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A Doutrina Secreta da Kabbalah – Parte 1

Fundamentos Teóricos

Uma Introdução ao Legado Sacerdotal

Uma Breve História da Tradição Sacerdotal Hebraica


Kabbalah é uma palavra que significa "tradição", e a tese principal deste trabalho é
que a tradição que esse movimento esotérico estava dedicado a transmitir teve
origem no antigo sacerdócio hebreu.
Afinal, os dois componentes dessa sabedoria oculta, uma cosmologia ligando os
processos de criação cósmica ao seu objetivo de transformação humana e a ciência
sagrada que poderia demonstrar seu propósito, são originados das duas maiores
funções do sacerdócio: o ritual de sacrifício animal e a consagração do espaço
sagrado.

Estes textos tentarão recuperar não apenas os principais aspectos da tradição


sacerdotal, mas seu significado, aquele que, em muitos casos ao longo dos
milênios, continuou a dar corpo ao coração secreto do misticismo judaico e ainda
dando-lhe vitalidade.
Mas suas explorações dessa sabedoria e desse legado sacerdotal não pararão nas
claras evidências textuais dessa tradição, trazidas desde a Bíblia até escritos
kabbalísticos; eles seguirão também novos caminhos experimentais para as fontes
dessa sabedoria, como também tentarão uma síntese dessa tradição
cientificamente sagrada com a ciência secular.

A ciência sagrada na qual se envolveram os sacerdotes-cientistas do Templo


hebreu, como de outras antigas culturas, estava focada em três áreas que podem
demonstrar preocupação com a mesma unificação do finito com o infinito, o
mistério central de sua cosmologia.
Essas três áreas são: a geometria (tanto terrestre quanto astronômica), o som
(tanto harmônico quanto lingüístico) e o número.

A geometria envolve o reino do limitado; o som, o domínio do ilimitado; e o número


pode levar essas polaridades opostas a um relacionamento.
São essas mesmas três áreas da ciência sarada que formam a base do relato da
criação do Gênesis 1, o detalhe específico dos dias numerados sendo disposto por
chaves esotéricas das harmônicas musicais e a forma geométrica do hexagrama, a
estrela de Davi.
A Kabbalah também começa com a mesma conjunção de som, forma e número do
processo de criação, conforme declaração que aparece no primeiro texto existente
da tradição kabbalística, o Sefer Yetzirah.
Assim, entre a redação final dos primeiros capítulos de Gênesis e o Sefer Yetzirah
há uma continuidade de entendimento do relacionamento criativo de som, forma e
número que indica um corpo tradicional de ensinamento esotérico e a existência de
instituições designadas por sua conservação.

Esta primeira seção tentará delinear alguma coisa da história da ciência sagrada
hebraica, da origem sacerdotal para sua parcial revelação em textos kabbalísticos
crípticos, dando particular atenção aos aspectos dessa ciência sagrada que tiveram
uma continuidade importante.
Refiro-me à geometria, que emerge como o que originalmente foi uma chave
iniciática reconhecida no Diagrama Kabbalístico da Árvore da Vida.
Apresentado no final desta seção, esse diagrama se mostra como o componente
cosmológico do entendimento sacerdotal, a essência de sua doutrina.
Esse assunto será explorado em profundidade em textos posteriores, que oferecerá
justificativas históricas mais completas do que as que aparecem aqui quando nos
ocupamos com a tese principal deste trabalho, a origem sacerdotal da tradição
esotérica judaica.
Depois de uma breve discussão dessa tese, promoveremos outra abordando os
elementos dessa ciência sacerdotal sagrada que sobreviveram na Kabbalah.
Consideraremos primeiro a técnica da Gematria e depois daremos um tratamento
mais detalhado às formas e significados tradicionais do Diagrama da Árvore da
Vida, ambos enfoques importantes para análises posteriores.
Finalmente, haverá uma revisão rápida do conteúdo e das implicações deste
trabalho.

Iniciando essa breve história com a evidência de um corpo tradicional de


aprendizado esotérico que implica a existência de instituições designadas à sua
conservação, parece haver pouca dúvida de que essas instituições deveriam ter
sido o sacerdócio e o Templo, aspectos da história judaica de mais de mil anos que
têm conexão natural com uma ciência esotérica com bases geométricas, em
qualquer lugar do mundo em que aparecessem.
Afinal, apenas grupos da elite são admitidos, em qualquer sociedade, ao estudo e
posterior transmissão da sabedoria geométrica antiga, uma sabedoria na qual
ciência e cosmologia estão unidas, que aparece compelida a erigir templos, para
dar forma arquitetônica ao seu entendimento de espaço sagrado.
Reciprocamente, a construção de tais espaços sagrados requer um conhecimento
de proporções geométricas e a seleção das formas ideais — exemplificadas pela
forma cúbica do sagrado dos sagrados no Santuário Mosaico —, o que demanda o
estudo da geometria.
A construção de um templo implica a compreensão imaginativa da geometria nas
mentes e corações de seus arquitetos e construtores, segue-se que essa estrutura
e a ordem sacerdotal encarregada do serviço deveriam estar dedicadas ao estudo e
desenvolvimento contínuo desse aprendizado, e isso adicionalmente aos seus
serviços rituais diários.
O fato de que a entrada ao Templo hebreu era reservada aos sacerdotes, e que a
ordenação sacerdotal exigia uma imposição de mãos iniciática e outros
procedimentos ritualísticos que conferiam poder, sugere enfaticamente as
características de uma sociedade secreta dedicada ao estudo das leis relacionadas à
criação e captação do poder sagrado.
Então, pode ser postulado que o estudo esotérico da geometria, apesar de
constituir claramente uma tradição contínua, foi particularmente intensificado nos
três períodos que mostram um interesse entusiástico na construção de templos: a
construção mosaicamente inspirada do Santuário no deserto, à qual o Êxodo dedica
extensa e detalhada descrição; a edificação do primeiro Templo por Salomão, uma
figura diferenciada por sua sabedoria esotérica e pelos atributos relatados do uso
do hexagrama como seu selo real; e a reconstrução do Templo de Salomão depois
do cativeiro na Babilônia, inspirado pelas profecias de Ezequiel durante aquele
período.
Os críticos atribuem o primeiro capítulo do Gênesis aos sacerdotes do período do
Segundo Templo, mas uma conjetura pode talvez ser feita tanto em relação a
Salomão, uma vez que esse texto e esse rei têm associações especiais com o
hexagrama, quanto a Moisés.
Os rabis contam que uma Torah oral foi dada a Moisés no Monte Sinai juntamente
com a Torah escrita.
Similarmente, foi dito que havia uma sabedoria esotérica dada a Moisés.
Isso permite argumentar que a sabedoria foi transmitida particularmente para os
sacerdotes ao mesmo tempo que os escritos exotéricos da lei e da história eram
promulgados por Moisés, tomando-se e permanecendo parte essencial do
treinamento sacerdotal até a destruição final do Segundo Templo.
Nos últimos anos antes da destruição final do Templo e do exílio, os quatro
principais agrupamentos dentro do Judaísmo, de acordo com a definição de
Josephus, mostravam diferentes associações cognitivas com as várias formas de
aprendizado antigo e mais novo.
Os de importância permanente eram os fariseus, que se tornariam os líderes
rabínicos da diáspora judaica e que mantiveram autoridade sobre a Torah escrita e
oral.
De menor importância estavam os zelotes, um grupo patriótico-apocalíptico
provavelmente originado do grupo dos fariseus, nas últimas décadas do Templo, e
com a intenção de opor-se ao domínio romano.
Mas os mais importantes de nossa perspectiva foram os outros dois grupos, os
saduceus e os essênios.
Os saduceus estavam associados ao sacerdócio original descendente de Zadok, por
sua vez da linhagem de Eleazar, filho de Aarão, que serviram como sumo-
sacerdotes desde o tempo de Davi até a ruptura da linha zadoquita pelos
hasmoneus (macabeus).
Eles eram conhecidos por submissão exclusiva à Torah escrita e sua rejeição à
origem mosaica da Torah oral; mas sugerimos que cultivavam o estudo tradicional
de uma ciência sagrada que pode ter sido passada diretamente por Moisés e que
dava especial importância a uma geometria codificada cosmologicamente.
Também importantes eram os essênios, que rejeitavam não apenas a Torah oral,
mas ainda os sacrifícios do Templo oferecidos pelos hasmoneus indicados
politicamente como sumo-sacerdotes e cujas comunidades, como nos reporta
Josephus, eram governadas pelas diretrizes pitagóricas, o que sugere a dedicação
ao estudo da geometria de Pitágoras; e com esse estudo de geometria esotérica, os
essênios, como os zelotes, criaram um novo espiritualismo apocalíptico.
Desses quatro grupos, parece que o velho sacerdócio e o novo movimento piedoso
dos essênios tinham conhecimento a respeito dos princípios da geometria sagrada.
Mas a associação vai ainda mais longe, pois, como mostrou Jacob Neusner, a
comunidade de Qumran, em geral identificada com os essênios, era formada por
sacerdotes do Templo, que se viam como os detentores e preservadores da
verdadeira linhagem sacerdotal: a de Zadok.
Lawrence H. Schiffman apóia esse ponto de vista: "Quando o serviço do Templo foi
concedido a um usurpador— o sumo-sacerdote hasmoneu, alguns saduceus
piedosos formaram um grupo e abandonaram os rituais no Templo de Jerusalém
(...) o termo "essênio" veio para designar os sectários saduceus originais (...)".
Geza Vermes qualifica esse ponto de vista de que os essênios de Qumran foram
formados pelos sacerdotes zadoquitas, argumentando que: "Os filhos de Zadok, os
sacerdotes, membros da família do alto clero, tomaram a liderança da seita".'
Minha discussão do pergaminho sobre "governo da comunidade" no próximo
capítulo oferecerá mais evidências para a tese de que os essênios de Qumran eram
liderados pelos sacerdotes zadoquitas, independentemente de o grupo ter sido
fundado ou não por esses dissidentes, e também expandirá nosso aprendizado
sobre o sacerdócio tradicional.
Mas, sem nos importarmos se os essênios de Qumran foram fundados ou
absorvidos pelo sacerdócio zadoquita, é provável que tenha sido o aprendizado em
geometria do Templo que lhes proporcionou, antes e depois da associação com os
essênios, a adoção de uma forma pitagórica de ciência sagrada, cuja semelhança a
suas próprias tradições eles reconheceram.
Os essênios saduceus podem assim ter conhecimento a respeito da geometria do
Templo hebreu e da geometria sagrada de Pitágoras, provavelmente compartilhado
por muitos sacerdotes daquela época.
A união entre a geometria pitagórica e essênia sacerdotal pode ser vista da forma
de raciocínio peculiarmente judaica que, poucos séculos depois, surgiu no Sefer
Yetzirah e continuou a influenciar as especulações kabbalísticas até épocas mais
recentes.
No entanto, apesar de muitos sacerdotes zadoquitas terem deixado o Templo para
juntar-se aos essênios, muitos outros, e talvez a maioria, continuaram a servir no
Templo sob as ordens do sumo-sacerdote político até a destruição final, em 70 d.C.
'Como as antigas histórias do Judaísmo templário mostravam as duas faces de um
ritualismo exotérico de sacrifícios e de instrução da Torah ao povo e de um estudo
sacerdotal esotérico de ciências sagradas que pudessem justificar seus
conhecimentos a respeito do propósito místico dos referidos sacrifícios, assim
também o Judaísmo rabínico mais recente tem uma face exotérica de legalismo
talmúdico e outra esotérica ligada à geometria e à cosmologia kabbalistica.
Apesar de um sábio talmúdico como o rabi Akiba ser conhecido por seus estudos
kabbalísticos secretos e muitos kabbalistas serem reconhecidos talmudistas, há
ainda essa diferença básica: os kabbalistas podem, de alguma forma, ser capazes
de preservar uma ligação com o sacerdócio primitivo, que é de pouco interesse a
esses últimos.
O fato de a tradição rabínica não-sacerdotal não demonstrar nenhum interesse em
geometria e em construção de templos (suas sinagogas não dispõem de um cânon
de proporções ou formas sagradas — independentemente de serem cubos,
hexagramas, árvores da vida —, mas eram semelhantes ou adaptadas aos estilos
arquitetônicos das culturas não-judaicas dos arredores) é forte evidência de que
essa é uma tradição desapegada culturalmente da ciência sagrada da geometria.
É desapegada também das práticas sacerdotais de canto meditativo (análises que
apresentamos em texto posterior com relação à segunda linha do Sh'ma (Sh 'ma é
a primeira palavra do credo de afirmação da divina unidade contido essencial-
mente em Dt.6:4. O verso seguinte, Dt.6:5, contém o mandamento de amar a
Deus. Aqui, e por todo este estudo, escolhemos usar iniciais maiúsculas em vez de
itálico para distinguir palavras hebraicas como Sh'ma usadas algumas poucas vezes
quando em inglês não oferecem significado conveniente.), e a respeito das sefirot
do Sefer Yetzirah), que mostram que havia tais práticas meditativas ao menos
desde a descoberta do Deuteronômio até a codificação e disseminação dessa
sabedoria antiga no Sefer Yetzirah.

Entre a Torah, independentemente se atribuída a Moisés ou aos sacerdotes, e o


Sefer Yetzirah, há claras linhas de conceitos esotéricos paralelos que argumentam
fortemente pela continuação da tradição que não apenas se manteve durante o
período do Templo, mas depois de sua destruição.
A desprofissionalização do sacerdócio foi, de alguma maneira, capaz de manter e
transmitir seu aprendizado na forma de uma malha de sociedades secretas.
Gershom Scholem afirmou que "falando historicamente, sociedades místicas
fechadas e organizadas existiram apenas depois da época do Segundo Templo".
Parece óbvio que os fatores preponderantes para isso tenham sido a sobrevivência
de alguns membros ainda zelosos da seita essênia, ensinados pelos sacerdotes
zadoquitas e que queriam passar adiante suas doutrinas secretas, bem como, e
especialmente, os efeitos da desprofissionalização do sacerdócio depois da
destruição do Templo.
Grandes estudiosos do Templo, que perderam seus ganhos e sua instituição, por
meio da qual teriam aprendizado permanente, devem ter visto aqui o motivo de
tornarem-se mestres privados, sem descuidar de manter a natureza oculta de seus
ensinamentos que sempre foram um ramo de conhecimento reservado a uma elite
espiritual.
É geralmente aceito que a tradição kabbalista, principalmente na fase inicial,
envolvia a transmissão oral do aprendizado de um mestre para poucos discípulos, e
o que sugerimos aqui é que eram elementos esotéricos do sacerdócio antigo que
foram assim transmitidos, perpassando inicialmente os textos dos Hekhalot-
Merkabah e finalmente os textos de Kabbalah propriamente ditos.
Apesar de os conceitos e o treinamento sacerdotal e rabínico estarem já bastante
desenvolvidos nos séculos finais do Templo, o peso entre as duas tradições mudou
dramaticamente.
Os rabis tomaram conta das comunidades religiosas judaicas e estabeleceram
escolas destinadas à interpretação das Escrituras, enquanto que, com a perda do
Templo, a classe sacerdotal praticamente desapareceu da visão pública.
Seu aprendizado, entretanto, persistiu nos bastidores, nos quais as tradições
esotéricas puderam ser mantidas secretamente entre os mais novos iniciados nas
doutrinas kabbalísticas, e, em algumas vezes, surge na vida de renomados
talmudistas como os rabis Akiba e Joseph Karo, o primeiro, um dos maiores
compiladores da Mishnah, e o último, um dos maiores codificadores da lei talmúdica
em seu trabalho Shulchan Arukh.
Entre as tradições abertas e ocultas do recente rabinato judaico havia, então,
grandes diferenças e algumas conexões, sendo particularmente claras as influências
do modo de pensar talmúdico nos pensadores kabbalistas.
De fato, no renomado texto kabbalístico do Zohar, podemos ver uma síntese entre
uma cosmologia baseada na geometria e um modo midráshico de interpretá-la, que
é talvez a maior qualidade característica do pensamento kabbalístico.
Porém, o que distingue a argumentação kabbalística da talmúdica, apesar de seu
uso similar de interpretações associativas, é que. onde quer que o Talmude tome o
texto bíblico como modelo, a Kabbalah vai buscar esse modelo na geometria.
Em todo o texto da verdadeira Kabbalah, os olhos de seus autores estão sempre
focados no Diagrama da Árvore da Vida.
Quaisquer que sejam os processos ou formas geométricos que fazem parte de seu
pensamento ou ilustração cosmológica, é o Diagrama da Árvore da Vida que todos
os textos incluem dentro das estreitas definições que a Kabbalah trata de explicar.
Com esse entendimento do significado das formas geométricas, a Kabbalah divide
uma antiga sabedoria única com outros aspectos do esoterismo ocidental como o
neoplatonismo e a tradição hermética, originados respectivamente de fontes
pitagóricas e egípcias notadamente devotadas à geometria.
Que tanto Pitágoras quanto Moisés tinham associações com o Egito é sugerido pela
origem comum das duas tradições geométricas que resultaram desses dois
fundadores do pensamento hebraico e helênico, ambas culturas devotadas à
construção de templos, mesmo que em escala consideravelmente menor do que a
utilizada pelos egípcios.
Mas, independentemente de haver ou não uma fonte comum egípcia para toda a
geometria sagrada ocidental, ao menos do tempo dos essênios e pela história
recente da Kabbalah, havia associações claras entre as tradições nativas pitagóricas
e kabbalisticas que tornam difícil distinguir os elementos de conhecimento
geométrico próprios e os que parecem ter sido importados.
Além disso, ambos desenvolveram uma cosmologia baseada geometricamente
enfatizando quatro mundos ou dimensões definidas em termos de dez elementos
constituintes principais; a tradição pitagórica apresentando o modelo triangular de
dez pontos chamado Tetractys e a kabbalística, o Diagrama da Arvore da Vida.
Entretanto, a geometria pitagórica não reflete o aparente interesse hebraico no
hexagrama, uma também ausente da decoração dos templos egípcios, mas
proeminentemente apresentada no simbolismo indiano e oriental de diagramas
geométricos conhecidos como yantras e mandalas.
Qualquer que seja a verdade dos contatos culturais entre os antigos hebreus e
hindus a respeito da disseminação do hexagrama como símbolo maior da criação, é
uma tese deste trabalho que, apesar da falha dos estudiosos modernos em
distinguir o uso simbólico evidente do hexagrama em antigas fontes hebraicas, foi
ele o símbolo geométrico proeminente ao longo da história da tradição esotérica
judaica.
Desde as raras aparições no caso do selo de Salomão até, por razões nunca
adequadamente explicadas, tornar-se finalmente o símbolo de todo o povo judeu.
Igualmente obscura é a origem do símbolo kabbalístico do Diagrama da Árvore da
Vida, apesar de sua similaridade com a Menorah sugerir sua possível origem com
Moisés.
De qualquer forma, é evidente que esse todo geométrico complexo era parte de
uma tradição oculta transmitida pela classe sacerdotal e cujos componentes
principais serão exaustivamente explorados nestes textos.
Tendo considerado o relacionamento histórico da ciência sagrada hebraica com as
análogas tradições esotéricas egípcia, grega e indiana, devemos concluir esta
pesquisa introdutória com uma visão similar de que os princípios cosmológicos de
todas essas ciências sagradas eram dedicados à demonstração da gênese do filho
divino.
Afinal, a ciência sagrada hebraica está centrada na doutrina secreta do filho
anunciado por Deus quando disse:
"Israel é meu filho, mesmo o primogênito" (Ex 4:22).
Isso também encontra analogia em doutrinas similares de todas as maiores
religiões do mundo, mais notadamente as antigas figuras egípcias do deus-Sol
Hórus e seu avatar terreno-divino, o faraó, as figuras do Krishna hindu e do
Amitabha budista, e, obviamente, a conceituação de Jesus originada diretamente
de sua tradição hebraica.
Mas, apesar de a semelhança universal desse entendimento similar de conjunção
entre o cósmico e o humano em tão diferentes tradições religiosas apontar para
uma fonte comum na cultura humana neolítica, cada tradição desenvolveu suas
autênticas formulações próprias dessa crença salvadora e seus próprios rituais,
práticas e provas.
De todas as religiões praticadas, o Judaísmo é a mais antiga tradição religiosa
contínua incorporando essa crença, mas também foi a mais cuidadosa em esconder
esse elemento duradouro de seu entendimento e devoção místicos.
Uma razão para isso é indubitavelmente sua temida similaridade com o
Cristianismo dominante do qual o Judaísmo sempre cuidou de distinguir-se.
Mas também é verdadeiro, e talvez desafortunado, o fato de, no Judaísmo, a
doutrina secreta do filho ter sido sempre uma tradição invejosamente guardada e
escondida.
Assim, esse núcleo essencial da religião judaica foi consistentemente proclamado
veladamente por aqueles que o entenderam, mas abertamente negado por todos.
Porém, desde a Bíblia, por meio do misticismo Merkabah e da Kabbalah, até o
hassidismo, o mistério central do filho, como do processo cósmico, sempre teve um
único significado: "A derradeira unificação do humano com o divino, que poderia
causar tanto a personificação do divino como a divinização complementar do
humano aperfeiçoado".
Escrevendo a respeito do tema em 1918, quando começou seus estudos de
Kabbalah, Gershom Scholem observou quão deficiente era o entendimento dos
estudiosos a esse respeito:
"É verdade que, a julgar pelos esclarecimentos obtusos oferecidos pelos estudiosos
judeus sobre o assunto, perderam a chave de seu entendimento"?
Porém, a mensagem essencial dada nunca foi como a proclamada e negada como
foi depois pelo hassidismo moderno, os herdeiros da mais influente reformulação da
Kabbalah efetuada por Isaac Luria na cidade de Safed, na Palestina do século XVI.
Pouco depois de Scholem introduzir o assunto, essa mensagem caiu nas mãos dos
principais líderes e filósofos religiosos judeus dos anos de 1920: Franz Rosenzweig,
Martin Buber e Abraham Isaac Kook, este último chefe rabino da antiga região
Israel-Palestina.
Rosenzweig abordou esse mistério central em termos que reconheceu mais tarde
como derivados da visão do trono por Ezequiel: "No santuário mais íntimo da
verdade divina, onde o homem pode esperar que o mundo todo e ele mesmo
reduzam-se à semelhança daquilo que ele está para ver lá, ele não vê nenhum
outro semblante além do seu próprio. A Estrela da Redenção se transforma em
feições que me olham de relance e à qual eu olho de relance".
Buber tem um entendimento similar a respeito do processo e da mensagem de
revelação, sua produção de uma nova forma de Deus": "Assim, (...) sempre novas
regiões do mundo e do espírito são elevadas para formar, chamados à forma
divina. Sempre novas esferas tornam-se regiões de teofania. Não é o poder do
homem que trabalha aqui, nem é a pura passagem efetiva de Deus, mas uma
mistura do divino com o humano (...) nós modelamos eternamente a forma de
Deus".
E Rav Kook, como era conhecido, relaciona essa salvação individual ao curso e
propósito da evolução cósmica: Entretanto, a vida cai em particularização, ela
continua a puxar luz da luz divina original, e precisa retomar ao reino mais elevado,
junto com a essência de nossas almas. Então, não devemos elevarmo-nos
destituídos de riquezas (...) Devemos ter conosco nossos mantos multicoloridos que
conseguimos como um resultado da proliferação de toda a vida (...)
A existência está destinada a alcançar um ponto quando o todo assimilará o bem
em todos os seus particulares constituintes.
A tentativa de todos os três foi de forjar uma moderna teologia judaica do legado
esotérico dos hassidim, ele mesmo o legado final do antigo sacerdócio hebreu.
No entanto, como já faz mais de 70 anos desde que fizeram suas contribuições
para o pensamento judaico moderno, e a mensagem foi mais uma vez perdida,
pode ser tempo de recuperar o significado dessa "tradição" uma vez mais, tanto
para judeus como para aqueles de tradições correlatas que também perderam as
chaves esotéricas de seus sistemas de crenças e práticas.
Essa recuperação fará mais do que as tentativas prévias, esclarecendo o significado
dessa crença de salvação e da ciência sagrada utilizada para demonstrar suas
verdades.
Da sofisticada ciência sagrada relacionada com geometria, som e número que pode
ser atribuída ao sacerdócio hebreu, pouco sobreviveu, entretanto, na Kabbalah.
As práticas que sobreviveram usam técnicas interpretativas de gematria e do
Diagrama da Árvore da Vida como modelos cosmológicos, e parecem abstrair um
pouco do rigor de uma verdadeira ciência sagrada.
Mas exploraremos assim mesmo essas práticas, para entender as recentes
discussões de conceitos kabbalísticos e para recuperar formas mais complexas
dessas práticas, as quais ainda mantêm as chaves que decifram esses conceitos.
Começaremos com uma breve abordagem da Gematria, que se relaciona
diretamente com a recém-definida doutrina secreta da tradição esotérica judaica, e
depois seguiremos para uma discussão mais pormenorizada das formas tradicionais
e significados do mais famoso diagrama kabbalístico: a Árvore da Vida.

Continua