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Parte I - Conceitos e Vivências

Versão eBook brasileira baseada em trechos extraídos e traduzidos,


adaptados e ilustrados do livro: IKIGAI Los secretos de Japón para una
vida larga y feliz (Ed. Urano) de Héctor Garcia (Kirai) e Francesc Miralles,
que autorizou o uso não comercial dos textos, e outras fontes.
Índice

PARTE 1: CONCEITOS E VIVÊNCIAS

Introdução RAZÃO DE SER 3


Ikigai: Uma palavra misteriosa

Capítulo 1 CONSCIÊNCIA 7
Como viver mais e envelhecer sempre jovem, produtivo e feliz

Capítulo 2 PROPÓSITO 14
Como encontrar sua razão de ser e dar sentido a sua vida

Capítulo 3 FLUIDEZ 29
Como converter trabalho e tempo livre em crescimento interior

Capítulo 4 ENTUSIASMO 57
Como enfrentar problemas e mudanças sem stress e ansiedade

Capítulo 5 IKIGAI 71
Uma arte de viver (Viver em Ikigai)

Obs. Vá para página 74 para acessar a parte 2 deste eBook.

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Razão de Ser
Estamos vivendo um momento ideal para abordar temas filosóficos e psicológicos que
nos permitam entender este atual quadro social, político e econômico, angustiante,
caótico e deprimente. Assim, as questões existenciais assumem um lugar importante
nas nossas reflexões diárias e escolhas conscientes sobre nossas opções de felicidade
e qualidade de vida, que dispomos nesta sociedade cada vez mais fria e materialista.

Na busca pela minha razão de ser, descobri há algum tempo esta palavra japonesa:
IKIGAI. Logo comecei a pesquisar profundamente sobre o assunto e fiquei surpreso
com a falta de informação e raríssima literatura existente no mundo sobre este tema.
Era como se o IKIGAI fosse um segredo guardado a sete chaves.

Este conceito da cultura oriental faz parte da essência das pessoas de lá e é tão difícil
explicá-lo a um ocidental como quando, nós brasileiros, tentamos explicar a um
estrangeiro o que é “saudade” e definir a alegria e tristeza que contagia a todos em
nosso país, quando falamos de carnaval ou futebol.

Ao finalmente encontrar um livro falando de IKIGAI de uma forma simples, agradável


e fácil de entender, não resisti a tentação de traduzí-lo e incorporar ilustrações, textos
complementares e links para estudo.

Começei esse trabalho objetivando meu próprio desenvolvimento, sob um ímpeto que
depois soube que era puro fluxo (flow), mas na medida em que fui incorporando uma
atitude IKIGAI, decidi compartilhar esse conteúdo com todos que se interessarem pelo
tema, e assim ajudar a propagar esta maravilhosa filosofia pelo mundo, através desta
pequena contribuição para a conscientização de todos que buscam sua razão de ser.

Este livro não pretende ser um tratado filosófico ou psicológico sobre IKIGAI. É apenas
uma compilação de vários conceitos que mesclam a cultura oriental com a ocidental e
constitui a base para entender melhor esta forma de viver com propósito.

Com o tempo, pretendo incluir novos textos, mais comentários, links e tudo que for
interessante e pertinente ao tema IKIGAI. Caso você leitor, precise mais informações
sobre o assunto ou queira discutir temas ou ainda, contribuir com textos, artigos e
comentários, por favor, entre em contato pelo meu e-mail: fredlar.br@gmail.com

Vamos juntos viver em IKIGAI.

Frederico Lobato
Mentor e Conselheiro IKIGAI

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Ikigai: Uma palavra misteriosa
Este livro começou a ser escrito em uma noite chuvosa em Tóquio,
quando dois amigos psicólogos, Héctor Garcia e Francesc Miralles, se
encontraram em um dos minúsculos bares que proliferam na cidade.

Lá eles conversaram sobre correntes psicológicas, especialmente


sobre a logoterapia, que quer dizer, a terapia do significado da vida, e
nessas conversas surgiu o nome de Victor Frankl e a pouca presença
de sua abordagem nas consultas, em comparação com outras escolas
psicológicas, sendo que pessoas continuam buscando um significado
a respeito do que fazem e vivem, e fazendo questionamentos como:

- Qual o sentido da minha vida?

- Estou apenas contando os dias da minha existência ou tenho uma


missão mais elevada no mundo?

- Por que existem pessoas que sabem o que querem e vivem com
paixão, enquanto outras mergulham e definham na confusão?

Em algum momento da conversa, surgiu a palavra misteriosa: ikigai.

Eles constataram que este conceito japonês, que se traduz de uma


forma simples como: “a felicidade de estar sempre ocupado”, tem
íntima relação com a logoterapia, porém vai mais além, pois parece
este conceito seria uma das razões que explica a extraordinária
longevidade dos japoneses, sobretudo na ilha de Okinawa.

O número de centenários em Okinawa por cada 100.000 habitantes é


de 23,55, ou seja, muito superior à média mundial.

Quando se estudam os motivos pelos quais os habitantes desta ilha


ao sul do Japão vivem mais que nenhum outro lugar do mundo,
acredita-se que, além da alimentação, a vida agradável ao ar livre, o

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chá verde ou o clima subtropical (a temperatura média é parecida
com o Havaí), uma das principais razões é o ikigai que rege sua vida.

Investigando sobre este conceito, os dois psicólogos se deram conta


que nunca havia sido publicado, seja do ponto de vista da psicologia
ou de desenvolvimento pessoal, um trabalho que estudasse esta
filosofia para transportá-la ao ocidente.

É o ikigai responsável pelo fato de que em Okinawa exista mais


centenários que em nenhum outro lugar? Como seus habitantes são
inspirados a permanecer ativos até o fim de suas vidas? Qual é o
segredo de uma existência longa e feliz?

Enquanto explorávam este conceito, Héctor Garcia e Francesc


Miralles constataram que em Okinawa há um povo em especial que
vive ao norte da ilha, em uma localidade rural com 3.000 habitantes
chamada Ogimi, que detém o maior índice de longevidade do mundo
e é conhecida como “a aldeia dos centenários”.

Assim, os dois psicologos foram até Ogimi para pesquisar os segredos


desse povo, cujos anciões vivem ativos e satisfeitos até o fim dos seus
dias. Nesta aldeia, além de falarem uma língua ancestral, os nativos
praticam uma religião animista que tem como figura central um
duende mitológico do bosque com longa cabeleira: o Bunagaya.

A falta de infraestrutura obrigou-os a ficar a 20 quilômetros do


povoado. Ao lá chegar, eles já perceberam a extraordinária
amabilidade dos seus habitantes, que riam e brincavam o tempo
todo, em meio as verdes encostas regadas por água pira e cristalina.

Em Ogimi cresce a maior parte da shikuwasa do Japão, os limões de


Okinawa, aos quais se atribui um grande poder antioxidante. Seria

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esse o segredo da longevidade dos habitantes de Ogimi? Ou seria a
água pura com a qual eles fazem o chá de moringa?

Enquanto faziam as entrevistas com os mais velhos do lugar, eles


descobriram que havia algo muito mais profundo que o poder da
água, dos limões e de quaisquer outros produtos da terra. Um dos
motivos essenciais estava na alegria incomum que irradiava dos
nativos e guiava suas vidas por um caminho longo e prazeroso.

Novamente surge a palavra misteriosa: ikigai. Porém, o que ela


exatamente significa? Onde e como se pode adquiri-la?

O surpreendente é que em Okinawa, este tranquilo lugar de vida


quase eterna, 200.000 vidas inocentes foram ceifadas no final da
Segunda Guerra Mundial. Em vez de guardar rancor dos invasores, os
okinawenses recorrem a “ichariba chode”, uma expressão local que
pode ser traduzida assim: “trate a todos como se fossem seus irmãos
mesmo que seja a primeira vez que os conhecerem”.

Outro dos segredos dos habitantes de Ogimi é seu sentido de


pertencer a sua comunidade. Desde pequenos praticam o yuimaaru,
o trabalho em equipe, que os leva a ajudarem-se uns aos outros.

Além de cuidar das amizades, alimentação leve, descanso adequado


e exercício suave, os pesquisadores descobriram que no centro dessa
“joie de vivre” (alegria de viver que motiva a celebração de cada
amanhecer por anos seguidos), está o ikigai pessoal de cada um.

Entre os vários segredos desses centenários japoneses para uma vida


saudável e feliz, este livro apresenta métodos e ferramentas para
inspirar quem quer descobrir seu ikigai, pois quem o encontra
carrega dentro de si tudo que é necessário para ter uma vida
significativa, produtiva, longa e feliz.

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CONSCIÊNCIA
Como viver mais e envelhecer sempre jovem, produtivo e feliz

Qual a sua razão de ser?


Segundo os japoneses, todo mundo tem um ikigai, o que um filósofo
francês traduziria como raison d´être. Alguns o encontraram e são
conscientes de seu ikigai, outros o carregam dentro de si, mas ainda o
estão buscando.

O ikigai está escondido em nosso interior e requer uma paciente


exploração para chegar ao ponto mais profundo do nosso ser e
encontrá-lo. Segundo os naturais de Okinawa, o ikigai é a razão pela
qual nos levantamos pela manhã.

Ter um ikigai claro e definido, uma grande paixão, dá satisfação,


felicidade e significado para a vida. Neste livro você vai entender
como encontrá-lo, além de descobrir muitas chaves da filosofia
japonesa para uma longa saúde do corpo, mente e espírito.

Um dos aspectos que surpreendem quando se vive por um tempo no


Japão é ver como as pessoas são ativas, mesmo depois de se
aposentarem. Na verdade, um grande número de japoneses nunca se
aposenta, seguem trabalhando naquilo que gostam, sempre e até
quando a sua saúde permitir.

Não existe uma palavra em japonês que signifique aposentar-se com


o exato significado de “deixar de trabalhar para sempre”, como temos
aqui no ocidente. Assim, como afirma Dan Buettner, jornalista da
National Geographic que conhece bem o Japão, “ter um propósito
vital é tão importante nesta cultura que, por isso, eles não têm nosso
conceito de aposentadoria”.

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A ilha da (quase) eterna juventude
Estudos sobre a longevidade sugerem que a vida em comunidade e
ter um ikigai claro são tanto ou mais importantes que a saudável
dieta japonesa. O conceito que vamos explorar neste livro está
especialmente arraigado em Okinawa, uma das chamadas “zonas
azuis”, os lugares do mundo onde as pessoas são mais longevas.

Arquipélago de Okinawa
O arquipélago é dividido em três grupos menores de ilhas: Okinawa -
- onde estão a capital Naha e as ilhas Kerama, Tokashiki, Ie e Kume --,
Miyako e Yaeyama -- formada pelas ilhas Iriomote e Ishigaki. Cada
uma tem uma arquitetura um tanto distinta das demais, seus próprios
costumes e palavreado próprio. As ilhas oferecem uma cultura bem
distinta do resto do Japão, com vários ateliês de cerâmica e
artesanato, academias de karatê (Okinawa é a pátria do esporte),
oficinas que produzem o sanshin e construções históricas belíssimas.
Saiba Mais: http://www.utinapress.com.br/cultura_6.html

Nesta ilha existem mais pessoas com mais de 100 anos por 100.000
habitantes do que em qualquer outra região do planeta. As pesquisas
médicas em curso têm levantados dados muito interessantes a
respeito das características destes seres humanos extraordinários.

• Além de viverem muitos anos a mais do que o resto da população


mundial, eles padecem menos enfermidades crônicas como o
câncer ou doenças cardíacas. As infecções inflamatórias também
são menos comuns.

• Existem numerosos centenários com um invejável nível de


vitalidade e um estado de saúde que seria impensável para anciões
de outras regiões do mundo.

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• Seu sangue apresenta um nível mais baixo de radicais livres,
responsáveis pelo envelhecimento celular, devido à cultura do chá
e ao costume de ingerir somente 80% da quantidade de comida
necessária para saciar seu estômago.

• A menopausa nas mulheres é muito mais suave e, em geral,


homens e mulheres mantém um nível elevado de hormônios
sexuais até idades muito avançadas.

• Os casos de demência apresentam também um índice


notavelmente mais baixo que a média da população mundial.

Todos estes aspectos serão aqui abordados, porém os pesquisadores


ressaltam que um dos itens que mais contribui para a saúde e
longevidade dos habitantes de Okinawa é a sua atitude “ikigai”
perante a vida, com sua incessante busca diária de sentido profundo.

Caracteres do IKIGAI
Os dois primeiros caracteres significam “vida”.
Os dois seguintes juntos significam “valer a
pena” e individualmente o primeiro significa
“armadura”, “número um”, “ser o primeiro a ir (na frente da batalha
levando a iniciativa e liderança)”, o final significa “elegante”, “belo”.

As cinco zonas azuis


Pesquisando as regiões onde existem muitos casos de longevidade
alta, Dan Buettner identificou cinco zonas, onde a número um fica em
Okinawa, no Japão, onde especialmente as mulheres são as que têm
uma existência mais longa, e sem enfermidades, do mundo.

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As Zonas Azuis
O livro, ainda sem edição em português, trata dos locais no mundo onde
as pessoas são mais longevas. Revela a receita misturando na fórmula o
estilo de vida saudável com as últimas descobertas científicas para mostrar
para o leitor que todos podem adicionar alguns anos em sua existência.

Saiba Mais: https://pt.wikipedia.org/wiki/Zonas_Azuis

As cinco regiões identificadas e analisadas por Buettner são:

1. Okinawa, Japão (em particular, ao norte da ilha).


Sua dieta inclui muitas verduras e tofu. Comem em pratos
pequenos. Em seu estilo de vida, além da filosofia ikigai, é
importante o conceito de moai, que veremos a seguir.

2. Sardenha, Itália (especialmente em Nuoro e Ogliastra).


Consomem muitas verduras e vinho. São comunidades muito
unidas, nas quais se verifica grande incidência de longevidade.

3. Loma Linda, California.


Foi estudado um grupo de adventistas do Sétimo Dia, que estão
entre os mais longevos dos Estados Unidos.

4. Península de Nicoya, Costa Rica.


Muitos nativos superam os 90 anos com uma vitalidade
incomum. Grande parte dos anciãos se levantam às 05:30 para
realizar as tarefa do campo sem grandes dificuldades.

5. Icaria, Grécia.
Próximo à costa turca, um em cada três habitantes desta ilha
têm mais de 90 anos, o que lhe valeu o apelido de “ilha da
longevidade”. Supõe-se é que o segredo dos nativos desta ilha
remonta a um estilo de vida que existe desde 500 A.C.

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Fatores comuns nestas zonas parecem conter as chaves da
longevidade. Okinawa, que conta com a chamada “aldeia de
centenários”, é parte significativa desse estudo. Interessante notar
que três destas zonas são localizadas em ilhas, onde existem menos
recursos e as comunidades devem ajudar-se entre si.

Ter que ajudarem-se uns aos outros pode se constituir para muitos
um ikigai suficientemente poderoso para seguir vivendo.

Segundo os cientistas que compararam as vidas nas cinco zonas azuis,


as chaves de uma vida longa são a dieta, o exercício, ter um propósito
de vida (um ikigai) e manter boas conexões sociais, ou seja, contar
com muitos amigos e boas relações dentro da família.

Estas comunidades gerenciam bem seu tempo para reduzir o stress,


comem pouca carne e alimentos processados e bebem álcool com
moderação.

O exercício que praticam não é extremo, porém se movimentam


todos os dias para passear e trabalhar na horta. Os habitantes das
zonas azuis preferem caminhar a subir num carro. Em todas elas é
muito comum a atividade de jardinagem, que requer movimento
físico a cada dia, porém de baixa intensidade.
Saiba Mais: https://eduardojunior.wordpress.com/tag/moai/

O segredo dos 80%


Um dos refrãos mais populares em Okinawa é “Hara hachi bu”, que
se fala antes ou depois de comer e significa algo assim como “barriga
nos 80 por cento”. A sabedoria ancestral recomenda não comer até
incharmos. Por isso, eles deixam de comer quando sentem que seu

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estomago está a 80% de saciar-se, evitando assim que o corpo se
desgaste e acelere a oxidação celular, com uma longa digestão.

Talvez algo tão simples como isto seja um dos segredos de vida longa
dos okinawenses. Sua dieta é rica em alimentos saudáveis e
antioxidantesm tais como: tofu, batatas doces, peixes (três vezes na
semana) e muitas verduras (300 gramas ao dia).

A forma que servem a comida também é importante. Ao dividi-la em


vários pratinhos, os japoneses tendem a comer menos e mesmo os
ocidentais no Japão tendem a perder peso e se manterem esbeltos.

Estudos recentes de nutricionistas revelam que o consumo diário dos


okinawenses é de aproximadamente 1.800 a 1.900 calorias e seu
índice de massa corporal oscila entre 18 e 22, enquanto que nos
Estados Unidos a média é de 26 ou 27.

MOAI: laços para uma longa vida


Esta é uma tradição de Okinawa – e também de Kagoshima – para
formar laços fortes nas comunidades locais. O moai é um grupo
informal de pessoas com interesses comuns e que se ajudam entre si.
Para muitos, o serviço à comunidade se converte em seus ikigais.

Moai
Grupos de quatro ou cinco amigos que têm muita
confiança entre si e emprestam dinheiro ou alimentos
uns aos outros. Em Okinawa os moais modernos servem
para promover encontros regulares com os amigos.
Segundo estudo da Universidade Drexel (EUA), idosos
com menos vida social são mais propensos a morrer de
doenças cardíacas e câncer.

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A origem dos moais vêm de tempos difíceis, quando os agricultores
se juntavam para trocar informações sobre as melhores formas de
cultivar, assim como para ajudarem uns aos outros no caso de que a
colheita não fosse boa naquele ano.

Os membros de um moai pagam um valor mensal estabelecido. Este


pagamento permite participar de reuniões, jantares, partidas de go,
shogi (xadres japonês) e desfrutar de qualquer passatempo comum.

O dinheiro de todos é usado nas atividades e, se for acumulado em


demasia, um membro (rotativo) recebe uma quantidade de dinheiro.
Saiba Mais: http://tupidataba.blogspot.com.br/2005/04/tanomoshi-consrcio-de-dinheiro.html

O moai ajuda a manter a estabilidade financeira e emocional do


grupo. Se alguém ficar com dificuldades financeiras, o grupo pode
adiantar o pagamento da poupança para ajudar um membro.

As regras específicas da contabilidade de cada moai variam segundo


o grupo e suas possibilidades econômicas. A contabilidade do moai se
registra em um livreto chamado moaicho.

Este sentimento de pertencimento e ajuda, fornece segurança à


pessoa e contribui para aumentar sua espectativa de vida.

“Somente em atividade você irá desejar viver cem anos”


Provérbio Japonês

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PROPÓSITO
Como encontrar sua razão de ser e dar sentido à sua vida

A razão de ser na Logoterapia


Um colega de Frankl definiu a psicanálise assim: “Na psicanálise, o
paciente se deita em um divã e lhe fala coisas que, às vezes, são
muito desagradáveis de dizer”. Quando ele pediu que Frankl definisse
a logoterapia em uma só frase, ele respondeu: “Pois bem, na
logoterapia, o paciente fica sentado, ereto, e você tem que escutar
coisas que, às vezes, são muito desagradáveis de ouvir”.

Uma das perguntas iniciais que Frankl que fazia a seus pacientes era:
“Por que você não se suicida?”. Geralmente os pacientes encontravam
bons motivos para não fazê-lo e seguir adiante.

Então, o que faz a logoterapia? A resposta é bem clara: encontrar


motivos para viver. A logoterapia impulsiona o paciente a descobrir
conscientemente o sentido da sua vida para enfrentar suas neuroses.

A luta pessoal para alcançar seu destino irá motivar o paciente a os


obstáculos que encontrar pelo caminho.

Em Busca de Sentido
Esta magnífica obra de Viktor Frankl (1946) retrata suas experiências
como prisioneiro em um campo de concentração e descreve seu
método psicoterapêutico de como encontrar uma razão para viver. A
primeira parte do livro constitui as experiências de Frankl nos campos
de concentração, e a segunda parte é uma introdução à Logoterapia.

Saiba Mais: https://www.youtube.com/watch?v=e5878lMpVkc

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Em busca de sentido
Considerando que para Frankl o homem é capaz de viver e morrer
por seus princípios e ideias, a busca do sentido se converte em uma
força primária e pessoal que permite ao homem atingir os seus
objetivos.

Podemos resumir o processo da logoterapia em cinco passos:

1. O paciente sente um vazio, uma frustração ou ansiedade

2. Começa a sentir um desejo por ter uma vida significativa

3. Descobre o sentido de sua existência (nessa sua fase de vida)

4. Voluntariamente, escolhe entre aceitar ou não esse destino

5. Esse novo impulso vital o faz enfrentar problemas e obstáculos

A experiência vital de ser prisioneiro em Auschwitz, fez com que


Viktor Frankl entendesse que "tudo pode ser tirado de uma pessoa,
exceto uma coisa, a última das liberdades humanas: a escolha do seu
próprio caminho." Era um processo que ele tinha que viver ele
mesmo e sem ajuda, mas que o inspirou para o resto da sua vida.

Lutar por si mesmo


A frustração existencial aparece quando se detecta a ausência ou
distorção de sentido sobre a vida. Porém para Frankl, esta frustração
não é anormal ou um sintoma de neurose, e pode ser até, em certo
grau, um estímulo positivo para modificar aspectos da própria vida.

A logoterapia não considera esta frustração uma doença mental,


como outras terapias, senão uma angústia espiritual.

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Para Frankl, o conflito espiritual é um fenômeno natural e benéfico
para o ser humano, porque estimula quem sofre a buscar um
remédio, seja com ajuda externa ou pelos seus próprios meios, e
assim alcançar uma maior satisfação vital. Em suma, ajuda a
transformar o próprio destino.
Quando uma pessoa necessita de apoio, a logoterapia entra em ação
ajudando o paciente a descobrir o sentido da sua vida, o guiando
através do seu conflito, e avançando até atingir seu objetivo. Frankl
sempre citava um frase célebre de Nietzche, que dizia que “quem
sabe porquê se vive, suporta qualquer tipo de como se vive”.
Segundo sua própria experiência, Frankl opinava que é saudável ter
certas doses de tensão natural, que surgem quando se analisa o que
se alcançou até o momento e o que se quer conseguir alcançar para
frente. “O ser humano não necessita de uma existência tranquila, e
sim de desafios pelos quais terá que usar sua capacidade e lutar.”
O vazio existencial, por outra parte, é típico das sociedades modernas
nas quais os homens fazem o que os outros homens lhe dizem para
fazer, em vez daquilo que eles desejariam fazer. Muitas vezes este
vazio tenta se preencher com poder econômico, prazer físico ou
entorpecimento mental. Pode inclusive levar ao suicídio.
A neurose do domingo, por exemplo, aparece quando, ao suspender
as obrigações e a rotina apressada da semana, a pessoa se dá conta
do vazio que há no seu interior. Então ao vivenciar esta situação surge
a conscientização de que é preciso buscar soluções e, sobretudo, um
“propósito”, um motivo pelo qual tenha que se levantar da cama.

Entrevista com Viktor Frankl


A descoberta de um sentido no sofrimento
https://www.youtube.com/watch?v=ilRNmwNvuWk

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10 DIFERENÇAS ENTRE A PSICANÁLISE E A LOGOTERAPIA

PSICANÁLISE LOGOTERAPIA

O paciente se deita em um divã, O paciente se senta em frente ao


como um paciente a ser tratato terapeuta, o qual o guia sem julgar

É retrospectiva, olha o passado Olha em direção ao futuro

É introspectiva, analisa a neurose. Não investiga a neurose do paciente

A vontade é a do prazer A vontade é a do sentido

É centrada na dimensão psicológica. Adentra na dimensão espiritual.

Funciona para a neurose Funciona também para as neuroses


psicogênica (impulsos-instintos) noógenas (princípios-princípios).

Analisa a origem inconsciente dos Trata os conflitos desde onde e quando


conflitos (dimensão instintiva) eles surgem (dimensão espiritual)

Engloba também as realidades


Se limita aos atos instintivos
espirituais

É essencialmente incompatível É compatível com a fé e os princípios


com a fé cristãos sobre a essência humana

Busca conciliar os conflitos e Busca que o homem dê sentido a sua


satisfazer os impulsos e instintos. vida e satisfaça seus princípios morais.

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Encontrar o significado da vida, como defende a logoterapia, dá ao
ser humano razões para preencher esse vazio. Para Frankl, o homem
que enfrenta seus problemas e converte os seus objetivos em
atividades, ao ficar mais velho, pode olhar para trás com paz em seu
interior. Ele não irá invejar o vigor dos jovens, porque terá um tal
acúmulo de vivências e experiências, que lhe darão a certeza de que
ele viveu por e para algo significativo.

“Me Sinto Vazio”


Depois de fazer um estudo no Hospital Policlínico
de Viena, a equipe de Frankl descobriu que 55%
dos pacientes pesquisados demonstravam algum
grau de vazio existencial.

Algumas chaves da logoterapia para uma vida melhor


• O homem não inventa o sentido da sua existência, como declara
Sartre, ele o descobre.

• O sentido da vida é próprio de cada indivíduo, e pode reconverter-


se e mudar muitas vezes ao longo dos anos.

• Da mesma forma que o medo faz com que se produza aquilo que se
teme, a excessiva atenção/confiança (hiperatenção) sobre aquilo
que se deseja, faz com que não se alcance o objetivo desejado.

• O humor ajuda a desbloquear círculos viciosos e liberar ansiedades.

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• O ser humano tem a capacidade de agir de forma nobre e de forma
vil indistintamente. A postura adotada dependerá de suas decisões
e não de suas condições.

Em seguida, veremos quatro casos do consultório de Viktor Frankl


para entender sua terapia para a busca de sentido.

O caso do próprio Frankl


Tanto nos campos de concentração alemães como posteriormente
nos japoneses e coreanos, os psiquiatras puderam constatar que os
detentos com mais probabilidades de sobrevivência eram os que
tinham metas para cumprir fora dos campos, e que sentiam a
necessidade de sair dali com vida.

Esse foi o caso de Frankl, que antes de ser solto e desenvolver com
êxito sua escola da logoterapia, se deu conta de que ele mesmo havia
sido paciente de sua própria terapia.

Frankl tinha um objetivo a cumprir que o fez seguir adiante. Ao ser


preso inicialmente no campo de Auschwitz, lhe confiscaram um
manuscrito onde ele tinha desenvolvido suas teorias e pesquisas, e
que estava pronto para ser publicado.

Ao perder de vez seu manuscrito, Frankl sentiu a necessidade de


reescrevê-lo, e aquilo lhe deu um impulso e um sentido na sua vida
entre os horrores e as incertezas constantes dos campos de
concentração. Tanto assim que ao passar dos anos, especialmente
quando esteve doente de tifo, foi anotando em pedaços de papel que
encontrava os fragmentos e palavras chave da obra perdida.

Veremos a seguir os casos mais célebres que Frankl atendeu em suas


consultas, e que nos permitem entender a prática da logoterapia.

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O caso do diplomata americano
Um importante diplomata norte-americano
procurou Frankl para dar continuidade a um
tratamento iniciado cinco anos atrás em seu
país de origem.

Frankl lhe perguntou por que ele iniciou essa


terapia tempos atrás, o diplomata respondeu
que se sentia desgostoso com seu trabalho e
com a política exterior de seu país, que devia
cumprir e fazer cumprir.

Seu psicanalista americano, com quem havia feito anos de terapia,


tinha insistido que ele se reconciliasse com o seu pai, considerando
que o seu trabalho no governo lhe parecia tão desagradável, por se
constituira em representações da figura paterna.

Após poucas sessões, Frankl lhe fez ver que sua frustração era porque
ele desejava dedicar-se a outra profissão, e o diplomata terminou seu
tratamento com essa ideia em mente.

Cinco anos depois, Frankl soube por um colega que o ex-diplomata


estava trabalhando há tempos em outra área e se sentia muito feliz.

Frankl afirmava que este homem, além de não ter necessidade de


cinco anos de psicanálise, também não podia sequer se considerar
um “paciente” com necessidade de terapia.

Simplesmente estava em busca de um propósito que daria um novo


sentido à sua vida. No momento que o encontrou, sua vida adquiriu
um significado profundo.

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O caso da mãe suicida
A mãe de um garoto que tinha morrido aos onze anos foi internada
na clinica de Frankl depois de tentar suicídio e tentar levar com ela
um outro filho. Foi este outro filho, paralítico desde a infância, quem
lhe impediu o ato. Ele já tinha encontrado sentido para sua
existência, e se sua mãe matasse os dois, não poderia cumprir sua
missão.

Em uma sessão de grupo, a mulher contou sua história. Para ajudá-la,


Frankl pediu a uma outra mulher que ela imaginasse uma situação
hipotética, na qual se encontrava em seu leito de morte, velha e rica,
porém sem filhos. A mulher afirmou que nesse caso ela consideraria
que sua vida teria sido um fracasso.

Ao pedir a mãe suicida a mesma reflexão


imaginando-se em seu leito de morte, ela
se deu conta de que havia feito tudo o que
era possível pelos seus dois filhos. E que
havia dado a seu filho paralítico uma boa
qualidade de vida, e ele se tornou uma
ótima pessoa, razoavelmente feliz.

E acrescentou chorando: “Quanto a mim, posso contemplar minha


vida passada, e ver que ela estava carregada de sentido e eu tentei
buscá-lo com todas as minhas forças. Eu fiz o melhor que eu sabia, fiz
o melhor que pude por meu filho. Minha vida não foi um fracasso!”.

Desta forma, ao imaginar-se em seu futuro leito de morte e olhar


para trás, a mão suicida encontrou o significado que, sem sabê-lo,
estava dando razão à sua existência.

12-06-2016 “Ikigai’ Ver. 1.0 Pág. 21


O caso do triste médico
Um médico experiente procurou Frankl para uma consulta porquê
não estava superando o trauma da morte da sua esposa, assim estava
sofrendo de uma profunda depressão que já fazia dois anos.

Em vez de dar-lhe conselhos ou analisar seu sofrimento, Frankl


perguntou ao médico o que haveria acontecido se em vez dela,
tivesse sido ele que falecesse em primeiro lugar. Espantado, o médico
respondeu que para ela teria sido horrível, que sua pobre esposa
teria sofrido ao extremo.

Frankl lhe respondeu: “Está vendo, doutor? Você a poupou de todo


esse sofrimento; porém agora tem que pagar por isso, sobrevivendo e
chorando sua morte”.

O médico não disse mais nada, porém saiu do consultório tranquilo,


depois de segurar a mão de Frankl entre as suas.

O próprio sofrimento, padecido no lugar de sua amada esposa, havia


dado um sentido para a vida do médico.

12-06-2016 “Ikigai’ Ver. 1.0 Pág. 22


A terapia Morita
Na mesma década que nascia a logoterapia, na verdade alguns anos
antes da sua criação, o japonês Shoma Morita criava sua própria
terapia baseada no propósito vital, destinada a tratar neuroses,
transtornos obsessivos compulsivos e stress pós traumático.

A Terapia Morita
Criada por Morita Shoma (contemporâneo de Sigmund
Freud) é um ramo da psicología clínica fortemente
influenciada pelo zen budismo. Consiste em um tratamento
psicológico sistemático baseado na filosofía oriental para tratar
transtornos de ansiedade.

Saiba Mais: http://www.francescmiralles.com/article/263

Shoma Morita era budista zen, além de psiquiatra, e sua terapia


exerceu grande influência espiritual no Japão.

Muitas terapias ocidentais buscam controlar ou modificar as emoções


e sentimentos dos pacientes. No ocidente geralmente aceitamos que
nossos pensamentos influem em como nos sentimos (sentimentos) e
estes influem em como atuamos. Por outro lado, a terapia Morita
busca nos ensinar a aceitar seus sentimentos sem tentar controlá-los,
já que os sentimentos irão mudar através da ação.

O fundamento da terapia Morita e também do zen é que “a ação é a


causa da mudança e, por conseguinte, não devemos tentar controlar
os pensamentos e sentimentos”. É um enfoque oposto ao ocidental,
que nos induz a primeiro controlar e modificar nossos maus
pensamentos, para depois mudar a forma como nos comportamos.

12-06-2016 “Ikigai’ Ver. 1.0 Pág. 23


A terapia Morita, além de aceitar as emoções, busca “criar” novas
emoções com base na ação. Segundo Morita, “Estas emoções se
aprendem através de experiências e a base de repetição”.

A terapia Morita não tenta eliminar os sintomas diretamente, visto


que ensina a aceitar com naturalidade nossos desejos, ansiedades,
medos e preocupações. Este terapeuta revolucionário dizia que “em
matéria de sentimentos, é melhor ser rico e generoso”, no sentido de
aceitá-los e deixá-los seguir seu caminho.

Sobre a questão de “deixar ir” os sentimentos negativos, Morita


explicava com esta fábula: “Se um burro está amarrado a um poste,
continua andando para tentar escapar, porém começa a dar voltas e
no final acaba imobilizado junto ao poste. O mesmo acontece com as
pessoas quando têm pensamentos recorrentes e obsessivos e
tentamos bloqueá-los com outros pensamentos”.

Princípios fundamentais da terapia de Morita


1. Aceite seus sentimentos. Se tivermos pensamentos obsessivos,
não devemos tentar controlá-los ou ignorá-los. Ao tentar fazer
isso, eles voltarão mais intensos. Um mestre zen, falando dos
sentimentos e emoções humanas, dizia: “Se tentamos eliminar
uma onda com outra onda de forma contínua, criaremos um mar
infinito de ondas”. Os sentimentos vêm a nós e devemos aceitá-
los. A chave está em lhes dar boas vindas. Morita costumava dizer
que as emoções são como o clima meteorológico: não podemos
exatamente prever nem controlar, simplesmente observar. Vale
citar o monge vietnamita Thich Nhat Hanh, que dizia: “Olá solidão,
como está hoje? Vem, senta aqui comigo que eu cuidarei de ti”.

12-06-2016 “Ikigai’ Ver. 1.0 Pág. 24


2. Faça o que deve ser feito. Não há necessidade de querer eliminar
sintomas, visto que a recuperação virá de forma espontânea.
Trata-se de focar o presente e, se estamos sofrendo, aceitar esse
sofrimento. E, sobretudo, evitar intelectualizar a situação. A
missão do terapeuta é provocar a atitude no indivíduo para que
ele possa enfrentar qualquer situação, e a atitude se forma com o
que se faz (ação). A terapia de Morita não explica nada aos
pacientes, deixa que eles mesmos aprendam através de suas
ações e atividades. Não te diz como meditar, nem como escrever
um diário... como fazem outras terapias ocidentais. É o paciente
que deve descobrir por si mesmo através de suas experiências.

3. Descubra seu propósito vital. Embora não possamos controlar


emoções, podemos estar no comando das ações de fazemos a
cada dia. Por isso devemos ter claro nosso propósito e ter sempre
presente o mantra de Morita: “O que necessitamos fazer agora?
Qual ação devemos praticar agora?”. A chave é ter a ousadia de
olhar para dentro de si mesmo para descobrir o próprio ikigai.

12-06-2016 “Ikigai’ Ver. 1.0 Pág. 25


As quatro fases da terapia Morita
O tratamento original de Shoma Morita, que durava de quinze dias a
três semanas, constava das seguintes fases:

1. Isolamento e Descanso (5 a 7 dias). A primeira semana de


tratamento, o paciente descansa em uma habitação sem nenhum
tipo de estímulo exterior. Sem televisão, sem livros, sem família,
sem amigos, sem falar. A única coisa que o paciente tem são os
próprios pensamentos. Está deitado durante a maior parte do dia.
Nesta fase, se recupera mental e fisicamente. O paciente é
visitado regularmente pelo terapeuta, que tenta evitar interação.
Simplesmente, aconselha o paciente a seguir observando os altos
e baixos das suas emoções enquanto está deitado. Quando o
paciente se cansa da situação e tem vontade de fazer coisas de
novo, estará pronto para passar para a fase seguinte da terapia.

2. Terapia Ocupacional Rápida (5 a 7 dias). Nesta segunda fase, o


paciente realiza tarefas monótonas em silêncio. Uma delas é
escrever um diário descrevendo seus pensamentos e sentimentos.
O paciente vai para fora depois de passar uma semana trancado,
dá passeios pela natureza e faz exercícios de respiração. Também
começa a realizar atividades simples como, por exemplo,
jardinagem ou desenho e pintura. Nesta fase, o paciente ainda
não pode falar com outros, exceto com seu terapeuta.

3. Terapia Ocupacional (5 a 7 dias). O paciente realiza tarefas que


requerem movimento físico. O doutor Morita gostava de levar
seus pacientes para cortar lenha na montanha, por exemplo. Além

12-06-2016 “Ikigai’ Ver. 1.0 Pág. 26


de tarefas físicas, o paciente também se envolve em outras
atividades como escrever, pintar, cerâmica.... O paciente já pode
falar com os demais, porém só se permite que ele fale sobre as
tarefas que está executando no momento.

4. Retorno ao mundo “real” e a vida social. O paciente sai do


hospital e se reintegra na vida social, porém mantendo as práticas
de meditação e terapia ocupacional que estava desenvolvendo no
hospital. A ideia é voltar para a sociedade como uma nova pessoa,
com um propósito próprio e sem ser controlado pela sociedade e
as emoções como uma marionete.

A meditação Naikan
Morita era um grande mestre zen de meditação introspectiva naikan.
Muitas das ideias de sua terapia foram extraídas do seu domínio e
conhecimento desta escola, que se baseia em três simples perguntas
que o praticante tem que fazer:

 O que eu recebi desta pessoa?

 O que dei para esta pessoa?

 Quais problemas eu causei a esta pessoa?

Através desta exploração, deixamos atribuir aos outros a causa dos


nossos problemas e aprofundamos a própria responsabilidade.

Como afirmava Morita, “Se estiver com raiva e quiser agredir alguém,
pense durante três dias antes de brigar. Ao fim de três dias, a intensa
emoção de querer brigar já haverá desaparecido de forma natural”.

Saiba Mais: http://naikan.tumblr.com/

12-06-2016 “Ikigai’ Ver. 1.0 Pág. 27


E agora, ikigai
Os princípios da Logoterapia e da Terapia Morita apontam para uma
experiência pessoal, intransferível, e que pode realizar-se sem
terapeutas e nem retiros espirituais: a missão de achar seu próprio
ikigai, teu combustível existencial para a vida. Uma vez descoberto, se
trata de ter coragem e fazer o esforço para não se perder no caminho.

Em seguida veremos algumas ferramentas básicas para empreender


esta jornada, fluindo com as tarefas que você definiu, alimentando-se
de modo equilibrado e consciente, praticando exercícios suaves e
aprendendo a não desmoronar perante as dificuldades. Para isso é só
aceitar que o mundo é um lugar imperfeito, como todos que nele
habitam, porém cheio de possibilidades de crescimento e realização.

Você está preparado para se dedicar àquilo que você AMA, a sua
paixão, como se não existisse nada mais importante no mundo?

Descubra

Seja Faça

Melhore

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FLUIDEZ
Como converter trabalho e tempo livre em crescimento interior

Fluir com a experiência


Imagine que você está esquiando em uma das suas pistas favoritas.
No seu caminho, flocos de neve saltam no ar como areia branca e
imaculada. As condições são perfeitas.

Toda sua atenção está concentrada no uso das suas habilidades para
esquiar o melhor possível. Você sabe exatamente qual movimento
fazer em cada momento. Não há passado nem futuro, só presente.

Você sente a neve, os esquis, teu corpo e tua consciência. Tudo se


une em uma só entidade. Está totalmente imerso na experiência, sem
pensar nem distrair-te com nenhuma outra coisa. Teu ego se dilui e te
converte em parte daquilo que está fazendo.

Este tipo de experiência é a que Bruce Lee descreveu com seu famoso
“Seja água, meu amigo”.

Entrevista com Bruce Lee


Seja água, meu amigo
https://www.youtube.com/watch?v=bz9iJoqC18k

Todos nós sentimos que perdemos a noção de tempo quando nos


deixamos envolver em uma atividade que amamos fazer.

12-06-2016 “Ikigai’ Ver. 1.0 Pág. 29


Começamos a cozinhar um jantar romântico e, quando nos damos
conta, várias horas se passaram.

Se estivermos concentrados lendo um bom livro, nos esquecemos das


preocupações da vida e acabamos até perdendo a hora do almoço.

Quando estamos praticando surf, não nos damos conta do número de


horas que estivemos desfrutando as ondas até o dia terminar.

Mas também pode acontecer justamente o oposto. Se temos que


realizar um trabalho ou uma tarefa que não gostamos, cada minuto
parece interminável e não paramos de olhar o relógio.

Einstein teria dito: “Se alguém senta em uma chapa quente por um
segundo, parecerá uma hora. Porém se uma bela mulher sentar no
seu colo por uma hora, parecerá um segundo. Isso é relatividade.”

O curioso é que se uma pessoa goste de fazer uma tarefa, outra pode
querer terminá-la o quanto antes, porque detesta fazê-la.

Porque gostarmos tanto de fazer algo, tanto que até nos esqueçemos
das preocupações diárias que temos em nossas vidas? Quais são
estes momentos em que as pessoas ficam tão absorvidas e tão
felizes?

O poder do “fluxo”
Estas perguntas Mihaly Csikszentmihalyi buscou responder em seu
estudo sobre o estado mental no qual as pessoas entram quando
imergem totalmente em uma tarefa. Ele chamou isso de estado de
fluir, flow em inglês, e o definiu assim: “O prazer, deleite, criatividade
e o processo no qual estamos imersos totalmente na vida”.

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Não há nenhuma receita mágica para conseguir a felicidade, para
viver o próprio ikigai, porém um dos ingredientes fundamentais é a
capacidade que temos de entrar neste estado de fluir para, através
dele, vivenciar uma “excelente experiência”.

Para isto, devemos dedicar mais tempo em atividades que nos façam
entrar em estado de fluir, em vez de nos deixarmos levar por aquelas
que nos dêem prazeres imediatos como: comer em excesso, abusar
de drogas e álcool ou nos empanturrar de chocolate vendo televisão.

O autor de Flow diz: “Fluir é o estado em que as pessoas entram


quando estão imersas em uma atividade e nada mais importa. A
experiência em si mesma é tão agradável que as pessoas a continuam
fazendo mesmo que tenham que sacrificar outros aspectos da vida,
somente pelo fato de fazê-la”.

Flow
Com o intuito de compreender o que leva o indivíduo a seu estado pleno
de satisfação e motivação intrínseca, o psicólogo Mihaly Csikszentmihalyi
desenvolveu a teoria do estado de flow, que representou grande
contribuição no campo da psicologia positiva e ainda hoje é considerada
uma das principais ferramentas para obtenção da felicidade e bem-estar.

Saiba Mais: https://www.youtube.com/watch?v=_4zK8fz_gi8

Não são apenas as profissões criativas que requerem grandes doses


de concentração e promovem a capacidade de fluir. A maioria dos
atletas, jogadores de xadrez ou engenheiros podem passar boa parte
do seu tempo em atividades que os fazem entrar no estado de fluir.

Segundo os estudos de Csikszentmihalyi, um jogador de xadrez sente


o mesmo quando entra em “fluxo” que um matemático tratando de
resolver um problema ou um cirurgião em plena operação. Este
professor de psicologia analisou dados de pessoas que viviam em

12-06-2016 “Ikigai’ Ver. 1.0 Pág. 31


diversas culturas e lugares do mundo, e descobriu que a experiência
de fluir é igual para qualquer pessoa, cultura e idade.

Seja em Nova York ou Okinawa, os nossos estados de fluir funcionam


de forma semelhante. O que acontece em nossa consciência quando
estamos nesse estado?

Ao fluir, estamos concentrados em uma tarefa muito concreta sem


nos deixarmos distrair por nada. Nossa consciência está “em ordem”.
O contrário ocorre quando tentamos fazer algo e temos a mente
distraída pensando em outras coisas.

Se você se questiona frequentemente ou demora muito tempo para


começar algo importante, exite uma série de técnicas que podemos
utilizar para maximizar as possibilidades de entrar em “flow”.

Saiba Mais: http://www.ibccoaching.com.br/portal/metas-e-objetivos/como-alcancar-estado-de-fluxo/

Sete condições para entrar em “FLOW”


Segundo o pesquisador Owen Shaffer, algumas condições devem
acontecer para que possamos fluir em uma atividade:

1. Saber o que fazer


2. Saber como fazê-lo
3. Saber o quão bom o estamos fazendo
4. Saber aonde ir (se isso implica em uma jornada)
5. Ter desafios ambiciosos
6. Utilizar nossos melhores recursos pessoais
7. Estar livres de distrações

Saiba Mais: https://www.ted.com/talks/mihaly_csikszentmihalyi_on_flow?language=pt-br

12-06-2016 “Ikigai’ Ver. 1.0 Pág. 32


Técnicas para Fluir
1. Escolher um desafio relativamente difícil, mas não em demasia.

 De acordo com o ponto 5 de Schaffer, se trataria de assumir uma


tarefa que temos possibilidade de terminar, porém que ao mesmo
tempo está um pouco acima de nossas capacidades.

 Toda tarefa realizada por pessoas segue uma série de regras, e


necessita de certas habilidades para executá-la. Se as regras para
completar a tarefa são muito simples e a missão é fácil comparada
com as nossas habilidades, é provável que fiquemos entediados.
As atividades muito fáceis conduzem à apatia e tédio.

 Se, pelo contrário, começamos com algo muito difícil, nos faltarão
conhecimentos para completar a atividade e com certeza iremos
desistir na primeira oportunidade e nos sentiremos frustrados.

 O ideal é encontrar um meio termo, algo que esteja de acordo


com nossas habilidades, porém um pouco acima delas para que a
tarefa seja considerada um desafio. Ernest Hemingway se referia a
isso quando afirmava: “Às vezes escrevo melhor do que sei”.

 Estes tipos de atividades são as que nos motivam seguir com elas
até o final, já que curtimos sentir que estamos nos superando.

Bertrand Russel afirmava que: “Para poder concentrar-se durante um


longo tempo é essencial ter um desafio difícil diante de nós”.

Um designer gráfico deveria estudar um novo software para que este


constitua em um desafio para ser usado em um próximo projeto. Um
programador deveria utilizar uma nova linguagem de programação.
Uma dançarina deveria introduzir um novo passo ou movimento que
lhe parecia impossível de fazer há anos.

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A dica é agregar algo extra, que tire a pessoa da zona de conforto. Ler
pode parecer fácil, porém é uma tarefa que precisa seguir algumas
regras. Necessitamos uma série de habilidades e conhecimentos para
continuar lendo. Se formos ler um livro sobre mecânica quântica para
físicos sem sermos especialistas em física, iremos logo abandonar a
leitura porque não estaremos entendendo nada. Por outro lado, se já
conhecemos tudo que está exposto no livro, isso nos levará ao tédio.

Porém, se o livro se adequa aos nossos conhecimentos e habilidades


e agrega novos conhecimentos ao que já sabemos, nos deixaremos
imergir na leitura e o tempo passará rápido.

Ler é uma das atividades humanas na qual muitas pessoas entram em


fluxo a cada dia.

SE O DESAFIO ... ENTÃO ELE ...

Torna-se
É fácil
enfadonho
É ligeiramente Faz entrar em
difícil fluxo
Está além das
Gera ansiedade
possibilidades

2. Ter objetivos concretos e claros.

Os vídeogames, sem abuso, os jogos de mesa e os esportes em geral


são atividades ideais para entrar em “flow” porque o objetivo
geralmente é muito claro: superar-se e superar o seu rival seguindo
uma série de regras claramente definidas.

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Infelizmente, na grande maioria das situações da vida, os objetivos
não estão claros.

Segundo uma pesquisa da Boston Consulting Group, a maior queixa


dos empregados de grandes empresas sobre seus chefes é a seguinte:
“Meu chefe não comunica com clareza qual é a missão de nossa
equipe, realmente não sei quais são os meus objetivos no trabalho”.

É frequente ver nas grandes empresas, a obsessão que os executivos


têm pelo planejamento, perdendo-se em inúmeros detalhes, criando
estratégias em torno do alvo sem ter claro o objetivo final. É como
navegar no oceano com um mapa sem saber para onde ir.

Joichi Ito do MIT Media Lab, sempre diz: “É mais importante ter uma
bússola apontando para um objetivo concreto do que ter um mapa”.

Seja em empresas como em profissões criativas ou na área de


educação, é importante refletir sobre a missão que teremos que
cumprir, antes de começar a trabalhar, estudar ou “criar algo” sem ter
uma direção definida. Devemos fazer perguntas do tipo:

- Qual o teu objetivo de estudo para esta tarde?

- Quantas páginas irá escrever hoje para o artigo do mês que vêm?

- Qual é missão da sua equipe?

Ter objetivos claros é importante para entrar em fluxo, porém temos


que saber deixá-los de lado quando estamos em ação.

Um atleta que está competindo na reta final pela medalha de ouro,


não pode ficar pensando sobre o valor da medalha, ele tem que estar
presente no momento, tem que fluir. Se ele se desconcentra um
instante, pensando no momento que irá mostrar a medalha aos seus
amigos, pode cometer um erro no final e não ganhar a competição.

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Um caso típico é o “bloqueio do escritor”. Imagine, por exemplo, que
um escritor deve terminar uma novela em três meses. Ele sabe muito
bem seu objetivo e não pára de pensar nele. Todo dia se levanta e
pensa “tenho que escrever a novela” e vai ler o jornal e a limpar a
casa. De noite fica frustado e faz novos planos para o dia seguinte.

Passam os dias, semanas e meses e ele não escreve nada, quando o


que deveria fazer é, simplesmente, sentar-se diante de uma página
em branco e escrever a primeira palavra, a segunda.... e assim fluir
com o projeto e dar expressão ao seu ikigai.

Ao fazer isso, a ansiedade desaparecerá e irá fluir prazerosamente


com a atividade. Retornando a Albert Einstein, “uma pessoa feliz está
tão satisfeita com o presente que não fica pensando no futuro”.

3. Concentração em uma só tarefa.

Este é talvez um dos maiores obstáculos que nós enfrentamos hoje


em dia, com tanta tecnologia e distrações ao nosso redor.

Estamos vendo um vídeo no You Tube enquanto escrevemos um e-


mail, aí aparece uma janela de um chat para respondermos. Aí vibra o
smartphone no bolso e, voltando para o computador depois de

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responder a mensagem do smartphone, abrimos o Facebook. Meia
hora depois esquecemos que estávamos escrevendo um e-mail.

Podemos ainda estamos jantando enquanto vemos um filme e nem


sentimos o paladar do salmão até que damos a última garfada.

Muitas pessoas pensam que fazendo várias tarefas elas economizam


tempo, porém a evidência científica indica o contrário. Mesmo as
pessoas que dizem ser “multitarefas” são pouco produtivas. Na
verdade, elas são as menos produtivas.

Nosso cérebro pode filtrar milhões de bits de informação, porém


podem processar apenas algumas dezenas de bits em série por
segundo. Na realidade, o que fazem as pessoas que se dizem
“multitarefas”, é alternar rapidamente de uma tarefa para outra.
Infelizmente, não somos computadores que podem trabalhar em
vários processos em paralelo. Gastamos todas as nossas energias
para alternar tarefas em vez de nos centrarmos em fazer bem uma
delas.

Concentrar-se em uma só atividade é talvez a condição mais


importante para entrar em fluxo.

Segundo Csikszentmihalyi para estar concentrado em uma atividade


necessitamos:

1. Estar em um ambiente que não nos distraia

2. Ter controle, a todo o momento, sobre o que estamos fazendo

As novas tecnologias são boas se temos controle sobre elas. Deixam


de ser boas se elas passam a nos controlar.

Por exemplo, se você tiver que escrever um artigo de pesquisa, pode


fazê-lo diante do computador, buscando no Google cada vez que se

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necessita de algum tipo de informação. Se você for indisciplinado,
talvez fique navegando por outros sites em vez de escrever o artigo.

O Google e a Internet assumiram o controle de sua mente e te


tiraram do fluxo.

É demonstrado cientificamente que, se o cérebro está continuamente


mudando de tarefas, perde tempo, aumenta o número de erros e a
retenção da memória é pior.

Um estudo realizado por Stanford, afirma que a nossa geração sofre


de uma epidemia da multitarefa. Para demonstrar os efeitos nocivos
desta epidemia, se analizou o comportamento de centenas de
estudantes enquanto estudavam, para logo dividi-los em grupos
segundo a quantidade de coisas que costumavam fazer de cada vez.

Os estudantes com mais propensão à multitarefa geralmente fazem


mais de quatro coisas por vez. Por exemplo: tomam notas enquanto
lêem um livro, escutam um podcast, enviam e respondem mensagens
no smartphone de vez em quando e olham a timeline do Facebook.

Os estudantes foram divididos em vários grupos e colocados diante


de telas com várias flechas vermelhas e várias flechas azuis. O
objetivo do exercício era contar o número de flechas vermelhas.

No início todos acertaram em pouco tempo sem dificuldade, porém


conforme se adicionavam o número de flechas azuis (sem adicionar
flechas vermelhas, só as mudando de posição), os estudantes que
eram multitarefas tiveram sérias dificuldades para contar as flechas
vermelhas no tempo requerido. Não podiam contá-las tão rápido
como os estudantes que não eram habitualmente multitarefas, por
uma razão muito simples: se distraiam olhando as flechas azuis!

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Seus cérebros estavam treinados para prestar atenção a qualquer
tipo de estímulo, mesmo sem importancia. Os cérebros dos outros
estudantes estavam treinados para concentrar-se em uma única
tarefa, neste caso contar as flechas vermelhas ignorando as azuis.

Outros estudos indicam que ao trabalhar em várias coisas ao mesmo


tempo, reduz nossa produtividade em pelo menos 60% e que nosso
coeficiente intelectual se reduz em mais de 10 pontos.

Uma pesquisa realizada na Inglaterra descobriu que, depois de


analisar as vidas de mais de três mil garotas adolescentes viciadas em
smartphones, elas dormiam menos horas, se sentiam menos
integradas na escola e eram mais propensas a ter depressão.

Concentração em Multitarefa
uma única tarefa
Aumenta possibilidade de fluir Impossível fluir

Reduz a produtividade (em 60%) mesmo que


Aumenta a produtividade
não pareça

Aumenta nossa capacidade de retenção Reduz nossa capacidade de memorizar

Mais probabilidades de nos equivocarmos no


Reduz a probabilidade de se equivocar
que estamos fazendo

Stress porque temos a sensação de perder o


Permite o controle sobre a única atividade
controle. A multiplicidade de tarefas nos
a qual estamos prestando atenção. Calma.
controla.

Afeta todos ao redor pelo “vicio” de ficar


Faz com que a pessoa fique mais atenta e
sempre atento a todo estímulo: olhando
preste atenção aos demais
mensagens no celular, checando redes sociais

Aumenta a criatividade Reduz a criatividade

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O que podemos fazer para evitar ser parte da epidemia que nos
impede de fluir? O que podemos fazer para treinar nosso cérebro
para se concentrar em uma única tarefa?

A seguir é apresentada uma série de ideias para definir seu próprio


tempo e espaço sem distrações, aumentando as possibilidades de
entrar em fluxo:

• Não olhar para nenhuma tela na primeira hora do dia nem na


última hora do dia.

• Desligar o telefone antes de entrar em “fluxo”. A sua atividade é


o mais importante do mundo neste tempo que você reservou
pra si. Se você achar exagero, coloque-o no modo onde só
possam te contatar as pessoas próximas e casos de emergência.

• Em um determinado dia na semana, não use dispositivos


eletrônicos. Por exemplo, o sábado e domingo, com exceção
para o Kindle e equipamentos musicais.

• Ir a uma cafeteria sem wi-fi.

• Ler e responder e-mails apenas uma ou duas vezes por dia.


Definir essas duas vezes e cumpri-las.

• Técnica Pomodoro. Use um relógio de cozinha (algumas tem a


forma de tomate) e comprometa-se a trabalhar em uma só
tarefa durante esse tempo. A técnica pomodoro recomenda 25
min de trabalho por 5 min de descanso. Trabalhe no seu ritmo,
o importante é cumprir com rigor cada ciclo pomodoro.

• Inicie sua missão fazendo um ritual que te motive e goste de


fazer e termine-a sempre com uma pequena recompensa.

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• Treine sua consciência para voltar ao presente quando ficar
distraido. Mindfulness (atenção plena), meditação, caminhada,
natação ou qualquer atividade que te ajude a se concentrar.

O controle da consciência
determina a qualidade de vida.
Mihaly Csikszentmihalyi

• Trabalhe em um ambiente onde as pessoas não possam te


interromper. Se não puder usar seu espaço habitual, vá para
uma biblioteca ou uma cafeteria. Se notar coisas ao teu redor
que te distraiam, mude até encontrar o lugar ideal.

• Divida cada atividade em grupos de tarefas relacionadas e


separe cada grupo em lugares e tempos diferentes. Por
exemplo, para escrever um artigo para uma revista, pesquise e
tome notas pela manhã em casa, escreva de tarde em uma
biblioteca e edite a noite em seu sofá.

• Junte tarefas rotineiras para realizá-las todas em determinada


hora do dia. Por exemplo: enviar faturas, fazer telefonemas etc.

Quando você encontra um significado para sua vida, a tarefa mais


rotineira se converte num feliz fluxo, como um pintor diante de sua
tela ou um cozinheiro que segue preparando com amor, por quase
meio século, o sushi para seus comensais, como veremos adiante.

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Vantagens Desvantagens da
de Fluir Dispersão
Mente concentrada Mente dançante

Só existe o presente Pensando no passado e no futuro

Preocupações da nossa vida cotidiana


Nada nos preocupa e pessoas do nosso redor invadem
nossa consciência

As horas passam voando Cada minuto parece interminável

Perda de controle. Não conseguimos


completar a tarefa. Outras pessoas e
Sentimento de controle
preocupações não nos deixam
trabalhar com liberdade.

Alto nível de preparação Atuamos sem estarmos preparados

Sabemos o que temos de fazer em Não damos continuidade e não


qualquer momento sabemos como seguir adiante

Mente clara que elimina todo Preocupações, dúvidas constantes,


obstáculo no fluxo de pensamento baixa autoestima

Prazeroso Chato e sufocante

Ambiente pleno de distrações:


Ambiente livre de distrações Internet, televisão, telefone, pessoas
ao redor...

O ego se dissolve. Não somos nós


que controlamos a tarefa ou Autocrítica contínua. Ego presente e
atividade na que estamos imersos, é sentimento de frustração.
a tarefa que nos conduz

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O “Fluxo” no Japão: artesãos, takumis, engenheiros,
gênios e otakus
O que têm em comum os takumis (artesãos), engenheiros, inventores
e otakus (os fans da animação e dos mangás)? Todos eles conhecem
intuitivamente o poder que é fluir a todo o momento com seu ikigai.

O povo nipônico é conhecido internacionalmente pela sua fama de


trabalhadores e muito dedicados, embora no Japão se diz que eles
aparentam trabalhar muito, mas na realidade não é bem assim.

Indubitável é sua capacidade de se deixarem absorver pela tarefa que


têm em mãos, esquecendo-se do tempo, e sua perseverança na hora
de resolver um problema.

Costumam se envolver em tarefas concretas, por pequenas que


sejam até o limite da obsessão. É uma característica comum,
encontramos desde “aposentados” cuidando até o último detalhe de seus
campos de arroz nas montanhas de Nagano, até universitários
desenvolvendo trabalhos de fim de semana em um “combini” (loja 24 hs).

A atenção ao detalhe no atendimento ao cliente não é algo exclusivo


das lojas 24 horas; se pode vivenciar esta preocupação em quase
todo serviço de atendimento ao público quando se viaja pelo Japão.

Quando se visita Naha, Kanazawa ou Kioto


e entramos em alguma de suas lojas de
artesanato, você se dá conta da variedade
de artesanato tradicional. O Japão tem
uma capacidade especial para inovar com
novas tecnologias e, ao mesmo tempo,
manter tradições e técnicas artesanais.

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A arte dos “takumi”
A Toyota emprega “artesãos” que são capazes de criar manualmente
certos tipos de parafusos. Para Toyota, estes takumi (especialistas em
realizar certas tarefas manuais) são muito importantes e são muito
difíceis de serem substituídos, porque alguns deles são os únicos que
sabem fazer esta tarefa e parece que não irá haver uma nova geração.

Outro exemplo é o processo de fabricação de agulhas para toca discos


de vinil, trabalho que se perdeu em quase todo mundo, porém que
continua se fazendo no Japão. Cerca de 90% da produção é realizada
pelas últimas fábricas japonesas que restaram, onde podemos
encontrar umas poucas pessoas que sabem utilizar o maquinário para
criar estas agulhas de alta precisão e que gostariam de passar este
conhecimento aos seus descendentes.

Visitando Kumano, um pequeno povoado perto de Hiroshima,


conhecemos uma takumi. Passamos um dia inteiro fazendo fotos para
uma das marcas de pincéis de maquiagem mais conhecidas no
Ocidente. Embora a marca seja estrangeira, a fabricação de todo tipo
de pincéis, não só para maquiagem, e outros utensílios é realizada
neste pequeno povoado cheio de fábricas de pincéis.

Ao chegar a Kumano, o cartaz que dá boas-vindas aos visitantes


mostra uma cachorrinha mordendo um grande pincel. Além dos
prédios das fábricas se veem muitas casinhas com hortas ao redor e,
conforme avançamos pelas ruas, se veem alguns templos sintoístas à
margem das montanhas que rodeiam o povoado.

Depois de várias horas fazendo fotos nas fábricas onde havia muitas
pessoas alinhadas fazendo cada qual uma só tarefa, desde colorir o
cabo dos pincéis até colocá-los em caixas dentro dos caminhões. Em

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determinado momento, nos demos conta que não havia ninguém
colocando os pelos na cabeça dos pincéis.

Depois de perguntar várias vezes e receber sorrisos, por fim o gerente


de uma das empresas concordou em nos ensinar com o faziam, e nos
levou em seu carro particular a um pequeno galpão que ficava a cinco
minutos da fábrica. Chegando lá, entramos em uma pequena sala
com muitas janelas que forneciam uma forte e natural iluminação.

No centro da sala havia um homem que estava tão concentrado


selecionando pelos para os pincéis, um por um, movendo as mãos e
os dedos habilidosamente, usando tesoura e pentes para filtrar pelos,
que nem sequer notou nossa entrada na sala. Seus movimentos eram
tão rápidos que era muito difícil entender o que estava fazendo.

O gerente o interrompeu para lhe dizer que íamos fazer fotos


enquanto trabalhava. Ele aparentava que estava feliz e orgulhoso
enquanto falava sobre sua tarefa e responsabilidade.

Para fotografar suas mãos foi preciso utilizar altas velocidades do


obturador para captar os movimentos. Suas mãos dançavam e fluíam
em comunhão com as ferramentas e pelos que tinha que selecionar.

Este takumi, embora isolado neste galpão, era uma das pessoas mais
importantes na empresa. Todos os pelos dos milhares de pincéis que
eram ali fabricados passavam por suas mãos.

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Steve Jobs no Japão
O cofundador da Apple, e fanático pelo bom gosto e estilo, era um
grande fan do Japão. Além de visitar as fábricas da Sony nos anos 80 e
trazer muitos de seus métodos para Apple, também foi surpreendido
pela simplicidade e qualidade da porcelana japonesa em Kioto.

Porém foi um kiotota quem se tornou o favorito de Steve Jobs. Seu


nome é Yukio Shakunaga, um takumi de Toyama que utiliza uma
técnica conhecida como Etsu-Seto-yaki que muito poucos dominam.

Durante uma visita a Kioto, Jobs descobriu que havia uma exposição
de Yukio Shakunaga. Logo aprendeu a apreciar a porcelana de Yukio
pelo que ela tinha de especial. De fato, comprou vários xicaras, jarros
e pratos e retornou à exposição três vezes naquela semana.

Steve Jobs visitou várias vezes Kioto durante o resto de sua vida, em
busca de inspiração, e terminou conhecendo Yukio Shakunaga em
pessoa. Dizem que quase tudo que Steve Jobs perguntava a Yukio era
sobre os detalhes de fabricação e o tipo de porcelana que utilizava.

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Steve Jobs ficou tão impressionado que pensou
em ir a Toyama para ver a montanha de onde
Yukio extraia a porcelana, porém desistiu
quando soube que ela estava mais de quatro
horas de trem de Kioto.

Em uma entrevista com Yukio depois da morte


de Steve Jobs, ele disse que se sentia muito
orgulhoso de saber que sua arte era apreciada pelo criador da Apple
e do iPhone, e disse que a última compra que Steve Jobs fez foram 12
xicaras de chá.

Jobs pediu que estas 12 xícaras fossem especiais e que seguissem


“um novo estilo”. Para consegui-lo, Yukio conta que fez 150 xícaras
para testar novas ideias e, ao terminar, selecionou as 12 melhores e
as enviou à família Jobs.

Desde sua primeira visita ao Japão, Steve Jobs ficou fascinado e


inspirado por seus artesãos, pela sua engenharia (especialmente a
Sony), por sua filosofia (especialmente o zen) e também por sua
cozinha (especialmente o sushi).

O Japão é muito interessante. Algumas pessoas


pensam que eles copiam as coisas. Eu não
penso assim de maneira alguma. Eu penso que
o que fazem é reinventar coisas. Eles pegam
alguma coisa que já foi inventada e a estudam
até entendê-la completamente. Em alguns
casos, eles a entendem melhor do que o
próprio inventor original.

(Steve Jobs)

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Uma simplicidade sofisticada
O que tem de comum a cozinha, o zen, a engenharia e os artesãos
japoneses. A atenção para o detalhe e uma simplicidade sofisticada,
que busca novas fronteiras, sempre levando o objeto criado, o corpo,
a mente ou a comida, a um nível superior.

Como diria Mihaly, sempre mantendo um alto nível de desafio na


atividade para se superar, para poder estar sempre em fluxo.

No documentário JIRO, SONHOS DE SUSHI, se pode ver outro


exemplo de takumi, neste caso na cozinha. Jiro faz sushi todos os dias
por mais de 80 anos. Ele tem um pequeno restaurante de sushi no
metro de Ginza. Ele e seu filho vão pessoalmente ao mercado de
peixes (Tsuki-ji) e selecionam o melhor para levar ao restaurante.

O documentário mostra o filho de Jiro aprendendo a fazer tortilhas


(para o sushi de tortilha) e, por mais que pratique, o pai não lhe dá
aprovação. Segue praticando anos e anos até que um dia, finalmente,
consegue a aprovação do pai.

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Tanto Jiro como seu filho são artesãos da comida. Fluem ao cozinhar
e não se cansam nunca. Quando estão cozinhando estão desfrutando
ao máximo, para eles é pura felicidade, seu ikigai. Aprenderam a
amar o seu trabalho, a convertê-lo em um prazer que detém o tempo.

Além da relação estreita pai e filho, que os ajuda a manter o desafio


diário, também trabalham em um ambiente tranquilo e sem stress,
que permite maior concentração. Inclusive, depois de ser nomeado
pela Michelin como o melhor restaurante de sushi do mundo, nunca
cogitaram abrir outros restaurantes ou expandir o negócio.

Só servem a dez clientes por dia em um balcão, num pequeno local


que fica na estação de metro de Ginza. A família Jiro põe acima do
dinheiro, as condições e ambiente na qual podem fluir cozinhando,
produzindo o melhor sushi do mundo.

Saiba Mais: https://www.youtube.com/watch?v=l0_jkEHvQcc

Tanto Jiro, o cozinheiro de sushi, como Yukio Shakunaaga, o artesão


das louças, se importam com a “origem” do seu trabalho. Jiro vai ao
mercado de peixe para escolher o melhor atum; Yukio vai para as
montanhas para selecionar a melhor porcelana. Ao trabalhar, ambos
se unem ao objeto. No Japão, a união com o objeto ao fluir assume
uma dimensão especial porque, segundo o sintoísmo, os bosques, as
árvores e os objetos tem um kami (espirito de Deus) dentro deles.

A responsabilidade do criador de algo, seja ele artista, engenheiro ou


cozinheiro, é usar a natureza para “dar-lhe vida”, respeitando-a a todo
o momento. Durante o trabalho, o artesão se une ao objeto e flui
com ele. Um ferreiro diria “o ferro tem vida”, um ceramista diria que
“a argila tem vida”. Os japoneses são bons unindo a natureza com a
tecnologia; não é o homem contra a natureza, mas a união de ambos.

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A pureza do Studio Ghibli
Alguns dizem que os valores do sintoísmo de união com a natureza
estão se perdendo. Um dos maiores críticos desta perda é outro
criador nascido com um ikigai muito definido, Hayao Miyazaki, o
diretor de filmes de animação do Studio Ghibli.

Em quase todos seus filmes se vê tecnologia, humanos, fantasia e


natureza em conflito e, no final, tudo anda de mãos dadas. No filme
“A Viagem de Chihiro”, umas das metáforas mais importantes é a da
contaminação dos rios, representada por um deus gordo e sujo.

Saiba Mais: https://www.youtube.com/watch?v=SgZI655GgHk&list=PL-5pOq42Ej-


luWiHRRWQQVldNSLy4BZ7b

Nas películas de Miyazaki, os bosques tem personalidade, as árvores


têm sentimentos, os robôs fazem amizade com os pássaros. Ele é
considerado como tesouro nacional vivo pelo governo japonês. Além
de pregar a reconexão com a natureza, Hayao Miyazaki é um desses
artistas que se deixa levar pela tarefa presente.

Não tem computador, usa um celular dos anos 90 e obriga toda sua
equipe a desenhar manualmente. Hayao Miyazaki “dirige” seus
filmes, criando e desenhando em papel nos mínimos detalhes.

Desenhar faz com que Miyazaki entre em fluxo, os computadores


não. Graças a essa obsessão, o Studio Ghibli é um dos únicos do
mundo onde quase a totalidade do processo de produção de
animação se faz seguindo as técnicas tradicionais.

Quem teve a sorte de visitar o Studio Ghibli, sabe que aos domingos
sempre havia alguém trabalhando em um canto. Um homem simples
que te saudava com um Ohayo (bom dia) sem levantar a cabeça.

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Este homem, que ganhou vários Oscars da academia, passa seu
domingo desenhando. Sua paixão é tal, que ele passa muitos
domingos alí, desfrutando o fluxo, vivendo seu ikigai acima que
qualquer outra coisa. Porém não é recomendável pertubar Hayao sob
nenhuma hipótese. Ele tem a fama de resmungão, principalmente se
o interrompem quando ele está desenhando.

Hayao Miyazaki
É um dos mais famosos e respeitados criadores do cinema de animação
japonesa, alcançando sucesso e reconhecimento em todo o mundo. Iniciou
sua carreira em 1963 na Toei Animation. Em 83, começou a se dedicar
exclusivamente aos longas metragens e funda o seu próprio estúdio de
animação, o Estúdio Ghibli, no qual ele viria a produzir as suas mais
premiadas e reconhecidas animações.
Saiba Mais: http://super.abril.com.br/studio-ghibli-relembre-as-21-animacoes-do-estudio-
japones-dirigido-por-hayao-miyazaki

Em 2013, Hayao anunciou que iria se “aposentar”. Para celebrar, o


canal de televisão NHK fez um documentário especial que mostrava
Hayao Miyazaki durante seus últimos dias de trabalho. Em quase
todas as cenas do documentário ele está desenhando. Em uma delas,
vários companheiros de trabalho estão em reunião e ele está em um
canto desenhando, absorvido sem escutar os demais. Em outra cena,
ele aparece indo para o trabalho no dia 30 de dezembro (feriado
nacional no Japão) e passar o dia desenhando sozinho.

Um dia depois de sua “aposentadoria”, em vez de ir viajar o ficar em


casa, foi ao Studio Ghibli e se sentou para desenhar. Os companheiros
de trabalho ficaram com caras de bobos sem saber o que dizer.

Alguém realmente se aposenta quando é apaixonado pelo que faz?

Hayao Miyazaki não pode deixar de desenhar. Um ano depois de sua


“aposentadoria”, declarou que não ia mais fazer longa metragens,
porém que “continuaria desenhando até o dia da sua morte”.

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Ermitãos do ikigai
Não são somente os japoneses que desfrutam desta capacidade de
fluir; também existem artistas e cientistas de outras partes do mundo
com ikigais muito fortes e definidos. Por isso nunca se aposentam
realmente. Fazem o que gostam até o último dia da sua morte.

A última coisa de Eistein escreveu pouco antes


de fechar os olhos pela última vez, foi uma de
suas fórmulas tentando unificar todas as forças
do universo. Morreu fazendo aquilo pelo qual
tinha paixão. Se não fosse físico, Eistein dizia
que teria sido feliz sendo músico. Quando não
estava centrado na física e na matemática, se
deleitava tocando violino. Fluir trabalhando em
suas fórmulas ou tocando um instrumento, ambos seus ikigais, lhe
dava uma grande felicidade.

Muitos destes artistas e cientistas podem parecer rabugentos ou


eremitas, porém o que fazem é proteger seu tempo de felicidade, às
vezes sacrificando outros aspectos da vida. São exemplos de pessoas
descoladas que aplicam de forma radical o fluir ao seu estilo de vida.

Outro exemplo destes eremitas é o escritor


Haruki Murakami. Pelo que dizem, é muito
difícil acessá-lo. Solitário, tem um círculo de
amigos muito restrito e raramente aparece
em público no Japão.

Os artistas sabem o importante que é proteger o seu espaço, seu


ambiente, estar livre de distrações para poder fluir com seu ikigai.

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Microfluir: o desfrutar das tarefas rotineiras
O que passa quando temos que, por exemplo, lavar pratos, cortar o
gramado do jardim ou preencher formulários? Podemos converter
estes trabalhos cotidianos em atividades agradáveis?

Na estação de Shinjuku, um dos centros nevrálgicos de Toquio, existe


um supermercado onde os ascensoristas continuam trabalhando. São
elevadores normais que poderiam ser operados pelos clientes, porém
eles prestam este serviço abrindo-lhes a porta, apertando o botão do
andar para onde eles vão e fazendo reverência ao saírem do elevador.

Se pesquisar melhor, você irá descobrir que


existe uma ascensorista que está fazendo o
mesmo trabalho desde, pelo menos, 2004. É um
profissional que sempre está sorridente e
executa seu trabalho com entusiasmo. Como ela
faz para desfrutar esta tarefa tão simples a
primeira vista? E depois de tantos anos fazendo
a mesma coisa, ela não fica entediada?

Ao observar melhor, você se dá conta que a ascensorista não só


aperta os botões. Mas, executa toda uma sequência de movimentos.
Começa com uma saudação dos clientes entoando a voz como se
estivesse cantando, continua com reverências e saudações com as
mãos, e aperta o botão do elevador movendo o braço de forma
graciosa como se fosse uma geisha manipulando uma taça de chá.

Csikszentmihalyi se refere a esta dimensão do cotidiano como


microfluir. Nós todos ficamos entediados em uma aula do colégio, na
universidade ou em uma conferência e passamos a desenhar alguma
coisa para não dormir. Assoviamos enquanto estamos pintando uma

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parede. Quando não somos verdadeiramente “desafiados”, ficamos
entediados e necessitamos de mais complexidade para nos motivar.

Converter uma tarefa rotineira em microfluir, em algo que podemos


desfrutar, é uma habilidade crítica para sermos “felizes”, já que todos
nós temos que executar tarefas rotineiras.

Bill Gates afirma que lava pratos todas as


noites. O homem mais rico do mundo não
teria porque fazê-lo, porém ele prefere e
deseja fazê-lo. Diz que isso o gratifica e que o
ajuda a relaxar e organizar sua mente e
pretende fazê-lo melhor cada dia, seguindo
uma sequência, umas regras que se impôs: pratos primeiro, garfos
segundo etc... Este é um dos seus momentos diários para microfluir

Richar Feynman, um dos físicos mais importantes da história,


também desfrutava de tarefas rotineiras. O fundador da Thinking
Machines, uma empresa de computadores, contratou Feynman
quando já era famoso mundialmente para resolver problemas de
projetos de computadores de processamento paralelo.

Ele disse que Feynman apareceu no primeiro dia e perguntou à


equipe: “Em que posso ajudar?” Como não haviam preparado nada,
lhe deram para trabalhar um problema matemático. O físico logo se
deu conta de que este era um trabalho criado somente para mantê-lo
ocupado e disse: “Isto é um problema simples, deem-me algo
realmente importante para fazer”.

Então, quando enfim lhe mandaram ir à uma loja comprar material de


escritório, ele foi cumprir sua missão com um sorriso na face.

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Voltou com latas de tinta, pincéis e kits de
eletrônica. Assim, quando não tinha nada
importante para fazer ou queria descansar
a mente, Feynman se dedicava a microfluir
pintando as paredes do escritório ou
projetando placas para computadores.

Dias mais tarde, depois de uma visita e


rotina aos escritórios da empresa, alguns
investidores questionaram: “Vocês têm um Premio Nobel no
laboratório de pesquisa pintando paredes e soldandos circuitos?”.

Férias instantâneas: A porta da meditação


O treinamento da mente pode nos levar a fluir rapidamente, já que
meditar é exercitar nossos músculos do cérebro.

O SEGREDO DA ARQUEIRA
O ouro olímpico do arco em 1988 foi de uma
coreana de 17 anos. Quando lhe perguntaram
sobre seu treinamento, disse que a parte mais
importante era meditar duas horas por dia.

Existem muitos tipos de meditação, porém entre elas os principais


objetivos são: serenar a mente, observar pensamentos e emoções,
concentrar a atenção em um único objeto de meditação.

A prática básica consiste em sentar-se com a coluna reta e nos


concentrar na respiração. Isso pode ser feito por qualquer pessoa e
os resultados são imediatos desde o início. Ao fixar nossa atenção
somente no ar que entra e sai de nossas narinas, conseguimos frear a
torrente de pensamentos e clareamos nosso horizonte mental.

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Para ensinar a nossa mente a fluir com facilidade, a prática da
meditação é um método excelente, o antídoto ao smartphone no
bolso com todas as notificações ativadas.

Uma das falhas mais habituais ao começar a meditar é ficar obcecado


em fazer isso “bem”, ou seja, deixar a mente em branco e chegar ao
“nirvana”, quando o importante é se centrar na viagem.

Dado que a mente é uma miscelânea constante de pensamentos,


ideias e emoções, apenas conseguindo deter a “centrifugação” por
alguns segundo, já notaremos um descanso imediato e uma nova
clareza na mente.

De fato, uma das coisas que aprendemos ao meditar é não nos


inquietarmos por nada que passe por nossa mente. Mesmo que
ajude a nossa consciência a ideia de matar o nosso chefe,
simplesmente etiquetamos isso com “pensamento” e o deixamos
passar como uma nuvem, sem julgar ou rejeitar.

É um pensamento, nada mais. Um entre os 60.000 que alguns


especialistas calculam que temos por dia.

A meditação gera ondas alfa e theta no cérebro. Estas, em alguém


com experiência em meditação, logo aparecem, enquanto em um
principiante talvez levem meia hora para aparecer. Esta ondas de
relaxamento são as mesmas que se ativam antes de dormir, al
descansar deitados ao sol ou logo depois de tomar um banho quente.

Por isso, todos nós trazemos um balneário conosco que é capaz de


proporcionar férias instantâneas à nossa mente. Basta saber fazer
bom uso dela, algo que todo mundo pode fazer, através da prática.

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ENTUSIASMO
Como enfrentar problemas e mudanças sem stress e ansiedade

O que é resiliência?
Uma das características comuns das pessoas que tem um ikigai bem
definido, é que elas persistem em sua paixão custe o que custar.

Elas nunca se rendem, mesmo quando a vida traz infortúnios, lances


infelizes e tudo são obstáculos. Seguem lutando custe o que custar.

Estamos falando de resiliência, um conceito que se popularizou na


psicologia nas últimas décadas.

A resiliência não é só a capacidade de ser perseverante e de seguir


sempre firme e lutando. É também uma atitude a cultivar para nos
mantermos centrados no que é importante da vida em vez de apenas
no que é urgente, sem nos deixarmos levar por emoções negativas.

Mais adiante iremos conhecer técnicas para ir além da resiliência e


promover a nossa antifragilidade.

Cedo ou tarde, iremos todos enfrentar momentos difíceis, e a forma


com que lidamos com esses momentos pode representar uma grande
diferença em nossa qualidade de vida. Treinar a mente, o corpo e
nosso estado emocional resiliente é fundamental para enfrentar as
adversidades e os contratempos da vida.

Ditado Japonês: “Se caíres 7 vezes, levanta-te 8” (Nanakorobi Yaoki)

A resiliência é nossa habilidade de enfrentar as adversidades e os


contratempos. Quanto mais formos resilientes, mais fácil será nos
levantarmos e recuperarmos o sentido de nossa vida.

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O resiliente sabe manter-se centrado em seus objetivos e no que é
importante, sem deixar-se levar pelo desânimo. Sua força vem da
flexibilidade, de saber adaptar-se às mudanças e aos golpes do
destino. É centrado nos fatores sobre os quais têm controle sem
preocupar-se ou culpar-se sobre coisas que não pode controlar.

Como diz a célebre oração de Reinhold Niebuhr:

Oração da Serenidade
Concedei-nos, Senhor, a graça de aceitar com
Serenidade as coisas que não podem ser
mudadas e a Coragem para modificar aquelas
que podemos mudar, assim como a Sabedoria
para distinguir umas coisas das outras.

Estoicismo e budismo para a resiliência emocional


Siddhãrtha Gautama (Buddha) nasceu sendo o príncipe de
Kapilavastu, rodeado de luxo e vivendo em um palácio. Aos 16 anos
se casou e teve um filho.

A riqueza e a família não satisfez


Siddhãrtha, e aos 29 anos ele decidiu
provar um estilo de vida diferente e fugiu
do palácio para levar uma vida asceta (um
estilo de vida austero e de renúncia aos
prazeres materiais com o objetivo de
adquirir hábitos que conduzem à perfeição
moral e espiritual).

Porém o ascetismo tampouco funcionou. Não conseguiu a felicidade


e o bem estar que buscava. Nem a riqueza, nem o ascetismo extremo

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funcionaram com ele. Assim, ele se deu conta de que a pessoa sábia
não deve ignorar os prazeres. Pode viver com eles, porém deve ser
sempre consciente da facilidade de ser escravizado por eles.

Zenón de Citio começou sua educação na escola dos cínicos. Os


cínicos praticavam um estilo de vida ascético, deixando de lado todo
tipo de prazer terreno. Viviam nas ruas e a única coisa que possuíam
era a roupa que tinham no corpo.

Vendo que o cinismo não lhe trazia bem estar, Zenón o abandonou e
fundou a escola dos estóicos. Sua filosofia assume que não há nada
de mal em desfrutar os prazeres da vida, desde que estes não tomem
o controle de nós quando os desfrutamos. Assim, temos que estar
sempre preparados para quando o prazer vier ou desapareça.

O objetivo não é eliminar toda a emoção e prazer de nossas vidas (o


real cinismo), mas eliminar somente as emoções negativas.

Desde sua origem, um dos principais objetivos, tanto do budismo


como do estoicismo, é o controle dos prazeres, desejos e emoções.
Embora sejam filosofias muito diferentes, elas têm como objetivo
comum reduzir nosso ego e controlar as emoções negativas.

Tanto o estoicismo como o budismo na sua essência são


metodologias para a “prática do bem estar”. Segundo o estoicismo,
nossos desejos e prazeres não são o problema. Podemos desfrutá-los
sempre e quando não tomem controle de nós. Para os estoicos, os
que conseguem controlar suas emoções são pessoas virtuosas.

Estoicismo
Doutrina que se caracteriza por uma ética em que a imperturbabilidade, a extirpação
das paixões e a aceitação resignada do destino são as marcas fundamentais do homem
sábio, o único apto a experimentar a verdadeira felicidade.

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O que pior pode acontecer?
Quando conseguimos o trabalho dos nossos sonhos, depois de um
tempo queremos ir um trabalho melhor. Ganhamos dinheiro e
compramos um bom carro, depois de algum tempo queremos quem
sabe um veleiro. Quando conseguimos conquistar a pessoa que
queríamos tanto, de repente temos interesse por outra pessoa.

Nós, seres humanos, podemos ser insaciáveis.

Para os estoicos, desejos e ambições deste tipo não são dignos de ser
almejados. O objetivo da pessoa virtuosa é conseguir tranquilidade
(apatheia): um estado de ausência de emoções negativas, tais como:
ansiedade, medo, pena, vaidade, enfado, e presença de emoções
positivas como, por exemplo: alegria, amor, serenidade ou gratidão.

Para manter uma mente virtuosa, os estoicos praticavam algo que


podemos chamar de ”visualização negativa”, que consitia em
imaginar “o que de pior pode acontecer”, para assim estar preparado
quando certos privilégios e prazeres desaparecem de nossa vida.

Para praticar a visualização negativa temos que considerar e lidar com


eventos negativos, porém sem nos concentrarmos neles em excesso.

Séneca, um dos homens mais ricos da Roma antiga, levou uma vida
com todo tipo de luxos, porém era um estoico praticante.

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Ele recomendava refletir e praticar a visualização negativa a cada
noite na cama antes de dormir. E não só visualizava as situações
negativas, mas as praticava, por exemplo, vivendo uma semana sem
criados, sem beber e comer como uma pessoa rica, Assim era capaz
de responder a pergunta: O que de pior pode acontecer?

Meditar para curar as emoções


Além da “visualização negativa” e de não deixar-se levar pelas
emoções negativas, outro fundamento da prática estoica é ter
consciência do que está sob nosso controle e o que não está.

Devemos aprender a não nos preocuparmos com o que está fora do


nosso controle e evitar emoções negativas. “O homem não é afetado
pelos eventos, mas pela forma com que os considera”, dizia Epicteto.

O budismo zen utiliza a meditação para ter consciência das emoções


e desejos e assim livrar-se deles. Meditar não é só deixar a mente em
branco, mas observar os pensamentos e emoções conforme vão
aparecendo sem deixar-se levar pela ira, a inveja, o ressentimento...

Um dos mantras mais usados no budismo é centrado no controle das


emoções negativas: “Om Ma Ni Pad Me Húm” onde:

- Om é a generosidade que purifica o ego


- Ma é a ética que purifica os céus
- Ni é a paciencia que purifica as paixões e desejos
- Pad é a consciência que purifica os preconceitos
- Me é a renúncia que purifica a cobiça
- Húm é a sabedoria que purifica o ódio

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O agora e a impermanência das coisas
Tanto o budismo como o estoicismo nos faz ver que a única coisa que
existe e está sob nosso controle é o presente. Assim, não devemos
preocupar-nos com o passado e o futuro, mas apreciar as coisas
como são neste momento, o agora.

Saber em qual tempo viver é uma das chaves para cultivar a


resiliência. “Estamos aqui e agora, o único momento no qual estamos
vivos é o momento presente”, dizia Thich Nhat Hanh.

Além do “agora”, os estoicos recomendam perceber a impermanência


das coisas que nos rodeiam.

O imperador Marco Aurélio dizia que as coisas que amamos são como
as folhas de uma árvore, podem cair a qualquer momento quando
sopra o vento. Também disse que a mudança naquilo que nos rodeia
não é algo acidental, mas que forma parte da essência do universo,
um pensamento muito budista, de fato.

Temos que ser conscientes de que tudo que temos e todas as pessoas
de quem gostamos irão desaparecer em algum momento. E isso é
algo que devemos ter em mente, porém sem ser pessimistas. A
consciência da impermanência das coisas não deve nos entristecer,
mas deve servir para amar o presente e aos que nos rodeiam.

“Todas as coisas humanas tem uma vida curta e perecível” (Séneca)

A natureza transitória, efêmera e impermanente do mundo é o


fundamento de qualquer disciplina budista. Ter esta verdade sempre
presente nos ajuda a não sofrer dor excessiva em caso de perda.

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Wabi-sabi e ichi-go ichi-e
O wabi-sabi é um conceito japonês que ensina a beleza da natureza
perecível, mutável e imperfeita de tudo que nos rodeia. Em vez de
buscar beleza no perfeito, busca-se no imperfeito, no incompleto.

Este é o motivo pelo qual um japonês dá


valor a uma taça de forma irregular,
rachada e com uma fenda na lateral.

Só o que é imperfeito, efêmero e


incompleto possui a verdadeira beleza, já
que assim se parece mais com a natureza.

Um conceito japonês complementar seria o


Ichi-go ichi-e, que podemos traduzir como
“este momento só existe agora e não irá se repetir”. É usado em
reuniões de pessoas para lembrar que cada encontro, seja com
amigos, família ou desconhecidos, é único e não se repetirá.

Por isso devemos desfrutar esse momento único sem nos deixarmos
levar por preocupações do passado ou do futuro.

12-06-2016 “Ikigai’ Ver. 1.0 Pág. 63


O conceito de Ichi-go ichi-e é muito utilizado na pratica da cerimonia
do chá, na meditação zen e nas artes marciais japonesas. Todas estas
artes tem como fio condutor o momento presente.

No ocidente estamos acostumados à imutabilidade de catedrais e dos


edifícios de pedra. Às vezes temosa sensação de que nada muda, faz
com que nos esqueçamos do passar do tempo.

A arquitetura greco-romana ama a simetria, as linhas perfeitamente


delimitadas, fachadas imponentes, edifícios e estatuas de deuses que
transcendem o passar dos séculos.

A arquitetura japonesa, ao contrário, não pretende ser imponente,


nem pretende ser perfeita, pois segue o espirito do wabi-sabi. A
construção tradicional em madeira assume que vai deixar de existir
no futuro e que necessitará das futuras gerações para se reconstruir.

A cultura japonesa aceita na natureza perecível do ser humano e tudo


o que criamos.

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No Japão, o templo de Ise é
reconstruído a cada vinte anos
desde milênios. O importante
não é que o edifício permaneça
em pé durante muito tempo,
mas manter as tradições e
costumes, algo que se pode
transcender o passar do tempo, além mesmo dos edifícios
construídos pelos seres humanos.

A chave é “aceitar” que existem certas coisas as quais não temos


controle, como o passar do tempo ou a natureza efêmera do que nos
rodeia. O Ichi-go ichi-e nos ensina a nos centrar no presente e
desfrutar de cada momento único que a vida nos dá. Por isso vale a
pena descobrir e seguir o próprio ikigai.

O wabi-sabi nos ensina a apreciar a beleza do imperfeito como


oportunidade de crescimento.

Antifragilidade, muito além da Resiliência


Diz a lenda que quando Hercules foi enfrentar a Hidra de Lerna pela
primeira vez, se sentiu desesperado ao ver que, ao cortar uma
cabeça, outras duas cresciam. Assim nunca poderia matar a Hidra,
pois ela ficava cada vez mais forte toda vez que recebia algum dano.

O escritor libanez Nicilas Taleb explica em seu livro Antifragilidade


que usamos a palavra “fragilidade” para designar coisas, pessoas ou
organizações que se debilitam ao receber algum dano, e as palavras
“robustez” ou “resiliência” para designar coisas que aguentam danos
sem debilitar-se, mas não existe palavra em nenhum idioma para
definir “o que se fortalece ao receber algum dano” (até certo ponto).

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Para falar do poder da Hidra de Lerna, ou seja, daquilo que se faz
mais forte ao receber danos, Nicolas Taleb propõe que usemos a
palavra antifragilidade.

Por detrás desta idéia estaria a célebre frase de Nietzshe: “O que não
nos mata, nos faz mais fortes”.

Catástrofes ou eventos anormais são bons exemplos para explicar


fenômenos de antifragilidade. Em 2011, um tsunami na região de
Tohoku causou sérios danos a dezenas povos e cidades costeiras.
Infelizmente, muita gente morreu e aldeias inteiras desapareceram.

Na costa afetada, dois anos


depois da catastrofe, ainda
viam-se estradas com
rachaduras, postos de
gasolina vazios, vários
vilarejos fantasmas com
ruas invadidas por
destroços de casas, carros
amontoados e estações de trens abandonadas. Estes vilarejos eram
lugares frágeis e esquecidos que não puderam se recuperar.

Outros lugares, como por exemplo, Ishinomaki ou Kasennuma,


receberam danos imensos, porém graças à ajuda de muita gente
conseguiram reconstruir a cidade em poucos anos. Ishinomaki e
Kesennuma demonstraram sua robustez e capacidade de voltar à
normalidade depois da catástrofe.

O terremoto também afetou a central nuclear de Fukushima. Os


engenheiros da TEPCO não estavam preparados para receber danos e
logo recuperar-se, assim entraram em estado de emergência e assim

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ficarão por décadas. A central de Fukushima demonstrou sua grande
fragilidade diante de um evento de proporções desconhecidas.

Minutos depois do terremoto de março de 2011, os mercados


financeiros japoneses fecharam. As empresas que geraram mais
negócios na bolsa logo depois do terremoto e nas semanas seguintes,
foram as grandes empresas construtoras japonesas (as antifrágeis),
pois foram beneficiadas imensamente pela catástrofe.

Vamos saber agora como podemos aplicar este conceito na nossa


vida cotidiana. Como podemos ser mais antifrágeis?

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Passo 1: Adicionar opções alternativas à nossa vida

Em vez de ter uma única fonte de renda, é preciso buscar outras


formas de ganhar dinheiro, seja com hobbies, trabalhos alternativos
ou empreendendo e montando o seu próprio negócio.

Quem tem apenas uma fonte, pode nada ter se a empresa enfrentar
problemas financeiros e seus colaboradores fiquem em posição de
fragilidade. Por outro lado, se houver outras opções de renda, em
caso de demissão, o negócio secundário pode se tornar a principal
atividade e, inclusive, gerar mais dinheiro. Assim, se pode sair
ganhando mesmo diante um golpe de má sorte! Isto é ser antifrágil.

Todos os anciões que entrevistamos em Ogimi tinham uma ocupação


principal e outra secundária. A maioria deles tinha uma horta como
trabalho secundário para vender a verdura no mercado local.

O mesmo se aplica no âmbito dos amigos e dos interesses pessoais. É


como diz o ditado: “não ponha todos os ovos na mesma cesta”.

Nas relações afetivas, há pessoas que se centram exclusivamente em


seus pares e fazem delas todo o seu mundo. Nestes casos, se a
relação se rompe, perdem tudo, enquanto as que se cultivaram boas
amizades e uma vida plena tendem mais facilmente a seguir adiante
depois da catástrofe, se superarem e se tornarem “antifrágeis”.

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Neste momento você pode estar pensando: “Não preciso mais do
que um trabalho, um salário e sou feliz com meus amigos de sempre.
Para que me preocupar em ter mais coisas materiais?”. Nas palavras
de Taleb: “Pode parecer perda de tempo, porque agora não está
acontecendo nada anormal. Porém, no final, sempre algo anormal
acontece, é uma questão de tempo”.

Passo 2: Ter atitudes conservadoras em certas áreas e assumir


pequenos riscos em outras

Este conceito é muito comum na área financeira. Você tem 10.000


reais, investe 9.000 em um fundo, título ou poupança e os outros
1.000 você investe em dez startups com grande potencial de
crescimento, 100 reais em cada uma delas.

Imagine um cenário em que três startups


fechem (você perde 300 reais) e outras três
desvalorizem (você perde 100 a 200 reais),
duas valorizem um pouco (você ganha 100 a
200 reais) e uma startup valorize dez vezes ou
mais (você ganha 900 reais ou até mais).

Se fizer as contas, você ganha dinheiro mesmo


que três das startups quebrem! Fomos beneficiados mesmo quando
sofremos perdas, como a Hidra de Lerna.

A chave para adquirir antifragilidade é assumir pequenos riscos que


podem gerar benefícios, sem nos expor a grandes perigos que nos
possam ferir, como por exemplo, por os mesmo 10.000 reais em um
único fundo de investimento de duvidosa reputação que anuncia em
um jornal uma alta e atrativa taxa de retorno.

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Passo 3: Eliminar as coisas que nos fazem frágeis

Vamos usar a via negativa para este exercício. Pergunte a si mesmo:


que te faz frágil? Existem coisas, pessoas e hábitos que nos provocam
perdas e nos fazem vulneráveis. Quais são?

Quando listamos os propósitos de ano novo, procuramos adicionar


novos desafios a nossa vida. Ter estes tipos de objetivos é bom,
porém ainda obteremos mais impacto se adicionamos objetivos “de
eliminação”. Por exemplo:

• Deixar de consumir “salgadinhos” entre as refeições


• Comer doces somente em um dia da semana
• Eliminar paulatinamente todas as dívidas que temos
• Não nos juntarmos com gente tóxica
• Não gastar tempo fazendo o que não gostamos só por obrigação
• Não dedicar mais de 20 minutos ao dia ao Facebook

Para construir um estilo de vida resiliente, não devemos temer as


adversidades, porque todas elas encerram potencial de crescimento.
Se adotamos um postura de antifragilidade, encontraremos a
maneira de nos fortalecer com cada golpe, depurando nosso estilo de
vida e mantendo o foco em nosso ikigai.

Receber golpes pode se considerar um infortúnio ou também uma


“experiência” que podemos aplicar em todas as áreas de nossa vida,
corrigindo continuamente e nos apresentando objetivos maiores.

A vida é pura imperfeição, como reza o wabi-sabi, e o passar do


tempo nos demonstra que tudo é efêmero, porém se tens um ikigai
definido, cada momento abrigará tantas possibilidades como uma
eternidade.

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IKIGAI, UMA ARTE DE VIVER
O poeta e filósofo Mitsua Aida foi um dos calígrafos e escritores de
haikus mais importantes do século 20 no Japão.

É mais um exemplo de um japonês


que dedicou sua vida a um ikigai
muito concreto: comunicar emoções
com haikus: poemas de 17 sílabas
usando um pincel de shodo
(caligrafia japonesa).

Muitos dos seus haikus filosofam sobre a importância do agora e o


passar do tempo.

Por exemplo, podemos traduzir um haiku de Mitsuo Aida assim:

“Aqui e agora a única coisa que existe é minha vida e a tua vida”

No verso seguinte, Aida simplesmente põe:

“Aqui e agora”

Evocando sentimentos de “mono no aware” (a melancolia do


efêmero) para a pessoa que contempla o haiku.

O que lemos a seguir está relacionado com um dos segredos do


ikigai para a vida cotidiana:

“A felicidade sempre é decidida pelo seu coração”

E Mitsuo Ainda termina com:

“Continue assim, não mudes de caminho”

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As 10 leis do Ikigai
1. Mantenha-se sempre ativo, nunca se aposente. Quem abandona
as coisas que ama e sabe fazer, perde o sentido da vida. Por isso,
mesmo após ter terminado a vida laboral “oficial”, é importante
seguir realizando, avançando, levando beleza ou utilidade aos
demais, ajudando e dando forma ao nosso pequeno mundo.

2. Acalme-se. A pressa é inversamente proporcional à qualidade de


vida. Como diz um velho ditado: “É devagar que se vai longe”.
Quando deixamos pra trás as urgências, o tempo e a vida
adquirem um novo significado.

3. Não coma até se entupir. Também na alimentação para uma longa


vida, “menos é mais”. Segundo a lei dos 80%, para preservar a
saúde muito tempo, em vez de se encher devemos comer um
pouco menos do que a fome que temos.

4. Se rodeie de bons amigos. Eles ão o melhor elixir para dissolver as


preocupações com uma boa conversa, contar e escutar anedotas
que iluminam a existência, pedir conselhos, se divertir juntos,
compartilhar, sonhar.... Em suma, viver.

5. Se ponha em forma para seu próximo aniversário. A água se


move, flui fresca e não se estagna. Do mesmo modo, teu veículo
para a vida, seu corpo, necessita de alimento diário de qualidade
para que possa durar muitos anos. Além disso, o exercício diário
segrega os hormônios da felicidade.

6. Sorria. Uma atitude afável faz amigos e relaxa a própria pessoa. É


bom se dar conta das coisas que estão mal, porém não devemos
nunca nos esquecer do privilégio que é estar aqui e agora neste
mundo cheio de possibilidades.

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7. Se reconecte com a natureza. Embora a maioria de nós, seres
humanos, vivamos nas cidades, fomos feitos para nos fundirmos
com a natureza. Necessitamos regularmente voltar a ela para
carregar as baterias da alma.

8. Agradeça. Aos teus antepassados, a natureza que te provê ar e


alimento, aos teus companheiros de vida, a tudo que ilumina teu
dia a dia e te faz sentir grato por estar vivo. Dedique um momento
do dia para agradecer e aumentarás a qualidade da tua felicidade.

9. Viva o momento. Deixe de lamentar o passado e temer o futuro.


Tudo que voçê têm é o dia de hoje. Faça deste dia o melhor uso
possível para que ele mereça ser lembrado.

10. Siga seu IKIGAI. Dentro de você há uma paixão, um talento único
que dá sentido aos teus dias e te empurra para dar o melhor de si
mesmo até o fim. Se não o encontrou ainda, como dizia Victor
Frankl, tua próxima missão será encontrá-lo.

Uma vez que tenha encontrado seu próprio ikigai, trate de seguí-lo e
alimentá-lo a cada dia para dar sentido a sua existência.

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Frederico Lobato
Especialista em estratégias de negócios, planejamento e
gestão comercial, vendas, marketing, projetos digitais, e-
commerce e tecnologia da informação. MBAs em Gestão
Empresarial e Engenharia Financeira. Pós graduações em
Marketing Avançado e em Análise e Projeto de Sistemas.
Graduações em Marketing e em Gestão Comercial. Estudou Administração e
Engenharia. Professor em cursos de graduação e pós. Consultor com mais de 20
anos de experiência em planejamento e execução de projetos em centenas de
empresas de diversos portes e segmentos de mercado, com foco nas áreas de:
planejamento estratégico, gestão empresarial, marketing, vendas, tecnologia
aplicada, inovação e empreendedorismo (startups).

e-mail: fredlar.br@gmail.com Tel (whatsapp): (41) 99115-6545

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