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O mundo vazio: sobre a ausência da


política no contexto contemporâneo

Franklin Leopoldo e Silva*

O Iluminismo nos ensinou que o futuro é o tempo forte da


humanidade, aquele no qual estão projetadas as expectativas decor-
rentes da constatação de que a humanidade progride e que, quais-
quer que sejam os obstáculo~até mesmo os retrocessos aparentes,
o progresso terminará por triu ar e por caracterizar essencialmente
o percurso histórico do ser h mano.
Essa perspectiva positiv que se abre com o futuro é subsidiada
pela realidade do presente, positivo e pleno, tanto pelas realiza-
ções que, preparadas no passado, no presente tomaram a forma
definitiva, quanto pelas promessas que contêm acerca daquilo que
o futuro realizará. É importante notar o "tom" do otimismo ilumi-
nista: o progresso é promessa do futuro porque é realização já
presente. Isso significa que a visão do futuro não se constrói num

• Professor do Departamento de Filosofia da Faculdade de Filosofia, Letras e


Ciências Humanas, da Universidade de São Paulo-SP.

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Maurício Tragtenberg . U ma v,.d a para as Ciências Humano O mundo vazio: sobre a ausência da política no contexto ...

contexto de instabilidade ' d e um puro fluxo , Isso nos leva a dizer que a contemporaneidade acarretou uma
ças, um movimento que e . contínuo de n1111l.111 certa perda de densidade do presente. Ele deve ser de tal forma
, m si mesmo prí il . .
contrario, o otimismo il . . rv egiana o futuro I', 1,'
plástico para se amoldar a esse movimento para o futuro que torna-
A

d umirusta ve O futur
o presente, e a esperança d f o como conseqüón, l 1
e um uturo melh d se difícil dizer o que ele é, além desse movimento, cujo sentido
moramento das capacidad h or ecorre do ·li,, 1
es umanas ., t 1 evidentemente só nos é dado pelo futuro em que deve se comple-
presente como processo r 1 . , Jª ota mente vlsrvc-l "',
ea e CUJO avanç d tar. Nem sequer poderíamos qualificar esse presente de expectativa
tanto, a estabilidade d o po emos medir. E 111 ,,
o presente que fu d ' de futuro: isso significaria ainda um lugar em que o futuro se man-
do futuro. O presente é prova de ue n amenta a expcrr.ru, '
teria virtual, de modo a que pudéssemos visá-lo suficientemente
uma realização positiva E ~ o futuro pode e devi, .,, ,
· ssa maneira de separado da vivência do presente. O que ocorre verdadeiramente
entre o presente e o futuro. .d d . . compreender a rl'la~,11'
d . mci e ecisrvame é que o futuro como que distendeu-se, esticando-se.. para trás e
er e vivenciar as mudanças h' , . nte no modo de crllt ., ,
istonco-sociais ~ d tomando o lugar do presente. Desse ponto de vista são extrema-
se compreensível e previsível à 1 d . o a mudança 101, i.1
há uma certeza de continuídad uz o presente. Mais do que b·,,' mente esclarecedoras as análises de Michel Preitag (1995, p.10):
substrato formal do ap . e, e o postulado do progresso,.,, (O futuro) absorveu o tempo que foi diluído nele; (o futuro) é a
- nmoramento da humanid d
preensao torna-se possív 1 . a e. Uma tal co111 implosão do tempo na imediata processualidade do presente, tal como
, . e a partir da crenç d
tecruca e a vida moral teriam atí .d a e que a ciência' ,1 é perfeitamente visível por toda parte ao nosso redor e tal como nos
· mgi o aquele pat d
racional de que fala Ka t " amar e maioridml- é sem cessar proclamado na infinita redundância das fórmulas e dos
n na sua Resposta à
Esclarecimento?" q . e pergunta: O que (· , , slogans que procuram nos mobilizar para ele.
, 0 ue tena tornecido al
absolutamente positiva à histó . go como uma dircçn.,
e na.
. ontemporaneamente, parece ue er
Já não se pode dizer, como seria o caso na perspectiva ilumi- •
cuuvo dessa continuidad v· q ~ demos o sentido cons. · nista, que a modernidade está voltada para o futuro, na medida
d e. rvernos mais do
e mudanças; mas estas são com , . que nunca, um tempo em que descobr?i · que o homem percorre os caminhos da Razão.
instabilidade do present O preendidas e vividas a partir d:r Já não se trata, p eríamos dizer, de um messianismo laicizado,
e. progresso jã - ,
o substrato de uma passag Jª nao e representado corno isto é, de fazer d turo o sentido da própria temporalidade. Pois
presente, fazendo que o f tu e~ ~ue apr_ofundaria a positividade do o futuro deixou de estar além do presente, à nossa frente, para
d d . u ro rosse visado c
a erramente engendrad l orno o momento ver estar no presente e em nós, como se fora uma invasão do presente
o pe o que o anteced E
gem entre dois momentos. 1 eu. m vez da passa- pelo futuro. De alguma maneira essa situação está antecipada em
igua mente posítí
entre eles claramente mediad 1 i rvos, com a passagem Hegel, já que, para ele, sendo o futuro o tempo da reconciliação e
prevalência do moviment N: pe o _progresso, o que temos é a da síntese superior, da realização do espírito, o presente se vê inevi-
o. ao sentimos t
presente, mas o vivencia . . amo a positividade do tavelmente afetado de uma característica provisória. No entanto,
d mos muito mais com .
ança, como se sua realidad Ih e o movimento e mu- é mais do que isso, pois mesmo o provisório significa uma certa
e e rosse emp d
para o qual ele tende e . resta a pelo futuro realidade e tem uma certa função a cumprir, na marcha necessária
m seu moviment s
acreditamos no prog ., _ . º· e eventualmente ainda da história rumo à sua realização: perspectiva na qual o futuro apa-
resso, Jª nao visamos fu
que se seguiria ao progresso vivido no r ao turo como aquilo rece como libertação, como síntese de liberdade e necessidade. O
tado do movimento a partí d p esente, mas como o resul-
rr o qual representamos o presente. que ocorre contemporaneamente é que a presença do futuro pesa

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sobre nós e quase nos oprime, porque seu significado deixou d(· Subordinamo-nos ao acúmulo externo de meios e produtos
estar relacionado com a promessa e passou a habitar nosso presente, tecnológicos, acúmulo que é visto como progresso, mas que repre-
usurpando esse presente e de alguma maneira fazendo que ek- senta também um processo que nem sempre esteve acompanhado
recue para o passado.
pela reflexão. É isso que significa dizer que nos apropriamos do
Como se deu esse fenômeno? Podemos descrevê-lo, segundo futuro de maneira "irreflexiva e irrefletida". Tudo isso é nosso, é
Michel Freitag, como uma espécie de perda de controle do pro produto de nossa atividade, mas ao mesmo tempo nos escapa. A
cesso civilizatório, na modernidade entendido sobretudo como < > partir dessa separação entre conhecimento, ação e reflexão, não po-
progresso científico e tecnológico. A percepção que os séculos XVIII demos mais manter a esperança iluminista de que essas realizações
e XIX tinham do progresso podia caracterizar-se ainda como um se inscrevam efetivamente num projeto de aprimoramento histó-
controle reflexivo do curso desse progresso. Isso significa que, rico dos indivíduos e da sociedade. E isso ocorre porque, quando
nessa época, o conteúdo histórico do progresso, ciência e técnica, as próprias realizações do progresso escapam da reflexão - do
era concebido como algo que a reflexão podia, ao fim e ao cabo, domínio reflexivo pelo qual deveríamos controlá-las-, não pode-
dominar. Compreenda-se: mesmo considerando o caráter sempre mos mais considerá-las na perspectiva kantiana da educação para
inacabado e aberto do conhecimento, sua extensão indefinida en- o esclarecimento. O progresso deixa de ter o sentido pedagógico
tendia-se que algo como uma consciência reflexiva sempre acom- que o Iluminismo lhe atribuía.
panharia e controlaria esse processo, já que tanto a ciência quanto Essa subordinação do ser humano ao seu próprio fazer con-
a técnica são produções humanas, de direito sujeitas aos fins hu- figura a base da tecnocracia, que significa a autonomia da técnica
manos, os quais deveriam representar uma espécie de controle e o controle técnico sobre todas as dimensões da vida. É a perda
teleológico do desenvolvimento do conhecimento e de suas aplica- da capacidade de refletir sobre a atividade técnica, de conduzi-la
ções. O progresso tiraria seu sentido positivo dessa possibilidade de de tal maneira que ela venha a atender aos fins requeridos pelo
reflexão, e seria esse procedimento que asseguraria uma marcha firme aprimoramento do g~ Anero humano.
e constante para o futuro. Em suma, ainda que de maneira formal e Temos, então, as nseqüên~ias paradoxais daquilo que Kant
racionalizadora - hoje o sabemos-, concebia-se que o homem deveria chamou de maioridad racional. E a autonomia da Razão, portan-
naturalmente possuir inteiro domínio sobre o seu fazer. to do ser humano, que permite a exploração científica e técnica
do real. Essa autonomia supõe que a racionalidade técnica não
Ora, é essa última observação que parece não se aplicar mais
age apenas espontaneamente, por acumulação e atualização con-
à contemporaneidade, ou ao sentido contemporâneo do progres-
tínua de suas potencialidades, mas que a razão também reflete
so. Parece que a máscara caiu. Sabemos que o homem, em vez de
sobre essa atividade, por exemplo, dimensionando meios e fins.
possuir pleno domínio sobre o que faz, subordina-se ao que faz.
Quando a reflexão desaparece, a autonomia transfere-se do sujei-
, Se nos tornamos prisioneiros de um futuro "presentificado",
to para a ação, tornada anônima e auto-suficiente, e para os pro-
e porque nos apropriamos de nosso futuro de maneira "irreflexiva
dutos da ação, que passam a derivar, nesse caso, da anomia. Ou
e irrefletida", deixando fazer o nosso fazer, submetendo-nos a ele
seja, não é mais o homem que é autônomo no exercício da ativi-
na medida em que seu poder se acumulava de forma exterior a
dade técnica, mas é a técnica que se torna autônoma, e a partir
nós, tecnica, tecnológica, tecnocraticamente (Freitag, 1995, p.12).
daí a atividade se desenvolve de maneira irrefletida. A autonomia

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da técnica produz a supremacia da técnica, que é a tecnocracia: a instrumental de viver o tempo é acelerar seu ritmo, já que a dura-
técnica se confunde com o poder. A expressão consagrada "po- ção é medida pelo acúmulo e melhoria do aparato instrumental.
der da técnica" significa bem isso: a técnica tornada diretamente Isso ocorre em todos os setores de atividade: economia, comunica-
poder e não a técnica a serviço do poder. Enquanto a reflexão esta- ções, organização social, lazer, ensino etc. É o que Freitag chama
va presente, poder e técnica se diferenciavam na medida em que 0 de "promoção sistemática do futuro".
É esse progresso instrumental que doravante aparece como
poder ainda podia ser associado ao discernimento e à capacidade
prático-racional de usara técnica. Quando a reflexão está ausente, o campo em que se devem inscrever todos os projetos humanos.
essa relação se inverte e a técnica passa a ser a medida do uso do E, portanto, esses projetos só podem ser delineados no horizonte
poder. O poder não apenas se confunde com a técnica, mas (: dessa racionalidade técnica que é capaz de abreviar o tempo, de
absorvido por ela, o que indica uma hierarquização dos elemen- trazer o futuro até o presente e de fazer do futuro o conteúdo e o
tos na qual a prioridade é da técnica. "O futuro é a autonomização sentido do presente. Como o aprimoramento dos meios técnicos
já não se distingue dos fins a que estariam destinados, a conse-
do funcionamento e da operatividade dos meios em relação aos
fins, os meios deixam de estar sujeitos aos fins" (désassujetissement qüência é que essa abreviação do tempo torna-se a finalidade -
é a palavra utilizada por Freitag, 1995, p.14). com a grande diferença de que essa finalidade não é posta reflexi-
vamente, mas apenas em decorrência da hipertrofia da racionali-
Vemos agora como essa autonomização dos meios e a conse-
dade técnica e do caráter cumulativo do progresso tecnológico.
qüente inversão produz o fenômeno de "presentificação" do futuro.
Isso significa que tal acúmulo é_ exterior ao processo propriamente
Como técnica significa sobretudo progresso técnico, isto é, contí-
humano de realização das finalidades. A esfera dos fins esvaziou-
nuo acúmulo de mais meios autonomizados em relação aos seus
se e foi ocupada pelos meios, o que é simétrico ao esvaziamento
fins; esse processo significa também uma aceleração do tempo,
do presente, pois seria na dimensão do presente que deveria ocor-
visando atingir o futuro, como um aprimoramento desse processo,
cada vez mais rapidamente. É sintomático que na propaganda e rer a reflexão acerca do equilíbrio entre os meios e os fins.
A consciê~cia, quando formula projetos, visa ao futuro numa
nos comentários acerca do aperfeiçoamento de produtos e serviços
modalidade 7ncional determinada que em termos fenomeno-
dependentes de tecnologia avançada se use com freqüência a frase
lógicos seria a consciência do futuro. O sentido desse movimento,
"O futuro chegou" ou algum equivalente, com o que se quer signi-
em princípio, deveria brotar da relação que a consciência mantém
ficar que uma das virtudes do desenvolvimento técnico seria a de
com o presente: por exemplo, a maneira como a consciência assimila
apressar a passagem do presente para o futuro. ''.Já vivemos o futuro",
certas determinações e, ao mesmo tempo, as nega, fazendo delas as
quer dizer, já avançamos até ele, encurtamos a duração e já pode-
necessárias mediações para o exercício da liberdade, que consiste
mos dispor de meios que, em princípio, ainda deveriam demorar
sobretudo em projetar-se no futuro. Mas como o presente não tem
para serem postos à nossa disposição. Já estamos, no presente,
densidade, são as exigências do futuro que condicionam desde logo
adaptados ao futuro. A mecânica do raciocínio que ocorre aqui
a consciência, como se o futuro estivesse dado e não projetado como
não é difícil de discernir: como o progresso é considerado apenas
possibilidade de ação, o que toma impossível que os projetos huma-
da perspectiva de aprimoramento e acúmulo instrumental, pode-
nos reflitam efetivamente a liberdade da consciência. É como se o
mos não apenas usufruir do progresso, mas também acelerar o
futuro controlasse as relações da consciência com o presente.
tempo do progresso. E devemos fazê-lo porque a maneira técnico-

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Essas considerações nos permitem pensar vários fenômci u ,•, modernidade retira da universidade qualquer possibilidade de in-
da nossa atualidade, todos relacionados com a mesma dire,,;.11, terferência crítica no rumo dos acontecimentos, aí incluída a pos-
histórica. Interessa-nos aqui abordar a questão da modemízaçr« sibilidade de interferir nos seus próprios rumos.
da universidade.1 Prepara-se, planeja-se a universidade adapta. l,1 Vemos que, para a mentalidade tecnocrática, já não vale mais
ao futuro. Nesse processo, não importa considerar o lastro da tr:u li o adágio: o futuro é incerto. Já não se pode dizer que a singulari-
ção, aquilo que o passado configurou como perfil da universid:« li dade da dimensão temporal do futuro esteja associada à incerteza
e a partir do qual ela tenta enfrentar as tensões do presente. S<, 1, ou à abertura de possibilidades. Já não se pode dizer, como nos
que conta é a visão das necessidades a que a universidade ll'r,1 propunham as vertentes existencialistas da primeira metade do sé-
que responder no futuro. Sua sobrevivência passa então a depem lc ., culo XX, que seria mesmo essa incerteza o aspecto mais relevante
da forma como, considerando o futuro já presente, a universid.« lc do perfil existencial dos projetos humanos. Hoje vemos essa
deve reestruturar-se para inserir-se nesse tempo, considerado 0.11·11 incerteza sufocada pela presentíficação do futuro e principalmente
tempo. Como se considera que o presente antecipa o futuro l",, pela desconsideração do sujeito como agente histórico. É notável
futuro é a continuidade do presente, o futuro só pode ser concx- o fato de que a dimensão existencial do sujeito como agente histó-
bido como o aprimoramento da racionalidade técnica, pois, serx li, rico, que envolvia a incerteza dos projetos humanos, comprome-
esta a possibilidade já parcialmente realizada, ela torna-se necessu tidos com a finitude e com a insuficiência congênita da condição
riamente a única opção de futuro. É essa continuidade antecipadc >r ,1 humana, tenha sido substituída pelo cálculo, pretensamente obje-
que atua como critério para avaliar as modificações por que devi· tivo, do comportamento do único sujeito que realmente importa:
passar a universidade. Como dessa avaliação está ausente a dimcn o mercado. A supremacia da técnica na esfera da atividade encon-
são reflexiva, o presente é assimilado como simples antecipaçnn tra seu correspondente na supremacia do mercado na esfera das
do futuro e, em vez de debruçar-se criticamente sobre O que ek- ,. relações inter-humanas. Os sujeitos singulares anulam-se diante dessa
e sobre o que ele indica em termos de futuro, simplesmente si- supremacia: tor;, m-se apenas elementos passivos que atuam como
adota a perspectiva naturalista da adaptação, sem nenhuma cor, peças componen s da conduta do único sujeito que é o mercado.
sideração mais ampla sobre o equilíbrio entre as perdas e ganho.', Desap~rece assim vinculação entre sujeito e ação histórica. _o q~e
desse processo. Gerir o presente identifica-se então com estruturai existe e um grande organismo natural que atua segundo leis pro-
a adaptação ao futuro. Como o presente já é a supremacia da técníci, prias, e os sujeitos humanos são elos de transmissão dessa ação sub-
dos meios sobre os fins, a gestão da universidade só pode ser t(.'c · jetivo/objetiva do mercado. A assimilação das regras dessa ação é
nocrática, isto é, inserção espontânea e acrítica no processo de tecno que determinará o êxito na competição que o mercado impõe co-
burocratização, que passa a oferecer então os parâmetros unívci mo parte de sua atuação. Ignorar o mercado seria, portanto, tão
sais de gestão. Essa aceitação naturalista do curso histórico d:r aberrante e sem sentido quanto ignorar a natureza. É essa naturali-
zação do mercado como critério universal que inviabiliza qualquer
pretensão de crítica e de transformação. É isso também que ape-
1 "Ensino, formação, domínio, competência, excelência: é aí, talvez sobretudo :,r,
que a civilização moderna voltada para o futuro se deixou converter numa rcck- quena o futuro individual: "terá futuro" apenas o indivíduo que
pós-moderna de organizações empenhadas na adaptação ao futuro e num cu, diluir a sua subjetividade na rede de exigências tecnocráticas de
preendimento de promoção sistemática do futuro" (Freitag, 1995, p.14). uma sociedade inteiramente governada pelos critérios mercado-

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leis naturais não podem ser totalitárias e ameaçar a liberdade; é pre-


lógicos. Isso significa que a ação histórica deve ceder lugar à f1111
ciso aceitá-las como ao tempo. Com esse truque grosseiro o libera-
cionalidade e à operatividade. Não é por outra razão que a univ.»
lismo buscou desde o princípio tornar o centro econômico da mo-
sidade_deve deixar de ser uma instituição para tornar-se uma o,;L/11
dernidade inacessível à reflexão crítica, silenciando, ao mesmo tempo,
nizaçao, gerida tecnocraticamente.2
o fato de que as ditaduras totalitárias do período entre guerras pos-
Nesse sentido, a universidade apenas acompanha a socied:« l« suíam ao menos uma coisa em comum com a democracia: as formas
e seu modo de reprodução, que deixou de ser polítíco-ínstítucf« econômicas do moderno sistema produtor de mercadorias.
na! para tornar-se funcional e organizacional, quer dizer, tecn. 1
burocrático. O triunfo da tecnoburocracia é a abolição da polít i< .1
Mas essa abolição é ambígua e mais complicada do que à primch ,1 É oportuno lembrar que vivemos atualmente numa época de

vista possa parecer. Pois a supremacia da técnica não aconteceu significativas mudanças, sobretudo econômicas. A propósito delas,
simplesmente por via do próprio desenvolvimento da técnica ,. fala-se com freqüência em mudanças da "realidade", o que de-
da prerrogativa que na modernidade foi ganhando a tecnologia monstra a identificação da realidade histórica com a dimensão do
Ela tem que ser considerada um fato político. Portanto, 0 proccssi 1 econômico, mas considerando o econômico não como a força mo-
de despolitização característico da contemporaneidade é, em si mes triz, e sim como a totalidade. Tais mudanças são apresentadas como
mo, de índole política. Essa circularidade perversa serve pelo nu, uma rearticulação das forças naturais do mercado, às quais seria
nos para desmistificar a idéia de que viveríamos o fim da dimcn insensato se opor. É nessa naturalização que se oculta a política
são do político como conseqüência "natural" do processo histórkx 1 de despolitização, isto é, a hegemonia da tecnoburocracia, uma
Mistificação análoga àquela que querem nos impingir acerca d, 1 estratégia política que usa a máscara da objetividade técnica para
"fim da história" como resultado histórico. O engodo implicack 1 esconder aquilo que se sabe desde a pólis grega: que a política é
fruto de deliberação humana e não de causas naturais. Talvez por
na idéia de fim da política se torna claro quando percebemos < 1
processo: a dimensão do político diluiu-se no econômico, mais isso a presentificação do futuro exerça o papel preponderante que
pre~i~amente na_ tecnocracia economicista para efetivar um projeu 1 tentamos co~ ntar. A obsessão de antecipar tecnicamente o futu-
politico de dominação em escala transnacional. E aqui devemos ro na gestão tec ocrática ~o social, como se a s~ciedade fosse _u_ma
nos reportar ao que já foi mencionado acerca da consciência refk- grande corpora ão que se insere no futuro por via de uma planifica-
ção eficaz, manifesta o propósito de desvalorizar o presente e suas
xiva que deveria acompanhar o processo civilizatório. É a ausência
tensões como o lugar em que os homens deveriam delíberarsobre
de reflexão que ocasiona a hipertrofia do econômico e que redunda
o futuro, atuando politicamente no sentido mais profundo e originá-
na tecnocracia como gestão economicista do social. o desprezo
pela mediação política talvez deva ser visto como uma exacerba rio do termo, isto é, compartilhando a palavra, e fazendo da palavra
política a expressão da responsabilidade inerente à ação histórica.
ção do vezo totalitário do próprio liberalismo econômico, corno
lembra Robert Kurz 0999, p.9): Não é por outra razão que a tecnoburocracia, que ocupou o vazio
da deliberação política, despreza a palavra, trivializa e degrada a
interação política que a palavra deveria proporcionar, no propósito,
2 Cf., a respeito do avanço da mentalidade organizacional (empresarial) na unl- desgraçadamente bem-sucedido, de afirmar o caráter supérfluo do
~ers1dade e a conseqüente corrosão do caráter institucional, o ensaio que d~
título à coletânea de Michel Freitag 0995). sujeito histórico como agente de transformação.

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Para finalizar, talvez seja necessário observar que as idéias qur


desenvolvemos aqui não envolveram diretamente a obra de Ma, 1
rício Tragtenberg, o que seria provavelmente de esperar tratando x-
de uma homenagem à grandeza do intelectual e à generosídack-
do militante. Mas arrisco-me a dizer que essas idéias não são esu a
nhas ao seu pensamento, já que o quadro que elas desenham l< 11
certamente objeto de sua preocupação. Talvez ele encerrasse essu-,
observações com uma daquelas suas perguntas mais incisivas d< 1
que qualquer afirmação, e que concerne a todos nós: O que esi:« >
fazendo as ciências humanas diante dessa cena de deteríoraçrn >
das exigências políticas da condição humana?

Parte 111
Referências bibliográficas
Coerência entre teoria e prático
FREITAG, M. La gestion téchnocratique du social. In: . Le naufrago
de l'uniuersité. Quebec: Nuit Blanche Éditeur, Paris: La Découvertc,
1995.
KURZ, R. O totalitarismo econômico. Folha de S.Paulo, 22.8.1999. Caderno
Mais!, p.9.

250
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_Q, . Lj
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(Câmara Brasileiro do Livro, SP, Brasil)

Maurício Trogtenberg. Uma vida poro os Ciências Humanos/organizadoras


Doris Accioly e Silva, Sonio Alem Morroch. - São Paulo: Editoro UNESP,
2001.

Apresentação 9
V6rios autores.

ISBN 85-7139-359- l
Parte 1
Memórias de um convívio
1. Ciências Humanos 2. Trogtenberg, Maurício, 1929-1998. 1. Silva,
Doris Accioly e. li. Marroch, Sonio Alem. 1 Memórias de Maurício Tragtenberg
01-2684 CDD-001.3 Sonia Alem Marracb 13

)
Índice poro catálogo sistemático: Maurício Tragtenberg e a família Abramo: algumas lembranças
1. Ciências Humanos 001.3
Lélia Abramo 23

3 Maurício Tragtenberg na mocidade


Antonio Candido 27

4 Maurício Tragtenberg, espírito libertário


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5 As pessoas não morrem, ficam encantadas
Fernando de Carvalho 35
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Evaldo Amaro Vieira 49 /