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Da Alquimia à Química

Não é possível falar do surgimento da Química sem nos


referirmos à alquimia. As origens da alquimia e da própria
Química perdem-se em tempos que não temos registros, pois
não se pode afirmar com certeza o início de cada uma, além
disso, assim como todo desenvolvimento, a transição de uma
para a outra não ocorreu de imediato.

No entanto, considera-se que a alquimia se manteve entre os


anos 300 a.C. e 1500 d.C. e se iniciou em Alexandria, cidade
fundada em 331 a.C. por Alexandre, o Grande, na foz do Rio
Nilo, como capital de seus territórios conquistados no Egito.

Uma forma de pensamento muito antiga que se desenvolveu


nessa cidade foi uma arte egípcia, a khemeia, que é a raiz da
palavra Química. A khemeia relacionava-se com mistérios,
superstições, ocultismo e religião. Isso tudo se somou aos
conhecimentos de diversos sábios, dando origem à alquimia.
A alquimia se difundiu em diversas civilizações, como pelos
chineses, hindus, egípcios, árabes e europeus. Entre os seus
ideais inatingíveis estavam principalmente:

 A pedra filosofal: Os alquimistas acreditavam que seria


possível transformar chumbo (e qualquer outro metal) em
ouro, a chamada “transmutação”, e que isso seria conseguido
por meio de uma peça particular da matéria, a pedra
filosofal.
O alquimista espanhol do século XVI, Arnoldo de Villanova,
descreveu a pedra filosofal da seguinte maneira:
“Existe na Natureza certa substância pura que, quando
descoberta e levada pela Arte a seu estado perfeito, converterá
à perfeição todos os corpos perfeitos em que tocar.”1
Essa crença dos alquimistas se baseava nas ideias do filósofo
Aristóteles (384-322 a.C.), que afirmou que a matéria era
contínua (não formada por átomos como afirmaram
corretamente os filósofos gregos Leucipo e Demócrito), e ele
aprimorou a ideia dos quatro elementos de Empédocles. Essa
ideia dizia que toda a matéria era formada por quatro
elementos: água, terra, fogo e ar, e Aristóteles associou a
cada um deles duas “qualidades” opostas: frio ou quente; seco
ou úmido. Por exemplo, a água estaria associada a úmido e frio,
enquanto o fogo estaria associado a quente e seco. Essas ideias
de Aristóteles permaneceram por mais de 2000 anos.
Baseando-se nisso, os alquimistas pensaram em como cada um
desses elementos poderiam se transformar uns nos outros se
fosse removida ou adicionada a “qualidade” que possuíssem em
comum. Essas ideias justificaram a tentativa de se obter ouro a
partir da combinação de outros metais.

 O elixir da longa vida: Os alquimistas almejavam extrair


o maior dos desejos do ser humano: a vida eterna.
Procuravam um elixir da longa vida, que permitiria a
imortalidade.
Apesar desse lado ritualístico e de nunca se ter
alcançado esses objetivos, os alquimistas foram os
pioneiros no desenvolvimento de técnicas de laboratório,
como a destilação e a sublimação que são usadas até
hoje pelos químicos.
No início do século XV surgiu o Renascimento, um movimento
artístico e científico que se baseava na racionalidade, ou seja,
uma doutrina de que nada existe sem uma razão, sem uma
explicação racional, e no experimentalismo. Foi nesse
contexto que o modo de pensar dogmático, místico e
supersticioso da alquimia começou a ser mudado por
uma nova forma de buscar o conhecimento, através da
ciência experimental.
No ano de 1493 nasceu Phillipus Aureolus Theophrastus
Bombast von Hohenheim, mais conhecido como o
médico Paracelso. Apesar de ainda estar ligado à alquimia, ele
desenvolveu a iatroquímica, em que a principal finalidade era
a preparação de medicamentos apropriados para combater as
doenças por meio de fontes minerais. Para ele o corpo era um
conjunto de substâncias químicas que interagiam
harmonicamente e que, se a pessoa estivesse doente, isso
significaria que havia uma alteração dessa composição química,
que podia ser eliminada por meio de produtos químicos.
Por meio dos trabalhos do filósofo inglês Francis Bacon (1561-
1625), a Renascença passou a tomar corpo. Juntamente ao
francês René Descartes (1596-1650), o pensamento científico
começou a se desenvolver ainda mais, a busca do conhecimento
se baseava na experimentação e no uso lógico da matemática.
Antes, para que o conhecimento fosse aceito como válido,
bastava atender às normas da filosofia; a experiência estava
fora de questão.
Em 1543, o polonês Nicolau Copérnico causou uma tremenda
revolução, quando propôs que o Sol, e não a Terra, era o centro
do universo. Homens como Giordano Bruno, Galileu Galilei e
Johannes Kepler contribuíram muito para separar a astrologia
da astronomia e a alquimia da Química.
Mas dois cientistas foram marcantes nessa transição para a
Química como Ciência, que foram Robert Boyle (1627-
1691) e Antoine Laurent Lavoisier.
Robert Boyle nasceu no castelo de Lismore, Irlanda, em 1627.
Visto que era de família rica, pôde se dedicar tranquilamente
aos estudos. Ele foi chamado por alguns de pai da
Química, sendo responsabilizado por transformar a alquimia em
Química, pois ele introduziu o “método científico”. Boyle
assumiu uma postura totalmente diferente dos alquimistas de
seus dias, pois ele publicava abertamente todos os detalhes de
seu trabalho, defendia o uso de experiências para comprovar os
fatos e não aceitava hipóteses só porque eram consagradas.
Seu conceito sobre pesquisas científicas foi descrito em seu
livro The Sceptical Chymist (O Químico Cético).
Inclusive, Robert Boyle apoiou fervorosamente uma lei que
proibia o uso da alquimia para a produção da pedra filosofal,
pois ele considerava esse um objetivo frívolo e materialista.

Foi com essa mudança de pensamento que o século XVII


começou. Este foi o século do Iluminismo, sendo que a ciência
se distanciava da religião. Foi então que surgiu Lavoisier, que foi
considerado o fundador da Química Moderna, pois os seus
estudos foram marcados por grande precisão, não só qualitativa,
mas principalmente quantitativa. Ele utilizava balanças,
realizando pesagens e medições cuidadosas, tinha notável
precisão e planejamento. Tudo isso fez com que ele conseguisse
explicar fatos que outros cientistas não conseguiram.
Lavoisier derrubou teorias, como a teoria do flogístico, descobriu
o oxigênio, explicou a combustão, criou a lei de conservação das
massas e lançou o Tratado Elementar de Química, no qual
forneceu uma nomenclatura moderna para 33 elementos.

Desse ponto em diante, a Química já era considerada uma


ciência bem fundamentada e estabelecida. Logo retornou a ideia
de que tudo seria composto por átomos, havendo uma evolução
do modelo atômico e um conhecimento ainda maior da natureza
da matéria.

Além disso, vários elementos foram sendo descobertos, além de


suas propriedades químicas e físicas, mostrando que ao
contrário do que acreditavam os alquimistas, os “quatro
elementos” não eram os constituintes do mundo. Outro ponto
marcante para o desenvolvimento da Química foi dado
por Dmitri Ivanovich Mendeleiev(1834-1907), quando ele
descobriu a Tabela Periódica.
Um aspecto interessante das descobertas químicas que
relacionam essa ciência com a alquimia foi a descoberta da
radioatividade. Durante muitos séculos os alquimistas
trabalharam arduamente para transformar chumbo em ouro, e
hoje sabemos que o urânio, um elemento radioativo, emite
radiações naturalmente e se transforma em chumbo. Isso
mostra que um elemento pode se transformar em outro,
apenas não do jeito que os alquimistas queriam.
O desenvolvimento da Química como ciência continua só
aumentando ao longo dos anos. Se considerarmos que o marco
para o surgimento da Química como ciência experimental se deu
com os trabalhos de Lavoisier, vemos que a Química tem pouco
mais de 200 anos, é uma Ciência relativamente nova.