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MÓDULO IV

Os desenhos ou modelos industriais

(10 horas)

OBJECTIVOS

Quando tiver terminado o estudo deste módulo, o estudante deveria ser capaz de:

1.

Explicar a definição dos desenhos ou modelos industriais.

2.

Descrever vários tratados internacionais com importância para a protecção dos desenhos ou modelos industriais.

3

Explicar diferentes modos de abordar os problemas em direito dos desenhos ou modelos industriais e a protecção prevista noutras leis tais como a legislação sobre o direito de autor.

4.

Explicar as condições de obtenção de protecção para os desenhos ou modelos industriais.

5.

Compreender os aspectos económicos básicos da protecção dos desenhos ou modelos industriais e os processos relativos a essa protecção.

Definição

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1. Os desenhos ou modelos industriais, no sentido não especializado ou geral, resultam da

actividade criativa aplicada à aparência formal ou ornamental de artigos produzidos em massa que, dentro dos limites impostos pelos custos de produção, procura satisfazer tanto a necessidade de tornar o artigo visualmente atraente para os clientes potenciais, como a necessidade de tornar o artigo capaz de executar eficazmente a função a que se destina. No sentido jurídico, os desenhos ou modelos industriais referem-se ao direito concedido em muitos países, de acordo com um sistema de registo, de proteger os aspectos ornamentais e não funcionais originais de um artigo ou produto industrial que resultam de uma actividade de design.

2. A atracção visual é uma das considerações que influenciam a decisão dos consumidores

de comprar um produto em vez de outro, especialmente em áreas em que existe no mercado toda uma série de produtos que desempenham a mesma função. Neste tipo de situação, se a qualidade técnica dos diversos produtos oferecidos pelos vários fabricantes for mais ou menos equivalente, a atracção estética, assim como, evidentemente, o preço, determinarão a escolha

do consumidor. A protecção legal dos desenhos ou modelos industriais tem portanto a importante função de proteger um dos elementos distintivos através dos quais os fabricantes alcançam o sucesso comercial. Deste modo, recompensando o criador pelo esforço do qual resultou o desenho ou modelo industrial, a protecção legal é um incentivo do investimento de recursos no desenvolvimento do aspecto ornamental da produção.

Fontes do direito a nível nacional, regional e internacional

1.

Direito nacional

3.

Conforme a legislação nacional e o tipo de desenho ou modelo, um desenho ou modelo

industrial pode também ser protegido como obra de arte no âmbito do direito de autor. Em alguns países, os dois tipos de protecção, isto é, pelo direito dos desenhos ou modelos industriais e pelo direito de autor, podem existir concorrentemente. Noutros países, os dois tipos de protecção excluem-se: depois de ter escolhido um tipo de protecção, o titular do direito deixa de poder servir-se do outro. Em certas circunstâncias, um desenho ou modelo industrial pode também ser protegido no âmbito do direito da concorrência desleal, embora as condições da protecção e os direitos e recursos legais assegurados possam ser significativamente diferentes.

4. Os sistemas de registo dos desenhos ou modelos industriais podem ser divididos em

duas grandes categorias, a saber, os sistemas de "depósito" e os sistemas de "exame". Os sistemas de depósito são caracterizados por um processo de depósito administrativo relativamente simples, segundo o qual um desenho ou modelo industrial é depositado ou registado sem ser examinado quanto ao cumprimento das condições essenciais da protecção, tais como a novidade ou a originalidade.

2.

Direito regional

5.

Alguns países instituem um sistema regional em que um pedido de registo de desenho

ou modelo pode ser depositado para abranger esses países.

3

Exemplo: O desenho ou modelo comunitário da União Europeia que começou em Abril de

2003. O Instituto para a Harmonização do Mercado Interno (IHMI) em Espanha regista

desenhos ou modelos comunitários para a protecção dos desenhos ou modelos de acordo com o regulamento adoptado pelo Conselho de Ministros da UE. Para serem protegidos, os desenhos ou modelos devem ser novos e devem ter um carácter individual. Por outras palavras, deve parecer ao público que são diferentes dos produtos que existiam anteriormente. Os titulares de desenhos ou modelos industriais registados têm o direito exclusivo de utilizá- los e de impedirem que qualquer outra pessoa os utilize em qualquer parte da UE. São protegidos contra tanto a cópia deliberada como o desenvolvimento independente de desenhos ou modelos semelhantes. Os desenhos ou modelos não registados são também protegidos nesse sistema. Esta protecção será aplicável a partir da divulgação do desenho ou modelo ao público dentro da União Europeia. A divulgação pode ocorrer quando os desenhos ou modelos são postos à venda ou antes desse momento, através de marketing ou publicidade. Os desenhos ou modelos são protegidos durante três anos. A principal diferença quanto ao nível de protecção concedido é o facto de um desenho ou modelo comunitário registado ser protegido contra tanto a cópia deliberada como o desenvolvimento independente de desenhos ou modelos semelhantes. Um desenho ou modelo não registado é protegido apenas contra a cópia deliberada.

PAA 33: Responda às seguintes perguntas:

1)

grande influência sobre a decisão dos consumidores de preferir um produto a outro. Pode dar

um exemplo e desenvolvê-lo?

É costume dizer-se que a atracção visual é uma das considerações que exercem uma

2)

industriais?

Quais são as duas categorias principais de sistema de registo de desenhos ou modelos

3)

registado?

Quais são as diferenças entre um desenho ou modelo comunitário registado e não

3.

Direito internacional

1)

O Acordo TRIPS

6.

O Artigo 25.1 do Acordo TRIPS obriga os Estados membros a prever a protecção dos

desenhos ou modelos industriais criados independentemente e que são novos ou originais. Os membros da OMC podem decidir que os desenhos ou modelos não são novos ou originais se

não diferirem significativamente de desenhos ou modelos conhecidos ou de combinações de aspectos de design conhecidos. Os membros da OMC podem prever que a protecção não abrange desenhos ou modelos resultantes essencialmente de considerações técnicas ou funcionais.

7. O Artigo 25.2 contém uma disposição especial destinada a ter em conta o breve ciclo de

vida e o número enorme de novos desenhos ou modelos no sector dos têxteis: as exigências

relativas à protecção de tais desenhos ou modelos, especialmente no que diz respeito a qualquer custo, exame ou publicação, não deve injustamente diminuir a possibilidade de procurar e obter essa protecção. Os membros têm a liberdade de cumprir esta obrigação através da protecção dos desenhos ou modelos industriais ou do direito de autor.

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8. O Artigo 26.1 exige que os membros da OMC concedam ao titular de um desenho ou

modelo industrial protegido o direito de impedir que outras pessoas, sem a autorização do

titular, fabriquem, vendam ou importem artigos que exibam ou incorporem um desenho ou modelo que seja uma cópia, ou em grande parte uma cópia, do desenho ou modelo protegido, se estes actos forem empreendidos com fins comerciais.

9. O Artigo 26.2 autoriza que os membros da OMC prevejam um número limitado de

excepções à protecção dos desenhos ou modelos industriais, desde que tais excepções não desfavoreçam injustamente a exploração normal dos desenhos ou modelos industriais protegidos e não prejudiquem injustamente os interesses legítimos do titular do desenho ou modelo protegido, tendo em conta os interesses legítimos de terceiros. A duração da protecção disponível deve totalizar pelo menos 10 anos (Artigo 26.3). A palavra "totalizar" implica que o prazo de protecção pode ser dividido, por exemplo, em dois períodos de cinco anos.

PAA 34: Que declara(ção)(ões) sobre a protecção dos desenhos ou modelos industriais no âmbito do Acordo TRIPS está/estão errada(s) e porquê?

1)

ou modelos industriais.

Compete a cada membro definir os direitos exclusivos derivados do registo dos desenhos

2)

protecção de 15 anos para os desenhos ou modelos industriais.

Segundo o Acordo TRIPS, cada membro da OMC deve prever uma duração mínima de

3)

industriais a todos os desenhos ou modelos industriais.

Os membros da OMC devem conceder a protecção pelo direito dos desenhos ou modelos

4)

certos sectores da economia relativamente a desenhos ou modelos industriais.

O Acordo TRIPS contém disposições especiais que levam em conta as necessidades de

2)

O Acordo da Haia

10.

O sistema da Haia de registo internacional dos desenhos ou modelos industriais é

aplicável entre as partes contratantes do Acordo da Haia. É administrado pela OMPI.

11. Este sistema dá ao titular de um desenho ou modelo industrial a possibilidade de

proteger o seu desenho ou modelo em vários países, mediante o simples depósito de um pedido junto da Secretaria Internacional da OMPI, numa só língua, e sujeito a uma única série

de taxas numa só moeda (francos suíços). Um registo internacional produz os mesmos efeitos em cada um dos países designados, como se o desenho ou modelo tivesse sido registado em cada um deles directamente, a não ser que a protecção seja recusada pela administração competente de um desses países. O sistema da Haia também simplifica muito a administração ulterior do desenho ou modelo industrial, pois é possível inscrever modificações posteriores ou renovar o registo através de uma simples e única medida processual junto da Secretaria Internacional da OMPI.

12. O sistema da Haia resultou da necessidade de simplicidade e de economia. Este sistema

permite que os titulares de desenhos ou modelos industriais de uma parte contratante obtenham protecção para os seus desenhos ou modelos com um mínimo de formalidades e

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despesa. Deixam de ter a necessidade de apresentar um pedido nacional separado em cada uma das partes contratantes em que procuram a protecção, evitando deste modo as complicações resultantes de processos e línguas que diferem de um Estado para outro. O sistema da Haia também evita a necessidade de estar constantemente atento às datas limite para renovar toda uma série de registos nacionais, que variam de um Estado para outro. Em resumo, o sistema da Haia permite um único registo internacional feito numa só língua, sujeito ao pagamento de uma única série de taxas numa só moeda e junto de uma única administração.

13. O pedido internacional deve ser depositado em inglês ou em francês (à escolha do

requerente) num formulário oficial. Deve, em particular, conter uma reprodução dos desenhos ou modelos industriais em questão, juntamente com a designação dos Estados onde é procurada a protecção. Um pedido internacional pode incluir até 100 desenhos ou modelos diferentes. Todos os desenhos ou modelos devem pertencer à mesma classe da Classificação Internacional dos Desenhos ou Modelos Industriais (a Classificação de Locarno).

14. Quem pode utilizar o sistema da Haia? A possibilidade de depositar um pedido

internacional no âmbito do Acordo da Haia não é dada a toda a gente. Para ter o direito de

depositar um tal pedido, o requerente deve satisfazer, pelo menos, uma das seguintes condições:

– ser nacional de um Estado parte do Acordo da Haia, ou

– ter um domicílio num Estado parte do Acordo da Haia, ou

– ter uma residência habitual num Estado parte do Acordo da Haia, ou

– ter um estabelecimento industrial ou comercial real e efectivo no território de um Estado parte do Acordo da Haia.

15. Uma pessoa que não satisfaça nenhuma das referidas condições não se encontra em

posição de depositar um pedido internacional segundo o Acordo da Haia e deve, portanto,

para obter a protecção, depositar um pedido a nível nacional (ou regional), junto da administração nacional (ou regional) interessada.

16. Onde é que pode ser obtida a protecção? A protecção pode ser obtida apenas nos

Estados que são partes do Acordo da Haia. O sistema da Haia não pode ser utilizado para proteger um desenho ou modelo industrial num país que não seja parte do Acordo da Haia. Para proteger um desenho ou modelo num tal país, o requerente é obrigado a depositar um pedido nacional (ou regional).

17. Até 2006, 44 Estados eram partes do Acordo da Haia. Para uma lista desses Estados e

para informações actualizadas ver "países partes do Acordo da Haia" no sítio web da OMPI:

www.wipo.int/hague/en.

18. Convém também salientar que a OMPI não avalia a novidade do desenho ou modelo

nem intervém de qualquer modo nessa questão e, portanto, não tem o direito de rejeitar um pedido internacional por essa, ou qualquer outra, razão fundamental. (O exame substantivo é da competência exclusiva da administração de cada país designado).

PAA 35: Que declara(ção)(ões) sobre os desenhos ou modelos industriais no âmbito do Acordo da Haia está/estão errada(s) e porquê?

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1)

segundo o Acordo da Haia é dada a qualquer requerente.

A possibilidade de depositar um pedido internacional de desenho ou modelo industrial

2)

ser pedida em todo o mundo.

Através de um pedido internacional de desenho ou modelo industrial, a protecção pode

3)

um exame da novidade, mas só a pedido expresso do requerente.

Quando recebe um pedido internacional de desenho ou modelo industrial a OMPI efectua

4)

Haia; só os membros destes dois sistemas são diferentes.

O funcionamento do desenho ou modelo comunitário é semelhante ao do sistema da

Diferentes modos de abordar os problemas em direito dos desenhos ou modelos industriais e a ligação com o direito de autor

19. A formulação de um sistema legal para a protecção dos desenhos ou modelos industriais

exige o estabelecimento de um equilíbrio de interesses. Por um lado, há a necessidade de conceder uma protecção efectiva e eficaz, para que o direito possa cumprir a função de promover o elemento de design na produção. Por outro lado, há a necessidade de assegurar que o direito não alargue desnecessariamente a protecção para além do que é necessário para criar um incentivo para a actividade de design, de maneira a que um seja introduzido um número mínimo de obstáculos à livre utilização dos desenhos ou modelos disponíveis. O estabelecimento deste equilíbrio exige uma consideração cuidadosa de um certo número de questões, as mais importantes das quais são:

– a definição do objecto da protecção;

– os direitos que se aplicam ao proprietário do objecto; a duração desses direitos;

– a aptidão para receber esses direitos;

– o modo de aquisição desses direitos.

20. A protecção dos desenhos ou modelos pode ser obtida através do registo de acordo com

o direito dos desenhos ou modelos industriais. Também é possível gozar da protecção pelo direito de autor (que é concedida sem quaisquer formalidades de registo). As Convenções Internacionais não impõem quaisquer exigências aos Estados. A Convenção de Berna para a Protecção das Obras Literárias e Artísticas prevê que a possibilidade de aplicar a protecção pelo direito de autor aos desenhos ou modelos industriais é deixada ao critério dos Estados: é aos Estados que compete "regulamentar o campo de aplicação das leis respeitantes às obras

das artes aplicadas e aos desenhos ou modelos industriais, bem como as condições da protecção destas obras e desenhos ou modelos industriais" (Artigo 2.7 da Convenção de Berna).

21. Isto significa que a questão de saber se a protecção pelo direito de autor se aplica aos

desenhos ou modelos industriais é regida exclusivamente pelas legislações nacionais. Na maior parte dos países, os critérios utilizados para resolver esta questão baseiam-se na distinção entre desenhos ou modelos "artísticos" e "industriais".

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22. Os desenhos ou modelos podem ser classificados em duas categorias:

– por um lado, os desenhos ou modelos que são puramente artísticos ("puras obras de

arte"), que são definidos como criações que têm apenas uma finalidade decorativa, sem qualquer objectivo industrial. Estes desenhos ou modelos destinam-se apenas a ser admirados

(pinturas, esculturas, etc.);

– por outro lado, os desenhos ou modelos industriais, que são definidos como criações

destinadas a serem utilizadas com fins práticos (roupa, mobília, dispositivos domésticos, etc.). Poderia dizer-se que este tipo de criação reúne o útil (o aspecto industrial) e o agradável (o

aspecto estético). Por outras palavras, no caso de um desenho ou modelo industrial, dois elementos distintos combinam-se num só objecto:

• um aspecto industrial, uma vez que o objecto em questão destina-se a uma utilização prática (por exemplo um vaso, ou uma poltrona), e

• um aspecto artístico, incorporado em, e intimamente ligado a, este objecto.

23. De acordo com a Convenção de Berna, os Estados conservam uma liberdade total para

organizar os seus próprios sistemas de protecção pelo direito de autor para os desenhos ou modelos industriais e é um facto que as legislações nacionais apresentam grandes diferenças a respeito do(s) sistema(s) de protecção que se aplica(m).

Três modos típicos de abordar a questão podem ser observados internacionalmente

a) Sistemas nacionais que estabelecem uma distinção absoluta entre desenhos ou modelos industriais e desenhos ou modelos artísticos (teoria de arte separatista).

Dentro deste tipo de sistema (por exemplo no Japão ou no Reino Unido), o regime de protecção de um determinado desenho ou modelo depende do seu objectivo:

– no caso de um desenho ou modelo "industrial", a legislação relativa aos desenhos ou modelos pode ser aplicada;

– no caso de um desenho ou modelo "artístico", a legislação sobre o direito de autor é aplicável.

24. Esta teoria separatista, portanto, estabelece um divisão rígida entre as duas formas de

protecção, tendo cada uma âmbitos distintos e separados. Isto significa que no que diz respeito a desenhos ou modelos considerados "industriais" – por exemplo sapatos, cadeiras ou telefones – nenhum outro tipo de protecção se pode aplicar além do que provém do direito dos desenhos ou modelos industriais. A protecção pelo direito de autor é inaplicável neste caso.

b) Sistemas nacionais que prevêem uma protecção cumulativa (teoria da unidade da arte);

Neste tipo de sistema (por exemplo na Bélgica e na França), a finalidade do desenho ou modelo não é levado em consideração. As disposições do direito de autor e as disposições relativas aos desenhos ou modelos registados visam a protecção das mesmas criações. Subjacente a este sistema encontra-se o chamado "princípio da unidade da arte". Isto

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significa que só é reconhecida uma forma de arte, que abrange todos os desenhos ou modelos independentemente da sua finalidade. Todos os tipos de criação podem portanto ser protegidos, à escolha do criador, alternativamente ou cumulativamente, através da legislação do direito de autor e/ou da legislação sobre os desenhos ou modelos industriais.

25. Por exemplo, um desenho ou modelo puramente artístico (digamos uma escultura)

gozará da protecção pelo direito de autor cumulativamente à protecção resultante do direito

dos desenhos ou modelos industriais (desde que, evidentemente, as formalidades de registo correspondentes tenham sido cumpridas para essa escultura). Do mesmo modo, um desenho ou modelo industrial (por exemplo, uma peça de vestuário ou de mobília) será protegida pelo direito de autor assim como pelo direito dos desenhos ou modelos industriais. Há uma perfeita inter-operacionalidade entre os dois tipos de leis.

c)

Sistemas intermediários

26.

Enfim, existem sistemas nacionais (por exemplo na Alemanha e no Brasil) que

permitem a protecção dos desenhos ou modelos industriais pelo direito de autor, mas em certas condições. Um desenho ou modelo industrial só poderá beneficiar da protecção pelo direito de autor se preencher certas condições que variam de um Estado para outro, mas que se baseiam geralmente num alto nível de esforço criativo ou no aspecto artístico predominante da obra.

27. Por exemplo, a respeito de uma caneta feita de marfim coberto de várias filas de

diamantes e outras pedras preciosas, um tribunal alemão considerou que a dimensão artística deste produto era mais importante que a sua função e, por isso, justificava também a

protecção pelo direito de autor.

28. Este tipo de sistema tem portanto em conta o carácter híbrido de um desenho ou modelo

(aspectos artístico e industrial), permitindo a vantagem da protecção cumulativa mas não a qualquer preço. Considera-se que, por exemplo, seria estranho que um sapato beneficiasse do mesmo grau de protecção que o que é concedido a uma obra prima. É por esta razão que, para beneficiar também da protecção pelo direito de autor nestes Estados, o desenho ou modelo industrial deve satisfazer um certo número de critérios, geralmente baseados no aspecto artístico predominante da obra.

PAA 36: Os desenhos ou modelos podem ser protegidos através da legislação sobre os desenhos ou modelos industriais, ou pelo direito de autor. Tipicamente, a duração da protecção pelo direito de autor é muito maior do que a protecção pelo direito dos desenhos ou modelos industriais (a vida do autor mais 50 anos no caso do direito de autor, comparado com 10 no caso dos desenhos ou modelos industriais). Explique as três maneiras típicas em que os países decidem se um desenho ou modelo deveria ser protegido pelo direito dos desenhos ou modelos industriais ou pelo direito de autor, e algumas razões para escolher cada uma das três maneiras. Qual das maneiras de resolver esta questão é a melhor, em sua opinião.

Definição do objecto da protecção

29. Na maior parte dos países, um desenho ou modelo industrial deve ser registado para ser

protegido segundo o direito dos desenhos ou modelos industriais. Em geral, para ser

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registável o desenho ou modelo deve ser "novo" ou "original". Os diferentes países têm definições diversas de tais termos, assim como diferenças no próprio processo de registo. Geralmente, "novo" significa que não é conhecida e existência de nenhum desenho ou modelo idêntico ou muito semelhante. Quando um desenho ou modelo é registado, um certificado de registo é emitido. Depois disso, o prazo de protecção é geralmente de cinco anos, com a possibilidade de novos períodos de renovação até, na maior parte dos casos, 15 anos.

O desenho ou modelo como conceito ou ideia

30. O objecto da protecção legal de um desenho ou modelo industrial não é um artigo ou

produto, mas o desenho ou modelo aplicado ou incorporado no artigo ou produto.

31. O que é salientado é um conceito abstracto ou ideia como objecto da protecção do

desenho ou modelo. A protecção do desenho ou modelo não se aplica a artigos ou produtos de

maneira a conceder ao titular do desenho ou modelo direitos exclusivos sobre a exploração comercial desses artigos ou produtos. Em vez disso, a protecção do desenho ou modelo só se aplica a tais artigos ou produtos na medida em que eles incorporam ou reproduzem o desenho ou modelo protegido. Portanto, a protecção não impede que outros fabricantes produzam ou vendam artigos semelhantes com a mesma função utilitária, desde que tais artigos de substituição não incorporem ou reproduzam o desenho ou modelo protegido.

32. O conceito ou ideia que constitui o desenho ou modelo pode ser expressado em duas ou

três dimensões. Considera-se geralmente que as palavras "forma" e "configuração" são sinónimas e que ambas significam a forma em que um artigo é feito ou, por outras palavras, qualquer coisa de tridimensional. Do mesmo modo, também se considera que as palavras "padrão" e "ornamento" são sinónimas e que ambas se referem a qualquer coisa gravada, estampada ou colocada sobre um artigo para decorá-lo, por outras palavras, a qualquer coisa essencialmente bidimensional.

Aplicação a um artigo ou incorporação num artigo

33. Embora o objecto da protecção do desenho ou modelo é essencialmente um conceito

abstracto, um dos objectivos básicos da protecção dos desenhos ou modelos industriais é a promoção do elemento de design da produção. Portanto, um aspecto habitual do direito dos desenhos ou modelos industriais é o facto de um desenho ou modelo só poder ser protegido se for susceptível de ser utilizado na indústria, ou em artigos produzidos em grande escala.

34. A exigência de que um desenho ou modelo seja aplicado a artigos utilitários para poder

ser protegido é uma das principais questões que distingue os objectivos da protecção pelo direito dos desenhos ou modelos industriais da protecção pelo direito de autor, uma vez que esta última diz respeito simplesmente às criações estéticas. A exigência é expressada de diferentes maneiras em legislações diferentes. Por exemplo, o direito dos desenhos ou modelos do Japão confere a protecção aos desenhos ou modelos "capazes de serem utilizados na produção industrial" (Artigo 3.1).

Exclusão dos desenhos ou modelos determinados pela função

35. O facto de a protecção dos desenhos ou modelos industriais dizer respeito só à aparência

é também ilustrado pela disposição, geralmente encontrada nas legislações sobre os desenhos

ou modelos industriais, segundo a qual os desenhos ou modelos determinados apenas pela

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função que o artigo deve desempenhar são excluídos da protecção. A este respeito, o Artigo 25.1 do Acordo TRIPS autoriza, por exemplo, que os membros da OMC excluam da protecção pelo direito dos desenhos ou modelos industriais os desenhos ou modelos resultantes essencialmente de considerações técnicas ou funcionais.

36. O facto de excluir da protecção os desenhos ou modelos determinados apenas pela

função que o artigo deve desempenhar tem um objectivo fundamental. Muitos artigos aos quais são aplicados desenhos ou modelos não são novos e são produzidos por um grande número de fabricantes diferentes. Cintos, sapatos, parafusos e anéis de segmento, por exemplo, podem ser produzidos por centenas de fabricantes diferentes, e todos os artigos de cada classe se destinam à mesma função. Se um desenho ou modelo para um tal artigo, por exemplo, parafusos, resultar exclusivamente da função a que é destinado o parafuso, a protecção desse desenho ou modelo teria o efeito de excluir todos os outros fabricantes da produção de artigos destinados a ter a mesma função. Uma tal exclusão não se justifica, a não ser que o desenho ou modelo seja suficientemente novo e inventivo e preencha as condições rigorosas para poder ser objecto da protecção por patente.

37. Uma vez que, segundo certas teorias de design, a forma deveria seguir a função, diz-se

muitas vezes que excluir da protecção os desenhos ou modelos que são determinados apenas pela função pode ter o efeito de excluir da protecção uma série demasiado vasta de desenhos ou modelos. Porém, uma tal preocupação não se justifica na prática, pois a exclusão diz respeito apenas aos desenhos ou modelos que são indispensáveis para executar a função desejada. Na realidade, existem muitas maneiras de efectuar uma tarefa. Portanto, só se uma função não for possível depois de o desenho ou modelo ser alterado, é que o desenho ou modelo seria excluído da protecção. A questão é portanto saber se o desenho ou modelo para o qual se procura a protecção constitui a única solução para a função desejada.

PAA 37: Nos seguintes casos, qual seria a sua resposta?

1)

É possível que um desenho ou modelo industrial obtenha protecção pelo direito de autor?

2)

Um amigo seu expõe a seguinte ideia: "Que tal um tabuleiro de xadrez esférico no qual as

peças habituais seriam substituídas por animais?" Pode esta ideia ser protegida pelo direito dos desenhos ou modelos?

3)

centímetros de profundidade e 1,4 centímetros de diâmetro, colocados em grupos de quatro, separados uns dos outros de 3,5 centímetros. Um teste científico demonstrou que uma tal configuração permite uma muito mais eficaz evacuação da água no caso de chuva. Pode este

pneu ser protegido pelo direito dos desenhos ou modelos industriais?

A sua empresa concebeu um novo pneu para automóveis que contém buracos com 1,2

Novidade ou originalidade

38. É uma exigência de todas as legislações sobre desenhos ou modelos industriais que a

protecção mediante registo seja concedida apenas a desenhos ou modelos que são novos ou, como às vezes se diz, originais. A novidade do desenho ou modelo constitui a razão fundamental para conceder uma recompensa ao criador através da protecção por registo do desenho ou modelo industrial.

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39. Embora a exigência de novidade se encontre em todas as legislações, a natureza da

novidade exigida come condição da protecção varia nas legislações dos diversos países. A novidade exigida é às vezes absoluta ou universal, o que significa que o desenho ou modelo para o qual a protecção é procurada deve ser novo comparado com todos os outros desenhos ou modelos em qualquer parte do mundo em qualquer época e divulgados por quaisquer meios tangíveis ou orais. Por outro lado, uma norma de novidade qualificada é às vezes adoptada. Neste último caso, a qualificação pode referir-se ao tempo, isto é, a novidade é julgada com referência aos desenhos ou modelos publicados dentro de um período de tempo anterior limitado; ou pode referir-se ao território, isto é, a novidade é julgada com referência a todos os desenhos ou modelos publicados dentro da jurisdição em questão e não em qualquer parte do mundo; ou pode referir-se aos meios de expressão, isto é, a novidade é avaliada com referência a divulgações escritas ou tangíveis em qualquer parte do mundo e a divulgações orais apenas dentro das jurisdições em questão.

40. O argumento a favor de uma norma de novidade universal não qualificada é que os

direitos exclusivos conferidos pelo registo deveriam ser concedidos só nos casos em que o criador do desenho ou modelo produziu uma coisa realmente nova e que, portanto, justifica a recompensa de direitos exclusivos. O argumento a favor de uma norma de novidade qualificada é que um objectivo do registo de desenhos ou modelos é encorajar novos desenhos ou modelos numa determinada jurisdição; por isso, um novo desenho ou modelo registado nessa jurisdição não deveria ser privado de protecção pela publicação, noutro sítio, de um desenho ou modelo que o criador não introduziu nessa jurisdição para juntar aos desenhos ou modelos disponíveis para a indústria. Convém notar, porém, que uma norma de novidade qualificada não significa necessariamente que uma pessoa pode obter direitos válidos numa jurisdição simplesmente mediante o registo de um desenho ou modelo que viu noutro país e copiou, pois o direito dos desenhos ou modelos industriais também exige muitas vezes que o requerente seja o autor do desenho ou modelo.

Período de graça no caso de divulgação do desenho ou modelo

41. A condição de base para a validade de um registo de desenho ou modelo industrial é a

novidade do desenho ou modelo. Em geral, um desenho ou modelo é considerado novo se nenhum desenho ou modelo idêntico tiver sido tornado acessível ao público antes da data do depósito do pedido de registo. Porém, algumas formas de divulgação podem não destruir a novidade do desenho ou modelo, especialmente se forem feitas pelo próprio designer, ou em condições de confidencialidade.

42. Se um período de graça for previsto, será geralmente de curta duração, tipicamente entre

seis meses e um ano. O pedido de registo do desenho ou modelo na jurisdição que prevê o período de graça teria de ser depositado antes da expiração do período de graça.

43. O existência de um período de graça permite pôr à prova um produto no mercado antes

de tomar uma decisão sobre o registo. Porém, convém ter em conta que nem todos os países prevêem este tipo de período de graça. Se um desenho ou modelo for tornado acessível ao público antes de um pedido de registo ser depositado, a protecção no estrangeiro pode tornar- se impossível.

44. Se houver um período de graça para a novidade segundo a lei (o que pode não ser o caso

em todas as jurisdições), a divulgação do desenho ou modelo pelo criador, ou por uma terceira

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pessoa como resultado de informações fornecidas ou de acções praticadas pelo criador do desenho ou modelo, não será tomada em consideração como um obstáculo ao registo do desenho ou modelo. Uma outra forma de divulgação privilegiada sem efeito necessário sobre

a novidade do desenho ou modelo seria uma divulgação resultante de um abuso em relação ao criador do desenho ou modelo.

Direitos relativos a desenhos ou modelos industriais

45. Os direitos concedidos ao titular de um desenho ou modelo validamente registado mais

uma vez salientam o objectivo essencial do direito dos desenhos ou modelos industriais de promover e proteger o elemento de design da produção industrial. Portanto, enquanto que o direito de autor concede ao autor o direito de impedir a cópia de uma obra, o direito dos desenhos ou modelos industriais concede ao titular o direito exclusivo de impedir a exploração não autorizada do desenho ou modelo em artigos industriais.

Os titularidade dos direitos

46. O direito a protecção legal a respeito de um desenho ou modelo industrial pertence ao

criador (ou autor, ou originador) do desenho ou modelo industrial. Há duas questões relativas

à operação deste princípio que são frequentemente objecto de disposições legislativas particulares.

47. Em primeiro lugar, há a questão do direito à protecção legal relativa a um desenho ou

modelo industrial que foi criado por um empregado, ou por um independente em virtude de uma encomenda. Nestas situações, a lei prevê geralmente que o direito à protecção legal do desenho ou modelo pertence ao patrão, ou à pessoa que encomendou o desenho ou modelo. A base desta regra é que a criação do desenho ou modelo faz parte das tarefas pelas quais o empregado é pago, de maneira que o empregado deveria procurar a recompensa da sua actividade criadora num nível apropriado de remuneração, de responsabilidade e noutras condições de emprego. Do mesmo modo, no caso do independente, a coisa pela qual ele é pago é a produção do desenho ou modelo para e por conta da pessoa que encomendou o desenho ou modelo.

48. Uma grande parte dos desenhos ou modelos contemporâneos são produzidos com a

assistência de computadores. Uma questão que surge é a de saber se é possível dizer que há

um autor ou criador que tem direito à protecção legal relativa a desenhos ou modelos gerados com a assistência de um computador. Uma maneira de considerar o problema é tratar o computador como qualquer instrumento que pode ser utilizado por um designer no processo de criar um desenho ou modelo. Nesta base, a pessoa que é responsável pela manipulação da capacidade do computador de produzir um desenho ou modelo seria considerada como o autor do desenho ou modelo. Uma disposição neste sentido encontra-se, no Reino Unido, no Artigo

214.2

da Lei de 1988 sobre o Direito de Autor, os Desenhos ou Modelos e as Patentes que

prevê:

"No caso de um desenho ou modelo gerado por computador, a pessoa que efectua as operações necessárias para a criação do desenho ou modelo será considerada como sendo o designer."

Aquisição de direitos

Registo

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49. A protecção de um desenho ou modelo industrial é habitualmente concedida em virtude

de um processo de registo do desenho ou modelo. O sistema de exame mais geralmente adoptado prevê apenas um exame formal do pedido de registo de um desenho ou modelo. Segundo este sistema, o pedido é examinado para assegurar que satisfaz cada uma das exigências formais impostas pela legislação aplicável (por exemplo, se o número exigido de representações ou exemplares do desenho ou modelo foi depositado com o pedido), mas não é efectuada uma pesquisa do estado da técnica para determinar se o critério substantivo da novidade ou originalidade é satisfeito pelo desenho ou modelo para o qual o registo é procurado.

50. Um sistema que requer apenas o exame formal tem o efeito de transferir o ónus da

determinação da novidade para as pessoas interessadas no mercado que podem desejar utilizar ou que podem ter utilizado o desenho ou modelo ou um desenho ou modelo muito semelhante. Qualquer pessoa interessada em utilizar um tal desenho ou modelo terá a possibilidade de se opor ao registo do desenho ou modelo do qual foi feito o registo, se o direito aplicável prevê um processo de oposição, ou interpor uma acção de anulação de um registo alegadamente inválido. O sistema oferece deste modo um meio de reduzir a carga administrativa de manter um registo de desenhos ou modelos industriais. Oferece também uma solução do problema da manutenção de uma documentação de pesquisa para levar a efeito um exame substantivo da novidade dos desenhos ou modelos. Uma tal documentação de pesquisa pode muitas vezes ser quase impossível de conservar, uma vez que, na base de uma condição de novidade universal não qualificada, seria necessário incluir todos os desenhos ou modelos feitos em qualquer momento em qualquer parte do mundo desde o princípio da história documentada.

51. O sistema alternativo de exame prevê uma pesquisa de desenhos ou modelos passados e

um exame do desenho ou modelo para o qual é procurada a protecção para determinar se o desenho ou modelo satisfaz a condição necessária de novidade. Este sistema necessita da conservação de uma documentação de pesquisa e um número suficiente de pessoas especializadas para executar o exame substantivo.

Formalidades de registo

52. O processo de registo consiste, em termos gerais, no depósito do formulário de pedido

apropriado juntamente com as reproduções dos desenhos ou modelos para os quais a

protecção é procurada.

53. As reproduções do desenho ou modelo que se deseja proteger podem ser fotografias,

desenhos ou outras reproduções gráficas. As reproduções constituem a pedra angular do depósito. Convém ter sempre em conta que a protecção de desenhos ou modelos depositados é visual, de maneira que só os elementos mostrados nas reproduções serão protegidos. Consequentemente, um elemento que não é visível na reprodução não será protegido, mesmo que realmente exista na prática. É portanto importante assegurar que cada artigo seja representado em diferentes ângulos (vistas de frente e de trás de um vestido, por exemplo). A

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reprodução deve ser impecável, pois é do conteúdo e da qualidade das reproduções que dependerá a extensão da protecção.

54. Os países prevêem geralmente um pedido feito em papel. Algumas administrações (por

exemplo, o Instituto Norte Americano das Patentes e das Marcas - USPTO, nos Estados Unidos, ou o Instituto para a Harmonização do Mercado Interno - IHMI, da Comunidade Europeia) têm também facilidades para se apresentarem pedidos de registo em linha directamente através da Internet.

55. Pedidos de desenhos ou modelos múltiplos. O conceito de "pedido de desenhos ou

modelos múltiplos" significa que vários desenhos ou modelos podem ser incluídos num único pedido. O objectivo de um tal sistema é facilitar o depósito de pedidos para os sectores da indústria que criam grandes números de desenhos ou modelos e em que o custo e a carga administrativa do depósito de um pedido para cada desenho ou modelo é considerado demasiado alto.

56. Pedido mono classe de desenhos ou modelos. A maior parte das legislações nacionais

autorizam que um único pedido contenha vários desenhos ou modelos, desde que esses desenhos ou modelos pertençam à mesma classe da Classificação Internacional de Locarno. A Classificação de Locarno é um tratado multilateral administrado pela OMPI que institui uma classificação internacional dos desenhos ou modelos industriais. A utilização da Classificação de Locarno pelas administrações nacionais tem a vantagem de permitir o depósito de desenhos ou modelos industriais com referência a um único sistema de classificação. A Classificação de Locarno contém uma lista de 32 classes que se referem a 6.831 indicações de diferentes tipos de produtos. Por exemplo, nos países que têm um sistema mono classe de pedidos de desenhos ou modelos, é possível depositar num único pedido uma gravata e um casaco (ambos pertencem à classe 02), mas não uma gravata e um relógio (este último artigo pertence à classe 10).

57. Adiamento da publicação. Um registo de desenho ou modelo é geralmente publicado a

seguir ao exame formal e/ou substantivo efectuado pela administração. Porém, certas legislações de desenhos ou modelos industriais prevêem a possibilidade de adiar a publicação durante um certo período de tempo.

58. Por que razão alguns requerentes desejam adiar a publicação? O adiamento da

publicação permite a reconciliação de dois objectivos contraditórios, a saber, obter uma data de depósito (que marca o início da protecção e que no caso normal implica a divulgação do desenho ou modelo pela publicação) e, ao mesmo tempo, manter o desenho ou modelo secreto para os concorrentes. Uma tal situação poderia verificar-se no caso de um desenho ou modelo

que acaba de ser criado e que convém depositar o mais cedo possível para assegurar a protecção. Porém, por razões de estratégia comercial, o criador considera que não é o momento apropriado para lançar o desenho ou modelo no mercado, mas deseja também, por enquanto, escondê-lo de possíveis contrafactores. É este o objectivo do adiamento da protecção: assegurar a protecção de uma criação que ainda não foi explorada, sem ao mesmo tempo revelar informações sensíveis a piratas potenciais.

59. O custo do registo. Um pedido de desenho ou modelo é sujeito ao pagamento de várias

séries de taxas que podem depender do número de desenhos ou modelos e/ou reproduções a cores ou a preto e branco) incluídos no pedido. Os valores dessas taxas variam de um país para outro (dependendo sobretudo de a administração efectuar ou não um exame da

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novidade). Abaixo, damos alguns exemplos de taxas (convertidas em dólares dos EU para facilitar a comparação) que devem ser pagas à administração em questão pelo registo de um único desenho ou modelo (mostrado numa só reprodução):

Austrália: 150$

Marrocos: 40$

Canadá: 350$

Noruega: 200$

Espanha: 110$

Reino Unido: 180$

EUA: 320$

Singapura: 150$

França: 90$

Suíça: 200$

Índia: 45$

OAPI: 155$

Japão: 480$

Comunidade Europeia: 450$

60. Para mais informações e/ou actualização do valor das taxas cobradas pelos países acima

mencionados, ver os respectivos sítios web. 1

Criação e fixação

61. Os direitos relativos aos desenhos e modelos podem, segundo certas legislações, ser

também adquiridos pelo acto de criação e fixação do desenho ou modelo num documento ou pela incorporação do desenho ou modelo num artigo. Estes sistemas não requerem qualquer registo formal para a aquisição de direitos exclusivos sobre o desenho ou modelo. Exemplos deste sistema são fornecidos pelo direito francês e a Lei de 1988 do Reino Unido sobre o direito de autor, os desenhos ou modelos e as patentes.

Natureza dos direitos

62. O direito de impedir que outras pessoas explorem um desenho ou modelo industrial

inclui normalmente o direito exclusivo de fazer qualquer uma das seguintes coisas para fins industriais ou comerciais: fabricar artigos aos quais o desenho ou modelo é aplicado ou no qual o desenho ou modelo é incorporado; importar artigos ao qual o desenho ou modelo é aplicado ou no qual o desenho ou modelo é incorporado; vender, alugar ou oferecer para venda quaisquer desse artigos.

63. Em algumas legislações, os direitos exclusivos do titular também incluem o de impedir

que outras pessoas armazenem quaisquer artigos aos quais o desenho ou modelo foi aplicado ou nos quais o desenho ou modelo foi incorporado. Embora seja às vezes considerado excessivo na medida em que diz respeito apenas a actos preparatórios, este direito é muitas vezes incluído a fim de facilitar a aplicação dos direitos do titular, pois é muitas vezes mais fácil localizar um stock de artigos em infracção do que surpreender uma pessoa no acto de vender ou de oferecer para venda tais artigos.

64. Ao contrário do direito de autor em que o objecto do direito é a obra criada pelo autor e

definida por ele, o objecto dos direitos do proprietário de um desenho ou modelo industrial

1 Austrália (www.ipaustralia.gov.au); Canadá (www.cipo.gc.ca); Espanha (www.oepm.es); EUA (www.uspto.gov); França (www.inpi.fr); Índia (www.patentoffice.nic.in); Japão (www.jpo.go.jp); Marrocos (www.ompic.org.ma); Noruega (www.patentstyret.no); Reino Unido (www.patent.gov.uk); Singapura (www.ipos.gov.sg); Suíça (www.ige.ch); OAPI (www.oapi.wipo.net); Comunidade Europeia (www.oami.eu.int).

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são definidos pelo desenho ou modelo que foi registado. Contudo, é habitual prever que os direitos do proprietário abrangem não só a exploração não autorizada do desenho ou modelo exactamente como foi registado (uma cópia servil do desenho ou modelo; ver também uma explicação sobre a imitação servil abaixo), mas também a exploração não autorizada de quaisquer imitações do desenho ou modelo que diferem do desenho ou modelo registado apenas em aspectos sem importância.

Duração dos direitos

65. A duração de um direito de desenho ou modelo industrial varia de um país para outro. A

duração máxima habitual é de 10 a 25 anos, muitas vezes dividida em prazos que requerem que o titular renove o registo para obter um aumento da duração. O período de protecção relativamente curto pode estar relacionado com a associação dos desenhos ou modelos com estilos de modas mais gerais que geralmente gozam de uma aceitação ou sucesso transitório, especialmente sectores muito feitos à moda, tais como o vestuário e o calçado. Abaixo indicamos alguns exemplos da duração máxima de protecção prevista por legislações nacionais sobre os desenhos ou modelos industriais:

10

anos: Austrália, Canadá, China

14

anos: Estados Unidos da América

15

anos: Benim, Brasil, Egipto, Japão, Singapura, Rússia, Ucrânia

25

anos: Alemanha, Bulgária, Espanha, França, Itália, Reino Unido, Roménia, Suíça, Turquia

50

anos: Mónaco

PAA 38: Nos seguintes casos, qual seria a sua resposta?

1)

Ao ler na sua biblioteca um livro publicado em 1806 sobre recipientes fabricados nessa

época na Escócia, você pensou que um dos recipientes mostrados no livro poderia ser um negócio interessante se fosse comercializado actualmente, especialmente na Ásia. Você decide portanto comercializar uma versão ligeiramente mais moderna desse recipiente na Malásia, o seu próprio país, mas que não se distingue significativamente do recipiente encontrado no livro. Poderia você reivindicar direitos sobre este desenho ou modelo ressuscitado?

2)

um debate sobre a questão de saber se deveria ser instituído um exame da novidade. Discuta

as vantagens e as desvantagens de um tal sistema.

O seu país está prestes modificar o seu direito dos desenhos ou modelos industriais e há

A relação com o direito de autor

66. Os objectos susceptíveis de serem protegidos no âmbito do direito dos desenhos ou

modelos industriais podem também ser protegidos em virtude da legislação sobre o direito de autor. Deste modo, o direito dos desenhos ou modelos industriais está relacionado tanto com a legislação sobre o direito de autor como com o direito da propriedade industrial. Supondo que um determinado desenho ou modelo contém elementos ou aspectos que são protegidos tanto pelo direito de autor como pelo direito dos desenhos ou modelos industriais, pode um criador de um desenho ou modelo industrial reivindicar cumulativamente ou simultaneamente a protecção de ambos os direitos? Se esta pergunta for respondida afirmativamente, a protecção é cumulativa. A acumulação da protecção significa que o desenho ou modelo é protegido

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simultaneamente e concorrentemente pelos dois direitos no sentido de que o criador pode invocar a protecção de qualquer um deles ou de ambos os direitos, como entender. Significa também que se o criador do desenho ou modelo não tiver obtido a protecção pelo direito dos desenhos ou modelos industriais por não ter registado o seu desenho ou modelo, ele pode reivindicar a protecção pelo direito de autor que é disponível sem o cumprimento de quaisquer formalidades. Enfim, a acumulação da protecção significa que depois de ter expirado o prazo de protecção do desenho ou modelo registado, é possível que o criador continue a gozar da protecção pelo direito de autor.

67. Mas convém notar que se deve distinguir entre a acumulação e a "coexistência". A

coexistência das protecções significa que o criador pode escolher entre a protecção pelo direito dos desenhos ou modelos industriais e a protecção pelo direito de autor. Depois de ter escolhido uma, deixa de poder servir-se da outra. Se tiver registado o desenho ou modelo industrial, quando expirar o registo ele não poderá reivindicar a protecção pelo direito de autor, pelo menos para essa aplicação particular do desenho ou modelo industrial.

68. O sistema da acumulação da protecção pelo direito dos desenhos ou modelos industriais

e pelo direito de autor existe na Alemanha e na França. E o sistema da coexistência das

protecções pelos dois direitos existe na maior parte dos outros países.

69. A diferença entre a protecção pelo direito de autor e a protecção pelo direito dos

desenhos ou modelos industriais é a seguinte. Segundo o direito dos desenhos ou modelos industriais, a protecção é perdida a não ser que o desenho ou modelo seja registado pelo titular

antes da publicação ou da utilização pública em qualquer parte ou, pelo menos, no país em que a protecção é reivindicada. O direito de autor subsiste na maior parte dos países sem formalidades. O registo não é necessário. A protecção de um desenho ou modelo industrial tem geralmente uma curta duração de três, cinco, dez, ou quinze anos. O direito de autor tem geralmente uma duração igual à vida do autor mais cinquenta anos depois da sua morte.

70. O direito conferido pelo registo de um desenho ou modelo industrial é um direito

absoluto no sentido em que há infracção quer tenha quer não tenha havido cópia deliberada. Há infracção mesmo se o infractor tiver agido independentemente e sem conhecimento do desenho ou modelo registado. Segundo o a legislação sobre o direito de autor, há infracção apenas na reprodução da obra em que subsiste o direito de autor.

Estudo de caso: Brimful Designs (Paquistão)

Nos últimos sete anos, Brimful Designs, um estúdio de desenhos ou modelos têxteis baseado em Lahore, Paquistão, tem produzido e comercializado uma série notável de roupas de estilista de alta qualidade em algodão estampado sob o nome Yashir Waheed Designer Lawn (www.yashirwaheed.com).

Mas em 2003, a própria existência da firma foi comprometida pela cópia em grande escala. Cópias de qualidade inferior dos desenhos ou modelos originais de Yashir Waheed para a sua colecção de primavera/verão inundaram o mercado sob várias designações, a um terço do preço do produto original. Os vendedores utilizaram o catálogo de produtos de Yashir Waheed Designer Lawn para vender os desenhos ou modelos falsos, criando deste modo confusão para os clientes fiéis da firma Brimful.

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Uma reacção negativa da parte dos clientes provocou um rápido declínio da parte do mercado da empresa. A Brimful consultou peritos locais durante um seminário de formação organizado pela Autoridade Paquistanesa em matéria de Desenvolvimento das Pequenas e Médias Empresas (SMEDA) que recomendou que fosse procurada a protecção sobre o Decreto paquistanês de 2000 sobre os desenhos ou modelos industriais. A Brimful consultou advogados e desde 2004 registou todos os desenhos ou modelos da colecção Yashir Waheed Designer Lawn a fim de desencorajar os infractores e permitir a instauração de processos judiciários.

Por enquanto, a sua batalha continua. Os infractores já não reproduzem exactamente os desenhos ou modelos, mas as cópias continuam a ser suficientemente parecidas para confundir os compradores. Embora se comecem a encontrar facilmente no Paquistão juristas especializados em PI, a via judiciária continua a sair cara; os proprietários da Brimful reparam que o processo de obter e aplicar uma ordem do tribunal actualmente leva demasiado tempo. Gostariam de ver uma forte e eficaz acção punitiva da parte das autoridades contra os violadores da PI no sector dos têxteis para fortalecer a legislação sobre a protecção dos desenhos ou modelos e para dissuadir outros copiadores em grande escala.

Proveniência: Wipo Magazine, Maio/Junho de 2005, página 19.

PAA 39: Segundo um Estudo de Peritos da OMPI sobre a Propriedade Intelectual e a Indústria Têxtil, na Etiópia, no Gana, no Quénia e na Nigéria, 2 as fábricas de tecidos gozavam de níveis estáveis de produção e de vendas antes de começaram a sofrer de uma inundação de produtos têxteis baratos importados que copiam os seus desenhos ou modelos de padrões. A inundação de produtos de imitação foi relatada na imprensa, que citou um porta-voz de uma indústria local que disse que "uma vez que os novos desenhos ou modelos ganeses são divulgados, é só uma questão de alguns meses, quando não são semanas, antes de aparecerem

imitações baratas. [

contrabando lhes custam cercas de dois terços do mercado local anual de 150 milhões de dólares, um golpe duro num país com relativamente poucas indústrias autóctones e um rendimento médio anual per capita de apenas $400". 3

]

Os quatro produtores de têxteis locais calculam que a pirataria e o

Que conselhos daria você à indústria dos têxteis?

71. Os casos acima oferecem algumas lições instrutivas. 1) A colaboração entre o governo e

as associações comerciais nacionais no domínio de produtos de exportação estrategicamente importantes é necessária para definir políticas e estratégias mais eficazes para a promoção de tais produtos que, de outro modo, podem ser comercializados como matérias primas sem valor acrescentado. A ausência de um componente nacional do valor acrescentado prende os países numa situação em que uma grande dos lucros potenciais são perdidos a favor dos intermediários dos quais passa a depender, de facto, o acrescentamento de valor. Isto torna tais países muito dependentes de mercados incertos de uns poucos produtos agrícolas. 2) O sistema de PI poderia e deveria ser integrado nas referidas estratégias comerciais (destinadas a

2 Estudo da OMPI (não publicado) preparado em Agosto de 2002 pelo consultor da OMPI, o Sr. Betty Mould- Iddrisu .

3 Wall Street Journal, 12 de Julho de 2002, Padrões roubados; a indústria têxtil do Gana combate imitações bartatas; os pobres roubando aos pobres por Michael M. Phillips

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capturar e conservar consumidores fieis) através da protecção efectiva e da promoção dos produtos e dos serviços aos quais foi acrescentado valor através das marcas, das indicações geográficas, dos desenhos ou modelos, e do direito de autor. 3) Toda a cadeia de valor da produção ao mercado, do investimento à retribuição (inclusive a contribuição para a sociedade) é mais bem gerida por produtores nos países em desenvolvimento, ou colaboradores com esses produtores locais. Este cenário oferece as melhores oportunidades para uma cooperação bem sucedida entre o governo e os produtores, assim como para o desenvolvimento nacional no que diz respeito ao desenvolvimento rural e construção de uma nação.

[Fim do Módulo IV]