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PEREIRA, Patrícia de Paula.

Ensino de arte nos primórdios de Belo Horizonte: a contribuição de Jeanne


Milde no início do século XX. In: BARBOSA, Ana Mae. Ensino da Arte: memória e história. São Paulo:
Perspectiva, 2008.

Patrícia de Paula Pereira1 Ensino de arte nos primórdios de Belo Horizonte: a contribuição
de Jeanne Milde no início do século XX

Ensino de arte nos primórdios de Belo Horizonte: a contribuição de Jeanne Milde no início
do século XX
Jeanne Milde (1900-1997, uma belga que partiu da Europa para o Brasil, no início do século
XX, juntamente com um grupo de pedagogos para participar do processo de renovação do ensino
a ser promovida em Minas Gerais.

O Brasil vivia uma situação de crise provocada pelo acelerado desenvolvimento urbano-
industrial. A busca por soluções para os problemas dos anos vinte era a grande preocupação de
intelectuais e políticos da época. A emergência de uma nova realidade social veio acompanhada
de uma preocupação relativamente ao papel do indivíduo na sociedade, de sua formação como
cidadão e como membro de uma coletividade.

inúmeras manifestações político-culturais, de que é exemplo a Semana de Arte Moderna de 1922.


Esta expandiu o movimento modernista para várias regiões do país,

Visando atender às pressões democratizadoras e manter a ordem social, a educação torna-se um


dos problemas sociais mais discutidos no país.
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Devido à dificuldade e deficiência dos professores mineiros em desenvolver o ensino nos novos
métodos almejados pelo Estado, o governo de Minas insere, nessa reforma, a chamada Missão
Pedagógica Européia, a qual tinha por objetivo reunir um grupo de professores europeus capazes
de atuarem no desenvolvimento de pesquisas dentro das novas propostas pedagógicas.

A reforma deveria se desenvolver tendo dois focos, um, no ensino superior, outro, na qualificação
de professoras.

a idéia de criação de um ensino superior democratizante não era vista com bons olhos por alguns
políticos, pois poderia prejudicar a hegemonia do sistema elitista da época.

Antes de aportar em terras brasileiras, Jeanne Milde já tinha um contrato assinado por dois anos
com o governo mineiro.

Jeanne Milde trouxe para Belo Horizonte todo um referencial artístico europeu, além do
conhecimento adquirido na Academie Royale de Beaux-Arts et Ecole des Arts Decoratifs de
Bruxelles,

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Ainda, na própria Academia, Jeanne Milde recebeu influência das artes aplicadas dentro de uma
perspectiva utilitarista. A artista costumava usar “essa prática de ligar a beleza [das] arte[s] aos
objetos cotidianos”9
Como artista, Milde trabalhou com baixo-relevo, retratos e outras composições, especializando-
se na figura humana. Segundo pesquisas de Rodrigues10, a escultora incorporou em suas obras
quase todas as tendências iniciais do Modernismo, como o Simbolismo, Art Déco, Art Nouveau,
Expressionismo, Impressionismo, mas permaneceu com uma percepção clássica.
Milde chega a Belo Horizonte, em 1929, num momento em que as correntes de vanguarda
artística já haviam acontecido na Europa. No Brasil, somente a partir da Semana de Arte
Moderna, em 1922.
“poucos artistas em Belo Horizonte acompanhavam o que ocorria nas artes no mundo e os que
estavam cientes, na maioria das vezes, não valorizavam o novo” (as vanguardas artísticas). A arte
moderna não era aceita pelos artistas locais.

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O artista plástico que atuava em Belo Horizonte era considerado, até então, um sujeito marginal
na sociedade, a maioria era “autodidata e artista-gráfico.

Jeanne Milde não estava diretamente ligada a nenhum movimento de vanguarda nas artes, mas
sua presença em Belo Horizonte,

Milde viera de um meio artístico muito diferente do que encontrou no Brasil. Mesmo assim, a
escultora teve uma vida artística intensa entre os anos 30 e 40, buscando conquistar um melhor
espaço para as artes plásticas em Belo Horizonte.

Na tentativa de aproximar os artistas locais, a escultora procurava promover encontros em seu


sítio, perto de Santa Luzia:

Milde transitava por vários espaços artísticos da capital mineira, era acolhida por artistas
acadêmicos e modernos, mostrava-se aberta a novas formas de expressão. Estava sempre entre o
novo (as vanguardas) e o antigo (o acadêmico)21, desenvolvendo, paralelamente às atividades
didáticas, seu trabalho pessoal como escultora.
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Paralelamente a sua atuação como artista em Belo Horizonte, estava também o trabalho como
arte-educadora.

na Escola Normal de Belo Horizonte que Jeanne Milde começou seu trabalho como
artista/professora. Lá ela orientou inicialmente as cadeiras de Desenho, Modelagem e Trabalhos
Manuais e, posteriormente, ainda no mesmo ano, em 1929, com a partida de Perrelet, ela
assumiria as mesmas Cadeiras na Escola de Aperfeiçoamento. A cadeira de modelagem foi criada,
especialmente, para privilegiar a formação da escultora.

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Em Minas Gerais, a situação do ensino da arte, antes da chegada de Jeanne Milde, também não
era muito diferente. Outros modos de abordagem do desenho em Minas iriam acontecer a partir
de 1929, quando o Estado então passaria a valorizar outras formas de expressão, além da
linguagem oral e escrita, reconhecendo a importância da arte na educação.

Jeanne Milde, ao assumir a Cadeira de Desenho, Modelagem e Trabalhos Manuais, na Escola


Normal, e, posteriormente, na Escola de Aperfeiçoamento, deveria elaborar o conteúdo de suas
aulas a partir dos princípios que regiam a reforma do governo mineiro. Como ela era uma
professora estrangeira, deveria ser sempre orientada por um professor nacional.

Foi na Escola Normal de Belo Horizonte que Jeanne Milde começou a elaborar seus trabalhos
como artista/professora.
A realidade encontrada por Mlle. Milde, em Minas, era bem diferente da dos centros europeus.
Essas diferenças fizeram-na refletir sobre os métodos nos quais ela fora formada.
Jeanne Milde teria como desafio entrelaçar seu aprendizado acadêmico com os princípios da
reforma educacional mineira: as idéias escolanovistas.
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Nesse sentido, o regulamento dos programas de ensino recomendava a introdução do Método
Decroly, que considerava duas operações importantes para o intelecto do aluno: A atividade de
aquisição, composta pela observação, que seria baseada em conhecimentos práticos
A atividade de expressão - “estando o aluno de [posse de suas] impressões, idéias e conceitos;
adquiridos pelo processo anterior [da atividade de aquisição], te[ria] ele necessidade de
exteriorizá-los

Assim, o desenho e o trabalho manual passaram a ser uma das possibilidades mais importantes
para a criança exteriorizar suas idéias e conceitos formulados durante as aulas

Tal método de aprendizagem acabava colocando o ensino do desenho e dos trabalhos manuais,
em alguns momentos desse processo cognitivo, como prática final de outras matérias ou ainda
como expressão de uma aula.
Assim, como professora estrangeira, Jeanne Milde deveria seguir as recomendações que estavam
determinadas no programa de ensino. A orientação da artista/professora deveria estar voltada
tanto para as professoras do curso de especialização em trabalhos manuais, quanto para as
professoras de outras matérias.
Por outro lado, Mlle. Milde deveria conciliar o material empregado no ensino do desenho,
modelagem e trabalhos manuais com a realidade das professoras locais, já que estas nem sempre
teriam disponível a matéria-prima necessária para o desenvolvimento das aulas. A partir desta
situação, a artista/professora elaboraria seu ensino tanto no aspecto da arte, relacionado-a à
sensibilidade do aluno, quanto no aspecto da arte no cotidiano das pessoas.

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A partir dessas atividades práticas desenvolvidas com madeira, argila, fios etc, Milde procurou
criar situações em que o aluno pudesse produzir objetos do seu uso cotidiano, a partir da matéria-
prima regional. A artista recorreu a materiais alternativos como cabos de vassoura, palha de milho,
restos de pó-de-serra e outros tipos de matérias-primas que poderiam ser reaproveitadas na
confecção de móveis.

Jeanne Milde introduziu na educação mineira uma arte erudita ao ensinar técnicas de escultura,
pintura, desenho e outras; mas, também, desenvolveu uma arte mais aplicada, ao orientar as alunas
na criação de objetos de uso cotidiano, inserindo na construção destes, materiais alternativos
encontrados na própria região de Minas.

A artista passaria a adotar, em suas aulas, as atividades manuais como situações mais próximas
da realidade do aluno e das alunas-professoras, mudando o conceito e a mentalidade da época,
que se restringia à cópia de modelos em gesso, economia doméstica, costura, trabalhos de agulhas
e ao ensino do desenho agregado à matemática.

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Assim, Jeanne Milde passaria a aliar arte e vida por meio das atividades manuais e de uma
proposta de arte unificada. Nesse sentido, a artista acabaria colocando em prática as idéias
reformistas idealizadas pelas escolas de arte do século XIX e início do século XX: ...A partir de
então, a professora passaria a estreitar a relação entre o trabalho manual e a arte. Esta seria
desenvolvida por meio de variadas oficinas de criações, tanto na Escola Normal Modelo,
As atividades introduzidas por Milde, em relação ao trabalho manual, não era de facilitar a
mecanização ou a mera reprodução de objetos, mas o de buscar provocar a criatividade do aluno
por meio desses materiais alternativos, de fácil acesso.

Milde tinha como responsabilidade fundamental preparar as normalistas e professoras para a


disciplina de Trabalhos Manuais, que seria ministrada por elas nas escolas públicas primárias.
Ela procurava desenvolver, nesse espaço, uma consciência comunitária sobre a arte,
elaborada a partir de sua visão pessoal como artista.

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Milde precisava estar sempre se atualizando, buscando informações, discutindo, aprofundando


reflexões em práticas pedagógicas e artísticas, mas, principalmente, precisava conhecer a cultura
brasileira, tendo em vista as orientações de ensino. Jeanne Milde complementava seu
conhecimento artístico/pedagógico por meio de viagens, além de explorar um grande acervo
bibliográfico

Entretanto, das atividades previstas por Milde, a prática do desenho era considerada um dos
exercícios mais importantes a ser desenvolvido em suas aulas.
A prática do croqui e do desenho do natural permeava grande parte das atividades desenvolvidas
em suas aulas.

motivo decorativo seria necessário combinar três elementos: “a natureza, a geometria e os


objetos”48. A artista ainda complementa: “os motivos combinados [seriam] múltiplos e [se
prestariam] ao emprego da decoração como para bordados, pinturas, estamparias, motivos de
cerâmica, tecelagem.

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sua orientação estava voltada para a criação de motivos decorativos baseados na fauna e na flora.
A valorização dada por Milde à prática do desenho também consistia em aguçar o olhar do aluno
por intermédio do saber “ver e observar”.

Entre as várias atividades de suas aulas, estava também a prática do Teatro de Bonecos
direcionada para a criação de máscaras, cenários, fantoches e outros. Essa arte foi introduzida, no
curso de especialização para professores, com o intuito de conciliar as propostas de criação dos
objetos cênicos com os exercícios literários.

Milde e Helena Antipoff, esta última responsável pela área de psicologia, compartilhavam
algumas idéias sobre a nova pedagogia de ensino que, em virtude das limitações impostas pela
direção do Curso de Aperfeiçoamento, não podiam ser amplamente estudadas e trabalhadas
naquele local. .... a meta de Antipoff “era educar através de atividades artísticas, dando,
paralelamente, um atendimento psicológico, na época uma novidade”52
A chegada de Jeanne Milde a Belo Horizonte foi fundamental para desenvolver o meio artístico
e educacional da época. A atuação como arte/educadora, se faz através de sua preocupação em
estar sempre informada sobre arte e atuar no meio artístico, além de manter seu trabalho como
escultora.
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A escultora belga tinha um compromisso com o projeto educacional mineiro que visava à
reformulação qualitativa do ensino de arte nas escolas. Para Milde, a prática, a teoria e a estética
deveriam estar conectadas a uma concepção de arte.
A artista vinculava às suas aulas a vida pessoal, regional, nacional e a de outros países.
Apesar de sua importância, Jeanne Milde, ao aposentar-se, em 1955, não teve seu diploma de
artista reconhecido no Brasil, passando a receber uma pensão irrisória.

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