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UNIVERSIDAD DE LA EMPRESA

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO


DOUTORADO EM EDUCAÇÃO

HISTÓRIA E FINANCIAMENTO DA EDUCAÇÃO NO PIAUÍ:


DO PADROADO À VINCULAÇÃO CONSTITUCIONAL DE RECURSOS
(1711- 1934)

FRANCISCO IWELTMAN VASCONCELOS MENDES

MONTEVIDEO, URUGUAY
2011
FRANCISCO IWELTMAN VASCONCELOS MENDES

HISTÓRIA E FINANCIAMENTO DA EDUCAÇÃO NO PIAUÍ:


DO PADROADO À VINCULAÇÃO CONSTITUCIONAL DE RECURSOS
(1711- 1934)

Orientador: Prof. Dr. Enrique Martinez Larrechea

MONTEVIDEO, URUGUAY
2011
@ by Francisco Iweltman Vasconcelos Mendes

FICHA CATALOGRÁFICA ELABORADA PELA BIBLIOTECA SETORIAL


PROFESSOR CÂNDIDO ATHAYDE DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO PIAUÍ

M538e Mendes, Francisco Iweltman Vasconcelos


História e Financiamento da Educação no
Piauí: do padroado à vinculação constitucional de
recursos (1711- 1934)./ Francisco Iweltman
Vasconcelos Mendes. – 2011.
124 p.: il.; 30 cm.

Tese (Doutorado em Educação) - Universidad


de La Empresa, Montevidéu, 2011.
Orientação: Prof. Dr. Enrique Martinez
Larrechea.

1. Educação - História. 2. Piauí - História. 3.


Piauí - Pesquisa histórica. 4. Piauí - História -
Financiamento. I. Título.
Todos os direitos autorais reservados a Francisco Iweltman Vasconcelos Mendes. Proibida
toda e qualquer reprodução sem autorização, por escrito, do autor. (art. 184/Código Penal Lei
9.610 de 19 de fevereiro de 1998). Rua Antonio Gutemberg 480 - Reis Velloso – Parnaíba -
Piauí – Brasil.
Fone: (86) 94044103 – Email: Iweltmanmendes@gmail.com
UNIVERSIDAD DE LA EMPRESA
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO
DOUTORADO EM EDUCAÇÃO

HISTÓRIA E FINANCIAMENTO DA EDUCAÇÃO NO PIAUÍ: DO PADROADO À


VINCULAÇÃO CONSTITUCIONAL DE RECURSOS (1711- 1934)

Tese apresentada ao Programa de Pós-graduação em Educação da


Universid de La Empresa, como requisito parcial para obtenção do
título de doutor em Educação.

APROVADA EM: _20_/_07_/_2011_

BANCA EXAMINADORA

_____________Diva Rombys _______________


Prof Dr

________________Ana Buti _________________


Prof. Dr.

____________Francisco Assis _____________


Prof. Dr.

Montevideo- Uy, Julho de 2011


À memória de todos os homens e mulheres que,
em vida, dedicaram-se à sublime missão de ser
mestre.
AGRADECIMENTOS
Ao Grande Arquiteto do Universo em quem deposito minha confiança;

A Tânia Regina Carneiro Leal Mendes, companheira de longas datas, pela compreensão,
apoio, incentivo recebidos em toda minha carreira profissional;

As minhas filhas Isabelle, Islanne e Ianne (in memorian) pelo carinho, apoio e torcida pela
vitória;

Ao professor Dr. Enrique Martinez Larrechea, pela orientação segura e exigente na condução
dos estudos e elaboração dessa tese;

Ao Professor Francisco Nascimento, pela amizade, apoio e sugestões;

Ao dramaturgo e diretor de teatro Benjamim Santos, amigo fraterno pelo estímulo sempre
presente;

À funcionária Leslie Etcheverry, do Programa de Doutorado em Educação, pelo apoio e


atenção recebida;
“Os lugares são histórias fragmentárias e isoladas em si, dos
passados roubados à legitimidade por outro, tempos empilhados
que podem se desdobrar, mas que estão ali antes como histórias
à espera e permanecem no estado de quebra-cabeças, enigmas,
enfim simbolizações enquistadas na dor ou no prazer do corpo”.
Michel de Certeau
HISTÓRIA E FINANCIAMENTO E EDUCAÇÃO NO PIAUÍ: DO PADROADO À
VINCULAÇÃO CONSTITUCIONAL DE RECURSOS (1711- 1934)
RESUMO

Esta tese é um estudo sobre a manutenção e o financiamento da educação piauiense nos


períodos históricos: Colônia (1711 – 1822), Império (1822 – 1889) e República (1889 –
1934), até a criação de uma vinculação constitucional (1934) de recursos para o
financiamento da educação no Brasil, tendo como espaço de análise a
Capitania/Província/Estado do Piauí, em um corte cronológico que se estende de
1711(chegada dos jesuítas à Capitania) a 1934 (ano da criação da vinculação constitucional de
recursos para o financiamento da educação). A investigação de como se deu o processo de
manutenção e financiamento da educação colonial, imperial e na Primeira República no Piauí,
uma região, que por séculos constituiu-se na capitania, província e posteriormente no Estado
mais pobre da Federação Brasileira. Fato de relevância significativa, visto que, as abordagens
feitas em obras sobre a história da educação no Brasil, assumem contornos nacionais,
contribuições para a reconstrução dessa história, oriundas de regiões periféricas dos grandes
centros de decisões, como o Piauí, não figuram nesses trabalhos. Realizamos uma pesquisa
histórica, tendo como uma de suas referências e recurso primordial às fontes primárias,
especificamente, Atos e Provisões Régias, Leis Provinciais, Decretos Imperiais, Leis e
Regulamentos do primeiro período republicano e Anais das constituintes de 1823, 1891 e
1934. Outras fontes levantadas e interpretadas foram as hemerográficas, literárias e
fotográficas, num esforço da melhor caracterização da realidade de cada período histórico
pesquisado, para compreensão de todo o processo educacional desenvolvido no Piauí.

Palavras-chave: Educação, história, financiamento, Piauí

HISTÓRIA E FINANCIAMENTO DA EDUCAÇÃO NO PIAUÍ: DO PADROADO À


VINCULAÇÃO CONSTITUCIONAL DE RECURSOS (1711- 1934)
ABSTRACT

This thesis is an study about the maintenance and the financing of piauiense education, during
the historical periods Colony (1711 – 1822), Empire (1822 – 1889) and Republic (1889 –
1934), until the creation of resources with constitucional vinculation (1934) for the financing
of basic education in Brazil, having as an analysis space the Capitany/Province/State of Piauí,
in a chronological cut that lasts from 1711 (arrival of the Jesuits at the Capitany) until 1934
(year of the creation of the resources constitutional vinculation for the education financing).
The research on how the process of maintenance and financing for the education during the
colony, the empire and the First Republic in Piauí, a region that, for centuries constituted the
poorest capitany, province, and state of the Brazilian Federation, has a significant relevance,
once that the approaches made in studies about the education at Brazil, assume nacional
contours, once the contributions for the reconstruction of this history are originated in remote
regions of the big decision centers, as Piauí, aren’t inserted in these works. A historical search
was realized, having as one of its references and primordial resource the primary sources,
specifically, Acts and Royal Provisions, Imperial Decrees, Laws and Regulations of the first
period and Annals of Republican constituents, 1823, 1891 and 1934. Hemerographic, literary
and fotografic sources were used and interpreted, as an effort for a better characterization of
reality of each historical period researched, for the comprehension of the whole educational
process developed in Piauí.

Key-words: Education, History, Financing, Piauí

HISTÓRIA E FINANCIAMENTO DA EDUCAÇÃO NO PIAUÍ: DO PADROADO À


VINCULAÇÃO CONSTITUCIONAL DE RECURSOS (1711- 1934)
RESUMEN

Esta tesis es un estúdio sobre la manutención y el financiamiento de la educación básica, en


los períodos históricos: Colonia (1711 – 1822), Imperio (1822 – 1889) y República (1889 –
1934), hasta la creación de una vinculación constitucional (1934) de los recursos para el
financiamiento de la educación en el Brasil, teniendo como espacio de análisis la
Capitanía/Provincia/Estado del Piauí, en un corte cronolológico* que se extiende desde 1711
(llegada de los Jesuitas a la Capitanía) hasta 1934 (año de la creación de la vinculación
constitucional de los recursos para el financiamiento de la educación). La investigación de
como se dió el proceso de manutención y financiamiento de la educación colonial, imperial y
en la Primera República en el Piauí, una región que por siglos se constituyó en la Capitania,
provincia y posteriormente en el Estado más pobre de la Federación Brasileña, de una
relevancia significativa, puesto que los abordajes hechos en obras sobre la historia de la
educación en el Brasil, asumen contornos nacionales, en donde las contribuciones para la
reconstrucción de esa historia, oriunda de regiones periféricas de los grandes centros de
decisiones como el Piauí, no figuran en esos trabajos. Realizamos una pesquisa histórica,
teniendo como una de sus referencias y como recurso primordial, las fuentes primarias,
especialmente, Actos y Provisiones Regias, Leyes y Reglamentos del primer período
republicano y Anuales de las constituyentes de 1823, 1891 y 1934. Otras fuentes encontradas
e interpretadas fueron las hemerográficas, literarias y fotográficas en un esfuerzo para la
mejor caracterización de la realidad de cada período histórico pesquisado, en pro de la
comprensión de todo el proceso educacional desenvuelto en el Piauí.

Palabras claves: Educación, historia, financiamiento, Piauí.

*Corte cronológico = ciclo cronológico.

SUMÁRIO

01- INTRODUÇÃO................................................................................................................10
02- CAPÍTULO I - O CENÁRIO PIAUIENSE................................................................... 14

03- CAPÍTULO II - JESUÍTAS NO PIAUÍ: educação no contexto mercantilista..................22


3.1. O Seminário do Rio Parnaíba............................................................................................28
3.2. A Manutenção da educação jesuíta...................................................................................32

04- CAPÍTULO III - DO RELIGIOSO AO LAICO: a Reforma Pombalina..........................36


4.1. O financiamento das Aulas Régias....................................................................................40

05- CAPÍTULO IV – DESAFIOS À INSTRUÇÃO NO PIAUÍ: política externa e interna ..44


5.1 Independência e Incertezas..............................................................................................47
5.2. A ação governamental na educação...............................................................................49
5.3. O método Lancaster e o ensino mútuo...........................................................................55

06- CAPÍTULO V - A MARCHA DO ENSINO PÚBLICO NO PIAUÍ IMPERIAL............61


6.1. O Liceu Provincial como iniciativa educacional piauiense.............................................65
6.2. Colégio de Educandos Artífices.....................................................................................68
6.3. Escola Normal do Piauí.................................................................................................69
6.4. Estabelecimento Rural São Pedro D’alcântara...............................................................71
6.5. O Financiamento da Educação Pública no Império.........................................................73

07- CAPÍTULO VI - AS INICIATIVAS PARTICULARES NO PIAUÍ IMPERIAL.............79


7.1. Pe. Marcos Araújo Costa e a Escola Boa Esperança......................................................79
7.2. Colégio Nossa Senhora das Dores...................................................................................83

8- CAPÍTULO VII - PANORAMA EDUCACIONAL NA PRIMEIRA REPÚBLICA..........85


8.1. As Reformas do Ensino..................................................................................................85
8.2. O Ensino Primário............................................................................................................88
8.3. O Ensino Secundário........................................................................................................91
8.4. As Escolas Normais: a Livre e a Oficial......................................................................92
8.5. O Liceu Piauiense..............................................................................................................95
8.6. A Escola de Aprendizes Artífices...................................................................................85
8.7. Iniciativas educacionais na capital...................................................................................98
8.8. As iniciativas no interior................................................................................................99
8.9. A Manutenção das Escolas piauienses no Período Republicano...................................102

9- CAPÍTULO VIII - O INÍCIO DA ERA VARGAS E A EDUCAÇÃO NO PIAUÍ...........105


9.1. A implantação do ensino superior..............................................................................105
9.2. A Constituição de 1934 e a vinculação de Recursos para a Educação............................108

10-CONSIDERAÇÕES FINAIS...........................................................................................113

11- REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS............................................................................117


10
ANEXOS E APÊNDICES
1 INTRODUÇÃO

No estudo do processo histórico da educação brasileira, pesquisas sobre as


estratégias de manutenção e de financiamento público vêm ocupando um lugar de maior
destaque e significação, na medida em que, numa realidade econômica nacional,
historicamente marcada pelas incertezas e descompassos que geram crises que se aprofundam
e permanecem a se arrastar, como uma fantasmagórica corrente em assoalho de madeira onde
os orçamentos assumem o caráter de arena política e os interesses político-partidários são os
que, na realidade, definem percentuais e a destinação de recursos. A educação, por esses
grupos, costumeiramente, é tratada muito mais como discurso de palanque do que como uma
política de Estado.
Foi pensando na possibilidade de alargar as compreensões que existem sobre o
processo de financiamento da educação pública no Estado do Piauí que construímos essa tese,
que visa promover uma maior fundamentação e aprofundamento sobre o tema. Essa
preocupação nasceu da minha necessidade, como professor e pesquisador, de entender as
múltiplas faces com as quais o poder público se apresenta no trato com a educação. Além
disso, percebi na minha atuação como Secretário Municipal de Educação de Parnaíba – PI
(2001-2002), o descaso com que o ensino público no Piauí é tratado e, a partir disso, construí
minha problemática de pesquisa como uma tentativa de responder, historicamente, onde se
situam os entraves que estão vinculados à educação pública no Brasil e, particularmente, no
Piauí. A história cumpre, então, o seu papel como campo de conhecimento, pois “a história,
como outras formas de conhecimento: o conhecimento que ela produz nunca é perfeito ou
acabado”. (BORGES, 1993, p. 9). 11
A partir dessa inquietação, busquei investigar, analisar o contexto histórico e o papel
das estratégias de manutenção das escolas e as diversas formas de financiamento até a
importância da vinculação constitucional de recursos para a educação, e coletar subsídios no
sentido de contribuir para a obtenção de respostas às seguintes indagações: quais as
modalidades de manutenção e financiamento da educação básica no Piauí antes da criação da
vinculação constitucional de recursos, nos períodos da Colônia, Império e início da República,
que tentavam garantir uma escola de caráter universal e de qualidade? Qual era o perfil
político-econômico da capitania/Província/Estado do Piauí em cada momento histórico da
nação brasileira? Qual era o perfil dos estabelecimentos escolares públicos e privados do Piauí
em cada fase histórica pesquisada? Quais eram as origens das propostas de vinculação de
recursos educacionais nas Constituições de 1824, 1891 e 1934? Quais as justificações
apresentadas para a vinculação de recursos educacionais? Quais os argumentos utilizados
pelos Constituintes em 1933/1934, tanto para fundamentar quanto para se opor à vinculação
de recursos educacionais?
Essas perguntas foram pensadas numa tentativa de responder a um problema que
está inserido numa perspectiva que torna a educação como um elemento indissociável das
questões sociais e políticas. Ou seja, a relevância desta tese, está, principalmente, no fato de
possibilitar visibilidade aos aspectos sociais do Piauí que, transmutados na educação,
respondem ao que é o Piauí no âmbito educacional hoje. Entretanto, é salutar lembrar que não
se trata de encontrar respostas no passado para problemas do presente, mas procurar
evidências, seguindo trilhas em veredas deixadas pelo discurso oficial para compreender,
fundamentalmente, como se estruturou a educação pública no Piauí ao longo de mais de três
séculos, ampliando a produção historiográfica, que segundo Roger Chartier (1990, p. 16-17)
contribui para “identificar o modo como em diferentes lugares e momentos uma determinada
realidade é construída, pensada, dada a ler”.
A história da educação no Brasil e no Piauí, incluindo seu processo de
desenvolvimento sócio-político e econômico, é marcada de forma indelével por questões
fiscais e tributárias. De maneira geral, tanto o processo histórico quanto a história da
educação, amalgamaram - se de tal maneira que as políticas educacionais, quando existiram,
foram construídas quase que diretamente ligadas ao processo de obtenção e distribuição dos
recursos financeiros alocados ou não pelo governo, conforme demonstrou o contato com as
fontes, embora ainda escassas, pois,

Reafirma-se que, indiferentes a qualquer diálogo possível ou não, e aí se avultam os


entraves para a construção das histórias do Piauí, não existe no Estado uma política
consistente de gestão de documentos históricos para pesquisa ou mesmo consulta.
(PINHEIRO, 2006, p. 59).

Segundo Melchior (1972, p. 19), a educação pública no Brasil já nasceu inserida no


contexto “de uma política de vincular recursos específicos”, nem sempre existentes ou em
quantidade suficiente capaz de atender às necessidades do setor. No dito popular, é como se
“o corpo”, sempre em crescimento, forçosamente, fosse ajustado a um terno cada vez mais
curto e inserido na produção cultural, entendo que “a cultura é uma invenção humana. Ela é
forma ou produção de formas e sobrevive arquitetando possibilidades”. (RESENDE, 2006, p.
32). 12
Por outro lado, é preciso considerar que tanto a obtenção quanto a distribuição dos
recursos econômicos, políticos e fiscais no Brasil pode ser considerada como um labiríntico
processo de descaminhos e subutilização quer pela ineficiência do Estado na arrecadação e
destinação dos recursos; quer pela forma, na maioria das vezes, autoritária e com requintes de
violência, que vem desde a exploração predatória do pau-brasil, passando pelo regime de
exclusivo mercantil e consolidando-se na perspectiva da derrama colonial e vivendo de
confiscos e intimidações.
Há que se considerar o contexto da arena política na qual os grupos sociais e políticos,
com interesses antagônicos, entrechocam-se de forma sutil ou violenta. Neste sentido, as
prioridades orçamentárias, geralmente, não se constituem naquelas definidas pelas
necessidades da sociedade ou que busquem o bem-estar da mesma. Nesse sentido,

Toda pesquisa historiográfica é articulada a partir de um lugar de produção sócio-


econômica, político e cultural. Implica um meio de elaboração circunscrito por
determinações próprias: uma profissão liberal, um posto de estudo ou de sino, uma
categoria de letrados (CERTEAU, 1979, p.18).

Em outras palavras, a burocracia e os grupos que detêm o poder de fato, na questão do


orçamento e liberação de recursos visam “ao seu próprio bem-estar, com uma agenda
diferente da sociedade” (GOMES, 1996, p. 07). Por fim, é acrescida a este caldo a pouca
disposição para pagar e um arsenal de justificativas para a sonegação por parte de uma parcela
considerável da sociedade que, por um lado, não recebe a contrapartida de seus impostos e,
por outro, sente a destruição dos recursos públicos no esgoto da corrupção, desde a origem do
processo de dominação colonial européia no Brasil.
Investigar todo esse processo de manutenção e financiamento da educação colonial,
imperial e na Primeira República no Piauí, que por séculos constituiu-se na capitania,
província e posteriormente no Estado mais pobre da Federação Brasileira, é de uma relevância
significativa, visto que, as abordagens feitas na maioria das obras sobre a história da educação
no Brasil, assumem contornos nacionais, onde contribuições para reconstrução dessa história,
oriundas de regiões periféricas dos grandes centros de decisões, como o Piauí, não figuram
nesses trabalhos.
Considero, portanto, como elemento significativo desta tese, o fato de ela situar as
discussões da educação pública numa região em que as falas promovem pouco ou nada
interferem nas questões educacionais nacionais. É na busca por uma História que corre pelas
margens do discurso oficial – mesmo utilizando largamente os documentos produzidos pelo
Estado, mas buscando dar evidência a outras vozes e outros sentidos às falas já largamente
utilizadas – que esta tese se estruturou. Acreditamos que com esse gesto, será possível
começar a preencher uma lacuna na historiografia nacional, revendo conceitos e repensando a
Educação a partir de outros elementos e espaços.
Neste sentido, indica-se a relevância da pesquisa por apontar uma reflexão sobre as
relações entre a educação vivenciada e as políticas de educação anunciadas em cada período
histórico, destacando-se, assim, a importância das representações e das memórias, dos sujeitos
sociais, das experiências educacionais e de suas especificidades.
O trabalho foi organizado em quatro partes, sendo que a primeira apresenta o cenário
da educação piauiense, incluindo os aspectos relacionados à sua historicidade e organização
geográfica, incluindo a chegada dos jesuítas no Piauí, a criação do Seminário do Rio Parnaíba
e o funcionamento das aulas régias. Na segunda parte é enfocada a educação piauiense no
período colonial, particularmente o sistema tributário na manutenção da educação. Na terceira
parte é abordado o período imperial e o tratamento que a educação teve por parte do Regime
Monárquico, a criação do Liceu Provincial, do Colégio de Educandos Artífices, da Escola
Normal do Piauí, do Estabelecimento Rural São Pedro d’Alcântara, a ação de Padre Marcos
Araújo e a fundação da Escola Boa Esperança. Na parte final é apresentado um panorama
educacional no Estado do Piauí na Primeira República, a Constituição de 1934 e a vinculação
de recursos para a educação bem como as mudanças sofridas com a implantação dessa
vinculação.

14

2 CAPÍTULO I
O CENÁRIO PIAUIENSE
Conforme indica o historiador Michel de Certeau sobre o estudo dos espaços, a
história é produzida em um constante processo, por meio de práticas humanas, movimentos
que dinamizam a convivência social e constroem uma cultura, que elaboram sentidos e
cobram do historiador sua análise. Para esse autor,

Essa história começa ao rés do chão, com passos. São eles o número, mas um
número que não constitui uma série. Não se pode contá-lo, porque cada uma de suas
unidades é algo qualitativo: um estilo de apreensão táctil de apropriação cinésica.
Sua agitação é um imensurável de agilidades. Os jogos dos passos moldam espaços.
Tecem lugares. (CERTEAU, 2007, p. 176).

Tratando o Piauí como espaço praticado, portanto como um lugar em que por meio da
ação do historiador é possível apreender seus significados, sabe-se que é um Estado da
federação brasileira, localizado geograficamente na região denominada Nordeste, palco e
cenário onde ocorreram as experiências e de onde são apontadas as referências educacionais
que neste trabalho serão relatadas. O Piauí é em área territorial, considerado o terceiro maior
Estado nordestino, inferior apenas à Bahia e ao Maranhão, e o décimo Estado brasileiro,
respondendo por 2,9 % da área do território nacional.
Sua economia encontra no setor terciário, responsável por quase 70% da formação de
renda do Estado, ainda que pese a atuação desfavorável de um de seus segmentos mais
importantes, o comércio inter-regional, que acaba transferindo os recursos, via diversos
mecanismos, principalmente tributários, para os Estados mais desenvolvidos da Federação,
notadamente São Paulo. Os setores primários e secundários, embora minoritários na formação
da renda total, absorvem parcelas significativas da mão-de-obra.
A pecuária foi a primeira atividade econômica desenvolvida no Estado, fazendo parte
de sua tradição histórica. Tanto que o folclore e os costumes regionais derivam em grande
parte da atividade pastoril. Entre os principais rebanhos, destacam-se os caprinos, bovinos,
suínos, ovinos e asininos. Nos dias atuais, a caprinocultura, por sua capacidade de adaptação a
15 da
condições climáticas inóspitas, tem proporcionando meio de vida a significantes parcelas
população carente, principalmente nas regiões de Campo Maior, Alto Piauí e Canindé.
A partir do século XVIII, o Piauí consolidou-se como principal potência econômica no
que se refere à pecuária. Segundo Caio Prado Junior em seu livro Formação Econômica do
Brasil, consta que:

O fato é que o Piauí contando com os seus grandes rebanhos, os maiores e melhores
do Norte, e com uma via cômoda de transporte como o rio Parnaíba, suplantou todos
os seus concorrentes e dominará o mercado colonial de carne-seca até ser
suplantado, nos últimos anos do século, pelo charque rio-grandense. (PRADO
JUNIOR, 2004, p. 196)
A organização da pecuária e a forma como foi praticada no início do século XVIII
pode ter contribuído para formar o traçado geográfico piauiense. O território definido como
Estado do Piauí pode ser identificado no mapa abaixo.

PIAUÍ E SUA LOCALIZAÇÃO NO MAPA DO BRASIL


Fonte: RODRIGUES, Joselina Lima Pereira. Geografia e História do Piauí – Estudos Regionais. 4. ed.
Teresina- PI, 2007, p 24

16

A localização do estado do Piauí, indicada no mapa da página anterior, explica mesmo


de forma controversa o seu processo de colonização, que segundo alguns historiadores
piauienses como Monsenhor Chaves e Tânia Brandão, deu-se do interior para o litoral,
enquanto que outros historiadores como João Passos e o Padre Cláudio Melo indicam que
ocorreu do litoral para o interior, em função da ação dos padres jesuítas e franciscanos que
empreenderam suas missões evangelizadoras pelo Nordeste brasileiro. A criação do gado
participaram desse processo decisivo pois,
Com o gado vacum criam-se também cavalos; há mesmo fazendas dedicadas
especialmente a este fim. Assim, das Fazendas Reais do Piauí, três são desta
natureza, e outras quatro mistas. [...] Nas fazendas de gado, então, ele é
indispensável: na sua falta não seria possível manter, nestas extensões enormes que
cobrem a necessária vigilância sobre o gado solto. (PRADO JUNIOR, 2004, p. 193).

Já a agricultura no Piauí desenvolveu-se paralelamente à pecuária, porém como


atividade quase que exclusivamente de subsistência. Posteriormente, adquiriu maior caráter
comercial, embora de forma lenta e insuficiente para abastecer o crescente mercado interno do
Estado. Entre as culturas tradicionais temporárias sobressaem-se o milho, o feijão, o arroz, a
mandioca, o algodão herbáceo, a cana-de-açúcar e a soja. Entre as culturas permanentes,
destacam-se a manga, a laranja, a castanha-de-caju e o algodão arbóreo.
Outra atividade econômica historicamente explorada no Piauí foi o extrativismo vegetal
que ocorreu principalmente nos vales úmidos, onde predominam as matas de babaçu e
carnaúba. Atualmente estudos de laboratório sobre a carnaúba demonstraram ser possível a
elevação do nível tecnológico de seu aproveitamento, sendo a celulose o derivado de maior
potencial capaz de viabilizar a exploração dessa imensa riqueza natural do Estado. A castanha
de caju deixou de ser um produto extrativo para se constituir numa cultura desenvolvida em
grande escala com boas perspectivas a oferecer à economia do Piauí.
A prática do extrativismo vegetal também contribuiu para estabelecer ao Piauí suas
características geográficas, econômicas e que consequentemente se manifestou no processo
educativo, desenvolvido em terras piauienses.
Nos dias atuais, diversos estudos geológicos demonstram a existência de potencial
bastante promissor de exploração mineral no Estado. Entre as ocorrências de maior interesse
econômico, encontram-se o mármore, o amianto, as gemas, a ardósia, o níquel, o talco, a
vermiculita e a segunda maior jazida de níquel do Brasil, localizada no município de São João
do Piauí. Vale ressaltar que o Piauí, também, é beneficiado por grandes reservas de águas
subterrâneas artesianas.
17

VEGETAÇÃO DO PIAUÍ
Fonte: RODRIGUES, Joselina Lima Pereira. Geografia e História do Piauí – Estudos Regionais. 4 ed.
Teresina- PI, 2007, p 24

O relevo piauiense abrange planícies litorâneas e aluvionares, nas faixas às margens


do rio Parnaíba e de seus afluentes, que permeiam a parte central e norte do Estado. Ao longo
das fronteiras com o Ceará, Pernambuco e Bahia, nas chapadas de Ibiapaba e do Araripe, a
leste, e da Tabatinga e Mangabeira, ao sul, encontram-se as maiores altitudes da região,
situadas em torno de 900 metros de altitude. Entre essas zonas elevadas correm o curso dos
rios que permeiam o Estado, como, o Gurguéia, o Fidalgo, o Uruçuí Preto e o Parnaíba e
encontram-se formações tabulares, contornadas por escarpas íngremes, resultantes da ação
erosiva das águas.
18

HIDROGRAFIA DO PIAUÍ
Fonte: RODRIGUES, Joselina Lima Pereira. Geografia e História do Piauí – Estudos Regionais. 4. ed.
Teresina- PI, 2007, p 104

Foi, porém, exatamente a presença de águas que tornou o território piauiense ponto de
atração de populações migrantes do semi-árido nordestino. Enquanto os Estados do Nordeste
Oriental contam com apenas um rio perene, o São Francisco, com aproximadamente 1.800 km
dentro de seus territórios; o Piauí dispõe do rio Parnaíba e alguns de seus afluentes, entre eles
o Uruçuí Preto e o Gurguéia que, somando-se seus cursos permanentes, ultrapassam 2.600 km
de extensão. O Estado conta ainda com lagoas de notável expressão, tais como a de Parnaguá,
Buriti e Cajueiro, que vêm sendo aproveitadas em projetos de irrigação e abastecimento de
água na região. A perenidade dos rios piauienses, entretanto, encontra-se ameaçada, pois os
rios sofrem intenso processo de assoreamento, sempre crescente, em decorrência do
desmatamento acentuado que ocorre no Estado, principalmente nas nascentes e nas margens
dos rios.
19

No estudo dessa vegetação ameaçada, o Estado do Piauí, em decorrência de sua


posição, caracteriza-se, em termos fisiográficos, como uma típica zona de transição,
apresentando, conjuntamente, aspectos do semi-árido nordestino, da pré-Amazônia e do
Planalto central do Brasil. Refletindo as condições de umidade das diversas zonas, as regiões
ecológicas distribuem-se em faixas paralelas, com a caatinga arbórea e arbustiva
predominando no sudeste, a floresta decidual no Baixo e Médio Parnaíba, cerrado e cerradão,
no centro-leste e sudoeste e as formações pioneiras de restinga, mangue e aluvial campestre,
na zona litorânea. Dentre as paisagens vegetais, destacam-se os cocais, com seus exemplares
de babaçu, carnaúba, buriti, e tucum, encontrados na região da floresta decidual, nos vales
úmidos e nas áreas alagadiças, sustentando a atividade extrativa de significativa importância
para o Estado.

CLIMA DO PIAUÍ
Fonte: RODRIGUES, Joselina Lima Pereira. Geografia e História do Piauí – Estudos Regionais. 4. ed.
Teresina- PI, 2007, p 70

O Piauí com clima tipicamente tropical, apresenta temperaturas médias elevadas,


variando entre 18º C (mínimas) e 40º C (máximas). A umidade relativa do ar oscila entre 60%
e 84%. No litoral e às margens do rio Parnaíba, os níveis anuais de precipitação pluviométrica
situam-se entre 1000mm e 1.600 mm. A frequência de chuvas diminui à medida que avança
para a região sudeste do Estado; porém, níveis anuais médios de precipitação abaixo de 800
mm são encontrados apenas em 35% do território piauiense.
20

RELEVO DO PIAUÍ
Fonte: RODRIGUES, Joselina Lima Pereira. Geografia e História do Piauí – Estudos Regionais. 4. ed.
Teresina- PI, 2007, p 56

Encontram-se no Piauí, os mais antigos sítios arqueológicos do Brasil e das Américas,


considerados entre os mais importantes do mundo. No município de São Raimundo Nonato,
na parte sudeste do Estado, 280 desses sítios já foram mapeados por instituições científicas
nacionais e internacionais e abrigam rico acervo de arte rupestre e materiais de origem
orgânica em boas condições de conservação. Nos municípios de Piripiri e Piracuruca, no norte
do Estado, localiza-se o Parque Nacional de Sete Cidades, área de flora e fauna ricas e onde se
encontram conjuntos uniformes que insinuam a existência, em épocas remotas, de civilizações
desenvolvidas.
Outros sítios não catalogados no norte e sul do Piauí indicam, de forma enfática, que o
território geográfico é rico em indícios que podem se transformar em testemunhos históricos
da presença humana, povoamento e tentativas de entendimento da forma de viver e conviver
em períodos antigos da história do Piauí.

Então, é de se supor que na época que os colonizadores invadiram as terras dos


nativos, eles já existiam há milhares de anos, desde a pré-história. De caçadores-
coletores, passaram para ceramistas-agricultores, como eram os nativos da época da
colonização. As populações nativas viveram comunitariamente em harmonia com a
natureza até a chegada dos colonizadores quando se delineia a sociedade escravista
colonial com a formação de famílias de fazendeiros de gado, além dos vaqueiros,
lavradores, escravos, artesãos e comerciantes. (DIAS, 2006, p. 73)
21

Nesse espaço geográfico, embora de forma tardia, como informa Caio Prado Junior,
“em suma, podemos sintetizar com esses dados a distribuição do povoamento [...] o Piauí era,
em particular, muito ralo e quase inexistente em alguns setores”. (PRADO JUNIOR, 2004, p.
64).
Segundo alguns dados da historiografia piauiense a colonização do Piauí deu-se do
centro para o litoral. Fazendeiros do São Francisco, à procura de novas expansões para suas
criações de gado, passaram a ocupar, a partir de 1674, com cartas de sesmarias concedidas
pelo governo de Pernambuco, terras situadas às margens do rio Gurguéia. Um desses
sesmeiros foi o Capitão Domingos Afonso Mafrense, também conhecido como Domingos
Sertão, que fundou trinta fazendas de gado, tornando-se o mais eminente colonizador da
região. Por sua própria vontade, as fazendas foram legadas, após sua morte, aos padres da
Companhia de Jesus. Hábeis gerentes, os jesuítas contribuíram de forma decisiva para o
desenvolvimento da pecuária piauiense, que atingiu seu auge em meados do século XVIII.
Nessa época, os rebanhos da região abasteciam todo o Nordeste, o Maranhão e as províncias
do Sul. Com a expulsão dos jesuítas, as fazendas de Mafrense foram incorporadas à Coroa e
entraram em declínio. Esses elementos contribuem para apresentar uma ordem de
configuração do Piauí. Essa compreensão da ordem é explicada por Michel de Certeau da
seguinte maneira:

[...] um lugar é a ordem (seja qual for) segundo a qual se distribuem elementos nas
relações de coexistência. Aí se acha portanto, excluída a possibilidade, para duas
coisas, de ocuparem o mesmo lugar. Aí impera a lei do “próprio”: os elementos
considerados se acham uns ao lado dos outros, cada um situado num lugar “próprio”
e distinto que define. Um lugar é portanto uma configuração instantânea de
posições. Implica uma indicação de estabilidade. (CERTEAU, 1990, p.201).

Essa aproximação do Piauí como lugar próprio e espaço praticado serve, portanto, para
entender as formas educacionais e a rede de poder e de saber nele edificada e reorganizada
historicamente.
22

3 CAPÍTULO II
JESUÍTAS NO PIAUÍ: educação no contexto mercantilista

Os jesuítas fazem parte da Ordem de clérigos regulares, fundada em 1534 na cidade de


Paris por Inácio de Loyola, um basco a serviço do vice-rei de Navarra (hoje território
espanhol). Ferido na batalha de Pomplona (20/05/1521), durante sua convalescença, dedicou-
se à leitura da Bíblia, de livros religiosos e à meditação; essas práticas, levaram-no a devotar
sua vida à conversão dos infiéis e a se considerar “um cavaleiro a serviço de Jesus”.

INÁCIO DE LOYOLA
Fonte: Arquivo Histórico da Sociedade de Jesus Roma. In: SAVIANE, Dermeval. História das idéias
pedagógicas no Brasil. 2. ed. São Paulo, 2008, p.42

Um registro memorialístico de Inácio de Loyola, fundador da Ordem dos Jesuítas, é


indicado na xilogravura reproduzida em cores tênues, na qual o religioso aparece em posição
central, olhar e postura sérios, retratado com vestimentas eclesiásticas. Abaixo da imagem a
simbologia do Sacramento da Eucaristia, ladeado pela identificação de seu nascimento e
morte. Posto dessa maneira, entende-se que:

[...] a imagem ao ser veiculada, institui um código específico de comunicação que


possui seus próprios signos, neste sentido, a foto é entendida como um “texto
icônico”, a compreensão da imagem fotográfica como uma escolha possível em um
universo de escolhas descartadas. Essa dupla referência - à foto em si mesma e às
possibilidades não realizadas – deve ser levada em conta pelo pesquisador, “a relação
23

entre o plano do conteúdo e o plano da expressão”: o conteúdo refere-se à relação


entre o que foi captado pelo fotógrafo e a circunstância da produção da imagem;
[...].CIAVATTA, 2002, p. 56.

Aprovada pelo papa Paulo III, em 1540, a regra da Ordem jamais se modificou. Sua
organização, inspirada na formação militar do fundador, é comandada por um Vigário
General eleito pela Ordem em caráter vitalício. Sua estrutura compreende províncias e casas;
seus integrantes professam os votos usuais de castidade e pobreza aos quais acrescentam os
votos de obediência ao papa e ao seu superior geral: “para efetuar trabalho missionário e de
apoio hospitalar em Jerusalém, ou para onde o Papa quiser, sem questionar”.
Os inacianos representam a ação da Igreja Católica, no período da Contra-Reforma,
em que se investe intensamente no processo educativo e na tentativa de retomar o controle
sobre os fiéis na Europa e a catequese de outros povos além mar.
A Companhia de Jesus, também chamada Sociedade de Jesus, tinha por divisa “para
maior glória de Deus” (Ad majorem Dei gloriam) e por guia os exercícios espirituais
redigidos pelo próprio Inácio de Loyola. Grandes missionários, os jesuítas espalharam-se pelo
mundo, fazendo sentir sua presença no Oriente e na América, atuando como confessores,
preceptores e tutores de vários monarcas e alcançando grande renome como educadores.
Os jesuítas, longe de viver em mosteiros, estiveram sempre em contato com o mundo,
permanentemente disponíveis para a evangelização e para o trabalho missionário. Sua regra,
por excelência, é a “cega obediência”. De modo geral, mais instruídos que os demais clérigos
dos séculos XVI e XVII, teólogos notáveis, eles desempenharam um expressivo papel no
combate ao protestantismo e na repressão às heresias.
No continente americano, os jesuítas tiveram papel relevante no processo de
colonização do Brasil, especialmente na catequese, na educação e na instrução dos colonos.
Os colégios jesuítas, erguidos em vários pontos da América portuguesa, formavam elementos
para ingressar na carreira religiosa e tiveram papel de destaque no ensino dos filhos dos
colonos, ministrando-lhes os primeiros ensinamentos, ou mesmo dando a educação necessária
aos que não tinham condições de estudar na Metrópole. Os colégios foram ainda decisivos
para a ocupação das terras brasileiras, servindo também como defesa do território. A educação
jesuítica era considerada muito rigorosa e, durante a colonização, os inacianos detinham
grande poder, na medida em que monopolizavam a instrução.
Extremamente cultos, chegaram a produzir obras importantíssimas, dentre as quais se
destaca o dicionário da língua tupi-guarani, que facilitou a catequese dos indígenas.
24

Torna-se praticamente impossível dissociar o trabalho educacional produzido no Brasil


Colonial (1500-1822), da ação neste setor, desenvolvida pelos padres da Companhia de Jesus,
que desde 1549, instalados no Brasil, trabalhavam de acordo com um dos principais
documentos da Companhia, o Ratio Studiorum, concebido para proporcionar uma formação
uniforme a todos os que frequentassem os colégios da Ordem Jesuítica em qualquer lugar do
mundo. No entanto, a realidade e as peculiaridades encontradas pelos jesuítas na colônia
portuguesa da América foram tão diversas que a Constituição norteadora da educação
inaciana sofreu profundas adaptações em sua concepção original.Por isso, incorpou além das
classes de ler, escrever, contar, ensino do canto, da música instrumental, também, o uso da
gramática indígena, tradução de orações para a língua tupi, uso de figuras e danças do folclore
indígena para o teatro catequético e o estudo de técnicas e práticas agrícolas.
O Ratio Studiorum apresentava, também, uma grande preocupação com a formação dos
futuros mestres que iriam compor as instituições à Companhia subordinadas. Portanto, a
criação de seminários pedagógicos ou colégios era de suma importância para a formação de
bons professores. Nesses seminários, os futuros mestres deveriam aprimorar seus
conhecimentos, mantendo o mínimo de contato com os alunos externos que não seguiriam a
carreira eclesiástica.
Após a restauração da monarquia portuguesa, o poder dos jesuítas aumentou de maneira
expressiva nos domínios ultramarinos, pois entre 1640 e 1668 as dioceses de Angola, Congo,
Cabo Verde, São Tomé, Cochim, Goa, Macau, Malaca, Meliapor e Bahia ficaram sem bispos,
já que Roma só reconheceu a Dinastia de Bragança após a assinatura do Tratado de Paz entre
Portugal e Espanha. Entretanto, devido a problemas de ordem política em Portugal e também
pelo grande poder econômico que adquiriram na Colônia, os inacianos foram expulsos pelo
Marquês de Pombal, em 1759.
A extração das drogas do sertão, como o anil e o guaraná, na Amazônia, gerava
grandes lucros para os jesuítas, que as enviavam à Europa para comercialização. Para isso,
utilizavam a mão-de-obra indígena, embora defendessem os índios contra a busca desenfreada
por ouro e outros metais preciosos, promovida pelos colonos, que necessitavam da força de
trabalho dos silvícolas. Os Sermões, do jesuíta Antônio Vieira (1608-1697), ficaram famosos
por defenderem a liberdade dos índios, mas essa liberdade deve ser vista no quadro mais
amplo da colonização.
O indígena livre era aquele que conseguira salvar sua alma, ou seja, o índio cristão,
convertido à religião católica. Para Vieira, a colonização estava inserida numa ordem global
emanada de Deus, no intuito de permitir a evangelização do mundo inteiro. Assim, as
25

religiões dos índios e dos escravos africanos ou crioulos eram consideradas aberrações
satânicas, que deveriam ser extirpadas pelos missionários, os quais, com zelo e coragem,
convenceriam os indígenas a deixarem a religião errada e seguirem a verdadeira fé: a católica.
Nesse contexto, a escravidão era tolerada em nome de uma causa muito maior: a divulgação
da fé católica no Novo Mundo.
Os inacianos, investidos do poder intelectual na Colônia e incumbidos da
evangelização do gentio da terra, foram, de fato, grandes senhores de escravos, aí incluídos os
indígenas. Seu discurso, quando confrontado com a prática, mostra a sua incoerência, pois ora
se posicionavam contra a escravidão e ora a admitiam na guerra santa.
No Piauí, onde se instalaram em 1711, o trabalho desenvolvido pelos Jesuítas limitou-
se à catequese de filhos de colonos e de índios aldeados, bem como da administração das
fazendas de gado deixadas como herança por um dos principais desbravadores e um dos
primeiros colonizadores da capitania: Domingos Afonso Mafrense.

Em seu testamento, feito na cidade da Bahia, em 12 de maio do mesmo ano de 1711,


legou ele aos padres jesuítas do colégio da mesma cidade a administração das suas
fazendas de gado existentes no Piauí, e mais outros bens que possuía, com a
condição de não serem alienadas as mesmas fazendas, que, constituindo uma capela
ou morgado,aplicava a sua renda para a dotação de donzelas, vestimenta de viúvas e
órfãos, e esmolas aos pobres; e do que sobrasse, para a situação de novas fazendas,
sem a menor dúvida para o mesmo fim. (COSTA, 1974, p.74-75)

Os jesuítas assumiram logo, no mesmo ano, a posse das fazendas legadas, sendo seu
primeiro administrador o padre Manuel da Costa, nomeado em 20 de agosto pelo reitor do
colégio Bahia, o padre João Antônio Andreoni, primeiro testamenteiro de Mafrense
No entanto, mesmo antes da fixação dos padres da Companhia de Jesus no Piauí
(1711), o trânsito de Jesuítas pelas terras que, no futuro, se constituiram na Capitania de São
José do Piauí foi marcante. Na parte norte destas terras, era intenso o tráfego dos inacianos
que vagavam entre o Colégio do Maranhão e as missões na Serra da Ibiapaba. Isso pode ser
comprovado com o episódio ocorrido em 1607, quando o padre Luis Figueira, fugindo de
novos ataques indígenas nos contrafortes da Ibiabapa, atravessou com alguns de seus
comandados, o Rio Parnaíba, para refugiar-se no Maranhão, deixando para trás o corpo de seu
companheiro de expedição, Pe. Francisco Pinto, que havia sido trucidado pelos índios
tacarijus no Planalto Ibiapabano.
Muitos foram os jesuítas que fizeram esse percurso entre as missões maranhenses e a
serra da Ibiapaba, utilizando as terras do norte do Piauí: Pedro Pedroso, Antônio Ribeiro,
26

Antônio Vieira, célebre autor de “Sermões”, Gonçalo Veras, Pierre Gonçalvi e Ascêncio
Gago.
Em função desse “corredor” de passagem em que se transformaram as terras
piauienses, a região do delta do rio Parnaíba, povoada pelos índios Tremembés, foi alvo de
uma intensa ação dos jesuítas. Em 1704, encontramos registros do Pe. Miguel de Carvalho
“viajando para Lisboa para tratar dos interesses dos indígenas aldeados no delta do Parnaíba”
(MENDES,1996, p.17). Na parte sul, é possível assegurar que “índios do Piauí tenham
seguido os Jesuítas, que os alfabetizaram na Bahia ou Pernambuco antes da chegada de
Domingos Afonso Mafrense e da família Dias D’ávila, primeiros colonizadores”
(CARVALHO, 1983, p.08).
Em terras piauienses, após a instalação oficial (1711), os jesuítas dividiram-se em dois
grupos distintos, um ligado à administração das fazendas de gado e outro aos aldeamentos no
delta do Parnaíba. “[...] A administração das fazendas absorve a atenção dos padres de tal
modo que não lhes deixa espaço às atividades culturais e educacionais nas quais foram
atuantes em outras regiões da Colônia. [...]” (BRITO, 1996, p.13). Em 1723, na Ilha do Caju,
na região deltaica, o Pe. João Tavares chefiava uma missão junto aos índios tremembés. A
cumplicidade entre jesuítas e Coroa Portuguesa no projeto colonizador, leva o Governador e
Capitão-General, João da Maia Gama, a conceder sesmarias aos tremembés sob supervisão
dos jesuítas de quatro léguas de terras na região do delta (21 de junho de 1724); de uma légua
e meia na ilha Paramirim ou Cajuais na mesma região (21 de abril de 1727), bem como a
expedições de Provisões Régias em defesa das aldeias e da posse das terras pelos tremembés
estabelecidos no Delta (25 de janeiro de 1728/29 de novembro de 1731 e 21 de agosto de
1741).
As doações de terras e a intensa correspondência entre os jesuítas e o Conselho
Ultramarino, revelam a forte influência dos jesuítas na defesa dos índios e de suas aldeias
missionárias, justificando, também, o projeto colonizador da Metrópole.
O prestígio dos administradores jesuítas, das missões Tremembés no delta do rio
Parnaíba, junto à Coroa Portuguesa, demonstrava ser grande, pois a farta expedição de
Provisões do Conselho Ultramarino e do próprio Rei em atendimento aos reclames dos
jesuítas e em defesa dos índios é uma constante.

As funções do Conselho Ultramarino não se limitavam a uma simples direção geral.


Entrava no conhecimento de todos os assuntos coloniais, por menos importante que
fossem, cabia-lhe resolvê-los não só em segunda instância, mas quase sempre
diretamente. Os delegados régios, por mais elevada que fosse sua categoria, não
davam um passo sem sua ordem ou consentimento expresso. A extensa e
27

pormenorizada correspondência dos governadores, as minuciosas ordens e cartas


régias que de lá se expediam mostram a que particulares e detalhes, mínimos
dependiam as providências diretas da metrópole. (PRADO JÚNIOR, 1996, p.304).

No entanto, a grande quantidade de terras concedidas aos indígenas, mas que ficavam
sob a administração dos jesuítas, despertava a cobiça de aventureiros como os irmãos Lopes,
João, José e Manoel, que invadiram as terras dos Tremembés (1730) introduzindo gado e
instalando currais. O que levou, após apelo dos jesuítas, a expedição da Provisão Régia de 29
de novembro de 1731, do Conselho Ultramarino ao governador do Maranhão, ordenando
garantir a posse dos índios Tremembés na Ilha dos Cajueiros e a expulsão dos irmãos Lopes.
Vários fatores foram determinantes para um acelerado processo de extermínio dos
indígenas da região norte do Piauí, entre eles podemos citar: a Proclamação de 6 de junho de
1755, de D. José I, Rei de Portugal, emancipando todos os índios do Piauí, Maranhão e Pará,
declarando-os livres, o que os desobrigava da servidão e dos aldeamentos e a expulsão dos
padres jesuítas (1759), que, apesar de fazer uso do trabalho indígena, de alguma forma,
proporcionavam aos silvícolas proteção em suas missões. Os indígenas ficavam à mercê da
ação dos aventureiros, caçadores de índios e do sertanismo de contrato. “[...] É bem perecível
o caráter destes povos.” (DURÃO, 1722, p.32).
Uma vez instalados nas terras piauienses por interesses pecuniários, ou seja, a
administração das “39 fazendas, 50 sítios, 489 escravos, 1.010 cavalos, 1.860 bestas e 50.670
cabeças de gado vacum distribuídos em 1.206.612 hectares” (COSTA, op.cit, p. 138) deixadas
de herança por Domingos Afonso Mafrense, os Jesuítas encontraram na distância dos núcleos
populacionais, na pobreza do meio, nas precárias condições de comunicação e acesso e na
baixa densidade demográfica, argumentos para a não implantação de seminários e colégios,
bem como pouquíssimo interesse que a população de vaqueiros e pequenos agricultores
demonstrava pelo ensino das primeiras letras. “[...] A população desta capitania é tão
diminuta, que me parece impossível de se observar a sobredita real ordem na parte que
respeita à indicada separação de classes [...]” (CALDAS, In: COSTA, 1981, p.167).
Tudo concorria para justificar a não aplicação dos rendimentos obtidos com a
administração das fazendas pela Companhia de Jesus na educação do Piauí. “Os recursos
seguiam para a manutenção de Seminários e Colégios em outras regiões do país, notadamente
o Colégio da Bahia e o Noviciato de Jiquitaia”. (FERRO, 1995, p.54).
Vale lembrar, que mesmo tardia, a fixação dos Jesuítas em terras piauienses, ocorre
em momento extremamente conturbado, em função de lutas pela posse das terras que envolvia
28

índios, sesmeiros, aventureiros, bandeirantes e colonizadores e de lutas pela dominação do


elemento indígena e a natural reação indígena ante ao massacre e o extermínio de seu povo.
“Os colonizadores povoaram o Piauí de gado e o despovoaram de gente.” (CARVALHO,
1983, p.06).
Na parte norte da capitania, bem como no restante do Piauí, com exceção da Vila da
Mocha, a presença dos Jesuítas não resultou na edificação de Colégios. Nestas regiões, o
trabalho educativo dos padres resumia-se em aulas de catequese, como forma de
“aliciamento” ou “docelização” de índios adultos e curumins, no sentido de facilitar a
colonização nos aldeamentos no delta do Rio Parnaíba. Já na Vila da Mocha, o trabalho
jesuítico consistia em aulas para filhos de fazendeiros e colonos na preparação de uma elite
para ocupação de funções públicas.

É que os jesuítas no Piauí se apresentam mais como curraleiros que


educadores propriamente. Débil era nossa economia que não se difundia nas
baixas camadas sociais; não tínhamos indústria ou comércio dentro de nossas
fronteiras, a não ser o do gado, e isso mesmo em condições precárias e
reservado apenas a vaqueiros e fazendeiros. (NUNES, 2007, p. 289)

Nesse cenário educacional piauiense foram protagonizadas algumas experiências que


vale a pena analisar, tentando perseguir com isso suas iniciativas bem sucedidas, bem como
os descaminhos e os fracassos.

3.1 - O Seminário do Rio Parnaíba

Em 1730, o Padre Tomé de Carvalho, ofereceu a base econômica necessária para a


implantação de um seminário: uma fazenda de gado avaliada em doze mil cruzados, onde os
rendimentos seriam revestidos para manutenção de um educandário cuja condução deveria ser
confiada aos jesuítas.

[...] Assim que ponho na presença de Vossa Majestade ser muito preciso que neste
sertão haja quem doutrine os filhos destes habitadores, e que haja missionários de
vida exemplar, que doutrinem aos inumeráveis índios e pretos, que nele há, para que
ouçam missa, e se saibam confessar, e vivam como bons católicos, e não pior que
brutos fazendo mortes continuamente com armas de fogo. E como o dito vigário se
obriga a dar para a ajuda do colégio uma fazenda de gado que bem valha 12.000
cruzados, entendendo que a imitação do dito vigário haverá muitos que concorram
com esmolas; e só muito acho ser preciso para estas terras que os padres, que os
prelados houverem de mandar sejam de exemplar vida, e que se reforme de três em
três anos, e que dois andem pregando pelo sertão, e os outros dois fiquem ensinando,
e que os que ensinarem em um ano saiam no segundo a pregar e confessar, e se
recolham os do ano pretérito a ensinar, e que em nenhum tempo se possa aumentar o
29

número de padres mais que tão somente quatro de missa, e um leigo para deles
tratar, me parece que havendo padres que por serviço de Deus e de Vossa Majestade
queiram aceitar a fundação do dito colégio, será uma obra muito útil para estas
terras, e para o bem das almas, pelo que dou esta conta a Vossa Majestade para que à
vista da súplica do dito vigário se digne deferir-lhe como for servido. Mocha do
Piauí, 14 de agosto de 1730. – Dr. Ouvidor-geral do Piauí, José de Barros Coelho.
(COSTA, op.cit, p. 104)

Naquele mesmo ano (1730), a Freguesia do Piauí foi desmembrada do bispado de


Pernambuco e anexada a do Maranhão, facilitando as comunicações e as tomadas de decisões
eclesiásticas. Como consequência, houve em 1739, a criação do Seminário do Rio Parnaíba
tendo à frente o Padre Francisco Ribeiro, liderando um grupo de jesuítas do Colégio do
Maranhão.
O Seminário do Rio Parnaíba, erigido sob invocação de Santa Úrsula, fazia parte de um
amplo plano da Companhia de Jesus de criação de seminários por toda a América portuguesa,
cuja missão régia foi entregue ao Padre Malagrida, oficialmente por Alvará de 02 de março de
1751, que aliava interesses políticos da Coroa Portuguesa e interesses missionários da
Companhia. O padre Malagrida empreendeu missões no Brasil por um longo período,
contemplando o recorte temporal de - 1722 a 1755, - deixando marcas de seu trabalho
educacional e religioso: “Apostólico varão, grande no zelo e salvação de almas, como
publicam os sertões do Piauí, Pernambuco e Bahia, que viram e admiraram suas virtudes e
prodigiosas missões, em que converteu a Deus e a melhor vida inumeráveis almas.” (Padre
José de Morais: In COSTA, op.cit, p.119)
Localizado na região da Simbaíba, Vila da Mocha, o Seminário do Rio Parnaíba foi por
quase vinte anos, a única referência educacional secundária da Companhia de Jesus no Piauí.
As dificuldades de pacificação do elemento indígena, perturbações políticas locais
somadas às precariedades estruturais dificultavam a permanência do Seminário na Vila da
Mocha, no Piauí, levando os superiores da Ordem dos Jesuítas a compreenderem que era mais
prudente e perfeitamente exequível a transferência do Seminário para a região de Aldeias
Altas (hoje Caxias) na capitania do Maranhão, próximo ao Rio Itapecuru, de fácil acesso e,
naquela época, uma região já pacificada.

Não tardaram a surgir perturbações locais, que impediram a permanência do


Seminário no distrito da Mocha. Apesar dos gastos já feitos[...] e reduzido sobretudo
pela atividade catequética dos padres[...]. O seminário do Rio Parnaíba, primeiro
estabelecimento de ensino secundário, gramática e humanidades, cerrou o ciclo das
manifestações da Companhia de Jesus no Piauí, que foi, em suma, de ensino,
30

exploração da margem de Parnaíba, missões, catequese e administração. (Odilon


Nunes In: COSTA, op.cit, p. 120)

O fechamento do Seminário da Vila da Mocha, provocou nas famílias de melhores


posses, a necessidade de enviar seus filhos para estudos em Aldeias Altas ou em outros
centros como as capitanias de Pernambuco ou Bahia. As outras crianças e jovens de menores
posses, daquela região, tiveram de aguardar a expedição do Alvará Régio, de 03 de maio de
1757, criando duas escolas: uma para meninos na qual deviam aprender a doutrina cristã, ler,
escrever e contar; outra para meninas que deveriam aprender, além da doutrina cristã, a ler, a
escrever, a contar, e também cozer, fiar e fazer rendas.
A posse do primeiro governador da Capitania, João Pereira Caldas, em 20 de setembro
de 1759, ocorreu em meio à crise da Coroa Portuguesa com a Companhia de Jesus. Seu
primeiro ato como governador foi determinar o sequestro dos bens e a prisão dos padres
jesuítas, em obediência aos alvarás de 19 de janeiro e 03 de fevereiro daquele ano. Em 10 de
março de 1760, os padres jesuítas do Piauí foram presos e remetidos para a Bahia e para São
Luís no Maranhão sendo declarados banidos e proscritos como rebeldes, traidores, adversários
e agressores do Rei.
A campanha arquitetada contra os jesuítas pelo Marquês de Pombal, Ministro do Rei D.
José I, em Portugal, encontra em João Pereira Caldas, primeiro governador da Capitania do
Piauí, um fiel defensor, que certamente não gostaria de ver seu poder de administrador
rivalizando-se com o dos administradores jesuítas, como fica patente nessa proclamação do
governador em 1759:

Os jesuítas, tanto mais detestáveis, quando obravam toda a sorte de arbítrios sob a
capa da religião, de posse de uma grande fortuna, e por isso poderosos na capitania,
gozando de grandes privilégios, que os reis imprudentemente lhes haviam
concedido, eram os verdadeiros senhores da situação, eram a verdadeira justiça,
decidiam de todos os pleitos, intervinham em todos os negócios, punham em
antagonismo o povo com a autoridade, e indispunham os índios, sobre quem tinha
muito poder e mando, contra os povoadores. (CALDAS, In COSTA, 1981, p. 131).

A expulsão dos jesuítas do território brasileiro, colocava para a Coroa Portuguesa, o


desafio de bancar o sistema educacional com a introdução de aulas régias, que incluíam
gramática latina, grego e retórica. “[...] Leigos começam a ser introduzidos no ensino e o
Estado assumiu, pela primeira vez, os encargos da educação[...]” (ROMANELLI, 1997, p.
36).
31

Coube, então, ao governador João Pereira Caldas, o desafio de colocar em


funcionamento e manter as duas primeiras escolas criadas na capitania, pelo Alvará de 03 de
maio de 1757, na Vila da Mocha (Oeiras), uma para meninos e outra para meninas.

No Piauí, embora precárias e inconstantes, existiam escolas instaladas pelo Governo.


Em face da descontinuidade em seu funcionamento, e estrutura oficial de ensino
apresentou resultados de reduzido alcance social. Entre as razões que determinaram
esse resultado encontra-se as distâncias entre escolas, localizadas nas cidades e vilas,
e a maioria da população localizada nas fazendas; bem como a inadequação da
estrutura do sistema de ensino em relação à estrutura socioeconômica do Piauí.
Deste modo, surgiram formas alternativas de ensino que funcionavam no espaço
privado. (COSTA FILHO, 2006, p. 77).

A existência das escolas no território do Piauí, em pleno período imperial brasileiro,


configura um sério problema para abrir escolas e contratar professores para ministrar aulas às
turmas de primeiras letras.

OCUPAÇÃO DO TERRITÓRIO PIAUIENSE


Fonte: RODRIGUES, Joselina Lima Pereira. Geografia e História do Piauí – Estudos Regionais. 4. ed.
Teresina- PI, 2007, p 154
32

Do Seminário do Rio Parnaíba, um século depois (1838), o inglês George Gardner


registrou em sua obra: Viagens pelo interior do Brasil, sua passagem por Oeiras (antiga Vila
da Mocha): “Na extremidade norte da cidade há um grande e belo edifício, ora decadente, que
foi o colégio dos jesuítas antes da expulsão do Brasil.”

3.2 - A manutenção da educação jesuítica

Através do padroado, tratado entre a Igreja Católica e o Reino de Portugal, o papado


delegava aos reis que detinham o título de grão-mestre da Ordem de Cristo, a organização e a
administração da igreja em seus domínios. Isso incluía zelar pelas leis da igreja, criar
paróquias, enviar missionários e evangelizadores para as novas terras descobertas; construir,
manter e restaurar os edifícios das igrejas e remunerar o clero através das côngruas régias que
era o pagamento dos religiosos uma vez que estes eram considerados como funcionários da
burocracia estatal portuguesa e compunham, juntamente aos civis e militares, os chamados
filhos da folha, ou seja, aqueles que recebiam um salário dos cofres da Real Fazenda. As
reclamações dos religiosos referentes à côngrua foram constantes, no período colonial, não só
pelos atrasos muitos frequentes, devido à distância de Portugal, como pelo pequeno valor às
vezes insuficiente para a sobrevivência dos eclesiásticos na Colônia. Essa situação os levou a
buscar outras fontes de renda, dedicando-se às atividades econômicas mais diversas.
Em contra partida, pelo acordo do padroado, os reis tinham o direito à cobrança do
dízimo que era um tributo obrigatório sobre a décima parte de todos os bens dos indivíduos e
tinha por finalidade cobrir as despesas com os cultos religiosos. Havia três modalidades ou
formas de dízimos: os reais ou prediais, sobre a produção das propriedades rurais ou sobre
terras e prédios, por si mesmos, sem trabalho ou cultura dos homens; os pessoais, sobre os
frutos provenientes das atividades profissionais; e os dízimos mistos, cobrados dos criadores,
que pagavam sobre os animais, caça, aves e peixes. Os dízimos reais ou prediais e os mistos
eram pagos ao rei. A cobrança desse imposto foi instituída no Brasil pelo Foral de Doação das
Capitanias e seu registro data de 17 de setembro de 1577. Ao que parece, os dízimos fugiram
à finalidade para a qual foram criados que era de financiar a expansão da fé cristã e acabaram
sendo utilizados para pagar os salários das autoridades coloniais: o governador e os demais
membros do aparato administrativo, como agentes militares, judiciais e fiscais e, por isso,
recebeu a denominação de dízimo real. A partir de 1628, os dízimos reais passaram a ser
33

arrematados em leilões públicos nas capitanias e, em 1735, passaram a ser arrematados em


Lisboa, por intermédio do Sistema de Contrato, cabendo ao dizimeiro fazer arrecadação.
Além da cobrança e administração do dízimo pela Coroa, cabia ainda ao Rei a
indicação de bispos e padres para postos eclesiásticos e a criação paróquias com a anuência da
Santa Sé.
A presença de jesuítas na colônia portuguesa da América fazia parte desse grande
projeto que unia Igreja/Estado.
Os jesuítas recebiam recursos provenientes da arrecadação do dízimo por parte do
Estado Português para a implantação de missões, casas, seminários, colégios e outras obras de
evangelização dos inacianos.
Na prática, apenas as subversões do Estado português não garantiam o sustento dos
mestres nem conseguiam assegurar a manutenção das missões ou centros de ensino, sendo
necessárias doações de pais de alunos e do povo em geral, fazendo nascer a Conhecença que
era uma contribuição de 10% que todo fiel deveria fornecer aos padres na época da Páscoa.
Esse dízimo foi motivo de inúmeros atritos, pois muitos populares recusavam-se a pagá-lo,
alegando que os religiosos já recebiam a côngrua régia.
Tentando evitar esse problema, a Coroa Portuguesa fixou outras taxas, em locais e
épocas variadas. Vale acrescentar que o baixo clero vivia não só das conhecenças, quase
sempre insuficientes para seu sustento, mas também dos pés de altar, que eram as ofertas
pessoais recebidas quando da administração dos sacramentos, além da Miuça que era um
tributo de 10 % pago em gêneros à Igreja Católica. Sua cobrança recaía sobre produtos de
menor valor. Assim, em algumas regiões do Brasil, foi possível aos jesuítas, na luta pela sua
manutenção, criarem uma sólida base econômica para seu sustento, formando um patrimônio
que incluía fazendas, engenhos e currais. Com isso, os jesuítas no Brasil, contrariaram, a
princípio, ao criarem um aparato financeiro, as Normas Gerais da Ordem, que permitiam
apenas a posse de terras para a construção de casas, seminários e colégios.
Em função dessa estreita ligação Estado/Igreja, a Coroa Portuguesa, entre os anos de
1549 a 1759, transferiu à Companhia de Jesus a exclusividade do exercício do ensino público
(no sentido de aberto a todos) em sua colônia na América.
Na capitania do Piauí, como no restante das terras brasileiras, o ensino jesuítico era
gratuito e aberto a todas as classes sociais, mas a manutenção desse empreendimento
educacional e evangelizador, em função de que nem sempre a Fazenda Régia repassava o que
cabia à Ordem ou procedia o pagamento em espécie (produtos) que os padres eram obrigados
a vender para conseguirem o suficiente à manutenção dos trabalhos, obrigando-os, diante das
34

circunstâncias, a se enquadrarem no sistema comercial vigente na colônia. Assim, era comum


assinalar terras doadas em regime de sesmarias aos jesuítas que as cultivavam ou as
arrendavam para particulares utilizando o dinheiro do arrendamento e da produção na
construção e manutenção de suas casas, missões e colégios.
Em função desse enquadramento às estruturas econômicas, muitos jesuítas foram
repreendidos por seus superiores. Repreensões que não surtiam muito efeito, pois não havia
outra forma de sobreviver e realizar suas missões educativas e apostólicas. Ocorria que,
muitas vezes, o dinheiro enviado pela Coroa, ou a redízima implantada a partir de 1564, não
chegava até à Ordem, porque muitos funcionários públicos não concordavam com esse
repasse e até cobravam impostos dos padres que eram legalmente isentos.
A ação dos jesuítas, em toda colônia, poderia ter sido bem mais profícua se as
dificuldades financeiras não houvesse atrasado alguns passos do trabalho dos missionários. A
Companhia só iniciava uma nova missão, casa, seminário ou colégio, quando houvesse
dotação ou patrimônio que assegurasse os meios necessários para o seu financiamento, sem
contar que para atender às suas necessidades, os jesuítas tinham sempre em seus quadros uma
variada quantidade de profissionais que facilitavam a sobrevivência dos clérigos e o progresso
da própria Ordem. Entre os jesuítas era possível encontrar: mestres de obras, arquitetos,
engenheiros, pedreiros, entalhadores, oleiros, ferreiros, ourives, marceneiros, além de grandes
escritores, músicos, pintores, escultores etc.
Assim, devido à escassez de recursos e visando a uma maior autonomia financeira em
relação ao monarca português, os jesuítas da missão brasileira, conseguiram junto ao Padre
Geral e ao Rei de Portugal, exceção para adquirirem o que pretendiam para o sustento de suas
casas, missões, seminários e colégios. Na prática, o patrimônio da Companhia foi se
formando com a aquisição ou doação de fazendas, escravos, casas, jóias, gados, pequenas
propriedades ou a concessão do próprio Estado Português em terras e privilégios comerciais.
Tudo isso somado às atividades da pecuária e á exploração da mão de obra indígena levaram a
Ordem a obter um grande e considerável patrimônio econômico, despertando a cobiça e a ira,
em uma época em que a terra significava o poder de fato e o direito. Com isso os jesuítas
passaram a ser vigiados por um forte aparato burocrático para não permitir que missões mais
distantes pudessem fugir da esfera de influência da Coroa e seus bens fossem mantidos
sempre atualizados e regulados.
O temor dos altos escalões do Estado Português era contra o crescimento patrimonial e
de autonomia da Ordem. Pois, na verdade, o padre jesuíta em si, não dispunha de nenhum
bem. Todos os bens pertenciam às casas, aos seminários e aos colégios que os possuíam
35

coletivamente para o sustento dos alunos, padres e irmãos e como forma de garantir a
gratuidade do ensino. Mas, não era assim que pensavam algumas autoridades portuguesas:
“Senhores, e não administradores da grande fortuna de Domingos Afonso, de que estavam de
posse desde 1711, ninguém ousava contrariá-los.” (COSTA. op.cit, p. 131)
Desta forma, os jesuítas formavam um corpo facilmente visto como ameaça para o
Governo absolutista vigente, que ambicionava controlar todos os aspectos da vida econômica
e social, incluindo uma igreja mais submetida ao estado. Este viés ideológico somado ao
desejo de se lançar mão sobre o considerável patrimônio de posse dos jesuítas reúne as
condições para o desencadeamento de toda a sorte de perseguições.

João Pereira Caldas, logo que tomou conta do governo na capitania, tratou de
apressar a conclusão do seqüestro dos bens dos jesuítas, fazendo ao mesmo tempo
efetiva a prisão e expulsão dos mesmos jesuítas para fora do Piauí; e tomou conta
dos bens que a eles pertenciam, e que passaram para o domínio da coroa, nomeando
administradores idôneos para tomar conta dos mesmos bens. (COSTA, op.cit, p.
133)

A expulsão dos jesuítas do território piauiense interrompeu diversas iniciativas no


campo educacional, que mesmo com a substituição das aulas régias e o ensino laico, deixou
lacunas no processo formal de ensino e colocou o Estado do Piauí numa situação de
ostracismo e esquecimento, sendo, portanto, desfavorecido pelo poder público, no que se
refere às iniciativas administrativas.
Como resultado dos trabalhos educacionais que os inacianos empreenderam no Piauí
pouco ou nada restou, pois as arrecadações e benefícios materiais que obtiveram na capitania
não se reverteram em ajuda ao sistema educativo local, pois,

Enquanto em todo o Brasil tudo se deve à honestidade dos jesuítas, estes, no Piahuy,
sobravam à cizânia, acirravam ódios entre índios e colonos e destes entre si, e jamais
pretenderam imitar seus irmãos do sul, na faina gloriosa de instruir o povo,
inventando mil processos para a educação dos legítimos donos da América
Portuguesa e dos ávidos colonos que nella penetravam (sic) (SOCIEDADE
AUXILIADORA DA INSTRUÇÃO, 1992, p. 46).

De uma forma ou de outra, é possível entender que os jesuítas marcaram a cultura


escolar do Brasil, com elementos significativos em todos os níveis, inclusive no Ensino
Superior. Portanto, a base da educação superior foi edificada tendo como modelo a
experiência dos educadores jesuítas no Brasil, sua metodologia de ensino e a experiência que
por eles foi protagonizada.
36

4- CAPÍTULO III
DO RELIGIOSO AO LAICO: a Reforma Pombalina

Com a expulsão dos jesuítas da Capitania do Piauí pelo Alvará de 28 de junho de


1759, as tímidas iniciativas dos inacianos no campo educacional foram abandonadas durante
longo tempo estiveram esquecidas. Ficou, então, sob a responsabilidade do Governo da
Capitania prover de mestres as “escolas de primeiras letras” e estabelecer as “aulas régias”
como base de um sistema educacional que deveria ser mantido pela Coroa Portuguesa.

MARQUÊS DE POMBAL
Fonte: SAVIANE, Dermeval. História das idéias pedagógicas no Brasil. 2. ed. São Paulo, 2008, p.78

O Marquês de Pombal foi o déspota esclarecido que maior destaque teve no governo
português. Sua imagem, indicada acima, é representada na fonte imagética e é testamentária
da sua imponência e status social, tendo atuação expressiva em todas as colônias que
formavam o Reino de Portugal.
O modelo educacional implantado visou criar uma escola diferente da jesuítica que,
segundo o Marquês de Pombal (Ministro de D. José I de 1750 a 1777), fora montada para os
interesses da fé e da própria Sociedade de Jesus. A nova escola seria uniformizada em seu
37

currículo (aritmética, álgebra, geometria, latim, grego e retórica), desvinculada de religião,


voltada para o mundo (secularizada) e baseada nos interesses do Estado Português (a
educação passou a ser uma questão de estado). Inaugurava-se uma nova fase na educação da
Colônia, com “a primeira, grande e desastrosa reforma de ensino no Brasil”. (NISKIER, 2001,
p.34)
Circunstâncias físicas, demográficas e econômicas da Capitania do Piauí, somadas ao
tempo de permanência e projetos traçados pelos superiores, não permitiram aos jesuítas,
estabelecidos no Piauí, a formação de um grande aparato educacional, nem o preparo de uma
elite intelectual necessária à ocupação de cargos públicos no Governo da Capitania que
iniciava sua estruturação.
Desta forma, dois anos antes da expulsão dos jesuítas, pela total inexistência de escolas
na Capitania do Piauí, o Alvará do Conselho Ultramarino, expedido em 03 de maio de 1757,
criava na Vila da Mocha (Oeiras) duas escolas de primeiras letras, uma para cada sexo.
O governo autônomo da Capitania do Piauí, instalado em 1759, necessitava
extremamente de pessoas com um mínimo de qualificação para a execução de atividades
burocráticas e de comando. Prova cabal da péssima situação da educação na capitania, foi a
impossibilidade do governo local de cumprir a Carta Régia de 29 de julho de 1759, que
instituía um regimento de cavalaria e recomendava que a oficialidade fosse constituída de
habitantes da capitania. O governo não pôde dar cabo a essa determinação, pois: “As escolas
não ofereciam o mínimo de formação cultural à população pela total ausência de qualificação
dos seus professores”. (BRITO, 1996, p.18)
O sonho do Marquês de Pombal de um bem articulado sistema de ensino, sob a
orientação de uma “Diretoria de Estudos” criada pelo Alvará de 28 de junho de 1759,
Diretoria que só passou a funcionar após o afastamento do próprio Marquês e que no Brasil
era representada pelo Vice-Rei e da “Real Mesa Censória”, criada em 1767, que passou a
assumir a incumbência da administração e a direção dos estudos das escolas menores de
Portugal e de suas colônias mas que, em função da distância com a metrópole e a não
existência de órgãos intermediários, enfraquecia os esforços de organização, além de não
existir inspeções eficazes e mestres que não se congregavam em colégios. Na realidade, pouco
restou da prática educativa do período pombalino. Cada aula régia era autônoma e isolada
com professor único e uma não se articulava com a outra, os professores não tinham preparo
para a função, eram improvisados e mal pagos, cujo cargo, na maioria das vezes, era fruto da
intervenção e nomeação de autoridades locais seguidas muitas delas de aprovação religiosa
38

(párocos e bispos) e tornavam-se, após contratados, os mestres felizardos, “proprietários”


vitalícios e inamovíveis de suas aulas régias.
Ignorando a composição da população à época (índios, negros, mestiços e portugueses),
nestas aulas era proibido o emprego da língua indígena e, o mais curioso é que o latim, o
grego e a retórica eram mais ensinados do que a Língua Portuguesa.
Mesmo com a implantação do Subsídio Literário como fonte de financiamento da
educação na capitania do Piauí, em função de falhas na arrecadação e aplicação deste
imposto, o último quartel do século XVIII foi de tímidas iniciativas e lamentos quanto ao
estado lastimável em que se encontrava a educação na capitania. A escassez de recursos e a
falta de vontade política eram patentes, como bem comprova carta de 21 de outubro de 1769,
do governador da capitania ao tenente-coronel João do Rego Castelo Branco, diretor da
Aldeia de São Gonçalo do Amarante:

Sobre o papel que Vossa Mercê me pede para uso da escola dos rapazes e raparigas
dessa povoação, devo dizer a Vossa Mercê que, lendo as diferentes ordens, que a
Vossa Mercê distribuiu o meu antecessor, tanto para o estabelecimento, como para o
serviço dessa dita povoação, acho em uma delas que a despesa do papel para essa
escola deve sair do produto da roça do comum; por isso não posso ordenar que se
faça a dita despesa à custa da fazenda real, quando há semelhante providência, a
qual insinuo a Vossa Mercê para que assim o execute. (COSTA,op.cit.p.172).

Nesse período, a única iniciativa positiva no sentido de criação de escolas foi a


Provisão de 04 de junho de 1788, do Desembargador do Paço, criando uma cadeira de latim
na Vila da Parnaíba. Daí, até a proclamação da Independência do Brasil (1822), a educação na
capitania foi marcada por insignificantes avanços e grandes retrocessos. As palavras de ordem
na educação pareciam ser de forte lamento e apelo, como relatado no seguinte documento:
“S.M. ordene criar uma cadeira primária na cidade de Oeiras, pois a falta de escolas é a
principal causa da rusticidade e ignorância em que se acha mergulhada a Capitania”. (Junta de
Governo da Capitania do Piauí ao Rei, em 11 de julho de 1797, in: COSTA, op. cit. p. 200).
Agravando mais a situação, em 1794, é transferida a arrecadação do Subsídio Literário
do Piauí para a Fazenda Real do Maranhão, concentrando os recursos na cidade de São Luís,
dificultando ainda mais a manutenção do incipiente sistema educacional do Piauí. Somente
em 1º de junho de 1809, o governador Carlos César Bulamarqui, reclama de tal situação
vexatória e exige o retorno do controle sobre o imposto para a capitania do Piauí, visto a
necessidade de prover as cadeiras de latim com a abertura de concursos públicos. Em 06 de
agosto de 1805, o governador da capitania, Luis Antônio Sarmento de Maia, em ofício à
39

Secretaria de Estado dos Negócios Ultramarinos, desenha o mesmo quadro com uma riqueza
maior de detalhes: “Sendo o Piauí habitado por bem estabelecidos lavradores, vive quase tudo
sepultado em total ignorância, não tendo a mocidade quem a estimule: fugem os pais de
família da grande despesa a que se viam obrigados se mandassem seus filhos para outras
capitanias”. (COSTA, op. Cit., p. 200)
Baltazar de Sousa Botelho, que tomara posse como governador, em 09 de janeiro de
1814, ao transitar pelo território piauiense, percebendo a ausência de escolas conclui o quadro
funesto da educação na província: “Há ignorância geral e absoluta” (CARVALHO, 1983, p.
24). Completando o tempo de sua permanência na província e depois de todos os seus
esforços administrativos, Botelho escreve ao Rei: “Com referência à Educação, a coisa ficou
como estava, pois a nomeação de professores para Campo Maior e Parnaíba não daria às
escolas que pouco deixariam de funcionar [...]”. (CARVALHO, op. Cit., p. 24)
Mas, o apelo por escolas feito pelo governador César Bulamarqui, só será atendido dez
anos depois, em 1815, quando em 04 de setembro, daquele ano, uma resolução do Governo
Provincial criou uma cadeira de primeiras letras na Vila da Parnaíba, que pelo baixo salário
Rs 60$000 (sessenta mil réis) anuais nem chegou a ser preenchida, ficando nessa condição até
1821. Essa mesma resolução autorizou a criação de outras duas escolas de primeiras letras:
uma na capital, Oeiras, cujo salário do professor seria de Rs 125$000 (cento e vinte cinco mil
réis) anuais e uma na vila de Campo Maior, onde o ordenado seria de Rs60$000 (sessenta mil
réis) anuais.
A cadeira de latim de Parnaíba, criada em 1788, que se encontrava vaga, foi restaurada
por provisão do governador, em 16 de março de 1820. Nessa restauração, o ordenado anual do
professor foi elevado para RS 200$000 (duzentos mil réis).
A criação oficial dessas escolas não era garantia de seu funcionamento. A escola de
Parnaíba até o ano de 1821, também se encontrava vaga por falta de professores.
Mesmo com esse aumento na oferta de salário para professores da capital, Oeiras, a
condição para preenchimento de mestres para as escolas era dramática. Elias José Ribeiro de
Carvalho, governador da província, escreve ao Ministro de Estado do Reino, Inácio da Costa
Quintela, em ofício que mais parece um lamento, datado de 30 de junho de 1821, apresenta o
seguinte teor:

Ah! Senhor. A minha sorte é tão mesquinha e desgraçada que estou vivendo em um
país e em uma cidade onde não posso ter a consolação de ter duas ou três pessoas
com quem consultar um caso difícil, em que me ache, para nele obrar com acerto e
tranquilidade da minha consciência, mas até de o poder comunicar. [...] O que mais
se deve esperar de uma cidade cujas cadeiras de Primeiras Letras e Gramática Latina
40

estão por prover porque não há uma pessoa que possuía medianos conhecimentos
para as ocupar? (CARVALHO, 1983, p.6.)

A queixa do governador da província indica com clareza a situação educacional dos


piauienses, mergulhados no contexto de notória ignorância, por não possuírem instituições
escolares ou professores habilitados para lecionar as disciplinas de primeiras letras, e em
consequência disso, a ausência de homens ou mulheres que tivessem conhecimentos que
pudessem contribuir na administração provincial.

4.1 – O financiamento das Aulas Régias

A criação oficial de escolas de primeiras letras ou cadeiras de Aulas Régias por


alvarás, decretos, provisões ou atos régios, não dava nenhuma garantia de seu funcionamento
no período pombalino, pois uma série de fatores determinava o sucesso do empreendimento
escolar. O primeiro estava vinculado ao financiamento das aulas régias que entre os anos de
1759 (expulsão dos jesuítas) e 1772 (criação do imposto “Subsídio Literário”), esse período
foi o mais crítico, de uma quase total paralisia no campo da educação na colônia, visto não
existir recursos determinados para as atividades educacionais, o que levou o primeiro
Governador da Capitania do Piauí, João Pereira Caldas, a consultar em 06 de novembro de
1767 o governador do Maranhão como proceder no pagamento dos professores das Escolas de
Primeiras Letras. Como resposta, obteve:

Eu aqui (diz o governador do Maranhão) mando pagar os mestres das escolas a


paneiro de farinha; porém os que têm mais de dois filhos nunca darão mais de dois
paneiros; isto é o mesmo que praticava o Exmo. Sr. Francisco Xavier nos
estabelecimentos do Rio Negro. (COSTA, op.cit, p.170)

João Pereira Caldas ao criar escolas, autorizou o mesmo “sistema de pagamento”. No


entanto, não se observa nessa modalidade de manutenção do sistema de ensino, o
comprometimento de nenhum recurso público empenhado na educação.
Quando existia, o valor do pagamento era extremamente irrisório para motivar homens
dotados de alguns conhecimentos a atuarem na docência nas escolas de primeiras letras. O
fato de associar o pagamento do salário do professor a uma forma de prática comercial indica
o sentido da dimensão econômica sobrepor-se à educacional, ou seja, as mercadorias tinham
maior expressão simbólica que o trabalho constituinte da cultura escolar.
41

Fontes documentais revelam uma total miséria dos cofres públicos, na primeira gestão
do Piauí como capitania autônoma. Em 09 de outubro de 1766, o governador João Pereira
Caldas, já lamentava em ofício ao rei:

Concluo ultimamente com informar a V. Exa. Que os conselhos da cidade e vilas


deste governo não têm meios com que possam pagar os soldos que S. M. destina aos
sargentos maiores daqueles corpos, nem ainda para acudirem as despesas
indispensáveis a que se acham obrigados, não havendo em muita cousa alguma, e
em outros tão pouco como é notório. (COSTA, op.cit, p.168)

Por Carta Régia de 10 de novembro de 1772, o Marquês de Pombal criou o “Subsídio


Literário”, que só começou a ser cobrado no Brasil a partir de fevereiro de 1774. Esse imposto
deveria incidir sobre a venda da carne verde (um real sobre cada arrátel [0,429 Kg]), um real
em cada canastra (mais ou menos um litro) de vinho. Sobre o vinagre e a aguardente eram
cobrados quatro réis por cada Canada [2.622 litros] de aguardente e 160 réis por cada pipa de
vinagre. O Subsídio Literário deveria ter escrituração própria e a sua arrecadação depositada a
cada quatro meses na caixa geral das juntas de finanças e revestida na remuneração dos
professores e na manutenção das escolas (nas colônias); compra de livros para constituição da
biblioteca pública, subordinada à Real Mesa Censória; organização de um museu de
variedades; construção de um gabinete de física experimental (na metrópole) dentre outras
aplicações. Se houvesse excedente de receita deveria ser remetido a Portugal para ser aplicado
no Ensino Superior ou Acadêmico.
Houve, naquele período, uma supervalorização do Ensino Superior que contava com o
reconhecimento régio, do que propriamente o ensino desenvolvido em forma de aulas régias
na Colônia, como foi o caso do Brasil. Os recursos financeiros não eram bem aplicados na
Colônia nem apresentavam sobras para serem enviadas a Portugal.
Com esse imposto, foi possível fixar um salário anual para os mestres, retirando-os da
incômoda situação de praticar a troca dos produtos que recebiam dos pais dos alunos para sua
sobrevivência, por aulas por eles ministradas. São então fixados, na capitania do Piauí, os
salários para os professores de primeiras letras das Vilas em RS 60$000 (sessenta mil réis)
anuais e da cidade de Oeiras (Capital) em RS 125$000 anuais. Para se ter uma ideia real do
que esses salários equivaliam e o seu poder de compra, em 1764, portanto, seis anos antes, a
Câmara Municipal de Campo Maior, assim fixou os preços de alguns serviços e produtos:

480 réis um leitoa, 800 réis um par de esporas, 800 réis um facão de trabalho; a
diária de um mestre de carpintaria 400 réis; 160 réis a diária de um escravo alugado;
42
um vestido de veludo ou seda 5$000 (cinco mil réis), 2$000 (dois mil réis) de
qualquer outro tecido; feitio de um par de sapatos dando ao mestre tudo 2$560 (dois
mil quinhentos e sessenta réis). (COSTA, op.cit, p. 162-163).

No entanto, o Subsídio Literário sempre foi considerado um imposto com valores


muito pequenos, diante do desafio de estabelecer um sistema educacional na Colônia. O
Subsídio foi um imposto que nunca foi cobrado com a regularidade e seriedade necessárias:
os livros de controle e escrituração que ficavam sob a guarda dos provedores das comarcas,
eram comumente fraudados; ocorriam desvios de fundos recebidos; relaxava-se na vigilância
dos abatedouros que deviam recolher o imposto por cada animal abatido e a aguardente
tomava facilmente o rumo do contrabando em pipas de animais que camuflavam transportar
água. O resultado prático dessa ação deliberada de sonegação, eram improvisos e amadorismo
na arrecadação, e o estabelecimento de longos períodos em que os professores ficavam sem
receber vencimentos à espera de uma solução vinda de Portugal. “[...] Não há nesta província
outro algum imposto destinado em favor das escolas”. (Junta de Governo do Piauí ao Rei-
1822- In: CARVALHO, 1983, p.29)
Outros impostos cobrados na colônia eram sem grande importância em termos de
arrecadação, e não possibilitavam uma melhoria significativa no aparato escolar,
principalmente em uma capitania como o Piauí, onde as principais atividades econômicas
eram o extrativismo predatório, a pecuária e a agricultura de subsistência. Entre os impostos
mais expressivos do período colonial encontramos a Alcavala que era um tributo de 10%
cobrado pela Coroa Portuguesa e que recaía sobre as vendas públicas; direito que se pagava
pela passagem de caminho. A cobrança deste imposto era arrendada ao alcavaleiro, também
denominado contratador. Com o tráfico negreiro, a alcavala também passou a ser cobrada
sobre os escravos, tanto no ato de saída dos portos africanos quanto na chegada dos cativos
aos portos brasileiros; Cabeças que era um Imposto de meia pataca (valor de 160 réis)
cobrado pelas câmaras sobre cada cabeça de gado abatido que entrava nas vilas; Dízima era o
imposto que se pagava ao rei ou aos tribunais. Segundo as Ordenações, as dízimas ou décimas
só se pagavam a pessoas seculares, no Piauí, eram cobradas pelas autoridades municipais,
destinavam-se às despesas das vilas; Finta era um tributo que diferentes pessoas se obrigavam
a fazer ao rei ou a Câmara até chegar a determinada soma de dinheiro; geralmente para cobrir
despesas extraordinárias; Gabela que era a denominação original do imposto cobrado em
Portugal sobre o sal; posteriormente, estendeu-se a todos os tributos, impostos e contribuições
pagos à Coroa Portuguesa; Miunças tributo de 10% cobrado pela Coroa Portuguesa sobre
artigos miúdos e pequenos animais, como galinhas, patos, cabritos, leitões, ovos e outros.
43

Quando o imposto a ser arrecadado era muito pequeno, passava a ser recolhido pelos párocos;
Renda do Ver o Peso tributo que se devia às Câmaras pela aferição de pesos e medidas
praticados nas vilas; Meia-Sisa tributo instituído pelo Alvará Régio de 3 de junho de 1809;
correspondia a 5% ad valorem e era cobrado sobre o preço de compra e venda do escravo
ladino (negro aculturado, que entendia o português) e a Sisa que era o tributo de 10%,
incidido sobre todas as trocas comerciais; e venda e transmissão de casas e propriedades
imóveis, instituído no Brasil pelo Alvará de 3 de junho de 1809.
O quadro de ações na educação na Província do Piauí no período colonial, concluía-se
em 1822, ano da Proclamação da Independência, quando Portaria do governo da província de
12 de agosto, estabeleceu que nas escolas de primeiras letras na capital Oeiras e nas vilas de
Parnaíba, Campo Maior, Valença, Marvão, Jerumenha e Parnaguá, os ordenados dos
professores ficariam estabelecidos em Rs150$000 (cento e cinquenta mil réis) anuais,
enquanto todo o Subsídio Literário calculado para a arrecadação naquele ano era de RS
908$111 (novecentos e oito mil, cento e onze réis). No entanto, fechada a contabilidade dos
cofres públicos, naquele ano (1822), a Província apresentou um saldo de Rs104:149$654
(cento e quatro contos,cento e quarenta e nove mil e seiscentos e quarenta réis). Levando-se
em conta o pequeno número de escolas e o reduzido quadro de professores, percebe-se que o
setor educacional poderia ter recebido um melhor tratamento, levando-se em conta os salários
pagos e o saldo de caixa apresentado pela Província. “[...] como se houvesse um firme
propósito de manter o povo na mais crassa ignorância”. (ALENCASTRE, 1981, p.89)
44

5- CAPÍTULO IV
DESAFIOS À INSTRUÇÃO NO PIAUÍ: política externa e interna

Com a vitória da Revolução de 1820, na Cidade do Porto, em Portugal, exigia-se o


imediato retorno do rei D. João VI e a constitucionalização do país, ficando estabelecida
assim, a implantação das Cortes Gerais Extraordinárias e Constitucionais da Nação
Portuguesa (1821-1822), para a feitura da primeira Carta Magna para Portugal e seus
domínios.

CORTES DE LISBOA
Fonte: Quadro de Oscar Pereira da Silva- Web

Para o Reino do Brasil, as províncias deveriam mandar os representantes para a defesa


de seus interesses. Pelo Piauí, foram eleitos em 30 de outubro de 1821, na cidade de Oeiras, o
parnaibano radicado no Rio de Janeiro, poeta e magistrado Ovídio Saraiva e, como suplente, o
vigário da Vila de São João da Parnaíba, o Pe. Domingos da Conceição. O outro titular eleito
no mesmo pleito para representar o Piauí foi o jurista Miguel de Sousa Borges Leal Castelo
45
Branco.
Pe. Domingos da Conceição, em 8 de julho de 1822, jurou às Cortes de Lisboa como
deputado representante da Província do Piauí, em substituição a Ovídio Saraiva, que sendo
partidário do rompimento em definitivo dos laços que uniam o Brasil a Portugal, recusava-se
a tomar posse na Constituinte Portuguesa.
Entre os muitos pronunciamentos do Pe. Domingos da Conceição, o de 02 de setembro
de 1822, revela a agudeza da situação da educação no Piauí:

Setenta mil portugueses, cidadãos pacíficos do Piauí são setenta mil cegos que
desejam a luz da instrução pública[grifo meu] para que tem concorrido com seus
irmãos de ambos os hemisférios, pagando o subsídio literário, desde a sua origem e
apenas conhecem três escolas de primeiras letras na distância de sessenta léguas
cada uma, estas incertas, e quase sempre vagas por não haver na província quem
queira submeter-se ao peso da educação da mocidade pela triste quantia de sessenta
mil réis anuais quando a um feitor de escravos, tendo cama e mesa se arbitra no país
a quantia de 200$000 (duzentos mil réis) anualmente. Portanto, proponho: Primeiro
- Que se mande criar 7 escolas de primeiras letras com o ordenado de 120$000 cada
uma anualmente: 1.ª na cidade de Oeiras; 2.ª na vila de Parnaguá; 3.ª na vila de
Valença; 4.ª na vila de Jerumenha; 5.ª na vila de Marvão; 6.ª na vila de Campo
Maior; 7.ª na vila da Parnaíba. Segundo – Três aulas de gramática latina com o
ordenado de 200$000 cada uma: 1.ª na cidade de Oeiras; 2.ª na vila de Campo
Maior, que dista daquela 60 léguas; 3.ª na vila da Parnaíba, que dista desta outras 60.
Terceiro – Uma cadeira de filosofia racional, na cidade de Oeiras, outra de
geometria plana e trigonometria retilínea na vila da Parnaíba, com o ordenado de
400$000 cada uma. E como desgraçadamente na província do Piauí, não haja
pessoas idôneas, que possam e queiram encarregar-se destes magistérios, devem
pôr-se a concurso nesta capital, preferindo-se em iguais merecimentos presbíteros
assim seculares, como egressos, por haver grande falta de sacerdotes na província.
(ITC/ Lisboa, Documentação Manuscrita. 2 de setembro de 1822).

Padre Domingos da Conceição foi inquestionavelmente a voz mais atuante em defesa da


educação e dos mestres, em veementes pronunciamentos, denunciando a modicidade dos
ordenados pagos aos professores e a falta de escolas. Em muitos debates na constituinte,
atento aos problemas da Província em pronunciamentos, propôs: contratação de médicos e
criação de hospitais para Oeiras e Parnaíba; devolução das terras doadas em sesmarias que
não foram cultivadas ou preenchidas com currais; que se outorgassem às Câmaras municipais
o poder de doar terras para ocupação e agricultura; vender parte das fazendas e escravos
nacionais em hastas públicas assegurando à província a propriedade de algumas para
manutenção dos hospitais.
O outro representante do Piauí, Dr. Miguel de Sousa Borges Leal Castelo Branco, era,
também, um devotado às causas da educação. Diante do quadro catastrófico do ensino
observado na primeira década do século XIX, Dr. Miguel Borges, fundou em Oeiras, um
internato particular para o ensino de Latim, Filosofia moral e racional, Retórica e Francês.
Esse internato, segundo Odilon Nunes, “foi oneroso esforço de pouca eficiência” (In:
CARVALHO, op.cit.p 23)
Na tribuna do Parlamento Português, em 14 de setembro de 1822, Dr. Miguel Borges,
não escondeu a dura face da realidade educacional piauiense:
46

Eu sou deputado da província do Piauí. Dediquei-me aos estudos, vim para Portugal,
aqui estive dez anos; passados eles, eis-me obrigado, descontente talvez, a regressar
à minha pátria. Nenhuns outros conhecimentos tinha mais do que os de sete anos de
universidade, apesar disso, vivia entre homens que quase ignoravam as primeiras
letras, pois na Província do Piauí, dois terço dela não sabe ler nem escrever. Forte
desgraça!.(...) Com o ordenado de Rs 50$000 ( cinqüenta mil réis) ou Rs 60$000
(sessenta mil réis) anualmente, que convidou para professores delas unicamente a
indivíduos que nem são capazes de ser decuriões em escolas presididas por homens
doutos, e versados nos conhecimentos das primeiras letras, da moral e da política,
únicos habilitados para a educação da mocidade.” ( ITC/Lisboa – Documentação
Manuscrita – 14 de setembro de 1822.)

Era evidente que durante os trabalhos na Constituinte, em função do momento crucial


que viviam as duas nações (Brasil e Portugal), as questões políticas, chamariam mais atenção
e dominariam os debates muito mais do que qualquer outra matéria. Principalmente se era
para tratar de educação na paupérrima Província do Piauí no reino do Brasil. Mas as intenções
dos representantes piauienses, Pe. Domingos da Conceição e Dr. Miguel de Sousa Borges
Leal Castelo Branco, através de suas proposições e da suas presenças junto ao poder
metropolitano, no sentido de resolução das necessidades urgentes e das aspirações maiores da
educação da Província, devem ser ressaltadas. Segundo a historiadora da educação Otaíza
Romaneli esse fenômeno não apenas piauiense, mas brasileiro é denominado de educação
escolarizada. Para a autora:

O mercado interno, criado e reforçado com a economia de mineração, foi um fator


importante na ascensão dessa classe intermediária, que Nelson Wernek Sodré
prefere chamar de pequena burguesia, pelas afinidades que teve com a mentalidade
burguesa, também em plena ascensão na Europa. Essa classe desempenhou relevante
papel na evolução da política no Brasil monárquico e nas transformações por que
passou o regime no final do século. E se ela pôde fazê-lo, isso se deve sobretudo ao
instrumento de que dispôs para firmar-se como classe: a educação escolarizada.
(ROMANELLI, 2001, p. 37).

Infelizmente, as reivindicações dos representantes do Piauí, não foram apreciadas pelos


órgãos competentes da Coroa Portuguesa, tendo em vista a Proclamação da Independência do
Brasil em 7 de setembro de 1822 e o rompimento em definitivo dos laços administrativos e
políticos que uniam Brasil e Portugal.
47
5.1- Independência e Incertezas

A adesão da província do Piauí à Proclamação de Independência do Brasil,


promovida pelo Príncipe Regente D. Pedro, foi extremamente conturbada. O movimento
adesista foi iniciado em Parnaíba, no dia 19 de outubro de 1822, o que levou o Governador
das Armas Portuguesas, Major João José da Cunha Fidié, estabelecido no Piauí, a marchar
contra a vila litorânea e sufocar o movimento. A retirada estratégia, antes da chegada das
tropas de Fidié, dos parnaibanos para o Ceará, em busca de reforços de tropas e a posterior
adesão da capital, Oeiras, ao movimento libertário, em 24 de janeiro de 1823, quando esta
cidade achava-se desguarnecida de forças portuguesas fieis a Lisboa, provocou o retorno do
Major Cunha Fidié, Governador das Armas, à capital. No retorno, houve o confronto das
tropas portuguesas e brasileiras, em 13 de março de 1823, às margens do riacho Jenipapo, nas
proximidades da vila de Campo Maior. Esse embate forçou a retirada de Fidié para a
província do Maranhão. Apesar das baixas brasileiras terem sido maiores, a Batalha do
Jenipapo e a posterior derrota de Fidié em Aldeias Altas (hoje, Caxias-Ma), consolidou a
independência do Brasil no Piauí.
Em reconhecimento ao empenho à causa da independência no Piauí, D. Pedro I
nomeia Simplício Dias da Silva, para a Presidência da Província. Simplício Dias da Silva,
comandante militar da Vila da Parnaíba, recusa-se a assumir o Governo da Província por não
querer transferir-se para Oeiras e percebendo que seus negócios particulares, careciam,
naquele momento, de uma atenção maior, visto a queda acentuada que se verificava no
comércio do charque, resolveu declinar do convite do imperador.
O reconhecimento da atuação de Simplício Dias da Silva no processo de
Independência do Brasil, no Piauí, contribuiu para a criação de uma memória fundadora. São
elementos que configuram essa memória:

Uma ponte, uma escola e uma rua; patrono de uma cadeira na Academia Parnaibana
de Letras e do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Parnaíba; seu nome
está suspenso por meio de uma teia de narrativas gloriosas, carregadas de um ímã
que atrai todo adjetivo e expressão de grandeza: rico, corajoso, destemido, cruel,
amado e odiado. (MENDES; LIMA, 2009, p. 9).
48

A recusa de Simplício Dias da Silva, ligado ao ramo industrial e exportador, em


assumir a presidência da Província, abriu espaço para que a antiga elite agrário-pastoril do
interior da província se firmasse no poder. Essa elite pode ser simbolizada na figura de
Manoel de Sousa Martins, futuro Visconde de Parnaíba.
Na realidade, Simplício Dias da Silva tentava reaver seus negócios da indústria do
charque, diante da queda vertiginosa no abate de reses que caíra nos últimos anos de 40.000
reses (1820) para 10.000 (1824). E buscava, também, a recuperação de seus bens, visto que
parte de sua fortuna havia sido consumida no custeio de tropas patrióticas e mercenárias na
Guerra da Independência. Outro fato que agravou ainda mais a situação da indústria do
charque foram os tradicionais mercados consumidores, a região mineradora e zona canavieira,
reduziram significativamente suas atividades, consequentemente uma queda na compra e no
consumo do produto piauiense.

O declínio do ciclo do açúcar e da mineração e mais a concorrência de outros


centros produtores de melhor qualidade, no centro sul, provocaram um
colapso nos melhores mercados consumidores do gado piauiense, de modo
que a economia pecuarista passou a enfrentar problemas. (NUNES, 1995, p
86)

No Piauí, a Independência revelou-se um movimento comandado pela elite. A


recusa de Simplício Dias configurava-se na simples transferência do comando aristocrático
industrial-exportador (charqueadas) para o agro-pastoril (fazenda e currais). Guardando as
devidas proporções na composição social da época, a massa popular urbana e rural apesar do
heroísmo de alguns enfrentamentos e batalhas, não figuraram na composição do novo
governo, nem se beneficiaram da independência.

A própria independência de 1822 embora contivesse em si o potencial de um


movimento social de envergadura ao deixar intacta, a escravidão e a estrutura
fundiária latifundista, de um lado, e por se valer da hipertrofia burocrática
acarretada pela transferência da corte portuguesa para o Brasil, de outro,
manteve a sociedade brasileira como “sociedade de poucos cidadãos” e
conferiu ao novo Estado Nacional e imperial o mesmo caráter de um Estado
bastante descolado e sobreposto à sociedade”. (MEDEIROS, 1995, p. 163).
49

A proclamação da Independência do Brasil contribuiu sensivelmente para repensar a


implantação de experiências educacionais que atribuíssem à sociedade piauiense, propondo a
necessidade premente de desenvolver os processos escolares básicos e formais.

5.2- A ação governamental na educação

O rompimento das amarras coloniais e o estabelecimento de um novo Império na


América, fundado em ideias liberais e progressistas, passariam necessariamente, segundo
entendimento de parte da elite brasileira comprometida com o movimento de independência,
pela difusão da educação elementar a todas as classes sociais para concretização desses ideais
e assegurá-las constitucionalmente, seria um grande passo.
Na abertura da Assembléia Legislativa e Constituinte, em 3 de maio de 1823, D.
Pedro I referiu-se à necessidade de uma legislação particular sobre a instrução. Embora sobre
o assunto os debates fossem intensos, mas, em virtude da dissolução da constituinte de 1823,
não traduziram-se em dispositivos incorporados à Constituição de 1824. A primeira Carta
Magna brasileira trouxe apenas dois parágrafos de um único artigo sobre a matéria. Ao tratar
da “inviolabilidade dos direitos civis e políticos dos cidadãos brasileiros”, estabelece que “A
instrução primária é gratuita a todos os cidadãos” (art.179 parágrafo 32). A segunda referência
diz respeito aos “Colégios e Universidades, onde serão ensinados os elementos das ciências,
belas letras e artes”. (art. 179 parágrafo 33).
No contexto do nascente Império, o texto constitucional passa ao largo da matéria
educacional, muito embora o Brasil tenha sido um dos primeiros países a escrever em sua
legislação a gratuidade da educação a todos os cidadãos, apesar de esta não ter se efetivado na
prática, por não ter estabelecido formas de financiamento para manutenção do aparato escolar.
Na província do Piauí, onde Manoel de Sousa Martins a governou por quase vinte
anos, o desempenho desse governante no setor educacional é sofrível. Nos primeiros anos,
limitou-se a manter as cadeiras de latim de Oeiras, criada por decreto de 15 de julho de 1818,
e a de Parnaíba restaurada em 04 de março de 1820, em ambas, por não se encontrar pessoas
qualificadas para ocuparem-nas e, para não permanecerem vagas, por decreto de 15 de
novembro de 1827, foram colocadas em concurso em Salvador/Bahia, com salários anuais
estipulados em RS 300$000 (trezentos mil réis) e em criar algumas outras escolas de
primeiras letras, em Oeiras, Campo Maior e Valença (1824).
50
Mas, o universo populacional urbano do Piauí era muito pequeno (0,3 hab./Km²) e o
rural extremamente disperso. Para traçar um comparativo sobre a questão populacional do
Piauí, na obra “Memória Estatísticas do Império Brasileiro” podemos encontrar Oeiras,
capital da província, em 1823 com 3.000 habitantes, enquanto São Luiz, capital da vizinha
província do Maranhão, já apresentava uma população de 25.000 habitantes. Residia na
questão demográfica e na composição dessa população com um reduzido universo infantil que
indicava dados de 1826, em 16.118 o total de crianças entre 0 e 10 anos de idade, sendo que
31,33 % eram crianças escravas e o restante 53,33% eram classificadas como crianças pardas.
“[ ...] A sociedade tem marcas predominantemente agrárias que envolvem, sufocando-as, as
relações urbanas. As unidades produtoras estão implantadas na zona rural.[...] (BRANDÃO,
op. Cit., p.33). Apegavam-se, portanto, os governantes, na questão demográfica, como um
dos elementos que justificava o péssimo desempenho da educação pública no Piauí,
confirmada por ações tímidas por parte de seus governos “[...] A instrução pública era uma
palavra sem significado”(ALENCASTRE, 1974, p.90).
Tentando romper com esse estado de letargia que era a educação promovida pelos
governos provinciais, a lei Imperial de 15 de outubro de 1827, a primeira e mais abrangente
legislação sobre educação editada no primeiro reinado, ordenava o estabelecimento, em
número suficiente, de escolas elementares em todas as cidades, burgos e lugares populosos e
os presidentes de províncias, através de seus conselhos, determinariam o número de escolas e
localidades onde elas deveriam ser estabelecidas. Deviam igualmente fixar, a título
provisório, os salários dos professores a um limite de 200.000 a 500.000 mil réis por ano, e
estabelecia um currículo mínimo que deveria ser ministrado nessas escolas de maneira
diferenciada de acordo com o sexo. Aos meninos dever-se-ia ensinar a ler, escrever, as quatro
operações de aritmética, práticas de quebrados, decimais, proporção, noções gerais de
gramática prática, gramática da língua nacional, princípios de moral cristã e doutrina da
religião católica. Para as meninas, o currículo era acrescido de prendas domésticas e a
matemática ficava restrita às quatro operações de aritmética. No mais, seguiam as mesmas
disciplinas dos meninos.
As consequências desta Lei e do posterior Decreto Imperial de 15 de novembro de
1827, que reforçava o cumprimento do que estava estabelecido na Lei de 15 de outubro, levou
dois anos, para no Piauí, surtir algum efeito prático.
Em 15 de julho de 1829, uma portaria do presidente da província, cria duas escolas
de “ensino mútuo” (Método Lancaster) em Oeiras e pelo método simples, estabeleceu escolas
em Jaicós, São Gonçalo, Poti, Campo Maior, Barras, Jerumenha, Valença e Parnaguá. Essa
51

mesma portaria estabelece o salário anual dos professores: O professor da capital (Oeiras)
ficou com o salário estipulado em Rs400$000 (quatrocentos mil réis); o da Vila de Jaicós em
Rs 220$000 ( duzentos e vinte mil réis) e os mestres das demais vilas Rs200$000 ( duzentos
mil réis). Três dias depois (18/07/1829) nova portaria o Presidente da Província, reforça essa
“expansão” pretendida pelo governo imperial com a criação de mais uma cadeira de latim em
Oeiras, Parnaíba e Campo Maior e vencimento aos professores estipuladas em Rs300$000
(trezentos mil réis) anuais e a criação de quatro cadeiras de instrução primária em Piracuruca,
Parnaíba, Marvão (hoje, cidade de Castelo do Piauí) e Piranhas (hoje cidade de Crateús-
Ceará) com ordenados assegurados aos professores em Rs200$000 (duzentos mil réis anuais).
A pressão do poder central do Império pela expansão da rede de ensino ordenava
criar escolas sem, no entanto, assegurar recursos para sua manutenção ou quadro de
professores qualificados para seu funcionamento. As consequências não tardaram a aparecer:
em 1830, em relatório ao Conselho da Província, o Presidente Manoel de Sousa Martins,
comunica que se encontravam vagas 11 (onze) cadeiras primárias, além das de latim de
Oeiras, Campo Maior e Parnaíba e apenas três de instrução primária encontravam-se providas
de mestres: duas em Oeiras e uma em Jaicós, produzindo uma despesa de Rs800$000
(oitocentos mil réis), apesar de se encontrar assegurado em orçamento, para aquele ano, em
gastos com a educação na província a importância de Rs4:250$000 (quatro contos e duzentos
e cinqüenta mil réis).
Apesar de vitalício, o que poderia ser um atrativo, o cargo de professor de cadeiras
de instrução primária e secundária, era sempre incerta e o abandono da cátedra era uma
constante em função dos parcos salários.

Providas as cadeiras em inábeis professores, por que homens inteligentes e


ilustrados não se queriam sujeitar à sorte precária do Magistério como que a
instrução corria à revelia, árida e improfícua. As cadeiras de instrução maior
viviam em completo abandono, e os que se aceitava, ou não eram habilitados,
ou mal cumpria com seus deveres (ALENCASTRE, 1981, p. 90).

Outra prática comprometedora na educação provincial era o costume entre


professores nomeados, apresentarem substitutos por conta própria, pessoas de qualidade ainda
mais duvidosa. Essa prática recorrente, provocou a Assembleia Legislativa Provincial a
aprovar em 20 de setembro de 1837, a lei n.75, que em seu artigo 1. Determinava que os
professores eram “obrigados a assistir pessoalmente as lições diárias de seus alunos, não
52
podendo ser substituídos sem licença do governo provincial na cidade e dos prefeitos nas
vilas”.
No governo central, naquele momento representado pela Regência Trina
Permanente, insistia na expansão da rede. Em decreto de 11 de novembro de 1831, ordena
ampliar o ensino secundário. Em obediência ao Conselho da Província, foram criadas as
cadeiras de Filosofia Racional e Moral, de Retórica, de Geometria e de Francês, todas para a
capital, Oeiras. Postas imediatamente em concurso para provimento, não aparecendo
pretendentes nem concorrentes, as cadeiras permaneceram vagas por mais três anos. “Era uma
grande ilusão, porque faltava pessoal e o Estado tanto como as municipalidades não podiam
fazer grandes sacrifícios orçamentários, no início da organização de um vasto império”.
(ALMEIDA, 2000, p. 58)
Em 1832, as cadeiras de instrução primária que encontravam-se providas eram, duas
em Oeiras, uma em Valença, uma em Campo Maior e uma em Parnaíba. Outras,
anteriormente providas, encontravam-se, naquele ano, vagas.
A responsabilidade pela educação era, também, dividida com as autoridades
municipais, uma vez que:

Era incumbência das Câmaras Municipais fiscalizar as escolas, e ao Juiz de Paz


atribuía-se o dever de observar a educação dos filhos de família de ambos os sexos,
cujos pais não tivessem renda para mantê-los, educá-los e empregá-los em
ocupações decentes; deveria, então, aquela autoridade aproveitá-los em ofícios úteis
e próprios a cada sexo, dados à soldada a quem os ensine as primeiras letras.
(NUNES, op. cit, II p. 441)

Os relatórios anuais do Presidente da Província ao Conselho e a partir de 1835, à


Assembleia Legislativa Provincial, mostram essa alternância entre provimento e vacância de
mestres nas cadeiras de Instrução Primária e as de nível secundário. Em 1834, eram cinco de
Instrução primária providas pelo método simples, sete vagas e duas em Oeiras atendida pelo
método Lancaster. Em 1835, estavam providas em toda a província três cadeiras de Latim,
três de Filosofia, três de retórica, três de geometria, três de francês e mais sete de instrução
primária.
Buscando suprir a falta de profissionais qualificados para as funções importantes na
Província, em 1837, a Assembleia Provincial aprovou a lei n.74 que amparava estudantes
piauienses que pretendiam estudar para o curso superior em Direito, Medicina e Engenharia,
recebendo, para isso, uma pensão da província. Esta lei estendia-se, também, aos funcionários
públicos que teriam direito à licença remunerada para estudo. Esta lei foi ratificada por uma
53
nova, em 1846, que ampliava essa licença aos cursos de Farmácia, Belas Artes e até o
sacerdócio.
Uma importante contribuição da Assembleia Provincial do Piauí sancionada pelo
presidente Manuel de Sousa Martins foi a lei n.75, de 20 de setembro de 1837, que
regulamentava as escolas de primeiras letras e as aulas avulsas na província. Tal lei, norteou,
nas primeiras décadas do império, os trabalhos educacionais do Piauí. Como pontos
relevantes desta lei podemos destacar: os horários para as escolas de primeiras letras (8 ás 11
horas e das 14 ás 17 horas), as cadeiras secundárias (de 8 ás 10 e das 15 ás 17); a proibição de
aulas aos domingos, dias santos, feriados e também liberava as quartas-feiras para o ensino
secundário; estabelecia férias de um mês para o ensino primário (8 de dezembro a 8 de
janeiro) e de dois meses para o secundário (8 de dezembro a 8 de fevereiro); estipulava a
gratuidade da matrícula em livro próprio no qual seriam assinaladas as faltas e os programas
desenvolvidos pelos alunos; ficava proibido colocar o aluno para fora de sala, de acoitá-lo
com palmatória de forma cruel, ou atingi-lo moralmente com palavra indecentes e reservava
as quintas-feiras e os sábados para aulas de doutrina cristã.
Manoel de Sousa Martins, Visconde da Parnaíba, entre pequenos intervalos na
ausência do poder, governou o Piauí de 24 de janeiro 1823 até 30 de dezembro de 1843. No
setor educacional é digno ainda de registro, em sua administração, o crescente aumento de
receita orçamentária para educação nos anos de 1830 (Rs4:250$000), 1833 (Rs4:450$000),
1834 (Rs8:800$000), 1835 (Rs7:650$000), 1836 (Rs10:600$000) e 1837 (Rs11:250$000) até
que o combate aos revoltosos balaios, provocou um deslocamento de recursos de todos os
setores da administração piauiense para o esforço de guerra contra a Balaiada.

A Balaiada representará os interesses marginalizados da sociedade imperial


da época, lutando contra o domínio do latifúndio em busca de mudanças na
estrutura fundiária das Províncias. Sua marca fundamental foi a grande
violência das lutas, onde foram devastados os rebanhos, as vilas e as
benfeitorias das fazendas da região”. (BONFIM, In: Piauí: Formação
Desenvolvimento perspectiva, 1995,p. 46).

Os gastos no combate aos revoltosos balaios foram altíssimos, comprometendo


todos os setores da administração pública, levando o presidente da província, Manoel de
Sousa Martins, em 16 de janeiro de 1840, a lançar um dramático apelo ao povo piauiense, que
por subscrição pública, concedesse auxílio financeiro para a manutenção da máquina
administrativa:
54

Achando-se exauridos os cofres públicos desta província pelas extraordinárias e


avultadíssimas despesas, ocasionada pela diuturnidade da luta [...] Sendo de outra
parte impossível proceder-se à arrecadação de suas poucas rendas [...] e não havendo
outro recurso de que se possa em pronto dispor para ajudar a sustentação da mesma
guerra, senão recorrer Ao patriotismo dos piauienses. (COSTA,1974, p.431).

Dois anos após o fim das hostilidades com os balaios e a recomposição de toda
estrutura administrativa da província, O Barão da Parnaíba, quando entregou o poder em
dezembro de 1843, apresentou esse balanço do ensino público no Piauí: 21 cadeiras de
instrução primária, sendo 18 do sexo masculino e 3 do sexo feminino e 7 do ensino
secundário, 4 na capital, Oeiras, 02 em Parnaíba e uma em Príncipe Imperial (hoje Crateús-
Ce). É Importante ressaltar que a matrícula em todas essas escolas não chegava a 400
(quatrocentas) crianças e adolescentes.

PRIMEIRA DIVISÃO POLÍTICA DO PIAUÍ


Fonte: RODRIGUES, Joselina Lima Pereira. Geografia e História do Piauí – Estudos Regionais. 4. ed.
Teresina- PI, 2007, p 32

Percebe-se pela indicação no mapa acima a distância e consequente dificuldade para


manutenção de escolas em todas as vilas da Província do Piauí. Além da dificuldade de
comunicação entre as vilas havia ainda uma grande disparidade no que se refere aos valores
55

de recursos e investimentos na educação da cidade de Oeiras, a capital da província, e das


vilas localizadas em locais distantes, e em muitos casos de difícil acesso.
Com os eventos que marcaram a história e memória da educação no Piauí, entende-se
que a questão do ensino está intimamente relacionada ao processo de povoamento nesse
território. Mesmo com a proclamação da Independência e a implementação de novas medidas
que visavam melhorar a educação no estado, o processo de escolarização e sistematização do
ensino, ainda não se consubstanciou como intervenção concreta do poder público capaz de
responder aos desafios educacionais piauienses.
Mesmo assim, a iniciativa de criação de escolas em diversas vilas representou um
importante passo na tentativa de implementação de uma experiência que viesse destacar a
necessidade de criação e manutenção do sistema de financiamento da educação pública.

5.3- O Método Lancaster na educação piauiense

No Estado Imperial Brasileiro que surgia tudo era prioridade. O reconhecimento


interno e externo da Independência, a defesa do território, a montagem do aparato burocrático
fiscalizador e arrecadador, a criação de um exército e de uma marinha nacionais, a saúde e a
educação do povo eram os maiores desafios. Mas, como realizar tudo isso se o país
encontrava-se em seriíssimas dificuldades financeiras?

Quebrado. Era assim que se encontrava o nascente Império do Brasil em meados de


1823. [...] O tesouro público tinha apenas 210 contos de réis. E só as despesas
básicas da Casa Imperial do Brasil somavam 110 contos de réis anuais, mesmo após
D. Pedro I tê-las reduzido a cerca de um sexto do que gastava a Casa Real do seu
pai. Não havia previsão de melhora, pois as receitas futuras já estavam
comprometidas, em grande parte, com o pagamento de dívidas inegociáveis, como
salários de servidores públicos e pensionistas. Em outras palavras, o Estado
brasileiro nascia à beira da falência e endividado (ANDRADE, Revista de História
da B.N. p.46-47 ano 4 n 41)

Enquanto se buscava soluções nos diversos setores da administração imperial, no


setor da educação, a solução que se apresentava com mais clareza para a elite governamental
era a adoção do econômico Método de Joseph Lancaster. Esse método foi difundido por um
inglês, defensor confesso da nobreza e membro da seita dos Quaker, que para ganhar a vida
na Inglaterra do século XIX, criou uma escola para filhos dos trabalhadores independente do
credo e da posição social. O Método Lancaster era também conhecido como método do
56

“ensino mútuo” ou monitorial, ou seja, os alunos mais avançados ensinavam aqueles que
ainda não aprendiam.
O processo de avaliação formava o indivíduo competitivo. A competição era
incentivada com recompensa aos alunos. O sistema constituía-se da seguinte forma: os alunos
avaliavam-se mutuamente e continuamente, quando estavam realizando as tarefas de leitura
entre outras. Com relação aos conteúdos, o Método preocupava-se com o ensino da
aritmética que era o domínio da escrita dos números de 1 a 9, conhecimento das primeiras
tabuadas ou combinações das primeiras quatro regras, ficando estas decoradas na memória:
Adição, Subtração, Multiplicação e Divisão. As outras matérias do currículo pedagógico
eram: livro de soletrar, bilhetes de acusação e de vergonha, títulos de classes e outras.
O Método Lancaster permitiu que um mestre instruísse até 1000 alunos por vez. A
função do monitor não era ensinar ou corrigir os erros, mas sim coordenar os alunos para que
se corrigissem entre si. A estrutura física para aplicação do método exigia uma única sala
quadrada, longa e bem ventilada, com uma plataforma elevada, e uma escrivaninha de onde o
professor avistava todos os alunos. Os monitores também eram responsáveis pela
organização geral da escola, pela limpeza e, fundamentalmente, pela manutenção da ordem e
da civilização.
Naquela metodologia adotada achava-se que educando, as crianças desta forma,
tolhiam-se, no futuro, as revoltas populares. Em oito meses, os alunos deveriam ler, escrever e
contar as quatro operações. Como recursos utilizavam pequenas tábuas com areia onde os
alunos escreviam. As lousas pequenas serviam para escrever, as lousas grandes para ler e os
livros eram abolidos, já que o Método se baseava no ensino oral, na repetição e,
principalmente, na memorização. Numa análise dessa fase de ensino Fernando de Azevedo
explica que:

Nessa sociedade de economia baseada no latifúndio e na escravidão, e à qual por


isso não interessava a educação popular, era para os ginásios e as escolas que
afluíam os rapazes do tempo com possibilidades de fazer os estudos. As atividades
públicas, administrativas e políticas, postas em grande realce pela vida da corte e
pelo regime parlamentar, e os títulos concedidos pelo Imperador contribuíam ainda
mais para valorizar o letrado, o bacharel e o doutor, constituindo as profissões
liberais, o principal consumidor das elites intelectuais forjadas superiores
[...](AZEVEDO, 1992, p. 574)

Dessa forma o ambiente educativo e as práticas formativas desse período reproduziam


o modus operandi daquela sociedade, que experimentou metodologias e tentou empreender
processos de melhoria na instrução pública.
57

Fonte: SAVIANE, Dermeval. História das idéias pedagógicas no Brasil. 2. ed. São Paulo, 2008, p.127

Pela gravura indicada na obra de Dermeval Saviani, é possível visualizar algumas


formas da contribuição dos alunos mais adiantados nos estudos em relação aos alunos ainda
iniciantes, dessa forma, pretendia-se suprir a grande carência de professores e favorecer o
aprendizado em turmas muito numerosas e com alunos de idades bem diversas.
Na Província do Piauí, como se não bastasse as dificuldades financeiras, somavam-se
a ela, as dificuldades de ordem estrutural como baixa densidade demográfica, falta de pessoal
qualificado para o trabalho docente e o descaso do poder público. O primeiro governo
provincial do Piauí, viu-se em extrema dificuldade da obrigação de aplicar o método
pedagógico criado pelo inglês Joseph Lancaster, já utilizado em vários países da Europa e que
na visão do Imperador D. Pedro I, que diante das dificuldades econômicas do Império e a
responsabilidade constitucional de garantir “Instrução Primária gratuita a todos os cidadãos”,
compreendia como o método ideal para ser adotado pelas escolas públicas de todo o Império.
Convencido da eficácia do método e usando de suas prerrogativas Constitucionais, o
Imperador baixou portaria em 22 de agosto de 1825 ordenando a adoção do método Lancaster
em todas as províncias do Império.
No Piauí, o presidente da província, oficia ao imperador relatando suas dificuldades.
58

Pela Imperial Portaria de vinte e dois de agosto deste ano, recebida a doze do
presente mez, fico na intelligencia de que Sua Majestade o Imperador, reconhecendo
a grande utilidade que resulta a seus fiéis súditos do Estabelecimento de Escolas
Públicas de Primeiras Letras pelo methodo Lacastriano que achando-se geralmente
admitido em todas as nações civilisadas tem a experiencia mostrada serem muito
própria para imprimerem na Mocidade os primeiros conhecimentos: Manda por essa
Secretaria dos Negócios do Império que eu promova quanto me for possível, a
introdução a estabelecimento das referidas escolas de cujos benefícios hajão de
aproveitar-se os habitantes desta província. Sobre o que cumpreme participar a
Vossa Excelência para fazer chegar ao conhecimento de Sua Majestade Imperial que
nesta Província não há indivíduos que seja instruídos no methodo Lencastriano, que
o possa ensinar e por isso me vejo impossibilitado de promover o estabelecimento
das referidas escolas: e o Mesmo Augusto Senhor Faria um grande benefício a esta
Província se a Ella Houvesse de Mandar pessôa que tendo os conhecimentos
precisos podesse ensinar indicado methodo. (BRITO, 1996, p. 20, 21)

O método Lancaster voltou a figurar como oficial para as escolas públicas na lei de 15
de outubro de 1827, que regulamentava o item 32 do artigo 170 da Constituição de 1824, e na
portaria ministerial de 15 de junho de 1829, gerando, obviamente, constrangimento para o
governo provincial para a implantação de tão decantado método, uma vez que o governo
imperial nunca atendeu à solicitação do Presidente da Província de promover um treinamento
entre os mestres locais para aplicação do método. Mesmo assim, foram criadas em Parnaíba,
Campo Maior, Oeiras e Jaicós, escolas para aplicação do método de Lancaster.
O método, que tinha por tentativa suprir a falta de professores consistia num "ensino
mútuo", no qual um aluno treinado (decurião) coordenava um grupo de dez alunos (decúria)
sob a rígida vigilância de um professor. A experiência do método Lancaster resultou em um
grande fracasso e no descontentamento geral entre os mestres que já atuavam nas poucas
escolas existentes, o que levou a Sociedade Auxiliadora de Instrução do Piauí, um século
depois, em publicação de 1922, a comentar:

Incalculável a confusão produzida em o curto espírito dos mestres-escola ao lhes ser


imposto o novo processo de ensino pelo governo da Província [...] Nenhum
professor se achava com as habilitações para pôr em prática o método de Lancaster
[...] Ninguém o conhecia de todos os pontos onde há escolas, surgem as
reclamações. Falhava, assim o ensino oficial, mal ministrado que era, nas três únicas
escolas existentes: Oeiras, Parnaíba e Campo Maior. (CARVALHO, op. cit, 1983.
p.33.)

Assumindo interinamente a Presidência da Província, em fevereiro de 1829, João José


Guimarães, promoveu uma rápida expansão de escolas de primeiras letras, criando duas
escolas em Oeiras e uma nas vilas e povoados de São Gonçalo, Poti, Barras, Piracuruca,
Piranhas e Jaicós e mais três cadeiras de Língua Latina em Oeiras, Parnaíba e Campo Maior,
59

mas deixava bem claro nos decretos de criação que as novas escolas renunciassem o Método
Lancaster e adotassem o método convencional, autorizando para isso, abrir concurso na
Província da Bahia, para ativá-las com professores vindos de fora.
O avanço registrado em decretos governamentais no ensino secundário em 1832, com
a criação das cadeiras de Filosofia, Geometria, Retórica e Francês para a cidade de Oeiras,
não saiu do papel. As cadeiras permaneceriam vagas pelos três anos subsequentes.
Porém, os governos regenciais insistiam na utilização do Método Lancaster. A
Regência Trina Permanente, em decreto de 05 de agosto de 1833, determinou que os governos
provinciais procedessem a novas contratações e que os candidatos aos lugares de professores
primários, segundo o método de Lancaster, poderiam ser examinados, na sede da Corte (Rio
de Janeiro) ou nas capitais das províncias.
Essa medida visava contribuir para suprir a necessidade de professores que atuavam
no ensino de primeiras letras na Província do Piauí.
Mas, a ingerência dos poderes públicos, sobre o que deveria ser utilizado nas escolas
da província era prática comum. Empossada em 04 de maio de 1835, Assembleia Legislativa
Provincial, em sua primeira legislatura, aprovou a lei nº. 01, de 29 de maio de 1835, que
determinava a adoção nas escolas públicas da província, os “Compêndios de Lógica,
Metafísica e Ética”, de autoria de Mr. Edwin Ponelli e traduzidos para o português pelo Dr.
João Cândido de Deus e Silva, ex-Juiz de Parnaíba e herói da independência do Brasil no
Piauí e a obrigatoriedade por destinação de verbas orçamentárias nos anos de 1835-1836, da
adoção do dito método Lancaster nas escolas de Parnaíba e Campo Maior.
Sobre o método Lancaster falou o presidente da província, Manuel de Sousa Martins,
em sua primeira mensagem na instalação da Assembleia Legislativa em 1835: “Vão
recebendo (os alunos) a conveniente instrução e o progressivo adiantamento, segundo suas
capacidades, se bem que o método Lancastrino não tenha podido obter os melhores sufrágios,
ou pelo efeito lento que produz, ou talvez por defeitos no seu prático desenvolvimento. No
Piauí não o julgam preferível.”
José Ricardo Pires de Almeida, em sua clássica obra, Instrução Pública no Brasil,
concluíu de maneira objetiva o balanço da implantação do Método Lancaster no Brasil:

às causas do insucesso do método mútuo entre nós, inerentes à situação social do


Brasil neste tempo, tais como a falta de pessoal, a incúria dos pais etc, é preciso
ajuntar aquela, já assinalada, de não se ter um edifício conveniente para a aplicação
do sistema. Entretanto, não se pode dizer que o governo tenha ficado indiferente à
instrução primária, longe disso, mas as medidas tomadas, os decretos emitidos, as
leis promulgadas permaneciam letra morta para a maior parte do país. (2000, p.59).
60

O método Lancaster representou uma tentativa no determinado contexto histórico que


buscava resolver o problema da falta de professores onde se pudesse atender à real
necessidade de escolas criadas na capital da província e nas vilas do Piauí.
O insucesso do método Lancaster pode ser atribuído ao fato de que não bastava apenas
a implantação de uma metodologia de ensino se não houvesse uma política de financiamento
que realmente contribuísse para edificação de escolas, pagamento dos poucos professores que
atuavam na docência de primeiras letras e uma série de procedimentos necessários que
contribuíssem para melhoria na experiência de ensino piauiense.
61
6- CAPÍTULO V
A MARCHA DO ENSINO PÚBLICO NO PIAUÍ IMPERIAL

O Período que se seguiu a 30 de dezembro de 1843, após deixar a presidência da


Província, Manoel de Sousa Martins (Visconde da Parnaíba), até o fim do império em 1889,
na educação no Piauí, foi marcado por algumas iniciativas mais ousadas por parte do poder
público, como a criação de quatro importantes educandários e pela implantação de uma
burocracia para o controle do ensino e sua normatização e, em outros momentos, esse mesmo
poder, notabilizou-se por retrocessos administrativos e educacionais.
O presidente que sucedeu o Visconde da Parnaíba no comando do Piauí, Dr José
Ildefonso de Sousa Ramos, no curto período em que administrou a província (30.12.1843 -
09.09.1844), reduziu de 21 para 19 as escolas de primeiras letras e fechou as cadeiras de nível
secundário, duas em Parnaíba e três das quatro que existiam na capital, Oeiras.
Na Presidência do Conde do Rio Pardo (09.09.1844 – 21.06.1845), a situação
agravou-se, sendo reduzido para 16(dezesseis) o número de escolas públicas primárias do
sexo masculino com 340 alunos e restando 3 (três) escolas primárias femininas com 41 alunas
e apenas três das cinco cadeiras de Latim estavam providas de mestres: na capital Oeiras e
nas vilas de Príncipe Imperial e Parnaguá. As de Parnaíba e Campo Maior encontravam-se
vagas.
Zacarias Goes de Vasconcelos, que governou o Piauí de 28 de junho de 1845 até 07
de setembro de 1847, melhorou o desempenho da educação primária elevando para 18
(dezoito) as escolas públicas masculinas com matrículas de 598 alunos e manteve as 3 (três)
escolas femininas com 59 alunas. No entanto, Goes de Vasconcelos, com a fundação do Liceu
Provincial, extinguiu 4 (quatro) cadeiras de Latim existentes nas vilas do interior, ficando
somente a cadeira de latim de Oeiras incorporada ao Liceu.
Três dias após tomar posse como Presidente da Província, José Antônio Saraiva, em
10 de setembro de 1850, publicou a Resolução nº 287, que estabelecia as disposições acerca
da Instrução Pública em 59 artigos, que versavam desde a organização de Pessoal, a
obrigatoriedade do ensino, a organização didática como a criação de disciplinas, a
exclusividade da profissão de professor para atuar no magistério, a composição de bancas
para examinar novos professores que deveriam ser compostas pelo pároco, autoridade
judiciária da comarca e o Diretor da Instrução Pública, entre outras.
Em 1854, no Piauí, o quadro educacional já havia se modificado consideravelmente.
62

Existiam 30 cadeiras de instrução primária para crianças do sexo masculino, 16 para as do


sexo feminino; o Liceu possuía sete cadeiras secundárias e a existência do Estabelecimento de
Educando Artífices onde órfãos e meninos pobres buscavam aprender um ofício e onde,
também, era lecionado o ensino primário.
No ano de 1865, a matrícula já ultrapassava mais de 1500 alunos, distribuídos no
ensino primário e secundário, conforme tabela que segue:
QUADRO I
TOTAL DE ALUNOS NO ENSINO – 1865
PRIMÁRIO SECUNDÁRIO
POPULAÇÃO

PÚBLICO PRIVADO PÚBLICO PRIVADO


PROVÍNCIA
T
Meninos

Meninos

Meninos

Meninos
Meninas

Meninas

Meninas

Meninas
Piauí 772 192 18 3 62 32 1.679
Fonte: ALMEIDA, Jose Ricardo Pires de .INSTRUÇÃO PÚBLICA NO BRASIL – História e Legislação (1500
– 1889) p.112

Já o ensino noturno teve, por parte do governo provincial, algumas tentativas de


implantação. O governador, Manoel do Rego Barros Sousa Leão, instalou, após criação por
Portaria de 12 de setembro de 1871, uma escola noturna em Teresina, instalada em 18 de
setembro sob a regência do professor Juvêncio Tavares Sarmento e Silva. Em 7 de outubro do
mesmo ano, nova Portaria do Presidente autoriza o funcionamento de mais cinco escolas
noturnas em: Amarante, Oeiras e Parnaíba (outubro); Pedro II e Piracuruca (novembro).
Porém, a falta de continuidade nas ações de governo, levou a extinção de todas essas
escolas noturnas, pela Lei Provincial nº. 822 de 19 de agosto de 1873, quando governava o
Piauí Adolfo Lamenha Lins.
O Presidente Adolfo Lamenha, tentou compensar essa sua medida, sancionando na
mesma data (19/08/1873), a Lei Provincial de nº 824, que autorizava contratar o Dr. João do
Rego Monteiro ou quem melhores vantagens oferecessem, para a criação de um
estabelecimento de nome “Internato Artístico” destinado a educação de jovens desvalidos,
mediante um subvenção de Rs 10:000$000 (dez contos de réis) anuais. Transcorridos dez dia,
em 29 de agosto de 1873, lavrou-se o competente contrato com Comendador João do Rego
Monteiro, que se obrigou a criar uma escola semelhante a de Educandos Artífices, extinto
pela Lei Provincial nº 808 de 04 de agosto de 1873. A Presidência da Província não tardou
em tomar providências: em 30 de outubro de 1873, expediu os regulamentos para o
63

funcionamento da escola, que efetivamente passou a funcionar em meados de 1874 e com


apenas um ano de existência foi extinto pela Lei Provincial de nº 895 de 16 de junho de 1875,
quando respondia pela presidência da Província Delfino Augusto Cavalcante de Albuquerque.
Foi, também, o governo de Adolfo Lamenha, responsável pela Lei Provincial n. 848,
de 25 de setembro de 1873, que autorizava a Câmara Municipal de Teresina a gastar
anualmente até RS. 100$000 (cem mil réis) com vestuário de alunas pobres matriculadas em
escolas públicas primárias do sexo feminino e que, paradoxalmente, assinou o Regulamento
de nº 80, de 20 de outubro de 1873, que proibia crianças escravas de frequentar escolas
públicas.
Nesse controvertido governo, Adolfo Lamenha assinou em 20 de outubro de 1873,o
regulamento que dava nova organização à Instrução Pública no Piauí, enfatizando o ensino
obrigatório, aplicação de multas aos pais que não matriculassem os filhos, proibição de
castigos corporais, fornecimento de livros e outros objetos necessários para a educação dos
alunos pobres e autorizava, por fim, onde não houvesse professores públicos, a ser
contratação de professores particulares, num quantitativo de 12 a 15 meninos e de 8 a 10
meninas sob uma subvenção de Rs 300$000 (trezentos mil réis).

As escolas públicas do Brasil eram extremamente precárias, funcionavam em


prédios adaptados e, muitas vezes, na residência do professor. As classes - com
alunos de diferentes idades e graus de conhecimento e em número excessivo - eram
atendidas por apenas um professor, em geral não habilitado a ministrar aulas. O
currículo adotado não ia além das primeiras letras, noções de gramática portuguesa,
um pouco de aritmética, além de aulas avulsas de francês e latim. (ELIAS In: Nossa
História nº 23. p. 82.)

Por meio da citação acima, é possível perceber a precarização das escolas brasileiras,
existentes nesse período, incluindo as escolas da Província do Piauí, como também a falta de
qualificação de professores, o acesso muito restrito aqueles alunos oriundos de camadas mais
favorecidas da sociedade, que formavam turmas heterogêneas, contemplados por um currículo
de fraca exigência.
Em 14 de junho de 1874 ocorre, por iniciativa do Diretor Geral da Instrução pública,
Dr. Polydoro César Bulamarqui, a fundação da Sociedade Promotora da Instrução Pública,
que instalou no ano de sua fundação uma biblioteca em Teresina com um acervo inicial de
1194 volumes e recebeu como doação do Capitão João Gonçalves de Magalhães uma
residência para instalação de um educandário. A sociedade Promotora da Instrução Pública
teve vida efêmera e a Biblioteca por ela fundada foi incorporada ao patrimônio da Província.
Fechada a biblioteca em 1877, por falta de verbas públicas, foi reaberta em 12 de outubro de
64

1883, quando uma Lei Provincial lhe outorgou nova subvenção financeira, garantindo sua
sobrevivência até o período republicano.
O resultado desse triste desempenho da educação na província do Piauí ficou
registrado no primeiro grande censo geral do Império de 1872, que obteve os seguintes dados:
apenas 2.801 crianças livres entre 6 e 15 anos frequentavam a escola; cerca de 23.000
crianças, na mesma faixa etária, estavam fora das escolas; 85% da população adulta era
analfabeta e somente 6 (seis) escravos do sexo masculino sabiam ler.

O problema educativo do Piauí não constitui, na sua situação característica,


fenômeno isolado do complexo social brasileiro. Antes, sofre-lhe as deficiências
generalizadas, reflete-lhe as impropriedades crônicas e espelha-lhe o grande mal da
ausência de orientação indeclinável e coordenação. Aqui, como além, até bem
pouco, ele se apresentou como simples equação ocasional, resolvida, a intervalos e
parceladamente, nas folgas da administração e com as sobras do erário. Nunca,
porém, se mostrou como problema em bloco, no conjunto dos vastos e importantes
aspectos que, na realidade, encerra e comporta. (NAPOLEÃO, In: Almanaque da
Parnaíba, 1934, p. 132).

São dignas ainda de registro no período que vai de 1844 até a Proclamação da
República, as seguintes iniciativas governamentais: concessão de bolsas de estudo para
estudantes que quisessem estudar medicina, engenharia e direito fora do Piauí (1846);
implantação em 13 de setembro de 1859, do cargo de Diretor Geral da Instrução Pública, que
teve como primeiro ocupante o Dr. Umbelino Moreira de Oliveira Lima. Antes da criação
deste cargo, existia um diretor de Instrução em cada comarca e a criação Companhia de
Aprendizes Marinheiros da Parnaíba pelo Decreto nº 5.309 de 18 de junho de 1873 que
iniciando suas atividades somente um ano depois em 1º de junho de 1874. A Companhia de
Aprendizes Marinheiros ganhou certa regularidade com o Aviso do Ministério da Marinha de
12 de julho de 1883, autorizando o Capitão do Porto a contratar professores de instrução
primária ao ordenado de Rs 60$000 (sessenta mil réis) mensais para a Companhia de
Aprendizes Marinheiros da Parnaíba, que em 9 de abril de 1884, ganhou novas instalações em
edifício vasto e com boas acomodações passando, também, a abrigar a própria Capitania do
Porto.
Mas, os esforços do poder público pouco contribuíram para mudar a realidade
educacional do Piauí. Em relatório que o Presidente Dr. Raimundo Vieira da Silvia escreveu
quando passou a administração da província, em 27 de junho de 1889, faltando pouco mais de
quatro meses para findar o período imperial, ao segundo vice-presidente, Dr. Firmino de
Sousa Martins, ficou patente a situação da educação piauiense: “Aqui não há mestres, nem
discípulos [...]. Os professores primários são, em geral, aqueles que não podendo conseguir
65

mais vantajosa colocação, refugiam-se no magistério, para o que, todavia, não têm
aptidão”.(NUNES, op.cit, p 315)
Compondo esse mesmo relatório estava a peça escrita pelo Diretor Geral da
Instrução, que foi enfático:

As escolas públicas da província, com exceção das da capital, são verdadeiros


albergues. Nelas não existem utensílios necessários que dão alegria aos alunos e
vontade de ensinar ao professor. Em quase todas nota-se o desânimo, o
indiferentismo, o atraso, o aniquilamento da instrução pública primária, devido à
negligência do nosso governo que não tem sabido curar deste importante ramo do
serviço público. (NUNES,op. cit , p 315)

Nas primeiras décadas do século XIX, a situação educacional era caracterizada pelo
desânimo, negligência, manifestação de vários e graves problemas constantes da educação
piauiense denotando a ausência de uma política educacional proposta em leis, mas que
deveria ser assumida pelo governo provincial, para efetivar maior qualidade de ensino e com
resultados que pudessem contribuir para uma melhor sistematização do ensino na Província
do Piauí.

6.1- O Liceu Provincial como iniciativa educacional piauiense

O ponto de partida de iniciativas mais ousadas do poder público piauiense, foi uma
reforma no ensino público empreendida pelo presidente da província, Zacarias Goes e
Vasconcelos (28.06.1845/07.09.1847), que culminou com a criação, em 04 de outubro de
1845, através da Lei Provincial nº 198, do Liceu Provincial, com sede em Oeiras. Esse Liceu
era um estabelecimento de educação secundária que congregava em um mesmo espaço sete
cadeiras: Latim, Francês, Inglês, Geometria, Aritmética, Geografia e História, Retórica e
Poética, Filosofia racional e moral. O curso teria uma duração de três anos. Na prática, as
atividades educativas do Liceu, só se efetivariam em 1848, somente com a cadeira de Latim.
As matrículas nas diversas outras cadeiras eram livres, por falta de um prédio próprio para
abrigar o Liceu, o que ocasionava uma distribuição de matrícula por conteúdos, levando a
uma disparidade no número de alunos entre as diversas cadeiras, como ficou registrado no ano
de 1849: 30 alunos na cadeira de Latim, 17 em Francês, 4 em Filosofia e 6 em Geometria.
Tentando solucionar o problema e reunir todos os alunos mestres em um mesmo edifício,
66

Zacarias Goes, com autorização da Câmara Municipal de Oeiras adquiriu o prédio da cadeia
velha e mandou reformá-lo para abrigar o Liceu. Porém, durante as reformas uma ala do
edifício desmorona e a ideia de acomodar o Liceu na cadeia velha é abandonada e as aulas
continuaram a ser ministradas nas residências do professores.
Porém, a existência do Liceu Provincial na segunda metade do século XIX foi um
tanto conturbada.
O novo presidente da Província, José Antônio Saraiva (07.09.1850 – 12.03.1853),
questionava quanto aos frutos e a importância do Liceu Provincial. Em sua primeira
Mensagem à Assembléia Legislativa (03.07.1851), Saraiva foi enfático: “Nem uma só aula
contava com mais de três discípulos. [...] Pode-se dizer que o Liceu existia apenas na
Legislação e que só sabia de sua existência quando seus empregados iam receber seus
vencimentos”.
Ainda sediada em Oeiras, o presidente da província, José Antônio Saraiva, alugou uma
casa, comprou a mobília necessária e instalou o Liceu em um único lugar.

Para que não continuasse a instrução secundaria em total abandono, aluguei a casa
de D. Mariana Agelica de Menezes Castelo Branco na rua do hospital, Rs 14$000
(quatorze mil reis) mensais, mandei prontificá-la por conta dos mesmos alugueis,
comprei a mobília indispensável, e para ali passei todas as aulas, que se acham
regularmente trabalhando desde o dia 18 de outubro do ano passado [...] (PIAUÍ-
Fala do Presidente da Província - 1851)

Em 1852, o Liceu é transferido para Teresina, a nova capital da Província, sofrendo


paralisação de suas atividades, em virtude das próprias contingências da mudança.
Em novas acomodações, já na nova capital, o presidente Saraiva esforçou-se para o
bom andamento do Educandário. Adquiriu livros e montou sua primeira biblioteca, nomeou o
Dr. Simplício de Sousa Mendes, vice-presidente da Província, como seu diretor e enviou às
Câmaras Municipais (20.10.1852) uma solicitação para que os vereadores estimulassem os
pais a mandarem seus filhos para fazer o ensino secundário no Liceu Provincial. Para isso,
Saraiva estava convencido de que “O Liceu nenhuma utilidade prestaria enquanto não fosse
um internato bem montado e convenientemente dirigido” (Relatório de 01.07.1852) .
Respondendo pelo governo da Província, Dr. Luis Carlos Paiva Teixeira (02.04.1853 –
05.12.1853), através da Resolução Nº 350 de 03 de maio de 1853, que continha 88 artigos,
mudou o nome do Liceu para “Colégio Piauiense” o que não vingou. Por essa resolução, deu
nova organização ao Liceu. Iniciou a construção do prédio do internato e autorizou
provisoriamente que as aulas das cadeiras existentes fossem ministradas nas residências dos
67

professores.
Na administração do Presidente Frederico de Almeida Albuquerque (01.12.1855 –
07.03.1857), as obras do internado continuavam e já haviam consumido somente na
administração de Frederico Albuquerque Rs. 3:090$000 (Três contos e noventa mil réis).
Apesar do esforço governamental para sua conclusão, o Liceu Provincial, contava apenas com
32 alunos matriculados em seis cadeiras.
O Dr. João José e Oliveira Junqueira que governou a província entre 10 de junho de
1857 a 30 de dezembro de 1858, julgava o internato um mero luxo, e as matrículas no início
de sua administração revelaram -se um desastre: 5 alunos matriculados em Língua Nacional e
apenas um nas disciplinas de Filosofia, Retórica, Geografia, Latim e Francês. Assim,
Junqueira empenhou-se em melhorar esse número e conseguiu-se para o ano de 1858 a
matrícula de 60 alunos.
Com a alegação de que a escola apresentava uma frequência extremamente irregular
de seus alunos, o governo tomou a decisão de extinguir o Liceu Provincial, em 1º de agosto de
1861, através da resolução n.511, quando respondia pela presidência da província Antônio de
Brito Sousa Gaioso.
Pereira de Alencastre em 1855, portanto, seis anos antes da extinção do Liceu, já
denunciava:

Criou-se depois o Liceu, porém esse estabelecimento literário de que tão belos frutos
se esperava – nenhum bem tem trazido à Província, também porque aqueles que a
têm governado depois da sua criação, nunca lhe deram a importância merecida,
deixando-o sempre entregue à sua desorganização. (1981, p. 50).

Na presidência do Dr. Adelino Antonio de Luna Freire (5/10/1866 á 5/11/1867), o


Liceu Provincial é restaurado pela Lei n.599, de 9 de outubro de 1867, com as seguintes
cadeiras: Língua Nacional, Latim, Francês, História do Brasil e Matemáticas Elementares.

O Liceu foi reaberto, ainda no período imperial, no ano de 1867, sem contar com um
prédio próprio e continuando com uma quantidade reduzida de alunos. Por isto, os
governantes voltaram a ter a idéia de uma nova extinção, porém, isto não aconteceu,
prosseguindo assim, a sua difícil trajetória. (VASCONCELOS, 2009, p. 30) 68

Os anos que se seguiram foram de frequentes modificações na grade curricular do


Liceu Provincial: Entre 1867 a 1874 o Liceu assumiu as cadeiras de um curso propedêutico
68

para os alunos que queriam praticar e assumir a carreira do magistério com a extinção da
Escola Normal. Em 1869, o currículo foi ampliado com a introdução da cadeira de Filosofia
Racional. Em 1871, ganha as disciplinas de Aritmética, Álgebra, Geometria, Filosofia e
Retórica. Em 1877, é suprimida a cadeira de Inglês, que voltou ao currículo com nova
reforma em 1885. Reforma curricular procedida em 23 de julho de 1880, que criou uma
cadeira única de “Língua Nacional e Pedagogia” e em 1883 foram separadas em cadeiras
distintas, ficando, pela reforma, empreendidas em 1886, somente à cadeira de Língua
Nacional.

6.2- Colégio de Educandos Artífices

Outro estabelecimento de vida conturbada foi o Colégio de Educandos Artífices,


criado por Lei Provincial n. 220, de 24 de setembro de 1847, no governo de Marcos Antônio
de Macedo, só instalado em 1º de fevereiro de 1849, em Oeiras, quando essa cidade ainda era
a capital da Província, e respondia pelo governo, Anselmo Francisco Peretti. O Colégio de
Educando Artífices tinha como objetivo fornecer abrigo aos órfãos, instrução elementar e
ensino profissional. O número inicial de matrículas foi de 15(quinze) órfãos que estudariam
nas oficinas de carpintaria, ourivesaria, ferraria, sapataria, alfaiataria, serralheria e funilaria,
em regime de internato, garantindo alimento, vestimentas e tratamento de doenças. Com a
mudança da Capital da Província para Teresina (1852), ocorre a transferência do educandário,
já na administração de José Antônio Saraiva, para um prédio sem as devidas acomodações.
Mas, o Conselheiro Saraiva em sua visão de estadista, via com preocupação a falta de
atenção para com as meninas pobres, e conclama a Assembleia Provincial a efetivar medidas
no sentido de ampará-las e educá-las.

Só terão direito aos socorros públicos os órfãos desvalidos? Quantas meninas, sem
pais e mãe, não se arrancariam a miséria, e finalmente a prostituição, se ellas
também fossem amparadas e socorridas? Eu não posso, Senhores, deixar de
recommendar á vossa proteção aos órfãos do Piauhy, pois que podereis ate,
cuidando da educação de algumas, habilitar boas mestras para as escolas do sexo
feminino. A situação de uma órfã, que não vê diante de si, senão a maior miséria, ou
aviltamento, é digna de vossa consideração. [...]e pois, Senhores, applicai alguma
cousa em beneficio de vosssas patrícias, que tem direito á toda a vossa humanidade
(PIAUHY, FALA DO PRESIDENTE DA PROVINCIA..., 1851).

O resultado concreto desse apelo foi a fundação da “Casa das Educandas” criada pela
69

Resolução Provincial n.301, de 10 de setembro de 1851, com matrículas limitadas para


receber 20 (vinte) meninas.
Como tantas outras iniciativas educacionais no Piauí Imperial, a “Casa das
Educandas” Teve vida breve. Foi extinta por lei Provincial de n.369, publicada em 14 de
agosto de 1854, assinada pelo presidente Antônio Francisco P. Carvalho.
Em 1861, o presidente da Província, Antônio de Brito Sousa Gaioso, instalou a escola
em edifício mais apropriado para as atividades dos educandos, permitindo aumentar sua
clientela, criando-se as oficinas de tipografia, encanador, música vocal e instrumental e
primeiras letras, além de uma preparação militar, na qual o jovem no Educando Artífices
deveria colocar-se a disposição da Guarda Nacional. Inicia-se, assim, uma campanha pela
construção de uma capela em honra à Nossa Senhora do Carmo, escolhida como padroeira do
estabelecimento, concluída em 1863. Logo em 1864, o governo da Província, cria o cargo de
capelão da Escola. Apesar dessas iniciativas, as matrículas do Colégio de Educando Artífices,
eram sempre diminutas. Um dos melhores anos em termos de matrículas foi 1867, quando
chegou ao número de 68 (sessenta e oito) alunos e as oficinas ampliadas para seleiros,
chapeleiros e pedreiros, extinguido-se a de ourivesaria.
O trabalho dos educandos nas diversas oficinas era explorado pelo governo da
província, no fardamento das corporações militares, na reposição de mobília dos órgãos
públicos e no erguimento de prédios da capital ainda em construção.
Apesar disso, alegando despesas excessivas para uma quantidade pequena de crianças
atendidas, o presidente da Província, Dr. Gervásio Cícero de Albuquerque Lima, fechou o
Colégio de Educandos Artífices, através da Resolução nº808, de 4 de agosto de 1873,
reabrindo-o quinze dias depois pela Resolução de n º 824. No governo provincial de Delfino
Augusto Cavalcante de Albuquerque, o Colégio passou a ser definitivamente extinto pela
Resolução n º 895, de 16 de junho de 1875.

6.3- Escola Normal do Piauí

A Escola Normal do Piauí foi outra escola que não ficou livre dos caprichos dos
governantes. Criada pela Lei Provincial n. 565, de 5 de agosto de 1864, no governo do Dr.
Franklin Américo de Meneses Dória, com o objetivo de formar mestras para ensinar as
primeiras letras de preferência no magistério público, tão carente de mão de obra
especializada. Diante dos preparativos e dos discursos em torno da fundação do novo
70

educandário tudo indicava que a escola normal teria melhor sorte. Em 6 de setembro de 1864,
o presidente da Província forneceu os regulamentos da nova escola e nomeou seus primeiros
professores. Mas, o início das atividades só ocorreriam praticamente dois anos depois, em 3
de fevereiro de 1866, com 23 alunas matriculados na modalidade de externato.
Três anos depois, em 09 de outubro de 1867, a Escola Normal foi extinta por Lei
Provincial de nº 599, no governo de Adelino Antônio de Luna Freire. Um dos motivos
apresentado para o fechamento do estabelecimento que cuidava da formação de professores
foi a instituição no governo de Franklin Américo de Menezes Dória, de uma Jóia
(contribuição pecuniária) de RS.80$000 (oitenta mil réis) por ano que deveria ser paga pelas
alunas em quatro prestações. Luna Freire se justifica: “Não se matriculou um só indivíduo,
sendo o curso freqüentado por ouvintes” (Relatório à Assembléia em 09.09.1867).
Ocupava a Presidência da Província, Manoel do Rego Barros Souza Leão, em 29 de
agosto de 1871, quando a Escola Normal foi recriada, por Lei Provincial de Nº 753, como
anexo ao Liceu, com duração de três anos, com o seguinte currículo: 1º ano-Língua Nacional
e Pedagogia; 2º ano - Aritmética, Geometria Plana e Sistema Métrico Decimal; 3º ano-
Geografia, História Pátria e Sagrada.
Um ponto curioso na Resolução que recriava o Curso Normal era o que determinava,
que qualquer egresso desse curso ocuparia, por nomeação, cadeiras no magistério
independente de concurso e, também, teriam preferência na ocupação de cargos públicos.
Em 11 de junho de 1874, em função da Lei Provincial n 858, no governo de Adolfo
Lamenha Lins, o Curso Normal foi novamente extinto. Sem dúvida com a extinção do Curso
Normal para formar professores, a educação piauiense sofreria prejuízos significativos na
educação pública, para onde se destinaria a maioria das novas professoras formadas.
Analisando o prejuízo que fora para a educação na Província, o fechamento do Curso
Normal, a Assembleia Legislativa resolveu por Lei de n. 1.062, de 11 de junho de 1882,
reinstalar a Escola Normal do Piauí, no governo de Miguel Joaquim de Almeida Castro. Esse
mesmo governador, interessado no funcionamento da Escola, forneceu em 27 de julho
daquele mesmo ano, os regulamentos da nova escola, possibilitando sua instalação em 11 de
agosto de 1882.
O curso seria ministrado em apenas dois anos, para ambos os sexos, com um currículo
bem mais enriquecido que o que foi ministrado em sua segunda fase de existência. Vejamos:
1º ano – Gramática Nacional, Recitação e Composição, Instrução Religiosa, Doutrina e
História Sagrada (Antigo e Novo Testamento), Aritmética, Geometria Elementar, Geografia
Elementar do Brasil e Piauí, Costura usual, Trabalhos com Agulhas e Corte de roupa branca.
71

2º Ano – Análise Gramatical, lógico e etimológico, Pedagogia e Metodologia (Teoria


e Prática), Formas Geométricas, Desenho Linear,História do Brasil e Piauí, Bordados branco
de lã e floco.
A Escola Normal foi definitivamente extinta, pela Lei Provincial nº 1.197, de 10 de
outubro de 1888, quando governava o Piauí, Raimundo José Vieira da Silva. Os motivos
apresentados como responsáveis pelo fechamento da Escola Normal iam desde a fragilidade
econômica da Província, dispersão demográfica até preconceitos sociais. O curioso é que a lei
que extinguiu a Escola Normal, assegurava o aproveitamento dos alunos dela egressos, nas
cadeiras que vagassem e os que não completassem o curso, estariam autorizados, a prestar os
exames que faltavam, perante comissões nomeadas pelo Presidente da Província.

6.4- Estabelecimento Rural São Pedro D’Alcântara

A primeira tentativa de implantação de um estabelecimento educacional agrícola no


Piauí, ocorreu em 17 de dezembro de 1869, quando o Presidente da Província, Dr. Luís
Antônio Vieira da Silva, sancionou a Lei de nº 669, que lhe autorizava a emprestar até Rs.
3:000$000 (três contos de réis), a pessoa habilitada que aceitasse fundar em local apropriado,
próximo da capital, um internato de educação primária e agrícola. Efetivamente nada foi feito.
Não saiu do papel a boa vontade da lei.
A ideia da educação agrícola começou a se concretizar, quando ocorreu a libertação
de 714 escravos de propriedade do Império, das Fazendas Nacionais dos Departamentos de
Nazaré, Piauí e Canindé, em virtude da promulgação da Lei do Ventre Livre, de 28 de
setembro de 1871. Rezava esta lei, que o liberto deveria ficar durante cinco anos sujeitos a
aceitar os serviços impostos pelo governo. Diante dessas circunstâncias, o piauiense,
Francisco Parentes, recém diplomado em Agricultura na França, lançou a ideia da fundação
de um estabelecimento agrícola, aproveitando a mão-de-obra dos novos libertos.
O Presidente da Província, Dr. Manoel do Rego Barros Sousa Leão, encampa a idéia e
enviou Francisco Parentes ao Rio de Janeiro. Na Corte, Parentes recebe em 11 de janeiro de
1872, do Ministro da Agricultura a incumbência de estudar a criação de gado do Piauí e
fundar nos domínios das fazendas nacionais um estabelecimento zootécnico e agrícola. Após
apresentação do relatório de sua missão no Piauí, o Imperador D. Pedro II, convencido da
importância de um estabelecimento para a educação agrícola, através do decreto nº 5.292 de
72
10 de setembro de 1873, criou o “Estabelecimento Rural São Pedro D’Alcântara”,
autorizando a Província a firmar com o engenheiro agrônomo, Francisco Parente, em contrato
para fundar, dirigir e ministrar aulas práticas de agricultura no futuro estabelecimento.
O novo estabelecimento ficaria a 360 quilômetros ao sul da capital, à margem do rio
Parnaíba, em local denominado Chapada da Onça. Seu patrimônio seria formado pelas
fazendas Guaribas, Serrinha, Matos, Algodões e Olho d’água num total de quarenta léguas
quadradas de terras, concedidas pelo ministério da Fazenda em Aviso de 10 de junho de 1873.
Nenhum outro estabelecimento educacional do Piauí tivera, até então, lastro financeiro
tão sólido para sua manutenção. O Capital em terras doadas à escola era de Rs 187:000$000
(cento e oitenta e sete contos de réis) sem contar com 10.000 cabeças de gado vacum, 700 de
cavalar, 60 bois de carro, além de todas as casas, currais e logradouros existentes nas
fazendas.
Em 10 de agosto de 1874, o presidente da Província, Dr. Adolfo Lamenha Lins, lançou
a pedra fundamental do edifício sede, construção que fora acompanhado das instalações de
armazéns, depósitos, residências, fornos, serrarias e escritórios que consumiram Rs
200:000$000 (duzentos contos de réis).
As atividades do Estabelecimento Rural São Pedro D’Alcântara, ganharam maior
dinamismo após o decreto nº 9.303 de 27 de setembro de 1884, que forneceu nova
organização, afirmando que o estabelecimento existia para acolher ingênuos e libertar
menores oferecendo-lhes educação física, moral, religiosa, instrução primária, artística,
industrial e zootécnica, mas também para introduzir na pecuária os melhoramentos de raças
por cruzamento ou seleção; criação da indústria do curtume, da saboaria, do preparo da graxa
e outras.
O Estabelecimento Rural São Pedro D’Alcântara, era de uma manutenção cara para os
cofres da província, apesar dos recursos gerados pela própria instituição. Constante era a
necessidade de aquisição de máquinas, utensílios, construção de currais, cercados, estábulos,
prados e açudes. Em sua folha de pagamento figuravam: Um diretor com salário anual de Rs
3:600$000 (três contos e seiscentos mil réis), um ecônomo com 1:000$000 ( um conto de
réis), um escriturário, um capelão, um professor todos com 600$000 (seiscentos mil réis), um
enfermeiro, mestres de oficinas e chefes de indústrias,com salários estipulados pelo diretor
geral.
Em 27 de janeiro de 1886, o Ministério da agricultura do Império, suspende o
pagamento de todas as despesas que não fossem as de estrita manutenção do estabelecimento
e criação dos animais. Iniciava-se, assim, uma longa e penosa luta para manter em
73

funcionamento àquele que seria o mais pungente dos estabelecimentos educacionais do Piauí.
Nas primeiras décadas do século XX, as aulas de ensino primário já não eram mais
lecionadas e todas as instalações encontravam-se em completo abandono.

6.5. O Financiamento da Educação Pública no Império

Além dos recursos tradicionais destinados à manutenção da educação como o


Subsídio Literário que existiu até o ano de 1857 e a aplicação de verbas orçamentárias dos
cofres públicos da Corte e das províncias, uma das medidas tomadas pelo Imperador D. Pedro
I, para arrecadar recursos extras para a educação foi a criação em 1823, por decreto, de uma
loteria para captação de recursos para financiar a educação. O objetivo específico desta loteria
era auxiliar a Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro que promovia aulas em cadeiras
de ensino secundário para jovens de quatorze a vinte e um anos, conforme legislação da
época.
Em diversas outras ocasiões o instrumento da criação de loterias fora bastante usado
em muitas Províncias do Império, para captação de recursos à educação, revelando-se, no
entanto, fontes precárias e incertas de financiamento.
O problema da manutenção da educação no país, agrava-se com a garantia de
instrução primária gratuita, assegurada pela Constituição de 1824 em seu artigo 179, que
colocava para o nascente Império Brasileiro, o desafio do financiamento público de escolas
em todas as províncias para crianças de cinco a quatorze anos.
No Piauí, a precariedade de recursos pode ser bem traduzida em ofício enviado pelo
primeiro Governador da Província, no período imperial, Manoel de Sousa Martins - Barão da
Parnaíba - ao Ministro e Secretário de Estado dos Negócios do Império, Estevão Ribeiro
Resende, datado de 31 de outubro de 1825:

[...] Os ordenados que percebem os referidos professores e o diminuto rendimento


do Subsídio literário se patenteiam da mesma relação, do qual também se evidencia
que não há outro imposto a favor das ditas escolas, tendo por isso até agora sido
preciso para solução dos Ordenados, suprir-se com os Rendimentos gerais da
Província [...] Tendo sido até agora o Ordenado do Professor de Primeiras Letras
desta cidade da quantia de cento e cinqüenta, mil réis anuais, muito diminuta para a
subsistência dele, acontece que aquelas pessoas dignas de preencher os seus deveres
negam-se a ocupar semelhante lugar, que ora se acha vago e a mocidade sem
educação, sobre o que julgo muito conveniente que se lhe aumente o Ordenado até
trezentos mil réis anuais e o mesmo ao Professor de Gramática Latina da Vila da
74

Parnaíba, que percebe duzentos mil réis [...] É o subsídio literário, conforme o
cálculo médio a que se procedeu pelas últimas entradas do mesmo rendimento, a
quantia de novecentos e oito mil cento e onze réis (908$111) [...] Não há nesta
Província outro algum imposto destinado em Favor das Escolas".

Com a lei de 15 de outubro de 1827, tentou-se implantar uma das primeiras políticas
nacional de instrução, quando, a citada lei determinou que os povoados e vilas mais populosas
de todas as províncias, nelas fossem criadas escolas destinadas à instrução da população livre,
no mínimo com uma escola para cada sexo e estipulou o ordenado dos professores em Rs
300$000 ou Rs 500$000 (mil réis) conforme a “carestia do lugar” .
Entretanto, no corpo da lei, nenhuma fonte nova de recurso ficou assegurada para esse
desafio, que era levar instrução primária a todas as crianças do império. E como dar cabo a
essa determinação na província do Piauí, onde a arrecadação do Subsídio Literário não
chegava a um conto de réis, possibilitando remunerar no máximo três professores de
primeiras letras ?
O Ato Adicional de 1834, editado no período regencial, que criou as polícias militares
e as assembleias legislativas provinciais, responsabilizava, também, as províncias pela oferta
de educação primária e secundária, ao tempo que autorizava a criação de um novo imposto
sobre vendas e consignações (IVC) efetuadas nas províncias. “Não eram boas as condições
financeiras da Nação. E o orçamento do Piauí não proporcionara recursos para a solução de
seus problemas especialmente com a criação da polícia e da Assembleia legislativa cujas
despesas juntar-se-iam à que já fazia seu erário” (NUNES Op. Cit 2007)
Elevadas as despesas da Província com a criação desses novos organismos
(Assembleia Legislativa e Força Pública), tem-se, observando na análise que se faz dos
orçamentos públicos da Província, o exato tratamento que recebia a instrução pública no
Piauí: Orçamento de 1836/1837 recursos destinados para a Força Pública Rs 41:000$000
(quarenta e um contos de réis) . Para a Instrução Pública Rs 10:600$000 ( dez contos e
seiscentos mil réis). Orçamento de 1837/1838 recursos destinados à Força Pública Rs
47:400$000 (quarenta e sete contos e quatrocentos mil réis) .Para o Ensino Rs 11:250$000
(onze contos e duzentos e cinquenta mil réis). E essa disparidade se repete nos orçamentos da
Província por todo o período imperial.
Essa contenção de recursos para a educação era refletida diretamente na sala de aula,
onde pela Resolução n.84, de 17 de setembro de 1838, a Presidência da Província autorizava
entregar anualmente aos “meninos” mais carentes o seguinte material: “seis resmas de papel
almaço, quatro dúzias de lápis, quinhentas penas e cinco aparelhos de tinta”.
75

Zacarias de Góis e Vasconcelos, que governou o Piauí entre os anos de 1845 e 1847,
tentou convencer a Assembleia Provincial a criar uma taxa escolar inspirada no School fund
dos norte-americanos. Indicando as fontes tributárias de que deveriam emanar os recursos
para “salvar da medonha crise da ignorância o futuro dos nossos descendentes”. Em seu
pedido à Assembleia, Zacarias analisa o mérito dessa medida, seus efeitos na América do
Norte e até mesmo em outras províncias do império, e as virtudes da educação, pois “à
medida que se elevam as despesas com a instrução decrescem os gastos com a polícia e a
justiça” (NUNES, 2007, p 328). O discurso de Zacarias de Gois não convenceu seus colegas
de parlamento e nada foi feito no sentido da criação de um fundo escolar.
No governo de Franklin Américo de Menezes Dória (1864 – 1866), a presidência da
Província, por força da Lei Provincial nº 565 de 5 de agosto de 1864, reabriu a Escola Normal
para o sexo feminino em 3 de fevereiro de 1865, mas por falta de recursos para mantê-la,
instituiu uma Jóia de Rs 80$000 (oitenta mil réis) por ano que deveria ser pagou pelo aluno ou
responsável em quatro prestações. Essa nova fase da Escola Normal foi efêmera: Em 1867, o
presidente da Província Luna Freire encerra novamente as atividades da escola, alegando em
Mensagem que enviou à Assembléia Legislativa em 9 de setembro, que “não se matriculou
um só indivíduo, sendo o curso frequentado apenas por ouvintes”. Apesar do governo da
Província ter gasto com este estabelecimento entre os anos de 1865/1867, Rs 7:400$000 ( sete
contos e quatrocentos mil réis) .
A oscilação de matrículas e de número de estabelecimentos públicos era uma
constante nos governos provinciais do Piauí, como se pode observar no quadro que segue
retratando o momento de 1870, comparando-o ao que trazia a realidade de 1864:

QUADRO II
BALANÇO DA EDUCAÇÃO DO PIAUÍ EM 1870
Montante
Estabelecimentos de Ensino
Escolas Primárias de despesas
Secundário
com Ensino
PROVÍNCIA Público
Pública Particular Pública Particular (Em mil
réis)
N° Alunos N° Alunos N° Alunos N° Alunos 76
Piauí 47 1.174 2 25 3 57 25 386 36:400$000
Fonte: ALMEIDA, Jose Ricardo Pires de .INSTRUÇÃO PÚBLICA NO BRASIL – História e Legislação (1500
– 1889) p.120
76

A necessidade de fontes próprias de recursos para manutenção da educação volta a


ganhar espaço em discussões na Assembleia Geral do Império, quando em 1870, o deputado
pela Província de Alagoas, Tavares Bastos propõe a criação de taxas escolares. Dois anos
depois, (1872) o Ministro João Alfredo estabelece a Caixa Escolar, seguindo em parte as
ideias de Tavares Bastos e do modelo de financiamento estabelecido na França. A Caixa era
constituída de diversas receitas entre elas a mais importante era o imposto sobre os salários,
cobrados proporcionais aos vencimentos e vinculados à educação. Em 1879, quando
respondia pelo governo do Império, o Ministro Leôncio de Carvalho, propõe a criação de um
Fundo Escolar destinado a manter em todas as províncias escolas de educação primária e
secundária. Porém, falhas na legislação, na regulamentação e na cobrança resultaram num
pífio desempenho desse instrumento de manutenção do ensino.
As taxas escolares correspondiam a uma tentativa de resolver os problemas
financeiros que acometiam as escolas públicas de nível primário e secundário. A experiência
não obteve bom desempenho e consequentemente, os resultados não foram satisfatórios no
que se refere ao alargamento do ensino na província do Piauí.
Após a tomada dessas medidas, as províncias passaram a criar Caixas Escolares, taxas
e impostos vinculados à educação. No Piauí, o presidente da Província, Francisco José
Viveiros de Castro, cria em 16 de dezembro de 1887, Caixas Econômicas Escolares, sobre as
aulas públicas de instrução primária, a princípio na cidade de Teresina, estendendo
posteriormente, a todos os municípios da província.

A gratuidade traz consigo a indiferença do público e atenua muito a vigilância dos


pais. O coração humano tem estas singularidades. o interesse que se tem pelas coisas
está muitas vezes na razão direta dos sacrifícios que elas custam: nas coisas que
parecem Mais necessitadas esforça-se com mais calor e envolve-se menos quando se
acredita que sejam menos necessárias. O governo faz esforços para criar escolas; as
subscrições públicas vieram em ajuda do Estado; a municipalidade tem, direta ou
indiretamente, imposto doações em favor da instrução pública aios que fazem com
ela negócios ou que lhe solicita alguma concessão [...] Era tempo de fixar uma taxa
escolar; os pais sentiriam certamente que, neste conjunto de esforços, o primeiro e
mais natural deveria vir deles,e que, diante de tantas obrigações e
sacrifícios,livremente consentidos, não poderiam declinar o que lhes impunham os
filhos. Disso devia nascer um certo escrúpulo de pagar a taxa escolar e, mais fosse
pesada, mais o pai de família se mostraria feliz em saber em que medida seus filhos
aproveitavam deste dinheiro, posto acima das diversões e necessidades.
(ALMEIDA, 1889, p. 93).

Assim, justificava as cobranças das taxas escolares, José Ricardo Pires de Almeida,
77

em sua clássica obra de 1889, “Instrução Pública no Brasil”, na qual defende a participação
dos pais no financiamento do ensino, manutenção das escolas e pagamento de professores.
Formas alternativas de financiamento do ensino tinham de ser criadas diante das
reduções drásticas observáveis nos orçamentos públicos do Piauí para com a educação: em
1874 foram gastos Rs 48:961$543 (quarenta e oito contos,novecentos e sessenta e um
mil,quinhentos e quarenta e três réis), contra Rs 38:175$180 (trinta e oito contos, cento e
setenta e cinco mil,cento e oitenta réis) que estavam orçados. Portanto, as subscrições
públicas (listagem com doações de particulares oferecidas aos governos da província),
doações, loterias, multas cobradas aos professores e pais “Os pais, tutores, curadores ou
protetores que tenham consigo filhos de mais de sete anos, sem impedimento físico ou moral
e não lhe derem ensino de primeiro grau serão passíveis de uma multa de 20.000 réis, segundo
as circunstâncias.” A primeira condenação será duplicada em caso de reincidência. (Artigo 64
do Regimento da Educação de 17 de fevereiro de 1854. Almeida 2000 p.139) e taxas cobradas
às escolas particulares estipuladas em: Rs 25$600 para abrir ou dirigir uma escola – Rs
12$800 licença anual – Rs 10$000 para ministrar matéria do ensino primário (ALMEIDA.
2000), se constituíram nos principais mecanismos de financiamento da educação no Piauí e
nas demais províncias brasileiras.
O quadro que segue, possibilita analisar o montante das despesas efetuadas pela
província do Piauí, no último quartel do século XIX:

QUADRO III
DESPESAS COM A INSTRUÇÃO PÚBLICA DO PIAUÍ, DE 1874 A 1890
PROVÍNCIA 1874-1875 1875-1876 1877-1878 1878-1879 1879-1880 1880-1881
Réis Réis Réis Réis Réis Réis
38:121$163 42:293$257 52:854$018 37:121$632 34:196$683 38:175$190
1881-1882 1882-1883 1883-1884 1884-1885 1885-1886 1886-1887
Piauí 45:419$134 61:802$883 53:369$476 53:500$000 53:980$750 54:540$000
1888 TOTAL DOS RECURSOS GASTOS PELA
PROVÍNCIA
54:540$000 3,817:476$216
Fonte: ALMEIDA, Jose Ricardo Pires de .INSTRUÇÃO PÚBLICA NO BRASIL – História e Legislação (1500
– 1889) p.293
78

O que se percebe é que não houve um aumento nos investimentos com a educação.
Os valores se mantiveram reduzidos e insuficientes para atender às reais necessidades de um
78

sistema de ensino que contribuísse para modificar as formas e as práticas educativas


piauienses.
A educação como instrução pública manteve-se ligada à estrutura política pouco
preocupada com o desenvolvimento local. As prioridades do governo provincial mantiveram-
se vinculadas a outras medidas e práticas que desprestigiaram a instrução pública, associada a
ausência de escolas e de professores para assumir a docência nas poucas escolas que existiam.
79

CAPÍTULO VI
AS INICIATIVAS PARTICULARES NO PIAUÍ IMPERIAL

Diante do péssimo desempenho do ensino público no Piauí, a solução que algumas


famílias, um pouco mais abastadas, encontravam era enviar seus filhos para escolas nas
províncias da Bahia, Pernambuco, Maranhão, ou colocar crédito em algumas iniciativas
particulares que se sucediam nos diversos lugares da província, seja na estruturação de
educandários ou até mesmo contratando professores particulares, como acontecia com a ação
peregrina dos “mestres de varanda” que vagavam pelas fazendas, nas “casas grandes” ou
“cassas de telhas” “disarnando menino” pelos vastos sertões piauienses. “Os nossos lentes
não desmereciam a confiança do povo se bem que não fossem sábios engenhos, mas para o
meio e a época, não deixavam de ser meias sumidades.” (SAMPAIO, 1996, p. 15).
O que se constituía numa “[...] Escola cara, distante, que impossibilitava as crianças
menos ricas de frequentarem e com métodos duros e ríspidos para a alma infantil. (FALCI,
1991, p. 31)
Uma das primeiras iniciativas particulares pela educação no Piauí, no século XIX, foi
liderada pelo Bacharel Miguel de Souza Borges Leal Castelo Branco, que em 1807, na cidade
de Oeiras, fundou um internato para o ensino de Latim, Filosofia Moral e Racional, Retórica e
Francês.
O internato do Dr. Miguel Borges foi, na visão de Odilon Nunes, “Um oneroso esforço
de pouca eficiência” (2007. p. 288) e de curta duração como tantas outras iniciativas
particulares do século XIX.
Sobre o tema escolas particulares, o presidente da Província Zacarias de Goes e
Vasconcelos deixou registrado em Relatório à Assembleia Provincial em 1846: “O ensino
particular pode se dizer é nenhum, pois só de primeiras letras há algumas escolas a cargo de
mestres particulares, com pequeno número de alunos”.

7.1 - Pe. Marcos Araújo Costa e a Escola Boa Esperança

A mais significante iniciativa particular de superação do atraso educacional, no


período que antecede a Proclamação da Independência e que foi referência por toda primeira
metade do século XIX, foi a fundação em 1821, de uma escola de ensino primário e
80

secundário na fazenda Boa Esperança, nas proximidades da vila de Jaicós, pelo Padre Marcos
de Araújo Costa, proprietário da referida fazenda, onde sua vocação para o magistério
manifestou-se em toda sua plenitude, demonstrando ser uma herança genética, pois seu pai,
Sargento-Mor Marcos Francisco, mantivera na mesma fazenda um educandário, no qual
estudara Manoel de Souza Martins, primeiro governador da Província do Piauí imperial.
A escol,a fundada pelo Pe. Marcos Araújo Costa, funcionou em regime de internato
gratuito por mais de trinta anos em pleno sertão piauiense, com uma média anual de vinte e
cinco crianças e jovens que recebiam casa e comida, só fechando suas atividades em 1859,
nove anos após a morte de seu fundador, ocorrida em 4 de novembro de 1850.

A rotina das tarefas diárias desse sacerdote estava marcada não somente dos afazeres
religiosos mas, também das atividades de instrução escolar. Era nesse horário que
ele transmita os saberes e a cultura escolar aos seus alunos tornando-se, assim, um
grande mestre de almas e da sofrível tarefa de educar a juventude piauiense. Após
estudarem na Escola Boa Esperança, os jovens ingressavam nos serviços da
administração da província e nas faculdades do Ensino Superior. (SOUSA, 2009, p.
70)

Na escola da fazenda Boa Esperança, recebia-se instrução primária e secundária com


cadeiras de Latim, Francês, Filosofia, Retórica, Lógica, Teologia e Ciências Naturais.
Conforme Ferro (1996, p. 63):

Este colégio teve funcionamento efetivo e ininterrupto por trinta anos, pois só
fechou com a morte do seu idealizador e proprietário em 1850. Pode, portanto, ser
considerado como a primeira escola a existir de fato, e o Padre é considerado por
muitos dos seus coestaduanos como o primeiro mestre-escola do Piauí.

Ao se referir a esse educandário, Pereira da Costa o compara a “um oásis em meio do


deserto”. E o inglês George Gardner, que em sua passagem pelo Piauí foi hospede de Pe.
Marcos, em seu livro "Travels in Interior of Brazil" dedica sobre a escola e o seu fundador
interessantes depoimentos em sua clássica obra: “Encontrei naquele sítio um pedaço de minha
pátria [...] A fazenda Boa Esperança é a maior de quantas até então visitara em todo o Brasil”.
(BRITO, 1996, p. 23). Em outro trecho da obra enfatiza: “Se todos os clérigos do país
possuíssem ao menos metade da atividade e dos conhecimentos e o mesmo empenho em
difundir a instrução que ele, as condições do Brasil, cedo, seriam muito diversas das atuais e
que receio, persistirão por muito tempo [...] O vigor juvenil daquele ancião, então, já maior
de sessenta anos, era deveras surpreendente e não menos a sua filantropia. Como os meios de
educação naquela província tão vasta e tão pouco povoada só estivessem ao alcance de
81

poucos, havia muitos anos que o Padre Marcos mantinha em sua casa um internato gratuito no
qual permaneciam vinte rapazes até adquirirem noções regulares da Língua Latina e
elementos de Filosofia e Matemática. Era o padre um perfeito erudito e possuía uma
biblioteca bastante copiosa em livros clássicos e filosóficos” (NUNES,2007 p.47)
Padre Marcos fora uma das figuras públicas das mais expressivas nas primeiras
décadas do século XIX. Entre as muitas atividades assumidas pelo sacerdote encontramos: a
construção da Igreja de Jaicós, que chamou às suas custas as despesas de sua construção, só
posteriormente recebendo auxílio de particulares e do governo para sua conclusão; restaurou o
Hospital de Caridade de Oeiras e construiu a Casa da Câmara de primeira capital piauiense.
Pe. Marcos ainda serviu ao Piauí como secretário do primeiro governo eleito da província
(20/09/1824 a 01/05/1825) e como vice Presidente da Província em dois mandatos (1825-
1826 e 1826-1829) e foi deputado quando da implantação de Assembleia Provincial em sua
primeira legislatura (1835- 1836).

A próspera vila, que abrigava a primeira escola regular do Piauí, recebia vários
jovens pobres ou ricos advindos de qualquer localidade. O padre Marcos dedicou-se
a educá-los sem a cobrança de nenhum provento, gastando inclusive seus bens
patrimoniais. Muitos desses jovens que estudaram na fazenda Boa Esperança
seguiram carreira de desembargador, advogado, servidor público, entre outras. A
escola Boa esperança era motivo de orgulho para o Piauí no período em que era
bastante valorizada pela população da época – por não ser apenas uma escola de
primeiras letras, mas também de ensino de latim, aritmética, francês, retórica,
filosofia e teologia; o que possibilitava a alguns jovens mais abastados o sonho de
ingressar numa faculdade ou então ocupar altos cargos. Alimento, conforto, dinheiro
e instrução eram a combinação perfeita para os mancebos num Piauí em que a
instrução era bastante atrasada. (SOUSA, 2009, p. 51).

A morte do Padre Marcos, ocorrida em 4 de novembro de 1850, “ comoveu todos os


sertões nordestinos” (Nunes, 2007 p.50). O presidente da Província José Antônio Saraiva, em
Mensagem à Assembléia, lamenta aos deputados: “ A morte do Reverendíssimo Padre
Marcos, que encheu de dor todos os corações piauienses,fechou as portas da única casa de
educação que esta Província possuía”. (NUNES, 2007 p.51)
O esforço pela manutenção da escola e da obra de Pe. Marcos foi empreendido pelo
Pe. Joaquim Damasceno Rodrigues, que após quase uma década de pesado fardo e sem
auxílios externos, resolveu fechar as portas do educandário da Fazenda Boa Esperança, em
1859.
82

Diante do quadro que se apresentava a educação pública na Província, surgiram


escolas particulares em número significativo nas mais diversas vilas e povoados, somente no
ano de 1844 tem-se o registro: 9 dessas escolas no município de Velença, 7 em Barras, 3 em
Piracuruca, 7 em Parnaguá e 2 em Príncipe Imperial. (NUNES, p 74- 2007)
Essas iniciativas particulares eram estimuladas pelo governo provincial, que
gratificava os professores que mantivessem alunos na ordem de Rs 20$000 (vinte mil réis)
anuais até completar uma sala com 20 alunos e mais Rs 10$000 (dez mil réis) por cada aluno
que excedesse o mínimo de vinte.
Para abrir uma escola particular no Piauí Imperial necessitava um proprietário atestar
moralidade, plano de trabalho e aptidão. Após análise, o Diretor de Instrução Pública,
concedia autorização (licença) para o funcionamento da escola.
Outras iniciativas particulares que mereceram destaque foram as organizadas pelo
padre Francisco Domingos de Freitas, na Fazenda Peripery de sua propriedade, onde em
1855, fundou uma escola primária e um curso de latim e uma outra, pelo também sacerdote,
Sebastião Ribeiro Lima, que fundou uma escola de primeiras letras em São Raimundo
Nonato em 1855.
Sucederam-se durante o período imperial, várias outras iniciativas particulares que
merecem referências: a Escola de Humanidades fundada em 1862 pelo engenheiro Aureliano
Ferreira de Carvalho; o Colégio Nossa Senhora do Amparo fundado em 1868 pelo Dr. Jesuíno
José de Freitas; a fundação em 1873, por parte de senhoras da sociedade teresinense da
Associação Protetora da Infância Desvalida, que nasceu com objetivos de fundar um
estabelecimento educacional para meninos órfãos e inválidos em Teresina e fornecer às
crianças desvalidas o vestuário necessário para que pudessem freqüentar as escolas; a Escola
Particular Noturna de Teresina, montada com recursos do farmacêutico Eugênio Marques de
Holanda, para alunos do sexo masculino e funcionou de 17 de agosto de 1880 até sua extinção
em janeiro de 1882. Nessa escola noturna, apesar de ser uma iniciativa particular, o ensino era
gratuito e apresentaram-se, neste período como voluntários para ministrar aulas, os senhores,
José de Castro Lima, Antônio Marques da Costa, Gentil Ribeiro Cavalcante e João Augusto
Rosa. E o Colégio Jugurtino, criado em março de 1887 pelos professores Jugurta José Couto e
Leôncio e Sá.
83

7.2. Colégio Nossa Senhora das Dores

Mas, de todas as iniciativas de escolas particulares, da segunda metade do século XIX,


a que obteve maior sucesso foi a que criou o Colégio Nossa Senhora das Dores, fundado
oficialmente em Teresina, em 1º de maio de 1882, sob direção do Capitão Miguel de Sousa
Borges Leal Castelo Branco.
A ideia da criação desse colégio, nasceu das aulas particulares que eram ministradas
pela filha do Coronel Miguel Borges, D. Maria Emígdia Castelo Branco, iniciadas em outubro
de 1881, em sua residência, onde lecionava, além da instrução primária, trabalhos com
agulhas como bordados, labirintos, crochê e criações de lã.
Observando a enorme carência de um colégio particular na capital, o Coronel Miguel
Borges e D. Emígdia, a partir de 25 de fevereiro de 1882, resolveram passar a receber em sua
residência à rua Paisandu, pensionistas que buscavam instrução primária e secundária,
mediante pagamento de Rs 25$000 (vinte e cinco mil réis) para cobertura de despesas com
alimentação, lavagem e engomassem de roupas, médico e botica nas doenças que não
excedessem a uma semana. A faixa etária para os pensionistas variava de acordo com o sexo:
homens internos entre 6 e 18 anos e mulheres de 6 a 12 anos. Já os alunos externos poderiam
ser de ambos os sexos desde que pagassem a importância de Rs 3$000 (três mil réis) por
cadeira a ser cursada. Aos alunos maiores de 18 anos que optassem pelo internato, teriam
agasalhos e aposentos independentes, inteiramente separados dos outros colegiais, submetidos
aos regimes e preceitos estabelecidos pela escola e com valores de estadia e aulas a ser
combinados com o diretor proprietário.
A abertura desse novo colégio foi amplamente divulgada pela imprensa da capital
como um fato relevante para a educação da Província: “A fundação de um colégio nestas
condições era uma grande necessidade, de que se ressentia a nossa capital, e por isso tornou-
se ainda mais louvável o procedimento do Sr. M. Borges, por ter tido tão feliz lembrança” (A
Imprensa nº 723, de 11 de março de 1882); “Os esforços do Capitão Miguel Borges são
dignos dos maiores encômios e da proteção dos piauienses. Os pais de família que aproveitem
tão nobres intuitos” (ÉPOCA nº 251, de 15 de abril de 1882).
Na solenidade de inauguração, ocorrida em 1º de maio de 1882, com a presença do
vice-presidente da província Dr. Souza Lima, e de outras autoridades eclesiásticas e militares,
os discursos deram o tom da realidade educacional do Piauí:
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Volvemos as vistas para o espetáculo contristador que o Piauí oferece em matéria de
instrução, se refletirmos no atraso geral em que vivemos, ignorando tudo, inclusive a
grandeza de nossa miséria, veremos quanto mais sensível é entre nós essa
necessidade, e quanto mais urgente é ocorrer a ela por todos os meios tendentes a
facilitar o ensino, e a elevar o nível de nossa cultura moral” (Discurso do Dr. Gabriel
Luiz Ferreira, In: CARVALHO, 1983, p. 3)

Entre os temas polêmicos para a época, como a emancipação feminina e o


anticlericalismo, destaca-se o seguinte discurso:

O Vosso descuido (mocidade) dará lugar ao aparecimento de usurpadores, de classes


egoístas que para tomarem o predomínio e mando exclusivo do universo, vos
reduzirão ao cativeiro e tomarão só para si o gosto de tesouro que a todos nós
pertence. Esta usurpação já se realizou uma vez, a história o atesta: a classe
sacerdotal monopolizou a ciência e tomou posse do mundo, reduzindo o resto da
humanidade ao horroroso cativeiro da ignorância e do fanatismo! – Mocidade vinde,
pois instrutivos, vinde receber o vosso legado. [...] E vós, mulher, por que não
vindes também ? Sereis acaso a deserdada dos séculos? Não sois também filha da
humanidade? Oh! Sim, tendes direitos como nós, tem sida uma injustiçada dos
povos, vos excluíram da herança de nossos antepassados. (Discurso do Dr. José
Faustino da Silva, in: CARVALHO, 1983, p.4).

Com uma matrícula inicial de 25 alunos nos cursos de instrução primária e secundária,
o Colégio Nossa Senhora das Dores trabalhava na primeira fase do ensino primário com
leitura, caligrafia, princípios de moral e religião, sistema métrico decimal, noções de
gramática portuguesa e trabalhos com agulhas. Na segunda fase do primário estudava-se:
Gramática portuguesa, Aritmética, Noções de Geografia e História. O Curso secundário, com
um quadro de professores formado de significativos nomes da elite intelectual teresinense,
apresentava um diversificado currículo que incluía: Português, Latim, Francês, Inglês,
Geometria, Álgebra, Aritmética, Geografia, História, Filosofia, Música, Escrituração
Mercantil, Retórica e Poética.

A Mocidade piauiense, pois, meus senhores, tem indeclinável necessidade de


dedicar-se mais aos estudos, para poder representar na sociedade o brilhante lugar
que lhe esta reservada. [...] Preparar-se-á, eu espero, para entrar, em breves tempos,
no grande Panteon dos piauienses ilustres. (Discurso do Dr. Miguel Borges na
inauguração do Colégio Nossa Senhora das Dores, in: CARVALHO, 1983, p. 5)

Por meio do discurso inaugural da Escola Nossa Senhora das Dores, é possível
perceber que havia uma necessidade constante de proporcionar ensino qualificado os jovens
piauienses e de possibilitar chances para que pudessem participar de quadros efetivos da
administração pública.
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8- CAPÍTULO VII
PANORAMA EDUCACIONAL NA PRIMEIRA REPÚBLICA

O panorama educacional no final do século XIX e das três primeiras décadas do século
XX, no Piauí, foi marcado por influências do poder político sobre a instrução pública através
de um forte controle ideológico e do “assédio moral” sobre os professores e diversas
arbitrariedades cometidas em nome de acomodações políticas ao regime republicano, além de
consecutivas e desconexas reformas educacionais.

E a indiferença é partida mesmo dos poderes públicos, preocupados mais em solver


'casos políticos', as crises partidárias oriundas de interesses contrariados, deixando
sempre por solver a questão do ensino do povo, cujo abandono é a causa essencial
de todos os males. (Gov. João Luis Ferreira.in: CARVALHO, 1983, p. 128)

No que se refere diretamente ao financiamento da instrução piauiense percebe-se do


regime de governo do império para a república poucas mudanças consubstanciais ocorreram.
Essa passagem de governo representou para a população local mais uma expectativa
alimentada para melhoria da educação, do que propriamente um processo com evidências
concretas, que tivesse reflexos na melhoria de vida da população local.
Notadamente, no financiamento à educação houve uma maior responsabilidade do
Estado, o que marcou essa fase, pelo menos em termos legais. Os episódios desse processo
serão analisados posteriormente.
O quadro educacional do Piauí, no início do período republicano, no ensino primário,
ultrapassava pouco mais de 2.000 alunos, enquanto os do ensino secundário não chegava a
uma centena, o que a priori revelava o esforço que o novo regime republicano teria que fazer
para suprir esse déficit escolar em um dos Estados mais pobres da nova federação.

8.1- Reformas de Ensino

O primeiro governo republicano do Piauí, comandado por Gregório Taumaturgo de


Azevedo (1889 – 1890), inicia suas ações no campo educacional, tentando normatizar a
educação criando o “Regulamento do Ensino” pelo decreto nº. 37, de 10 de maio de 1890, que
proclamava o princípio da obrigatoriedade do ensino, delegava responsabilidades aos
86

municípios na condução da educação primária e denominava o Liceu Piauiense de “ Instituto


Piauiense”, modificação que não vingou, retornando o antigo nome por força da Resolução
Nº.13 de 31 de julho do mesmo ano.
Trabalhando na criação de uma estrutura organizacional para a educação do Estado,
em 31 de julho de 1890, o governador, Dr. Joaquim Nogueira Paranaguá, baixou a Resolução
nº. 31 que estabeleceu um novo Regulamento para Instrução Pública, que tratava das
atribuições do ensino primário e secundário. Essa Resolução classificou as escolas em:
Elementares, Complementares e Superiores; estabeleceu currículos diferenciados para cada
categoria e nível de ensino, ficando o Secundário com as seguintes disciplinas: Gramática da
Língua Nacional, Latim, Francês, Inglês, Aritmética e Álgebra, Geometria e Trigonometria,
História e Geografia Geral, Filosofia, Retórica e Poética, Geografia e História do Brasil;
proibiu o ensino por meio de monitores (Método Lancaster); proibiu castigos físicos;
assegurou plena liberdade ao ensino particular, estabeleceu subvenções financeiras para
estabelecimentos particulares de educação elementar e secundária onde não houvesse
estabelecimento público; criou o Conselho Pedagógico e organismos para inspeção do ensino.
Outro governo estadual pródigo em legislação, visando a sistematização do ensino
público, foi o de Raimundo Artur de Vasconcelos (1896 – 1900), que empreendeu através do
decreto nº 63, de 14 de dezembro de 1896, mudanças significativas no ensino secundário do
Estado, ministrado á época somente no Liceu Piauiense, quando fez a equiparação de
currículos ao Colégio Pedro II (Ginásio Nacional) do Rio de Janeiro, que passou a ser
ministrado em sete anos com as seguintes disciplinas: Português, Latim, Grego, Francês,
Inglês, Alemão, Matemática, Astronomia, Física, Química, História Natural, Biologia,
Sociologia, Moral, Noções de Economia, Direito Pátrio, Geografia, História Nacional,
Literatura Nacional, Desenho, Música, Ginástica, Evoluções Militares e Esgrima. Ao final do
curso era conferido ao aluno o grau de Bacharel em Ciências e Letras, outorgado
pessoalmente pelo governador. Esse mesmo Decreto n.63, estabelecia, ainda, o exame
Madureza para alunos maiores de 12 anos mediante pagamento de taxa de cinco mil réis.
Outros três importantes decretos marcaram o governo de Raimundo Artur de Vasconcelos,
foram eles: o de nº 105, de 3 de dezembro de 1898, que reorganizava o ensino secundário; o
de nº 126, de 15 de junho de 1899, que ordenava a observância ao plano de estudos do
Ginásio Nacional (Colégio Pedro II) e o de nº 158, de 15 de janeiro de 1900, que reorganizava
o ensino primário.
Mesmo observando a inviabilidade da adoção de currículos e programas de escolas
consolidadas da capital federal, na nascente educação republicana estadual, os governos que
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se sucedem no Piauí, ignoravam essa realidade. Gabriel Luís Ferreira em seu curto governo
de maio a dezembro de 1901, baixou em 08 de junho de 1901, o Decreto de nº 211, que
mandava adotar no Liceu Piauiense o Regulamento do Ginásio Nacional (Colégio Pedro II).
Em 1906, novamente é frustrada a tentativa de implantação de uma Escola Normal no
Piauí. A Lei Nº 419, de 13 de julho de 1906, que regulamentava o ensino primário no Estado,
contemplava, também, a criação de uma Escola Normal. E durante todo o governo de Álvaro
de Assis Osório Mendes (1904-1907), tal empreendimento não saiu do papel.
Uma das mais significativas reformas da instrução pública primária e secundária no
Estado do Piauí na “República Velha”, deu-se no governo de Anísio Auto de Abreu (1908-
1909), que através da Lei nº 527, de 06 de julho de 1909, instituiu: a obrigatoriedade da
frequência escolar das crianças do sexo masculino de 7 a 14 anos e sem limite de idade às do
sexo feminino e também dos jovens matriculados no ensino secundário; obrigava a assinatura
do ponto dos professores que recebiam dos cofres estaduais; concedia subvenção financeira as
escolas particulares de ensino primário e secundário nos municípios onde não existissem
escolas públicas dos mesmos níveis; criava nos municípios Comissões de Educação, formadas
pelo Juiz de Direito, o Intendente (prefeito), o Delegado de Polícia e o professor mais antigo
da localidade (Secretário da Comissão), para em reuniões anuais (mês de novembro), ouvir
pais e responsáveis por crianças menores e proceder o recenseamento dessas crianças em
idade escolar; criou a Delegacia Geral do ensino com jurisdição estadual e as Inspetorias
Municipais com jurisdição local; abriu a possibilidade de construção de Grupos Escolares nos
municípios que tivessem no mínimo 4 escolas primárias isoladas (funcionando na casa do
professor), nascendo a simbólica figura Grupo Escolar que se constituirá no espaço
educacional por excelência da grande maioria dos municípios piauienses.
Não havia decorrido um ano das medidas acima citadas e a educação estadual se ver
obrigada a tentar ajustar-se a um novo Regulamento Geral da Instrução Pública, nascido do
Decreto nº 434, de 1910 e consolidado em forma de lei em 22 de junho do mesmo ano, no
governo de Antonino Freire da Silva (15/03/1910 á 1/07/1912), que entre muitas medidas
regulamentadas destacavam-se: o estabelecimento dos princípios gerais para o desempenho
do ensino público no Estado (liberdade, laicidade e gratuidade); definição da estrutura legal,
administrativa e pedagógica da educação primária, secundária, normal e profissional;
assegurava, mediante fiscalização do Estado, liberdade para particulares e associações
ministrarem o ensino em qualquer nível ou ramo; valorização da Educação Moral e Cívica
como conteúdo curricular; entregava aos municípios a responsabilidade pela oferta e
manutenção do ensino primário e ao Estado o ensino secundário ministrado exclusivamente
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no Liceu Piauiense que concedia o grau de Bacharel aos concludentes; criava o Conselho
Superior de Instrução (com jurisdição estadual) e os Conselhos de Instrução nos municípios
formados pelo Juiz de Direito, Intendente Municipal, Promotor Público e por dois pais
representado as famílias com filhos matriculados em escolas públicas. O Regulamento e Lei
do Ensino de 1910, incorreram no mesmo erro de tentar impor uma grade curricular
importada da capital da República ou de centros educacionais mais desenvolvidos, quase
sempre inexequíveis e distante de nossa realidade, bem como não citar as formas de
financiamento dessas medidas implantadas.
Havia um distanciamento significativo entre a normatização do ensino e a prática
executada nas escolas nos municípios do interior do Estado. Currículos e programas,
estabelecidos por leis e decretos emanados do governo estadual, quase sempre inexequíveis
por serem cópias de currículos do Ginásio Nacional (RJ) e por não encontrar nas cidades do
interior, pessoas qualificadas para ministrar as disciplinas e por uma estrutura administrativa
incapaz de acompanhar a aplicação dos currículos e procedimentos didáticos. A prática
educativa era feita conforme convinha ao professor.

Forçoso é confessar que nem todas as escolas particulares tinham existência


duradoura, e que se mantinham a revelia do Governo, não obedecendo uma
programação oficial. Os professores tinham métodos próprios e distribuíam as
disciplinas em dois turnos exaustivos, em que quase sempre trabalhavam sem
nenhum auxiliar. (CORREIA, 1945, p. 175).

No governo estadual de Matias Olímpio de Melo (1/07/1924 á 1/07/1928), a educação


tomou certo impulso, visto a construção de grupos escolares nos mais diversos municípios do
Piauí.

8.2- O Ensino Primário

O ensino primário, em todo o Estado era o que apresentava maior deficiência e


precariedade: escolas funcionando nas residências das professoras; ausência de prédios
escolares; alunos tendo de levar suas próprias cadeiras para sentar-se às aulas e baixos salários
pagos aos professores. “São as escolas de uma penúria desconfortante. As do interior, em
prédios particulares, sem higiene, sem mobiliário, não são próprias a atrair alunos." (Revista
do IHGB - 1922. In: CARVALHO, 1992, p. 71A)
89
Somente a partir de 1920, com o início da construção do prédio da Escola Normal
Oficial, totalmente projetado para atividades escolares, foi que se seguiram a construção de
grupos escolares na capital e em diversos municípios do interior piauiense.
No Piauí, o ensino primário era marcadamente ocupado por mulheres, expandindo
ainda mais esse mercado com criação da Escola Normal Oficial em 1910. No entanto, o
celibato para o exercício do magistério ou no máximo a ocupação para viúvas era uma das
normas que constavam nos Estatutos da Instrução Pública em 1922, limitando, assim,
formação e atuação de mulheres casadas na educação pública.

Art . 22. Não poderão ser providos como professores:


a) As mulheres menores de 18 anos de idade e os homens menores de 20;
b) As mulheres casadas.
Art. 23. Para as nomeações de professoras se exigirá certidão de seu estado civil,
quando viúvas e as solteiras quando menores, deverão provar que têm licença de
seus pais ou tutores para exercer o magistério (CARVALHO, op. Cit, 1992, p.91)

As atividades de ensino primário no Piauí durante praticamente toda a Primeira


República, até o advento da construção dos Grupos Escolares na década de vinte, eram
desenvolvidas nas residências dos professores, sejam eles professores públicos, custeados
pelo Estado, ou particulares, mantidos pelas mensalidades dos alunos. O certo é que não havia
muita diferença quanto às instalações prediais e aos métodos de ensino.
As crianças de famílias humildes, filhos de pescadores, estivadores, agricultores,
vaqueiros e outros ofícios de baixa remuneração, tinham, por opção, uma escola pública
(residencial) deficiente:

A escola pública jamais falhou na sua finalidade, é certo, mas nas cidades do
interior, longe das vistas da fiscalização oficial, ela não chegava a alcançar a média
dos resultados que deveria produzir. Não se veja nesta declaração uma acusação do
nosso velho leigo antanho. Quem chegou a freqüentar uma daquelas escolas
primárias, ainda se recordará da falta de instalação adequada, absoluta carência de
material escolar, de conforto, de ar, de luz e de tanta coisa mais. O governo não dava
casa nem mobiliária; o professor tinha que instalar mal a sua família, para dividir
com a escola algumas peças de sua residência e de seu mobiliário escasso. Daí as
falhas que se poderia apontar e que contribuíam sem dúvida para a ascendência que
tinham sobre a escola pública as escolas particulares. (CORREIA, 1945, p. 174).

Na realidade, quando falamos em escola pública, estamos falando de professor público,


custeado pelo estado ou município, cujo ambiente de trabalho era sua própria residência, onde
acolhia seus alunos. A escola pública comandada por Sinhá Raposo em Parnaíba, foi
90

imortalizada nas páginas de “Memórias” de Humberto de Campos, que com maestria descreve
a escola, sua professora, seu método e seus conteúdos:

Dirigia-a uma senhorita que era quase menina, a qual, ainda hoje, parece mais moça
do que eu. Não sei, ao certo, o prenome. Davam-lhe o tratamento de Sinhá Raposo.
Era miúda, gentil, graciosa, de cor moreno-claro. Não me parece que se preocupasse
muito com os alunos. Vivia sempre para o interior da casa, no qual residia a família,
e para onde levava minha irmã pequena, a quem dava doces e outras gulodices. Não
obstante isso, a escola era freqüentadíssima, principalmente por gente pobre, do
bairro dos Tucuns. Tenho, ainda, nítido, na memória, o aspecto da escola pública e
humilde primeira colméia que meu espírito fabricou, fora de casa, a sua primeira
gota de mel. Sala grande, e baixa, de chão de tijolo, com três janelas abrindo para a
praça do mercado. Em uma das extremidades, à esquerda, um estrado baixo, com a
mesa da professora. Diante dela, paralelamente, os bancos de madeira, estreitos e
altos, com a meninada de ambos os sexos, e todas as cores de que se constituía a
população. Comprimidos os pés sem tocar o solo, a cartilha ou a tabuada nas mãos, a
criança se esgoelava, com toda a força dos pulmões, ao mesmo tempo em que
balançava as penas no mesmo ritmo:
Um b com a, b-a ba
Um b com e, b-e bé,
Um b com i, b-i bi,
Um b com o, b-o bó
Um b com u, b-u bu.
E mudando a cadência, seguidos:
Ba, bé, bi, bó, bu
Quando era tabuada, a tonalidade ainda era mais triste, e o estudo variava, de acordo
com a operação:
Dois e ummm três,
Dois e doooois quatro,
Dois e trêees cinco,
Dois e quaaatro seis,
Dois e ciiinco sete,
Dois e seeeis oito,
Dois e seeete nove,
Dois e oooito dez,
Novisfora um.
Os mais adiantados tinham cantiga diferente, e mais alegre, embora mais
complicada:
Cinco “vez” cinco vinte e cinco,
Novisfora sete.
Regra de vinte vão dois;
Ciinco “vez” seis trinta,
Novisfora três.
Regra de trinta vão três.
[...] A aula começava às dez horas, e terminava às duas. Ao meio-dia, havia, no
entanto, uma distração: púnhamo-nos todos de pé, e cantávamos, ou, melhor,
berrávamos, o Hino ao Trabalho, de Castilho:
Trabalhai, meus irmãos, que o trabalho
Nos dá vida, saúde e vigor,
E da orquestra da serra e do malho
Brotam hinos, cidades e amor”. (CAMPOS, Op. Cit. 160-63).

Encerrávamos o período da “República Velha” (1889 – 1930) no Piauí, com a rede


primária de ensino estadual apresentando os seguintes números: vinte grupos escolares e
91

oitenta e duas escolas isoladas (residência dos professores).


Todo esse esforço público e particular no período, estava longe de reduzir o altíssimo
índice de analfabetismo que se registrava no Brasil e nos estados federados do norte e
nordeste do país:

Brasil: Índice de analfabetismo – 1890-1920


Especificação / Ano 1890 1900 1920
Total da População 14.333.915 17.388.434 30.635.605
Sabem Ler e Escrever 2.120.559 4.448.681 7.493.357
Não Sabem Ler / 12.213.356 12.939.753 23.142.248
Escrever
% de Analfabetos 85% 75% 75%
Fonte: Ribeiro, M. L. S. História da Educação Brasileira. 4. ed. São Paulo: Cortez, 1982, p. 78.

8.3. O Ensino Secundário

Apesar das dificuldades, por parte da sociedade e da intelectualidade piauienses, no


início da República, que apostavam na função redentora da educação, na efervescência
instrutiva, que motivava famílias de cidades do interior a quebrarem muito cedo os laços
afetivos e colocarem seus filhos hospedados em casas de parentes, internatos e pensionatos na
capital piauiense quando se tratava de concluir o ensino secundário.
O ensino secundário no Piauí era ministrado na capital e em Parnaíba e Floriano (a
partir da segunda metade da década de 1920), reunia em seus quadros, profissionais
renomados das mais diversas áreas, que encontravam no magistério uma atividade
complementar às suas rendas salariais, sem um compromisso direto com as atividades
educacionais.
Mesmo observando esforços de alguns governos estaduais no período da República
Velha, os resultados educacionais no Piauí, não eram muito animadores. Ao assumir o
governo do Estado, o governador João Luís Ferreira (1/07/1920 á 1/07/1924), preocupado
com a situação educacional, nomeia uma Comissão comandada por Mathias Olympio de
Mello, para estudar as causas do fracasso escolar no Piauí, que apontou “como causa dessa
decadência”:
92

I) Inobservância dos dispositivos do Regulamento, donde;


a) faltas na sua direção;
b) ausência de fiscalização;
c) impreparo técnico de grande parte do professorado;
d) falta de formação de espírito profissional do professorado.
II) Falta de prédios para funcionamento das escolas e de material escolar.
III) Intromissão indébita de interesses estranhos a instrução na escola de elementos
por ela responsável.
Com efeito se fosse cumprido o Regulamento Geral da Instrução de há muito se
achavam fechadas muitas das atuais escolas, transformadas em odiosas sinecuras.
(Relatório ao Governo do Piauí – 1921 )

Fugindo a essas mazelas que acompanhavam o ensino público no Piauí, quando


chegava o momento de preparar os alunos para o ingresso nos cursos superiores, as famílias
com melhores condições financeiras, remetiam seus filhos para estudos em Pernambuco na
Faculdade de Direito de Recife ou para o Seminário de Olinda; para Salvador-BA, para os
cursos de Medicina e Farmácia; São Luís para o Seminário das Mercês ou Rio de Janeiro para
cursarem Medicina ou Engenharia na Politécnica. Muitos desses alunos já seguiam para
matriculas nos cursos secundários desses Estados, como forma de garantir um acesso mais
tranquilo a essas faculdades.
O ensino secundário no Piauí, no período de 1889 a 1930, era lecionado somente no
Liceu Piauiense, Colégio Diocesano (em Teresina); no Ginásio Parnaibano, no Instituto
Coelho Rodrigues (Floriano) e no Ginásio Municipal de Floriano.

8.4. As Escolas Normais: a Livre e a Oficial

Diante de um quadro educacional nada promissor no início do século XX no Piauí,


iniciativas particulares se sucediam. Em 1908 foi criada em Teresina a Sociedade Auxiliadora
da Instrução, instituição não governamental que fundou a Escola Normal Livre, formada por
professores voluntários.

Funda-se, então sob os melhores auspícios a 'sociedade auxiliadora da instrução',


que abriu, logo, a escola normal livre, destinada exclusivamente à educação da
mulher, à formação de professores. O professorado da nova instituição era composto
do que Teresina possuía de mais seleto, assim nas culminâncias do grêmio social,
como na cultura do espírito e talento. Era toda uma plêiade possuída de ardorosos
sentimentos cívicos, fortemente convicta de que os fundamentos, base, em suma, do
alevantamento moral e material da pátria reside no preparo, na educação das
gerações que surgem. Ocupavam todos os seus lugares de mestres, gratuitamente,
inclusive, o diretor, que também fazia parte do corpo docente. (Gov. Arlindo
Nogueira. In: CARVALHO, 1992, p. 110.)
93
O Dr. Antonino Freire, membro ativo da Sociedade Auxiliadora da Instrução e
professor da Escola Normal Livre, tornou-se governador do Estado (1910 – 1912) resolvendo
em 1910, criar a Escola Normal Oficial, levando a desativação da Escola Normal Livre, com a
incorporação para o Estado de seu quadro de professores.

Foto: Normalistas da Escola Normal Antonino Freire


Teresina - Piauí

A Lei Estadual nº 642, de 17 de julho de 1911, elevou para quatro anos o tempo de
formação da professora normalista e criou a Escola Modelo para a prática pedagógica das
professorandas. O currículo da Escola Normal ficou assim estabelecido: 1° ano: português,
francês, aritmética, geografia, desenho, musica, trabalhos manuais e ginástica; 2° ano:
português, Frances, aritmética e álgebra, geografia e cosmografia, pedagogia e metodologia,
física e meteorologia, desenho, musica e trabalhos manuais; 3° ano: português, Frances,
geometria e trigonometria, física e química e meteorologia, historia natural, (zoologia e
botânica), arboricultura, horticultura, jardinagem, pedagogia,metodologia e educação moral e
cívica, desenho, musica e trabalhos de agulha; 4° ano: literatura, história natural, mineralogia
e geologia, economia rural e higiene, historia da civilização e do Brasil, pedagogia e
metodologia, economia domestica, educação moral e cívica.
Esse currículo sofreu seguidas modificações em função da Lei nº 863, de 24 de junho
de 1916 no governo de Miguel de Paiva Rosa (1/07/1912 a 1/12/1916); do Regulamento n º
689, de 10 de novembro de 1917 e o do Decreto n º 708, de 2 de outubro de 1918 do governo
de Eurípedes Clementino de Aguiar (1/07/1916 a 1/07/1920); do Decreto nº 771, de 6 de
setembro de 1921 e da Lei n° 1027, de 3 de julho de 1922 ambos do governo de João Luiz
94

Ferreira (1/07/1920 a 1/07/1924), que alteravam as grandes curriculares e o tempo de


duração do Curso Normal.
No início dos anos vinte começou a ser construído o edifício que abrigaria a Escola
Normal e sua Escola Modelo em instalações apropriadas para estudo e práticas pedagógicas,
favorecendo um gradual crescimento nas matrículas.

MATRÍCULA DA ESCOLA NORMAL – 1910-1930


Ano N° de Alunos Ano N° de Alunos Ano N° de Alunos
1910 16 1917 51 1924 127
1911 97 1918 52 1925 158
1912 52 1919 67 1926
1913 62 1920 65 1927 178
1914 52 1921 65 1928 200
1915 40 1922 82 1929 259
1916 66 1923 97 1930 299
Fonte: Ligeira Notícia sobre o Ensino do Piauí. Theresina: Imprensa Oficial. p. 09

Consolidado o ensino pedagógico no Piauí, as resoluções, decretos e reformas


passaram a ser constante nas mudanças curriculares da instituição e na normatização do
ensino em todo o Estado.
Um dos mais significativos foi o Regulamento Geral do Ensino (Decreto nº 1.438/33),
lançado pelo interventor Landri Sales, que passou a determinar que para se matricular na
Escola Normal, seria necessário a exigência de matrícula e participação em curso preparatório
pela Escola de Adaptação (Art.124) com duração de 2 anos, cujos objetivos principais eram
aprofundar conhecimentos e observar a vocação do candidato para o magistério, além de
comprovada capacidade mental mediante testes; idade entre treze e trinta anos; atestado de
saúde e ausência de qualquer defeito físico que prejudicasse o exercício do magistério,
O currículo da Escola Normal foi alvo de modificações em toda a Era Vargas (1930-
1945): As disciplinas estabelecidas pelo Decreto nº 1.438/33, sofreram diversas alterações em
função da expedição dos decretos de números 1.522 de 28 de fevereiro de 1934 e o 111 de 02
de agosto de 1938, que estabeleceu um currículo regular, que perdurou por bastante tempo,
com as seguintes disciplinas: Português, Francês, Geografia Geral, Geografia do Brasil e
95

Cartografia, História da Civilização, Matemática, Física, Biologia e Higiene, Química,


Psicologia Educacional, Higiene Escolar e Noções de Puericultura, Metodologia Geral,
Metodologia Especial e Educação Moral e Cívica Geral, História da Educação, Desenho
Pedagógico, Educação Física, Trabalhos Manuais e Economia Doméstica.
A existência do ensino normal como preparação para o magistério, além da Escola
Normal Oficial, na capital, que desde de a Reforma do ensino de 1910, passou a ser modelo
para outras escolas normais que surgissem no Estado, o magistério secundário podia ser
encontrado no Colégio Sagrado Coração de Jesus, também, em Teresina( Equiparada pelo
Decreto n º 1.213, de 11/04/1931), na Escola Normal Municipal de Parnaíba fundada em
1927( Equiparada pela Lei nº 1.196, de 18/07/1928) e na Escola Normal de Floriano, cuja
equiparação foi decorrente da Lei nº 1.407, de 07/07/1932.

8.5. O Liceu Piauiense na instrução pública

Outra importante iniciativa governamental, no ensino secundário, foi a reativação do


Liceu Piauiense, regulamentado, para essa nova fase republicana, pelo decreto n.63, de 14 de
dezembro de 1896, tendo em 1918, conseguido equiparação ao Colégio Pedro II no Rio de
Janeiro Ginásio Nacional, equiparação essa perseguida pelas administrações locais, que para
isso empreenderiam seguidas reformas no ensino secundário nos anos de 1896, 1898, 1910,
1916 e 1917.

No caso do Liceu do Piauí, ele esteve à mercê de todas as experiências por que
passou o ensino secundário no país. Nesse período (República Velha), as reformas
foram tão freqüentes, que algumas nem chegaram a ser implantadas e já era
substituídas. (QUEIROZ. 1992, P.108)

O quadro de professores do Liceu do Piauí ostentava relevo dentro da intelectualidade


local, além de pessoas de prestígio social. No entanto, as contratações se davam mediante o
concurso de prova escrita e de banca examinadora. Além desse importante requisito, os
candidatos deveriam ser brasileiros natos, maior de vinte e um anos, possuir moralidade e
bom comportamento mediante a apresentação de folha corrida, não sofrer de moléstia
contagiosa ou repugnante, nem defeitos físicos que incompatibilizassem com o exercício do
magistério, comprovado em atestado médico. Permanecendo vaga a cadeira, o governador
apontaria interinamente qualquer pessoa que julgasse conveniente.
96

[...] É nessa época que se projeta socialmente a “geração de ouro” da cultura


piauiense, a quem se deve a fundação da Academia Piauiense de Letras, em 1917. A
criação do Bispado do Piauí (1906) dá maior dinamismo à ação da Igreja, que passa
a manter o Colégio Diocesano (masculino) e o Colégio Sagrado Coração de Jesus
(feminino), em Teresina, além de uma rede de Patronatos e Colégios em cidades do
interior. Ao Liceu se junta a Escola Normal (1913) e mais tarde a faculdade de
Direito (1931). Filhos e filhas dos grandes proprietários, muitos vindos diretamente
da zona rural, juntam-se aos filhos da classe média urbana e começam a ter um
horizonte cultural mais amplo e moderno”. (MEDEIROS; In: Piauí: Formação –
Desenvolvimento – Perspectiva, 1995, p. 167).

Todos os esforços governamentais não foram, na República Velha (1889 - 1930), capazes
de dotar o Liceu Piauiense de uma matrícula significativa, conforme é possível comprovar no
quadro a baixo:

MATRÍCULA DO CURSO SERIADO DO LICEU – 1900-1922


Ano N° de Alunos Ano N° de Alunos Ano N° de Alunos
1900 60 1908 71 1916 16
1901 46 1909 84 1917 21
1902 40 1910 107 1918 12
1903 70 1911 96 1919 25
1904 25 1912 44 1920 28
1905 06 1913 27 1921 25
1906 29 1914 14 1922 21
1907 46 1915 39
Fonte: Sociedade Auxiliadora da Instrução. A Instrução pública no Piauí. Theresina: Papelaria Piauhyense. 1922.
P. 144-150.

Pode-se perceber pela análise da tabela acima que a instrução pública no Piauí
manteve-se oscilante, em grande medida por causa das políticas governamentais que pouco ou
quase nada contribuíram com investimentos na instrução pública. Embora o Liceu Piauiense
fosse a referência em instrução pública, o próprio estabelecimento não se mantinha imune das
crises que afetava a sociedade de modo geral.
Como claro exemplo dessa tensão na instrução pública piauiense basta observar a
quantidade de alunos matriculados por ele letivo naquele estabelecimento de ensino. Para Inêz
Vasconcelos (2009, p.44):
97

o Liceu Piauiense teve grandes avanços e retrocessos, passando por diversas


dificuldades, dentre elas a falta de professores qualificados e de prédio próprio,
chegando ao ponto de ser fechado. Esta instituição escolar superou as dificuldades,
conquistou a credibilidade da sociedade piauiense e tornou-se uma referência na
educação do Piauí, mantendo-se até hoje em pleno funcionamento com nome de
Colégio Estadual Zacarias de Góis, em homenagem ao seu fundador[...].

8.6. A Escola de Aprendizes Artífices

Aos filhos das camadas mais humildes da população era necessário oferecer, além da
instrução, um ofício. Por isso, desde 1849, quando foi criado na capital Oeiras, o
Estabelecimento dos Educandos Artífices, várias tentativas, se seguiram patrocinadas pelo
poder público, marcadas por fechamentos e reaberturas daquela escola profissionalizante no
Piauí.
Criado em 1849, o Estabelecimento de Educandos Artífices foi extinto em 1873 e
reaberto no mesmo ano. Extinto novamente em 1875. Reaberto por força da Lei Estadual nº
255, de 13 de junho de 1900 com a denominação de Liceu de Artes e Ofícios nem chegou a
funcionar. Reaberto em janeiro de 1910, com o nome de Escola de Aprendizes Artífices,
agora mantida pelo governo federal, em função de Decreto nº 7.566, de 25 de setembro de
1909, apresentando maior solidez, por tratar-se de um programa nacional.
A função desta escola estava bem explícita no decreto de criação, em atender: “aos
desfavorecidos da fortuna “e afastar da ociosidade ignorante, escola do vício e do crime”,
possibilitando condições para um: “indispensável preparo técnico e intelectual” com oferta de
cursos com seis anos de duração em tempo integral que envolvia além de disciplina de cultura
geral, oficinas de mecânica de máquinas, forja, serralheria, marcenaria, modelagem,
carpintaria, desenho técnico, ornamental e decorativo.
Essa escola, em 1918, estabeleceu critérios para o provimento, mediante concurso, de
cargos de magistério e de direção, e em 1921, em função de novas orientações do governo
federal, estabeleceu a necessidade da oferta de ensino elementar além de estabelecer uma
série de seções voltadas para a crescente indústria nacional (trabalhos em madeira, metal,
máquinas, instalações elétricas, artes gráficas, artes decorativas e eletrotécnica) ou outras que
atendessem vocações locais.
Modificada no início dos anos quarenta sua denominação para Escola Industrial do
Piauí (1941), posteriormente denominada Escola Industrial Federal do Piauí (1965); Escola
Técnica Federal do Piauí (1968); Centro Federal de Educação Tecnológica - CEFET (1997) e
98

no seu centenário (2009) modificado para Instituto Federal de Educação Tecnológica – IFET,
que hoje oferece diversos cursos técnicos profissionalizantes em nível de Ensino Médio e
Superior Tecnológico, com campi nos principais municípios piauienses: Teresina, Picos,
Parnaíba e Floriano.
O quadro abaixo revela o quanto foi difícil, pelo número de matriculas que a escola
apresentava a manutenção deste estabelecimento educacional nas primeiras décadas do século
XX.

FREQUÊNCIA À ESCOLA DE APRENDIZES ARTÍFICES


1910 - 1921
Ano N° de Alunos Ano N° de Alunos Ano N° de Alunos
1910 36 1914 74 1918 102
1911 54 1915 72 1919 79
1912 85 1916 68 1920 77
1913 73 1917 78 1921 76
Fonte: Sociedade Auxiliadora da Instrução. A Instrução Pública no Piauhy, Theresina: Papelaria Piauiense. 1922.
P. 103.

8.7. Iniciativas educacionais na Capital

Iniciativas particulares pontilharam as três primeiras décadas do século XX, suprindo de


alguma forma a omissão oficial no trato da educação, e possibilitando o acesso a uma camada
social melhor favorecida no conhecimento das letras, na reprodução e manutenção da
estrutura social vigente, enquanto a população pobre, campesina e urbana, sem a devida
assistência dos poderes constituídos, ficava à mercê da própria sorte e das poucas e
inconstantes escolas públicas.
Nesse período, diversos foram os professores que mantiveram escolas em suas
residências e atendiam as crianças em idade escolar, principalmente as do sexo masculino e
que pertencessem a uma classe social que pudesse pagar esses estudos, visto que essas escolas
tinham um caráter particular e dessa atividade os professores retiravam o sustento de suas
famílias. Os métodos e a estrutura física dessas escolas, no entanto, permaneciam semelhantes
às escolas públicas existentes nas décadas finais do século XIX.
Dentre as diversas iniciativas particulares e públicas que marcaram a educação
em Teresina, no período da Primeira República, podemos destacar: O Instituto Karnak (1890);
99

O Colégio Santo Antônio (1900); o Atheneu Piauiense; a Escola Noturna Municipal (1902);
Escola Noturna 14 de Julho, fundada pelo Centro Proletário (1904); o Seminário Colégio
Diocesano (1906); A Escola de Agrimensura do Piauí 1910, reconhecido de utilidade pública
pela lei 578 de 09 de julho de 1910; O Colégio 24 de janeiro (1915); O Patronato Agrícola,
criado pela lei nº 1.199 de 19 de julho de 1928 , porém, concretamente não chegou a se
efetivar; o Colégio Sagrado Coração de Jesus; o Colégio e Internato Bento XV (1915) .
No entanto, toda a estrutura educacional do Estado, pública e particular, não
conseguia chegar a atender todas as crianças, e o déficit educacional era patente:

Ninguém poderá calcular aproximadamente a quanto se eleva ainda a


percentagem dos que ficam à margem por falta de claros nas lotações de
nossas escolas públicas, impossibilitados de freqüentar escolas
particulares, a falta de meios, e nem a daqueles que por ignorância, não
manifestam menor interesse pelo aprendizado. [...] O interior do município
continua em completa carência de escolas. As que por ali existem não se
acham localizadas à distância que as tornem acessíveis a todos os
campônios, subsistindo grandes zonas delas desprovidas, em razão de se
atender em primeiro lugar aos núcleos mais populosos, ficando as
populações esparsas à margem de qualquer cogitação. (João Campos. In:
Almanaque da Parnaíba. 1940).

8.8. As Iniciativas educacionais no Interior

No interior do Estado, o governo piauiense, nos primeiros anos da República,


continuava limitando-se a manter escolas nas residências das professoras e a expedir Decretos
e Resoluções, regulando, criando e extinguindo escolas: Através do Decreto nº. 22, de 19 de
abril de 1892, do governador Coriolano de Carvalho e Silva (11/02/1892 a 1/07/1896),
extingue as cadeiras de Aritmética e Português de Parnaíba. O governo estadual do Piauí
parecia caminhar na contra-mão da história e contrário às propostas do movimento
republicano que era de expansão da rede escolar. (Ghiraldelli). Já o governo de Raimundo
Arthur de Vasconcelos (1/07/1896 a 1/07/1900) cria uma Escola Primária Mista, em 27 de
junho de 1900, em Parnaíba; e na administração de Álvaro Mendes (1/07/1904 a 5/12/1907) é
criada uma Escola Primária Mista, na localidade Morros da Mariana (Parnaíba), em 1906; Em
1908 foi reorganizada em Parnaíba, a Escola de Aprendizes Marinheiros, que subvencionada
pelo Ministério da Marinha, em 1910 inaugurou prédio próprio que passou a ser popularmente
conhecido como “Arsenal”, mas que encerrou em definitivo suas atividades no ano de 1914.
Mas, foram as iniciativas particulares que preencheram as páginas mais numerosas e
interessantes da história da educação no Piauí, nesta primeira fase republicana, com um
100

número significativo de escolas. Das principais cidades do Estado, nasceram escolas ligadas a
Ciclos Operários, Lojas Maçônicas, Ordens Religiosas, Comerciários e até ligadas as novas
religiões garantidas pela Constituição de 1891. A cidade de Parnaíba foi pródiga nessa
atuação, onde, para efeito de registro destacamos: O “Externato São José” de 1894 dirigida
por José Serra de Miranda; Em 1898, as senhoras Pepina Bastos e Severa Marques, fundaram
o Colégio Parnaibano, que encerrou suas atividade em 1903; Em 1906 fundou-se o Colégio
Diocesano por D. Geracinda Rosa Tavares e Silva. Em 1909, essa escola deixou de existir;
Em 04 de abril de 1907 foi fundado o Colégio Misto São Vicente de Paulo, mantido pelo
Conselho Particular das Conferências Vicentinas de Parnaíba; Em 25 de maio de 1907 é
fundado o Colégio Nossa Senhora das Graças pelas religiosas Irmãs dos Pobres de Santa
Catarina de Siena; Em 1908 o Dr. Olinto Gonçalves Amorim, fez a tentativa de implantação
de um ginásio, porém, de curta duração, denominado "Ginásio Parnaibano", Outro
estabelecimento de vida marcante foi o “Colégio Dom Joaquim”, fundado em 1909 e dirigido
pelos padres Olegário, Aarão e Bianôr Aranha; Dr. Antônio Godofredo de Miranda cria em
1914 o "Colégio Rio Branco"; a União Caixeiral fundada em 1918; Dr. Édson da Paz Cunha
fundou o “Colégio 19 de Outubro”; “Externato Santa Inês” de propriedade de Maria Rosa da
Fonseca, fundado em 1924 teve vida ativa até 1965; o Ginásio Parnaibano; A Escola Normal
(1927); o Instituto Nair Pinheiro; as Escola Maçônica 15 de Novembro e São João Batista e
o Colégio Nossa Senhora de Lourdes, foram iniciativas marcantes no universo educacional de
Parnaíba na Primeira República.
Sobre as diversas iniciativas particulares na educação, no “Livro do Centenário de
Parnaíba” (1945), Benedicto Jonas Correia, deixa o seguinte depoimento:

Em Parnaíba, o número destas escolas particulares foi sempre bastante elevado, e é


de lamentar não se possa traçar aqui um roteiro de todas essas células que tão
preciosa contribuição prestaram à cultura e à educação da sua juventude, dirigidas e
orientadas por educadores de méritos, cujos nomes ainda são pronunciados
reverentemente e sobrevivem às gerações que passam. [...] Estas gozavam da
preferência dos pais que podiam pagar o ensino dos filhos, funcionavam quase que
sempre superlotados, e nelas o ensino não se restringia à alfabetização da criança.
Seguindo orientação mais ampla, visava habilitar seus alunos a qualquer profissão e
aos exames parcelados nos estabelecimentos oficiais de ensino secundário.
(CORREIA, 1945, p. 174).

Em Parnaíba, além das muitas tentativas de criação de colégios, não podemos deixar de
ressaltar, as aulas ou escolas particulares que existiam nas residências de professores e
professoras, que foram marcantes para muitas gerações que conheceram somente esse tipo de
estabelecimento escolar, como foi a escola particular de D. Marocas Lima existente em 1892;
101

A Escolar Particular de Antônio Saraiva Leão de 1897; a Escola Particular do Professor José
Raimundo Serra que iniciou suas atividades no ano de 1900; O Monsenhor Constantino
Bozon e Lima, em 1910, passou a ministrar aulas particulares em espaço da Santa Casa de
Misericórdia onde era capelão. Destacamos, também, a ação educativa das professoras Maria
José de Pinho Raposo (Bibi Raposo); Zélia Mavignier Araújo; Dinorath Guimarães; Torquata
Araújo; Senhorinha Avelino; Maria Helena Oliveira e Raquel Magalhães.
O papel desenvolvido por esses professores, considerando época e local são de valores
inestimáveis e de uma importância inquestionável.
Num pleito de gratidão, Humberto de Campos, externa a importância desses mestres:

Algumas reflexões oportunas, que podem ser ajustadas à história e à vida de quase
todos os professores particulares, das educadoras sem títulos ou recompensas
oficiais, ‘Cornélias mães de cem Gracos’ que formam para o serviço da Pátria,
dando-se em holocausto quotidiano, centenas de cidadãos. [...] Votada à profissão
pela vocação pela necessidade, a retribuição depende, toda, do aproveitamento dos
alunos e da confiança dos pais. Severa e maternal, é ela, em muitos casos, a
formadora dos caracteres, desfigurados no domicílio. É ela, não raro, a verdadeira
mãe dos seus discípulos e a sua mais afetuosa conselheira. E é de imaginar o que
padecem esses corações afeiçoados, tendo de perder, pelo afastamento, cada ano,
uma dezena desses filhos adotivos, que lá se vão rumo dos ginásios ou, quando
pobres, para a luta surda, e sem glória, pela conquista do pão! Os moços, em geral,
são como os pássaros. Emplumada, a ave abandona o ninho que a aqueceu e o bico
que a alimentou. E nunca mais, no espaço imenso, reconhece a ave que, quando
implume, a agasalhou e protegeu. A professora primária, que nos faz digerir a
primeira semente do alfabeto ou nos ministra os ensinamentos rudimentares da
ciência, é essa ave generosa e magnânima, reveladora da imensidade e do mundo. É,
finalmente, a Mãe Preta do espírito, que nos dá o leite da primeira instrução”.
(CAMPOS, Op. Cit. 189-190).

As escolas públicas e primárias e propedêuticas até aqui mencionadas, criadas por leis
estaduais, municipais ou fruto da iniciativa particular, na realidade, funcionavam na casa do
próprio professor, de forma precária, ou em casa alugada para tal fim. A figura do Prédio
Escolar, planejado arquitetonicamente para o trabalho educativo, só vai ser conhecido em
Parnaíba em 1922, com a construção Grupo Escolar Miranda Osório, cuja construção do
prédio foi concluída em 15 de junho de 1922, no governo de João Luiz Ferreira. Em Parnaíba,
seguiu-se a construção do Grupo Escolar José Narcísio em 1928, quando administrava o
Estado Matias Olímpio de Melo e o Grupo João Cândido em 1º de julho de 1933 na
interventoria de Landry Sales Gonçalves.
Nos diversos municípios piauienses, a realidade não era muito diferente da relatada
sobre Parnaíba, segunda maior cidade do Estado. As iniciativas públicas eram extremamente
lentas, diante de um déficit escolar gritante, e repetiam-se os esforços particulares na
102
superação dos problemas educacionais. Merecem destaque no primeiro período republicano
(1889 – 1930), no interior do Piauí, as seguintes ações: Criação do Instituto Arco Verde
(1908), do Colégio Castelo (1913) e das Escolas Reunidas Padre Freitas todas em Piripiri. Em
Picos tivemos a criação do Grupo Escolar Coelho Rodrigues; em Floriano do Grupo Escolar
Agrônomo Parentes (1929), do Liceu Municipal e da Escola Normal de Floriano ambos de
1929. Em Corrente do Colégio Correntino Piauiense (1904) transformado posteriormente em
Instituto Batista Industrial (1920); do Grupo Escolar Costa Alvarenga em Oeiras (1929); do
Ginásio Amarantino (1927) e do Ateneu Rui Barbosa (1931) ambos em Amarante e do
Colégio Pedro II na cidade de Pedro II.

8.9. A Manutenção das Escolas piauienses no Período Republicano

Com a Proclamação da República dos Estados Unidos do Brasil, em 15 de novembro


de 1889, e a consequente convocação da Assembléia Constituinte, que resultou na
Constituição de fevereiro de 1891, ficaram garantidos a existência, em relação à educação
nacional, a laicidade nos estabelecimentos públicos (art.72 parágrafo 6.), o ensino secundário
e superior (arts.34,35 incisos II, III e IV). Mas o texto constitucional, semelhante ao do
Império, novamente não chegou a mencionar qualquer aspecto a respeito de recursos
financeiros para a educação. Ficando o financiamento e a manutenção da educação pública,
primária e secundária, à mercê dos recursos próprios das províncias e municípios.
Apesar do otimismo pedagógico das elites dirigentes do nascente Estado do Piauí e do
entusiasmo pela educação sustentado pela intelectualidade da capital, alguns fatores como a
baixa densidade populacional 1.08 hab/km²; uma proporção de alunos em relação a população
de 0,9% e uma despesa com educação de Rs 61:760$061 de uma receita de Rs 236:699$728
(dados de 1889 – ALMEIDA 2000 p. 293) levava a instrução pública no Piauí a caminhar a
passos lentos.
Os recursos para educação no Piauí, na Primeira República, sempre foram escassos
(Ver quadro n. - ). A insignificância de salários provocava o baixo nível de preparo de grande
parte dos professores e quanto à estrutura física das escolas, chegou-se mesmo a criar, por
parte do poder executivo estadual, uma loteria (1910) para angariar recursos destinados à
conservação de alguns prédios escolares.
Mesmo com parcos recursos orçamentários, o Estado lançava estratégias para ampliar
103

as matrículas chegando até a instituir multas aos pais que não matriculassem seus filhos no
ensino primário (Resolução nº. 267 de 29/06/1901).
O professor Martins Napoleão, Diretor Geral de Ensino do Piauí, em artigo, revela o
quadro até aqui descrito:

Verdade é, sem dúvida, que aquelas condições especiais derivaram sempre, ora do
limitado horizonte visual dos seus administradores; ora da pobreza, sovinice ou
indiferença do tesouro, contrárias ao espírito de iniciativa de alguns dirigentes; ora,
da própria limitação intencional dos serviços, dados, por achegas, entre rebarbas de
outros empregos, a cidadãos em vilegiatura de professores. Sobre isso, o descritério
partidarista, fábrica de escolas e prêmios de eleitores, com os docentes aliciados a
grau de parentes”. (Almanaque da Parnaíba – 1934- p. 57).

O professor João Campos, em artigo publicado pelo Almanaque da Parnaíba de 1940,


deixa evidente como se encontrava a educação estadual em Parnaíba.

Naquele tempo, o Estado não dava prédio escolar, nem mesmo mobiliário. Que
milagres tinha que fazer então um professor estadual, para arranjar casa e tudo mais
que exigia o exercício do magistério! Lembro-me de ter recebido, certo dia, a visita
de um inspetor escolar a quem, depois de apresentar meus 80 alunos de pé uns,
outros sentados em toscos bancos de cedro sem encosto, pedi intercedesse junto ao
governo para melhorar aquele ambiente escolar. Respondeu-me que não era só a
minha escola que assim estava, e acrescentou: “Vá fazendo o que puder e não se
preocupe muito com isso. (CAMPOS, 1940: p.34).

COMPARATIVO ENTRE RECEITA, DESPESAS GERAIS E DESPESAS COM


EDUCAÇÃO NO PIAUÍ – 1904-1929
Despesas com
Ano Receitas Despesas
Educação
1904 998:824$917 901:983$652 109:558$943
1905 1.016:026$437 1.619:519$598 111:250$107
1906 1.117:101$091 1.073:073$259 113:138$838
1907 1.487:958$987 1.228:803$866 117:572$548
1908 1.075:150$832 1.291:461$934
1909 1.355:751$396 1.289:379$026 137:943$892
1910 1.664:545$561 1.481:432$601 143:399$953
1911 1.569:239$999 1.575.:378$073 156:092$405
1912 1.487:748$340 1.684:981$110 150:915$036
1913 1.476:037$429 2.007:279$656 190:628$234
1914 1.315:249$989 1.490:040$630 176:569$018
1915 1.530:579$570 1.482:797$288
1916 1.850:009$079 1.511:530$887
1917 1.798:983$655 1.754:765$293 157:416$637
1918 2.024:825$924 1.991:494$940
1919 2.050:340$544 1.850:898$085
1920 1.932:871$907 1.866:887$513
104

1921 2.101:761$327 2.008:488$786 205:754$542


1922 2.871:021$778 2.228:680$387 211:028$240
1923 4.050:270$588 3.089:026$421 231:638$355
1924 3.332:614$753 4.359:476$967 234:478$711
1925 3.961:886$744 3.728:109$175 233.819$909
1926 3.859:310$921 3.824:844$845 267:848$961
1927 4.672:403$037 4.417:003$239 294:746$989
1928 5.151:041$225 5.669:332$448 625:429$139
1929 4.960:465$085 4.931:758$705 689:936$920
Fonte: CEPRO, Cronologia do Piauí Republicano. 1889-1930. Teresina: Fundação CEPRO, 1988. P. 217 e 221.

Percebe-se que as despesas com a educação, tanto em relação às receitas, quanto às


despesas, não atendem às necessidades educacionais do Piauí. A aplicação dos recursos,
mesmo no período da Primeira República, não atendeu a todas as demandas educacionais
existentes e deixaram lacunas no ensino público piauiense, difíceis de serem preenchidas nas
décadas posteriores.
105

9. CAPÍTULO VIII
O INÍCIO DA ERA VARGAS E A EDUCAÇÃO NO PIAUÍ

A Revolução de outubro de 1930 foi o marco referencial para o ingresso do Brasil, de


forma definitiva, no capitalismo da produção industrial. As forças produtoras rurais que
dominaram a política na República Velha perderam o poder e os subsídios que garantiam a
produção agrícola e o poder político. No entanto, a nova realidade brasileira, passou a exigir
mão-de-obra especializada e um conseqüente investimento maior em educação.
Seguindo a lógica desta preocupação, em 1930, foi criado o Ministério da Educação e
Saúde Pública que através de seu ministro Francisco Campos, passou a normatizar o ensino
por uma série de decretos: decretos nº 19.890 de 18/04/1931, de nº 21.241 de 19/04/1931 e o
de n.21.241, de 4/04/1932, regulamentavam o ensino secundário; decreto n.20.150, de 30 de
junho de 1931 regulamentava o ensino comercial e a profissão de contador; decreto de
n.19.851, de 11 de abril de 1931 regulava o ensino superior público e privado e as
universidades brasileiras.
No Piauí, as interventorias dos capitães Joaquim Lemos da Cunha e Landri Sales,
seguem as determinações emanadas da Capital Federal (Rio de Janeiro), no esforço da
organização do ensino, na construção de escolas e na montagem de um aparato administrativo
para a educação, que se efetiva com a criação do Conselho Estadual de Educação, conforme o
decreto nº 19.850 de 11 de abril de 1931, consubstanciado sua implantação somente em 1934.

9.1 A Implantação do Ensino do Ensino Superior

O produtivo e efervescente período histórico, representado pelos anos trinta, foi


preparado pelos movimentos sociais, políticos e militares da década anterior, a exemplo da
fundação do Partido Comunista do Brasil (1922), das Revoltas Tenentistas (1922 a 1924),
Coluna Prestes (1924-1927) e da crise econômica de 1929, que traduziram suas ações e
discursos em insatisfações contra as oligarquias e o sistema republicano vigente, culminando
com a Revolução de 30 e a chegada de Getúlio Vargas ao poder.
Mas a década de vinte também foi rica para o setor da educação. Vários Estados
deflagraram reformas em suas estruturas de ensino (Piauí, Ceará, Pernambuco, Bahia, Rio de
Janeiro, São Paulo e Minas Gerais), estruturando melhor a educação primária e secundária.
106

Com o início da Era Vargas (1930-1945), criou-se o Ministério de Educação e Saúde (1930),
tendo como primeiro dirigente, Francisco Campos, jurista e político mineiro, que no
ministério tem suas ações orientadas para a reforma do ensino, superior e secundário.
Diante de um quadro mais otimista em que se apresentava a educação no Piauí, ao
final do primeiro período republicano é, principalmente, após o processo revolucionário de
1930, intelectuais como Higino Cunha, Cromwell Barbosa de Carvalho, Luiz Mendes Ribeiro
Gonçalves, Mário José Baptista, Giovani Costa, Leopoldo Cunha, Francisco Pires de Gayoso
e Almendra, Cristino Castelo Branco e Álvaro Ferreira, começam a levantar bandeira, em
artigos na imprensa local, da necessidade urgente de se criar um curso superior no Piauí.
Levada a cabo, essa idéia concretizou-se quando, em 14 de abril de 1931, foi solenemente
instalada a Faculdade de Direito do Piauí, no antigo prédio da Assembléia Legislativa do
Estado.
[...] o título de doutor valia tanto quanto o de proprietário de terras, como garantia
para a conquista de prestígio social e de poder político. Era compreensível, portanto,
que, desprovida de terras, fosse para o título que essa pequena burguesia iria apelar,
a fim de firmar-se como classe e assegurar-se o status a que aspirava.
(ROMANELLI, 2001, p. 37).

O funcionamento dessa unidade de ensino superior contou com o decisivo apoio da


elite social e intelectual do Estado. Trabalharam como docentes catedráticos nos primeiros
anos de Faculdade de Direito: Francisco Pires de Castro, diretor; Simplício de Sousa Mendes,
vice-diretor; Joel de Andrade Sérvio, secretário, e os professores Cromwell Barbosa de
Carvalho, Francisco Pires Gayoso de Almendra, Adalberto Correia Lima, Heli Fortes Castelo
Branco, Higino Cunha, João Emílio Falcão Costa, João Osório Porfírio da Mota, José de
Arimatéa Tito, José Messias Cavalcante, Simplício de Sousa Mendes, Mário José Batista,
Antonio José da Costa, Cristino Castelo Branco, Ernesto José Batista, Giovani Costa, Gonçalo
de Castro Gonçalves, Pedro Borges da Silva, Raimundo de Brito Melo, Daniel Paz, Joaquim
Vaz da Costa e Waldemir de Abreu.
A Faculdade realizou seu primeiro exame de ingresso (vestibular) em 1 de junho de
1931, para o curso que seria ministrado em cinco anos, contando como disciplinas básicas:
Introdução à Ciência do Direito, Economia Política e Ciências das Finanças, Direito Civil,
Direito Penal, Direito Público Constitucional, Direito Comercial, Direito Internacional
Público, Direito Judiciário Civil, Medicina Legal, Direito Judiciário Penal, Direito
Administrativo e Ciência da Administração.
107

Diante do excelente quadro docente apresentado e com a realização do vestibular, a


Faculdade de Direito teve o seu Reconhecimento efetuado, pelo Decreto número 1.196, do
Governo Estadual, assinado pelo interventor federal, capitão Joaquim Lemos da Cunha,
considerando-a de utilidade pública e declarando válidos, para todos os efeitos, no território
piauiense, todos os diplomas por ela expedidos, além de ceder novo prédio para acomodar a
faculdade precariamente instalada no prédio Câmara.
Mas, dificuldades de ordem financeira levaram seus idealizadores e mantenedores a
transferir ao governo do Estado o custeio da Faculdade de Direito, que oficializou essa
incorporação em 16 de agosto de 1932, pelo Decreto número 1.471, assinado pelo interventor
federal capitão Landri Sales, como estabelecimento de Ensino Superior do Governo Estadual.
Na condição de instituição de Ensino Superior, de caráter estadual, a Faculdade de
Direito de Piauí, passou a ter um novo regimento, outorgado pelo decreto estadual número
1.545, assinado por Landri Sales, em 22 de maio de 1934. Esse decreto estabelecia para a
Faculdade de Direito, um Conselho Técnico e Administrativo, que foi posteriormente
revogado pela lei número 129, de 7 de julho de 1937, pelo governador Leônidas Melo.
Consolidando sua condição de instituição superior de ensino, a Faculdade de Direito
do Piauí diplomou, em 1935, sua primeira turma de 16 bacharéis, todos homens, que vieram a
ocupar, em pouco tempo, os mais relevantes e importantes cargos na magistratura e na
política do Estado. No entanto, quebrando esse ciclo masculino e patriarcal que caracterizava
a Faculdade de Direito, em 1939, graduou-se a primeira mulher, Júlia Gomes F. Viegas.
Em 10 de novembro de 1937, ocorreu a implantação no país, de uma ditadura civil,
liderada por Getúlio Vargas que promoveu um auto-golpe, outorgando à nação uma nova
Constituição que legitimaria o autoritarismo do Estado Novo e confirmando no governo do
Piauí, Leônidas Melo, agora como interventor federal.
Ocorreu que sob esse novo regime centralizador, a Faculdade de Direito do Piauí, foi
desoficializada, através do decreto número 30, de 8 de fevereiro de 1938, assinado por
Leônidas Melo, como instituição pública estadual, em função do decreto federal que proibia a
acumulação de cargos públicos.
Visto que a maior parte do quadro docente da Faculdade de Direito ocupava cargos
na Administração e no Judiciário, portanto vinculados ao governo, não poderiam mais atuar
como professores da rede pública estadual, passando a Faculdade a funcionar como
estabelecimento livre de ensino superior, autorizado pelo Decreto Federal número 509, de 22
de junho de 1938, que concedia o prazo de dois anos para adaptação às exigências da
Legislação Federal, nos termos do Decreto número 421, de 11 de maio de 1938.
108

Visto que seria impossível a faculdade manter-se como instituição privada, custeada
somente com as mensalidades dos alunos, em 11 de abril de 1938, pelos decretos de números
55 e 56, o interventor Leônidas Melo autorizou o Estado do Piauí a conceder subvenções
financeiras à Faculdade e doar o prédio de propriedade do Estado (Grupo Escolar Abdias
Neves) à rua Coelho Rodrigues, para a pioneira instituição de ensino superior do Piauí.
Terminado o prazo, em abril de 1942, para as adaptações como instituição superior
livre, foi a Faculdade inspecionada por uma comissão composta pelos seguintes membros:
Paulo de Assis Ribeiro, enviado do Ministério da Educação e Saúde; Argemiro Freire
Carneiro, diretor da Escola Industrial de Teresina e José Alves da Silva, Inspetor Federal
junto a Faculdade.
A referida Comissão enviou relatório conclusivo à Diretoria do Ensino Superior em
26 de abril de 1942. Após análise e ajustamentos necessários, a Faculdade recebeu
reconhecimento definitivo pelo Decreto-Lei de número 17.551, de 9 de janeiro de 1945,
assinado pelo presidente Getúlio Vargas.
Em 4 de dezembro de 1950, em função da Lei número 1.254, a Faculdade foi
federalizada, passando a integrar o Sistema Federal de Ensino sob responsabilidade do
Ministério da Educação e Saúde/Diretoria do Ensino Superior.
O Decreto-Lei número 5528, de 12 de novembro de 1968, abriu à expansão de novos
cursos superiores e a possibilidade real da criação da Fundação Universidade Federal do
Piauí- FUFPI, com autonomia administrativa, patrimonial, financeira e didático-científica.
No Congresso Nacional iniciaram-se, em 1969, os debates em torno do projeto de
criação da Universidade Federal do Piauí, que recebeu emenda do deputado federal, Francisco
das Chagas Caldas Rodrigues, incluindo a Faculdade de Administração do Piauí com sede em
Parnaíba, como o quinto curso necessário à criação da Universidade.
Em 1 de março de 1971, foi instituída oficialmente como Universidade Federal do
Piauí. Sua constituição englobou as unidades isoladas de ensino superior preexistentes,
incorporando, assim, a tradicional Faculdade de Direito, além das Faculdades de Filosofia,
Odontologia e Medicina, localizadas em Teresina e mais a Faculdade de Administração, em
Parnaíba.

9.2 A Constituição de 1934 e a vinculação de Recursos para a Educação

Somente a partir dos anos de 1930, é que uma agenda social passou a ser
incorporada no discurso e nas políticas do Estado brasileiro, refletindo uma tendência
109

mundial. As raízes do modelo de política social e de financiamento desses setores no Brasil


possuem forte influência de alguns países da Europa. Esse modelo de financiamento, que
busca fontes de recursos autônomas e distintas da Receita Tributária para o setor social, será
posteriormente priorizado nos governos militares (1964 – 1985), com a introdução das
contribuições sociais que passaram a ser cobradas (Pinto 2000).
Antes da promulgação da Constituição de 1934, algumas informações apontavam
para a criação de uma taxa de educação e saúde, em 1932 com o objetivo de constituir fundo
especial para as duas áreas.
Vale enfatizar, também, que a prática que vai sendo construída, da criação de fundos
especiais (com tempos determinados), para áreas específicas de ensino em contraposição a
uma política global e sistemática de financiamento para a educação, vão se revelando
inconstantes e inseguras, o que levou os legisladores brasileiros, por pressão de entidades de
educadores e da sociedade em geral, a buscar algo mais consistente. A saída era a vinculação
de um percentual mínimo dos recursos tributários para a educação na Constituição Federal.
A convocação da Assembleia Nacional Constituinte, revelara-se o momento ideal
para lutar pela implementação dessa vinculação.
No processo constituinte, no clima de reconstrução nacional são estabelecidas as
balizas de um processo de modernização do Estado, reconhecendo as carências de uma Nação
em desenvolvimento e buscando supri-las. As discussões sobre a educação traz teses de bases
renovadoras e descentralizadoras.
A carta de 1934 é a primeira a dedicar espaço significativo à educação, com 17
artigos, 11 dos quais em capítulo específico sobre o tema (cap. II, arts.148 a 158). Em linhas
gerais, mantém a estrutura anterior do sistema educacional, cabendo à União “traçar as
diretrizes da educação nacional” (art.5, XIX), “fixar o plano nacional de educação,
compreensivo do ensino de todos os graus e ramos, comuns e especializados, organizar e
manter os sistemas educativos dos territórios e manter o ensino secundário e superior no
Distrito Federal (art. 150), assim como exercer “ação supletiva e educativa em todo o país”
(art.150, “d” e “e”).
A organização e manutenção dos sistemas educativos permanecem com os Estados e
o Distrito Federal (art.151). Entre as normas estabelecidas para o Plano Nacional de Educação
estão o “ensino primário integral é gratuito e de frequência obrigatória extensivo aos adultos e
tendências à gratuidade do ensino ulterior ao primário, a fim de o tornar mais acessível”
(art.150, parágrafo único, “ a “ e “ b”) .
110

Ao lado de ideias liberais, o texto constitucional também expressa tendências


conservadoras, favorecendo o ensino religioso “de frequência facultativa [...] nas escolas
públicas primárias, secundárias, profissionais e normais (art.153). Tais influências também
estão presentes no apoio irrestrito ao ensino privado através da isenção de tributos a quaisquer
“estabelecimentos particulares de educação gratuita primária ou profissional, oficialmente
considerados idôneos” (art.154).
Importante matéria do texto é o financiamento da educação. Pela primeira vez
definidas vinculações de receitas para a educação, cabendo à União e aos municípios aplicar
“numa menos de 10% e os Estados e o Distrito Federal numa menos de vinte 20%, da renda
resultante dos impostos na manutenção e no desenvolvimento do sistema educativo“ (art.156).
Nos mesmos termos é estabelecida a reserva de parte dos patrimônios da União, dos Estados e
do Distrito Federal para a formação de fundos de educação (art.157). São ainda atribuídas
responsabilidades relativas às empresas com mais de 50 empregados na oferta de ensino
primário gratuito (art.139).
Outros destaques do texto de 1934 são: as normas do Plano Nacional de Educação,
prevendo “Liberdade de ensino em todos os graus e ramos observadas as prescrições da
legislação federal e da estadual e reconhecimento dos estabelecimentos particulares de ensino
somente quando assegura a seus professores a estabilidade, enquanto bem servirem, e uma
remuneração condigna “(art.150, parágrafo único, “c” e “f”);oferta do ensino em língua pátria
(art.150, “d”); Finalmente, vale citar dispositivos relativos ao magistério: a isenção de
impostos para a profissão de professor (art.113, inciso 36) e a experiência de concurso público
como forma de ingresso ao magistério oficial (art.158).
Para a organização da educação brasileira esta Constituição é considerada um
divisor de águas. É a primeira vez que o país vive a garantia da educação como direito de e
dever da família e do Estado. Art. 149. A educação é direito de todos e deve ser ministrada
pela família e pelos poderes públicos, cumprindo a estes proporcioná-la a brasileiros e a
estrangeiros domiciliados no país, de modo que possibilitem eficientes fatores da vida moral e
econômica da Nação, e desenvolvam num espírito brasileiro a consciência da solidariedade
humana.
Mantém a gratuidade do ensino primário e propõe sua extensão para outros níveis de
ensino. Art.150. Compete à União: [...] b. tendência a gratuidade do ensino educativo ulterior
ao primário, afim de torná-lo mais acessível.
Trata também de fundos para o financiamento, em contraposição a uma política
global e sistemática de financiamento da educação.
111

Art 157. A União, os Estados e o Distrito Federal reservarão uma parte dos
seus patrimônios territoriais para a formação dos respectivos fundos de
educação.
§ 1° As sobras das dotações orçamentárias, acrescidas das doações,
percentagens sobre o producto de vendas de terras publicas, taxas especiais e
outros recursos financeiros, constituirão, na União, nos Estados e nos
Municípios, esses fundos especiais, que serão applicados exclusivamente em
obras educativas determinadas em lei.
§ 2° Parte dos mesmos fundos se applicará em auxílios a alunnos
necessitados, mediante fornecimento gratuito de material escolar, bolsas de
estudo, assistência alimentar, dentaria e medica, e para villegiaturas.

Outros destaques do texto de 1934 são: as normas do Plano Nacional de Educação,


que previa “Liberdade de ensino em todos os graus e ramos observadas às prescrições da
legislação federal e da estadual e reconhecimento dos estabelecimentos particulares de ensino
somente quando assegura a seus professores a estabilidade, enquanto bem servirem, e uma
remuneração condigna “ (art.150, parágrafo único, “c” e “f”); a oferta do ensino em língua
pátria (art.150, “d”); Finalmente, vale citar dispositivos relativos ao magistério: a isenção de
impostos para a profissão de professor ( art.113, inciso 36) e a exigência de concurso público
como forma de ingresso ao magistério oficial ( art.158).
A origem da vinculação de um percentual mínimo de recursos tributários para
educação encontra-se na Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil de 1934,
que surge em meio ao clima de reconstrução nacional, onde se fazia necessário estabelecer as
balizas de um processo de modernização do Estado, reconhecendo as carências de uma nação
em desenvolvimento e buscando supri-las. Trouxe, portanto, a Constituição de 1934, bases
renovadoras e descentralizadoras.
A Constituição Estadual do Piauí de 1935 incorpora o texto nacional assegurando
pela primeira vez, percentuais mínimos de recursos para a combalida educação estadual.
Mas, o auto-golpe promovido por Getúlio Vargas em 10 de novembro de 1937, com
a implantação da ditadura do “Estado Novo” e a outorga de uma nova Constituição ao país,
112
afastava as esperanças das soluções dos problemas de manutenção e financiamento da
educação, pois a Constituição do Estado Novo, acabou com a vinculação de recursos para a
educação.
A questão da vinculação Constitucional de recursos à educação no Brasil, sofrerá ao
longo da implantação de períodos distintos da história republicana e a promulgação de
sucessivos textos constitucionais, avanços e retrocessos: A Constituição de 1937 retira a
vinculação, a de 1946 retorna, a de 1967 extingue, a de 1969 mantém o fim da vinculação,
incorporando posteriormente a Emenda Calmon que restabelece a vinculação de recursos a
Constituição atualmente em vigor , promulgada em 1988, assegura essa vinculação aos
percentuais de 18% para a União e de 25% para Estados e Municípios.
113

10. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Estudos sobre a manutenção e financiamento da educação no Brasil, após o advento da


vinculação constitucional de recursos (1934) e mais recentemente do FUNDEF (1996), tem
despertado grandes interesses do mundo acadêmico e de esferas governamentais. Mas, o que
se observa é que a produção bibliográfica carece de ampliação e de um maior
aprofundamento, visto que o material publicado e que serve de referencial em pesquisas sobre
o tema, como MELCHIOR, PINTO, MONLEVADE e CURY assumem em suas obras
sempre abordagens nacionais e não se aprofundam nem oferecem subsídios de como se
processou a manutenção do ensino nas diversas províncias/estados do país.
Esta pesquisa buscou trazer reflexões a respeito da destinação de recursos para a
educação no Piauí, desde os tempos coloniais até a criação da vinculação constitucional de
recursos públicos para a educação, abrindo um corte cronológico extremamente grande. E por
se tratar de um período tão longo, os dados e informações aqui contidas desenham um quadro
heterogêneo entre iniciativas e ações públicas e particulares voltadas à educação. Porém,
encontramos um fator comum a todos os períodos estudados: a dotação de recursos, na grande
maioria das vezes, existia apenas nos documentos oficiais, mas não se confirmavam no
cotidiano, ou não eram suficientes para manter de fato as instituições educacionais da
Capitania colonial, da Província Imperial ou do Estado federado do Piauí.
Desenvolvemos em nosso estudo investigativo uma reconstrução do processo histórico
da educação no Piauí, ao tempo em que estabelecemos uma relação entre a educação
desenvolvida no Piauí e as diversas formas e estratégias para sua manutenção, constatando-se
as diferenças abissais entre o que era planejado e o foi efetivamente realizado.
Esse impasse criado entre o planejamento e ação já encontramos no Piauí no início do
período colonial, no qual os jesuítas, grupo integrante do projeto colonial português, que
recebiam recursos provenientes do dízimo arrecadado pelo Estado Metropolitano para manter
seus colégios e seminários, entre outras obras, tiveram uma atuação pífia no setor educacional
no Piauí, onde, a preocupação com as fazendas herdadas, os fez esquecer do projeto
educacional. Fosse pela necessidade de assegurar com as propriedades piauienses outros
estabelecimentos jesuíticos em outras capitanias ou por mera questão de sobrevivência, uma
vez que as subvenções que deveriam ser asseguradas pelo Estado Português, nunca eram
suficientes para garantir o sustento dos inacianos nem possibilitá-los a eles de realizar um
114

profícuo trabalho educativo, forçando-os a recorrer a doações e, muitas vezes, buscarem em


suas fazendas, recursos próprios para sustentação de suas obras missionárias. Concluímos,
então, que os recursos provenientes do dízimo, quase nunca chegavam até a Ordem Jesuítica,
porque muitos burocratas discordavam de sua destinação, inclusive cobrando impostos, dos
quais os padres eram isentos por lei.
Com a expulsão dos jesuítas por determinação do Marquês de Pombal, Ministro do
Rei Dom José I, o incipiente sistema educacional montado pelos padres da Companhia de
Jesus, foi completamente desmontado, levando a criação do que deveria ser um novo modelo
de educação para Portugal e as Colônias. Na prática, a Reforma Pombalina, revelou-se um
total fracasso, pois não levava em conta o cotidiano das pessoas nas diversas capitanias da
colônia, os professores, em grande maioria, não eram aptos a lecionar e os recursos sempre
foram insuficientes, por falhas na arrecadação e aplicação do imposto Subsídio Literário, por
entraves burocráticos, como a transferência da arrecadação do citado imposto do Piauí para o
Maranhão, levando o governo da nascente capitania do Piauí a arbitrar como salários aos
professores o ridículo pagamento em paneiros de farinha e, certamente, pela corrupção, um
velho problema que se agrava em Estados que se pretendem controladores de tudo e de todos,
cujo gigantismo só atrapalha a vida das pessoas comuns e de ações bem intencionadas.
A superação de todo nosso atraso educacional poderia nascer com a criação de um
Estado Nacional brasileiro, com um governo soberano, tendo como preocupações somente
nossos problemas. Sendo a Educação um desses problemas cruciais a ser cuidado pelo
nascente império, uma estratégia na resolução desse problema era assegurar em leis garantias
para a educação nacional.
A Constituição brasileira de 1824, foi uma das primeiras do mundo a prever o direito
de educação gratuita aos cidadãos (excluindo índios e negros), mas não previa a origem dos
recursos que assegurassem garantir tal direito. Esta incoerência levou governos provinciais
como o do Piauí, a buscar alternativas, como recorrer-se a loterias, bem como a utilização do
método de ensino mútuo ou Lancaster, que conforme apuramos em nossa investigação
resultaram em um fracasso retumbante.
Na iniciativa privada no período Imperial, ressaltamos as fracassadas tentativas de
particulares bem intencionados, que objetivavam preencher as lacunas deixadas pela educação
estatal no Piauí durante o período Monárquico. Não obstante, permanece o descaso com o
financiamento e a manutenção da educação, o despreparo dos mestres, as péssimas condições
físicas das salas de aula, as baixíssimas matrículas, apesar do nosso texto constitucional, de
forma avançada para época, assegurarem educação a todos.
115

O velho regime monárquico parecia não mais garantir nem viabilizar os sonhos
elementares da população brasileira. A cúpula militar através de um golpe de Estado implanta
a República. Com início do Período Republicano uma onda otimista traz novas esperanças ao
setor educacional. A propalada função redentora da educação traria melhoria de vida aos
cidadãos. Entretanto, assim como no Brasil e no Piauí, seguiu-se a infeliz tradição de se
estabelecer muitas regras e poucos recursos. O Estado continuava fazendo de conta que
tomava conta da educação, mas não conseguia prover seu sustento e ainda dificultava com
normatizações excessivas as tentativas particulares. No primeiro período republicano (1889-
1930) no Piauí, no setor educacional havia em demasia leis, teorias, ideologia, intransigência
e o que era pior: recursos e subvenções de menos.
As elites brasileiras representadas em nosso parlamento sejam no império ou na
república, sempre buscaram alternativas legais para garantir o financiamento da educação
pública como a criação de fundos e caixas educacionais.
Mas somente com a revolução de 1930 e a convocação da constituinte de 1933 é que
ganha corpo e se materializa na Carta Magna de 1934, a vinculação de recursos para a
educação oriundos de impostos, assegurando em percentuais mínimos o comprometimento
orçamentário da União, Estados e Municípios.
A fórmula da vinculação de recursos para a educação, apesar dos reveses que sofreu
em outras Constituições, tem se apresentado como uma das mais eficazes, que somada à
descentralização em fundos específicos nos dias atuais como o FUNDEB, vem conseguindo a
universalização e o estabelecimento de padrões mínimos de qualidade, qualificação do
pessoal do magistério, mas ainda pecando na aplicação correta e coerente dos recursos, na
fiscalização e na cobrança de resultados.
O Brasil é o segundo país do mundo que mais investe dinheiro público em educação,
em relação à percentagem do gasto total do governo, ficando atrás apenas do México. Porém,
a educação brasileira ainda é muito ruim no seu conjunto, pois o número de analfabetos ainda
ultrapassa os 14 milhões e entre as 100 melhores universidades do mundo, não há uma só
brasileira. (Relatório da OCDE – Organização para Cooperação e Desenvolvimento
Econômico-2006)
Na maratona da educação, o investimento não é a linha de chegada, mas de partida.
Segundo o jornalista J. R. Guzzo, “o Brasil aprendeu a gastar, mas não aprendeu a ensinar;
continua confundindo o ponto de partida com o ponto de chegada”.
116

Faz-se necessário na política de investimento na educação a consciência de que o


processo educacional é responsável pela formação de cidadãos e trabalhadores que podem
contribuir com sua força de trabalho no desenvolvimento da sociedade.
O trabalho que ora concluímos é uma contribuição que queremos oferecer à
historiografia da educação do Piauí, conscientes de que a complexidade do tema requer
aprofundamentos futuros, que elucidem ou tragam explicações outras de como se processou a
manutenção e o financiamento da educação no Piauí.
11- REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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