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CENTRO UNIVERSITÁRIO LEONARDO DA VINCI – UNIASSELVI

SILVIONEI MARQUES JUNIOR

A APLICAÇÃO DO CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR NOS LITÍGIOS


DECORRENTES DA AQUISIÇÃO DE VEÍCULOS NOVOS

INDAIAL - SC
2018
SILVIONEI MARQUES JUNIOR

A APLICAÇÃO DO CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR NOS LITÍGIOS


DECORRENTES DA AQUISIÇÃO DE VEÍCULOS NOVOS

Trabalho de conclusão de curso para obtenção do


título de graduação em Direito apresentado à
Centro Universitário Leonardo da Vinci –
UNIASSELVI.

Orientadora: Prof.ª Gabriela Wolff.

INDAIAL - SC
2018
2
Aos meus pais, Silvionei e Christiane, por toda paciência,
incentivo e ensinamentos.
À minha querida namorada e amiga Carla Dombek, por
todo afeto, cumplicidade e compreensão.
3
AGRADECIMENTOS

De início, agradeço à Deus, que sempre esteve comigo me guiando e iluminando os meus
passos, derramando sobre meu ser, bênçãos e coragem para manter-me firme em minhas
escolhas.

Aos meus pais, Silvionei Marques e Christiane Hansen Marques, que sempre estiveram ao meu
lado, proporcionando-me sabedoria para lidar com as dificuldades impostas pela vida; pelo seu
amor e incentivo em minhas escolhas; pela determinação em mim creditada para buscar e
alcançar todos os meus objetivos.

À minha querida namorada e amiga Carla Dombek, pelo amor e união incondicional em nós
entrelaçados; e por todo o apoio e colaboração nesta jornada acadêmica.

Às amizades feitas ao longo do curso, onde tivemos a oportunidade de vivenciar momentos de


alegria e tristezas, dificuldades, mas, acima de tudo companheirismo, o que certamente servirá
de exemplo e experiência para o decorrer da vida.

Aos meus amigos, que contribuíram para a elaboração do presente trabalho, mediante ajuda,
orientação e toda cumplicidade dispensada.

A minha ilustríssima professora e orientadora, Prof.ª Gabriela Wolff, por todo o seu
ensinamento e conhecimento transmitido em sala de aula; pela sua atenção e ajuda na
elaboração do presente trabalho.

4
“A força do direito deve superar o direito da força.
” (Rui Barbosa)
5
RESUMO

Tendo em vista os elevados números de reclamações e conflitos existentes na sociedade,


relacionadas aos danos ou vícios de veículos automotores, faz-se necessário à estipulação de
normas, a fim de que as relações pessoais possam estabelecer-se da melhor forma possível,
visando evitar quaisquer transtornos que possa advir de conflitos de interesses inerentes às
referidas relações. Assim, e visando regulamentar determinadas condutas, é que surge o Direito,
como ferramenta útil e imprescindível à sociedade. Por essa razão, há a criação de códigos,
estatutos, jurisprudências, súmulas, dentre outros, que englobam o chamado “ordenamento
jurídico”. O Código de Defesa do Consumidor, por sua vez é um conjunto de normas que visam
a proteção e defesa aos direitos dos consumidores, como também tende a disciplinar as relações
de consumo entre fornecedores e consumidores finais e as responsabilidades que tem esses
fornecedores (fabricante de produtos ou o prestador de serviços) com o consumidor final,
estabelecendo padrões de conduta, prazos e penalidades. Pois bem, em virtude do dinamismo
jurídico e as atualizações comportamentais, sociais, bem como tecnológicas é que recentemente
se justifica a elaboração do presente trabalho, que irá abordar o tema de aplicação do código de
defesa do consumidor nos litígios decorrentes do mercado de automóveis, em virtude do
elevado número de ações judiciais nesse segmento. Pois, sabe-se que a responsabilidade civil
ganhou novos rumos com o advento do CDC. Com a responsabilidade objetiva, basta ao
consumidor provar o nexo de causalidade entre a ação ou omissão e o evento danoso para ter
direito a pleitear uma eventual reparação na esfera patrimonial. O principal objetivo do presente
trabalho está voltado para a análise de defeitos no produto e no serviço, em decorrência da
compra de veículos novos (zero quilômetro) pelo consumidor.

Palavras-chaves: Código de Defesa do Consumidor. Mercado de automóveis.


Responsabilidade Civil.

6
ABSTRACT

In view of the high number of complaints and conflicts existing in society, related to the
damages or defects of motor vehicles, it is necessary to stipulate norms, so that personal
relationships can be established in the best possible way, in order to avoid any disturbances that
may arise from conflicts of interest inherent in said relations. Thus, and in order to regulate
certain behaviors, Law emerges as a useful and indispensable tool for society. For this reason,
there is the creation of codes, statutes, jurisprudence, precedents, among others, which
encompass the so-called "legal order". The Consumer Protection Code, in turn, is a set of rules
aimed at protecting and defending consumer rights, but also tends to discipline consumer
relations between suppliers and final consumers and the responsibilities of those suppliers
(manufacturer of products or the service provider) with the final consumer, setting standards of
conduct, deadlines and penalties. Well, due to the legal dynamism and the behavioral, social,
as well as technological updates, it is recently justified the elaboration of this work, which will
address the issue of application of the consumer protection code in litigation arising from the
automobile market, due to the high number of lawsuits in this segment. For, it is known that
civil liability has gained new ground with the advent of the CDC. With the objective
responsibility, it is enough for the consumer to prove the causal link between the action or
omission and the damaging event in order to have the right to request an eventual repair in the
patrimonial sphere. The main objective of this work is to analyze the defects in the product and
the service, due to the purchase of new vehicles (zero kilometer) by the consumer.

Keywords: Code of Consumer Protection. Car market. Civil responsability.

7
SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO ........................................................................................................................ 9
2. TEORIA GERAL DA RESPONSABILIDADE CIVIL ......................................................... 11
2.1. Do ato ilícito ..................................................................................................................... 11
2.2. Da responsabilidade civil ................................................................................................. 11
2.3 Da responsabilidade subjetiva e objetiva .......................................................................... 13
2.4 Elementos da responsabilidade civil ................................................................................. 13
3. DA RESPONSABILIDADE CIVIL À LUZ DO CÓDIGO DE DEFESA DO
CONSUMIDOR .......................................................................................................................... 14
3.1 Princípio da vulnerabilidade do consumidor ..................................................................... 15
3.2 Conceito de consumidor, consumidor por equiparação e fornecedor ............................... 16
4. DA RESPONSABILIDADE PELO FATO DO PRODUTO OU DO SERVIÇO .................. 18
5. DA RESPONSABILIDADE POR VÍCIO DO PRODUTO E SERVIÇO .............................. 22
6. ESCLARECIMENTOS SOBRE A RESPONSABILIDADE POR VÍCIOS DE
INADEQUAÇÃO E INSEGURANÇA ...................................................................................... 26
7. DA INDENIZAÇÃO POR DANO MATERIAL E MORAL DECORRENTES DA VENDA
DE AUTOMÓVEIS COM VÍCIO OU DEFEITO...................................................................... 27
10. CONCLUSÕES..................................................................................................................... 31
REFERÊNCIAS .......................................................................................................................... 33

8
1. INTRODUÇÃO

O presente trabalho trata da aplicação do Código de Defesa do Consumidor – (LEI Nº 8.078,


DE 11 DE SETEMBRO DE 1990) nas questões de responsabilidade civil decorrentes dos
contratos de compra de veículos novos, buscando assim, uma melhor compreensão sobre os
problemas por ventura existentes nas relações consumeristas (Fornecedores e Consumidores),
em decorrência de possíveis defeitos do produto e/ou no serviço prestado pelo Fabricante e
Vendedor/Comerciante, em específico, as concessionárias de veículos, por ocasião da compra
de automóveis novos, causalmente conhecidos como “zero quilômetro”.

Nessa toada, irá ser abordado temas que envolvem a responsabilidade objetiva do fabricante
e/ou comerciante por defeitos ou vícios no produto, bem como, a responsabilidade decorrente
do fato gerado a partir do defeito ou vício dos produtos, ambas previstas no Código de Defesa
do Consumidor.

Também é pretensão, trazer à baila as consequências do desgaste psíquico, tempo, disposição


em que o consumidor gasta na busca de soluções para os problemas apresentados na compra de
um veículo novo, mormente, o qual, além de ter toda uma expectativa gerada decorrente da
aquisição de veículo novo, deslocando-se até uma das Concessionárias, a qual integre a rede de
revendas autorizadas de um fabricante, frustra-se com o fato de encontrar em seu veículo
“novo” defeitos e vícios ocultos, que exigem do consumidor uma maior disponibilidade para
sanar o problema apresentado no veículo novo adquirido.

Este trabalho, visa, ainda, elucidar a caracterização do dano moral, no que diz respeito ao
desperdício do período produtivo do consumidor, que a doutrina tem chamado de “desperdício
do tempo produtivo do consumidor”, o qual entende-se ser o prazo gasto pelo consumidor –
uma fase efetivamente desperdiçada. Ou seja, tempo que poderia ser utilizado pelo consumidor
em outras atividades do seu dia a dia, no âmbito profissional ou de suas relações pessoais, mas,
no entanto, teve o desprazer de sujeitar-se a situações desagradáveis decorrentes de surgimento
de defeitos em automóveis, e ainda por cima, ter que provar que tal problema é de
responsabilidade dos fabricantes, produtores e demais pessoas relacionadas.

O surgimento de defeitos em veículo adquirido "zero quilômetro", gera a perda da


confiabilidade, que pode ser atestada, inclusive, por prova técnica, em sede de ação judicial, é,
por si só fato apto a frustrar as expectativas de tranquilidade, segurança e conforto, e, assim,
caracterizar abalo moral indenizável de acordo com as peculiaridades de cada caso.

9
Com o presente trabalho espera-se contribuir para que estudantes, operadores de direito e até
mesmo os próprios consumidores possam melhor compreender os danos sofridos decorrentes
de vícios ou defeitos existentes em veículos novos, especialmente, sob a ótica do instituto
titulado como “desperdício do tempo produtivo do consumidor”.

10
2. TEORIA GERAL DA RESPONSABILIDADE CIVIL

2.1. Do ato ilícito

Considera-se como ato ilícito, aquele que praticado, em desobediência ao ordenamento legal,
gere dano a outrem. O dever de não lesar outrem é imposto a todos, cuja obrigação encontra-se
prevista no artigo 186 do Código Civil Brasileiro, veja-se:

“Art. 186. Aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência, violar
direito e causar dano a outrem, ainda que exclusivamente moral, comete ato ilícito. ”

Também comete ilícito aquele que pratica abuso de direito. Nesse sentido dispõe o art. 187 do
mesmo diploma:

“Art. 187. Também comete ato ilícito o titular de um direito que, ao exercê-lo, excede
manifestamente os limites impostos pelo seu fim econômico ou social, pela boa-fé ou pelos
bons costumes. ”

É em consequência do dano, que o autor fica obrigado a repará-lo, surgindo, pois, uma
obrigação, qual seja: a de indenizar o outrem pelo prejuízo causado.

Ressalte-se, que não só a ação, como também omissões, seja em sua forma culposa ou dolosa,
há o dever legal de ser reparado.

O disposto no artigo 927 do Código Civil prevê que a obrigação de indenizar, se não, veja-se:

"Art. 927. Aquele que, por ato ilícito (arts. 186 e 187), causar dano a outrem,
fica obrigado a repará-lo. Parágrafo único. Haverá obrigação de reparar o
dano, independentemente de culpa, nos casos especificados em lei, ou quando
a atividade normalmente desenvolvida pelo autor do dano implicar, por sua
natureza, risco para os direitos de outrem." (CC, arts. 927, III).

Desta forma, em breve síntese, podemos dizer que ato ilícito se identifica pela violação de
direito e danos.

2.2. Da responsabilidade civil

Antes de adentrar no tópico propriamente dito, cabe aqui ressaltar, de que a responsabilidade
pode ocorrer de duas formas, quais sejam: em sua modalidade contratual e extracontratual.

11
Na responsabilidade contratual há uma obrigação estipulada por força de contrato1, e quando
há o inadimplemento da obrigação lá constituída (ato ilícito), acarreta-se na responsabilidade
de indenizar, pelas perdas e danos, nos termos do disposto nos artigos 389, 390 e 391, todos do
Código Civil.

Por sua vez, a responsabilidade extracontratual é aquela que não decorre de força de contrato,
mas, que existe porque a conduta (comportamento) impõe a sociedade determinados limites
quanto as formas de agir em diversas situações, de modo que quando infringida, pode-se aplicar
os artigos 186, 187 e 927 todos do Código Civil.

Ademais, e conforme será abordado a seguir, tem-se a responsabilidade objetiva por fato e vício
de produto e do serviço, de acordo com o Código de Defesa do Consumidor.

Assim, podemos esquematizar a responsabilidade contratual e extracontratual da seguinte


forma:

Quadro 01: Responsabilidade Contratual e Extracontratual


a) contratual — desde que se tornem b) extracontratual — as pessoas jurídicas
inadimplentes, respondem por perdas e de direito privado (corporações, fundações
danos (CC, art. 389); têm responsabilidade etc.) respondem civilmente pelos atos de
objetiva por fato e vício do produto e do seus prepostos, tenham ou não fins
serviço (CDC, arts. 12 a 25); lucrativos (CC, arts. 186 e 932, III).
Fonte: Código de defesa do consumidor.

Após essa breve análise, passa-se a expor sobre responsabilidade civil. Segundo TARTUCE
(2011, pg. 393): “a responsabilidade civil surge em face do descumprimento obrigacional, pela
desobediência de uma regra estabelecida em um contrato, ou por deixar determinada pessoa de
observar um preceito normativo que regula a vida. ”

Assim, forçoso concluir que a responsabilidade civil impõe ao infrator a obrigação de indenizar
ou reparar o prejuízo causado por sua conduta ou atividade.

1
Contrato. “Derivado do latim contractus, de contrahere, possui o sentido de ajuste, convenção, pacto,
transação. Expressa, assim, a idéia do ajuste, da convenção, do pacto ou da transação firmada ou acordada entre
duas ou mais pessoas para um fim qualquer, ou seja, adquirir, resguardar, modificar ou extinguir direitos. O
contrato, pois, ocorre quando as partes contratantes, reciprocamente, ou uma delas assume a obrigação de dar,
fazer ou não fazer alguma coisa. (...) Se duas vontades se ajustam, quer dizer, se combinam ou consentem na
formação do contrato, este, então, surge, gerando obrigações nele contidas, seja reciprocamente para as partes
contratantes, quando é bilateral, seja para uma delas somente, se unilateral. SILVA, De Plácido e/ atualizadores:
Nagib Slabi Filho e Gláucia Carvalho. Vocabulário jurídico. Rio de Janeiro: FORENSE, 2006 – 27ª edição.
12
SILVA (2011) define responsabilidade civil como a expressão utilizada na linguagem jurídica
em distinção à responsabilidade penal ou criminal. Designa a obrigação de reparar o dano ou
de ressarcir o dano, quando injustamente causado a outrem.

Para GONÇALVES (2008) a responsabilidade civil independe, pois, da existência de culpa e


se funda na ideia de que a pessoa que cria o risco deve reparar os danos advindos do seu
empreendimento. Bastando, portanto, a prova da ação ou omissão do réu, do dano e da relação
de causalidade.

2.3 Da responsabilidade subjetiva e objetiva

Existem duas teorias no que se refere a responsabilidade civil, a subjetiva e a objetiva. Na


responsabilidade subjetiva a vítima tem de provar a existência do nexo entre o dano e atividade
danosa; e, especialmente a culpa do agente. Na responsabilidade objetiva basta a exigência do
dano, e o nexo com a atividade danosa, independente de culpa do agente.

GONÇALVES (2011, pg. 377) diz-se, pois, ser subjetiva a responsabilidade quando esta se
esteia na ideia de culpa. A prova da culpa (em sentido lato, abrangendo o dolo ou a culpa em
sentido estrito) passa a ser pressuposto necessário do dano indenizável.

Por sua vez, GONÇALVES (2011), dispõe que: “a lei impõe, entretanto, a certas pessoas, em
determinadas situações, a reparação de um dano cometido sem culpa. Quando isto acontece,
diz-se que a responsabilidade é legal ou objetiva, porque prescinde da culpa e se satisfaz apenas
com o dano e o nexo de causalidade. ” Esta teoria é causalmente chamada de “teoria do risco”

2.4 Elementos da responsabilidade civil

A nossa doutrina diverge quanto à quantidade de elementos que compõe a responsabilidade


civil (ou o pressuposto dever de indenizar). Para que não haja maiores delongas quanto ao
assunto, traz-se à baila o entendimento de grandes estudiosos do Direito Civil que consagram
como três, a quantidade de elementos da responsabilidade civil.

Carlos Roberto Gonçalves leciona que são quatro os pressupostos da responsabilidade civil: i)
ação ou omissão; ii) culpa ou dolo do agente; iii) relação de causalidade e iv) dano.

VENOSSA, por sua vez, aduz que quatro são os elementos da responsabilidade civil, sejam
eles: a) ação ou omissão voluntária; b) relação de causalidade ou nexo causal; c) dano e d)
culpa.
13
A ação ou omissão é classificada como uma conduta humana, sendo a primeira classificada
como uma conduta positiva e a segunda como uma conduta negativa. Ou seja, enquanto na
primeira há a existência de ato do próprio agente, na segunda pode ocorrer a imperícia,
negligência e imprudência, elementos estes que podem ou não ser oriundo da omissão do
“próprio” agente causador do dano.

Isso porque, a regra da nossa responsabilidade civil é de que se responde por ato próprio. No
entanto, pode a pessoa responder por ato de terceiros, como nos casos previstos no artigo 932
do Código Civil. Pode ainda, na conduta negativa, o agente responder por fato de animal (artigo
936 do Código Civil), por fato de uma coisa inanimada (artigos 937 e 938 do Código Civil) ou
mesmo por um produto colocado no mercado de consumo (arts. 12, 13, 14, 18 e 19 da Lei
8.078/1990).

3. DA RESPONSABILIDADE CIVIL À LUZ DO CÓDIGO DE DEFESA DO


CONSUMIDOR

Antes da promulgação da Lei consumerista, ou seja, do Código de Proteção e Defesa do


Consumidor – CDC, importante relembrar que, as dificuldades eram incalculáveis para que o
consumidor pudesse efetivar os seus direitos, em decorrência de defeitos no produto e serviço,
em geral. Havia necessidade de demonstrar que o defeito decorria de culpa do fornecedor, ou
seja, de conduta negligente, imprudente ou imperícia.

Como “provar” nunca foi uma tarefa “fácil”, por assim dizer, não poderia ser diferente antes de
vigorar o código de defesa do consumidor, implicaria em dizer, na verdade, de que a derrota do
consumidor em ações das quais demandassem provar defeitos ou vícios decorrentes de produto
ou serviço era certeira, pois, a dificuldade para se produzir prova nesse sentido era descomunal.

Com o advento do Código de Proteção e Defesa do Consumidor houve uma facilitação do ônus
probante em ações consumeristas, protegendo o consumidor das abusividades e ilegalidades
praticadas pelas grandes cadeias de fornecedores instaladas em todo o território nacional, até
porque, atualmente tem-se a existência da responsabilidade objetiva, que favorece o
consumidor quando existentes atitudes de fornecedores que coíbam direitos
constitucionalmente previstos, bem como o instituto da inversão do ônus da prova.

Deste modo, imperioso destrinchar o “princípio da vulnerabilidade do consumidor” como um


fato preponderante para a aplicabilidade do CDC, nas relações entre consumidor e fornecedor.

14
3.1 Princípio da vulnerabilidade do consumidor

A Lei maior prevê dentre os direitos fundamentais descritos no artigo 1°, inciso III, CF de que,
a dignidade da pessoa humana, veja-se: “A República Federativa do Brasil, formada pela união
indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado
Democrático de Direito e tem como fundamentos: (...) III - a dignidade da pessoa humana (...)”.
(Art. 1, inc. III da Constituição Federal de 1988).

Ainda, dentro da Constituição Federal, junto ao artigo 5º2, inciso XXXII, há a obrigação estatal
lá prevista, no que pertine a defesa do consumidor.

Por sua vez, o art. 5º, inciso X, dispõe que: “São invioláveis a intimidade, a vida privada, a
honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito à indenização por dano material ou moral
decorrente de sua violação. ”. (Art. 5, inc. X da Constituição Federal de 1988).

O princípio aqui evidenciado, qual seja, da vulnerabilidade do consumidor encontra-se


fundamento no artigo 4º, inciso I, do CDC, que assim dispõe:

“Art. 4º A Política Nacional das Relações de Consumo tem por objetivo o


atendimento das necessidades dos consumidores, o respeito à sua dignidade,
saúde e segurança, a proteção de seus interesses econômicos, a melhoria da
sua qualidade de vida, bem como a transparência e harmonia das relações de
consumo, atendidos os seguintes princípios: I - reconhecimento da
vulnerabilidade do consumidor no mercado de consumo (...). (art.4, CDC).

Dito isso, e por meio de uma breve do artigo citado pode-se denotar que há a condição de
vulnerabilidade, do consumidor, nas relações consumeristas. Tanto é verdade, que se assim não
fosse, não seria necessário a criação de uma lei protetiva específica em favor do consumidor.

Nesse sentido, há interpretação jurisprudencial do nosso E. Tribunal de Justiça do Estado de


Santa Catarina reconhecendo a vulnerabilidade do consumidor em decorrência de demanda
judicial:

“Plano Nosso Modo. TIM Celular S.A. Estação móvel celular. (...) VIII, do
art. 6º, do CDC. Hipossuficiência. Verossimilhança. Vulnerabilidade. Art. 4º
do CDC. (1) ‘o CDC não faz distinção entre pessoa física ou jurídica, ao
formular o conceito de consumidor, quando estes adquirem serviços na

2
“Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos
estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à
propriedade, nos termos seguintes: (...) XXXII - o Estado promoverá, na forma da lei, a defesa do consumidor
(...)”
15
qualidade de destinatário final, que buscam o atendimento de sua necessidade
própria; ainda mais quando se trata de bem de consumo, além de haver um
desequilíbrio entre as partes’. (...). Ainda, impõe-se dizer que o demandante,
conforme o art. 4º do CDC é vulnerável, pois não possui conhecimento
técnico-científico do serviço que contratou, este conceito diz respeito à relação
de direito material, tendo presunção absoluta, não admitindo prova em
contrário’ (Recurso 71000533554, Porto Alegre, 3ª Turma Recursal Cível,
TJRS, j. 13.07.2004, unânime, Rel. Dra. Maria de Lourdes Galvão Braccini
de Gonzalez) ” (TJRS – Recurso Cível 71000533554, Porto Alegre – Terceira
Turma Recursal Cível – Rel. Des. Maria de Lourdes Galvão Braccini de
Gonzalez – j. 13.07.2004).
Deste modo, pode-se concluir que na relação entre o consumidor e fornecedor, será
considerável como vulnerável, nos termos da Lei, aquele que figurar como consumidor. Isso
ocorre porque diversamente do fornecedor, o consumidor não tem conhecimento técnico para
constatar eventual dano no produto ou serviço por ele adquirido, bem como as consequências
que poderiam advir de problemas decorrentes destes, o que justifica por si só, a posição de
vulnerabilidade em que o consumidor ocupa.

3.2 Conceito de consumidor, consumidor por equiparação e fornecedor

O conceito de Consumidor está estampado no artigo 2º do Código de Defesa do Consumidor,


que assim determina: “Art. 2° Consumidor é toda pessoa física ou jurídica que adquire ou utiliza
produto ou serviço como destinatário final. ”

Ao decorrer dos anos, e com a insurgência de diversas interpretações quanto a aplicação do


conceito de consumidor nas relações de consumo, a doutrina trouxe três teorias para explicar o
que, de fato, é consumidor.

São elas: teoria finalista; teoria maximalista e teoria finalista aprofundada.

Entende-se como teoria finalista, aquela em que o consumidor é o que adquire produto ou
serviço para USO PRÓPRIO.

Por sua vez, a teoria maximalista, definiu que consumidor é aquele quem adquire o produto ou
serviço como destinatário final, sem qualquer exceção.

Diante dessas duas teorias apresentadas, sobreveio o posicionamento do nosso respeitável


Colendo Superior Tribunal de Justiça, editando a teoria finalista aprofundada, a qual determina
que o consumidor é aquele que adquire produto ou serviço para uso próprio ou profissional,
desde que exista vulnerabilidade no caso concreto.

16
Consumidor por equiparação são aqueles que foram afetados pela relação de consumo, por
alguma razão. Encontram-se previstos no parágrafo único do artigo 2° do CDC, bem como nos
artigos 17 e 29, também do CDC.

Por sua vez, fornecedor é conceituado pelo artigo 3º do CDC, e assim diz:

“Art. 3° Fornecedor é toda pessoa física ou jurídica, pública ou privada,


nacional ou estrangeira, bem como os entes despersonalizados, que
desenvolvem atividade de produção, montagem, criação, construção,
transformação, importação, exportação, distribuição ou comercialização de
produtos ou prestação de serviços.
§ 1° Produto é qualquer bem, móvel ou imóvel, material ou imaterial.
§ 2° Serviço é qualquer atividade fornecida no mercado de consumo, mediante
remuneração, inclusive as de natureza bancária, financeira, de crédito e
securitária, salvo as decorrentes das relações de caráter trabalhista. ”. (art.3,
§1 e 2, CDC).
Diante da explanação de conceitos das figuras existentes em uma relação de consumo; da
conceituação de ilícito civil, surge, novamente, a conclusão lógica do que seria responsabilidade
civil, a qual também se aplica à luz do código de defesa do consumidor, onde pressupõe-se que
há um dever jurídico preexistente decorrente de uma obrigação que foi descumprida e que
merece amparo e reparação em favor do consumidor.

Serão abordados, nos tópicos a seguir, a análise dos casos específicos de responsabilidade civil
sob a ótica do Código de Defesa do Consumidor.

Há na legislação consumeristas 4 (quatro) hipóteses de responsabilidade civil em relação ao


produto e ao serviço, estas que se dividem em vício e fato, sejam elas:

a) responsabilidade pelo fato do produto;

b) responsabilidade pelo fato do serviço;

c) responsabilidade pelo vício do produto;

d) responsabilidade pelo vício do serviço.

A Lei realizou tal divisão, a fim de possibilitar um entendimento maior quanto a


responsabilidade civil dos fornecedores de produtos e serviços face aos seus consumidores.

Cabe, distinguir, ainda, o que é vício, fato ou defeito.

17
Vício (defeito, má qualidade), ora do produto, ora do serviço, destina-se a coisas, a pessoas ou
atos que emanam de perfeição, que são defeituosos. E por esta razão, o problema fica adstrito
ao produto.

De outra sorte, fato ou defeito, quer seja do produto ou serviço, há consequências para o
consumidor, sempre.

Para facilitar o entendimento, evidencia-se o estudo do ilustre doutrinador FLÁVIO


TARTURCE3, que assim dispõe:

“De outra forma, pode-se dizer que, quando o dano permanece nos limites do
produto ou serviço, está presente o vício. Se o problema extrapola os seus
limites, há fato ou defeito, presente, no último caso, o acidente de consumo
propriamente dito. Vejamos alguns exemplos concretos. De início,
determinado consumidor compra um ferro de passar roupas. Certo dia,
passando uma camisa em sua casa, o aparelho explode, não atingindo nada
nem ninguém. Nesse caso, está presente o vício do produto. Por outra via, se
o mesmo eletrodoméstico explode, causando danos físicos no consumidor, há
fato do produto ou defeito. ”
Como um segundo exemplo, um consumidor contrata um pedreiro para um conserto em sua
casa. Se o problema não é sanado, há vício do serviço (problema adstrito ao produto). Se o
pedreiro falhar, causando um grave dano na residência do consumidor (consequência para o
consumidor), presente o fato do serviço ou defeito.

4. DA RESPONSABILIDADE PELO FATO DO PRODUTO OU DO SERVIÇO

Como elucidado acima, em relação a responsabilidade civil decorrente de fato ou defeito do


produto e serviços, estão presentes outras consequências, além do (im) próprio bem de
consumo, outros danos causados ao consumidor, os quais são passíveis de gerar o dever de
reparar aos fornecedores. Aplicando-se, pois, a responsabilidade objetiva do fabricante, nos
termos o artigo 12 do Código do Consumidor, que assim determina:

“Art. 12. O fabricante, o produtor, o construtor, nacional ou estrangeiro, e o


importador respondem, independentemente da existência de culpa, pela
reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos decorrentes de
projeto, fabricação, construção, montagem, fórmulas, manipulação,
apresentação ou acondicionamento de seus produtos, bem como por
informações insuficientes ou inadequadas sobre sua utilização e riscos.
§ 1° O produto é defeituoso quando não oferece a segurança que dele
legitimamente se espera, levando-se em consideração as circunstâncias
relevantes, entre as quais:

3
Id, 2011, pg. 14.
18
I - sua apresentação;
II - o uso e os riscos que razoavelmente dele se esperam;
III - a época em que foi colocado em circulação.
§ 2º O produto não é considerado defeituoso pelo fato de outro de melhor
qualidade ter sido colocado no mercado.
§ 3° O fabricante, o construtor, o produtor ou importador só não será
responsabilizado quando provar:
I - que não colocou o produto no mercado;
II - que, embora haja colocado o produto no mercado, o defeito inexiste;
III - a culpa exclusiva do consumidor ou de terceiro. ”
Na prática forense, tornou-se rotineiro, o emprego dos institutos aqui trabalhados de forma
errada, isso porque ambas decorrem de um defeito do produto ou do serviço, só que no fato do
produto ou do serviço o defeito é tão grave que provoca um acidente que atinge o
consumidor, ocasionando-lhes danos patrimoniais ou moral.

Em julgamento de uma ação envolvendo as figuras da relação consumerista, o E. Tribunal de


Justiça de Santa Catarina, reconheceu que o defeito de um produto teve como consequência um
fato que trouxe prejuízos ao consumidor, veja-se:

“AÇÃO DE INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS. INCIDÊNCIA DO


CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR. RESPONSABILIDADE
POR FATO DO PRODUTO. CORROSÕES DIFUSAS EM LATARIA
DO VEÍCULO. LAUDOS DEMONSTRANDO DEFEITOS NA
FABRICAÇÃO. AGRAVO RETIDO CONHECIDO E IMPROVIDO.
RECURSO DE APELAÇÃO CONHECIDO E PROVIDO.
(...)
3.3. Dos danos
Os autores argumentam, com fundamento nas provas periciais, que o vício não
é decorrente de manutenção inadequada, nem mesmo atribuível ao meio
ambiente ou à idade do veículo, mas sim a problema da chapa ou de sua
película protetora. Elencam os seguintes prejuízos materiais: gastos com
tentativas de solução do problema; suspensão de viagens; locomoção por meio
de transporte coletivo; não utilização do veículo adquirido para suprir suas
necessidades pessoais e familiares; privação de economias destinadas ao curso
normal de suas vidas, que visavam à quitação do imóvel em que residem, em
favor da compra de outro veículo, dada a inutilidade daquele em questão.
Quanto aos danos morais, dizem ter suportado constantes reclamações de seus
familiares, bem como apupos de seus amigos "pelo fato de ter adquirido um
veículo podre", portanto afirmam que têm sido submetidos a constrangimento
moral, vergonha e humilhação.” (TJSC, Apelação: 2007.052728-4, Relator:
Ronei Danielli, data do julgamento: 29/07/2011, Sexta Câmara de Direito
Civil)

19
Neste diapasão, para a caracterização da responsabilidade civil em virtude de acidente (fato) de
consumo, faz-se necessário apenas comprovar o nexo de causalidade entre o defeito do produto
ou serviço e o acidente de consumo. Após a prova dessa relação (nexo de causalidade x dano),
a responsabilidade do fornecedor, in loco, do Fabricante de veículos automotores, será objetiva.

Imperioso se faz destacar que, o dever de segurança é o fundamento da responsabilidade do


fornecedor, basta ater-se ao quanto disposto no art. 12, § 1º, do CDC, o qual prevê o dever de
segurança para o fornecedor de não lançar no mercado produto defeituoso.

Conclusivo se faz a análise para quem se propõe fornecer produtos e serviços no mercado de
consumo, pois, a legislação consumerista prevê o dever de segurança daquele quem fornece
produtos, devendo este serem seguros ao consumidor, sob pena de responder de forma objetiva
(independente de culpa) pelos danos que causar ao consumidor.

Além da responsabilidade objetiva acima descrita, há a responsabilidade subsidiária do


comerciante, consoante determina o artigo 13 da Lei consumerista, veja-se:

“Art. 13. O comerciante é igualmente responsável, nos termos do artigo


anterior, quando:
I - o fabricante, o construtor, o produtor ou o importador não puderem ser
identificados;
II - o produto for fornecido sem identificação clara do seu fabricante, produtor,
construtor ou importador;
III - não conservar adequadamente os produtos perecíveis.
Parágrafo único. Aquele que efetivar o pagamento ao prejudicado poderá
exercer o direito de regresso contra os demais responsáveis, segundo sua
participação na causação do evento danoso. ” (art.13, lei consumerista).

Reponsabilidade subsidiária é aquela é que em que determinada pessoa arca com uma obrigação
complementar ao causador do dano, em virtude de deste não ter detido capacidade de arcar com
a reparação sozinho. Ou seja, o responsável subsidiário só responderá pela dívida ou débito,
depois de verificado a ausência de patrimônio ou insuficiência de bens do devedor principal em
arcar com a totalidade da sua obrigação.

Reconhecendo a aplicação da responsabilidade subsidiária em demanda promovida pelo


consumidor contra o fabricante e concessionária de uma motocicleta, o nosso E. Tribunal de
Justiça de Santa Catarina decidiu, por bem, afastar a concessionária do polo passivo da
demanda:

“INDENIZAÇÃO POR DANOS MATERIAIS, MORAIS E LUCROS


CESSANTES. ACIDENTE DE CONSUMO. ROMPIMENTO DA
CÂMARA DE AR DO PNEU DIANTEIRO DA MOTOCICLETA. QUEDA
20
BRUSCA E REPENTINA DO AUTOR. DEMANDA PROMOVIDA
CONTRA A FABRICANTE E CONCESSIONÁRIA DA
MOTOCICLETA. INCIDÊNCIA DO CÓDIGO DE DEFESA DO
CONSUMIDOR. FATO DO PRODUTO OU SERVIÇO QUE RESULTA
EM ACIDENTE. RESPONSABILIDADE SUBSIDIÁRIA DA
CONCESSIONÁRIA-COMERCIANTE. SOLIDARIEDADE
AFASTADA, APENAS VERIFICADA NOS CASOS DE VÍCIO DO
PRODUTO OU SERVIÇO. ILEGITIMIDADE PASSIVA AD CAUSAM
RECONHECIDA. A responsabilidade do comerciante por danos oriundos
de acidente de consumo é subsidiária, consoante exegese dos arts. 12 e 13
do CDC. Logo, plenamente identificado o fabricante do produto, o
comerciante é parte ilegítima para figurar no pólo passivo da ação
reparatória proposta pelo consumidor. MAJORAÇÃO DO QUANTUM
INDENIZATÓRIO A TITULO DE DANOS MORAIS. VALOR MANTIDO.
A verba indenizatória arbitrada a título de reparação pelo dano moral sofrido
por motociclista, em razão de defeito de fabricação, deve servir de lenitivo à
dor experimentada, bem como satisfazer o caráter punitivo da medida,
considerando o grande porte econômico da demandada versus a situação
econômica do autor. LUCROS CESSANTES. DOCUMENTOS HÁBEIS À
COMPROVAR A PERDA DE RENDIMENTOS. INDENIZAÇÃO
DEVIDA. Lucros cessantes devem ser indenizados se devidamente
comprovados nos autos. APELOS: DA PRIMEIRA DEMANDADA
PROVIDO, DO AUTOR PARCIALMENTE PROVIDO. ” (TJ-SC - AC:
20160012695 São Francisco do Sul 2016.001269-5, Relator: Gilberto Gomes
de Oliveira, Data de Julgamento: 08/03/2016, Terceira Câmara de Direito
Civil).
O julgado acima retrata responsabilidade civil por fato do produto (art. 12 do CDC) imputada
à fabricante por conta de defeito na câmara de ar de pneu dianteiro de veículo, que veio a
ocasionar o retratado incidente com o autor.

Assim, nos termos do artigo 13 do CDC, em se tratando de responsabilidade por fato do


produto, a responsabilidade do comerciante só aparece quando: (a) "o fabricante, o construtor,
o produtor ou o importador não puderem ser identificados", (b) "o produto for fornecido sem
identificação clara do seu fabricante, produtor, construtor ou importador"; ou, ainda, quando
(c) o comerciante não conservar adequadamente os produtos perecíveis.

Portanto, e considerando que o caso acima evidenciado não se adequa as hipóteses elencadas
no artigo 13 do CDC, acertadamente o Juízo afastou a aplicação da responsabilidade solidária
e aplicou ao caso a responsabilidade subsidiária.

Cabe, cumpre também explicar o que seria direito de regresso, previsto no parágrafo único do
artigo 13, CDC, aplicado nos casos em que há a condenação do comerciante como responsável
subsidiário nas relações de consumo (neste caso, quando os bens do devedor principal não
foram suficientes para arcar com o ônus de uma eventual condenação judicial.)

21
Direito de regresso4 “diz-se da ação ou do direito, que se atribui ao credor ou a quem pagou por
outrem, de ir buscar deste a quantia ou a importância desembolsada, para que a desembolse. ”

Pois, bem, presente o fato do produto, a Lei Consumerista assegura o direito de regresso daquele
que ressarciu o dano contra o culpado, ou de acordo com as participações para o evento danoso.

No entanto, nas ações propostas pelo consumidor envolvendo os artigos 12 e 13 do CDC, a


forma pela qual o agente que arcar sozinho pelo dano decorrente de responsabilidade subsidiária
deve se valer do direito de regresso em uma ação autônoma, não podendo, pois, ser realizada a
denunciação da lide para exercício desse direito de regresso, conforme determina o artigo 88
do CDC. Nos termos de referido dispositivo, o direito de regresso poderá ser exercido em ação
autônoma, sendo facultada ainda a possibilidade de prosseguir-se nos mesmos autos da ação
proposta pelo próprio consumidor.

Ao fazer uma leitura do dispositivo 14 do CDC, nos deparamos com a responsabilidade civil
decorrente de fato de serviço, a qual gera uma responsabilidade solidária entre os envolvidos
na ocorrência do evento danoso.

O serviço é defeituoso quando não fornece a segurança que o consumidor dele pode esperar,
levando-se em consideração as circunstâncias relevantes, entre as quais o i - modo de seu
fornecimento; ii - o resultado e os riscos que razoavelmente dele se esperam e iii - a época em
que foi fornecido, de acordo com o artigo 14, § 1°, do CDC.

Insta salientar ainda, que de acordo com os dispositivos legais, um serviço que adote novas
técnicas não é considerado defeituoso pela técnica anteriormente utilizada.

Há nessa modalidade de responsabilidade, a exclusão do dever de indenizar quando o


fornecedor de serviços puder provar que: a) que, tendo prestado o serviço, o defeito inexiste; b)
a culpa exclusiva do consumidor ou de terceiro.

5. DA RESPONSABILIDADE POR VÍCIO DO PRODUTO E SERVIÇO

A previsão de responsabilidade por vício do produto, encontra respaldo no artigo 18 do CDC,


que assim dispõe:

“Art. 18. Os fornecedores de produtos de consumo duráveis ou não duráveis


respondem solidariamente pelos vícios de qualidade ou quantidade que os

4
SILVA, De Plácido e/ atualizadores: Nagib Slabi Filho e Gláucia Carvalho. Vocabulário jurídico. Rio de Janeiro:
FORENSE, 2006 – 27ª edição.
22
tornem impróprios ou inadequados ao consumo a que se destinam ou lhes
diminuam o valor, assim como por aqueles decorrentes da disparidade, com a
indicações constantes do recipiente, da embalagem, rotulagem ou mensagem
publicitária, respeitadas as variações decorrentes de sua natureza, podendo o
consumidor exigir a substituição das partes viciadas.
§ 1° Não sendo o vício sanado no prazo máximo de trinta dias, pode o
consumidor exigir, alternativamente e à sua escolha:
I - a substituição do produto por outro da mesma espécie, em perfeitas
condições de uso;
II - a restituição imediata da quantia paga, monetariamente atualizada, sem
prejuízo de eventuais perdas e danos;
III - o abatimento proporcional do preço.
§ 2° Poderão as partes convencionar a redução ou ampliação do prazo previsto
no parágrafo anterior, não podendo ser inferior a sete nem superior a cento e
oitenta dias. Nos contratos de adesão, a cláusula de prazo deverá ser
convencionada em separado, por meio de manifestação expressa do
consumidor.
§ 3° O consumidor poderá fazer uso imediato das alternativas do § 1° deste
artigo sempre que, em razão da extensão do vício, a substituição das partes
viciadas puder comprometer a qualidade ou características do produto,
diminuir-lhe o valor ou se tratar de produto essencial.
§ 4° Tendo o consumidor optado pela alternativa do inciso I do § 1° deste
artigo, e não sendo possível a substituição do bem, poderá haver substituição
por outro de espécie, marca ou modelo diversos, mediante complementação
ou restituição de eventual diferença de preço, sem prejuízo do disposto nos
incisos II e III do § 1° deste artigo.
§ 5° No caso de fornecimento de produtos in natura, será responsável perante
o consumidor o fornecedor imediato, exceto quando identificado claramente
seu produtor.
§ 6° São impróprios ao uso e consumo:
I - os produtos cujos prazos de validade estejam vencidos;
II - os produtos deteriorados, alterados, adulterados, avariados, falsificados,
corrompidos, fraudados, nocivos à vida ou à saúde, perigosos ou, ainda,
aqueles em desacordo com as normas regulamentares de fabricação,
distribuição ou apresentação;
III - os produtos que, por qualquer motivo, se revelem inadequados ao fim a
que se destinam. ”

Pode-se conceituar, vício, por sua vez, como um defeito menos gravoso, pois, o problema
evidencia-se no produto ou serviço como um todo; um defeito que é característico, apenas
causando-lhe o seu mau funcionamento ou não funcionamento.

Nesses casos, a doutrina é dominante em dizer de que a responsabilidade se limita ao valor do


dano material decorrente de vício de produto ou de serviço, não há, portanto, o que se falar em
valores extrapatrimoniais, como um dano moral, por exemplo.

Nesse sentido, transcreve-se aqui julgado do E. Tribunal de Justiça de São Paulo, o qual
reconhece que verificado o vício do serviço não há o que se falar em dano moral, condenando
o autor do dano ao pagamento apenas e tão somente do dano material, senão, vejamos:

23
“BEM MÓVEL. VENDA E COMPRA DE VEÍCULO. AÇÃO DE
RESCISÃO CONTRATUAL C.C. INDENIZAÇÃO POR DANOS
MATERIAIS E MORAIS. LEGITIMIDADE PASSIVA AD
CAUSAM DA CONCESSIONÁRIA. AQUISIÇÃO
DE VEÍCULO ZERO QUILÔMETRO COM
PERSISTENTE DEFEITO DE FABRICAÇÃO.
DESCUMPRIMENTO DO CONTRATO PELAS RÉS.
POSSIBILIDADE DE RESCISÃO DO CONTRATO. DANOS
MORAIS CONFIGURADOS. INDENIZAÇÃO DEVIDA.
QUANTUM INDENIZATÓRIO REDUZIDO. A fornecedora, a
fabricante e os participantes da cadeia de consumo possuem
legitimidade passiva para integrar a lide que versa sobre o
descumprimento do contrato de compra e venda de bem móvel. Rés que
não cumpriram a obrigação de entregar veículo em perfeitas condições
de uso, como se espera na aquisição de um veículo zero quilômetro.
Adquirente que não pode ser obrigada a aceitar veículo que, em menos
de dois meses, já apresentou defeito na partida do motor. Viável a
rescisão contratual, devendo as partes retornar ao status quo ante, com
a devolução do preço pago e a disponibilização, pela autora, da
documentação necessária para a transferência do veículo. Apresentação
de defeito precoce na partida do veículo zero quilômetro transcende o
mero aborrecimento, configurando dano moral. Quantum indenizatório
não fixado de forma razoável e proporcional à ofensa merece redução.
Recursos parcialmente providos. ” (TJ-SP – AC: 1042114 – 72, Relator:
Carlos Alberto Garbi, Data do Julgamento 26/08/20162016) .

Cumpre consignar que o vício do produto não pode ser relacionado com o desgaste natural da
coisa, como exemplo: não pode o adquirente de um veículo pleitear reparação civil, sob
alegação de que o pneu do está careca após seis anos de uso, não havendo vício do produto em
casos análogos.

Portanto, é possível a reparação civil ser pleiteada pelo consumidor, em casos em que o produto
está eivado de vício, de modo a tornasse impróprio para o fim que se destina; ou que lhe diminua
o seu valor; ou mesmo que as informações constantes das indicações do produto estejam em
disparidade com a realidade em que se encontra o produto.

De igual modo, há também a responsabilidade civil para os serviços que são prestados, de modo
a ser considerados como impróprios ou inadequados para os fins que razoavelmente deles se
esperam, bem como aqueles que não atendam as normas regulamentares de prestabilidade, há
fundamento legal no Código de Defesa do Consumidor, veja-se:

“Art. 20. O fornecedor de serviços responde pelos vícios de qualidade que os


tornem impróprios ao consumo ou lhes diminuam o valor, assim como por
aqueles decorrentes da disparidade com as indicações constantes da oferta ou

24
mensagem publicitária, podendo o consumidor exigir, alternativamente e à sua
escolha:

I - a reexecução dos serviços, sem custo adicional e quando cabível;

II - a restituição imediata da quantia paga, monetariamente atualizada, sem


prejuízo de eventuais perdas e danos;

III - o abatimento proporcional do preço.

§ 1° A reexecução dos serviços poderá ser confiada a terceiros devidamente


capacitados, por conta e risco do fornecedor.

§ 2° São impróprios os serviços que se mostrem inadequados para os fins que


razoavelmente deles se esperam, bem como aqueles que não atendam as
normas regulamentares de prestabilidade.”

Seja por vício no produto, seja por vício no serviço, a responsabilidade em ambos os casos será
solidária, nos termos do artigo 195 do Código de Defesa do Consumidor.

Diante das responsabilidades acima abordadas, extrai-se quadro esquematizado apresentado na


obra do ilustre doutrinador Flávio Tartuce6, o qual resume a aplicação da responsabilidade
solidária e subsidiária nos quatros tipos de responsabilidade aqui apresentado:

Figura 01: Tipos de Responsabilidade Solidária e Subsidiária.

Fonte: Código de defesa do consumidor, Flávio Tartuce, 2011 pg.14.

5
“Art. 19. Os fornecedores respondem solidariamente pelos vícios de quantidade do produto sempre que, respeitadas as variações
decorrentes de sua natureza, seu conteúdo líquido for inferior às indicações constantes do recipiente, da embalagem, rotulagem ou de
mensagem publicitária, podendo o consumidor exigir, alternativamente e à sua escolha: I - o abatimento proporcional do preço; II -
complementação do peso ou medida III - a substituição do produto por outro da mesma espécie, marca ou modelo, sem os aludidos vícios;
IV - a restituição imediata da quantia paga, monetariamente atualizada, sem prejuízo de eventuais perdas e danos. § 1° Aplica-se a este artigo
o disposto no § 4° do artigo anterior. § 2° O fornecedor imediato será responsável quando fizer a pesagem ou a medição e o instrumento
utilizado não estiver aferido segundo os padrões oficiais. ”
6
Id, 2011, pg. 14.
25
6. ESCLARECIMENTOS SOBRE A RESPONSABILIDADE POR VÍCIOS DE
INADEQUAÇÃO E INSEGURANÇA

Os vícios que se encontram respaldados pelo CDC, segundo a melhor doutrina, são os vícios
por inadequação (art. 18 seguintes) e os vícios por insegurança (art. 12 seguintes).

Importante destacar, que os vícios podem ser de quantidade ou qualidade.

Há vício de segurança quando o produto, seja por defeitos de projeto, fabricação ou montagem,
possui perigo superior à que deles normalmente se espera, ocasionando acidentes, que
ultrapassam o simples mal funcionamento, e atinjam o consumidor em atributos diversos de sua
integridade patrimonial ou moral, como explosões, ausência de freio de automóveis, dentre
outros. Aqui, a preocupação maior é com a saúde do consumidor e a segurança ofertada pelo
produto colocado à disposição no mercado.

Por sua vez, a responsabilidade decorrente do vício de inadequação advém do simples fato de
ter colocado no mercado um produto impróprio ao consumo principal e a adequação real do
produto ou do serviço às suas finalidades próprias.

À luz do que determina o CDC em relação aos vícios de insegurança e inadequação, traz-se à
tona julgado José Lima de Sousa Filho, no tribunal de justiça do distrito federal:

“CONSUMIDOR. VEÍCULO ZERO QUILÔMETRO. DEFEITO DE FABR


ICAÇÃO. INEXISTÊNCIA. SUBSTITUIÇÃO POR OUTRO DA MESMA
ESPÉCIE. IMPOSSIBILIDADE. LAUDO PERICIAL. VÍCIO
RESULTANTE DE FORÇA EXTERNA NÃO DECORRENTE DE USO
COMUM. AUSÊNCIA DE RESPONSABILIDADE CIVIL. DANO MORAL
NÃO CONFIGURADO. GRATUIDADE DE JUSTIÇA.
HIPOSSUFICIÊNCIA ECONÔMICA COMPROVADA. SENTENÇA
PARCIALMENTE REFORMADA. 1. É incabível a substituição
de veículo zero quilômetro quando constatado pela perícia técnica que
inexiste defeito de fabricação, bem como que o vício existente resulta de força
externa, não decorrente de uso comum. 2. Não há que se falar em
compensação por danos morais se ausentes os requisitos caracterizadores da
responsabilidade civil. 3. Devidamente demonstrada a condição de
hipossuficiência econômica da parte, viável a concessão do benefício da
gratuidade de Justiça. 4. Recurso conhecido e parcialmente provido. (TJ-DF
– AC: 0034709 - 83, Relator: Sebastião Coelho, Data do Julgamento
07/08/20162017) .
A responsabilidade vícios de inadequação e insegurança estão em consonância aos princípios
básicos que regem a legislação consumerista, protegendo o consumidor de eventuais
abusividades em atos perpetrados por parte dos fornecedores, em especial aos artigos 6º e 8º,
ambos do CDC, cujo teor aqui se transcreve:
26
“Art. 6º São direitos básicos do consumidor:

I - a proteção da vida, saúde e segurança contra os riscos provocados por


práticas no fornecimento de produtos e serviços considerados perigosos ou
nocivos; (...)

Art. 8° Os produtos e serviços colocados no mercado de consumo não


acarretarão riscos à saúde ou segurança dos consumidores, exceto os
considerados normais e previsíveis em decorrência de sua natureza e fruição,
obrigando-se os fornecedores, em qualquer hipótese, a dar as informações
necessárias e adequadas a seu respeito. ”

7. DA INDENIZAÇÃO POR DANO MATERIAL E MORAL DECORRENTES DA


VENDA DE AUTOMÓVEIS COM VÍCIO OU DEFEITO

O dano material, assim se diz (SILVA)7, “da perda ou prejuízo que fere diretamente um bem
patrimonial, diminuindo o valor dele, restringindo a sua utilidade, ou mesmo a anulando. O
dano material é também conhecido como “dano patrimonial”.

Já dano moral, assim se diz (SILVA)8 “da ofensa ou violação que não vem ferir os bens
patrimoniais, propriamente ditos, de uma pessoa, mas, os seus bens de ordem moral, tais sejam
os que se referem à sua liberdade, à sua honra, à sua pessoa ou à sua família.”

Inicialmente, cumpre destacar que o direito à indenização por dano moral vem expresso na
Constituição Federal como um dos direitos individuais, nos termos do art. 5º, inciso V e X: “V
- É assegurado o direito de resposta proporcional ao agravo, além de indenização por dano
material, moral ou à imagem. X - São invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a
imagem das pessoas, assegurado o direito à indenização pelo dano material ou moral decorrente
de sua violação. ”

Acerca da definição do dano moral, ressaltam-se os ensinamentos de Yussef Said Cahali9:

“(...) tudo aquilo que molesta gravemente a alma humana, ferindo-lhe


gravemente os valores fundamentais inerentes à sua personalidade ou
reconhecidos pela sociedade em que está integrado, qualifica-se, em linha de

7
Id, pg. 14.
8
Id, pg. 14.
9
CAHALI, Yussef Said. Dano Moral. 2. ed. rev. e ampl. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2000, p. 20-21.
27
princípio, como dano moral (...) evidenciando-se na dor, na angústia, no
sofrimento, na tristeza pela ausência de um ente querido falecido; no
desprestígio, na desconsideração social, no descrédito à reputação, na
humilhação pública, no devassamento da privacidade; no desequilíbrio da
normalidade psíquica, nos traumatismos emocionais, na depressão ou no
desgaste psicológico, nas situações de constrangimento moral.” (Dano Moral.
2. ed. rev. e ampl. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2000, pg. 20-21).

A culpa pelo evento danoso é atribuída apenas e tão somente ao agente pela inobservância de
um dever que devia conhecer e observar.

Desta forma, de rigor a punição, com a condenação ao pagamento de uma indenização aquele
que for lesado, pelos danos materiais e morais que lhe foi causado, nos termos e limites
estipulado pela Lei, de acordo com a responsabilidade que lhe é imputada.

Além do mais, conforme narrado acima, está assegurado na Constituição Federal o direito
relativo à reparação de danos materiais e morais junto ao artigo 5º, inciso X.

A fim de que cumular o julgamento de ações que tenham pedidos de dano moral e material
decorrentes de um fato idêntico, sobreveio súmula do Colendo Superior Tribunal de Justiça
determinando que: “Súmula 37. São cumuláveis as indenizações por dano material e dano moral
oriundos do mesmo fato. ” (SÚMULA 37-STJ).

O Código de Defesa do Consumidor apresenta duas regras distintas para regular o direito de
reclamar, conforme se trate de vício de adequação ou defeito de segurança. Na primeira
hipótese, os prazos para reclamação são decadenciais, nos termos do art. 26 do CDC, sendo de
30 (trinta) dias para produto ou serviço não durável e de 90 (noventa) dias para produto ou
serviço durável. A pretensão à reparação pelos danos causados por fato do produto ou serviço
vem regulada no art. 27 do CDC, prescrevendo em 05 (cinco) anos.

A garantia legal é obrigatória, dela não podendo se esquivar o fornecedor. Paralelamente a ela,
porém, pode o fornecedor oferecer uma garantia contratual, alargando o prazo ou o alcance da
garantia legal.

A lei não fixa expressamente um prazo de garantia legal. O que há é prazo para reclamar contra
o descumprimento dessa garantia, o qual, em se tratando de vício de adequação, está previsto
no art. 26 do CDC, sendo de 90 (noventa) ou 30 (trinta) dias, conforme seja produto ou serviço
durável ou não.
28
Para o presente estudo, trabalha-se com a aplicação do prazo decadencial de 90 (noventa) dias,
os quais tratam-se de produto ou serviço durável, como é o caso de automóveis.

Em relação ao dano material, evidentemente que este vem acertadamente sendo reconhecido
como um dano efetivo ao consumidor, de modo que o causador do dano é compelido a repará-
lo.

No entanto, tal entendimento não é sedimentado quanto ao dano moral em ações das quais
envolvam o consumidor, que ao adquirir de um veículo novo, vê-se frustrado pela não fruição
de seu bem, por ato/fato advindo do fornecedor, o qual deveria ater-se a finalidade do bem que
coloca no mercado de consumo, bem como das consequências, no caso de o consumidor não
atingir a expectativa concentrada para a compra de um veículo automotor.

O nosso respeitável Tribunal de Justiça de Santa Catarina reconhece o dever de indenizar


quando o vício do produto se dá em veículos “zero quilômetro”, com base na frustação do
consumidor, bem como pelo desperdício do tempo produtivo do consumidor, se veja:

“APELAÇÕES CÍVEIS. AÇÃO DE REDIBITÓRIA C/C INDENIZAÇÃO


POR DANOS MORAIS. SENTENÇA DE PROCEDÊNCIA.
INSURGÊNCIA DAS RÉS. VEÍCULO ZERO QUILÔMETRO
ADQUIRIDO DAS REQUERIDAS QUE APRESENTOU VÍCIOS DE
QUALIDADE EM PERÍODO CURTO DE TEMPO. PANES ELÉTRICAS
QUE NÃO PERMITEM QUE SEJA LIGADO E QUE OCASIONAM O SEU
DESLIGAMENTO TOTAL. INCESSANTES TENTATIVAS DE REPARO.
[...] DANO MORAL. ABALO ANÍMICO VERIFICADO. AUTOR QUE
ADQUIRIU VEÍCULO ZERO QUILÔMETRO. VÍCIO CONSTATADO
EM PEQUENO LAPSO TEMPORAL APÓS A SUA AQUISIÇÃO. DEVER
DE INDENIZAR CONFIGURADO. Ao adquirir um veículo zero
quilômetro, surge a expectativa de que seu novo automóvel funcione
adequadamente para o fim a que se propõe, de modo que a incansável ida
à concessionária, em pouco tempo de uso, para reparação de diversos
vícios, acarreta abalo anímico. "O surgimento de defeitos em veículo
adquirido "zero quilômetro", gerando a perda da confiabilidade,
atestada, inclusive, por prova técnica, é fato apto a frustrar as
expectativas de tranquilidade, segurança e conforto, e, assim,
caracterizar abalo moral indenizável de acordo com as peculiaridades do
caso." (TJSC, Apelação Cível n. 0301145-39.2015.8.24.0037, rel. Des. Henry
Petry Junior, j. 21-03-2017). [...] (AC n. 0003881-96.2012.8.24.0041, rel. Des.
Cláudia Lambert de Faria, j. em 6.6.2017, sem destaque no original).

“APELAÇÃO CÍVEL E RETIDO. CONSUMIDOR E PROCESSUAL


CIVIL. AÇÃO INDENIZATÓRIA. AQUISIÇÃO DE VEÍCULO ZERO
QUILÔMETRO. VÍCIO DO PRODUTO - PROCEDÊNCIA NA ORIGEM.
[...] (4) DANOS MORAIS. DEFEITOS DE FÁBRICA. PERDA DA
CONFIABILIDADE. EXPECTATIVA FRUSTRADA. ABALO
CONFIGURADO. DEVER DE INDENIZAR. - O surgimento de defeitos

29
em veículo adquirido "zero quilômetro", gerando a perda da confiabilidade,
atestada, inclusive, por prova técnica, é fato apto a frustrar as expectativas de
tranquilidade, segurança e conforto, e, assim, caracterizar abalo moral
indenizável de acordo com as peculiaridades do caso. (AC n. 0301145-
39.2015.8.24.0037, j. em 21.3.2017, sem destaque no original).
Assim, é imperiosa a manutenção do reconhecimento do abalo moral em ações dessa natureza.

Em relação ao quantum indenizável, necessário que seja sempre fundado em critério de


razoabilidade, tendente a reconhecer e condenar o demandado a pagar valor que não importe
enriquecimento sem causa para aquele que suporta o dano, mas uma efetiva reparação de caráter
moral, e uma séria reprimenda ao autor do dano, que lhe sirva de exemplo a não reincidência.

Na linha dos precedentes também do E. TJSC: "a indenização por danos morais deve ser fixada
com ponderação, levando-se em conta o abalo experimentado, o ato que o gerou (...); não
podendo ser exorbitante, a ponto de gerar enriquecimento, nem irrisória, dando azo à
reincidência" (TJSC, Gabinete do Des. Henry Petry Junior, 2006.013619-0, rel. Des. Fernando
Carioni, j. em 3.8.2006).

Ademais, cabe ao magistrado a fixação da verba que corresponda, tanto quanto possível, à
situação socioeconômica do ofensor, sem perder de vista a necessidade de avaliação da
repercussão do evento danoso na vida da "vítima".

30
10. CONCLUSÕES

Após apresentação de conceitos, elementos do dever de reparar eventual ilício civil, não há
dúvida que o dano é um pressuposto imprescindível para que seja caracterizada a
responsabilidade civil. Na verdade, inexiste a responsabilidade civil sem danos, seja este nas
esferas patrimonial e moral.

É de fácil constatação de que o contexto social o qual estamos inseridos está em constante
atualização, e com isso, os produtos e serviços colocados à disposição de um todo, em sua
grande maioria, repletos de complexidade tecnológica, não poderia o ordenamento anterior a
vigência do CDC regular as relações de consumo, posto que se aplicava ali a responsabilidade
subjetiva, a qual demandaria da existência de culpa. Visando, pois, moldurar-se em conjunto
com o crescimento da sociedade, sobreveio a Lei do Consumidor, a qual prevê a aplicação de
responsabilidade objetiva, a qual independe da demonstração de culpa do agente causador, o
que facilitou a defesa dos interesses do consumidor, no que permite à reparação de danos
outrora causados.

É importante destacar de que a alteração da sistemática da responsabilização, em sua forma


objetiva, não implica em dizer que a vítima nada tenha que provar – até porque cabe aquele que
alega, em sede judicial, fazer prova do que alega-. Ao contrário, torna-se necessário que haja a
comprovação da verossimilhança nas suas alegações, principalmente para que o consumidor
possa obter a inversão do ônus da prova, direito este estampando como “básico” do consumidor,
e não poderia deixar de sê-lo.

Com base na teoria da qualidade, o consumidor quando adquire um veículo novo, há uma
legítima expectativa com relação ao produto comprado, tanto no que se refere à qualidade do
produto, bem como na sua vida útil.

Todavia, por defeitos ou vícios existentes no produto e/ou no serviço ou por fato decorrente
destes, de forma cotidiana, o consumidor se vê obrigado a levar o seu veículo novo (zero
quilômetro) várias vezes ao fornecedor para submetê-lo as análises e posterior conserto.

Ademais, a aquisição de um automóvel zero quilômetro é motivo de satisfação e felicidade,


representando, muitas vezes, a realização de um sonho e, por isso, configura dano moral a
frustração do adquirente motivada pela impossibilidade de plena fruição do bem em razão de
defeitos de fabricação. Oportuno dizer de que há um desperdício do tempo produtivo do
consumidor. Portanto é injusto ver o consumidor desperdiçar o seu tempo, dedicando-se a uma
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atividade que vai de encontro as expectativas que ele dispunha ao realizar a aquisição de um
veículo novo automotor.

Logo, o tempo desperdiçado pelo consumidor, não deve ser visto nunca como um mero
aborrecimento, entendimento este de muitos julgadores, os quais ignoram todo o desgaste
psíquico, emocional, social e privativo que lhe é causado por algo que deveria lhe trazer
“alegrias”.

O tempo é um recurso finito, devendo-se ser melhor valorado pelos nobres aplicadores da lei
em situações fatídicas que envolvem desperdício de tempo do consumidor, de modo a aplicar a
lei afim de penalizar fornecedores que agem nesse cenário.

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REFERÊNCIAS

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