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Vacinas víricas

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Cláudio Wageck Canal
Clarissa Silveira Luiz Vaz

1 Introdução..........................................................................................3

2 Formas de imunização....................................................................3

3 Objetivos da vacinação...................................................................5

4 Tipos de vacinas............................................................................7

4.1 Vacinas replicativas.....................................................................................7


4.1.1 Vacinas com vírus patogênico.....................................................................8
4.1.2 Vacinas com vírus de espécie heteróloga...................................................8
4.1.3 Vacinas com vírus atenuado......................................................................9
4.1.4 Vetores vacinais.......................................................................................14
4.2 Vacinas não-replicativas............................................................................17
4.2.1 Vacinas com vírus inativado......................................................................18
4.2.2 Vacinas de subunidades virais..................................................................18
4.2.3 Vacinas de proteínas recombinantes.........................................................19
4.2.4 Vacinas de peptídeos sintéticos...............................................................21
4.3 Vacinas de DNA e RNA................................................................................22
4.4 Vacinas monovalentes e polivalentes.........................................................23

5 Adjuvantes..................................................................................23

6 Controle de qualidade.................................................................26

7 Conservação e administração de vacinas.....................................27

8 Falhas vacinais............................................................................28

9 Reações adversas da vacinação...................................................30

10 Bibliografia consultada.............................................................31
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Vacinas víricas

1 Introdução do administradas a um indivíduo, induzem uma


resposta imunológica capaz de proteger frente ao
Até o século XVIII, a varíola afetava e matava contato posterior com o agente original. A resposta
milhões de pessoas em todo o mundo. Naquela imunológica que é induzida resulta do desenvol-
época, a prática utilizada para evitar a doença era a vimento de células efetoras e células de memória.
exposição das pessoas a uma pequena quantidade A vacinação constitui-se na estratégia mais efetiva
de material obtido de lesões cutâneas de pessoas de prevenção e controle de várias enfermidades
com varíola. Isso tinha como objetivo provocar uma causadas por vírus e bactérias. Diversas viroses
infecção controlada, que seria seguida de resposta animais e humanas já foram ou estão sendo contro-
imunológica e proteção frente a uma nova exposição ladas e erradicadas de países e continentes graças
ao agente. A prática, conhecida como variolação, era à vacinação. A varíola foi erradicada do mundo
originária da China e, embora bastante difundida há mais de três décadas; a poliomielite (paralisia
nas áreas endêmicas, não era considerada segura, infantil) e o sarampo estão em vias de erradicação.
já que uma significativa parcela dos indivíduos que Cabe ressaltar que o Brasil possui o maior programa
eram submetidos ao procedimento desenvolvia a governamental de vacinação humana do mundo,
doença após a exposição. sendo a maior parte das vacinas produzidas no
Em seus estudos sobre a varíola humana, o país. Doenças animais, como a febre aftosa, peste
médico britânico Edward Jenner observou que suína clássica, doença de Aujeszky, entre outras,
os ordenhadores de vacas infectadas pela varíola também foram erradicadas de países e continentes
bovina não desenvolviam a forma humana da en- inteiros pelo uso sistemático da vacinação.
fermidade, o que sugeria algum tipo de proteção A tecnologia empregada para a produção de
cruzada. Em 1796, para comprovar a sua teoria, vacinas contra vírus apresentou um grande avanço
Jenner coletou material de lesões de varíola do com o domínio das técnicas de cultivo de células, a
úbere de uma vaca e o administrou a um menino partir das quais foi possível otimizar a atenuação
de oito anos de idade. Alguns meses mais tarde, e a multiplicação de diversos agentes virais; e da
ele expôs esta criança ao vírus da varíola humana tecnologia de DNA recombinante, que permitiu a
(smallpox) que, confirmando suas suspeitas, não manipulação dos genomas virais. Constantemente,
produziu a doença na criança. Com essa prática, surgem outras novas tecnologias que podem servir
Jenner demonstrou que a exposição prévia ao para o desenvolvimento de vacinas víricas mais
vírus da varíola bovina, um patógeno de baixa seguras, eficazes, estáveis e de baixo custo. Algumas
virulência, conferia proteção frente ao desafio dessas propostas ainda são essencialmente expe-
com o vírus da varíola humana, antigenicamente rimentais, e não há produtos licenciados, porém
relacionado ao vírus bovino, porém mais virulento. podem preceder novas vacinas com possibilidade
Posteriormente, na década de 1870, Louis Pasteur de produção em escala comercial que podem es-
utilizou o termo vacina (do Latim, vaccinia; termo tar disponíveis em um futuro próximo. Entre os
derivado de vaca) como forma de homenagem a desafios para a indústria de imunobiológicos está
Jenner, para designar a prática da administração a adequação dessas tecnologias surgidas nas últi-
de patógenos a indivíduos sadios com o objetivo mas décadas para a produção de vacinas cada vez
de induzir resposta imunológica. Pasteur realizou mais eficientes frente à demanda cada vez maior
diversos estudos que indicavam a viabilidade do por segurança, bem-estar e produtividade animal.
uso de micro-organismos atenuados ou inativados
como vacina, em uma época em que as bases teóri- 2 Formas de imunização
cas da imunização ainda eram pouco conhecidas.
As vacinas consistem em micro-organismos O termo imunização se refere à indução de
(viáveis ou inativados) ou frações destes que, quan- imunidade frente a um determinado agente ou
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antígeno. De acordo com a participação do sistema imunoglobulinas efetivamente absorvidas e taxa


imunológico na produção dessa imunidade, exis- de crescimento corporal.
tem dois tipos principais de imunização: passiva Por outro lado, a imunidade passiva pode in-
ou ativa. A imunização passiva pode ser natural terferir na produção de imunidade ativa resultante
(adquirida ou transmitida através da placenta, co- de uma subsequente vacinação dos animais jovens.
lostro ou gema do ovo) ou artificial (administração Em geral, quanto maior a concentração plasmática
de soro hiperimune). A imunização ativa ocorre de anticorpos maternos, menor será a eficácia da
pela exposição do animal ao agente infeccioso vacinação. A imunidade induzida por vacinas com
(infecção) ou por vacinação. vírus atenuado é menos afetada pela imunidade
passiva do que a induzida por vacinas inativadas.
2.1 Imunização passiva A imunidade colostral pode ser sistêmica, quando
mediada por IgG que são absorvidas na mucosa
A imunização passiva resulta da transferência intestinal e ganham acesso ao sangue. Por outro
de anticorpos específicos pré-formados através da lado, IgAs ingeridas com o colostro podem conferir
placenta ou do colostro materno ao filhote mamífe- proteção local pela neutralização de micro-orga-
ro; da gema do ovo em aves; ou da administração de nismos no lúmen intestinal. O decréscimo gradual
soro hiperimune. Nesses casos, não há a produção dos níveis de anticorpos adquiridos passivamente é
de resposta específica pelo sistema imunológico do seguido pelo surgimento de anticorpos produzidos
hospedeiro. Ao contrário, o hospedeiro recebe os ativamente frente à infecção natural ou vacinação
anticorpos pré-formados. A imunidade passiva é de (Figura 12.1).
extrema importância para neonatos e em situações A avicultura industrial é um bom exemplo da
em que é necessária uma rápida resposta frente a utilização em larga escala da imunidade passiva
um patógeno ou antígeno específico, como nos para o controle de doenças virais importantes. As
casos de exposição a toxinas ou doenças de caráter matrizes recebem várias doses de vacinas que vi-
letal, como a raiva. sam proteger passivamente a sua progênie contra a
A capacidade de transferência de imunida- infecção por alguns patógenos aos quais os pintos
de humoral através da placenta varia de acordo são expostos nos primeiros dias de vida. Apesar
com características peculiares de cada espécie. de ser inicialmente dispendioso, o custo-benefício
A placenta humana, de outros primatas, de roe-
dores e de carnívoros permite a transferência de
anticorpos da classe IgG durante a gestação. A
placenta de ruminantes, equídeos e suídeos, no
entanto, é virtualmente impermeável à passagem
de imunoglobulinas. Nessas espécies, a imunização
passiva depende exclusivamente da ingestão do
colostro nas primeiras horas de vida, quando o
epitélio intestinal é permeável à absorção dessas
moléculas. Neste caso, a quantidade de anticorpos
que será absorvida depende da quantidade de
colostro ingerida pelo filhote em tempo hábil. A
duração da imunidade passiva recebida pelo co-
lostro varia entre as espécies e depende de vários
fatores, incluindo o título de anticorpos maternos,
concentração de imunoglobulinas no colostro,
quantidade de colostro ingerida, quantidade de
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Vacinas víricas

deste programa de vacinação acaba sendo favorável, pendem de fatores do hospedeiro, como a presença
pois cada matriz gera aproximadamente 150 pintos de anticorpos adquiridos passivamente, idade e
imunizados passivamente. Este tipo de imunidade imunocompetência do hospedeiro; e de vários
é fundamental para a proteção dos pintos contra fatores da vacina. Como regra, considera-se que
o vírus da doença infecciosa da bolsa (IBDV), reo- a resposta imunológica mais efetiva e duradoura
vírus das aves e vírus da encefalomielite aviária. é aquela induzida pela infecção natural. Portanto,
A vacinação de fêmeas, antes ou depois da quanto mais as vacinas mimetizarem a infecção
cobertura, para induzir a produção de anticorpos natural, melhor será a resposta imunológica. Por
que sejam posteriormente transferidos aos recém- isso, acredita-se que as vacinas com vírus replica-
-nascidos pelo colostro, também é um método tivos (ou vivos) sejam as mais efetivas, pois são
muito utilizado para prevenir doenças víricas de as que mais se assemelham à infecção natural.
neonatos, como a rotavirose e coronavirose suína e Além da vacinação clássica, outras formas de
bovina. Em tese, fêmeas com imunidade humoral imunização ativa têm sido ocasionalmente utili-
contra qualquer agente viral irão transferir essa zadas em alguns sistemas. Por exemplo, leitoas
imunidade aos fetos ou neonatos, conferindo pro- suscetíveis ao parvovírus suíno (PPV) podem ser
teção nas primeiras semanas de vida. expostas a fezes ou a ambientes contaminados
A resposta imunológica conferida pela imu- com o vírus, de modo a adquirirem a infecção
nização passiva é tipicamente de curta duração, (que é benigna nesses animais) e se tornarem
pois é baseada nos anticorpos que são transferidos imunes. Posteriormente, se forem expostas ao
e não na resposta do hospedeiro. Essa imunidade agente durante a gestação, estarão imunizadas e
não possui memória e perdura somente no perí- os seus fetos estarão protegidos contra a infecção.
odo em que os anticorpos transferidos não são Da mesma forma, alguns pecuaristas mantêm o
degradados pelo organismo do hospedeiro. Apesar hábito de expor os cordeiros às crostas de ectima
dessas características, a imunidade passiva é fun- contagioso obtidas de ovinos adultos, buscando
damental não só para a defesa de neonatos, mas a proteção contra uma subsequente exposição
também em situações nas quais é necessária uma ao vírus. Essas formas empíricas de imunização
resposta imediata. Para combater a infecção pelo apresentam alguns riscos, pois podem estar ex-
vírus da cinomose (CDV), por exemplo, pode-se pondo os animais a outros agentes patogênicos,
administrar soro hiperimune específico aos cães além da incerteza com relação à inocuidade do
doentes, na tentativa de auxiliar o seu organismo vírus administrado.
a combater a infecção. Também os indivíduos De acordo com o tipo de antígeno envolvido
expostos ao vírus da raiva (RabV) devem receber na exposição inicial, a imunidade resultante pode
a aplicação do antissoro específico, já que uma ser predominantemente do tipo humoral, celular
imunização ativa provavelmente não teria tempo ou ambas. Na imunização passiva, a imunidade
hábil para proteger antes do final do período de obtida é tipicamente humoral e de curta duração.
incubação da doença. Na imunização ativa, a resposta imunológica é ge-
ralmente de maior magnitude e duração. A maior
2.2 Imunização ativa duração da imunidade ativa deve-se principalmente
à produção de linfócitos específicos de vida longa,
A imunidade ativa pode resultar tanto da chamados genericamente de células de memória.
exposição ao patógeno por infecção natural quan-
to da administração da vacina específica. Como 3 Objetivos da vacinação
resultado, o sistema imunológico do hospedeiro
é estimulado pelo antígeno ao qual foi exposto. A As vacinas são utilizadas com o objetivo de
magnitude e duração da resposta imunológica de- induzir a formação de resposta imunológica es-
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pecífica capaz de controlar ou diminuir os sinais apresentar características específicas, tais como:
clínicos da doença frente à exposição posterior facilidade de administração, custo de aquisição
ao vírus. Assim, as vacinas devem ser efetivas acessível, estabilidade do produto durante o
– para induzirem proteção – e seguras − para armazenamento e, após a inoculação no orga-
não produzirem doença no hospedeiro. Nesse nismo, adequação para programas de vacinação
sentido, as vacinas inativadas são consideradas em massa e capacidade de estimular imunidade
mais seguras se comparadas com as vacinas vivas forte e duradoura. Devem ainda causar o menor
atenuadas, uma vez que não ocorre replicação número possível de efeitos colaterais, e não afetar
do agente ou risco de reversão à virulência. Por o desempenho produtivo dos animais.
outro lado, os vírus presentes nas vacinas vivas Em termos práticos, os objetivos da vacina-
possuem a capacidade de replicação no orga- ção incluem: a) prevenir a infecção (imunidade
nismo hospedeiro, estimulando a imunidade esterilizante), o que é virtualmente impossível
humoral e celular. Por isso, as vacinas vivas (ou com as vacinas atuais. Mesmo em animais ade-
replicativas) são consideradas mais eficientes na quadamente vacinados, a exposição subsequente é
indução de proteção. seguida de replicação do agente próximo ao local
A efetividade vacinal está relacionada com de penetração; b) prevenir a doença clínica e suas
a capacidade de estimulação de células apresen- consequências (esse objetivo pode ser alcançado
tadoras de antígenos, seguida da liberação das por várias vacinas animais); c) atenuar a doença
citocinas apropriadas. As vacinas devem estimular clínica e suas consequências (para algumas viroses,
linfócitos T e B, gerando um número adequado as vacinas somente conseguem atenuar ou reduzir
de células de memória específicas para o antígeno a intensidade e severidade dos sinais, reduzindo as
inoculado. Devem ainda estimular a produção consequências da doença); d) proteger o feto. Para
de linfócitos T auxiliares (Th) e T citotóxicos (Tc) várias viroses (diarreia viral bovina e parvovirose
específicos para diferentes epitopos do antígeno suína, por exemplo), as maiores consequências da
vacinal. O antígeno contido na vacina deverá infecção resultam das perdas fetais. Nesses casos,
persistir, preferivelmente, em locais específicos a vacinação objetiva imunizar as mães para que
do tecido linfoide, permitindo que continue es- a sua resposta imunológica proteja e impeça a
timulando as células do sistema imunológico. infecção fetal; e) proteger os neonatos. Para viroses
A indução de resposta imunológica mediada que afetam os animais nas primeiras semanas de
por linfócitos T (imunidade celular), que pode ser vida (rotavirose, coronavirose), a imunização das
obtida de acordo com o tipo de vacina utilizada, fêmeas visa conferir proteção passiva aos recém-
é uma das mais efetivas defesas do organismo -nascidos; f) reduzir a excreção viral. Animais
contra os vírus. Igualmente importante é a ca- vacinados, se posteriormente expostos ao agente,
pacidade de estimular a produção de anticorpos devem excretar o vírus em menores quantidades
neutralizantes, capazes de neutralizar os vírions e por menos tempo, reduzindo, assim, a sua dis-
circulantes e, dessa forma, evitar a infecção de seminação e transmissão; e g) erradicar o agente
novas células. da população. A vacinação contra determinados
De modo ideal, espera-se que uma vacina vírus, mais do que prevenir e/ou atenuar a doença
seja capaz de conferir proteção prolongada do clínica, objetiva criar, na população, uma imuni-
indivíduo frente a uma nova exposição ao agente, dade protetora que torne inviável a circulação e
caracterizando a imunidade de longa duração. perpetuação do agente. Esse tipo de cobertura
Espera-se, portanto, a estimulação de memória denomina-se imunidade de população ou de reba-
imunológica, que irá permitir uma resposta imu- nho e é importante em animais de produção, já
nológica mais intensa frente a uma nova exposição que a saúde do rebanho é economicamente mais
ao vírus. Vacinas contra vírus de animais devem significativa do que a saúde individual.
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Em situações em que o uso de imunógenos décadas, ainda conservam o seu espaço devido
pode dificultar o diagnóstico sorológico da doença à sua eficácia e segurança. Vacinas autógenas de
e, com isso, dificultar programas de controle ou uso individual, produzidas com material coleta-
erradicação, a decisão sobre o uso de vacinação do do animal a ser vacinado, são ainda uma das
deve ser criteriosamente avaliada. melhores formas de controle da papilomatose
bovina e canina, demonstrando maior eficiência
4 Tipos de vacinas se comparadas com outros tipos de vacinas. Os
diferentes tipos de vacinas contra vírus, já licen-
Diferentes tipos de vacina contra vírus estão ciadas ou ainda em fase de desenvolvimento,
licenciados para uso veterinário, sendo a maioria estão apresentados na tabela 12.1.
composta por vírus inativados ou por vírus vivos
atenuados. A utilização de novas tecnologias, prin- 4.1 Vacinas replicativas
cipalmente envolvendo a manipulação genética
(tecnologia de DNA recombinante), tem originado São vacinas que contêm o vírus viável (vivo,
inúmeros estudos e expectativas no surgimento replicativo) e, por isso, proporcionam a replicação
de novas opções de vacinas. Algumas vacinas do agente no organismo hospedeiro, resultando na
recombinantes já estão no mercado, enquanto amplificação viral e no aumento da quantidade de
várias outras estão em fase de desenvolvimento antígeno que é apresentada ao sistema imunológico.
ou de testes. Para algumas dessas vacinas, no en- Essas vacinas comportam-se de modo semelhante
tanto, muitos estudos ainda são necessários para a ao vírus em infecções naturais. Os vírus vivos
comprovação de sua segurança e eficácia, motivo podem ser utilizados como vacinas em diferentes
pelo qual ainda possuem pouca participação no apresentações (Figura 12.1).
mercado veterinário. Por outro lado, algumas
vacinas produzidas por métodos clássicos, há

Tabela 12.1. Tipos de vacinas víricas

Tipo Características/propriedades

Vírus patogênicos

Vírus heterólogos
Vírus naturalmente atenuados;
1. Replicativas Vírus atenuados por passagens em cultivo celular;
(vírus vivo)
Vírus atenuados por passagens em ovos embrionados;
Vírus atenuados
Vírus atenuados por passagens em espécie heteróloga;
Vírus temperatura-sensíveis;
Vírus modificados pela deleção de genes;
Vacinas com marcadores antigênicos.
Vetores virais
Vírus inativado
Subunidades de vírus;
2. Não replicativas
(sem vírus vivo) Produtos de vírus Proteínas recombinantes;
Peptídeos sintéticos.

3. DNA/RNA Contêm o gene da proteína de interesse.


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4.1.1 Vacinas com vírus patogênico 4.1.2 Vacinas com vírus de espécie
heteróloga
Em casos específicos, o próprio vírus com
potencial patogênico, sem atenuação ou trata- Alguns vírus, que são antigenicamente rela-
mento prévio, pode ser utilizado como vacina. cionados com outros vírus, podem ser utilizados
Ovinos infectados pelo vírus do ectima contagioso para induzir imunidade em determinadas espécies
apresentam lesões na região oral e focinho, de- nas quais não causam doença. O poxvírus bovino é
senvolvendo uma resposta imunológica protetora antigenicamente semelhante ao vírus da varíola hu-
após a primeira exposição ao vírus. Para induzir mana e, como comprovado pelos estudos clássicos
o desenvolvimento de imunidade, os cordei- de Jenner, pode induzir imunidade em humanos.
ros podem ser expostos a crostas de lesões que Os poxvírus de outras espécies de aves também têm
contêm o vírus patogênico, um procedimento sido utilizados para induzir proteção de galinhas
semelhante à prática realizada na época da va- contra a bouba (varíola aviária). Um herpesvírus
riolação humana; ou podem ser vacinados com de perus é utilizado para imunizar galinhas contra
uma vacina comercial que também contém o vírus a doença de Marek, causada por um herpesvírus
em sua forma patogênica. Nesse caso, a vacina é antigenicamente relacionado. Da mesma forma, o
inoculada por meio de escarificação na pele da rotavírus bovino pode ser empregado para imu-
face interior da coxa, onde o vírus não causa os nizar suínos contra a rotavirose suína. O vírus da
sinais e lesões indesejáveis. Para a parvovirose parainfluenza 3 de bovinos já foi utilizado para
suína, a exposição prévia de leitoas primíparas imunizar crianças contra o vírus da parainfluenza
às fezes ou as instalações de suínos adultos (que 3 de humanos. Da mesma forma, um rotavírus de
provavelmente já entraram em contato com o vírus) bovino tem sido utilizado na formulação de vacinas
pode conferir imunidade e prevenir a ocorrência contra a rotavirose humana, importante causa de
de perdas reprodutivas, caso sejam infectadas diarreia em crianças de países subdesenvolvidos
posteriormente, durante a gestação. e em desenvolvimento. Em todos esses casos, o
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Vacinas víricas

vírus vacinal é apatogênico para a espécie vaci- sinais clínicos importantes. Nesta última, são gera-
nada e induz proteção cruzada contra um vírus das resposta celular (linfócitos Th e Tc) e humoral
antigenicamente semelhante ao da espécie. (linfócitos B, anticorpos), além de imunidade de
mucosas, o que é conveniente no caso de se buscar
4.1.3 Vacinas com vírus atenuado proteção contra uma infecção natural que ocorra
em superfícies mucosas. A imunidade conferida
Vírus que apresentam maior patogenicidade pelas vacinas atenuadas geralmente é prolongada
e virulência precisam ser submetidos a procedi- e, por isso, reduz ou elimina a necessidade de
mentos específicos para reduzir o seu potencial revacinações com a mesma vacina.
patogênico e viabilizar a sua utilização como va- Vacinas atenuadas, entretanto, não são consi-
cinas replicativas. Do contrário, podem produzir deradas totalmente seguras para todos os vírus, em
doença e, até mesmo, mortalidade nos animais razão da possibilidade, embora rara, de reversão
vacinados. Devido a sua atenuação ser relativa a à virulência. Cabe ressaltar que as alterações que
animais hígidos, a sua administração não é reco- são induzidas nos processos de atenuação viral são
mendada para indivíduos imunodeprimidos, nos produzidas ao acaso e, na maioria das vezes, são
quais pode causar a doença. Os procedimentos de desconhecidas. Isso significa que é difícil prever as
atenuação devem preservar as suas características circunstâncias nas quais poderia ocorrer a reversão
antigênicas e a capacidade replicativa. A redução à virulência. Por exemplo, algumas cepas atenuadas
do potencial patogênico do agente denomina-se de vírus da laringotraqueíte infecciosa das galinhas
genericamente atenuação, e o agente com a pato- (ILTV) são capazes de reverter-se à forma virulenta
genicidade reduzida é dito atenuado. As vacinas após algumas passagens em aves não vacinadas.
que contêm o vírus replicativo com patogenici- Dessa forma, a utilização dessa vacina é reservada
dade reduzida são denominadas genericamente somente para as regiões onde o vírus é endêmico
de vacinas vivas, vacinas atenuadas ou vacinas ou em surtos da doença. Vacinas atenuadas contra
com vírus vivo modificado. Vacinas atenuadas o herpesvírus bovino tipo 1 (BoHV-1) e vírus da
estão disponíveis contra a doença de Marek das diarreia viral bovina (BVDV) retêm a capacidade
galinhas, bronquite infecciosa das galinhas, par- de infectar o feto e causar perdas reprodutivas
vovirose e cinomose canina, rinotraqueíte felina, (abortos, por exemplo), por isso não devem ser
encefalomielite aviária, rinotraqueíte infecciosa e administradas a fêmeas prenhes.
diarreia viral bovina, entre muitas outras. Vacinas com vírus atenuado são formuladas
Em geral, os vírus vacinais atenuados repli- a partir de vírus naturalmente pouco patogênicos
cam nos tecidos próximos ao local da inoculação, ou de cepas virais originalmente patogênicas, mas
produzem pouca ou nenhuma disseminação sistê- cuja atenuação foi obtida por indução artificial.
mica e, por isso, geralmente não produzem doença A maioria das vacinas replicativas com vírus
nos animais vacinados. Ou seja, a vacinação com atenuado que estão licenciadas foi obtida pela
vírus atenuado se constitui na realidade em uma atenuação proposital da cepa viral por diferentes
infecção controlada ou restrita. A resposta vacinal métodos. Os tipos de vacinas replicativas com
será melhor quando a vacina escolhida for capaz vírus atenuado são os seguintes: vírus natural-
de mimetizar a infecção natural e estimular uma mente atenuado, vírus atenuado por passagens
resposta imunológica específica, de magnitude, em cultivo celular, vírus atenuado por passagens
espectro e duração adequados. Nesse sentido, a em ovos embrionados, vírus atenuado por passa-
replicação limitada das vacinas atenuadas no hos- gens em espécie heteróloga, vírus atenuado por
pedeiro é de amplitude suficiente para estimular indução de sensibilidade à temperatura, vírus
os mecanismos da resposta imunológica inata e atenuado por deleção de genes e vírus atenuado
adaptativa, sem resultar no desenvolvimento de com marcadores antigênicos.
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Capítulo 12

4.1.3.1 Vírus naturalmente atenuado Seguindo esse mesmo princípio, passagens


sucessivas de vírus em cultivos de células se cons-
Determinadas cepas virais são naturalmente tituem, atualmente, na maneira mais comum de
pouco virulentas e, assim, podem ser utilizadas se obter atenuação de vírus para uso em vacinas
em vacinas vivas sem a necessidade de atenuação replicativas de uso veterinário. As passagens nor-
prévia. Um exemplo está na utilização de vírus malmente são realizadas em linhagens celulares de
dos sorotipos 2 e 3 do vírus da doença de Marek espécies diferentes daquela para a qual a vacina se
para proteger os pintos contra o sorotipo 1 onco- destina. Também podem ser realizadas passagens
gênico. O sorotipo 2 pode ser isolado de galinhas em células da mesma espécie, mas que devem ser
e o tipo 3 pode ser isolado de perus, sendo ambos de tecido ou órgão diferente daqueles infectados
apatogênicos, mas capazes de proteger as galinhas naturalmente pelo vírus. Uma das formas de se
contra os tumores induzidos pelo vírus patogênico. obter a atenuação do CDV, que naturalmente
Provavelmente a grande maioria dos vírus animais infecta células linfoides, é por meio de passagens
apresente alguma cepa pouco virulenta circulando sucessivas do vírus em cultivo de células renais
na população ou naturalmente atenuada e que de origem canina.
poderia ser utilizada como vacina. No entanto, o Após várias passagens em cultivo celular,
procedimento mais utilizado para a produção de existe uma tendência ao acúmulo de mutações
vacinas atenuadas é a indução de atenuação de pontuais no genoma viral, sendo que a frequência
cepas originalmente patogênicas. O adenovírus dessas mutações é maior nos vírus RNA. O acúmulo
canino tipo 2, agente que participa da etiologia da de mutações, algumas provavelmente em genes
tosse dos canis, é usado em vacinas destinadas a associados à virulência, eventualmente resulta
proteger contra essa enfermidade, mas também, e na atenuação do vírus, ou seja, o vírus se adapta
talvez principalmente, contra o adenovírus canino aos cultivos e perde algumas funções necessárias
tipo 1, agente da hepatite infecciosa canina, que é para a sua virulência na espécie hospedeira. Uma
muito mais virulento. das principais restrições a esse tipo de vacina é o
desconhecimento da base genética da atenuação.
4.1.3.2 Vírus atenuado por passagens em Se a atenuação for devida a uma ou a poucas
cultivo celular mutações, existe o risco de reversão ao fenótipo
virulento após a administração ao animal.
Em 1974, foi desenvolvida uma vacina atenu-
ada contra a varicela, a partir de uma cepa viral 4.1.3.3 Vírus atenuado por passagens em
denominada Oka, obtida de um isolado clínico ovos embrionados
do vírus da varicela-zoster (VZV). Essa cepa foi
propagada sucessivamente em cultivos de fibro- A realização de múltiplas passagens em
blastos de embrião de cobaias e em células WI38. embriões de galinha também tem sido utilizada
O objetivo da propagação em cultivo celular era como forma de se atenuar vírus para uso em
obter a atenuação do vírus, de modo a adaptá-lo vacinas. Esse procedimento pode ser utilizado
a um ambiente diferente daquele encontrado no tanto para vírus de aves como para vírus de ma-
hospedeiro natural, sem eliminar a capacidade de míferos que replicam em embriões de galinha.
replicação viral. No caso da cepa Oka, a vacina Dentre os vírus aviários que foram atenuados por
resultante é capaz de induzir uma forte imunidade passagens em ovos embrionados destacam-se o
frente ao VZV sem produzir sinais clínicos nos vírus da bronquite infecciosa das galinhas (IBV)
indivíduos vacinados, ou seja, o vírus vacinal é e o vírus da influenza. Vacinas contra a influenza
desprovido de patogenicidade e virulência, pro- de mamíferos (suínos e equinos) também foram
priedades que caracterizam a atenuação viral. produzidas pela atenuação do vírus em ovos
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embrionados. A exemplo das vacinas atenuadas com eficiência sob temperaturas mais baixas. Os
por passagens em cultivos celulares, a restrição vírus que apresentam essas características são
maior desse tipo de vacina é o desconhecimento denominados vírus temperatura-sensíveis (TS).
da base genética da atenuação, havendo o risco Para a obtenção dos variantes TS, o vírus vacinal
de reversão à virulência. é cultivado em células sob temperaturas mais bai-
Além de vírus aviários, diversos outros ví- xas que a temperatura do organismo hospedeiro
rus podem ser atenuados desse modo. Vacinas (geralmente 30-33°C). Isso resulta na seleção de
atenuadas por passagens do vírus em embriões variantes virais capazes de replicar eficiente-
de galinha já foram produzidas contra o CDV, mente nessa temperatura, porém incapazes de
vírus da língua azul (BTV) e da raiva (RabV), replicar à temperatura corporal e, por isso, não
entre outros. A redução da virulência, após um causam infecção sistêmica quando administrados
determinado número de passagens, pode ser ao hospedeiro.
confirmada por ensaios laboratoriais e pela ino- As vacinas TS são geralmente indicadas para
culação do vírus na espécie de interesse. Essa é administração intranasal, como, por exemplo,
uma etapa indispensável para a certificação da uma vacina TS contra o vírus da influenza, para
vacina como atenuada e estável. uso humano nos Estados Unidos; e uma vacina
TS contra o BoHV-1, que é utilizada em vários
4.1.3.4 Vírus atenuado por passagens em países, inclusive no Brasil. Nesses casos, após a
espécie heteróloga administração, o vírus vacinal replica próximo
à mucosa nasal, onde a temperatura é inferior à
Os vírus destinados ao uso em vacinas replica- temperatura corporal. Uma das principais van-
tivas também podem ser atenuados por múltiplas tagens das vacinas TS contra o BoHV-1 é a segu-
passagens em uma espécie heteróloga, geralmente rança, pois o vírus vacinal infecta as células do
animais de laboratório (coelhos, camundongos, local da inoculação, mas não é capaz de replicar
cobaias). Esse método, embora seja pouco prático à temperatura corporal. Com isso, o BoHV-1 TS é
e cada vez mais restrito devido às questões de ética teoricamente incapaz de se disseminar de forma
em experimentação animal, é o mais adequado sistêmica e infectar o feto, cuja infecção pode
para a atenuação de determinados vírus, como o causar aborto. Vacinas TS contra doença genital
RabV e alguns arbovírus. causada pelo BoHV-1 (balanopostite e vulvova-
A espécie animal utilizada para a atenuação ginite) também foram disponíveis na Europa, e
viral pode também ser próxima à espécie para a são administradas localmente. Vacinas TS contra
qual a vacina é destinada. Vacinas contra o CDV a influenza humana (gripe), de administração
podem ser atenuadas por passagens sucessivas intranasal, estão disponíveis nos Estados Unidos.
do vírus em furões. Já a cepa chinesa do vírus da
peste suína clássica (CSFV), mundialmente utiliza- 4.1.3.6 Vírus atenuado por deleção de
da como vacina viva, foi atenuada por passagens genes
sucessivas em coelhos.
Quando os genes envolvidos na virulência
4.1.3.5 Vírus atenuado por indução de de um vírus são conhecidos, é possível introduzir
sensibilidade à temperatura alterações direcionadas no genoma viral através de
manipulação genética. Vacinas deletadas são obtidas
A atenuação de vírus replicativos também pela remoção ou inativação de genes relacionados
pode ser obtida pela seleção de variantes que com a virulência, utilizando técnicas de DNA re-
apresentam capacidade limitada de replicar sob combinante. Os mutantes virais vacinais que são
temperatura corporal (37°C), mas que replicam produzidos preservam a capacidade de replicação
12
Capítulo 12

e, por isso, retêm a sua capacidade imunogênica. 4.1.3.7 Vírus atenuado com marcadores
No entanto, são incapazes de causar doença porque antigênicos
apresentam pouca ou nenhuma virulência.
O vírus vacinal deletado precisa se manter Para algumas viroses animais, existem va-
viável após a manipulação genética, e a estabilidade cinas disponíveis e eficazes que, no entanto, não
desta mutação deve ser evidenciada após várias podem ser utilizadas devido à interferência nos
passagens em cultivo celular. Como em qualquer programas de vigilância sanitária baseados em
outra metodologia empregada para se obter a testes sorológicos, como é o caso do vírus da
atenuação viral, sempre existe a preocupação de febre aftosa (FMDV). Para alguns desses casos,
evitar a reversão para a forma virulenta. Assim, existem as vacinas com marcadores antigênicos,
procura-se fazer a exclusão de um gene inteiro que induzem uma resposta sorológica nos animais
ou de mais de um gene de virulência no mesmo vacinados que pode ser distinguida da resposta à
vírus, sempre preservando a capacidade de repli- infecção natural. Essas vacinas com marcadores
cação viral. Essa estratégia reduz a possibilidade antigênicos são também conhecidas como vaci-
de o vírus recuperar a virulência e torna a vacina nas diferenciais ou DIVA (differentiating infected
deletada mais segura do que as demais vacinas de from vaccinated animals) e são muito úteis em
vírus atenuados. programas de controle e erradicação de infecções
A atenuação que pode ser obtida nos herpes- víricas que produzem infecções persistentes ou
vírus é um bom exemplo da produção de vacinas latentes. Nesses programas, a vacinação é utilizada
atenuadas por deleção. Esses vírus possuem um paralelamente a outros procedimentos, como a
gene que codifica a enzima timidina quinase (TK), identificação e eliminação dos animais portadores.
associada com a capacidade do vírus de replicar Nesses casos, é crítico que se diferenciem os
em neurônios e ser neurovirulento. A eliminação animais vacinados daqueles que são portadores do
do gene da TK do BoHV produz um vírus mutante vírus. O caráter diferencial em um vírus vacinal
atenuado, com capacidade reduzida ou nula de geralmente é obtido pela deleção do gene que
produzir infecções neurológicas. Outras vacinas codifica alguma proteína do envelope do vírion.
desse tipo encontram-se em desenvolvimento para A diferenciação é realizada pelo uso de um teste
o BoHV-1 e BoHV-5. Vacinas contra alguns poxvírus sorológico – geralmente um teste de ELISA – que
animais também foram obtidas pela deleção do detecta anticorpos contra a proteína ausente no
gene da TK, enzima que também está envolvida na vírus vacinal, mas que está presente no vírus de
capacidade de replicação e virulência desses vírus. campo. Ou seja, a detecção de anticorpos especí-
A tecnologia de genética reversa, embora não ficos contra esta proteína indica que os animais
tenha sido desenvolvida como ferramenta para foram infectados com o vírus de campo. Animais
atenuação viral por deleção de genes, permitiu somente vacinados não reagem positivamente
conhecer as funções de vários genes e proteínas no teste. As vacinas com marcadores antigêni-
virais não-estruturais detalhadamente, abrindo cos são comercializadas acompanhadas do teste
várias perspectivas de avanço na vacinologia, diagnóstico específico, que permite diferenciar a
incluindo para a atenuação viral. Por meio de resposta vacinal da resposta induzida pelo vírus
genética reversa, verificou-se que a presença de de campo. Esta estratégia possibilita a implantação
determinados aminoácidos no sítio de clivagem de programas de vacinação em áreas de risco,
do gene da hemaglutinina favorece a replicação sem prejudicar a perda da condição de rebanho
de variantes altamente virulentos do vírus da livre ou prejuízo ao trânsito de animais.
influenza aviária no hospedeiro. Dessa forma, a O herpesvírus suíno (PRV) presente em
remoção desses aminoácidos pode ser usada para uma vacina com marcador antigênico contra a
a atenuação desses vírus. doença de Aujeszky dos suínos foi atenuado por
13
Vacinas víricas

meio da deleção do gene que codifica a gE, uma anticorpos específicos contra esta glicoproteína,
das glicoproteínas do envelope viral que não é enquanto que os animais que forem infectados
essencial à viabilidade e replicação do vírus. Essa com o vírus de campo desenvolverão anticorpos
vacina gE negativa é capaz de induzir a produção contra a gE. Através do teste de ELISA, fornecido
de anticorpos no hospedeiro. Portanto, animais com a vacina, pode-se, subsequentemente, dife-
vacinados com a cepa gE negativa não formarão renciar os suínos vacinados daqueles infectados
14
Capítulo 12

pelo vírus de campo. O princípio das vacinas Para ser usado como vacina replicativa, um
com marcadores antigênicos e a sua utilização vírus vetor deve apresentar algumas caracterís-
para diferenciar animais vacinados daqueles ticas, como ser pouco ou nada patogênico, ser
infectados com o vírus de campo está ilustrado minimamente ou não excretado no ambiente e
na figura 12.3. replicar preferencialmente em sítios equivalentes
Os programas de erradicação do PRV nos aos infectados pelo vírus de interesse. Dessa for-
Estados Unidos, na Alemanha e em outros países ma, a resposta imunológica será estimulada nos
europeus tiveram como base o uso de vacinas locais naturais de infecção. Em geral, os vetores
diferenciais. No Brasil, o programa de erradica- virais vacinais utilizados são aqueles que já têm
ção dessa doença no estado de Santa Catarina o genoma sequenciado e caracterizado, além de
utilizou uma vacina gE negativa, associada com serem capazes de comportar a inserção e expressar
um teste imunoenzimático. Vacinas com mar- o gene heterólogo que irá codificar o antígeno de
cadores antigênicos estão sendo utilizadas em interesse. Sendo assim, os poxvírus, os herpesvírus
vários países europeus em programas de controle e os adenovírus são os vírus mais frequentemente
e erradicação do BoHV-1. A possibilidade de se empregados como vetores vacinais. Contudo,
manipular geneticamente os vírus e modificá-los diversos outros vírus vêm sendo estudados como
antigenicamente abre a possibilidade da confecção vetores para vacinas humanas e animais, como os
e utilização deste tipo de vacina contra outros alfavírus (vírus da encefalite equina venezuelana
vírus animais. [VEEV], vírus Sindbis), flavivírus (vírus da febre
Embora as vacinas diferenciais clássicas te- amarela) e o poliovírus (cepa atenuada Sabin,
nham sido concebidas para utilização do vírus a mesma que é utilizada como vacina contra a
deletado como vacina replicativa, o vírus com poliomielite).
marcador antigênico pode também ser utilizado Dentre os Avipoxvirus, o vírus da bouba avi-
em vacinas não-replicativas. Portanto, o caráter ária é um bom vetor de expressão para vacinas
diferencial entre animais vacinados e animais destinadas a outras espécies animais porque apre-
infectados pelo vírus de campo pode ser obtido senta baixo índice de replicação e incapacidade
tanto por vacinas com marcadores antigênicos de disseminação quando inoculado em células
vivos quanto vacinas com marcadores antigênicos de mamíferos, ao mesmo tempo que expressa
sem vírus vivo. antígenos heterólogos de maneira muito eficiente.
Um exemplo é a vacina recombinante contra a
4.1.4 Vetores vacinais cinomose canina, disponível comercialmente. Os
genes das glicoproteínas hemaglutinina (H ou HA)
Vírus natural ou artificialmente atenuados e de fusão (F) do CDV foram inseridos no genoma
podem ser utilizados para carrear um ou mais genes do vírus da bouba de canário, gerando um vírus
que codificam antígenos virais imunoprotetores de recombinante que expressa proteínas do CDV.
outros vírus. Dessa maneira, esses vírus funcionam Esse vírus recombinante é multiplicado em escala
como vetores vivos para a imunização de animais. industrial até atingir altos títulos, quando então
O gene de interesse é inserido no genoma do vírus pode ser usado na imunização de cães. O resulta-
vetor por técnicas de manipulação genética, e o do é a indução de resposta imunológica contra os
resultado é um micro-organismo recombinante antígenos do poxvírus – irrelevante neste caso, pois
que expressa as suas próprias proteínas e também este não é um vírus de cães – mas principalmente
a(s) proteína(s) heteróloga(s). Como consequência, contra as proteínas H e F, conferindo proteção aos
a vacinação com este vírus induz resposta imu- cães contra o CDV (Figura 12.4). Outro exemplo é
nológica contra as proteínas do vetor e também o poxvírus aviário, usado como base para vacinas
contra a proteína do vírus heterólogo. vetoradas contra o vírus do Nilo Ocidental (WNV)
15
Vacinas víricas

para uso em equinos, que também pode ser en- que expressa a glicoproteína G do RabV. Essa vaci-
contrado como vetor vacinal para enfermidades na – de administração oral – é fornecida por meio
víricas de aves. Uma vacina contendo o vírus da de iscas alimentares distribuídas nas pradarias e
bouba aviária como vetor de antígenos do vírus florestas. Os carnívoros que receberam a vacina
da doença de Newcastle das aves (NDV) é usada não apresentaram sinais clínicos de raiva ou lesões
comercialmente para imunização de galinhas, nas de pox. Essa vacina vetorada também vem sendo
quais induz proteção contra o NDV. usada para controle da raiva silvestre na América
A raiva em carnívoros silvestres da Bélgica e do Norte e em outros países europeus.
França tem sido controlada com o emprego de um Os adenovírus são também bons vetores
vetor vacinal poxvírus, o Orthopoxvirus vaccínia, vacinais, pois são vírus de manipulação relativa-
16
Capítulo 12

mente fácil e de genoma bem caracterizado, que animais, havendo estudos que o utilizam como
permite a inserção de longas sequências de genes vetor de genes do FMDV.
virais sem necessitar a remoção de sequências Uma variação das vacinas vetoriais são os vírus
originais do vírus. Além disso, os adenovírus quiméricos, gerados pela combinação de partes
apresentam tropismo por diferentes tipos celu- do genoma de vírus apatogênicos com os genes
lares e facilidade de replicar em altos títulos em imunoprotetores do vírus patogênico. Uma vacina
cultivos celulares. Esta estratégia foi utilizada inativada para leitões foi preparada a partir de um
para a produção de uma vacina contra a febre clone infeccioso de DNA quimérico contendo a
aftosa, na qual um adenovírus humano expressa porção imunogênica ORF2 (fase aberta de leitura 2)
proteínas do capsídeo do FMDV. Os adenovírus do gene do capsídeo viral do PCV2 inserido no ge-
são também encontrados como vetores de vacinas noma do PCV1 (vírus não patogênico para suínos).
humanas, como, por exemplo, uma vacina contra As pesquisas prévias ao licenciamento da vacina
o papiloma genital humano – causador do carci- revelaram que o vírus quimérico PCV1-2 induz
noma de colo de útero – produzida pela inserção imunidade protetora contra a infecção por PCV2
de genes do papilomavírus humano no genoma em suínos, mas retém a natureza não-patogênica
de um adenovírus; ou uma vacina contra a gripe do PCV1. Esta vacina é inativada e utilizada em
humana em que um adenovírus é vetor para a leitões com 3 a 4 semanas de idade.
hemaglutinina do vírus da influenza. As vacinas que utilizam vetores virais apre-
Os herpesvírus também têm sido explorados sentam a vantagem de não sofrerem interferência
como vetores potenciais para carrear antígenos de da imunidade passiva materna, pois os animais
outros vírus devido à facilidade de atenuá-los por geralmente não possuem imunidade contra antí-
deleção gênica e pela capacidade de seu genoma genos do vírus vetor. Da mesma forma, se o vírus
receber a inserção de um ou mais genes. Dentre vetor for um vírus não-patogênico para a espécie
os usos experimentais de herpesvírus como ve- animal vacinada, não existe o risco de tornar-se
tores vacinais, incluem-se: BoHV-1 expressando virulento. Eles também são boas alternativas de
antígenos do RabV, do BVDV e do vírus sincicial vacinas contra vírus que replicam de maneira
respiratório bovino (BRSV). O resultado é uma insatisfatória em cultivos celulares. Conforme o
vacina polivalente para bovinos que estimula o local de replicação do vetor utilizado, haverá o
sistema imune no local de entrada desses vírus. estímulo de imunidade de mucosas (penetração
Por outro lado, existe a preocupação com a possi- em mucosas) ou imunidade mediada por linfócitos
bilidade de os vetores herpesvírus estabelecerem T (penetração intracelular). Certamente, novas
latência no animal vacinado. Estudos realizados vacinas de vetores virais serão incorporadas ao
com o herpesvírus canino (CHV) como vetor mercado nos próximos anos pelas vantagens e
para vacinação de raposas demonstraram que, aplicações potenciais que apresentam.
embora o vírus tenha sido detectado nos sítios de Algumas bactérias também podem ser utili-
latência, não foi observada a sua reativação viral. zadas como vetores para a expressão de antígenos
O genoma do PRV apresenta boas características virais. Nesse caso, o gene que codifica uma pro-
para a inserção de genes heterólogos e, por isso, teína viral imunoprotetora é inserido no genoma
vem sendo utilizado experimentalmente como bacteriano por meio de manipulação genética. A
vetor para genes de outros vírus suínos, como o bactéria recombinante é, então, amplificada em
CSFV e o circovírus suíno (PCV). O resultado é cultura e administrada pela via oral ao hospedeiro.
um herpesvírus atenuado que atua como vacina No intestino, a bactéria recombinante se multiplica
multivalente e apresenta ótimas perspectivas e produz o antígeno viral, que é apresentado ao sis-
para vacinação em suínos. O PRV também pode tema imunológico. Enterobactérias, como Escherichia
ser utilizado como vetor para outras espécies coli e Salmonella, são consideradas boas candidatas
17
Vacinas víricas

a vetores de antígenos de vírus entéricos devido mento pós-tradução dessa proteína, bem como
à perspectiva de apresentação do antígeno viral deve haver disponibilidade de um método também
diretamente no tecido linfoide que está associado efetivo de purificação do produto recombinante,
ao intestino. Vetores bacterianos para antígenos que serão determinantes na viabilidade funcional
virais apresentam boas perspectivas para uso em e comercial dessa estratégia.
humanos, pois, além de induzirem resposta imu-
nológica local (IgA), poderiam ser administrados 4.2 Vacinas não-replicativas
pela via oral, uma via interessante para a vacinação
de animais de companhia. As vacinas não-replicativas não contêm o
Outra possibilidade de vetor vacinal que vem agente viável e, por isso, são mais seguras do
sendo estudada são vegetais (leguminosas ou que as vacinas com vírus replicativo porque não
frutas) transgênicos que expressariam antígenos oferecem a possibilidade de reverter a virulência
imunoprotetores, cuja ingestão na forma in natura e de causar doença. No entanto, por não promo-
poderia estimular resposta imunológica frente ao verem amplificação do antígeno – como ocorre
antígeno recombinante, e, dessa forma, atuariam com as vacinas vivas – e por não induzirem
como vacinas “comestíveis”. Devido à falta de resposta mediada por linfócitos Tc, apresentam
homogeneidade no nível de expressão de antíge- efetividade geralmente inferior às vacinas com
nos em vegetais ou frutos provenientes da mesma vírus replicativo. Contudo, essas vacinas pos-
planta transgênica e pela dificuldade prática na suem inúmeras aplicações e têm contribuído
separação dos alimentos com fins vacinais daqueles para o controle e erradicação de várias doenças
destinados à alimentação humana ou animal, plan- víricas importantes, como a febre aftosa e raiva
tas ou tecidos vegetais transgênicos foram então animal. Várias vacinas não-replicativas estão
propostos como “biorreatores” para a produção de disponíveis no mercado e outras tantas estão em
antígenos em grande escala. Experimentalmente, fase de desenvolvimento ou testes. As vacinas
foram produzidos antígenos vacinais em diversos não-replicativas podem ser compostas por vírions
vegetais, como folhas de alfafa, tabaco ou feijão, inativados, por frações ou proteínas extraídas
contra o RabV, NDV, FMDV, rotavírus bovino, dos vírions, por proteínas virais recombinantes,
parvovírus canino, dentre outros vírus; assim como por peptídeos sintéticos correspondentes aos
anticorpos monoclonais contra o RabV para imu- determinantes antigênicos imunoprotetores das
nização passiva de indivíduos expostos ao vírus. proteínas e, finalmente, por DNA ou RNA que
Entretanto, para que produzam esses antígenos ou codifica a proteína de interesse (Figura 12.5).
outras proteínas, as plantas “biorreatoras” precisam Dentre estas, a maioria contém partículas víricas
ser dotadas de um sistema efetivo de expressão da íntegras, porém desprovidas de infectividade
proteína recombinante e de controle do processa- (vacinas inativadas ou “mortas”).
18
Capítulo 12

4.2.1 Vacinas com vírus inativado de anticorpos e parte se transforma em células de


memória, de longa duração. Clones de linfócitos
Vacinas inativadas, também chamadas de Th são também estimulados e auxiliam a proli-
vacinas mortas, são obtidas a partir do vírus in- feração e diferenciação dos linfócitos B através
fectivo original, cuja infectividade é eliminada por da secreção de citocinas (interleucinas). Em uma
métodos físicos ou químicos. São, portanto, vacinas exposição posterior ao mesmo agente, as células
compostas de partículas víricas íntegras, porém de memória são rapidamente estimuladas e se
inertes e sem capacidade replicativa. As vacinas diferenciam em plasmócitos. Os plasmócitos se-
com vírus inativado são estáveis à temperatura cretam grandes quantidades de anticorpos, muitos
ambiente e são muito seguras porque possíveis dos quais com atividade neutralizante, que são
vírus contaminantes, se presentes no estoque ori- responsáveis pelo combate ao agente e controle
ginal de vírus, são também inativados durante o da infecção. Porém, a magnitude e a duração da
processo de inativação. A inativação é irreversível imunidade resultante do uso dessas vacinas são
e elimina qualquer possibilidade de retorno do menores do que a imunidade decorrente de vaci-
vírus vacinal à forma virulenta. nas replicativas, que estimulam resposta celular e
Para a produção da vacina, o vírus é inicial- humoral. A incapacidade de replicação do vírus
mente amplificado em um sistema biológico (cultivo implica a necessidade de realizar reforços vacinais,
celular, ovos embrionados) até atingir títulos altos. além de se incluir grande quantidade de antígeno
Esses vírus são, então, submetidos ao processo de na vacina, o que pode elevar o seu custo. Mesmo
inativação, que objetiva eliminar a sua viabilidade. assim, os resultados são geralmente inferiores aos
Durante a eliminação da capacidade infectiva do obtidos com vacinas vivas. Além disso, as vacinas
vírus, procura-se preservar a capacidade antigênica, inativadas requerem o uso de potencializadores da
de modo que a resposta imunológica seja devida- resposta imunológica – denominados adjuvantes
mente estimulada. A manutenção da integridade – que também aumentam o seu custo e podem
da conformação dos antígenos imunoprotetores é provocar efeitos colaterais. Não obstante, as vacinas
um fator que pode influenciar na resposta imuno- inativadas continuam sendo a única opção contra
lógica. Produtos químicos, como o formaldeído, algumas doenças, seja pela impossibilidade de se
etilenemina e b-propiolactona, são utilizados para obter suficiente atenuação do agente viral ou pela
inativar vírus para uso em vacinas. Esses quími- impossibilidade de se usar o vírus replicativo em
cos, contudo, se empregados em concentrações e algumas situações, como em fêmeas prenhes ou em
tempo excessivos, podem alterar a conformação áreas livres de determinadas viroses. Atualmente,
de epitopos virais e, consequentemente, resultar a maioria das vacinas utilizadas contra vírus de
em redução da imunogenicidade do antígeno. animais é inativada. O controle e a erradicação da
Atualmente, a b-propiolactona e os derivados da febre aftosa no Brasil são baseados na política de
etilenemina são os inativantes mais utilizados pela vacinação com uma vacina inativada, assim como a
indústria de vacinas. vacina contra a raiva, que é utilizada em diferentes
A imunidade decorrente da aplicação de va- espécies domésticas no país.
cinas não-replicativas inativadas é tipicamente
humoral, uma vez que as partículas inativadas são 4.2.2 Vacinas de subunidades virais
incapazes de replicar no organismo hospedeiro
e, desse modo, desencadear a resposta celular O sistema imunológico – por meio de suas
mediada por linfócitos Tc. Após a administração células e moléculas – não reconhece a estrutu-
de uma vacina inativada, ocorre a estimulação ra completa do vírus. Ao contrário, reconhece
de clones específicos de linfócitos B, parte dos e interage com pequenas regiões das proteínas
quais se transforma em plasmócitos secretores que compõem as partículas víricas. Essas regiões,
19
Vacinas víricas

que na realidade são determinadas sequências


de aminoácidos, são denominadas epitopos ou
determinantes antigênicos. Dentre os epitopos que
um vírion possui, alguns são mais imunogênicos
do que outros. Além disso, a maioria dos epito-
pos virais não gera imunidade protetora, capaz
de neutralizar os vírions ou provocar a lise das
células infectadas. No entanto, existem epitopos
altamente imunogênicos, contra os quais a resposta
imunológica é altamente efetiva. Dessa forma, é
possível se produzir vacinas com essas frações do
vírus, selecionadas dentre as mais imunoprotetoras.
As vacinas de subunidades virais são aquelas que
contêm apenas epitopos imunogênicos do vírus
original, e não o vírus completo. Como consequ-
ência, essas vacinas são desprovidas de capacidade
replicativa e são muito seguras.
Vacinas de subunidades são produzidas a partir
do cultivo inicial do vírus em grande quantidade.
A seguir, uma ou mais das proteínas virais imuno-
protetoras previamente selecionadas são purificadas
por métodos químicos e administradas junto com
adjuvantes na forma de vacina (Figura 12.6).
Essa estratégia tem sido utilizada para a pro-
dução de vacinas contra a influenza humana con-
tendo a hemaglutinina viral. Para tal, diferentes
cepas do vírus são cultivadas em ovos embrionados
de galinha, seguido de inativação e subsequente
purificação das hemaglutininas que irão constituir
a vacina. Outra possibilidade é a vacina de subuni-
dade contendo as glicoproteínas da superfície do
vírus (hemaglutinina), que são reunidas e adminis-
tradas na mesma vacina. A vacina clássica contra o
vírus da hepatite B humana (HBV) era produzida
pela purificação de partículas subvirais inertes,
obtidas do plasma de indivíduos portadores. Já
estão disponíveis no mercado nacional opções de
vacinas de subunidades contra a circovirose suína
e cinomose canina, e, provavelmente, o número
de opções deverá aumentar nos próximos anos.

4.2.3 Vacinas de proteínas recombinantes

O princípio das vacinas não-replicativas de


proteínas recombinantes é semelhante ao das va-
20
Capítulo 12

cinas de subunidades virais, com a diferença de


que a proteína viral de interesse não é extraída dos
vírions, e sim produzida em micro-organismos
recombinantes. Os genes que codificam proteínas
imunoprotetoras do vírus são identificados, remo-
vidos do vírus e inseridos no genoma de bactérias,
vírus ou leveduras, que passam a produzir a pro-
teína em grande quantidade. A proteína é então
purificada e administrada na forma de vacina
não-replicativa (Figura 12.7). Este sistema, além de
produzir uma maior quantidade da proteína imu-
noprotetora, é também seguro e de baixo custo. A
vacina atual contra o HBV, licenciada e disponível
para a imunização humana, foi produzida a partir
da clonagem de genes que codificam o antígeno
de superfície do HBV (HBsAg) em levedura. Os
antígenos produzidos pelas leveduras recombinan-
tes são subsequentemente purificados e utilizados
como vacina. A administração dessa vacina de
proteína recombinante estimula o desenvolvimento
de resposta imunológica específica contra o vírus
no hospedeiro.
Utilizando o sistema de bactérias, genes que
codificam capsídeos virais também podem ser
clonados em plasmídeos e produzidos em gran-
de escala. As proteínas produzidas se organizam
em uma estrutura semelhante ao vírus original,
porém vazio (virus-like particles, VLPs), e podem
ser utilizadas como vacina. Essas partículas virais
não possuem ácidos nucleicos nem capacidade de
replicação e, por isso, são desprovidas de infecti-
vidade e totalmente seguras. Essas partículas já
foram produzidas experimentalmente para várias
espécies de rotavírus, calicivírus, picornavírus
e orbivírus. Uma vacina recombinante contra o
papilomavírus humano (HPV), agente associado
ao carcinoma de colo uterino em mulheres, está
disponível comercialmente. A proteína do capsí-
deo do HPV é produzida em levedura, e as suas
unidades se associam formando VLPs que são,
então, utilizadas como imunógeno e induzem boa
proteção contra a infecção. Uma vacina contra o
vírus da leucemia felina (FeLV) foi produzida pela
expressão da glicoproteína viral gp70 em E. coli
(Figura 12.7). Alternativamente, vírus de plantas,
21
Vacinas víricas

como o vírus do mosaico do tabaco, podem ser- os epitopos virais que são bem conhecidos e ca-
vir como vetores de antígenos vacinais, sendo o racterizados por apresentarem maior capacidade
antígeno produzido pelas plantas transgênicas. imunoprotetora podem ser sintetizados em labo-
Vacinas que utilizam esta estratégia de plantas ratório. As vacinas víricas de peptídeos sintéticos
transgênicas já foram desenvolvidas contendo são aquelas que contêm apenas essas sequências
genes do FMDV e do BoHV-1. de aminoácidos produzidas sinteticamente, cor-
Vacinas que utilizam proteínas purificadas respondentes aos epitopos virais mais relevantes.
estimulam linfócitos Th CD4+, além de resposta Os peptídeos sintéticos produzidos são qui-
humoral mediada por linfócitos B e anticorpos; micamente análogos aos determinantes antigênicos
contudo não geram uma resposta relevante de originais e, em geral, contêm de 3 a 10 aminoácidos.
linfócitos Tc. A ausência de resposta citotóxica deve- Por meio desta metodologia, foi possível estimular
-se ao fato de essas proteínas serem processadas e a produção de anticorpos neutralizantes contra
apresentadas quase que exclusivamente associadas RabV, FMDV e parvovírus canino.
ao complexo principal de histocompatibilidade de Os linfócitos B reconhecem antígenos na sua
classe II (MHC-II). Como resultado, não ocorre a conformação natural. Assim, muitos dos epitopos
estimulação adequada e resposta mediada por capazes de estimular resposta humoral necessitam
linfócitos Tc, que dependem de estimulação via manter esta conformação. No entanto, grande parte
MHC-I. Vacinas contendo proteínas recombinantes dos peptídeos que são sintetizados apresenta-se
apresentam perspectivas promissoras para uso em como cadeia curta de forma linear, não dispondo
várias doenças víricas animais e humanas. de conformação terciária ou quaternária. Como
consequência, o nível de indução dos linfócitos
4.2.4 Vacinas de peptídeos sintéticos B e a atividade dos anticorpos que é induzida
pelas vacinas de peptídeos sintéticos são baixos e
Por maior que seja a molécula do antígeno, insatisfatórios quando comparados com aqueles
somente alguns epitopos são importantes para o induzidos pelas vacinas compostas por partículas
reconhecimento pelos linfócitos B e indução da virais completas ou por proteínas purificadas.
resposta imunológica. Partindo desse princípio, Uma das estratégias usadas para contornar esta

Tabela 12.2. Propriedades e restrições das vacinas víricas replicativas e não replicativas

Característica Replicativas Não replicativas

Imunidade mediada por linfócitos TcD8+ Sim Não

Duração da imunidade Longa Curta

Necessidade de adjuvante Não Sim

Quantidade de antígeno por dose Pequena Grande

Número de doses Uma (geralmente) Várias

Via de administração Injetável ou oral Injetável

Estabilidade térmica Lábil Estável

Reversão à forma virulenta Raro Não

Uso em fêmeas em gestação Não recomendado Sim


22
Capítulo 12

baixa imunogenicidade é a ligação dos peptídeos viral produzida e, posteriormente, apresentada ao


a proteínas maiores (carreadoras), para induzir sistema imunológico. O resultado é a estimulação
uma melhor resposta e produção de anticorpos. de resposta imunológica humoral e celular con-
As vacinas replicativas e não-replicativas apre- tra esta proteína e, como consequência, contra o
sentam propriedades e restrições, de acordo com a vírus que a possui em sua estrutura. Em teoria, a
sua formulação e finalidade a que se destinam. As natureza da resposta imunológica desencadeada
principais vantagens e desvantagens desses dois pelas vacinas víricas de DNA é altamente desejá-
tipos de vacina estão apresentadas na tabela 12.2. vel porque, além de resposta humoral, promove
também a estimulação de linfócitos T. Contudo,
4.3 Vacinas de DNA e RNA embora o mecanismo de ação dessas vacinas seja
aparentemente simples, a maneira exata pela qual
No início dos anos 1990, foi demonstrado que desencadeiam a resposta imunológica ainda não
a administração intramuscular de DNA plasmideal está totalmente esclarecida. Sabe-se que a produ-
contendo um gene sob a regulação de um promotor ção dos antígenos imunogênicos ocorre intrace-
de eucariotas era capaz de levar à expressão da lularmente no organismo hospedeiro, portanto,
proteína codificada pelo gene nas células do animal não existem os riscos observados nas vacinas
inoculado. As vacinas víricas de DNA consistem vivas, tais como infecção, produção de latência
de DNA exógeno contendo o gene da proteína de e desenvolvimento de imunidade contra o vetor
interesse sob regulação de um promotor, cuja ino- vacinal. Os peptídeos resultantes são reconhecidos
culação em animais resulta na produção da proteína como não-próprios, sendo então processados por
viral nos tecidos do hospedeiro, desencadeando células apresentadoras de antígenos e expostos
uma resposta imunológica específica. às células do sistema imunológico, via MHC
A elaboração de uma vacina vírica de DNA classe I e II, resultando na indução de resposta
envolve a identificação de um gene viral que codi- de linfócitos Tc e Th, respectivamente. A resposta
fica uma determinada proteína imunodominante de linfócitos Tc, importantes na eliminação de
e indutora de resposta protetora, geralmente um células infectadas por vírus, é uma das principais
epitopo. O gene é inserido em um plasmídeo de vantagens das vacinas de DNA em relação aos
expressão, que serve como vetor vacinal e que con- outros tipos de vacinas víricas não-replicativas,
tém um promotor eucariótico forte e um marcador que somente estimulam linfócitos Th. Diversos
de seleção para a produção do DNA em grande estudos indicam que a resposta humoral e a ce-
escala em bactérias. Uma grande quantidade desses lular são promissoras. Experimentalmente, não
plasmídeos é produzida em E. coli, sendo então foram detectadas interferências com a imunidade
purificada e inoculada no hospedeiro como vacina passiva, sugerindo que as vacinas de DNA podem
de DNA. Uma vez que diferentes genes podem ser usadas em neonatos para estimular resposta
ser combinados em uma mesma vacina de DNA, imunológica contra vírus clinicamente importantes
essa vacina pode ser do tipo polivalente, capaz de na fase inicial de vida.
estimular resposta imunológica a múltiplos vírus Entretanto, os níveis de anticorpos detectados
ou sorotipos virais. As vacinas de DNA são geral- após a vacinação ainda são baixos. De fato, para
mente administradas pelas vias intramuscular ou induzir uma resposta imunológica satisfatória, é
intradérmica, através das quais os plasmídeos são necessária a inoculação de uma grande quantidade
injetados associados a lipídeos catiônicos ou por de DNA. Por isso, a administração das vacinas por
balística (gene-gun). meio de gene-gun tem se mostrado mais eficiente
Uma vez no organismo hospedeiro, a vacina porque permite administrar grande quantidade
vírica de DNA é transportada até o núcleo das cé- de DNA, capaz de gerar resposta imunológica de
lulas locais, onde o gene será transcrito e a proteína maior magnitude. Porém, as dificuldades práti-
23
Vacinas víricas

cas desse método de aplicação da vacina tornam suínos, que possuem rotavírus e coronavírus em
remota a sua utilização na área veterinária. sua formulação, além de antígenos bacterianos.
As vacinas de RNA são uma variação das Dentre as vacinas multivalentes contra vírus não-
vacinas de DNA. Nesses casos, o RNA mensageiro -relacionados, incluem-se as vacinas contra viroses
(mRNA) que codifica proteínas virais de interesse é de cães, que contêm antígenos de até seis vírus
produzido in vitro e incorporado em lipossomos ou diferentes em sua formulação, além de antígenos
em micropartículas. A inoculação dessas partículas bacterianos. Estas têm o objetivo de imunizar
ou lipossomos no animal resulta em transporte do os animais contra os agentes mais prevalentes
mRNA para o interior das células, onde ocorre a da espécie, mesmo que alguns não apresentem
tradução e produção da proteína. Esta proteína relação epidemiológica entre si. São disponíveis
é, então, apresentada ao sistema imunológico, comercialmente também vacinas di e trivalentes,
resultando em estimulação de resposta humoral contra vírus de maior importância em determinadas
e celular. situações epidemiológicas.
Vacinas de DNA e RNA vêm sendo pesquisa- A maior vantagem das vacinas multivalentes
das contra o vírus da imunodeficiência felina (FIV), é a praticidade, pois permitem a imunização dos
vírus da leucemia felina (FeLV), FMDV, BVDV, animais contra vários agentes na mesma aplicação.
BRSV, RabV, entre tantos outros, mas, apesar das Essas vacinas, no entanto, apresentam algumas
vantagens e aplicações originalmente vislumbradas, restrições potenciais do ponto de vista imunoló-
essas vacinas ainda não encontraram a aplicação ini- gico: a) exigem a resposta simultânea do sistema
cialmente prevista na área animal. Atualmente, três imunológico contra um número muito grande de
vacinas de DNA encontram-se disponíveis para uso antígenos; b) mesclam antígenos imunodominantes
veterinário nos EUA – direcionadas para proteger com antígenos menos imunogênicos; c) algumas
equinos contra o vírus do Nilo Ocidental (WNV). incluem agentes imunodepressores em algumas
delas; d) unificam a ocasião da aplicação, que pode
4.4 Vacinas monovalentes e polivalentes não ser ótima para alguns dos antígenos presentes;
e) algumas mesclam preparações de vírus vivo
Várias vacinas de uso humano e animal con- com vírus inativado. Mesmo assim, várias vacinas
têm antígenos de mais de um vírus – e também de uso animal contêm antígenos de mais de um
de bactérias – em sua formulação. O objetivo de se vírus em sua formulação e muitas delas têm sido
formular vacinas di, tri, tetra ou polivalentes é o de usadas com sucesso para o fim a que se destinam.
facilitar o manejo da vacinação, ou seja, imunizar
os animais contra vários patógenos em apenas uma 5 Adjuvantes
administração. Dentre as vacinas multivalentes,
podem-se mencionar dois tipos, de acordo com o Os adjuvantes são substâncias que têm a função
objetivo e abrangência: a) vacinas multivalentes de potencializar a resposta imunológica induzida
direcionadas contra síndromes clínicas definidas; por vacinas não-replicativas, constituídas por vírus
b) vacinas multivalentes direcionadas contra ví- inativados, subunidades, proteínas recombinantes
rus não-relacionados, mas que são prevalentes ou peptídeos sintéticos. As proteínas na forma
na população. Dentre as primeiras, incluem-se solúvel e os antígenos purificados e de baixo peso
as vacinas direcionadas ao complexo respiratório molecular que compõem essas vacinas podem ser
bovino, contendo os vírus BoHV-1, BVDV, vírus pouco imunogênicos, mas apresentam um aumento
da parainfluenza 3, BRSV e bactérias que mais acentuado na sua imunogenicidade quando são com-
frequentemente estão associadas à etiologia desta binadas com adjuvantes. Por isso, com exceção das
doença. Nessa categoria também se incluem as vacinas atenuadas (compostas de vírus replicativo)
vacinas contra diarreias neonatais de bovinos e e das vacinas de DNA e RNA, as outras formas de
24
Capítulo 12

vacinas não-replicativas devem, necessariamente, incompleto de Freund, que forma depósitos no


incluir adjuvantes em sua formulação. tecido inoculado.
Além de aumentar a magnitude da resposta Frações de origem bacteriana podem ser
imune, alguns adjuvantes são capazes de promover ótimos adjuvantes. Os lipopolissacarídeos (LPS)
a indução da imunidade de mucosas e estimular bacterianos desencadeiam sinais que tornam as
linfócitos Tc, aumentando a eficiência de macrófagos células apresentadoras de antígeno mais ativas.
e células dendríticas na apresentação de antígenos Esses compostos induzem ainda a produção de
e prolongando a expressão do complexo peptídeo/ citocinas inflamatórias, e, consequentemente, a
MHC-II na superfície de células apresentadoras resposta imunológica local é de magnitude su-
de antígenos. Por outro lado, a maioria dos ad- perior. O adjuvante completo de Freund contém,
juvantes não é capaz de formar ligações estáveis além do óleo mineral, microbactérias inativadas,
com o antígeno. cujos componentes da parede celular são capazes
Diversas substâncias são utilizadas como de aumentar a imunoestimulação.
adjuvantes, diferindo na sua composição, que ge- Vesículas artificialmente produzidas a partir
ralmente determina o modo de ação (Tabela 12.3). de lipídeos, denominadas lipossomos, podem in-
Em geral, existem dois mecanismos principais de corporar antígenos no seu interior ou superfície.
atuação: sistemas de entrega do antígeno e adju- Se os lipossomos forem envoltos por proteínas
vantes imunoestimuladores. do envelope viral, serão capazes de mimetizar o
Sais inorgânicos, como o hidróxido de alu- envelope natural do vírus, sendo chamados de
mínio, promovem a precipitação e a deposição virossomos. Vacinas contra a influenza e vírus da
do antígeno no local da aplicação da vacina, de hepatite A humana, baseadas em virossomos, já
onde será liberado gradualmente. A liberação foram licenciadas em vários países europeus.
lenta do antígeno é também o princípio de ação Complexos imunoestimuladores (ISCOMs)
das emulsões de água em óleo, como o adjuvante resultam da mistura do antígeno ao colesterol, aos

Tabela 12.3. Principais adjuvantes utilizados em vacinas e seu mecanismo de ação

Tipo de adjuvante Forma de ação Exemplos

Sais inorgânicos Armazenamento e liberação Hidróxido de alumínio, fosfato


gradual do antígeno. de alumínio, fosfato de cálcio.

Armazenamento e liberação Adjuvante completo de


Componentes de gradual do antígeno, Freund.
bactérias estimulação de macrófagos.

Estimulação de macrófagos LPS, BCG (linhagem atenuada


e indução da liberação de de Micobacterium bovis).
citocinas.

Armazenamento e liberação Adjuvante incompleto de Freund


gradual do antígeno. (emulsão de óleo em água).
Partículas lipídicas
Liberação do antígeno Lipossomos, virossomos,
encapsulado no citosol, ISCOMs.
estimulando linfócitos T
citotóxicos.

Citocinas Estímulo de células T Interleucinas 1, 2 e 12;


citotóxicas ou de células Interferon alfa e gama.
dendríticas.
25
Vacinas víricas

fosfolipídeos e à saponina Quil A, um glicosídeo pu- adjuvante também não seja utilizado em vacinas
rificado de plantas. Os ISCOMs apresentam estrutura humanas.
esférica, com cerca de 40 nm de diâmetro, e já existem Somente compostos contendo alumínio, hi-
algumas vacinas para uso veterinário que utilizam este dróxido de alumínio ou fosfato de alumínio estão
complexo como adjuvante. Outra possibilidade que atualmente aprovados para uso humano. Já na área
surgiu através da tecnologia de DNA recombinante veterinária, as substâncias mais utilizadas como
foi a fusão de proteínas ou peptídeos imunoprotetores adjuvantes são o óleo mineral e os sais minerais
de vírus com diferentes citocinas. Esses complexos baseados em alumínio, embora outros compostos
agiriam como adjuvantes e direcionariam a resposta estejam sendo testados experimentalmente. A prin-
imune desejada contra o vírus alvo. cipal dificuldade em identificar novos adjuvantes é
Algumas citocinas têm efeito positivo da modu- que, embora muitos resultados experimentais em
lação da resposta imunológica e, por isso, aumentam animais demonstrem boa capacidade imunoesti-
a eficácia vacinal, atuando como adjuvantes. Estas muladora, esses compostos frequentemente são
citocinas (interleucinas ou interferon alfa e gama) são tóxicos para os animais.
administradas ao indivíduo separadamente da vacina.
Outra possibilidade, no caso de vacinas vetoradas,
é a inclusão do gene que a codifica no vetor viral. A
interleucina 18 (IL-18) induz a produção de interferon
gama (IFN-γ) e a proliferação de linfócitos T e, por
isso, vem sendo explorada experimentalmente para
melhorar a resposta de vacinas recombinantes que
utilizam vetores vacinais. Um exemplo prático é um
poxvírus aviário como vetor do gene da interleucina 18
(IL-18) e de antígenos de alguns vírus animais, como
o FMDV e o vírus da influenza aviária H5N1, que
desencadeia melhores níveis de resposta imunológica
celular, se comparado à vacina sem inclusão de IL-
18. A modulação da resposta imunológica também
tem sido possível usando o IFN-α como adjuvante
de vacinas víricas.
As células apresentadoras de antígenos, parti-
cularmente as células dendríticas e os macrófagos,
são os principais alvos da ação dos adjuvantes,
resultando em efeitos diversos que produzem um
aumento na resposta imune (Figura 12.8).
Alguns efeitos adversos decorrentes do uso
de adjuvantes devem ser considerados. Os sais
inorgânicos geralmente desencadeiam reação
granulomatosa no local da aplicação. O adjuvante
completo de Freund não é utilizado em animais
de produção, devido à possibilidade de induzir
reação cruzada com o teste de tuberculinização e
à intensa reação local. As reações adversas locais,
bem como a possibilidade de desenvolver efei-
tos carcinogênicos, fazem com que este tipo de
26
Capítulo 12

6 Controle de qualidade anticorpos produzidos em resposta à imunização


ou por testes de desafio.
Durante o processo de desenvolvimento e A quantificação da resposta sorológica indu-
produção, as vacinas devem ser submetidas a tes- zida é o método mais utilizado para se avaliar o
tes para assegurar a sua inocuidade e capacidade potencial imunogênico de antígenos vacinais. Para
imunogênica. Dentre os testes realizados incluem-se isso, um grupo de animais é vacinado e anticorpos
os de esterilidade (para assegurar a ausência de específicos contra o vírus são pesquisados por
contaminação bacteriana ou fúngica), inocuidade técnicas sorológicas como soroneutralização (SN)
(para certificar que não causa efeitos indesejáveis), ou ELISA, a diferentes intervalos após a vacinação.
estabilidade (para verificar a estabilidade genética Além da quantificação da resposta sorológica em
e fenotípica dos vírus atenuados; ou para atestar curto prazo (30, 60 dias), podem-se acompanhar
a estabilidade do antígeno, no caso de vacinas os animais por um período mais longo, a fim de
inativadas) e potência (capacidade imunogênica). monitorar-se a duração da resposta induzida. A
A ocorrência de qualquer outro micro-orga- maior restrição desse método refere-se ao fato
nismo na vacina, incluindo algum outro vírus que de que quantifica apenas a resposta humoral.
não o vírus ou cepa viral desejados, caracteriza Portanto, é mais apropriado para a avaliação de
a presença de um agente exógeno no produto. vacinas não-replicativas, que induzem resposta
Agentes exógenos involuntariamente veiculados predominantemente humoral. Para alguns vírus,
em vacinas podem acarretar efeitos deletérios nos os títulos de anticorpos que conferem proteção já
animais vacinados, cujo mais grave seria causar foram razoavelmente determinados. Assim, a de-
doença, ou ter efeito incerto se for um contaminante tecção de anticorpos com títulos desta magnitude
de patogenicidade pouco conhecida. A detecção nos animais vacinados pode ser utilizada como
de agentes exógenos em vacinas aumentou após a indicativo de proteção e de eficácia da vacina.
popularização do uso da PCR em testes de controle Para vacinas replicativas, no entanto, o parâmetro
de qualidade. O DNA de vírus cujo significado clí- sorológico nem sempre reflete a magnitude da
nico para animais ainda é pouco conhecido, como resposta imunológica, pois não avalia a resposta
o torque tenovírus suíno (TTV), já foi encontrado celular. Embora também utilizada para avaliar a
em partidas de vacinas contra Mycoplasma hyop- potência de vacinas replicativas, a sorologia deve
neumoniae. Contudo, sem o isolamento do TTV ou ser considerada um indicador apenas parcial da
de qualquer outro vírus exógeno na vacina, não imunogenicidade, pois essas vacinas induzem
é possível afirmar seguramente que esse agente também resposta mediada por linfócitos Tc.
exógeno está viável na vacina e se poderia causar O método mais objetivo de se avaliar a eficácia
algum efeito deletério à população vacinada. de uma vacina é a vacinação seguida de desafio.
No controle de qualidade de vacinas, os testes Nesse teste, um grupo de animais é vacinado de
de potência assumem uma importância especial, acordo com as recomendações do fabricante e
pois avaliam a capacidade da vacina de induzir outro grupo permanece não-vacinado (controle).
uma resposta imunológica adequada. Em geral, Após algum tempo (geralmente 30-60 dias), os
esses testes são realizados na espécie animal para animais dos dois grupos são inoculados com o
a qual a vacina é destinada. No entanto, animais vírus patogênico pela via natural de infecção.
de laboratório (cobaias, coelhos) podem também Essa inoculação é denominada desafio e objetiva
ser utilizados, desde que se avalie previamente a mimetizar uma situação de infecção natural que
resposta imunológica dessas espécies e se com- os animais podem, eventualmente, enfrentar a
pare esta com a resposta do hospedeiro natural. campo. Após o desafio, os animais vacinados e os
A capacidade imunogênica de uma vacina pode controles são monitorados quanto à excreção viral
ser avaliada pela detecção e quantificação dos e, principalmente, quanto à manifestação de sinais
27
Vacinas víricas

clínicos de doença. A eficácia da vacina é medida animais ou humanos por vias alternativas, como
por sua capacidade de reduzir a excreção viral mucosa nasal e por contato com a pele, sem en-
(magnitude e duração) e, sobretudo, por prevenir volver o uso de agulhas.
a ocorrência de doença nos animais vacinados. Se A via pela qual a vacina é administrada in-
a vacina objetiva prevenir a infecção fetal e a ocor- fluencia o tipo de resposta imunológica que é
rência de abortos, por exemplo, fêmeas prenhes induzida, sendo um fator de grande importân-
previamente vacinadas devem ser desafiadas e o cia na prevenção da infecção, pois o estímulo da
efeito da infecção nos fetos deve ser monitorado. imunidade deve ocorrer preferencialmente nos
Embora seja o método mais objetivo de avaliação locais de penetração do vírus no organismo. Como
de eficácia vacinal, este método apresenta algumas exemplo, as vacinas de vírus atenuados que são
dificuldades, tais como: custo elevado, dificuldade administradas pelas vias nasal e oral devem replicar
crescente do uso de animais para experimentação, no trato respiratório e intestinal, respectivamente.
incerteza quanto à cepa e dose viral a ser utilizada Nas infecções de mucosas, como a respira-
no desafio, entre outras. tória, intestinal, genital, urinária e ocular, a IgA
secretada nessas mucosas é a imunoglobulina mais
7 Conservação e administração de importante para a prevenção da infecção. Portan-
vacinas to, há situações em que a imunidade local é mais
importante do que a imunidade sistêmica, o que
As vacinas podem ser administradas por influencia diretamente na via de administração
diferentes vias, que são definidas pelas caracte- da vacina. Vacinas atenuadas, administradas pela
rísticas do antígeno ou do vírus vacinal, do tipo via oral contra o NDV das aves, têm a vantagem
de imunidade que se deseja estimular, da doença de favorecer a replicação viral no trato intestinal,
contra a qual se destinam e também da espécie promovendo o estímulo e síntese de IgA local por
animal na qual são aplicadas. As principais vias de um período prolongado. O vírus da poliomielite
administração de vacinas víricas são: intramuscular, humana replica no epitélio intestinal, que é o mesmo
subcutânea, intradérmica, cutânea, ocular, oral e sítio de replicação da vacina atenuada de uso oral,
nasal. A maioria das vacinas animais é administrada conhecida como Sabin. A imunidade resultante é,
por via parenteral (intramuscular ou subcutânea); portanto, vantajosa em relação à administração
algumas são administradas por via oral (na água de injetável da vacina. Vacinas inativadas contra a
bebida ou ração) ou através de aerossóis; e poucas influenza, que são administradas na forma paren-
são administradas através de escarificações na pele. teral, podem não estimular a resposta de IgA na
Vacinas de aplicação intraprepucial e intravaginal mucosa respiratória, sítio no qual a imunidade é
também já foram desenvolvidas para a doença mais importante frente a uma subsequente expo-
genital causada pelo BoHV-1. A vacina contra o sição ao vírus.
ectima contagioso de ovinos é aplicada em gotas Um importante avanço foi obtido na indús-
sobre a pele escarificada da face interna da coxa. tria avícola com a demonstração de que embriões
A administração de vacinas por meio da água de de galinha podem ser vacinados ainda dentro
beber ou por aerossol é usada para vacinação em do ovo e, assim, desenvolver precocemente uma
massa de animais de produção, como suínos e resposta imunológica. A vacinação in ovo estimula
aves. Usando a nanotecnologia, que trabalha com a imunidade dos pintos antes dos primeiros dias
materiais em escala de tamanho diminuto (1 a 100 de vida, momento em que, provavelmente, terão
nm), é possível desenvolver vacinas na forma de o primeiro contato com o vírus de campo. Nesse
nanocompostos formados por partículas diminutas caso, os ovos são vacinados entre os 17 e 18 dias
e estáveis, as quais são complexadas ao vírus ou de incubação, exatamente no momento em que é
epitopos virais imunogênicos e administradas a feita a transferência para os nascedouros. A vaci-
28
Capítulo 12

nação in ovo é realizada de modo automatizado, 8 Falhas vacinais


através de um equipamento capaz de imunizar
até 50.000 ovos a cada hora. Essa via de vacinação As vacinas víricas são utilizadas para conferir
está disponível apenas para a doença de Marek, proteção contra exposições posteriores ao agente,
mas há perspectiva de se estender o método para impedindo que as infecções resultem em doença
outros patógenos importantes de aves. clínica. Se a resposta imunológica decorrente da va-
A conservação correta das vacinas influi di- cinação for de amplitude e magnitude adequadas,
retamente na sua eficácia. As vacinas com vírus deverá minimizar a replicação e a disseminação
replicativo apresentam menor estabilidade, pois o do vírus no organismo e prevenir a ocorrência
vírus pode perder a sua viabilidade sob condições de manifestações clínicas. No entanto, algumas
inadequadas de temperatura e exposição à radiação vezes não se obtém o efeito protetor esperado,
solar. As vacinas não-replicativas são geralmente por razões diversas. Em geral, as falhas vacinais
mais estáveis, porém também necessitam ser ade- podem ser atribuídas a problemas intrínsecos
quadamente conservadas para evitar a degradação da vacina, de sua conservação ou administração,
dos antígenos e redução da sua potência. Como ou também a falhas do animal em responder à
regra, recomenda-se conservar as vacinas não- vacinação (Figura 12.9).
-replicativas a 4-6°C, evitando-se o congelamento Várias famílias de vírus, principalmente as
e descongelamento. A maioria das vacinas víricas de genoma RNA, possuem sorotipos ou variantes
replicativas é comercializada de forma liofilizada antigênicos que possuem distribuição variada na
e deve ser conservada sob congelamento (-20ºC). população. Dessa forma, pode ser importante
Estas vacinas devem ser ressuspendidas imedia- tipificar a cepa de campo de algumas espécies
tamente antes do uso, para evitar a perda da via- de vírus antes de se recomendar a vacina mais
bilidade do vírus vacinal. Recomenda-se a sua apropriada para uma determinada região. Um
aplicação no menor intervalo de tempo possível exemplo disso tem sido o IBV, contra o qual es-
após a ressuspensão. Se necessário, podem ser tão disponíveis várias cepas vacinais diferentes.
mantidas resfriadas por algumas horas, evitando- Os isolados têm sido caracterizados por SN ou
-se o congelamento e descongelamento. Exposição PCR, seguido de sequenciamento ou clivagem do
a desinfetantes, água clorada, irradiação solar e genoma com enzimas de restrição. O resultado
altas temperaturas são altamente prejudiciais à da caracterização é comparado com o das cepas
viabilidade dos vírus e possuem efeitos altamente vacinais e pode-se optar pela cepa que mais se
deletérios sobre a eficácia vacinal. assemelhe ao vírus de campo. Outro exemplo tem
29
Vacinas víricas

sido a vacina autógena utilizada para o controle do animal vacinado, principalmente situações de
do papilomatose bovina, já que amostras de outros estresse, presença de doenças imunodepressoras,
animais podem ser antigenicamente diferentes e subnutrição ou intensa infestação por parasitas.
não conferirem proteção aos bovinos infectados Por todos os aspectos que influenciam a
com tipos diferentes do BPV. O mesmo ocorre com imunidade que decorre da vacinação, sabe-se que
o BVDV, cujas vacinas disponíveis no comércio a resposta imunológica não será de magnitude
brasileiro contêm isolados norte-americanos, que igual em todos os indivíduos vacinados. Ou seja,
são antigenicamente diferentes dos isolados locais. cada animal responderá de maneira individu-
Infelizmente, para muitas espécies de vírus, ainda al. Assim, a maioria dos animais montará uma
existe pouca informação sobre as características resposta moderada ou média; alguns animais
genômicas e antigênicas das cepas que circu- responderão de forma excelente e outros, de
lam na população animal local. Alguns métodos forma insatisfatória. Os animais que respondem
utilizados para a produção de vacinas podem de maneira insuficiente são epidemiologicamente
resultar em antígenos que são menos eficientes na importantes em doenças altamente contagiosas,
ativação do sistema imunológico se comparados como a febre aftosa, e representam uma possibi-
com o vírus original. De fato, a destruição parcial lidade de disseminação da doença. Já em viroses
ou completa dos epitopos imunoprotetores, que pouco insidiosas e de evolução lenta, como a raiva,
pode ocorrer durante o processamento e inati- uma população vacinada que responde de forma
vação do vírus vacinal, é capaz de reduzir a sua parcial à vacina pode ser suficientemente capaz
capacidade imunogênica. Ainda que o antígeno de impedir a disseminação da doença.
inativado permaneça estável, se estiver presente A eficácia das vacinas pode ser prejudicada
em quantidade insuficiente, poderá resultar no pelo armazenamento inadequado, principalmente
comprometimento da eficácia vacinal. Em grande no caso de vacinas contendo vírus replicativos man-
parte, esses efeitos podem ser minimizados com tidas em temperaturas superiores à recomendada.
base nos testes de qualidade a que as vacinas Mesmo que armazenadas de modo correto, o título
comerciais devem ser submetidas. Esses testes viral das vacinas vivas tende a reduzir devido à
devem incluir necessariamente as provas de po- inativação de vírus ao longo do prazo de validade
tência vacinal, nas quais é avaliada a capacidade do produto. Por exemplo, as vacinas associadas a
imunogênica da vacina produzida. células que são utilizadas contra a doença de Marek
Muitas vezes, as causas de falhas vacinais sofrem acentuada redução do título viral durante o
estão relacionadas ao animal e decorrem da va- período de armazenamento a -20ºC. Dessa forma,
cinação em período impróprio. Uma das causas devem ser estocadas em nitrogênio líquido e, uma
mais frequentes da falta de resposta vacinal é a vez descongeladas, devem ser aplicadas em um
vacinação dos animais no período de incubação curto período de tempo.
da doença, quando a vacina não será efetiva. O Por outro lado, a vacinação por métodos alter-
momento de vacinar também deveria ser con- nativos ao parenteral, como a via nasal, oral ou por
siderado na decisão de vacinar animais jovens. aerossóis, pode dificultar não só a administração
Se realizada no momento em que os animais da dose vacinal correta, como também a imuni-
ainda estão protegidos pela imunidade passiva, zação uniforme de todos os animais de um lote.
a vacinação será parcialmente efetiva devido à Para espécies criadas em grandes concentrações,
interferência dos anticorpos maternos. De fato, a como na avicultura industrial, a viabilidade de
presença de imunidade passiva provavelmente vacinas orais compostas de vírus sensíveis ao cloro
se constitui em uma das causas mais comuns pode ser comprometida com a excessiva cloração
de falhas vacinais. A resposta à vacina pode ser da água, que é utilizada como veículo vacinal. Fi-
prejudicada ainda por condições desfavoráveis nalmente, deve ser considerada a interferência de
30
Capítulo 12

desinfetantes empregados excessivamente para a lado, a vacinação contra um agente pode causar
antissepsia que precede a administração parenteral imunodepressão, que pode ser determinante na res-
de vacinas vivas. posta à vacinação contra outros micro-organismos.
Cabe ressaltar que a ocorrência de doença Vacinas atenuadas contra a parvovirose canina
branda em animais vacinados não significa ne- causam imunodepressão em filhotes, os quais
cessariamente uma falha vacinal. As vacinas são podem adoecer após a aplicação de vacina viva
produzidas para proteger os animais da doença contra a cinomose. Também o estresse causado
clínica. No entanto, algumas delas não conseguem pelo manejo dos animais durante a vacinação é
cumprir integralmente este objetivo e, mesmo uma causa comprovada de reativação das infecções
animais vacinados, podem desenvolver um qua- latentes pelos herpesvírus.
dro clínico discreto. Se esta vacina foi efetiva na A vacinação de fêmeas em gestação deve ser
redução significativa da gravidade da doença, precedida de cuidados com relação à decisão de
quando comparada com animais não-vacinados, vacinar contra determinados vírus, assim como na
pode-se afirmar que a mesma cumpriu parcial- escolha do tipo de vacina a ser utilizada. Vacinas com
mente o seu objetivo. vírus atenuados administradas a fêmeas gestantes
que não foram anteriormente imunizadas podem
9 Reações adversas da vacinação prejudicar o desenvolvimento fetal e mesmo causar
abortos, como no caso do vírus da panleucopenia
Embora os benefícios obtidos pelo uso da felina (FPLV), BoHV-1 e BVDV. Sendo assim, vacinas
vacinação sejam inquestionáveis, como a erradi- contendo vírus inativados são as mais indicadas
cação de várias doenças virais, nenhuma vacina é para a vacinação das fêmeas nesse período.
totalmente isenta de riscos. Apesar de relativamente Por outro lado, é possível que vacinas inati-
raros, efeitos indesejáveis e prejudiciais à saúde do vadas potencializem a doença decorrente de um
hospedeiro têm sido relatados pelo uso de vacinas. contato posterior com o vírus de campo por parte
Por isso, a possibilidade de efeitos colaterais não do filhote vacinado. Esse fato já foi observado em
deve ser negligenciada e os benefícios advindos crianças previamente vacinadas contra o vírus
da vacinação devem superar os riscos possíveis respiratório sincicial (RSV) e em potros vacinados
resultantes de seu uso. contra o vírus da encefalite equina do leste (EEEV).
Efeitos residuais de virulência em vacinas Reações de hipersensibilidade podem surgir
vivas devem ser considerados. Um sorotipo avi- após a administração de várias doses de vacina,
rulento do poliovírus, utilizado na vacina oral principalmente tratando-se de vacinas inativadas
infantil, pode sofrer mutações e tornar-se viru- ou de antissoro. Essas reações podem variar de
lento, causando poliomielite pela administração hipersensibilidade do tipo III, com intensa reação
da vacina em uma taxa de um caso a cada milhão. inflamatória local, até distúrbio vascular generali-
Casos de encefalite pós-vacinal, atribuída ao vírus zado. Pacientes expostos ao RabV passavam pelo
presente na vacina, já foram relatados em bovinos tratamento pós-exposição com o soro antirrábico
vacinados contra o BoHV-1 e em cães vacinados produzido em coelhos, que exigia múltiplas apli-
contra o CDV. Um efeito adverso menos deletério cações abdominais, as quais, muitas vezes, desen-
é a opacidade da córnea em cães decorrente da cadeavam reações de hipersensibilidade. Reações
vacinação contra a hepatite viral canina com o de hipersensibilidade retardada, com formação
adenovírus canino tipo 1 (CAdV-1). Este problema de granulomas, podem ser ocasionadas pelo uso
tem sido evitado pela utilização do CAdV-2 na de determinados tipos de adjuvantes, como os
formulação vacinal, ao invés do CAdV-1. que agem pela formação de depósitos. Por isso,
Vacinas vivas devem ser utilizadas com muito esses tipos de adjuvantes não são utilizados na
critério em animais imunodeprimidos. Por outro formulação de vacinas para uso humano. Qualquer
31
Vacinas víricas

componente da vacina pode ser responsável pelo FIELDS, B. N.; KNIPE, D. M.; HOWLEY, P. M. (Ed.). Fields vi-
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