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o que é a filosofia da existência?

após a morte de Hegel, ficou evidente que seu sistema representava a palavra
final de toda a filosofia ocidental, pelo menos na medida em que, desde Parmê-
nides e apesar de suas várias mudanças e aparentes contradições internas, ela
nunca tinha ousado questionar a unidade entre pensamento e Ser: to gar auto
esti noein te kai einai.Os que vieram depois de Hegelou seguiram suas pegadas
ou se rebelaram contra ele, e aquilo contra o que se rebelaram e com que se desa-
pontaram foi a própria filosofia, a identidade postulada entre pensamento e Ser.
Esse epigonismo é comum a todas as chamadas escolas da filosofia
moderna. Todas tentam restabelecer a unidade entre pensamento e Ser, quer
atinjam essa harmonia proclamando o primado da matéria (materialismo) ou
do espírito (idealismo) ou jogando com várias perspectivas para criar uma tota-
lidade que traz o selo de Spinoza.

A TENTATIVA FENOMENOLÓGICA DE RECONSTRUÇÃO

A história da filosofia da existência tem pelo menos cem anos. Começou O pragmatismo e a fenomenologia são as escolas filosóficas epigônicas
com a obra madura de Schelling e com Kierkegaard. Tomou inúmeras direções mais recentes e interessantes dos últimos cem anos. A fenomenologia teve sobre
a partir de Nietzsche, e muitas delas ainda continuam inexploradas. Foi um ele- a filosofia contemporânea uma influência toda especial, que não se deve a um
mento fundamental no pensamento de Bergson e na chamada filosofia da vida, acaso nem apenas à sua metodologia. A tentativa de Husserl de restabelecer o
e na Alemanha do pós-guerra atingiu, na obra de Scheler, Heidegger e Jaspers, antigo elo entre Ser e pensamento, que sempre garantira ao homem sua mora-
uma clareza inédita na exposição dos temas centrais da filosofia moderna. dia no mundo, utilizou um desvio que postula a estrutura intencional da cons-
O termo "existência" designa simplesmente o Ser (Sein) do homem, a des- ciência. Como todo ato de consciência tem por natureza um objeto, posso ter
peito de todas as qualidades e capacidades que um indivíduo possa ter e que são certeza de pelo menos uma coisa, a saber, que "tenho" os objetos de minha cons-
acessíveis à investigação psicológica. Assim, o que certa vez Heidegger comen- ciência. Assim, a questão do Ser, para não mencionar a questão da realidade,
tou corretamente em relação à "filosofia da vida" também se aplica à filosofia da pode ser posta "entre parênteses". Como ser consciente, posso conceber todos os
existência. O nome é redundante e tão sem sentido quanto "botânica" para o seres, e como consciência sou, em meu modo humano, o Ser do mundo. (A
estudo das plantas. Mas não foi por acaso que a palavra "existência" veio a subs- árvore vista, a árvore enquanto objeto de minha consciência, não precisa ser a
tituir a palavra "Ser': e nessa alteração terminológica encontra-se um dos pro- árvore "real"; de toda maneira, ela é o objeto real de minha consciência.)
blemas fundamentais da filosofia moderna. A moderna sensação da natureza desconcertante do mundo sempre teve
Hegel havia apresentado, com uma abrangência sem precedentes, uma como origem a percepção de que as coisas individuais haviam sido arrancadas a
explicação filosófica para todos os fenômenos da natureza e da história, jun- seu contexto funcional. A literatura moderna e grande parte da pintura
tando-os numa totalidade estranham ente unificada. Sua filosofia, que nunca moderna dão provas incontroversas disso. Quer se decida interpretar essa sen-
poderemos saber com certeza se oferece um lar ou uma prisão para a realidade, sação de desconforto em termos sociológicos ou psicológicos, sua base filosófica
foi de fato a "coruja de Minerva que levanta vôo apenas ao anoitecer': Pois, logo é a seguinte: o contexto funcional do mundo em que eu também estou inserida

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sempre pode explicar ejustificar por que, por exemplo, existem mesas ou cadei- para a filosofia da existência, em conteúdo concreto. A crença largamente difun-
ras. Mas nunca conseguirá me fazer compreender por que esta mesa é.E é a exis- dida de que a influência de Husserl foi apenas de ordem metodológica é correta
tência desta mesa, totalmente à parte das mesas em geral, que desperta o choque no sentido de que ele libertou a filosofia moderna, à qual não pertencia real-
fIlosófico.
mente, dos laços com o historicismo. Na esteira de Hegel e sob a influência de
A fenomenologia parecia resolver esse problema, que é muito mais do que um enorme interesse pela história, a filosofia corria o risco de degenerar em
meramente teórico. Em sua descrição fenomenológica da consciência, definia especulações sobre a possibilidade de leis imanentes se manifestando na histó-
essas coisas isoladas, que tinham sido arrancadas a seu contexto funcional, ria. Aqui não vem ao caso se tais especulações eram de tom otimista ou pessi-
como os objetos apoderados por atos arbitrários da consciência; e, em virtude mista, se tentavam ver o progresso como algo inevitável ou o declínio como algo
do "fluxo de consciência': parecia reintegrá-Ios à vida humana. Na verdade, Hus- predestinado. O ponto central em ambos os casos era simplesmente que, como
serl chegava a afirmar que, por meio desse desvio pela consciência e de uma reu- disse Herder, o homem semelhava uma "formiga" que "apenas se arrasta na roda
nião geral de todo o material factual da consciência (uma mathesis universalis), do destino". Visto que o foco de Husserl sobre "as coisas mesmas" eliminava esse
ele seria capaz de reconstituir esse mundo agora fragmentado. Tal reconstitui- tipo de especulação ociosa e insistia na separação entre o conteúdo fenomeni-
ção do mundo pela consciência significaria uma segunda criação, no sentido de camente verificável e a gênese de um evento, ele exerceu uma influência liber-
que, por meio dessa reconstituição, o mundo perderia seu caráter contingente, tadora no sentido de que o próprio homem, não o fluxo histórico, natural,
quer dizer, seu caráter de realidade, e não mais apareceria ao homem como um biológico ou psicológico em que estava envolvido, voltou a ser a principal preo-
mundo dado, e sim como um mundo criado por ele. cupação da filosofia.
Esse postulado básico da fenomenologia corresponde à tentativa mais ori- Essa libertação da filosofia teve grandes repercussões, mas o próprio
ginal e moderna de fornecer uma nova base intelectual para o humanismo. Inti- Husserl, que era totalmente desprovido de senso histórico, nunca chegou a
mamente ligada à sensação de vida que deu origem à fenomenologia, temos a captar plenamente as implicações dessa sua realização negativa. Essa realiza-
famosa carta de despedida de Hofmannsthal a Stefan George, em que ele toma ção se tornou muito mais importante do que a fIlosofia positiva de Husserl,
o partido das "pequenas coisas" e contra as grandes palavras, porque é nessas na qual ele tenta nos consolar sobre o exato ponto em relação ao qual a filo-
pequenas coisas que jaz oculto o mistério da realidade. Husserl e Hofmannsthal sofia moderna inteira não pode ter absolutamente nenhum consolo, a saber,
são ambos classicistas, se por classicismo entendermos a tentativa - através de que o homem é obrigado a afirmar um Ser que ele não criou e que é estranho
uma imitação absolutamente rigorosa da visão clássica, isto é, do sentimento à sua natureza mesma. Ao transformar esse Ser estranho em consciência, ele
tenta devolver uma face humana ao mundo, assim como Hofmannsthal, com
humano de morar no mundo - de criar um novo lar a partir de um mundo per-
cebido como estranho. A expressão de Husserl, "para as coisas mesmas': é uma a magia das pequenas coisas, tenta redespertar em nós a antiga ternura pelo
fórmula tão mágica quanto as "pequen~s coisas" de Hofmannsthôl. Se ainda mundo. Mas o que condena esse humanismo moderno, essa expressão de boa
pudéssemos conseguir alguma coisa com a magia - numa era cuja única coisa vontade para com a modéstia, é a húbris igualmente moderna que subjaz a ele
boa é que toda magia se extinguiu -, de fato teríamos de começar pela coisa e que espera - secretamente, como em Hofmannsthal, ou de modo aberto e
mais min úscula, aparentemente mais modesta de todas, pelas "pequenas coisas" ingênuo, como em Husserl- tornar-se afinal, e dessa maneira totalmente
despretensiosas, pelas palavras despretensiosas. humilde, aquilo que o homem não pode ser: o criador do mundo e de si
Foi essa aparente despretensão que tornou as análises husserlianas da cons- mesmo.

ciência (que Jaspers sempre considerou descabidas para a filosofia, porque para Em contraste com a modéstia arrogante de Husserl, a filosofia moderna
ele a magia e o classicismo não tinham nenhum proveito) tão importantes para não derivativa tenta se ajustar de várias maneiras ao fato de que o homem não é
Heidegger e Scheler na juventude, embora Husserl pouco tenha contribuído o criador do mundo. Por outro lado, e sempre em sua melhor expressão, tenta

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situar o homem onde Schelling, num típico mal-entendido de suas próprias um paradoxo porque nunca pode ser objetiva, nunca pode ter validade univer-
idéias, situou Deus: no papel do "senhor do Ser':
sal. Se o Ser e o pensar não são mais a mesma coisa, se o pensar não me permite
mais penetrar a realidade verdadeira das coisas, porque a natureza das coisas não
tem nada a ver com a realidade delas, então a ciência pode ser o que quiser, mas
A DESTRUIÇÃO DO VELHO MUNDO EM KANT E O APELO A UM NOVO
MUNDO EM SCHELLlNG não oferece mais nenhuma verdade ao homem, nenhuma verdade que possa
interessar ao homem. Muitas vezes, e sobretudo por causa do exemplo de Kier-
kegaard, esse afastamento da ciência tem sido erroneamente interpretado como
Ao que eu saiba, a palavra "existência" em sentido moderno aparece pela uma atitude derivada do cristianismo. Mas para essa filosofia, debruçada sobre
primeira vez na obra madura de Schelling. Ele sabia exatamente qual era o alvo a realidade, o ponto não é que a preocupação com as coisas deste mundo (como
de sua revolta quando apresentou sua "filosofia positiva" como uma força curiositas ou dispersio), visando a um mundo melhor e mais verdadeiro, preju-
oposta à "filosofia negativa': à filosofia do pensamento puro. Sua filosofia posi- dica a salvação da alma. O ponto é que ela quer claramente este mundo, cujo
tiva tomava como ponto de partida a "existência [...] que de início ela tem ape- único grande defeito é ter perdido sua realidade.
nas sob a forma do puro Aquilo': Ele sabia que, ao dar esse passo, a filosofia se A unidade entre pensamento e Ser pressupunha a coincidência prévia entre
afastava definitivamente da "vida contemplativa': Sabia que foi "o Eu que deu o essentia e existentia, isto é, tudo o que era pensável também existia, e tudo o que
sinal para essa mudança de direção': porque a filosofia do pensamento puro, por existia, por ser cognoscível, também tinha de ser racional. Kant, que é o verda-
não conseguir "explicar a arbitrariedade dos eventos e a realidade das coisas': deiro, embora secreto, por assim dizer, fundador da filosofia moderna e que até
havia levado "o Eu ao absoluto desespero". Esse desespero subjaz a todo o irra-
hoje continua a ser seu rei secreto, estilhaçou essa unidade. Kant retirou ao
cionalismo moderno, a toda a hostilidade moderna contra o espírito e a razão. homem a antiga segurança no Ser,ao revelar a antinomia intrínseca na estrutura
A filosofia moderna começa com a percepção de que a realidade nunca da razão; e, com sua análise das proposições sintéticas, ele provou que, em qual-
conseguirá explicar a existência; começa com a percepção chocante e esmaga- quer proposição que faz uma afirmação sobre a realidade, vamos além do con-
dora de uma realidade intrinsecamente vazia. Quanto mais desprovida de qual- ceito (a essentia) de qualquer coisa dada. Nem mesmo o cristianismo havia
quer atributo aparece a realidade, mais nua e imediata se mostra a única coisa a interferido nessa segurança: apenas a reinterpretou num "plano divino para a
seu respeito que ainda tem algum interesse: que ela é. É por isso que, desd~ o salvação".Mas agora não se podia ter certeza do significado, ou do Ser,do mundo
começo, essa filosofia celebrou o acaso como a forma com que a realidade se
cristão na terra, nem do Ser eternamente presente da antiga cosmologia, nem se
apresenta diretamente ao homem, incerta, incompreensível e imprevisível. E é sustentar a definição tradicional da verdade como aequatio intellectus et rei.
por isso que Jaspers identifica a morte, a culpa, o destino e o acaso com as "situa- Muito antes de Kant revolucionar o conceito ocidental do Ser, Descartes
ções-limite" filosóficas que nos levam a filosofar, porque em todas essas expe- propôs a questão da realidade de maneira muito moderna, mas respondeu de
riências descobrimos que não podemos fugir à realidade nem resolver seus mis- maneira totalmente tradicional. A questão da existência do Ser em si é total-
térios pelo pensamento. Nessas situações, o homem percebe que depende, não mente moderna, assim como a resposta cogito ergo sum é inútil, pois, como
fatoalgo
de específico nem de suas próprias limitações gerais, mas simplesmente do
de existir. observou Nietzsche, ela não prova de maneira alguma a existência do ego cogi-
tans, e no máximo prova apenas a existência do cogitare. Em outras palavras,
Assim, como a essentia parece não ter nada a ver com a existentia, a filoso- nenhum Eu realmente vivo pode jamais emergir de "Eu penso", mas apenas
fia moderna se afasta das ciências, que investigam o Quê das coisas. Da perspec- um Eu que é uma criação do pensamento. Esse é o ponto fundamental que
tiva de Kierkegaard, a verdade objetiva da ciência não interessa porque não trata sabemos desde Kant.
da questão da existência. E a verdade subjetiva, a verdade "daquilo que existe': é Dessa destruição kantiana da antiga unidade entre pensamento e Ser deri-
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vam mais coisas para a história da secularização do que costumamos perce- meramente abstrato, o indivíduo em oposição ao meramente universal. Em
ber. A refutação kantiana da prova ontológica da existência de Deus destruiu conseqüência disso, a filosofia, que desde Platão sempre pensara apenas em
qualquer crença racional em Deus baseada na proposição de que tudo o que conceitos, perdia agora sua fé nos conceitos; e desde então os filósofos nunca
é acessível à razão tem de existir, crença anterior ao cristianismo que prova-
conseguiram se livrar, por assim dizer, da consciência de culpa por se entrega-
velmente se enraizou muito mais fundo no espírito europeu com o Renasci- rem à filosofia.
mento. Esse chamado desaparecimento de Deus do mundo, o conhecimento
O objetivo de Kant, ao destruir o antigo conceito de Ser, era instaurar a
de que não podemos provar racionalmente a existência de Deus, teve sérias autonomia do homem, o que ele chamava de dignidade do homem. Trata-se do
implicações tanto para o cristianismo quanto para os conceitos da filosofia
primeiro filósofo a tentar compreender o homem inteiramente no contexto de
antiga. Num mundo sem deuses, o homem em seu "abandono" ou em sua leis inerentes ao homem e a separá-Io do contexto universal do Ser, em que ele é
"autonomia individual" se torna acessível à interpretação. Em todos os filó-
apenas uma coisa entre outras (embora seja uma rescogitans, em oposição a uma
sofos modernos - e não só Nietzsche -, essa interpretação se torna a pedra
resextensa). Isso corresponde à formulação filosófica daquilo que, para Lessing,
de toque de sua filosofia. constituía a maioridade intelectual do homem, e não é por acaso que essa decla-
Hegel pode ser tido como o último filósofo antigo porque foi o último a
ração filosófica coincide com a Revolução Francesa. Kant é verdadeiramente o
conseguir escapar a essa questão. Schelling marca o início da filosofia
filósofo da Revolução Francesa. Sefoi decisivo para o desenvolvimento histórico
moderna, porque afirma explicitamente que está preocupado com o indiví-
do século XIXque nada tenha desaparecido tão rápido quanto o novo conceito
duo que "quer um Deus providencial", que "é o senhor do Ser", e aqui Schelling revolucionário de citoyen, também o foi para o desenvolvimento da filosofia
entende por "indivíduo" "o indivíduo libertado do universal", isto é, o ser
pós-kantiana que nada tenha desaparecido tão rápido quanto esse novo con-
humano real, pois "não é o universal no homem que deseja a felicidade, e sim ceito de homem, que mal havia começado a surgir.
o individual". Essa formulação surpreendentemente direta da afirmação indi- A destruição kantiana do antigo conceito de Ser ficou a meio caminho.
vidual da felicidade (após o desdém de Kant pelo antigo desejo de felicidade, Kant destruiu a velha identidade entre Ser e pensamento e,junto com ela, a idéia
não era nada simples voltar a declarar sua lealdade a ela) contém mais do que de uma harmonia preestabelecida entre o homem e o mundo. O que, em termos
um desejo desesperado de retomar à segurança da Providência. O que Kant
implícitos, ficou preservado foi um outro conceito também antigo e intima-
não entendeu, quando destruiu o conceito clássico de Ser, foi que pôs em ques- mente vinculado à idéia de harmonia. Foi o conceito do Ser como dado, a cujas
tão a realidade não só do indivíduo, mas de todas as coisas. Na verdade, estava
leis o homem sempre esteve submetido. O homem conseguiria conviver com
implícito em Kant o que Schelling agora dizia explicitamente: "Não existe
essa idéia apenas se tivesse uma sensação de segurança no Ser e de pertinência
nada universal, apenas o indivíduo, e o ser universal (Wesen) só existe ao mundo, e se tivesse certeza de poder pelo menos compreender o Ser e o curso
enquanto indivíduo absoluto (Einzelwesen)".
do mundo. Essa sensação sustentou o conceito de destino da Antiguidade e, na
Com essa posição, derivada de Kant, o homem era cortado do rein0 ábso- verdade, de todo o Ocidente até o século XIX(isto é, até o surgimento do
luto e racionalmente acessível das idéias e valores universais, e deixado em meio
romance). Sem esse orgulho do homem, não haveria tragédia nem filosofia oci-
a um mundo onde não lhe restava nada em que pudesse se apoiar - não sua dental. O cristianismo tampouco negava que o homem podia ter uma percep-
razão, que sem dúvida era inadequada para compreender o Ser, nem os ideais de ção do plano divino da salvação - não importava muito se essa sua percepção
sua razão, cuja existência não podia ser comprovada, nem o universal, que por derivava de sua capacidade racional à semelhança de Deus ou se provinha da
sua vez existia apenas na forma de si mesmo. revelação divina. Em ambos os casos, o homem ficava inteirado dos segredos
A partir daí, o termo "existir" passou a ser usado em oposição ao que é ape- cósmicos e do curso do mundo.
nas pensado, apenas contemplado; usado como o concreto em oposição ao O mesmo vale para seu novo conceito de liberdade humana, em que se pre-

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nuncia a visão modernista da falta de liberdade humana. Para Kant, o homem, Quando Schelling expressou seu desejo de um "verdadeiro senhor do Ser",
na liberdade de sua boa vontade, pode determinar suas ações, mas as ações, por o que ele queria era ter de novo um papel ativo na determinação do curso do
sua vez, estão sujeitas à lei natural da causalidade, esfera essencialmente alheia mundo, papel que, desde Kant, havia sido retirado ao homem livre. Schelling se
ao homem. Quando uma ação humana sai da esfera subjetiva, que é a esfera refugiou mais uma vez num deus filosófico, pois aceitava, com Kant, "o fato da
humana da liberdade, entra na esfera objetiva, que é a esfera da causalidade, e queda [Abfal~ humana", mas não expressava a extraordinária serenidade que
perde seu elemento de liberdade. O homem, que em si é livre, está irremediavel- permitiu a Kant aceitar esse fato. Pois a serenidade de Kant, que nos parece tão
mente à mercê do funcionamento de um mundo natural alheio a ele, de um des- imponente, no fundo deriva de seu profundo enraizamento numa tradição para
tino que lhe é oposto e destrói sua liberdade. Essa liberdade não livre representa a qual a filosofia equivale à contemplação, tradição que o próprio Kant, em parte
a estrutura antinômica ~ do ser humano situado no mundo. Kant apresenta o sem se dar conta, ajudou a destruir. A "filosofia positiva" de Schelling buscou
homem como senhor e;medida do homem, fnas ao mesmo tempo como escravo refúgio em Deus, para que Deus pudesse "neutralizar o fato da queda': isto é,
, do Ser. Todos os-fil6sofúSmocrernos, desd~ -Schelling, protestaram contra essa pudesse ajudar o homem a recuperar a realidade que perdera no momento em
degradação, e a filosofia moderna continua preocupada até hoje com essa que descobriu a liberdade.
herança paradoxal de Kant: tão logo o homem atinge a maioridade e se torna Se as discussões da filosofia da existência não costumam incluir Schelling,
autônomo, fica também totalmente aviltado. O homem nunca pareceu ter é porque nenhum filósofo adotou sua solução das aporias kantianas, apresenta-
subido tão alto e ao mesmo tempo ter caído tanto. das pela liberdade subjetiva e pela não-liberdade objetiva. Em vez de recorrer a
Desde Kant, toda filosofia traz um elemento de desafio e, por outro lado, uma "filosofia positiva': os filósofos posteriores (à exceção de Nietzsche) tenta-
um conceito claro ou oculto de destino. Quando Marx declarou que não queria ram reinterpretar a situação humana, para conseguir de alguma maneira encai-
mais interpretar o mundo, e sim transformá-Io, ele se pôs, por assim dizer, no xar de novo o homem nesse mundo que lhe roubou a dignidade. Sua ruína fora
limiar de um novo conceito do Ser e do mundo, em que o Ser e o mundo não determinada não só pelo destino, mas fazia parte de seu próprio Ser. Sua queda
eram mais dados, e sim produtos possíveis do homem. Mas, ao afirmar que a não se devia a um mundo natural hostil totalmente regido pela lei da causali-
liberdade se realizava através do reino da necessidade, ele mesmo recuou rapi- dade, mas já estava prevista em sua própria natureza. Foi assim que esses filóso-
damente para a antiga segurança e devolveu ao homem, que perdendo seu fos abandonaram os conceitos kantianos de liberdade e dignidade do homem,
domínio sobre o mundo também perdia seu orgulho, uma dignidade que agora bem como suas idéias da humanidade como princípio regulador de toda ativi-
~ pouco lhe servia. O..!!morfati de Nietzsche, o ser- resoluto de Heidegger, o desa- dade política, e foi assim que nasceu aquela melancolia típica que caracteriza a
fio de Camus em enfrentar a vida em seus próprios termos, a despeito do filosofia quase totalmente superficial desde Kierkegaard. Parecia mais aceitável
absurdo de uma condição humana enraizada no desenraizamento do homem estar sujeito à "queda" como lei intrínseca da existência humana do que cair nas
no mundo, todos são tentativas de salvação pelo recuo à antiga segurança. Não mãos de um mundo estranho regido pela causalidade.
é casual que, desde Nietzsche, o gesto heróico tenha se tornado a pose típica da
filosofia, pois de fato é preciso um grande heroísmo para viver no mundo que
o NASCIMENTO DO EU: KIERKEGAARD
Kant nos legou. Os filósofos modernos, com sua pose heróica modernista, mos-
tram que conseguiram levar o pensamento de Kant até suas conclusões lógicas,
mas não conseguiram dar um passo além. Na verdade, nessa coerência lógica e A filosofia da existência moderna começa com Kierkegaard. Não existe um
no desespero, eles até ficaram alguns passos atrás, pois todos, com a única e único filósofo existencial que não se mostre influenciado por ele. Como sabe-
grande exceção de Jaspers, em algum momento abriram mão do conceito kan- mos, o ponto de partida de Kierkegaard foi uma crítica a Hegel (e, podemos
tiano básico da liberdade e dignidade humana. dizer, um descaso deliberado por Schelling, a cujas aulas ele havia assistido).

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Contra o sistema hegeliano, que pretendia abranger e explicar a "totalidade", Kierkegaard irá interpretar essa vida referindo-a à categoria da "exceção", a exce-
Kierkegaard propôs o "individual': o ser humano único, que não encontra lugar
ção da vida média, geral, cotidiana; exceção, aliás, que o homem escolhe aceitar
nem sentido numa totalidade controlada pelo espírito universal. Em outras
para si apenas porque Deus o chamou para tal, para convertê-lo em exemplo do
palavras, o ponto de partida de Kierkegaard é o sentimento do indivíduo de estar
que realmente significa o paradoxo da vida humana no mundo. Na exceção, o
perdido num mundo totalmente explicado. O indivíduo se encontra em cons- homem como indivíduo realiza as estruturas universais da existência per se.
tante contradição com esse mundo explicado porque sua "existência': isto é, o Toda filosofia da existência entende por "existencial" basicamente aquilo que
próprio fato de seu existir totalmente arbitrário (que eu sou eu e ninguém mais, Kierkegaard ilustrava na categoria da exceção. O ponto central da conduta exis-
e mais sou do que não sou) não pode ser previsto pela razão, nem reduzido por tencial é a constante realização (oposta à mera contemplação) dos elementos
ela a algo puramente pensável. mais universais da vida.
Mas essa existência que vivo neste momento e que não posso apreender A paixão de subjetivar, para Kierkegaard, é movida pela percepção do
racionalmente é a única coisa de que posso ter certeza, no sentido de que possuo medo da morte. A morte é o evento em que estou definitivamente sozinho, um
provas incontestáveis dela. Logo, a tarefa do homem é "tornar subjetivo" um ser
conscientemente existente, sempre ciente das conseqüências paradoxais de sua
indivíduo apartado da vida cotidiana. Pensar sobre a morte se torna um "ato"
porque, com ele, o homem-se10rna subjetivo e se separa do mundo e da vida
)
vida no mundo. Todas as questões essenciais da filosofia - como as referentes à cotidiana partilhada com outros homens. Em termos psicológicos, o postulado
imortalidade da alma, à liberdade do homem, à unidade do mundo -, ou seja, por trás dessa técnica de reflexão interior é simplesmente a idéia de que, quando
todas as questões cuja estrutura antinômica foi demonstrada por Kant nas anti- eu deixar de existir, meu interesse no que é a morte também chegará ao fim.
nomias da razão pura, só podem ser apreendidas como "verdades subjetivas", e Muito típico da filosofia moderna é que inúmeros pensadores aceitaram esse
não conhecidas como verdades objetivas. Sócrates é o exemplo do filósofo "exis- postulado de maneira inocente, por assim dizer, sem um exame mais detido.
tente" com seu" Se existe uma imortalidade". "Então ele duvidava?", prossegue Sobre essa premissa se funda não só a preocupação moderna com a vida inte-
Kierkegaard numa das maiores interpretações de uma obra rica de grandes rior, mas ainda a determinação fanática, que também se inicia com Kierkegaard,
interpretações. ..."«,t..... de levar o momento a sério, pois é apenas o momento que garante a existência,

\
J \ r ti/; ') I apenas ele é a realidade.
('be maneira alguma. Neste "se", ele arrisca sua vida inteira, ele tem coragem de
, , Es~~o engajam~!lt~ na vida, que tem a morte como ponto de pa~~
enfrentar a morte [...] A ignorância socrática [...] era, pois, expressão do princípio não supõe necessariamente, porém, uma afirmação da vida ou da existência
~ de que a verdade eterna está relacionada com um indivíduo existente, e que essa humana como tal. De fato, apenas Nietzsche e, em suas pegadas, Jaspers toma-
verdade, portanto, há de ser um paradoxo para ele enquanto ele existir.! ram explicitamente essa afirmação como base de suas reflexões filosóficas, e é
por isso que suas considerações encontraram um caminho positivo até a filoso-,...
Assim, o universal, com que a filosofia da pura cognição havia se preocu- fia. Kierkegaard e Heidegger sempre interpretaram a morte como a "objeção"
pado por tanto tempo, devia ser posto em relação com o homem. Essa relação irrefutável ao Ser do homem, como a prova da "nulidade" do homem. E, sob esse
há de ser paradoxal, porque o homem sempre se mantém como indivíduo. O
indivíduo pode ser capaz, pelo paradoxo, de apreender o universal, de convertê-
10 no conteúdo de sua existência e levar aquela vida paradoxal que o próprio
aspecto, a análise heideggeriana da morte e das características da vida humana
ligadas a ela pode superar, em força e precisão, a análise de Kierkegaard.
É claro que a atividade interior característica de Kierkegaard, sua "subjeti-
)
Kierkegaard dizia levar. Se é para o universal se tornar real e, assim, significativo vação': faz sair da filosofia. Só está relacionada com a filosofia no sentido de que
para o homem, o homem precisa tentar realizar em sua vida paradoxal a contra- é preciso encontrar razões filosóficas para a rebelião do filósofo contra a filoso-
dição segundo a qual "o universal assume a forma do individual". Mais tarde, fia. Marx apresenta um caso semelhante, mas no extremo oposto, por assim

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dizer. Em termos filosóficos, ele também afirmava que o homem podia mudar converte, em sua teoria da "comunicação': na nova forma do discurso filosófico.
o mundo e, portanto, devia parar de interpretá-lo. Ambos queriam passar dire- Ao contrário de Jaspers, Heidegger tenta utilizar esses novos elementos para res-
tamente para a ação, e a nenhum dos dois ocorreu a idéia de encontrar uma nova suscitar a filosofia sistemática em sua acepção mais tradicional.
base para a filosofia, depois de começarem a duvidar das prerrogativas da con-
templação e se desiludirem com a possibilidade do conhecimento puramente
o EU COMO SER E NADA: HEIDEGGER
contemplativo. O resultado foi que Kierkegaard, na descrição da atividade inte-
rior, passou para a psicologia, e Marx, na descrição da atividade exterior, para a
ciência política, mas com a diferença de que Marx de fato voltou atrás e aceitou A tentativa heideggeriana de reinstaurar uma ontologia, contra e apesar de
a segurança da filosofia hegeliana, que ele não transformou tanto quanto ima- Kant, levou a mudanças muito importantes na terminologia filosófica tradicio-
ginava ao "colocá-Ia de novo sobre os pés". Para a filosofia, a substituição do nal. Por essa razão, Heidegger sempre parece, à primeira vista, muito mais revo-
princípio hegeliano do espírito pelo princípio marxiano da matéria não foi tão lucionário do que Jaspers, e essa fachada terminológica interferiu em grande
significativa quanto a restauração da unidade entre homem e mundo de uma medida na correta avaliação de sua filosofia. Ele tem dito explicitamente que
maneira puramente hipotética e doutrinária, aqual, portanto, jamais se mostra- quer restabelecer uma ontologia, e a única coisa que se pode entender disso é que
ria convincente para o homem moderno. pretende reverter a destruição do conceito clássico do Ser iniciada por Kant. Não
Kierkegaard teve muito mais importância do que Marx para o desenvolvi- há por que duvidar dessa intenção, mesmo que se chegue à conclusão de que não
mento posterior da filosofia, porque manteve sua desesperança em relação à é possível restabelecer uma ontologia no sentido tradicional sobre a base dos
novos conteúdos derivados da revolta contra a filosofia.2
filosofia. Foi sobretudo a partir dele que a filosofia adotou seus novos conteúdos
concretos. Os mais importantes são os seguintes: a morte como garantia do prin- Heidegger nunca estabeleceu realmente sua antologia, porque o segundo
cipium individuationisporque a morte, mesmo sendo o mais universal dos uni- volume de Ser e tempo nunca veio à luz. Para a questão do sentido do Ser, ele deu
versais, atinge inevitavelmente apenas a mim; o acasocomo garantia de uma rea- a resposta provisória e intrinsecamente ininteligível de que a temporalidade é o
lidade que está dada e me subjuga, justamente por sua imprevisibilidade e pela sentido do Ser. Isso implica - e é explicitado em sua análise do Dasein (isto é, o
impossibilidade de reduzi-Ia ao pensamento; a culpa como a categoria de toda ser do homem) condicionado pela morte - que o sentido do Ser é o nada. Mas
atividade humana, condenada ao fracasso não por causa do mundo, mas por sua a tentativa heideggeriana de oferecer novos fundamentos para a metafísica não
própria natureza, no sentido de que sempre assumo responsabilidades cujas terminou com o segundo volume prometido, em que pretendia utilizar uma
implicações não posso prever, e de que sempre sou obrigado, devido às decisões análise do ser do homem para elucidar o sentido do Ser como tal. Em vez disso,
que tomo, a deixar de lado alguma outra coisa. Assim, a culpa se torna o modo resultou num livrinho fino chamado O que é metafísica?, em que Heidegger
como me torno real, pelo qual me envolvo na realidade. mostra com coerência razoável, e apesar de todos os seus óbvios sofismas ejogos
Em Psychologie der Weltanschauungen [Psicologia das concepções do de palavras, que o Ser numa acepção heideggeriana é o Nada.
mundo], de Jaspers, esses novos conteúdos filosóficos adquirem pela primeira O fascínio da idéia do nada para a filosofia moderna não indica necessaria-
vez a máxima clareza. São as "situações-limite", como diz o autor, em que o mente uma tendência niilista nessa filosofia. Se considerarmos o problema do
nada em nosso contexto de uma filosofia em revolta contra a filosofia como
homem é posto pela natureza antinômica de seu ser, e que lhe fornecem seu
motivo real para seguir a filosofia. Mesmo em seus primeiros trabalhos, Jaspers mera contemplação, como uma tentativa de nos fazer "senhores do Ser", assim
tenta fundar um tipo de filosofia totalmente novo, com base nessas situações, e nos permitindo propor as questões filosóficas que nos habilitarão a avançar
acrescenta aos conteúdos tomados de Kierkegaard um outro conteúdo, que às diretamente para a ação, então a idéia de que o Ser é realmente nada tem um
vezes chama de luta, às vezes de amor, mas que, de qualquer forma, mais tarde se valor inestimável. A partir dessa idéia, o homem pode imaginar que se encontra

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diante do Sér na mesma posição em que estava o Criador antes de criar o mundo, arbitrária. Sua finalidade é dividir o homem em vários modos de ser fenomeno-
que, como sabemos, foi criado ex nihilo. E aí também a designação do Ser como logicamente demonstráveis. Descarta todas aquelas características humanas
nada traz consigo a tentativa de abandonar a definição do Ser como aquilo que que Kant havia por ora definido como liberdade, dignidade humana e razão, que
está dado e de encarar as ações humanas não apenas à semelhança divina, mas brotam da espontaneidade humana e, portanto, não são fenomenologicamente
como propriamente divinas. É por isso que- embora Heidegger não admita- demonstráveis, visto que, como características espontâneas, são mais do que
o nada em sua filosofia de repente se torna ativo e começa a "nadificar" (nicht- meras funções do ser, e porque nelas o homem ultrapassa a si mesmo. Por trás
en). O nada tenta, por assim dizer, destruir o dado do Ser e usurpar de maneira da abordagem ontológica de Heidegger há um funcionalismo não muito dife-
"nadificante" (nichtend) o lugar do Ser. Se o Ser, que eu não criei, é assunto de rente do realismo de Hobbes. Se o homem consiste no fato de existir, ele não é
um ser que não sou e não conheço, então o nada é, talvez, o domínio verdadei- mais do que seus modos de Ser ou funções no mundo (ou na sociedade, como
ramente livre do homem. Como não posso ser um ser criador do mundo, talvez diria Hobbes). O funcionalismo heideggeriano e o realismo hobbesiano termi-
eu possa ser um ser destruidor do mundo. (Hoje, Camus e Sartre estão explo- nam, ambos, propondo um modelo de ser humano que diz que o homem fun-
rando essas possibilidades de maneira mais clara e aberta.) Tal é, em todo caso, cionaria ainda melhor num mundo preordenado, porque entãO"estaria "liberto"
a base filosófica do niilismo moderno, cujas origens remontam à velha ontolo- de qualquer espontaneidade. Esse funcionalismo realista que enxerga o homem
gia; e nele ressurge como um fantasma a tentativa arrogante de encaixar novos apenas como um aglomerado de modos de ser é essencialmente arbitrário, visto
elementos e questões na velha estrutura ontológica. que não há nenhuma idéia de homem a guiar a seleção dos modos de ser. O "Eu"
Mas, qualquer que tenha sido o resultado das pesquisas de Heidegger, sua ocupa o lugar do homem, no sentido de que a principal característica do Dasein
grande proeza foi retomar as questões que Kant havia levantado e ninguém (o ser do homem) é que "em seu Ser ele se refere a si mesmo". Essa qualidade
desenvolvera. Nas ruínas da harmonia preestabelecida entre Ser e pensamento, auto-reflexiva do Dasein pode ser apreendida "existencialmente", e é apenas isso
entre essentia e existentia, entre os existentes e Quê dos existentes que pode ser o que resta do poder e da liberdade do homem.
apreendido pela razão, Heidegger declara que encontrou um ser em que essência Para Heidegger, essa apreensão da existência pessoal constitui o próprio
e existência são iguais, e que esse ser é o homem. Sua essência é sua existência. "A ato filosófico: "Aprópria indagação filosófica precisa ser compreendida existen-
cialmente como uma possibilidade de ser para todo Dasein existente". A filoso-
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essência do homem não é o espírito [...] e sim a existência!' O homem não tem
fia é o modo existencial do Dasein por excelênçia. Em última análise, isso não
essência. ele consiste no fato de existir. Não podemos !gdag~r o Quê do hom~m,
c~mo in~gfLmos o Quê de~a~i~~:Só põaemos indagar o Quem do ho~em. passa de uma reformulação do bios theoretikos aristotélico, da vida contempla-
O homem, como identidade entre existência e essência, parecia oferecer uma tiva como a mais elevada possibilidade do homem. O problema é ainda mais
nova resposta para o problema do Ser em geral. Para entender como essa idéia era sériqporque a filosofia heideggeriana converte o homem numa espécie de sum-
sedutora, basta lembrar que, para a metafí$ica tradicional, Deus era o ser em quem mum ens, um "senhor do Ser",na medida em que, nele, existência e essência são
se unificavam essência e existência, em quem pensamento e ação se faziam idên- iguais. Após a descoberta de que o homem é o ser que ele por tanto tempo julga
ticos, e quem, portanto, era tido como o fundamento supraterreno de todo Ser ter- ser Deus, viu-se então que esse ser, de fato, também é impotente e portanto não
reno. Era, de fato, uma tentativa de converter o homem no "senhor do Ser': Hei- existe um "senhor do Ser". O que resta são apenas modos anárquicos de ser.
degger o define como "o grau onticamente ontológico mais elevado do Dasein': A natureza do Dasein não é simplesmente ser:a questão primária em seu ser
formulação que não deve nos impedir de entender que está pondo o homem no é ser ele mesmo. Esse elemento básico se chama "cuidado': que se encontra sob
mesmo exato lugar que Deus havia ocupado na ontologia tradicional. todo cuidar cotidiano no mundo. O cuidar tem um caráter autenticamente auto-
Heidegger denomina o ser do homem como Dasein. Isso lhe permite evi- reflexivo. Parece unicamente dirigido a alguma coisa com que calhe estar ocupa-
tar o termo "homem", e não é de maneira alguma um exemplo de terminologia do no momento. Na verdade, faz tudo no modo do em-vista-de (Um-willen).

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o Ser do qual o Dasein cuida é a "existência", constantemente ameaçada igual. Portanto, o que Heidegger designa como "queda" inclui todos aqueles
pela morte e em última instância condenada à destruição. O Dasein está numa modos de existência humana em que o homem não é Deus, mas convive com
relação constante com essa existência ameaçada. Apenas da perspectiva da exis- toda a sua espécie no mundo.
tência é possível compreender todos os modos de conduta e derivar uma analise O próprio Heidegger refutou esse desejo apaixonado, nascido da húbris, de
unificada do ser do homem. Heidegger denomina as estruturas da existência do ser tornar um Eu, pois jamais uma filosofia havia mostrado com tamanha cla-
homem, isto é, as estruturas de seu Aquilo, como existenzial [existenciais], e Sua reza que esse objetivo é, provavelmente, a única coisa que o homem jamais
inter-relação estrutural é a "existencialidade". E chama de existenziell a possibi- poderá alcançar.
lidade individÜal de apreender esses existenciais, e assim existir num sentido No arcabouço da filosofia heideggeriana, o homem atinge sua "queda" da
explícito. Nesse conceito do existenziell ressurge a questão que nunca foi calada seguinte maneira: como ser-no-mundo, o homem não fez a si mesmo, mas foi
desde Schelling e Kierkegaard, a saber, como o universal pode ser, ao lado da res- "lançado" (geworfen) nesse seu ser. Ele tenta escapar a esse "estar-lançado"
posta que já fora dada por Kierkegaard. (Geworfenheit) por meio de uma "projeção" (Entwurj) antevendo a morte como
À exceção de Nietzsche, que pelo menos fez um esforço honesto de conver- sua suprema possibilidade. Mas "na estrutura do estar lançado e na estrutura da
ter o homem num autêntico "senhor do Ser': a filosofia de Heidegger é a pri- projeção encontra-se essencialmente um nada": o homem não se manipula
meira absoluta e inflexivelmente terrena. O elemento crucial do ser do homem rumo ao ser, e em geral não se manipula para sair do ser. (O suicídio não tem
é ser-no-mundo, e o que está em questão para seu ser-no-mundo é pura e sim- lugar no pensamento de Heidegger. Mas, quando Camus diz: "Existe apenas um
plesmente a sobrevivência no mundo. E isso é o que é negado ao homem, e por- problema filosófico realmente sério: é o suicídio': * está extraindo a conclusão
tanto o modo básico de ser-no-mundo é a alienação, sentida como ansiedade e lógica dessa posição, embora contrária à idéia de Heidegger, que não deixa ao
estranhamento. Na ansiedade, que é o medo fundamental da morte, reflete-se o homem sequer a liberdade de se suicidar.) Em outras palavras, o caráter do ser
não-estar-em-casa no mundo. Estar-em (In-Sein) entra no modo existenziell de do homem é essencialmente determinado pelo que o homem não é, pelo seu
não-estar-em-casa. Isso é alienação. nada.A única coisa que o Eu pode fazer para se tornar um Eu é tomar a si mesmo,
O Dasein só poderia ser verdadeiramente si mesmo se pudesse recuar de "resoluto': esse fato de seu ser, por meio do qual, em sua existência, ele "é o solo
seu ser-no-mundo para si mesmo, mas é isso que sua natureza nunca pode lhe negativo de seu nada".
permitir, e é por isso que, por sua própria natureza, ele sempre fica aquém de si Em sua "resolução" de se tornar o que o homem, por causa de seu "nada",
mesmo. "O Dasein sempre está afastado de si como autêntico ser-capaz-de-ser- não pode se tornar, a saber, um Eu, o homem percebe que "o Dasein enquanto tal
Eu; ele caiu no 'mundo'." Apenas na morte, que o levará do mundo, o homem é culpado". O ser do homem é tal que, caindo constantemente no mundo, ao
poderá ter a certeza de ser ele mesmo. Esse Eu é o Quem do Dasein. ("Com o mesmo tempo ouve sem cessar o "chamado da consciência vindo do solo de seu
termo 'Eu' respondemos à pergunta do Quem do Dasein.") ser". Viver existencialmente, portanto, significa: "Querer-ter-consciência se
Ao devolver o Dasein para o Eu, sem tomar o atalho do homem, a questão entrega a esse ser-culpado': Nessa resolução, o Eu se constitui.
do sentido do Ser foi abandonada e substituída pela pergunta mais fundamen- O caráter essencial do Eu é sua absoluta Eu-dade, sua separação radical de
tal para essa filosofia, a saber, a questão do sentido do Eu. Mas parece uma per- todos os semelhantes. Heidegger introduziu a antevisão da morte como um
gunta realmente irrespondível, porque um Eu, tomado em seu absoluto isola- existencial para definir esse caráter essencial, pois é na morte que o homem rea-
mento, é desprovido de sentido; e se não está isolado, e sim envolvido na vida liza o principium individuationis absoluto. Apenas a morte o retira da ligação
cotidiana do Eles, já não é mais Eu. Esse ideal do Eu é uma decorrência dessa com seus semelhantes, os quais, enquanto "Eles",constantemente o impedem de
transformação heideggeriana do homem no Deus da ontologia mais antiga. Um
ser dessa mais elevada ordem é concebível apenas como único, singular, sem

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ser um Eu. Embora a morte seja o fim do Dasein, ao mesmo tempo é a garantia meiro livro da nova "escola".Mas há outras boas razões para não ter iniciado por
de que tudo o que importa, ao fim e ao cabo, sou eu mesmo. Ao vivenciar a morte ele; uma delas, puramente externa, é que a grande obra de Jaspers, Filosofia da
como o próprio nada, tenho a oportunidade de me dedicar exclusivamente a existência (em três volumes), foi publicada cerca de cinco anos após Ser e tempo.
ser- um -Eu e, no modo da culpa axiomática, de me libertar de uma vez por todas O mais importante, porém, é que a filosofia de Jaspers ainda está evoluindo e
do mundo que me envolve. continua a ser muito mais moderna, sendo que "moderna" significa apenas que
O que surge desse isolamento absoluto é um conceito do Eu como absoluto continua a oferecer incentivos diretos para o pensamento filosófico contempo-
oposto do homem. Se a essência do homem, desde Kant, consistia em que cada râneo. Heidegger, naturalmente, também oferece incentivos, mas são incentivos
ser humano singular representava toda a humanidade, e se o conceito de
que, por sua própria natureza, conduzem apenas à polêmica ou a radicalizações
homem, desde a Revolução Francesa e a Declaração dos Direitos Humanos, pas- de sua posição, como estamos presenciando na atual filosofia francesa. Em
sara a abranger a idéia de que toda a humanidade poderia ser aviltada ou exal- outras palavras, de duas uma: ou Heidegger já contribuiu com sua última pala-
tada em cada indivíduo, então o conceito do Eu é um conceito de homem que vra para a filosofia contemporânea, ou terá de romper com sua própria filoso-
deixa o indivíduo numa existência independente da humanidade, sem repre- fia. Por outro lado, o pensamento de Jaspers mantém sua continuidade; ele é um
sentar ninguém afora si mesmo - nada a não ser seu próprio nada. Se o impe- ativo protagonista na filosofia moderna e continuará a contribuir para seu
rativo categórico de Kant insiste que toda ação humana deveria se responsabili- desenvolvimento, com uma voz decisiva no debate.
zar por toda a humanidade, a experiência do nada culpado insiste no exato Em sua Psychologie der Weltanschauungen, Jaspers rompe com a filosofia
contrário: a destruição em cada indivíduo da presença de qualquer humani- tradicional. Nessa obra, ele retrata e relativiza todos os sistemas filosóficos como
dade. O Eu sob a forma de consciência assumiu o lugar da humanidade, e ser- estruturas mitologizadoras, às quais o homem recorre em busca de proteção
um-Eu tomou o lugar do ser humano. contra as verdadeiras questões de sua existência. Para Jaspers, as concepções de
Mais tarde, e consumado o fato, por assim dizer, Heidegger recorreu a con- mundo que alegam ter captado o sentido da vida e os sistemas que se apresen-
ceitos mitologizantes e confusos como "povo" e "terra': numa tentativa de dar a tam como "teorias coerentes da Totalidade" são meras "cascas" vazias, que inter-
seus Eus isolados um terreno comum onde pudessem se firmar em conjunto. Mas ferem na vivência das "situações-limite" e oferecem uma falsa paz de espírito que
é óbvio que esses tipos de conceitos só podem nos afastar da filosofia e nos condu- é intrinsecamente não filosófica. Utilizando as situações-limite como ponto de
zir para alguma forma de superstição de fundo naturalista. Se não pertence ao partida, ele tenta desenvolver um novo tipo de filosofar baseado em Kierkegaard
conceito de homem seu convívio na terra com seus semelhantes, tudo o que lhe e Nietzsche.A missão primária desse filosofar não é instruir; consiste numa "agi-
resta é uma conciliação mecânica, por meio da qual os Eus atomizados encontram tação perpétua, um apelo [grifo meu] perpétuo à força da vida em si e nos
um terreno comum essencialmente estranho à sua natureza. A única coisa que outros". Essa é a maneira como Jaspers participa daquela revolta contra a filoso-
pode resultar é a organização desses Eus interiorizados num Super-Eu que, de fia que deu início à filosofia moderna. Ele tenta transformar a filosofia em filo-
alguma maneira, efetue uma transição da culpa resolutamente aceita para a ação. sofar e encontrar maneiras de comunicar os "resultados" filosóficos que neutra-
1izem seu caráter de resultado.
Assim, a própria comunicabilidade se torna uma das questões centrais
CARACTERÍSTICAS DA EXISTÊNCIA HUMANA: JASPERS dessa filosofia. Na concepção de Jaspers, a comunicação é a forma por excelên-
cia da participação filosófica, que é ao mesmo tempo um filosofar em comum,
Em termos históricos, teria sido mais adequado iniciar essa discussão da cuja finalidade não é gerar resultados, e sim "iluminar a existência". A seme-
filosofia da existência contemporânea com Jaspers. Sua Psychologie der Weltans- lhança entre esse método e a maiêutica socrática é evidente, com a ressalva de
chauungen, cuja primeira edição foi publicada em 1919, é sem dúvida o pri- que Jaspers chama de "apelo" o que Sócrates chamaria de método maiêutico.

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Essa mudança de ênfase é deliberada. Jaspers de fato utiliza o método socrático, dida como puro objeto do pensamento ou pura possibilidade. Em Jaspers, esse
mas retirando-lhe o teor pedagógico. Em Jaspers, tal como em Sócrates, não há pensar até os limites do pensável se chama "transcender", e sua "metafísica
um "filósofo" que, desde Aristóteles, levaria uma existência diferente da dos lúdica" é uma nomeação ordenada e seqüencial desses movimentos autotrans-
outros homens. Jaspers nem mesmo preserva a prioridade socrática do indaga- cendentes do pensamento. O crucial nesses movimentos é que o homem, como
dor, pois na comunicação, por uma questão de princípio, o filósofo se move "senhor de seus pensamentos", é mais do que qualquer um desses movimentos
entre seus iguais, aos quais pode apelar e que, por sua vez, podem apelar a ele. do pensar. O filosofar, por conseguinte, não se torna o modo "existencial" mais
Em virtude disso, a filosofia sai do âmbito das disciplinas científicas e acadêmi- elevado do ser do homem, sendo antes uma preparação para enfrentar a reali-
cas com seus campos especializados, e o filósofo abre mão de todo e qualquer dade de mim e do mundo. "Indo. além de todo o conhecimento do mundo que
gênero de prerrogativas especiais. enquadraria o Ser em categorias fixas, o filosofar entra num estado de suspen-
À medida que Jaspers comunica resultados, eles são expressos sob a forma são em que apela à minha liberdade e, invocando a transcendência, cria uma
de uma "metafísica lúdica': apresentando certos processos do pensamento de arena de ação ilimitada." Essa "ação" que surge das "situações-limite" entra no
maneira sempre experimental, nunca rigidamente estabelecida, e ao mesmo mundo por meio da comunicação com os outros, os quais, como meus seme-
tempo como sugestões que estimulam os outros a se juntar a ele no pensar, a filo- lhantes e com o apelo aos poderes da razão comum a todos nós, garantem a nós
sofar junto com ele. algo universal. Por meio da ação, o filosofar cria a liberdade do homem no
Para Jaspers, a existência não é uma forma do Ser, mas uma forma da liber- mundo e assim se torna "a semente, mesmo pequena, da criação de um mundo".
dade humana, a forma em que "o homem como espontaneidade potencial Para Jaspers, o pensar tem a função de levar o homem a certas experiências
rejeita a concepção de si mesmo como mero resultado". A existência não é o ser em que o próprio pensar (mas não o homem pensante) falha. No fracasso do
do homem como dado e enquanto tal: pelo contrário, "o homem é, no Dasein, pensamento (mas não do homem), o homem - que, como ser real e livre, é mais
uma existência possível". A palavra "existência", aqui, significa que o homem do que o pensamento - vivencia aquilo que Jaspers chama de "cifra da trans-
alcança a realidade apenas à medida que age a partir de sua liberdade radicada cendência". O fato de que essa transcendência seja vivida como cifra apenas no
na espontaneidade e "se conecta, por meio da comunicação, com a liberdade dos fracasso é sinal de uma existência que "percebe não só que não criou seu próprio
outros". Dasein e que, como Dasein, ela é impotente para impedir sua própria destruição
Isso confere um novo significado à indagação do Aquilo da realidade, que inevitável mas também que, mesmo como liberdade, ela não deve sua existên-
não pode ser reduzido ao pensamento sem perder seu caráter de realidade. O cia somente a si própria".
Aquilo de um Ser dado - quer seja a realidade do mundo, a imprevisibilidade O fracasso em Jaspers não deve ser confundido com o que Heidegger
de nossos semelhantes ou o fato de não ter sido eu a criar a mim mesmo - se .
chama de queda ou cair-dentro, e que o próprio Jaspers chama de "escorregar"
torna o pano de fundo do qual se distingue a liberdade humana; se torna, por (Abgleiten). Trata-se de um escorregar se afastando do ser humano real, uma
assim dizer, a matéria com a qual ela se inflama. O fato de eu não poder reduzir queda várias vezes descrita por Jaspers, explicando-a em termos psicológicos,
a realidade ao pensamento se torna o triunfo de minha liberdade potencial. Em mas sem a considerar (como faz Heidegger) um fenômeno estruturalmente ine-
termos paradoxais: somente porque não fiz a mim mesmo é que sou livre. Se eu vitável. Para Jaspers, qualquer antologia que se pretende capaz de dizer o que de
tivesse me feito, eu poderia me prever e, portanto, teria me tornado não-livre. fato é o Ser escorrega para uma absolutização das categorias individuais do ser.
Sob essa luz, a questão do sentido do Ser pode ficar em suspenso, permitindo a O significado existencial desse escorregar seria roubar a liberdade ao homem, a
seguinte resposta: "o Ser é constituído de maneira tal que é possível o Dasein': qual só pode ser mantida se o homem não sabe o que de fato é o Ser.
Adquirimos consciência do Ser avançando mentalmente do "mundo ima- Em termos formais: o Ser é transcendência, e como tal é uma "realidade
ginado do apenas pensável" até o limite da realidade, que já não pode ser apreen- que não pode ser transformada em potencialidade", uma realidade que não

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posso imaginar como não-ser - o que posso imaginar a respeito dos seres indi- explicar tudo monisticamente, na base de um princípio único, ou seja, na base
viduais. Enquanto meu pensar não corresponde ao Aquilo da realidade, eu vivo dessa substância onipresente. Pelo contrário, podemos aceitar a "fragmenta-
o "peso da realidade". O fracasso do pensamento, portanto, é a condição que ção do Ser" (contexto em que o Ser já não significa mais o Ser das ontologias),
torna possível a existência, a existência livre que está sempre tentando trans- e podemos acolher o sentido moderno de alienação no mundo e o desejo
cender esse mundo meramente dado - a condição que permite que a existên- moderno de criar, num mundo que já não é um lar para nós, um mundo
cia, deparando-se com o "peso da realidade", consiga entrar na realidade e per- humano que possa se tornar nosso lar. É quase como se o conceito do Ser como
tencer a ela da única maneira pela qual os seres humanos podem lhe pertencer, o "Oniabrangente" permitisse esboçar em largos traços uma ilha onde o
ou seja, escolhendo-a. homem, não mais ameaçado pela aura sombria e inexplicável que, na filosofia
Ao falhar, o homem aprende que não pode conhecer nem criar o Ser, e por- tradicional, se prendia a todos os seres como uma qualidade extra, finalmente
tanto não é Deus. Essa experiência lhe mostra as limitações de sua existência, pudesse ter rédeas livres.
cuja extensão ele tenta definir com o ftlosofar. Por não conseguir transcender As dimensões dessa ilha de liberdade humana são marcadas pelas situa-
todos os limites, ele vivencia a realidade que lhe está dada como a cifra de um Ser ções-limite em que o homem vivencia as limitações que determinam direta-
que ele não é. mente as condições de sua liberdade e lhe dão a base para suas ações.A partir
A tarefa da filosofia é libertar o homem "do mundo ilusório do que é ape- dessas dim~nsões, ele pode "iluminar" sua existência e definir o que pode e não
nas pensável" e deixá-Io "encontrar seu caminho para a realidade". O pensa- pode fazer. E assim ele pode passar do mero "ser- um -resultado" para a "existên-
mento ftlosófico nunca pode contornar o fato de que a realidade é irredutível ao cia",a qual, para Jaspers, é apenas um outro termo para o ser humano num sen-
que pode ser pensado; na verdade, o próprio objetivo do pensamento ftlosófico tido determinado.

é "intensificar [...] o intelectualmente irredutível". E isso é tanto mais premente A existência em si, por sua própria natureza, nunca é isolada. Existe ape-
na medida em que a "realidade do pensador precede seu pensar", e é apenas sua nas na comunicação e na consciência da existência dos outros. Nossos seme-
verdadeira liberdade que determina o que ele irá ou não irá pensar. lhantes não são (como em Heidegger) um elemento da existência que, embora
Não é possível captar a real essência da ftlosofia de Jaspers numa apresen- estruturalmente necessário, é ao mesmo tempo um impedimento ao Ser do
tação como esta, porque ela se encontra primariamente nos movimentos e Eu. Muito pelo contrário: a existência só pode se desenvolver na vida compar-
caminhos tomados por seu próprio ftlosofar. Por esses caminhos Jaspers tem tilhada dos seres humanos que habitam num mundo dado, comum a todos
abordado todas as questões básicas da ftlosofia contemporânea, mas sem res- eles. No conceito de comunicação encontra-se um novo conceito de humani-
ponder ou resolver nenhuma delas. Ele como que mapeou as trilhas que o ftlo- dade, cuja abordagem, mesmo ainda não plenamente desenvolvida, postula a
sofar moderno deve percorrer, se não quiser terminar nos becos sem saída de um comunicação como a premissa para a existência do homem. Dentro do Ser
fanatismo positivista ou niilista. "oniabrangente", os seres humanos vivem e agem entre si; assim procedendo,
Entre esses caminhos, o mais importante parece ser o seguinte: o Ser não perseguem o fantasma do Ser, nem vivem na ilusão arrogante de consti-
enquanto tal não é cognoscível; pode apenas ser vivenciado como algo "oni- tuírem o próprio Ser.
abrangente". Desse modo, torna-se supérflua a antiga busca ontológica que, O movimento da transcendência no pensamento, um movimento básico
por assim dizer, ficava vigiando os seres na esperança de encontrar o Ser, como para a natureza do homem, e o fracasso do pensamento intrínseco a esse movi-
se o Ser fosse uma substância mágica onipresente que torna presente tudo o mento nos levam, quando menos, a reconhecer que o homem como "senhor de
que é e que se manifesta lingüisticamente na palavrinha "é". Uma vez liberto o seus pensamentos" não só é mais do que pensa - e é provável que isso, por si só,
mundo concreto desse espectro do Ser e da ilusão de sermos capazes de conhe- fornecesse uma base suficiente para uma nova definição da dignidade huma-
cer esse espectro, a filosofia também se viu liberta da necessidade de ter de na - como também é constitutivamente um ser que é mais do que um Eu e

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quer mais do que a si mesmo. Com essa compreensão, a filosofia da existência
emergiu de seu período de preocupação com a Eu-dade. o existencialismo francês

Publicado em alemão como "Was ist Existenz-Philosophie?'; em


Hannah Arendt, SechsEssays, Heidelberg, 1948. Uma tradução para o inglês, "What is
Existenz Philosophy?'; foi publicada na Partisan Review, XVIII/1, 1946.
A tradução para o inglês é de Robert e Rita Kimber.

Uma palestra sobre filosofia provoca um tumulto, centenas se aglome-


rando para entrar e milhares indo embora. Livros sobre problemas filosóficos
que não pregam doutrinas baratas e não oferecem nenhuma panacéia - pelo
contrário, tão difíceis que requerem uma verdadeira reflexão - vendem como
romances policiais. Peças teatrais em que a ação é composta de palavras, não de
enredo, e que apresentam diálogos de reflexões e idéias, permanecem meses em
cartaz e são assistidas por multidões entusiásticas. Análises da situação do
homem no mundo, dos fundamentos das relações humanas, do Ser e do Vazio,
não só geram um novo movimento literário como aparecem como possíveis
diretrizes para uma nova orientação política. Filósofos se tornam jornalistas,
dramaturgos, romancistas. Não são docentes universitários, mas "boêmios" que
moram em hotéis e vivem nos cafés -levando uma vida pública de repúdio à
privacidade. E nem mesmo o sucesso, ao que parece, consegue convertê-Ios em
chatos respeitáveis.
É o que está acontecendo, segundo todas as notícias, em Paris. Se a Resis-
tência não conseguiu fazer a revolução na Europa, parece ter gerado, pelo menos
na França, uma autêntica revolta dos intelectuais, cuja docilidade diante da
sociedade moderna era um dos aspectos mais tristes do triste espetáculo da
Europa no período entre guerras. E o povo francês, por enquanto, parece consi-
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