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l€onorbpesFá,eío Marh LrúciaG. V. O.Andrade Zlda(ìO.Aquino

DadosIntèrnacionais de Catalogaçãona

Publicação (ClP)

(CâmaraBrãsilelÍa do Livro,SB BÍasil)

Fávero,konor Lop€s

OÉlidadee esçrita: perspectivapaÌa o ensinode língua matema/ konor l,opesFávero, Maria Lúciada Cunha V de

OliveiÍaAndrade, Zilda Caspar Oliveira de Aquino. -2. ed. - SãoPaulo : CoÍtez,2000.

Bibliognfia-

lsBN 85-249-0715-0

l. Comunicaçãooral.

Estudoe

2. Escrita 3.Fala 4. Linguageme

línguas -

nsino5. OralidadeI. Andrade'MaÌia Lúcia

daCunha V de Oliveira.ll. Aquino,Zilda Gaspar Oliveirade

lII. Tïtulo.

índices para catálogo sistemático:

  • l. Línguamatema: Oralidade e escÍita: Ensino: Lingüística410.7

2. Oralidadee escrita:Língua matema: Ensino : Lingúística410.7

I

{

t,raildade

^trtr

e escrita

perspectivaspara o ensinode língua matema

P edição

@EfiflÉã

ORÂLIDADE

E ESCRITA: penp€ctivas para o

lÉonor Lopes FáveÍo, MaÌia Lúcia da CuDhaV Zilda Caspar Oliveira dc Aquino

etr3itrode língua matema de Oüveira Aodrade,

Capa: DAC

Prcparaçilode

R?utôo. MaÍia

o Bìnaís: A9íÂldo A. OliveiÌa d€ Loudes de Almeida

Composiçiio: Dany Bditorâ Lrda. Cood"nação editoiaL. Dânilo A. Q. Morâles

NenhumapaÍle destô obrs pode ser reprcduzida ou dÌrplicadasem autorizaçãoexpressa das auioras e do ediior.

@ 1999by Autoras

DiÍcitos pa.a estâ ediÉo CORTEZ EDITORA Rua BaÌtira, 3l? - Perdizes

05009-000 - São Paulo - SP

Tel.:(ll)

3864-0111

Far: (ll)

3864-4290

E-mail: cortez@cortezeditoÍa.coh.br

Impressono BÍasil - julho de 2000

;*dt9%,

Suueruo

Apresentação

 

7

Introdução

o

Fala e escrita

 

9

A ouestãodo ensinoda fala

 

ll

Capítulo I

-

A organizaçãoda fala e da escrita...

 

15

Fatoresconstitutivos da atividãdeconversacional

15

Níveisde estruturação do textofalado

 

22

A estrutura do texto escrito: o parágrafo

 

25

Capítulo II

-

Coesãoe coerênciano texto falado

..

3l

Tumo

.

35

Tópico discursivo

 

37

Marcadoresconversacionais

....

44

Paradjacente

...

49

CapítuloIII -

Atividadesde formulação .......

...

 

55

O queé formularum texto?

.........

.

55

Hesitação

 

56

Paráfrase.

59

Repetição

60

Correção

62

Capítulo IV -

As relaçõesentre fala e escrita

..

69

Condições de produção

74

Operaçõesde transformação

83

Sugestõesde atividades

9l

Conclusão

l15

Anexo -

Normaspara transcriçãodos textos orais..

117

Referênciasbibliográfi cas

t2l

ApnpsplvtaçÃo

O objetivodesta obra é apresentarao leitor a questão

do tratamentoda oralidadeno ensino de língua matema,

pois há consensoentre os responsáveispor esseensino que

"o texto escritonão é mais o soberano"e que, taÍìto quanto

a escrita,a fala tem "sua própria maneirade se organizar,

desenvolvere transmitirinformação, o que permite qu@

G )ome como fenômenoespecífico" (Marcuschi, 1993: 4).

O livro compõe-sede quatrocapítulos, além da intro-

dução e da conclusão.Na introduçãoe no CapítuloI, são

apresentadasa organizaçãoda fala - níveis constitutivos

e níveis de estruturação- e da escrita- o parágrafo.No

Capítulo II, discute-sea coesãoe a coerênciano texto

falado, mostrandoque a análisedesses dois fatoresconsti

tutivos do texto deve ser feita de forma diferenteda dos

textos escritos, já que são de naturezadiversa, pois a

conversaçãose produz dialogicamente, como criação coletiva.

Sãoexaminados o turno conversacional, o tópico discursivo,

os marcadoresconversacionais e o par adjacente.

No CapítuloIII, sãoanalisadas atividades de formulação

como a hesitação,a repetição,a paráfrasee a correção.No

Capítulo IV, observam-seas relaçõesentre fala e escrita,

trabalham-seas operaçõesde

transfomação e são sugcridas

atividadespara apÌicaçãoem sala de aula.

O

corpus utilizado compõe-sede

textos do I'rojeto

inforrnanrcs). ajcim

NURC/SPdo tipo D2 ídiálogo entredois

de conversaçòes

esponlânerse de entrevistaslrlnscr.itirs em

Andrade (1995) e Aquino (1997). Os inquéritosdo

l)roicto

NURC/SP do tipo D2 podem ser considerados,cln rletrns

momentos.nìo simplesmente cliálogosno senrido cstr-ito,

mastrílogos, de acordocom Kerbrat-Orecchioni (Ì995), uma

vez que apresentamuma estruturamais abertae mais irn_

previsível que a do diálogo, e a troca se dá entre trôs e

não doìs participantes(Documentador, Locutor I c l,ocrrtoÍ

2). Já as entrevistasde televisãoaqui expostaslônì scrììpre

uma estruturamais aberta e mais imprcvisívcl trtrc a tlo

diálogoem que L2 só pode interv;rupí,:, rr t.rl:r,1. l.t.

"

ondea interrupçàoe a "única fanrlsiailrre ()\ ilterl()cut()rcs

se podem permitir no que se reÍcrc iì altelniìrrcirrrlc

turnos".

(Kerbrat-Orecchioni, op. cit.) Assirn, invalirlrrst. rr Íìir.rrlrla

ab nb ab aplicadasomentc ao cliÍlogo,.jri 11rrr.rro

/r./o,go

ots,no polílogo essesesqucmas não possucnìr.ctr.l lirlr.

A

obra,.destina-scprecipuamcnte a proÍcssolcs. r.strr_

dantesde graduação e pessoasinteressaclas cnt irrlìrrrr;rrsc

sobrequestões concernentesao tratamentogcr.ul tllr olrrlitllrtlc

e suas relaçõescom a escrita, e ptocuriÌ rÌìoslfir. (lu(, o

estudodaquela. embora se v:rlhudls teorirrsrl;r An;rlisr.tlrr

Conversação, SociolingüísticaIntcraciolal, Arlilisr. rlo l)is-

curso e de outrasciências, não podc ocol.('r i\olir(llnt(.ltcl

pois mantémcom a escritarclaçõcs rrrritrr;rs t. irrtr.rr rrrrrlriiivcis.

Espera-seter atingido os ohjctivosrlcscjrrrlos

IwrnonuçÃo

Fala e escrita

Muitas pesquisastêm sido realizadas ultimamente

sobre a língua falada, quer nas ciências humanas,quer

nas sociais,e, ainda que um númerocrescente de trabalhos

compare-acom a

elas.

modalidadeescrita, pouco sabemossobre

Embora nas durs o sistemalingüístico seja o mesmo

para a construçãodas frases,"as regrasde sua efetivação,

bem como os meios empregados,são diversos e específicos,

o que acaba por evidenciar produtos diferenciados" (Mar-

cuschi, 1986:62).

Sociólogos, antropólogos,educâdores, psicólogos e

lingtiistas têm se debrgç{do sobre o assuÌÌtoe, diante de

tanto interesse,era de [se)esperar que as característicasda

fala e da escrita já tivesíemsido analisadasexaustivamente,

porém, se há muitos trabal@

entre eles-

é pequena. A escrita tem sido vista como de estrutura

complexa,formal e abstrata,enquanto a fala, de estrutura

simplesou desestruturada,informal, concretae dependente

do contexto.

Teixeira de Castilho,e os trabalhosde Estudosda Norma

UrbanaCulta do Brasil (ProjetoNURC), especialmentedo

grupo de São Paulo, coordenadopor Dino Preti.

Quanto à escola,não se trata obviamentede "ensinar

a fala", mas de mostraraos alunosa grandevariedade de

usosda fala, dandolhesa consciênciade que a línguanão

é homogênea,monolítica, trabalhando com elesos diferentes

níveis (do mais coloquialao mais formal) das duas moda-

  • lidades- escritae falada-,

isto é, procurandotorná-los

"poliglotasdentro de sua própria língua" (Bechara,1985).

Reafirmando,com Castilho(1998: 13),

"( ) ...

não se acredita mais que a função da cscola deve

concentÍar-seapenas no ensino da língua escrila, a pretexto de que o aluno já aprendeu a língua falada em casa, Ora, se essa disciplina se concenÍasse mais na reflcxão sobre a

  • 4. língua que falamos,

@!Ig!4o_ !g

_.

bdg*u_,Igpry!qç{,1

d"

esquemasclassificatóÍios,

logo se descobriria a importância

da língua falada, mesmo para a aquisição da língua cscrita".

Na veiâade,vem-se criando a consciênciade quc a

oralidadetem um papelno ensinode línguae, nessescniido,

os ParâmetrosCurriculares Nacionais afirmam quc:

"a questão não é falar certo ou €rÍado c sim sabcr que forma de fala utilizar, considerandous c r ctcríslicitsdo

contexto de comunicação, ot se1a,saber aderlu(r

e rcgisto

às diferentes situações comunicativas. É subcr crxrrdcnar

sâtisfatoriamenteo que falar e como Íuzê.1o,cOnsidcrtndo

a quem e nossos).

poÍ

que

se

diz

dclcrmin$du coisl"

(grilìrs

Como já apontouMarcuschi ( 1997),r

qucstilo

da

oralidadeé colocadacomo um prohlemtrlc

,lrdcquuçlo às

diferentessituações comunicativas".

ti

Nessaperspectiva, o ensinoda oralidadenão pode ser

visto isoladamente,isto é, sem relaçãocom a escrita,pois

E

elasmantêm entre si relaçõesmútuas e intercambiáveis.

o que pretendefazer este livro que ora passamosas suas

mãos, caro leitor, lembrandoque ele se coloca como um

caminhopara a consecuçãoda propostaapresentada.

l3

que se altemam sem uma disposiçãofixa,

o rluc crrrctcriza

o

encontro em reÌativamente simótrico Ou rcli|tivarììcnte

assimétrico.

Por relativamentesimétrico, entendc-sc a convcrsaÇio

em que ambosos interlocutorestêm o mcslrro,liIL'itrrrrÌo

só de tomar a palavra,mas também de escolhcr.o ttipico

discursivo{"aquilo acercr do

que se eslj frlunJri r. dirtlcitr-

ná-lo, estabelecero tempo de participação. Qu lìto lo Ícla-

tivamenteassimétrico, ocoffe um privilegian.ìcntorto r;uc dìz

respeitoao uso da palavra, cabendoa um dos jnlerlocrrlorcs

começaro diálogor,conduzi-lo e, ainda, ÌnudrÌ o l(il)ico.

Observa-sea ocorrênciade um evento dc Íìrlr num

determinadotempo e situaçãosocial, seja facc a Ílcc, por

telefone,via intemet entre outras. Além disso. ó nossível

deteclar-seum crráter interativoem todu u;rtivir.l;rit.r.on-

versacional,visto que ocorre um envolvintcnt()ctìlrc os

prrticipiìnles numa dadasituaçâo.

Schegloff(1981: 73) caracterizaa corìvcÍslçã().iìnon-

tando três elementosÍundamenllis: reaìizuçio rPn,.ltrf;1,,1.

interaçãoe.-organização (ordem). O discursoconver sacional

deve ser, então, consideÍadoum processoquc sc realiza

c,ontinuamentedurante a interaçãoe só assimó identilicÍvel.

E na interaçãoe por causadela que se cria urrr proccsso

de

geração de sentidos,constituindo um fluxo (tìtovirÌìcnto

de

avançoe recuo) de produção textuiìl organizldr).

Dentre os estudossobre a oralidade.podcrrros clcstacar

o de Ventola (1979) sobre a estrutuÍarJa corrvcr.sirçio.A

autora propõe um modelo de organizaçãocorrvcr.saciollrl a

partir de conversaçõesespontâneas, valrtrizarrdo its scguitìtcs

  • l. gstamos cmpregandoo quando delâ pânicipâm mais dc

tctmo dìútÒro no \rdirt,, Lrr(,,t(. (.iìrìve,\irçao,

dois

inlcrlxul()r(st lÌ!j(ìi.Irx,\ r,||lx(lfii l(, Ìro

l)ilrti(ilìI trs. ü\,Irt,,,,\ 1)ü nÌiri\ nrr.rt,\.It,,rf\

trltr\ /,r?,/!, .. ,ì lt) In(ìxjc

scnlrdocstrilo dc convcrsaçÌo conr dois

ou políloy

prra quando houvfssc (ris

KcrbralOÍecchioni ( 1995).

l6

variáveis:tópico ou assunto,tipo de situação,papéis dos

participantes,modo e meio do discurso.

Para ela, o tópico ox assunlo é um meio de estabele-

cimento e manutençãodos relacionamentossociais, já que

abre e mantém o canal de comunicação,propiciando o

contato entre os participantes.

Em relação à situttção, observa que se trata de um

encontro face a face e, embora o assuntopareça ser comum

e em algunscasos até supeÍficial,os participantesprecisam

estar atentosàs atividadesverbais e não-verbais,pois não

somenteo que está sendo faÌado, mas a situaçãoem que

se fala pode lfelar a conversaçâo.

Quanto aos papéis dos participanles,

salientaque, como

participantesde situaçõessociais, somos requisitadosa nos

comportarmosde um modo particular numa determinada

situaçãoe de modo diferenteem outÍa. Assim, podemos

desempenharsimultaneamente vários papéis;entretanto, um

dos papéissociais normalmente destaca-se e determinaque

tipo de fala devemosusar em uma situaçãosocial particular.

Observa.ainda. que o modo do discursoé determinado

pelo propósito da ìnteraçãoe dele decorre, por exemplo,

um grau maior ou menor de formalidade. Assim, tende a

ser formal um contextoem que se tem uma solicitâçãode

emprego e informal uma conversaentre dois adolescentes

no pátio da escoìa.

Já em relaçãoao meio, explica que este correspoÌ'Ìde

ao canalde comunicaçãopelo qual a mensagemé transmitida

oralmente, seja face a face, via telefone, internet etc.

Esse modeìo proposto por Ventola justifica o fato de

não se trabalhaÍapenas com elementoslingüísticos que se

apresentamno textofalado, visto que, por exempÌo,o aspecto

interacional pode determinar a estrutura da conversação

(cf. Andrade& Aquino. 1994ì.

t7

Em síntese,podemos dizer que um cvcrìtoconrunicativo

constitu!se dos seguintesaspectos significalivos:

  • a) situaçãodiscursiva: formal, inforrnal;

  • b) eventode faÌa:casual, espontâneo, proÍìssional, ins- titucional;

  • c) tema do evento:casual, prévio;

  • d) objetivo do evento:nenhum, prévio;

  • e) grau de preparonecessário para efetivaçio do cvento: nenhum,pouco. muito.

    • 0 participantes; idade,sexo, posição social, formação, profissão, crençasetc.;

      • g) relação entre os participantes: amigos,conhecidos, inimigos, desconhecidos,pârentes;

      • h) canal utilizado para a realizaçãodo evento: Íìce a face, telefone, rádio, televisão, internct.

A

seleçãode um ou outro item dentre os elcncados

interfere nas condições de produção do texto falado, deter_

mlnando a especificidadedo evento discursivo. para

que

possamos e*pÌicitar melhor essa questão, observemosos

exemplos:

(Ì) Contextualização: momentosde

oftalmologisra (Ll)

-

_

e sua paciente(L2).

interaçãoentre um

Ll

donaM

...

como vai a senhora?

L2 bem ...obrigada...

Ll

entãohoje vamostestar as lentes ...não

é?

bem

...eu

disse para a

senhoraque poucaspessoas conseguem

especialmente

...

às de con-

adaptar-seàs ÌentesVarilux

{ato ...

L2

ceno

...

mas vamos lental

Ll

por favor ...então

me acompanheató a salinhuao lado

minha auxiliar irá ajudá-Ia ...

...

(Convcrslçio espontânea)

Trata-sede uma situaçãodiscursiva formal, já esperada

num evento de fala profissional, cujo tema

por dizer respeitoa uma consultamédica em

é preestabelecido

que se combinara

a colocaçãode lentesde contato;assim, o objetivodo evento

é prévio e seu grau de preparaçãonecessário para efetivação

do encontro é relativo, ou seja, há certa prepaÍação,já que

o médico mantém um diáÌogo de rotina com sua paciente;

entretanto, algumas falas podem ser específicas para essa

pacientedevido às necessidadesdo andamentoda consulta.

Quanto aos paÍicipantes, Ll

conduz a interação (o

diálogo

é, então, assimétrico) e caracteriza-sepor ser um

homem

da segunda faixa etária (36 a 55 anos), mestre em

Oftalmologia,mantendo uma relaçãoprofissional com sua

paciente,mulher, pertencente também à segundafaixa etária,

mestre em Educação, e o canal utilizado é face a face.

A identifìcaçãodos componentesda estruturado trecho

apresentadopermite afirmar que a produção do texto

falado

resultada conjugaçãode vários fatorese, além disso, essa

conjugaçãopossibilita também detectar o tipo de relação de

poder que se instauraentre os participantes.

Numa situaçãodiscursiva infôrmal, em que há paren-

tesco entre os interlocutores,a relaçãopoderá ser distinta,

como se observano segmentoa seguir:

(2)

L2

...

achoque meu conhecimentode

São Pauloé muito

restÍito se compararcom papai por

exemplo ....

Ll

eu fui::

quinta-feira ...

não foi terça-feiraà noitefui Ìá

no (

) né? lá na Celso Furtado

 

L2

éh:.

Ll

passeiali em ftente à:: Faculdadede Direito ...então

estavalembrando

...

que

eu

ia muito lá quantotinha sete

noveonze

...

(com)

a titia sabe?

estámuito pior a

cidade

(NIJRC-SPD2 343, linhas 15 a 23, p. 17)

No exemplo(2) tem-seuma situação discLrrsiva

inlìrr-mal,

em que Ll é um rapaz de 26 anos, solteiro c cnfcnhciro.

e L2 é uma jovem de 25 anos. solreiruc

psictil,rr;r.

..

,

u

relaçãoentre os participanles é de parenrcs.:,r.jrí

irre

sjo

irmãos,têm um conhecimentopartilhado basttntc gr.iìnde e

manlêm. nesse segmento.o

mesmo nívcl rlc I.cirçlìo rJe

pooer.

Por tratar-sede um inquérìto do projcro NUIÌ(', o

tema do encontrofoi sugeridopelo documentdrrr

irrclie;r do
irrclie;r do

que os participantes deveriamconversar sobrc a cidrdc c o

comércio. O canal utiÌizadopara a realizaçãotkr cvurto foi

face a face.

(3) Contextualização:

Mãe (Ll)

e filho (1.2) rÌìanrôm

um diálogo a propósito de o jovem nÍo tcr rtt'lizirdoseu

celular para notificá-la de que não

iria dor.rrrir.ctÌì casa

naquelanoite. Nessa interação,o filho tcnr rroçrìodc que

não há espaçopara negociaçãoe. assim.r

..

cirrr .r inr;r,rsiç:ào

da mãe nessarelação de poder,como sc vcr.ilicarÌo tÍcclìo

a sesuir:

Ll

que,n não sabe usar celular aliás:: você não vai usá-lo

deve dcirii

durlnlc

trnlt

lo

crl

elsu ...

\etìlì niÌ ...

resolvido L2 tá bo::m ...tá

bo::m ...

((ìonvcr srrçrrrr csporrtinca)

Paramelhor entendere analisaro texto lilldo,

;xrtlctrros

examiná-loa partir da proposta de Dittrnurrrr( l()7r))-r,11nc

consideraas seguintescaractcrísticas biisicas:

  • a) interaçãoentre pelo mcnos doìs Írrlrrrrtt.s:

  • b) ocorrência de pelo ntcnosulÌll lr(x.irrk. lrrlrrrrlcs;

  • c) presença de uma sct;iìôrrciutk. lrçot.s ((xl(l(.lit(llls.

    • 2. Apud Mrrcus(hi(t98í) tS t6)

20

  • d) execução num determinado tempo;

  • e) envoÌvimentonuma interaçãocentrada.

Observa-se,assim, que a produção de um texto falado

correspondea uma atividadesocial que requera coordenação

de esforçosde pelo menos dois indivíduosque têm algum

.objetivo em comum.

Paraparticipar de atividadesdessa natureza, são precisos

conhecimentose habilidadesque vão além da competência

gramatical,necessária para decodificarmensagens isoladas,

pois que as atividadcs conversacionaistêm propriedades

dialógicasque diferem das propriedadesdos enunciadosou

dos textosescritos. Na verdade-parl tomar parte- interagir

  • - numa conversação, é necessário que os participantes

consigam inferir do que se trata e o que se espera de cada

um.

As característicasapresentadas permitem saÌientar que

o texto conversacionalé criação coletiva e se produz não

só interacionalmente,mas também de forma organizada.

Dado o caráter de imprevisibilidade em relação aos

elementosestruturais, o textofalado deixa entrever plenamente

seu processo de organização,tornando-se possível perceber

sua estrutura,bem como suas estratégiasorganizacionais.

Dessa forma, observam-senessa modalidade de texto muitos

cortes, interrupções,retomadas, sobreposições etc., de onde

se deduz que, se o sistemada língua é o mesmo, tanto

para a fala quanto para a escrita,as relaçõessintáticas são

de outra ordem.

A

veracidade de tal afirmação pode ser comprovada

por meio de inúmerasocorrências de textos falados,dentre

as quais se destacaa seguinte,em que a Locutora I

fala

de suasfilhas maisvelhas que estão entrando na adolescência:

(4)

Ll

...

estãoentrando

na as maisvelhas estão entÍando agora

na adolescênciae ...

2I

L?

t

()

Ll

mas são muito acomodadas ...ainda

não comcçaramas_

sim

...

aquelafase

...

chamada de

...

mais difícil de crítica

t

L2 chamadamais difícil

Ll nél

L2 ahn ahn

Ll

ainda não ...felizmente

(ainda não) começarrm

(NURC-SP D2 360:4(149, p. 137)

O desenvolvimento do texto falado estÍ dirctamente

ligado ao modo como â atividade interacional sc

organiza

entre os paÍicipantes. Essa organizaçãoresulta dc dctisões

interpretativas, inferidas a partir de

pressupostos cognitivos

e culturais, tomadas durante o curso da convcrsaçio.

Níveis de estruturação do texto falado

No segmento(5), o texto se constrói a partir da

colaboraçãoentre os três participantes.Observam-se mo-

mentosde sobreposiçãoentre os tumos de L2 e L3, bem

como um momento de reformulaçãono turno de L3:

eu/você.

Os tumos, por suâ vez, estabelecemuma relaçãoem

pares(pares adjacentes),

em queo primeirosempre é condição

para que o outro se realize,como por exemplo:pergunta-

resposta,convite-aceitação,

convite-recusa, saudação-sauda-

ção. Veja

o trecho a seguir:

(6)

L2 a

sla família é grande?

Ll

nós somos::seis filhos

(NIJRC-SPD2 360: Ìinhas20-21, p. 136)

Temos aqui um par adjacentedo tipo pergunta-resposta

em

que

a

pergunta de L2

estabelece a condição para a

 

A

estruturada conversaçãose organizacrrr clilcrentes

formulação da respostapor Ll. Além disso, pode-seobservar

nlvels:

,

.

que a perguntaé do tipo fechada,isto é, requer uma resposta

..

 

a) local

-

a conversaçãose estabelccc por rneio de

tumos (produção de um falantc cnr;rrantoclc está

com a palavra) em que os interloculorcssc allcrnam

e desenvolvemsuas falas um após o oÌtlr.o,podendo

haver momentosde hesitação,sobrcposiçio c assalto

ao tumo. Veja-se o segmento a scguir:

sim,/não: entretanto. Ll deixa-a súbentendidaao indicar o

número elevado de membros da família.

  • b) global - ao mesmo tempo em que a organização local ocorre, a formulação textual obedece a certas normas de organizaçãoglobal, sobretudono que diz respeito à condução do tópico discursivo. Observe

(5)

o trecho a seguir:

Ll

eu fui yer um filme

ó::timo ...Vcsrígios

ckr l)il

(7)

Ll

e DonaMana ficoupreocupada

e insisliu VÁrias VEzes

L2 aht:me falaramque é murtobo::nr

 

paraa Cris comer

...

perguntei

se queriaque ela lhe desse

 

t

comidaMAS a Cris NÃO quis srber ...ELA

parecia

 

L3 nestefim de semana?

...eu

/ vrrcôviu lrilutlé[ìa?

esTAR zangada

...então

eu falei

Olha Dona Marta

Ll

vi sim

..

,vi

semanapassada ... cs:tlclirrr clc scnrl::na vi ...

 

depoisque EU sair para dar aula

...a

seNHOraten::ta

 

VER se ela aceitacomer

NEM que seja um POU::co

22

(( ì|nvctslçrì(| csp()nliìnea)

L2 vocêcomeçou o::

...

curso de PÓS ON::tem?

ZJ

Ll

é

coneceí ...

L2 e gostou?

Ll gostei/gostei si,x::

L2 QUANtos alunos?

Ll

QUAtro ...havia

apEn.ts elJAtro ...

.ttht,t

...

r,u lìtttiteí o

Número de alunos especiais e a secril.Áritt nrc disse

que havia QUIN::zealunos queren:;do.fìt:.cr ,,

É PEna MAS eu NÃO sqbia dísso( ) ...

tttctr(,utso

nÌrs vollan::do

a falar da Cris acho que ELA pENsa t;uc scu/soua

culpada( ) ...

(ConvcrsrrçÌo cspontânea)

Nesse trecho, os locutores estão convct.siul(lo sobre o

incidente com a babí conÍatada por Ll. O lìrlo dc essa

locutora mencionar que quando saísse

,/rí1,rr tlur

trrtltt, clona

u garota,

Ll

Marta deveria oferecer novamente a reÍeiçio

faz com que I2

l)lÌl.il

pergunte a respeito ,Jo nuuo .r,rr,.l ,i,c

começou a ministrar na última semana. OcorÍc. clrtio,

um

desvio do tópico discursivo que se clrlctr,fr,/ir (.()rìr.ì uma

digressàor. O fato de Ll

dizer que vai

..

srrir

p.rr.;rtl:rr uulr

..

sugere a L2 perguntar sobre uma particullr.icladc clcsse

enuncjado: "como foi a primeira aula áo cur.s,rclc pírs,, que

teve início naquela semana. Esse tipo tlc rcl,rçlì,, ,lccxre

porque L2 e Ll têm um conhecimento par.tilhlckr: srìo

arrrigas

há alguns anos, estão inteiradas dos problcrrrrs larrriliais,

trabalham na mesma universidade etc.

A

anáÌise desse segmento permile obselvlrl ir rnovi-

mentação do tópico discursivo que se iniciu. tr

irrlcrrornpido

onÌcrn,,),

pela. digressão ("você começou o curso dc ptis

sendo depois retomado (,,mas voltando a lirlrl: tlrr (,r.is,,).

  • 3. A digressãopode ser definìda conì(,

LrrÌrjr |(r\.:r(,

it,r r,,rì\.r\r

 

ltIc

nio

 

g,r

..

",l,.rir,: ncrn

(/r

rrt.r.

\r

unìr

sc acha diretamenle relacionada com o scgrììerl() rììiÌtrirl,rr(.rt.

com o

que lhe scguc. O

drgressão.

lrecho cnì iliili((,. nl) sritlì(. d

24

A estrutura do texto escrito: o parágrafo

A eìaboraçãodo texto escrito - assim como do oral

-

envolve um objetivo ou intençãodo locutor. Contudo,

o

entendimento desse texto não diz respeito apenas ao

conteúdo semântico,mas à percepçãodas marcas de seu

processode produção. Essas marcas orientam o interlocutor

no

momento da leitura, na medida em que são pistas

lingüísticaspâra a busca do efeito de sentido pretendido

 

pelo produtor.

Um texto escrito tem no parágrafouma de suasunidades

de construção.Essa unidade é compostade um ou mais

períodosreunidos em torno de

idéias estritamenterelacio-

nadas.Nos textos bem-formados,em geral, a cada pârágrafo

deve relacionar-seuma idéia importante,não havendonormas

rígidas para a paragrafação.De fato, o produtor pode fazer

uso da paragrafaçãopara marcara sua intencionalidade.

Em termos práticos, os parágrafos podem ser

identifi-

cadospor recursosvisuais: espaço de entrada junto à margem

esquerdaou linha em branco na passagemde um parágrafo

para outro. Embora a extensão do parágrafo

seja variável,

a observaçãomostra que a tendênciamodema é não usar

parágrafos muito longos. Quanto à estrutura, o parágrafo

padrão organiza-se como um pequeno texto (microtexto),

apresentandointrodução, desenvolvimento e conclusão.

A diversidadede textosimplica a diversidadede cons-

trução de parágrafos (cf. Andrade, 1994). Temos, então, a

estrutura do parágrafo narrativo, a do descritivo e a do

dissertativo.Enquanto o núcÌeodo parágrafodissertativo é

uma determinada idéia (idéia-n(tcleo ou idéia principal), o

do narrativo é tm incidente (episódio curto ou fragmento

de episódio) e o do descritivo é tm quadro (fragmento de

paisagem, ambienteou ser num determinadoinstante, ob-

servadoa partir de determinadaperspectiva).

Vejam-seexemplos:

25

(8)

Foram só 73 segundosde vôo.0 ônibusespocial Challcnger

havia arrancado,apaÍentemente com sucesso,dl

base do

cabo Canaveral,na Flórida, e já estavaa 16 quilômetros

de aÌtitude,quando sobreveiouma tragédia:a nave trans-

formou-seabruptamente em uma bola de fogo. Hora exata:

  • I lh39m de 28 de feverciÍo.(lsto é, dez. 1986,apud I.-ARACO,

Carlos.Trabalhando com narraÍíra,2. ed., São Paulo,Ática,

1992,p. 7.)

(e)

A Catedral de Brasília é um dos prédios que mais me

agradamna arquiteturada nova capital.E difcÍentede todas

as catedrais já construídas. Com a galeria dc acesso em

sombra e a nave colorida, elâ estabeleceum jogo, um

contrastede luz que a todos surpÍeende;cria com a nave

transparenteuma ligação visual inovadoraentrc cla

e

os

espaçosinfinitos; tem na sua concepçÍo arquiteturalum

movimento de ascensãoque a caracteriz{e não apfesenta

frchrdas diferentescomo us velhascatcdr.lis. E pur:r.(('mo

obra de arte. (OscarNIEMEYER, A catedrale as cadeiras,

in: FoLhade S. Paulo,20 maio de 1992,Caderno l, p. 3.).

(10)

A sociedadeindustrial moderna destruiu a imagcm de coe-

rênciâestética da cidade.A persistênciado discursocultural

identificado com a qualidade do entorno construídoque

progressivaaniculação de diferentesmaniÍestações
aÍtísticas-

permitiaa

a praça da Annunziatano centro nrcdicvll de

Florenzaou a coexistênciade estilos sucessivosna praça

São Marcos de Veneza *,

se desintegraantc I

cxlensÍo

da agressivavolumetria das edificaçÕese

a nítidr scgrcgação

tenitoÍial dos grupos sociaisque nela habiturn.Ao tccido

consolidadodo "centro urbano", denso dc síntbo|rrsc sig-

nificados,contrapõe-se o anonimato iÌldiviclull dc "suhulbia" ...

nos EstadosUnidos atualmentea pcrilcri:r ú oc.rrPadapor

  • 50 milhões de habitaçõesisoladls. Qucnr pllne.jac rcaliza

    • I cidadeatual? Si,' o5 q.t

..

r1

..

,,'rcì.

cnìlìr'r.\.itir'\, inc,ìrpo-

tadores,engenheiros, proptictiiÍios (lc lrffit

clr I)irllasou

Atlantasão E. Rouse,G. Hines,J. Portmanou D.

Trump

e os desamparados-

Resta pouco espaçopara o

Estado

-

e paraos uÍbanistase projetistasque representam

a vanguaÍda

do saberprofissional. (Roberto SEGRE, "Havana:o resgate

social da memória".ln|. O direíto ò ntetúría: patríntônio

histórico e cídadatia. São Paulo: DPH -

Secretaria.Mu-

nicipalde Cultura,1992, p. 102.).

No texto (8), o parágrafo é narrativo, já

que se tem

uma notíciasobre um fato realldesenvolve-se sob a influência

do tempo cronoÌógico (nos contos e romancesnarram-se

acontecimentosreais que se desenvolvem a partir do tempo

cronológicoou do psicológico)e inclui um procedimento:

seqüênciade açõesque se encaminhampara um desfecho

ou epílogo. O núcleo do parágrafo nanativo é, como já

dissemos,um incidente.Nele não há frase núcleo explícita,

vlsto que:

"o seu conteúdoé lm rta\ um devenir, um instanteno

tempo,e, portanto,teoricamente imprevisível, tecnicamente

impossívelde antcncipar.Lembra um instantâneode película

cinematográficacom a mdquinaposta em repousopara

permitira análisedos detalhes'daação". (Garcia, 1973:

229).

No texto (9), tem-se um parágrafo descritivo, pois nele

o l.cutor pretende apresentarcaracterísticas e qualificações

de çerta reaÌidade.Nota-se que a sua estrutura é espacial e

atemporal: a intenção é fixar, "fotografar", tornar perceptível

um detcrminado objeto: a catedral.

A idéia principal deste parágrafoé a diferença existente

entre a catedralde Brasília e as demais já construídas.A

qualidade do texto repousa na Dercepçãodo observadorque

busca apresentaro objeto por meio de seus traços particula-

nzantes.

Em (10), o parágrafodissertativo se inicia por uma

frase-núcleo(também designada idéia-núcleo ou tópicofrasal),

oferece maior Ìegibilidade, visto que tal frase funciona como

elemento desencadeador das idéias subseqüentes.Essa fra-

se-núcleocontém uma declaraçàoinicial iccrca da estética

da cidade modema. A partir do segundo períoclo, o autor

passa a fazer considerações sobre o que ocorÍe, cm termos

de urbanização, em algumas cidades do mundo e quais são

as causasdessa situação. Lança ainda uma qucsljo

.'euem

planeja e realiza a cidade atual?,, - para poder elencar

quais são os principâis responsáveise podcr encaminhar o

leitor para a conclusão.Esta é feita de mancira direta, sem

ajuda de operadores discursivos, tais corÌo: destc modo,

portanto etc. Revela, na verdade,a conseqüôncia do que foi

abordado em todo o trecho:

,.Resta

pouco

Estado e para os urbanistase projetistas qu"

iuru

o

".prço

|."pr"."nturn u

vanguarda do saber profissional".

Ainda no texto (10), podemos observar o plresso

de

estruturaçãodo parágnfo dissertativo, dcstacandoa delimi_

tação do assunto, a formulação do objetivo, bcnr como as

partes do texto: (introdução: apresentadapor nrcio da fra_

se-núcleo;desenvolvimento da idéia principal: atravésde

ordenaçãoçor tempo e espaço,enumeraçio, c(nltÍastc, causa

e conseqüência, explicitação, entre outros): linalmcnte, é

preciso concluir o assunto:pode-se fazcr ulnt sínlcsedos

aspectos abordados no desenvoÌvimento ou ilDrcscntar o

resultado ou conseqüência das idéiasexpostüs. Nu vcrdade,

a conclusão ratifica a frase-núcleo.Assinr, lcnlts

exemplo:

nesse

  • - Assunto: arquitetura e urbanismo.

  • - Delimitação do assunto(tema): csrólicatla cidade modema.

  • - Objetivo: mostrarque, na socicdadcindustrial mo- dema, os profissionais da Írca dc urbanisrno Douco podem fazerem relaçÌolo plrrrc,jarne rrtotlas ciàades.

  • - Frase-núcleo: o prinrciro pcrítxh tkr parígrafo.

28

  • - Desenvolvimento:desde "A persistênciado discurso cultural

"

...

até "e os desamparados".

  • - Conclusão: último período do parágrafo.

A construção de um parágrafo bem estruturado exige

que este apresenteunidade, coerência, concisão e clareza,

visto tratar-se de uma interação à distância, em que não há

possibilidadede paÍicipação direta e imediata do interlocutor,

como ocoÍe no texto oral.

.

Unidade. Cada parágrafo pode conter somente uma

idéia principal. As idéias secundáriasdevem estarrelacionadas

à principal, sem acréscimosou digressõesque possamquebrar

a unidade pretendida.

. Coerência-A organizaçãodo parágrafo deve ser feita

de

tal

forma

que fique

evidente o

que

é

principal. E

indispensável que haja relacionamento de sentido entre a

idéia principal e as secundáriasdesenvolvidas no texto.

. Concisão. O parágrafo deve conter a quantidade de

informação

adequada ao objetivo

porém, não deve ser alcançadaeÍi

do texto. A concisão,

detrimento da clarcza.

. Clareza.A escolhadas palavrasadequadas ao contexto

concoÌÌe, em grande parte, para que o parágrafo se torne

claro e a sua leitura possa ser feita de maneira eficiente,

atingindo a compreensão.

A transição de um parágrafo parâ outro não deve ser

brusca; impõe-se um encadeâmentológico e natural entre

eles. Em alguns casos,toma-se indispensávelacrescentar âo

texto um parágrafo de transição para que o encadeamento

das idéias se faça de maneira coesa e harmoniosa. Entre-

tanto, é aconselhável que o texto não apresenteparágrafos

repetitivos sem necessidade,pois a repetiçãopode inter-

romper o fluxo informacional, tornando o materiâl redun-

dante e cansativo.

29

Nestecapítulo, procuramos examinara

organizaçãodo

texto nâs modalidadesfalada e escrita.Dentre o que nos

propusemos, e conformejá dissemosna

introduçãì. este

capítulo,

livro privilegia a fala. Examinaremos, no próximo

como

se dão os fatoresde coesãoe coerêncianessa moda_

lidade.

CapíhtLo II

CopsÃo E CoBnBNcIe

NO TBXTO Fru,ENO

A coesãoe a coerênciaconstituem fatores básicos de

textualidade.Muitos autoresnão fazemdistinção entre elas,

utilizando um termo ou outro para os dois fenômenos.

Alguns usamexpressões como coeiênciamicroestrutural ou

coerêncialocal, quandose referemà coesão,e expressões

como coerênciamacroestÍutural ou coerênciaglobal, quando

tratam da coerênciapropriamente dita.

Na visão de Tannen (1984), por exemplo, a co€são

contribui para o estabelecimentoda coerência'mas não

garantesua

obtenção.Essa idéia é compartilhadapor Giora

(1985),que mostranão ser a coesãoum fator independente,

mas "um subprodutoda coerência".

r

A coesãorevela-se, às vezes,por meio de marcas

formais na estÍuturalingüística, manifestando-se na oÍgani

zação seqüencialdo texto e sendo percebidana superfície

textualem seusaspectos léxico, sintático e semântico;outras

. vezes,vem subentendida,não marcadalingüisticamente.

Tendo em vista a naturezado texto conversacional, a

análise dos

elementosde coesãodeve ser fcita de modo

específico. Estudos de Fávero

(1992, l99g) sâlienram os

recursosempregados com maior

freqüência no

quc se refere

à coesãoreferencial, recorrencial ou seqüencial.

Dentre as possibilidades de ocorrência clc coesão

re_

ferencial, a autora destacaa reiteraçãodo

mesmo item

lexical. De faro. a alta

incidência de repcriçòcsno

texto

faÌado é perceptível com facilidade e fiworóce a coesão.

além de contribuir para a organizaçàorópica.

Um exemplo de como se manifestaa cocsãono texto

conversacional pode ser observado no trecho a seÊuir. em

que o locutor repete os mesmos itens lexic;ris,rãvelando

falta de agilidade na busca de melhor expressão ou um

recurso para continuar com o tumo:

flt)

L2 ele jí ia à escolada manhãque eu comeceiquando eu

comeceitabalhar ...

coneccia trabulharhi dois Lrnos

...

quer

dizerentão

ele iá ia à

...

anteseu não trabaÌhava e

...

escolade manhâpoÍque eles dormem sele e meil e aeordam

sels.iemeia

...

é o horário normal deles

(NURC_SP D2 360 374_379,p. t45)

Além disso, a repetiçãopode-se constituir em meio

para se ter acessoao tumo, como no

exemplo a seguir, em

que L2 repete a faÌa do Documentador e toma o túmo, ao

conversarem sobre a dificuldade que tinha seu marido em

ìocalizar bons executivos pura us fir-as,

(12)

Doc. de BAIxa procura e ao mesmo tempo que se necessita

d,essa:: ela é difícil

L2 é é clificil de encontrar ...uhn

uhn normalmente é difícil

...

(NURC-SP D2. 360:971-973, p. 160)

)z

Para a coesão recorrencial, Fávero destaca a presença

da paráfrasecomo elemento coesivo, o que se pode exem-

plificar com o segmento:

(13)

L2 mesmoporque aí que vai procurarajuda né2

 

l

Ll

...

vai procurarterapia né?

(NIJRC-SPD2 343 2O6-2O7, P. 22)

em que Ll reÍoma ajuda - formulada porL2e que permite

uma pluralidade de acepções-

terapia - acepção específica.

por meio da utilização de

A coesão seqtiencial pode ser observada a partir dos

conectores.No exemplo a seguir, tem-se uma ocorrência do

e intra e interturnos, exercendo variadas funções - promo-

vendo continuidade, ou funcionando como marcador para

continuar o tumo ou para assaìtá-lo:

(14)

 

Ll

e::

L2 e daí o entusiasmopara Nove filhos ...

Ll

exatamentenove ou dez ...

 

l

L2 ()

 

Ll

é e:: mas

...depois

diante das dificuldades de conseguir

quemme ajudasse ...

nó::s pâramos no sextofilho ...

L2 ahn ahn

Ll

não

é?

...e...

estamos muito contentes e ...

L2 e dáo muito trabalhotem essesproblemas de juventude

 

essesnegócios 0

 

(NURC-SPD2 360:30-38, p. 137)

A coerência,por sua vez, pode ser definida como um

princípio de interpretabilidadedo texto, envolvendo fatores

I

de ordemcognitiva, lingüística e interacional.Está relacionada

à boa formação do texto e se estabelece a partir cJeuma

unidadede senr;do (arualizaçâo seletivr tJoi

sigr:ificados

vinuais das expressòes lingüísticasl. o que r claructeriza

como algo global. isto é. relerenleao lext(ìcorÌt() um todo.

Além disso,a coerênciaé tomadacomo urnl oossibi_

lidade de emergênciade sentìdoe de comprccrrsìoque se

concretiza no âmbitodas relrçòes interativr, ànlr" o.

,rrd.io,

na construçãoda textuaÌidade. pode ser caracterizada como

um fenômenocomplexo e de pouca

evidênciaempírica;

sua

instauração no texto se dá a panir de perspectivas de

produção da atividadeconversacional em funcionamento. ,,A

coerêncianão é uma unidadede

senticlo,mas uma oossi_

tMarcuschi.

bilidade interpretativa Íesultante localmcnte

..

1988:2).

Embora na coerêncianão exista tÍansitividade, isto é.

cadasegmento de lexto nâo precisa estarIigado diretumente

ao anterior.observa-se que ela é propriedaãe nâo do lexto,

mas daqueìesque interagemnesse texto. Então, a coerênciâ

apresenta-se

como "algo que se articuÌapeÌa

interação,num

processo"de conslruçãomútua. pelrs relaçòesestrúelecidus

e percebidaspelos frhnres" (Aquino. lgtl: g5_gó).

Assim, paraque hajaentendimento entre os interlocuto_

res, é preciso que eles sejam coerentesno que dizem e.

principalmente.

saibamsobre o quedizem (tóptcò discursivo).

Na visão de Fávero (1992: 116-117):

"O textoconversacional

é coerente:o problema é que como

ele obedeceJ pÍocessos de ordemcognitivit. muita, uezes.

se torna ditícil detectarmarcas lingüísticas e

discursivas

dessacoerência, pois ela geralmente não se dí com base

nessasmarcas, mas na relaçãoentre os refèrentcs;daí a

lmportância da noçãode controlereferencial estabelecida

com basena organização

tópica,e é por issoque o estudo

do desenrolvrmento dos tcjpicosvem rdquirinãocrdu vez

*.

maisênfase, possibilitando

análises

discursivas

que envolvem

um maior númerode fatores".

Conforme se pôde observar, a análise da coesão e da

coerênciano texto falado deve ser feita de modo distinto

da análise feita em textos escritos, porque - como bem

diz Fávero (1999: 93) - rra conversaçãoé de natureza

diferente:ela seproduz dialogicamente, como criaçãocoìetiva

dos interlocutores".

No

texto conversacionaÌ, constata-se a presença de

quatro elementosbásicos que são responsáveispela sua

  • organização- o tumo, o tópico dìscursivo,os marcadores

conversacionaise o par adjacente,e serádeles que trataremos

a segulr.

Turno

Estruturalmente,o tumo define-secomo a produção de

um falante enquantoele está com a palavra, incluindo a

possibilidadede silêncio.Na conversação,ocorre a altemância

dos participantes,isto é, os interlocutoresrevezam-se nos

papéis de falante e ouvinte. Nessa perspectiva,pode-se

caracterizar a conversaçãocomo uma sucessãode tumos,

entendendo-sepor tumo qualquer intervenção dos paltici-

pantes (tanto as

intervençõesde caráter informativo, quanto

breves

sinais

de

monitoramento, como: ahn ahn: sei: certo)

durante a interação.

Sacks,Schegloff & Jefferson (1974: 7Ol-702) montaram

um modelo elementarpara a conversação,baseado no sistema

de tomada de tumos. Esses autores sugeriram um sistema

válido para conversaçõesespontâneas, informais, casuais,

sem hierarquiade falantes.Para essesestudiosos, qualquer

conversaçãodeve apresentaras seguintes propriedades:

  • a) a troca de falantes recoÍïe ou pelo menos ocoÍïe;

-J-)

b)

c)

d)

e)

f)

g)

a extensão da

h)

 

especificado;

i)

a

j)

o

k)

l)

m)

em qualquer tumo, fala um de cada vcz;

ocorrências com mais tle um falantc poÍ vez são

comuns, mas breves;

transições de um tumo a outro sem intervalo e sem

comuns; .longas pausas e sobrepo_

sobreposição são

siçõesextensas são mrnona;

a ordem de tumos não é fixa, mas variável;

o tamanho do turno não é fixo, mas variável;

conversação não é fixa nem previa_

nem previamente

menteespecificada;

o que cadafalante dirá não é fixo

distribuição dos turnos não é fixa;

número de paÍicipantes é variável;

a fala pode ser contínua ou descontínua;

são usadastécnicas de atribuição de turnos;

são empregadas diversas unidades para construir o

tumo: lexema (palavra), sintagma, sentençaetc.;

n)'.èertos mecanismos de reparação resolvem falhas ou

 

violações

tomada

.

"desculpe ...

Pr:u.

de turnoaé

e o tumo toma-se

Para exemplificar a

conversação, observe o

nas tomadas de turno, como por exempÌo:

mas você estavadizendo que,,.

propriedades apontadaspermitem afirmar que a

uma operaçãofunàamental da conversação

um dos componentes centraisdo modéÌo.

distribuição de rumos em um r;h;

J;

exemplo (5), já discutido anterior_

mente e que retomamos aqui:

Ll

L2

eu fui ver um filme

ó::timo ...Vcsrígios

do Dia

ah

..

:me

falaramque é muilo bo::m

  • 4. Para um esludo sobrc i

tìosl

Scstiì{) (

i),X))

ver

Galembeck, ^ Silva &

--)o

tiÍxìlogiil(t(.rr rìr)\ LrrÌvcrsÍcionais,

t

L3 nestefim de semana? eúvocê viu Filadélfia?

...

Ll

vi sim ...vi

semanapassada es::te fim de sema::navi

...

...

Cadaparticipante dessa conversação tem direito a formular

seu tumo e, se o princípio é "faìa um de cada vez", o exemplo

evidencia que nem sempre é isso o que ocorre, já que se

detecta a fala, ao mesmo tempo, de dois interlocutoresL2 e

L3 em

sobreposição,marcada pelo sinal de colchete.

Tópico discursivo

Tomadono sentido geralde assunto,o tópicodiscursivo

pode ser definido, conforme já dissemos,como "aquilo sobre

o que se está falando" (Brown & Yule, 1983: 73). Pode-se

dizer que o tópico é um elementoestruturador da conversação,

pois os interlocutoressabem quando estão interagindo dentro

de um mesmo tópico, quando mudam, cortam, retomam ou

fazem digressões.

TÍata-se,conforme observa Aquino (1991:65-66)' "do

sentido construído enquanto se falâ e gerado, também, por

atividadesas quais o mobilizam e marcamos seussegmentos".

O tópico discursivose estabelecenum dado contexto

em que dois ou

maisinterlocutores, engajados numa atividade,

negociam o

assunto de sua conversação. Tal

afirmação

poderia sugerir que o tópico se estabelececlaramente, in-

clusive por meio de marcaslingüísticas; entretanto, ainda

segundoAquino, muitas vezesa identificaçãode um tópico

discursivonão se dá de modo explícito, já que ele pode

apenas ser pressuposto.

Quando isso ocorre, verifica-se que o Íeferencial não

se encontra no texto, mas no contexto situacional e, neste

câso, as unidades lingüísticas referem-sesistematicamente a

traços do mundo extralingüístico. Esses traços incluem não

só a situaçãoimediata onde as unidadessão utilizadas, como

&

37

também o conhecimento por parte dos interlocutores sobre

o

que

foi

dito

anteriormente e sobre quaisquer crenças

externas relevantes.

Exemplifica muito bem essaquestão o

trecho a seguir.

Num contexto em que um casal combinara ir à praia iara

passar o fim de semana, o marido (Ll), que

eiperava à

tão

porta do elevador, impacientou-se com a demorã _

costumeira -

da esposa(L2) e, indignado, porém cuidadoso