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Fichamento Capitulo 3- METODOLOGIA DO TRABALHO COMUNITÁRIO E SOCIAL

METODOLOGIA

Descartes, Copérnico, Kepler, Bacon e Newton entendiam os termos: metodologia, método e técnica,
como “o melhor caminho para chegar a um conhecimento efetivo e rigoroso”.

A metodologia, como disciplina que se ocupa dos estudos dos métodos e suas inter-relações, tem
uma importância crucial para a ciência.

Não podemos conceber metodologias, métodos e técnicas divorciadas das questões ideológicas, da
produção do saber e dos aspectos políticos que atravessam a prática.

A metodologia conduz implícita e/ou explicitamente a indagações de caráter gnoseológico,


ontológico, epistemológico, ideológico e ético.

Todo método está apoiado em pressupostos teóricos de alguma ciência, regido por alguma crença
ideológica e destinado a produzir alguma prática. Daí, nenhuma metodologia pode ser vista como
neutra, pura ou inocente.

A abordagem de Ander-Egg sobre este tema pode ser de grande valia.

A palavra método vem do grego: meta e odos. Meta significa para (preposição que dá idéia de
movimento), e odos quer dizer caminho. Caminho para chegar-se a algo.

O método será sempre uma baliza, um guia, um caminho, um modo de aproximação, jamais um
receituário de certezas e verdades.

Existe uma diferença entre Ciência e Sabedoria. Diferença não é sinônimo de antagonismo.

Quando ocorre um desiquilíbrio entre ciência e sabedoria, a metodologia do trabalho comunitário e


social opta muito mais pela sabedoria, pois ela e preferencialmente inclinada para a comunidade.

Quando a ciência fica impregnada de racionalidade instrumental, de computadores, de tecnologias e


máquinas sofisticadas, ela impede a entrada em cena do acaso, do caos, do elemento surpresa, do
sonho, das utopias, dos valores éticos e da mistura de novas subjetividades.

A metodologia do trabalho comunitário e social e um dispositivo alternativo a ser utilizado, visando


produzir conhecimentos e formar intelectuais organicamente comprometidos com os interesses da
classe dominada.

A ênfase à produção de conhecimentos é entendida aqui como instrumento de luta, e a socialização


das pessoas (indivíduos sociais) como força da socialização na construção das pessoas (novas
subjetividades) e da sociedade. Tal produção de conhecimento (contra-ideologia) e formação de
lideres (intelectuais orgânicos) pressupõe a troca de saberes e experiências, o compromisso, a ação
comum e a relação dialética entre agentes externos e população.

O saber popular entra pelas mãos, entra pelo fazer, pelo sentir, pela intuição, pela estética. (Betto,
1992, p.78)
A educação popular mudou o modo de fazer ciência; primeiro a experiência, depois a
conceitualização.

O paradigma da ciência moderna dicotomizava o problema da ciência: ciência acadêmica versus


ciência popular.

Esse paradigma foi concebido a partir do dualismo de Descartes: corpo e espírito. Isso o levou a fazer
do cogito o lugar da razão, em contraste com o universo da desrazão.

Para Santos, a comunidade foi muito menos colonizada pela ciência e pelo direito do que o mercado
e o Estado.

O modelo científico da metodologia do trabalho comunitário é o paradigma da ciência emergente.


Segundo Boaventura Santos.

Boaventura sugere urna dupla ruptura epistemológica da ciência moderna, a primeira, com a
racionalidade e a segunda, com o bom-senso.

Em um primeiro momento, a ciência rompe com o senso comum, a fim de constituir-se enquanto
prática de conhecimento específica. Em um segundo momento, rompe-se com a própria ruptura, e a
ciência assume o compromisso de se tomar apropriável ao senso comum.

O saber popular pode ser um saber instituinte, indisciplinado espontâneo, subversivo, metafórico.
Mas pode ser também conservador, sobretudo quando esse não é interpelado e interpenetrado pelo
conhecimento científico, a Razão Emancipatória.

Durante um longo tempo, havia certa rejeição em relação ao fracasso e ao erro, devido ao excesso de
exatidão e de exacerbação narcisista por parte dos teóricos. Hoje, estamos resgatando que o erro e a
falha são da maior importância e devem ser encarados. É também através do erro e da falha que
podemos descobrir e produzir novos conhecimentos.

COMUNIDADE

O termo comunidade tenra sido empregado com amplos sentidos a partir de diferentes concepções
por parte das instituições e das sociedades científico-acadêmicas e até no meio popular.

Comunidade é um agrupamento de pessoas que vivem em uma determinada área geográfica ou


território (rural ou urbano) cujos membros têm alguma atividade, interesse, objetivo ou função, em
comum ou sem consciência de pertencimento, e de forma plural com múltiplas concepções
ideológicas, culturais, religiosas, étnicas e económicas.

Conceito de comunidade pelo viés da participação, da política e das relações de poder: comunidade
como um grupo coeso, forte e unificador, sem conflitos e com uma história de comum-unidade.

O papel do líder nesses grupos ou comunidades é semelhante a urna figura inflacionada do "Pai". Ele
deixa de ser símbolo da lei e se torna demasiadamente presente, concreto e real. Dele é demandada
a função de dar segurança aos integrantes do agrupamento, por meio de bondade ou severidade
extremas.
Nesse sentido, o termo comunidade carrega em si a fantasia da unidade, da uniformidade, da ilusão,
da perspectiva dos elementos serem profunda e absolutamente solidários, cooperativos e coesos.

No mundo rural, geralmente, a família, a religião, o governo local e a educação entre outros, tendem
a criar traços homogêneos nos grupos sociais.

Como contraponto, nas cidades modernas já não é bem assim. Não há mais garantia de transmissão
da religião e nem tampouco, processos únicos de identificação dos filhos com os pais. Nas cidades há
várias ofertas religiosas, novos padrões de família, alternativos modos de viver, de pensar ou de agir.
A vida urbana exalta valores diferentes, como: o individualismo, o consumismo, o anonimato, a
liberdade de escolhas e a independência entre as pessoas.

As massas precisam de um líder que as incorpore, que as respeite.

A premissa básica consiste em fomentar as identificações e idealizações internas, no sentido de


fusionar e criar idéias puras e igualitárias entre os seres humanos.

Os indivíduos assimilam, comungam atributos e traços do outro e se transformam total ou


parcialmente, segundo um modelo idealizado do outro ou do chefe.

A relação de reversibilidade é localizada entre os grandes e os pequenos, pois o oprimido não pode
constituir-se como um sujeito monolítico e impermeável. Ele também é totalmente absorvido pelo
“grande”, ele se perde na contemplação do opressor.

As comunidades populares podem ser também múltiplas e múltiplos são seus interesses, suas
ideologias, seus desejos, suas intenções e suas formas organizativas.

Outra leitura do termo comunidade tem origem em fontes sociológicas e antropológicas de base
teórica positivista: a comunidade se caracteriza por forte coesão baseada no consenso espontâneo
dos indivíduos; um subgrupo dentro da sociedade, percebido ou se percebendo como diferente, em
alguns aspectos, da sociedade mais ampla.

Caberia ao Estado o gerenciamento social desses grupos, com suas concepções, planejamentos,
execuções e planos diretivos para atender às denominadas necessidades básicas da comunidade
carente.

Segundo G. Albuquerque, existem dois pontos constituintes e fundantes da instituição que sustenta
os seus trabalhos. O primeiro seria a produção do estado de carência e da falta. O segundo
movimento se instala quando a instituição e seus agentes se colocam diante do demandante como
objeto de satisfação: "eu sou a resposta à necessidade gerada por tua carência".

Finalmente, o termo comunidade é tomado como um dispositivo aberto, heterogêneo, não como
algo que unifica, totalitário e coeso, e sim como processualidade permanente, produção e
decomposição de novas ordens, de puro caos, de novos encontros entre as pessoas, idéias, projetos,
desejos, onde persiste a multiplicidade, a singularidade e a articulação entre o todo e a exceção.

As noções de grupo e de indivíduo também precisam ser questionadas, desnaturalizadas. Se


compreendermos que o sujeito é uma multiplicidade e, portanto coletivo, ele já é grupo.
Diante de tudo isso, sugerimos outra concepção para a comunidade, grupo e indivíduo: a
comunidade (grupos) dos sujeitos.

Ora, o indivíduo (leia-se individualismo) é o pior inimigo do sujeito cidadão. O significante individual é
cético em relação à "causa do bem comum ou social".

Transpor o abismo entre o indivíduo e a comunidade é tarefa da Política.

TRABALHO COMUNITÁRIO

A metodologia em trabalho comunitário faz urna ruptura com esse lugar privilegiado de alguém que
detém um certo saber, prestígio e poder, e opta por uma ação mais dialógica.

As principais matrizes da modernidade, criadas a partir da Revolução Francesa no século XVIII, são o
Estado, a sociedade civil, a autonomia, a dimensão do indivíduo e a ênfase na razão e na
universalidade, formas fundamentais que desencadearam em duas propostas políticas que marcaram
o mundo ocidental: o liberalismo e o socialismo real.

A crise dos paradigmas da modernidade tem como principais causas: a crise do Estado responsável
pelo sistema previdenciário, a saúde, a educação, a habitação, o transporte coletivo; o crescimento
abrupto das grandes cidades, saturadas de signos e também sinônimo de anonimato, emancipação e
liberdade; o urbano como lugar de inúmeras diferenças e de novas identidades.

A década de 60 foi fundamental para o processo de educação popular na América Latina,


principalmente com marcos importantes, que resultaram na organização política de alguns temas

expressivos vinculados à vida humana: religiosidade, saúde, educação, vida psíquica, vida econômica,
transporte etc.

Três marcos importantes:

Um ciclo de desenvolvimento capitalista internacionalizado, principalmente sob a égide de regimes


militares, marcado por processos de industrialização e urbanização.

Como segundo fator, podemos identificar o surgimento de um senso comum aos intelectuais de
diversas áreas (sociologia, serviço social, antropologia, teologia da libertação, psicologia social,
pedagogia, economia, ciências políticas, dentre outras) que sentiram necessidade de mudar o foco de
seus estudos, dirigindo-o para a realidade brasileira e seu contexto latino-americano.

A terceira e importante influência foi o pensamento de Paulo Freire, no início da década de 60,
voltado para a conscientização, alfabetização e participação popular, enfocando o método do
universo temático significativo, a investigação-ação, o universo vocabular e as palavras geradoras. O
trabalho do sociólogo colombiano Orlando Fals Borda que diz respeito á Pesquisa Ação e à Pesquisa
Participante.

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