sabedoria está religião, e apartar-se do mal (28) é o que
fora do seu alcance e é conhecida somente constitui sabedoria para os seres humanos.
por Deus (12-27). Os seres humanos não Admitindo que este capítulo é a palavra fi-
recebem "sabedoria", mas o conhecimento nal de Zofar a Jó, seu objetivo é negar a
da lei de Deus: para os seres humanos, sa- alegação que Jó fez de entender "os cami-
bedoria é viver no temor do Senhor (28). nhos do Todo-poderoso" (27.11, NCI) e re-
1-11 Apenas um exemplo da sabedo- comendar-lhe a não buscar sabedoria, mas
ria humana é destacado: a habilidade dos buscar retidão.
homens para extrair metais abaixo da su-
perficie da terra. Quatro metais são citados 29.1-31.40 O décimo primeiro
(1,2). Lâmpadas são usadas no subsolo (3). discurso de Jó, no qual ele reflete
O trabalho do mineiro é perigoso e isolado: sobre suas calamidades
dependurados, oscilam de um lado para O veemente discurso final de Jó tem três
outro (4) enquanto descem para escavar. divisões. Na primeira, ele avalia, de modo
Há um paradoxo na mineração: na superfi- nostálgico, a vida feliz que possuía antes
cie, a agricultura segue pacífica, enquanto de a mão de Deus ter pesado sobre ele (29).
embaixo pode haver um enorme derrubada Na segunda, Jó descreve, de modo paté-
de obstáculos para se conseguir o metal tico, seu atual isolamento e degradação
(5,9). Através de sua sabedoria, os homens (cp. 30). Na terceira, ele profere, de modo
criaram no subsolo caminhos desconheci- desafiador, uma série de maldições contra
dos das aves e feras (7,8), transformando- si mesmo, que atinge o ápice com um cla-
se em mestres da terra (11). mor para ser ouvido e vindicado (cp. 31).
12-28 Obviamente a "sabedoria" que A presença dos amigos é ignorada comple-
não pode ser encontrada mediante a bus- tamente, e nenhuma palavra é dirigida ao
ca é muito diferente da sabedoria humana Senhor Deus. Jó fala apenas de si mesmo,
tecnológica. O poeta não nos conta ime- e é sua concentração nesse tema que toma
diatamente o que ele está pretendendo esta parte uma das mais impressionantes e
dizer, entretanto, desenvolve um clima comoventes do livro.
de suspense que, aos poucos, mostra a 29.2-25 "Quem me dera ser como fui
impossibilidade de se obter essa sabedo- nos meses passados!". Esse olhar nostál-
ria. O seu lugar é desconhecido (12), e gico ao passado oferece alguns detalhes
assim também o caminho para se chegar sobre a vida de Jó que não podemos ver no
a ela (13); ela não pode ser avaliada em prólogo. Revela também o clima da vida
ouro, prata ou pedras preciosas (15-19). que deixou de existir; uma vida de relacio-
O próprio mundo não sabe onde ela pode namentos calorosos e dignos. Dias em que
ser encontrada (14). Até mesmo as forças Deus cuidava de Jó (2), quando ele estava
sobrenaturais do abismo (o submundo) e em seu vigor (4), quando seus rebanhos
da morte conhecem apenas suafama (22). eram tão abundantes que os seus pés eram
Mas Deus sabe tudo acerca dela (23), pois lavados em leite e, suas oliveiras eram tão
é a sua própria sabedoria, que ele usou ao frutíferas que as rochas faziam correr ri-
planejar a criação (24-27). Esse conheci- beiros de azeite (6). Naqueles dias, ele
mento sobrenatural do universo e seu pro- era respeitado como um líder, ou xeique,
pósito e das leis que o governam é inaces- de sua aldeia, cuja opinião era importan-
sível à humanidade. O que foi dado aos tíssima nas reuniões dos anciãos na praça

pública (literalmente a porta da cidade;
723 JÓ31.·

9-15 Jó é agora objeto de escárnio da-


-.
7-10). Naqueles dias, ele podia socorrer os queles a quem ele uma vez socorreu, e eles
desprivilegiados, os pobres e o órfão (12), o atacam (12,14). Não é uma investida fí-
o que estava a perecer (13), a viúva (13b), sica, mas é o tratamento recebido que o faz
o cego e o coxo (15), o estrangeiro que pre- sentir-se como uma cidade sitiada (14).
cisasse de um protetor legal (16b). Os mes- 16-23 Associado à desgraça que ele
mos dois temas sobre a sua segurança e seu agora suporta está o puro sofrimento físico
papel proeminente e positivo na sociedade que o atormenta desde o princípio. Dia e
são repetidos nos v. 18-25. Notamos que noite, o sofrimento o ataca como um ani-
para Jó as bênçãos de sua vida passada não mal selvagem (16,17). Tudo isso é obra de
incluíam apenas a prosperidade material e Deus (19), no entanto, todo apelo que é
a honra social mas, igualmente importante, feito a Deus caiu em ouvidos surdos (20),
a possibilidade de fazer o bem àqueles que pois o Senhor também, assim como as pes-
o necessitavam (contraste-se isso com a soas, tomou-se cruel em relação a Jó e, in-
fala de Elifaz em 22.6-9). Sem dúvida, não falivelmente, o levará à morte (23).
há ninguém que possa ser chamado justo, 24-31 Embora esteja convencido de
se comparado a Deus (Rm 3.10), mas é que nenhum bem resultará disso, Jó deve
errado imaginar que as pessoas são as pio- gritar por socorro (24). Ele merece socor-
res possíveis ou que nunca podem ser des- ro, pois o ofereceu de tão boa vontade (25),
critas como inocentes e justas. mas quando ele aguardava [...] o bem, eis
30.1-31 "Mas agora se riem de mim". que [lhe] veio o mal (26). Essa parte do seu
Quando Jó compara a sua sorte presente discurso termina com uma repetição de sua
com sua vida passada, o contraste dificil- desgraça aos olhos humanos, o tema do
mente poderia ser mais extremo. Sua vida início. Ele é rejeitado pela assembleia de
anterior consistia em uma rede de relacio- sua cidade (28) e é largado na companhia
namentos harmoniosos (com Deus, com de animais selvagens (29). Sua pele escu-
seus companheiros e com os desprivile- receu por causa da enfermidade (28,30), e
giados), mas todos aqueles relacionamen- a música de sua vida anterior transformou-
tos foram destruídos. Agora as pessoas o se em pranto (31).
tratam com desprezo (1-15,24-31) e Deus 31.1-40 "Ah, quem me dera saber
o rejeitou (16-23). De certo modo, entre- do que sou acusado!". Essa parte final do
tanto, essas experiências são exatamente discurso de Jó está na forma de "confissão
as mesmas, pois é devido à mão de Deus negativa", em que ele nega qualquer crime
que ele sofre o desprezo das pessoas. que lhe seja atribuído. Ele proferirá essas
1-8 Duas vezes lemos Mas agora e maldições contra si mesmo só se estiver
uma vez Agora (1,9,16), pois o contraste plenamente convencido de sua inocência;
na vida de Jó é extremo. A atitude de Jó e não é de surpreender que o capítulo atinja
para com quem o desprezou parece, de o seu auge (35-37) com o apelo categórico
início, condescendente: eles são filhos de para que Deus o ouça e puna por qualquer
doidos, raça infame (8), o pobre da terra coisa que ele merecer. Jó pede a Deus para,
que vive de folhas e raízes. Não são esses, ao menos, informá-lo das queixas que tem
de fato, a quem Jó socorria em seus dias contra ele, pois ele carregaria orgulho-
passados? Sim, e é exatamente por isso samente, por todos os lados, uma lista de
que ele desdenha tanto do desprezo deles acusações para as quais teria explicações
agora. Até aqueles a quem havia tratado convincentes. Em todos os casos, exceto
com generosidade se voltaram contra Jó e um (o de idolatria; 26-28), os crimes que Jó
o consideram como um inferior. É a ingra- imagina são pecados contra o próximo, mas
tidão dessa gente que o deixa indignado. esses também são pecados contra Deus.
JÓ 31 724

1-4 Embora o pecado de adultério seja riquezas (24,25), a adoração ao sol e à lua
mencionado mais adiante (9-12), aqui Jó (26,27), o prazer na queda dos inimigos
afirma que jamais cometeu o pecado de de- (29,30), qualquer omissão deliberada quan-
sejar uma virgem, um hábito muito comum to às necessidades dos outros (31,32) ou
entre os proprietários de muitos servos, tal qualquer outro tipo de hipocrisia (33,34).
como Jó. Ele diz: Fiz uma aliança com Ele pede uma maldição contra si mesmo,
meus olhos; o pecado repousa nas inten- caso tenha falhado em algum desses pon-
ções no interior do coração, não apenas no tos. Embora tenha sido excessivamente
ato exterior. rico, ele alega que sua riqueza jamais se
5-8 Outra vez, o pecado é algo que pri- tomou um ídolo no lugar de Deus.
meiramente ocorre no coração (7). A refe- 26,27 A idolatria é o único pecado re-
rência às balanças (6) e ao fracasso de suas ligioso no catálogo dos crimes de Jó. Era
colheitas como punição à desonestidade normal no mundo antigo cultuar os corpos
(8), sugerem que Jó esteja pensando pri- celestes, mas para Jó, esse culto teria sido
meiramente na falsidade e no engano (5) em adoração à criatura e não ao criador.
nas transações comerciais. 29,30 Não era antiético no tempo de
9-12 Nas sociedades patriarcais, o Jó se alegrar da desgraça do que me tem
adultério era julgado um crime sério (cri- ódio. Os salmistas, às vezes, se mostram
me hediondo, delito à punição de juízes), felizes com a punição dos perversos (v.
haja vista que ele desconsiderava os direi- SI 54.7; 118.7; 137.8,9),masJÓ sempre se-
tos de propriedade de um homem e criava guiu o espírito da lei que recomendava aju-
problemas de herança. O texto mostra sua dar os inimigos (Êx 23.4,5; cf Pv 20.22;
antiguidade ao tratar o adultério masculino 24.17,18; 25.21,22).
como resultado de ser seduzido por causa 31,32 Jó parece estar pensando aqui so-
de mulher (e assim, de certo modo, a culpa bre ocasiões em que talvez tenha simulado
é da mulher), tomando, de alguma manei- desconhecer situações de necessidade. Ele
ra, a degradação da esposa uma punição do foi generoso para com o necessitado não
adúltero. Nós enfatizaríamos muito mais somente quando era óbvio (16-21), mas
os valores da lealdade e exigiríamos que também em casos quando ninguém mais,
somente o ofensor fosse punido. somente ele, era conhecedor da situação.
13-15 Jó alega ter ido além dos costu- 33,34 Jó não está confessando nenhum
mes de sua época e ter tratado os seus ser- pecado de hipocrisia. Ele está dizendo: "Se
vos como se tivessem os mesmos direitos alguma vez eu pequei e tentei ocultar o pe-
dos semelhantes, quando a sociedade lhe cado" (como Adão o fez, v. a NVI mrg.).
permitia tratá-los como patrimônio. 35-37 Jó termina o seujuramento formal
1-23 Jó já expôs sua solidariedade ao de inocência dizendo: Eis aqui a minha de-
pobre, à viúva, ao órfão e ao estrangeiro, fesa assinada, como se fosse um documen-
ou seja, aos tipicamente desprivilegiados to escrito. Ele anseia ter a lista das queixas
da sociedade antiga (29.12-16). Aqui ele de Deus contra ele, pois deseja conciliá-Ia
diz que sempre acolheu os órfãos em sua com sua própria declaração de inocência.
própria casa (18) e pede que a retribuição Ele não seria humilhado pela acusação de
caia sobre a mão levantada na injustiça e seu oponente; ele está tão seguro de que a
que seu braço seja arrancado da articula- lista provaria sua inocência que a levaria
ção (22), se alguma vez levantou a mão sobre [seu] ombro (36). Ele se aproxima-
contra os órfãos, achando que poderia se ria de Deus não como um criminoso, mas
livrar da injustiça cometida. como um homem inocente que lhe prestaria
24-28 Jó se volta agora para os pecados contas de qualquer coisa que pudesse ser
mais íntimos (cf v. 1-4): o amor oculto às acrescentada à sua culpa (37).
725 JÓ32(

38-40 A auto imprecação final de Jó frimento é disciplina. Isso significa que o
vem, de maneira um tanto estranha, de- sofrimento não é, necessariamente, castigo
pois do sumário e clímax do seu discurso pelo pecado cometido, mas pode ser uma
nos v. 35-37. Nela, Jó invoca sua punição, advertência, dada para impedir que a pes-
caso tenha adquirido suas terras por meio soa peque.
da opressão contra os legítimos proprie- 32.1-5 Eliú se apresenta. O jovem
tários (39). Eliú está obviamente muito irado (a pa-
lavra é repetida quatro vezes nos v. 2,3,5;
32.1-37.24 Os discursos uma das ocorrências no v. 2 é omitida pela
NVI, que usa o termo "indignou-se"). Ele
de Eliú
está irado com Jó porque este pretendia
32.1-33.3 O primeiro discurso ser mais justo do que Deus (v. 2). Esta
de Eliú: "O sofrimento é é uma crítica mais severa que a da NVI,
advertência de Deus" que diz que ele se "justificava a si mesmo
Muitos estudiosos consideram os discur- diante de Deus". Eliú está querendo dizer
sos de Eliú um acréscimo posterior ao livro que a lógica da reivindicação de Jó, de que
de JÓ. É estranho que Eliú não seja men- ele tem razão em seu debate com Deus, é
cionado no prólogo, mas é possível que a que Deus deve estar errado. Jó não disse-
intenção do autor fosse apresentá-lo pos- ra exatamente isso, mas é uma conclusão
teriormente, de modo inesperado. Porém, razoável. Eliú também fica irado contra os
mais estranho ainda é o fato de ele também três amigos porque não [acharam] eles o
não ser mencionado no epílogo (42.7-17), que responder (3), isto é, eles foram inca-
embora os outros amigos o sejam. Além pazes de convencer Jó de que Deus não
disso, os discursos de Eliú também retar- estava errado.
dam a resposta de Deus a Jó, que, segundo 32.6-22 O direito de fala de Eliú. Essa
nossa expectativa, poderia ter acontecido seção nada mais é que uma introdução
imediatamente após o cp. 31, onde lemos: prolixa de Eliú a respeito de si mesmo, em
"Fim das palavras de Jó" (31.40). Quando que ele também explica por que se juntou à
Deus responde (cp. 38-41), ele fala como conversa. Eliú admite que é jovem e expri-
se nada tivesse intervindo. Assim, difun- me seu respeito pela sabedoria dos idosos
diu-se a ideia de que Eliú é criação pos- (6,7), mas, fundamentado em sua convic-
terior de um autor devoto que se sentia ção de que todos são criados com igual
insatisfeito com os amigos de Jó por terem capacidade para a sabedoria, enche-se de
deixado de responder aos seus argumentos, coragem (8). Portanto, não são apenas os
e insatisfeito também com o fato de os dis- idosos que são sábios (9). Assim, não teme
cursos divinos não terem levado a nenhu- declarar a sua opinião (10). Ele também foi
ma conclusão definitiva. encorajado a entrar na conversa pela fragi-
Talvez os discursos de Eliú possam ser lidade dos discursos dos amigos (11,12). A
compreendidos como um meio-termo en- impressão de Eliú é que eles foram com-
tre a posição de Jó e a de seus amigos. Os pletamente vencidos pelos argumentos de
amigos argumentam que Deus é justo e que Jó e estão começando a pensar que somen-
o sofrimento de Jó prova que ele pecou e te Deus pode refutá-lo (13). Ele se dirige
que Deus o está punindo. Jó refuta os argu- a Jó (15) e diz que está pronto para falar
mentos, insistindo em que o seu sofrimen- (16,17) porque tem muito que falar (18)
to não é resultado de pecado, e que Deus, e sua mente está a ponto de estourar com
portanto, é injusto. Eliú afirma discordar a sobrecarga de pensamentos (19) e pre-
tanto de Jó quanto dos amigos (32.10-12; cisa desafogar-se da frustração (20). Por
33.1-12; cf 32.2,3), e argumenta que o so- fim, Eliú promete que não dará a ninguém
JÓ 33 726

~ e é Jó quem mais sofre com sua língua sofredor (23,24) e a pessoa é curada e agra-
~ tratamento especial (21); como ele não dece publicamente a restauração da saúde
sabe lisonjear, é melhor Jó se preparar para (cf SI 22.22-25). Essa pessoa então faz
uma conversa franca (22). uma confissão de pecado (27), mesmo que
33.1-33 "Por que Deus causa o sofri- tenha sido somente um pecado planejado,
mento?". 1-7 A introdução prolixa de Eliú e não cometido de fato.
a seu próprio respeito continua. Ele não 29-33 Eliú convida Jó a responder (32)
alega nenhuma sabedoria especial além da ou, então, a continuar ouvindo (31.33). Seu
que qualquer ser humano possa adquirir, propósito, ele repete, não é acusar Jó de ser
qualquer que tenha o sopro do Todo-Po- pecador, mas justificá-lo (32b), explicando
deroso (4; cf 32.8). Ele convida Já a lhe seu sofrimento como disciplina de Deus.
responder (5). Não será muito difícil, uma
vez que ele, Eliú, não usará nenhuma das 34.1-37 O segundo discurso
táticas agressivas de Deus; ele também é de Eliú: "Jó está errado em
um mero ser humano, formado do barro acusar Deus de injustiça 11

(6). Ele não está desdenhando Jó ao dizer Eliú já não fala a Já diretamente; ele agora
não te inspiro terror (7), mas contrastando apela aos sábios (2), que poderiam ser os
sua própria fraqueza com o poder de Deus, amigos (neste caso, Eliú está sendo irôni-
causador do sofrimento de JÓ. co) ou a um grupo maior de espectadores.
8-13 Jó repetiu que Deus lhe tem ne- Seu argumento principal neste discurso é
gado justiça, se recusado a aceitar a sua que uma vez que Deus é justo (10), qual-
inocência e se comportado como inimigo quer crítica de Já ao que Deus faz ou deixa
(10,11), em vez de ser um juiz imparcial. de fazer é injusta. Nesse momento, Eliú
Eliú pretende demonstrar que Jó está er- ignora a situação particular de Jó e tece
rado (12), não por meio da argumentação considerações gerais.
~ como os amigos têm feito ~ de que Jó 1-9 Eliú discute a alegação de Já ~ Sou
é pecador, mas demonstrando que Deus justo (5a; cf 27.6) e Deus tirou o meu di-
tem outros propósitos ao enviar os sofri- reito. Eliú pergunta à sua plateia se eles já
mentos, particularmente para advertir os encontraram um homem como Já que bebe
seres humanos contra pecados futuros. a zombaria dos seus amigos como água (7)
Desse modo, Eliú acha que pode preservar e que, por afirmar que Deus está lhe ne-
tanto a justiça de Deus quanto a inocência gando justiça, coloca-se na companhia de
de Já (cf v. 12,32). malfeitores que também acusam Deus de
14-18 Eliú ilustra sua interpretação do injustiça. Segundo Já, Eliú afirma muito
sofrimento valendo-se de exemplos de pe- injustamente: De nada aproveita ao ho-
sadelos. Eles são um modo de Deus falar mem o comprazer-se em Deus (9). Já havia
com as pessoas, ainda que elas nem sempre dito que os perversos podem livrar-se do
reconheçam isso (14). Deus usa os sonhos julgamento (21.7-34) e que os problemas
para amedrontar as pessoas e adverti-las caem do mesmo modo sobre os bons e
contra "suas más ações" (NVI) e a soberba os maus (9.22-24), porém ele mantém-se
no futuro (17); os pesadelos são uma forma agarrado à virtude ainda que isso não lhe
de sofrimento que Deus usa para evitar so- traga proveito nenhum.
frimentos maiores e a morte (18). 10-15 Aqui Eliú está dizendo que
19-28 O sofrimento físico (21,22) Deus não será injusto (10-12) e, portan-
também é usado por Deus com o mesmo to, Já está errado ao acusá-lo de qualquer
propósito: "castigar" ou advertir alguém forma de injustiça. A justiça de Deus é,
do pecado (19). Basta uma palavra de um para Eliú, uma consequência inevitável de
dos muitos anjos intercessores a favor do ele ser o Criador Todo-Poderoso (13,14).
727 JÓ 36

Essa posição, no entanto, é perigosa, pois justo (7). Uma vez que Deus é tão grande,
equivale a dizer que "o mais forte sempre o que acontece na terra tem pouca impor-
tem razão". tância para ele (5), ainda que seja a perver-
16-30 Eliú continua argumentando que sidade (6,8).
o regente do universo não pode ser injusto. 9-16 Como a reclamação de Jó é que
Deus é justo e poderoso (17). Ele tem Deus lhe tirou os direitos (27.2), Eliú quer
poder para julgar reis e nobres (18), para saber por que Jó não ficou livre de sua afli-
estilhaçá-los sem necessidade de inves- ção. Ele argumenta fazendo referência ao
tigação (24) uma vez que ele já conhece caso das pessoas oprimidas que clamam
os seus passos (21). Ele pode transtomá- por causa de suas muitas opressões (9).
los à noite (25). Suas obras de poder es- Elas nem sempre são resgatadas. Por que
tão em íntima conexão com a sua justiça. não? Porque alguma coisa está faltando
Deus não demonstra favoritismo algum a em seu clamor. Tem sido um clamor invo-
príncipes ou ricos (19), ele recompensa as luntário, e as pessoas não o tem dirigido
pessoas segundo as suas obras (25) e fere a Deus, que me fez, aquele que reverte a
os malfeitores por causa de suas iniqui- sorte ao lhes dar canções de louvor duran-
dades (26), porque eles têm desobedecido te a noite (10) e dá mais sabedoria aos se-
às suas leis (27) e oprimido o pobre (28). res humanos do que aos animais e às aves
Então, se um dia Deus não agir e não ofe- (11). Essas pessoas não obtiveram resposta
recer vindicação quando solicitada, quem porque negligenciaram seu clamor a Deus
poderia condená-lo e dizer que o que ele (12); tais clamores são vazios, e descon-
faz é injusto? (29). siderados por Deus (13). O mesmo é ver-
31-37 A constante solicitação de Jó por dadeiro a respeito de Jó, diz Eliú. Ele só
vindicação acrescenta rebelião ao pecado tem feito queixar-se do sofrimento e não
(37), pois implica que Deus está errado. tem falado com Deus (14-16). Eliú comete
Eliú agora imagina alguém que tenha sido mais um erro, pois Jó tem constantemente
punido por seu pecado e, depois, tenha se se dirigido a Deus!
arrependido (31,32). Segundo Eliú, a teo-
logia de Jó não admite que Deus perdoe 36.1-37.24 O quarto discurso
tal pecador arrependido, pois Jó espera que de Eliú: Em louvor ao poder
alguém que tenha sofrido na mão de Deus e à sabedoria de Deus
exija vindicação e rejeite o perdão (33). Há duas seções aqui. Na primeira, Eliú re-
Mas isso é injusto para com Jó, pois ele não pete que o sofrimento é disciplina; na se-
alega que todo sofrimento seja imerecido. gunda, ele louva o poder e a sabedoria de
Deus na criação, o que lhe confere o direi-
35.1-16 O terceiro discurso de Eliú: to de ser o regente moral do universo.
"Jô não deveria ter reclamado, 36.2-25 Eliú ainda quer falar em favor
e sim apelado a Deus" de Deus (2) e atribuir justiça ao Criador
1-8 Eliú parece discutir novamente a afir- (3), ou seja, ele quer provar que não ocor-
mação que ele pusera na boca de Jó em reu nenhum erro judicial no caso de Jó.
34.9: "De nada aproveita ao homem o Uma vez que Deus se encontra tão aci-
comprazer-se em Deus". Esta não é a opi- ma da humanidade, Eliú tem de ir buscar
nião de Jó, e nem é ele quem pergunta: De conhecimento muito longe (3). De algum
que me serviria ela? Que proveito tiraria modo, isso parece lhe dar o direito de afir-
dela mais do que do meu pecado? (3). Eliú mar que é senhor do assunto, isto é, abso-
simplesmente imagina que esta seja uma lutamente correto, não onisciente!
pergunta de JÓ. Mas ele lhe responde que 5-16 Para começar, Eliú expõe a dou-
é errado alguém esperar benefícios por ser trina comum da retribuição (6). Sua pró-
JÓ 36 728

pria contribuição surge quando ele consi- humanos quanto os animais; também de-
dera os justos que caem em sofrimento um monstram sua sabedoria em usar as forças
tema bem associado à situação do próprio da natureza para vários propósitos, seja
Jó. Em tais casos, os justos (8) estão sendo para corrigir ou abençoar (13).
censurados por sua transgressão e aconse- 14-24 O poder e a sabedoria de Deus
lhados a que se convertam de sua iniquida- são também manifestos nos fenômenos do
de (10). Assim, o sofrimento é disciplina verão: no relâmpago das tempestades de
divina (conforme ele disse em 33.15-30). verão (15), nas nuvens tão delicadamen-
Se os justos aceitarem tais advertências, te equilibradas (16), no vento sul quente
tudo bem (11); caso contrário, sofrerão o (17), no céu ardente tão sólido como espe-
destino dos malfeitores e morrerão sem lho fundido (18) e na luz ofuscante do sol
conhecimento, ou seja, sem ter aprendido de verão (21). A sabedoria de Deus é tão
nada sobre a correção divina. Os ímpios, maior que a de Jó que ele não tem capa-
quando afligidos, simplesmente ficam ira- cidade nem para entender como esses fe-
dos e não clamam a Deus por socorro (13); nômenos operam (15,16,18), muito menos
morrem jovens e em vergonha (14). Os para controlá-los. A espantosa majestade
justos, por outro lado, cujos ouvidos estão de Deus é tão grandiosa (22), que ele é
abertos para o que Deus está lhes ensinan- efetivamente inacessível. Com ironia, Eliú
do na adversidade, são socorridos (15,16). pede que Jó nos ensine o que dizer a Deus
17-25 Eliú espera que Jó esteja entre os (19); todavia, ao mesmo tempo, afirma que
justos, mas teme antes que ele esteja entre isto é impossível, "porque envoltos em tre-
os que não aprendem com o sofrimento e, vas, nada lhe podemos expor" (NEB). Esta
assim, está cheio dojuízo do perverso (17). é uma situação que Jó tem negado desde
Uma expressão de lamúrias (em vez de o início ao demandar repetidamente que
"riqueza", como a NVI apresenta no v. 19) Deus respondesse pessoalmente às suas
não propiciará libertação a Jó (cf 35.9,12); reivindicações. E isso é efetivamente refu-
ela precisa ser dirigida a Deus, e Jó deve tado quando Deus se mostra pessoalmente
se lembrar de magnificar a obra de Deus já no capítulo seguinte.
enquanto estiver orando por libertação.
36.26-37.24 Este belo hino ao poder 38.1-42.6 Os discursos
criativo e à sabedoria de Deus só faz senti- do Senhor
do aqui porque Eliú acredita que é o poder Estes discursos divinos são importantes,
criativo de Deus que lhe dá o direito de ser não apenas por seu conteúdo, mas simples-
juiz moral do mundo (cf 34.10-15). mente por terem acontecido. O essencial é
27-33 As maravilhas da chuva e do re- que Jó, que invocou a Deus com perseve-
lâmpago se devem ao fato de eles serem rança (embora estivesse irado e frustrado),
um dos meios que Deus usa para julgar acaba finalmente tendo uma conversa com
entre os povos (31a), pois a mesma chuva Deus que leva à resolução de sua tensão.
pode tanto beneficiar (31b) quanto des- Mas os discursos também são notáveis
truir (33b). tanto pelo que omitem quanto pelo que
37.1-5 O trovão também não é apenas incluem. Primeiro, é surpreendente, mas
um fenômeno natural, mas a voz de Deus, também significativo, que Deus não faça
misteriosa, imprevisível e aterradora. nenhuma referência a qualquer uma das
6-13 As tempestades de inverno, que falhas de Jó. Fica claro, então, que Deus
impedem as pessoas de trabalhar e mantêm não tem nada contra Jó; nem mesmo suas
os animais em suas tocas (7,8), não reve- palavras "precipitadas" (6.3) são motivos
lam apenas o poder de Deus em controlar de repreensão. Mas, em segundo lugar, es-
(12) essas forças que domam tanto os seres tes discursos divinos são também impres-
729 JO 38

sionantes pelo que eles contêm. Longe de aterrador, para Jó ele significa que Deus
justificar os caminhos de Deus perante os não pretende mais ignorar suas reivindica-
seres humanos, eles se ocupam totalmente ções. Deus não subestima a inteligência de
com a ordem natural, o mundo da criação. Jó, dizendo que ele não tem nenhum enten-
Ao falar da ordem cósmica e da criação dimento do plano divino (meus desígnios,
animal, o propósito de Deus não é dar a Jó 2) para governar o universo. Deus também
lições sobre a natureza, e certamente tam- não desdenha de Jó, mas o encoraja a se
bém não é deslumbrá-lo com sinais de seu fortalecer como homem (supondo-se que
poder e inteligência (dos quais Jó não duvi- os homens sejam mais fortes do que as
dara nem por um minuto). Pelo contrário, o mulheres!) e a usar toda a sua força mental
propósito é reconsiderar o mistério e com- para compreender as intenções de Deus,
plexidade do mundo que Deus criou. Jó é que serão expressas nesse discurso apenas
levado a entender que a ordem natural é indiretamente.
paralela à ordem moral do universo. Muito 38.4-38 Fenômenos da terra e dos
disso está além do entendimento humano, céus. 4-7 Aqui o mundo é retratado como
um pouco disso parece horrível, fútil ou te- um edificio com fundamentos e pedra an-
mível, mas tudo é obra de um Deus sábio gular, feito sob medida, com um cordel, ao
que fez o mundo do jeito que ele é e para a acompanhamento da música das estrelas
realização de seus propósitos. da alva - os anjos.
8-11 O mar é retratado como nascido
38.1-40.2 O primeiro discurso da madre de sua mãe (8) e vestido por
do Senhor: "Considere o Deus nas nuvens (9). Mas ele é também
mistério da criação" uma força ameaçadora que deve ser res-
As muitas perguntas que Deus faz a Jó não tringido em seu lugar, trancado com portas
têm a finalidade de humilhá-lo, mas de de- eferrolhos (10).
safiá-lo a reconsiderar o que já sabe acerca 12-15 Até mesmo a chegada da alva
do mundo que criou e de ponderar o seu está além do entendimento de Jó (12). Pro-
mistério novamente. Deus mostra a Jó dez vavelmente a NEB está certa ao remover
características da ordem natural (38.4-38) desses versículos as referências inadequa-
como exemplos desse mistério, e nove das aos perversos (13,15) e ao encontrar
espécies de animais (38.39-39.30) para alusões a vários corpos celestes como as
ilustrar o mistério da vida criada. A obser- "estrelas da Linha do Navegador" que
vação final (40.2) nos lembra que o diálo- "saem uma por uma" (15) quando irrompe
go entre Jó e Deus acontece no formato de a alva.
uma causa jurídica (cf também 38.3), pois 16-18 Abaixo da terra existe todo um
era exatamente isso o que Jó havia exigido reino de criação desconhecido dos seres
(31.35). O propósito do diálogo, todavia, humanos: os mananciais do mar, as fontes
não é estabelecer culpa ou inocência, mas do grande abismo (Gn 7.11) que nutrem as
examinar a verdade sobre a vida como águas do mar, e a terra da morte, retratada
criação de Deus. como uma cidade com portas e "porteiros"
38.1-3 Introdução. Jó finalmente ob- (17; NEB), os "zeladores da terra da Som-
teve a resposta que tanto desejava (cf bra" (BJ), o submundo (em vez de terra)
31.35). Claro que Jó havia imaginado o com suas vastas extensões (18).
ambiente comparativamente tranquilo de 19-21 Luz e trevas são vistas aqui como
um tribunal de justiça, mas é de dentro do seres que têm suas próprias moradas, às
redemoinho que Deus fala. O redemoinho é quais retomam no devido tempo. Jó não
um antigo símbolo da revelação divina (cf sabe "conduzir" cada uma delas nas vere-
SI 18.7-15; Na 1.3; Zc 9.14), e embora seja das para a sua casa (20).
J638 730

22,23 Também além do conhecimento que existe totalmente independente dos


de Jó estão os depósitos da neve e do gra- seres humanos.
nizo (22), reservados para o dia da batalha 39.1-4 Cabras e corças não são toca-
(23; cf. Êx 9.22-26; Js 10.11; Is 30.30). das pela interferência humana. Elas dão
24-27 Os regos para o aguaceiro do suas crias e crescem sem assistência ou
depósito celeste (25) nos trazem à memória conhecimento humanos.
as "janelas" dos céus que foram abertas no 5-8 O jumento selvagem, isentado por
tempo do dilúvio (Gn 7.11). Um novo tó- Deus do serviço humano (5), leva uma
pico que será desenvolvido posteriormente vida livre, embora árdua, e é totalmente
no cp. 39 é introduzido nos v. 26,27: muito inútil para o homem. Ele não é como seu
do que acontece na criação do mundo não primo domesticado, o jumento manso,
é em benefício dos seres humanos, mas por que é conduzido pelas ruas barulhentas da
causa de outras partes da criação de Deus, cidade (7).
ou simplesmente porque ele assim ordena. 9-12 Um abismo ainda maior separa
Neste caso, é a chuva que cai sobre a terra o boi domesticado do boi selvagem (ou
desabitada (26). "bisão europeu"), o mais poderoso dos
28-30 Chuva, orvalho e gelo têm uma animais com casco (extinto desde o século
origem, mas Jó a desconhece. XVII d.C.). É ridículo pensar nele como útil
31-33 Como as sete estrelas do Sete- aos seres humanos.
estrelo se juntaram? Por que as estrelas de 13-18 Alguns animais são selvagens,
Órion, um caçador com cinto (laços) e es- livres e indomáveis; outros, como o aves-
pada, permanecem atadas? (31). Qualquer truz, são simplesmente ridículos. É a visão
que seja o poder das estrelas, Jó não tem popular do avestruz como um pai cruel e
poder sobre elas, nem a mínima compreen- negligente que é usada aqui. De fato, é só
são das ordenanças da natureza que deter- durante o dia que os seus ovos são aban-
minam os seus movimentos (33). donados; à noite, tanto o galo quanto a
34-38 Jó não pode influenciar a vinda galinha se revezam em manter aquecido o
do raio ou da chuva, quando Deus despeja ninho. Deus criou ainda animais cujo com-
os odres dos céus (37). portamento não faz sentido - ao menos
38.39-39.30 A criação animal. A ên- não pelos padrões humanos.
fase aqui não está sobre os animais bem 19-25 O cavalo de guerra não é com-
conhecidos e úteis aos seres humanos (tais pletamente inútil aos seres humanos, mas
como ovelha, asno e camelo), mas sobre ele tem força e coragem que o cobrem de
aqueles que são, pelo contrario, inúteis, mistério. Mesmo uma criatura tão próxima
misteriosos e hostis. Estes também são par- dos seres humanos pode lhes ser pratica-
te da criação de Deus. O mesmo acontece mente incompreensível. Quem pode expli-
com o sofrimento: às vezes, de fato, pode car o que dá ao cavalo a sua força (19),
haver um propósito reconhecível; outras como ele pode rir do temor (22) e ser ávido
vezes, no entanto, pode ser tão enigmático para entrar em batalha (25)?
e doloroso aos seres humanos quanto os 26-30 O falcão e a águia são criaturas
animais selvagens. Não obstante, ele é par- que, ocasionalmente, se lançam na pre-
te da ordem de Deus para o mundo, e Deus sença do ser humano (30), mas que vivem
sabe o que está fazendo ao criá-lo. principalmente em lugares inatingíveis
39-41 A questão não é a incapacidade pelo homem (27,28). Eles são inúteis, pre-
de Jó de satisfazer o apetite dos leõezi- datórios e impuros, mas mesmo assim, são
nhos (39), ou ainda que é Deus quem pro- criaturas de Deus, e seus instintos naturais
videncia a presa para os corvos (41), mas (inteligência; 26) lhes são implantados
que há todo um reino da criação de Deus por ele. Se Jó pode aceitar isso, ele pode
também aceitar o fato de que pelo menos
731 JÓ41J"

do leviatã (41.1; ARC), o mais temível das


.
alguns casos de sofrimento humano são criaturas marinhas. Previamente, a ênfase
simplesmente o resultado da sabedoria estava mais no mistério da criação animal;
inescrutável de Deus. agora o tema é o terror, e ainda assim o
40.1,2 Conclusão. O Senhor nunca esplendor, das duas criaturas de Deus. O
menospreza a Jó, nem procura argumentar beemote ("o grande animal") foi identifi-
para forçá-lo a se submeter (cf 38.3). Deus cado com o búfalo selvagem, o hipopóta-
conclui seu primeiro discurso simplesmente mo, ou uma criatura mítica. A descrição do
convidando Jó, como seu adversário na beemote e do leviatã carrega no exagero
disputa judicial, a lhe responder. poético, mas parece que a referência é a
criaturas verdadeiras. Elas também simbo-
40.3-5 A primeira réplica de Jó: lizam o caos, e o fato de Deus as ter criado
ele não tem nada a dizer mostra que ele controla quaisquer poderes
Jó não expressa submissão, humilhação caóticos que ameacem o seu universo.
ou derrota. Ele concorda que é indigno, O beemote é a obra prima dos feitos
pois reconhece as limitações de seu en- de Deus (19), uma referência a Gênesis
tendimento enfatizadas pelo discurso do 1.21, em que "as grandes criaturas mari-
Senhor. Mas como ainda não tem nada a nhas" são os primeiros animais menciona-
responder, sua causa ainda está em pé. O dos. Sua dieta principal é a erva (15); seu
Senhor o chamou a responder, e Jó, na ver- habitat, os canaviais e a lama do rio (21).
dade, convida o Senhor a prosseguir com É um pouco estranho que as montanhas
o seu discurso. Jó cobre a boca com a mão propiciem alimentos para ele (20), embora
(4), pois ainda não tem nada a acrescentar. os hipopótamos sejam conhecidos também
por andarem por encostas íngremes em
40.6 - 41.34 O segundo discurso busca de alimentos. Sua força é lendária
do Senhor: "Considere o (16-18), e ele não pode ser subjugado pelo
poder da criação" homem (quem o fez o proveu de espada;
40.6-14 Introdução. O Senhor não pode 19) ou ser capturado por um laço preso ao
estar intimidando Jó com a superioridade seu nariz (24). Um rio transbordante não o
de seu poder, pois Jó sempre concordou aterroriza e se um rio transborda, ele não
em que o Senhor é mais forte do que ele se apressa (23). Mesmo sua cauda, embora
(e.g., 9.15-19), e a questão aqui é a justiça curta e fina, tem a força de um cedro (17).
de Deus, não o seu poder. O Senhor está 41.1-34 O leviatã (ARC; crocodilo, aqui
dizendo que Jó não pode por si mesmo e na ARA). Pensava-se que o leviatã fosse
vencer a causa. Somente alguém com po- um golfinho, um atum ou uma baleia, mas
der (braço; 9) como Deus e que esteja no o consenso afirma que é um crocodilo. Fi-
controle físico do universo tem autorida- gurado na mitologia cananeia como Lotan,
de para fazer julgamentos na esfera moral um monstro de sete cabeças do abismo,
também. A vindicação de um ser humano há alusões a esses seres mitológicos no AT
é uma tarefa divina, e Jó tentou cumprir a (e.g., SI 74.13-14; Is 27.1). Aqui, então, o
tarefa de Deus ao demandar vindicação. leviatã (crocodilo), como o beemote (hipo-
40.15-24 O beemote (ARC; também pótamo), é um símbolo do caos.
no heb.). Tradicionalmente, hipopótamo 1-11 O leviatã não tem nenhuma uti-
(ARA). O tema é uma continuação do cp. lidade prática para os seres humanos. Ele
39, mas em vez de breves relatos da criação não pode ser capturado (1) ou domado (2)
animal, são apresentadas aqui duas descri- ou amansado (3); ele não pode ser usado no
ções afetuosas do "beemote" (também na serviço doméstico (4) ou como um animal
NVI) o mais feroz dos animais terrestres, e de estimação para entreter as crianças (5).
J642 732

Ele não serve de alimento (6), pois não O sofrimento de Jó faz sentido para Deus,
pode ser capturado (7). Qualquer impru- embora Deus não o tenha, de nenhum
dente que tocasse nele não teria nova opor- modo, explicado ou justificado para ele.
tunidade de fazê-lo (8)! Sua mera aparên- O erro de Jó foi exigir uma resposta para
cia é suficiente para afastar os aspirantes a o problema do sofrimento, o que significa
caçador (9). Os v. 10,11 parecem sugerir adentrar uma área além da compreensão
que se alguém corajoso fica apavorado humana: na verdade, falei do que não en-
diante de um crocodilo, somente um tolo tendia; coisas maravilhosas demais para
seria descuidado o suficiente para se apro- mim (3).
ximar do próprio Deus. Mas provavelmen- Jó obtém sua vindicação de Deus nos
te é melhor interpretar essas frases como versículos 10-17, todavia, o mais importan-
referências ao leviatã: "Quem lhe resistirá te para Jó é o fato de que por meio dos seus
de frente? Quem ousou desafiá-lo e ficou clamores por um confronto com Deus, ele
ileso? Ninguém, debaixo céu" (41.3,4; BJ). na realidade se encontrou com Deus face a
12-34 A linguagem aqui é altamente face. O fato de que Deus realmente irrom-
poética e fantasiosa e não devemos bus- peu do silêncio e se dirigiu a Jó é melhor
car uma descrição exata. As vestes do seu do que qualquer vindicação. A experiência
dorso são as suas escamas duras (13); seus pessoal com Deus (agora meus olhos te
membros inferiores, especialmente a cau- veem 5) transcende o sofrimento, o iso-
da, são como escamas pontiagudas (30), e lamento e o sentimento de injustiça tanto
seu movimento na água chega a tomar o quanto transcende a mera teoria acerca de
mar como caldeira de unguento (31). Mas Deus (eu te conhecia só de ouvir; 5).
talvez os seus espirros de fogo (18-21) de- Jó se abomina a si próprio (6)? O me
vam ser interpretados menos literalmente. não faz parte do texto hebraico, e é mais
O ponto principal nesse poema em honra ao provável que Jó abomine as palavras abu-
rei de todos os animais orgulhosos (34) é sivas que ele disparou contra Deus. E do
a temerosidade e grandiosidade dessa cria- que ele então se arrepende (6)? Não pode
tura que é tão repulsiva e hostil aos seres ser de algum pecado, porque nós sabemos
humanos. Esse é o ápice dos discursos do desde o início que Jó não é pecador; ele
Senhor a Jó, e Jó não se esquece do ponto pode se arrepender somente da linguagem
essencial: o sofrimento é um crocodilo, um pesada que usou ou de sua ignorância. Mas
hipopótamo, apavorante e misterioso, em- talvez seja melhor ainda interpretar a pala-
bora seja parte da criação de Deus e tenha vra traduzida por abominar como "dissol-
seu próprio esplendor. ver", i.e., "dissolvo-me para o nada", o sen-
timento de uma criatura ante seu Criador,
42. 1-6 A segunda réplica de Jó: sua e interpretar a palavra arrepender-se como
queixa se transforma em adoração "confortar-se", i.e.: "Eu me conforto, em-
Contrário à sua primeira resposta (40.2-5), bora esteja sentado sobre o pó e a cinza"
que foi, na verdade, uma recusa, este dis- (cf 2.8). Jó ainda está sofrendo, continua
curso resolve o debate de Jó com Deus. sobre o monte de cinzas, mas sua amargura
Pois Jó reconhece que Deus tem o direito é aliviada e sua tensão é resolvida por meio
de fazer o que faz, até mesmo a ponto de de seu encontro com Deus.
trazer sofrimento sobre uma pessoa ino-
cente, embora Jó não diga isso. Assim a 42.7-17 Epílogo
novidade sobre os conhecimentos de Jó Por que a história de Jó ainda não acabou?
de que sei que tudo podes (2) não é que Porque Jó insistiu em pedir vindicação,
Deus seja todo-poderoso, mas que tem um i.e., uma demonstração pública da parte de
propósito inescapável em tudo o que faz. Deus de que ele (Jó) é justo e não merece
733 JÓ42

punição divina. Alguns leitores acham que Jó insistia em se dirigir a Deus pessoal-
o final feliz estraga o livro de Jó, pois pare- mente. Durante o sofrimento, é loucura
ce dar base à antiga doutrina da culpa e so- falar meramente acerca de Deus.
frimento. A teologia dos amigos, de que os
justos prosperam, não é provada por este 42.10-17 A vindicação pública
epílogo do livro? Não, pois os amigos in- Jó está vindicado aos olhos dos amigos,
sistem em que os justos sempre prosperam mas aos olhos dos seus parentes e conci-
e os perversos sempre perecem. O caso de dadãos, o sinal da sua vindicação por Deus
Jó mostra aqui que "sempre" não existe. deve ser a restituição de suas riquezas.
O que o epílogo demonstra é a alegria de Elas são restituídas em dobro (12); talvez
Deus em mandar chuvas de bênçãos sobre isso implique a compensação pela perda
os que o servem fielmente. Isso vem como imerecida que Jó sofrera (cf Êx 22.4). O
bônus e como ato da graça de Deus, e não consolo que Jó recebeu por causa de seu
algo que seja compelido a fazer. encontro com Deus (cf o v. 6 acima) é
enriquecido pelo consolo que ele recebe
42.7-9 A vindicação dos seus parentes (11). Os presentes em
perante os amigos dinheiro e o anel de ouro (11) são sinais
Nessa cena elegantemente iromca, Javé de estima e não de presentes para restau-
enfatiza aos amigos que é Jó, e não eles, ração da riqueza, pois ele já é próspero
quem tem sido verdadeiramente meu ser- novamente (10). Ele se tornou tão rico
vo (repetido quatro vezes!) e que é Jó, e que há herança suficiente até para suas fi-
não eles, quem tem dito de mim o que é lhas compartilharem (as filhas geralmente
reto (7). Uma inversão de papéis que bei- só herdavam quando não havia herdeiros
ra o cômico acontece quando a punição da masculinos; Nm 27). O epílogo é feito
insensatez dos amigos só é evitada graças com uma observação típica das narrati-
à oração do justo e ainda sofredor. (8,9). vas patriarcais de Gênesis: a morte numa
Aqueles que haviam se sentido tão supe- idade avançada,farto de dias, é a bênção
riores a Jó são os mesmos que precisam final de Deus. Com essa cena, retornamos
do perdão; e Jó não está apenas absolvido à condição pastoril idílica que deu início
perante eles, mas se torna o defensor de- ao livro. Naquele mundo estilizado, tão
les. Como pode o discurso respeitoso dos distante do nosso próprio mundo, ocorreu
amigos em relação a Deus ser chamado de debaixo da superfície um drama humano
loucura? Talvez a única razão seja porque que pertence a todas as épocas.
os amigos falaram de Deus inteiramente na
terceira pessoa, como um objeto, enquanto David 1. A. Cline
OS SALMOS

INTRODUÇÃO
Uma janela aberta para (l) É quase certo que dentro do Saltério,
o Antigo Testamento como o conhecemos, foram preservadas
Como era ser um membro da igreja do AT? coleções menores, anteriormente distin-
Em que eles acreditavam? Qual era sua tas (e.g., 93-100 [Louvor a Jerusalém];
experiência com Deus, individual e cole- 113-118 [Uma cantata de salvação];
tivamente? Sua religião os fazia felizes ou 120-136 [Louvor do peregrino]; e 146-
era um fardo? Eram eles estranhos de uma 150 [A infindável aleluia]).
outra época, ou eram nossos irmãos dos (2) Também há evidências da existência
tempos antigos? Quando olhamos através de uma antologia mais antiga incorporada
da janela dos salmos, descobrimos que ali ao Saltério de forma mais difusa. Muitos
está de fato o mesmo Deus, agora revelado salmos contêm a inscrição "Ao mestre de
a nós em Cristo, e ali estão pessoas iguais a canto" (e.g., 31; 47; 51-{í2). Teria existi-
nós, enfrentando os mesmos problemas na do um "Mestre de Música do Templo" que,
vida, e descobrindo que seu Deus aumenta em algum momento, compilou seu próprio
suas alegrias e carrega seus fardos. hinário? Se tal indivíduo existiu, ele teve
Aquelas pessoas nos dão um exemplo o cuidado de fazer um registro da autoria,
tão extraordinário de compromisso, de- já que, excetuando os salmos 66 e 67, seu
dicação na oração, zelo, conhecimento e registro é sempre acompanhado de uma
alegria, que nos deixam envergonhados de identificação pessoal: "De Davi" / "De
nossa indecisão, de nossa falta de vonta- Asafe" etc. Por exemplo, ao acrescentar o
de de orar e da frieza de nossas reações. salmo 88 à sua antologia, ele indicou que
Mas eles são nossos irmãos e irmãs. Suas "este salmo fazia parte da Coleção Coraíta
canções nos mostram que, assim como no e foi composto por Hemã, o ezraíta".
NT, a graça de Deus motiva a obediência à (3) Corá e Asafe eram dirigentes de
sua lei, assim também no AT a obediência coro (lCr 6.31-33,39ss.; 15.16ss.; 16.4-7).
se apoia em sua obra de graça. Mas como A coleção "Coraíta", com seu prazer no
aquele povo gostava de cantar! Grandes Monte Sião, está representada em Salmos
líderes, como Moisés (Êx 15), Débora e 42-49; 84; 87, enquanto a coleção de
Baraque (Jz 5), Davi (2Sm I) e Ezequias Asafe, que ressalta tanto o juízo divino
(Is 38), pessoas comuns, como Ana (lSm quanto o cuidado pastoral, está representa-
2) e profetas, como Habacuque (Hc 3) eter- da em Salmos 50; 73-83.
nizaram seus momentos importantes em (4) Outros indivíduos aparecem de for-
canções. Os próprios salmos revelam uma ma mais espalhada e rara: Jedutum (39; 62;
religião transbordante de canção. Não é de 77), Etã (89), Hemã (88), cf IReis 4.31, e
admirar que de tal povo e religião tenha Moisés (90). Mas a maioria dos salmos é
surgido esta grande antologia de salmos! atribuída a Davi (3-32; 34- 41; 51-65;
68-70; 101; 103; 108-110; 122; 131;
Os Salmos como livro 133; 138; 139; 140-145).
Talvez seja mais apropriado pensar nos (5) Os especialistas geralmente ma-
salmos como uma coleção de livros. nifestam certo ceticismo a respeito do
735 OS SALMOS

valor dos títulos dos salmos. Na época em a palavra "Elohim" (Deus) ocorre com
que estava na moda datar o maior número frequência muito maior que "Yahweh"
possível de salmos dentro do período dos (Javé, O SENHOR), e parece que o nome
Macabeus (século I a.Ci), os títulos foram de Deus foi deliberadamente substituído
rejeitados por serem considerados uma por Elohim (cf SI 14; 53; 40.13-17; 70).
invenção editorial. Ultimamente, tem ha- Presumivelmente, isso foi feito antes que
vido maior disposição de admitir uma da- a coleção como um todo fosse organizada.
tação pré-exílica, embora as opiniões va- Porém, para nós, esse é mais um dos pas-
riem a respeito de quantos e quais salmos sos inexplicáveis pelos quais a salmódia
possam pertencer ao período dos reis. Há acumulada ao longo dos séculos foi gra-
consenso de que a atribuição "de Davi" dualmente se transformando no Saltério
implica autoria, mas poucos seguem da Bíblia.
M. G. Goulder (The Prayers of David: (7) O Saltério é às vezes chamado de
Psalms 51-72, Studies in the Psalter u, "Hinário do Segundo Templo", numa re-
[JSOTS 102, Sheffield, 1990]) em levar ferência à Casa construída pela comunida-
a autoria davídica a sério. Contudo, não de que retomou em 520 a.C. (cf Ed 5.1,2;
há nenhuma razão séria para não o fazer. 6.15; Ag 1.14,15). Sem dúvida, um evento
Certamente, os títulos são um acréscimo como esse poderia ter motivado a criação
editorial aos salmos (como indica o uso de um novo hinário e, concordando com Y.
da forma em terceira pessoa), mas já na Kaufmann (The Religion ofIsrael [George
época da LXX (século li ou III a.c.) muitos Allen and Unwin, 1961], p. 311), quando
dos termos usados já não eram conheci- este diz que "não há nenhum salmo cujo
dos, e ninguém sabe ao certo quão antigo sentido evidente [...] exija uma datação
é esse trabalho editorial. Eles chegaram posterior à do exílico salmo 137", todos os
até nós como parte do Texto Hebraico nossos salmos atuais teriam estado dispo-
Massorético (onde aparecem como versí- níveis para seleção. Então, provavelmen-
culo 1 do salmo em questão); além disso, te, a coleção recebeu sua atual divisão em
no NT, o Senhor Jesus, Pedro e Paulo argu- cinco "livros" por meio do acréscimo de
mentam com base em sua veracidade. Um doxologias em 41.13; 72.18-20; 89.52 e
dos motivos apresentados para não levar 106.48. Porém, encontramo-nos, mais uma
os títulos a sério é que as notas históricas vez, diante de um enigma indecifrado: será
que ligam alguns salmos à vida de Davi que a divisão em cinco partes foi adotada
(3; 7; 18 etc.) são suposições editoriais, para combinar os cinco livros da Lei com
visto que há pouca ou nenhuma evidência cinco livros de canções? Não se tem cer-
ligando o salmo e a ocasião. Deixando de teza disso.
lado o fato de que é improvável que um
editor da antiguidade tenha cometido er- Os Salmos na adoração
ros crassos, essa objeção despreza a pró- O pai do moderno estudo especializa-
pria natureza dos salmos, que consistem do dos salmos é Hermann Gunkel, Die
em meditações, não em descrições. Em Psalmen (Vandenhoek & Ruprecht, 1926),
cada um dos casos, pode-se argumentar que procurou correlacionar cada salmo
com segurança que, seja no incidente com a circunstância em que foi produzido.
mencionado, seja na reflexão subsequente, Hermann distinguiu algumas categorias
Davi podia muito bem ter expressado es- principais: (a) Hinos, poemas como 8; 19;
ses sentimentos. 29, que tratam da grandeza e dos atributos
(6) Outra evidência da mão de um de Deus. Os subgrupos desta categoria in-
editor em Salmos é o que chamamos de cluem os salmos de entronização, que cele-
"saltério eloístico". Em Salmos 42-83, bram o Senhor como Rei (e.g., 47; 96; 98),
OS SALMOS 736

e os salmos de Sião (e.g., 46; 87); (b) la- maneira como um salmo devia ser usado na
mentos coletivos, como 74; 79; 80; (c) adoração pública. A palavra "salmo" (4; 55
salmos reais, centrados no rei (e.g., 2; 45; etc.) indica acompanhamento musical, em-
110); (d) lamentos individuais, de longe bora não esteja claro qual a diferença entre
a maior categoria de todas (e.g., 3-7; esta palavra e "canção". Alguma diferença
140-143); um subgrupo desta categoria deveria existir, como indica o uso das duas
são os salmos de segurança, que expres- palavras juntas (e.g., 30). "Oração" (e.g.,
sam a certeza do livramento divino (11; 17), "Louvor" (145) e "Para ensinar" (60)
16; 23); (e) salmos individuais de ações sugerem a função que um salmo podia ter,
de graças (e.g., 30; 32; 116), após um li- de forma bem semelhante às divisões por
vramento. Além desses grupos principais, assunto nos hinários modernos.
foram percebidas categorias menores: Há orientações musicais relativas a
ações de graças coletivas (e.g., 124), sa- cordas (4), flautas (5), "seminite" ou "oi-
bedoria (49), peregrinação (120-134) e tava" (um instrumento de oito cordas ou
liturgias (15; 24). um arranjo em oito partes, 6); observações
O trabalho de Gunkel deixava a desejar sobre melodias a serem usadas: "A morte
pelo fato de não fornecer uma base coe- de um filho" (9), "A corça da manhã" (22);
rente para que se pudesse distinguir uma "Os lírios" (45); "A pomba nos terebintos
categoria da outra. Às vezes, ele ressalta- distantes" (56) etc. "Os lagares" (8; 81; 84)
va a forma ou a estrutura; outras vezes, o significa "Prensa do vinho", e pode ter sido
conteúdo. Mas pelo menos ele resgatou o uma melodia alegre bem conhecida.
estudo dos salmos das áridas discussões Também há palavras que hoje não
sobre datação e introduziu uma estimulan- compreendemos, mas que, com graus
te apreciação a respeito do que os salmos de certeza variáveis, podemos dizer que
estavam tentando ser e fazer. O que ele ini- têm relação com uso dos salmos no culto:
ciou, outros continuaram, edificando sobre "sigaiom" (7, cf Hc 3.1); "mictam" (16;
as bases que ele lançou e desenvolvendo 56-60); "masquil" (32 etc.); e "selá"
sua abordagem de categorias, mas, em par- (3.2,4,8 etc.). "Mictam" pode estar rela-
ticular, concordando com sua opinião de cionado com o verbo "cobrir" e, como
que o principal cenário para a compreen- esse termo ocorre em salmos em que ini-
são dos salmos é o culto, a prática da ado- migos são mencionados, talvez ele servis-
ração de Israel no templo. se para recomendar o uso desses salmos
quando houvesse necessidade de prote-
o ambiente e os ção. "Masquil" pode significar "didático",
termos do culto mas o motivo pelo qual esses salmos em
Os próprios Salmos se deliciam na casa do particular merecem essa observação não
Senhor (84); eles veem o "santo monte", está claro. "Selá" ocorre internamente
o "tabernáculo" e o "altar" (43) como ele- nos salmos, e poderia indicar alguma di-
mentos que permitem o acesso à presença visão do material, um interlúdio meditati-
de Deus; eles estão cheios da piedade inte- vo/musical, quando o salmo era cantado
rior que acompanhava e dava sentido aos em adoração. Mas tanto o seu significa-
atos exteriores (116.13-19), insistindo que do como palavra quanto sua importância
o ritual do sacrifício só se toma um "sa- como diretiva são hoje desconhecidos.
crifício de justiça" (4.5) quando realizado Desde o trabalho de S. Mowinckel (cf
com a motivação certa. The Psalms in Israel s Worship [Blackwell,
Grande parte do material dos cabeça- 1962]), muitos têm acreditado que a Festa
lhos, embora de significado ainda mis- dos Tabernáculos incluía uma celebração
terioso para nós, está relacionada com a anual do reinado do Senhor. A expressão:
737 OS SALMOS

"O Senhor reina" (93.1; 97.1; 99.1 etc.) intervenção divina para restaurar a digni-
deveria ser, portanto: "O Senhor tornou- dade do rei. Para justificar a ideia de uma
se Rei", uma exclamação cultual que pro- dramatização ritual cultual, recorre-se a
clamava a reafirmação ritual da soberania versículos como 46.8 ("Vinde, contem-
divina sobre toda a terra, garantindo o plai ...") e 48.9 (traduzido por: "retrata-
bem-estar de seu povo durante o ano se- mos/representamos tua misericórdia no
guinte. Certamente, numa data posterior meio do teu templo").
(Zc l4.l6ss.), a Festa dos Tabernáculos Da mesma forma, a teoria de A. Weiser
teve relação com reinado e prosperidade, de uma cerimônia anual de Renovação da
mas, nos dias pré-exílicos, a evidência dis- Aliança, The Psalms (SCM, 1962), não
so não é tão clara. obteve grande apoio. Para ele, o tema do-
Quando Jeroboão precisou dissociar minante na Festa dos Tabernáculos não
seu recém-separado reino da Casa do era a entronização do Senhor, mas sim a
Senhor e do rei davídico, lemos que ele renovação nacional da Aliança. Embora
instituiu uma festa no décimo quinto dia Weiser tenha encontrado salmo após salmo
do oitavo mês, "igual à festa que se fa- que reforçam esse argumento, o consenso
zia em Judá". Não se conhece nenhuma geral é que ele deixou que o entusiasmo
festa celebrada no oitavo mês, mas a dos substituísse o realismo e que, embora sal-
Tabernáculos ocorria no décimo quinto mos como 50 e 81 necessitem de um con-
dia do sétimo mês. Seria essa a festa que texto ritual com foco nos mandamentos e
serviu de modelo para Jeroboão? Se foi nos eventos do Sinai, isso está longe de
este o caso, então Tabernáculos também confirmar a existência de um grande festi-
era um festival que celebrava a sobera- val anual. A leitura da lei de Deuteronômio
nia. É preciso reconhecer que os "salmos 31.9ss., realizada a cada sete anos, já for-
de entronização" (47; 93; 96-99) são nece um pano de fundo suficiente.
uma amálgama de temas equivalentes,
nada menos que Reinado e Criação e a Os Salmos como Escritura
Soberania do Senhor sobre as forças es- Quando refletimos sobre a permanente vi-
pirituais do caos, e faz sentido pensar na talidade dos salmos na igreja de hoje, não
existência de uma celebração anual cujo podemos deixar de tocar em alguns tópicos
tema e foco seriam combinados num "dia importantes.
da ascensão". (1) O Senhor. Uma das características
Por outro lado, o esforço de A. R. notáveis do livro de Salmos é que, embora
Johnson, Sacral Kingship in Ancient haja abundante testemunho pessoal, o que
Israel (University of Wales Press, 1967), mais chama a atenção não são as pessoas,
e J. H. Eaton, Kingship and the Psalms mas Deus. Nesse aspecto, os Salmos são
(SCM, 1876), no sentido de extrair de o AT em miniatura: o Senhor é o Criador
alguns salmos (e.g., 2; 18; 89; 101; 110; (8; 104). Mas esse não é um conceito abs-
118) um ritual da renovação anual de so- trato de como o mundo começou; é o fun-
berania terrena/davídica não foi bem acei- damento de seu domínio soberano como
to por todos. Na melhor das hipóteses, Rei sobre todas as coisas (29; 96-99).
essa teoria atribui muitos, se não todos, A justiça do seu governo é predominante
os salmos de lamento individual ao rei, (11; 75), mas, na grande rapsódia do Reino
aviltado por seus inimigos (de toda parte) divino (145), a justiça é só um dos fios do
e cujo livramento está nas mãos de Deus. cordão de três dobras, juntamente com a
Mais especificamente, salmos como o 22 grandeza e a graça. A bondade de Deus
são encaixados dentro desse ritual de hu- (34) é inseparável de sua santidade (103),
milhação e seu desfecho numa dramática e tem seu contraponto em sua ira (38).
OS SALMOS 738

Ele é universal em seu domínio (67) e é lembrado para sempre (45.17); possui
particular na escolha de Israel (87), dois um nome eterno (72.17), e é objeto de
aspectos da verdade que se unem no Davi agradecimentos infindáveis (72.15). Com
messiânico, rei de Israel e do mundo (2; relação ao Senhor, ele recebe bênção para
72; 110). Tanto para o seu povo como um sempre (45.2). Ele é o herdeiro da aliança
todo (80) quanto para o indivíduo (23), de Davi (89.28-37; 132.11s.), e do sacer-
o Senhor é Pastor, o que constitui a base dócio de Melquisedeque (110.4). Ele per-
da confiança para se buscar nele o livra- tence ao Senhor (89.18) e é devotado a
mento (16; 25; 31), reconhecendo que ele ele (21.7; 63.1-8,11). Ele é seu filho (2.7;
cuida das necessidades de seu povo (e.g., 89.27), sentado à sua direita (110.1) e, ele
3; 27). Ao mesmo tempo, há o problema mesmo, é divino (45.6).
da providência divina, as frequentes ad- O comentário deve ser consultado em
versidades do povo de Deus, tanto indivi- relação às referências listadas acima, mas
duais (e.g., 10; 12) quanto coletivamente as dimensões exageradas desse retrato são
(44; 74). É essa admissão franca de que claras. Embora grande parte desse retrato
o sofrimento faz parte da experiência do possa ser atribuída, em princípio, ao orá-
povo do Senhor que fornece a perspecti- culo fundamental de Natã, em 2Samuel 7,
va adequada para entender a ligação entre as etapas que levaram essas esperanças a
justiça e prosperidade (e.g., 1). Isso não é se transformarem na expectativa do surgi-
a narrativa de uma experiência, mas uma mento de um rei perfeito, justo, humano,
declaração de fé (como quando afirmamos divino, eterno e universal não podem ser
crer em "Deus Pai, Todo-Poderoso" num determinadas. A velha teoria de que essas
mundo que contesta tanto a sua paterni- esperanças só se desenvolveram após o
dade quanto seu poder absoluto). Como exílio babilônico, quando a monarquia
Deus é bom e não há outro Deus, o resul- cessou e não mostrava sinais de recupe-
tado final para o seu povo está garantido. ração, é desnecessária. O fracasso da mo-
(2) O Rei. O que se vê no retrato do narquia já vinha desde o tempo do próprio
Rei traçado em Salmos é a mais evidente e Davi! As vivas esperanças subentendidas
fantasiosa bajulação de sucessivos reis da em Juízes 17.6; 18.1; 19.1; 21.25 não ha-
linhagem de Davi, ou então é a expressão viam se cumprido; o historiador do livro
de um grande ideal, um espelho da verda- de Reis pode colocar o foco na monarquia
de colocado diante de cada rei, aguardan- pactuai, constitucional e dinástica de Judá
do Aquele em quem tudo se cumprirá. O ou na monarquia carismática "faça-você-
Rei enfrenta a oposição do mundo (2.1-3; mesmo" de Israel, mas o rei tão desejado
110.1), mas, como Vitorioso (45.3-5; não aparece. Esse fracasso foi a terra fér-
89.22s.) e pela ação do Senhor (2.6,8; til para o surgimento de uma das maiores
18.46-50; 21.1-13; 110.1s.), estabelece expectativas do AT.
um governo mundial (2.8-12; 18.43-45; (3) Imprecações. A veemência com
45.17; 72.8-11; 89.25; 110.5ss.) com sede que os inimigos são denunciados em
em Sião (2.6) e marcado pela moralida- Salmos sempre foi motivo de dificulda-
de (45.4,6; 72.2-4,7; 101). O seu gover- de. O desejo da repentina destruição dos
no é eterno (21.4; 45.6; 72.5); próspero inimigos (35.8), de sua morte (55.15), de
(72.7,16) e constante em sua reverência que seus dentes sejam quebrados (58.6), da
pelo Senhor (72.18,19). Superior em destituição (109.10) e massacre de seus fi-
dons, graças e dignidade (45.2-7), ele é lhos (137.9), têm alguma coisa em comum
também amigo dos pobres e inimigo da com a mente de Cristo? Passagens como
opressão (72.2,4,12-14); debaixo de sua essas são encontradas em cerca de 25 sal-
autoridade, a justiça floresce (72.7). Ele mos, e os comentaristas têm se apressado
11
739 OS SALMOS _:11

em rejeitá-las, considerando-as como "mo- reprovemos suas orações, o modo como


ralidade veterotestamentária", condenada eles enfrentavam a situação era melhor
e tomada obsoleta pela revelação de Deus que o nosso. Mas esse tipo de julgamen-
em Cristo. Há três razões pelas quais isso to não é necessário: as orações deles nos
é insatisfatório: (a) Sentimentos seme- chocam por causa de seu realismo. Nós
lhantes são expressos no NT (Gl 1.8,9; Ap nos sentimos à vontade com 143.11, mas
6.10; 18.20; 19.1-3) e pelo Senhor Jesus hesitamos com seu corolário realista (12),
(Mt 11.20-23; 23.13-36), portanto, se há da mesma forma que oramos com ale-
um problema aí, ele é bíblico, não exclusi- gria pela segunda vinda do Senhor Jesus
vo do Antigo Testamento. (b) O AT, assim (2Ts 1.7), mas hesitaríamos em compor
como o NT, realça o amor (Lv 19.17,18), o nossa oração em termos das realidades
fato de que Deus odeia a violência (SI 5.6), escriturísticas desse evento, pedindo que
o dever de se pagar o mal com o bem (SI o fogo ardente consumisse os que não se-
7.3-5; 35.12-14) e a rejeição da vingança guem o evangelho (2Ts 1.8). Se fôssemos
(Dt 32.35; Pv 20.22). (c) Em quase todos mais santos - e, certamente, se estivés-
os casos, a imprecação que achamos ques- semos menos satisfeitos e soubéssemos
tionável aparece lado a lado com uma espi- mais sobre o poder do perseguidor - es-
ritualidade invejável, e.g., Salmos 139. Um taríamos mais prontos a nos identificar
comentarista que classifique as impreca- com eles do que a condená-los.
ções em geral como "contrárias ao espírito O comentário a seguir procurou se con-
do Evangelho" encontra em 139.19-22 "o centrar na estrutura de cada salmo, consi-
dever de manter vivo no coração humano derando-a a chave para seu significado.
[...] indignação ardente contra [...] o mal" Sugere-se enfaticamente a todo estudante
(Kirkpatrick, The Psalms [Cambridge, dos salmos (de fato, a todo estudante da
1910]) - simplesmente porque é impos- Bíblia) que "o meio é a mensagem" e que
sível imputar uma espiritualidade fraca ao o primeiro objetivo num estudo deve ser
autor dos v. 1-18. descobrir e esclarecer a estrutura. Ver o
Mais positivamente, observamos que artigo Poesia na Bíblia.
todos são orações (exceto 137.9, v. comen-
tário). Não há nenhum indício de que os Leitura adicional
salmistas planejassem atos de vingança, DAY, 1. Psalms. Sheffield Academic Press,
ou de que acalentassem ideias vingativas. 1990.
Sua reação diante da ofensa foi entregar SEYBOLD, K. Introducing the Psalms. T.
o assunto nas mãos de Deus. Como ob- and T. Clark, 1990.
serva 1. R. W. Stott (The Canticles and KIDNER, F. D. Salmos 1-72: introdução e
Selected Psalms [Hodder & Stoughton, comentário. SCR Vida Nova, 1980.
1966], pp. llss.): "Não acho dificil ima- _ _ _ _o Salmos 73-150: introdução e
ginar situações em que santos homens comentário. SCR Vida Nova, 1981.
de Deus clamam, e devem mesmo cla- K1RKPATRICK, A. F. The book of Psalms.
mar, a Deus por vingança [...] e isso sem CBSC. Cambridge, 1910.
qualquer sentimento de animosidade VAN GEMEREN, W. A. Psalms. EBC.
pessoal". Vivendo como vivemos, numa Zondervan, 1991.
época brutal, em que a vingança pessoal CRAIGIE, P. C. Psalms l-50. WBC. Word,
é um direito pressuposto, e os problemas 1983.
da coletividade, reais ou fabricados, "jus- TATE, M. Psalms 51-100. WBC. Word,
tificam" a violência, o terror, os atentados 1991.
a bomba e a tortura, devemos pelo menos ALLEN, L. C. Psalms 101-150. WBC.
estar dispostos a reconhecer que, embora Word,1983.
SALMO 1 740

LIVRO 1 3 A árvore frutífera e perene. Plan-


tada (lit., "transplantada", i.e., uma nova
Salmo 1. O contraste decisivo posição em que a pessoa foi colocada
O salmo 1 introduz todo o livro de Salmos. (80.8; cf CI1.l3).
Em primeiro lugar, ele é um salmo de fé 4 A palha transitória.
(3d). Essa promessa de prosperidade não é S Não subsistirão no juízo do Senhor.
um promessa de boa sorte como recompen- Juízo ... congregação. Na avaliação divina
sa por bom comportamento - os salmos final, os que têm um relacionamento cor-
conhecem a vida bem demais para fazer reto com Deus (justos) contrastam com os
isso! (cf 42; 73). Ao contrário, da mesma que seguiram seu próprio conselho e, con-
forma que continuamos a dizer: "Creio em sequentemente, não viveram dentro dos
Deus Pai Todo-Poderoso", mas descobri- parâmetros da revelação divina.
mos que a vida muitas vezes parece negar 6 O caminho da ruína: o destino
tanto sua paternidade quanto seu poder final. Conhece, tem um relacionamento
ilimitado, o v. 3 professa um credo: este íntimo e cuida com carinho. Perecerá, a
mundo pertence a Deus, e os que tomam última palavra, faz um contraste com a ini-
o seu lado certamente serão abençoados cial, bem-aventurado (1) - realmente um
no final (6). Em segundo lugar, esse é um contraste decisivo!
salmo de compromisso: com um modo de
vida distinto (1) e com a palavra de Deus Salmo 2. O rei do mundo
(2). De fato, a "diferenciação" é o tema em O tema é desenvolvido em quatro seções
tomo do qual o poema se estrutura. que se equilibram mutuamente: os reis
que se opõem ao SENHOR e ao seu Ungido
AI (v. 1) O caminho da bênção (1-3) são convidados a se refugiarem, ser-
B I (v. 2) Persistência na lei do Senhor vindo ao SENHOR e prestando homenagem
C 1 (v. 3) A árvore sempre frutífera ao Filho (10-12). No meio, duas vozes
C2 (v. 4) A palha transitória são ouvidas: o Senhor fala da nomeação
B2 (v. 5) Não subsistirão no juízo do de seu Filho para reinar (4-6) e o Filho
Senhor fala da divina promessa do governo mun-
A 2(v. 6) O caminho da ruína dial (7-9). Esse salmo está embasado em
2Samuel 7, a promessa feita a Davi de um
10 caminho da bênção: vida presente. nome supremo, um relacionamento de fi-
Dependendo do contexto, Bem-aventura- liação com o Senhor e uma linhagem eter-
do pode significar: debaixo da bênção de na. Provavelmente, o salmo era usado para
Deus, feliz ou realizado, ou intrinsecamen- saudar cada um dos reis da linhagem daví-
te correto. Todos os três significados se dica em sua ascensão ao trono, como um
encaixam aqui. Mas a bênção e a alegria lembrete do ideal, mas seu cumprimento
derivam do compromisso com a vida cor- ocorreu no Filho Maior do grande Davi
reta. Anda... se detém ... se assenta. Nossa (Lc 1.31-33), da mesma forma que a recu-
diferença precisa estar patente na maneira sa constante do mundo em permitir "que
como vivemos. este reine sobre nós" (Lc 19.14) atingiu o
2 Persistência na lei do Senhor. clímax no Calvário (At 4.25,26; 1Co 2.8).
Lei, "ensino", como o que um pai cuida- A época em que vivemos, embora às ve-
doso oferece a um filho amado (Pv 3.1). zes pareça amável e complacente, essen-
Prazer... medita. Por trás da obediência cialmente odeia, resiste e se rebela contra
ativa do v. 1 está a santidade interior de Deus em Cristo. Historicamente, o rei da-
emoções e mente exercitadas de dia e de vídico encontrava-se sempre sob ameaça
noite na palavra de Deus. do mundo ao redor; essencialmente, isso

741 SALMO 3 . ·
...
reflete a rebelião do mundo contra Deus; o Filho continuam conscientes do temor
profeticamente, o salmo fala da rejeição que lhe é devido por direito e da ira que é
de Jesus. inseparável de sua santidade. Bem-aventu-
1-3 Imaginam coisas vãs (lit.) "murmu- rados (cf 1.1). Se refugiam. "Não há refú-
ram".Aimagem aqui talvez não seja tanto a gio dele [para onde se possa fugir dele]; só
de rebelião, mas sim de inquietação. O que há refúgio nele" (Kidner).
faz com que o mundo não tenha paz? O v. 2
responde: não pode haver paz enquanto o Salmo 3. Oração e confiança:
Senhor e o seu ungido forem rejeitados. A um salmo para um novo dia
inimizade contra Deus está no cerne da na- Aqui temos um salmo com um claro foco
tureza decaída (Cl1.21). Ungido (cf 1Sm central, i.e., que a oração nos traz confian-
16.13; 24.6; Is 11.1-9). Laços ... algemas. ça para enfrentar a vida (4-6). O movimen-
Uma das manobras mentirosas de Satanás to neste salmo é primeiramente em direção
(Gn 3.1-5) é apresentar as condições que a esses versículos centrais, e depois para
Deus impõe para a bênção como restrições fora deles.
cruéis que impedem o homem de desfrutar
da completa liberdade. 4-6 O Senhor não AI (v. 1,2) Necessidade: não há salvação
negocia com rebeldes nem faz concessões B' (v. 3) Afirmação: proteção divina
para atender às suas exigências, mas sim- C (v. 4-6) A oração traz confiança
plesmente reafirma seu plano soberano: B2 (v. 7) Apelo pelo socorro divino
seu rei é constituído (6), e ponto final - N (v. 8) Solução
assim como, em Gênesis 3, a grande rebe-
lião não alterou um til da soberania divina! Este salmo está fundamentado em
Ira ...furor, respectivamente o ato de bufar 2Samuel 15.13-17.24. Na primeira vez
de raiva (o sentimento de ira) e a força ar- que Davi fugiu de Absalão, a fuga durou
dente do furor (a expressão da ira). Sião, li- duas noites, e é natural que na primeira ele
teralmente, a sede da monarquia davídica; estivesse desanimado (1,2). Mas o antídoto
profeticamente, o centro da nova criação para o desânimo é, em primeiro lugar, pro-
de Deus em Cristo (Hb 12.22-24).7-9 Um clamar a verdade divina (3) e, em segundo,
relacionamento de filiação, uma promessa buscar o auxílio divino (4). A consequên-
de herança e uma dotação de poder. Meu cia é a bênção de uma noite de sono (5) e a
Filho. Deus adotou figuradamente os reis confiança renovada para enfrentar o novo
da linhagem de Davi. Hoje, o dia da posse, dia (6). Da mesma forma que o dia anterior
o começo do relacionamento. Quando usa- terminou com uma oração (4), o novo dia
do em relação a Jesus em sua ressurreição começa com um chamado para que Deus
(At 13.32-37), o significado é que Deus venha salvar (7), pois ele sempre foi ini-
deixou publicamente claro algo que sem- migo dos inimigos de Davi. Assim, a ora-
pre fora verdade. Pede-me. Ao contrário ção confiante evoca as graças recebidas no
do rei rebelde, o Filho vive uma relação de passado e gera confiança no futuro (8).
dependência submissa em relação ao Pai. 1,2 Necessidade: não há salvação.
Neste ponto, ele foi tentado (Mt 4.8-10), Não há em Deus salvação. Este é o golpe
mas prevaleceu (Mt 26.39). Vara deferro ... mortal: uma atitude (adversários) transfor-
como um vaso de oleiro, o contraste entre o mou-se em ação (se levantam) e reflete a
poder absoluto e a impotência total. 10-12 opinião pública - nem Deus pode ajudar
Servi... beijai. Não pode haver serviço ao Davi agora!
Senhor sem submissão ao Filho! Temor... 3 Afirmação: proteção divina. Porém
alegrai-vos... tremor. Há uma diferença tu é uma expressão enfática. A solução
entre confiança e presunção. Os que beijam para a tristeza dos v. 1,2 é recordar o que
SALMü4 742

Deus é. Minha glória: Davi foi destituído o medo, mas o modo correto de agir é usar
de todo esplendor terreno, mas não pode as horas da noite para a oração silenciosa
ser privado de Deus. Minha cabeça (cf (4c, não consultai, mas "falai com"; "refli-
2Sm 15.30). tam nisso", NVI), aproximando-se de Deus
7 Apelo por salvação divina. Levanta- (5a) no espírito dos sacrificios de con-
te, SENHOR! (cf Nm 10.35). Usando o sagração (holocausto), confissão (oferta
grande clamor de Moisés, Davi exprime pelo pecado), comunhão (oferta pacífica),
sua confiança em que, mesmo na aparen- e com confiança (5b). 6 Combata o aba-
te derrota, ele e seu séquito em fuga es- timento com oração adequada. 7,8 O tes-
tão, na verdade, sob a orientação divina. temunho de Davi: a oração produz uma
Queixos ... quebras os dentes. Bater na face alegria maior do que a que o mundo pode
é um ato de repreensão (1Rs 22.24); que- dar, por meio da paz e da segurança que
brar os dentes é tomar inofensivo. só o SENHOR pode proporcionar.
8 Solução. Do SENHOR é a salvação.
Salmo 5. O contexto moral
Salmo 4. Orando, sabendo, da oração eficaz
confiando, descansando Possivelmente, este salmo medita sobre a
Este é um salmo da noite (8), provavel- segunda manhã da fuga de Davi, quando
mente da época em que Davi fugia de era perseguido por Absalão (v. SI 3). Não
Absalão (v. SI 3), pois ele enfrenta uma há nenhum título histórico para nos guiar,
segunda noite dormindo sem conforto e mas o salmo diz respeito à oração de ma-
sob ameaça. Assim como o salmo 3, este nhã (3), e a alternância de parágrafos que
é um salmo de oração, e podemos notar falam daqueles que buscam a Deus em
que entrar no lugar de oração (1) é encon- justiça e dos maus, a quem ele rejeita,
trar-se no lugar de paz (8) - ainda que pode muito bem simbolizar a situação de
as pressões continuem as mesmas (os que intenso contraste moral em que Absalão
desonram, 2; os que desanimam, 6). Mas colocou Davi.
o cerne deste salmo não é orar, mas saber
(3) e confiar (4,5). O primeiro é o tema do AI (v. 1-3) Confiança no Senhor
discurso imaginário de Davi perante seus B' (v. 4-6) O Senhor rejeita os perver-
detratores, na corte de Absalão; o segundo, sos
é a sua mensagem aos desanimados de seu C (v. 7,8) Compromisso com o ca-
próprio acampamento, que se preparam minho reto do Senhor
para dormir. B2 (v. 9,10) O Senhor lança fora os re-
1 A verdadeira oração é urgente (1a), beldes
se baseia na justiça de Deus (1b), é espe- N (v. 11,12) Alegria no Senhor
cífica (1c) e dependente da misericórdia
divina (1d). 2 Um apelo imaginário aos O salmo se concentra na adoração e na
que se juntaram a Absalão para que parem oração santas e reverentes como elemen-
de denegrir sua glória de rei, abandonem tos necessários para uma vida justa (7,8).
suas ilusões de poder e suas "mentiras" Desse modo, Davi adota uma posição
(não falsos deuses). 3 Piedoso, uma pa- contrastante com a dos que praticam a ini-
lavra complexa, que significa aquele a quidade (4,5) e falam sem sinceridade (9),
quem Deus ama com amor imutável e mostrando o compromisso de alguém que
que retribui o seu amor (cf 2Tm 2.19a). espera resposta para a sua oração (1-3) e
4,5 Uma palavra para os desanimados do conta com a proteção divina (11 ,12).
acampamento de Davi. Irai-vos, ou me- 1-3 Confiança de que o Senhor ouve
lhor, "Tremei", Não há motivo para negar a oração. Oração: (a) é a expressão de
743 SALMü6

um problema (gemido) em palavras (1); Salmo 6. Grande necessidade,


(b) traz consigo a garantia de ser ouvida. grande confiança renovada
Observe a sequência: (2) Escuta... pois ... A referência a inimigos humanos (7,8,10)
imploro; (c) é a primeira coisa do dia: de sugere que o pano de fundo deste salmo
manhã (3ab). A ideia central aqui não é poderia ser o mesmo do salmo 3: conside-
tanto a de regularidade (cf Is 50.4), mas a rando as dificuldades da jornada, a amea-
de prioridade no dia; (d) tem a expectati- ça de um ataque e a responsabilidade pelo
va de uma resposta (3c). grupo heterogêneo (2Sm 15.16,18,22) que
4-6 e 9,10 O Senhor rejeita os perver- fugiu com ele, não é de admirar que Davi
sos e lança fora os rebeldes. Cada uma se sentisse esgotado em alguns momentos
dessas seções começa com "pois" (omiti- (2Sm 16.14; 17.29). Por outro lado, o v. 2
do na NVI); isto é, Davi (1-3) pode espe- indica mais claramente um efetivo período
rar que sua oração seja atendida "porque" de enfermidade. Enfrentando uma vazante
ele não é como os perversos (4-6) e ora de suas energias físicas, mentais e emocio-
por um caminho reto (8), "porque" deseja nais, Davi sonda as profundezas aqui re-
ser diferente dos rebeldes que o Senhor gistradas. Os inimigos humanos romperam
lançará fora (rejeita-os, 9,10). Este é o suas defesas (6,7), mas, num nível mais
compromisso moral da pessoa que ora, profundo, existe a ira do SENHOR trazen-
abrangendo o caráter (4,5a), a conduta do fraqueza (debilitado, 2), terror (ossos...
(5b), o discurso (6a), os relacionamen- abalados, 2) e perturbação de alma (3). Em
tos (6b), a sinceridade (9a), a integridade sua depressão, talvez Davi se lembrasse
(9b) e, mais uma vez, o discurso (9cd). de que, se não tivesse pecado com Bate-
10 Será que um pedido como esse é cor- Seba (2Sm 11; 12), não teria ficado omisso
reto? Como a maioria das imprecações quando seu filho mais velho violentou a
(v. Introdução), esta oração pede a Deus irmã de Absalão (2Sm 13). Se ele não ti-
que faça algo que ele já declarou que vai vesse tratado o caso de Absalão de maneira
fazer de qualquer maneira - expor e pu- errada, deixando que seu espírito violento
nir o pecado e os pecadores (10a,c); fazer se inflamasse (2Sm 14; 15), a rebelião tal-
com os acusadores mentirosos o mes- vez nunca tivesse ocorrido. Davi pode ter
mo que eles teriam feito com o alvo de pensado que, em sua ira, o Senhor se afas-
sua maldade (10b; cf Dt 19.16-19); ela tou dele (4)! Mas o maior perigo de todos
deixa a ação a cargo de Deus, não pro- leva ao mais simples de todos os remédios:
pondo a execução de nenhuma vingança o clamor tem compaixão de mim (2) faz re-
pessoal (Pv 20.22; Rm 12.19); e é moti- nascer a confiança: o SENHOR ouviu a minha
vada pela ofensa cometida contra Deus súplica (9). Se a maior carência é resolvida
(IOd), não por animosidade pessoal. 7 por meio da oração, não se deve esperar
Como pode Davi falar de uma casa, se que o mesmo aconteça com necessidades
o templo ainda não tinha sido construí- menores (lO)? Por meio da oração, o ter-
do? Porque (1Sm 1.9,24) essa era a de- ror de Davi (1-3) transforma-se no terror
signação comum do lugar onde o Senhor dos seus inimigos (10), perturbados, lit.,
habitava, mesmo que fosse apenas uma "aterrorizados", como nos v. 2,3; a volta
tenda (1Sm 2.22; 2Sm 7.2). Observe que do Senhor em resposta à oração (4,5) é o
a riqueza da tua misericórdia infunde em sinal para que os inimigos se afastem (8,9);
nós o temor quando entramos no lugar quando estava fraco (6,7), Davi descobriu
de santidade. que era forte.
11,12 Alegria no Senhor protetor. Notas. 4 Volta-te, "retoma". O v. 5 é
Justo, todo aquele que está justificado frequentemente citado como uma indica-
com Deus. ção de que não havia esperança de vida
SALMO 7 744

após a morte no AT (cf 49; 73), mas aqui uma coisa viva. Mas se o pecado parece
Davi fala da morte do ponto de vista de voltar para a pessoa que o pratica é por-
alguém que se sente afastado de Deus, ob- que há um Deus justo (6-8a) e irado (10-
jeto da ira divina. Sobre esta questão, o NT 13) diante do qual todos nós teremos de
vai muito além de qualquer coisa que o AT nos apresentar um dia, mas que é o mes-
era capaz de revelar (Mt 10.28). mo todos os dias, com recursos sempre
disponíveis para castigo dos que não se
Salmo 7. A bênção de arrependem. À luz dessa visão do peca-
uma boa consciência do, e diante desse Deus, Davi afirma sua
Não sabemos quem foi Cuxe, mas sabemos inocência: esta é a natureza e a bênção de
que Saul, o rei benjamita (1Sm 9.1), cer- uma consciência limpa.
cou-se de benjamitas (I Sm 22.7). Sabemos 1,2 Refúgio presente e oração. Refu-
também que ele foi instigado contra Davi gio. O livramento ainda está no futuro
por línguas ferinas (1Sm 24.9; 26.19). Uma (17), mas a proteção é uma realidade pre-
situação como a de lSamuel 18.10-24 te- sente. Todos (1) se transforma em singular
ria dado ensejo mais do que suficiente para (2; "para que ele não arrebate", ARe), lit.,
que os "Cuxes" deste mundo inflamassem "ou ele irá..."; i.e., Davi tem muitos adver-
o medo paranoico de Saul em relação a sários, mas um em particular, como indica
Davi. Mas ele sabia que nenhuma acusa- o título.
ção de deslealdade para com Saul era ver- 3-5 O pecado e sua recompensa: o
dadeira; mesmo diante do tribunal de Deus testemunho de Davi. Estava em paz (4),
(6,7,10-13), sua consciência estava limpa ligado por um tratado de amizade. Sem ra-
(8b,9), e esses versículos são o cerne do zão (4) pode ser: "...libertei aquele que é
salmo e uma intimação para se conservar meu adversário sem motivo". Em vez de
em todas as coisas "uma consciência pura devolver o mal, Davi tem um histórico de
diante de Deus e dos homens" (At 24.16; pagar o mal com o bem (cf Mt 5.43-48; Rm
cf Hb 13.18; 1Pe 3.16). 12.17-21). Muito tempo depois de Saul ter
tentado matá-lo, Davi ainda ministrou ao
AI (v. 1,2) Refúgio presente e oração rei demente com sua música e lhe prestou
B 1 (v. 3-5) O pecado e sua recompensa outros devotados serviços (1Sm 18.10-13;
C' (v. 6-8a) O Deus de Justiça 19.9; lSm 20.1; 24.10s.,17; 26.18,23s.).
D (v. 8b,9) Uma consciência Arraste no pó a minha glória, arruíne mi-
limpa nha reputação publicamente.
C2 (v. 10-13) O Deus de Justiça 6-8a O Deus de Justiça: o juízo final.
B2 (v. 14-16) O pecado e sua recom- Reúnam-se... os povos indica que Davi está
pensa se referindo ao último julgamento. Por mi-
A2 (v. 17) Agradecimentos e louvores fu- sericórdia, o Senhor pode deixar passar pe-
turos cados agora, mas não naquele dia. Porém,
Davi está tão confiante de sua inocência
O movimento geral do salmo é o tema que pede pelo juízo final agora!
bem conhecido de que a oração resolve 8b-9 Uma consciência limpa diante
crises e resulta em louvores por sua so- de Deus. Retidão (8), não perfeição sem
lução. Os v. 3-5 e 14-16 reconhecem que pecado, mas equivalente a uma alegação
todo pecado tem uma consequência; e, de "inocente" em relação a uma acusação
na situação narrada, Davi está disposto a específica. Integridade (8), isto é, sua re-
enfrentar todo o rigor da justiça. Este é o tidão não é um mero conformismo, mas
modo como o pecado "funciona" (14-16): um estado do homem como um todo; cf
ele parece um bumerangue, como se fosse a mente e o coração (9) - que se refere
8
745 SALM09"
8.
a pensamentos, imaginação, sentimentos circunstância extraordinária em que a fra-
e reações. queza sobrepujou o poder. Quando, à noi-
10-13 O Deus de Justiça: Salvador e te (3), ele meditava sobre isso, percebeu
Juiz. Deus é o meu escudo, lit., "Meu escu- que era um traço típico do modo de agir
do está com Deus" - ele é o meu escudei- do Senhor. A humanidade, insignificante
ro/defensor. Converter (12), "arrepender". quando comparada com a imensidão do
Mesmo diante de um Deus assim (9,11) a universo, é tomada pelo Senhor, receben-
penitência evita o juízo. do dele glória o domínio sobre o universo
14-16 O pecado e sua recompensa: - um princípio perfeitamente concretiza-
algo inevitável. O v. 14 se inicia com Eis do no Senhor Jesus Cristo e que ainda está
- "Vejam, é assim!", a conexão entre o para ser realizado na humanidade redimida
pecado e sua paga. (Hb 2.5-9). Esse princípio é claramente
17 Agradecimentos e louvores futu- expresso na maravilha da chamada divina
ros. Uma consciência limpa faz com que (1Co 1.26-28) e está à disposição de todo
Davi tenha confiança num futuro diferente. crente (2Co 12.9,10).
Nota. Título, sigaiom (ARe), v. Intro- Notas. la Senhor nosso, (lit.) "nos-
dução. so Soberano"; também no v. 9. lc,ld,2
Suscitaste força, fundaste a tua força sobre
Salmo 8. O Deus dos um alicerce firme. Vingador pode signi-
insignificantes ficar alguém que executa uma retaliação
Se os v. lc,2 fossem retirados do salmo, por uma ofensa sofrida (Jr 5.9), mas tam-
restaria um poema equilibrado, com um bém pode significar, simplesmente, como
tema coerente. As aclamações do magní- aqui, alguém agindo em proveito próprio
fico nome, que ocorrem no início e no fim, (v. 44.16).
emolduram duas estrofes de mesmo com-
primento que tratam do reconhecimento e Salmos 9 e 10. Fé combativa
honra que o Senhor condescende em outor- Os salmos 9 e 10 formam um acróstico alfa-
gar à humanidade (3-5) e da posição de do- bético incompleto (v. Poesia na Bíblia).
mínio que ele nos deu sobre toda a criação Quatro letras estão faltando, duas foram
(6-8). Neste ponto, o NT vê o Senhor Jesus transpostas e uma aparece na segunda
Cristo em seu reino presente (Ef 1.22; Hb palavra de sua estrofe. Foram feitas ten-
2.5-9) e no triunfo futuro (ICo 15.27) que tativas de restaurar um acróstico perfeito,
será compartilhado com o povo comprado mas o acróstico incompleto se divide em
por ele (Ap 5.9,10). três seções de seis letras cada: 9.1-12;
Mas o que desencadeou esta linha de 9.13-10.6; 10.7-18. O tema é a oposição
pensamento sobre a condescendência de dos perversos (9.6,17,18; 10.2,3,4,13,15).
Deus e o domínio do homem no mundo? A seção 1 (9.1-12), que começa e termina
A resposta é encontrada quando se recolo- com adoração (1,2,11), é uma declaração
ca a primeira estrofe em sua posição ori- tranquila: os perversos estão ao derredor,
ginal. O Deus transcendente (1c,d), com mas Deus está no trono. Porém, na seção
o poder soberano em suas mãos, decide 2 (9.13-10.6), a realidade da vida é tur-
usar a boca de pequeninos e crianças de bulenta, gerando um clamor pela compai-
peito (2). Devemos interpretar isso literal- xão (9.13) divina e por uma ação de revide
mente - um inimigo silenciado por uma (9.19). O Senhor está distante (10.1), os
criança? Ou estaria Davi usando "criança" perversos prosperam (10.2-6). O fim é cer-
figurativamente para falar de algo peque- to (9.15,16), mas isso não traz necessaria-
no, fraco e impotente? Não há como saber, mente o conforto necessário aqui e agora.
mas está bem claro que ele passou por uma Contudo, na seção 3 (10.7-18), a oração é
SALMü9 746

o recurso suficiente. Os perversos (7-10) boram a vindicação dos que pertencem ao


acham que Deus não se importa, enquanto Senhor (4) numa esplêndida afirmação de
a pessoa que ora busca a ação divina, pois sua própria segurança. Em outras palavras,
Deus não é como eles dizem, mas há de o que será totalmente verdadeiro no dia do
destruir e julgar de forma final e universal julgamento (porque Deus está no trono) já
(11-16). A oração será ouvida; os desam- é verdadeiro agora, até certo ponto (por-
parados receberão o que é seu de direito; e que ele está sempre no trono). 9,10 O que
os opressores deixarão de existir (17,18). o Senhor é e o que nós podemos fazer. Ele
é refúgio e alto refúgio, a mesma palavra,
9. 1-12 Fé confiante ressaltando a altura (inacessível), a "se-
gurança máxima". "Nunca desamparaste"
AI (v. 1,2) Louvor (10, ARe): uso do pretérito perfeito para
B' (v. 3,4) O rei justo expressar a imutabilidade do caráter divi-
C (v. 5,6) O juízo final no, i.e., "nunca o fez e jamais fará".
B2 (v. 7-10) O rei justo 11,12 Louvor. O Senhor "reina em
N (v. 11,12) Louvor Sião" (NVI; habita, ARA). O juízo final dei-
xará absolutamente claro que o Senhor rei-
A derrota final dos perversos e o fim da na (4,7), mas ele já é rei agora, reinando
oposição deles não é o nosso único conso- entre o seu povo. É preciso proclamar isso
lo, mas é o nosso ponto de partida (5,6). aos povos. Feitos, suas obras de criação,
"Deus ainda está no trono". Em primeiro redenção e preservação.
lugar, Davi toma posição, imaginariamente,
no dia do julgamento (3,4) e, usando o 9.13-10.6 A fé golpeada
tempo passado, descreve a derrota de seus O clamor por misericórdia (9.13) e a per-
inimigos e sua própria vingança, enquanto gunta Por quê? (10.1) anunciam o tema da
nos versículos correspondentes (7-10) ele segunda seção do salmo. A fé não deixou
estende o olhar para adiante, antevendo a de ser confiante. Ela não se baseia em ins-
obra do mesmo Senhor reinante. táveis acasos terrenos, mas no Deus que,
1,2 Louvar, "dar graças"; maravi- apesar de tudo, está no trono. Porém, os
lhas, atos cuja causa só pode estar fora da golpes terrenos também são reais, e mui-
humanidade. Em ti. A alegria passa do feito tas vezes o mundo em que vivemos parece
(maravilhas) para o realizador. Nome, tudo pertencer aos ímpios e maus.
que o Senhor revelou sobre sua natureza.
Ainda que a vida seja difícil e o ajuste final AI (v. 13,14) A necessidade imediata: o so-
de todas as coisas ainda não tenha aconte- frimento está presente
cido, há motivos suficientes para louvor no B (v. 15-20) Certezas quanto ao futuro
que o Senhor é e faz. N (10.1-6) Necessidade imediata: Deus
3,4 O rei justo, derrotando e vingan- parece distante
do. Tua presença. A presença do Senhor é
suficiente (Ap 6.16). 13,14 Necessidade imediata: o sofri-
5,6 O juízo final. O julgamento do mento está presente. Tu que me levantas,
Senhor abrange o caráter (o nome), as rea- uma descrição tanto de caráter quanto de
lizações (suas cidades) e o lugar na histó- ação. O seguro contarei (1) é modificado
ria (memória). para que eu proclame, "conte" (14). A ad-
7-10 O rei justo, julgando e prote- versidade atual amortece a voz de louvor.
gendo. Repetindo os temas trono, justiça Permanece a certeza de que Deus irá agir
e julgar, encontrados nos versículos cor- - mas um pouco de ação agora ajudaria!
respondentes (3,4), esses versículos ela- Como este salmo é realista!
111
747 SALMO 11 - :
111

15,16 O pecado receberá sua paga. se feito isso. Igualmente surpreendente é


"Precipitaram-se... ficou preso" (ARe) (15). que nada é feito, exceto por meio da ora-
O uso do pretérito perfeito indica certeza: ção. Por mais mortífera que seja a ameaça
"com certeza acontecerá". Pela providência (9.13; 10.8), por mais poderoso que seja o
divina, o pecado é como um bumerangue. inimigo (10.9), basta orar, porque o Senhor
Está (16), tempo presente: os perversos já é rei (9.4,7), ele conhece as nossas neces-
estão apanhados (sem saber!). sidades (10.14), e se comprometeu a pro-
17 Os perversos são eliminados. Serão porcionar refúgio (9.9,10), levantar (9.13)
lançados, tempo futuro. Inferno, heb. sheol, e ajudar (10.14).
o lugar onde habitam os mortos.
18-20 Deus não esquece. A certeza de Salmo 11. Fé e verdade
condenação (15-17) e livramento (18) fu- Um pano de fundo como o de 1Samuel
turos não resolve as adversidades atuais; 18.8-19.7 ilumina este salmo. A vida de
daí a necessidade de oração (13). Davi estava em perigo diariamente. O sal-
10.1-6 Deus parece distante. A per- mo se divide em três partes.
gunta (1) não expressa uma realidade teoló- 1-3 A proteção do Senhor. O conselho
gica (v. 9.10), mas um sentimento pessoal. para fugir tem fundamento: por causa do
Muitas vezes podemos nos sentir privados perigo real (2); e porque a total instabili-
da presença de Deus, mas a maneira certa dade da sociedade toma impossível manter
de reagir a esse sentimento não é alimen- um curso seguro. Davi, entretanto, afirma
tar a tristeza, e sim levar o problema ao que o caminho da confiança é contrário ao
Senhor. 2-6 Aqui está o cerne da tensão argumento da fuga. Fundamentos (3), as
entre a fé e a experiência pessoal. A fé diz "regras básicas" que organizam a socie-
que os maus certamente serão apanhados dade. Numa situação como a demência de
em sua própria armadilha (9.15). Mas, na Saul, as regras são mudadas a todo instante,
vida (2), muitas vezes são os fracos que são e Davi não conseguiria saber como evitar
apanhados, enquanto os maus continuam transgredi-las. Mas o argumento em defesa
a praticar, impunes, valores errados (3), da confiança também é sólido: as palavras
ateísmo (4), prosperidade sem moralidade no SENHOR (1) são enfáticas. Como ele é
(5ab) e serena autoconfiança (5c,6). digno de confiança, a atitude mais lógica
diante da vida é confiar.
10.7-18 A fé que ora 4-6 A providência do Senhor: de seu
7-11 O Problema: o perverso é hostil na fala trono, ele observa e examina (4). Confiança
(7), assassino no intento (8,9), impiedoso não garante uma vida de tranquilidade e
na força (10), um ateu na prática (11). bem-estar. Ao contrário, ela traz prova-
12-16 O Recurso: orar pela interven- ções para o justo, o que está correto diante
ção divina para defender o fraco e a ver- de Deus (5a), mas o que ama a violência
dade (12,13); baseado em conhecimento encontra oposição (5b,6).
divino, intenção e compromisso com o 7 O favor do Senhor. Lhe contempla-
necessitado (14); e pedindo o fim do po- rão a face significa ver o Senhor "levantar
der do perverso, sua condenação (15) e o a face", i.e., aceitar alguém com favor em
juízo final (16). sua presença. Assim, a fé tem três facetas:
17,18 A Convicção: a oração é ouvida a fé que foge em busca de segurança (1);
(17), o livramento é total (18). a fé que aceita as provações da vida como
Essa veemência na oração é surpreen- propósito do Senhor (5a); e a fé que espera
dente. Levanta-te (9.19; 10.12), como que um resultado abençoado. Para os justos, as
acusando o Senhor de "dormir no ponto"; provas de Deus são o caminho que os con-
não te esqueças (12) - como se ele tives- duz até sua presença imediata (7).
.-
11
11I_ SALMO 12 748

Salmo 12. A guerra de palavras mas aqui ele tem apenas um inimigo em
Este salmo coloca duas "palavras" na ba- mente (2,3). O fato de Davi não orar pela
lança: à sua volta, Davi não ouvia senão fal- destruição do inimigo se encaixa na situa-
sidade, lisonja e dissimulação (2); mas, por ção envolvendo Saul (1Sm 26.9ss.) ou
outro lado, há uma palavra que é absoluta Absalão (2Sm 18.5). As três estrofes desse
em pureza (puras, 6a), valor (prata, 6b) e poema têm, respectivamente, 5, 4 e 3 li-
ausência de qualquer imperfeição (depura- nhas: as dimensões da situação diflcil (1,2)
da sete vezes, 6c). Essa é a escolha com que se fundem na oração urgente (3,4) e depois
o crente sempre se defronta: ser distraído e descansam tranquilamente na experiência
desorientado pela palavra do homem ou se transformada (5,6). A inquietação é leva-
basear na palavra de Deus. Pois a socieda- da para o interior do lugar de intercessão e
de, a qualquer momento, pode parecer com emerge exultante.
a descrição dos v. 1,2: sem espiritualidade, 1,2 A angústia tem três dimensões:
confiabilidade e veracidade, e nós precisa- espiritual (Será que o Senhor se esque-
mos da segurança de uma base firme (6). ceu?), pessoal (conflito e tristeza interio-
A solução para o colapso dos valores res) e circunstancial (inimigo dominante).
sociais (2) é a oração (1 ,3) pelo livramento 3,4 Dimensões de oração idênticas: espi-
pessoal (1, socorro, "salva") e pelo juízo ritual (Atenta, favor divino restaurado, a
divino sobre a falsidade desenfreada (3,4). face não está mais escondida) (1), pessoal
É correto orar por justamente tal ação divi- (ilumina, renovação), circunstancial (ini-
na para depurar a sociedade (3); de fato, o migo ... adversários). A verdadeira oração
Senhor sanciona esse tipo de oração com o leva todos os aspectos do problema ao
seu compromisso de agir (5). Senhor. 5,6 Dimensões da transformação:
A reação à palavra do Senhor é confiar. espiritual, a face oculta (1) é substituída
Como sua palavra é perfeitamente pura, pela graça; pessoal, a tristeza do coração
ele a cumprirá, comprometendo-se a agir se transformou em regozijo; circunstan-
em resposta às necessidades e contra o erro cial, o inimigo violento é substituído pela
(5). Em retribuição, nós reafirmamos nossa suficiência divina: me tem feito muito
confiança (7), mesmo que o problema ain- bem, "tem me dado tudo", melhor enten-
da seja tão terrível quanto antes (8). dido por "perfeito em segurança", "... de-
Notas. 1 Piedosos, cf 4.3. 2 Pecados da terminou fazer".
língua (cf Is 6.5; SI 34.12,13; Rm 3.13,14; Portanto, a oração traz uma solução
Tg 3.2-6). Coração fingido, "com coração completa para o problema que foi total-
e coração", nós diríamos "de duas caras". mente compartilhado com o Senhor.
5-8 Como o que o Senhor promete (5) é
parte de sua palavra perfeita (6), confie Salmo 14. Vozes: ateísmo
nele (7) mesmo quando o problema con- e experiência
tinua (8).5 Pobres ... necessitados, respec- O enfático Ali (5, ARe, lit., "Ali, estavam
tivamente, as vítimas da injustiça social e realmente com medo") recorda a ocasião
os explorados. 6 Puras, especificamente a que deu origem a este salmo - alguma si-
pureza que Deus pode aceitar. 7 Para sem- tuação em que o ateísmo encontrou-se face
pre, ou: -ó, tu que és para sempre". a face com a realidade da presença de Deus
entre o seu povo. Que ocasião foi essa não
Salmo 13. Novas dimensões temos meios de saber. Estaria o salmista
para o antigo: transformação meditando em Êxodo 14.1O-28? O ateísmo
pela oração em questão é mais prático que teórico, não
Temos aqui o mesmo cenário de Salmos tanto negar a existência de Deus, mas sim
9-12: Davi está cercado de adversários, sua relevância.
11II
749 SALMO16':
11II

1 Insensato, uma pessoa sem nenhum justiça, o que é reto diante de Deus. 5
senso de valores morais ou obrigações so- "Contentamento" expressa o fato de que
ciais (Is 32.6; cf lSm 25, esp. v. 25), de essa pessoa não é movida pelo dinheiro:
caráter corrupto, espiritualmente abomi- emprestar sem pensar em lucro (Lc 6.35),
nável ("detestável [para Deus]"); quanto recusar dinheiro sujo. 6 Abalado, i.e., fora
à conduta, não faz o bem. 2 Como essas de seu lugar no tabernáculo do Senhor.
pessoas não [buscam] a Deus, a consequên-
cia é que, 3, deliberadamente todos se ex- Salmo 16. Segurança eterna
traviaram e juntamente se corromperam, O motivo que levou Davi a clamar por
tratam o povo de Deus como caça e não sua preservação (1) não está claro, mas
sentem necessidade de Deus (não invo- o foco na morte (9-11) sugere que algum
cam, 4). Está igualmente claro que não embate com a morte, por causa de doença
adianta argumentar com essas pessoas; a ou perigo, o tenha levado a esquadrinhar
única coisa que elas entendem é a inegável a questão da segurança pessoal, sua natu-
realidade da presença de Deus entre o seu reza e extensão. De qualquer modo, esse é
povo (5b) e o fato de ele ser o seu refúgio o tema do salmo, cuja estrutura proclama
em todas as necessidades (6b). A resposta sua mensagem:
para a falta de espiritualidade é a verdadei-
ra espiritualidade. A' (v. 1) Segurança em Deus: um apelo
O salmo registra três vozes, cada uma B (v. 2-4,5,8) As evidências da segu-
delas seguida de um comentário: O insen- rança
sato (1a,b), comentário no v. 1c.d; o Senhor a' (v. 2) O Senhor, meu bem total
(2-4), comentário no v. 5; Israel (7a,b), a2 (v. 5) O Senhor, minha porção
comentário no v. 7c. A oração final pede b' (v. 3) Prazer no povo
que o que aconteceu uma vez (5,6) possa b2 (v. 6) Prazer na herança
tomar-se uma realidade permanente (sal- c' (v. 4) Compromisso: negativo
vação, 7), mas o comentário que a acom- c2 (v. 7,8) Compromisso: posi-
panha é puro realismo: o dever do povo de tivo
Deus é regozijar-se nele aqui e agora. N (v. 9-11) Segurança eterna em Deus:
uma propriedade
Salmo 15. O hóspede do
Senhor: Posso entrar e ficar? 1 Segurança em Deus: um apelo. A
Esta é frequentemente chamada de uma segurança começa quando pedimos por
"liturgia de entrada", com um candidato ela e a buscamos em Deus (1). 2-8 Há
a adorador perguntando quais são as con- três evidências da posse dessa segurança:
dições de entrada e um sacerdote respon- Primeiramente, prazer no Senhor: (2) senão
dendo. O foco (1, habitará... morar): como a ti somente, "meu bem/bem-estar não está
alguém pode morar, não no seu santuário, além de ti/não está fora de ti", "tu és todo
mas em seu tabernáculo, desfrutando de o bem de que necessito" - "Tu, ó Cristo,
sua hospitalidade como convidado em és tudo que eu quero"; (5) lit., "O Senhor é
sua casa. Aqui está a santidade sem a qual a minha parte da porção"; cálice, traduzi-
ninguém vê a Deus (Hb 12.14), abrangen- do por porção (cf 11.6 na ARC), sorte pes-
do conduta, conversa e relacionamentos soal, boa ou má, na vida. Dizer O SENHOR
(2,3), valores, integridade e contentamento é... o meu cálice é afirmar que, na alegria
financeiro (4,5). ou na tristeza, ele é a realidade dominante
Notas. 1 Habitar, "permanecer como (73.25,26). Em segundo lugar, prazer no
hóspede". 2 "Anda" (ARC), estilo de vida; povo e no reino de Deus: (3) santos, "con-
integridade, "perfeição"/em uma só peça; sagrados", aqueles que o Senhor "separou"
SALMO 17 750

para si; (6) [lugares] amenos, sinônimo de divina. O primeiro e o terceiro são segui-
prazer (3) aqui o objeto é a herança que o dos por afirmações pessoais (6,15), cada
Senhor designou. Em terceiro lugar, prazer uma começando com um enfático prono-
na verdade do Senhor. Recusando a de- me de primeira pessoa (Eu; Eu, porém),
voção a outros deuses (4c) ou ao que eles respectivamente confiantes de uma audiên-
afirmam ser (4d, nome), Davi tem prazer cia presente e de uma futura visão de Deus
no ensinamento do Senhor (7, aconselha ... (cf 16.1,9-11).
ensina) e, em sua luz, faz do Senhor o alvo 1-5 Apelo baseado na justiça. É cla-
contínuo de sua vida (8, tenho-o) e desfru- ro que Davi não está alegando não ter pe-
ta de sua presença (8b,c). cado algum em geral, mas sim que, nesta
9-11 Segurança eterna em Deus, situação particular, ele manteve a justiça,
uma propriedade. A segurança tem uma como a narrativa de seu relacionamento
dimensão eterna: a pessoa inteira, tanto com Saul revela. Ele chega diante de Deus
interna (coração) quanto externamente com a consciência limpa (cf Ne 6.8,9; At
(corpo) ("carne", ARC), repousará segu- 24.16), a causa justa (1), "Ouve... a justi-
ro, mesmo em face da morte ("inferno", ça" (ARC), (cf Dt 1.16, lit., "e julga a jus-
ARc/sheol, onde moram os mortos); além tiça", leva em conta todo o peso da justiça
do sheol existem caminhos da vida que ao julgar). Portanto, aqui, "ouve à luz da
conduzem a (lit.) "fartura de alegrias" na (tua) justiça". De noite (3), numa hora em
tua presença. que os pensamentos vagueiam facilmente
Mesmo quando Davi escreveu esse e caminhos errados são cogitados (v. 16.7;
salmo, estava indo além de sua experiên- cf 36.4). Minha boca, ênfase bíblica na
cia pessoal; por exemplo, ele nem sem- importância do que se diz (4). Em relação
pre teve o Senhor diante dele, nem esteve a Saul, a palavra divina que proclamou o
sempre inabalado. Tanto ele quanto seus rei como ungido do Senhor acabou sendo
contemporâneos reconheceriam no salmo a salvaguarda de Davi, quando outros o
um ideal não concretizado. Portanto, o NT aconselharam a tomar um rumo diferente
identifica corretamente aqui uma prefigu- (1Sm 24.3-7; 26.8ss.). A consciência lim-
ração do Senhor Jesus Cristo, em quem pa de Davi resultava de andar no caminho
esses ideais e esperanças se cumpriram revelado de Deus, em suas veredas, sem
(At 2.24-32) e por meio de quem a mesma desviar os passos (meus pés não resvala-
esperança nos aguarda (Rm 8.11). ram,5).
6 O motivo de lidar com uma crise por
Salmo 17. Apelo à meio da oração é o fato de que Deus (sem-
suprema corte pre) responde. Deus, et, a mais transcen-
O trecho de lSamuel 23.25ss. fornece um dente das palavras usadas para designá-lo.
contexto adequado para este salmo. A nar- A oração leva as nossas necessidades dire-
rativa se encaixa com o salmo quando o tamente à própria "Divindade". Devemos
salmista se vê cercado de inimigos entre os nos lembrar de que existem outras bases
quais um é particularmente hostil (o v. 12 é para a oração além de uma consciência
singular). Há elos com o salmo 16, e talvez pura. Apelamos com a mesma garantia
o perigo refletido aqui seja o embate com a com base no fato de sermos necessitados
morte em que aquele salmo se baseia. (86.1), no perdão divino (86.4,5) e no
O salmo consiste em três apelos: Ouve nome de Jesus (Jo 16.23).
(1), inclina (6), Levanta-te (13). O pri- 6b-12 Davi apresenta suas necessi-
meiro (1-5) defende a justiça do salmista; dades a Deus. Embora nosso Pai conhe-
o segundo (6b-12) é contra inimigos im- ça as nossas necessidades, ainda assim
placáveis; e o terceiro (13,14) pede a ação precisamos orar (Mt 6.6-13). Jesus, que
751 SALMO 18

sabia o que cada um precisava, perguntou: Salmo 18. Deus nas sombras:
"Que queres que eu te faça?" (Me 10.51). Deus no controle
7 (Lit.) "Toma o teu amor maravilhoso": Quando lemos o título e o salmo, dizemos:
o adjetivo refere-se ao poder sobrenatural mas não foi assim de jeito nenhum! Quando
de Deus, o nome do amor imutável que ele foi que, na história de Davi, o Senhor pre-
nos garante. 8 Menina dos olhos, "pupila". cipitou-se do céu em seu socorro, caval-
Da mesma forma que nós temos o reflexo gando um querubim (10)? Tempestades
instintivo de proteger os olhos, Davi espe- (12) foram enviadas para salvar (Js 10.11),
ra que Deus tenha uma reação instintiva mas não na história de Davi; o vento do
imediata de protegê-lo. Asas (61.4; cf Rt Senhor (15) cavou um caminho pelo mar
2.12).9 Assediam de morte, "ameaçam a Vermelho (Êx 14.21; 15.10), mas nenhum
vida". 11 "meus ... mim" (NvI)!nos... nos acontecimento desses está registrado na
(ARA). Kidner: "Os companheiros de Davi época de Davi. Os livramentos que ele ob-
nunca estão longe de seus pensamentos". teve foram por meios diferentes: um ataque
12 (Lit.) singular, ou: "Cada um é como" dos filisteus (lSm 23.26s.), a consciência
ou: "Ele é como". (Y. introdução acima). impressionável de Saul (1Sm 24; 26), e até
13,14. O terceiro apelo: pela ação mesmo uma fuga (lSm 27.1).
divina. Davi olha somente para a espada Mas essa aparente discrepância entre
(poder punitivo) e a mão do Senhor (ação os termos do salmo e os da história é, na
pessoal). 14 Mundanos ["do mundo", verdade, propositada. Quando fez um re-
ARe]. .. desta vida, i.e., pessoas influencia- trospecto do ponto de vista do livramento
das apenas por valores mundanos etc.; por- (Título), Davi reconheceu que aquilo só
tanto, de quem não se pode esperar nenhu- poderia ter sido feito pelo Senhor do Sinai
ma ternura. 14c,d pode ser como na NVI, (7,8; cf. Êx 19.18), dos castigos do Egito
mas a mudança dos inimigos do Senhor (9-12; cf Êx 9.13ss.; 10.21ss.) e do mar
(14a,b) para seus protegidos destrói o con- Vermelho (15), respectivamente, o Senhor
traste com o v. 15. Provavelmente: "E o agindo em santidade, juízo e libertação.
que tu tens reservado, enche com ele o seu Este é o significado das imagens vívidas
ventre! Que os seus filhos tenham mais do que ele utiliza: por trás de todas as cir-
que o suficiente!". O que o Senhor tem "re- cunstâncias está a operação sobrenatural
servado" é o castigo que eles merecem e de Deus. Davi se refugiou na caverna de
que, segundo o princípio bíblico da família Adulão (1Sm 22.1) e nas rochas das cabras
(Êx 20.5), passa para os seus descendentes. selvagens (1Sm 24.2), mas depois perce-
Davi não ora de forma vingativa: ele de- beu que o Senhor é que tinha sido sempre
saprova os pecados da língua (1). Em vez sua rocha e refúgio (2,46), ocultando sua
disso, ele se identifica, retamente, com a glória, com certeza, por detrás do escuro
ira santa do Senhor em todos os seus as- véu das circunstâncias, mas reinando de
pectos revelados. seu trono, em beneficio de seu servo.
15. A abertura enfática, Eu, porém, Porém, a história não acaba aí. Havia
"quanto a mim", contrasta com o prece- uma ligação entre sua necessidade deses-
dente. O futuro dos inimigos de Davi está perada e o poder libertador do Senhor:
nas mãos de Deus. Eles "serão saciados! 3 Invoco... serei salvo; 6 (lit.) "Continuei
satisfeitos" (14, se fartam) com o castigo chamando... continuei gritando... meu
que está guardado; ele "se satisfará" com clamor por socorro continuou chegando
a presença visível (semelhança) de Deus diante dele" 16 Do alto me estendeu ele a
(cf 11.7). Acordar é usado aqui para se re- mão...: a oração fez toda a diferença. Será
ferir à ressurreição (cf Is 26.19; Dn 12.2; que Davi alguma vez parou para pensar
v. também 49.15; 73.23,24; 139.18). que esse Senhor todo-poderoso poderia,
SALMO 18 752

com a mesma facilidade, tê-lo mantido a (cf 1 Rs 3.26: "o amor... se aguçou"), usado
salvo se ele tivesse permanecido no olho frequentemente com relação ao repentino
da tormenta, no palácio de Saul (1Sm amor de Deus por seu povo (e.g., 103.13,
19.9,10), e evitado todos aqueles amargos "compadece") e só aqui para o amor huma-
anos no deserto? no em relação a Deus. 2 Rocha, "rochedo
O objetivo dos v. 1-19 é permitir que íngreme, penhasco", rochedo... baluarte,
tenhamos a visão do poder soberano es- "alto refúgio" (9.9), todas essas palavras
perando para ser acionado por meio da sugerem "estar colocado no alto, fora do
oração. Nos v. 20-45, Davi expõe siste- alcance dos inimigos". Escudo, símbolo
maticamente as lições aprendidas com as de força conquistadora, contrastando com
experiências que teve, pois a Bíblia nos a força defensiva. Kidner: "Nessa torrente
ensina com o passado a sermos previ- de metáforas, Davi revive suas fugas e vi-
dentes com o futuro. Esses versículos se tórias [...] e assim sonda o seu significado".
dividem em quatro seções marcadas por Me refugio. Não há sentido em termos uma
diferenças no linguajar: "O Senhor e eu" fortaleza se não corremos para lá em busca
(20-24,30-34) e "Tu e eu" (25-29,35-45). de segurança.
De modo geral, a primeira forma diz como 3-19 (BI) Os caminhos secretos de
o Senhor age, e a segunda mostra sua ação Deus. Em cada situação (v. Introdução
aplicada a Davi. O princípio de que o acima), o poder de Deus agia em favor
Senhor recompensa a justiça é enunciado de Davi, ainda que a sua glória estivesse
aqui (20-24), e Davi descobriu que, numa escondida. Mesmo quando a vida parece
situação em que ele tinha razão de afirmar extremamente monótona, a presença so-
sua justiça, o Senhor transformou suas tre- brenatural de Deus está lá. 3-6 A eficácia
vas em luz (25-29). Portanto, não devemos infalível da oração: Invoco ... serei salvo
simplesmente pressupor que o Senhor irá (3) ("Invocando... sou salvo", TB. O uso do
nos abençoar, mas sim nos empenhar ati- tempo presente expressa um princípio imu-
vamente em andar no caminho da justiça tável). 4,5 A crise mortal. 6 A eficácia parti-
para herdar a sua bênção (At 5.32). Nos cular da oração ao enfrentar a crise, porque
v. 30-34, aprendemos que o Senhor, cujo ela é feita ao Deus da Aliança (SENHOR),
caminho... é perfeito (30), pretende aper- intimamente conhecido (meu Deus), que
feiçoar o meu caminho (32). Davi narra se faz acessível (templo) e ouve pessoal-
como isso ocorreu com ele, dando-lhe ca- mente (ouvidos). 7-15 A oração convoca
pacitação e vitória num período de gran- o Deus temível para ficar ao nosso lado, o
de luta (35-45). Mas em todas as coisas qual responde em ira (7,8), em pessoa (9-
o Senhor está trabalhando para nos tomar 12), e em poder (13-15). Veja a introdução
semelhantes a ele (cf Rm 8.28; Hb 12.7- acima para o uso de temas como a praga
11). O salmo termina (46-50) da mesma do Egito, o Sinai e o mar Vermelho. 16-19
forma que começou (1-3), com louvores à Tudo isso porque um indivíduo era precio-
divina Rocha e Salvador. so e importante para ele - observe (TB)
Este salmo é praticamente igual a como me/meu, minha ocorre duas vezes
2Samuel 22. No Título, ele inclui a signi- em cada versículo.
ficativa expressão servo do Senhor. Isso 20-45 (B2) Os caminhos revelados de
sugere que o salmo é posterior à forma Deus. 20-29 As palavras-chave (20-24)
apresentada em 2Samuel e que essas pala- segundo a minha justiça... segundo a mi-
vras foram acrescentadas editorialmente em nha justiça são os "parênteses" que deli-
homenagem a Davi (ou à sua memória). mitam a primeira seção. Depois, ocorre
1,2 (A I) Sumário: Devoção pessoal uma generalização (Para com o benigno,
ao Deus salvador. 1 Amo, amor ardente benigno ... com o integro ... integro, 25) e
753 SALMO 19 <
uma particularização (minha lâmpada... desde o princípio de seu reinado, após seu
minhas trevas, 28) na segunda estrofe. Em livramento das mãos de Saul.
outras palavras, somos ensinados a reco- 46-50 (A 2) Sumário: Devoção pessoal
nhecer a retidão moral do nosso Deus e a ao Deus salvador. A certeza de Davi
nos colocar deliberadamente no caminho de que teria um reinado vitorioso não se
da bênção, fazendo o que agrada a ele. Isso cumpriu nem nele nem em sua linhagem,
não é salvação por obras, pois Davi já é nem se cumprirá completamente até que o
do Senhor, mas bênção por meio da obe- "Grande Filho de Davi" retome em triunfo
diência, que ainda é a posição dos remi- universal (Fp 2.9-11).
dos. 20 Retribuiu-me, "recompensou-me
totalmente/supriu completamente a minha Salmo 19. Três vozes
necessidade". 21-23 A recompensa não em contraponto
veio sem um compromisso coerente e de- 1-6 A voz da criação: paradoxo. Por todo
terminado com a santidade, positivamente o espaço (1), tempo (2) e terra (4), a ordem
(tenho guardado... me estão presentes... criada "relata" (1,proc!ama) quão glorioso
íntegro) e negativamente (não me apar- é o Deus que a fez com suas mãos (1b).
tei... não afastei ... me guardei). 23 Íntegro, 4 Voz (linha, TE, NVI rnrg.) significa "domí-
"perfeito". Iniquidade ("minha iniquida- nio designado"/"influência". Esse domínio
de", ARe), "pecado", algum pecado a que é exercido (Gn 1.16) pelo sol (5,6), nas-
Davi se sentia especialmente tentado. 27 cendo de novo a cada dia, cruzando o céu
Humilde. Muitas vezes, como aqui, o povo com grande força, penetrando em toda par-
do Senhor afligido por arrogância opres- te. Porém, paradoxalmente, cada um deles
siva. 28,29 O Senhor garantindo conti- discursa (2), mas não há linguagem (3).
nuidade pessoal (lâmpada), mudança nas Ao mesmo tempo, a ordem criada conta
circunstâncias (luz... trevas), poder sobre mas não diz: ela declara à nossa intuição
pessoas (exércitos) e coisas (muralhas). que existe um Deus glorioso que criou es-
Os v. 30-45 discorrem sobre outra verdade sas maravilhas, mas sua mensagem é limi-
acerca dos caminhos revelados de Deus. tada - ela não pode falar sobre ele - e
Aquele que agiu com justiça (20-29) tam- isso é desconcertante, pois a beleza dos
bém age com propósito: Perfeito em seu montes conta uma verdade, e a tempestade
caminho (30). Ele quer tomar o meu cami- e o vulcão contam outra.
nho perfeito (32). 7-10 A voz da palavra: perfeição.
O salmo agora alterna o que o Senhor O Senhor não nos abandonou à incerteza
faz (30,31,35,39,43) e o que Davi faz ca- da religião natural; ele falou sua palavra,
pacitado pelo Senhor (32-34,36-38,40-42). que aqui recebe seis títulos: lei (7), "ins-
Em outras palavras, para alcançar a per- trução"; testemunho, o que o Senhor re-
feição que o Senhor propõe, é necessário conhece como verdadeiro; preceitos (8),
corresponder ao que ele faz por nós (cf Fp aplicáveis aos pequenos detalhes da vida;
2.12,13). Isso explica a referência à pura mandamento, para serem obedecidos; te-
palavra de Deus, que inicia a seção (30). mor (9), digno de reverência; juízos, deci-
Assim como o Senhor revela sua vontade, sões tomadas com autoridade.
nós somos chamados a lhe obedecer. Os Ela tem cinco qualidades atribuídas
v. 37-45 vão além do episódio de Saul, conforme esses seis títulos: perfeita em
pois, naquela ocasião, Davi não perseguiu, todos os aspectos e fiel, confiável, em sua
revidou etc. Muito provavelmente, os tem- integridade (7); reto (8), correto, dotado de
pos pretéritos dos verbos que aparecem retidão moral; puro, "luminoso", sem con-
aqui são "pretéritos perfeitos de certeza", taminação; límpido (9) (cf 12.6), de pure-
já antecipando sua trajetória e vitória final za aceitável a Deus; "durável", permanece
SALM02ü 754

para sempre; verdadeiros... justos, "verí- como um descuido (faltas, "erros"), uma
dicos... corretos", correspondentes às nor- falha até então desconhecida, um insulto
mas objetivas da verdade; desejáveis (10), deliberado (soberba) à palavra de Deus.
"preciosos", cheios de valor intrínseco; Transgressão, rebeldia intencional contra
mais doces, cheios de alegria verdadeira. um superior. 14 Lábios... coração, exte-
Ela tem quatro resultados: restaura (7) riormente ... interiormente.
(35.17; cf Rt 4.15; Lm 1.16), reconstrói a
vida verdadeira ameaçada por um perigo Salmo 20. Antes da batalha:
ou degradada pela tristeza; o termo sím- A vitória da oração e da fé
plices tem o significado negativo de "in- Este salmo combina com um culto de ora-
gênuo/crédulo" (Pv 7.7; 14.15; 22.3), sem ção e sacrificio na véspera de uma batalha
princípios morais, e o significado positivo (cf lSm 7.7-9; 13.8,9). Diferentes vozes
de "ensinável" (SI 116.6; 119.30; Pv IA); são ouvidas: uma ora ao SENHOR em favor
alegram o coração (8), educam as emo- de alguém identificado como "tu" (masc.
ções (coração); os olhos são os órgãos do sing. 1-4,5c) ou o rei (9a); a outra voz con-
desejo, o que se deseja na vida. A palavra firma, falando em "eu" e nós (5a,b,6-8). É
de Deus infunde objetivos verdadeiros, va- possível ouvir ainda uma terceira voz em
lores corretos. que sacerdote e povo se alternam numa
11-14A voz do pecador: orando. Aqui oração responsiva (1-4,9). Enquanto o
está alguém que foi tocado pela divina pa- rei ora silenciosamente, sacerdote e povo
lavra de Deus. Ele sente que a palavra o pedem que sua oração seja ouvida (1,2).
admoesta, "esclarece" e enriquece (grande Enquanto o sacrificio é oferecido, eles
recompensa) através da obediência (11); oram por sua aceitação (3), e depois pedem
ele está convencido do pecado e pronto que os planos do rei tenham sucesso (4).
para buscar o perdão (12), recebeu novas A confiança do rei em si e no seu exército
aspirações e deseja ardentemente tomar-se (5a,b) é respondida pelo sacerdote e o povo
irrepreensível (13), "perfeito", em todos os (5c), pedindo que sua oração seja atendida.
aspectos e íntegro - exatamente como a A isso o rei responde com outra afirmação
própria palavra (7) e, em particular, acei- de confiança de que oração (6) e fé (7,8)
tável a Deus em suas palavras (14). Se ele são o caminho da vitória. Sacerdote e povo
é conhecido pelas palavras que diz (7-10), encerram o culto orando, respectivamente,
não deveria ocorrer o mesmo conosco? A (9) pelo bem-estar do rei e pela resposta
criação é silenciosa, mas nós não devemos de Deus.
ser. Como se pode manter uma vida de obe- Notas. 1 A primeira linha, (lit.) "o dia
diência como essa? Somente recorrendo da angústia", faz par com a última linha,
ao próprio SENHOR, forte e confiável como (lit.) "o dia em que clamarmos". O modo
uma Rocha, e cheio de bondade como o de alcançar segurança e vitória é combater
Redentor, o resgatador que supre todas as a angústia com oração. 2 A segurança está
nossas necessidades como se fossem suas no nome do SENHOR (1,5,7), tudo que ele
(Rt 3.13). revelou sobre si mesmo. Desde Sião (2)
Notas. 3 A ideia é que a ordem criada transforma-se em do... céu (6): o Senhor
não pode vocalizar (linguagem), verbali- que habita no meio do seu povo faz isso
zar (palavras) ou comunicar (não se ouve com toda a sua glória, poder e recursos
nenhum som). A noção da existência de celestiais. 3 A oração precisa ser feita no
um Criador é transmitida, mas não exis- contexto dos sacrificios que Deus autori-
te a revelação verbal de que precisamos. zou; no nosso caso, a oração baseada no
11 Além disso introduz uma aplicação a um Calvário. 7 A vitória não vem por meio de
caso específico. 12,13 O pecado é retratado recursos terrenos, mas por meio de tudo
755 SALMO 22 {

que o Senhor revelou ser - seu nome. te para seus adversários. A presença do
Gloriaremos, "traremos o Senhor à lem- Senhor é, ao mesmo tempo, vitalidade e
brança, invocando o seu nome". vitória. 7 Misericórdia, amor prometido.
[Jamais] vacilará, "será abalado", i.e., de
Salmo 21. Depois da batalha: sua posição real. 8-12 Alguns interpretam
A vitória do Senhor. passada que a voz que fala a respeito do rei nos
e futura v. 2-7 agora se dirige a ele e fala sobre as
O salmo 20 afirmava: Celebraremos com futuras vitórias que terá, guiado por Deus.
júbilo a tua vitória; agora há alegria (l) e Isso dificilmente altera o significado, mas
glória (5) com a tua salvação ("pelas vitó- é mais simples ouvir aqui a voz do rei fa-
rias que lhe dás", NVI). Portanto, a oração e lando sobre os futuros triunfos do Senhor,
a fé anteriores foram atendidas, e este sal- assim como ele atribui seus triunfos passa-
mo medita no que aconteceu. Sua afirma- dos (2-7) à mesma fonte divina. Mas a ini-
ção inicial, de que Na tua força, SENHOR, o mizade do mundo é tanto contra o Senhor
rei se alegra (l) harmoniza com a oração quanto contra o seu Ungido (cf SI 2).
final: Exalta-te, SENHOR, na tua força (13). Esses sentimentos são naturais na boca de
Essas referências ao passado e ao futuro Davi, que recebeu a promessa de um rei-
aparecem, respectivamente, nos v. 2-7, no universal (cf 2.7-9), e, para nós, estão
recordando a vitória, e v. 8-12, anteven- em perfeita concordância com as expec-
do a vitória. É mais fácil ouvir o próprio tativas do NT (2Ts 1.7-10; Ap 19.11-21).
rei falando do início ao fim (usando uma Mas a verdade da vitória divina abrange
forma em terceira pessoa nos v. 1-7). No igualmente todo o nosso futuro, não ape-
trecho de 2-7, a oração foi respondida com nas os eventos do fim dos tempos. A mão
bênção pessoal (3,4) e nacional (5), e a fé divina (ação pessoal, 8), sua manifestação
foi recompensada (7). Os v. 8-12 falam de (presença pessoal, 9, cf v. 6) e indignação
uma futura vitória divina que será total, so- (ira sentida pessoalmente, 9) estão, a cada
brenatural e irresistível. instante, a nosso favor. 13 Uma alegria
1 Tua salvação ..., "tuas vitórias", aqui, verdadeira (l) se manifesta na oração para
livramento físico qualquer que seja o pe- que o SENHOR seja exaltado, mas quando
rigo (SI 20 reflete isso). 2 Súplicas, "dese- ele é exaltado, a consequência natural é
jos", cf desejo (linha anterior). A oração cantar, louvar, "fazer música".
do rei foi sincera. Lábios, o desejo não fi-
cou obscuro, mas foi levado à intercessão. Salmo 22. Um desamparado.
3 Supres. O verbo, "ir adiante de/chegar muitos exultantes
primeiro" é usado aqui para dizer que o "Nenhum cristão consegue ler este salmo
Senhor "percebe antecipadamente" nos- sem ser vividamente confrontado com a
sas necessidades, aguardando-nos com crucificação" (Kidner) - e com razão,
bênçãos preparadas onde esperávamos pois esta não é a descrição de uma doença,
encontrar dificuldades. Coroa (cf 28m mas de uma execução. Atos 2.30 atribui o
12.30). 4 Pediu vida, o perigo era mortal. salmo 16 à estatura profética de Davi, e
Para todo o sempre, no sentido metafórico esta também é a melhor explicação para
usual de "viva o rei para todo o sempre", o salmo 22. Se alguma situação pessoal
mas, como ocorre frequentemente nos sal- de sofrimento inspirou a composição do
mos reais, uma previsão inconsciente do salmo, o que pode ter acontecido, Davi a
verdadeiro reino eterno do Senhor Jesus. multiplica por infinito para sondar um pou-
6 Presença. Compare a mesma palavra co do sofrimento que aguardava seu Filho
("face", presença pessoal) no v. 9 (mani- Maior. Entretanto, ao mesmo tempo, o que
festares): o que é vida para o rei é mor- brotou do sofrimento e, profeticamente,
>
SALMO 22 756

explorou um sofrimento ímpar, pode ago- 8 Corifiou (Mt 27.43). 9,10 Que acon-
ra nos ajudar em nossas duras provações. tecimento foi responsável por isso? Por
Nós também podemos aprender a clamar alguma razão, desde a tenra idade ele se
a Deus (1-8,11-18), a encontrar consolo e reconhecia entregue a Deus. Será que isso
segurança no que é verdadeiro a nosso res- reflete a consciência precoce do Senhor
peito (9) e no que aprendemos da verdade Jesus (Lc 2.49) de que a casa do Pai era o
(10), e a encarar o futuro com confiança seu verdadeiro lar?
(22-31), porque Deus se mostrará fiel.Toda 11-21Apelo pela proximidade divina.
a gama de situações pelas quais passamos Essa seção consiste em dois apelos pela
está aqui: desolação, hostilidade, dor, mor- proximidade e ajuda de Deus (11a, 19-21a).
te - pois ele foi provado de todas as for- O primeiro é seguido por uma descrição
mas, como nós somos (Hb 4.15). dos apertos pelos quais passou o sofredor:
1-10 Perplexidade no sofrimento. a tribulação está próxima, não há socorro
Divide-se em duas partes: (11), os inimigos atacam com violência
(a) Oração não respondida (1-5). A ora- (12,13), o sofrimento é intenso (14,15), o
ção urgente é atendida com silêncio (1,2). mal predomina (16-18). O segundo apelo
Isso é contrário tanto à natureza de Deus reconhece a força do Senhor (19), mas a
(3) quanto à experiência das gerações pas- morte se aproxima (espada, 20), trazendo
sadas (4,5). perda pessoal (a minha vida, 20) e um fim
1 O Senhor Jesus entendeu que esse cruel (cão... leão... búfalos, 20,21). Então,
clamor dizia respeito a ele (Mt 27.46; Me dramaticamente, tudo muda (21b), numa
15.34), e nós devemos fazer o mesmo. Ele súbita percepção da resposta divina: a
nos dá o exemplo, pois, em meio ao mais oração foi atendida! Quando Deus parece
profundo sofrimento, a fé foi mantida e o ausente - ou mesmo quando, como neste
Senhor ainda é meu Deus. Mas a experiên- caso, ele de fato, por decisão própria, re-
cia em si foi singular para ele. Com razão, tirou sua presença (1) - a oração ainda é
disse o salmista (37.25), que nunca tinha útil. A resposta a: por que me desamparas-
visto o justo desamparado, mas esse total- te? (1) é: Não te distancies de mim (11).
mente justo foi desamparado, tomando-se 12-18 (i) O sofrimento retratado (12,13):
maldição por nós (GI3.13). 3 Tu és santo, o uso das imagens de "feras" fala de um ata-
entronizado entre os louvores de Israel. O que sem quaisquer restrições de humanida-
raciocínio encontra-se comprimido: em si de - apenas a força irresistível do touro
mesmo, ele é santo (então, por que ele não e a ferocidade cruel do leão. (ii) O sofri-
vem socorrer seu sofredor?); sua dignida- mento vivido (14,15): força em declínio,
de entronizada é reconhecida enquanto seu um corpo literalmente torturado (14), toda
povo o louva por seus feitos poderosos do força vital (coração) desapareceu e o ter-
passado (então, onde estão seus atos pode- ror paralisante tomou seu lugar (cf Js 2.11;
rosos agora?). Ez 21.7), desidratação severa e hostilidade
(b) Confiança não recompensada (6- divina ("tu", 15), levando ao fim (pó) na
9). A referência aos pais confiando e oran- morte. (iii) O sofrimento causado: malda-
do (4,5) leva o sofredor a comentar que de desenfreada, corpo mutilado (16), satis-
ele também confiou, mas sem resultado. fação com a desgraça alheia (17), partilha
Ao contrário, a confiança o transformou dos despojos (18). 16c Tanto no aspecto
em objeto de zombaria (6-8), mas ele a geral quanto no particular, é impossível
manteve por toda a vida, pois fora criada não enxergar as aflições de Cristo nes-
pelo próprio Deus (9, "deste-me seguran- sa passagem. João 19.23,24,28 não deixa
ça", NVI), e recebeu resposta imediata (10, dúvidas sobre o assunto. A tradução tras-
meu Deus). passaram-me não é inconteste, mas evita
757 SALMü23 (

grandes alterações no texto hebraico, tem Salmo 23. Pastor, companheiro


apoio na LXX, e se adapta tanto ao contexto e anfitrião
quanto ao cumprimento. O triplo testemunho, nada me faltará (1),
21 A súbita conscientização de uma não temerei mal nenhum (4) e habitarei
resposta divina (lit., "Tu me respondeste!") (6), resume o salmo, dividindo-o em três
é dramática. O sofredor está formulando a partes: a ovelha e o Pastor (1-3), o viajan-
oração "Salva-me da boca do leão e livra- te e o Companheiro (4), o convidado e o
me dos chifres do búfalo", mas, enquanto Anfitrião (5,6), respectivamente ensinando
ele está orando, ocorre uma transformação: a providência de Deus, indicando situa-
" ... e dos chifres dos búfalos; sim, tu me ções que ocorrem na vida, sua proteção ao
respondeste!" A petição foi ouvida; tudo longo do transcurso da vida e sua provisão
está bem. agora e sempre.
22-31 O festival universal de louvor. 1-3 Esses versículos tratam principal-
De repente, é tempo de festa para Israel mente de experiências de abundância
(22-26) e para o mundo (27-31): a ora- (pastos verdejantes), paz (águas, lit., "de
ção foi respondida (24), os sofredores todo tipo de descanso") e renovação (re-
são convidados para o banquete (26), frigera-me a alma, cf. 19.7). O princípio
todos são convidados (29) e a palavra por trás de nossas experiências é que ele
será transmitida de geração em geração escolhe veredas da justiça para nós, ca-
(30,31). Hebreus 2.12 cita o v. 22 como minhos que são "retos diante dele", que
messiânico e, de fato, o que mais, senão fazem sentido para ele. Ao fazer isso, ele
a morte de Jesus, poderia ter consequên- age por amor do seu nome, de acordo com
cias como essas? - Israel e o mundo seu caráter revelado.
convocados para o banquete messiânico 4 Em contraste com as experiências
(Is 25.6-lOa; Ap 19.9), o domínio mun- alegres da ovelha (1-3), o caminho do
dial (Mt 28.18; Fp 2.9-11) e uma mensa- peregrino atravessa terreno muito mais
gem de justiça divina (31; Rm 1.16,17). pedregoso. Sombra da morte é de fato
25-28 De ti. O Senhor é a fonte e o assun- "as trevas mais escuras", que inclui, é
to do louvor. Votos... sofredores. O cum- claro, a escuridão da morte. Mas nessas
primento de um voto era acompanhado experiências, o ele dos v. 1-3 torna-se tu,
de uma oferta pacífica e de seu banque- expressando um relacionamento pessoal
te correspondente, para o qual os pobres mais íntimo, e o guia (2) anda ao lado
eram convidados (Lv 7.11,16; Dt 16.10- (comigo). Quanto mais escuras as trevas,
12).29 O significado geral, resumido pelo mais perto está o Senhor! E ele traz toda
contraste entre os opulentos e os sofre- a força, bordão e cajado. A duplicação
dores (29), é que todos são bem-vindos. denota completude. Bordão (Lv 27.32)
Permanece a dúvida se pó é uma metáfora possivelmente significa proteção; cajado,
para pobreza (113.7; cf lSm 2.8) ou para possivelmente, apoio (Êx 21.19).
morte (30.9; cf Jó 7.21). A sequência do 5,6 Uma mesa na presença dos meus
pensamento no versículo sugere o primei- adversários, cf 2Samuel 17.27-29, quan-
ro; a referência ao pó da morte (15) suge- do Davi poderia ter discernido a mão de
re o segundo. 30,31 Do Senhor... foi ele Deus no cuidado de Barzilai contrarian-
quem o fez. No final do v. 21, o Senhor do Absalão. Ao mencionar circunstâncias
confirmou tudo que o sofredor tinha feito. (4) e pessoas hostis (5), o salmo afirma o
Desse modo, o Senhor era o tema do seu cuidado divino em todas as emergências.
louvor (25). Portanto, a mensagem que A cabeça ungida fala das boas-vindas do
fica para a posteridade é: "as maravilho- Senhor; o cálice transbordante, de sua
sas obras de Deus" (At 2.11). provisão abundante. Mas sua bondade e
SALMü24 758

misericórdia estarão presentes enquanto é "Salvador" (NVI; Deus da sua salva-


durar a vida (lit., "pelo comprimento dos ção, ARA), i.e., a raiz da questão não está
dias") e, depois disso, existe a Casa do em nós, mas em sua vontade de salvar.
SENHOR para todo o sempre. Habitarei é 6 Geração, um grupo unido por caracterís-
uma adaptação tradicional do texto he- ticas comuns.
braico e pode estar correta; porém, lit., 7-10 Imagine a procissão de 2Samuel
"voltarei para a casa", i.e., quando as ve- 6.12-15. A solicitação de permissão para
redas (2,3), vales e ameaças (5) terrenas entrar é recebida pela exigência da apre-
tiveram acabado, acontecerá a verdadeira sentação de credenciais, suscitando a res-
volta para casa. posta de que é o SENHOR, que redime o seu
povo e derrota seus inimigos (Êx 3.5-15 ;
Salmo 24. Direito de entrada 6.6,7; 20.2), o Rei em toda a sua glória, o
Para o contexto, cf 1Samuel5; 6; 2Samuel Deus de total poder efetivo (8,forte... po-
6, quando Davi leva a arca de volta para deroso ... batalhas) e total poder intrínseco
Sião. O mais importante aqui é a unidade (lO, o SENHOR dos exércitos, tendo em si
do tema: com que direito entramos na pre- toda potencialidade e poder).
sença do Senhor (3-5) e com que direito
ele entra em nosso meio (7-1O)? Nós só Salmo 25. Um ABC para o dia
podemos entrar por direito de santidade da tribulação
(4); ele entra por direito de soberania, gló- No que diz respeito à forma, este salmo é
ria, poder e redenção (7-9). um acróstico incompleto. Duas letras es-
Os v. 1,2 montam o cenário ao afirmar o tão faltando; uma delas é restabelecida al-
domínio do Senhor sobre este mundo. Por terando-se a pontuação do texto hebraico
ele ser o que é, ninguém se atreve a entrar conforme o recebemos; e o v. 22, que se
sem ser convidado ou propondo suas pró- refere a Israel, fica totalmente fora do es-
prias condições. O SENHOR é enfático: "É quema. Essa irregularidade reflete o modo
ao SENHOR que a terra pertence!". A terra como as tribulações quebram o padrão da
fisica e o mundo habitado (l) são seus por própria vida. Contudo, continua existindo
criação (fundou) e manutenção (2, "con- um padrão.
tinua a manter"), pois quem, senão ele,
poderia extrair uma terra estável de mares A' (v. 1-5) Confiando, esperando, orando
turbulentos ou mantê-Ia em face das forças B' (v. 6,7) Oração por perdão
das marés (correntes)? (Gn 1.9,10). C' (v. 8-10) Orientação para os pe-
3-6 Subirá: ascender até onde o Senhor cadores
está (Êx 19.3); permanecer: "levantar-se" B2 (v. 11) Oração e perdão
para adorar (Êx 33.10), pleitear uma causa C2(v. 12-14) Orientação para os te-
(1.5), manter sua posição (Js 7.12) diante mentes a Deus
de um Deus como esse. As qualificações N(v. 15-21) Confiando, esperando, orando
são abrangentes: pessoais, espirituais e
sociais (4, lit., "jurar com intenção de en- 1-5 Confiando, esperando, orando.
ganar", i.e., fazer promessas sabidamente Estando cercado de pessoas hostis e ines-
falsas); elas cobrem ação (mãos) e caráter crupulosas (2c,3d, cf 19a), a reação de Davi
(coração), lealdade somente ao Senhor é expressar confiança por meio da oração
(não entrega ...), e relacionamento com os (l,2a), fazer uma oração específica (2bc),
outros sem intenções ocultas de obter van- apoiando-se na verdade a respeito de Deus
tagens pessoais. Essas pessoas recebem (3). Mas ele ora como alguém comprome-
bênção (5), absolvição diante do Juiz. Mas tido com os caminhos do Senhor (4), dese-
o Deus diante do qual nos apresentamos jando uma mente informada (4,faze-me...
759 SALMO 26

conhecer, "mostra-me"; ensina-me) e uma 12-14 O divino mestre. As bênçãos


vida conformada (5, guia-me). são abundantes para qualquer um (12, o
1 Elevo (24.4): somente o Senhor é homem) que teme ao Senhor: instrução no
visto como solução para todas as necessi- caminho do Senhor; realização pessoal; se-
dades. 2 Envergonhado, cf v. 3, ser desa- gurança familiar; comunhão com o Senhor
pontado na esperança. 4,5 Conduta correta e instrução no significado do relaciona-
requer verdade divina (Faze-me... conhe- mento segundo a aliança.
cer), disposição para aprender (ensina-me) 15-21 Confiando, esperando, oran-
e para obedecer (veredas... Guia-me). do. Os v. 15,16 estão ligados pela ideia
6,7 Pecado e perdão: o passado. Não do SENHOR como a única solução: só ele
pode haver compromisso com a verdade fica em foco; não há outro com Davi. Os
divina e a vida (4,5) sem arrependimento v. 17-19 detalham a necessidade em que
e reconciliação. Quando o Senhor se ele se encontra: interiormente, com o alto
lembra do que ele é (6), está preparado e exteriormente. Os v. 20,21 declaram, res-
para não lembrar (7) do que temos sido. 6 pectivamente, confiança e compromisso.
Misericórdias, "compaixão", amor no co- Assim, "ninguém exceto o Senhor" ( 15,16)
ração de Deus (18.1), enquanto bondades é colocado ao lado de "todas as minhas
é amor na vontade de Deus, o que ele se necessidades" (17-19), e uma atitude de
obriga a fazer. Aqui, este é um substan- oração, confiança, determinação moral e
tivo plural, significando amor prometido expectativa é adotada.
em toda a sua plenitude. 7 Pecados, fa- 22 A perspectiva mais ampla. Este
lhas específicas; transgressões, a obsti- versículo fica totalmente fora do esquema
nação deliberada de pecar. Por causa da alfabético. Como rei, Davi não pode se es-
tua bondade, o valor moral essencial da quecer jamais de suas responsabilidades
natureza divina encontra satisfação em mais amplas, não importa quão grandes se-
cancelar o passado. jam suas próprias dificuldades. Mas, assim
S-10 O divino mestre. Uma recorda- como acontece com suas preocupações
ção posterior das qualidades de Deus traz a pessoais, o cuidado com seu povo é levado
certeza de que a oração (4) será respondida ao lugar de oração. É a primeira coisa que
e de que o caminho revelado de Deus será as pessoas devem esperar de seus líderes.
cheio do seu amor. A condição divina para A oração é a solução abrangente: todas
tudo isso é a natureza de Deus; a condição as... tribulações. O Senhor pode achar a
humana é que os pecadores se tomem hu- solução: redime traduz o verbo "resgatar",
mildes (9, os que se humilham diante dele) i.e., encontrar o pagamento que salda com-
e guardem a aliança. pletamente a dívida, liberta o cativo, faz
11Pecado e perdão: o presente. Como cessar a ameaça.
Deus guia os que se humilham diante dele,
Davi ocupa o lugar mais baixo. O pecado Salmo 26. O apelo de
não é apenas passado (6,7), mas presente. uma consciência pura
Nos v. 6,7, ele apelou à compaixão, ao Uma boa consciência constitui uma vanta-
amor e à bondade de Deus; no v. 8, apelou gem quando apelamos a Deus, não que a
à sua retidão moral; agora, em resumo, ao bondade nos dê qualquer direito de receber
seu nome, tudo que ele revelou acerca de bênçãos, mas porque o Senhor graciosa-
si mesmo. Seu coração e vontade (6), sua mente se agrada de nós quando andamos
integridade moral (7) e retidão (8) atuam em pureza. Afrontado (9) por pecadores,
todos juntos no perdão da iniquidade (a homens decididos a acabar com sua vida
natureza corrupta, decaída), embora esta (sanguinários), tramando conspirações
seja grande. e inescrupulosos em seus métodos (10),
11
: - SALMü27 760
11

Davi se encontra inocente diante das acu- de viver em "retidão", uma declaração do
sações deles e, de fato, não vê motivo tipo "Daqui não saio". Congregações, pro-
algum para tal situação. É razoável su- vável significado de uma palavra que não
por que o auto-exame evidente no salmo aparece em nenhum outro lugar, imaginan-
reflete acusações levantadas contra ele: do o dia em que a assembleia dos adorado-
sobre seu modo de vida (andado, 3b), res se reunirá e a espiritualidade particular
suas companhias (4) e a sinceridade de do v. 1c,d se expressará num testemunho
sua religião (6-8). Mas sua consciência público de louvores ("louvarei", ARC).
está limpa pessoalmente (3), socialmente
(4,5) e espiritualmente (6-8). O salmo co- Salmo 27. O ingrediente
meça e termina na nota da inculpabilida- essencial: fé agindo através
de (1,11,12), convida ao exame divino (2) da oração
e à ação divina (9,10), e se concentra em Malfeitores, opressores, inimigos (2), ad-
confissões de inocência, avaliando nega- versidade (5), inimigos (6), pessoas que
tivamente sua vida entre as pessoas (4,5) espreitam (11), adversários (12), assim
e positivamente sua vida com Deus (6-8). como um prazer contínuo na Casa do
O que Davi podia alegar sinceramente em SENHOR (4; cf 26.8) sugerem que este sal-
meio a várias dificuldades específicas de- mo diz respeito à mesma situação crítica
veria ser nossa constante ambição. que o anterior. A confiança que transpa-
1 Tenho andado na minha integridade rece de ponta a ponta podia ser o resulta-
- uma perfeição que abrange todos os as- do do autoexame que o Salmo 26 reflete,
pectos e caracteriza o todo. Uma alegação mas é confiança no Senhor, e não numa
praticamente idêntica conclui o salmo (11), justiça própria.
exceto pelo fato de que o texto hebraico ali
tem um tempo verbal diferente: provavel- AI (v. 1-3) Confiança no Senhor afirmada
mente o v. I olha para trás e o v. li olha B' (v. 4-6) Primeira oração por segu-
para a frente ("andarei...", TB). Uma ca- rança em Deus
racterística de uma boa consciência é sua B2 (v. 7-12) Segunda oração por segu-
aspiração pelo futuro. 2 Examina... pro- rança em Deus
va... sonda. Se é possível fazer qualquer N (v. 13,14) Confiança em Deus incen-
distinção, o primeiro termo seria realizar tivada
um teste de pureza (ensaio), o segundo se-
ria provar nas circunstâncias da vida e por 1-3 Confiança no Senhor afirmada. 1
meio delas e o terceiro seria procurar as Luz, metaforicamente, em contraste com a
impurezas (refinar). 6 Lavo. Lavar as mãos "escuridão" da tribulação que há em volta
era uma declaração pública de inocência (ls 50.11; Jo 8.12). Salvação, livramento
(Dt 21.6). Inocência, não o meio, mas o es- na e da dificuldade. Fortaleza, o lugar onde
pírito em que a lavagem das mãos é feita. minha vida habita em segurança. 2 Davi
Altar. Os sacerdotes se lavavam antes de enfrenta pessoas inclinadas para o mal
entrar no santuário (Êx 30.17-21). Davi (malfeitores), cheias de violência (para me
aceita para si mesmo os padrões do sacer- destruir; "para comerem as minhas carnes",
dócio.ll Ando (cf v. 1). Livra (cf 25.22). ARC; como feras predadoras) e hostilidade
Compaixão, favor divino gracioso, ime- (inimigos, adversários). É nessa situação
recido, gratuito. 12 O meu pé está firme. que ele encontra fé (1) e oração (4,5,7-9)
Esta pode ser uma confiante afirmação de suficientes. Eles é que tropeçam, enfático,
segurança futura ("Meus pés certamente "São eles (não eul) que tropeçam". O v.
permanecerão firmes"), depois que a tur- 3 amplia o escopo da dupla fé-segurança.
bulência atual passar, ou um compromisso Terei confiança, "permanecerei confiante".
761 SALMü28 (

A fé é suficiente até mesmo quando os ini- pessoal é a base para o fortalecimento da


migos se transformam em exércitos e a ini- fé nos outros.
mizade em guerra declarada.
4-6 Buscando a Deus por causa do Salmo 28. Um apelo
que ele é. Não é a fé que nos mantém por justiça imparcial
seguros, mas o Senhor em quem essa fé Vínculos entre este salmo e os salmos 26 e
é depositada. A oração (peço) e o obje- 27 sugerem que Davi ainda estava na mes-
tivo (buscarei) de Davi são estar onde o ma situação de ameaça à sua vida, e.g., v.
Senhor está (morar na Casa) e vê-lo como 3-5; cf 26.9,10; 27.2,12. A casa do Senhor
ele é (contemplar). Meditar (4), uma pa- está em destaque nos três salmos: 26.6-8,
lavra de significado controverso; o mais o foco da religião de Davi e 27.4,5, de sua
provável é "vir toda manhã", frequentar comunhão com o Senhor; 28.2, a fonte de
a sua presença, dando-lhe o começo de socorro. Cada um termina (26.12; 27.14;
cada dia. A Casa dele é o seu tabernáculo 28.9) com alguma referência ao conjun-
(5, "tenda", cf lSm 1.7,9), o lugar onde to mais amplo do povo de Deus ou com
ele vive no meio do seu povo (Êx 29.42- uma preocupação a ele associada. Para
45). Embora pareça frágil, é uma rocha Davi, tempo de tribulação era tempo de
elevada, um lugar de segurança inexpug- se concentrar no Senhor e cuidar de outras
nável e triunfo pessoal (será exaltada a pessoas. Mas o salmo 28 lança sua própria
minha cabeça). luz sobre a situação de Davi: sua situação
7-12 Buscando a Deus por causa de difícil acabará em morte se o Senhor não
suas bênçãos. A oração pedindo para estar agir (1), e suas circunstâncias são tais que
com o Senhor (4) se expande agora numa sua morte nessa hora o identificaria com os
oração pelas bênçãos que só o Senhor pode ímpios (3). O que ele teme não é a morte
dar. A oração se apoia num convite divino. em si, mas "a morte com desgraça imere-
(8; v. NVI mrg. Lit., "Meu coração disse a ti: cida" (Kidner).
'Busca a minha face'; buscarei, SENHOR, a O começo e o fim do salmo estão co-
tua face"), i.e., Davi começa lembrando ao nectados por as vozes súplices (2,6). Nos
Senhor que ele mesmo fez o convite para v. 1,2, o pedido para ser ouvido (1) é se-
que o povo o buscasse. Meu coração, não guido pelas vozes súplices (2); nos v. 6-9,
apenas a minha boca, porque Davi dá va- as vozes ouvidas incentivam o louvor (6,7)
lor a esse convite divino. A oração começa e conduzem à oração pelo povo (8,9) do
assumindo a posição certa diante de Deus: Senhor. Nos versículos intermediários,
buscando seu favor (9, face) e aceitação Davi ora pedindo destino diferente dos
(não rejeites). A oração procura descobrir ímpios (3), que eles possam receber o que
qual é a vontade de Deus - para fazer o merecem (4), afirmando (5) que isso ex-
que ele deseja - nas atuais circunstâncias pressa a justiça equitativa divina.
(11, Ensina-me ... caminho... os que me es- 1 Cova, morte debaixo da ira de Deus
preitam) antes de pedir proteção (12; cf (30.4; 88.4), com a face de Deus escondi-
Atos 4.29). A oração é cheia de confiança: da (143.7) (cf Is 14.15,19; Ez 32.18,23).
meu auxílio... minha salvação (9). Se meu O mesmo ocorre aqui, cf v. 3. 2 Santuário,
pai. Mesmo que o maior amor humano palavra que se tomou comum, no templo de
chegue ao seu limite, o amor do Senhor Salomão, para designar o Santo dos Santos
permanecerá. (1Rs 6.16 etc.). Davi apela dentro da pró-
13,14 Confiança em Deus incentiva- pria presença do Senhor, algo que é o pri-
da. Eu creio (lit.) uma exclamação: "Ah! vilégio e o poder da oração. 3-5 Da mesma
Se eu não tivesse crido!", i.e., pense no que forma que Davi se afastou da companhia
teria acontecido sem a fé! 14 A segurança dos ímpios (26.4) e procurou escapar
SALMO 29 762

de suas garras (27.12), ele deseja distân- (5-7). A tempestade varre a terra em di-
cia de sua desgraça. A justiça do Senhor é reção ao sul (Cades) (8,9ab); os que co-
equitativa, e uma consciência limpa como nhecem o Senhor exclamam glória (9c).
a de Davi (SI 26) naturalmente se identifi- 6 Siriom, monte Hermom, na cordilheira
ca com a santidade de Deus e, sem culpa, do Antilíbano, a 2.774 metros de altitude,
ora pedindo que a justiça seja feita. Se essa é o mais alto da Palestina. Até mesmo a
oração nos choca, não é pela nossa sensibi- sólida estrutura do mundo parece tremer
lidade refinada, mas por nossa consciência sob o impacto da tempestade. 8 Cades, no
imatura. Orar pela destruição dos ímpios extremo sul de Judá (Dt 1.19,46). Portanto,
é tão correto quanto orar pela bênção da a terra toda, de uma extremidade (5) à
igreja (9), mas é preciso uma santidade outra (8), está dominada, não apenas pela
maior para realizar a primeira sem pecar. tormenta, mas pelo que ela simboliza, a voz
do SENHOR. 9c Para muitos, uma tempes-
Salmo 29. O Deus tade é apenas uma tempestade, mas para
de sagrada glória aqueles a quem o Senhor se revelou, ela é
É melhor simplesmente deixar a glória e uma demonstração de um aspecto de sua
grandeza deste salmo nos envolverem num glória. O sentimental diz: "Num jardim,
redemoinho até que, arrebatados pela ma- estamos mais perto do coração de Deus";
jestade do Senhor, também exclamemos mais realista, a Bíblia afirma que também
glória (9). Mas, como ocorre com toda po- estamos mais próximos do coração dele
esia de verdade, para alcançar esse efeito num furacão.
desejado, o salmo vem até nós com forma 10,11 O Senhor na terra: o rei eterno
e coerência. em santo juízo. Os dilúvios é "o Dilúvio",
pois essa palavra só é usada em Gênesis
N (v. 1,2) O Senhor no céu 6-9. Da mesma forma que o Senhor é
B (v. 3-9) A natureza maravilhosa de supremo no céu em santidade (1,2), ele
Deus na tempestade é soberano na terra (10) em santo juízo
b' (v. 3,4) A tempestade no mar sobre o pecado. Mas a história não para aí
b2 (v. 5-7) A tempestade no norte (assim como a tormenta não revela toda
b' (v. 8,9b) A tempestade no sul a verdade sobre Deus; o jardim também
b" (v. 9c) O brado de Glória tem algo a dizer!). Ele tem seu povo (11),
N (v. 10,11) O Senhor na terra que, num mundo sob merecida condena-
ção, vive pela força de Deus e sob sua
1,2 O Senhor no céu: o objeto da bênção de paz, i.e., paz com Deus, dentro
adoração celestial. Até seres sublimes e de uma comunidade de paz, e em paz ou
poderosos ao ponto de serem chamados bem-estar pessoal.
(lit.)filhos de Deus (cf Jó 38.7) ou "filhos
de supremo poder" têm de reconhecer a Salmo 30. Graça do
glória do SENHOR, por causa de tudo que princípio ao fim
ele revelou a seu respeito (nome), e têm A palavra casa, no título, pode ser uma re-
de se curvar em adoração diante da sua ferência à casa de Davi (2Sm 5.11), à casa
santidade. Desse modo, eles reconhecem do Senhor (2Sm 7.5; 1Rs 6.1) ou ao uso
a posição dele como Deus, sua natureza do salmo na renovação da dedicação do
revelada e seu caráter santo. templo após sua profanação por Antíoco
3-9 A natureza maravilhosa de Deus Epifânio, em 165 a.C. Na época em que
manifestada na tempestade. A tempesta- Davi tinha sua própria casa, seu senso
de no mar, poder e majestade (3,4); a tem- de segurança (6) teria sido enorme: Sião
pestade chega à praia no norte (Líbano) foi capturada e fortificada (2Sm 5.6,7), o
763 SALMü31 fi."
poder estava crescendo (2Sm 5.10), seu graça derramada em louvor e transforma-
exército era forte, sua família aumentava ção (11), alegria interior e um verdadeiro
(2Sm 5.13ss.), possivelmente os filisteus senso de posição permanente com Deus
também estavam derrotados (2Sm 5.17- (Deus meu... para sempre) (12).
25), enquanto a casa ainda estava em cons-
trução. Se durante esse período tão propí- Salmo 31. O dia da angústia,
cio a gerar orgulho em Davi, o Senhor, por o lugar da oração
sua graça, humilhou-o com uma doença Por duas vezes (1-8,9-17b), Davi recorda
que tirou o cálice de sua mão antes que ele como, em meio a uma terrível provação,
tivesse tempo de bebê-lo, os termos do sal- recorreu à oração e ao compromisso con-
mo são mais do que adequados. Com isso, fiante, e de como o Senhor ouviu e agiu a
Davi aprendeu que, assim como a graça seu favor (21,22), dando-lhe motivo para
o havia conduzido em segurança até tão incentivar outros a terem esperança seme-
longe, só ela poderia levá-lo para casa. Foi lhante (23,24). O salmo, portanto, não só
quando se sentiu seguro (6) que ele preci- nos ensina a enfrentar as crises com oração
sou clamar por misericórdia (8). (1-18), como nos garante a eficácia desse
1-5 Perigo mortal: louvor responsivo procedimento (19-24).
pela oração atendida. Provavelmente, 1-8 A fortaleza versus a armadilha.
havia muitos partidários de Saul ressen- Os inimigos armaram um laço (4), mas
tidos com Davi por considerarem que ele o Senhor é uma fortaleza, onde Davi en-
havia usurpado o trono. Seria de esperar trou com confiança, oração e total leal-
que eles se regozijassem de vê-lo fracas- dade. Aqui, em princípio, está o antídoto
sar! Mas ele clamou e foi sarado e pre- para uma crise: buscar a Deus com oração,
servado. 4,5 Davi convoca os santos (os confiança e devoção. 2,3 Castelo... cida-
amados do Senhor que também o amam) dela fortíssima... rocha, "rocha... casa de
para "salmodiar" (cantar louvores, NVI), fortaleza... penhasco", um lugar forte onde
não pelo que ele passou, mas pelo que permanecer, um lugar seguro para entrar e
fora revelado sobre o Senhor: entre os vá- um lugar inacessível para ocupar. Nome. A
rios atributos da santa natureza de Deus oração se baseia em tudo o que o Senhor
(santo... ira), há algo que age rapidamente revelou a respeito de si mesmo, que, como
para conceder favor duradouro. Deus da verdade (5), ele não pode negar.
6,7 Arrogância mortal e compla- 5 Remiste, providenciaste tudo o que meu
cência. A prosperidade (6) (caminho fá- resgate exige (25.22; 26.11). 6 Confio. Fé
cil) tem seus próprios perigos, pois pode verdadeira e lealdade única ao Senhor são
transformar confiança em autoconfiança, inseparáveis. 7 Da combinação de fé e ora-
segurança em presunção (7). O favor divi- ção nasce a confiança: tudo terminará bem,
no tinha trazido prosperidade a Davi, mas pois desde o início o Senhor tem visto
bastou a sombra de uma nuvem cobrir a e conhecido (Êx 2.25; 3.7). 8 Não me
face do Senhor e Davi ficou conturbado, entregaste, "determinaste não me entre-
"aterrorizado". gar", tempo pretérito perfeito expressando
8-12 Perigo mortal: oração atendida certeza quanto ao futuro.
e louvor responsivo. Clamei... implorei 9-18 "As tuas mãos" versus "as mãos
são tempos verbais contínuos, "fiquei cla- deles". Davi agora entra em detalhes a res-
mando ... implorando". Como Davi sentia peito de seu drama: a crise o deixou esgota-
que estava morrendo sem o favor de Deus do (9,10), desprezado por seus adversários
(9, cf v. 5,7), ele não via nenhuma esperan- e abandonado pelos amigos (11); ele se tor-
ça eterna (cf 73.24). Mas a única maneira nou um homem ultrapassado (12), envolvi-
de fugir de Deus é fugir para ele e orar por do por uma conspiração assustadora (13).
>
SALMü32

Mas sua resposta, mais uma vez, é con-


764

virar. 24 "Esperar" na Bíblia é confiar no


fiar (14,15) e orar (16,17). Pois a certeza que vai acontecer sem saber quando vai
de que nas tuas mãos, estão os meus dias acontecer.
o capacita a orar (15, lit.) livra-me das
mãos dos meus inimigos. A mão de Deus Salmo 32. Gemendo ou orando?
não é um lugar onde estamos imunes aos Se a oração é suficiente para lidar com
problemas da vida; é o lugar onde eles nos o mais grave de todos os problemas - o
acontecem (lo 10.28,29); nossa proteção pecado que poderia ser contado contra
não é dos problemas, mas nos problemas. nós diante de Deus (1-5) - não seria su-
10 Iniquidade, NVI marg.: "culpa". Este ficiente também para resolver todos os
não era um caso em que Davi podia ale- problemas da vida (6)? Esse é o tema des-
gar inocência. De alguma forma que ele te salmo, desenvolvido por meio de uma
não explica, o pecado era um fator que alternância entre declaração (1,2,6,10) e
contribuía para a situação, mas ele ainda testemunho (3-5,7-9) ou apelo (11). Ele
podia recorrer ao Senhor com fé, oração e talvez pertença à época do adultério de
compromisso. Podemos clamar ao Senhor Davi com Bate-Seba. Se for realmente
não só pelo que ele é (3) e sabe (7), mas isso, os v. 3,4 revelam Davi oprimido por
também pelo que nós somos (10-13); po- uma consciência culpada, e o v. 5 corres-
demos esperar que a oração seja atendida ponde à notável passagem de 2Samuel
simplesmente porque ela foi pronunciada 12.13: "Então, disse Davi a Natã: Pequei
(17). Além disso, quando o justo, aquele contra o SENHOR". Natã, respondeu:
que está "em ordem com Deus", que faz "Também o SENHOR te perdoou o teu pe-
parte do povo que pertence a Deus, está cado". No mínimo, o incidente ilustra o
ameaçado, nesta ocasião é certo orar pela que o salmo afirma: uma oração de con-
derrota de seus adversários (17,18). Os fissão traz perdão instantâneo.
salmos rejeitam a ação vingativa, mas re- 1,2 A felicidade de ter o pecado per-
forçam a oração por vingança, a destruição doado. Iniquidade... pecado... iniquidade
de perseguidores ímpios pela justa ação ("transgressão... pecado ... maldade", ARe),
de Deus. Nessas situações, nossa ação é respectivamente, "rebelião" (zombar de-
governada por Levítico 19.18; 1Samuel liberadamente da vontade conhecida de
26.10,11; Provérbios 20.22; 25.21,22; Deus), "pecado" (ações erradas específicas
Romanos 12.18-2l. em pensamento, palavra ou ação), "iniqui-
19-24 Temor versus esperança. Davi dade" (a distorção moral interior da natu-
agora olha em retrospecto para a crise e reza pecaminosa). O SENHOR ... e em cujo
tira conclusões. O Senhor abriga os que espírito: o Senhor não tem acusações resi-
confiam (19,20), responde aos que invo- duais; o pecador não escondeu nada.
cam (21,22) e está acessível a todos os 3-5 O gemido dá lugar à confissão e
seus santos (seus amados que retribuem o ao perdão. Observe as mesmas três pa-
seu amor), preservando e dando garantia lavras usadas nos v. 1,2: reconhecimento
de esperança (23,24). do pecado, o mal que fiz; confissão da
Notas. 21 Numa cidade sitiada. Uma intencionalidade da minha rebelião - e
situação como a de 1Samuel 23.7-29. o Senhor penetrou exatamente na fonte
Entretanto, não é àquele período que o da corrupção e perdoou a iniquidade do
texto se refere, pois naquele tempo Davi meu pecado.
não tinha necessidade de aludir a nenhuma 6-9 Orar é a solução para todas as
iniquidade pessoal (10). A "cidade sitiada" pessoas. A pronta resposta do Senhor não
é metafórica (cf v. 13), de estar cercado alcança somente uma pessoa e nem apenas
por todos os lados, sem saber para onde se o problema do pecado: todo homem pode
765 SALMü33 (

orar em qualquer emergência. 6 Sendo povo, precisamos estar em unidade com o


assim, i.e., podemos lidar até mesmo com Espírito que dá vida a ambos.
o pecado por meio da oração. Piedoso 1-3 A voz de louvor. Canção e louvor,
(santos, 31.23), "o que ele ama e que retri- ações de graças (louvar, "dar graças"),
bui o seu amor". 8,9 O contexto em que o música instrumental e aclamação ruidosa
v. 7 se toma realidade: quando a palavra de (com júbilo, "com gritos de alegria") -
Deus é obedecida conscientemente. E, sob tudo isso faz parte da atitude que fica bem
as minhas vistas, "e meu olho estará sobre aos que são corretos de coração (justos)
ti" - não uma ameaça, mas uma promessa diante do Senhor e aprumados na vida (re-
de cuidado vigilante. O ensino do Senhor tos) diante dele. Novo cântico, não tanto
não é um ditado de ordens impessoais, mas inédito, mas fresco, não mofado, gerado
a palavra amorosa de um Deus afetuoso. por uma consciência renovada de quem e
Da mesma forma, nossa resposta não deve do que Deus é. O verdadeiro louvor re-
consistir na aquiescência forçada do ani- quer tanto essa compreensão renovada de
mal irracional, mas na obediência igual- Deus quanto o fervor da alegria e o dom
mente baseada no amor. da musicalidade.
10,11 Um amor infalível cerca o 4-11 Deus na criação. Porque expli-
crente. A alegria de ser protegido tem três ca a convocação ao louvor feita anterior-
aspectos: o ato permanente de confiar, o mente: (i) o caráter da palavra do Senhor,
relacionamento básico de estar "em ordem do Senhor e da terra (4,5); (ii) a obra do
com Deus" (justos, 11) e a realidade moral Senhor na criação (6,7); (iii) a reverência
de um caráter reto. Quem se encontra nes- devida ao Criador (8,9); (iv) a soberania do
sa condição não está imune ao sofrimento Senhor, anulando (10) e ordenando (11).
(cf as águas transbordantes do v. 6), mas, As duas estrofes dessa seção (4-7,8-11)
quando a adversidade bater à sua porta, ele se unem no tema da suprema facilidade
será cercado pelo amor que nunca falha. com que o Criador domina tanto a criação
física quanto a pessoal. Ele é Senhor das
Salmo 33. O amor infalível de águas (7) e dos povos (10): as águas fa-
Deus na criação e na eleição zem a sua vontade; os povos estão ao seu
Este elegante poema começa e termina dispor. 4,5 Antes de podermos compreen-
com estrofes de seis linhas (1-3,20-22) der o mundo que nos cerca, precisamos
que encerram quatro estrofes de oito li- encontrar seu Criador. Sua palavra (o ins-
nhas (4-7,8-11,12-15,16-19). Na estrofe trumento da criação, 6) é reta e fiel, i.e.,
inicial e na final, respectivamente, o sal- direta em expressão e intento, perfeita em
mista desafia à alegria no Senhor e a re- valor moral e irrepreensível em verdade.
força. As estrofes de oito linhas estão em Fiel. Muitos aspectos da ordem criada
parelhas de versos: a primeira parelha se continuam sendo um enigma para nós:
concentra na obra de Deus na criação, na por que há terremotos? Por que a "natu-
sua bondade (5) como fator que permeia reza vermelha em dente e garra'"? Em
tudo, e seu governo soberano sobre as na- qualquer circunstância, podemos confiar
ções (10) como seu corolário; a segunda que o Criador é fiel ao seu próprio caráter
parelha focaliza a eleição (12) e o lugar e ao bem-estar de sua criação. Bondade
especial que ocupam dentro da providên- que se manifesta na ordem, na beleza, na
cia divina os que esperam na sua miseri- riqueza exuberante, nos tesouros escondi-
córdia (18). Coerentemente, é com uma dos, no ciclo das estações etc. 6 Palavra...
oração por essa misericórdia que o salmo boca. Os céus são a expressão exata de
termina (22), pois, para vivermos de for-
ma plena no mundo de Deus e como seu I Alfred Lord Tennyson, In Memoriam, LVI, v. 15.
.-
11
li. SALMO 34 766

sua mente (palavra) e o produto direto a si mesmo (21); (c) dependência da oração
(boca) de sua vontade. Sopro, "espírito" (22). A bondade é inerente a tudo o que ele
ou "Espírito", o que o Senhor diz é cheio faz (5) e é a porção específica do seu povo
da energia do Senhor para fazer com que eleito (18). Orar para que essa misericórdia
se cumpra (cf 9; 104.7,30; Gn 1.3,6). seja sobre nós engloba todas as nossas ne-
7 As águas, como o componente turbulen- cessidades numa única petição.
to da criação, são escolhidas para exem-
plificar a facilidade com que o Criador Salmo 34. Um ABe para
exerce sua soberania (93.3,4). 8,10,11 No um período de crise
pensamento do AT, o Criador é mais que O título situa o salmo em 1Samuel 21.10-
o iniciador; ele continua soberano sobre 14. Ao fugir de Saul, Davi buscou refúgio
sua criação, digno da reverência de todo com o rei filisteu de Gate, chamado por
o seu povo e na direção de todos os seus seu nome pessoal, Aquis, mas neste sal-
negócios, restritivo e dominante, resoluto mo pela designação real dos reis filisteus,
e irresistível. Abimeleque (Gn 20.2; 21.22; 26.8). Mas,
12-19 Deus na eleição. Dentre a sua em pouco tempo, a proteção se transfor-
criação, o Criador escolheu um povo para mou em detenção (1Sm 21.13, "em cujas
ser a sua herança, "possessão" (12) e, ao mãos"), pois eles reconheceram Davi e
examinar todos os que vivem sobre a ter- perceberam que tinham um valioso re-
ra (13-15), ele observa a inutilidade dos fém nas mãos. Fingindo-se de louco,
meios que o mundo oferece para propor- Davi garantiu sua libertação e escapou.
cionar segurança (16,17): nem posição Portanto, se tivéssemos apenas a narra-
(rei) nem poder (exército), nem bravura tiva de Samue1, diríamos que a crise foi
(valente), força ou equipamento (cavalo) superada com astúcia. Mas, em retrospec-
podem livrar. Mas, comparada com toda to, Davi percebeu que não foi nada disso
essa pompa de estado, força armada e ma- que aconteceu: o segredo de sua fuga foi
terial bélico, como é simples a proteção Busquei o SENHOR (4) ... Clamou este aflito
que ele dá aos seus! Seus olhos e sua mi- (6). Não foi a esperteza que abriu a por-
sericórdia (18) são suficientes para enfren- ta, mas ele... livrou-me (4), o SENHOR... o
tar e vencer tanto a ameaça eterna (morte) livrou (6).
quanto a terrena (fome) (19), e atuam a O salmo é um acróstico alfabético in-
nosso favor por intermédio do temor (que completo (v. Introdução): uma letra não é
o temem) reverencial em relação a ele e da usada e outra é usada duas vezes. As di-
esperança (sobre os que esperam, expecta- ficuldades da vida não podem ser catalo-
tiva confiante) de que sua misericórdia nos gadas, nós não conseguimos vislumbrar o
guardará (18). quadro total. Mas, até onde a história toda
20-22 O coração confiante. O teste- pode ser contada, aqui está um ABC para
munho do povo do Senhor tem como ca- um momento de crise.
racterísticas: (a) constância na esperança O salmo se divide em duas partes:
(expectativa confiante), não apenas quan- v. 1-10, as lições da experiência, principal-
to ao resultado final - esperança futura e mente o testemunho do próprio Davi com
eterna - mas a esperança que nos assegu- algumas conclusões; v. 11-22, o ensino da
ra que, seja qual for a circunstância, ele é verdade, como administrar a vida e enfren-
nosso auxílio e escudo (20); (b) alegria na tar as crises.
confiança. O coração alegre é produto da 1,2 Compromisso de louvar sem ces-
confiança baseada no que o Senhor reve- sar. Em todo o tempo - até mesmo nas
lou a respeito de si (nome) e de seu caráter garras de Abimeleque - a resposta certa é
(santo), pelo que ele não pode jamais negar (não a astúcia, mas) bendizer o Senhor, i.e.,
767 SALMO 35

reconhecer as glórias que fazem dele quem para obter a liberdade, mas uma vida de
ele é, louvar, gloriar-se... no / "dedicar-se reverente temor do SENHOR respeita a ver-
ao louvor do" Senhor. Esta é a mensagem dade divina e honra seus valores.
para os humildes, os que se encontramjun- 15-18 A chave para enfrentar a adver-
to à base do monturo da vida. sidade. O ataque da adversidade deve ser
3-6 Testemunho dado para a glória neutralizado com oração, e a oração dosjus-
de Deus. A oração foi atendida com livra- tos faz com que o Senhor do livramento ve-
mento total (4) - e isso não se restringe a nha em nosso socorro (17). Como os justos
Davi, pois os que o contemplam são ilu- estão aqui contrastados com os que prati-
minados interiormente (5); eles jamais co- cam o mal, a descrição abrange o relacio-
lhem vexame, i.e., nunca são desapontados namento reto com Deus e o compromisso
como resultado de olharem para o Senhor. de viver uma vida de retidão, portanto, (a)
Da mesma forma, Davi clamou e foi ouvi- no contexto da justiça, a oração é eficaz:
do (6) não porque tivesse algo de especial, (15, clamor) especificamente "clamar por
pois ele era um aflito, alguém "na base do socorro"; clamam (17), em sinal de perigo,
monturo da vida". urgência; mas (b) o Senhor se identifica
7-10 Lições extraídas. O testemunho automaticamente com os oprimidos pelas
de uma pessoa só é útil para os outros se aflições da vida (18). Perto, um relacio-
estiver alicerçado numa verdade imutável namento de "parentesco próximo", não
a respeito de Deus. Então, por que Davi simplesmente estar fisicamente perto, mas
conseguiu ter essas experiências? Porque o tomando para si as nossas dores (Lv 21.23;
anjo do SENHOR é o agente protetor sempre Rt 2.20; 3.12).
presente (7). Aparecendo a Agar, o anjo do 19-22 O segredo do livramento. Estes
Senhor falou sobre o Senhor (Gn 16.11) versículos podem ser considerados um
e, contudo, era o próprio Senhor (Gn comentário sobre o relacionamento de
16.13; cf Êx 3.2,4; 14.19,24; 23.20,21; Jz "parentesco próximo". Realisticamente, o
6.21,22; 13.21,22). O Anjo está particu- salmista reconhece que ser justo (reto com
larmente associado com ocasiões em que Deus e comprometido com a retidão, 19)
o Senhor deseja mostrar-se a pessoas es- não é garantia de uma vida sem problemas
colhidas, e é uma das indicações que o Ar (Muitas são as aflições) - mas, em sua
fornece a respeito da diversidade dentro da proximidade conosco, o Senhor livra (19),
unidade de Deus. Portanto, o testemunho preserva (20), fica do nosso lado contra
de Davi pode ser o testemunho de qualquer os nossos adversários (21), paga o que for
um, porque o Anjo acampa-se (vive numa necessário para suprir nossa necessidade
habitação móvel para poder mover-se jun- (resgata, 22a; 31.5) e se oferece a si mes-
to com o povo de Deus em sua peregrina- mo como refúgio (22b).
ção terrena) com todos os que o temem.
Assim, todos são convidados a provar e Salmo 35. Reações ao
ver, se refugiar (8) e encontrar suficiência sofrimento imerecido
nele (9,10). Este salmo, que é mais um extravasamento
11-14 O segredo da vida plena. Ensi- de sentimentos do que uma exposição
narei dá o tom do restante do salmo. Aqui coerente e organizada, diz respeito a uma
estão as lições que Davi quer compartilhar. situação em que inimizade e sofrimento
Primeiramente, a inesperada chave para pareciam não ter fim. O longo período em
uma vida bem-sucedida: refrear a língua que Saul esteve tomado de um ódio para-
(13), estabelecer e seguir objetivos mo- noico parece se encaixar aqui, com a triste
rais determinados (14). Na corte de Aquis, figura do rei atraindo para si muitos que
Davi recorreu a artimanhas e concessões se solidarizavam com ele por bajulação e
SALMO 35 768

agravavam sem motivo os sofrimentos de Deus por seu poder salvador (9,10). Arefe-
Davi. Como no salmo 34, a oração é vista rência a guerra e armas (1,2) indica a força
como a única solução, mas, naquela crise, a do Senhor, que é muito superior à força do
resposta veio com a oração: "Clamou este inimigo. 1 Contende. A palavra se aplica
aflito, e o SENHOR o ouviu" (34.6). Agora, a processos judiciais. O primeiro apelo de
apesar da perseverança na oração, a agonia Davi é de que seja feito o que é certo. Não
é prolongada e a resposta demora a vir. A se pode pedir ao Senhor que faça algo in-
oração submete as nossas necessidades aos justo. Peleja. Embora em risco de morte,
recursos do Senhor, mas também submete Davi não se propõe a pegar em armas. Isso
o nosso cronograma ao dele. é tarefa do Senhor. 2,3 Escudo ... broquei e
As três seções do salmo são demar- sinônimos, i.e., todo o equipamento defen-
cadas por promessas de louvor respon- sivo necessário. Lança. O Senhor é chama-
sivo quando as nuvens se dissiparem do a defender e atacar. E também a suprir a
(9,10,18,27,28). Dentro de cada seção, necessidade que a alma tem de se sentir se-
o pensamento vagueia sobre os mesmos gura. 4 Confundidos... vexame: ser enver-
tópicos: (a) clamor pela intervenção divi- gonhado, ser publicamente desapontado
na (1-3,17,22-24a); (b) oração pedindo o em suas expectativas. 5 Palha, uma ima-
castigo dos adversários (4-6,8,24b-26) e gem de impotência diante do juízo divino.
(c) razões que justificam essa retribuição O anjo (ou melhor, "Anjo"), cf 34.7. O
(7,11-16,19-21). A tônica de cada seção "Anjo do SENHOR" aparece em Salmos ape-
encontra-se nos últimos versículos: o so- nas nestes dois lugares, para salvar (34.7)
frimento é sem causa (7), é uma forma e para espalhar (35.5,6). 7,8 Orações retri-
estranha de retribuir o comportamento de butivas sempre seguem a vontade revelada
Davi (13,14), e está cheio de animosidade de Deus. Ele declarou (Dt 19.18,19) que
pessoal (19-21). Como sempre acontece quando alguém acusasse falsamente outra
em salmos como este, ficamos surpresos pessoa, deveria receber o mesmo castigo
com a veemência com que Davi ora e com que tentou infligir. Numa circunstância
o elemento de contra-ataque aos seus ini- como essa, nós oramos de forma branda:
migos. Precisamos nos lembrar de que há "Seja feita a tua vontade"; os salmistas,
uma ira santa, evidenciada no Senhor Jesus com mais realismo, explicitavam essa
Cristo (Me 3.5), nos santos de Apocalipse vontade! 10 Quem contigo se assemelha?
6.9,10 e mencionada em Efésios 4.26. O Cf Êxodo 15.11; Miqueias 7.18.
salmo inteiro (como todos os salmos simi- 11-18 Oração numa situação de peri-
lares) é uma oração sem nenhum indício de go imerecido. A longa seção introdutória
que, quer em palavra, quer em ação, Davi (12-16), em que Davi lamenta estar rece-
manifestasse alguma animosidade em re- bendo o mal em troca do bem que praticou,
lação àqueles que o perseguiam de forma é seguida de um apelo pela intervenção
pecaminosa e condenável. Assim como no divina (17) e da promessa de louvor pelo
salmo 34, a crise, embora prolongada nes- livramento (18). Este é o cerne tristonho
te caso, é enfrentada com oração, deixando do salmo: descobrir que pessoas que eram
tudo nas mãos do Senhor. consideradas amigas dão testemunhos fal-
1-10 Oração numa situação de peri- sos, se deliciam com a desgraça e fervem
go indesejado. Um apelo pela intervenção de ódio. Nessa seção, o Senhor é tratado
divina (1-3) é seguido por uma oração pe- como "o Soberano" (17), com o acrésci-
dindo represália (4-6) e a explicação de mo da pergunta: Até quando? Certamente,
que tal comportamento é sem causa (7). O ele é mais forte que qualquer inimigo,
tema da retribuição é repetido no v. 8, se- mas o santo que está orando precisa estar
guido por uma promessa de exultação em preparado para se submeter ao tempo do
769 SALMO 36

Senhor Soberano. 13 Em oração me re- Salmo 36. Um Deus,


clinava sobre o peito: "E a minha oração duas atitudes
ficava voltando para o meu peito" (seme- A estrutura deste salmo mostra sua
lhante na ARe), o que pode indicar oração mensagem:
não respondida, mas é uma forma bastante
incomum de expressar a ideia. Se "peito" AI (v. 1) O ímpio: sua filosofia
é uma metáfora para "coração" (Ec 7.9), B 1 (v. 2-4) As características do ímpio
então "mas minha oração ficava voltando à C (v. 5-8) As características do
mente", i.e., apesar do modo como o trata- Senhor
vam, ele continuava a se pegar orando por B2 (v. 9-11) Os que conhecem o Senhor
eles (Mt 5.44). 16 Vis, profanos em pen- N (v. 12) Os ímpios: seu destino
samento e conduta, abomináveis a Deus,
religiosamente apóstatas: aqui, pessoas Neste salmo, há uma escolha a ser feita,
agindo como se não existissem sanções que determina o tipo de vida que teremos
divinas com relação à conduta. Bufões em agora e o destino que nos aguarda depois:
festins. Provavelmente (NVI), "como ím- a escolha é como reagir à revelação de
pios caçoando do meu refúgio". 17 Senhor: Deus. Rejeitá-Ia é estar condenado a ouvir
"Soberano". 18 O Senhor se alegra em o nosso próprio coração e a viver sem va-
receber agradecimentos (Lc 17.15,16). A lores; recebê-Ia é ter vida, luz, abundância
promessa de louvor e graças unifica esse e proteção.
salmo (9,28). 1 A filosofia do ímpio. Lit., "A palavra
19-28 Oração numa situação de pe- da rebelião para o ímpio no meu coração".
rigo maligno. Os inimigos de Davi estão "Oráculo" (xvr), palavra de autoridade, é
cheios de prazer maligno e maldade (19- geralmente usada com relação ao que o
21). Continuará o Senhor em silêncio (22- Senhor fala. Aqui quem fala é a rebelião
24)? Se ele ouvir o apelo por intervenção (transgressão). "No meu íntimo" (NVI), ou
(24-26), chegará o dia em que os verdadei- "sei intuitivamente" ou "sei pessoalmente".
ros amigos de Davi glorificarão ao Senhor A primeira opção ressalta convicção da
junto com ele (27,28). O novo destaque verdade; a segunda, que é mais atraente,
dessa seção é a justiça do Senhor (24). testifica que ele mesmo não está imune a
Como ele é um Deus justo, tem de agir a essa voz interior. 1c,d A questão não é se
favor de alguém que está passando por uma Deus existe, mas se ele é importante; não
provação tão severa quanto essa. 19 Sem é sua existência, mas sua relevância. Essa é
causa (cf Jo 15.25). Pisquem. Insinuação a posição de muitas pessoas o tempo todo;
maliciosa. 22 Tu, SENHOR. os viste. Observe é a posição de alguns crentes de vez em
a conexão com o v. 21, vimo-lo. Seja qual quando - não como convicção declarada,
for a alegação deles, o Senhor conhece a mas na prática.
verdade dos fatos. Senhor, "Soberano". 2-4 As características do ímpio.
No v. 17, o título apontava para o controle Interiormente, escuta os próprios conse-
que o Senhor tem sobre o tempo em que lhos e é moralmente complacente (2); exte-
os acontecimentos ocorrem; aqui, o foco riormente, é mau em palavras e ações (3),
está em seu domínio sobre os adversários. em planos, objetivos e valores (4). 3,4 Sem
27 Davi tinha inimigos aos montes, mas temor de Deus não há padrões objetivos
não esqueceu de que também tinha amigos para a vida. Malícia, uma palavra que vai
- um grande antídoto para a solidão cria- de travessura a apostasia. Discernimento,
da pelas acusações mentirosas. E, um dia, conduta sábia que leva ao verdadeiro
eles serão os primeiros a glorificar a Deus sucesso. Despega, "despreza", rejeição
pela restauração de Davi. tanto mental quanto prática.
SALMO 37 770

5-8 As características do Senhor. entre a sorte terrena dos "justos" - os que


5 Benignidade, o amor que brota de um vivem plenamente seu relacionamento de
compromisso voluntário, "amor imutá- quem está "em ordem com Deus" - e os
vel". Chega até o, "está no", não a ideia "ímpios", os ateus na prática, para quem
de algo remoto, mas sim muito alto, algo Deus pode até existir, mas é irrelevante.
muito maior e mais alto que qualquer coisa O salmo se divide em quatro seções de
que exista na terra. Fidelidade, coerência tamanho semelhante, sendo que a segun-
do caráter revelado, confiabilidade em suas da, a terceira e a quarta são marcadas por
promessas. 6 Justiça ... juízos a expressão começos paralelos. Trama o ímpio (12), O
da santidade de Deus, respectivamente em ímpio pede emprestado (21), O perverso
princípios morais e práticas justas. 7,8 A espreita (32).
benevolência universal de Deus em amor 1-11 A prosperidade do ímpio: rea-
(cf 5), proteção (7), fartura e satisfação ções. O cenário é construído observando-
(8, como os rios do Éden, Gn 2.10). se que existem três maneiras de encarar a
9-11 As características dos que co- vida (1 contrastado com 3) e que, aparen-
nhecem o Senhor. A descrição (5-8) se temente, os maus são bem-sucedidos (7),
transforma em testemunho: vida, em con- enquanto os que fazem o bem são frequen-
traste com a vida decadente dos v. 2-4, temente frustrados pela vida e tentados a
vida verdadeira dada por Deus; luz, tudo invejar (1), a ficar perturbados e (8) a se
o que toma a vida plena e despreocupada. perguntar se é realmente verdade que os
Vemos, experimentamos e desfrutamos. mansos herdarão a terra (9,11). A reação
10 Conhecem, desfrutam de íntima comu- recomendada é sossego e contentamento
nhão. Benignidade... justiça, os atributos (1,7,8), confiança e compromisso moral
do próprio Deus. Os que o conhecem oram (3,5), paciência (7) e confiança no resul-
para que ele compartilhe sua própria na- tado final (10,11). Essa recomendação se
tureza com eles (2Pe 1.3,4). 11 Pé... mão baseia na transitoriedade dos que praticam
simbolizam, respectivamente, conquista e a iniquidade (2), na garantia da bênção de
poder pessoal. Vivemos num mundo que Deus (4-6) e na reparação final de todas as
deseja subjugar e dominar. Repila, tome coisas (9-11). 3 Alimenta-te da verdade,
sem lar, ponha a vida em desordem. ou "cuida da fidelidade", cultiva a fideli-
12 O destino dos ímpios. "Ali" (ARe; dade (a Deus e aos seus caminhos) como
"Lá", NVI; a ARA omitiu o termo equivalente). um pastor cuida de seu rebanho. 4 Desejos,
Será que existe alguma circunstância real "pedidos", desejos transformados em ora-
de queda dos obreiros da iniquidade por ções. 5 O mais ele fará, i.e., ele agirá.
trás do salmo? Ou, como é mais provável, 6 Tuajustiça, o fato de que você está certo;
Davi está apontando dramaticamente para o teu direito, o veredicto da corte divina a
o dia do juízo divino? seu favor. 7 Descansa no SENHOR e espera
nele. O "descanso" (em palavra e ação) de
Salmo 37. Um ABC para o uma confiança firme, acompanhada de cer-
conflito espiritual pessoal ta (lit.) "convulsão", uma ansiedade causa-
O salmo 37, um acróstico alfabético quase da pela expectativa. 9 Esperam, a espera
completo (v. Introdução), pode funcionar confiante da esperança. 11 Mansos. Os que
como um comentário sobre os versículos se encontram junto à base do monturo da
finais do salmo 36 - a oração contra os vida, mas enfrentam sua situação calma-
"pés e mãos" hostis e a afirmação de que, mente porque sabem que estão debaixo da
não importa onde eles ataquem, sua derro- soberana mão de Deus.
ta é certa. Ele explicita a geralmente ago- 12-20 A hostilidade do ímpio: ver-
nizante tensão na fé gerada pelo contraste dades escondidas. A observação feita nos
771 SALMO 37

v. 1-11, de que a vida é injusta, recebe ago- a vida nos prova com suas desigualdades,
ra outro cenário: os ateus práticos em seu e não as queixas, invejas e ira a respeito
sucesso passam a antagonizar e agredir o das quais somos advertidos nos v. 1-11.
justo (12,14). Porém, mesmo nessa situ- 22 Restaure-se o "porque" inicial. Os jus-
ação de grande perigo, as coisas não são tos são libertos para exercer a generosidade
bem o que parecem: o Senhor não é um porque sua esperança garantida tira deles
espectador passivo; ele tomou o partido do qualquer ansiedade em relação ao futuro.
justo e já determinou a desgraça dos ímpios 23,24 Embora seus passos tenham sido
(13), garantindo que suas agressões voltem firmados, ele não está livre de tropeçar. O
para eles (15), pois eles também são inimi- caminho ainda tem armadilhas e perigos
gos de Deus e estão condenados à destrui- escondidos, mas a mão que nos segura
ção (20). Por outro lado, mesmo aqui na não nos solta nunca. 25 Talvez essa tenha
terra, o justo é mais rico que o ímpio (16), sido uma experiência pessoal do salmista;
cujo poder será quebrado, mas o Senhor é porém, o mais provável é que seu sentido
a força dos justos; eles estão em comunhão seja como o do v. 24, i.e., acrescentando-se
íntima com ele e sob sua proteção (18); as palavras "no final das contas". 26 Sobre
nenhuma calamidade terrena pode destrui- a inclusão da descendência no fluxo da
los, pois eles têm suas próprias fontes de bênção, ver Êxodo 20.6; Provérbios 20.7;
satisfação (19). A orientação desta seção é Atos 2.39; lCoríntios 7.14. 28 Santos, ter-
que devemos aprender a viver à luz dessas mo relacionado com amor (36.5), aqueles
noções em vez de aceitar as aparências da a quem ele ama e que reagem a esse amor
vida. 14 Pobre e necessitado, o coitado amando-o também. 31 Lei, "ensino".
e o explorável. 17 Braços, "poder", força e 32-40 A transitoriedade do ímpio:
habilidades pessoais. 18 Íntegros, aqueles segurança. O princípio de que o Senhor
cuja vida é uma só, interna e externamente garante um resultado abençoado para os
e em todas as suas partes. Conhece (cf 1.6), justos (os que estão "em ordem com ele") é
sob sua supervisão e proteção pessoal. formulado aqui; a ameaça nunca é tão mor-
21-31 O empobrecimento do ímpio: tal assim, pois, no final, os ímpios é que
compromisso. Uma das verdades desco- perecerão (32-34). Consequentemente, a
bertas na seção anterior foi a de que os confiança absoluta no resultado final
justos são mais ricos. Agora, esse fato é (espera), juntamente com a obediência que
um pouco mais explorado. A generosida- segue o seu caminho, é a única maneira de
de distingue os justos dos ímpios (21,26). se garantir a posse da terra (34). Um caso
Eles podem dar-se ao luxo de agir com li- particular (35,36) é visto como um exemplo
beralidade porque (o v. 22 começa com típico do que acontecerá no final (37,38).
"porque", ARe) seu futuro está garantido, Enquanto isso não ocorre, o Senhor dá sal-
seu caminho é firme (23) e em Deus todas vação (livramento), proteção, ajuda e so-
as suas necessidades atuais são supridas corro aos que nele buscam refúgio (39,40).
(25, cf 28,29). Por trás dessa despreocu- 34 Possuíres a terra (cf 9,11,22,29,34). O
pação com as necessidades e perigos da mesmo verbo é usado em todo o texto, e
vida está o fator oculto da bênção, da ale- a tradução "possuir" é melhor que "her-
gria, do amor protetor e da fidelidade de dar". O Senhor deu ao seu povo uma terra
Deus, que eles experimentam no contex- prometida, mas a posse dessa terra esteve
to de seu compromisso com ele no modo frequentemente ameaçada, tanto nacional-
como vivem (27), no caráter que cultivam mente, por inimigos estrangeiros, quanto
(28) e na qualidade de suas palavras e de individualmente, por exploradores ávidos
seu coração (30,31). Esse compromisso é e opressores. Ter segurança garantida e
que deveria ser nossa prioridade quando usufruir da posse da terra era algo que o
SALMO 38 772

povo desejava muito. Este é o significado Cravam-se/"caem". 3 Indignação, a sensa-


principal do salmo, mas seu sentido mais ção de ultraje. Parte sã, "inteireza". Saúde,
amplo aponta para o advento messiânico "paz/bem-estar". Pecado, itens específicos
e a nova criação. 37 Íntegro, uma pessoa de mau procedimento. 4 Iniquidade, "cul-
com verdadeira integridade (cf v. 18). pa", a deformação e corrupção interior da
38 Transgressores, "os que se rebelam", natureza. Se elevam acima de minha cabe-
zombando deliberadamente da vontade de ça, como no afogamento.
Deus revelada. 5-8 Essa descrição do corpo atormen-
tado é um desdobramento do v. 3. Nem
Salmo 38. Ira divina, toda doença vem como castigo pelo pe-
divina salvação cado, mas algumas sim. Toda situação
O primeiro e o último versículos resumem de doença é um período de autoexame.
o tema e a maravilha deste salmo. Quando Neste caso, a conexão estava evidente-
o SENHOR é ofendido, e sua ira (cólera ex- mente clara. A descrição alterna sintomas
plosiva) e furor (cólera flamejante) aflo- físicos e mentais. 5 Infectas e purulentas,
ram (I) e suas setas começam a voar (2), "cheiram mal, infeccionadas". Loucura,
é a esse mesmo Senhor que nós suplica- "tolice". O substantivo concreto corres-
mos por sua presença, proximidade (21), pondente significa "completamente tolo".
socorro e salvação (22). Somente o favor 6 Encurvado, "cheio de dores". 8 Aflito,
do Senhor pode nos livrar de seu desfavor. "entorpecido". Dou gemidos, "urro"
Se existe um salmo que foi escrito com o (como um leão raivoso). Desassossego,
propósito de nos alertar contra o pecado "agitação, inquietação".
expondo suas consequências, com certeza 9-12 Os v. 1-4 focalizavam a doença
é este. O pecado agride o Senhor e opri- como evidência da hostilidade divina; o
me o pecador, troca bem-estar por feridas, assunto agora é o abandono das pessoas e a
induz à depressão, produz dores no corpo as ameaças que a doença desencadeou. Ao
e inquietação no coração (1-8). Ele entris- mesmo tempo, embora a oração seja indis-
tece e enfraquece, nos isola dos amigos e tinta, ele se volta para o Senhor. 9 Senhor,
desperta inimizade (9-12); ele nos deixa "Soberano", como nos v. 15,22. O Senhor
sem desculpa (13,14). Porém, ele não fe- "declara seu poder absoluto principalmen-
cha a porta da oração nem nos expulsa do te ao demonstrar misericórdia e piedade"
lugar de arrependimento (15-18). (Livro de Oração Comum). 10 Outros
1-12 O caminho para baixo. Davi sintomas de doença: palpitação, perda de
afunda cada vez mais sob o peso do peca- vitalidade e de visão clara. 11 Um detalhe
do. O Senhor é seu inimigo (1,2); Davi está vívido. Geralmente, situações em que a ne-
sem forças (5-10) e sem amigos (11). Seus cessidade de solidariedade é grande fazem
inimigos tramam contra ele (12). 1-4 Os com que as pessoas se afastem. Nós não
sintomas de doença (3, cf 5-8,10,17) po- sabemos o que fazer ou dizer, e o egoísmo
dem ser a maneira de Davi descrever seus supera a preocupação com o necessitado.
perturbadores sentimentos de culpa, mas Mas a pessoa que está em dificuldades não
os detalhes são tão vívidos e o senso de dor precisa de longos discursos - só do toque
física tão agudo que é melhor entender que, de uma mão amiga, da companhia de um
neste caso, ele foi acometido de uma doen- coração compreensivo. Amigos, "meus
ça real como castigo pelo pecado. 1 Ira... amados", um relacionamento mais íntimo
furor, ver acima. 2 Mensageiros divinos da que o dos companheiros, "pares". Parentes
ira do Senhor (setas) - doença, dor, aban- (cf 34.18), aqueles que, pela lei, deveriam
dono (11), oposição (12) - e oposição tomar para si o problema de seu parente.
pessoal divina (mão) "caem" sobre Davi. 12 Infelizmente, existem pessoas que ficam
773 SALMO 39

esperando uma oportunidade para prejudi- 21,22 O nome do Senhor da aliança


car os outros, desejam que o pior aconteça (21, cf v. 1,15), do Deus pessoal (21, cf v.
e armam ciladas e conspirações. 15) e do Senhor Soberano (22, cf v. 9,15)
13-22 O caminho para cima. O mesmo se agrupam nesse apelo final. O Senhor
esquema dos v. 1-12 repete-se aqui, mas o que foi ao Egito porque sabia da dor/so-
salmo dirige-se progressivamente para um frimento de seu povo (Êx 3.7, mesma pa-
novo cenário. O apelo contra a ira divina lavra usada no v. 17) não mudou; o Deus
(1,2) transformou-se no apelo inarticulado que se deixou conhecer pessoalmente e ser
do v. 9. Mas agora, embora a situação não chamado de seu por quem o ama nunca
tenha mudado, um tom positivo começa a será infiel a esse relacionamento; o Senhor
tomar conta: a espera confiante por uma Soberano salvará.
resposta (15), uma verdadeira confissão do
pecado (não apenas um lamento) (18) e um Salmo 39. A pergunta urgente
pedido de socorro salvador (22). A situação combina com a do salmo 38:
13-16 Ele não responde às injúrias (12- silêncio na presença dos espectadores
14), mas fala só com Deus (15,16). Ele fala (38.12,13; 39.2), ação divina contra o pe-
somente ao SENHOR (15, "Javé", o Deus de cado (38.1-3; 39.9-11), esperança somente
amor fiel à aliança, com poder para sal- no Senhor (38.15,21,22; 39.7). Mas o foco
var e julgar) sobre seus silêncios (13,14) é diferente. No salmo 38, a doença expôs o
e sobre sua esperança confiante (15); ele pecado, gerando a necessidade de perdão;
sabe que o Senhor ("Soberano") que é no salmo 39, a doença expôs a brevidade
Deus meu, responderá (cf Lm 3.19-33). da vida, gerando o desejo de um período de
14 Não é que ele "não possa" replicar, mas alívio (13) antes que a transitoriedade da
ele simplesmente não o faz. A escolha de vida siga seu curso.
permanecer em silêncio foi voluntária. A brevidade da vida e a tristeza da mor-
15 Pois, "porque". Ele preferiu ficar em te permeiam toda a Bíblia, e a revelação
silêncio "porque" escolheu o caminho da completa do mundo imortal não as elimi-
confiança e da oração (15,16). Espero, i.e., na. Esta vida é preciosa. Suas alegrias e
com esperança confiante. amores podem ser transcendidos, mas não
17-20 A oração registrada no v. 16 foi podem ser substituídos. Ser privado dos
feita com urgência pois estou prestes a tro- entes queridos é "tristeza sobre tristeza"
peçar (17). Em primeiro lugar, ele tem ur- (Fp 2.27); nossa própria partida desta vida
gência porque sua resistência está perto do não pode ser contemplada com absoluta
fim; em segundo lugar, sua dor/sofrimento tranquilidade, ainda que o céu esteja ga-
(17, a palavra combina os dois significa- rantido. Davi lamentou a morte de seu filho
dos) está sempre presente. Isso, por sua pequeno mesmo sabendo que eles iriam se
vez (o v. 18 começa com "porque", v. ARe), encontrar novamente (2Sm 12.22,23), e
ocorre permanentemente, pois ele "conti- aqui ele lamenta o possível encurtamento
nua confessando e suportando tristeza" por de sua existência na terra.
causa de sua iniquidade (cf v. 4) e peca- 1-3 Um silêncio forçado. Medo de di-
do (cf v. 3). O próprio ato de levar todo zer a coisa errada num momento de tensão.
esse assunto diante de Deus mantém viva Embora a pressão possa aumentar (2,3), a
a sensação de opressão. Além disso, exis- questão do testemunho diante do ímpio é
te vigorosa oposição, ódio injustificado e importante (cf 73.15).
difamação (19). Mas, ao mesmo tempo, já 4-6A pergunta urgente. Poeticamente,
não há a preocupação pesada dos v. 5-8; o o v. 4 pergunta: "Eu vou morrer?". Essa
ar está mais claro - certamente porque ele era a pergunta que ele sentia dever reprimir
chegou ao lugar de confissão. diante dos que não compartilhavam de sua
SALMO 40 774

fé, pois, tendo a perspectiva do céu diante Agora, a espera acabou (1-3); a confiança
de si (49.15; 73.24), por que deveria ele te- foi recompensada (4,5), o compromisso
mer ou se angustiar com a morte? Mas a pessoal de fazer a vontade de Deus é assu-
pergunta será feita, e Davi tem de reconhe- mido (6-8); o testemunho público é prome-
cer a brevidade da vida, sua fragilidade e o tido (9,10), mas a imperfeição pessoal e a
curso incerto da existência terrena (5,6). necessidade de socorro divino urgente per-
7-11 Deus é a minha esperança. manecem (11-13). Também é necessário
Espero e esperança são sinônimos. Davi que Deus faça alguma coisa publicamente
tem perguntado ansiosamente: "Eu vou para repreender (14,15) e dar alegria (16).
morrer?" (4), mas agora ele vê o futuro na Contemplando esse futuro à sua frente,
perspectiva certa. Talvez ele tenha uma do- Davi mais uma vez assume uma atitude
ença terminal (10, lit., "Estou acabado"), de espera: independentemente do que o
mas o seu período sobre a terra é exata- Senhor tenha feito no passado, existe a ne-
mente igual ao de qualquer outra pessoa, cessidade constante e urgente de sua aten-
isto é, o que Deus determinou. Esta é sua ção e ação salvadora (17).
expectativa confiante: curta ou longa, a 1-3 (AI) Espera frutífera. O simples
vida é o que o Senhor quer. 8 Livra-me... fato de esperar (com esperança e confian-
não me faças. Em sua crise, Davi contava ça, I) traz livramento pessoal, segurança,
somente com a oração. Se ela "não fosse renovação e impacto público eficaz (2,3).
atendida", seus críticos ficariam exultan- 1 Esperei confiantemente, ou "apenas es-
tes (38.15,16) e o insensato (pessoa sem perei". 2 [Poço de] perdição, significado
discernimento moral e espiritual) zomba- incerto; talvez "[poço] turbulento/desola-
ria dele. 9 Silêncio de aceitação debaixo do". 3 Novo, "viçoso", agradecendo por
da mão de Deus (cf v. 2). 10,11 Uma das "novas" misericórdias. Muitos. O modo
causas da diminuição da duração da vida como reagimos diante da vida constitui um
terrena é o castigo divino do pecado e (cf vigoroso testemunho, e nada é mais pode-
90.5-9), assim, a preocupação de Davi não roso do que manter uma atitude simples
é com a cura, mas com o perdão (8). de espera confiante. Essa atitude é notada
12,13 Oração por alívio. O fim da (verão), estimula a reverência pelo Deus
existência divina é inexorável; mas antes que responde à fé (temerão) e leva outros a
que isso aconteça, ele quer tomar alento, terem fé também (confiarão).
"recobrar o ânimo". 12 A oração apresen- 4,5 (B I) A ação divina no passado é
ta nossas necessidades a Deus; grito, nos- recordada. A bem-aventurança acompanha
so desamparo; lágrimas, nossa urgência. a confiança por causa da abundância dos
Forasteiro... peregrino: O Senhor fez de feitos e planos do Senhor. 4 Arrogantes...
seu povo "estrangeiros e peregrinos" em mentira. Duas atitudes inadmissíveis:
sua terra (Lv 25.23); forasteiro, alguém fingir uma competência que não existe
que pediu asilo; peregrino, "inquilino", al- e mentir para se livrar de um problema.
guém que não é o proprietário. O Senhor Maravilhas, coisas que têm a marca do
ama os seus "estrangeiros" (Dt 10.19) e sobrenatural, indicando um agente divino.
lhes dá proteção e direito de posse. São mais do que se pode contar. Ou seja,
"não há comparação contigo".
Salmo 40. Esperando antes... 6-13 (C) A disposição importantíssi-
esperando ainda ma. Três estrofes (6-8; 9,10; 11-13) estão
Nos salmos 38 e 39, Davi esperava em ora- ligadas por referências à disposição inte-
ção (38.15; 39.7), em meio a uma crise que rior: o coração obediente (8), o coração
envolvia o pecado (38.3; 39.8) e a maldade que testemunha (10), o coração que fraque-
das pessoas que o cercavam (38.16; 39.8). ja (12). As maravilhas de Deus (5) exigem
775 SALMü41

uma reação. Nenhum ritual é satisfatório 14 Envergonhados ... vexame... ignomínia,


(6), somente o compromisso sério com a sinônimos para desapontamento e descré-
vontade de Deus (7,8). Isso não pode ser dito público. É tão correto orar contra (14)
apenas uma questão de santidade interior; quanto orar por (16). Davi nos fornece um
precisa ser um testemunho público (9,10). modelo, mas esse tipo de oração requer pu-
Mas, ao empreender essa tarefa, vem o reza de espírito.
pensamento: "Será que sou capaz disso?", 17 (A 2)Ainda aguardando. Consciente
pois a vida continua cheia de problemas, de sua falta de força (pobre, esmagado sob
o pecado ainda é uma ameaça e a força de o peso da vida) e de determinação (neces-
vontade está diminuindo (12). Mas o v. 12 sitado, que facilmente sai do curso), Davi
está cercado pelos v. 11,13: o lugar de ora- sabe que, por maiores que tenham sido as
ção continua aberto. misericórdias do passado, enquanto nossa
6 Cf 51.16,17. Não quiseste... não vida terrena continuar estaremos sempre
requeres. Davi foi capacitado a ver que precisando de novas misericórdias no céu
um livramento como esse (1-3) só pode (cf Hb 7.25) e na terra.
receber uma resposta pessoal completa.
Abriste os meus ouvidos, cf Isaías 5004 Salmo 41. Bem-aventurança,
(verbo diferente), a criação de uma capa- na teoria e na prática
cidade de receber uma revelação divina. Os tópicos de doença, pecado, hostilida-
7 Rolo. Algum decreto de coroação (2.7; cf de e afastamento ligam este salmo com
Dt 17.14-20) ou juramento (cf 101) legali- Salmos 38---40, e ele provavelmente re-
zando o reinado de Davi. Numa reafirma- lembra um aspecto - maldade e traição
ção solene, Davi declara seu compromisso - da mesma longa provação. Mas, em
com esse ideal. No fim das contas, só o particular, ele submete um princípio (1-3)
Messias pode cumprir esse compromisso, e ao teste da experiência (11,12): será que
Hebreus 10.5-10 considera acertadamente cuidar dos fracos faz com que Deus cuide
que tanto a extinção dos sacrifícios rituais de nós também?
como a aceitação de todo o compromisso 1-3 (AI) O favor divino, na teoria. A
da lei se cumpriram no Senhor Jesus. Os v. preocupação com os necessitados é incul-
9,10 expressam determinação, seguindo as cada no AT (Êx 22.21; 23.9; Lv 19.10,33;
afirmações dos v. 6-8. Daí, proclamei... ja- Dt 10.18). Provérbios 14.21; 19.17 pro-
mais cerrei... não ocultei... etc. As bênçãos mete bênção em retribuição (cf Mt 5.7;
que vêm por meio da confiança (1-5) espe- 18.33). Aqui, a promessa abrange socorro
ram por uma vida santa (6-8) e lábios aber- na tribulação (1), proteção e restauração,
tos (9,10). Mas para isso é necessário orar bênção temporal, refúgio, força e conso-
reconhecendo nossa dependência de Deus lo na doença (2,3). 1 Necessitado. Termo
(11,13), porque nossa fraqueza pessoal ligado principalmente à falta de recur-
(12) pode facilmente nos levar a descum- sos materiais, mas abarca também outros
prir nossos compromissos e promessas. aspectos de desvantagem. Em 1Samuel
14-16 (B 2) A busca da ação divina 30.13ss., temos como exemplo a atitude de
no futuro. O Senhor agiu em benefício Davi nessa situação, mas obviamente ele
de Davi pessoalmente (4,5); agora, ele se sente numa posição de esperar receber
deseja a ação divina para pôr ordem na a bênção prometida aos que se importam
comunidade. A oposição humana (14,15) com os outros. 3 Afofas, "refazes a cama
poderia frustrar todas as suas boas inten- na sua doença", uma bela imagem do cui-
ções, e os justos, que até certo ponto ha- dado divino.
viam sofrido com Davi, também precisa- 4 (B 1) O pedido por graça por causa
vam desfrutar de misericórdias renovadas. de um pecado. Tendo afirmado que quem
SALMO 42 776

se preocupa com o necessitado tem a bên- LIVRO 2


ção divina, Davi primeiro pede a bênção da
cura em relação ao pecado. Compadece-te, Salmos 42 e 43. De fé em fé
"dá-me a tua graça/favor". Sara a minha Esses dois salmos são certamente um só,
alma, "toda a minha personalidade". O pe- e não podemos dizer por que foram sepa-
cado é como uma doença do pecador, mas rados. Um refrão de continuidade une três
é também ofensivo a Deus: contra ti. estrofes de comprimento similar (42.6,12;
5-9 (C) Ódio, falsidade, mexerico, 43.5); há conexões por meio de conjuntos
traição. Em duas estrofes (5,6; 7-9), o de palavras, e.g., nas duas primeiras estro-
problema central de que o salmo trata é es- fes, enquanto me dizem continuamente etc.
clarecido: a oposição humana e, acima de (3,10); na segunda e na terceira, lamen-
tudo, a traição de um amigo de confiança. tando (42.9; 43.2); e há uma unidade no
"Teus amigos te desprezam, te abando- desenvolvimento do tema. (a) Em 42.1-5
nam? Leva o problema ao Senhor em ora- ("a fé ansiando"), lembranças antigas
ção?". 8 Peste maligna, (lit.) "uma coisa acentuam o sofrimento presente. A metá-
de Belial". A palavra "belial" é usada para fora da sede (1,2) expressa um profundo
desvio moral, má conduta social e aposta- anseio por Deus. (b) Em 42.6-11 ("a fé re-
sia espiritual. Deve ser sempre interpretada vivendo"), a metáfora da tempestade (7)
de acordo com o contexto. O sentido que expressa as aflições presentes, mas a fé vê
mais se adapta aqui é o de alguma ofensa a as vagas como vagas do Senhor, seu amor
Deus que provocou a ira divina. permanece (8), ele ainda é minha rocha
10 (B2) Pedindo graça por causa dos (9). (c) Em 43.1-5 ("a fé respondendo"),
adversários. A misericórdia divina que a metáfora de um destacamento de busca
restaura a vida abre uma oportunidade (3) expressa a segurança em relação ao
para vingança. Mas os salmos insistem no futuro. O Deus que mesmo nessas cir-
fato de que a vingança cabe ao Senhor e, cunstâncias é uma fortaleza (o levará de
em outros salmos, Davi tem o cuidado de volta para casa, 3,4).
evitá-la. Portanto, embora ele pudesse cair Muitas situações podem ser imagina-
no pecado da vingança (1Rs 2.5,6) é difícil das para este salmo. O autor recorda os
crer que num salmo composto solenemen- cultos no templo como coisas do passado
te ele pudesse pedir graça para fazer uma (42.4); ele está agora no extremo norte da
coisa proibida. Entretanto, como rei, ele Palestina (42.6); somente um ato de Deus
podia pedir a Deus que lhe prolongasse a pode levá-lo de volta (43.3); ele está cerca-
vida para que pudesse cumprir o dever real do de inimigos escamecedores e triunfalis-
de purificar a terra (101.8). tas (42.3,9,10). Qualquer ocasião em que
11,12 (N) O favor divino, na práti- um inimigo tomou e deportou cativos (e.g.,
ca. Davi recebeu a bênção prometida (cf 2Rs 14.14; 24.14) seria apropriada.
1-3). Deus não permitiu que seu inimigo
tivesse a última palavra; ao contrário, por 42. 1-5 O passado perdido
causa de sua integridade, ele desfruta do Com um anseio tão intenso que nos deixa
favor divino. envergonhados de nosso amor débil (1,2),
Notas. 11 Triunfar, "dar o brado de o salmista derrama suas aflições diante
triunfo". 12 Integridade, não a perfeição de Deus, junto com recordações de dias
sem pecado, mas integridade em relação melhores (2-4). 2 Inquirir não é errado:
ao assunto em questão, o cuidado com o Quando?... Por quê? (9; 43.2) ... Onde?
necessitado (1). 13 Uma conclusão edito- (3,10), expressando, respectivamente, de-
rial para o primeiro livro de Salmos (cf sejo de que a provação termine, perplexi-
72.18s.; 89.52; 106.48 e Introdução). dade por estar passando por aquela situação
777 SALMO 44

e a incapacidade de ver Deus naquilo tudo. verdade são metáforas para um destaca-
Mas a pergunta "Quem", em Isaías 42.24, mento de busca e resgate. A realidade é
nos coloca numa direção mais tranquiliza- que viver na luz de Deus e amar a sua ver-
dora e cheia de fé. 5 (com 11; 43.5). Ele lida dade é o único caminho que nos faz atra-
com o sofrimento falando consigo mesmo vessar as dificuldades da vida e chegar a
a respeito do Deus que garante o futuro um resultado abençoado. Observe como a
- pois, como sempre acontece na Bíblia, proximidade vai aumentando: monte ... ta-
espera exprime certeza do resultado. bernáculos ... altar... Deus - uma comple-
A NVI segue várias outras versões ao fazer ta volta ao lar, passo a passo.
pequenos ajustes em 42.5 de modo que o
refrão (5,11; 43.5) seja o mesmo em cada Salmo 44. Quando a vida é
caso. Aqui, lit., cc••• eu o louvarei pela sal- injusta e Deus está dormindo
vação da sua face" (o v. 6 começa com: -ó Como nos salmos 42 e 43, a fé enfrenta as
meu Deus", v. ARC), i.e., Deus só precisa calamidades da vida sem sentir que exista
olhar com favor para que toda a angústia alguma razão interna que justifique o so-
se transforme em livramento. frimento (I 7-19). Mas enquanto os salmos
42 e 43 são individuais, o 44 é nacional,
6-11 O presente atribulado possivelmente composto para um dia na-
As circunstâncias são ameaçadoras (7), cional de oração.
mas a fé está renascendo: Deus ainda é
meu Deus (6), a tempestade é tuas cata- AI (v. 1-3) O Deus do passado
dupas... tuas ondas (7); seu amor ainda B 1 (v. 4-8) Testemunho: verdadeira fé
é real; louvor e oração continuam (8); as C (v. 9-16) Lamento: o presente de-
perguntas que parecem queixas, que expri- solador
mem nossa angústia e que não têm respos- B2(v. 17-22) Testemunho: conduta cor-
ta tomam-se ocasiões, não de autopiedade, reta
mas de oração (9,10).6 Recoloque as pala- N (v. 23-26) O Deus do futuro
vras iniciais, -ó meu Deus" - fé pessoal
mantida em meio à depressão por meio da Os caminhos de Deus são sempre um
focalização da memória em Deus. 7 Os mistério. As aflições da vida muitas vezes
sofrimentos não são o toque de uma mão são inexplicáveis aos olhos do ser humano e
estranha. Eles são tuas vagas. 9 A fé diz contrárias ao que Deus já provou ser. O úni-
"minha rocha", a experiência diz "esqueci- co recurso é fugir para Deus, em oração.
do". Tudo depende da escolha que fazemos O salmo pode ser organizado como
sobre qual voz ouvir. 11 Lit., " ... o louva- uma antífona, com vozes respondendo
rei. Ele é a salvação da minha face e o meu uma à outra ou falando juntas. Como a voz
Deus" (ARC), levantando a face do abatido singular (e.g., 6,15) fala de minha espada,
(também 43.5). pode ser o rei conduzindo seu povo reuni-
do em oração.
43. 1-5 O futuro esperado 1-3 O Deus do passado: lembrança
Continua a oração por resgate e restaura- de bênçãos. Toda a assembleia fala do pas-
ção; o realismo continua, equilibrando os sado a uma só voz: memórias ancestrais de
problemas do presente com a perspectiva Deus em ação, de nações aniquiladas, não
do futuro. 1 Faze-me justiça, pronuncia pela força humana, mas pela mão divina.
veredicto a meu favor. 2 A menção dafor- 2 Mãos. Símbolo de ação pessoal. No iní-
taleza e o sentimento de ser "rejeitado": cio da investida, a terra diante deles era "a
seguro a respeito de Deus, esgotado pela terra que o SENHOR... vos dá" (Dt 4.1); e,
vida, cf v. 9 acima. 3,4 A tua luz e a tua no final, "deu o SENHOR a Israel toda a terra
5ALMü44 778

que jurara dar a seus pais" (ls 21.43; cf e a vontade "permissiva" de Deus, mas o
80.8-11; Am 2.9,10). 3 Com certeza eles AT não incentiva isso. Como Deus controla
lutaram pela terra, pois o que o Senhor todas as coisas, nosso caminho na vida é
promete é desfrutado por meio da obe- confiar nele quando não entendemos e bus-
diência ao que ele ordena. Contudo, eles car socorro nele quando somos oprimidos.
sabiam que não foi por sua espada, mas 12 Não só parece não haver nenhuma jus-
a tua destra (ação pessoal), braço (força tificativa humana para a hostilidade divina
pessoal) e o fulgor do teu rosto, o brilho que eles enfrentaram, como também pare-
do favor divino em relação ao seu povo. Te ce que Deus não ganha nada com isso. Por
agradaste deles, "aceitaste com favor". um nada, "sem lucro".
4-8 A verdadeira fé tem sido mantida. 17-21 A conduta correta foi man-
Rei (4,6) e povo (5,7) se alternam e se tida. A confissão da fé pessoal (4-8) é
juntam (8) num testemunho de que não se agora contrabalançada por um testemu-
desviaram de um entendimento verdadeiro nho de lealdade de coração e de conduta
a respeito do que o Senhor é (4) e de sua (18) ~ contudo, o resultado é só desastre
dependência em relação a ele (5); da com- (19); a religião sincera de mãos e cora-
preensão acerca da inutilidade do poder ção foi recompensada com uma sentença
terreno (6) e da eficácia da salvação divina de morte (20-22). O rei fala em 17,20; o
(7). Consequentemente, ele tem sido o povo, em 18,21; e todos juntos em 19,22.
seu motivo de orgulho (8). 4 Eles não se Temos razão de ficar perturbados com a
estribam na fé que seus pais tiveram, mas injustiça da vida. Mérito e recompensa não
na sua própria: lealdade pessoal (rei), de- mantêm o passo de forma alguma (73.2-
voção pessoal (Deus). Ordena, um apelo 14). Infelizmente, na maioria das vezes, a
direto ao Rei divino. Vitória, "salvações" reação do ser humano é negar a existência
(ARe), plural significando "toda sorte de de um Deus bom e amoroso; a reação do
livramentos". 6,7 Ambos começam com rei e de seu povo foi ir a Deus, aqui em
"Pois" (heb.). A dependência do Rei divi- testemunho, manifestando suas inquieta-
no, expressa em 4,5, vem da negação da ções, e depois intercedendo (23-26). Nós
capacidade pessoal (6) e reconhecimento devemos aprender a fazer com que a tribu-
da eficácia divina (7). Tu nos salvaste, "nos lação e a perplexidade nos aproximem do
deste vitória". nosso Deus, em vez de nos afastar dele. 17
9-16 O presente desolador. A antífo- Aliança, neste caso, as obrigações de obe-
na continua: a voz do rei em 9,11,13,15 diência que o relacionamento de aliança
e a do povo em 10,12,14. Todos se unem nos impõe. 19 Chacais habitavam as ruí-
num lamento final (17). A rejeição divi- nas e vagavam entre os mortos nos campos
na levou à derrota humana; a atitude e os de batalha, em busca de alimento. 22 Por
atos de Deus (11,12) combinam-se com os amor de ti, i.e., como resultado da nossa
dos povos hostis (13,14). A humilhação é lealdade a ti.
completa (15,16). Tudo parece sem pro- 23-26 O Deus do futuro: um clamor
pósito (9-12), a boa reputação acabou-se por socorro. Todos se unem num urgen-
totalmente (13,14), só ficou a vergonha te clamor por socorro. Eles oram contra
(15,16). Os segundos verbos de cada ver- a aparente indolência e esquecimento da
sículo, 9-14, ressaltam o fato de que a vida parte de Deus (23,24); eles declaram a
vem diretamente da mão de Deus. É deste extrema gravidade de sua necessidade e
modo que devemos entender as situações pedem uma ação de Deus, pois sabem que
por que passamos, sejam elas boas ou más. seu amor permanece inalterado (25,26).
Algumas pessoas acham útil fazer uma dis- 23 A ousadia da oração. 25 Somos tão pre-
tinção entre a vontade "diretiva" de Deus ciosos para o Senhor, individualmente, que
779 SALMü45

podemos apresentar-lhe nossas necessida- (1018.37). Justiça, em hebraico "humilda-


des. 26 Resgata-nos, "paga o preço", i.e., de-justiça", substantivos justapostos, "jus-
tira dos teus próprios recursos o que for tiça em sua humildade essencial" (Zc 9.9;
necessário para suprir nossa necessidade. Mt 11.29; 2Co 10.1; Fp 2.7,8).
Benignidade, amor centrado na vontade, o 6-9 O rei em toda a sua glória. As
amor que o Senhor prometeu. sete glórias do rei: (i) Sua natureza divina
(6). Muitas correções foram sugeridas para
Salmo 45. O rei-noivo esse texto, não porque haja alguma dúvida
e sua noiva real textual, mas para evitar a atribuição de di-
Verdadeiramente, boas palavras (1) - um vindade ao rei. Mas o texto está perfeito,
rei que é rei de fato, e no dia do seu casa- e o enigma do AT sobre o Messias que é
mento! O salmo tem sete seções: Deus e, contudo, adora a Deus (7), aguarda
sua solução em Jesus (Ef 1.17; Hb 1.8); (ii)
AI (v. 1) O entusiasmo do poeta pelo rei Seu governo justo (6,7): oficialmente (ce-
B 1 (v. 2) A beleza do rei tro) e pessoalmente (amas... odeias), o rei
C 1 (v. 3-5) O progresso do rei é santo (Is 11.3-5); (iii) Sua superioridade
D (v. 6-9) O rei em toda a sua a todos os homens (7). Embora exterior-
glória mente um homem como os outros (o teu
B 2 (v. 10,11) A beleza da noiva Deus ... companheiros, 7), existe também
C 2 (v. 12-15) A procissão da noiva o segredo interior de sua unção divina (Lc
2
A (v. 16,17) Os votos do poeta para o rei 4.18); (iv) Seu perfume (8; 2Co 2.14); (v)
Sua situação de opulência (8), em que cada
Composto para um verdadeiro casa- detalhe exterior demonstra a riqueza do rei,
mento real, e motivado pela dedicação a e tudo o que há no interior é para o prazer
um rei terreno, este salmo, como todos os do rei; (vi) A nobreza de sua comitiva (9),
salmos reais, ultrapassa o que qualquer rei os reis da terra enviando alegremente pes-
terreno poderia ser e chega até o tão es- soas importantes para servirem ao rei; (vii)
perado Messias, em quem todas as glórias A sétima glória do rei é a sua noiva (9). A
são verdadeiras. Do mesmo modo, ele fala lista começou com o rei em seu trono (6) e
de forma impressionante à Noiva de Cristo termina com o trono compartilhado, a noi-
a respeito de sua verdadeira posição, be- va ao lado do rei (9).
leza e dedicação (2Co 11.2; Ef 5.27; Ap 10,11 A beleza da noiva, devoção ao
14.4; 19.7; 21.9). rei. Gênesis 2.24 exige que, do casamento
1,2 O entusiasmo do poeta pelo rei. em diante, o filho passe a ser, em primeiro
Ao rei, ou "um rei!", i.e., um rei que é ver- lugar, marido; grande ênfase é posta aqui
dadeiramente rei. 2 Formoso - caracterís- sobre a filha tomando-se esposa (Ouve,
tica evidenciada principalmente na bondade filha; vê, dá atenção). Embora seja filha
de suas palavras (Lc 4.22; Jo 7.46). Por de rei (13), agora toda a sua devoção deve
isso. Seu discurso demonstra que ele foi ser para o rei, correspondendo ao seu amor
abençoado por Deus. (cobiçará, "desejará para si"), sensível à
3-5 O progresso do rei: domínio mun- sua dignidade (inclina-te perante ele) e
dial. Reis conquistam pela guerra, daí os aceitando seu status (senhor).
termos militares usados aqui, assim como 12-15 A procissão da noiva até o palá-
o "príncipe da paz" em Isaías 9.4,5,7; mas, cio. Submissa a ele (11), mas que dignida-
em última análise (v. SI 149), a queda das de ela tem agora! Os súditos do rei (12, cf.
nações diante do verdadeiro Davi é pela v. 5) são súditos dela, ela desfruta de glória
espada de sua boca (Ap 1.16; 19.11-16) e e esplendor (13), mas, acima de tudo, ela
a arma do evangelho (Ef6.15-17). Verdade está intimamente ligada ao rei (14) e mora
SALMO 46 780

com ele no palácio (15). A homenagem de 3,4 Há é um acréscimo interpretativo ao


Tiro (12) é um tema messiânico (cf 87.4; texto hebraico. Em vez disso, é melhor en-
cf Is 23). Tiro passou a tipificar o mundo tender o v. 4 como um comentário sobre
por causa de sua independência orgulhosa o v. 3: o que são essas águas turbulentas e
e autossuficiência, e também por acumular destrutivas senão um rio. Até mesmo um
riqueza sem escrúpulos. Mas, um dia, os desastre cósmico é algo totalmente con-
reis da terra depositarão sua riqueza aos trolado e com objetivo específico (5,6).
pés do rei (Ap 21.24). O mesmo ocorre em relação aos adver-
16,17 Os votos do poeta para o rei. sários humanos, o "bramido" das nações.
Por glorioso que tenha sido o passado, o Uma palavra do Senhor é o suficiente,
rei olha para o futuro e para os filhos que tal a totalidade de seu domínio soberano.
efetuarão seu domínio sobre toda a terra. 5 Antemanhã, "quando amanhece", cf as
referências a "manhã" em Êxodo 14.24;
Salmo 46. Fé e fato 2Reis 19.35.7 Conosco... refúgio. O refrão
Muitos correlacionam este salmo (e os (cf 11) envolve o movimento da estrofe
salmos 47 e 48) com a sugestão de um precedente. Como ele é o nosso refúgio
drama encenado (anualmente) no templo (1), corremos para ele; como o Deus no
para celebrar a soberania do Senhor sobre meio (5), ele vem até nós. Assim, cantamos
toda a terra (como o Dia da Ascensão, cf que ele está conosco e é também o nosso
47.5). Esse festival estaria fundamentado refúgio (um lugar alto e inacessível, uma
na vitória do Senhor sobre o "mundo" no "segurança máxima") para onde corremos
êxodo e prenunciaria o final e culminante em busca de proteção.
Dia do Senhor. Outros apontam que Vinde, 8-10 O Senhor efetivamente eliminou
contemplai (8) soa mais como um convi- a ameaça: a guerra acabou e os recursos
te para observar uma vitória concreta do para iniciar outra guerra foram destruí-
que para assistir a uma encenação (cf dos. A voz que controla tudo (cf 6) agora
"percorrei... rodeai ... contai-lhe... notai", ordena a tranquilidade (10a) e restabelece
48.12,13). Neste caso, um evento como a confiança (10bc) (cf 48.12). O salmo
a vitória do Senhor sobre Senaqueribe 46 convida a observar um inimigo des-
(Is 36; 37) fornece um excelente pano de truído; o salmo 48, uma cidade intacta.
fundo: todas as nações do Império Assírio 9 Carros, as carroças de suprimentos que
se juntam contra Sião e encontram um transportam o material bélico ou o con-
adversário à altura. junto de carros de batalha (1Sm 17.20)
O salmo consiste em uma profissão que rodeiam o acampamento inimigo.
de fé (1-6) e nos fatos que recompensam 10 Aquietai-vos, "relaxai". Sou, é a exis-
a fé (8-10). tência presente de um Deus soberano que
1-6 (a) Fé no socorro divino (1,2): ain- permite que haja repouso.
da que o mundo fosse desmoronar, Deus
está presente para proteger (refúgio) e dar Salmo 47. Um Deus,
socorro. (b) Fé no objetivo divino (3,4): um rei, um povo
mesmo as catástrofes que abalam a terra A vitória do Senhor sobre a terra (46.8,9)
são um rio, contido por suas margens, cria- não deve gerar desânimo internacional,
do para alegrar a cidade em que o Senhor mas alegria. O salmo 47 convoca para
habita. (c) Fé na soberania divina (5,6): uma aclamação universal desse Deus (1).
com uma palavra do Senhor, o tumulto das A convocação se justifica (2 começa com
nações é pacificado. 1 O refúgio onde se Pois) pelo fato de o Senhor ter um status
esconder, a fortaleza para suportar a pro- de rei mundial. A evidência disso é o que
vação, o socorro sempre de prontidão. ele fez por Israel em poder (3) e amor (4).
781 SALMO 48

Consequentemente, a veracidade do Deus é impossível não sentir o ar de novidade


exaltado pode ser reiterada (5). A mesma de uma experiência recente na descrição
sequência é repetida agora: convite ao lou- da fuga dos reis (3-7), na afirmação assim
vor (6, cf I), esclarecimento, o Rei uni- o vimos (8) e no convite a vistoriar a cida-
versal (7,8, cf. 2), o povo favorecido (9, cf de intacta (12,13). Este salmo fala de uma
3,4) e o Deus exaltado (9, cf 5). situação em que o perigo passou e há total
Mas, pela segunda vez, a ênfase é di- livramento no presente, uma experiência
ferente: Israel é exaltado sobre as nações que nós que vivemos atualmente na verda-
pela providência (3) e eleição (4); no v. 9, deira Sião (Hb 12.22) não desconhecemos,
os povos, representados por seus príncipes, pois, repetidas vezes, vemos os perigos que
são incorporados como o povo do Deus nos ameaçam serem derrotados por nosso
de Abraão, a promessa abraâmica é cum- Deus sempre presente.
prida e todos os povos recebem bênção 1,2 O grande Deus e sua cidade exul-
(Gn 12.1-3). Se Subiu Deus, "foi para tante, Não: "Como somos felizes de viver
cima" - i.e., tendo "descido" para obter a numa cidade fortificada nesse lugar mon-
vitória - sugere um pano de fundo para o tanhoso!", mas; "Como é grande o Senhor
salmo, podemos pensar no êxodo (Êx 3.8) em sua cidade, em seu monte", um grande
ou talvez na vitória divina contra os inimi- Rei de fato! Seu santo monte, "monte da
gos de Davi (18.9) ou (melhor opção de to- sua santidade", onde ele habita em santi-
das) o incidente de Senaqueribe (Is 31.4). dade. Toda a terra, o que trará alegria a
Mas seja qual for o caso, neste salmo o AT toda a terra, cumprindo a promessa abraâ-
profetiza gloriosamente a maior "descida" mica (47.9). Zafom (NVi) era a habitação
de Deus, em Cristo, para reunir os filhos de Baal.
de Deus que estão dispersos (10 11.52: cf 3-7 A grandeza divina em ação. Uma
ls 19.23-25; 60.1-3; 66.20), e uma ascen- afirmação da habitação e proteção divinas,
são maior até o reino universal, efetivo seguida de uma prova (3) (4 começa com
(Ef 1.20-23) e supremo (Fp 2.9-11). eis): o fato da fuga desordenada dos reis
(4,5), ilustrada pelas dores de parto (6) e a
Salmo 48. Este é o nosso Deus tempestade (7). 3 Alto refúgio, "seguran-
O tema do júbilo após um grande livra- ça máxima" (46.7).4 Reis (2.2), figura da
mento continua, mas como uma diferença. incessante hostilidade do mundo contra o
Enquanto o salmo 46 se concentra no pe- povo de Deus, mas aqui tipificada no avanço
rigo que foi afastado e o salmo 47 enfoca do exército multinacional de Senaqueribe
o propósito do Senhor de conceder graça (Is 10.8). 5 Se espantaram, aqui, "desnor-
aos inimigos derrotados, o salmo 48 res- tearam-se" de modo que "fugiram aterrori-
salta que a cidade que corria perigo está sã zados". 6,7 Uma ilustração de sentimento
e salva (12,13). interior seguida de uma ilustração de força
exterior. Naus de Társis, capazes de desa-
Ai (v. 1,2) O grande Deus e sua cidade fiar o "mar aberto", as maiores realizações
exultante do homem no campo naval, mas não são
B 1 (v. 3-7) A grandeza divina em ação nada diante dos ventos de Deus.
B 2 (v. 8-10) A grandeza divina na ex- 8-10 A grandeza divina na prática.
periência Cf bastou-lhes vê-lo
(5) com vimos (8):
N (v. 11-14) A cidade exultante e seu mesma visão, reações diferentes! Eles
grande Deus viram o seu terror; nós vemos a nossa
segurança em Deus. 9 Pensamos. É pos-
É fácil ver que este salmo poderia ser sível traduzir por "representamos" (como
encenado numa festa do templo (v. 9), mas no sentido de uma encenação dramática),
SALMü49 782

mas o significado de "formar uma imagem mista se dispõe a resolver. Primeiramente


mental/meditar sobre" é bem exemplifica- (5-12), ele aborda o fato de que a morte
do (50.21; cf Is 10.7); 10 Destra simboliza vem para todos. O ponto de partida de seus
ação pessoal. Justiça, tudo o que é certo, pensamentos foi a opressão praticada por
conforme estabelecido por Deus. aqueles cuja riqueza lhes dá poder para
11-14 A cidade exultante e seu gran- ameaçarem outros (5,6), e ele começou
de Deus. Um final dramático: a cidade ale- a se consolar com a ideia de que a rique-
gre e intacta (11-13), mas depois nada mais za não pode comprar tudo (7-9): a morte
é dito sobre a cidade - um testemunho a marca o ponto em que o dinheiro de que o
respeito do Deus que é sempre o guia de ser humano dispõe para pagar seu resgate
seu povo (14). 11 Juízos, o que Deus "jul- perde o valor. Todos igualmente, sábios ou
gou correto fazer". 14 "Pois assim é Deus tolos, morrem (10), e sua riqueza terrena
- nosso Deus para todo o sempre! É ele não consegue comprar nada além de um
quem nos guiará até a morte". A referên- túmulo duradouro (11). Em segundo lugar,
cia a "morte" é uma expressão forte para (13-19) a morte não é o fim: existem des-
a constância divina: ele nunca nos deixará; tinos além-túmulo que devem ser levados
mas também afirma que aquele que nos em conta. A autoconfiança, embora muito
livrou do perigo de morrer nas mãos dos admirada na terra, leva à morte e à deca-
inimigos certamente também nos livrará dência, enquanto os que estão em ordem
da própria morte. (justos) com Deus podem contar com a
redenção e a presença de Deus (13-15).
Salmo 49. Redenção divina Consequentemente, não se perturbe com
e esperança eterna as desigualdades da vida (16); a morte ni-
A localização do salmo 49 neste ponto vela tudo e, contrariando a experiência que
pode muito bem se dever às últimas pa- essas pessoas têm na terra, não há luz para
lavras do salmo 48. Será mesmo verdade elas depois do túmulo (17-19).
que quando somos ameaçados pela mor- 2 Tanto plebeus como os de fina
te em pessoa podemos confiar no Senhor estirpe, melhor: "todos os seres humanos
para nos guiar? A resposta triunfante é igualmente". 3 Pensamentos judiciosos,
que Deus remirá a minha alma do po- "entendimento", a palavra que o salmo
der da morte (15). Versículos como 6.5; toma a usar no v. 20 (v. ARe, NVI) - o dis-
30.9; 88.4,5 são frequentemente citados cernimento de que existe uma outra vida
para mostrar que o AT não nutria nenhu- em que as noções terrenas de poder e in-
ma esperança de vida após a morte, mas fluência são inoperantes; uma vida negada
os versículos em questão são todos ditos ao que confia em si mesmo (13) e desfru-
por pessoas que julgavam (certa ou erra- tada somente por redenção divina (15).
damente) estar morrendo sob a ira, sepa- 4 Ouvidos ... decifrarei. Ouvir antes de fa-
radas de Deus. Numa morte como essa, lar. O conhecimento necessário para deci-
não há esperança; mas, na verdade, essas frar o enigma da vida e da morte só pode
pessoas não estavam falando da morte em ser obtido quando se ouve a palavra de
geral, mas apenas de seu caso particular. Deus. 6 Pela primeira vez (v. também 13),
O salmo 49 (cf 73) expõe as alternati- a ideia-chave de confiança é mencionada.
vas claramente: existe uma morte sem es- A autoconfiança é inimiga de um destino
perança (13,14) e existe uma morte cheia abençoado após a morte. 7-9 Remir... pa-
de esperança (15). O homem pode mor- gar por: a primeira palavra ressalta a de-
rer como os animais (12) ou pode morrer terminação do preço do resgate; a segun-
com entendimento (20). Essa é a solução da, a liquidação da dívida. Mas nenhum
para o enigma universal (1-4) que o sal- pagamento é suficiente para comprar a
783 SALMO 50

vida eterna. Ao irmão. O hebraico diz "até Eles são divididos em dois grupos e denun-
mesmo um irmão", i.e., mesmo no caso ciados: os que amam os rituais religiosos
em que o amor não exigiria nada em troca. (8), mas esquecem a gratidão, a obediência
Existe um caso em que o pagamento de um e a oração (14,15), e os que recitam a lei
resgate pode comutar pela pena de morte (16), mas não a cumprem (17-21 ). O salmo
(Êx 21.30) - mas da morte em si ninguém termina (22,23) advertindo esses dois gru-
consegue se livrar por meio de pagamento! pos a mudarem seu procedimento. A seção
10 Estulto, alguém que não leva a vida e central (7-21) tem "formato" idêntico ao
suas obrigações a sério, que é egocêntri- Culto de Aliança de Êxodo 24.3-8, no qual
co e só se preocupa em obter vantagens a o ritual do sacrifício e do sangue (v. 4-6) é
curto prazo. Inepto, insensível a realidades seguido pela recitação da lei (v. 7,8). O sal-
espirituais. 11 O seu pensamento íntimo. mo é, portanto, muito adequado para uma
Hebraico, "dentro deles", "sua suposição é festa de renovação da aliança, pois fornece
que". Seus horizontes se restringem a este uma estrutura para o autoexame.
mundo, de forma que - suprema ironia! 1-6 A corte convocada. Depois que o
- (lit.) chegam a dar seu próprio nome Juiz, os réus e o local da sessão foram anun-
às suas terras. 13 Cf v. 6. 14 Sepultura... ciados (1,2), três vozes falam alternada-
sepultura. Sheol, a habitação dos mortos. mente: que Deus está vindo para falar (em
A morte é o seu pastor: "a morte se ali- juízo, 3); que ele está vindo como o santo
mentará deles" (ARC). Eles descem direta- Deus do Sinai com fogo e tormenta (cf
mente para a cova: a ARC traz: "Os retos Êx 19.16-18), e que o julgamento vai come-
terão domínio sobre eles na manhã" (v. çar na casa de Deus (4; cf. 1Pe 4.17). Aberta
NVI). OS que podem morrer em ordem com a sessão, o Juiz chama seu povo (5,6). 1 O
Deus (Nm 23.10); cuja vida está de acordo Poderoso. o SENHOR Deus. O único outro
com a vontade de Deus (IRs 15.5); acei- trecho em que esta fórmula tríplice é usada
táveis para Deus (Jó 1.1); os que o Senhor é Josué 22.22, quando as tribos transjordâ-
salva (SI 7.10). "Domínio" (ARC), inversão nicas foram acusadas de apostasia e a usa-
celestial das relações terrenas do v. 5 (cf. ram num juramento. Assim sendo, ela se
Lc 16.22-25). "Manhã" (ARC) (17.15), ao encaixa neste salmo, no qual a franqueza
despertar depois da morte. 15 Remirá. da lealdade está em questão. 3 Não guarda
Deus descobrirá e pagará o preço impos- silêncio. O julgamento não será feito por
sível para o homem (7). Morte, "das mãos meio de um ato não explicado, que as pesso-
do sheol", o poder que o sheol tem de re- as poderiam ou não reconhecer como obra
ceber e reter os não remidos (14). Tomará, de Deus. Tudo será declarado abertamen-
como em Gênesis 5.24; 2Reis 2.1; Salmos te. 4 Céus... terra (cf Dt 4.26;ICr 16.31;
73.24. 20 Ao longo de todo o salmo, os SI 69.34s.; ls 1.2; Je 2.12). Aqui, a ordem
ricos foram o objeto da argumentação, criada serve de testemunha de acusação,
mas o princípio se aplica a todos: não é a tendo observado em silêncio tudo o que
riqueza que desqualifica para uma eterni- foi feito (cf 6). 5 Santos. A palavra com-
dade abençoada, mas a falta de verdadeiro bina "amados [por Deus]" e "devotados [a
discernimento (cf v. 3). Deus]". Aliança... sacrificios (Êx 24.3ss.).
6 Se os céus testemunharam as falhas hu-
Salmo 50. Advertidos manas (4), também testemunharam a jus-
e liberados! tiça divina e podem afirmar a competência
A cena é o Dia do Juízo, com toda a ter- do Senhor para julgar.
ra (I) convocada a comparecer diante de 7-21 A acusação. A intimação (7) é
Deus. Em particular, o povo da aliança seguida por duas denúncias (8-15; 16-21).
(4,5) é chamado diante do divino juiz (6). O v. 7 está repleto de temas do Êxodo: Povo
SALMO 51 784

meu recorda Êxodo 7.16, o povo escolhi- do tudo isso, construíram sua teologia com
do; Israel é o "primogênito" do Senhor, base no paciente silêncio de Deus (21),
o objeto da redenção (Êx 4.22); Deus, o sustentando que o Senhor é tão moralmente
teu Deus, reflete Êxodo 20.2, o título do indiferente quanto elas mesmas.
Deus redentor. 22,23 A advertência. A misericórdia
8-15 Formalismo ritual: Os que tinham divina é paciente. A sentença merecida ain-
prazer nos sacrifícios (8), mas interpreta- da é futura, e a porta da salvação ainda está
ram mal o seu propósito, achando que por aberta (21-23). 22 É endereçada àqueles
meio deles estavam de algum modo en- (16-21) cuja vida contradiz sua profissão
riquecendo a Deus (9-13) e deixando de de fé. O problema deles não é fazer pouco
retribuir a ele como deveriam, com ações caso da lei, mas ter se esquecido de Deus-
de graças, obediência e oração dependente como alguém presente no meio deles, cien-
(14,15). 8 O Senhor não pode repreender o te de sua conduta ofensiva, como o Santo,
que ele mesmo ordenou e, no que se refere ordenando a seu povo que seja como ele
à parte material do sacrifício, não há nada (Lv 19.2).23 É endereçada àqueles (8-15)
digno de repreensão. O ritualista é sempre cuja religião é um mero formalismo cheio
meticuloso. 9-13 Mas eles caíram em duas de detalhes: eles são lembrados de que a
armadilhas: achar que Deus precisava do verdadeira religião responde ao que Deus
que eles tinham (9-11) e dependia do que fez (cf 14) e é zelosa quanto ao seu modo
eles davam (12,13). Eles pensavam que a de vida (23, "aquele que é cuidadoso no
religião consistia no esforço do homem em [seu] modo [de viver]"). Finalmente, o sal-
alcançar a Deus, servindo-o e ministrando a mo que começou com o Senhor intimando
ele - o maior de todos os erros religiosos. para o julgamento (1-6) termina com ele
13 As religiões pagãs das nações ao redor oferecendo salvação (23).
de Israel pensavam que seus deuses eram
alimentados pelos sacrifícios oferecidos. O Salmo 51. A maravilha
mesmo erro é cometido sempre que a mera do arrependimento
rotina da vida religiosa se torna importante O título cai como uma luva no salmo. A
por si mesma. 14,15 A verdadeira religião, eficácia do arrependimento (1-4) é um
entretanto, consiste em corresponder, com comentário exato sobre 2Samuel 12.13.
gratidão (por sua graça, bondade etc.), com O problema do v. 16, que parece negar a
obediência (cumprindo o voto de guardar aceitabilidade de sacrifícios a Deus, é re-
sua palavra, feito na aliança, Êx 24.7), com solvido lembrando-se de que os pecados
oração (confiando que ele proverá tudo o de adultério (2Sm 11.4) e homicídio (2Sm
que for necessário em todas as situações 11.14-17) cometidos por Davi não foram
difíceis) e com adoração (dando-lhe a de- cobertos com providência sacrificia1. Para
vida honra). muitos, os v. 18,19 são acréscimos feitos
16-21 Formalismo de credo: pessoas posteriormente para adequar o salmo ao
que têm o cuidado de dizer todas as coi- uso congregacional e combater a rejeição
sas certas (16), mas cuja vida contradiz sua ao sacrifício nos v. 16,17. Porém (Afora
profissão de fé (17-21). Elas odeiam a pa- o fato de que o salmo não pode ser adap-
lavra de Deus (17) e desobedecem aos seus tado para se tornar autocontraditório!),
mandamentos (18a [oitavo mandamento], Davi, sendo rei, não podia pecar sim-
18b [sétimo], 19 [nono]); elas ofendem a plesmente como um indivíduo: seu peca-
Deus com seu formalismo vazio na igreja, do ameaçava a estrutura da vida pública.
desobediência deliberada na vida, conces- Consequentemente, ele deveria estar tão
sões nos relacionamentos, corrupção no ansioso pela fortificação de Jerusalém (18)
discurso e falta de amor no lar. E, coroan- quanto por sua própria restauração.
785 SALMO 51

1-6 Deus e o indivíduo: arrependi- (cf NVI) e à sabedoria de Deus ensinada


mento e perdão. Em Deus há misericór- pela voz universal da consciência.
dia, favor gratuito, imerecido (Gn 6.8); 7-15 As dimensões do verdadeiro
benignidade, amor imutável baseado em arrependimento. O v. 7 busca o modo di-
compromisso solene; compaixão, amor vino de lidar com o pecado; o v. 8, com
repentino e intenso (I). Pecado é trans- o pecador como que esmagado pela ira
gressão, "rebelião" deliberada contra a divina; o v. 9, com a ofensa feita a Deus
vontade conhecida de Deus (I); iniqui- pelo pecado. Apaga, "des-peca", Hissopo,
dade (2), a "trama" da natureza decaída; o instrumento de borrifar que fazia a propi-
pecado (2), um erro específico. O peca- ciação da ira divina (Êx 12.12,22,23), pon-
dor deseja que Deus apague seu pecado, do fim à exclusão e à alienação (Lv 14.6),
"limpe" a mancha que Deus pode ver; purificando após profanação (Nu 19.16-
lava, chegar até as fibras de sua natureza 19). Davi não conhece nenhum sacrifício
para eliminar a sujeira entranhada; puri- que seja suficiente (16), mas está confiante
fica, remover o pecado como barreira à em que o Senhor conhece. Júbilo... ale-
comunhão com Deus (2). gria, a restauração do pecador para ouvir
3-6 Arrependimento; seus efeitos e ne- as canções alegres do santuário (42.4);
cessidade. A oração por purificação (1,2) se ossos, restauração da integridade pessoal.
baseia no simples fato de reconhecer (co- Esconde, lida, dentro da tua própria natu-
nheço) e de ter consciência (diante de mim, reza, com tua santa aversão ao meu peca-
i.e., percebido subjetivamente, 38.17) do do. Apaga, tanto da tua memória quanto da
pecado (cf 32.3, 4). 4 Contra ti. Seja qual minha folha corrida (I).
for a ferida que o pecado provoque na pró- 10-12 O verdadeiro arrependido anseia
pria pessoa ou nos outros, o cerne de sua por se ver livre do pecado, através da
pecaminosidade é que ele ofende a Deus criação de uma nova natureza que lhe dê
(2Sm 12.13). De maneira que, "a fim de o poder da constância, o contínuo favor
que". Se o pecador dissesse: "Tu és sobera- de Deus e a presença do Espírito Santo
no. Por que não me impediste?", o Senhor (10,11), a alegria da libertação e o dom do
responderia: "A fim de fazer-te reconhecer espírito/Espírito pronto a fazer a vontade
a tua pecaminosidade e a minha retidão. É de Deus (12). Saul havia perdido os bene-
meu propósito que me conheças como sou, fícios imediatos (lSm 16.14), mas não a
o Deus reto e o justo Juiz. Só então virás realidade final (I Sm 28.19) da salvação e,
a mim para purificação". 5 Biblicamente, a sem dúvida, com esse exemplo em mente,
herança de uma natureza pecaminosa não Davi temia que o mesmo acontecesse com
desculpa o pecador, mas o coloca numa ele - assim como nós também podemos
posição de acumular culpa sobre culpa entristecer (Ef 4.30) e apagar (lTs 5.19)
(Mt 23.34-36). Nasci ... me concebeu. Isso o Espírito Santo, perdendo a alegria, mas
não é uma contestação da santidade da não a realidade de sua habitação em nós.
concepção e do nascimento, mas uma afir- 13-15 Ensinar a respeito de Deus promo-
mação de que desde o momento da concep- ve o arrependimento (13), mas quem ensi-
ção já existia uma pessoa humana moral, o na deve também levar a sério sua própria
bebê no nascimento, o feto na concepção. necessidade de arrependimento, dando o
Portanto, o arrependimento precisa levar exemplo daquilo que deseja ver nos outros.
em conta tanto os pecados cometidos (1-3) Só como arrependido ele pode cantar a res-
quanto essa influência inseparável da na- peito da justiça de Deus (14) - essa ad-
tureza humana. 6 Em todos os aspectos da mirável justiça pela qual ele é, ao mesmo
natureza humana, o pecado é indesculpá- tempo, justo e justificador (Is 45.21; Rm
vel porque é contrário ao desejo de Deus 3.26). Mas o testemunho também precisa
SALMO 52 786

se apoiar na oração para que o Senhor con- é combinado com o louvor do nome que é
ceda que a boca se abra. bom (9); a bondade que dura para sempre
16-19 Deus e a comunidade: o que (v. lb) recebe uma forma mais elaborada
agrada ao Senhor. A comunidade renova- como a misericórdia que dura para todo
da é composta de indivíduos arrependidos o sempre (8). A mensagem do salmo é,
(16,17), busca sua segurança no favor de portanto, que o amor de Deus é suficiente
Deus e o agrada com sua observância reli- até mesmo contra a crueldade triunfante,
giosa (18,19). Os versículos giram em tor- constante em todas as aflições e é o mesmo
no dos mesmos temas do deleite e prazer para sempre (8).
do Senhor, e dos sacrifícios e holocaustos.
A oferta pelo pecado não é mencionada, AI (v. 1) Seguranças alternativas
mas apenas sacrifícios relacionados ao B' (v. 2-4) A língua destrutiva
compromisso com Deus (o holocausto, C (v. 5) Ação divina
Gn 22.2,12) e à comunhão com Deus e seu B 2 (v. 6,7) A língua triunfante
povo (em que a palavra sacrifício é usada N (v. 8,9) Verdadeira segurança
em conjunto com holocausto, e significa
"oferta pacífica"). Davi aprendeu por ex- 1 (AI) Seguranças alternativas: força
periência própria que acertar-se com Deus humana ou amor divino. Te glorias, au-
era uma questão do coração (17). Essa é tossatisfação e autoconfiança.
a mensagem que ele desejava transmitir a 2 (B I) A língua destrutiva. Língua,
outras pessoas (16 começa com "Pois") e sempre um indicativo primário do caráter.
transformar numa realidade fundamental 3 O caráter por trás da língua: em rela-
na nova comunidade. Edifica os muros é ção a valores éticos e padrões de verdade.
uma metáfora, "tomar a comunidade se- 4 Fraudulenta (cf 2), com propósito de en-
gura". Então, isto é, quando pecadores ganar. Doegue falou a verdade só até o pon-
arrependidos (16,17) confiam em Deus to em que poderia causar mais prejuízo.
para sua segurança (18), a religião se toma S (C) Ação divina. Também, i.e., uma
agradável ao Senhor: sacrifícios de justiça, ação paralela de Deus, um castigo minu-
sacrifícios que são tudo o que Deus sempre cioso dirigido aos três aspectos da vida:
desejou que eles fossem. pessoal (te), doméstico (tenda) e terreno
(terra).
Salmo 52. A árvore arrancada 6,7 (B2)A língua triunfante. Se rirão,
pela raiz e a árvore verdejante não vingativa ou maliciosamente (Jó 31.29;
A NVI amplia e altera o texto hebraico do Pv 24.17), mas uma resposta jubilosa à in-
v. 1, que diz simplesmente: "Como te van- tervenção da justiça divina (6, temerão) e
glorias do mal, homem poderoso! A bon- à prova de que não existe outra fortaleza,
dade de Deus é a mesma todos os dias". exceto Deus.
Doegue, o homem que venceu na vida por 8,9 (A 2) A verdadeira segurança. A
esforço próprio (1Sm 21-22), agarrou sua árvore verdejante, em contraste com a
oportunidade e, sendo "econômico com a arrancada (5), está firme na presença de
verdade" e inescrupuloso nas ações, podia Deus, marcada pela confiança, segura
se gloriar em seu próprio sucesso. Mas, ao do amor leal de Deus (8); é caracteriza-
contrário do autossuficiente Doegue, Davi da pela língua que louva (9, contraste-se
afirma que nada fará Deus abandonar a sua com 1,2), está sempre esperançosa (espe-
companhia. A correção de restaurar o tex- rarei) de que Deus seja fiel ao seu nome
to hebraico no v. 1 é comprovada pelos v. e dá testemunho diante dos fiéis de Deus,
8,9 que recapitulam os mesmos tópicos em aqueles a quem ele ama e que, por sua
ordem inversa: te glorias na maldade (1) vez, o amam (9).
787 SALMO 55

Salmo 53. Não há motivo Deus (4); e, finalmente, a oração pela re-
para ter medo tribuição divina. Insolentes eram judaítas
Embora paralelo ao salmo 14, o salmo 53 en- como Davi, mas estavam agindo como es-
foca a mesma verdade num tema diferente. trangeiros violentos, porque, entre pessoas
A variação-chave ocorre no v. 5. Enquanto que não têm Deus diante de si, não se pode
14.5 comenta o terror que se apoderou dos esperar fidelidade ou humanidade. Senhor,
inimigos do povo do Senhor quando perce- "o Soberano". Retribuirá... dá cabo. O pri-
beram que o Senhor estava "com a linhagem meiro se refere ao efeito "bumerangue" do
do justo", 53.5 repreende o medo desneces- pecado, uma retribuição embutida na natu-
sário do povo de Deus ao se defrontar com reza das coisas; o segundo à providência
seus inimigos (4),já que Deus dispersa seus moral divina imediata. (iii) Firmando um
oponentes. Juntos, portanto, os dois salmos compromisso para o futuro (6,7). Isso não
mostram aspectos contrastantes da mesma deve ser interpretado como uma barganha
situação: quando o perigo ameaça o povo com Deus (Se fizeres isso para mim, prome-
de Deus, seus inimigos têm tudo a temer, to ...), mas sim como uma reação espiritual
enquanto eles não têm nada. Para um co- à bondade divina. Assim como ele cumpre
mentário detalhado, v. Salmo 14. o que promete, isto é, honra o seu nome (1),
5 Dispersa: A ARe usa o tempo passado nós também devemos louvar seu nome (6).
("[Deus] espalhou"), indicando que Davi Pois me livrou, o nome do Senhor em ação.
está extraindo uma lição de um incidente Meus olhos se enchem, não com satisfação
ocorrido, mas também pode expressar uma maligna, mas observando que sua vida foi
"característica permanente", i.e., "Deus es- preservada para que ele visse seus inimi-
palha". O medo é sempre infundado (não gos mortais serem derrotados.
há a quem temer), porque o Senhor sempre
frustra o ataque do inimigo. Salmo 55. Soluções, enganosas
e verdadeiras
Salmo 54. O nome salvador A sequência: Disse eu (6) ... invocarei (16) ...
Zife era uma localidade no extremo sul de confiarei (23) expressa o movimento des-
Judá e, com certeza, foi muito doloroso te salmo. Em apertos terríveis (1-5), Davi
para Davi ver seu próprio povo se voltar de bom grado fugiria da situação (6-8),
contra ele, por mais correta que fosse a leal- mas prefere enfrentar a incessante oposi-
dade deles a Saul. Como acontece comu- ção (10) com incessante oração (17) e, des-
mente nos salmos com títulos históricos, o te modo, descansa confiante (23).
tópico indicado pelo título é generalizado.
Davi não menciona os zifeus aqui, assim A I (v. 1-3) Oração por causa do inimigo
como não menciona Doegue no salmo B (v. 4-21) Soluções
52; mas, em ambos os salmos, aproveita a b' (v. 4-8) Fugir é solução?
oportunidade para registrar como essas si- b2 (v. 9-21) A solução na oração
tuações podem ser enfrentadas: (i) Orando N (v. 22,23) Confiança diante do inimigo
(1,2). Pelo teu nome, agindo de acordo com
tua natureza revelada. Salva-me... faze-me 1-3 Quando minhas forças acabam, há
justiça, respectivamente, o perigo imedia- um lugar chamado Oração. Perplexo (2)
to e a questão fundamental ~ de que as "não sei mais o que fazer";perturbado, des-
pessoas estavam julgando Davi equivo- moralizado. 3 Opressão, pressão; hostilizam,
cadamente e tratando-o como uma pessoa "guardam rancor": o que eles dizem (cla-
traiçoeira. (ii) Recordando a verdade (3-5). mor), a sua opressão, a "perturbação" (cala-
Primeiramente, o caráter de seus oponen- midade) que lançam ("fazem deslizar [como
tes (3); em segundo lugar, o caráter de seu uma avalanche]", cf 22), a animosidade
SALMO 56 788

que eles alimentam (furiosamente). Essa Deus (Dt 19.19) ao pedir para os inimigos
pode ser a experiência de um crente. A li- o mesmo dano com que eles o ameaçavam
ção que Davi aprendeu foi fazer com que a (4). Ela também reflete a ação do próprio
opressão das pessoas o pressionasse a orar. Deus quando, muito tempo antes, o líder
4-8 Fugindo de tudo. Os v. 4,5 esbo- indicado por ele foi ameaçado (Nm 16.28-
çam o problema; 6-8 oferecem uma solução 33). Contudo, observe que o motivo (15)
atraente. 4 Estremece-me... [o coração], dessa oração terrível não é a ameaça que
"está angustiado". 5 Horror, "arrepio". Não eles representam para Davi, mas o fato de
sabemos a que situação Davi se refere, mas que se abriram como uma hospedaria para
os cinco substantivos e quatro verbos usa- "toda sorte de mal". A oração é produto de
dos na ARA (4,5) não deixam dúvidas quan- convicção moral. 16-19 A oração de Davi é
to à sua natureza mortal e aterrorizante. Os uma diretriz que ele assumiu como compro-
v. 6-8 contêm toda a sedução de resolver misso: invocarei (16), enfático: "Mas, de
problemas fugindo - ter descanso, não ser minha parte..."; uma disciplina constante:
perturbado e se abrigar enquanto a tempes- À tarde, pela manhã e ao meio-dia (17);
tade ruge em outro lugar. e se baseia no que o Senhor faz - salva
9-210 golpe mais certeiro, a solução (16), ouve (17), livra (redime; TB: "encon-
mais garantida - oração. 9-11 Pressão tra a solução total e suficiente para a minha
constante: dia e noite. 12-14 A mais pro- necessidade", 18) - e no que o Senhor é
funda dor, comunhão quebrada. 15-19 - o que preside (19).
Constante oração: à tarde, de manhã, ao 22,23 Um conselho, uma confiança,
meio-dia. 20,21 A mais profunda tristeza, uma verdade e um exemplo. No v. 23,
aliança rompida. em lugar de porém, leia "pois". O conselho
A solução não é fugir da situação, mas de entregar tudo a Deus com a confiança
chamar Deus para ela; não a solução natural de que ele susterá baseia-se em verdades
do escapismo, mas a solução espiritual da a respeito de Deus e em sua oposição aos
oração. 9 Davi fez uma oração semelhante homens sanguinários. Assim, os versículos
em 2Samuel15.31, mas o salmo não se ori- identificam com precisão o que "tu" (ocul-
ginou daí, pois naquele ponto Davi estava to) deves fazer, o que o Senhor faz, pelo
em fuga - embora não para a paz. Aqui o justo (os que estão em ordem com ele, 22),
perigo está dentro da cidade, e Davi nos dá pelos perversos (23); e o que eu faço (23).
o exemplo ao enfrentá-lo com oração cla- 22 Confia, "lança", ação vigorosa. Cuidados,
ra e vigorosa. 10 Perversidade... malícia, "porção", o que foi designado para você.
"brutalidade... maldade". 12-14 Entre os Susterá, a promessa não é de remover a
que se opõem a ele (9,10,15,19), um infli- carga, mas de sustentar a pessoa. Abalado,
ge o golpe mais doloroso, um amigo (13) e do mesmo verbo que "fazer escorregar" (3).
ex-confidente espiritual (14). Davi anda na Embora a avalanche de problemas seja pe-
sombra projetada por uma grande traição sada, ojusto não escorregará.
que se aproxima (Mt 26.47,48; Mc 14.43-
45; Lc 22.47,48. Observe como todas as Salmo 56. Temor e fé
narrativas dizem "um dos doze"). Em me vindo o temor (3) ... nada temerei
15 Só estaremos em posição de criticar (4). Esse paradoxo expressa o cerne do sal-
a ousadia da oração de Davi no dia em que mo. A situação está registrada em 1Samuel
enfrentarmos um perigo semelhante - em 21.1 0-15 e é comentada no salmo 34 (uma
relação a nós mesmos (4,5) e a outros (9- meditação subsequente: de que não foi a es-
11), (cf 2Rs 2.24). O Senhor Jesus, que era perteza de 1Sm 21.12,13, mas a oração que
perfeito, pronunciou um "ai" sobre Judas efetuou o livramento), assim como aqui -
(Mt 26.24). A oração corresponde à lei de uma meditação contemporânea enquanto
789 SALMO 57

Davi estava em prisão domiciliar em Gate, uma confiança mais completa: cf 10,11
presumivelmente sendo mantido como um com 3,4. Homem (lI) é o homem confor-
refém valioso. O salmo consiste em seis se- me Deus o criou, portanto totalmente sob
ções que se equilibram mutuamente: Davi, seu controle soberano. 12,13 Os seus pen-
o alvo da hostilidade humana (1,2) é o o samentos são todos contra mim para o mal
objeto da proteção de Deus (9-11); a con- (5) é lit. "sobre mim, todos os seus pensa-
fiança que combate o medo (3,4) é uma mentos"; no v. 12, Os votos quefiz é: "sobre
confiança que nasce da oração (7,8); e Davi mim, os teus votos". Quanto mais o mundo
debaixo da opressão humana (5,6) se toma nos ameaça, maior o nosso compromisso
Davi com um voto feito a Deus (12,13). - não para fazer barganha com Deus, mas
1,2 Um breve clamor a Deus enquan- para mostrar determinação de progredir es-
to está concentrado no perigo circundante. piritualmente como resultado da situação
Compare 12,13, uma referência ao perigo pela qual estamos passando e do livramen-
enquanto está concentrado em Deus! Esse to garantido. De fato, o v. 13 (para que eu
é o efeito de confiar (3,4), operando atra- ande) mostra o propósito que Deus tinha
vés da oração (9-11). Quando os olhos se em mente ao proporcionar livramento.
voltam para Jesus, "as coisas da terra ficam
estranhamente embaçadas". 3,4 Em me, "o Salmo 57. "Na noite de aflição
dia", i.e., "no momento exato". Cuja pala- e dúvida", na caverna ou
vra. Confiança não é um "sentimento" de sob as asas?
que tudo vai acabar bem. É uma convicção Este salmo faz uma pergunta: "Onde es-
baseada no que Deus mesmo disse, uma tás?". O titulo diz que Davi estava na ca-
confiança nas promessas. No v. I, homem verna (mais provavelmente I Sm 21 do que
é uma palavra que ressalta a facilidade de ISm 24), mas Davi se coloca em ti... à som-
pecar da humanidade; aqui, um mortal, bra das tuas asas (I). Fugindo de Saul, e
"carne" implica um contraste com Deus preparando-se para passar a noite (4, Acha-
(Is 31.3; 2Cr 32.8), fraqueza contrastando se a minha alma entre, "estou entre") como
com força (cf 11). Portanto, quando a fé se um fugitivo solitário, a caverna surge aci-
volta para Deus conforme revelado em sua ma dele, mas ele a vê como as asas abertas
palavra, a perspectiva muda. 5,6 Como isso do seu Deus. Por causa disso, o clamor de
era verdadeiro na situação ambígua em que oração do início (1) se transforma num bra-
Davi se encontrava! A corte de Saul distor- do de louvor (9, I O) no final; sua confiança
cendo suas palavras e tramando contra ele; na oração (2,3, Clamarei... Ele dos céus me
os filisteus vigiando seus passos (Como envia) se transforma em firmeza no louvor
certamente fariam a hora que o homem que (7,8); e sua noção do poder de seus inimi-
matou Golias tivesse a ousadia de aparecer gos (4) se toma uma convicção de que eles
em Gate!). Os v. 7,8 equilibram os v. 1,2: estão condenados (6). Contudo, o impor-
um apelo pela proteção divina. O v. 7 pro- tante para Davi não é que ele seja salvo ou
vavelmente deva ser formulado: "por causa que seus inimigos sejam apanhados, mas
de sua iniquidade, pode haver saída para que Deus seja exaltado em glória (5,11).
eles?". Os povos; aqui seria melhor: "essas 1 Misericórdia, graça imerecida. 2,3
pessoas". 8 Toda tristeza que sentimos (lá- A confiança ("quando eu clamo, ele...
grimas), todo momento de pesar (livro) é me envia") surge da percepção de Deus:
registrado no céu para ação divina. 9-11 No supremamente exaltado, Deus Altíssimo;
dia em que (9), "O dia": no v. 3, era o dia da irresistível em seus propósitos (tudo exe-
confiança; aqui, o dia da oração, pois a ora- cuta, cf Fp 1.6); e de misericórdia e fide-
ção é a primeira maneira como a verdadeira lidade. 5 Como isso acontece na vida: o
confiança se expressa e, por sua vez, gera espírito animado de 2,3 é imediatamente
SALMO 58 790

posto à prova pelas ameaças da vida (4)! vel que em silêncio vocês falem justiça?",
E que grande lição de espiritualidade, pois, i.e., sirvam à causa da justiça ficando cala-
com igual rapidez, os perigos são enfren- dos. Uma ligeira mudança de vogal fornece
tados com um clamor ao Deus exaltado! "poderosos", sejam os poderosos da terra
6 Com a lembrança de Deus (5) vem a cer- ou os principados e potestades celestiais.
teza de que a maldade será sua própria ruí- 3-5 O caráter dos ímpios. Desvio com-
na. 7,8 Davi defrontou-se (4) e, em seguida, portamental (desviam... desencaminham) e
buscando a glória de Deus (5), enfrentou o falsidade (mentiras) são sua herança desde
inimigo. Ele agora chama a si mesmo para o o nascimento (cf 51.5); eles carregam ve-
louvor. Alma, (lit.) "glória" (ARe), provavel- neno dentro de si, e são incorrigíveis: (lit.)
mente uma metáfora para oferecer "o meu "como uma cobra surda que tapa os ouvi-
melhor" a Deus. Desperta. Tendo tentado dos", eles não têm nem capacidade nem
se acalmar para dormir em meio ao perigo vontade de ouvir qualquer apelo para serem
(4), Davi agora se sente pronto para enfren- diferentes (4; cf Rm 1.28-32; Tt 3.3).
tar o novo dia com louvor. 9-11 Davi consi- 6 O grande apelo. Como a acusação
dera seriamente que objetivos mais amplos destacou o discurso (1), o apelo é feito para
do que o seu triunfo pessoal serão alcança- que o juízo feche a boca dos que abusam
dos, inclusive no âmbito mundial, pois ele de sua posição e destrua o poder que essas
foi escolhido para ser rei de uma nação que pessoas têm de causar dano. Isso é realis-
tinha um chamado especial em relação a mo santo - como pedir a Deus que leve
todas as nações (Gn 12.3). E ele havia en- à falência os negociantes de armas ou que
frentado suas dificuldades de tal forma que faça as bombas dos terroristas explodirem
agora tinha um testemunho válido sobre a nas mãos dos que as fabricam ou armam.
misericórdia e a fidelidade de Deus. Se as pessoas estão irreversivelmente obs-
tinadas em seus caminhos e imunes aos
Salmo 58. O único socorro, apelos, não resta mais nada a fazer senão
o grande apelo entregá-las ao Deus santíssimo.
Embora haja dúvidas quanto à tradução de 7-9 A ruína dos ímpios. Quatro ima-
juízes (l), está claro que os que adminis- gens de "tomar-se nada": águas que cor-
tram a justiça (sejam juízes humanos ou rem pelo chão e desaparecem (7); uma
seres angelicais encarregados de manter flecha lançada que, "como se definhasse",
a ordem na terra) estão falhando em suas cai no solo como folha morta (7); uma
responsabilidades (2). Consequentemente, lesma "que vai embora derretendo", dei-
apela-se a Deus (6) para que intervenha, e xando apenas uma concha vazia (8); uma
o salmo termina com alegria pelo justo (lO) gravidez que resulta em morte, e não vida
e a conscientização pública de que Deus é (8). 9 Antes que vossas panelas ... é possi-
justo (11). As seções intermediárias (3-5; velmente um provérbio indicando rapidez
7-9) tratam, respectivamente, do caráter e ("num piscar de olhos"). Espinheiros se-
da ruína dos ímpios. Este salmo fala pro- cos ardem imediatamente, mas antes que
fundamente a respeito da injustiça na terra o calor consiga aquecer a panela! Tanto
e do fracasso e da conivência dos respon- os verdes como os que estão em brasa.
sáveis por sua administração. Não estamos As palavras (lit.) "vivo" e "calor" não são
sendo realistas se nos esquivamos do rigor esclarecidas neste significado metafórico.
do v. 6, pois são muitas as situações em Provavelmente, uma referência ao Senhor:
que clamamos a Deus com razão para que "Como o Vivo, como a própria Ira, ele os
cale a boca da injustiça nas altas cortes. soprará para longe".
1,2 A justiça violada. Juízes, (lit.) "si- 10,11 A justiça vingada. Banhará
lêncio", possivelmente: "Por acaso é possí- os pés, uma metáfora para obter vitória
791 SALMü6ü

(68.23). Então, se dirá. O rigor na aplica- tra ele: mesmo diante daquele tribunal, ele
ção da justiça exerce uma poderosa influên- não teria nada a temer. Mas sua confiança
cia sobre a sociedade (Dt 19.18-21). não é na inocência, mas na oração.
Ele continuou com fé (6-10). Os cães
Salmo 59. Segurança máxima que espreitam voltam ao anoitecer (6),
O salmo se divide em duas partes (1-10; mas, enquanto os observa através da tre-
11-17). A primeira começa com uma ora- liça, Davi não está atemorizado por eles,
ção por livramento (1,2), ampliando-se mas sim esperando por Deus (9), con-
para uma oração pelo juízo de todo o mun- fiante em que Deus virá (10) e que ele
do (5); a segunda, com uma oração por re- sobreviverá para "ver pela última vez"
tribuição (l1-13b), vista como uma forma (e não se alegrar com sua desgraça) os seus
de trazer revelação ao mundo (13cd). Cada caluniadores.
oração é seguida pelo tema dos "cães que Ele manteve o rigor moral e o compro-
rondam" (6,7,14,15), que, por sua vez, leva misso (11-13). No v. 11, Davi fala de meu
a Mas tu (8-10) e Eu, porém (16,17). povo porque, em princípio, embora ainda
A história de fundo, em I SamueI19.1O- não de fato, ele é o rei. Como tal, ele não
12, sugere uma emboscada na casa de Davi, está buscando apenas alívio pessoal, mas
numa determinada noite, mas essa histó- quer que Deus aja de modo que a nação
ria é contada apenas em seus elementos aprenda a lição e que o mundo tome nota
essenciais, e todo o período que se inicia da providência moral de Deus em ação na
em I Samuel 19.10 fornece tempo suficien- terra (13). Semelhantemente, o que ele de-
te para a ameaça constante de que fala o sejava não era "ter de volta o que era seu",
salmo (6,14). Em certo momento, quando mas que pecado... soberba... abomina-
fugia de Saul, Davi fugiu pelas janelas de ção... mentiras (12) fossem punidos.
vigia de sua casa, com a ajuda de Mical. No momento de maior perigo, Deus deu
Saul tinha de agir com discrição por causa uma canção a Davi. Os cães ainda estavam
da popularidade de Davi, mas sem dúvida rondando (14,15), Eu, porém, cantarei ...
esperava livrar-se dele simulando um aci- (16, I7) "eu faço música". Os vigias devem
dente. Quando a fuga de Davi tomou isso ter ficado atônitos ao ouvirem Davi e Mical
impossível, armou uma emboscada. entoando louvores de manhã e à noite!
O tema recorrente do salmo é a se-
gurança total em Deus: Põe-me acima Salmo 60. Desfraldando
do alcance (I), "põe-me no alto"; força o estandarte
(9,16,17), "alto refúgio" - uma altura ina- Davi tinha criado um problema para si
cessivel ao inimigo. Veja como Davi passa mesmo. De acordo com 2SamueI8.3-7, ele
da súplica: "Sê minha segurança máxima" pegou Hadadezer, de Zobá, de surpresa.
( I), para um clímax de confiança, "Tu és Hadadezer estava ocupado defendendo sua
minha segurança máxima" (17). fronteira no extremo norte e Davi apro-
Ele começou com oração (1-5). Ele veitou a oportunidade para invadir o sul.
realmente confiava na suficiência da ora- Mas antes que pudesse saborear sua vitó-
ção: mesmo sabendo das forças que se ria, chegaram notícias de que Edom tinha
opunham a ele (3), ainda assim bastava apanhado Davi de surpresa, invadindo seu
dizer: Livra-me... põe-me acima do alcan- território pelo vale do mar Morto. Com o
ce... salva-me... desperta. O apelo para que rei e o exército a quilômetros de distância,
Deus realizasse naquela hora o julgamento parecia que o recente reino de Davi teria
final do mundo (5) é uma medida da certe- uma morte prematura. A situação é descri-
za que Davi tinha de sua própria inocência ta brevemente no v. 1: o verdadeiro perigo
(3,4) em relação às acusações feitas con- não é Edom, mas a ira divina (expressa por
SALMO 61 792

meio de Edom). Portanto, a única solu- feitas. A dignidade (defesa de minha cabe-
ção é a oração (Restabelece-nos - no teu ça... cetro) pertence ao povo de Deus; a
favor). A terra abalada (2, cf Êx 19.18; condição servil (bacia de lavar... sandália)
lSm 14.15), o vinho que atordoa (3, cf e subordinação (sobre a Filístia) aos ou-
Is 51.17) representam a presença e a ira tros. 9-11 Tu não sais... com passa a ser Em
divinas, mas existe um estandarte que Deus, pela atitude de submissão da oração
pode ser desfraldado (4), o estandarte da de súplica. O estandarte desfraldado tem
oração (5). Pois, em essência, esta é a si- eficácia diante de Deus, assim como (4,5)
tuação: Deus fez promessas a respeito da contra o inimigo.
terra, do povo e de seus inimigos atuais
(6-8). Só Deus é a nossa esperança (9,10); Salmo 61. Coração que se
portanto, a oração é o único caminho (11). abate... oração que se eleva
A mensagem não se restringe àquela si- Como muitos salmos, o salmo 61 começa
tuação: em qualquer crise - até mesmo com oração e termina com louvor. Essa
uma que nós mesmos tenhamos criado - é uma sequência bíblica, pois a oração
a solução é repetir as promessas de Deus e gera a confiança em Deus que é exprimi-
desfraldar o estandarte da oração. Quando da em louvor e respondida por atos divi-
somos infiéis, ele é fiel: ele não pode ne- nos a que o louvor é a resposta adequada.
gar-se a si mesmo (2Tm 2.13). Inicialmente, ele pede que seja ouvido o
1 É característico do pensamento bí- seu pedido (1), expresso numa oração por
blico atribuir os reveses (3) diretamen- segurança, baseada em exemplos anterio-
te à mão de Deus. Não é impossível que res da força protetora de Deus (2,3), por
Hadadezer tivesse incentivado Edom a comunhão constante, baseada num rela-
abrir uma segunda frente de batalha, mas cionamento estabelecido (4,5, traduza: -ó,
o modo de lidar com as situações é ir dire- deixa-me morar..."), e no reinado eterno
tamente à fonte. Quaisquer que fossem as do rei indicado por Deus (6,7). Como esta-
justificativas de Davi para atacar os filis- va em questão a continuidade do reino de
teus (2Sm 8.1), ele não tinha nenhuma para Davi, sua fuga de Absalão é um contexto
conquistar Moabe e Amom (2Sm 8.2,12; aceitável para o salmo, mas ele nos fala
cf Dt 2.9,19). O ataque a Hadadezer pre- com grande beleza sobre uma segurança
tendeu apenas imitar a política oportunista que nos eleva acima do perigo, uma força
das potências mundanas. Não admira que atrás da qual estamos seguros, uma acolhi-
o Senhor estivesse zangado! 4,5 Cf Êxodo da calorosa e protetora, e um rei que reina
17.8-16. Moisés viu suas mãos levantadas para sempre.
como um estandarte contra o inimigo e Notas. 2 Desde os confins da terra,
também como uma forma de tocar o trono significando algo muito distante do céu.
de Deus em súplica. Sem dúvida, Davi ti- Alta demais para mim, de tal modo que
nha isso em mente: o ataque de Edom era eu não consigo alcançá-la sem ajuda.
como o de Amaleque (Dt 25.17,18). Para 4 Tabernáculo, a habitação de Deus
fugirem de diante do arco ou "pela causa (Êx 29.44-46). Asas (Rt 2.12; Lc 13.34).
da verdade" (ARe). 6-8 Na sua santidade: 5 A razão (Pois) para querer entrar na casa
ele empenhou sua santa palavra. Siquém ... de Deus: um voto humano (de compromis-
Sucote, as áreas centrais da Palestina e so pessoal, lealdade) e uma herança divina
Transjordânia; Gileade... Manassés, as (Ef 1.13,14). 6 Davi orou de acordo com
áreas setentrionais além do Jordão. Estas uma fórmula convencional: "Que o rei
tipificam a terra que o Senhor prometeu. viva para sempre", mas o Senhor respon-
Efraim... Judá, os dois principais compo- deu colocando sobre o trono de Davi um
nentes do povo a quem as promessas foram rei verdadeiramente eterno (Lc 1.31-33).
793 SALMO 63

A oração é sempre respondida de uma for- maxrrna (59.1,9,16,17). Não serei muito
ma mais perfeita do que pedimos (Ef3.20). abalado (a NVI omite o advérbio "muito").
8 Salmodiarei ... cumprir. O louvor sem um Isso é realismo: a vida tem situações que
compromisso moral sério e constante não nos abalam, mas o que o v. 6 diz também
tem consistência. é verdade, os abalos não podem nos arran-
car de nosso refúgio de segurança máxima.
Salmo 62. Poder agindo 3,4 Que grande verdade a respeito da na-
por amor tureza humana pecaminosa - derrubar os
Temos muito a temer e nada em que con- fracos (3), desonrar a dignidade recorren-
fiar quando dependemos ou nos fiamos do a mentiras e enganos! Quão diferente de
na humanidade. Consequentemente, onde Deus (Is 42.3) e de seus verdadeiros servos
está o nosso recurso quando estamos de- (2Co 4.2; 13.9)! 5 Em períodos de tensão,
baixo de grande aflição? Só e perfeita- pode ser necessário ordenar a nós mesmos
mente em Deus! Esta verdade é declarada que façamos o que sabemos que é certo.
(1,2), repetida como autoencorajamento 6 Abalado (cf v. 2). 7 Glória, a reputação
(5,6), recomendada a outros (7,8) e alicer- e posição que os inimigos poderiam des-
çada na palavra de Deus (11,12). Isso não truir. 8 Derramai. O descanso em Deus
é nenhuma doutrina de "torre de marfim", tem de ser forjado no lugar de oração
mas sim algo que foi provado na dura es- (Fp 4.6,7).9,10 A ordem de confiar exclu-
cola da experiência: que as pessoas podem sivamente no Senhor é apoiada por uma
ser muito ameaçadoras (3,4) e que o mun- visão desanimadora da humanidade (9),
do não oferece nenhuma solução, nem nas de seus meios e recursos (10). Plebeus...
pessoas (9) nem em suas práticas (10). fina estirpe, uma figura de linguagem para
O v. 1, juntamente com os v. 2,4,5,6,9, "todos igualmente". 11,12 Deus tem poder
começa com uma partícula que significa (ao contrário do ser humano, em sua fra-
"ainda assim" (traduzidas em geral por queza, 9) e amor imutáveis (ao contrário
"somente", "só" na ARA e ARe). As pres- da falsidade do ser humano, 9). E não é só
sões são muitas, "ainda assim" (1) espera isso: seu poder amoroso é uma força ati-
em Deus; muitas formas alternativas de re- va de providência moral (12) por meio da
sistência são propostas, "ainda assim" (2) qual ele "paga integralmente" (retribuis).
só ele é a minha rocha; muitas razões para Portanto, podemos confiar nele para obter-
que o inimigo não tenha sucesso, "ainda mos nosso bem-estar e nos proteger contra
assim" (4) só pensam em derribá-lo; e, to- as ações de nossos inimigos.
das as intenções deles são más, sua amea-
ça é real, "ainda assim" (5) ó minha alma, Salmo 63. Desejos matinais...
espera silenciosa. E, se alguém disser que pensamentos noturnos
você precisa de outras defesas também, Davi teve uma experiência com o deserto
responda "ainda assim" (6) só ele; ou, se de Judá (título) quando fugia de Absalão
eles ressaltam o quanto as pessoas pode- (2Sm 15.23,28; 16.2,14; 17.16,27-29).
riam ajudar, responda "ainda assim" (9) Naquele calor escaldante, a maior sede
somente vaidade são os homens. Assim, que ele sentia era a de Deus. Te busco an-
a grande verdade a respeito do total poder siosamente (1) é antes "cedo te busco":
que Deus tem de manter sossegados os que os pensamentos que ele tem ao despertar
lhe pertencem, em meio às turbulências da abrangem seu estado atual (1), uma sede
vida, foi forjada na experiência prática, em de Deus domina todo o seu ser (alma ...
face de acontecimentos adversos e conse- corpo); suas experiências anteriores (2,3)
lhos alternativos. Espera silenciosa, "en- com aforça, glória e graça de Deus o ca-
contra repouso". 2 Alto refúgio, segurança pacitam a enfrentar o novo dia com louvor;
SALMü64 794

e um louvor responsivo futuro (4,5):farta- Salmo 64. O Deus que retribui


se a minha alma... júbilo nos lábios. Mas Experiência pessoal e acontecimentos de
também no meu leito existem pensamentos conhecimento público frequentemente fa-
noturnos a respeito de: um passado (6,7) zem questionar a existência de um Deus
em que (lit.) "tu provaste seu o meu socor- justo e de uma providência moral ativa.
ro", motivando uma canção; um presente Se um Deus bom realmente governasse o
de compromisso mútuo (8, minha alma... mundo, será que haveria esse desequilíbrio
a ti; a tua destra... me) e consequente se- entre o que acontece com as pessoas niti-
gurança (9); e um futuro que trará castigo, damente boas e com as nitidamente más?
alegria e triunfo (lO, 11). Este salmo revela Será que os errados ficariam impunes com
"não um estranho que tateia tentando en- tanta frequência? Este salmo responde a
contrar seu caminho até Deus, mas a ânsia essa pergunta afirmando a retribuição di-
de um amigo, quase um amante, de estar vina. Os inimigos malvados (malfeitores)
junto de quem ama" (Kidner). Davi fala do e desordeiros (que praticam a iniquidade)
amor de Deus por ele (3), mas é o seu amor de Davi (3) afiam a língua como uma es-
por Deus que nos faz orar: -o, dá-me gra- pada e fazem pontaria com palavras que
ça para amar-te mais!". são como setas envenenadas, planejando
1 Deus é pessoalmente conhecido um ataque furtivo e súbito (4); confiantes
(meu Deus), recebe a prioridade no uso do em seus planos, eles agem sem temor (não
tempo ("de madrugada", ARC), e é busca- temem, 4) e perguntam Quem nos verá?
do com intenso desejo (terra árida... sem (5) - desdenhando a existência de um
água). 2 Lit., "assim te vi" (v. ARC), i.e., Deus santo que observa e reage. Mas as
como solução para um anseio tão intenso próprias armas que eles usam se voltarão
quanto o expresso no v. 1, Deus já satis- contra eles - a seta e a língua - e com
fez anteriormente a alma saudosa, e certa- a mesma rapidez (7,8)! Pois, por astu-
mente fará isso de novo. 4 Mais uma vez, ta que seja a mente do homem (6), Deus
"assim, eu te bendirei" (ARC). OS lugares sabe onde mirar, e a providência moral da
mudam. Davi não pode mais se aproximar qual eles zombaram será uma questão de
do santuário, mas Deus não muda. Ele ain- testemunho público (8,9). Porém, a justa
da revela sua força, glória e amor - mes- providência de Deus, que funciona num
mo no deserto - e recebe louvor por isso. sentido na retribuição, também funciona
9,10 A espiritualidade de 1-8 não é esca- no outro sentido, na proteção: a voz que
pista ou do outro mundo, mas a própria ora pedindo proteção na tribulação torna-
essência da vida prática. A circunstância se a voz que se regozija em louvor, dentro
era uma situação de conflito em que o rei do refúgio divino (10).
foi envolvido e que precisava ser resolvida
com a vitória de um lado e a derrota do ou- A I (v. 1,2) Orando por proteção
tro. Como os adversários estão decididos a B' (v. 3,4) O ataque
acabar com Davi, o que eles conseguirão CI (v. 5,6b) Negação da retribuição
é a sua própria destruição: abismar-se-ão B 2 (v. 6c-8b) O contra-ataque
nas profundezas da terra, "estão destina- C2 (v. 8c,9) Afirmação da retribui-
dos à destruição". Essa é a providência ção
moral ativa do amor e poder de Deus que N (v. 10) Júbilo na proteção
62.11,12 afirma. 11 Absalão ameaçou Davi
como rei (cf 2Sm 15.4,10). Ao falar de si 1,2 Orando por proteção. Perplexi-
mesmo aqui como rei, Davi está afirmando dades - não uma "queixa", mas um desa-
que "os dons e a vocação de Deus são irre- bafo diante da tribulação. 2 Conspiração,
vogáveis" (Rm 11.29). "camarilha".
795 SALMO 65

3,4 O ataque. Temem, medo de reta- (Is 37.30). Mas, considerando-se apenas as
liação. circunstâncias vividas por Davi, a situa-
5,6b Negação da retribuição divina. ção registrada em 2Samue121.1-14 sugere
Quem nos verá?, i.e., "olhar para", para um contexto igualmente adequado para o
tomar nota e fazer algo a respeito. salmo, já que os três anos de fome foram
6c-8b O contra-ataque. Abismo, "pro- encerrados, não pelos expedientes insensa-
fundo". Melhor traduzir por: "Embora o tos e pecaminosos de Davi (2-9), mas pela
pensamento seja profundo, Deus desfe- oração respondida (1,14). Em três seções,
re ...". É possível esconder um plano de o salmo desenvolve tudo.
outras pessoas, mas não de Deus. Embora 1-4 Oração, expiação, reconciliação.
o coração seja profundo, a seta de Deus As pessoas se aproximam de Deus em lou-
é certeira. 8ab É difícil de traduzir, mas vor e dedicação, dirigindo-se a ele como
a ideia central dos v. 7,8 é que os mal- aquele que atende a oração, desfrutando
feitores são punidos com suas próprias da abundância de ser levado até Deus por
armas (3,4). meio da expiação. 1 Louvor ("espera o
8c,9 Afirmação da retribuição divi- louvor", ARe; "o louvor te aguarda", NVI),
na. Cf Isaías 26.9. (lit.) "a ti silêncio/imobilidade é louvor".
10 Júbilo na proteção. A alegria vem "Imobilidade" pode significar "o que ain-
antes da solução. Os atos de Deus são sú- da está lá", i.e., "o louvor é sempre teu";
bitos (7), não necessariamente imediatos, ou a expressão pode estar registrando um
mas, enquanto esperam debaixo da prote- momento de silêncio admirado diante do
ção de Deus, os justos se alegram indepen- Deus que realizou um livramento tal que
dentemente de sua sorte no mundo. as palavras fugiram. Voto (cf 61.8): era
comum fazer votos a Deus nos momentos
Salmo 65. O ano coroado de crise. 2 A implicação é que a oração foi
Todo ano era "coroado" com o Dia da respondida de tal maneira a sugerir que
Expiação e a Festa dos Tabernáculos - a este Deus será reconhecido um dia por to-
remoção do pecado (Lv 16) e o agradeci- dos os povos em toda parte. Deuteronômio
mento pela colheita (Lv 23.39; Dt 16.13- 4.6-8 liga um povo que ora a um mundo
15). Mas este salmo fala de um ano espe- impressionado. 3 Prevalecem, "domi-
cial. Tinha havido uma notável resposta nam", pessoas sob o domínio do pecado.
de oração (2,5); o pecado tinha sido uma Perdoas, "cobres", "fazes redenção", não
realidade esmagadora (3); Deus fizera coi- escondendo da vista, mas pagando o preço
sas extraordinárias (5), como apaziguar que "cobre" o débito. 4 A redenção traz fe-
as nações (7) e estabelecer uma reputação licidade suprema, é distribuída segundo a
mundial (2,5,8); a colheita havia sido par- eleição de Deus, nos aproxima dele e nos
ticulannente abundante (9-13). toma aceitos no próprio lugar santo.
Há um ano registrado que fornece uma 5-8 Livramento, domínio, revelação.
ilustração: quando a Assíria ameaçou Sião A resposta à oração veio com tremendos
e foi derrotada pela ação de Deus (Is 36; feitos pelos quais Deus demonstrou ser
37). A rebelião contra a Assíria os colocara Salvador nosso, digno da confiança do
numa situação de impotência (Is 37.3), mas mundo inteiro. O poder do Criador foi
a oração foi atendida (Is 37.4,14-20,21), usado para acalmar as nações agitadas, e
o Senhor acalmara o tumulto das nações o resultado foi que, em toda parte, as pes-
(Is 37.36,37), e a provisão da colheita para soas passaram a temê-lo. É típico dos sal-
dois anos, sem intervenção humana, foi mos generalizar dessa forma, partindo de
oferecida como prova de que aquilo não algum ato específico de Deus para esboçar
acontecera por acaso, mas era obra de Deus um panorama mais amplo de sua soberania
SALMü66 796

e poder (cf SI 67). 7,8 Os tremendosfeitos à luz do que ele fez no passado (8-12).
de Deus têm autoridade suprema sobre as Qualquer prova (10) que eles tenham
gentes a tal ponto que a notícia dos seus enfrentado é sempre como uma reedi-
sinais chegou aos confins da terra e provo- ção do mar Vermelho: quando eles pas-
cou temor (cf Js 2.8-11). saram pela água, foi para emergir para a
9-13 Cuidado, abundância, provisão. liberdade (12).
Ao fim de um ano, quando a ocupação da Precisamos passar pelos nossos sofri-
terra pela Assíria tomara impossível a agri- mentos de tal maneira que eles se tomem
cultura, ainda assim houve abundância (cf oportunidades para o testemunho: os po-
Is 37.30). Isso ocorreu pelo cuidado (visi- vos são convocados para dar louvor a Deus
tas, 9) de Deus, sua generosa fertilização pela preservação, pelas provações, pelo
(10) por meio da qual a fartura coroou o profundo sofrimento e pela libertação final
ano (11-13).9 Ribeiros de Deus. Seus rios de seu povo (8-12).
celestiais, que armazenam água para a ter- Não existe igreja separada daqueles
ra. A figura é poética, mas a realidade é que que a compõem; cada indivíduo reage es-
o brotar da vida na terra é sempre produto piritualmente por meio de dedicação (13-
de forças celestes, não da inteligência hu- 15), testemunho (16-19) e louvor (20).
mana, mas da produtividade divina. 11 O Os atos providenciais de Deus em
ano da tua bondade. A generosa colheita benefício de seu povo são fruto de sua
do final do ano não foi senão a coroação de própria vontade e ação (10-12, seis ver-
toda a bondade que a precedeu. bos na segunda pessoa do singular), mas
a bênção resultante não vem sem oração
Salmo 66. Sua providência... (17) e santidade (18). De fato, o Senhor
minha oração realiza sinais extraordinários pré-determi-
O movimento deste salmo, da terra (1) nados por meio das orações de seu povo
para mim (20) via nós (10), não pode ser (Ml 3.1; Lc 1.13).
explicado com certeza. Teria um indivíduo 1-12 Louvor do mundo inteiro. A ex-
prefaciado sua oferta de gratidão (13-15) periência passada (1-7) e presente (8-12)
e testemunho (16-20) com um hino sobre do povo do Senhor leva a um convite para
o relacionamento do Senhor com o mundo que todos participem da adoração, reco-
(1-7) e com seu povo (8-l2)? Ou o povo nhecendo primeiramente o que ele reve-
veio agradecer o livramento (12), e um in- lou a respeito de si mesmo (2,4, nome),
divíduo (o rei?) expressa o que estava no e depois seus atos e poder vitorioso (3).
coração deles (13-20)? Só podemos fazer 5-7 Já fazia séculos que a experiência do
conjecturas a respeito do cenário, mas a mar Vermelho (6) ocorrera. Portanto, a
mensagem é clara. convocação vinde e vede é deliberadamen-
O que o Senhor fez, historicamente, te imaginativa. Entretanto, ao nos transpor-
por seu povo serve de base para um con- tarmos novamente àquele grande aconteci-
vite feito ao mundo inteiro (1-7). O mun- mento, podemos dizer (lit.) "Vamos nos
do é convocado, como que para assistir ao alegrar" (6c), como se estivéssemos em
Senhor no mar Vermelho e depois se juntar pé na praia oposta, com o poder vitorioso
ao seu povo em regozijo por esse Deus, em do Senhor e as terríveis consequências (7,
vez de se rebelar contra ele (5-7). A sal- cf Êx 14.30,31) da rebelião visivelmente
vação que ele operou para alguns (Israel) diante de nós. Mas Deus ainda está no tro-
é um convite a todos (cf 2Co 5.18,19) no (8-12) e seu povo tem uma experiência
("nós ... o mundo"). atualizada para compartilhar: Deus está
O modo como o Senhor lida com seu decidido a respeito do bem do seu povo
povo atualmente deve ser interpretado (9), lit., "ele nos designou para a vida"; ele
797 SALMO 68

impõe sofrimentos propositados (10), nos mundo inteiro possa estar sob o domínio
quais seu povo é provado para aperfeiçoar do Deus de Israel. O significado fica mais
a qualidade e acrisolado para aumentar a claro se lermos, no v. 4, "julgarás... guia-
pureza (10); ele determina tudo o que nos rás" e, no v. 6, "deu".
acontece, até mesmo as experiências mais 1 Cf Números 6.24-26. Israel foi o
terríveis (11,12). Quando a vida nos confi- povo abençoado de uma forma especial.
na (cair na armadilha), quando as pressões 2 Mas, para o povo de Deus, sua própria
aumentam (oprimiste as nossas costas), bênção nunca é um fim em si mesmo.
quando as pessoas são de uma crueldade Eles não desfrutam só da bênção de Arão
atroz (cavalgassem sobre a nossa cabeça), (I), mas também da bênção abraâmica
quando enfrentamos uma situação amea- (Gn 12.2,3) guardada em confiança para
çadora após outra (jogo... água) ~ tudo o mundo inteiro. Eles são abençoados "a
isso é fruto de um ato pessoal de Deus: nós fim de" serem uma bênção para o mundo.
nunca estamos em outro lugar, senão nas 3-5 Envolvido pela oração repetida, o v. 4
mãos de nosso Pai (lo 10.29; lCo 10.13), afirma que a bênção mundial só pode vir
o Deus da suprema abundância (12; quando Deus for rei e pastor de todas as
2Co 4.l6~5.1; Ap 7.9-17). nações. Julgas (não "emitir uma sentença
13-20 Louvor individual. A experiên- sobre", mas) "pôr tudo em ordem", como
cia individual na dedicação (13-15), ora- um verdadeiro rei faria. Guias (cf 77.20),
ção (17), santidade (18) e orações atendi- agir como pastor. 6,7 A época da colheita
das (19) serve de testemunho para a igreja chegou mais uma vez. A louvável bondade
(16). O período de aflição (14, cf 10-12) de Deus é vista não só nos livramentos es-
foi enfrentado por meio de um voto ao pantosos (SI 65; 66), mas também na pro-
Senhor, um voto agora simbolicamen- vidência das misericórdias comuns que se
te cumprido com holocaustos (13) ~ a repetem anualmente. Essa bênção é vista,
oferta que nada retém (Gn 22.2,12). Mas primeiramente, como uma garantia de bên-
esse tipo de voto não é uma barganha com çãos maiores no futuro (6b) e, em segundo
Deus, e o livramento não foi Deus cum- lugar (7), como a colheita é uma metáfora
prindo sua parte no trato, mas uma respos- da reunião mundial (ls 27.12,13), é tam-
ta à oração. A verdadeira oração exprime bém um penhor de uma colheita que alcan-
verbalmente a nossa necessidade (17, com çará os confins da terra (7; Ap 7.9,10).
a boca), está sempre pronta para irromper
em louvor (17, com a língua, "na ponta da Salmo 68. A cavalgada:
minha língua") e requer pureza de coração uma marcha de lembranças
(18) ~ determinação de não "dar guarida e expectativas
ao pecado no meu coração". A oração res- Com a repetição (1) de Números 10.35,
pondida, por sua vez, se derrama em lou- o salmo rememora a marcha de Israel, do
vor (20), pois ela é uma prova viva de que Sinai em direção a Canaã (1-3). Quem
Deus não afastou seu amor de mim. marcha são os cativos (6) que o Senhor ti-
rou do Egito e de quem ele agora é pai e
Salmo 67. A colheita juiz, em sua jornada pelo deserto (4-6). Ele
É emocionante ouvir este salmo como um os leva à copiosa chuva de Canaã (7-10),
ato de ação de graças pela colheita: nos v. onde ele dispersa os reis (14), anunciando
1-3,5-7, provavelmente o dirigente do lou- as novas de sua vitória para que multidões
vor falava (linha 1) e a congregação res- jubilosas a espalhem por toda parte (11-
pondia (linha 2). Isso isola corretamente 14). Dentro de Canaã, também (para tris-
o versículo central, v. 4 (declamado por teza das elevações), ele escolheu o monte
todos juntos?), com sua oração para que o Sião e ascendeu em triunfo (15-18), como
SALMü68 798

o Deus que salva seu povo e destrói seus mas o Deus do Sinai também usa sua
inimigos (19-23). Passando em direção criação para providenciar copiosa chuva
ao seu trono, diante de fileiras de jovens (Dt 11.10-12). Compare a terra estéril (6)
tocando pandeiros (25), ele é escoltado com a herança ... [que] restabeleceste (9),
por cantores, músicos e representantes do que são os destinos, respectivamente, dos
povo, na presença das congregações ofere- desobedientes e dos obedientes (At 3.19;
cendo louvor (24-27). Em oração, eles pe- 5.32). 11 O Senhor... a palavra... a falan-
dem a Deus que todo o mundo se submeta ge. Como um comandante em chefe (2Sm
ao Senhor (28-31) e, em visão, convocam 18.19ss.), o Senhor anuncia sua vitória e,
o mundo a participar do louvor (32-35). como em Êxodo 15.20,21; lSamuel 18.6,
Porém, temos aqui mais do que uma lit., "grande era a multidão de mulheres
marcha de lembranças. O salmo fornece contando as boas novas".
uma expressão visível, dramática, de um 12 Reis (Js 12.7-24). A dona de casa
cortejo (24) concreto, que podemos iden- ou "aquela que ficou em casa", (cf
tificar com a ocasião em que Davi levou Jz 5.28-30). 13 Repousais entre as cercas
a arca para o monte Sião (2Sm 6.12-16; dos apriscos, os da "guarda da casa", que
lCr 15.1-28). não estão de serviço; ou "entre os alfor-
1 Levanta-se (ou "Levantar-se-á", TB), jes", como um jumento oprimido pelo
a oração do passado se toma uma afirma- grande peso da carga - os oprimidos
ção para o futuro. 2 Fumaça ... cera. O que pelas dificuldades; ou "nos lares", as mu-
é, respectivamente, impalpável e débil. lheres que "mantêm as lareiras acesas". A
Assim são os inimigos do Senhor diante vitória do Senhor é tão grande que nem o
dele, ainda que para nós sejam invencí- repouso, nem a exaustão, nem a não-par-
veis. Iníquos. Em suas vitórias, o Senhor é ticipação dos seres humanos faz qualquer
sempre movido por considerações morais, diferença. Pomba. Ao acrescentar "mi-
agindo de acordo com sua santidade, não nha" pomba, a NVI cria uma referência ao
por favoritismo em relação ao seu povo (cf povo do Senhor, cujos adornos de prata
21; Gn 15.16). 4 Exaltai. Melhor, NVI mrg.: e ouro O Senhor garante com os despojos
"Preparem o caminho", (Is 40.3). Eles de- de sua vitória, sem que eles precisem fa-
vem conduzir sua marcha de tal maneira zer esforço algum. Sem "minha", o v. 13
que uma estrada seja criada para o Senhor se refere poeticamente ao próprio despojo
marchar entre eles. Sobre as nuvens retifi- valioso. 14 Neve ... Zalmom. Isso signi-
ca o texto hebraico à luz de 18.9,10 e pa- fica que os reis foram dispersos como a
ralelos pagãos, mas, (lit.) "pelos desertos" neve pelo vento? Ou o Senhor usou uma
se encaixa melhor nesta estrofe: o grande tempestade de neve para obter a vitória?
Cavaleiro do Deserto veio cuidar com (cf Js 10.11; Jz 5.21). Ou o entulho da
carinho de seu povo no deserto (Dt 2.8; guerra cobre a terra com uma camada es-
8.15).5 Cf 10.14; 146.9; Êxodo 22.22-24; pessa como a neve? Zalmom (v. Jz 9.48).
Deuteronômio 10.18. 6 Cativos, os que A expressão pode ser um provérbio cujo
ele tirou da "casa da servidão" (Êx 20.2). significado é hoje incerto. 15-17 O monte
Rebeldes, Números 14.9,22,23; 26.64,65; de Basã pode parecer superior, mas não se
Deuteronômio 2.14-16. O Senhor é o compara à grandeza de Sião, que consiste
Deus santo, que exige obediência e impõe na escolha, presença e poder do Senhor
sua disciplina, não só aos seus inimigos, (16,17). Sinai... santuário. O Sinai foi
mas também ao seu povo (2,21). 7,8 Cf cenário da mais grandiosa manifestação
Juízes 5.4,5. O Sinai foi marcado por ma- do Senhor (Êx 19). Portanto, quando ele
nifestações naturais que refletiam o poder vai para Sião, lit., "o Sinai está no lugar
impressionante do Senhor (Êx 19.16-18), santo" - todos os valores e realidades do
799 SALMO 69

Sinai estão agora em Sião. (Cf lCo 3.16; Jz 11.34; 1Sm 18.6,7). Benjamim etc. Duas
6.19; Ef2.19-22; 3.16-19). tribos do sul e duas do norte sugerem,
18 Subiste... homens... dádivas. Ao fim poeticamente, todas as tribos do povo do
da longa marcha pelo deserto e do esfor- Senhor. 28-31 À medida que a procissão
ço da conquista, o Senhor vitorioso chega marchava em direção a Sião e depois subia
triunfante a Sião. Ele lit. "levou cativo o o monte, ela ia recapitulando, tanto para
cativeiro" (cf. Jz 5.12), i.e., ele levou ca- os que participavam da procissão, quanto
tivos aqueles que tinham feito seu povo para os que assistiam toda a longa marcha
cativo. Homens ... até mesmo rebeldes ad- da história de Israel e da graça e poder do
mitem a vitória do Senhor levando dádivas Senhor. Agora, as congregações (26) oram
tributárias. Mas também poderíamos tra- para que o Senhor prove que ainda é o mes-
duzir por: cc... dádivas, isto é, pessoas ~ mo, através da manifestação do seu poder
rebeldes, além disso! ~ para que o Senhor (26-28) e graça (templo, 29a), para levar o
pudesse fazer morada", i.e., pessoas que mundo inteiro à submissão (29-31). Fera
outrora eram rebeldes foram ganhas pelo dos canaviais, o Egito, que se estende ao
Senhor, que o fez para poder habitar entre longo do Nilo. Touros... novilhos, figuras
elas (Êx 29.46; 2Co 6.16). 19,20 Ao usar o que representam, respectivamente, poder e
v.18 com referência à ascensão do Senhor liderança, subordinação e seguidores: reis
Jesus (Ef 4.8), Paulo incorporou o que os e pessoas comuns do povo. Se comprazem
v. 19,20 dizem sobre a bondade de Deus na guerra. O jovem reino de Davi estava
para com seu povo, adaptando a citação cercado de nações prontas a conquistá-lo,
para "concedeu dons". Leva (Is 46.1-3). especialmente os filisteus. Uma referência
Com ... o SENHOR... escaparmos da morte, a eles aqui reúne inimigos grandes (Egito)
possivelmente: "Ao soberano Senhor per- e pequenos (filísteus), passados e presen-
tencem as saídas que pertencem à morte". tes. Etiópia, região remota, situada além
A morte guarda zelosamente as portas que do Alto Egito, representando os confins
mantêm confinados os seus prisioneiros, da terra. 32-35 A oração se transforma em
mas até mesmo essas portas pertencem ao louvor, pois o Senhor certamente a aten-
Senhor! 21-23 Com realismo típico, os re- derá. Portanto, toda a terra pode ser con-
sultados da vitória são descritos, mas ob- vocada a exaltar sua soberania ilimitada,
serve que, quando o Senhor "esmaga" seus seu poder, seu domínio sobre Israel e sobre
adversários e dá ao seu povo os frutos da tudo (33,34), sua impressionante santidade
conquista, tudo é justificado em bases mo- e graciosa habitação (santuários), seu po-
rais (21,23). Nós, que sofremos de atrofia der disponível e seu louvor valioso (35).
moral, que temos limitada capacidade de
verdadeira indignação moral, e que esta- Salmo 69. O custo,
mos sempre prontos a fazer concessões a preocupação e o realismo
morais, não conseguimos conceber o que da verdadeira devoção
o pecado é na realidade, como ele é visto e Davi enfrentava um ódio prolongado e
como ofende a um Deus santo, e como até ameaçador (1-4). Esse ódio resultou em
mesmo a mais violenta retribuição é abso- que os que buscavam a Deus fossem di-
lutamente justa. Farei voltar, fá-los-ei tor- famados na terra (6), levou os próprios fa-
nar. A passagem se refere ou à inevitabili- miliares de Davi a se afastarem dele (8),
dade com que serão alcançados e punidos transformou sua prática religiosa em alvo
os inimigos do Senhor que tentam escapar, de zombaria (10-12), levou-o a ter receio
ou à constância com que ele traz seu povo de que o Senhor o tivesse abandonado (17),
de volta, mesmo que os seus inimigos os deixou-o desgostoso e sem amigos (20). O
expulsem da terra. 24-27 Adufes (Êx 15.20; motivo apresentado era a acusação de que
SALMO 69 800

ele havia se envolvido em malversação (de enquanto inumeráveis pessoas e inimigos


recursos?) (4), mas a razão secreta era sua sem motivo são suficientemente influentes
devoção ao Senhor (7) e à casa do Senhor para forçar uma restituição indevida (4).
- na verdade, o alvo do ataque era o pró- 5-12 Os que precisam de proteção.
prio Senhor (9). O salmo foi escrito quan- Culpas referem-se especificamente (Lv 5)
do a crise ainda não estava resolvida (29). a situações em que foi cometida uma ofen-
sa que exige que uma pessoa faça restitui-
AI (v. 1-4) Oração descrevendo a crise ção a outra. Assim, o v. 5 recorda o v. 4.
mortal Quando o Senhor sondar Davi, encontrará
B' (v. 5-12) Os que precisam de pro- estultice ("tolice"), por ter cedido à pres-
teção são e feito restituição, mas não encontrará
N (v. 13-18) Oração apelando ao caráter culpas. 6-12 Por ter agido como se fosse
de Deus culpado, Davi deu motivo para que todos
B2 (v. 19-29) Os que merecem castigo os que viviam pela fé e na presença de
N (v. 29-36) Oração transformando-se em Deus se tomassem um potencial alvo de
louvor crítica (6). Pois o povo de Deus é um só
corpo, e quando a lama é atirada ela atinge
Não há nenhum registro de algo assim mais do que seu alvo imediato. Quanto ao
na vida de Davi, mas é mais crível inse- próprio Davi, ele perdera o amor da famí-
rir essas circunstâncias em sua história do lia (8) - fácil de imaginar no cenário es-
que esboçar um cenário para outra pessoa boçado acima: como seu irmão agora era
em outra época. Davi esteve fortemente rico, será que eles acharam que ele deveria
envolvido nos planos (1Cr 28.11-21) e na ser mais generoso com os parentes? Mas
obtenção de recursos financeiros (29.2-5) também sua prática religiosa sincera e sua
para a construção do templo. Riqueza in- reputação eram alvos de desprezo explícito
cita inveja, e talvez houvesse pessoas em - na mente dos importantes membros da
Israel em cuja opinião as necessidades sociedade que à porta se assentam (10-12;
dos pobres e outros interesses nacionais Dt 21.19; Rt 4.1), e até nas cantorias dos
estavam sendo deixados de lado por algo bêbados. E nada disso tinha justificativa,
que consideravam mera obsessão real. pois sua motivação era a devoção (7a; cf
Acusações de apropriação indébita seriam 2Sm 6.14-21, em que a devoção de Davi
fáceis de fazer e nem sempre tão fáceis de também causou um mal-entendido) e seu
desmentir, trazendo com elas o tipo de lin- compromisso com a casa do Senhor (9a).
chamento moral que o salmo sugere. Este Mas Davi também sabia que as ofensas di-
é o salmo mais citado no NT, principal- rigidas contra ele eram uma forma de ata-
mente pelo Senhor Jesus: v. 4 (Jo 15.25), que contra Deus (9b).
v. 9 (Jo 2.17; Rm 15.3), v. 21 (Jo 19.28; cf 13-18 Oração apelando ao caráter
Mt 27.34,48), v. 22 (Rm 11.9ss.), v. 25 (At de Deus. Observe como as mesmas me-
1.20). Outros versículos também (12,20) táforas (água, areia movediça, inundação)
se adaptam perfeitamente à hostilidade usadas nos v. 1-4 reaparecem aqui, assim
brutal que o Senhor sofreu (Mt 27.27- como as pessoas que odeiam. Mas agora o
31,39-44; Mc 14.50). clamor isolado do v. 1 toma-se um apelo
1-4 Oração descrevendo a crise mor- contínuo, começando com o tempo favo-
tal. Metáforas de afogamento, areia mo- rável (aceitação divina), a graça (amor
vediça (cf 40.3) e enchente irresistível (2) comprometido, imutável) e a fidelidade
descrevem a terrível realidade da situação. em socorrer (13), e terminando com a
A oração está há tanto tempo sem respos- compassiva... graça (amor imutável) e a
ta que a voz e os olhos estão exaustos (3), riqueza das tuas misericórdias (o amor
a01 SALMO 70

apaixonado e repentino de lRs 3.26). 18 de Cristo, pois muita coisa neste salmo nos
Aproxima-te (cf "parente mais próximo", confronta com os sofrimentos dele, e sua
Lv 21.2,3; 25.25; Rt 2.20). Redime, "res- reação foi orar para que seus algozes fos-
gata", a ação do "parente mais próximo" sem perdoados. Certamente, esta é a única
(resgatador), assumindo a responsabilida- conduta possível agora. Mas há mais uma
de pelo suprimento de todas as necessida- coisa a ser dita: o próprio Senhor Jesus pro-
des do parente que está em situação difícil nunciou terríveis "ais" (Mt 23.13-36); ele
(Lv 25.25; Rt 3.12; ls 41.14; 43.14, cf. SI se imaginou dizendo "apartai-vos de mim,
19.14). Resgata, pagar o preço necessário malditos" (Mt 25.41); chegará um dia em
para resolver o problema (31.5; 55.18). que todos fugirão da ira do Cordeiro (Ap
19-28 Os que merecem castigo. Ver 6.15-17); ele estará presente quando os li-
introdução, imprecações. Nos v. 19-21, vros forem abertos (Ap 20.12) - e nes-
descobrimos o efeito das ações dos inimi- se dia não haverá oração por perdão, só a
gos; nos v. 23-28, o castigo que eles me- lógica da justiça divina eternamente apli-
recem. Como a maioria das imprecações, cada. Em resumo, existe uma ira santa, e
estas se fundamentam no princípio enun- aqui, em alguém que ansiava por justiça, o
ciado em Deuteronômio 19.19, de que os AT reflete esse aspecto do caráter de Cristo.
que fazem acusações falsas têm de ser ju- 28 Cf Êxodo 32.32; Daniel 12.1; Lucas
dicialmente punidos com o mesmo castigo 10.20; Filipenses 4.3; Apocalipse 3.5;
que o acusado sofreria. Nessa oração (pois 13.8; 21.27.
isso é uma oração: tudo está entregue nas 29-36 Oração transformando-se em
mãos de Deus, sem pensamento ou propó- louvor. Embora a amargura e a aflição
sito de praticar nenhum ato de vingança persistam, o louvor também é persistente,
pessoal), esses indivíduos são colocados agradando a Deus, fornecendo um teste-
diante de Deus para que sejam julgados. munho encorajador, baseado na garantia
Eles agiram com maldade venenosa, retra- de que a oração será atendida, e digno de
tada por meio de imagens alimentares (21): se tomar um cântico de toda a criação,
sua mesa será um laço (22); eles causaram pois, quando a aflição cessar, a estabilida-
exaustão fisica (3): também devem sofrê- de voltará à terra (35) para os que amam o
la (23); eles provocaram uma sensação de seu nome (36).
afastamento de Deus (17): devem sofrer a Notas: 31 Chifres e unhas. Os chifres
realidade desse afastamento (24); a família atestariam sua idade; os cascos (Lv 11.3,4),
de Davi se distanciou (8): suas casas se- sua "pureza", i.e., um coração agradecido
rão destruídas (25); eles fizeram acusações é mais agradável ao Senhor do que uma
falsas (4,5): serão considerados irremedia- oferta que preenche todos os requisitos.
velmente culpados (27); eles se colocaram 33 Seus prisioneiros, cf v. 26. Seja qual
contra Deus (9): Deus ficará eternamente for a circunstância, nós somos do Senhor,
contra eles (28). mesmo quando as pessoas acham que es-
Essa é a terrível lógica do juízo divi- tamos totalmente à sua mercê. Nossos
no. Antes de criticarmos uma oração como grilhões são as cadeias de Cristo (Ef 4.1;
esta, precisamos ter certeza de que já en- 6.20; Fp 1.13).
frentamos o mesmo sofrimento. Devemos
também perguntar se nosso senso moral Salmo 70. Socorro!
- particularmente nosso senso de ultraje O que o salmo 69 diz detalhadamente, o
moral - é suficientemente perspicaz para salmo 70 expressa com um grito agudo e
que possamos decidir se uma oração é cer- urgente. Em ambos existe a mesma sen-
ta ou errada. Também precisamos pergun- sação de perigo pessoal (69.1-4; 70.1,2,5)
tar se essa oração concorda com a mente e a mesma oração contra os agressores
SALMO?l 802

(69.22ss.; 70.2,3) e a favor do povo de (19-21), desejando ardentemente prolon-


Deus (69.6; 70.4), mas agora quem manda gar seu testemunho (17, 18) ~ um exem-
é a economia de palavras; as orações têm plo glorioso para o aposentado, um retrato
um caráter "telegráfico". O mesmo ocorre desafiador para todos nós. Este salmo cita
se compararmos o salmo 70 com o quase trechos de outros salmos (1-3 de 31.1-3;
idêntico 40.13-17. As palavras usadas no 4-6 de 22.9,10; 12 de 22.11; 13 de 35.26
salmo 40 para dar fluência ao texto não etc.), mas, quanto à temática e às circuns-
existem neste, como se a urgência impe- tâncias, pertence ao mesmo grupo que os
disse qualquer coisa além de um simples salmos 69 e 70, e se encaixa perfeitamente
grito de socorro! A hipótese geralmente com a imagem de Davi em seus últimos
feita é que o salmo 70 é uma adaptação do dias, sofrendo acusações injustas e temen-
salmo anterior para uso litúrgico público, do ataques, enquanto fazia os preparativos
mas é muito mais provável que ele seja para a amada casa que seria construída.
uma condensação para uso privado numa 1-3 Oração feita numa posição segu-
crise. É bom ter à mão nos momentos de ra. O refúgio fora estabelecido em Deus
pressão uma oração escrita como essa, (1), mas também era renovado constante-
quando não conseguimos pensar com cla- mente (3). A partir dessa posição, o salmis-
reza, e nossa capacidade de expressão fica ta pede defesa (1, envergonhado, exposto
limitada pelo sofrimento. como uma fraude, em desgraça pública)
Notas. 2,3 Envergonhados... vexame... e livramento (2,4). 2 Justiça. Salvação/li-
ignomínia. Esperanças malogradas, hu- vramento nunca podem ser obtidos por
milhação pública. 4 Não alegria por causa meio de uma solução que comprometa a
da humilhação do adversário; alegria no natureza divina (Is 45.21; Rm 3.21-26). 3
Senhor durante a crise. Habitável ("habitação forte", ARe) copia
31.2. O texto hebraico diz "habitação/mo-
Salmo 71. Correndo com rada" ~ "uma casa na rocha". Sempre, cf
todas as minhas forças. v. 6,14, respectivamente: sempre acolhen-
Em 1836, Charles Simeon se aposentou do, sempre louvando, sempre esperando.
depois de cinquenta e quatro anos de mi- 4-11 Cuidado divino por toda a vida.
nistério na igreja da Santíssima Trindade, A oração por livramento nutre-se de uma
em Cambridge. Ao descobrir que ele ain- experiência de Deus que remonta para
da acordava às 4 da manhã para acender a além do alcance da memória; uma expe-
lareira e passar algum tempo a sós com o riência conscientemente desfrutada duran-
Senhor, um amigo chamou sua atenção: te a mocidade (5,6), e agora, na velhice,
~ Sr. Simeon, o senhor não acha que, desejada com muito maior intensidade,
agora que se aposentou, poderia levar as à medida que diminui a força, mas não a
coisas menos a sério? oposição (9,10). 5 Esperança, aquele em
~ O quê? ~ replicou aquele homem quem esperei confiante. Confiança, o "lu-
já idoso. ~ Então eu deixaria de correr gar" em que minha segurança repousa.
com todas as minhas forças agora que já 6 Apoiado, "mantido em pé". 7 Portento.
consigo ver o marco de chegada? As acusações levantadas contra ele (v. SI
Nesse salmo, temos outro homem ido- 69; 70) fazem com que as pessoas o vejam
so (9,18) correndo com todas as forças: como um "exemplo de advertência". Mas,
maduro na experiência com Deus (5,6,17), da mesma forma que, diante de seus agres-
ainda desafiado e pressionado (4,13), sores, ele reage trazendo à memória seu
profundamente dependente da oração (1- relacionamento com Deus (4,5), quando
9,12,13), arrebatado no louvor (8,14,22- corre o risco de perder sua boa reputação
24), deixando o futuro nas mãos de Deus ele reage encontrando novamente em Deus
803 SALMO 72

o seu "refúgio" - e que fortaleza! Assim, ele deseja deixar como testemunho para as
o que poderia ter causado uma profunda gerações futuras: o caráter de Deus, seus
depressão, acaba resultando em louvor (8). atos no passado, seu ser incomparável (19;
10,11 Salmos 69.3 revela um longo período Êx 15.11; Mq 7.18-20); estranhas provi-
de provação no qual Deus permaneceu em dências, propósitos confiáveis (20) e re-
silêncio e até mesmo Davi pensou que ele compensas garantidas (21).
tivesse virado o rosto em rejeição (69.17). 22-24 Louvor responsivo. O salmo
Os inimigos de Davi se aproveitam disso foi iniciado com oração (1-3); em 12-16,
sem perda de tempo, mas a... a oração fundiu-se ao louvor. Agora, só o
12-16 Oração (12,13, pela proximidade louvor permanece - pela fidelidade, santi-
de Deus e o fim dos adversários), baseada dade, redenção,justiça (cf 2,15) e a oração
na esperança (l4a), é abundante no louvor atendida (22-24, cf. 13). Para esse exercí-
(14b,15) e gera confiança. Os períodos em cio de louvor, Davi usa seus dedos para
que mais precisamos buscar a Deus (10,11), tocar, seus lábios para cantar e sua língua
nem sempre são aqueles em que a nossa para contar. 22 Santo de Israel, raramente
vontade e energia tomam isso mais fácil. usado fora de Isaías (em que ocorre cerca
Buscar a Deus com compromisso e insis- de 40 vezes), esse título une duas caracte-
tência diante do perigo é um aspecto cen- rísticas: a santidade de Deus e sua identi-
tral deste salmo (v. 4,5; v. 7,8; v. 9-12).12 ficação com seu povo. Ele vem até nós na
Apressa-te (70.1,5). 13 Envergonhados ... plenitude de sua natureza divina, condes-
opróbrio ... vexame. Sinônimos para a per- cende em chamar-nos seus, e permite que
da da reputação diante de todos, frustração o chamemos de nosso Deus.
das esperanças, "colher a desonra". Essa
forma ousada de orar numa circunstância Salmo 72. "Ó, a alegria
de risco de vida e de ameaça à causa de de te ver reinando! 11

Deus (69.9) é algo que precisamos recupe- Além deste salmo, apenas o salmo 127
rar. 15,16 Embora estivesse sendo pessoal- leva um título com referência a Salomão.
mente atacado e caluniado, Davi não tinha Nos dois casos, poderia ser uma dedicató-
nada a declarar publicamente a respeito de ria, "Para Salomão" - aqui uma "oração
si mesmo - a título de desculpa, justifica- de Davi" (20) por seu filho. Mas a redação
tiva etc. Ele só fala de Deus - sua justi- tem a forma padrão da atribuição de au-
ça (perfeição de caráter, confiabilidade da toria, e o salmo 72 se encaixa bem com a
ação, imutabilidade de propósito), salva- época e o pensamento de Salomão. Mais
ção (poder e vontade de livrar), seus feitos do que qualquer outro na linha sucessória
(poder conquistador). de Davi, Salomão poderia ter orado por
17-21 O testemunho humano durante si mesmo como filho do rei; ele era acos-
a vida e o desejo de que ele seja prolon- tumado à homenagem de reis (10; lRs
gado. A bondade vitalícia de Deus, que 10.1-13) e à riqueza das nações que iam a
combinava com o tema da "mocidade... Jerusalém (15; IRs 10.22). Ele foi um rei
velhice" nos v. 4-11, agora é combinada sob quem paz e prosperidade eram a ordem
com o testemunho que perdura por toda a do dia, e poderia ser desculpado se visse
vida: primeiramente, testemunho do que tu seu império como os primeiros frutos do
me tens ensinado (17), a verdade revelada governo mundial do Messias. Sua oração
de Deus; depois, as maravilhas dele, seus em Gibeão (1Rs 3.6-9) combina com este
atos salvíficos no passado (17); em segui- salmo no que se refere aos ideais reais.
da, (18, lit.) "teu braço", o poder pessoal Mas, ao mesmo tempo, o salmo ultrapas-
de Deus intervindo na vida de seu povo. sa o que até mesmo uma hipérbole diria a
Os v. 19-21 apresentam um resumo do que respeito de um reino humano meramente
SALMO 73 804

terreno. Ele poderia recordar a Salomão a 11-14 O reino que atrai a todos. A
grandeza de sua vocação, mas somente o reverência universal (11) é explicada (12,
Messias poderia concretizar plenamente porque) pela natureza de seu governo. A li-
esse ideal. Estruturalmente, o salmo con- bertação, o cuidado com os desamparados,
siste em partes estreitamente ligadas entre a compaixão, a salvação e a preocupação
si, sendo distribuído em quatro estrofes: com a redenção explicam a analogia com
a chuva (6). 12 Necessitado... aflito, ver 4
AI (v. 1-5) O rei generoso e 2. Clamar, cf Êxodo 2.24. 14 Remirá,
B 1 (v. 6-8) O soberano mundial o resgatador que supre as necessidades do
N (v. 11-14) O rei generoso parente como se fossem suas (cf 69.18).
B2 (v. 15-17) A bênção mundial 15-17 Uma oração pelo rei. Esta ora-
ção por realização é o complemento natural
1-5 A bênção e suas consequências: das descrições precedentes do governo do
o mediador real. Em consequência da in- rei e seus benefícios. A oração se amplia à
vestidura divina, o governo do rei será justo medida que avança: primeiro o rei, depois
e generoso, e a própria criação derramará o seu povo, depois a criação próspera e,
suas bênçãos. Seu reino trará libertação ao por fim, o mundo. A tensão entre um rei
povo e, responsivamente (5, lit.), "Eles te verdadeiro e um rei esperado é evidente
reverenciarão... por todas as gerações". 1 aqui. O resultado natural da entronização
Juízos ... justiça, a aplicação exata de prin- de um rei no coração de seu povo é que
cípios justos de governo. 2 Aflitos, oprimi- eles oram por ele (15); os que aguardam
dos, humildes e humilhados. 3 Compare o futuro com expectativa oram: "Amém!
Gênesis 3.17-19 com Amós 9.13. Quando Vem, Senhor Jesus!" (Ap 22.20).
a maldição do pecado tiver sido tratada e Os v. 18-20 constituem uma conclusão
removida, a própria criação será renovada editorial para o segundo livro dos salmos,
e correrá para derramar seus benefícios. cf 41.13.
Paz, total bem-estar - paz com Deus, em
sociedade, e dentro da própria natureza hu-
mana. 4 Necessitados, explorados.
6-10 Expandindo a esfera de influ- LIVRO 3
ência: o rei e os reis. Seu reino bondoso,
em que a justiça e a recompensa se combi- Salmo 73. "No Senhor, o vosso
nam e há abundância de "paz" (6,7), atrai- trabalho não é vão"
rá o mundo (8-10, cf Is 2.2-4).6 Chuva... Nós "cremos em Deus Pai Todo-Poderoso",
campina ceifada, um análogo a fragrância mas a experiência, a nossa e a dos outros,
(2Co 2.14-16). 7 Floresça... o justo. A so- frequentemente põe em xeque seu poder
ciedade será tal que viver segundo a justiça absoluto (pois outras forças parecem estar
será fácil (compare Am 5.13); e a relação no controle), sua paternidade (pois a vida
entre justiça e recompensa será evidente neste mundo contraria a ideia de um Deus
(compare com 73.12,13). Os v. 9,10 falam amoroso) e, para muitas pessoas, sua pró-
dos que se opõem ferozmente ao governo pria existência: "Como é que Deus existe,
(deserto), os oponentes (inimigos) e os que se... ?". O livro de Salmos é notável por en-
estão distantes: todos igualmente se sub- frentar a vida, e não se esconder dela. O
meterão. Társis ... ilhas, envolvem longas Livro 1 abriu com uma afirmação da cren-
viagens marítimas; Sabá... Seba, prova- ça na prosperidade do justo (1.3); o Livro
velmente o remoto sul da Arábia, difíceis 2 iniciou dizendo (42.3,5,9,10) que a vida
jornadas por terra. O contraste entre mar e não mostra uma correlação direta entre vir-
terra pretende abarcar o mundo todo. tude e recompensa, e que a existência dos
805 SALMO 73

justos não é sempre confortável; o Livro 3, estar". Ele os viu morrer "sem sofrimento"
com uma pergunta direta: A santidade vale (4, NVI mrg.) ou doença terminal. A vida
a pena, ou é só perda de tempo (13)7 Já que deles é excepcionalmente livre de proble-
os outros têm todas as alegrias (4,5) e nós mas (5). O orgulho marca o seu caráter, e a
ficamos com as chicotadas (14), por que exploração agressiva (violência) de outras
não desistimos e nos juntamos à maioria pessoas é a tônica de sua conduta (6). Eles
feliz (10)7 Asafe nos deu um salmo notá- mostram todos os sinais de não terem limi-
vel pelo realismo com que retrata a vida te na satisfação de suas vontades e de não
e pela praticidade de suas recomendações se privarem de nada do que desejam (7, V.
sobre como enfrentar problemas difíceis, NVI, mrg.). Sua língua (na Bíblia, sempre
além de ser extremamente edificante ao a medida do caráter) revela a extensão de
apresentar uma visão altemativa. De fato, seu amor-próprio - seu direito presumi-
Asafe respondeu à sua própria declaração do de não seguir valores morais (Sa, ma-
desesperada: Com efeito, inutilmente ... liciosamente), de ser os "chefões" (Sb), de
(13), com a grande afirmação de Paulo: comandar tudo, no céu e na terra (9). Eles
"no Senhor, o vosso trabalho não é vão" atraem seguidores que voluntariamente pe-
(lCo 15.58). O salmo aborda este tema gam carona na sua abundância (10), mes-
com perfeição. mo que para isso tenham de concordar com
sua teologia de um Deus irrelevante (11).
N (v. 1) A verdade enunciada: Deus é Contudo, por arrasadora que seja essa crí-
bom tica dos ímpios, a observação mostra que
B' (v. 2-14) Coitado de mim! eles levam uma vida tranquila e aumentam
C (15-20) Novas perspectivas suas riquezas (12).
Bl (v. 21-26) Feliz de mim! 15-20 Novas perspectivas. Nessa per-
N (v. 27,28) A verdade confirmada: sim, plexidade com a iniquidade moral da vida,
é bom! surgem três princípios importantíssimos.
(i) Em qualquer situação, seja leal e proteja
1-14 Verdade em conflito. Versículos o bem-estar dos que amam a Deus (15). (ii)
começando com com efeito (1,13) envol- Adore. Como Asafe não podia desabafar
vem a primeira seção do salmo e resumem sobre esse problema sem entristecer des-
suas duas partes. A verdade (I) entra em necessariamente osfilhos (15) de Deus, ele
conflito com a experiência (2-14). A ver- teve de lutar sozinho, mas achou a tarefa
dade é a bondade de Deus para com seu muito pesada (16). Então, ao que parece,
povo; o conflito surge do evidente sofri- ele percebeu que não havia necessidade de
mento deste (14) e da prosperidade dos ím- ficar sozinho, e foi adorar (17a) - o san-
pios (3-5). A bondade de Deus em questão tuário, o lugar onde o Senhor prometeu ha-
não é sua benevolência geral (145.9), mas bitar e onde ele sempre é encontrado. (iii)
as bênçãos divinas prometidas aos que o Pense na eternidade. O fim deles é inseguro
temem, condicionadas a confiança e reve- (17,18); eles descobrirão que foram víti-
rência (34.8,9), oração (86.5,6; 107.6-9) e, mas de um "engano total" (destruição, 18),
aqui, pureza de coração (I). Porém, todo não só assolados como aterrorizados (19);
o esforço moral despendido para manter a e, desastre dos desastres, sem nenhum va-
pureza interior (13a) e exterior (l3b) só re- lor diante de Deus (20).
cebeu em troca aflição e castigo (14). Não 21-28 A verdade triunfante. As duas
sem razão, isso provocou inveja quando seções que concluem o salmo têm tama-
os arrogantes (3, pessoas que vivem sem nhos diferentes e estão delimitadas clara-
consideração ou preocupação) e os perver- mente por parênteses: um indivíduo que
sos desfrutaram de prosperidade, "bem- se reconhecia embrutecido, ignorante e
SALMO 74 806

um irracional à tua presença (21,22), des- tivesse seguido os destruidores, com o co-
cobre que bom é estar junto a Deus, com ração implorando silenciosamente "os pai-
o SENHOR Deus como seu refúgio (27,28). néis entalhados não, por favor, os painéis
Apesar de toda a sua tristeza, ele era um não!". A destruição parece ser para sempre
homem rico - ele tinha Deus: segurança (1, cf 10), j á que tudo isso aconteceu e não
no presente (23), futuro (24a) e eternidade houve nem sinal de que a ira divina tivesse
(24b); riqueza no céu e na terra (25); uma cessado (1), nenhuma palavra de Deus (9),
força e uma herança que ultrapassam a du- nenhuma indicação de que Deus fosse agir
ração da existência terrena (26); uma bon- a favor de seu povo, recordar as promessas
dade e um refúgio inalcançáveis aos que feitas ou defender o seu nome (19-21).
perecem sob a ira divina (27,28); ao con- O salmista captura muito bem "o mi-
trário do silêncio do v. 15, algo para contar nuto interminável em que tu estás mudo e
aos outros (28). 21,22 Paráfrase: "Quando o vento uiva'tl- Pois, de fato, "dias de tre-
meus pensamentos ficaram amargos e eu vas ainda vêm sobre nós", e o salmo nos
fiquei emocionalmente deprimido, bem, eu transmite a certeza de que isso não é nada
estava reagindo como se fosse espiritual- estranho, mas faz parte da experiência
mente ignorante e como se estivesse em do povo de Deus - e do próprio Senhor
trevas - como um simples animal irra- (Me 15.33,34); ele também nos oferece um
cional diante de ti!" (cf 49.12,20). 23,24 mourão onde amarrar nosso barco quando
Uma riqueza quádrupla: paz com Deus essa maré singular estiver ameaçando nos
(estou... contigo); o apoio de Deus (tu me engolir. (i) Toda a experiência das trevas
seguras pela minha mão direita); o plano é abarcada pela oração, para que Deus
de Deus para o futuro (Tu me guias); e de- se lembre de nós em nossa necessida-
pois ... glória. A linha de pensamento nos v. de prolongada (1,2) e também se lembre
23,24a requer que 24b chegue até o depois (Lembra-te ... Não te esqueças, 22,23) de
desta vida. Mas este depois também faz que sua própria reputação está ameaçada.
um contraste deliberado com o fim deles, (ii) O terrível motivo das trevas é recorda-
lit., "o seu depois" (17). Ele conduz aos do em detalhe (3-11): o conselho do salmo
v. 25,26, que ressaltam o céu e a herança não é: "Tente não pensar nisso", mas sim:
que ainda lhe pertencem, mesmo que exte- "Peça a Deus para acompanhar você" (3),
rior (carne) e interiormente (coração) esta enfrente as trevas com ele. (iii) Rogue pelo
vida, lit., "chegue ao fim". 26 Herança. O nome de Deus (18-21): para começo de
cumprimento de Josué 13.14,33; 18.7 para conversa, foi por amor ao seu nome que
Asafe, o levita (lCr 24.30-25.1). ele nos escolheu, e, embora possamos,
com certeza, pleitear a nossa própria ne-
Salmo 74. Uma voz nas trevas cessidade (Lembra-te da tua congregação,
Como num pesadelo, este salmo revive o 2), podemos ir ao cerne da questão com o
ano de 587 a.C. e os acontecimentos de apelo: Lembra-te disto... o teu nome (18).
2Reis 24--25. O salmista vê novamente o (iv) Ponha o foco na realidade central de
templo de Jerusalém em ruínas (3), ouve quem e o que Deus é (12-17). Este é o foco
novamente o rugido do inimigo a plenos do salmo.
pulmões no lugar onde antes ele ouvia a
palavra de Deus (4), e vê o movimento AI (v. 1,2) Oração: teu povo abandonado
oscilante das máquinas de destruição (5). B 1 (v. 3-11) Oração: o inimigo des-
Existe algo particularmente comovente no truindo
trecho (lit.) "e agora a todos esses lavores
de entalhe quebram também, com macha- 2N. da T.: Citação do poema The Age-Iong Minute, de Amy
dos e martelos" (6), como se o observador Carmichael.
807 SALMO 75

c (v. 12-17) Rei, Salvador, expenencia do salmista, pois o mmugo


Conquistador, Criador tenta vencer e o poder deste mundo é que
B2 (v. 18-21) Oração: o inimigo insul- impôs sua desordem sobre a terra! Apesar
tando disso, o que se deve fazer é combater a ex-
N (v. 22,23) Oração: tua causa abando- periência com a verdade, ficar firme nas
nada trevas e repetir o credo.
A mitologia pagã via o mar como o
As trevas são cercadas e preenchidas oponente do deus criador, e fez dele a ha-
com oração, e no coração das trevas é lan- bitação das potestades contrárias a deus, os
çada a luz da verdade de Deus. monstros e o crocodilo ("Ieviatã", ARe, TB).
1,2 Oração: teu povo abandonado. Marduque, o deus criador dos babilônios,
Esses versículos fazem um retrospecto de supostamente derrotara essas potestades
toda a história do povo de Deus e põem um das trevas para poder ter liberdade para
ponto de interrogação ao lado de cada acon- criar o mundo. Mas o que Marduque fez
tecimento importante: Rejeitas questiona a apenas na ficção o Senhor fez historica-
posição deles como os "eleitos" em Abraão mente, quando dividiu o mar Vermelho e
(Gn 18.19); adquiriste... remiste recorda a abriu fontes e ribeiros para fazer um cami-
redenção no êxodo (2Sm 7.23); ovelhas nho seco para seu povo, deixando os egíp-
aponta para sua experiência no deserto, cios mortos para os animais carniceiros
sob o cuidado de Deus (77 .20; cf Is 63.11); (14; Êx 14~15).
tribo... Sião assinala que eles são o povo da 18-23 Oração: não te esqueças. 20
terra prometida, no meio do qual o Senhor Cheios de moradas da violência etc. Os
Deus fez sua morada. Mas, nas trevas, tudo lugares tenebrosos podem ter sido os es-
isso parece não servir de nada! conderijos onde o povo se refugiava para
3-11 O inimigo destruindo a casa. escapar dos babilônios e onde eram mas-
8 Com a queda de Jerusalém, não havia ne- sacrados pelos inimigos quando encontra-
nhum outro lugar para se adorar a Deus no dos. Ou então podem ter sido as regiões
país. A referência aqui pode ser ao próprio para onde foram mandados os exilados de
templo, com um plural usado para expres- Jerusalém. 22,23 O salmista lembra a Deus
sar sua magnificência: cc••• todo o grande que o seu nome tem sido insultado e sua
lugar...". Mas a palavra traduzida por lu- pessoa escarnecida (18), e o exorta a de-
gar aponta mais para o fato da reunião com fender sua causa, que está esquecida.
Deus do que para o local onde isso aconte-
cia, i.e., ao incendiar o templo, "eles des- Salmo 75. Árbitro supremo
truíram pelo fogo toda reunião com Deus e juiz de toda a terra
[qualquer possibilidade de reunião festi- No v. 1, encontramos a comunidade cheia
va). ..". 9 (lit.) "Não vemos nossos sinais" de gratidão. Por meio de maravilhas,
~ coisas como a rotina dos cultos no tem- Deus mostrou ser o que seu nome decla-
plo, as festas do calendário, pessoas impor- ra e provou que está "perto" (34.18), que
tantes etc., que lhes falavam de Deus. é o "resgatador" que assume a responsa-
12-17 Rei, Salvador, Conquistador, bilidade pelas necessidades de seu povo.
Criador. O enfático pronome "tu" ocor- Depois, talvez por meio de um profeta (cf
re (cf TB) sete vezes (13,14,15,16,17). As 2Cr 20.13-17), a palavra do Senhor veio
quatro primeiras afirmam a superioridade até eles, explicando o significado da expe-
do poder do Senhor contra qualquer força riência que tiveram.
contrária; as três últimas afirmam que é ele Nos v. 2-5, a voz fala por Deus: quando
que impõe sua ordem ao mundo. Essas são tudo parece instável, ele continua sendo a
exatamente as verdades contestadas pela base que dá estabilidade (3), em particular,
SALMO 76 808

dirigindo sua repreensão aos ímpios, sua inspiração deve ter sido alguma vitória
quando eles fazem demonstrações de for- desse tipo. O tema do "Leão" é ocultado
ça (4,5). Nos v. 6-8, a voz fala de Deus: por "tenda" na NVI (2), quando a palavra,
a decisão que prevalece não é tomada na em todos os empregos específicos, se re-
terra, mas no céu, pelo Deus que determina fere ao covil de um leão (10.9; Jr 25.38).
o destino de cada um e faz os ímpios bebe- Esse tema é bem adequado ao drama do
rem sua porção designada. salmo e reflete seu cumprimento final no
9,10 Finalmente, outra voz fala. A se- Leão-Cordeiro de Apocalipse 5.
melhança com o voto real do salmo 101 1-3 A cova do Leão. Com uma ênfa-
sugere que é o rei, assumindo o compro- se repetida na localização (em Judá ... em
misso pessoal de louvar (9) e de criar uma Israel... em Salém... em Sião), o texto diz
sociedade moralmente sadia (10). que o Senhor é conhecido (1, lit. "autorre-
Qual era a situação? Seria a restaura- velado") na vitória, apesar das proezas mi-
ção de Davi após a rebelião de Absalão litares (3, relâmpagos do arco, o escudo,
(2Sm 15-19)? Seria Ezequias e seu a espada) do inimigo. O Senhor, que con-
povo maravilhado com a debandada de descende maravilhosamente em habitar no
Senaqueribe por obra divina (2Rs 18- meio do seu povo, tem um poder espantoso
19)? Não se sabe, mas nossa compreen- que supera toda a força do inimigo.
são de uma grande verdade não depende 4-10 A vitória do Leão. A referência
do incidente que a ilustra: acontecimentos a montes eternos (lit. "montes de presa")
que abalam a terra não abalam a mão todo- dá continuidade ao tema do leão. A tra-
poderosa que mantém a terra em seu lugar dução mais glorioso do que os montes
(3). "Deus continua no trono". Não impor- (ARA) é possível, mas a melhor tradução é:
ta quão dominantes os ímpios possam pa- "Ilustre és tu, majestoso, vindo do monte
recer, basta a voz de Deus falar contra eles de presa" (ARC). O leão saiu para caçar e
(4,5) e sua ruína é certa (8). Eles não são voltou com passo majestoso, coberto de
de Deus e serão aniquilados (At 5.38). As glória, totalmente dominante. Essa vitória
maravilhas de Deus devem ser recebidas tem dois lados: (i) "Vitória sobre" (5-7),
com gratidão (1) e com o compromisso de (cf 2Rs 19.35; Is 30.31; 31.4). A bravura
reproduzir na terra (10) os valores que ele humana, o treinamento e os recursos mi-
proclama (4,5). litares se rendem à simples voz de Deus
Notas. 2 Pois disseste, um acréscimo (5,6). Ele não precisa de nenhum poder
interpretativo. Julgar, no sentido funda- exterior a ele mesmo, pois ninguém supor-
mental de "corrigir as coisas" (também ta enfrentá-lo (7). (ii) "Vitória para" (8-
7). 4 Força, (heb.) "chifres", símbolo de 10). A terra estivera em alvoroço, ocupada
poder dominante. 5 Contra a Rocha, "no por forças inimigas, sacudida pelo som da
alto". "Cerviz dura" (ARC), com a face arro- guerra, mas, quando Deus falou, fez-se o
gantemente voltada para a frente. 6 (Lit.) silêncio (8). Essa intervenção irresistível
"Não do leste ... oeste ... deserto (i.e., sul) foi feita para salvar todos os humildes (os
vem o suporte" (Rm 13.1). 8 Cálice (cf oprimidos; (9). Desta forma (por sua sim-
60.3; cf Is 51.17; Jo 18.11). ples palavra), a ira humana se transforma
em louvor, e tudo o que resta fica sob seu
Salmo 76. O Leão venceu soberano domínio (10).
(Ap 5.5) 11,12 O justo tributo devido ao Leão.
O salmo 76 explora as maravilhas de 75.1. Então, o que daremos ao Senhor que reduz
Ambos têm grande afinidade com 2Reis a nada (3,5,6) todo o poder reunido con-
18 e 19. Embora não seja possível provar tra nós? Pois o salmo termina dirigindo-se
que eles surgiram do fiasco dos assírios, a todos os que o rodeiam - seu povo, os
809 SALMO 77

que desfrutam de sua presença, os bene- resumo do salmo apresentado acima, a


ficiários de seu triunfo. Nossa retribuição lição é clara: a primeira reação do crente
é fazer-lhe voto de lealdade e cumpri-lo, diante da situação adversa não é pedir a
levando-lhe presentes como tributo e pro- Deus que a mude, mas fazer uso da reve-
va da sinceridade de nosso voto, pois ele lação de Deus (10-20) para poder enfren-
é aquele que deve ser temido (11, lit. "O tá-la. A oração, embora verbalizada de
[verdadeiro] Temor") e (12) "o coração forma veemente (1, lit. "Com minha voz
dos reis está debaixo de seu domínio e go- bradei a Deus, com minha voz a Deus ...")
verno". Ele é a nossa única proteção num e incansável (2), não resolveu nada, por-
mundo ameaçador. que expressava, na verdade, uma recusa
mal-humorada em aceitar as circunstân-
Salmo 77. O tônico da memória cias determinadas por Deus. Na verdade,
Este salmo registra uma época de sofrimen- o próprio Deus retirou o bálsamo do sono,
to intenso, mas não especificado. A oração fazendo seu filho mergulhar ainda mais na
foi mantida até o ponto de exaustão, mas exaustão, até aprender a preciosa lição de
não trouxe consolo (1-3), até que, final- descansar na verdade revelada (4).
mente, a angústia suplantou a capacidade 5-9 A segunda falha de memória.
de orar (4). Noites insones (4a) trouxeram Nas horas insones, o pensamento se vol-
lembranças de tempos melhores (5,6), mas tou para o passado, e a memória recordou
só provocaram um incômodo questiona- dias em que havia uma canção alegre no
mento de Deus (7-9). Mas, então, uma coração (5,6, "chamei à lembrança o meu
nova proposta se insinuou (10): lembrar as cântico", ARe). Mas isso não trouxe conso-
obras que Deus realizou no passado, espe- lo, apenas um questionamento de Deus e
cialmente sua autorrevelação em santidade seus caminhos (7-9). É interessante que as
e grandeza (11-13), quando exerceu o seu perguntas parecem ser construídas instinti-
poder sobre os povos (14), identificou-se vamente de modo a recuperar a confiança,
com seu povo (15), dominou e usou as principalmente pela introdução das cinco
"forças" da natureza (16-18), e conduziu realidades imutáveis da aliança: propício .
seu povo adiante com sua presença invisí- graça ... promessa... benigno (graça) .
vel e por meio de agentes levantados por misericórdias (amor apaixonado). Mas o
ele (19,20). Com isso, o salmo termina ponto principal é que perguntas são coisas
abruptamente - de propósito. É como se que não confortam; elas nascem de uma
o salmista dissesse a si mesmo: "É isso! mente inquieta, e não aquietam coisa algu-
Esta é a chave para seguir em frente - não ma. Ansiar pelo passado (6) não é remédio
orando para que situações sejam mudadas para o presente nem receita para o futuro.
(1-4), não lembrando com tristeza de coi- 10-20 O tônico para uma memória
sas que já não são mais como eram (5-9), sadia. De repente, o pensamento muda
mas lembrando das obras de Deus e do novamente de direção: não se lembrando
Deus que as realizou". de Deus como uma solução para os pro-
1-4 A primeira falha de memória. blemas (3), nem recordando antigas expe-
O salmista não diz exatamente qual era o riências espirituais (6), mas se lembrando
motivo de sua oração, mas subentende-se dos maravilhosos atos de Deus no passa-
que é uma oração para que cesse a adver- do (11,12), a insuperável grandeza de seu
sidade, para que a situação mude para me- caráter santo (13) e o que ele realizou por
lhor. Nesse sentido, ele (3, lit.) "lembra-se seu povo em termos de redenção (14,15),
de Deus": pensando em Deus, por meio da poder (16-18) e cuidado providencial
oração, como aquele que podia intervir e (19,20). O v. 10 contém problemas de tra-
realizar a grande transformação. À luz do dução possivelmente insolúveis. É possível
SALMO 78 810

que exista aqui um contraste entre os dias conforme a vontade de Deus (5,6); (ii) o
de outrora (5) - as lembranças que in- conteúdo da tradição é duplo: os feitos (4)
comodavam - e os tempos da destra do e as palavras (5) do Senhor; (iii) o objetivo
Altíssimo (10) - lembranças do poder de é que as gerações vindouras ponham em
um Deus propício. 13-20 Santidade (13). Deus a sua confiança (7, a palavra sugere
Fundamentalmente, a palavra aponta para simplicidade de fé), guardem na memória
tudo o que toma Deus diferente, separado, seus feitos e mandamentos (7) e evitem os
único, e é esse o sentido proeminente aqui erros do passado - rebelião decorrente de
(e não a qualidade moral de sua santida- compromisso rompido e inconstância (S).
de). Ele age com independência poderosa, Mas (iv), para que tudo isso aconteça, tem
sem nenhuma restrição externa, fazendo o de haver entendimento do passado, um
que quer no céu e na terra. A comparação "ensino" (lei), expresso em discurso nor-
do v. 13 com ÊxodoI5.S-11 mostra que a mal (palavras, 1), que explique (2) o que
lembrança se concentra nas grandes obras aconteceu antes: parábolas são histórias
de Deus do período do êxodo em dian- ou ditados instrutivos - neste caso, o uso
te. O avanço do povo de Deus é traçado de incidentes do passado (9-72) para ilus-
desde sua redenção do cativeiro no Egito trar um princípio; enigmas: por si mesmo,
(14,15), passando pelo mar Vermelho (16) o registro do passado é um emaranhado de
e pelas impressionantes tempestades do eventos, um enigma ou charada que preci-
Sinai (17,IS; Êx 19) e seguindo em fren- sa de interpretação.
te sob a liderança invisível do Senhor e as Este é, portanto, o propósito do salmo:
mãos de seus pastores (20). Ele é podero- esclarecer o enigma do passado para que
so contra os povos (14), poderoso por seu ele se tome uma lição para o presente e o
povo (15), poderoso para lidar com qual- futuro. O salmista vê um único princípio
quer circunstância adversa (16), poderoso em toda a complexidade da história de
no uso de forças tremendas para atingir Israel, e o apresenta como uma poderosa
seus propósitos (17, IS), poderoso para orientação para a nossa vida. Ele faz duas
proteger e prover o necessário no deserto recapitulações da história (12-39; 43-72),
inóspito (19,20). cada uma delas introduzida por um prefá-
É com esse pensamento que o salmo cio (9-11; 40-42). Os prefácios são a essên-
termina abruptamente. Circunstância que cia do salmo. O primeiro afirma que o povo
eles jamais teriam escolhido - as águas do do Senhor (Efraim) foi derrotado porque
mar Vermelho, o "grande e terrível deserto" esqueceram-se (11); o segundo associa sua
(Dt S.15) - foram as que ele designou. De frequente rebelião ao fato de que eles não
fato, foi ele que, sem ser visto, os guiou até se lembraram (42). Se eles não tivessem
cada uma dessas experiências (19) e supriu esquecido, o inimigo não teria triunfado;
suas necessidades enquanto eles passavam se eles tivessem se lembrado, teriam sido
por elas (20). Aqui, de fato, está o consolo. obedientes. Esse é o poder da memória
O Deus santo é totalmente livre para fazer - e foi por isso que, quando nos deixou,
o que deseja, e em sua vontade está a nossa o Senhor Jesus instituiu um banquete me-
paz. Não importa para onde Deus nos leve, morial (1Co 11.23-25). As recapitulações
ele sempre nos proverá. históricas especificam as verdades de que
a memória deve se alimentar e, assim, aju-
Salmo 78. O poder da memória dar-nos a ter poder para uma vida vitoriosa
A introdução (1-S) monta o cenário deste e obediente.
longo e maravilhoso salmo. Ele fala de (i) Em qualquer situação, fosse a ameaça
um dever: cada geração deve transmitir sua externa de inimigos (9-11) ou a pressão
tradição sagrada à geração seguinte (3,4), interna de uma natureza volúvel (40-42),
811 SALMO 78

suponhamos que eles dissessem: "Deus tância contrária; os v. 43-53 se concentram


remiu e ele proverá"; suponhamos que nas pragas lançadas contra o Egito: o poder
eles tivessem vivido com um correto te- que o Senhor tem de destruir o poder do
mor da ira de Deus e a devida noção da inimigo. Zoã (12,43), uma antiga capital
extensão de seu amor! E o mesmo vale do Egito. Cada seção termina com a ideia
para nós. Este é o poder de uma memória de orientação e segurança (14,52-53). O
ativa e constantemente refrescada - vi- poder do Senhor é contra circunstâncias e
ver com a sensação sempre presente da forças contrárias, mas sempre em benefí-
redenção (12-14; 43-53. Ele nos tirou da cio de seu povo.
servidão para a liberdade), da provisão 15,16; 54,55 A provisão de Deus. Na
(15,16; 54,55. Em qualquer situação, ele primeira recapitulação da história, o cená-
pode nos prover, e proverá), juízo (17-33; rio da providência divina (provisão para a
56-64. Os que o conhecem como Pai de- peregrinação) passa do Egito para o deser-
vem viver em temor piedoso, IPe 1.17), to (15,16). A segunda deixa de lado o de-
e amor (34-39; 65-72. Ele nunca nos re- serto para recordar a providência da terra
jeitará se voltarmos para ele, pois conhe- prometida (provisão para a volta ao lar).
ce nossa fraqueza, 32-39, e está sempre Observe que os v. 54,55 começam com
agindo em nosso benefício, 65-72). sua terra santa e terminam com nas suas
9-11 Derrota porque se esqueceram. tendas. Esse é o modo de agir do Senhor,
40-42 Rebelião porque não se lembra- pegar do que é seu e dar para nós.
ram. Ver ISamuel 31. Saul, o benjamita 17-33; 56-64 O juízo de Deus. A
(1Sm 9.1,2), esteve particularmente asso- história do povo foi maculada por seu
ciado às "tribos do norte", denominadas pecado, sua rebelião e por eles terem
alternadamente como Efraim e Israel. Sua "tentado" a Deus (17,18; 56-58). A ênfase
casa ficava em Gibeá (1Sm 10.26), cuja nos v. 17,18 está no fato de terem testado
localização, segundo indica ISamuel 9.4, a fidelidade de Deus - em Êxodo 16,17
era nas colinas de Efraim. Após a mor- eles duvidaram da capacidade de Deus
te de Saul, foi em Efraim que a monar- para prover comida e água, suspendendo
quia restrita de Isbosete se estabeleceu a fé até que ele provasse a si mesmo; nos
(2Sm 2.8), e foi lá que o rebelde Absalão v. 56-58 eles testaram sua paciência, du-
encontrou facilidade para incitar as tri- vidando de sua santidade e julgamento.
bos de Israel a passar para o seu lado Nas duas ocasiões, a ira divina se acen-
(2Sm 15.2,6,10,13). Portanto, a recapi- deu (21,31; 59,62). As tragédias da vida
tulação da história começa com a queda (31,33; 61-64), tanto quanto suas agra-
da casa de Saul, e pergunta por que isso dáveis providências (15,16; 54,55), são
teria acontecido - pois (9) os filhos de atos de Deus. 29-31 (cf Êx 16; Nm 11;
Efraim eram (lit.) "os arqueiros mais bem Si 106.15). O que eles pediram não foi
preparados". Pois a vitória dos que ser- alimento para suprir suas necessidades,
vem a Deus não procede de seus recursos, buscando a Deus com espírito de fé, mas a
mas de lealdade e obediência (10) inspi- satisfação de sua gula, exigida num espíri-
rada pela memória (11). 41 Sobre tentar a to de incredulidade. Eles receberam o que
Deus, cf v. 56 adiante. queriam, mas para sua própria destruição,
12-14; 43-53 A redenção de Deus. pois Deus os atendeu com ira. Muitas ve-
Esses versículos tratam do mesmo tema zes, reclamamos quando nossos desejos
da saída do Egito (12,43,51), i.e., a grande não se realizam, não parando para pensar
obra divina da redenção (42). Os v. 12-14 que o Senhor está impedindo algo que vai
destacam a travessia do mar Vermelho: o nos fazer mal. O v. 32 refere-se à geração
poder do Senhor sobre qualquer circuns- do deserto (Nm 14.28-33). Sem dúvida,
SALMü79 812

cientes de que estavam desagradando a o segredo da vida está na confiança e obe-


Deus, eles percebiam aterrorizados que a diência estimuladas pela memória.
morte se aproximava. 60-64 (1Sm 4).
34-39; 65-72 O amor de Deus. O Salmo 79. Orando e mantendo a
Senhor conhece o coração do seu povo esperança num dia de ira
(34-39), enganoso, inconstante; mas seu Nem todas as adversidades da vida são si-
amor apaixonado (38, misericordioso) nais de ira divina, como Jó descobriu. Mas
redime, refreia a ira e lembra que somos as advertências feitas pelos profetas não
fracos (39); o Senhor conhece as neces- deixaram nenhuma dúvida de que, quando
sidades de seu povo (65-72) e investe Jerusalém caiu, os babilônios (2Rs 24-25)
espontaneamente contra seus inimigos eram agentes do castigo divino. Na época
(65,66), habita entre eles (68,69) e es- em que este salmo foi escrito, a ruína que
colhe um rei para governá-los (70-72). se seguiu à queda já durava algum tempo
35 Rocha, em si, é uma imagem de es- (5), mas a sensação de testemunho ocu-
tabilidade imutável, mas, à luz de Êxodo lar é forte e sugere que o salmista era um
17.5,6, é também uma imagem de ação judaíta devoto que permaneceu em Judá
salvadora, vivificante (cf 95.1). Redentor, (2Rs 25.12), lamentando a devastação,
o parente-resgatador que assume as ne- ansiando por dias melhores (13). O salmo
cessidades de seu povo como se fossem as alterna seções "eles" (1-3,5-7,10,11) e se-
suas. 38 Perdoa. O verbo tem um signifi- ções "nós" (4,8,9,12,13). O que aconteceu
cado básico de "cobrir", mas, em relação no passado com outros (1-3) teve consequ-
ao pecado, ele nunca significa simples- ências sobre os que ficaram (4); os pecados
mente tirar da vista, mas sempre "cobrir que despertaram a ira (5-7,8) são "nossos
um débito por meio do pagamento do pre- pecados" também (9, ARe). Deus não se es-
ço necessário". 65 "Como um guerreiro quecerá de seus difamadores (10) nem de
gritando animado pelo vinho", uma com- seus sofredores (11), e nós, teu povo dare-
paração singular que ressalta a intensida- mos louvor novamente (13).
de com que o Senhor se dedica a corrigir 1-5 Suportando o castigo. O ponto
as coisas para o bem do seu povo. principal aqui é a dor causada ao próprio
67-72 A recapitulação histórica come- Senhor. O seu santo templo foi profanado
çou (cf v. 9-11) com a queda da monarquia (1). Mas, à medida que a cidade era saquea-
de Saul; termina com a predominância de da, os que se dedicavam a ele (servos, 2),
Judá e a ascensão de Davi, por escolha di- e a quem ele era devotado (santos, "teus
vina (68,70). O fato de que o santuário amados", 2), cairam em tão grande núme-
fora construído (69) sugere que o salmo ro que não restou ninguém para realizar
pertence ao período final do reinado de as últimas tarefas de amor (3). A situação,
Salomão, quando a apostasia do rei em não tendo sido resolvida, faz com que o
relação ao Senhor (1Rs 11.1-13) tornou- povo seja continuamente desprezado (4).
se evidente. Isso talvez explique o fim De fato, horrível coisa é cair nas mãos do
abrupto. A monarquia de Saul não con- Deus vivo (Hb 10.31).
seguiu sobreviver, apesar de suas proezas 5-9 Sob condenação. Certamente, al-
militares (9); será que a de Davi conse- gum acontecimento notável deve ter provo-
guiria? Com grande talento artístico, o cado esse castigo! Não; apenas o pecado:
poema encerra com a ascensão de Davi, 8 iniquidades, as consequências de uma
deixando que a família real tirasse suas natureza pecaminosa e desobediente; 9
próprias conclusões - e deixando que pecados, "faltas", erros específicos. E não
também tiremos as nossas. Pois hoje em apenas "os pecados deles", como se a gera-
dia, da mesma forma que naquele tempo, ção que morreu no saque ou foi deportada
813 SALMO 80

para Babilônia fosse a única culpada: per- Salmo SO. O sorriso


doa-nos os pecados, também são "nossos e o olhar de censura
pecados" (9, ARe) - e se nós não perece- O apelo pela luz do favor divino se estende
mos também foi por causa da extraordiná- por todo este salmo (1,3,7,19). O contraste
ria misericórdia de um Deus que odeia o entre o sorriso de Deus (3,faze resplande-
pecado. Os v. 5-7 não devem ser interpre- cer o teu rosto) e seu olhar reprovador (16,
tados como um texto que reflete um espíri- repreensão do teu rosto) diz tudo. Embora
to perplexo ou ressentido, queixando-se de a situação seja desesperadora - o inimigo
uma injustiça. Em todas as adversidades da vitorioso (6), a ira de Deus (4) e a evidente
vida, sejam ocasionadas pela ira divina ou anulação da obra da graça (8,12) - o úni-
resultantes do modo inexplicável, mas so- co remédio necessário é o sorriso de Deus,
berano, como sua providência opera, nos- talo poder da sua graça e a calamidade de
sa primeira reação deve ser nos curvar e seu desgosto. A calamidade se abateu so-
aceitar a situação, como indica o v. s. Mas bre as tribos do norte, Efraim, Benjamim
não podemos também orar pela derrota e Manassés, o antigo "arraial de Efraim"
dos que nos usam cruelmente em benefício (Nm 2.18), tribos associadas com José.
próprio e dilapidam nossos bens mais pre- paralelos com o salmo 79 (o tema do "pas-
ciosos (7)? Parte do lado positivo de "dei- tor/rebanho" [I; 79.13], a prolongada ira
xar a vingança com o Senhor" (Pv 20.22; divina [4; 79.S]; a zombaria dos inimigos
Rm 12.19) é a oração que busca a destrui- [6; 79.4]) sugerem que o lamento daquele
ção de toda potestade que maltrata o povo judaíta sobrevivente da conquista babilô-
do Senhor. 8 Não recordes contra nós, nica do salmo 79 encontra aqui o seu par
"não te lembres" (Jr 31.34; Mq 7.18-20). numa peça escrita por um sobrevivente do
Pais. Na Bíblia, a herança pecaminosa antigo reino do norte.
deixada pelas gerações anteriores não é O salmo é marcado por um refrão re-
jamais desculpa, mas antes motivo de cul- corrente (3,7,19), no qual a urgência vai
pa ainda maior (Lc II.SO). Misericórdias, aumentando à medida que o grito inicial ó
"compaixão/amor apaixonado". Apressem- Deus (3) transforma-se, no v. 7 (lit.), em

se ao nosso encontro (Lc IS.20). 9 Perdoa, Deus, ó Onipotente/ó Onipotência", e, no


"acerta e paga o preço que cobre integral- v. 19, em "ó Javé, ó Deus, ó Onipotência".
mente nossa dívida de pecado". Em todo Mas, embora a urgência aumente, a reali-
o trecho dos v. 8,9, o apelo à nossa pró- dade permanece a mesma: uma mudança
pria necessidade é apenas secundário; seu na face de Deus tem poder transformador.
foco principal é um apelo à natureza divina Pois o problema não era o fato de eles te-
- observe a ênfase em teu nome (9), i.e., o rem caído nas mãos do homem - isso era
que ele revelou sobre si mesmo. só o terrível sintoma - mas terem caído
10-13 Alimentando a esperança. A es- da graça de Deus. Assim acontece com to-
perança que transparece no v. 13 se baseia das as nossas derrotas, e o nosso remédio
em dois fundamentos: primeiro, o Senhor é sermos recebidos de volta por um Deus
sempre defenderá sua própria reputação sorridente e reconciliado conosco. Talvez
(10,12) e, em segundo lugar, ele sempre o v. 14 deva ser interpretado como outro
virá em socorro de seu povo quando este refrão, dividindo o salmo em ainda mais
for ameaçado (10, 11), pois mesmo quando estrofes. Ele certamente aparece no lugar
somos afligidos pela manifestação de sua certo, mas, teologicamente, é de suprema
ira, ainda somos teu povo e ovelhas do teu importância. Não podemos ser restaura-
pasto (13). Esses dois alicerces se refletem dos diante de Deus (3,7,19) sem que pri-
no uso contrastante da palavra opróbrio meiro ele se volte (14), reconciliando-se
nos v. 4,12. conosco. A grande restauração tem de ser
SALMO 81 814

da parte dele. Com relação a isso, só po- para Deus, não há poder contra o inimigo.
demos rogar. 15-18 A mão direita. Quando Raquel
1,2 O pastor e rei. Um tema muito estava morrendo de parto (Gn 35.18), deu
antigo, ligado com José (Gn 48.15; 49.22- a seu filho o nome de Benoni, "filho do
24). Entronizado ... querubins. Os queru- meu sofrimento", mas seu pai trocou-lhe
bins que protegiam a Arca constituíam um o nome para Benjamim, "filho da minha
pedestal para o trono do Deus invisível, e mão direita". Deste modo, o salmo volta
bem como um local de encontro entre o ao ponto de partida: Benjamim (2) afundou
Senhor e seu povo (Êx 25.18-22). Mostra em sofrimento e prejuízos, mas a fé afirma
o teu esplendor ou "resplandece" (50.2). que o Senhor tem um povo ("varão", ARe)
Não é solicitada nenhuma grande mani- da tua destra... o filho do homem (17) que
festação de poder, apenas que a escuridão é buscado como solução; aquele, portanto,
da desaprovação de Deus seja dispersa por a quem Deus dará novamente um sorriso
sua luz. 3,7,19. Restaura-nos, "traze-nos de graça. Do modo mais claro possível, o
de volta" (para ti). Faze resplandecer o v. 15 permite que o tema da vinha se de-
teu rosto. O pedido é apenas para que haja senvolva, pois (Gn 49.22, outra referência
uma mudança em Deus; que o olhar de de- a José) sarmento (15) é um ramo de videi-
saprovação se transforme em sorriso. ra. Ultrapassando o que o salmista pode-
4-6 O estranho provedor. 4 (lit.) -ó ria saber, o Senhor de fato cuidou de seu
Javé, ó Deus, ó Onipotência", i.e., ele é o povo-vinha até que, na plenitude do tempo
Redentor (Êx 3.14-17; 6.6), ele é Deus, e (Gl 4.4), nasceu o esperado filho-sarmen-
em si mesmo encerra toda potencialida- to, o homem da tua destra (17), em quem
de e poder. Estarás indignado: "tua ira se recebemos nova vida (18; Jo 10.10) e um
acenderá", a fumaça como expressão da acesso a Deus sem precedentes (Ef 2.18)
santidade divina (Êx 19.18; 74.1), sepa- para invocar o seu nome.
ração dos pecadores (Is 6.4,5). 5 Dá-lhes
(Is 45.7; Am 3.6). O Senhor usa agentes Salmo 81. Intimados a
(6; 79.1-3; Is 10.5-15), mas nunca deixa de comparecer à festa
ser O Agente. 6 Constituis-nos em conten- Afesta do meio do mês (3) a que este sal-
das, possivelmente enquanto disputavam mo se refere pode ser a Páscoa (Êx 12.18)
os despojos da conquista. ou Tabernáculos (Lv 23.39), sendo ambas,
8-13 O vinhateiro. Assim como ocor- essencialmente, memoriais do êxodo (Êx
re com a ovelha entre os animais domés- 12.26,27; Lv 23.42,43). É mais provável
ticos, a vinha é a planta que necessita de que seja a Festa dos Tabernáculos, por cau-
cuidados mais persistentes. Com esse tema sa das referências à Lei e a ouvir o Senhor
da providência paciente, o salmo retra- (8-10,11,13; cf Dt 31.9-13), e à abundân-
ta a obra da redenção, a herança (8,9) e a cia da colheita (10,16; cf Dt 16.13-15). O
prosperidade (10). A extensão da esfera de salmo começa com a ordem expressa de
influência (11) desde o mar Mediterrâneo Deus que o povo deve cumprir (1-5), pas-
até o rio Eufrates foi alcançada durante os sa para os atos de Deus, em ações (6,7) e
reinados de Davi e Salomão. Mas, depois palavras (8-10), e termina com a exigência
disso, a história teve altos e baixos, e a so- feita por Deus de que o povo deve obede-
berania nacional foi sendo restringida, até cer a ele (11-16), estendendo-se nas conse-
que Samaria foi tomada pela Assíria, em quências terríveis da desobediência (11,12)
722 a.c., e Jerusalém pela Babilônia, em e na vitória e grande abundância (14-16)
586 a.C. Isaías 5.1-7 revela a causa des- que vêm como consequências da obediên-
se declínio até transformar-se num encla- cia (13). Assim, o salmo trata das grandes
ve desprotegido: onde não há frutificação questões centrais da Bíblia: a redenção e
815 SALMO 82

o modo como reagimos a ela. As pessoas SI 99.6,7), depois entrando no deserto (7;
que são tiradas do Egito (6; os remidos do Êx 17.1-7) e então para o Sinai (8-10). O
Senhor, Êx 6.6,7; 24.4,5) ficam imediata- Senhor liberta seu povo (6), atende suas
mente debaixo da autoridade da palavra orações e determina as situações pelas
de Deus (8-10; Êx 19.3-6; 20.2-19), que quais eles devem passar (7), e ainda reve-
são convocadas a ouvir e obedecer (8,13; la sua palavra (8-10). 7 Te experimentei.
Êx 24.6,7; Rm 1.5; Hb 3.7-19; IPe 1.1,2). Mas Êxodo 17.2 diz que eles tentaram ao
1-3 Uma onda crescente de aclamação: Senhor! As adversidades da vida (Êx 17.1)
congregação, cantores e instrumentistas, são testes divinos (Dt 8.2), mas, se as en-
trombeteiros (3) - todo um grupo de pes- frentamos duvidando do amor dele, de seu
soas ligadas ao louvor - saúda a Festa. cuidado e poder salvador, nós o "tenta-
4,5a Preceito, um estatuto permanen- mos", insinuando que ele precisa primeiro
te; prescrição, uma decisão impositiva do provar a si mesmo para que depois confie-
Senhor; lei, um testemunho (preferível aqui mos nele. 8-10 O dever fundamental (8):
a ARe, que traz, de fato, "testemunho") do obediência; o princípio fundamental (9):
que ele é (i. e., o poder redentor e a lei santa lealdade exclusiva; e o fundamento em si
do Deus do êxodo). (10): o Senhor, o Redentor.
5b A expressão contra a terra do Egito 11,12 (Is 5.5-7; Rm 1.24,26,28). Por
permite datar a festa desde a época da ação causa da desobediência, eles foram man-
divina contra o Egito para livrar Israel, dados para o deserto quando poderiam es-
mas as mesmas palavras (lit. "sair sobre") tar desfrutando de Canaã (Dt 1.32-2.1).
são usadas em Gênesis 41.45 quando José 13 Cf. 8 (a exigência principal do
assume sua posição como Senhor do Egito. Senhor), 11 (a principal falha do povo) e
O êxodo foi o exemplo supremo do Deus agora (13) o fator-chave que determina
Soberano em ação. perda ou ganho.
Os v. 5,10,16 são três declarações em
primeira pessoa (5c, Iit. "Uma 1inguagem/ Salmo 82. Julgamento
voz que não conhecia comecei a ouvir"), na suprema corte: uma
cada uma concluindo sua própria seção visão e uma oração
do salmo. As duas últimas representam a Os poetas nem sempre explicam o que
voz do Senhor, e a primeira, muitíssimo querem dizer, e nós, seus leitores, vamos a
mais difícil de interpretar, provavelmente reboque, tentando interpretar suas alusões
também é o Senhor falando. Se este for o da melhor maneira possível.
caso, a fala se refere a Êxodo 2.24,25 (em 1 A corte em sessão. Assiste é tradu-
que "atentou" é, lit., "...e Deus conheceu"). zido por "toma o seu lugar" num contexto
Assim, tudo começa para o povo do Senhor idêntico em Isaías 3.13. O próprio Grande
quando este olha para as necessidades de- Juiz entra para dar seu veredicto no meio
les e "conhece", estabelece com eles um dos deuses - mas quem são os deuses?
relacionamento de proteção (5). Os que 2 A acusação. Os "deuses" usaram sua
ele redime, e aos quais revela sua palavra posição para julgar injustamente, "perver-
(6-10), são convidados a desfrutar do total ter a justiça" e favorecer a impiedade.
suprimento de suas necessidades (10); os 3,4 A Lei. A promotoria abre a sessão
que obedecem têm a promessa de sustento lembrando ao Meritíssimo Senhor o que
abundante e milagroso (16) - mel, quando a lei determina: isto é o que os "deuses"
o melhor do passado era água (Êx 17.6). deveriam ter feito: defender os direitos dos
Os v. 6-10 seguem uma sucessão de indefesos, fraco ... órfão, os que não têm
eventos, desde a libertação do êxodo (6) recursos materiais, seja qual for sua ori-
até o mar Vermelho (7; Êx 14.10,19,24; gem ou posição social; aflito, o oprimido,
SALMO 83 816

o que se encontra junto à base do monturo Portanto, a balança pende a favor de


da vida; desamparado, empobrecido; ne- autoridades terrenas consideradas na alta
cessitado, pessoa que pode ser explorada dignidade de suas posições, na responsa-
por quem está investido de poder. Esses bilidade que têm diante de Deus e da qual
indivíduos não devem ser favorecidos pela terão de prestar contas a ele. (iii) Mesmo
lei, mas sim, protegidos pela correta apli- quando as autoridades terrenas falham (5),
cação de seus direitos legais e (4) devem desviando-se do caminho, deixando as
ser protegidos pela lei contra a ação (mãos) pessoas sem consolo, promovendo a desin-
dos malfeitores. tegração social, ainda existe um Deus ver-
5 As testemunhas. Tendo recitado dadeiro a quem elas têm de prestar contas
a lei (3,4), a promotoria agora chama as (1,6,7) e a quem podemos orar (8).
testemunhas. A primeira (5a) acusa os
"deuses" de falta de sabedoria: eles são Salmo 83. Inimigos ao redor,
ignorantes, e não inteligentes; falta-lhes mas Deus acima
entendimento/discernimento em suas de- É útil ler 2Crônicas 20 como uma ilustra-
cisões e ações. A segunda (5b) afirma que, ção deste salmo, mas a situação descrita
com um governo como esse, as pessoas aqui excede qualquer coalizão que Israel já
andam sem rumo, como se vivessem em tenha enfrentado. Em vez de tentar associá-
trevas, sem direção e objetivo. A terceira lo com algum fato histórico, é melhor vê-lo
testemunha (5c) atesta o colapso da estru- como uma ilustração do povo de Deus
tura e da estabilidade social. encontrando socorro na oração (1) diante
6,7 A sentença. "Deuses" ou não "deu- de um mundo hostil (2-8), moldando sua
ses", seja qual for o seu status (6), eles oração à luz do poder revelado de Deus
sofrerão a pena de morte como simples (9-15) e desejando o desfecho abençoado
mortais (7). quando o Altíssimo for universalmente
8 Oração. A visão de Deus julgando reconhecido (16-18). O salmo ensina que
(1) é transformada numa oração para que vivemos num mundo que nos odeia por-
ele faça isso - no mundo inteiro, pois é que não pertencemos a ele (Jo 15.18-25); o
sua prerrogativa (8). que devemos fazer: não há saída, só a ora-
Então, qual é o significado disso tudo? ção; em que devemos descansar: no já de-
(i) Os "deuses" podem ser os "principa- monstrado poder que Deus tem de vencer
dos e potestades", invisíveis mas reais, o mundo (9-12; Jo 16.33; Ap 1.17,18); o
que exercem sua influência maligna so- que devemos desejar: não simplesmente o
bre os acontecimentos terrenos (Is 24.2 I; alívio da oposição, não simplesmente que
Dn 10.12,13,20; Ef 6.12). O AT ocasio- a oposição termine, mas a conversão dos
nalmente usa "deuses" / "filhos de Deus" que se opõem (16,18).
para seres angelicais (8.5; Jó 1.6). (ii) 1-4 Teu povo. O salmo começa com a
Entretanto, os deveres especificados nos v. ameaça ao povo do Senhor expressa na de-
2-4 são os dos juízes de Israel (Êx 22.22- terminação do inimigo de destruí-los para
24; 23.6,7; Dt 1.16,17; 10.17,18; 16.18- que "deixem de ser uma nação" e de apa-
20); sua função é exercer "o juízo de Deus" gar seu nome da memória (4), deixando-os
(Dt 1.17). Levar uma causa "diante de sem lugar na terra ou na história. Essa é
Deus" e levá-la "diante dos sacerdotes/ju- a inimizade mortal do mundo, evidencia-
ízes" são expressões alternativas (Êx 21.6; da no modo como reagiu e tratou o Senhor
22.8,9; Dt 17.8-13; 19.17). Além disso, o Jesus (Jo 1.10; At 3.13-15). Ele não faz
Senhor Jesus entendia "deuses" como se- concessões e nós também não devemos fa-
res humanos "a quem foi dirigida a palavra zer (2Co 6.14-7.1; Tg 4.4).3 Protegidos,
de Deus" (10 10.35). "escondidos", ocultos num lugar secreto e
817 SALMO 84

forte, como esconderíamos coisas de valor. espalhar, destruir, desorientar e desapon-


4 Risquemo-lo, uma palavra forte: signifi- tar (ignomínia, frustração de todas as suas
ca "apagar/eliminar". esperanças) seus inimigos. Mas o modo
5-8 Tu. O alvo da coalizão inimiga não como ele age é sempre cheio de miseri-
é apenas o povo de Deus, mas, mais especi- córdia intencional, e, em nossas orações,
ficamente, o próprio Senhor (5). É verdade devemos ter essa mesma atitude. Às vezes,
que ele jamais nos abandonará (Is 41.10; as pessoas precisam ser reduzidas a nada
Hb 13.5); porém, é ainda mais certo que (13-15) para que busquem a Deus (16).
ele defenderá a glória do seu nome (Js 7.9; 17,18 Teu nome. A nota que ressoa no
ls 42.8; Ez 20.9,14,22,44; 36.22). 6 Uma fim da última seção toma-se um tema do-
coalizão de povos do leste. Hagarenos, minante. A oração que abre o salmo, não
"descendentes de Agar" (1Cr 5.10; 11.38; te cales (1), toma-se uma oração pela voz
27 .31). Supostamente associados com da revelação divina, e reconhecerão (18;
Abraão e Agar. 7 Gebal. Alguns supõem "Para que saibam", ARe), referindo-se aos
que seja um lugar não mencionado na que, deixados à sua própria vontade, tra-
Transjordânia. Gebal (um porto [fenício] maram a eliminação da igreja (4). Cujo
no norte da atual Palestina) é mencionado nome é (18) ou, melhor, "por causa do teu
em Josué 13.5; IReis 5.18; Ezequiel 27.9. nome": i.e., "por" dizer a eles quem e o
Se este é o lugar mencionado aqui, a lista que ele é, o Senhor os ganhará para si; ou
começa no extremo norte, vai para Amom, porque Deus é o que é, precisa revelar-se
no leste, volta para a Filístia, no oeste, e de a eles.
volta para Tiro, no norte: um cerco total do
povo do Senhor. 8 Assíria pode ser o poder Salmo 84. "Ser um peregrino"
oculto por trás das nações da coalizão que Na profundidade de seu desejo e fome do
estão na "linha de frente", assim como "o próprio Deus (2), sua noção da eficácia do
deus deste mundo" (2Co 4.3,4) está por trás sacrifício que Deus providenciou (3), sua
de toda hostilidade evidente contra a igre- firmeza na fé (5-7), seu sereno contenta-
ja. Mas, talvez "Assur" aqui seja uma tribo mento com Deus (10,11), este salmo re-
árabe do norte do Sinai (cf Gn 25.3,18; Nm preende nossa espiritualidade raquítica.
24.22,24). Lá (Gn 19.36-38; Dt 2.9,19). 1-4 Desejo ardente. A alma é o ego
9-12 Tua terra. Canaã é chamada de essencial, coração e carne são os aspectos
habitações de Deus (12) porque lá ele pas- interior e exterior da personalidade: assim,
toreia o seu rebanho. Toda a terra é dele, o ser inteiro está tomado de uma profunda
mas essa terra é o seu tesouro especial (Dt saudade da casa de Deus e de Deus em si. A
11.12), assim como o seu povo (Êx 19.5). ideia da segurança dos pássaros que fazem
9 Uma aliança semelhante (Jz 6.1,2) teria ninho na casa do Senhor e seus arredores
provocado essa lembrança de Midiã e a traz à mente a lembrança do que garante a
mente facilmente faria a associação com segurança de todos os que lá habitam (4),
Sísera (Jz 4-5). Midiã foi derrotada nas o altar onde os pecadores são reconciliados
mãos de uns míseros 300 homens, para com o Deus Santo. 3,4 A sequência é: "Os
que a excelência do poder fosse de Deus pássaros estão seguros em sua casa; essa
(Jz 7.1-7); Sísera caiu pelas mãos de uma casa é o lugar do altar de Deus; nós esta-
única mulher (Jz 4.17-22; 5.24-27,31). mos seguros na casa de Deus". Os altares
11 (Jz 7.25; 8.18-21). são a chave para a nossa segurança.
13-16 Tua tempestade. O Senhor tem 5-8 Peregrinando. A bênção não está
todas as forças da natureza ao seu dispor, restrita à casa. Existe também uma bênção
e muitas vezes, como ocorre aqui, elas se sobre a peregrinação, quando os peregrinos
tomam símbolos de seu próprio poder - (i) vivem pela força de Deus, (ii) mantêm
SALMO 85 818

o coração resoluto (5, Lc 9.51-53), (iii) sempre fazer um autoexame para ver se
enfrentam as adversidades com fé inaba- não existe algum pecado que precisa-
lável (6, v. adiante) e, deste modo, (iv) mos confessar ou um erro que devemos
conseguem uma força cada vez maior até corrigir. Essa era a situação desse salmo.
(v) ser aceitos na presença de Deus (7) e O favor de Deus era só uma lembrança
estabelecer um diálogo com ele (8). 6 Vale (1-3); o presente estava cheio da sua ira
árido ("vale de Baca", ARe), "árvores de (4-7). O autor desconhecido que nos dei-
bálsamo", possivelmente uma localidade xou esta meditação adotou a mesma ati-
(2Sm 5.22-25) que aqui exemplifica cada tude de Habacuque: como o profeta que,
aspecto árido e inóspito da peregrinação. perplexo com o que estava ocorrendo
Para fazer dele um manancial, é neces- (1.1-17), levantou-se e olhou "para ver o
sário receber sua aridez com a certeza de que Deus me dirá" (Hc 2.1), assim o sal-
que, apesar de tudo, haverá água (compare mista, após recapitular a situação (1-7),
Êx 17.1-3) - e, com certeza, de bênçãos o se dispôs a escutar o que Deus ... disser. O
cobre a primeira chuva de Deus. salmo é uma meditação profética sobre o
9-12 Descansando. A continuidade da tema do reavivamento/renovação (6).
casa dependia do rei e da estabilidade de 1-3 Lembrando: o fundamento do
seu reino. Portanto, era ele quem garantia favor de Deus. Quando, no passado, Deus
os prazeres espirituais. Consequentemente, favoreceu e restaurou (1) foi perdoando os
o peregrino ora pelo rei (9). Para nós, pecados deles (2) e desistindo de sua ira
Jesus, com seu reino sacerdotal eterno, é o (3). Aconteceu uma mudança neles - o
eterno fiador da nossa segurança, aceitação arrependimento que traz perdão; e uma
e bem-aventurança (cf Hb 4.14-16; 7.23- mudança em Deus - o abandono da ira
25; 1102.1,2).9 Escudo... ungido. Como que traz paz. Não pode haver renovação/
"ungido", ele é nomeado e capacitado por reavivamento enquanto o pecado não for
Deus; como "escudo", ele nos protege. 10 perdoado e a ira aplacada. 2 Perdoaste,
O versículo começa com Pois, explican- "levaste para longe" (Lv 16.21,22).
do a oração do v. 9. O peregrino ora pelo 4-7 Suplicando: o fim da ira e a dá-
rei "porque" ele quer que os benefícios da diva da salvação. Salvação significa li-
casa sejam assegurados. O v. 11 explica o vramento - neste caso, livramento da ira
v. 10: a vida com Deus é preferível a qual- (4, "indignação"), raiva (como sentimento
quer outra vida porque ele é sol, a fonte de pessoal, 5). Só deste modo pode haver rea-
luz (27.1) e vida (56.13), escudo, protetor vivamento/renovação, que tem como resul-
contra todas as ameaças; por sua graça, ele tado a alegria em Deus (6); e isso só pode
nos atrai e depois compartilha sua glória acontecer por meio do imutável amor de
conosco (2Pe 1.3,4). Mas não incondicio- Deus e de seu dom gratuito (7). Na ques-
nalmente: o bem que ele dá liberalmente tão do reavivamento/renovação, somos
(11) é para os que (tanto no modo como dependentes da vontade soberana de Deus.
vivem quanto em suas motivações) andam 4 Restabelece-nos, "Volta-te para nós" -
retamente (Mt 5.48). Ao mesmo tempo, o cerne da questão (3,5) é que Deus deve
eles não são abençoados em função da- se reconciliar conosco.
quilo que fazem, mas sim por causa de sua 8,9 Ouvindo: a promessa e suas con-
confiança em Deus (12). dições. Escutarei, "decidi ouvir" - uma
atitude firme. Os que desejam reavivamen-
Salmo 85. Desejando to/renovação devem aguardar confiantes
ardentemente o reavivamento na palavra de Deus. Mas isso impõe al-
As dificuldades da vida nem sempre indi- gumas exigências: (i) corresponder ao seu
cam desaprovação de Deus, mas devemos amor: santos (8, "os objetos de seu amor
819 SALMO 86

fiel e que se comprometem a retribuir o Nesse aspecto, o salmo é um espelho do


seu amor"); (ii) abandonar as loucuras do modo como as pessoas oram na Bíblia (Ne
passado (8); (iii) viver no temor de Deus 9.5-31,32-37; At 4.24-28,29,30) e é um
(9; lPe 1.17-19). A consequência é que a modelo para nós.
glória - Deus em toda a sua glória - virá 1-6 "A ti, ó Soberano": ele ouve a
sobre o povo do Senhor. oração. A seção começa e termina com um
10-13 Aguardando com expecta- apelo para ser ouvido (1,6). A palavra pois,
tiva: a harmonia entre céu e terra. Os em 1,2,3,4,5, e o que está subentendido no
atributos de Deus estão em harmonia: ele v. 2, apresentam cinco razões pelas quais
nos ama sem qualquer transigência de oramos: (i) por causa da nossa impotência
sua "verdade" (10); ele estende sua paz a (1): aflito e necessitado, oprimido e inútil
nós sem comprometer sua justiça (10; Is peão dos outros; (ii) por causa do amor re-
45.21-25; Rm 3.23-26). Céu e terra estão cíproco (2): piedoso, ou melhor, "querido e
em harmonia (11): a terra produz o fruto dedicado", amado e retribuindo esse amor;
da "verdade" (11; ls 45.8; Ef 5.8,9) sob (iii) por causa da confiança leal (2), um
o olhar imperturbável da própria justi- relacionamento pessoal (Deus meu) resul-
ça do céu (11). À medida que Deus dá, a tando em obediência (servo), fundamenta-
terra corresponde (12): o resultado final do na confiança; (iv) por causa da interces-
da salvação inclui a restauração do Éden são persistente e cheia de esperança (3,4).
nos Novos Céus e Nova Terra (Is 65.17- "Elevar a alma" (24.4) é apresentar todos
25; 2Pe 3.13). Precedido por seu arauto, a os nossos desejos somente a Deus e bus-
Justiça, o próprio Deus entra nesse quadro car somente nele a satisfação das nossas
(13; Ap 21.3). necessidades; (v) Porque ele é o que é (5),
13 (Lit.) "E, ó, que ele ponha seus bom, "bondoso", para conosco na nossa di-
pés no caminho" - o equivalente de ficuldade, compassivo para com os nossos
Apocalipse 22.20 em Salmos. pecados, abundante em benignidade, no
amor imutável que ele prometeu.
Salmo 86. A soberania 7-13 "Ninguém é como tu, ó Sobe-
como travesseiro rano": ele é o único Deus. Davi agora
Sete vezes (3,4,5,8,9,12,15) Davi fala do chega mais perto da situação: nesta se-
Senhor, usando a palavra que expressa a ção, os "parênteses" são o v. 7, confiança
soberania de Deus. Numa necessidade de que no dia da minha angústia Deus
pessoal (1), no dia da minha angústia (7), responderá, e o v. 13, confiança de que a
quando os soberbos e os violentos (14) es- misericórdia divina "livrará" (o verbo é
tavam investindo furiosamente, ele encon- futuro); ainda que seus inimigos o levem
trou um travesseiro onde reclinar a cabeça: para a sepultura e o sheol, ele contempla a
o Deus Soberano que ouviria suas orações vida após a morte. Sua conscientização da
(3,4), livrá-lo-ia (12,13) e humilharia seus grandeza de Deus começa na escala mais
inimigos (17). Neste salmo de prolongada ampla: (8-10), de que o único Deus é so-
intercessão, a necessidade (14) não é es- berano sobre qualquer potestade que possa
pecificada sem que primeiro Davi discorra haver no céu (8), e aguarda a submissão
sobre seu relacionamento com Deus (1-6) e de toda a terra (9); depois, move-se para o
renove seu compromisso (11,12). Num ní- plano pessoal: (11,12), de que o único Deus
vel mais profundo, podemos dizer que sua é digno de seu compromisso total, tanto
oração está mais ocupada em "falar com exteriormente, no modo de viver, quanto
Deus a respeito de Deus", meditando de- interiormente, no coração (11), e também
moradamente sobre a natureza divina, do verticalmente, no louvor (12). O v. 11 não
que em "falar com Deus a meu respeito". significa "ensina-me a sair dessa situação
SALMO 87 820

difícil", mas "ensina-me a viver como tu Ap 3.5). Isaías 4.3 é importante na ligação
queres, em meio a essa situação difícil". do tema do "livro" a Sião. Esses três te-
Dispõe-me o coração, "une/unifica o meu mas formam a essência do salmo 87. Ele
coração", livra-me de ser inconstante, de é um salmo de Sião (1-3), um salmo de
ter duas caras para com Deus; "dá-me âni- "nascimento" (4,5) e um salmo de "livro"
mo firme para manter o alvo fixo em ti e (6). Em essência, ele proclama a futura
no teu grande nome, sem me desviar por cidade-mundo de Deus, na qual o direito
causa de ameaças ou recompensas". hereditário será estendido para incluir na-
14-17 "Mas tu, Ó Soberano": ele é ções anteriormente hostis e pagãs (4), com
suficiente. Agora descobrimos qual foi base na sua inclusão no livro de registro do
a situação real que causou fraqueza (1) e Senhor, feita por ele mesmo (6).
aflição (7) a Davi. A referência recorren-
te ao amor, perdão e misericórdia de Deus AI (v. 1) Fundação dele (pelo Senhor)
(3,5,6,15,16) sugere que ele estava fugindo B 1 (v. 2) O amor do Senhor
de Absalão, uma situação na qual ele não C 1 (v. 3) A cidade de Deus
era, de modo algum, inocente. O texto de D (v. 4) A cidade mundial
2Samuel 16.5-7 revela o que algumas pes- C2 (v. 5) A cidade do Altíssimo
soas do país sentiam a respeito de Davi, e B 2 (v. 6) O registro do Senhor
2Samuel17.1-4 mostra que soberbos e vio- AI (v. 7) Minhas fontes
lentos (14) não é licença poética. Porém,
o Deus compassivo e cheio de graça (15; O contraste entre o v. 1 e o v. 7 revela
Êx 34.5,6) era suficiente, tanto para suprir a transição do salmo, passando do que o
a fraqueza de Davi (16) quanto para com- Senhor pensa a respeito de Sião (1-3) para
bater seus inimigos (17). 17 Sinal, como as pessoas que lá vivem e desfrutam de
em Juízes 6.36-40. Quando as pessoas es- seus benefícios (5-7) (cf Ne 7.4ss.). O v. 4
tão esgotadas ao ponto de precisar de um é, portanto, o pivô de todo o salmo: como
sinal, Deus é compassivo o bastante para a cidade acolhe pessoas do mundo inteiro
condescender com essa fraqueza. como se fossem seus filhos. A fundação
e o amor do Senhor pela cidade (1,2) se
Salmo 87. Os filhos de Sião expressam nas gloriosas coisas ditas sobre
Três temas do AT convergem neste salmo ela (3). Que coisas são essas? A resposta
e explicam seus versículos muitas ve- está no v. 4: seus cidadãos vêm do mundo
zes enigmáticos: (i) O tema da "cidade" todo, eles conhecem o Senhor e têm direi-
(ls 2.2-24; 26.1-4; 54-55; 60; Hb 12.22- to hereditário à cidade. Sião é, portanto, a
24). A primeira tentativa do homem de or- consumação dos propósitos de Deus. Mas
ganizar o mundo sem referência a Deus re- essa entrada de cidadãos do mundo inteiro,
sultou numa cidade (Gn 11.1-9), e a Bíblia longe de diminuir a excelência da cidade,
retrata a futura cidade-mundo como a é, na verdade (5), o modo como o próprio
consumação da obra de recriação de Deus Altíssimo a estabelecerá. Entretanto, como
(Ap 21.1,2,15-27). (ii) O tema do "nasci- uma população vinda de todas as partes do
mento". Quando Neemias quis povoar sua mundo pode ter direito de herança por nas-
nova Sião, os candidatos a cidadão tiveram cimento? Porque (6) o próprio Senhor as-
de provar que tinham direito hereditário de sinalou o nascimento deles no registro de
morar ali (Ne 7.4ss.,64; cf Ed 2.59,62). Sião. Consequentemente, não há distinção,
Isso corresponde ao "novo nascimento" e (7) cantores e músicos - toda a congre-
(10 1.12,13; 3.3-8). (iii) O tema do "li- gação jubilosa - desfrutam do que Isaías
vro": (Êx 32.32; SI 56.8; 69.28; Ez 13.9; (12.3) denominou "fontes da salvação"
Dn 12.1; Lc 10.20; Fp 4.3; Hb 12.23; (cf 113.18).
821 SALMO 88

Nota. 4 Raabe, um apelido do Egito e confiando no nome do Senhor, e apren-


(Is 30.7). Egito e Babilônia, os dois gran- dendo sobre o seu Deus (Is 50.10).
des opressores; Filístia e Tiro, as potências 1-9a Vida sem luz. Existem mortos que
militar e comercial do mundo; Etiópia, os são desamparados ... das mãos do Senhor?
pontos mais extremos da terra. Sim, de fato: eles ocupam a mais profunda
cova... lugares tenebrosos... abismos (6),
Salmo 88. As trevas da alma: pressionados pela divina ira (7). À medida
fé paciente, paciência fiel que o salmista sente que seu prolongado
As três seções deste salmo têm três ca- estado terminal (15) se aproxima de seu
racterísticas em comum: cada uma delas fim terreno (3), é isto que o aflige: irá ele
inicia com um testemunho de oração con- morrer debaixo da ira de Deus? É isso tam-
tínua (1,2,9,13); cada uma lamenta uma bém que o impele à oração (1,2; observe
experiência de trevas (6,12,18); e cada Pois, no v. 3).
uma se defronta com a morte (5,10,15). 9b-12 Morte sem esperança. Depois
Em poucas palavras, este é um "salmo da morte, o destino do homem está sela-
sem esperança". Alguém que conhece o do. Morrer sem que a questão da ira di-
Senhor como (lit.) "o Deus da minha sal- vina esteja resolvida é ir para onde não
vação" (1) não tem esperança em face da pode haver expectativa dos prodígios de
morte (9-12). Alguém que é fiel na ora- Deus, seus atos salvadores sobrenaturais,
ção não encontra respostas consoladoras nada pelo que louvá-lo (10), nenhuma
para o sofrimento. A ira de Deus (7), a experiência de seu amor para contar aos
alienação dos amigos e a inescapável (8) outros, nenhuma dependência de seu cui-
agonia debilitante (9) enchem a vida toda. dado fiel (11), ninguém que possa falar de
Ao olhar para cima, ele vê somente ira; suas maravilhas salvadoras (12), nenhum
ao olhar para dentro, terror (16); ao olhar traço da (lit.) "tua justiça", a intervenção
para fora, as ameaças atuais e os amigos divina para corrigir todas as coisas. Apenas
ausentes (17,18); e ao olhar para a frente, abismos (11, "Abadom", TB), trevas e es-
trevas inelutáveis (18). quecimento divino (12, cf. 5,já não te lem-
A maioria dos pastores já teve de mi- bras; acerca do significado de "lembrar",
nistrar numa situação como essa, segu- Êx 2.24), i.e., Deus deixando as pessoas
rando a mão de um crente querido que aos seus próprios desígnios sem realizar
esteja afundando num sofrimento apa- nenhuma intervenção amorosa, protetora
rentemente inconsolável e defrontando-se e providencial. Isso não é (como alguns
com a eternidade sem certeza da salvação. comentaristas erradamente afirmam) um
E a maioria dos crentes também já enfren- enunciado geral da crença do AT a respeito
tou - em maior ou menor grau - o vale da vida após a morte aguardando correção
escuro onde a luz do sol não penetra e pelo NT. O salmo apenas descreve a morte
onde Jesus e seu amor, o evangelho e suas que este salmista teme, morte debaixo da
garantias, o céu e suas compensações se ira divina. Quando o NT retoma este tema, é
aplicam a outra pessoa. O salmo nos diz para tomá-lo infinitamente mais horrendo.
que o sofrimento sem alívio pode ser a 13-18 Pergunta sem resposta. O grito
nossa porção. Ele nos lembra de que ain- de socorro (13) se transforma num clamor
da não estamos no céu, mas fazemos parte por uma explicação (14), e nenhuma res-
de uma criação que geme (Rm 8.18-23). posta é concedida - assim como, até o
Ele mostra diante de nós um exemplo cla- fim, Deus não deu nenhuma explicação a
ro da fé que persevera e de nossa resolu- Jó; nós, num desatino compreensível, fa-
ta permanência no lugar de oração. Aqui zemos a mesma pergunta e obtemos o mes-
está alguém andando nas trevas, sem luz, mo resultado. Se fosse dada uma resposta,
SALMO 89 822

certamente ela seria tão complicada quan- sempre dentro da inviolável aliança daví-
to a própria situação. Pois as situações que dica (34-37).
enfrentamos na vida são desígnio e obra 38-51 O fracasso das promessas: re-
de Deus. Nas tempestades da vida, encon- correndo à oração. Três estrofes de oito
tramos as ondas de Deus (7), e, nos nossos linhas (38-41; 42-45; 46-49) e uma oração
temores, seus terrores (16,17). Essa sobera- final de quatro linhas (51,52) reproduzem a
nia que não dá explicação de seu atos, que mesma forma da seção inicial, mas o tema
é plena de infinita sabedoria, amor, poder e é diferente: as 14 afirmações da sobera-
justiça, que está, portanto, muito além da nia divina (9-14) são equilibradas por 14
nossa compreensão e vista - essa sobe- verbos que traduzem ações destrutivas di-
rania é o nosso travesseiro (SI 86) quando vinas contra um indivíduo, contradizendo
tudo são trevas (18). as promessas (38-45). A aliança foi rene-
gada e as defesas nacionais, despedaçadas
Salmo 89. "Será que ele (38-41); os inimigos estão em ascensão, e
promete e não cumpre?" o trono está arrasado (42-45); então, onde
A estrutura deste salmo conta sua história. estão todas aquelas benignidades de outro-
Ele consiste em duas seções de mesma for- ra que foram prometidas (46-49)? Senhor,
ma (1-14; 38-51), envolvendo um "núcleo" lembra-te... dos teus servos e do teu ungi-
(15-37). O v. 52 é uma conclusão editorial do (50,51).
para o Livro 3 dos Salmos. O que fazer quando grandes promessas
1-14 As promessas de Deus garanti- se tomam grandes frustrações? As promes-
das pela natureza de Deus. Três estrofes sas feitas a Davi foram claras e precisas.
de oito versos (1-4; 5-8; 9-12), com um re- Uma aliança foi estabelecida (3), jurada
sumo final de quatro linhas (13,14). O sal- perpetuamente (28,34), e depois renegada
mista se dispõe a cantar o "amor" divino (39). Ainda mais singular aqui é o amor
(1, NVI; misericórdias, ARA), que é eterno de Deus, imutável por definição: nos v.
(2), e, em particular, recorda a promessa 1,2,14,24,28,33,49, a palavra usada ex-
feita por Deus a Davi (3), de uma linhagem pressa o amor decorrente de compromis-
eterna e um trono assegurado (4). Como o so, o amor que é fruto da vontade, e não
Senhor é supremo no céu (5-8) e sobera- apenas das emoções, um amor penhorado.
no na terra (9-12), essas promessas não Essa palavra, usada no plural, funciona
podem deixar de se cumprir. Em suma, o como dois parênteses que envolvem o cor-
Senhor tem poder e supremacia (13); sua po do salmo (1,49). Isso é muito incomum
dignidade real baseia-se em sua santidade, no AT e por isso chama a atenção, pois o
expressa na teoria (justiça) e na prática (di- plural só é usado dez vezes, enquanto
reito); e tudo que ele faz é anunciado ante- o singular ocorre muito mais de 200 ve-
cipadamente (14) por graça e verdade. zes. Neste salmo, o plural, "promessas de
15-37 Os focos da promessa. Seis es- amor imutável" (1,49), chama a atenção
trofes de oito linhas: (i) o povo favorecido para a dupla promessa feita amorosamen-
(15-18); (ii) o rei favorecido: Davi é ungi- te a Davi: um trono de alcance mundial
do (19-21), recebe a promessa de domínio (22-25), prometido por amor (24), e uma
universal (22-25), tem um relacionamen- dinastia eterna (26-29,30-33), prometida
to com o Senhor como o de filho e pai, é por amor (28,33).
o maior entre os reis da terra, desfruta de Contudo, foram exatamente essas pro-
uma eterna aliança de amor, e tem a pro- messas pactuais baseadas no amor que fa-
messa de uma linhagem eterna (26-29); lharam. É mais fácil imaginar um salmista
(iii) a dinastia favorecida: disciplinada, após a queda de Jerusalém (597, 586 a.C,)
mas nunca rejeitada (30-33), firmada para e o exílio dos últimos reis (2Rs 24.8-12;
823 SALMO 89

25.6,7) ponderando, na Babilônia, sobre o numa variedade de expressões, o tema da


significado desses eventos, analisando im- perpetuidade é sublinhado. Esse é o pro-
parcialmente a realidade de um trono con- blema com que o salmista se defrontou
quistado, e não dominante, e de uma dinas- e que nos faz enfrentar também: Deus
tia atolada na areia, e fazendo a pergunta de assumiu compromissos eternos, mas eles
Balaão: Porventura, tendo ele prometido, não foram cumpridos. Como enfrentar
não o fará? A reação dele é extraordinária. essa situação?
Quando as promessas de Deus parecem ter 5-8,9-12 O argumento desenvolvido
falhado, ele as reafirma numa alegre can- nestas duas estrofes é que, visto não exis-
ção (1,2) e, em oração, derrama diante de tir poder no céu ou na terra que resista ao
Deus toda a sua tristeza pelas promessas Senhor, o que poderia impedir o cumpri-
não cumpridas (46-49,50,51). Precisamos mento de suas promessas? 9,10 O mar é
nos lembrar de que o salmista se dispôs usado frequentemente para tipificarum uni-
a cantar as promessas (1,2) quando sabia verso rebelde em que adversários inquietos
que iria registrar o seu fracasso (38-45), e se colocam contra o Senhor. Na mitologia
que fez sua oração cheia de tristeza quando pagã, esse conflito era personalizado na
ainda não havia nem sinal de solução. Mas batalha entre o deus criador, Marduque, e o
ele estava muito certo em agir assim, pois, monstro do caos, Raabe. Essa batalha ocor-
na escala de tempo de Deus, uma raiz logo reu antes da criação, para que Marduque
brotaria da terra seca (ls 53.2), e um divino tivesse inteira liberdade para realizar sua
Filho de Davi (Is 9.6,7) reinaria em vitória obra. Na Bíblia, Raabe é um cognome do
(Is 9.4,5) e justiça (Is 11.1-5; 32.1) para Egito (Is 30.7), pois o que Marduque fez
sempre (Lc 1.31-33). quando não havia testemunha (e, portanto,
Em resumo, as promessas não haviam exige um ato de credulidade para ser acei-
falhado, mas o entendimento humano a to), o Senhor fez historicamente, despeda-
respeito da escala temporal de Deus e da çando o Egito e abrindo o mar Vermelho
complexidade de seu governo mundial não (Is 51.9-11), quando havia pessoas para
foi suficiente para acompanhar o que ele ver e testemunhar o poder conquistador do
estava fazendo. O mesmo ocorre conosco: Senhor (Dt 1.30). A história põe um alicer-
as promessas nunca falham, embora o apa- ce de pedra sob a teologia.
rente atraso em seu cumprimento faça al- 13,14 Forte... Justiça... graça. Se pu-
guns caírem na dúvida (2Pe 3.4) - e isso déssemos negar qualquer uma dessas três
não vale apenas para a grande promessa da palavras, todo o problema do sofrimento
sua vinda, "pois não importa quantas pro- seria explicável pela lógica. Poderíamos
messas Deus tenha feito, elas são 'Sim' em dizer: Deus é forte e justo em tudo que faz,
Cristo". As promessas não podem falhar, mas não é sempre amoroso; ou, ele é justo e
embora nossas expectativas possam, em amoroso, mas nem sempre forte o bastante
um dado momento, ser frustradas. Quando para fazer o que deseja; ou, ele é amoroso e
isso acontece, devemos fazer como o sal- forte, mas nem sempre justo. Porém, como
mista, transformando as promessas em ele tem sempre todos esses três atributos
canção e as frustrações em oração. juntos, e todo ato de Deus é cheio de sua
2 A NVI omite "pois" no início deste força todo-poderosa, santa justiça e amor
versículo. A palavra deveria ser restaura- imutável, enfrentamos a vida com fé, e não
da, pois a canção do v. I se origina da afir- com explicações; com confiança nele, em
mação do v. 2. Quando a fé declara que a vez de confiança na nossa própria lógica.
palavra de Deus não pode falhar, a boca 18 A bem-aventurança do povo de
se enche com a canção. Para sempre (cf Deus (15,16) é explicada (17) pelo fato
v. 2,4,16,28,29,36,37). Nesses versículos, de o Senhor ser a força deles; esta força,
SALMO 90 824

por sua vez, vem do fato (18) de o rei exílio - pesa no coração do salmista. Não
escolhido pelo Senhor reinar sobre eles. só isso, mas (51) teria ele visto o rei da-
Deste modo, a perda do rei significou o vídico desfilar pelas ruas como um cativo,
fim da bem-aventurança - uma bem- com os escarnecedores zombando de cada
aventurança que não voltaria enquanto o um de seus passos? Podemos nos identifi-
rei não retomasse. 19 A um herói concedi car facilmente com essas duas orações, na
o poder, ou "ajuda contra um guerreiro" medida em que o mundo despreza a igreja
- Davi recebendo ajuda divina contra de nosso Senhor Jesus Cristo e zomba do
Golias (lSm 17.37). 25 Mar... rios, i.e., seu Nome, enquanto nós ansiamos pela re-
universalmente, os dois tipos diferentes generação e pelo reconhecimento da honra
de águas usados para expressar totali- do Nome que está acima de todo nome.
dade. 26,27 Meu pai... meu primogênito
(v. SI 2.7). 30-33 (Cf 2Sm 7.1-16). O sal-
mo recorda as promessas fundamentais
feitas a Davi. 37 Espaço, "nuvem". Só LIVRO 4
muito raramente esta palavra aparece no
singular. Em outros trechos, é sempre plu- Salmo 90. Preservando uma
ral, "nuvens". A testemunha fiel pode ser espécie ameaçada
o arco-íris (Gn 9.12-17) ou, com base no O texto hebraico de Salmos diz claramen-
v. 6, o próprio Deus incomparável. te que esta é uma oração de Moisés, e os
38-45 Embora estes versículos não comentaristas que resistem a isso mostram
mencionem especificamente a queda de uma incapacidade notável de apontar ra-
Jerusalém, eles descrevem alguma coisa zões convincentes. Nenhuma situação
maior que uma simples derrota passagei- se encaixa tão bem no salmo quanto a
ra do reino davídico. Um mero revés não de Moisés durante os exaustivos anos da
poderia ser descrito como uma quebra de alienação divina (Nm 14.34). É um salmo
aliança ou como a derrocada de uma co- belo, comovente e realista, que contempla
roa e um trono. Nada se encaixa tão bem as nossas inseguranças e nos oferece um
nestes versículos como os eventos de 597 remédio e uma esperança.
a.c. e 586 a.C., com o subsequente cati- 1,2 Um endereço fixo no tempo e na
veiro e o fim da monarquia. No v. 46, a eternidade. Estes versículos começam
longa duração da aflição também corro- com o referencial temporal em que a vida
bora essa hipótese. humana está inserida, de geração em ge-
46-49,50,51 Estas duas orações pedem ração, "geração após geração", e termina
ao Senhor para "lembrar", não como se com o ciclo infinito da vida de Deus, de
ele tivesse se esquecido, mas (como em eternidade a eternidade. Dentro desse pa-
Êx 2.24,25) para que ele permita que seu norama de tempo e eternidade, nós temos
compromisso e cuidado para com seu povo um endereço fixo. Ele "provou ser a nossa
floresçam novamente. A primeira oração morada". Unidos com ele, desfrutamos de
pede ação urgente. O salmista naturalmen- permanência. Com que sentimento Moisés
te quer viver para ver o ressurgimento do o teria dito!
reino e o restabelecimento de Sião. A se- 3-11 A espécie ameaçada. Durante
gunda oração implora por causa da aflição 40 anos, Moisés viu com tristeza o tempo
do povo do Senhor. A zombaria das nações levar embora os seus filhos, como se fos-
que destruíram a cidade e a monarquia se um rio impetuoso (3-6; Nm 14.23,29;
- e, se ele está na Babilônia, a zombaria Dt 2.14-16), e reconheceu por trás do que
diária dirigida a alguém que professa a fé via a terrível realidade da ira de Deus con-
num Deus soberano, mas está cativo no tra o pecado (7-11). Mas a verdade que ele
825 SALMO 91

expressou vale para toda a humanidade: as quatro poderosas muralhas de nosso


ameaçada pela impermanência (3-6) e ar- eterno refúgio em Deus: ele é a nossa sa-
ruinada pela ira (7-11). É pela ação de Deus bedoria (12; lCo 1.30), nosso perdão (13;
que sofremos a insegurança da transitorie- Is 55.7), nossa estabilidade por todos os
dade. É por seu decreto (Gn 3.19) que volta- nossos dias (14; 73.26), nossa renovação
mos ao pó - um destino inevitável, pois (4) (15; Rm 6.4-8).
mesmo aqueles cuja vida durou quase um 16,17 Coparticipantes da natureza
milênio (Gn 5) acabaram morrendo como divina. O salmo termina do mesmo modo
todos os outros, e para todos igualmen- que começou, referindo-se ao Senhor, "o
te a grama fresca da manhã é a vegetação Soberano" (1,17) e às gerações que passam
seca da noite (5,6). Por que isso? Por que (1,16). Ele começou afirmando que pode-
uma espécie destinada a comer da Árvore mos buscar refúgio em Deus para garantir
da Vida e viver para sempre (Gn 2.16; nossa continuidade (1), e termina orando
3.22) vira pó e dorme na morte? A palavra para que ele venha sobre nossos filhos em
pois, no início do v. 7, dá a resposta - ira sua glória (16) e sobre nós em sua "ama-
divina..furor contra iniquidades ...pecados bilidade" (17, graça). Deus não só se abre
ocultos (8), ira (9)! Será que o fato de dizer para nós (1), ele compartilha sua natureza
que a vida termina como um breve pensa- conosco (16,17). Nós, que somos levados
mento ("murmúrio", NVI; "suspiro", TB) e no fluxo das gerações, apanhados na tran-
que os dias prolongados são apenas enfa- sitoriedade da vida, na influência oculta da
do prolongado (10) é apenas o desabafo de ira divina, somos feitos co-participantes da
um espírito incuravelmente melancólico? É natureza divina (2Pe 1.2-4), em toda a sua
claro que a vida tem outros aspectos, mas, glória e beleza.
quando procuramos analisar a questão ob-
jetivamente, vemos que o denominador co- Salmo 91. Asas divinas
mum da humanidade é uma triste história e anjos da guarda
de vidas arruinadas pelo pecado e que não Alguns perigos armam ciladas para nós
têm como fugir de sua responsabilidade (3), alguns rastejam furtivamente (3,6);
diante do Deus que odeia o pecado. alguns são os nossos próprios terrores,
12-15 Preservando a espécie ameaça- reais ou imaginários, outros refletem
da. O restante do salmo é uma série de seis hostilidade (5); alguns nós encontramos
orações. É pela oração que combatemos o no curso da vida (12,13). A vida é assim.
poder desagregador do pecado; pela ora- Mas a fé simples nos coloca num lugar
ção, fugimos em direção ao Deus a quem onde contamos com forte proteção (2),
ofendemos; pela oração ocupamos nosso calor pessoal do cuidado divino, defesa
refúgio (1) nele. Era isso que Moisés fazia prometida solenemente (4) e um exército
(e.g., Êx 15.25; 17.4; 32.31,32; Nm 13- de guardiões celestiais para nos proteger
19). Para preservar a espécie ameaçada, há a cada passo (11). A própria forma como
quatro aspectos da oração: reconhecer nos- tudo isso é exposto serve para afirmar a
so tempo limitado de modo a usá-lo com nossa condição de protegidos.
sabedoria (12); clamar pela compaixão de
um Deus reconciliado (13); combater o de- AI (v. I) Tema exposto: proteção certa
clínio da vida (a madrugada de 5,6) com 8 1 (v. 2) Testemunho pessoal
uma nova manhã cheia da benignidade de C] (v. 3-8) Afirmação
Deus que não muda por todos os nossos 8 2 (v. 9a) Testemunho pessoal
dias (14); olhar para ele para que a vida seja C2 (v. 9b-13) Afirmação
tão cheia de alegria quanto, de outro modo, N (v. 14-16) Tema confirmado: proteção
seria cheia de aflição (15). Aqui estão divina
SALMO 92 826

Este é um salmo de testemunho pesso- garante proteção também carrega em si


al (2,9), mas o assunto não se encerra aqui. obrigações morais.
Um testemunho pode ser um produto da 9a Proteção encontrada. (Lit.) De
imaginação ou de um desejo muito gran- fato, tu, Senhor, és meu refúgio! Você fez
de, e, seja qual for o caso, o que vale para do Altíssimo a sua habitação.
uma pessoa pode não ser necessariamente 9b-13 Proteção no curso da vida.
aplicável a outras. Porém, aqui, o testemu- Estes versículos ressaltam os perigos en-
nho humano é envolvido (1,14-16) por um contrados em todos os teus caminhos, no
testemunho divino e confirmado pela pa- dia a dia. Quando Satanás usou estes versí-
lavra de Deus (3-8,9-13). O conjunto todo culos contra o Senhor Jesus, a resposta que
é uma forma altamente artística de expres- ele recebeu foi que a genuína confiança
sar um fato fundamentalmente importan- não exige que o Senhor prove a si mesmo,
te: que nós estamos sempre totalmente mas simplesmente descansa no cuidado de
seguros. Como um salmo como este pôde Deus (Mt 4.5-7). 12,13 O leão e a áspide
ser escrito é uma questão de conjectura. representam perigos caracterizados por
Será que um indivíduo aflito procurou um força e dissimulação, respectivamente. A
profeta, e este aplicou a palavra de Deus repetição desses substantivos pelo uso de
diretamente à necessidade dele e então sinônimos implica em "qualquer que seja
teve o privilégio de ser o agente da voz o seu disfarce".
de Deus? Ou será que o salmo é apenas 14-16 Divinas promessas de prote-
o registro de uma meditação individual a ção. As oito promessas do Senhor: res-
respeito de uma grande verdade, à luz da gate (ação interventora), segurança (pó-
teoria e da prática? Este é um salmo para lo-ei a salvo, fora do alcance do perigo),
todos os crentes, todos os dias. oração respondida, companheirismo na
1 Proteção certa. Altíssimo (Gn 14.18- necessidade, livramento (de um perigo),
22). Com que rapidez Abraão reconheceu prova de inocência (glorificarei), realiza-
que o Deus de Melquisedeque só podia ção pessoal (saciá-lo-ei), e a alegria da
ser o seu Deus - pois provara sua so- salvação. Observe como as promessas
berana exaltação na vitória! Onipotente partem de uma ação de salvamento ini-
(Gn 17.1; 28.3; 35.11; 43.14; 48.3; 49.25). cial (livrarei) e vão até o pleno gozo da
O exame dessas referências mostra que a salvação, cobrindo todas as necessidades
forma hebraica Shaddai designa o Deus intermediárias. Estas são as condições a
cujo poder é suficiente para suprir qual- serem preenchidas: a mim se apegou com
quer fraqueza humana. amor (o amor que faz querer ficar junto do
3-8 Proteção contra as ameaças amado), conhece o meu nome (vive com o
da vida. A ênfase aqui está em coisas Senhor à luz do que ele revelou sobre si
que acontecem conosco sem motivo. mesmo) e ora (ele me invocará).
Deveríamos isolar este salmo do restante
das Escrituras, se achássemos que ele pro- Salmo 92. Um dia para mostrar
mete imunidade. Aqui, como em outros de que lado se está
trechos (e.g., Rm 8.28), a promessa não é Todo este salmo gira em tomo do v. 8,
de segurança contra, mas de segurança em. uma vigorosa declaração acerca da supre-
3 Passarinheiro, "pessoa que caça com ar- ma exaltação do Senhor, que poderia até
madilhas". Perniciosa, "fortuita". 4 Penas ser traduzida por: "Tu é a personificação
(61.4; Lc 13.34). Pavês ... escudo, dois ti- da exaltação!". A partir desse centro, em
pos diferentes de proteção, simbolizando círculos concêntricos, temos, primeira-
toda proteção possível. 8 Uma implicação mente, o seu controle moral sobre o mundo
clara de que a confiança elementar que (6,7,9). Há pessoas que não se dão conta
827 SALMO 93

disso - os tolos espirituais do v. 6; mas lesco", sem o toque de Deus que produz
há aqueles que veem (em 9, eis é "veja") vida espiritual, carente de verdade revela-
a destruição (7) e a aniquilação (9) que da (Pv 30.2,3). Estulto, pessoa que nunca
aguarda os ímpios. Em seguida, vem o enxerga além da aparência superficial da
povo exaltado do Senhor (4,5,10,11). Nov. vida. 7 Erva ...florescem, uma aparência de
10, exaltas é uma palavra diretamente rela- vigor que não corresponde à sua transito-
cionada com o Altíssimo do v. 8: o Senhor riedade e ao seu destino. Serão, mais enfa-
compartilha algo que é sua característica. ticamente "estão destinados a ser". 9 Com
Somos alegres (4,5) e triunfantes (10,\ I) uma verdadeira ênfase bíblica, os ímpios
por intermédio do que ele fez. O último (7) se transformam em teus inimigos. No
círculo é o louvor fiel devido a um Deus fim das contas, o adágio de que o Senhor
assim (1-3, louvor dia e noite; 12-15, lou- odeia o pecado mas ama o pecador precisa
vor por toda a vida). As duas seções desse de correção; os que se colocarem contra o
círculo exterior enfatizam o que o Senhor Senhor descobrirão que ele se coloca pes-
é (SENHOR, nome, Altissimo, misericórdia, soalmente contra eles. 12 Justo, o que está
fidelidade... SENHOR, rocha, reto, sem in- "em ordem com Deus". Palmeira... cedro,
justiça, sem "desvio"); semelhantemente, compare com erva (7). A imagem é de dig-
as duas seções afirmam o compromisso de nidade, força, durabilidade. 13 Plantados
"proclamar"; mas, enquanto 1-3 enfocam (lit.) "transplantados", trazidos para uma
o que o Senhor é, 12-15 descrevem tam- nova posição pela vontade e trabalho do
bém a vida que desfrutamos quando esta- Jardineiro. Casa... átrios, aceitos e com a
mos "em ordem" com ele. certeza de permanecer na presença dele. 15
O título diz que este é um cântico para Anunciar, ou, mais vividamente: "inclina-
o dia de sábado e seu paralelo com temas dos a proclamar": o aumento dos anos de-
centrais de Isaías 58 confirma isso: um dia veria aumentar a determinação espiritual.
de louvor (1-3,14,15) com foco no Senhor Injustiça, desvio da norma, o antônimo de
exaltado (8); um dia para reconhecer sua retidão, "prumo". Rocha, uma metáfora
santidade e reafirmar nossa consciência do extraída de Êxodo 17.1-7.
que distingue eternamente o certo e o erra-
do (6,7,9); um dia para recordar o que ele Salmos 93-100. "Louvor
fez (4,5) e, especialmente, o que fez por de Jerusalém": Os hinos
nós (10,11). do Grande Rei
1 Bom, intrinsecamente certo e pessoal- Este grupo de salmos destaca o tema do
mente agradável. Nome, tudo o que ele reinado do Senhor. Ele reina (93.1; 96.10;
revelou a respeito de sua natureza. 4,5 97.1; 99.1); ele é rei (95.3; 98.6). Nesse
Observe aqui e no paralelo 10,11 o que é a aspecto, os salmos 94 e 100 parecem, à
verdadeira religião pessoal. Este é um sal- primeira vista, fora de compasso, mas 94.2
mo da "minha" alegria no Senhor (embora (cf 96.10-13; 98.9) usa a palavra equiva-
não esquecendo 12-15, o grupo mais am- lente de rei, juiz, e o salmo 100 conserva
plo). Me alegraste... exultarei ("...cantar de seu lugar na série não só por suas ligações
alegria", NVI), a emoção e sua expressão, com o salmo 99, mas por ter o mesmo tema
coração e voz. Feitos... obras, abrangendo que o salmo 95 (cf 95.6,7; 100.1-3). É in-
criação, providência e salvação; e mais os teressante pensar que podemos ter aqui (cf
pensamentos, a mente de Deus por trás de- a respeito de Salmos 120-134) uma pe-
les. 6 Inepto poderia ser parafraseado como quena coleção de hinos para uso, digamos,
"não-espiritual", a pessoa simplesmente na Festa dos Tabernáculos. Como essa
natural (descrita também em 49.11; 73.22). festa marcava a última colheita ao final de
O verbo relacionado significa "ser anima- cada ano (Êx 23.16; Dt 16.13), e também
SALMO 93 828

celebrava a vitória do Senhor sobre o Egito no trono. O v. 1 enfatiza a vestimenta do


e seu cuidado para com seu povo num Senhor: Revestiu-se... se revestiu... se cin-
mundo hostil (Lv 23.39-43), era fácil fazer giu, "vestiu o cinto". Como tema, a "ves-
a transição para uma celebração de adora- timenta" indica caráter e intento (e.g.,
ção do Rei (Zc 14.16). É até mesmo pos- Js 5.13-15; Is 59.16-18). O Senhor veste
sível (v. Introdução) que tenha se tomado o traje da realeza porque é e pretende agir
especificamente uma celebração anual do como rei. Por que "o mundo está firma-
Grande Rei. Seja como for, esses oito sal- do" não é explicado, mas o fato de esta
mos formam um conjunto e, aos pares, verdade estar entre o reino do Senhor (1)
compartilham características do tema do e seu trono (2) diz muita coisa. Enquanto
reinado: 93 e 94, o Rei sobre toda a terra; ele reinar, a terra permanece estável. Os v.
95 e 96, o Rei sobre todos os deuses; 97 3,4 usam os mares revoltos para retratar
e 98, o Rei no coração do seu povo; 99 e todas as forças destrutivas e a hostilidade
100, o Rei na sua própria natureza. existentes na ordem criada - sejam as
violentas tempestades em si, ou o tumulto
Salmos 93 e 94. O lugar das nações (SI 2), ou até (como pensavam
de fé e o lugar de oração os pagãos) a incessante guerra das forças
A imagem do rei com sua soberania sem espirituais do caos contra o Criador. Não
esforço (93.4) sobre as ondas revoltas mes- importa qual seja a turbulência, o SENHOR
cla-se com o trabalho do juiz (94.2), admi- nas alturas é mais poderoso. O v. 5 faz par
nistrando o mundo onde os que praticam a com o v. 2 na estrutura do salmo. No v. 2,
iniquidade... esmagam (as ondas "batem"; Deus, que é eterno por natureza, ocupa seu
"batem" e "esmagam" são análogas) o trono eterno; no v. 5, o Deus que vive em
seu povo (94.4,5), onde o governo sobe- sua casa no meio do seu povo falou sua
rano é exercido segundo a forma comum palavra imutável e faz da santidade sua
como a providência divina organiza a vida exigência imutável.
(94.10,12) e ainda aguarda sua manifesta- 94.1-23 O rei provado. "Todos admi-
ção final (94.15,23). A realidade espiritual tem" - diz Calvino - "que Deus reina,
da divina majestade real (93.1) enfrenta a mas são poucos os que usam esse escudo
usurpação terrena dos soberbos (uma pa- contra as forças hostis do mundo". Com
lavra relacionada, 94.2) e de um trono es- essas palavras, cruzamos a ponte entre os
tranho. Em calma e reverente solenidade, salmos 93 e 94. Nossa fé repousa em sua
o povo do Senhor aclama o seu reinado inabalável soberania (SI 93), mas na vida
(SI 93) e no burburinho da vida, eles veem enfrentamos muitas dificuldades (4-7) e
como ele governa o mundo (SI 94). oposição, na forma de palavras (4), atos
93.1-5 O Rei aclamado. A afirmação (5,6) e filosofia de vida (7) que não ne-
dos v. 1,2 se transforma na imagem dos v. cessariamente nega a existência de Deus,
3,4, e sua solene consequência para o povo mas pensa nele como alguém inativo, não
do Senhor (5); os v. 1,2 mostram um mo- intervencionista e irrelevante. Podemos
vimento descendente, partindo do Senhor enfrentar oposição, mas não estamos sem
seguramente entronizado até a consequen- conforto: existe: (i) O Deus Criador que
te segurança do mundo que ele governa; está ciente de tudo (9), que não abdicou
os v. 3,4 se movem para cima, partindo da de seu trono de governo moral do mundo
turbulência das "forças" terrenas para o se- (10) e que conhece até os fatos mais ocul-
reno poder do trono exaltado de Deus. A tos da vida humana (11). Só os estúpidos
terra é um lugar seguro para se viver por- e insensatos (8, cf 92.6) poderiam não
que ele reina; e mesmo quando a turbulên- estar cientes dessas verdades; (ii) O Deus
cia atinge seu nível mais alto, ele continua da providência (12-15): as dificuldades
829 SALMO 95

da vida têm um propósito moral (12,13), do Senhor com os "deuses" (95.3; 96.4,5),
a vida repousa numa confiança essencial e esta é sua marca registrada. Entretanto,
na fidelidade divina (14), e nos conduz esses salmos não representam um afas-
a uma sociedade justa vindoura na qual tamento maior do monoteísmo do que a
haverá liberdade para se viver retamente afirmação de Paulo sobre muitos deuses e
(15); (iii) O Deus que cuida com carinho muitos senhores em ICoríntios 8.5. Muitas
(16-19): a vida pode, de fato, ser solitária, forças espirituais estão por aí neste mun-
precária e confusa, mas o Senhor está do do decaído - c existe até um "deus deste
nosso lado, seu amor é o nosso sustento século" (2Co 4.4) - e como elas também
e o seu consolo está no nosso coração; exercem sua influência enganadora sobre o
(iv) O Deus da vitória certa (20-23): pois povo do Senhor, o lembrete contido nestes
como juiz da terra (2), ele não faz acor- salmos de que Deus é o rei supremo (95.3)
do com os poderosos do mundo que são e que os "deuses" não são nada (96.4,5)
corruptos, moralmente pervertidos e mal- permanece relevante.
tratam os outros. Ao contrário, da mesma O único Deus e os deuses. Estes sal-
forma que ele hoje se mostra um refúgio, mos são exemplos do uso da criação como
no final executará pessoalmente seu juízo evidência da existência de um único Deus.
rigoroso e destrutivo. O salmo 94 conclui Comparados com o Criador, outros "deu-
(22) com a mesma nota de descanso na ses" são (não'lôhim, mas)'lilim (96.5),
proteção da soberania divina que se ouvia imitações não-genuínas. Essas duas pala-
no salmo 93: a certeza de que ele está no vras hebraicas têm semelhança fonética
controle, de que podemos buscar refúgio como numa rima toante. Eles são "não deu-
num Deus como esse; mas o que dá coe- ses", coisas que não existem. Já Deus tem
são ao salmo 94 é a oração para que Deus o controle soberano sobre a terra (95.4,5).
dê o pago (2) e a confiança de que ele faz No pensamento pagão, as profundezas
recair, "retribui" (23). A fé se apoia num eram governadas por Moloque, as alturas
Deus soberano (SI 93), mas é "pela oração dos montes por Baal, e o mar por Tiamat.
que combatemos" em face de um mundo Mas, na Bíblia, tudo está nas suas mãos e
hostil e agressivo. A oração é nossa pri- é dele por direito de criação.
meira resposta prática à soberania divina:
se ele é, de fato, o Senhor do salmo 93, Salmo 95. O único Deus e seu povo
nada tem maior prioridade do que buscar O Salmo 95 consiste em:
refúgio nele diante das turbulências da
vida (94.1-3). AI (v. 1,2) Um chamado à adoração com
alegria
Salmos 95 e 96. Alegres B 1 (v. 3-5) Explicação da grandeza de
novas de salvação Deus
No salmo 95, a igreja está cantando e N (v. 6) Um chamado à adoração com re-
adorando; no salmo 96, cantando e teste- verência
munhando. O salmo 95 se restringe intei- B2 (v. 7a-c) Explicação dos nossos pri-
ramente à comunidade onde o Senhor é vilégios
conhecido como Rochedo, Rei, Criador, N (v. 7d) Um chamado à obediência
Pastor e aquele a quem a obediência é B3 (v. 8-11) Explicação de suas sérias
devida. No salmo 96, a igreja ainda está implicações
cantando, mas sai imediatamente para tes-
temunhar sobre o único Deus, que é digno Para seu povo, o Senhor é: (i) Salvador
de todo louvor e virá como juiz universal. (1), segundo o modelo do "Rochedo sal-
Salmos 95 e 96 falam da relação do reino vador" de Êxodo 17.1-7, confiável e ativo,
SALMO 96 830

a viva fonte de vida, salvando da morte. Os que se alegram no Deus da salvação


(ii) Pastor (6,7). Que nos criou não apon- (95.1) precisam contar ao mundo as boas
ta aqui para a criação, mas para o modo novas dessa salvação, dizendo bendizei o
como o Senhor fez um povo para si. Eles seu nome (2), i.e., convidando o mundo
estão seguros do compromisso de Deus a corresponder ao que o Senhor revelou
para com eles: nosso Deus, não porque o acerca de si mesmo, a entrar na sua presen-
tenhamos escolhido, mas porque ele assu- ça (na beleza da sua santidade) através das
miu um compromisso conosco; são provi- oferendas que ele exige (7-9) - respon-
dos por ele, segundo seu plano: pasto (v. dendo ao seu nome (8, veja comentário do
Nm 10.33,34); cuidados pelo toque de sua v. 2), entrando nos seus átrios (8), seguros
mão. (iii) Legislador (7-11). É aos salvos em sua presença (9) e adorando-o com o
que o Senhor dirige seu chamado por obe- devido temor. Mas as boas novas também
diência (7), e ele leva sua lei a sério e apli- são de expectativa (11-13). Julgar significa
ca a disciplina se o povo desobedece, pois "pôr todas as coisas no lugar certo" - céu,
uma geração inteira (10) perdeu a bênção terra e mar, a natureza e a criação humana.
por causa da desobediência (Hb 3.12-19). Nenhum aspecto do que ele criou no início
Eles não deram ouvidos à palavra de Deus, é esquecido na salvação final.
não inclinaram o coração para fazer a sua
vontade, nem aprenderam sua lei; conse- Salmos 97 e 98. Justiça visível,
quentemente, foram privados da boa-von- alegre salvação
tade e do descanso de Deus. O incidente A ligação entre o reinado do Senhor e a
específico mencionado em (8) ocorreu em santidade ou justiça foi estabelecida discre-
Êxodo 17.1-7, e é usado como um exem- tamente nestes salmos (93.5; 94.15,21,23;
plo de falta de fé. O povo tinha evidências 95.7; 96.9,13), mas agora chega a um clí-
mais que suficientes de que podia confiar max num trono de justiça (97.2), numa
que o Senhor proveria em qualquer situa- proclamação de justiça (97.6), num cha-
ção (Êx 12-16), mas, ao deparar com um mado à justiça (97.10-12), numa revelação
vale evidentemente sem água, eles troca- de justiça passada (98.2) e vindoura (98.9).
ram a confiança pela dúvida, do mesmo Estes salmos não fazem segredo do caráter
modo que os fariseus do NT fecharam os aterrador da justiça do Senhor (97.2-5), do
olhos a tudo o que Jesus realizou e se re- rigor de suas exigências (97.10), do desti-
cusaram a crer enquanto não recebessem no dos idólatras (97.7); contudo, sua nota
outro sinal! predominante é a de alegria (97.1,8), can-
tando e gritando (98.1,4,7). Como alegria e
Salmo 96. O único Deus juízo, canções humanas e justiça divina po-
e o seu evangelho dem se misturar dessa maneira? A resposta
O salmo 96 consiste em: é que a salvação foi realizada (98.1-3): o
Deus do santo nome (97.12), que convoca
AI (v. 1,2a) Um chamado para que o mun- seu povo à santidade, é o Deus do braço
do adore santo (98.1), que lhes traz a salvação.
B 1 (v. 2b-3) Uma ordem para a igreja
C' (v. 4-6) Uma explicação do úni- Salmo 97. Alegria diante das
co Deus exigências de santidade
N (v. 7-9) Um chamado para que o mundo Toda a terra e Sião compartilham da mes-
adore ma alegria (Regozije-se ... alegrem-se... se
B2 (v. 10) Uma ordem para a igreja alegra ... se regozijam) - e isso apesar do
C2 (v. 11-13) Uma explicação do poder terrível e destruidor da justiça de
Deus que virá Deus (2-7) e das exigências que ele faz
831 SALMO 99

(9-12): pois o contraste é total entre os e terra, rio e montanha - toda a ordem
inimigos e os que amam a Deus, entre des- criada - juntam-se aos povos do mundo
truição e preservação, entre a glória que para aclamar o Deus que vem julgar a ter-
todos podem ver e a luz de que só os justos ra (9), consertar todas as coisas que há no
desfrutam, o triste destino dos idólatras e a mundo. 1 Maravilhas, coisas provenientes
alegria dos justos. 2 Nuvens etc. O Deus do do reino sobrenatural - como o nome
Sinai (Êx 19.16-19). Justiça ejuizo expres- "Maravilhoso" (Is 9.6; cf Gn 18.14 ["di-
sam santidade (ls 5.16): justiça é santidade fícil" = maravilhosa]; Jr 32.17). Destra...
personificada em princípios corretos; juízo braço, ação pessoal direta sustentada por
é santidade expressa em decisões e ações força pessoal suficiente. 2 Salvação...
corretas. 3 Fogo. Santidade divina em sua justiça. Da mesma forma que o Senhor é
agressividade destrutiva contra o pecado justo quando julga (97.2-5,6,7), ele é justo
(Êx 3.3-5; 19.16-18,20; cf Lv 9.24). Foi quando salva. Sua salvação realiza tudo
o fogo do Sinai que acendeu o primeiro aquilo que sua santa justiça exige. 3 A
holocausto arônico, e era esse fogo que sequência é importante: é no processo do
queimava perpetuamente no altar: santi- amor por Israel que o mundo é salvo. 7-9
dade satisfeita por uma oferta substitutiva. Observe o mesmo propósito ambiental que
4 Estremece, não tanto como criação dian- aparece em 96.11-13. A motivação básica
te do Criador, mas principalmente como do ambientalismo bíblico é que o Criador
terra pecaminosa diante do Santo (Jz 6.22; ama sua criação (Gn 1.31), não apenas o
13.22; Is 6.5). 7 Ídolos, os "não deuses" de aspecto humano, mas o conjunto da cria-
96.5. 10 Santos, termo relacionado com a ção. E, na consumação, quando o Senhor
palavra que expressa o imutável amor de Jesus retornar, os novos céus e terra serão
Deus, significa "os que são amados por a eterna prova desse amor (Ef 1.3-10).
ele e retribuem esse amor". 11 Difunde-se.
Heb.: "é semeada para", i.e., plantada em Salmos 99 e 100. O Senhor,
santidade para que eles ceifem como uma santo e bom
colheita. Em toda situação existe uma jus- O salmo 99 faz uma convocação ao lou-
tiça esperando para ser desfrutada. 12 Seu vor e à adoração; o salmo 100 responde a
santo nome, "a lembrança/o lembrete de ele, na medida em que todas as terras se
sua santidade" (cf Êx 3.15). apresentam, entram e louvam. Juntos, os
dois salmos enfocam o caráter do Senhor
Salmo 98. Alegria baseada na (v. a introdução aos salmos 93-100): san-
finalização da obra de salvação to (99.3,5,9), bom, misericordioso e fiel
O dilema do salmo 97 é explicado. Na (100.5). O privilégio do povo do êxodo
concretização da salvação de Israel, toda a (95.7) tornou-se agora o privilégio de pes-
terra vê a sua salvação (3). O salmo se di- soas do mundo inteiro (100.3).
vide em três seções, marcadas por cantai
(1), celebrai (4) e ruja (7), que abrangem, Salmo 99. Um chamado à adoração
respectivamente, a salvação realizada e o 1-3 A graça do Santo. O salmo 99 se di-
louvor do Salvador (1-3), a alegria mun- vide em três partes pelo refrão da "santida-
dial pelo Rei do mundo (4-6) e o louvor de" (3,5,9). Esta primeira seção está cheia
do Senhor vindouro que consumará to- da grandeza do Rei Santo, diante de quem
dos os seus propósitos justos (7-9). Sua os povos tremem e a terra se abala. Mas
salvação foi alcançada (1, alcançaram), embora seja grande e tremendo, "digno de
é conhecida e vista; toda a terra contri- ser temido", ele está em Sião, habitando
bui com vozes e instrumentos para exal- entre o seu povo, entronizado no lugar da
tar perante o SENHOR, que é rei (6). Mar graça, pois estando entronizado acima dos
SALMO 100 832

querubins, seus pés repousam na "sede da plina sem perdão partiria o nosso coração.
misericórdia" ~ onde ele fala ao seu povo Juntos, os dois garantem que, embora pos-
(Êx 29.42-46) e faz propiciação por seus samos considerar o perdão como certo, não
pecados (Êx 25.17-22; Lv 16.15ss.). Sua podemos jamais tratar o pecado como algo
grandeza é a do Deus da graça. sem importância.
4,5 A lei do santo. O Rei ama sua lei,
estabelece-a (entre o seu povo), e deu o Salmo 100. O povo de Deus
exemplo com seus próprios atos. Em rela- na presença de Deus
ção à sua própria natureza, o v. 4a diz li-
teramente: "A força do rei ama a justiça" AI (v. 1,2) Convite tríplice: celebrai, servi,
~ i. e., o poder onipotente do rei divino apresentai-vos
está totalmente absorvido no que é certo. B! (v. 3) Afirmação tríplice: Deus ... nos
Nós somos chamados, de forma pouco li- fez... dele
sonjeira, de Jacó, aquele que, embora ti- N (v. 4) Convite tríplice: Entrai... rendei-
vesse recebido um novo nome e uma nova lhe graças... bendizei
natureza (Israel), vivia ainda muitas vezes B2 (v. 5) Afirmação tríplice sobre a na-
como o velho Jacó. A lei não é adaptada tureza de Deus: Bom... misericór-
para se adequar às limitações da nossa ca- dia... fidelidade
pacidade, mas é como se segurasse diante
de nós o espelho da vontade perfeita de Três verbos de proximidade crescente
Deus. Entretanto, os que se defrontam as- (1,2) nos levam primeiro a aclamá-lo (ce-
sim com a obrigação da lei divina também lebrai), depois a entrar em seu santuário
vivem constantemente debaixo da graça, em adoração e, finalmente, a descansar
pois é "Jacó" que é convidado não só a (apresentai-vos diante dele) em sua pró-
louvar, mas a prostrar-se ante o escabelo pria presença. Nós fazemos isso com jú-
de seus pés, o trono de misericórdia. bilo, alegria e cântico porque sabemos
6-9 A comunhão do Santo. Moisés, que o divino Senhor nos fez para si, e que
Arão e Samuel não são mencionados como pertencemos a ele, como as ovelhas de um
privilegiados, mas como típicos daqueles pastor amoroso.
entre os quais eles serviam. O salmo os Mais uma vez, três palavras de inti-
usa para exemplificar a caminhada pessoal midade cada vez maior (4) nos levam até
com Deus: (i) orando e recebendo respos- ele: as portas, os átrios e a realidade de um
ta (6): a principal marca do povo de Deus Deus conhecido pelo nome. Nosso louvor
é o seu relacionamento com ele por meio agradecido é motivado pelo que ele é (5):
da oração (Dt 4.7; SI 65.2; 138.1-3). Os completo em si mesmo e absolutamente
verbos implicam que "eles invocavam bom, em sua atitude imutável para conos-
constantemente, e ele sempre respondia"; co, em sua misericórdia e em sua totalfide-
(ii) ouvindo e obedecendo (7): o povo do lidade, comprovada na nossa experiência
Senhor vive pela verdade sobrenatural, a de vida.
palavra de Deus; (iii) marcada pelo perdão
e castigo (8): perdoador, "que leva o pe- Salmo 101. O rei: um espelho
cado", remete a Levítico 16.22 e antecipa do verdadeiro
Isaías 53.12 e João 1.29. Mas há também A voz que fala aqui deve ser o próprio rei
o castigo (severo) dos maus atos, porque contemplando sua importante função, pois
perdão sem castigo nos faria complacen- quem mais poderia assumir o compromis-
tes, e castigo sem perdão nos levaria ao so de realizar a tarefa de eliminar os ímpios
desespero. Perdão sem disciplina nos da nação (8)? O salmo é estruturado em
transformaria em crianças mimadas; disci- estrofes. Nas três primeiras (I,2b; 2c,3b;
833 SALMO 102

3c,4), o rei enuncia os padrões pessoais pode confiar" e o que (como ele) "anda no
que ele se compromete a seguir; nas três caminho da integridade".
seguintes (5, 6, 7), ele estabelece os pa- 8 Vida pública. O cenário agora é
drões que exigirá das autoridades da corte; a terra e a cidade onde o rei, como Juiz
na última estrofe (8), ele se volta para os Presidente do Supremo, é responsável pe-
deveres públicos de seu cargo como chefe los padrões públicos, e não menos pelo
do judiciário. "castigo dos malfeitores". Ele, que per-
1-4 Compromissos pessoais. As três tence ao Senhor (l), jura solenemente
estrofes desta seção abrangem, respecti- agir fielmente em público, nos negócios
vamente, a vida do rei com o Senhor, sua do Senhor. Manhã após manhã. É sua pri-
vida no lar e a vida de santidade pessoal. meira prioridade, um verdadeiro Moisés
1 O Senhor é caracterizado por bondade, (Êx 18.13). Destruirei. Nem os ministros
fidelidade amorosa imutável e justiça, da coroa têm imunidade ou privilégios a
a verdadeira sabedoria que pode tomar esse respeito. A lei vale tanto para o públi-
sempre a decisão certa. O rei canta esses co quanto para a corte.
atributos divinos como alguém que se de- Não podemos ignorar as lições deste
Iicia com eles. 2 Caminho da perfeição, vigoroso salmo. Ele contesta a ideia tão
um "caminho"/estilo de vida que mostra difundida de que, desde que um ministro
total integridade. Quando virás ter comi- de estado faça seu trabalho direito, sua
go? Um apelo para que o Senhor venha vida pessoal é problema dele. Mas Davi
dar apoio companheiro ao rei. Em minha pensava diferente: seus deveres reais co-
casa refere-se aqui ao ambiente doméstico meçavam em sua própria pessoa, casa e
como o primeiro lugar em que ele mostra- padrões de vida. Se ele não fosse confiá-
rá (caminho) um coração íntegro (coração vel na vida privada, que garantia haveria
sincero). 3 Injusta, provavelmente uma de sua integridade pública? Mas embora
combinação de "indigno" e "nocivo", i.e., Davi pensasse assim, quão longe ele ficou
alvos indignos que, ao serem alcançados, de seus próprios padrões! Seu lar foi cená-
destroem. Olhos. O órgão do desejo, o que rio de sua queda mais trágica, e seus olhos
é desejado e se toma nosso alvo. O rei pro- foram a causa dessa ruína (2Sm 11.2). A
mete que, em casa, suas emoções e objeti- administração pública da justiça foi o pon-
vos serão irrepreensíveis. O proceder dos to onde o descontentamento público abriu a
que se desviam. Talvez mais literalmente: porta para a grande rebelião (2Sm 15.1-6).
"atividade envolvendo decadência". O rei Consequentemente, como todos os salmos
almeja os mais altos padrões de santidade. que falam do rei, existe aqui um ideal que
4 Esses padrões devem se aplicar também expõe a imperfeição de Davi e seus suces-
ao coração e à mente (não quero conhecer sores e clama pelo perfeito Davi vindouro.
é, Iit., "dar reconhecimento pessoal a").
5-7 Padrões na Corte. O cenário é de- Salmo 102. Pedido recusado,
terminado por habitem comigo, me servirá, oração respondida
permanecerá ante os meus olhos. A casa Não existe oração não respondida. Às ve-
(7, cf 2) é agora a corte real onde, tendo zes, a resposta é "não", pura e simples-
o rei como chefe executivo, outros reali- mente, quando, à luz da perfeita sabedoria,
zam seu serviço. (i) Negativamente (5,7): nosso pedido não passa de um absurdo.
o rei exclui o indivíduo egoisticamente Muitas vezes, a resposta é "ainda não",
ambicioso, pronto a destruir outros com quando nossa escala de tempo está defa-
insinuações, o arrogante, o trapaceiro e o sada em relação a do Senhor. Ah, se Elias
que falta com a verdade. (ii) Positivamente soubesse! Quando Elias pediu para morrer
(6), ele quer osfiéis, "aqueles em quem se (lRs 19.4), seu pedido foi recebido no céu
SALMO 102 834

com um sorriso e as palavras: "Não seja completa do favor de antes (elevaste) para
tolo. Você não vai morrer!". Este salmo se a humilhação atual (abateste).
encaixa nesses parâmetros. A resposta ao No poema central do salmo (12-22), ele
pedido do salmista, de que pudesse viver fala demoradamente a respeito da grandeza
na terra para ver o que desejava, foi "Não" do Senhor e da glória de seus propósitos.
(23,24); a resposta para sua certeza de que Este também é um poema com um pivô.
já havia chegado a hora de ver sua oração Ele começa com o SENHOR entronizado para
atendida foi "Ainda não"; a resposta para o sempre (12) e termina com o SENHOR ado-
que ele realmente pediu em relação a Sião rado por todos os povos (22); os v. 13,21
foi: "Não seja tolo! Espere e verá!". põem o foco em Sião, a cidade da graça de
Não se sabe quem foi o autor nem Deus e de seu louvor vindouro; os v. 14,20
quando viveu. Muitos comentaristas inter- compartilham o tema da compaixão. Seus
pretam pedras e pó (14) como a destruição servos têm uma preocupação egoísta em
de Jerusalém por Babilônia, e atribuem o relação à ruína de Sião, mas a compaixão
salmo ao período do exílio. Mas, até onde do Senhor abrange a terra carente; os v.
se sabe, os exilados na Babilônia não eram 15,19 compartilham o tema do SENHOR e da
prisioneiros nem estavam sob sentença de terra: a terra inteira ainda irá reverenciá-
morte (21) - de fato, as condições eram lo (15), mas isso acontecerá em função do
bastante toleráveis (Jr 29) e, no final, so- seu interesse em identificar e atender suas
mente uma minoria queria ir embora necessidades; os v. 16,18 afirmam que o
(Ed 1). Portanto, é difícil ver o autor como SENHOR edificará Sião, estará presente pes-
um dos exilados; mais fácil é situá-lo numa soalmente em glória e criará um povo para
das crises anteriores, quando a cidade foi o seu louvor; e o pivô (17) atribui toda essa
atacada e ele viu seus concidadãos serem glória à oração respondida.
levados para a incerteza da servidão. De O Senhor realiza seus excelentes e in-
qualquer modo, ao enfrentar uma suposta falíveis propósitos por meio das orações
morte prematura (23,24) e desejando ar- do seu povo. A passagem abrupta da ne-
dentemente ver Sião restaurada em toda a cessidade humana (3-11) para a glória
sua glória, como centro da terra (12-22), ele divina (12-22) é típica dos salmos (e.g.,
compôs esta poderosa oração. Na verdade, 74.1-11,12-17). Então, como agora, o
ele é o aflito (oprimido, triste, 6-8) do títu- modo de lidar com as cruéis pressões da
lo, abatido, sentindo faltarem suas forças, vida é "olhar para Jesus": lembrar-nos no-
mas ele conhece um Deus a quem pode er- vamente da visão de Deus (12,22), de suas
guer sua angústia (suas "aflições"). intenções (13-16,18-21) e do poder e lugar
Ao clamor de abertura, em que ele pede da oração (17).
para ser ouvido (1,2), segue-se um poema Mas o salmista também fala por nós de
delimitado por dois parênteses (meus dias, outra forma: ele sente que o tempo que lhe
3,11) que anunciam seu tema. Observe a resta está sendo encurtado; sua vida está
estrutura desse poema, construído em toruo sendo tirada prematuramente, lit.: "Ele
de um pivô: v. 3,11, a vida em rápido de- rebaixou minha força no caminho" (23).
clínio; v. 4,5,9,10 (ligados pela referência Eu ainda estava percorrendo o caminho
ao pão) descrevem seu desânimo diante da vida com vigor quando a ação divina
da vida (4,5) e atribuem a causa à ira di- me enfraqueceu. Nessa circunstância, ele
vina (9,10); o pivô (6-8) destaca a solidão, recorreu à oração (24), (lit.): "Não me le-
dia e noite, e o isolamento entre inimigos. ves para cima" (cf 2Rs 2.1,11). Como a
Ele não confessa nenhum pecado, mas dei- vida de Deus é diferente da nossa! Será
xa subentendido que foi apanhado numa que Deus, sendo eterno, pode realmente
inexplicável ira de Deus, uma mudança avaliar o quanto a brevidade da vida nos
835 SALMO 103

atinge quando sentimos, como Moisés minha vida; a conclusão correspondente


(Dt 3.23,24), que só começamos a remar (19-22) fecha um parêntese em tomo do
nas águas rasas do plano divino e deseja- salmo a respeito dessa nota pessoal, mas
mos ardentemente ver a sua consumação? seu propósito é nos elevar às alturas, de
É claro que ele estava confiante que onde podemos vislumbrar toda a realidade,
Deus seria fiel aos seus propósitos e que, espiritual e física, e adorar o único Senhor,
quando a consumação ocorresse (28), os que é o Rei eterno.
filhos dos teus servos estariam lá, desfru- 1-5 As bênção pessoais do Senhor. 1,2
tando dos beneficios e habitando na pre- Bendize tcf. 20-22) é derivada da peculiar
sença dele. O Deus eterno é eternamente o palavra "Bênção". Quando o Senhor nos
mesmo (27). "abençoa", ele examina nossas necessida-
Mas, e quanto a mim? Neste ponto, o des e isso faz com que ele reaja de forma
Eterno sorriu: "Não seja tolo! Ah, se você correspondente; quando nós "bendizemos"
soubesse!". Pois - mesmo sem saber o Senhor, examinamos suas qualidades ex-
- aquelas palavras que seu servo dirigiu a traordinárias e agimos também de forma
ele, já quase perdendo as forças, foram as correspondente. Santo nome. Nós "bendi-
mesmas que o próprio Senhor dirigiu a seu zemos" o Senhor antes de contar os seus
Filho (Hb 1.10-12) quando juntos planeja- benefícios. Tudo que ele faz vem de quem
ram uma consumação muito mais extraor- ele é (nome) e do que ele é (santo): ele nun-
dinária do que a desejada pelo salmista: de ca age fora do que revelou a respeito de si
que sua própria experiência de fraqueza, mesmo e do que ele é. Beneficios, melhor
sofrimento, inimizade - e até mesmo da "suficiências" - o verbo correspondente
ira de Deus - seria recapitulada quando o no v. 10 (retribui) significa "agir integral-
Filho assumiu a nossa carne e levou nossos mente". 3 Ele perdoa e sara, embora, como
pecados, fazendo vir o reino que não pode as Escrituras têm o cuidado de apontar,
ser abalado e a verdadeira Sião celestial não paralelamente: em 2Samuel 12.13-23,
(Hb 2.9-18; 4.15; 5.7,8; 9.11-14; 12.22-24, o perdão foi instantâneo, a cura protelada;
26,27). Será que, ao ver as situações pelas pecado e enfermidade foram igualmente
quais passou e as palavras que disse à luz levados por Jesus (Mt 8.16,17). Mas, do
do Filho de Deus, o salmista não se sentiu mesmo modo que nós, embora perdoados,
feliz pelo fato de o Senhor ter recusado seu ainda sofremos o incômodo do pecado
pedido, mas ouvido sua oração? nesta vida, a doença continua sendo nosso
quinhão, segundo a vontade soberana de
Salmo 103. "Teu Deus é Rei, Deus, até o dia em que toda incapacidade e
teu Pai reina" toda enfermidade moral cessarão, quando
A combinação do cuidado paternal imu- estivermos no céu. 4 Redime, age como o
tável com o governo soberano eterno é a resgatador que assume a responsabilidade
ênfase característica deste salmo. Os ver- por todas as nossas necessidades. Cova,
sículos centrais (6-18), delimitados pela não apenas uma metáfora dos perigos mor-
justiça divina, estão repletos dos atributos tais desta vida, mas também uma indicação
do Senhor, como graça, compaixão, paciên- de uma temível possibilidade na vida futura
cia, longanimidade, perdão e paternidade, (cf 49.7-9,13-15). Graça e misericórdia. A
mas, acima de tudo, "amor" (A2 J, v. 4; primeira ("bondade", NVI; "benignidade",
"bondade", NVI; "benignidade", ARC; gra- ARC, T8) é o amor centrado na vontade, o
ça, ARA) - o amor que fala de seu compro- amor de compromisso, imutável; a segun-
misso conosco, sua fidelidade imutável. O da é o amor do coração, inconstante e emo-
salmo abre (1-5) com uma nota pessoal: cional. 5 Velhice. Esta palavra é duvidosa,
como esses atributos de graça agiram em mas provavelmente deve ser interpretada
SALMO 104 836

como "tua duração"/"enquanto viveres". especificamente pai junto com o verbo "ter
Águia, uma imagem de uma força incansá- compaixão" (cf o uso do amor matemo,
vel e elevada (1s40.30). Is 49.15; e, por sua intensidade emocional,
6-18 A natureza amorosa do Senhor. lRs 3.26).
Este poema tem um pivô no v. 11, com sua 19-22 O trono eterno do Senhor. Qual
afirmação de ofuscante, dominante (gran- é a reação apropriada diante daquele que
de é traduzido por "predominaram" em domina sobre tudo? A resposta de toda a
Gênesis 7.24), "eterna" misericórdia. O esfera angelical, celestial e cósmica é:
salmo chega ao tema central por meio de "Nós fazemos o que ele quer" ~ suas or-
pares de degraus: (i) os v. 6 e 17,18 con- dens e sua vontade. Então, o que eu devo
firmam ajustiça do Senhor, i.e., seu rígido fazer? Se eu realmente reajo às qualidades
compromisso com sua própria natureza e extraordinárias do Senhor da maneira cer-
propósitos justos: ele nunca faz conces- ta, como indicam os v. 1-5, não devo tam-
sões em sua santidade ou relaxa seus pa- bém obedecer à sua palavra?
drões para exercer seu amor. A justiça é
o selo de todas as suas ações. Aos olhos Salmo 104. Rapsódia da Criação
humanos, muitos erros ficam sem corre- A pompa de "Bendize ao Senhor, Todo-
ção, e opressões não são eliminadas: o v. Poderoso, Rei da criação", comparável
6 diz que o Senhor cuida para que isso não com a exuberância de "Todas as criaturas
aconteça (Gn 18.25); e motivado por sua do nosso Deus e Rei", captura muito bem a
misericórdia, o Senhor cuida para que esse relação entre Gênesis 1 e o salmo 104.
direito prevaleça sobre os que vivem em Este salmo transforma em canção a ver-
obediência dentro de sua aliança (17,18); dade da criação e em maravilha e louvor
(ii) os v. 7,8 e 14-16 contrapõem o que o a teoria ambiental. A sequência do salmo
Senhor manifestou e o que ele conhece. confere com Gênesis 1, e podemos ima-
Podemos ter certeza de que o v. 6 é verda- ginar um poeta meditando naquela grande
deiro por causa da revelação que Deus fez manifestação do Criador e sua obra, e dan-
a Moisés a respeito de si mesmo, ou seja do asas à imaginação.
(cf Êx 34.6), de que ele se comove conos- Existe um amplo paralelo estrutural
co (misericordioso), nos ajuda e socorre entre os dois trechos. O salmo começa
apesar de não merecermos (compassivo), com um prólogo, uma convocação ao lou-
refreia sua ira santa (longânimo) e tem um vor individual e adoração (1), e termina
estoque abundante de "benignidade" (ARe; com um epílogo de adoração e louvor in-
assaz benigno, ARA) que não muda nunca. dividual (31-35). No meio, o corpo do sal-
Ele se revela assim porque conhece a nos- mo segue Gênesis I. Com 2, cf Gênesis
sa fraqueza e transitoriedade (14-16); (iii) 1.3-5; com 3,4, Gênesis 1.6-8; com 5-
os v. 9,10 e 12,13 são os lados positivo e 13, Gênesis 1.9,10; com 14-18, Gênesis
negativo do modo como o Senhor lida com 1.11-13; com 19-24, Gênesis 1.14-19;
o nosso pecado. 10 Pecados, faltas espe- com 25,26, Gênesis 1.20-28; com 27-30,
cíficas; iniquidades, a perversão da nossa Gênesis 1.29-31.
natureza interior. 12 Transgressões, rebe- Um aspecto interessante do modo como
lião intencional contra a vontade revelada este salmo apresenta seu tema é a inespera-
de Deus. O v. 9 indica que Deus, como o da alternância entre as formas com "tu" e as
Juiz (repreende é uma linguagem jurídi- formas com "ele": "tu", 1,6-9,13b,20,24-30;
ca), está exercendo uma função transitória "ele", 2-4,1O-13a,14-19 (lit. "ele fez a lua
em seu relacionamento conosco, enquanto para as épocas"), 31-35. Em sua maioria,
o v. 13 revela que sua paternidade é per- essas mudanças ocorrem em pontos em
manente. Este é o único versículo que usa que o salmo passa para outra seção, mas
837 SALMO 104

não têm nenhuma regularidade observável. Mas ele também é o Cavaleiro das nuvens
Não parece possível ver aqui evidência al- acima de nós, e nos rodeia por todos os
guma de canto antifonal. A questão central lados no vento (3). Além disso, as forças
é que o Criador é, ao mesmo tempo, "ele" invisíveis da ordem criada cumprem a sua
e "tu", um Deus observado em suas obras e vontade, assim como as forças visíveis,
também conhecido pessoalmente. seja o agradável calor de uma fogueira ou
Outro ponto interessante do salmo o terror destruidor de uma bola de fogo.
(embora não possa ser expresso facilmen- Os v. 5-9 aplicam as seguintes imagens do
te na tradução) é que os verbos utilizados Criador em relação à criação: ele projetou
estão ora no tempo "perfeito" hebraico (o sua segurança, determinou sua condição
que está fixo, estabelecido), ora no "im- (Gn 1.2) e, simplesmente usando a palavra,
perfeito" (o que é regular, repetitivo), ora organizou-a em sua forma predeterminada
no particípio (uma situação imutável). Os e duradoura.
verbos no perfeito expressam a perma- 10-23 Criador e criação: criação orga-
nente grandeza e majestade de Deus; a nizada para sustentar a vida. Os v. 10-13
finalidade da obra da criação e sua forma (contidos entre dois verbos,jàzes rebentar
fixa e seus limites e a sabedoria nela evi- fontes ... regas) ensinam que, por obra do
denciada. Os particípios expressam fatos Criador, a criação fornece água para as
imutáveis: a criação dá testemunho de seu criaturas de Deus. 13-18 O crescimento
Criador; o modo como ele provê e cuida sustenta a vida, e os seres que crescem,
de nós não muda. Os verbos no imperfeito assim como a própria forma do mundo,
expressam as obras que Deus realiza repe- fornecem proteção para a vida. Além dis-
tidas vezes para satisfazer as necessidades so, a alternância de dias e noites permite
da terra, suas recorrentes transformações, que as feras e os seres humanos coexistam
provisões, afastamentos, recomeços, além (19-23). A criação é um sistema minucio-
do modo como, de tempos em tempos, ele samente ajustado para permitir a alegria e
toca a terra, controlando suas forças. a manutenção da vida - e isso pela ação
1-9 Criador e criação: transcen- direta do Criador, que faz fontes, rega, faz
dente, habitante, dominante. 1 Bendize crescer a relva e as plantas.
(cf 103.1). Magnificente etc. O Criador 24-30 Criador e criação: o Criador
é transcendente em grandeza. Se glória e é Senhor da vida, morte e renovação. A
majestade são atributos distintos, aquele criação verdadeiramente ferve de ativida-
é sua "importância" intrínseca, enquan- de, desde a menor criatura marinha até o
to este é sua majestade observável. 2-4 indescritivelmente aterrorizante monstro
Vestimenta é sempre uma metáfora para marinho, o próprio Leviatã ("crocodilo",
caráter e compromisso. Se o seu traje é luz, Jó 41.1 ss.), e a constante agitação da hu-
é porque Deus é luz (IJo 1.5) e o Doador manidade. Mas (quer estejam cientes disso
da luz (Gn 1.3; 2Co 4.6). Mas também, ou não) todos dependem da providência do
com a imagem do Criador envolto em luz, Criador, existem somente por causa do que
o salmo passa de sua transcendência para ele dá, estão sujeitos à determinação sobe-
sua imanência. Ele não está distante de rana de Deus quanto à hora de sua morte, e
sua criação (deísmo); nem deve ser iden- a própria vida na terra só continua existin-
tificado com ela (panteísmo); ele habita no do porque ele quer renová-Ia.
mundo que criou. Os céus são as cortinas 31-35 Criador e criação: o santo
de sua tenda (2); o que Gênesis 1.7 chama Criador e seu prazer na criação. A gló-
de "águas sobre o firmamento" é, simples- ria aqui é a glória do Criador manifesta
mente, o alicerce sobre o qual sua morada no universo que ele criou. Se ele retirasse
(3) se eleva, muito além da nossa vista. essa glória, o universo desapareceria. Só
SALMO 105 838

ele dá ao universo as condições para sua Mas ele é mais do que isso, pois toda a ter-
existência e estabilidade. Embora pareça ra está sob o seu comando. O v. 8 antecipa
sólido, sua fragilidade é total, em rela- a extensão do período histórico que o sal-
ção aos olhos e ao toque do Senhor. Um mo cobre. Ele recorda (Iit. "ele lembrou")
Criador como esse é digno de incessante os séculos que se passaram e afirma, como
louvor, mas a arrogância não tem lugar, e fez Josué a respeito do mesmo período:
nós só podemos rogar para que nossa po- "Nenhuma promessa falhou de todas [...]
bre canção seja agradável a Deus, pois ele que o SENHOR falara [...]; todas vos so-
é o Santo e os pecadores não tem nenhuma brevieram" (Js 21.45; 23.14). Aliança,
segurança final em sua criação (35). Então, um compromisso assumido espontanea-
o que minha alma pode fazer depois de mente por Deus, não uma barganha ou
meditar nas maravilhas do Criador, senão um toma-lá-dá-cá, mas uma declaração
bendizê-lo e louvá-lo? clara e soberana de que ele é Deus para
Abraão e seus descendentes, e de que eles
Salmo 105. "Não só com os são seu povo. Consequentemente, a alian-
lábios, mas com a nossa vida" ça é definida mais adiante como a palavra
A Bíblia não contém "poesia narrativa", no que empenhou ... juramento que fez (8,9).
sentido usual do termo, que é contar uma É sua promessa, e ele fará com que seja
história de forma poética. Salmos como cumprida. 9 Fez, (lit.) "cortou", a palavra
78; 105; 106; 136 de fato não parecem técnica para a celebração oficial de uma
estar interessados numa narrativa em si, aliança (Gn 15.18). Com Abraão, portanto
sendo mais uma série de alusões a eventos conosco, os descendentes de Abraão (Rm
bem conhecidos com o objetivo de levar a 4.11,12,16,23-25; Gl 3.6-9; 4.28-31), cuja
uma determinada conclusão. O salmo 105 história é a nossa história, cujo chamado
repassa a história de como Deus tratou o é o nosso chamado e de cujas promessas
seu povo: primeiramente, o período pa- somos herdeiros. 10 Decreto, um compro-
triarcal (Gn 12-50), aludindo à celebra- misso imutável. 11 A aliança foi expressa
ção da aliança (v. 7-11), o período nômade em múltiplas promessas (Gn 17.1-7) e,
em Canaã (v. 12-15) e a história de José dentre essas, uma é escolhida - a promes-
no Egito (v. 16-22); em seguida, o período sa da terra - para atestar a fidelidade do
do êxodo (Êx 1-12): Israel entrando no Senhor. É com a nota triunfante do cumpri-
Egito (v. 23-25), Moisés e as pragas (v. 26- mento dessa promessa que a retrospectiva
36), Israel saindo do Egito (v. 37,38); em termina (44).
terceiro lugar, a peregrinação no deserto (v. 12-15 O Senhor protegendo. Estes
39-43; Êx 13-19) e a entrada em Canaã versículos cobrem o mesmo período que
(v. 44; Josué). A recapitulação abrange Hebreus 11.8-10,13. A terra era deles, mas
muitos anos, mas traça um perfil: um Deus eles viviam nela como forasteiros, "es-
fiel, que faz promessas e as cumpre, mis- trangeiros" (12). Sua existência nômade,
terioso em seus métodos, mas sempre cui- apátrida, fazia com que eles passassem
dadoso com seu povo, sempre planejando das mãos de um rei para as de outro (13),
com antecedência para o seu bem, sempre e a única terra que realmente possuíam era
suprindo suas necessidades. a cova (Gn 23). Quão misteriosas são as
7-11 O Senhor prometendo. Como de providências de Deus para com seu povo!
costume, o que o Senhor faz por seu povo é Prometer uma terra e deixá-los sem terra!
considerado contra o pano de fundo de seu Mas nunca desprotegidos - nem mesmo
domínio universal. Para cumprir a promes- quando suas próprias loucuras pareciam ter
sa feita a Abraão (Gn 15.18-21) ele preci- feito Deus perder a boa-vontade para com
sa ser também Senhor sobre os amorreus. eles (Gn 12.10-20; 20.1-18; 26.1-11), ou
839 SALMO 105

quando enfrentaram as potências mundiais Mas quão maravilhosos são os seus cami-
reunidas (Gn 14). 15 Ungidos, separados nhos (Rm 11.33-36)! Ele conduziu o povo
para Deus em status e função. Profetas (cf até perigos e ameaças (25), e então revelou
Gn 20.7, em que Abraão é o primeiro na o esplendor de seu poder redentor. Ele pre-
Bíblia a ser chamado de profeta). parou um homem (26), um poder suficien-
16-22 O Senhor antecipando. O te contra todo o poder do inimigo (27-36)
Senhor não só detém o poder sobre toda e uma gloriosa libertação (37,38).
a terra (7), como determina exclusivamen- Observe a estrutura dos v. 28-36. A
te os eventos terrenos (16). Mais uma vez narrativa começa com a nona praga e o
estamos diante de um mistério, pois não resultado final de toda a ação (28b é uma
podemos rastrear os caminhos e padrões afirmação de que, ao final da sequência de
da divina providência. Mas mesmo quan- pragas, os egipcios amedrontados não se
do não podemos entender por que ele fez rebelaram mais). Em seguida, a narrativa
vir esta ou aquela situação, ou por que ne- retrocede para contar os passos que leva-
cessidades básicas foram cortadas de nós ram àquele resultado (29-35): a primeira
(16), podemos ter certeza de que ele ainda (29; Êx 7.14ss.), segunda (30; Êx 8.lss.),
está no trono (fez vir. .. cortou) e que ele quarta e terceira (31; Êx 8.20ss., 16ss.), sé-
tomou providências para garantir nosso fu- tima (32,33; Êx 9.13ss.) e oitava (34,35;
turo (Adiante deles enviou um homem, 17). Êx 10.1ss.) pragas, chegando assim nova-
Entretanto, embora vejamos que José foi mente ao clímax, desta vez na terrível dé-
uma "providência antecipada", o elemento cima praga (36; Êx 11; 12).37 (Êx 11.2,3).
de mistério permanece ~ aliás, o misté- 38 (Êx 12.30-33).
rio público do v. 16 é reeditado no nível 39-42 O Senhor providenciando.
individual: se José era o homem de Deus Esta seção conclui tanto a revisão histó-
no lugar determinado por Deus para o tem- rica quanto o próprio salmo. A revelação
po de Deus (Gn 45.5-8; 50.20), por que do Senhor é completada quando o vemos
ele sofreu tanto (18)'1 "Não vos compete suprindo as necessidades diárias de seus
conhecer", disse o Senhor Jesus a respeito peregrinos. Ele cuida (39) de sua orienta-
de outro assunto (At 1.7), mas sua respos- ção (Êx 13.21,22) e segurança (Êx 14.19),
ta deve ser suficiente neste caso também. e atende orações (até mesmo suas mur-
Tudo o que nos é permitido saber é que o murações), fornecendo-lhes comida (40;
Senhor agia segundo sua eterna sabedoria Êx 16.12,13,14ss.) e água (41; Êx 17.1-7).
para cumprir sua palavra (19) e ter uma Mas ele fez tudo isso porque tinha dado
autoridade no Egito para receber e alimen- sua palavra a Abraão (42; cf. 8, estava lem-
tar seu povo necessitado. brado... da palavra; 9) ~ um Deus fiel
23-38 O Senhor redimindo. Veja que mantém a promessa feita!
como esta longa seção está localizada en- Qual deve ser nossa reação diante de
tre Israel entrando (23) e saindo (38) do um Deus assim e de tal demonstração de
Egito. Não foi por qualquer de seus peca- firmeza no cumprimento das promessas,
dos que eles entraram no Egito, mas por proteção e antecipação de necessidades,
ordem divina e debaixo da promessa divina livramento e providência? Devemos cor-
(Gn 46.3,4); também não foi por nenhum responder com ações de graças e canções
de seus pecados que eles passaram a ser (1,2), glorificando o que o Senhor revelou
hostilizados no Egito. Aliás (25), foi pela sobre si mesmo (nome), cultivando com
ação de Deus! Novamente nos defronta- empenho nossa relação com ele (3,4, bus-
mos com o mistério da providência divina. cai... buscai, não como quem procura por
Seus pensamentos não são os nossos, nem algo perdido, mas indo constantemente,
os nossos caminhos são os dele (Is 55.8). assiduamente, ao local onde sabemos que
SALMO 106 840

ele pode ser encontrado), mantendo seus era contrabalançado por imerecidas mise-
grandes feitos sempre vivos na memória ricórdias (40-43), compaixão para ouvir
(5) e divulgando as notícias de seus atos pedidos de socorro (44) e fidelidade no
por todo o mundo (1): um programa para cumprimento da aliança e no amor (45).
a língua, no louvor e testemunho, para o Esta é a lição da nossa história: a nossa in-
coração, na "busca" do Senhor, e para a fidelidade e a fidelidade dele.
mente, na lembrança cuidadosa. 1-5 Louvor e oração. O salmo começa
Porém, ainda há mais. Os v. 43,44 for- com a nota de louvor e oração, e termina
mam uma conclusão que combina com o com as notas de oração (47) e louvor (48).
louvor do início. Os que testemunharam Pois a história fala de um amor que nunca
em primeira mão o que o Senhor fizera acaba (1) e de um Deus igualmente imu-
por eles regozijaram-se e estavam felizes. tável (48), estimulando o louvor do seu
Deus tinha sido bom para eles, dando-lhes povo - embora eles saibam que nenhuma
a terra como presente em cumprimento da língua mortal está à altura dessa função.
promessa (44), exatamente como haviaju- O salmo nos garante que a oração vale a
rado a Abraão que faria, mais de 400 anos pena, pois o indivíduo não é esquecido
antes (Gn 15.7-16). Mas a simples alegria nos planos do Senhor para o seu povo, e
estava aquém da resposta que ele desejava: o povo não é esquecido, ainda que esteja
tudo o que ele fizera tinha o objetivo de espalhado por todo o mundo. É interessan-
criar para si um povo que pudesse obede- te que o início e o final do salmo também
cer à sua palavra (45). Sem isso, o louvor é abordam a questão da bênção (3,48, lit.,
mero barulho religioso (Am 5.23,24). "Bendito seja o Senhor"), embora usando
palavras hebraicas diferentes. O caminho
Salmo 106. "Uma canção da obediência é o caminho da bênção (3),
que é música para ti" mas se a história acabasse aí, onde estarí-
Em sua maior parte, o salmo 106 recapi- amos nós com toda a nossa ficha corrida
tula a história de Israel começando pelo de incessante decadência? Porém, há um
êxodo (6-12; Êx 14), entrando pelo deserto Deus que merece ser bendito (cf 103.1):
(13-18; Nm 11.4-34; 16), seguindo até o O Deus salvador, sempre fiel, compassivo,
Sinai (19-23; Êx 32.1-6,9-14), dali para amoroso, perdoador, libertador, que ouve
as fronteiras de Canaã (24-27; Nm 14), a oração. A isso, todo o povo diz: Amém!
passando pelos episódios de Baal-Peor e Aleluia! (48) - inclusive nós, cujo catálo-
Meribá (28-33; Nm 25.1-15; 20.2-13), até go de fracassos é listado nos v. 6-39.
finalmente chegar à entrada na terra pro- 6-12 A negligência do homem. A sal-
metida (34-38; Jz 1.21,27-36; 3.3,5 etc.). vação de Deus. Pecamos, como nossos
É uma triste história de pecado (6), ne- pais (6). Não se trata apenas de sermos
gligência, esquecimento (7,21), obediência iguais a eles no pecado, mas de estarmos
passageira (12,13), satisfação dos próprios junto com eles num contínuo de pecami-
desejos (14), insatisfação com as provisões nosidade. Eles e nós "agimos mal e per-
de Deus (16), idolatria (19), desobediência versamente" - uma falha na nossa nature-
(24,25), fracasso na hora de tomar posse za (perversão) e na nossa vida (agir mal):
da herança (26), deslealdade (28), provo- cegos às maravilhas que o Senhor realiza,
cação (32), concessões (34,35) e corrupção esquecidos de suas misericórdias (7, lit.,
religiosa (37-39). Mas (com maior ênfase), "da abundância de seus atos de amor imu-
é também uma história de salvação divina: tável") e cheios de rebeldia provocada por
em poder (8-11), disposição para se deixar incredulidade (Êx 14.10-12) - fracos de
persuadir a ter misericórdia (23,30), fre- entendimento, curtos de memória e in-
quentes episódios em que o castigo justo constantes na fé. Mas o Senhor continua
841 SALMO 106

(8-11) agindo, por amor do seu nome, i.e., AI (v. 1-5) Louvor e oração
porque isso é próprio de sua natureza, li- B 1 (v. 6-12) O esquecimento do ho-
dando com nossos adversários humanos mem: Salvação de Deus
e circunstâncias adversas, operando uma CI (v. 13-18) Insatisfação com as
salvação completa (Êx 14.13,14,30,31) provisões de Deus
e recebendo como retribuição um louvor DI (v. 19-23) Religião falsa:
tristemente efêmero (cf 13). Moisés
13-18 Insatisfação de um povo inte- E (v. 24-27) A palavra e a
resseiro e sem moderação. Eles não se voz
lembravam do Deus do passado tampou- D2 (v. 28-33) Religião falsa:
co consultavam o Deus do futuro (13), e, Fineias
consequentemente, foram vítimas de suas C2 (v. 34-38) Insatisfação com o
próprias emoções impuras: primeiro, se Senhor
cansando da provisão de Deus para seu B2 (v. 39-46) A rebelião do homem:
sustento (14; Nm 11.4-6, cf Jo 6.35ss.); lembrança de Deus
depois, ressentindo-se da autoridade que N (v. 47,48) Oração e louvor
ele escolhera para governar a comunida-
de (16; Nm 16.3). Nos dois casos, a graça A concisão da seção central toma tudo
de Deus foi perdida e o castigo se seguiu. ainda mais dramático, uma verdade que
Chega um ponto em que nossa oração pode não precisa de explicações complicadas: o
se transformar numa insistência teimosa pecado principal do povo de Deus é não
em que as coisas aconteçam do nosso jeito aceitar a sua palavra. 24 (lit.) "não acredi-
e, como justo castigo, Deus nos dá o que taram na sua palavra"; 25 (lit.) "não ouvi-
teimamos em conseguir (15). Da mesma ram a voz do Senhor". Este é o privilégio
forma, chega um ponto em que, ao contrá- de ter a palavra de Deus e a razão pela qual
rio do que poderíamos pensar, insistimos nosso pecado principal é ignorá-la: a pala-
em ter o que Deus deseja. Moisés e Arão vra de Deus é a voz viva de Deus.
eram a melhor escolha de Deus para seu 28-33 Religião falsa: Fineias como
povo, e disso ele não abria mão (16). O v. mediador. Como Moisés no v. 23, Fineias
12 retrata a maneira correta de viver com se interpôs e a ira foi desviada. Moisés, com
Deus, à luz de seus atos salvadores (cf sua oração autossacrificial (Êx 32.31,32)
8-12) e de enfrentar o futuro à luz de sua chegou mais perto do perfeito Mediador
palavra de orientação e aconselhamento. que, inconscientemente, ele prenunciava.
19-23 A religião falsa: Moisés como A graça permitiu que ele desviasse a ira,
mediador. 19,20 (Rm 1.21-25). Toda re- mas ele fez isso tomando-se maldição em
ligião criada pelo homem envolve pen- nosso favor (3.13), tomando-se pecado em
samentos baseados em modelos terrenos, nosso lugar (2Co 5.21). Mas, se Moisés
confiança numa salvação do tipo faça- prefigurou o Senhor Jesus em sua oração,
você-mesmo e substituição do Deus eterno Fineias fez isso na condição divina de jus-
por algo que precisa de ajuda para conti- tiça que lhe foi imputada como mediador,
nuar existindo; e, quando nos desviamos, antecipando aquele que Isaías chama de
o motivo básico é sempre o fato de termos "meu Servo, o Justo" (Is 53.11; Hb 7.26).
nos esquecido do poder salvador do único O segundo incidente (32,33) incluído
Deus verdadeiro. Mas mesmo quando isso nesta estrofe completa o primeiro: se jun-
acontece, o Senhor aceita a intercessão de taram a Baal-Peor. .. o provocaram à ira
um mediador (Hb 7.25). (28,29). Apesar de já terem estado nessa
24-27 A palavra e a voz. Este é o pivô mesma situação antes (Êx 17), a falta de
do salmo. água (Nm 20.3ss.) provocou uma revolta
SALMO 107 842

contra Moisés, um arrependimento amar- babilônico, mas sua inclusão nas come-
go por terem deixado a escravidão no morações quando Davi levou a Arca para
Egito, preferindo morrer a viver do jeito Jerusalém (1Cr 15; 16) contraria essa hi-
que Deus designara para eles. Não admira pótese. No salmo, as nações são um lugar
que isso tenha sido demais para Moisés! O de dispersão, um laço e uma força domi-
velho Moisés de Êxodo 2.11,12 espreitava nadora. Não houve nenhum período, des-
dentro do homem conhecido por sua man- de a primeira entrada em Canaã, em que
sidão (Nm 12.3), aguardando uma oportu- isso não estivesse acontecendo em maior
nidade para se manifestar! Moisés pagou ou menor grau. É melhor interpretar o sal-
caro por ter deixado que seu temperamen- mo como sendo simplesmente o cântico da
to colérico o levasse à desobediência (Nm igreja no mundo, sujeita a suas seduções,
20.12). Desobediência à palavra de Deus vencida por seus poderes, perdendo sua
é o pecado principal (cf v. 24-27). 27 (Cf identidade pelo comprometimento com o
Lv 26.33; Dt 28.64). mundo, mas ansiando e orando por melho-
34-38 Insatisfação com o Senhor. res dias, e louvando o Deus que, em meio
Mais uma vez, todas as coisas ruins foram à inconstância de seu povo, é o mesmo de
fruto do pecado básico de desobediência eternidade a eternidade.
(34). Com relação à ordem para extermi-
nar, primeiramente (como Gn 15.16 mos-
tra), a destruição ordenada era um justo
juízo de Deus após 400 anos de sursis. 5
Não foi uma ordem arbitrária ou apres-
sada, mas uma solene decisão judicial do Salmo 107. Todos podem orar
Deus santo. Em segundo lugar, naque- Uma das delícias deste salmo é a repetição
le estágio da história do povo de Deus, - repetidas descrições de situações amea-
essa era a única maneira de garantir uma çadoras (4,5,10,17,18,23-26), repetidos
separação adequada do mundo. Ao recu- recursos à oração (6,13,19,28), repetidas
sarem essa condição de povo separado, respostas divinas (6,7,13,14,19,20,28,29),
eles se tomaram um povo dividido na sua repetidas convocações à gratidão (8,15,21,
lealdade (35-39) - é sempre assim. 35 31). Quem são essas pessoas? É muito co-
(Jz 3.5,6). 36 (Jz 2.12ss.). 37 (2Rs 16.3). mum associar o salmo à volta do exílio na
38 Como a própria criação é uma coisa Babilônia, mas isso não combina com a
santa, ela pode ser contaminada - de fato, cosmovisão que o salmo pressupõe a res-
ela é uma força moral que opera contra os peito das pessoas congregadas (3). Outros
contaminadores (Gn 3.18; Lv 18.25). identificam um retrospecto mais amplo da
39-46 Rebelião humana, lembran- história de Israel: do deserto para Canaã
ça de Deus. Esses versículos refletem a (4-9), do Egito e Babilônia para a terra
tensão dentro da natureza de Deus que o prometida (10-16), da "morte" (17-22)
livro de Juízes registra em detalhes. Com e "tempestade" (23-32) do exílio para a
ira santa, ele reage à deserção de seu povo vida e paz. Mas, ainda assim, a posição do
fazendo com que seus inimigos os domi- salmo é deliberadamente mundial, e cabe
nassem. Contudo, não foi o retomo deles perguntar que reunião é essa do Ocidente?
à santidade que o comoveu, mas simples- A expressão e do mar, usada no original
mente sua miséria e a própria fidelidade hebraico do v. 3, possivelmente significa
divina à palavra dada. "e de além-mar".
47,48 Oração e louvor. Congrega- Outro ponto interessante de tradução
nos de entre as nações pode indicar que diz respeito aos v. 4,10,17,23, nos quais se
este salmo foi escrito durante o cativeiro pode interpretar que quatro grupos estão
843 SALMO 107

subentendidos. Mas, em vez disso, o he- lidar com todo tipo de circunstância, sob
braico sugere que as mesmas pessoas são quaisquer condições, e que é em resposta à
descritas sob quatro ângulos diferentes: os oração que o Senhor amoroso nos socorre
perigos dos quais a divina redenção (2) e o (6,13,19,28). O povo do Senhor na terra
amor de Deus (1,8,15,21,31,43) nos tira- está sempre sob seu cuidado redentor, é
ram - a todo o povo do Senhor. É assim constantemente esbofeteado pelas circuns-
que o salmo deve ser entendido. O salmis- tâncias, externa e internamente, e necessita
ta está meditando sobre uma das grandes constantemente do recurso da oração.
festas de "peregrinos" da igreja pré-exílica 4-9 Perdidos num mundo imenso: o
(Êx 23.14-19). Ele vê a reunião de pes- amor que nos traz de volta para casa.
soas vindas dos lugares mais distantes e Os remidos frequentemente "não sabem
lembra que as promessas feitas a Abraão para onde ir" (4) e anseiam pela seguran-
(Gn 12.1-3; 18.18; 22.18; 28.14; SI 47.9), ça de uma verdadeira cidade, assim como
agora focalizadas na casa de Davi (SI 72.8- Abraão, que, vivendo na insegurança da
11), prometiam uma reunião do mundo in- vida nômade, ansiava pela "cidade que tem
teiro. Embora para ele - assim como para fundamentos, da qual Deus é o arquiteto
nós (Ap 7.9-17) - a concretização ainda e edificador" (Hb 11.9,10). Nós também
estivesse no futuro, cada individuo e cada muitas vezes chegamos a um ponto em que
geração do povo de Deus pode desfrutar "não conseguimos mais suportar" (5). Mas
da realidade de pertencer ao povo reunido, podemos orar (6). Nesta vida, muitas vezes
adorando o amor que redimiu (1,2) e salva descobrimos que o que antes nos parecia
(8,15,21,31) e deve sempre ser o foco dos um caminho tortuoso acabou se revelando
nossos pensamentos (43). a estrada reta da direção divina (7); e certa-
1-3 Amor redentor. Ao longo de todo mente isso ocorrerá se, depois que entrar-
o salmo, a palavra misericórdia signifi- mos no céu, pudermos entender tudo o que
ca aquela determinação tema, imutável e nos aconteceu aqui. As situações que, na
leal do Senhor de nunca abandonar os que época em que ocorreram, nos deram a im-
escolheu para si. Essa misericórdia ma- pressão de estarmos num verdadeiro labi-
nifestou-se na redenção (2) - a obra do rinto, serão vistas como eram na realidade:
"resgatador" que tomou sob sua respon- um caminho reto e sem desvios, indo da
sabilidade todas as necessidades de seus conversão à glória. Esta é a obra "sobre-
parentes ameaçados, levando suas cargas e natural" de Deus (maravilhas, 8) que nos
salvando-os do perigo. farta (agora mesmo, mas ainda mais no fu-
4-32 As quatro imagens. A primeira turo, Ap 7.16,17).
imagem do livramento do perigo na terra 10-16 Encerrados num mundo res-
(4-9) é equilibrada pela quarta, o perigo no trito: o amor que nos liberta. No jardim
mar (23-32). O contraste indica livramento (Gn 3), o propósito da serpente era fazer
em e de cada problema que nos afeta na a palavra de Deus parecer artificialmen-
vida terrena. A segunda (10-16) e terceira te restritiva, uma injustificada negação
imagens (17-22) se concentram em proble- da liberdade humana. O homem e a mu-
mas espirituais - indivíduos rebeldes em lher descobriram tarde demais que só se
relação a Deus (11,17) trazendo sobre si comprometendo a obedecer à palavra de
escravidão (10) e autodestruição (17), i. e., Deus é que eles desfrutariam de liberdade
o fato de que o pecado nos toma inimigos (cf. SI 119.45). A rebelião contra a pala-
de Deus, nos priva da liberdade que ele vra trouxe escravidão. Isso explica nos-
promete e corrompe a nossa natureza. A sa condição (10,11). Cf Gênesis 3.16-19
união das quatro imagens oferece a garan- com v. 12. Nunca saberemos quantas ve-
tia de que o amor redentor e imutável pode zes a misericórdia divina nos protege de
SALMO 107 844

nossas escolhas erradas; mas, às vezes, dedicação. Nos v. 31,32, o sentimento de


com o mesmo amor, Deus permite que a gratidão leva à participação como mem-
barreira caia e que nós experimentemos a bro da comunidade de adoradores.
amarga servidão que nós mesmos provoca- 33-43 Amor providencial e atencioso.
mos. Entretanto, mesmo nesse caso, ainda Nestes versículos, duas imagens contras-
podemos orar (13) e descobrir que - ago- tantes (33,34 e 35,36) são interpretadas
ra parcialmente; no futuro, totalmente em ordem inversa como duas experiências
(Fp 3.20,21) - a graça responde à oração opostas da vida humana (37,38 e 39,40).
com livramento (14-16). O salmo termina comentando que existe
17-22 Prejudicados num mundo pe- uma verdade que os retos veem (42) e um
caminoso: o amor que nos torna íntegros. pensamento no qual o sábio se concentra
Para a nossa natureza intrínseca, o pecado (43). As imagens são, respectivamente,
é sempre "nosso alvo", (lit.) nos abaten- a do fértil se tomando infértil (33,34), e
do (17) e nos levando às portas da morte a do infértil se transformando para sus-
(18) - o duplo desastre da autodestruição tentar a vida e proporcionar segurança
agora e perda eterna no futuro. No v. 11, (35,36). Isto acontece com tanta frequên-
rebelado reflete a obstinação dos rebeldes; cia: em determinados períodos, tudo dá
no v. 17, caminho de transgressão indica certo e ocorre uma prosperidade invejá-
intencionalidade. Mas, ainda assim, pode- vel (37,38); mas também há épocas de
mos orar (19). Por meio da oração vem o recessão, quando depois da dificuldade
grande antídoto para o veneno do pecado, vem a calamidade (39) e os líderes não
a palavra de cura (20). Assim como a fonte apresentam nenhuma solução (40); mas,
de nossa condição espiritual deplorável é a depois, a prosperidade é recuperada e os
rejeição da palavra (11), a recuperação da necessitados recebem proteção (41). O
integridade espiritual (20) ocorre quando a que há nisso tudo que os retos (os que
palavra retoma à nossa vida. estão em ordem com Deus e honram o
23-32 Açoitados num mundo hostil: compromisso de viver uma vida justa)
o amor que nos traz paz. A navegação veem? Primeiramente, que toda circuns-
é uma imagem perfeita para a nossa ex- tância é dirigida pelo Senhor, que não é
periência nesta vida: vamos cuidando de um observador externo, mas sim um dire-
nossos afazeres legítimos (23) quando, tor executivo. É ele que realiza transfor-
"de um claro céu azul", vem a tormenta mações em ambas as direções. A maneira
que descontrola nossos cálculos, destrói mais prática de viver é andar em ordem
nossos bens tão queridos, nos deixa impo- com aquele que dirige tudo. Em segundo
tentes nas garras de forças absolutamen- lugar, as providências de Deus são mo-
te irresistíveis (25-27). Toda tempestade rais. Se a terra fértil se toma árida, isso
é uma intimação à confiança, pois não é é um castigo pelo pecado (34); portanto,
um acontecimento fortuito nem um plano os retos devem insistir na santidade. Em
satânico: é a tempestade de Deus (25) e, terceiro lugar, quando a prosperidade
no momento certo, a mesma mão que agi- vem, ela não é uma recompensa por bom
tou a tormenta a fará sossegar (29). Toda comportamento, mas um ato genuíno de
tempestade é um chamado à oração (28a), preocupação divina com os necessitados
que é eficaz até mesmo contra as mais po- (41). Por essa razão, a verdadeira sabedo-
derosas forças contrárias. A porta da ora- ria (43) sempre contempla as misericór-
ção é a entrada para a paz (29,30). Nos dias do Senhor - aquele amor imutável,
v. 21,22, o reconhecimento foi dirigido a inesgotável e tão cheio de facetas que
Deus, na oferta de um sacrifício que ex- nele (em resposta à oração) está a solução
pressa a nossa gratidão e confirma nossa para qualquer necessidade.
845 SALMO 109

Salmo 10S. Uma receita ele prove ser o que realmente é (1-5). (ii)
para a hora da aflição As promessas de Deus cobrem a crise (7-
Embora este salmo seja composto de par- 9). O Senhor já havia se comprometido de
tes de dois outros (1-5, SI 57.7-11; 6-13, antemão com a sujeição de Edom. A oração
SI 60.5-12), ele não é uma (simples) anto- baseada em promessas tem resposta garan-
logia. Mesmo que não soubéssemos nada tida (6). (iii) O poder de Deus é suficiente
sobre os salmos 57 e 60 (que podem ser para resolver a crise (10,13) e, em resposta
consultados a respeito dos detalhes deste à oração, ele voltará a favorecer seu povo e
salmo), o 108 ainda assim se destacaria prestar-lhe o socorro necessário (11,12).
por seus próprios méritos. A inimizade de
Edom era um cenário constante na vida Salmo 109. A consagração da ira
de Israel (cf Am 1.11) e podemos presumir O salmo 109, o mais explícito dos salmos
que a crise edomita do salmo 60 não foi imprecatórios (v. Introdução, Imprecações),
a última de que Davi ouviu falar naquela atraiu muita "publicidade ruim". Comenta-
região em permanente agitação. Em algum ristas fazem fila para declarar que ele é de-
desses momentos críticos, Davi se baseou ficiente em ideais cristãos, que contraria
em sua salmódia anterior e adaptou-a a no- o espírito do evangelho, e alguns tentam
vas necessidades. O poema se divide em contornar sua dureza tratando os v. 6-19
três estrofes unidas por uma ligação do tipo como uma citação do que os inimigos do
dominó: a primeira estrofe (1-5) termina salmista diziam contra ele. Embora os
com oração, e a segunda (6-9) abre com salmos não indiquem necessariamente
oração. A primeira se baseia na realidade onde começa a fala de um novo orador, é
da misericórdia do Senhor (4), e a segunda questionável que este seja o caso aqui: (i)
começa com os teus amados (uma palavra a mudança de vários inimigos (2-5) para
diferente, "os que te são queridos"). A se- um inimigo único (6-19) tem paralelo no
gunda estrofe termina com uma referência salmo 55; (ii) atribuir 6-19 aos inimigos do
a Edom (9), e a terceira (10-13) começa salmista não diminui o problema, pois, no
com o problema de Edom. v. 20, o salmista repete os sentimentos em
Cada estrofe contém oração: primeira- tom pessoal e, em princípio, não há nada
mente para que Deus seja glorificado (5); em 6-19 que não possua algum paralelo na
depois, para que seu povo seja liberto (6); Bíblia. (iii) Além disso, Atos 1.16-20 con-
e, finalmente, para que a crise seja resol- cede a este salmo a honra de total inspira-
vida (12). Esta é uma sequência correta ção e vê o v. 8 como algo dito contra Judas.
de oração bíblica, e é bastante razoável Como acontece em muitos outros salmos,
apontá-la como uma das principais lições a experiência de Davi prefigura a de Jesus,
do salmo. Mas a oração obtém sua confian- o supremo, verdadeiro e santo emissor das
ça de verdades a respeito de Deus, e cada palavras de maldição.
estrofe põe em destaque uma determinada Portanto, será que o salmo diverge re-
verdade: (i) A misericórdia de Deus (4) é almente do espírito e dos ideais do NT? (i)
"imutável para sempre" ~ sua fidelidade é O salmista não desmente o dever de amar:
comparável à coisa mais alta que podemos os v. 4,5 começam e terminam com a afir-
observar, além das nuvens, mas sua mise- mação do seu amor ("amizade", NVI, é uma
ricórdia é ainda mais alta, i.e., seu com- tradução muito fraca) por seus inimigos,
promisso de amor conosco é a coisa mais e os tempos presentes indicam que esse
elevada que existe. Por isso, podemos en- amor se manteve durante toda a situação
frentar uma crise com coração imperturbá- de inimizade. Talvez em lugar de identifi-
vel, glorificando a Deus de forma audível e car aqui uma discordância do princípio do
pública, e orando para que, nessa situação, amor (Mt 5.44), devêssemos perguntar se
SALMO 109 846

nossa compreensão a respeito do amor mas porque são elevados demais para que
está correta. Será que o Senhor Jesus dei- nós os imitemos sem correr perigo".
xará de amar os seus inimigos quando os 1-5 Oração por ação divina. 1 A es-
submeter à "ira do Cordeiro" (Ap 6.16)? piritualidade do salmista durante todo esse
(ii) O salmista não tem espírito nem atos período terrível é notável: ele mantém o
vingativos. Ele diz, no v. 4, (lit.) "mas louvor (I) e a oração (4), a penosa práti-
eu sou uma oração", significando: "todo ca de jejuar (24) e sua dedicação à adora-
o meu ser se identifica com a prática da ção pública (30). Essas são as coisas que
oração". Portanto, ele não revidará. Sua nossa qualidade espiritual inferior permite
resposta aos danos sofridos e à maldade que evaporem quando estamos sob pres-
dos outros é levar o problema a Deus e são. Além disso, diante da difamação, das
deixá-lo lá - uma expressão perfeita de mentiras, da animosidade e dos ataques (3,
Romanos 12.19. Mesmo que suas orações guerra), ele conserva o amor por seus ini-
fossem censuráveis em palavra ou espíri- migos (4,5), não permitindo que sua reação
to, seu modo de agir é preferível aos dos seja determinada pelo tratamento desigual
que jogam bombas, ateiam incêndios cri- que eles lhe dispensam.
minosos ou espoliam as pessoas em opera- 6-19 Oração por justiça divina. Esta
ções comerciais inescrupulosas. (iii) Mas seção divide-se em duas partes: (i) Os v.
as orações dele são censuráveis? O que 6-15 formam um poema equilibrado de
nos repele não é o fato de que ele orou, cinco estrofes. A primeira (6,7) solicita
mas o realismo com que ele expressou um veredicto de culpado numa corte hu-
suas orações. Quando certo nível de hos- mana, e a última (14,15), de culpado sem
tilidade perturba nossa vida confortável, perdão diante de Deus; a segunda (8,9) e a
levantamo-nos para dizer "Senhor, me quarta (12,13) se unem na perda do direi-
ajuda a amar meus inimigos como Jesus to de posse da vida, tanto para o indivíduo
ensinou e, por favor, lida com eles por quanto para seus descendentes; a estrofe
mim". O salmista foi mais realista: como do meio (10,11) é a mais terrível: nin-
Deus vai "lidar" com eles, senão do modo guém peca sozinho, e nossos filhos estão
que ele revelou em sua palavra? Os que embrulhados junto conosco no pacote da
fazem acusações falsas devem receber o vida, para o bem e para o mal (Pv 20.7).
mesmo que queriam que o outro sofresse Conforme observado acima, essas orações
(Dt 19.16-19, cf 2 com 6); os que desobe- dão expressão a inevitabilidades bíblicas:
decem não têm possessão na terra (Dt 4.1, é assim que é a vida sob o domínio de um
cf 8); os pecadores trazem calamidades Deus terrível e santo. 6 Ímpio, a mesma
sobre seus descendentes (Êx 34.7, cf. 9- palavra usada no v. 2 (lit. "a boca de um
12). Se nos refugiamos na fantasia, fazen- homem ímpio"). Assim, o mal volta para
do um pedido genérico quando o salmista aquele que o cometeu. 7 [Seja] tida como
ousou expressar realismo bíblico, devería- pecado, a sua oração (lit.) "que a sua ora-
mos pelo menos ter consciência do que ção se torne um pecado" - nem mesmo
estamos fazendo. o caminho da oração não é solução para
Mas nosso retraimento é compreen- ele. 14 Nas Escrituras (cf Mt 23.29-35),
sível e concorda com o alerta de Paulo nossa herança pecaminosa nunca serve
(Ef 4.26), de que a ira admissível é vizi- de justificativa para nós; ao contrário, ela
nha do pecado. J. L. McKenzie (American nos põe debaixo do pecado acumulado do
Ecclesiastical Review, Ill, 1944, p. 81-96) passado. Não estamos atados de um modo
questiona se "os salmos imprecatórios não fatalista (Ez 18), mas, se não nos arrepen-
são um modelo para nós, não por terem dermos e negarmos esse legado, somos
um grau de perfeição menor que os outros, seus herdeiros.
849 SALMO 113

que ele fez a respeito de suas maravilhas") relacionamentos e justo no caráter. (iii)
(cf Êx 3.15). Seu nome diz tudo que ele 5,6 Generosidade e segurança. Tão certo
quer que seu povo saiba sobre ele. Ele tem como a luz nascerá nas trevas, ditoso será
prazer em conceder graça imerecida e é - observe como a ênfase ainda recai so-
movido por afeição emocional (misericor- bre um caráter firme - o homem que se
dioso, cf IRs 3.26) por eles. Ele os remiu compadece (5a, a mesma palavra que ge-
(9) - redenção chama a atenção sobre o rou benigno em 4b; IIIAb), praticando a
pagamento do preço do resgate: ele assu- liberalidade (empresta), e vive com juizo,
miu todo o "custo" de sua libertação - e i.e., aplicando princípios de justiça por
levou-os a fazer uma aliança com ele. Por meio de decisões corretas. (iv) 7,8 Ameaça
lembrar sempre a sua aliança, ele os ali- e confiança. A vida do justo não é um mar
mentou (no deserto), levou-os para dentro de rosas. Más noticias vêm (agora não
da terra e lhes deu sua lei fiel para que são mais as trevas de 4a, mas hostilidade
vivessem por ela (5-7). Assim, a graça humana, 8b), mas ele não perde a paz. O
imerecida e o amor apaixonado que fluí- coração continua .firme porque ele confia
ram primeiramente na redenção conduzi- no Senhor. Além disso, isso não é uma dis-
ram o povo do Senhor para o abraço de posição passageira, mas uma atitude cons-
sua aliança, onde eles desfrutaram de seu tante até que a ameaça tenha cessado. Ver
cuidado providencial nas necessidades di- cumprido, nos seus adversários, o seu de-
árias, de sua superioridade em relação ao sejo, (lit.) "olhar para os seus adversários",
poder de seus inimigos, e de sua palavra, talvez uma expressão idiomática para "ver
pela qual vivem. pela última vez"; certamente, não há ne-
nhuma satisfação maligna insinuada aqui.
Salmo 112. O povo do Senhor (v) 9,10 Caráter, conduta e destino. Cada
em caráter e conduta versículo expressa sua própria sequência
O salmo avança consecutivamente ao lon- reveladora: a generosidade, no contexto de
go de tópicos bem nítidos, dedicando qua- uma vida reta com Deus e reta em condu-
tro linhas aos quatro primeiros e seis linhas ta, leva à honra (9; Rm 2.10); a impiedade
ao último: (i) 1,2 Indivíduo e família: cada com animosidade é autodestrutiva (10) e o
indivíduo é movido interiormente pelo te- seu final é nada (lit., perecerá).
mor reverencial que se manifesta exterior-
mente através da obediência prestada com Salmos 113-118. O Hallel
prazer (I). Uma bênção particular está vin- egípcio: Uma Cantata
culada a esse caráter e conduta - filhos de de Salvação
reconhecido valor (2a, cf. Pv 20.7) e uma Qualquer coisa que esteja relacionada
bênção que se estende às gerações futuras com o Senhor Jesus Cristo tem um valor
(2b). (ii) 3,4 Prosperidade e infortúnio. A e um apelo extraordinários para o cristão.
justiça tem duas facetas: eternamente em Consequenternente, a grande probabilida-
ordem com Deus, constantemente com- de de que este conjunto de salmos tenha
prometida com uma vida de retidão. Uma sido usado por ele nas celebrações da
pessoa assim recebe provisão abundante Páscoa aumenta o seu interesse e impor-
(3a, cf. 1.3; 73.23-26), mas não é imune tância. Na última Páscoa, a primeira Ceia,
às trevas da vida. Quando estas surgem, supõe-se que ele e seus discípulos tenham
são enfrentadas com a fé em que a luz cantado os salmos 113 e 114 antes da refei-
finalmente nascerá. Mas enquanto as tre- ção' e 115-118 seria o "hino" cantado no
vas não se dissipam, permanece também final (Mt 26.30). Sem dúvida, cada salmo
o dever de se manter justo em conduta, deste grupo tem sua própria história lite-
benigno, misericordioso (cf 11104) nos rária, mas em conjunto eles são chamados
SALMO 113 850

de "o Hallel Egípcio/Ato de Louvor", um 7-9 A exaltação compartilhada. Ele


comentário sobre Êxodo 6.6,7, em forma é excelso (4); ele ergue, "exalta", o des-
de canção. valido; ele, que se assenta no trono (5),
O salmo 113 baseia todos os aconte- assenta o desvalido ao lado dos príncipes
cimentos no Senhor - em como é intrín- - longe do pó, num trono, desfrutando de
seco de sua elevada dignidade exaltar o realização pessoal. Ele pega pessoas aban-
pobre e necessitado. O salmo 114 registra donadas (desvalido ... necessitado), revoga
o êxodo de forma majestosa, mostrando sua desonra e reverte seu desamparo. Essa
como o Criador usa a criação para be- dinâmica é bastante clara no êxodo - des-
neficiar seu povo. Os salmos 115 e 116 de o controle do Senhor sobre as potências
se completam, apresentando, respecti- terrenas (Êx 4.22,23; 14.30,31) até seu co-
vamente, a comunidade e o indivíduo nhecimento das necessidades de seu povo
salvos da morte espiritual (115) e física (Êx 2.24,25; 3.7) e dos gritos de desespero
(116). O salmo 117 estende o princípio das mães que perderam os filhos violenta-
do êxodo até seus limites mundiais - o mente (Êx 1.22)! Mas sua revelação acerca
que foi feito por Israel foi feito por todos. do Senhor é permanente: o que ele era na-
Finalmente, o salmo 118 nos permite jun- quele tempo, ele continua sendo hoje.
tar-nos à grande procissão que entra pelas (b) Salmo 114. O Senhor Soberano:
portas e chega à presença do Senhor. sobre tudo, em tudo, por meio de tudo
(a) Salmo 113. O Senhor, exaltado e A mensagem do salmo 113 não é um
exaltador pensamento fantasioso, pois o 114 mos-
O tema é o Senhor universal e trans- tra o Senhor com domínio supremo sobre
cendente, exaltado acima do céu e da terra, nações (1), identificado com os antigos
abrangendo todo o tempo, preenchendo desterrados (2), soberano sobre a cria-
todo o espaço, dominando as nações, er- ção (3-7), provendo para os necessitados
guendo o pobre e transformando o frustra- (8). Os fatos do êxodo sustentam os fatos
do. O movimento do pensamento vai da da revelação.
soberania que governa tudo à bondade que 1,2 Redenção e habitação. Quando o
toca cada um. Senhor redime, ele vem para ficar; separan-
1-3 O nome digno. O nome do Senhor do seu povo do mundo, ele os separa para
(o que ele revelou sobre si mesmo, Êx si. O salmo vai além do fato topográfico de
3.15) incita o louvor de seus servos e é dig- que o santuário do Senhor (seu "lugar san-
no de aclamação eterna e universal. A pa- to, onde ele habita") ficava em Judá; em
lavra nome ensina que o louvor responde vez disso, Judá, seu povo em si, tomou-se
à revelação, e a palavra servos mostra que o lugar onde ele habitava (Ef2.19-22). Pois
o louvor está enraizado num compromisso aqueles que ele redime, ele transforma: en-
de vida. contrando-os como Jacó, vivendo no meio
4-6 O Senhor exaltado. A tripla re- deles como Israel (Gn 32.27,28).
ferência ao nome em 1-3 corresponde à 3,4 Criação e conclusão. Maravilhas
tripla afirmação de exaltação em 4-6: ex- naturais acompanharam o êxodo, no
celso ... céus, trono, inclina... céu. Ele é mar Vermelho (Êx 14.2Iss.), no Jordão
exaltado sobre todas as pessoas e todos os (Js 3.14ss.) e no Sinai (Êx 19.16ss.). As
lugares, incomparavelmente exaltado, tão duas "travessias" marcam, respectiva-
transcendente que precisa se inclinar para mente, a saída do Egito e a entrada em
ver os céus. Sua glória é a mais eleva- Canaã. Portanto, o que o Senhor começa,
da das realidades, sua pessoa está acima ele termina - e a garantia de que ele pode
de todas as dignidades, sua onisciência fazer isso é o seu poder soberano como
abrange toda a criação. Criador, pelo qual barreiras humanamente

II I
851 SALMO 115

intransponíveis fogem (o mar... fugiu) respondendo em 9b,lOb,llb? Será que


diante dele. 12a é uma afirmação congregacional, e
5-8 Compaixão e provisão. Algumas 12b,13 são a resposta de ambos os corais?
perguntas fazem com que nos aproxime- Possivelmente, das porções em tomo desse
mos rapidamente do clímax: a simples pre- "núcleo", 1-3 e 16-18 eram ditas por toda
sença do Senhor era suficiente para efetuar a assembleia, enquanto 4-8 e 14,15 consti-
seus prodígios de libertação. Em sua mise- tuíam a fala do líder do louvor, declaman-
ricórdia, ele se identifica com alguém tão do contra os ídolos e pronunciando bênção
fraco, até mesmo desprezível, como Jacó; sobre Israel. De qualquer modo, o salmo é
e ele, que começa e termina sua boa obra tão "vivo" como um ato de adoração quan-
(cf. v. 3,4, cf. Fp 1.6), supre também as ne- to o é em sua teologia.
cessidades de seu povo durante a peregri- Os v. 4-8 são típicos da visão do AT
nação (Êx 17.1-7). acerca dos ídolos e dos idólatras. Por um
(c) Salmo 115. O Senhor, bendito e lado, não existe força espiritual ou reali-
abençoador dade por trás do ídolo; ele não representa-
Podemos apenas especular sobre o ce- va um "deus" invisível; sua realidade não
nário deste salmo. Será que o v. 2 sugere ia além de sua constituição material (4-7;
que o povo de Deus está confuso diante Is 40.18-20; 41.5-7). Apesar disso, os ído-
dos insultos do mundo e faz a pergunta tão los tinham o poder de destruir seus ado-
conhecida: "E quanto ao teu bom nome?" radores (8; ls 44.6-20). Em particular, não
(I, cf 1s 7.9)? É mais provável, mas ainda havia revelação oral (boca), nenhuma su-
uma especulação, que uma vitória tivesse pervisão moral (cf. 53.2), nenhuma respos-
sido conquistada recentemente, de modo ta à oração (ouvem), nenhuma propiciação
que o crédito devia ser dado ao rei ou ao por meio de sacrifício (cheiram, Gn 8.21),
exército. O inimigo, confiante na força de nenhuma proteção (mãos não apalpam,
seus ídolos, poderia zombar de um povo 95.7), nenhum movimento (andam) ou
cujo Deus era invisível. Mais provável pensamento (som, o murmúrio que indica
ainda é que o salmo seja imaginativo, ponderação). 11 Temem o SENHOR. Numa
discorrendo sobre a ocupação de Canaã: data bem posterior, "tementes a Deus" tor-
as batalhas foram difíceis, mas a vitória nou-se um jargão técnico para prosélitos
foi do Senhor; os pagãos foram expos- frouxamente ligados. Aqui, a expressão
tos como devotos de deuses mortos, e o descreve de forma abrangente as duas cate-
Senhor foi revelado como fiel (I) e sobera- gorias dos v. 9,10, o povo e os sacerdotes.
no distribuidor de tudo o que existe (16). A Confiar e reverenciar: a intimidade sim-
estrutura do salmo conta sua história: ples do primeiro, equilibrada pelo temor
respeitoso do segundo, marca o povo do
N (v. 1-3) Louvor devido apenas ao sobe- Senhor. 17 Por trás do salmo há uma cri-
rano Deus do céu se cujo livramento foi assegurado (1). Não
8 1 (v. 4-8) Os ídolos e os que confiam fosse pela intervenção e vitória divinas,
neles todos teriam morrido. Daí (18), há muito
8 2 (v. 9-15) O Senhor e os que confiam mais razão para glorificar o Senhor. Ler no
nele v. 17 o que o AT pensava sobre a situação
N (v. 16-18) Louvor devido ao soberano dos mortos e fazer referência a passagens
Deus do céu como 88.10-12 faz com que ambos sejam
mal compreendidos. O salmo 88 considera
O salmo é uma peça de adoração an- a morte debaixo da ira de Deus e, conse-
tifonal (cl Ed 3.10,11). Podemos ouvir quentemente, não dá nenhuma esperança.
um coro cantando em 9a, I Oa.Ll a, e outro Mas aqui, o v. 18 expressamente antevê
SALMO 116 852

uma oferta de louvor desde agora e para As palavras-chave eu cria (10), ocupam
sempre, "até a eternidade". Portanto, algo a posição mediana entre a nova vida de
que poderia estar restrito ao Senhor (17) alegria (8,9) e a velha vida de sofrimento
estimula um louvor que não tem fim (18). (10,11). Da mesma forma que, nos tempos
(d) Salmo 116. Fé e liberdade antigos, um grande clamor por socorro
A situação era de perigo de morte que deu início aos atos de Deus no êxodo
(3,8,15), causado por mentiras humanas (Êx 2.23,24), a fé operando através da ora-
(11) e falta de discernimento (6). Mas no ção continua sendo a maior força de que o
meio dessa situação entrou a oração (1-4). povo de Deus na terra pode dispor.
O Senhor ouve (1,2), é compassivo (con- 1 (Lit.) "Eu o amo ~ pois o Senhor
cede graça aos que não merecem), justo ouve a minha voz!". 3,6,11,15 Morte e
(nunca se esquiva do compromisso assu- inferno (sheol) são representados como
mido com seu povo e das promessas fei- agressivos, caçando vítimas (3). Outros
tas), misericordioso (se comove emocio- fatores também ameaçam: as aflições da
nalmente com o sofrimento) (5) e sente a vida (3), deficiências pessoais (6, onde
morte de seus amados (15). Então veio sal- simples poderia ser traduzido por "bobos/
vação (4-6), livramento da morte (8) e da simplórios/sem discernimento"), desones-
escravidão (16), e total suprimento (7,12). tidade humana (11). Apesar disso, (15) não
Consequentemente, há votos a serem fei- há essa coisa de morte prematura. Para o
tos e mantidos: de amor (1) e oração (2), Senhor, a morte é uma coisa muito pre-
de descanso (7) e caminhada (9), de pra- ciosa para ser desperdiçada. A morte dos
zer pessoal na salvação (13) e testemunho seus santos, "seus amados", é como uma
público (14,18). Acima de tudo, porém, a joia preciosa que ele concede ~ preciosa
crise foi enfrentada pela fé, a chave para para ele e para eles, porque na morte ele os
tomar novas todas as coisas (8-11), o pivô recebe em casa. Nesse sentido, a morte é a
de todo o salmo. última e maior de todas as bênçãos terrenas
que Deus confere ao seu povo. 10 Eu cria.
AI (v. 1,2) Invocando Deus no dia da an- Usado assim, o verbo significa "eu tinha
gústia fé". Ainda que. Enfrentar a dureza da vida
BI (v. 3,4) A situação enfrentada com com desânimo e confessar isso não é falta
oração de fé, mas uma evidência dela ("Mantive
C 1 (v. 5-7) Provisão total, descanso a fé mesmo quando estava mais desespe-
D (v. 8-11) F é; tomando novas rado", ou: "Agarrei-me à fé embora toda a
todas as coisas esperança tivesse acabado"). 13 A primei-
C2(v. 12-14) Provisão total, respon- ra forma de retribuir a bondade do Senhor
dendo é usufruir dela mais e mais. O cálice re-
B 2 (v. 15,16) A situação resolvida pelo presenta aqui seu presente de "salvações"
Senhor (heb.), i.e., completa salvação. 16 Servo ...
N (v. 17-19) Invocando Deus no dia do filho .... quebraste as minhas cadeias. Um
livramento vínculo tríplice: serviço escravo pesso-
al (servo), serviço escravo hereditário
Observe como 1,2 e 17-19 são acopla- (Êx 21.4) e servidão voluntária do escravo
dos por invocarei; 3,4 e 15,16, por laços liberto que ama seu senhor e não quer ir
de morte... morte... quebraste e Ó SENHOR; embora (Êx 21.5,6).17-19 Uma descrição
5-7 e 12-14, por tem sido generoso, "tem muito forte sobre "dar testemunho públi-
provido tudo", e seus beneficios, "sua pro- co" ~ ainda mais diante da natureza inten-
visão total". Tudo isso lança um foco de samente pessoal da experiência registrada.
luz sobre os v. 8-11, o papel central da fé. Os votos feitos em tempos difíceis não
853 SALMO 118

foram barganhas com Deus, mas uma evi- (f) Salmo 118. As portas da justiça
dência da intenção séria de aprender com O propósito do Senhor com o êxodo
a experiência e sair dela como uma pessoa foi muito além da libertação para reden-
melhor e mais dedicada. ção e de tomar os ex-escravos para serem
(e) Salmo 117. Um Deus, um mundo, "meu povo". É esse propósito supremo
uma alegria que o salmo 118 retrata simbolicamente.
Este salmo é citado em Romanos Seu movimento geral é uma procissão que
15.11 para dar suporte ao argumento de sobe até as portas do templo (19), depois
Paulo de que Jesus é o Messias mundial, e passa pelas portas e vai até o altar (27).
seu cumprimento está em Apocalipse 7.9. Mas à medida que a procissão avança, há
O salmo 117 chega ao cerne dos propó- uma antífona ou "diálogo" entre um grupo
sitos de Deus e alcança as mais remotas e um Indivíduo. A assembleia inteira fala
fronteiras do mundo. Desde o início, a fé em I e 29; o grupo e seu líder de louvor
do período do êxodo refletia a promessa respondem um ao outro em 2-4. Mas, no
abraâmica de bênção para o mundo por restante do salmo, o grupo age como um
meio da inclusão de regras para o recebi- eco responsivo do que o Indivíduo diz, e
mento de não israelitas na comunidade da a "verdadeira" sequência do salmo é a his-
aliança (Êx 12.48,49). Semelhantemente, tória das experiências desse Indivíduo por
a oração de Salomão começa com várias meio do sofrimento (5-7), da hostilidade
preocupações domésticas e passa com internacional (10-14) e do castigo divino
naturalidade para a antevisão de estran- (17,18), até o ponto em que ele reivindi-
geiros orando ao Deus de Israel e sendo ca seu direito de entrar pelas portas da
ouvidos por ele (lRs 8.41-43). Do mes- justiça (19). Durante todo o tempo, ele é
mo modo, o princípio de que os atos sal- acompanhado por um grupo que responde
vadores divinos direcionados para Israel com aprovação à sua postura confiante (6,7
também representavam salvação para o com 8,9) e endossa sua vitória no nome do
mundo inteiro está bem claro nos salmos Senhor (10-14 com 15,16).
(por exemplo, 96-98). Depois do v. 19, o tom muda: falar so-
Portanto, aqui está uma breve declara- bre o Senhor se transforma em falar com
ção de que existe um único Deus para to- o Senhor; e as vozes também mudam: os
das as pessoas (SENHOR ... todos... povos); porteiros (sacerdotais) expõem as con-
de que existe um povo mundial unido num dições de entrada (20) e seus colegas do
único Deus (o conosco do v. 2 reúne todos santuário saúdam o Indivíduo que entra
os povos em Israel); de que existe um só chamando-o de a pedra (22), aclamam sua
sentimento divino em relação a todos (sua chegada como o dia que o Ssnnon fez (24),
misericórdia e sua eterna .fidelidade); e abençoam-no como o que vem em nome do
que a verdadeira religião é uma resposta SENHOR (26) e convidam todo o grupo que
alegre e cheia de louvor ao que esse Deus o acompanha para se reunir no altar e fes-
único, amoroso e fiel é. 2 Grande, "po- tejar (27).
derosa", "dominante". Conosco, "nós". A "sensação" que o salmo transmite su-
Se o pronome se refere exclusivamente a gere uma ocasião real, possivelmente uma
Israel, então o salmo é um reconhecimen- celebração anual (Páscoa?) nas dependên-
to de que o que é para Israel é automati- cias do templo. Ou talvez uma cerimônia
camente para o mundo também. Porém, é em que o rei desempenhava o papel cen-
mais revelador enxergar aqui, como fize- trai, expressando de forma individual a pe-
mos anteriormente, um "Israel mundial" regrinação de todo o povo, da angústia (5)
- toda a família dos filhos de Abraão e oposição mundana (10), até com ameaças
(SI 47.9; Rm 4.11,I2; GI 6.16). de morte (17), para a luz (27) e a presença
SALMO 118 854

divina. Contudo, há elementos no salmo da ação realizada em e pelo nome do


que contemplam além das misericórdias SENHOR (10-12). Apesar disso, o perigo
de Deus registradas, superando tudo que o era real e a vitória só veio por meio da
povo ou qualquer rei possa ter suportado, intervenção divina (13), de força e li-
e exigindo mais do que qualquer um deles vramento concedidos por ele (14). 15,16
poderia cumprir. Quando foi que todas as Esses versículos fazem par com 8,9; os
nações cercaram, ameaçaram e foram re- que estão em ordem com Deus (justos)
chaçadas? Quem poderia chegar às portas têm júbilo e salvação. Mão simboliza
da justiça e ser recebido como a pedra e o força pessoal em ação, e destra, uma for-
que vem em nome do SENHOR (22,26)? ça ainda mais preeminente. Na vitória do
O salmo é esperançoso e comemorati- Indivíduo, eles veem o exemplo máximo
vo. Ele vislumbra um Indivíduo vindouro do Senhor em ação.
para quem todos os detalhes aqui descri- 17-21 Castigo divino, justiça, entra-
tos ainda estavam por se cumprir. No fi- da. Enquanto o Indivíduo dá um terceiro
nal, o Nr fornece a resposta, mas ele só faz testemunho (17,18), ele chega às portas
isso porque o Ar levanta a questão, pois do templo (19) e, embora estas sejam as
a ideia do Messias no NT não é um en- portas da justiça (portas que só podem ser
xerto (artificial) no Ar, mas sim um broto transpostas se a condição de justiça for sa-
(natural) dele. tisfeita), ele requer permissão de entrada.
1-4 Convocação e resposta. 1 O salmo Os porteiros respondem (20), ratificando a
136 explica as implicações dessa convoca- condição de entrada. Enquanto passa pela
ção: ela era um lembrete sucinto de todos porta (21), o Indivíduo agradece pela ex-
os grandes atos de Deus (cf Jr 33.11).2-4 periência de oração respondida e salvação
Cf 115.9-11. divina. 17 Em seu cenário originário, com-
5-7,8,9 Tribulação, oração, certeza, bina com 6,7: o falante afirma que quem
confiança. Sem introdução, ouve-se a voz terá a última palavra será ele, e não seus
de um indivíduo (5-7). A palavra tribula- inimigos mortais. Mas, quando vemos o
ção (cf 116.3) é "realçada" aqui por um salmo através da lente do Senhor Jesus,
artigo definido sugerindo "extrema tribu- o significado é que a morte não terá a úl-
lação". Em si, a palavra indica "pressão/ tima palavra (Jo 10.18). 18 (Is 53.5,6,10).
constrição" e contrasta com a liberdade Por trás da inimizade humana, o Indivíduo
que veio em resposta à oração. Folga, "em vê a mão de Deus (At 2.23). 19 Observe
lugar largo", desimpedido. Uma experiên- a natureza pessoal da reivindicação (Abri-
cia como essa gera confiança para o futuro me) de ter preenchido o requisito de justiça
- em relação à oposição humana como tal (Is 53.11; Jo 16.10; lJo 2.1).
(6; 56.11; Hb 13.6) e em relação ao resul- 22,23,24,25,26-29 A pedra, o dia e
tado. 7 Verei cumprido o meu desejo (cf aquele que virá. Nosso entendimento
112.8).8,9 O cortejo comenta o testemu- desses versículos fica mais claro se nova-
nho do Indivíduo, afirmando a eficácia do mente ouvirmos aqui vozes antifonais. Os
caminho da fé confiante. sacerdotes do templo saúdam o Indivíduo
10-14,15,16 Inimigos cercando, nome referindo-se a ele como a pedra, e o corte-
suficiente, destra poderosa. O Indivíduo jo que o acompanha responde (22,23); os
revela mais de sua tribulação (5): ele es- sacerdotes aclamam o dia de sua chegada,
tava cercado pela hostilidade de todas as e o grupo ora para receber as bênçãos do
nações, mas embora seu ataque fosse tão dia (24,25); os sacerdotes pronunciam bên-
feroz quanto o de abelhas silvestres, ele çãos sobre o Indivíduo e sobre o grupo (26,
foi contido tão depressa quanto o fogo vós), e o grupo responde; os sacerdotes os
consome os espinheiros (12), pela eficácia convidam para a festa (27); o Indivíduo
855 SALMO 119

(28) e o grupo (29) se juntam em adora- eventos (e principalmente tendo em mente


ção. A pedra é um símbolo messiânico (cf. a última Páscoa e a primeira Ceia) o sig-
Is 28.16; Zc 3.9). Em Mateus 21.42-44, nificado é "vinde e participai da festa que
Jesus correlaciona o v. 26 com Isaías 8.14 se baseia numa obra de salvação divina".
(v. também IPe 2.6-8; cf Rm 9.33). Em seu 28 Estaria este versículo refletindo o que
contexto originário no salmo, isso pode ser Jesus disse quando, na plena realidade de
um provérbio descrevendo uma extraordi- sua humanidade vitoriosa e glorificada, foi
nária reviravolta numa opinião humana: para seu Pai e nosso Pai, seu Deus e nosso
quem poderia imaginar que o povo escra- Deus (10 20.17)'1 E haveria melhor modo
vo fosse o povo escolhido, a chave para a de respondermos do que com o v. 29'1
história e o destino da humanidade? Ou, se
o salmo é algum retrato ritual da derrota do Salmo 119. O ABC dourado
rei davídico diante das nações e de sua sub- da palavra de Deus
sequente "ressurreição" por intervenção do Este salmo, o maior exemplo da arte do
Senhor: quem teria imaginado que alguém salmo alfabético ("acróstico"; v. artigo
tão humilhado iria se transformar no ápice Poesia na Bíblia), tem um tema digno de
dos propósitos divinos? Mas, como a rea- sua maestria. Não sabemos quando ele foi
lidade em Jesus ofusca todos esses cum- composto, portanto não é possível dizer
primentos preliminares! Por acaso algum quanto material escrito está subentendido
outro indivíduo foi tão afrontosamente quando ele fala da palavra do Senhor, ou
desprezado pelas autoridades da igreja e de seus mandamentos, preceitos e promes-
do estado? Algum outro sofreu tantas hu- sas. Temos o privilégio de cantar essas pa-
milhações, foi tão esmagado sob o peso lavras numa época em que toda a Escritura
da oposição internacional (Atos 4.27), foi está disponível em forma escrita; o salmis-
baixado ao pó da morte, recebeu o lugar ta teve o privilégio de celebrar a realidade
mais alto que há no céu, "acima de todo fundamental de que, independentemente
principado, e potestade [...] e de todo nome da forma em que ela existia, a palavra de
que se possa referir"? E (23) quem pode- Deus é fundamental para a vida do povo
ria ter feito isso, senão o próprio Senhor de Deus. Nosso Deus é um Deus que fala,
(Is 53.10; At 2.23; Fp 2.9-11). e é a posse dessa revelação verbal que dis-
24 O dia. O dia em que alguém orou tingue seu povo de todos os outros povos
sob extrema pressão e enfrentou todas as da terra.
circunstâncias com confiança em Deus Ao referir-se a esta "palavra de Deus"
(5-7); o dia em que ele enfrentou e venceu (coisa que ele faz em quase todos os seus
as forças dos exércitos do mundo reunidos 176 versículos), o salmo usa nove palavras
(10-12); o dia em que sofreu a hostilidade principais. Estas podem ser categorizadas
de um único inimigo (13, lit. "tu me em- em cinco grupos: (i) A palavra gerada pela
purraste", Jo 12.31) e saiu cantando e vi- fala divina. Palavra(s) (Heb. dãbãr, 9,16,
torioso (13,14); o dia em que ele saiu vivo 17,25,28,42,43,49,57,65,74,81,89,101, I 05,
da ameaça mortal e do castigo do Senhor 107,114,130,139,147,160,161,169) e pala-
(17,18) e, integralmente justo, passou pela vra/promessa(s) (heb. ' imrãh, 11,38,41,50,
porta e entrou na presença de Deus (19-21); 58,67,76,82, I 03, 116, 123, 133, 140, 148,
o dia em que a Pedra rejeitada se tomou 154,158,162,170,172) têm raízes em verbos
a cumeeira (22) - um dia e tanto na mão ligados à fala. A "palavra" é o que o pró-
criativa de Deus! prio Deus falou - quer diretamente, como
O v. 27 é uma peça muito obscura do a Abraão (Gn 17.1) ou a Moisés e por meio
hebraico. Adornai a festa poderia ser, tal- dele ou de qualquer um dos outros profetas
vez, "preparai a festa", mas em todos os (e.g., Êx 3.5; 19.9; Am 1.1,3).
SALMO 119 856

(ii) São usadas duas palavras que afir- 30,54,70,127,140,159,167), o compromis-


mam que esta palavra expressa o pensa- so de obedecer (17,34,60,100,106,129), a
mento de Deus:juízos (Heb. mishpãt 7,13, palavra mantida resolutamente em tempos
20,30,39,43,52,62,75,84,91,102,106,108, de dificuldade (51,61,83,87,95,109,110,14
120,132,137,149,156,160,164,175) vem 3,157,161). O interesse pela palavra serve
do verbo "dar sentença", decidir o que de argumento para pedir misericórdia (77)
é certo e o que é errado; testemunho(s) e livramento (153); o Senhor é sempre tão
(Heb. 'êdãh 2,14,22,24,31,36,46,59,79, bom quanto sua palavra (41,59,65,76,116,
88; "êdut (95,99,111,119,125,129,138, 154,170). Este salmo é um tesouro inesgo-
144,152,157,167,168) vem do verbo "dar tável. Ele é quase inteiramente um salmo
testemunho": em sua palavra, Deus "dá de oração, pois é todo dirigido ao Senhor
testemunho" de si mesmo, de sua nature- e vem de um coração verdadeiramente hu-
za e de sua autenticidade. mano em toda a sua fragilidade e falibili-
(iii) A importância permanente da pala- dade. Por maior que seja o nosso desejo de
vra de Deus é expressa por decretos (Heb. obedecer, de manter a palavra do Senhor
hõq 5,8,12,16,23,26,33,48,54,64,68,71 ,80, em primeiro lugar no pensamento e na
83,112,117,118,124,135,145,155,171 ). vida, continuamos sendo, até o fim, como
Derivada do verbo "gravar", "entalhar", ovelha desgarrada, precisando do cuidado
ela indica algo "gravado na pedra" para do Pastor (176).
perpetuidade. Embora ocasionalmente escrevendo
(iv) A autoridade da palavra e o amor um terceto (48,176), em todo o poema o
que a gerou estão amalgamados na descri- poeta dedica oito dísticos a cada letra do
ção lei (Heb. torãh 1,18,29,34,44,51,53,55, alfabeto em sequência. Mas, como sem-
61,70,72,77 ,85,92,97,109,113,126,136, pre ocorre na poesia hebraica, a forma
142,150,153,163,165,174). Embora a pa- está subordinada ao conteúdo, e cada se-
lavra seja usada para expressar imposição ção alfabética é uma declaração cuidado-
com base em autoridade, fundamental- samente composta.
mente ela significa "ensino" e é especifi- 1-8 Álej. O grande "tomara". Como
camente (Pv 3.1) a instrução que um pai é característico em todo este salmo, a se-
consciencioso dá a um filho amado. ção de abertura afirma que a obediência à
(v) Finalmente, a palavra de Deus pro- palavra de Deus é a chave para a vida. O
jetada para aplicação prática na vida. São os grande clamor do v. 5 é o pivô da seção.
mandamento(s) (Heb. mitswãh 6,10,19,21, Duplamente bem-aventurados são os que
32,35,47,48,60,66,73,86,96,98,115,127, vivem pela palavra de Deus com constân-
131,143,151,127,131,143,151,166,172, cia e compromisso (1-3), pois é a palavra
176). Se existe alguma distinção prática en- dele e ele quer que seja obedecida (4). Ah,
tre esta palavra e a próxima, é que manda- quem dera eu fosse assim (5) - pois, des-
mentos traduz a ideia simples de "fazer o que te modo, não haveria esperanças frustradas
lhe é ordenado", enquanto preceitos (Heb. (6), e sim louvor (7). Com a ajuda de Deus,
piqqud 4,15,27,40,45,56,63,69,78,87,93, eu obedecerei (8). Os v. 1-4 são bem obje-
94,100,104,110,128,134,141,159,168,173) tivos: estes são os fatos. Bem-aventurados
sugere a aplicação da palavra de Deus às (1,2) sob aprovação divina; irrepreensiveis,
mínimas coisas da vida, e caminhos (Heb. uma vida totalmente "integrada" em tomo
derek 3,15,37) é o que hoje chamamos de da lei do Senhor, exteriormente (andam)
"estilo de vida". e interiormente (coração); não praticam,
Todas essas palavras aparecem envolvi- "tomaram a decisão firme de não praticar".
das por certas ênfases que se repetem, por Tu (4), enfático, "Tu mesmo". Os v. 5-8
exemplo, o amor à palavra de Deus (16, são subjetivos: anseio pessoal, expectativa
857 SALMO 119

e resolução. Firmes. Este é o ideal de "ser- a obediência); 19,20 (o salmista como um


mos decididos e firmes no nosso cami- forasteiro na terra) combinam com 23,24
nho". Envergonhar, ficar desapontado com (o salmista como objeto de repreensão).
a vida. Teus decretos (8) é uma expressão Nossas paixões não facilitam em nada a
enfática, combinando com o tu do v. 4. vida em santidade (9); e, diz Guimel, as
9-16 Bêt. O coração absorto. Álef ex- circunstâncias em que vivemos também
prime um anseio (5), mas a atitude prática não. A terra é um lugar estranho (19); a
depois disso é focalizar esse anseio na pa- sociedade contém pessoas que abandona-
lavra de Deus e no próprio Senhor (10,12). ram a palavra (21), e enfrentamos oposição
É apresentado o caso de um jovem, i.e., pessoal - até mesmo oficial.
uma situação em que a vida de pureza está Como podemos viver a vida de Deus
sob constante pressão. A possibilidade de nas cortes da terra? Primeiramente (17,18),
levar uma vida pura depende da orientação requisitando ação divina. Sê generoso, "dá-
da vontade (10), do conteúdo dos pensa- me provisão completa para". Desvenda.
mentos e da memória (11), das preocupa- Na "provisão completa" solicitada, uma
ções da boca (13) e das emoções (14,16), coisa é especificada: a capacidade de en-
dos assuntos dos pensamentos (15,16). A tender todas as maravilhas da palavra. Em
vida exterior (caminho) é fruto de fato- segundo lugar (19,20), reconhecendo os
res interiores, todos contidos na palavra, fatos da situação e mantendo uma ordem
mas centralizados no Senhor em lou- de prioridades correta. Peregrino, forastei-
vor e instrução (12). 9 De que maneira, ro residente. Entretanto, apesar das possí-
uma questão prática, "por quais meios?". veis dificuldades de uma vida como essa, o
O problema se manifesta exteriormen- que ele busca ardentemente não é conforto
te (9), mas a solução (10-16) é interior. terreno, provisão ou até a volta ao lar, mas
10 A orientação deliberada (busquei) do sim o conhecimento da palavra de Deus.
coração (todo o ser interior) em direção Em terceiro lugar (21,22), o equivalente
a Deus e a prática de orações específicas. negativo do anterior: o anseio pela provi-
11 O coração abastecido com a palavra é são divina (17-20) se combina com a ação
o remédio para não pecar. 13 O versículo de evitar o desgosto divino por meio do
inicia com lábios humanos e termina com a compromisso com a obediência. Em quar-
boca divina: falando a nós mesmos ou aos to lugar (23,24), a qualquer custo (inclusi-
outros, nossa conversa está repleta daquilo ve a desaprovação de pessoas influentes), a
que Deus disse. 15 Até este ponto, os ver- palavra do Senhor domina o pensamento,
bos principais foram exemplos "perfeitos as emoções e o conselho prático que orien-
de determinação" ("eu estou determinado ta a vida.
a buscar... a guardar... a narrar... a me re- 25-32 Dálet. Tempo de tribulação,
gozijar"). Pensamentos paralelos são agora tempo de...? A situação apresentada em
postos em forma de oração: "Oh, deixa-me Guimel, um forasteiro num ambiente estra-
meditar... considerar". Nossos compro- nho, é real. Humilhação (25), cansaço (28),
missos precisam ser banhados em oração. tentação (29), frustrações (31) fazem par-
16 Uma última decisão tranquila concen- te da vida. Acontecimentos "nos abatem"
tra-se no uso apropriado das emoções e da (25, "minha alma gruda no pó"), a vida se
memória (16). toma demais (28, "minha alma não dorme
17-24 Guimel. O dependente do Senhor. por causa da depressão"). Porém, mais do
Os versículos se agrupam em pares: 17,18 que qualquer coisa, o tempo de tribulação
(atos de Deus permitindo a obediência) deve ser um tempo de oração.
combinam com 21,22 (atos de Deus cas- Esses oito versículos contêm sete ora-
tigando a desobediência e recompensando ções. Oração por renovação (vivifica, 25),
SALMO 119 858

aumento do conhecimento e da compreen- (Guímel) cheio de pressões (Dálet) e com


são na prática (26,27), força na necessi- um coração dividido (Hê). Um ingrediente
dade (28), graça, ou favor divino para o é mais importante que qualquer outro, as
necessitado que não merece (29), e por misericórdias e a salvação que o Senhor
um resultado favorável (31). O tempo de prometeu (41) ~ a misericórdia que sabe,
tribulação é também um tempo de com- cuida, provê e nunca falha, e a salvação que
promisso especial, tempo de fixar a mente surge para livrar na hora da necessidade.
na maravilhosa palavra do Senhor (27), de Daí a importância do "e" com o v. 41,
escolher e firmar o coração na sua verdade como se dissesse "e, claro, isso também".
(30), de enfrentar a tribulação com obediên- Então, vêm as "coisas que acompanham a
cia (31, "me apego aos teus estatutos"), de salvação" (42-48). Os v. 42,43 comparti-
se esforçar ("percorrerei"). Deus sempre lham o tema do testemunho oral: os que
será fiel à sua palavra (25b,28b,29b, me- conhecem o amor e a salvação do Senhor
lhor "de acordo com a tua lei"). falam sobre isso. Podemos confiar que a
33-40 He. Renovação interior, man- palavra de Deus responderá até mesmo ao
tendo o coração íntegro. O espírito de de- questionador hostil (42), mas (43) a pala-
pendência continua com nove pedidos em vra só pode ser usada com consentimento
oito versículos. Entretanto, o que ameaça a divino, e tem de haver uma sensível depen-
progressão no caminho do Senhor (32) não dência da boa-vontade divina em todos os
é o ambiente hostil (Guímel), nem as difi- momentos. Os v. 44-46 estão ligados por
culdades da vida (Dálet), e sim, o coração uma forma verbal mais forte que o futu-
inconstante que deseja obedecer (34), mas ro simples eu irei, podendo ser traduzida
pode ser facilmente atraído para propósi- por "eu prometo que irei". O testemunho
tos egoístas (36) e a seguir as seduções dos requer o contexto de uma vida obediente
olhos (37). Portanto, há uma tensão dentro (44), uma vida que demonstra a verdadeira
do próprio coração: a lealdade do coração liberdade que a obediência traz (45). Deste
ameaçada pela deslealdade do coração. A modo, não há embaraço nem medo do fra-
solução é a oração: só o Senhor pode man- casso, mesmo testemunhando diante de
ter o "caminho" obediente (33, seguirei, reis (46). Os v. 47,48 têm como elo o amor
lit., "o caminho dos teus decretos"), o co- pela palavra, pois a boca que fala a palavra
ração íntegro (34), guiar-nos à verdadeira (42,43) e a vida que a exemplifica (44-46)
felicidade (35), impedir-nos de buscar coi- têm de brotar de um coração que a ama.
sas que não têm valor (36,37), livrar-nos 49-56 Zain. Fideicomissário do mun-
da frustração (39, opróbrio) e renovar as do. Muitas coisas geram a reação "Por que
fontes da vida (40, vivifica). A seção se di- eu deveria continuar me importando?"
vide em três partes: 33-35, compromisso ~ angústia (50), zombaria (51) ou o fato
total, guardar a palavra de Deus de todo o de que ninguém mais parece se importar
coração; 36,37, perigos internos, o coração (53). Nesses momentos, o salmista con-
dividido; 38-40, cuidado e suprimento di- tinuava centrando sua vida na palavra de
vino e fiel. Deus, descobrindo que as promessas divi-
41-48 Vav. Progresso constante. Cada nas traziam renovação (50, vivifica); que
versículo deste grupo começa com "e". o período de oposição era justamente a
Isso não é apenas um recurso para usar a hora de se agarrar com o ensino do Senhor
letra Vav (que, como prefixo, significa "e"), (51); que os juízos de Deus traziam con-
mas é toda a mensagem da seção: há coisas solo (52); e que os momentos tenebrosos
que ocorrem em sequência. As seções an- da vida precisavam ser enfrentados com
teriores lutaram com o problema de viver uma resoluta "observância" (a "observân-
uma vida pura (Bêt) num mundo estranho cia" do servo, 55) e constante conservação
859 SALMO 119

(56, guardo, Iit. "mantenho intactos"), a lugar - seja hostil, privado ou público-
guarda do Fideicomissário. 49,50 A palavra a misericórdia de Deus está por toda parte.
de esperança e consolo. Promessa ... pala- Portanto, toda situação deve ser usada para
vra, "fala". A palavra tem origem na boca agradar a Deus - guardando a palavra na
do Senhor; consequentemente, ela trans- adversidade (61), organizando a vida para
mite (garantida) esperança e é uma força arranjar tempo para nos deleitarmos com a
revitalizante (50, vivifica, "renova"). 51,52 palavra (62), fazendo amizade com os que
A palavra firmemente defendida contra os seguem a palavra (63).
escamecedores: oposição irrestrita enfren- 65-72 Têt. Graduando-se na escola
tada por meio de compromisso firme, tra- do Senhor. Em Hêt, somos convocados
zendo conforto. 53,54 A palavra na tristeza a reorganizar nossa vida com base no que
e na canção. As pessoas adotam referen- o Senhor é; Têt se estende nesse redire-
ciais diferentes, e o mundo é um lugar hos- cionamento da nossa vida realizado pelo
til (casa da minha peregrinação, 54, "vivo Senhor. Somos alunos da sua escola da
como forasteiro", cf v. 19). Essas pressões aflição (67,70), ele é o Diretor da escola,
não o moldam, mas lhe causam revolta e e o prêmio pela graduação é o tesouro da
tomam as alegrias da palavra ainda mais sua palavra. 65-67 O surpreendente be-
preciosas. 55,56 A palavra a ser guarda- nefício da aflição. O Senhor cumpriu sua
da, ver acima. A seção Zain contrabalança palavra fazendo o bem ao seu servo (65,
qualquer impressão que a seção Vav tenha lit. "Tu fizeste bem..."); isso leva o servo
deixado de que a vida é vitória atrás de vi- a pedir que mais coisas lhe sejam ensina-
tória. A largueza ("liberdade", ARe) que a das (66), confiando no que o Senhor de-
palavra traz (45), a ousadia (46) e o prazer termina, ainda que a escola onde ele rece-
(47,48) precisam ser salvaguardados pela be os benefícios seja a escola da aflição.
tarefa muitas vezes estafante de agarrar-se 68-70 O benefício de um coração resoluto
firmemente à palavra. e alegre. Como o Senhor é bom, aconteça
57-64 Hêt. A organização da vida. A o que acontecer, ele só pode fazer o bem.
seção começa e termina dirigindo-se ao Podemos, portanto, ser alunos aplicados
SENHOR, falando de sua suficiência para em sua escola, comprometendo-nos a com-
mim e de seu amor fiel que enche toda a bater as mentiras com a obediência sincera
vida. Como reagimos àquele que é todo- à sua palavra (cf 56) e a desenvolver um
suficiente (57-60)'1 E como vivemos em coração verdadeiramente sensível, culti-
relação a alguém cujo amor se encontra vando o prazer em meditar na sua lei (70).
em toda parte (61-64)'1 Nós somos como 71,72 Benefícios da escola da aflição. Foi
a tribo de Levi (Js 13.14,33; 18.7) que não nessa escola que ele aprendeu os decretos
precisava de nenhuma outra fonte de su- do Senhor (i.e., sua palavra designada para
primento além do Senhor. Nossa resposta ser obedecida por nós) e aprendeu também
é quádrupla: assumir o compromisso de que a sua lei é um grande tesouro (i.e.,
obedecer (57), buscar de todo o coração o sua lei designada para nossa instrução).
seu favor e graça imerecida (58), analisar Observe o destaque da ideia de "bom" nes-
e modificar nosso modo de agir com de- ta seção: o que o Senhor fez (65, v. acima),
terminação (59) e obedecer prontamente o que ele é (68) e o que ele nos concede em
(60). Em suma, uma vida comprometida sua escola (71,72).
com a palavra de Deus, confiante em suas 73-80 [ode. Fazendo do sofrimento
promessas e conforme os seus estatutos. um testemunho. Na aflição, o salmista co-
Exteriormente, há adversários a enfrentar lheu benefício (de acordo com Têt), mas
(61), um programa a organizar (62), ami- agora descobrimos que ele está interessa-
gos a cultivar (63), pois em toda situação e do em viver de tal forma em aflição que
SALMO 119 860

o beneficio possa alcançar outros também. na realidade, ela é o melhor remédio. O


Os mesmos agentes humanos que causam sofrimento muitas vezes é prolongado
aflição reaparecem (78, cf 69), mas ele ora - desfalece (81), esmorecem (82), quan-
para poder suportar sua hostilidade, de ma- tos... dias (84) - mas, quando já não
neira que aqueles que te temem possam se aguentamos mais, existe também um lu-
alegrar na firmeza da sua esperança (74) e gar chamado "Esperança" (81,82) e outro
se juntar a ele (79). O início, o meio e o chamado "Obediência" (83,87). O sofri-
fim desta seção são compostos de orações mento pode causar extremo desconforto.
pedindo beneficios pessoais; depois, ele Ele pode ser provocado por pessoas hostis
passa à oração por outras pessoas e à in- e pode ser imerecido, mas o afastamento
fluência de um bom exemplo; além disso, deles da lei de Deus (85) tem de ser supe-
ele equilibra os dois agentes da aflição: o rado pela nossa obediência (88). A pala-
Senhor fiel e as pessoas hostis. 73 Me afei- vra fiel continua sendo nossa regra para
çoaram é antes "me estabeleceram": con- o presente (83,87,88) e a nossa esperança
sequentemente, "tu me fizeste o que sou e para o futuro (81,82).
me colocaste onde estou". Fizeram inclui 89-96 Lâmed. Palavra sem fim. A
todas as forças pelas quais o Senhor molda palavra hebraica que significa "para sem-
o nosso caráter. As "pressões" da vida são pre", traduzida por para sempre (89) e
as mãos do Oleiro. Ensina-me. A oração nunca (93), divide a seção em duas partes:
não pede instrução, mas "discernimento", a palavra do Senhor e o compromisso com
a capacidade de enxergar o cerne da verda- ela são igualmente "para sempre". O pen-
de de Deus. Essa seção trata especialmente samento se move da palavra no céu (89)
da avaliação do mundo do ponto de vista para a palavra desfrutada pessoalmente
interior: discernimento e aprendizado (73), (92), e depois desta (93) para a palavra em
confiança no futuro (74), conhecimento sua própria natureza ilimitada (96). Tua
(75), consolo (76), prazer (77), meditação palavra (89), que expressa a natureza e a
(78) e um coração irrepreensivel (80), i.e., vontade do Senhor, é o ponto fixo do céu.
um ser interior no qual todas as capacida- Mas o Senhor é o mesmo na terra (90). Sua
des são perfeitamente integradas em tomo fidelidade, coerência invariável, permane-
da palavra. Esta era a sua oração, seu alvo ce, sustentando sucessivas gerações e dan-
e seu compromisso num tempo de aflição do estabilidade à terra em que habitam.
(75) e sofrimento imerecido (78)! De fato, tão grande é sua invariabilidade
81-88 Caf, O fim das forças. A aflição que ele é o mesmo hoje, e tão absoluto é
continua. Seus oponentes são os mesmos o seu domínio que todas as coisas - tan-
(85, cf 69,78), o sofrimento é imerecido to boas quanto más - fazem a sua von-
(86, cf 69,78), e ele chegou ao fim de suas tade (91). E, no nível pessoal, acontece a
forças. Os v. 81-84 exprimem urgência e mesma coisa. A palavra eterna dá durabi-
suplica que o Senhor mude a situação; os lidade à pessoa que tem prazer nela. Isso
v. 85-88 oram por ajuda e renovação (88, leva naturalmente ao compromisso, pois a
vivifica-me) nessa situação. A seção inteira palavra que guardou da morte trouxe tam-
é uma oração, alternando declarações com bém renovação (me tens dado vida, 93).
súplicas à medida que ele expõe diante do Esse compromisso com a palavra marca os
Senhor os fatos e as necessidades da vida: e que são do Senhor (94). Ainda no mesmo
esta é a principal lição a ser aprendida, a de período de hostilidade (95, cf 69,78,85), a
que, quando já não aguentamos mais, exis- preocupação deve estar centrada nos teste-
te um lugar chamado "Oração". Com mui- munhos do Senhor (sua palavra declaran-
ta frequência, a primeira baixa que sofre- do o que ele é e o que ele exige). Este é o
mos na hora da aflição é a oração, quando, caminho da vida, pois "em todas as coisas
861 SALMO 119

finitas vejo um fator limitante, mas os teus manas em meio às dificuldades da


mandamentos significam verdadeira liber- vida, lembrada e observada.
dade" (96, cf 45). N (v. 111,112) Uma resposta alegre e a pa-
97-104 Mem. A palavra deliciosa. lavra como o guia para a vida: posse e
A essência desta seção encontra-se entre orientação.
duas exclamações iniciadas por Quanto/
Quão: 97, quanto amo, prazer subjetivo na 105 Lâmpada... luz. Provavelmente a
palavra; 103, quão doces, a delícia objetiva lâmpada para iluminar o próximo passo, a
da palavra. O v. 104 é um sumário conclu- luz para iluminar o caminho à frente. 106
sivo. Somos ensinados (97-100) que a pa- Juramento. A ideia de compromisso vo-
lavra deliciosa instrui a mente: na medida luntário é forte nesta seção. Os verbos usa-
em que o amor à palavra faz com que me- dos em 109,110 exprimem determinação:
ditemos prolongadamente nela, recebemos "Estou determinado a não esquecer... a não
uma sabedoria superior a todas as ameaças me desviar". Não devemos esperar ser le-
(98), maior que a sabedoria humana (99), vados por acaso à devoção pela palavra!
melhor que a tradição (100). Além disso, a 107 Vivifica, "renova". 108 Espontânea
deliciosa palavra orienta a vida (10 l-I 03): oferenda, devoções deliberadas, feitas por
ela ensina o que devemos evitar e o que de- vontade própria. Os v. 109,110 combinam
vemos fazer. Ela é a voz educadora do pró- riscos assumidos necessariamente durante
prio Senhor, e é intrinsecamente prazerosa. o curso da vida com riscos provocados pela
Em suma (104), este é o caminho para uma hostilidade de terceiros. Deste modo, todos
mente sadia (entendimento, compreensão e os perigos possíveis estão incluídos: todo
discernimento da verdade), para emoções o precário curso da vida deve ser manti-
confiáveis (detesto) e para uma vida justa do debaixo da palavra. 111,112 O coração
(caminho). Observe a sequência: a medi- alegre precisa estar ligado com o "coração
tação constante (97,98,99) transforma-se dirigido" (112), lit., "inclinei/dirigi meu
em obediência (100), o poder da palavra coração para cumprir os teus decretos".
para mudar nossa vida. Obediência (10 I) Alegria sem obediência é frivolidade; obe-
nascida do reconhecimento da divina auto- diência sem alegria é moralismo.
ridade da palavra (102) transforma-se em 113-120 Sãmeq, Firmeza, não condes-
prazer (103). cendência. O salmista contrasta com os in-
105-112 Nun. A palavra prática. As decisos, os malfeitores, os que se desviam
duras realidades da vida que aparecem nas e os ímpios. O ponto que os distingue de
seções anteriores estão presentes aqui como modo visível é a palavra, amada (113,119),
uma aflição indefinida (107) e como ciladas guardada (115, cf 56), lugar de refúgio
dos ímpios (110). Esse é o contexto do que e base para a esperança (114), foco no
é dito a respeito da palavra. Ela deve ser qual se deve atentar firmemente (117, lit.,
usada na vida real, num mundo real. Como "Olharei/Oh, possa eu sempre manter meu
ocorre com as outras seções, esta tem uma olhar fixo em..."), Mas o que os distingue
estrutura claramente definida: interiormente é o Senhor: pois esperar na
palavra é refugiar-se no Senhor (114); a
AI (v. 105,106) A palavra como um guia palavra constitui os mandamentos do meu
para a vida e uma solene resposta: a Deus (115); o temor da palavra e o temor
lâmpada e o juramento. do Senhor andam juntos (120).
B 1 (v. 107,108) A palavra na mão do Por outro lado, os que procuram um
Senhor em meio às dificuldades da meio-termo e os ímpios, ao rejeitarem a
vida, apta para renovar e ensinar. palavra, são rejeitados pelo Senhor (118):
B 2 (v. 109,110) A palavra em mãos hu- estando errados com sua palavra, eles
SALMO 119 862

não podem estar certos com ele. Desta amar a palavra do Senhor como nosso
maneira, Sâmeq desenvolve a ênfase no principal tesouro (127), aceitar sua total
compromisso de Nun. Esse compromisso correção (128a, lit., "todos os teus precei-
não é opcional nem negociável, mas in- tos sobre todos os assuntos") e abominar
trínseco à vida em comunhão e paz com todas as alternativas (128b). Aprendemos
o Senhor. A estrutura da seção esclarece aqui o contexto em que o Senhor, se assim
sua mensagem. o desejar, concede reavivamento? Oração,
conhecimento e amor por sua verdade,
AI (v. 113,114) Amor e refúgio aversão aos caminhos errados.
B' (v. 115) Separação decisiva 129-136 Pê. A lâmpada de filamento
CI (v. 116) Oração por amparo duplo. Em Áin, olhos cansados só conse-
C2 (v. 117) Oração por amparo guiam ver as trevas se tornando mais es-
B 2 (v. 118) Rejeição divina pessas. Agora, uma porta se abre para a
N(v.119,120)Amoretemor luz - a luz da palavra (130) que, antes do
final da seção, tornou-se a luz do Senhor
Assim, esta seção trata de uma pessoa (135). Entretanto, a situação é a mesma:
diferente, interior (113), vertical (114) e sua opinião pessoal sobre o caráter sobre-
exteriormente (115); uma vida amparada, natural da palavra do Senhor (129), deli-
de acordo com a promessa (116), trazendo mitada por parênteses que falam de sua
livramento (117); e um Deus que faz dis- tristeza por causa da zombaria de que a pa-
tinção: a base para a rejeição (118); uma lavra é alvo (136). Entre esses parênteses,
reação diferente: amor (119), um verdadei- encontramos:
ro temor (120).
121-128 Áin. Um plano para tempos AI (v. 130) A luz da palavra do Senhor
perigosos. O servo do Senhor vê que, ape- B\ (v. 131,132) A misericórdia divina,
sar de sua determinação de ser uma luz no satisfazendo a fome pela palavra
mundo, as pessoas opressivas e arrogan- B2 (v. 133,134) Redenção divina, tra-
tes predominam - e quanto tempo mais zendo liberdade
ele conseguirá aguentar (123)? A verdade N (v. 135) A luz do favor de Deus
divina é desprezada e o resultado final é
que só a ação divina poderá resolver (126). 129 Admiráveis, semelhante à nossa
Intervires (126) é o mesmo verbo de prati- palavra "sobrenatural". Observa, "salva-
cado (121), como se fosse "todos os meus guarda/protege /mantém intacta", (cf 56).
esforços fracassaram; é hora de assumi- Uma coisa que é única precisa de prote-
res". Deste modo, 126 é o clímax a que o ção. 130 Revelação (lit.) "porta, abertu-
trecho de 121-125 conduz, mas também é ra". O significado pode ser que, quando a
um pivô entre dois versículos de oração palavra se abre como uma porta, a luz do
(124,125) e dois versículos de declaração Senhor passa através dela. Isto é parte do
de fidelidade (127,128). Quando uma pes- caráter sobrenatural da palavra. Simples.
soa diz "tu precisas intervir" (126) e "eu Alguém que, se deixado sozinho, não tem
não posso fazer mais" (121-123), ela não nenhum princípio de orientação. 131,132
está escolhendo sair da competição e pas- O desejo ardente pela palavra e o amor
sando a vez a outro. As orações adequadas pelo Senhor andam juntos. É só por pie-
do servo pedindo segurança para si são dade (favor divino para com os que não
moduladas em orações para aprender e merecem) que a palavra é concedida para
compreender a verdade divina (125). Além alimentar a alma faminta. 133 Domine,
disso, afirmar a necessidade de ação divina "tenha controle", de modo que a liberdade
tem uma consequência (Por isso, 128a): de obedecer à palavra seja restringida ou
863 SALMO 119

destruída. 134 Livra-me, "paga o preço do meditação bíblica. No v. 149, a oração


resgate", assume a responsabilidade pelo não se baseia em compromissos humanos,
custo necessário. mas no amor do Senhor; v. 150,151 con-
137-144 Tsade. Senhor justo, palavra trastam duas "proximidades", e o v. 152
justa. Por que é que, quando a palavra dá arremata a seção com a verdade da palavra
luz, o Senhor dá luz (l30,135)? Tsadê res- eterna. 145-148 Perto do Senhor. A oração
ponde: Porque o Senhor se expressa e se é: (i) inseparável da obediência. Sem um
toma conhecido de modo perfeito e eterno compromisso moral sério, a intercessão é
em sua palavra: Ele éjusto (137) e sua pa- meramente egoísta; (ii) inseparável da au-
lavra tem justiça (144), teus testemunhos tonegação: não que a nossa urgência tome
(138) são "impostos com justiça" e (142) a oração eficaz, mas na verdadeira oração
sua própria justiça é justiça eterna. O "ca- existe um elemento de compromisso sacri-
samento" entre os dois é perfeito. 137,138 ficial; (iii) inseparável da palavra de Deus.
A palavra expressa o Senhor. Juízos, as Sem sua palavra, não temos condições de
decisões do Senhor, revelando sua mente; saber o que podemos esperar ou pedir.
testemunhos, o que ele "testificá", revelan- 149-152 O Senhor está perto. Quanto mais
do-se; impuseste, "ordenaste", revelando próximos os perigos da vida, mais perto
sua vontade. Assim, aquele que é justo está o Senhor. Perto (151) é uma palavra
dá ordens justas. Ele e sua palavra são ligada ao "resgatador", o parente mais
um. 139,140 A palavra cativa o servo do próximo. O Senhor se comprometeu a ser
Senhor. Ao se defrontar com inimigos, sua nosso parente mais próximo - aquele que,
primeira preocupação é com o prestígio quando estamos desamparados, assume a
da palavra; ao se defrontar com a palavra, responsabilidade pelo suprimento de todas
em toda a sua refinada pureza (puríssima, as nossas necessidades. Sua proximidade
"extraordinariamente refinada"), seu cora- está ligada, portanto, à sua bondade (fide-
ção explode de amor. 141,142 A palavra lidade amorosa prometida em compromis-
preocupa sua mente. Posição (pequeno) e so); e a nossa garantia de que ele é o nosso
reputação (desprezado) não são importan- parente mais próximo reside em seu teste-
tes, comparados com ter a palavra clara na munho imutável (prescrições) sobre o que
mente. O Senhor eternamente justo falou, ele é e o que faz. Mas, além disso, como
e sua palavra é a "verdade" em si. Que o Senhor e a sua palavra são um (v. Pê,
reflexão pessoal pode ser superior a isso? Tsade), a palavra é o seu agente renovador
143,144 A palavra traz vida. A qualidade da vida (149, vivifica).
de vida é ameaçada por tribulação e an- 153-160 Rêsh. Três coisas confiáveis.
gústia (143, "adversidade e pressão"), mas O salmista confiável que não se esque-
um tipo diferente de prazer é dado pela pa- ce da palavra (153), o Senhor confiável
lavra. Consequentemente, o alvo da oração (154,156,159) e a palavra confiável que
é inteligência, "discernimento", porque nunca muda (160). Mas a confiabilidade
este é o caminho para a vida de verdade. humana não pode ser considerada como
145-152 CO.f: A presença sentida. As algo garantido. A vida é marcada por afli-
duas metades da seção Cal correspondem ção, e a presença corrosiva de pessoas ím-
a Tiago 4.8: "Chegai-vos a Deus" (145- pias e infiéis ("traidoras"). A vida precisa
148), "e ele se chegará a vós" (149-152). de constante renovação, que depende do
Os v. 145,146 são ligados pela palavra co- amor, da promessa e da decisão do Senhor.
mum clamo; os v. 147,148 começam com Essa repetição da oração pedindo renova-
o mesmo verbo, (lit.) "antecipo-me... meus ção constitui o cerne desta seção.
olhos antecipam-se...", e juntos abran- 153,154 (AI) Vê a minha necessidade.
gem uma sessão de 24 horas de oração e Defende a minha causa. O salmista está so-
SALMO 120 864

frendo acusação. Livra (assim como perto, o que odiar; a batalha é pela persistência
151) pertence ao vocabulário do parente paciente até que o Senhor aja. Mas é a obe-
mais próximo: o "resgatador" se identifica diência o selo de qualidade do amor, e é
com seu parente atribulado, assume e salda por meio da obediência que agradamos ao
todas as suas dívidas, supre todas as suas Senhor (168).
necessidades. Em meio a essa situação 169-176 Tau. Errante, mas obedien-
difícil, a fidelidade à palavra permanece. te! Os v. 169,170 ligados por chegue a ti,
155 (B 1) Os ímpios. Os que se afastam são orações em que o salmista pede para
da palavra não podem esperar nenhuma ser ouvido e para que o Senhor aja confor-
intervenção salvadora da parte de Deus. me a sua palavra, operando interiormente
156,157 (C) Muitas misericórdias. Muitos (entendimento, "discernimento") e exte-
adversários. A misericórdia é o amor de riormente (livra-me). Os v. 171,172 estão
Deus que se comove prontamente. O amor ligados por referências a lábios e língua,
do Senhor corre ao nosso encontro e é e são ambos orações pedindo receptivida-
equivalente à dimensão de cada ameaça. de à palavra ensinada e reconhecida pelo
158 (B 2) Os traidores. Falsos com as pesso- que ela é. Os v. 173,174 pedem e anseiam
as, eles não têm compromisso com a pala- por ação divina, baseando seus pedidos na
vra. 159,160 (A") Vê o meu amor. Alertado reação (escolhi ... prazer) já demonstrada
pelo que acontece com os que ignoram a diante da palavra. Os v. 175,176 enfocam
palavra (158) e, portanto, não podem espe- necessidades pessoais, a sensação das forças
rar livramento (155), o salmista afirma seu se esgotando e a tendência a se desgarrar. A
amor pela palavra e sua eterna verdade. chave para a vitalidade e a recuperação é
161-168 Sin e Shin. Palavra valoriza- não esquecer a palavra sustentadora.
da, vida constante. Se seguirmos a distri- Os quatro primeiros versículos (169-
buição das letras iniciais Sin e Shin, esta 172, que poderiam ser intitulados "Ouve,
seção se divide em três partes: 161-163; Senhor!") estão centrados na voz do sal-
164-166; 167,168. Elas tratam, respecti- mista, com os temas de oração e louvor
vamente, do coração fiel (o que ele teme, baseados na palavra, considerada como
o que ele valoriza, o que ele ama), a vida aquilo que o Senhor disse e que é rece-
fiel (louva constantemente, não tropeça, é bido como ensino e ordem. Os quatro
obediente) e o observador fiel ("observân- últimos versículos (173-176, que pode-
cia" obediente que nasce do amor e cujo riam ser intitulados "Age, Senhor!") são
objetivo é agradar). O verbo "amar" ocorre a voz do testemunho (Escolhi... suspiro...
em todas as seções: o coração fiel guarda errante... não me esqueço) brotando da
seu amor pelo ensino do Senhor (163) por vontade, das emoções, da vida em si e
meio da correspondente aversão pelo que da mente/memória concentrada na pala-
é falso; a vida fiel desfruta de paz (integri- vra. Cada conjunto de quatro versículos
dade; paz com Deus, com as pessoas, e paz termina com a palavra considerada como
de espírito; uma vida completa e equilibra- mandamentos (172,176). De fato, uma
da) em consequência de amar o ensino do conclusão apropriada!
Senhor (165); o observador fiel é motiva-
do por amor pelo que o Senhor testificou Salmos 120-136.
a respeito de si mesmo (167). A vida que Louvor do peregrino
está determinada a ser fiel - sob pressão Provavelmente ° mais gracioso grupo
e com dedicação - encontra realização de salmos de todo o Saltério, os salmos
e paz; mas também enfrenta conflito mo- 120---134 se auto definem como "Cânticos
ral, pois não existe fidelidade que não seja de Degraus", embora sem explicação algu-
desafiada. A escolha é entre o que amar e ma de como se deve entender esse título. A
865 SALMO 120

palavra, lit., "subidas", é traduzida por de- (SI 120-131) apresentam as seguintes ca-
graus(Êx20.26; lRs 1O.19s.;cj2Rs20.9s.; racterísticas em comum: o primeiro salmo
Am 9.6) e também é usada, em uma oca- de cada grupo expõe uma situação de afli-
sião, com referência à jornada de "subida" ção; o segundo ressalta o poder do Senhor
da Babilônia e a pensamentos "surgindo" para guardar/livrar/edificar/dar esperança;
(Ez 11.5). "Degraus" evocava a tradição e o terceiro aborda o tema da segurança:
judaica para fazer uma associação muito em Sião (122; 125; 128); no Senhor (131).
imaginativa com os corais de levitas can- Este "movimento" em direção a Sião con-
tando nos degraus que levavam do Pátio corda e dá apoio à ideia do "Louvor do
das Mulheres para o Pátio dos Filhos de Peregrino". Toda a coleção mantém os
Israel, no templo de Herodes, mas não che- olhos do viajante fixos no alvo. Os salmos
gava a dizer que os coros cantavam exclu- 132-134 são salmos de chegada - a arca
siva ou especialmente essas canções. A re- em Sião, comunhão em Sião, bênção em
ferência a "degraus/escadas" em Neemias Sião. O peregrino que inicia sua viagem
3.15; 12.37 levou à hipótese mais razoável muito longe, num mundo áspero e cruel
de que essas canções eram cantadas numa (120), de fato nas "trevas" deste mundo
procissão até o templo, durante as festas. (Quedar, 120.5, significa "negro"), ter-
O tema constante Sião/Jerusalém/Casa do mina a viagem numa noite (134.1) muito
Senhor apoia essa hipótese. diferente, seguro na Casa do Senhor e de-
Ampliando o cenário, alguns comenta- baixo de sua bênção.
ristas associaram os salmos com a volta dos
exilados babilônicos. O único uso relevante Salmos 120-122. A primeira
de "degraus" em Esdras constitui uma base tríade. Quando vem a tribulação
muito fraca para que possamos considerar Pessoas antipáticas (120) e circunstâncias
essa palavra um termo técnico para o re- hostis (121) ameaçam o peregrino, mas há
tomo de Babilônia, mas essa teoria tem a paz dentro dos muros de Jerusalém (122).
"sensação" correta em relação ao aspecto
amplo e a alguns detalhes dos salmos. Salmo 120. Oração em
Os salmos, no entanto, provavelmente meio a um povo hostil
foram reunidos a princípio para providen- A ordem das palavras no v. 1 é"Ao Senhor,
ciar um hinário, o "Louvor do Peregrino", na minha angústia, eu clamo e ele me res-
para grupos de viajantes que se dirigiam ponde". Esta é a imagem que o salmo nos
a Sião na peregrinação anual para as fes- deixa: orando no meio da dificuldade, pro-
tas (Êx 23.17; cllSm 1.3; Lc 2.41). Com tegido pelo cuidado divino. Não há razão
certeza, eles são apropriados para tais oca- para pensar que os v. 3,4 fossem realmen-
siões. Cada salmo, é claro, tinha seu pró- te ditos ao adversário. Como Provérbios
prio ponto de origem e de uso antes de ser 20.22; Romanos 12.19 ordenam, o proble-
editado na posição que ocupa atualmente ma é levado ao Senhor e deixado lá, mas
nos "Cânticos de Degraus". Na maioria com a certeza do resultado final: setas (4)
dos casos, essa informação não pode ser apontadas com a habilidade de um valente
recuperada e, mesmo que pudesse, pouco têm de atingir seu alvo - o castigo cairá
ou nada se acrescentaria. O "Louvor do onde é merecido; mas por trás dele há bra-
Peregrino" foi editado com extrema habi- sas vivas, a justiça retributiva de um Deus
lidade, e o que importa é o significado do que odeia o pecado. Porém, nesse meio-
salmo em sua posição atual. tempo, enquanto deixa toda a retribuição
Os "Cânticos de Degraus" dividem-se para o Senhor, o salmista vive num mun-
em cinco grupos de três, mais os salmos do que não pode dar paz (5-7). Meseque,
135 e 136. Os quatro primeiros grupos no extremo norte (Gn 10.2), e Quedar
SALMO 121 866

(Jr 2.1 O), no deserto siro-arábico, são muito coroada com a chegada (2), a vista (3) e
distantes uma da outra para estar localiza- a construção (4,S) da cidade. Não admi-
dos onde o salmista vive. Metaforicamente, ra que tudo resulte em oração responsiva
essas palavras sugerem estar longe de casa, pelo povo do Senhor, sua comunhão e a
nos lugares ermos do mundo. Mesmo nes- segurança da própria cidade. Isaías 26.1-4
sas regiões, ele viveria em paz (esta é a ensina que, em meio aos perigos da vida,
sua natureza: 7, lit., "eu estou em paz"; cf nós já vivemos, pela fé, dentro da "cidade
109.4) e compartilharia a paz que conhece, forte" (Hb 12.22; cf Ef 2.6). Neste senti-
mas o mundo é um lugar peçonhento. do, o peregrino podia cantar a respeito de
pés fincados nas calçadas de Jerusalém en-
Salmo 121. Perigos desconhecidos, quanto ainda realizava sua perigosajorna-
seguranças conhecidas da. A essência dessa cidade é sua unidade
A questão de onde se pode encontrar segu- (3-S): a própria forma da cidade diz que
rança (1) poderia ter sido originariamente ela é compacta. Os que entram vêm como
suscitada por várias situações. Entretanto, tribos, mas são todos do Senhor, motiva-
no atual contexto de peregrinação, ela dos por obediência (como convém a Israel)
retrata um olhar de preocupação dirigi- e com o objetivo de louvar, privilegiados
do aos montes onde podia haver saquea- por terem a revelação de Deus acerca de si
dores escondidos, ou um olhar ansioso mesmo (nome). Eles chegam a um lugar
para as distantes colinas de Sião: como onde, em princípio, sob o governo do rei
conseguirei escapar dos perigos do cami- indicado por Deus, tudo é posto em ordem
nho e chegar aos montes (12S.2) de casa? (S, justiça). Eles precisavam orar porque
Mas (2), O SENHOR ... fez o céu e a terra: sua Jerusalém era deste mundo. A nossa é
toda ameaça surge e toda jornada é feita diferente (Hb 11.10), mas a convocação à
neste mundo onde ele governa supremo. alegria, unidade e oração permanece.
Consequentemente (3-8), seis vezes o ver-
bo "guardar" ressoa. Os perigos são des- Salmos 123-125.
conhecidos, mas a segurança é certa. 3,4 A segunda tríade.
O Senhor que resgatou (Êx 6.6) seu filho Quando os recursos falham
Israel (Êx 4.22) não irá perdê-lo agora, A zombaria (123) e a hostilidade (124)
no caminho de casa! 5,6 O divino compa- humana fazem com que o povo do Senhor
nheiro (à tua direita) se coloca entre você dependa inteiramente dele, mas (12S) os
e qualquer ameaça real (sol) ou imaginária que nele confiam estão tão seguros quanto
(lua). 7,8 Ele guarda de todo mal, garante a própria Sião. Em 120, o pedido era para
segurança pessoal (tua alma), acompanha que o Senhor resolvesse o problema dos
os afazeres do dia a dia (a tua saída e a inimigos; 123 pede que ele cuide das fra-
tua entrada) em todos os momentos (desde quezas; 121 enfocava perigos circunstan-
agora e para sempre). O Criador é também ciais; 124 retrata forças humanas em fúria;
o Redentor e o Companheiro. em 122, Sião simbolizava paz; em 12S, ela
simboliza força.
Salmo 122. A família na cidade
Imagine o peregrino no final do primeiro Salmo 123. O Senhor no céu
dia na cidade: (2) lit., "Nossos pés real- A igreja terrena está cercada de desprezo
mente estiveram parados nas tuas por- (3), escárnio e indivíduos que estão à sua
tas!". A maravilha do lar contrasta com os vontade e são soberbos (4). O que fazemos
"lugares distantes" (120.S); o companhei- quando não podemos "aguentar" mais (3)?
rismo dos irmãos (8), com as contendas Os olhos simbolizam anseio, necessidade,
dos inimigos (120.2,7). A expectativa foi expectativa. O "levantar dos olhos" diz
867 SALMO 126

tudo ao Senhor cujo trono celestial (I) fala ("desvio") da resistência, violando o que o
de seus inesgotáveis recursos, bem como Senhor ordenou (Rm 13.1).4,5 Tal situa-
de sua soberania sobre o mundo inteiro. Os ção, em que a confiança é posta à prova pe-
servos olham para os recursos incertos de las circunstâncias, exige oração. A oração
seus senhores terrenos. Nós olhamos para não é dirigida contra os ímpios (5) - estes
o SENHOR, que revelou seu nome e realizou são deixados a cargo do Senhor - mas
milagres para nós quando éramos escravos para beneficio dos que seguem o Senhor de
no Egito. Mas sua tríplice misericórdia coração (4), o seu Israel (5), o verdadeiro
(graça para os que não a merecem, 2,3) não povo entre os que professam sê-lo.
falhará. Basta manter os olhos fixos nele,
sujeitando nossas necessidades à sua esca- Salmos 126-128.
la de tempo (até que, 2). A terceira tríade.
Quando o fracasso ameaça
Salmo 124. O Senhor que O povo do Senhor ainda está no mundo.
está ao nosso lado Os dias são de lágrimas (126.5). Mas 127
Quatro imagens do perigo dizem tudo: ter- mostra o outro lado da moeda: em meio ao
remoto (3b; Nm 16.30) e enchente (4a) são trabalho pesado da vida, o Senhor dá "o
perigos avassaladores dos quais é pratica- sono" (ARC, 1,2), e as lágrimas com que
mente impossível ter livramento - mas o 126 termina convertem-se na felicidade
Senhor pode fazê-lo! As feras carnívoras (feliz) de 127.5. O salmo 128 está repleto
(6) e os passarinheiros (7) são perigos no de felicidade (I, bem-aventurado; 2, feliz
reino animal e entre os seres humanos. Não serás) dada e garantida pela bênção de
apenas saímos ilesos, como o próprio pe- Deus (4,5). Assim, o assunto é sutilmente
rigo foi destruído (7c). Somente um Deus diferente do tema "chegando a Sião" das
com domínio total, soberano e universal (8), duas primeiras tríades. Na verdade, num
poderia ter feito essas coisas - e esse Deus certo sentido, esta tríade começa em Sião
é o SENHOR comprometido e infalivelmente (126) e termina lá. Mas ela começa com
posicionado ao lado do seu povo (1,2). uma bênção muito desejada, uma colheita
que ainda virá, e termina com a bênção já
Salmo 125. O Senhor que desfrutada. Em resumo, esta é uma pere-
está ao nosso redor grinação do coração, e não dos pés: um an-
Este é um retrato de uma comunidade crente seio por uma bênção maior do que jamais
que encontra segurança na confiança (1,2); desfrutamos (126), uma segurança maior
uma comunidade ameaçada, aguardando do que jamais experimentamos (127).
pacientemente até que o Senhor remova a
carga do governo ímpio (3); uma comuni- Salmo 126. A tensão da experiência
dade dividida, onde os bons e os maus estão O êxtase inicial de Esdras 1-6 e a ero-
misturados (4,5). 1,2 A confiança nos toma são do entusiasmo provocada pela dureza
uma analogia viva da inabalável Sião; os da vida ilustram este salmo. É sempre a
montes que a circundam são uma analogia mesma coisa: quer pensemos no êxodo, no
do Senhor nos protegendo de todos os la- retomo de Babilônia ou até na obra reden-
dos. 3 Essa confiança inclui a fé no provi- tora de Cristo - a redenção está consu-
dencial domínio do Senhor sobre o mundo. mada, mas continua necessária! A alegria
A duração do governo opressivo ou incon- parece estar no passado; as lágrimas do-
veniente é ajustada conforme a paciência minam o presente. Se ao menos o Senhor
que o povo do Senhor tem para suportá-lo. agisse agora tão completa e dramaticamen-
Ele não dura tanto a ponto de fazer com te como no passado! Por isso oramos por
que o povo do Senhor caia na iniquidade torrentes no Neguebe (4), uma inundação
SALMO 127 868

repentina, transformando os leitos resse- áreas da vida: (i) pessoal e atual (2-4):
quidos dos rios, fazendo crescer um jardim prosperidade no trabalho e no casamento,
na terra abrasada! Mas não, na providên- e alegria doméstica; (ii) pública e futura
cia de Deus, depois de seus atos poderosos (5,6): vitalícia, em comunidade e família.
(1-3), a metáfora da colheita entra em ação O segredo disso tudo está no indivíduo: v.
(5,6). Haverájúbilo, mas só quando a can- 1 aquele, "todo aquele"; v. 4 o homem, o
sativa semeadura tiver sido completada e indivíduo. 1 Um coração reverente (teme)
os campos estiverem maduros para a co- ao Senhor e um estilo de vida (anda) con-
lheita. É neste ponto que nos encontramos dizente com o que ele determina (cami-
no plano perfeito de Deus (cf Fp 1.9-11; nhos).2 Comerás, uma imagem não só de
Tg 5.7,8; Ap 14.14-16). prosperidade, mas também de segurança
(cf Jr 31.5). 3 Videira. Em termos con-
Salmo 127. Descansando jugais, uma imagem de atração e prazer
no trabalho árduo sexual (cf Ct 7.8). Videira... oliveira.
Será que o salmo 126 diz tudo? Risos Juntos simbolizam a abundância das bên-
no passado, canções no futuro, lágrimas no çãos de Deus (cf Dt 8.8). O salmo 126
presente! O salmo 127 cobre três áreas da clamava por bênção; o 127 assegurava
atividade humana que podem gerar ansie- que ela não é resultado do trabalho ár-
dade - a casa, a cidade (1) e a família duo, mas da confiança; o 128 realiza os
(3-5) - e afirma que, sem o Senhor, não desejos do 126 e confirma as declarações
podemos fazer nada. Os v. 1,2 parecem do 127: Bem-aventurado (I)... bem (2) ...
sugerir "Deixe tudo com Deus; largue de abençoado (4) ... abençoe (5) - palavras
mão, deixe com Deus", e desfrute de uma diferentes, mas de mesma raiz, repetidas
vida descansada. Mas, na Bíblia, o antô- para confirmação.
nimo de descanso não é trabalho, e sim
inquietação; e os v. 3-5 acrescentam um Salmos 129-131.
corretivo. O Senhor ordenou que a huma- A quarta tríade.
nidade se dedicasse às atividades de pro- Quando o pecado ameaça
criar, conceber e criar. Contudo, insiste a A quarta tríade é diferente das anteriores,
Bíblia, não é a intervenção humana, e sim a já que a única referência a Sião aparece no
divina, que "abre a madre" ou, na verdade primeiro salmo (129.5). Sua semelhança
"fecha" (Gn 29.31; 30.2). Os filhos não são com a terceira tríade é observada princi-
realização nossa, mas dons de Deus (3). O palmente no salmo do meio, pois, enquan-
mesmo vale para uma casa construída e to 121 e 124 tratam de oposição externa,
uma cidade guardada (1,2). Toda a vida circunstancial e humana, 129 e 130 ressal-
precisa ser vivida em sua plenitude, todas tam tensão interior, perigos subjetiv