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3.

momento:
201

enquadramento
filiação
arquiteCTónica

200 Introdução Opções temáticas / objectivos / ESTRATÉGIA


203

Introdução
Nos troços da Rua de Sá da Bandeira que antece- bastante sóbria, encabeçada frequentemente
dem o nosso campo de trabalho, ainda temos o por frontões, numa alusão a uma tripartição de
cadastro com o lote estreito e comprido carac- alçados planos de rigoroso traçado geométrico.
terístico do Porto, onde podemos ver prédios de São bastante interessantes os estudos feitos

os primeiros prédios
habitação unifamiliar burguesa do Porto interca- para a imagem das novas ruas, abertas ou regu-
lados com prédios de rendimento do início do larizadas neste período, sobretudo pela necessi-
século XX, com imagens eclécticas e larguras de dade de adaptar este modelo à difícil topografia
alçado correspondentes à associação de dois portuense. No entanto estes conjuntos apenas

de rendimento
2
dos lotes de “6 metros” FIG.11 a 15. foram parcialmente construídos .
O que caracteriza o tecido da cidade cons- Existem excepções a esta regra de constru-
1 Notas
truída até o início do século XX é a associação de ção da cidade, vulgarizadas já a partir do século Construções destinadas à
habitação do proletariado em fila
compridas casas unifamiliares de duas frentes em XIX, período em que se disseminam pela malha ao longo do logradouro

do Porto
2 Baseado em FERRÃO, Bernardo
lotes estreitos e profundos, vulgarmente designa- urbana pequenos palacetes, regra geral com uma José – Projecto e Transformação
Urbana do Porto na Época dos
dos por “lotes de 6 metros”, numa alusão à sua imagem neoclássica, de três ou quatro frentes, a Almadas, 1758/1813, 3ª ed. Porto:
FAUP publicações, 1997, p.221-222
largura média. A profundidade destas constru- que se associam amplas áreas de jardim, gerando 3 “As tipologias de habitação
plurifamiliar surgem no Porto
ções ronda os vinte metros e o seu logradouro é uma nova parcela urbana. tardiamente. Isto é, quando em
Lisboa (para nos remetermos
utilizado para hortas e pomares, quando não ocu- A burguesia do Porto, bastante arreigada à só aos ritmos nacionais) se
1 construíam os primeiros prédios
pado por “ilhas” . Nas coberturas de quatro águas habitação unifamiliar, terá sentido alguma renitên- de habitação plurifamiliar de
rendimento na Avenida da
destas construções destaca-se o volume cónico cia em transferir-se para apartamentos e foi só Liberdade, na última década
de Oitocentos, no Porto nos
das clarabóias que, postas a meio da construção, muito depois de estes surgirem em Lisboa que as novos arruamentos – Rua de
Álvares Cabral -, construíam-
fazem chegar a luz ao centro da habitação. As cla- primeiras tipologias de habitação plurifamiliar se se sequências de habitações
3 unifamiliares de rendimento,
rabóias situadas, muito frequentemente, sobre as começaram a construir também no Porto . identificáveis com o tipo
georgiano. Esta hipótese não
escadas, fazem a luz chegar a divisões interiores De acordo com François Loyer, o prédio de prefigura, no entanto, a cidade
do Porto com um passado
a partir de janelas para aí orientadas. Os edifícios, rendimento surgiu em Paris no início do século próspero e com uma sociedade
exclusi vamente burguesa, em que
de cércea variável, geram uma silhueta recortada XIX: “a concentração urbana que começa no Primeiro cada família se instalaria na sua
habitação unifamiliar, alugada ou
no perfil da rua, bastante adaptada à topografia Império tem como consequência uma transformação não.” In FERNANDES, Francisco
Barata – Transformação e
acidentada da cidade. Dos seus alçados planos completa do sistema do habitat: a passagem gene- permanência na habitação
portuense – As formas da casa
projectam-se varandas corridas, de pouca pro- ralizada da casa privada para o prédio e o nascimen- na forma da cidade. 2ª ed. Porto:
FAUP publicações, 1999, p.14-15.
fundidade, e beirais salientes, cuja horizontalidade to do novo conceito de prédio de rendimento (…). A 4 Citação de LOYER, François –
Paris, XIXéme siécle, L’immeuble
equilibra a verticalidade das janelas e portas emol- novidade será que a repartição dos alojamentos por et la rue. Paris, Hazam, 1987,
p. 488 in MOTA, Nelson – A
duradas por cantarias, mais ou menos trabalha- piso (e a eventual subdivisão dos pisos, permitirão o Arquitectura do Quotidiano
Público e Privado no Espaço
das consoante a época, ainda que sem chegar alojamento de mais lares sobre uma única parce- Doméstico da Burguesia
4 Portuense no Final do Século
a afectar a extrema simplicidade da sua imagem la.” Nelson Mota acrescenta que “numa primeira XIX, Coimbra, edarq - Editorial
Departamento de Arquitectura da
de rua. Durante o século XIX, vulgariza-se o uso fase, esta transformação configura o apartamento FCTUC, 2010, p. 32.
5 Citação de MOTA, Nelson – A Ar-
do azulejo no revestimento de alçados e do ferro como uma desmultiplicação dos espaços da moradia quitectura do Quotidiano Público
e Privado no Espaço Doméstico da
forjado nas guardas de varandas. As alterações burguesa num único piso (…).Na primeira metade do Burguesia Portuense no Final do
Século XIX, Coimbra, edarq - Edito-
dos hábitos tiveram consequências sobretudo século, estes edifícios possuíam estabelecimentos rial Departamento de Arquitectu-
ra da FCTUC, 2010, p. 32.
na imagem que apresentavam para o interior do comerciais no contacto com a rua e armazenamento
quarteirão, onde começaram por ser introduzidos no entrepiso; por cima sucediam-se normalmente
os volumes verticais dos sanitários com acesso quatro pisos de apartamentos de habitação, sendo o
exterior por varandas, que, entretanto, foram sen- primeiro distinguido como ‘l’étage noble’. Uma subtil
do fechadas por marquises. hierarquização, inevitável numa burguesia obceca-
Durante o período Almadino, verifica-se da pelo estatuto, aparece tanto na localização do
5
uma tentativa de transformar a cidade e a sua edifício na cidade como dentro dele próprio.”
imagem com a proposta de alçados unitários
para conjuntos urbanos parcelados. Ainda que
sob um espírito cénico de cariz barroco, a sua
composição obedecia a uma matriz clássica

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No Porto, algures entre o séculos XIX e XX, as António Cardoso, autor de um doutoramento Finalmente, conclui, dirigindo-se à Câmara, que ‘as
9
novas construções inserem-se no traçado da sobre Marques da Silva , conta-nos a polémica fachadas dos prédios sobre a rua pertencem à parte
cidade por substituição ou por associação do gerada pelo volume projectado sobre a rua do arquitectónica do projecto, sobre o qual o arquitecto
tradicional lote comprido e estreito, não alteran- prédio da Rua das Carmelitas, criando o prece- é o mais qualificado para apreciar’. Afirma-se con-
do radicalmente o modo de construir a cidade, dente que possibilitou as ”bay windows”, até aí vencido de que ‘o Porto saberá acompanhar o pro-
mas introduzindo novas estéticas e diversifi- impedidas pela legislação: gresso das cidades modernas, no modo como devem
cando a, até aí bastante homogénea, imagem “A face exterior desse balcão está a distância ser feitas as edificações do centro da cidade, (…)’
da cidade: com a intensificação das ligações de 70 centímetros da rua, isto é, tem uma saliên- As reacções dos engenheiros Casimiro Barbosa e
à Europa Central, assistimos à proliferação de cia menor do que a que usualmente se permite a Almeida Machado são prudentes e colocam as compe-
códigos eclécticos nas novas fachadas. qualquer sacada. Como o decreto de 1864 proíbe tências de decisão no executivo camarário, convictos
6 Referido em: AA/VV – J. Marques
O prédio de rendimento mais antigo do da Silva - Arquitecto 1869/1947 as construções que se prolonguem sobre as ruas, de que na legislação portuguesa nada há regulamen-
(Catálogo de Exposição). Porto:
Porto a que encontramos referência na biblio- Secção Regional do Norte da insiste o arquitecto que ‘cachorros, pilastras, corni- tado sobre saliências nas edificações. A prática ante-
Associação dos Arquitectos Por-
grafia FIG.450 fomos encontrá-lo em publicações tugueses, 1986, p. 55; CARDOSO, jas, sacadas, lambrequins e beirais, enfim, todas as rior mostra-nos que os princípios de Marques da Silva
6 António – O Arquitecto José Mar-
dedicadas a Marques da Silva (1869-1947), ques da Silva e a arquitectura do saliências de uma fachada não são construções que encontraram acolhimento e o balanço sobre a rua vai
Norte do País na primeira metade
o arquitecto mais emblemático da cidade do do séc. XX, 2ª ed. Porto: FAUP prolonguem, são partes da construção’. ser visível em construções portuenses, que a utiliza-
publicações, 1997, p. 131.
Porto na viragem do século XIX para o século XX; 7 Citação de MAIO, Ana; PEREIRA, A propósito de anteparos, que é de uso colocar- ção da bow-window ainda fomentou, embora para tal
Luís Tavares; TAVARES, André
“a sua obra funda-se na aprendizagem da arqui- (coords.) – José Marques da Silva. -se nas varandas portuenses para cortar a vista dos seja considerada uma taxa de ocupação, referente à
Mapa de Arquitectura, Porto:
tectura académica, primeiro no Porto na Academia OASRN, C.M. Porto, 2009. prédios vizinhos, e que o código de posturas proíbe, área de projecção sobre a rua, certamente inibidora
8 Baseado em CARDOSO, António 10
das Belas Artes (1882-1889) e depois em Paris – O Arquitecto José Marques da o arquitecto lastima-os na vulgar aplicação, mas da sua mais larga utilização.”
Silva e a arquitectura do Norte do
onde frequentou a École Nationale de Beaux-Arts País na primeira metade do séc. defende-os quando, como no caso, eles são afinal o Duas décadas depois do prédio da Rua das
XX, 2ª ed. Porto: FAUP publica-
(1889-1896) como aluno de Victor Laloux (1850- ções, 1997, p.129. limite extremo da ‘loggia’, com um balanço que não Carmelitas, Marques da Silva constrói outro pré-
7 9 CARDOSO, António – O Arqui- 11
1937)” . Foi arquitecto Municipal de 14 de Abril tecto José Marques da Silva e a ultrapassa o de uma varanda. Concluí que ‘não é dio de rendimento na Rua de Alexandre Braga
arquitectura do Norte do País na
de 1904 a 31 de Agosto de 1907 e, entre outras primeira metade do séc. XX, 2ª ed. lícito proibir-se… que qualquer munícipe se desvie da FIG.451 , o qual já denota outro tipo de influên-
Porto: FAUP publicações, 1997.
práticas pedagógicas, foi regente da cadeira 10 Citação de CARDOSO, António banalidade deplorável da construção do centro da cias. Este, bastante mais austero, em vez do
– O Arquitecto José Marques da
de Arquitectura na Academia Portuense de Silva e a arquitectura do Norte do cidade’. Mas verifica, todavia, que nada há nas leis ambiente festivo meridional, remete-nos para
8 País na primeira metade do séc.
Belas-Artes onde, valorizando o desenho na XX, 2ª ed. Porto: FAUP publica- que defenda os seus direitos de ver aprovado o pro- o ascetismo da cultura protestante, nomeada-
ções, 1997, p.131-132.
concepção arquitectónica, influencia a geração 11 Referido em AA/VV – J. jecto, ‘feito num desejo louvável de tornar decorativa mente da britânica, com “bay windows”, ainda
Marques da Silva - Arquitecto
vindoura, que se refere ao mestre com apreço e 1869/1947 (Catálogo de Exposi- e interessante a fachada do seu prédio’. (…) que reinventadas e com apenas duas faces,
ção). Porto: Secção Regional do
veneração. Este prédio data de 1905, localiza-se Norte da Associação dos Arquitec- Dá o exemplo de Paris que tem regulamentado as projectando para o exterior apenas a linha dura
tos Portugueses, 1986, p.58.
na Rua das Carmelitas e a sua imagem contras- edificações sobre a via pública, nomeadamente com do vértice de um triângulo em planta. O granito
ta fortemente com a sobriedade da tipologia o decreto de 13 de Agosto de 1902 onde se prescreve do norte de Portugal assume aqui um carác-
de habitação burguesa a que antes fizemos o limite das saliências permitidas, o que, aplicado ao ter mais tectónico e menos decorativo; temos
referência: numa composição simétrica, para caso portuense, permitiria que as fachadas pudes- uma menor densidade de vazios e a exube-
além da nova e gigante escala sugerida, o alçado sem ter construções que saíssem fora do alinhamen- rância e voluptuosidade do primeiro foi aqui
é construído através de uma escultórica cantaria to 96 centímetros. E junta um desenho, indicando a substituída por um desenho ascético suaviza-
que prolonga a sua base até uns voluptuosos situação do balcão relativamente ao prédio vizinho do na delicada curva da platibanda, no remate
arcos; estes, auxiliados por gigantes figuras escul- mais alto, comparando-o com outro desenho, onde da sua silhueta contra o céu. Apenas recorre
pidas sob uns gigantes cachorros, sustentam, mostra os anteparos de madeira ‘que inesteticamen- pontualmente a ténues e subtis apontamentos
no seu terceiro piso, um pórtico projectado para te [ornam] as construções das fachadas do Porto’. decorativos, temas florais ou apenas baixos-
o exterior, criando uma sacada resguardada FIG. 450 Prédio da Rua das Carmelitas -relevos nas cantarias, com um desenho que
de Marques da Silva, 1905
por uma arcatura. Geram-se volumes no plano já nada tem de historicista. Detalhe curioso
do alçado, conferindo-lhe profundidade com é a utilização de portadas venezianas exte-
corpos salientes. Os arcos em cantaria produ- riores, completamente estranhas à tradição
zem enormes vãos, enquadrados pelo peso do
granito e pelo carácter barroco do seu dese-
nho, não apenas decorativo, mas trabalhado
tridimensionalmente.

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Tal como no alçado do prédio da Rua de FIG. 451 Prédio na Rua Alexandre
Braga de Marques da Silva,
FIG. 452 Gaveto das ruas de Sá
da Bandeira com a da Formosa de
Alexandre Herculano, podemos observar a viga 1925-28 Eduardo da Costa
Alves Júnior, 1917.
em ferro que permite abrir o grande vão do
comércio; um dos aspectos que salta à vista no
alçado do prédio da Rua das Carmelitas é o de
as vigas de ferro estarem pontualmente visíveis,
ainda que assimiladas no desenho dos caixilhos
dos seus enormes panos envidraçados, denun-
ciando uma estrutura mista com o uso da tec-
nologia do ferro. Esta tecnologia, explorada por
Marques da Silva em outras obras, tal como a
Estação de S. Bento cujo primeiro projecto data
12
de 1896 , na estrutura portante de prédios
de habitação foi apenas utilizada em conjunto
com alvenarias de pedra e nunca assumida no
seu alçado de rua.
O prédio da Rua de Alexandre Herculano é
uma obra bastante singular no panorama da
cidade do Porto. Ao invés, e independente-
mente da genialidade do seu desenho e do seu 12 Baseado em CARDOSO, António 14 Baseado em BRANCO, Luís
autor, o prédio da Rua dos Carmelitas é repre- – O Arquitecto José Marques da
Silva e a arquitectura do Norte do
Maria Aguiar; MARQUES, Maria
Augusta – Porto com Pinta. Porto:
correspondente ao troço desta rua que ante- São raros os exemplos de edifícios nesta cidade
sentativo e comunga algumas características País na primeira metade do séc.
XX, 2ª ed. Porto: FAUP publica-
[s.n.], [2005] (impressão: Ponto
Comum).
cede a nossa área de estudo FIG.11. À grelha que poderemos apontar como sendo genu-
com outros prédios do primeiro quartel do ções, 1997, p.712.
13 BRANCO, Luís Maria Aguiar;
15 Citação de BRANCO, Luís Maria
Aguiar; MARQUES, Maria Augusta
de cheios e vazios sobrepõem-se elementos ína e integralmente Arte Nova e os poucos
século XX disseminados pela cidade. Tal como MARQUES, Maria Augusta – Porto
com Pinta. Porto: [s.n.], [2005]
– Porto com Pinta. Porto: [s.n.],
[2005] (impressão: Ponto Comum).
decorativos com o desenho em voga de inspi- que existem são de habitação unifamiliar. No
neste, e em simultaneidade com o que suce- (impressão: Ponto Comum). ração Arte Nova e, a rematar superiormente o entanto, é bastante frequente, na construção
dia noutros países de cultura ocidental, são edifício, surgem mansardas francesas enci- do primeiro quartel do século XX, a utilização
vários os edifícios que, nesta época, adoptam madas por frontões. Este edifício data de 1917 de motivos decorativos de efeito Arte Nova,
linguagens eclécticas, com inspirações que vão e a sua autoria é de Eduardo da Costa Alves os quais seguem as vertentes que este esti-
desde o gótico, passando, entre outros, pelo Júnior, arquitecto que teve formação acadé- lo desenvolveu na Bélgica, em França, ou na
manuelino, e até pelo barroco. Alguns destes mica Beaux-Arts em Paris, onde, como muitos Secessão Vienense. Esta “moda”, nos prédios
portuense, onde se utilizam portadas interiores edifícios foram ilustrados no sector sul da Rua outros arquitectos portuenses que lhe são de rendimento, apenas se reflecte superfi-
14
almofadadas. Uma maior densidade de cheios de Sá da Bandeira FIG.13 a 15 e, inclusive, nesses contemporâneos, foi bolseiro ; “aos poucos cialmente numa “veste” para edifícios que
relativamente a vazios, o arco da entrada ou são visíveis “bay windows”, legitimadas pela arquitectos portuenses que frequentemente estu- mantêm uma grelha para abertura de vãos
a expressão arqueada nos cantos do vão do argumentação de Marques da Silva na defesa dam em Paris, onde recebiam influências do estilo herdada da construção da casa burguesa do
comércio, remetem-nos para um imaginário da “loggia” do prédio da Rua das Carmelitas. Beaux-Arts, eclectismos e apontamentos modernos Porto. Neste primeiro quartel do século XX, no
medieval, com uma muito ligeira e subtil alusão Numa publicação da Câmara Municipal arte-nova, surge contemporaneamente, uma hábil Porto, a adesão às novas tendências estilísti-
13
ao gótico formada no “bico” pontiagudo do do Porto figura um gaveto da Rua de Sá da geração de técnicos com formação em construção e cas na arquitectura corrente acontece com
vértice da “bay window” e nos rendilhados em Bandeira com a Rua Formosa FIG.452, cujo ritmo artes decorativas recebida nas Escolas Industriais algum desfasamento temporal relativamente
cantaria na varanda de expressão clássica. dos vãos no seu alçado menor, do lado da e Comerciais, e dada por informados professores às grandes capitais europeias, ainda que pouco
15
Eventualmente, na eleição de uma expres- Rua Formosa, se confunde com o do prédio estrangeiros convidados.” significativo. No entanto, regra geral, é claramen-
são medieval para o prédio da Rua de Alexandre vizinho, o qual, ainda que o piso térreo seja te uma aculturação, sendo apenas apreendidos
Herculano, não terá sido estranha a influência comum aos dois, lhe é claramente anterior. os seus motivos mais superficiais e decorati-
das obras do movimento Arts & Crafts e, talvez A fazer a viragem, usa, no cunhal, um corpo vos. A utilização do estilo Arte Nova, regra geral,
inclusive, da linha de pensamento que esteve na avançado com “bay windows”; este corpo, e resume-se apenas a alguns apontamentos nos
sua origem, mas nesta obra com um ambien- um outro que lhe é simétrico, preparam para motivos de enfeite de superfícies, picturais ou
te mundano que nos remete para a Arte Nova, a imagem ecléctica que constrói o alçado em baixo-relevo, e no desenho do ferro forjado,
numa expressão próxima da que este estilo deste quarteirão virado para a Rua de Sá da material que tradicionalmente já era, desde há
adquiriu na obra de Charles Rennie Mackintosh. Bandeira, defronte ao Mercado do Bolhão e muito, utilizado nas guardas de varandas.

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Artes
O primeiro dos edifícios do troço em estudo
da Rua de Sá da Bandeira a ser licenciado, em
1936, foi o Edifício Garantia FIG.33 A 58 E 300 A 311
de Júlio de Brito e, em conversa com a sua filha,

decorativas
soubemos que este se deslocou a Paris, antes
de iniciar este projecto, em busca de inspiração.
Para a sua imagem adopta o estilo Art Déco
com umas referências, no remate superior das
pilastras, ao futurismo de Sant’Elia.
O Art Déco é uma fusão e reinterpretação
gráfica das vanguardas da viragem do século;
não possuindo raízes em intenções filosóficas
ou políticas, constitui-se apenas como um esti-
lo que tende para uma maior geometrização:
a estilização da natureza da Arte Nova, neste
reduz-se a emoldurados padrões geométricos,
e as suas sensuais curvaturas são substituídas
por linhas quebradas e padrões geométricos,
aplicados na pormenorização e regradores de
toda a composição do alçado, a emoldurar, FIG. 453 - 455 Edifício da Rua do
frequentemente, uma representação estilizada sobretudo por fotografias de alçados de José Bonfim e detalhes do alçado do
edifício da Rua de General Silveira,
da natureza. Rodrigues, mostrando as obras devidamen- ambos de José Coelho Freitas e
de 1930
Na sequência do entendimento da Arte te datadas e com identificação das autorias,
Nova atrás descrito, era apenas natural que, complementadas por alguns textos e fichas
no Porto, o Art Déco se generalizasse e popu- de Manuel Mendes, mentor deste projecto e a
larizasse, tal como veio a suceder durante a quem se devem já algumas anteriores alusões
década de 30, facto que não terá sido alheio a estas arquitecturas sem pendor “heróico”.
à sua difusão na Exposição Internacional de Entre outras, surgem aqui pela, primeira vez,
Artes Decorativas e Industriais Modernas, algumas das obras em estudo e muitas outras
realizada em Paris em 1925, deixando marcas dos seus autores. Curiosamente, numa ordem 1 MENDES, Manuel (coordenador)
– (In)formar a modernidade –
profundas na imagem da cidade. O seu inerente cronológica, após o prédio da Rua de Alexandre Arquitecturas portuenses, 1923-
1943: morfologias, movimentos,
carácter decorativo induziu a que raramente Herculano de Marques da Silva FIG.451, os metamorfoses. Porto: FAUP
publicações, 2001.
tenha merecido a atenção por parte da teoria seguintes prédios de rendimento exibidos nesta 2 Baseado em MENDES, Manuel
(coordenador) – (In)formar a
arquitectónica e explica as raras alusões encon- publicação não são da autoria de um arquitec- modernidade – Arquitecturas
portuenses, 1923-1943:
tradas no início dos nossos trabalhos a prédios to, mas de um construtor civil diplomado, José morfologias, movimentos,
2 metamorfoses. Porto: FAUP
de rendimento no Porto deste período. Coelho Freitas . Ambos de 1930 e anteriores ao publicações, 2001, p.104.
3 Idem, pp.104-105.
No entanto, durante a investigação, a Edifício Garantia, são pequenos edifícios com 4 Idem, pp.106-109.

propósito de uma exposição com o espólio comércio nos pisos térreos, a que se sobre-
do arquivo da Faculdade de Arquitectura da põem apenas duas casas-andar de habitação,
Universidade do Porto, que detém o legado de com entrada e escadas partilhadas apoiadas
3
alguns dos autores desta época, surgiu uma na meação. Um situa-se na Rua do Bonfim
4
publicação intitulada “(in) formar a moder- FIG.453 e o outro na Rua de General Silveira FIG.454

nidade, Arquitecturas portuenses, 1923-1943: e 455 e, em variantes distintas, espelham bem


1
morfologias, movimentos, metamorfoses” , as imagens do estilo Art Déco que mais se vul-
onde a arquitectura civil desta época, até aqui garizaram no Porto.
ignorada, é subitamente ilustrada. Este catá-
logo demonstra um crescente interesse por
este género arquitectónico, sendo constituído

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A grelha rítmica, que no alçado do edifício da O reboco não é um veículo de expressão privile-
Rua do Bonfim se constrói apenas com demar- giado do Art Déco. A índole plástica deste estilo,
cações no reboco, constrói-se, no edifício da opulento e luxuoso, requer efeitos cromáticos,
Rua de General Silveira, com cantaria. Se, no padrões e superfícies texturadas. O granito
edifício rebocado, este material de revestimen- associa-se a uma ideia de solidez e perenidade
to gera uma imagem de “modernidade”, no e as estrias no edifício na Rua do Bonfim, de
outro, quer a aplicação dos típicos materiais Renato Montes VER EDIFÍCIO DA ESQUERDA NA FIGURA 453,
de revestimento, o granito e o azulejo (não o ou as pilastras do Edifício Garantia FIG.33, seriam
azulejo tradicional mas um novo, liso e rectan- mais convincentes se gravadas na pedra.
gular, gerando uma nova estereotomia), quer Contudo, considerando o custo acrescido da
as proporções dos vãos, constituem a ponte pedra trabalhada polida ou em cantaria, é mui-
entre a tradição e o novo estilo, conciliando a to provável, que nestes como na maioria dos
presença de motivos do novo estilo com temas casos, a opção do reboco se continue a dever,
emblemáticos da arquitectura portuense. sobretudo, a motivos de âmbito económico; o
Apesar de as casas vizinhas ao edifício da Rua uso da pedra limita-se ao embasamento, que
do Bonfim, por se destinarem a habitação unifa- no Edifício Garantia se reveste a mármore e se
miliar, saírem do âmbito deste trabalho, o acaso de eleva nos pórticos que marcam as entradas
aparecerem visíveis, e tão a propósito, na imagem no edifício; mesmo que as motivações não
que o ilustra FIG.453, torna demasiado tentador e tenham sido estéticas, com o Art Déco abrem-
irresistível não lhes fazer menção. No pouco que -se novos caminhos e novas possibilidades na FIG. 456 Prédio na Rua Conde
podemos vislumbrar de cada uma delas, vemos, utilização deste material que até então não se Na construção corrente, raríssimas vezes se No edifício da Rua Conde Ferreira, de 1934, Ferreira de Joaquim Mendes
Jorge, de 1934
7
na da direita, de António Joaquim Carvalho e de haviam explorado, tal como o demonstra Júlio utilizam estruturas mistas com a tecnologia do Joaquim Mendes Jorge mantém uma relação FIG. 457 Prédio na Rua da
Conceição de Manoel Marques e
5
1930 , os mesmos materiais de revestimento de Brito no Edifício Garantia. ferro, tal como o fez Marques da Silva. Na primeira de cheios e vazios que poderíamos encontrar Amoroso Lopes, de 1935.

do edifício da Rua de General Silveira e, na da Se José Coelho Freitas, na Rua de General metade da década de 30, começa a ser usual na construção de um alçado da tradicional
6
esquerda, de Renato Montes e de 1933 , vemos a Silveira FIG.454 E 455, utiliza os tradicionais mate- o recurso ao betão armado, ainda que, apenas habitação unifamiliar burguesa portuense
superfície do reboco estriada e uma fenestração riais de revestimento numa postura conciliado- de forma pontual, consistindo, frequentemente, FIG.456, inclusive com a mesma escala e propor-

idêntica à da casa vizinha, embora a alteração nas ra, já António Joaquim Carvalho, no edifício da apenas em vigas utilizadas para obter maior largu- ção dos vãos, ainda que estes estejam inseridos
suas proporções lhe confira uma outra feição. Rua do Bonfim VER EDIFÍCIO DA DIREITA NA FIGURA 453, ra nos vãos, tecnologia que a superfície rebocada numa grelha decorativa estilo Art Déco; através
No Edifício Garantia FIG.33, tal como noutros usa estes materiais prolongando uma tradição, absorve com maior facilidade. Entretanto come- de alguns apontamentos na superfície confere-
edifícios rebocados Art Déco, este revestimento é numa solução de continuidade, mas com uma 5 Baseado em MENDES, Manuel ça a ser usual a utilização, no núcleo interior da -se uma nova “roupagem” a sistemas que, na 7 Baseado em MENDES, Manuel
(coordenador) – (In)formar a (coordenador) – (In)formar a
assumido de um modo como até então não era nova expressão no desenho do vão; apesar modernidade – Arquitecturas construção, de sistemas estruturais reticulados sua essência, se mantiveram inalterados. Já modernidade – Arquitecturas
portuenses, 1923-1943: portuenses, 1923-1943:
comum. Antes, e até contemporaneamente, era do desenho na “moda”, os rasgos dos vãos morfologias, movimentos, em betão armado, tal como no Edifício Garantia no edifício da Rua da Conceição, de Manoel morfologias, movimentos,
metamorfoses. Porto: FAUP 8 metamorfoses. Porto: FAUP
vulgar encontrar construções com a modulação são recortados na superfície do alçado como publicações, 2001, pp.72-73. e nos edifícios que se lhe seguem imediatamente Marques e Amoroso Lopes e de 1935 FIG.457, o publicações, 2001, p.116.
6 Idem, p.68. 8 Idem, pp136-137.
do cimento a reproduzir o desenho próprio da can- sempre se fez e, exceptuando a sua sequên- na Rua de Sá da Bandeira. sistema compositivo geral é um Art Déco clas- 9 Citação de GONÇALVES, José
Fernando – Ser ou não ser
taria, num pastiche que se deve, exclusivamente, a cia rítmica e um remate superior do edifício sizante e monumental, onde os apontamentos moderno: Considerações sobre
a Arquitectura Modernista
motivos de economia no custo da construção. inédito no Porto (aspectos não visíveis nesta decorativos são livres interpretações de uma Portuguesa. Coimbra: Edições do
Departamento de Arquitectura da
A tendência para a abstracção remanescente imagem), o modo de compor é convencional. arquitectura vernacular. FCTUC, 2002, p.61.

do estilo Art Déco permitiu uma maior depu- Ainda assim, na imagem destes exemplos as O grande mentor da corrente que defende a
ração, os rasgos abrem-se directamente no rebo- menções a uma tradição são subtis, e aconte- recuperação de valores nacionais na arquitec-
co, sem se emoldurarem, assume-se o material cem sobretudo por coerência para com o seu tura portuguesa foi Raul Lino (1879-1974), cuja
e não se reproduzem texturas e estereotomias sistema construtivo que, no essencial, perma- ideologia ficou expressa no seu livro publicado
da pedra, ou de outros materiais. Permanece o nece o mesmo, com paredes estruturais em em 1929 - “A casa Portuguesa”, onde, citando
pavor da superfície lisa. Ainda que sem tentar ilu- alvenaria de granito e soalhos e travejamentos José Fernando Gonçalves, defende “sem hesita-
dir o material, o desenho herdado de formações em madeira. ções a recuperação das ‘formas portuguesas’, num
clássicas continua a induzir à utilização de frisos ‘percurso nacional’, alternativo à produção ecléc-
9
e molduras, que hierarquizam a composição em tica novecentista.” “Recusando as consequências
modulações similares às da cantaria. da realidade industrial de modelo centro-europeu,
proporá um modelo que, sem articular a dicotomia

210 Introdução Opções temáticas / objectivos / ESTRATÉGIA


213

estrangeirismo/nacionalismo, apela a uma solução Se, nos anos trinta, já se fazia sentir a influência 10 Citação de GONÇALVES,
José Fernando – Ser ou não ser
FIG. 459 Edifício Ateneia de
Júlio de Brito, de 1938
de continuidade histórica portuguesa, alheia ao de Raul Lino, adicionando o receituário nacio- moderno: Considerações sobre
a Arquitectura Modernista
moderno. O ideal romântico que defende, embora nal ao catálogo de estilos que os arquitectos Portuguesa. Coimbra: Edições do
Departamento de Arquitectura da
constituindo a primeira consciência da fractura tinham ao seu dispor, aquele não era, ainda, um FCTUC, 2002, p.60.
11 Citação de BANDEIRINHA,
moderna, manifesta-se na não aceitação do pre- estilo oficialmente imposto pelo regime fascista, José António Oliveira – Quinas
Vivas: Memória Descritiva de
sente, numa consciência infeliz da realidade. Com não existindo, como o afirma Sérgio Fernandez, alguns episódios significativos
do conflito entre fazer moderno
efeito, Raul Lino defende a especificidade cultural da “uma relação de coerência entre o conservadorismo e fazer nacional na arquitectura
portuguesa dos anos 40. Porto:
arquitectura portuguesa numa ligação nostálgica à que se instala e a expressão formal dominantemente FAUP publicações, 1996, p.57.
12 Idem, pp.77-78.
harmonia rural, em oposição a um mundo industrial utilizada pelos arquitectos que seguem os movimen- 13 Citação de FERNANDEZ,
Sérgio – Percurso, Arquitectura
de que não se conhecem verdadeiramente os contor- tos europeus com os quais, de resto, alguns tinham Portuguesa 1930/1974. Porto:
FAUP publicações, 1988, p. 17.
nos, mas de que se temem as consequências. Antes mantido contactos directos.” 13 A República, ao 14 Idem, pp.12-13.
15 Baseado em GONÇALVES,
mesmo da experimentação da sociedade moderna defender a exaltação dos valores nacionais, não vai José Fernando – Ser ou não ser
moderno: Considerações sobre
(industrializada), retoma o individualismo do espí- proporcionar campo para a renovação em curso das a Arquitectura Modernista
Portuguesa. Coimbra: Edições do
rito romântico oitocentista, procurando a definição vanguardas europeias. (…) Formados no ambiente Departamento de Arquitectura da
FCTUC, 2002, p.101.
da identidade do homem com a caracterização da cultural da República, os primeiros arquitectos de 16 Baseado em FERNANDEZ,
10 Sérgio – Percurso, Arquitectura
‘identidade’ do lugar.” expressão moderna exercerão a sua actividade em Portuguesa 1930/1974. Porto:
FAUP publicações, 1988, p.16.
No entanto, a catalogação que Raul Lino faz plena vigência do regime fascista; eclécticos por for- 17 Baseado em MENDES, Manuel
(coordenador) – (In)formar a
da arquitectura de cada região remete para o mação, ligados ao clima de exaltação nacionalista e modernidade: Arquitecturas
portuenses, 1923-1943:
“pitoresco”, por assentar “a procura dos valores e interessados na modernidade, produzirão em para- morfologias, movimentos,
metamorfoses. Porto: s FAUP
das permanências da arquitectura feita em Portugal lelo obras que se poderão filiar nas raízes históricas publicações, 2001, pp.184-185.
18 Idem, pp.132-133.
no estudo de um inventário, onde se privilegiam o evocadas na ‘Casa Portuguesa’ e obras que adoptam
carácter formal e o desenho de um conjunto de ele- diversos figurinos importados, como o futurismo, o
14
mentos compositivos, quer sejam escadas, loggias, expressionismo e o racionalismo.”
beirados, gárgulas, baldaquinos, balcões, eirados ou A “permissividade” que ainda se sente
11
chaminés.” E prosseguindo a citar José António durante os anos trinta deve-se, em grande
Bandeirinha: “Com efeito, o impacto da sócio- parte, a Duarte Pacheco que durante esta
-cultural da campanha de Raul Lino foi tão forte que década foi Ministro das Obras Públicas e, em
15
os seus efeitos duraram até hoje, quase um século simultâneo, Presidente da Câmara de Lisboa ,
volvido desde o seu começo. (…) Mas a contribuição e a António Ferro, líder do Secretariado de
decisiva é dada pelo valor obsessivamente didác- Propaganda Nacional, organismo criado em FIG. 458 Prédio na Rua de
Alexandre Herculano de Mário
tico dos seus projectos e das suas obras. É sob o véu 1933 para utilizar as artes com propósitos pro- Abreu, de 1937 conservadores, não levanta objecções a obras proposta de Mário Abreu para o prédio da Rua
16 17
da facilidade com que se copiam e se propagam os pagandistas . Naturalmente, ambos ocupam de cariz racionalista e António Ferro é um fervor de Alexandre Herculano, de 1937 FIG.458, o qual,
motivos decorativos propostos por Raul Lino que se importantes cargos no aparelho do Estado por entusiasta do orfismo, do modernismo e do tal como o Edifício Garantia, nos reporta para os
devem procurar as razões do êxito de uma campa- terem pontos em comum com o novo poder, futurismo italiano. É neste contexto, prova- desenhos de Sant’Élia: numa proposta densa,
nha como a da ‘Casa Portuguesa’, que começa por o qual, pese embora as manifestas diferen- velmente influenciado pela divulgação, sob a reinventam-se as “bay windows”, que se trans-
ter raízes românticas, atravessa depois, jovial e ças no plano económico e cultural, adopta os influência de António Ferro, das vanguardas formam num só corpo avançado no penúltimo
triunfante, o nosso republicanismo, deixando no ar modelos nacionalistas das ditaduras alemã e italianas, que surge a referência a Sant’Elia no piso, prolongando-se apenas na parte central
os seus aromas de Arts & Crafts”, percorre, intocável italiana como paradigma a seguir: António Ferro Edifício Garantia, edifício que assume o Art para o piso superior, de acordo com uma com-
e oportuna, toda a reacção nacionalista, desde os nutria uma profunda admiração por Mussolini Déco na sua vertente moderna e cosmopolita posição ascensional.
inícios até a decadência, e mostra os vestígios ainda e Duarte Pacheco estudou em Itália a obra de sem fazer quaisquer alusões regionalistas ou Júlio de Brito, num edifício que é pratica-
hoje, como alegada alternativa ao modo caótico de Piacentini, que tomará como referência. No historicistas, dando logo nesta esquina o tema mente contemporâneo ao Edifício Garantia, o
18
construir os nossos espaços contemporâneos. (…) Na entanto, se o universo de Raul Lino é nostálgico do ambiente mundano que se pretende para as Edifício Ateneia, datado de 1938 FIG.459, traba-
longa cruzada da ‘Casa Portuguesa’ a superficiali- e com um pendor eminentemente ruralista, partes novas da Rua de Sá da Bandeira. lha a fachada de granito com motivos deco-
dade prevaleceu sempre sobre o aprofundamento. E Duarte Pacheco, vivamente criticado pelos É bastante singular, no panorama portuense, a rativos Art Déco, sobrepõe na sua base uma
12
essa leviandade foi-lhe fatal.” varanda com uma balaustrada de desenho
clássico e acrescenta, no seu remate superior,
um óculo com expressão Arte Nova.

212 Introdução Opções temáticas / objectivos / ESTRATÉGIA


215

FIG. 460 Edifício Imperial de


Arthur de Almeida Júnior, de 1934

19 Baseado em MENDES, Manuel EDIFÍCIO SINGER, DE 1939,


Da variedade estilística do Edifício Ateneia tem para a fisionomia que este estilo perfilhou (coordenador) – (In)formar a
modernidade – Arquitecturas
simetria evidenciando o corpo das circulações estrutura e o alçado, e um tão bem controlado DE ARTHUR ALMEIDA JÚNIOR

depreende-se a “ligeireza” com que Júlio de do outro lado do Atlântico, no seguimento das portuenses, 1923-1943:
morfologias, movimentos,
verticais. Adelgaça na esquina aquele que se desenho da planta numa situação de difícil FIG. 461 Vista
FIG. 462 Plantas
Brito utiliza os vários códigos linguísticos que experiências da Escola de Chicago, denotando metamorfoses. Porto: FAUP
publicações, 2001, pp.156-159.
converte no seu alçado de topo, embora aqui implantação, os seus interiores seriam comuns
tem ao seu dispor, sem grandes preocupações outro tipo de influências para além daquelas 20 Idem, pp.30, 160-163. com expressivas curvas que o projectam para para a época.
relativamente à sua coerência. Nesta época, a que já referimos. o exterior. Adopta estratégias compositivas O caracter decorativo do Art Déco não
maioria dos arquitectos portugueses entende Na verdade, o Edifício Imperial não é exac- que se assemelham às do Edifício Garantia se aplica apenas a alçados mas estende-se
a arquitectura como uma questão de estilo e tamente um prédio de rendimento e apenas o FIG.33: marcações no reboco criam uma grelha à caracterização interior dos seus espaços,
gosto, confundem equivocadamente moder- ilustramos enquanto contraponto à atitude do de predominância vertical, agrupam os vãos, produzindo ambientes luxuosos e opulentos.
nismo com mundanismo, uma mera expressão autor do Edifício Garantia no Edifício Ateneia, o definem hierarquias e ritmos; os pisos repetem- No Porto, a aplicação das artes decorativas
de civilidade, e vêm-se como homens de cul- qual também, pela sua localização na Praça da -se iguais, distinguindo-se apenas o piso térreo, torna-se mais profusa em algumas moradias
tura universal, o que os torna aptos a projectar Liberdade, adquire um carácter excepcional, a estabelecer uma relação com o transeunte, e ou em edifícios de carácter público, mas nos
em todos os estilos, ora de importação, ora não sendo representativo do prédio de rendi- o remate superior, preparado no penúltimo piso prédios de rendimento, tal como o podemos
passadistas, ora nacionalistas. mento corrente na cidade do Porto. A atestar por uns muito subtis apontamentos decora- verificar no Edifício Garantia FIG.47 a 52, a simpli-
O emprego da cantaria de granito no a excepcionalidade destes edifícios, Arthur de tivos Art Déco feitos no reboco, sob os para- ficação estilística do Art Déco resultou num
Edifício Ateneia e, inclusive, o toque ecléctico Almeida Júnior, uns anos mais tarde, em 1939, peitos das janelas. A imagem exterior reflecte despojamento dos seus interiores, investindo-
da balaustrada da sua varanda, dever-se-ão à constrói no sector sul da Rua de Sá da Bandeira uma planta quase simétrica, apenas com -se apenas um pouco mais nas suas áreas de
20
sua “nobre” localização na Praça da Liberdade, o Edifício Singer FIG.461 e, tal como Júlio de Brito variações para as traseiras, na configuração das circulação comuns, tal como acontece no hall
criando uma aparência de “clássica moderni- no Edifício Garantia, emprega aqui o reboco áreas de serviço e dos saguões. Tal como no de entrada do Edifício Garantia FIG.39, mas onde,
dade” com o sentido de obter uma melhor inte- como único revestimento dos seus pisos supe- Edifício Garantia FIG.305 e 309, longos corredores mesmo assim, nas escadas se usa um lambril
gração na arquitectura monumental da praça. riores. O uso da cantaria de granito foi, ou uma distribuem para vários compartimentos, com em cortiça FIG.40 a 44, uma solução inovadora e
Já no Edifício Imperial, localizado na mesma oportunidade justificada pelas suas prestigiantes inflexões à entrada e no seu final, a primeira, experimental, mas económica.
praça do Edifício Ateneia e sendo ligeiramen- localizações ou seria, muito provavelmente, uma para criar a entrada, e a outra, para aceder a um O Edifício Garantia, para além de ser o exem-
te anterior FIG.460, de 1934, Arthur de Almeida imposição para as construções desta praça. espaço triangular no gaveto; de novo, quartos plo mais paradigmático do estilo Art Déco na Rua
19
Júnior alcança uma pacífica integração com O Edifício Singer situa-se num lote alongado e salas distribuem-se ao longo dos alçados de de Sá da Bandeira, é também um dos prédios de
um uso coerente do estilo Art Déco. Do seu e de reduzida profundidade FIG.462, numa situa- rua, enquanto as áreas de serviço e casas de rendimento mais emblemáticos desta corrente
alçado, intercaladas com as superfícies envidra- ção de gaveto, cuja forma é consequência do banho se voltam para os pátios interiores. Se na sua vertente mais internacional no Porto e
çadas, sobressaem umas pilastras em cantaria cruzamento da nova rua com uma outra que não fosse o alçado livre, criando passagens de dos poucos a acusar, de uma forma tão eviden-
de granito de desenho Art Déco que nos reme- lhe é anterior. No seu alçado gera um eixo de uns compartimentos para os outros entre a te, a influência do futurismo italiano.

214 Introdução Opções temáticas / objectivos / ESTRATÉGIA


217

ArquiteCTuras
O Edifício do Instituto de Inglês FIG.71 a 84 e 313
a 316 é bastante representativo daquelas arqui-

tecturas que se propagaram no Porto, gradual-


mente, durante a década de 30, que é comum

do reboco
designarem-se por “arquitecturas do reboco”:
arquitecturas que, no seu exterior, embora com
uma base maciça revestida a pedra, são sim-
plesmente rebocadas nos seus pisos superiores
e que utilizam reentrâncias e saliências neste
material para regrarem a sua aparência. No
Edifício do Instituto de Inglês pudemos verifi-
car, através das diferenças observadas entre o
projecto e obra construída, a enorme impor-
tância adquirida pelas reentrâncias do reboco
na composição. Estas arquitecturas prevalecem
sobretudo por motivos económicos, ainda que
se revelem também sintomáticas de uma “evolu-
ção do gosto orientada pela simplificação decorati-
va e formal a que as obras europeias do princípio do
1
século obedeciam” , “mas nos novos princípios de
simplificação cai-se num certo classicismo – blocos
cerrados, simetria, estereotomias elementares,
2
etc.”, tal como refere José Fernando Gonçalves.
O reboco gera imagens luminosas, em
alternativa à densidade do “soturno” granito
aparente, associado às arquitecturas ecléti-
cas e opulentas do início do século. Não são
arquitecturas brancas: a cor é obtida através de
pigmentos que se introduzem no reboco geran-
do tonalidades suaves, frequentemente creme, FIG. 463 Prédio da Rua de Ma-
galhães Lemos, de 1932, de José
pastel e até ocres. A obra de José Ferreira Penêda é bem Ferreira Peneda

Progressivamente, reduzem-se os motivos ilustrativa desta tendência, e o Edifício do


meramente decorativos, desaparece a estiliza- Instituto de Inglês FIG.71 é um dos casos mais
ção da natureza do Art Déco, mas permanecem paradigmáticos deste género, na sua vertente
as grelhas geométricas, os rasgos abrem-se mais classicizante; não obtivemos quaisquer
directamente no reboco e usam-se apenas dados biográficos sobre José Ferreira Penêda
as demarcações do material, substituem-se mas, entretanto, foram publicadas fotogra-
cornijas ou beirais por platibandas e a silhueta de fias de algumas das suas obras, as quais nos
paredes lisas recorta-se no céu, numa aproxima- surpreenderam por serem mais interessantes
ção gradual a uma imagem de modernidade. do que aquilo que os prédios analisados na Rua 1 Citação de GONÇALVES, José
Fernando – Ser ou não ser
de Sá da Bandeira nos fariam supor, e das quais moderno: Considerações sobre
a Arquitectura Modernista
ilustramos aqui apenas as que se destinavam a Portuguesa. Coimbra: Edições do
Departamento de Arquitectura da
prédios de rendimento. Todas estas obras são FCTUC, 2002, p.85.
2 Idem, p.30.
de um mesmo período, da década de 30, ligei-
ramente anterior às da Rua de Sá da Bandeira,
e nelas podemos aferir que a linguagem aqui
empregue já era anteriormente explorada por
José Ferreira Penêda.

216 Introdução Opções temáticas / objectivos / ESTRATÉGIA


219

467 Plantas do prédio da Rua de


Augusto Rosa, de 1935, de José
Ferreira Penêda

3 Baseado em MENDES, Manuel


(coordenador) – (In)formar a
modernidade: Arquitecturas
portuenses, 1923-1943:
morfologias, movimentos,
metamorfoses. Porto: FAUP
publicações, 2001, pp.112-113.
4 Idem, pp.146-149.
5 Idem, pp.174-177.
6 Idem, pp.178-179.
7 Idem, pp.146-149.
8 Citação de MENDES, Manuel
(coordenador) – (In)formar a
modernidade: Arquitecturas
portuenses, 1923-1943:
morfologias, movimentos,
metamorfoses. Porto: FAUP
publicações, 2001, p.250.

Em todas as obras de José Ferreira Penêda Em todos eles temos uma disposição com- edifico geminado na rua de Sá da Bandeira FIG.316 é
temos “bay windows” ou “bow windows”, tal pacta recorrendo ao saguão para iluminar e o desenho modelar na aplicação dos preceitos enun-
como no Edifício TAAG FIG.85, e o remate dos ventilar o seu núcleo central; o prédio da Rua ciados, em Augusto Rosa FIG.467 é a variação da solu-
volumes verticais gerados nas “bay windows” de Magalhães Lemos ocupa o correspondente ção numa solução de extrema densificação em que
por uma varanda corrida horizontal, composição a um lote tradicional do Porto, com apenas um ao princípio de esquerdo-direito-de-parcela se asso-
que tanto nos desconcertou na Rua de Sá da andar por piso e entrada e escada apoiadas cia o princípio de frente-traseira, forçando regras de
Bandeira, era um tema já recorrente na sua obra na meação; o da Rua de Augusto Rosa FIG.467 boa disposição interior a reboque duma densificação
3
(prédios das ruas de Magalhães Lemos FIG.463, faz a fusão de dois lotes, duplicando entradas que certamente tem a ver com rendas de capital; na
4
de 1932, e de Augusto Rosa FIG.464, de 1935, e e dispondo a planta simetricamente com dois Boavista é a solução aplicada na reinterpretação
7
dos gavetos com o Campo de 24 de Agosto, FIG. 464 Prédio da Rua de Augusto apartamentos por piso ; nos de esquina, as da solução corrente deste tipo de programa, com
Rosa, de 1935, de José Ferreira
um entre as ruas de Fernandes Tomás e de Penêda entradas para dois apartamentos por piso são alguns sinais de luxo – o elevador; escada e entrada
5 FIG. 465 Gaveto de Fernandes
Santo Ildefonso FIG.466, e o outro entre a Rua de Tomás com o Campo 24 de Agosto laterais. Como refere Manuel Mendes: “Nas de serviço autónomas, amplas zonas de serviço,
6 de José Ferreira Penêda, de 1936
Fernandes Tomás e o Campo de 24 de Agosto FIG. 466 Gaveto da Rua de Fer- soluções de José Penêda, o acesso-distribuição para mas uma distribuição demasiado condicionada pela
nandes Tomás com a Rua de Santo 8
FIG.465, ambos de 1936), embora nestas tenha Ildefonso de José Ferreira Penêda, os fogos atende moderadamente as soluções típicas forma e superfície exígua da parcela.”
de 1936
sido utilizado com uma pertinência e uma coe- do plurifamiliar: entrada, hall e escada submetem-
rência formais não detectadas no Edifício TAAG. -se ao princípio de parcelas divididas; o plurifamiliar
Resulta especialmente interessante a associa- resume-se à imagem de representação projectada
ção que faz das palas de betão sobre a varan- para a rua que nessa pujança ilude a magreza de
da, no edifício de gaveto da Rua de Fernandes áreas dos andares, e o saguão que na associação
Tomás com a de Santo Ildefonso FIG.466, apresen- ganha foros de pátio-garante de distâncias para a
tando um desenho que coincide com o recorte salvaguarda do privado. Nas soluções presentes, o
em planta dos corpos avançados.

218 Introdução Opções temáticas / objectivos / ESTRATÉGIA


221

FIG. 468 Gaveto na Praça Mouzi- FIG. 13 Baseado em BRANCO, Luís


nho de Albuquerque com a Av. da Maria Aguiar; MARQUES, Maria
Boavista de José Ferreira Penêda, Augusta – Porto com Pinta. Porto:
de 1937 [s.n.], [2005] (impressão: Ponto
Comum).

9 Baseado em BRANCO, Luís Maria


O edifício na esquina da Praça Mouzinho de No início dos nossos trabalhos não encontra- Aguiar; MARQUES, Maria Augusta
– Porto com Pinta. Porto: [s.n.],
Uns anos mais tarde, já da década de 40 e pos-
Albuquerque com a Av. da Boavista FIG.468, de mos praticamente nenhuma referência à obra [2005] (impressão: Ponto Comum).
10 Citação de BRANCO, Luís Maria
terior a todos aqueles que ilustramos até aqui,
9
1937 , assemelha-se na sua implantação e de Júlio de Brito (1896-1985), exceptuando Aguiar; MARQUES, Maria Augusta
– Porto com Pinta. Porto: [s.n.],
de 1942, é Homero Dias quem tem de resol-
volumetria ao Edifício Singer FIG.461 e 462 e, sendo- numa pequena monografia elaborada por [2005] (impressão: Ponto Comum).
11 MADUREIRA, António –
ver o encontro da Rua de Fernandes Tomás
11 13
-lhe anterior, antecipa-o em algumas soluções, António Madureira , onde podemos aferir a sua Monografia de Júlio de Brito
in Desenho de Arquitectura –
com a de Santa Catarina num lote com uma
nomeadamente na sua frente mais comprida, ascendência francesa e onde se referem algu- Património da Escola Superior
de Belas Artes do Porto e da
extensa frente e pouca profundidade FIG.470. Tal
12
também “marcada axialmente pela porta principal mas das suas obras , nomeadamente o edifí- Faculdade de Arquitectura da
Universidade do Porto. Porto:
como José Ferreira Penêda, no gaveto da Praça
e iluminantes estrias verticais, que denunciam a caixa cio de gaveto da Rua de Duque de Loulé com Universidade do Porto, 1987, pp.
50-51.
Mouzinho de Albuquerque com a Avenida da
10
de escadas central” ; neste caso a simetria da sua a de Alexandre Herculano FIG.469, onde este, 12 Que localizámos com a ajuda
do Arq. Luís Aguiar Branco,
Boavista FIG.468, ainda que com maior subtileza,
composição obtém-se desencostando o edifício em simultâneo com José Ferreira Penêda, se consultor do Arquivo Histórico da
Câmara Municipal do Porto.
cria tensões na sua esquina através de umas
da casa vizinha para obter uma terceira frente. deparou com uma implantação semelhante à pequenas palas que sublinham com a sua
do edifício da Praça Mouzinho de Albuquerque sombra o movimento da curva e, no centro
FIG.468 . Na imagem deste edifício de gaveto do seu alçado maior, através de varandas em
identificam-se muitas paridades com a obra de consola. Usa as demarcações no reboco para
José Ferreira Penêda: voltamos a ter o uso de regrar a composição, numa estratégia composi-
volumes verticais salientes com “bay windows”, tiva semelhante à de Almeida Júnior no Edifício
proporções similares na relação entre cheios e Singer FIG.461, servindo aqui para enquadrar os
vazios, o mesmo detalhe nas carpintarias dos vãos em alinhamentos horizontais que introdu-
vãos, o reboco como material de revestimen- zem uma forte dinâmica na curva do gaveto.
to sobre uma base revestida em pedra, etc., FIG. 469 Gaveto da Rua Duque FIG. 470 Gaveto da Rua de Santa
de Loulé com a Rua de Alexandre Catarina com a Rua de Fernandes
similitudes que o Edifício Garantia da Rua de Sá Herculano de Júlio de Brito, licen- Tomás, de 1942, de Homero
ça n.º 113 de 1937 Ferreira Dias
da Bandeira FIG.33, apesar de lhe ser contempo-
râneo, não indiciava.

220 Introdução Opções temáticas / objectivos / ESTRATÉGIA


223

FIG. 473 Alçado do licenciamen-


to do edifício de José Ferreira
Penêda para a Rua da Firmeza,
licença nº 55 de 1939.

Na recolha de informação sobre as licenças


de construção dos prédios na zona da Rua
de Sá da Bandeira, soubemos serem de José
de Ferreira Penêda uma sequência de quatro
edifícios contíguos na viragem para a Rua da
Firmeza: aqueles que visitamos na Rua de Sá
da Bandeira e, outros dois, já na Rua da Firmeza
(licenças nº 11 de 1938 e nº 55 de 1939) FIG.471
e 472 . Por esse e outros motivos foi, na altura, con-

siderado apropriado incluí-los no nosso estudo, FIG. 471 - 472 Edifícios de José
pelo que chegamos a recolher informação Ferreira Penêda na Rua da Firme-
za, licenças nº 11 de 1938 e nº 55
sobre eles. A coincidência da intervenção de um de 1939.

mesmo arquitecto em lotes contíguos fez-nos


pensar que pudessem ser todos de um mesmo
cliente, no entanto, apesar de licenciados em
datas próximas, têm distintos requerentes.
As soluções dos dois edifícios de José
Ferreira Penêda contíguos na Rua da Firmeza
assemelham-se bastante, quer em termos
morfológicos, quer em termos tipológicos e se, FIG. 474 Planta do 1º andar do adi-
tamento ao mesmo licenciamento
nos da Rua de Sá da Bandeira, Penêda adop- Cortar imagem

tou o saguão FIG.316 e 319, nos da Rua da Firmeza


utilizou plantas em “U” FIG.474, gerando pátios
abertos a sul. São edifícios simétricos, de altura
reduzida, com acessos laterais aos pisos supe-
riores e, no centro, nos vazios definidos pelas
plantas em “U”, com rampas que conduzem a
uns pátios nas traseiras para estacionamento.
Se os outros edifícios têm uma escala e
uma expressão claramente urbanas, nestes existente verifica-se um desfasamento entre
dois, apesar da urbanidade dos seus emba- a base e o corpo destes edifícios, que parece
samentos, sente-se nos seus pisos superiores não lhe pertencer mas apenas pousar sobre
uma escala doméstica que será mais comum ela. No entanto, e mais uma vez, isso deve-se a
encontrar nas periferias do que nos centros deturpações da obra (ou de alterações entre-
urbanos, e pelo tipo de expressão, mais carac- tanto introduzidas) relativamente ao projectado
terístico dos países de cultura protestante FIG.473 , onde um delicado desenho de caixilhos,

anglo-saxónica do que de cultura católica e fazendo a transição de escalas e a sua integra-


meridional. Efectivamente, na observação do ção, articulava e fundia as duas partes.

222 Introdução Opções temáticas / objectivos / ESTRATÉGIA


225

EDIFÍCIO NA RUA DE FERREIRA


CARDOSO, DE 1936, DE HOMERO
FERREIRA DIAS

FIG. 476 Vista


FIG. 477 Plantas e corte

Do mesmo modo, descobrimos ser de Penêda


um outro gaveto da Rua Firmeza (licenças nº
159 de 1939), no quarteirão que lhe é oposto e
na viragem para a Rua de Santa Catarina FIG.475,
que em muito se assemelha ao Edifício TAAG
FIG.85: apesar de utilizar a mesma estratégia

para resolver a viragem, com varandas corridas


ladeadas por corpos avançados, este edifício
de apenas três pisos e sem qualquer volume
recuado não tem os problemas de proporção FIG. 475 Gaveto das ruas da
detectados no Edifício TAAG e, com apenas As “arquitecturas do reboco” são do ponto Firmeza com a de Santa Catarina
de José Ferreira Penêda, licenças
Como se torna evidente, as “arquitecturas do
um ano de diferença, apresenta já uma imagem de vista da sua filiação arquitectónica híbridas n.º 159 de 1939. reboco” não desejam criar qualquer ruptura,
bem mais “límpida”. e não sabemos até que ponto foram o resul- sucedem às anteriores num processo gradual
Pudemos assistir, nos casos até agora tado de um compromisso entre o desejo de de continuidade com a tradição clássica e local,
expostos, a arquitecturas que, embora possuin- modernidade e aquilo que lhes era consentido. por vezes reinventada nestas arquitecturas,
do uma matriz clássica que reflecte a formação Claramente, derivam do Art Déco, estilo que, nomeadamente, Homero Dias, num prédio
dos seus autores, procuram encontrar uma pelo seu carácter burguês, é assumido pelo anterior ao gaveto das Ruas de Santa Catarina
expressão própria para o reboco, onde o Art próprio regime, e se, por um lado, como vimos, e Fernandes Tomás FIG.476, de 1936 e na Rua de
14
Déco se reduz à sua expressão mais abstracta, este género se revelava como um suporte exce- Ferreira Cardoso , numa composição clássica
ao ponto de quase perder essa conotação. lente para absorver apontamentos de arquitec- com uma simetria cuja centralidade é marcada
Pressentem-se variadas influências, ainda que tura regional, por outro, na sua derivação mais por um nicho interrompido pelas superfícies
de um passado recente e já sem se reportarem abstracta das arquitecturas do reboco, era o ligeiramente curvas das varandas, usa painéis
aos estilos da história da arquitectura repega- veículo que aqueles que tinham uma visão mais de azulejos entre vãos: uma alusão à arquitec-
dos pelos eclectismos, e considerando que cosmopolita da arquitectura encontraram para tura do Porto, sem qualquer pendor decora-
grande parte destas empatias será apropriada se expressarem sem conceder a apontamen- tivo ou tradicionalista, servindo apenas para
com um considerável desfasamento tem- tos pseudo-regionalistas, tão ao gosto divulga- reforçar o alinhamento vertical das janelas. A
poral, na hipótese mais provável, já terão sido do pelo regime. No entanto, esta modernidade planta FIG.477 assemelha-se a muitas outras com
assimiladas indirectamente; é, regra geral, uma consentida apenas se explora nos seus alça- distribuição de esquerdo/direito e com saguão;
aculturação, onde apenas são apreendidos os dos, não sobrevindo na organização interior dos assinalamos a organização do logradouro, aces-
motivos mais superficiais, sem que tenha sido fogos ou nos sistemas construtivos; o reboco sível através de todos os apartamentos a partir 14 Baseado em MENDES, Manuel
(coordenador) – (In)formar a
absorvida a sua essência; é uma arquitectura aplica-se em sistemas construtivos mistos, das escadas das carvoeiras, dividido em talões, modernidade: Arquitecturas
portuenses, 1923-1943:
que se funda na prática e, livre de conceitos onde o betão apenas se emprega para os feitos um por apartamento, para pequena horta, morfologias, movimentos,
metamorfoses. Porto: FAUP
teóricos, mistura diversas fontes com uma onde se optimiza a construção de pedra. Da pomar, etc.. publicações, 2001, pp.142-143.

enorme permissividade, pelo que sem ser fusão destes factores resulta uma forma de
eclécticas, permanece um espírito ecléctico. expressão própria, relacionada com um modo
de fazer, que caracteriza a arquitectura da
cidade do Porto neste período, podendo ser
designada como “arquitectura do reboco”.

224 Introdução Opções temáticas / objectivos / ESTRATÉGIA


227

16
No prédio da Rua dos Bragas FIG.481, de 1939,
voltamos a ter o mesmo tipo de desenho, em
planta, das varandas com floreira da Rua de
Fernandes Tomás, embora aqui a varanda se
transforme num corpo avançado e a floreira
numa varanda. Exceptuando os incongruentes
arcos românicos que assinalam as entradas no
prédio, este assume um desenho invulgarmente
rígido, com uma predominância de cheios de
onde se destacam os avançados com um dese-
FIG. 480 - 481 As varandas no
nho de uma geometria pura que até aqui não prédio da Rua de Fernandes
Tomás e prédio na Rua
encontramos, uma rigidez reforçada pela faixa da dos Bragas, ambos de ARS
Arquitectos e de 1939
platibanda quebrada sobre estes volumes.
O Grupo ARS Arquitectos desenvolve um
trabalho relativamente excepcional e difícil de “eti-
quetar”; neste final da década de 30, produzem
um modernismo híbrido que, aparentemente,
se reflecte apenas ao nível do alçado, e mesmo
assim, resumindo-se a um despojamento dos ele-
FIG. 478 - 479 Prédios na Rua
mentos decorativos em composições de matriz
Um curioso e interessante caso de reinven- dimensão para a época sob os parapeitos de de Fernandes Tomás de ARS
Arquitectos, de 1938 e 1939
clássica, produto da formação dos seus autores.
ção de elementos típicos da arquitectura umas janelas horizontais, simétricas relativa- respectivamente De facto, na década de trinta não é muito
tradicional do Porto é o da obra do Grupo mente a uma varanda central, sublinhando a claro até que ponto estas arquitecturas eram
ARS Arquitectos, constituído por Fortunato forte horizontalidade definida por palas com retrógradas por se encontrarem cerceadas pelo
Cabral, Morais Soares e Cunha Leão, grupo uma muito pequena projecção, agrupando os regime ou se seria pelo facto de a modernidade
sobre o qual apenas agora começa a surgir vãos; no outro, de 1939, utilizando o tradicional destes arquitectos ainda ser bastante hesitante.
alguma informação mas que, até há bem pouco azulejo em paineis, este é bastante inovador na Tal como já referimos, o Grupo ARS Arquitectos
tempo, apenas era referido pela autoria do cor, proporção e textura e, de novo numa com- são os autores do Palácio Atlântico, edifício que
Palácio Atlântico FIG.18, edifício já aqui referido posição de alçado simétrica, aparece absorvido já não se enquadra neste capítulo, mas que, no
no capítulo introdutório deste trabalho a propó- pelo desenho de umas curiosas e assimétricas 15 Baseado em MENDES, Manuel entanto, é bastante representativo daquelas
(coordenador) – (In)formar a
sito da Praça de D. João I FIG.16, e bastante pos- molduras salientes, construídas em cimento, modernidade: Arquitecturas que são as hesitações no “fazer moderno”: tificável: as obras aqui ilustradas de José Ferreira
portuenses, 1923-1943:
terior às obras até aqui ilustradas neste capítulo. que agrupam janelas e portas de acesso a assi- morfologias, movimentos, neste relativamente moderno volume, assente Penêda atestam que, ainda que utilize matrizes
metamorfoses. Porto: FAUP
Para a Rua de Fernandes Tomás, projectam métricas varandas, com floreiras curvas num publicações, 2001, pp.124-125, em colunas e construído num período onde já compositivas clássicas, se distancia das lingua-
15 138-141.
dois edifícios FIG.478 e 479 onde elementos que dos seus lados FIG.480. 16 Idem começa a existir abertura para uma arquitec- gens eclécticas ou das “decorativas”, trabalhan-
normalmente se filiam à arquitectura pitoresca tura moderna, no início da década de cinquen- do os seus alçados rebocados em composições
ou tradicional são reinterpretados e inseridos ta, o Grupo ARS Arquitectos utiliza inúmeros densas de, sobretudo, nichos, varandas, “bay
em desenhos de rasgo modernista, adquirindo detalhes decorativos de expressão Art Déco, e bow windows”. Para o edifício do Instituto de
uma nova expressão e significado: no primei- nomeadamente o tecto do passeio público Inglês, com nichos e varandas, adopta uma ima-
ro, de 1938, usam floreiras com uma invulgar coberto sob o seu volume principal, indiciando gem clássica até relativamente excepcional na
que frequentemente o carácter híbrido destas sua obra, tal como é excepcional o uso ecléctico
arquitecturas acontece espontaneamente, de uma alusão a balaustradas nas varandas do
devendo-se eventualmente (apenas ou tam- Edifício TAAG, que apesar de ter uma imagem
bém) ao entendimento e ao modo de fazer para a rua, no seu conjunto, mais desequilibrada
arquitectura dos seus autores. que a maioria das aqui identificados como sen-
Se alguns destes arquitectos oscilam entre do da sua autoria, tem mais pontos em comum
diversos tipos de expressão, outros, como com a sua obra, pelos seus elementos compo-
Penêda, misturam variadas influências e desen- sitivos e respectiva associação, do que o Edifício
volvem uma forma de expressão própria e iden- do Instituto de Inglês.

226 Introdução Opções temáticas / objectivos / ESTRATÉGIA


229

O despontar de
um tímido
modernismo FIG. 482 Edifício na Rua de João
Oliveira Ramos de José Porto,
de 1934
FIG. Edifício na Rua Gonçalo
Cristóvão de Arménio Losa e
Aucíndio dos Santos, de 1935
FIG. 484 Edifício na Rua D. Diogo
Brandão de Ribeiro Alegre, de
1937

1 Citação de FERNANDES, José


Quando nos referimos a um tímido modernis- Sobre José Porto (1835-1965) foi entretanto Manuel – Arquitectos do Século
XX. Da Tradição à Modernidade.
mo, este já estava de algum modo patente nas publicada, pela junta da freguesia onde este Casal de Cambra: Caleidoscópio,
2006, p.170.
3
obras anteriormente referidas e são ténues as cresceu, uma carinhosa monografia ; recém- 2 No catálogo da exposição sobre
o autor - José Porto (1883-1965):
fronteiras que as distinguem das obras que ilus- -chegado ao Porto, o autor constrói um prédio Desvendando o arquitecto de
Vilar de Mouros. Vilar de Mouros:
tram este capítulo, nas quais, como veremos, de rendimento na Rua de João Oliveira Ramos Centro de Instrução e Recreio
Vilarmourense – Junta de Fre-
4
continuamos a ter um modernismo hibrido, FIG.482, datado de 1934 , no qual se pressente guesia de Vilar de Mouros, 2003-,
para além de confirmarmos a
mas onde pontualmente se pressente um a influência da cultura ascética do centro da autoria dos prédios da Rua de Sá
da Bandeira, soubemos ser seu o
maior ensejo de renovação. Comparativamente Europa numa arquitectura assumidamente prédio ao lado do Palácio Atlântico
na Praça D. João I, então hotel e
com os restantes edifícios da Rua de Sá da encorpada, sem qualquer apontamento de agora remodelado para ser sede
de um banco. FIG.18 A imagem que
Bandeira cujo pedido de licenciamento deu pendor apenas decorativo e utilizando somente publicam é a de um postal da épo-
ca da Praça D. João I (1947), que
entrada nos serviços camarários ainda durante demarcações no reboco para reforçar alinha- já utilizamos antes para ilustrar
o Palácio Atlântico, entretanto
os anos 30, o Edifício Geminado de José mentos. Encontramos algumas similitudes des- também remodelado e com a sua
imagem bastante alterada
Porto FIG.59 a 70 e 321 a 327 é aquele que melhor te com o edifício de Arménio Losa e Aucíndio 3 BENTO, Paulo Torres – José
Porto (1883-1965): Desvendando o
5
patenteia o tímido e hibrido modernismo da dos Santos na Rua de Gonçalo Cristóvão FIG.483, arquitecto de Vilar de Mouros. Vilar
de Mouros: Centro de Instrução e
6
arquitectura do prédio de rendimento no Porto, e de 1935 , e o de Ribeiro Alegre na Rua de Diogo Recreio Vilarmourense – Junta de
Freguesia de Vilar de Mouros, 2003.
7
apenas por tender a uma maior abstracção no Brandão FIG.484, de 1937 , quer devido à sua pro- 4 Baseado em BENTO, Paulo
Torres – José Porto (1883-1965):
tratamento da sua imagem. porção e ao idêntico modo de marcar a entrada, Desvendando o arquitecto de
Vilar de Mouros. Vilar de Mouros:
José Porto foi estudante bolseiro na Suíça a que, em todos, se sobrepõem uma pala e um Centro de Instrução e Recreio Vi-
larmourense – Junta de Freguesia
“com um curso de pendor técnico, trabalhando como óculo. Pela sua proximidade temporal, dificil- de Vilar de Mouros, 2003, p.27.
5 Não chegamos a esclarecer
ilustrador e arquitecto de interiores em Paris, na mente se terão inspirado mutuamente e, entre em qual contexto é que Manuel
Mendes lhes atribui a co-autoria
1
década de 1920”, fixando-se no Porto apenas os três e por ordem cronológica, nota-se um de vários edifícios que ilustra
nesta publicação (MENDES,
2
na década de 1930 . ligeiro mas progressivo despojamento, com uma Manuel (coordenador) – (In)formar
a modernidade – Arquitecturas
redução gradual das demarcações no reboco, portuenses, 1923-1943: morfolo-
gias, movimentos, metamorfoses.
que parece querer espelhar a postura moralista Porto: FAUP publicações, 2001.),
mas presumimos que sendo Armé-
da arquitectura de Adolf Loos. No entanto, não nio Losa bastante jovem na altura,
seria colaborador de Aucíndio dos
conhecemos os seus interiores e como essa Santos, responsável pelos projec-
tos, e que Manuel Mendes tenha
mesma ética se reflecte na sua espacialidade. notícia de que a colaboração de
Losa era bastante activa inclusive
na concepção.

228 Introdução Opções temáticas / objectivos / ESTRATÉGIA


231

espaço desta moradia faz-se, passe a imagem, como


um ‘travelling’ ininterrupto e por essa razão viria a
ser valorizada pela nova vaga dos anos 60, a vaga
puxada pela interpretação zeviana ou pelo exemplo
10
de Aalto,...”
Num edifício de Arménio Losa e Aucíndio
dos Santos e de 1935, o edifício de gaveto da
11
Rua do Moreira com a de D. João IV FIG.487 e 488,
apesar do espaço muito compartimentado e
do sistema de circulações ainda se basear num
corredor, já se denota a tentativa de optimi-
zar a planta do fogo: o corredor em “L”, no seu
primeiro troço distribui para as áreas de serviço
e sociais, dois espaços interligados, e, no seu
segundo troço, para as áreas privadas; repre-
senta esquematicamente a ligação da cozinha EDIFÍCIO DE GAVETO DA RUA DO
MOREIRA COM A RUA DE D. JOÃO
com a sala de jantar, demonstrando preocupa- IV DE ARMÉNIO LOSA E AUCÍNDIO
DOS SANTOS, DE 1935
ções funcionais; pelo modo como posiciona as
FIG. 487 Vista
portas e janelas ao longo do corredor, controla FIG. 488 Plantas e cortes

PRÉDIO NA RUA ADOLFO CASAIS


através do comportamento da luz os seus
Arthur de Almeida Júnior, depois de utilizar o ca estar descentrado relativamente à entrada. MONTEIRO, DE 1940, DE ARTHUR
ALMEIDA JÚNIOR
enfiamentos visuais. Num conjunto que indubi-
Art Déco no Edifício Imperial FIG.460 e no Edifício Os elementos que temos ao dispor suscitam FIG. Vista
tavelmente se poderá considerar modernista,
Singer FIG.461, logo após este último, em 1940, mais dúvidas do que respostas; a sua imagem FIG. 486 Plantas e corte detectam-se variadas influências que aqui se
projecta o prédio da Rua de Adolfo Casais indicia, directa ou indirectamente a influência misturam, tornando difícil precisar aquelas que
8
Monteiro FIG.485, numa imagem que abandona de Adolf Loos e, ainda que não se possa dizer serão as suas principais referências; arrisca uma
9
o Art Déco, com total ausência de elementos que se aplicaram os princípios do “Raumplan” , cobertura plana acessível em vez da habitual
decorativos e uma composição aparentemente poderemos afirmar que existiu um grande cobertura em telha e tira partido estético da
indisciplinada, parecendo querer ser apenas investimento na espacialidade interna, criando construção em betão que se torna aparente na
uma consequência de solicitações interiores. acontecimentos de inegável valor topológico. pérgola do terraço, enfatizando, com o dese-
No entanto, quando analisadas as plantas que No Edifício Geminado de José Porto, sem 6 Baseado em MENDES, Manuel nho da estrutura, a curva do gaveto.
(coordenador) – (In)formar a
conseguimos obter dos seus interiores FIG.486, que seja claro se se deve a uma posição ética modernidade – Arquitecturas Nos apartamentos de José Porto do Edifício
portuenses, 1923-1943: morfolo-
demasiado pequenas e com pouca legibilidade, na arquitectura, temos um despojamento gias, movimentos, metamorfoses. Geminado da Rua de Sá da Bandeira FIG.325,
Porto: FAUP publicações, 2001,
reparamos que os seus pisos não se sucedem decorativo, seu alçado FIG.59 e 60, trabalhado com pp.121-123. vimos que se isolam com um vestíbulo as
7 Idem, pp.130-131.
iguais, sem que seja muito claro que isso se volumes e jogos de luz e sombra, mas a nível 8 Idem, pp.152-155. partes privadas e se cria uma ligação directa da
9 “a fachada interior (do individuo),
deva a uma necessidade programática, poden- espacial é absolutamente convencional, quer reflecte o mundo próprio e subjec- área de serviço à sala de jantar, pelo que, apesar
tivo do utilizador (o Raumplan deri-
do dar-se o caso de ter sido uma adaptação nos sistemas distributivos, quer na configuração va da dualidade destes princípios: de convencional na sua espacialidade, também
conceito espacial contido numa
à imagem exterior pretendida; voltamos a ter e caracterização dos espaços. No entanto, José caixa de estereometria fixa que já teria presentes preocupações de cariz fun-
tem que ver com critérios de empa-
plantas compartimentadas com distribuição Porto é frequentemente referido pela crítica a tia do individuo na concretização cional; exploram-se as possibilidades plásticas
de cada função – cada espaço tem exigências.
por corredor, organizadas em torno de um propósito da qualidade da espacialidade interna uma área e volume proporcional à da construção em betão no primeiro plano do
sua importância – e com critérios
núcleo central com as circulações e pátios, da casa que projectou para Manoel de Oliveira, de economia espacial que a supor- seu alçado FIG.59 e 60, em alongadas varandas em 10 Citação de PORTAS, Nuno
– A Evolução da Arquitectura
tam).” Citação de Nota 36 in GON-
embora se note um excepcional investimento em simultâneo ao prédio da Rua de Sá da ÇALVES, José Fernando – Ser ou consola, no entanto, nos planos em sombra, Moderna em Portugal in ZEVI,
Bruno - História da Arquitectura
não ser moderno: Considerações
no desenho das suas áreas sociais, sobretudo Bandeira; sobre esta casa, Nuno Portas diz ser sobre a Arquitectura Modernista temos o desenho dos vãos para as varandas Moderna. Lisboa: Editora Arcádia,
1973, p.738.
Portuguesa. Coimbra: Edições do
no piso com a varanda no canto, e no desen- “um dos raros exemplos de predominância das pre- Departamento de Arquitectura da tripartido que, por um lado, denuncia a cons- 11 Baseado em MENDES, Manuel
(coordenador) – (In)formar a
FCTUC, 2002, p. 46.
volvimento vertical das circulações de serviço e ocupações pelo espaço interior – pela continuidade, trução mista, do betão com paredes portantes modernidade – Arquitecturas
portuenses, 1923-1943: morfolo-
respectivos pátios; no corte repara-se em algu- muito dinâmica, de ambientes bem caracterizados, em pedra, e, por outro, contraria, com a sua gias, movimentos, metamorfoses.
Porto: FAUP publicações, 2001,
mas diferenças relativamente ao construído, utilizando os acessos como espaços e transição e não verticalidade, a modernidade da horizontalida- pp.168-171.

nomeadamente na volumetria, e identifica-se como soluções de continuidade de espaços simples, de das varandas.
um hall de dupla altura que em planta se verifi- tal como era corrente. A experiência interna do

230 Introdução Opções temáticas / objectivos / ESTRATÉGIA


233

FIG. 490 Prédio na Rua de


Fernandes Tomás de Rogério de
Rogério de Azevedo, pouco mais tarde, em
Azevedo de 1933 1933, projecta um prédio de rendimento para
14
a Rua de Fernandes Tomás FIG.490, no qual, à
parte a originalidade do tema compositivo do
seu alçado (uma reinterpretação de uma colu-
na dórica esculpida no reboco, mas sem qual-
quer função resistente), não deixa de ser uma
construção perfeitamente tradicional, quer
no sistema portante, quer no tipo de varandas
ou proporções e escalas dos vãos dos pisos
14 Baseado em MENDES, Manuel
(coordenador) – (In)formar a superiores, confirmando, com a sua convencio-
modernidade – Arquitecturas
portuenses, 1923-1943: morfolo- nalidade, a excepcionalidade da inquestionável
gias, movimentos, metamorfoses.
Porto: FAUP publicações, 2001, modernidade da Garagem do Comércio, não
p.114-115.
15 Baseado em Tostões, Ana - apenas no panorama português, mas também
Edifício da Garagem do Comércio
do Porto in BECKER, Anette; na obra do seu autor.
TOSTÕES, Ana; WANG, Wilfried
- Arquitectura do século XX - Ora na verdade, o seu autor, Rogério de
Portugal. Deutches Architecktur
Museum Frankfurt am Main; CCB: Azevedo, referido no início deste trabalho a
Druck-und Verlagshaus Zarbock,
1997, p.43. propósito do Edifício Rialto na Praça de D. João
FIG. 489 Garagem do Comércio de
Rogério de Azevedo de 1930 I FIG.16, é um caso paradigmático da fragilidade
da convicção dos arquitectos portugueses
porque o que as torna arquitecturas ‘europeias’ é a
Embora nos edifícios construídos na Rua de no modernismo, alternando de estilo com uma imagem Art Déco num alçado regrado por
concepção estrutural dos edifícios como um todo em
Sá da Bandeira até meados dos anos 40 a uma enorme facilidade: o edifício contíguo à pilastras em cantaria de granito que, no torreão
que as técnicas de construção, as ‘caixas’ exteriores
construção continuar a usar alvenarias por- Garagem do Comércio, a sede do Jornal do de gaveto, se transformam em nervuras numa
e a organização do espaço se articulam com ima-
tantes de perpianho conjuntamente com o Comércio já na Avenida dos Aliados, também alusão ao gótico. A avaliar por estes edifícios,
ginação e singularidade, no sentido em que não são
betão armado, o betão armado já tinha sido é da sua autoria e é contemporâneo a estes construídos praticamente em simultâneo e
reduções ou aculturações de imagens das revistas 15
magistralmente utilizado no Porto, na Garagem edifícios, de 1932 ; não o ilustramos aqui por com imagens radicalmente distintas, dir-se-ia
superficialmente vistas. (...) Tratava-se, de facto,
do Comércio FIG.489, projectada e construí- não se tratar de um prédio de rendimento, não ser relevante para Rogério de Azevedo a
(...) de (…) apoiar-se em algum engenheiro corajoso
da ainda entre a década de 20 e a de 30 por referimo-lo por ser representativo da versatili- questão do estilo, que claramente despoja dos
12 (...) e resolver tudo como se fosse a primeira vez (…).O
Rogério de Azevedo (de 1928 a 1932) . Embora dade deste autor que, para este edifício, adopta respectivos significados; o uso de diferentes lin-
próprio programa é inédito (...). Imagine-se o que
o seu nome e a sua aparência não o indiciem, 12 Baseado em TOSTÕES, Ana - guagens não o inibe, demonstrando ser capaz
terá significado (...) quando Rogério de Azevedo se Edifício da Garagem do Comércio
a Garagem do Comércio articula escritórios do Porto in BECKER, Anette; de utilizar diferentes códigos, com igual coerên-
atira ao estudo de garagem urbana de vários pisos TOSTÕES, Ana; WANG, Wilfried
sobre vários pisos de garagem; não contem- - Arquitectura do século XX - cia e mestria, utilizando-os com um evidente
e, ao mesmo tempo, de escritórios – no centro da Portugal. Deutches Architecktur
plando habitação, a sua menção neste trabalho Museum Frankfurt am Main; CCB: pragmatismo e elegendo-os consoante o que
cidade do Porto. O enorme gaveto, jogando com o Druck-und Verlagshaus Zarbock,
é um pouco forçada e serve para demonstrar 1997, p.43. considera ser adequado para cada situação.
enorme desnível da rua, justapõe uma caixa com 13 Citação de PORTAS, Nuno
que, mesmo que não fosse utilizada vulgarmen- – A Evolução da Arquitectura O entendimento ecléctico do modernismo,
iluminação ao alto (a garagem) e um ‘fragmento’ de Moderna em Portugal in ZEVI,
te, existia já nesta altura algum domínio técnico Bruno - História da Arquitectura como sendo apenas mais um estilo ao seu
fachada funcionalista de escritórios, organizando a Moderna. Lisboa: Editora Arcádia,
e conceptual sobre a tecnologia do betão. A 1973, p.708. dispor, não é uma característica exclusiva de
primeira através de uma rampa helicoidal apoiada
utilização predominante da pedra era então Rogério de Azevedo mas de quase todos os
em arrojada estrutura central fungiforme. E Rogério,
uma imposição do regime do Estado Novo, 13 arquitectos modernistas portugueses que, tal
cremos, nem tinha saído do país...”
que obrigava a uma preponderância do uso de como José Porto, regra geral tendem a confundir
materiais nacionais para incentivar a produ- a simplificação formal com modernidade, sem
ção local e, tal como o refere Nuno Portas, que isso tenha necessariamente correspondên-
terá sido o álibi programático o que permitiu, cia com o uso de novos materiais ou técnicas
pontualmente momentos excepcionais de uma construtivas, a um processo de racionalização
extrema ousadia e modernidade genuína na da arquitectura ou a uma postura ética.
arquitectura portuguesa: “Ora a verdade é que
um Capitólio, uma Garage do C. Porto ou um Eden-
Teatro não podem surgir por figurino de ilustração,

232 Introdução Opções temáticas / objectivos / ESTRATÉGIA


235

FIG. 492 Conjunto de casas de


habitação no Largo do Priorado,
de Manoel da Silva Passos Júnior e
António Teixeira Lopes, de 1935

no primeiro piso, com janelas corridas refor-


çando a horizontalidade deste corpo, que
gera, no segundo piso, varandas cobertas por
uma delgada pala em betão; o único gesto de
desenho característico do Art Déco é a linha
quebrada da platibanda, não sendo utilizadas
demarcações no reboco mas trabalhando toda
a composição através de planos e volumes.
Localizamos alguns edifícios licenciados
FIG. 491 Edifício de habitação do com a assinatura de Manuel Passos Júnior, FIG. 493 Edifício na rua de
Pinheiro Manso de Arménio Losa Rodrigues Sampaio de Manoel da
Regressando aos autores dos edifícios em Nas publicações, apenas encontramos uma com Cassiano Barbosa, de 1935 embora, destes e deste período, o único Silva Passos Júnior, licença nº 112
de 1936
estudo na Rua de Sá da Bandeira, com a mesma menção a Manoel da Silva Passos Júnior prédio de rendimento seja o edifício na Rua
data das colaborações de Arménio Losa com a propósito de um conjunto de três casas de de Rodrigues Sampaio FIG.493, de 1936 (licença
Aucíndio dos Santos, surge o edifício de habita- habitação unifamiliar em banda no Largo do nº112 de 1936). Aqui voltamos a ter palas de
16
ção do Pinheiro Manso FIG.491; não é um prédio Priorado FIG.492, de 1935 e em co-autoria com betão sobre umas varandas cujo desenho é
17
de rendimento, é um conjunto de habitação em António Teixeira Lopes , obra que, tal como similar ao das platibandas no edifício do Largo
banda, e o motivo pelo qual o referimos aqui o Edifício do Pinheiro Manso de Arménio Losa do Priorado, interrompendo o murete a meio,
deve-se ao facto de assinalar o início da cola- e Cassiano Barbosa, não sendo um prédio numa meia altura, e substituindo-o por uma
boração de Arménio Losa com Cassiano de rendimento, apenas ilustramos aqui por guarda em ferro forjado, tal como nas varandas
Barbosa. Podemos ver que neste edifício, ape- se dever a um dos autores dos edifícios em 16 Baseado em GAMA, Luzia, RO- de um dos edifícios da Rua de Sá da Bandeira.
SAS, Joana - O escritório da dupla
sar da extrema modernidade do conjunto, com estudo na Rua de Sá da Bandeira sobre o qual Arménio Losa / Cassiano Barbosa. Este detalhe juntamente com outros, como
Porto: FAUP, 1990-1992.
uma forte influência do expressionismo holan- é escassa a informação e por representar um 17 Baseado em MENDES, Manuel o desenho dos vãos ou dos cachorros que
(coordenador) – (In)formar a
dês, mesmo os autores do Edifício DKW utilizam momento de culminante modernidade na sua modernidade: Arquitecturas por- introduz sob as varandas, fazem com que a
tuenses, 1923-1943: morfologias,
alguns subtis apontamentos de cariz Art Déco. obra. O seu alçado, de uma extrema simplici- movimentos, metamorfoses. expressão deste edifício já se identifique, na
Porto: FAUP publicações, 2001,
dade, é constituído por um volume avançado pp.80-81. globalidade, com o estilo Art Déco.

234 Introdução Opções temáticas / objectivos / ESTRATÉGIA


237

FIG. 494 Edifício na Praça Pedro 18 Baseado em MENDES, Manuel


Nunes de Jorge Viana de 1936
Reduzir imagem
(coordenador) – (In)formar a
modernidade – Arquitecturas
maioria dos arquitectos deste período, presos à sobre os vãos, parte das lajes, consolas, etc. (…) Era
portuenses, 1923-1943: morfolo-
gias, movimentos, metamorfoses.
sua formação clássica, não possuía. assim a síntese possível entre o ‘gosto’ e a técnica
Porto: FAUP publicações, 2001,
pp.118-119.
A partir destes exemplos podemos deduzir com um mesmo objectivo: simplificação decorativa
19 Ver FERNANDEZ, Sérgio - Per-
curso, Arquitectura Portuguesa
o carácter eminentemente hibrido do moder- tomada simultaneamente como economia cons-
20
1930/1974. Porto: FAUP, 1988,
p.39.
nismo português: “A renovação é realizada trutiva que suporta a generalização do modelo.”
20 Citação de GONÇALVES, José
Fernando – Ser ou não ser mo-
sobretudo nas fachadas, mas as consequências Estas afirmações de José Fernando Gonçalves
derno: Considerações sobre a
Arquitectura Modernista Portu-
na organização espacial são mínimas (…), tanto do aplicam-se globalmente ao Edifício Geminado
guesa. Coimbra: Edições do De-
partamento de Arquitectura da
ponto de vista do edifício como da cidade. Na cons- de José Porto, no qual tivemos um vislumbre
FCTUC, 2002, pp. 86-87. trução destinada à habitação, a ‘experimentação’ de modernidade, ainda que apenas no des-
moderna fica também reduzida aos aspectos pura- pojamento decorativo do seu alçado, no jogo
Um prédio de rendimento do Porto bastante certamente, um fervoroso entusiasta da cons- mente urbanos – fachada de rua e átrio de entrada de volumes das suas varandas em consola, na
representativo da expressão mais comum de trução em betão armado, que, embora estivesse -, numa tendência que repete as características dos respectiva linearidade e horizontalidade e no
um primeiro modernismo português com raízes de igual modo cerceado no seu uso, conseguiu prédios de rendimento do período anterior (…) e irá jogo de luz e sombra que produz, sem que, no
na estética do Art Déco, é o edifício da Praça de pontualmente explorar; nestas casas, denota manter-se quase sem excepções até os anos 40. (…) A entanto, isso se reflicta na organização interna,
18
Pedro Nunes FIG.494, de Jorge Viana e de 1936 : estar informado relativamente à arquitectura que generalização do betão armado não correspondeu, na espacialidade ou nas opções construtivas.
num alçado cuja composição simétrica reflecte a em paralelo se fazia na Europa, com referências também, à exploração do seu potencial construtivo.
organização interna do edifício, exibe-se o acesso às experiências da Bauhaus, de Le Corbusier, um Encarava-se a construção em betão como técni-
vertical às habitações num eixo de simetria autor que a sua obra não deixa dúvidas de que ca de uso restrito, em situações como as de cintas
reforçado por sucessivas reentrâncias no reboco. conhecia, ou mas ainda melhor relacionada à
19
Com uma composição límpida, joga apenas obra de Mallet-Stevens , cujo gosto simultanea-
com a vertical do eixo central e a horizontalidade mente conservador e modernizante influenciou
da pala que cobre a entrada e da associação bastante o primeiro modernismo português. A
dos vãos. Jorge Viana foi capaz de arriscar uma obra de Jorge Viana denota uma modernidade
maior modernidade em algumas moradias que que os arquitectos seus contemporâneos raras
projectou, onde traduzia a organização interna vezes atingiam; dir-se-ia que a sua formação mais
em assimétricos jogos de volumes que eviden- técnica lhe permitiu, de uma forma livre de pre-
cia o corpo das escadas; era engenheiro e o seu conceitos, aderir às experiências da vanguarda
conhecimento da engenharia civil faria dele, europeia com um entusiasmo e convicção que a

236 Introdução Opções temáticas / objectivos / ESTRATÉGIA


239

A expressão
Nos edifícios projectados para a Rua de Sá Para além de factores programáticos, para
Bandeira, exceptuando o Edifício DKW FIG.247, entender o rumo tomado por estas arqui-
durante a década de 40 estão patentes um tecturas, há que considerar alguns eventos e
luxo e um desejo de representação superior ao directrizes, sobretudo de cariz político, que,

do regime
daqueles que lhes são anteriores. Destinam-se na passagem dos anos 30 para os 40, indu-
a um público mais abastado, o que se reflecte ziram a uma nova orientação na arquitectura
em apartamentos mais luxuosos, com acessos portuguesa: “Com o fim da guerra civil espanhola
de serviço independentes, quando não são pre- e o início da segunda guerra mundial abrem-se
vistas também habitações para os “chauffeurs”. perspectivas para o reforço dos sistemas que,
Nos alçados dos edifícios de Passos Júnior FIG.94 na Europa, constituem referência para o regime
1 Citação de GONÇALVES, José
e 217 e no Edifício Emporium FIG.156 combinam-se português. Consolidado este, em situação interna- Fernando – Ser ou não ser
moderno: Considerações sobre
elementos em cantaria com superfícies rebo- cional favorável, clarificam-se os valores estéticos a Arquitectura Modernista
Portuguesa. Coimbra: Edições do
cadas. No Palácio do Comércio FIG.186 a 189 o luxo que melhor se identificam com o poder. Há que Departamento de Arquitectura da
FCTUC, 2002, p.104.
é levado ao extremo e o Art Déco, influenciado afirmá-los sem ambiguidades. A arquitectura 2 Citação de ROSA, Edite –
ODAM: valores modernos e a
sobretudo pela expressão que este teve do acompanhará agora o rumo da política delineada confrontação com a realidade
produtiva. Barcelona: Escuela
outro lado do Atlântico, obteve aqui o requinte pelo governo de Salazar.” 3 “Será a própria base do Tecnica Superior de Arquitectura
de Barcelona, 2005, p. 339.
que este estilo requer. Os detalhes de todos regime, adversária do estilo cultural personifica- 3 Citação de FERNANDEZ,
Sérgio – Percurso, Arquitectura
eles, umas vezes de uma forma mais evidente, e do por António Ferro e Duarte Pacheco que inicia Portuguesa 1930/1974. Porto:
FAUP publicações, 1988, p. 27.
noutras, mais dissimulada, inserem-se num Art a contestação das suas acções (…). Clarificando 4 Idem, p. 25.
5 Citação de Nuno Portas in
Déco classicizante e monumentalizado, “com a o equívoco recíproco em que Estado e arquitectos FERNANDEZ, Sérgio – Percurso,
4 Arquitectura Portuguesa
aposição de simbologias figurativas, de inequívoca caíram, (…) o poder vai pedir-lhes: ” “abando- 1930/1974. Porto: FAUP
1 publicações, 1988, p.25.
função representativa” . nem vanguardismos e colaborem na restauração 6 Ver BANDEIRINHA, José António
Oliveira – Quinas Vivas: Memória
Após um acelerado ritmo na construção da cultural que o Estado Novo quer empreender num Descritiva de alguns episódios
significativos do conflito entre
primeira frente de quarteirão do sector norte país onde… as virtudes da raça tinham de ser recor- fazer moderno e fazer nacional na
5 arquitectura portuguesa dos anos
da Rua de Sá da Bandeira, com quatro pedidos dadas”. Nesta sequência, o estado aproveita 40. Porto: FAUP publicações, 1996,
pp. 53-68.
de licenciamento no período compreendido a ocasião das Comemorações Centenárias
entre 1936 e 1939, com o início da segunda da independência, em 1940, para moldar a
guerra verifica-se um hiato, com apenas um imagem da arquitectura oficial, de entre os
pedido de licenciamento durante a segunda quais, os principais eventos foram a Exposição
guerra mundial, o do Gaveto Nordeste da Rua do Mundo Português, em Lisboa, e o Portugal
da Firmeza FIG.94, de Manoel Passos Júnior e de dos Pequenitos em Coimbra, com construções
1943. No final da segunda guerra mundial, “o perenes de escala reduzida e representando
encarecimento dos terrenos à venda, a par do agra- cada uma delas uma arquitectura tipificada
vamento do custo dos materiais e do aparecimento de cada região, baseadas no “mostruário”
6
simultâneo de uma nova burguesia, faz ressurgir o de Raul Lino . Tal como refere José António
investidor privado apostado numa nova forma mais Bandeirinha, “face à ebulição do mundo exterior
2
rentável de habitação urbana”: o edifício de luxo e face às crescentes ameaças de anexação das
de habitação colectiva destinado à alta burgue- colónias, tornava-se urgente a fabricação de uma
sia. Com este novo impulso, é rapidamente que, imagem de estado ocidental moderno, preocupado
durante a segunda metade da década de 40, com o bem-estar das suas populações. Era, porém,
se conclui a construção dos edifícios da Rua de igualmente necessário preservar e conservar,
Sá da Bandeira deste seu novo troço, compre- na medida do possível, o ‘mundo rural tradicio-
endido pelas ruas de Fernandes Tomás e de nal’, como resposta aos anseios do lobby agrário
Guedes de Azevedo. e ruralista no sentido de afastar os ‘demoníacos
malefícios’ sociais da industrialização. A história da
Exposição do Mundo Português e das Comemorações
Centenárias é, também, a história deste compromis-
so. A Exposição ganha, assim, o carácter ambíguo

238 Introdução Opções temáticas / objectivos / ESTRATÉGIA


241

de grandiosa modernidade, paramentada com os truções. (…) Por outro lado e porque o custo da mão de FIG. 495 Edifício Capitólio na Pra-
ça General Humberto Delgado de
enfeites etnográficos do ruralismo e com os celebra- obra equivale, então, a uma percentagem relativa- Manoel Passos Júnior e Eduardo
Martins, licença nº 702 de 1949
dos aforismos dos seus códigos morais. (…) Cottinelli mente baixa do custo global de qualquer empreendi-
Telmo, arquitecto-chefe da Exposição, coordenou e mento, pode adoptar-se ainda um tipo de expressão
distribui trabalho por um punhado de colegas consa- de claro compromisso com os valores pretensamente
grados, que tinham andado a fazer caixotes raciona- nacionalistas; emprega-se aí todo o receituário de
listas na década que ora findava. O efeito surpresa cantarias profusamente trabalhadas, de beirais
causado por essas primeiras obras já se tinha, porém, mais ou menos complicados, de azulejos com funções
esgotado. (…) Aos anseios de pertencer à vanguardis- mais ou menos decorativas, nichos onde se abrigarão
ta elite do século refulgente, sobrepunham-se, agora, imagens do culto da religião ou das figuras da histó-
7 Citação de BANDEIRINHA,
outras ideias, mais maduras e mais sedentárias, mais ria pátria, ferros forjados de inspiração oitocentista José António Oliveira – Quinas
Vivas: Memória Descritiva de
enquadradas na realidade sócio-cultural do país ou popular e ainda materiais que simulam soluções alguns episódios significativos
do conflito entre fazer moderno
ou, se quisermos, recuperadas por ela. E a realidade construtivas, de há muito postas de parte. (…) Será e fazer nacional na arquitectura
portuguesa dos anos 40. Porto:
sócio-cultural do país não era seguramente propícia nas moradias, nos edifícios de habitação colectiva FAUP publicações, 1996, pp. 21-23.
7 8 Baseado em FERNANDEZ,
à proliferação dos modelos modernos.” de standard mais elevado e em algumas construções Sérgio – Percurso, Arquitectura
Portuguesa 1930/1974. Porto:
Entretanto, no Porto, encomendam-se de carácter público onde, com maior frequência, FAUP publicações, 1988, pp.23-24.
9 Idem, p. 39.
consultadoria e planos urbanísticos a arqui- se opta por este último partido estético; ao contrá- 10 Citação de FERNANDEZ,
Sérgio – Percurso, Arquitectura
tectos Italianos, primeiro, em 1938, a Marcello rio, a linguagem mais depurada reserva-se para Portuguesa 1930/1974. Porto:
FAUP publicações, 1988, pp.37-39.
Piacentini, arquitecto oficial de Mussolini, que construções menos qualificadas. Estas duas opções
foi depois substituído, em 1940, por Giovanni não aparecem sempre com toda a sua clareza; em
8
Muzio . Ainda assim, longe da sede do poder, muito casos existirão repostas de carácter híbrido Déco, quer pela lógica da composição e con-
não se sente tanto, no Porto, como na capital a (…) Um sentido mais evidente da economia de meios tribuem para a coerência do todo. As cantarias
9
pressão do regime . É neste contexto que, pon- a usar nas construções massificadas de especula- empregam-se num jogo de texturas equilibrado
tualmente, se aposta numa nova e “dignifican- ção levará, designadamente em Lisboa, por moda com as superfícies claras dos rebocos, na mar-
te” monumentalidade na arquitectura privada e prestígio, ao uso do ‘estilo nacional’ progressiva- cação de ritmos que, superiormente, diluem os
do prédio de rendimento do Porto, tal como se mente simplificado e empobrecido, com argamassas volumes dos seus alçados laterais, recortando
pode verificar, quer no Edifício EDP FIG.217, quer simulando cantarias, as sacadas desaparecendo e a sua silhueta no céu e pondo em destaque os
no Edifício Emporium FIG.156, e cujo expoente e reduzindo-se a mais uma janela uniformizada onde corpos das circulações verticais, preparando
paradigma é o Palácio do Comércio. FIG.186 A 189 o estore substitui a gelosia; (...) deixará de ser aquilo para a forte e dinâmica expressividade das cur-
A arquitectura que, em consequência se a que se chamava ‘a casa portuguesa’ para passar a vas do seu apertado “cotovelo”. Essa elegância
produz correntemente nos inícios dos anos chamar-se, coerentemente com a desqualificação ou reflecte-se também na espacialidade interior, Identificamos a autoria de Manoel Passos
10
40, no norte e em especial no Porto, segundo a ausência de desenho, ‘português suave’. ” onde diversos acontecimentos, tais como, a Júnior, no Edifício Capitólio FIG.495 na Praça do
Sérgio Fernandez, “oscila, no fundamental, entre No primeiro dos edifícios construído neste relação das escadas comuns com o hall de General Humberto Delgado, em co-autoria
dois tipos de linguagem que se utilizarão de acordo período no nosso campo de estudo, o Gaveto entrada do prédio, a sequência dos espaços com Eduardo Martins que, segundo Luís Aguiar
com o gosto do cliente ou com as suas capacidades Nordeste da Rua da Firmeza FIG.94 a 155 e 328 de distribuição no interior dos apartamentos Branco, também foi co-autor dos edifícios
económicas. Por um lado o formulário de raiz moder- a 336 de Manoel Passos Júnior, a influência do e a sua recortada volumetria para o interior do da Rua de Sá da Bandeira; neste, ligeiramente
nista (…) constitui um tipo de proposta facilmente regime não é evidente e, para além da insis- quarteirão, criam, como vimos, acontecimen- posterior aos da Rua de Sá da Bandeira, com
adaptável às limitações económicas que, por desejo tência no Art Déco (no percurso de um autor tos de elevado valor topológico. projecto de licenciamento datado de 1949,
ou necessidade, pautarão uma larga gama de cons- que, como vimos, aflorou a modernidade, Já no Edifício EDP FIG.217 a 246 e 337 a 350, o abandonam o Art Déco para abraçar uma
quase uma década antes, no edifício do Largo segundo edifício que Manoel Passos Júnior arquitectura ecléctica fachisante. Embora
do Priorado FIG.492, esta resume-se à utilização projecta para a Rua de Sá da Bandeira, é, como se possam reconhecer alguns aspectos em
de cantarias nos seus alçados de rua e ferros vimos, nas suas esquinas que, através de pesa- comum entre o Edifício Capitólio e os da Rua de
forjados. Contudo, estas estão perfeitamente das molduras em cantaria para uns densos Sá da Bandeira projectados por esta dupla de
enquadradas, quer pela elegância do seu Art panos envidraçados, se cria um peso e uma arquitectos, sobretudo na escala e proporções
pretensa monumentalidade portuguesa, dando adoptadas (semelhança que se torna mais
ensejo às pretensões do regime. evidente no desenho da base), a sua monu-
mentalidade e espírito ecléctico apenas se
podem pressentir no desenho dos cunhais

240 Introdução Opções temáticas / objectivos / ESTRATÉGIA


243

do Edifício EDP. Num alçado que se constrói 11 O tema dos torreões nos
cunhais na Avenida dos Aliados
Para além do Edifício da Companhia de Fiação
na totalidade com cantaria, varandas com foi delineado por Marques da Siva
logo no seu primeiro cunhal na
e Tecidos de Fafe, um edifício bastante repre-
balaustradas dispostas de modo a sugerirem esquina com a Praça da Liberdade,
o Edifício de A Nacional, de sua
sentativo do estilo “português suave” no Porto,
um triângulo apontado ao céu e janelas em arco autoria e de 1919. Baseado em
CARDOSO, António – O Arquitecto
é aquele que Júlio de Brito constrói na Praça
13
românico no remate superior, geram uma monu- José Marques da Silva e a
arquitectura do Norte do País na
Mouzinho de Albuquerque FIG.498 em 1948 ,
mentalidade que, se por um lado, responde aos primeira metade do séc. XX, 2ª ed.
Porto: FAUP publicações, 1997,
com alusões a uma arquitectura portuguesa
anseios do regime, por outro, se enquadra na p. 360.
12 Baseado em FERNANDEZ,
em apontamentos estilizados, presentes no
arquitectura monumental da Praça do General Sérgio – Percurso, Arquitectura
Portuguesa 1930/1974. Porto:
embasamento e nas molduras das janelas em
Humberto Delgado - a praça acontece no rema- FAUP publicações, 1988, p.25. pedra, nas varandas em ferro forjado decora-
te da Avenida dos Aliados, a nova e curta avenida tivo, nas coberturas telhadas, etc.; elementos
que foi rasgada no início do século, de acordo iconográficos de uma arquitectura nacional são
com o plano de Barry Parker de 1915, ligando a embebidos numa arquitectura de matriz clás-
Praça da Liberdade, a sul, com a nova praça, a sica que espelha, com a sua solidez e ordem, a
norte, concebida para receber os novos Paços estabilidade do regime do Estado Novo.
de Concelho, criando todo um eixo monumental No segundo gaveto que Júlio de Brito, já na
concebido para enquadrar o poder civil e funcio- década de 50, constrói na Avenida dos Aliados,
FIG. 496 - 497 Edifício da Compa-
nar como “sala de visitas” da cidade. nhia de Fiação e Tecidos de Fafe, que, tal como no da Rua de Sá da Bandeira,
de 1948 e Edifício Garantia da Av.
Vimos antes, que na Praça da Liberdade, dos Aliados, de 1955, ambos de também pertence à seguradora Garantia,
Júlio de Brito
o Edifícios Ateneia FIG.459 de Júlio de Brito, e o abandonam-se os motivos pseudo-naciona-
Edifício Imperial FIG.460, de Arthur Almeida Júnior, listas e abraça-se um Art Déco de expressão FIG. 498 Edifício na Praça Mou-
também constroem na totalidade os seus alça- classicizante, formalizada numa articulação de Júlio de Brito, que vimos a utilizar as novas zinho de Albuquerque de Júlio de
Brito, de 1948
dos em granito, e se, ainda nos anos 30, o Edifício volumes através de um cilindro, que aqui funcio- tendências com a pouca persuasão que o uso
Ateneia concede a alguns apontamentos ecléc- na como rótula entre os dois planos de fachada. aleatório de vários estilos reflecte e a utilizar,
ticos, já o Edifício Imperial, propõe um elegante Os poucos exemplos até aqui ilustrados da sem grandes reservas, códigos eclécticos no
Art Déco sem conceder a detalhes historicistas. autoria de Júlio de Brito, apresentam imagens Edifício Ateneia, rende-se com facilidade às
São também de Júlio de Brito os dois gave- bastante diversificadas e com poucos pontos novas demandas do regime e passa a utilizar,
tos da Praça General Humberto Delgado com em comum entre elas. Não ilustramos outras sem “pudor”, o repertório pseudo-nacionalista
a Avenida dos Aliados, nos quais podemos ver, obras de maior impacto, como seja o Teatro incentivado pelo Estado Novo em alguns dos
14
sem grande surpresa, que também Júlio de Brito Rivoli, com licenciamento datado de 1928 , ou seus edifícios. Os seus gavetos para a Avenida
adere ao estilo oficial do regime, com uma maior as moradias projectadas no mesmo período, dos Aliados e o Edifício Capitólio são, no entan- 13 Baseado em BRANCO, Luís
Maria Aguiar; MARQUES, Maria
pujança do que em qualquer dos edifícios em que entretanto foram publicadas, as quais to, casos relativamente excepcionais no Porto, Augusta – Porto com Pinta. Porto:
[s.n.], [2005] (impressão: Ponto
estudo. Estes edifícios, o primeiro com proces- confirmam a versatilidade deste autor. Júlio de excepcionalidade que se deve à sua, também Comum).
14 Baseado em MADUREIRA,
so de licenciamento datado de 1948 FIG.496 e o Brito, para além de ser arquitecto, formou-se excepcional, localização no espaço representa- António – Monografia de Júlio de
Brito in Desenho de Arquitectura
segundo já de 1955 FIG.497, respeitam os princípios em engenharia e trabalhou frequentemen- tivo da cidade. – Património da Escola Superior
de Belas Artes do Porto e da
compositivos da Avenida, pontuando os cunhais te em diversas co-autorias, o que explicará, Relativamente a José Porto, podemos Faculdade de Arquitectura da
11 Universidade do Porto. Porto:
com torreões , embora assumam expressões parcialmente, a diversidade estilística da sua observar o retrocesso na sua “tímida” moder- Universidade do Porto, 1987, pp.
50-51.
distintas, eventualmente correspondentes ao obra, exemplificando: com Manoel Marques nidade na própria Rua de Sá da Bandeira, na 15 Baseado em MENDES, Manuel
(coordenador) – (In)formar a
desfasamento temporal entre eles e à evolução (co-autor do edifício da Rua da Conceição) passagem do seu Edifício Geminado projectado modernidade: Arquitecturas
portuenses, 1923-1943:
do seu autor neste período. O primeiro dos dois projecta, em 1927, uma casa na Praça Mouzinho no final da década de 30 FIG.59 e 60 para o Edifício morfologias, movimentos,
15 metamorfoses. Porto: FAUP
gavetos da Avenida dos Aliados, o Edifício da de Albuquerque , um dos mais belos exem- Emporium FIG.156 A 185, feito uma década depois, publicações, 2001, pp. 40-41.
16 Idem, pp. 64-65.
Companhia de Fiação e Tecidos de Fafe, é aquele plares do estilo Art Déco no Porto; com João e onde, apesar de continuar a apostar num certo 17 Idem, pp. 90-91.

que melhor espelha a arquitectura oficial do regi- Simões, em 1937, projecta uma casa na Rua de modernismo que expressa, de novo, através de
16
me, com uma imagem próxima da do conjunto Costa Cabral onde estão ausentes os motivos longas e lineares varandas horizontais, descon-
da Praça do Areeiro em Lisboa, de Cristino da decorativos, numa composição de volumes textualiza elementos da arquitectura tradicional,
Silva e de 1938, símbolo da era salazarista e mar- com uma aparência quase funcionalista; com tais como os cachorros sob os volumes pro-
12 17
co na mudança da linguagem arquitectónica F. Augusto, na Rua da Alegria, em 1939 , um grupo jectados dos corpos das escadas e cria uma
do prédio de rendimento, transformando-se num de casas de habitação de inspiração Vienense. monumentalidade clássica no seu cunhal através
exemplo paradigmático do “português suave”. do torreão. Por tudo isto, o Edifício Emporium é, de

242 Introdução Opções temáticas / objectivos / ESTRATÉGIA


245

FIG. 499 Câmara Municipal da FIG. 500 Edifício Trabalho e Refor- recendo, desse modo, a coexistência de linguagens e
Beira, Moçambique de José Porto, ma de Maria José Marques da Silva
de 1944-1945 e David Moreira da Silva, de 1949 a separação ordenada dos momentos que compõem
o acto de projectar. Por fim, as influências lá de fora,
os modelos oriundos da Europa, sobretudo daquela
Europa que emanava desígnios de simpatia política,
estavam também eles, pelas suas razões, a conter
e a condenar o racionalismo, encarquilhando-se
progressivamente sobre o próprio umbigo, em louvor
21
aos exacerbados nacionalismos que os moviam.”
A pressão do regime não é formal e não
sabemos até que ponto o retrocesso na
modernidade de estes autores terá sido uma
cedência ao regime ou se se deveu também
a mudanças ocorridas neles próprios. São,
sobretudo, os testemunhos de quem viveu
esta época que atestam o “clima de terror” que
então se vivia; a asfixia ocorre na apreciação
dos projectos, na avaliação das comissões de
estética, quando não sujeitos à sentença do
18 Baseado em BENTO, Paulo 21 Citação de BANDEIRINHA,
próprio Salazar. Contudo, considerando a frágil
todos os edifícios da Rua de Sá da Bandeira, aque- do aquando do falecimento de Maria José Torres – José Porto (1883-1965):
Desvendando o arquitecto
José António Oliveira – Quinas
Vivas: Memória Descritiva de
O processo de retrocesso face à modernidade consistência ideológica do modernismo em
le que melhor representa a solução hibrida entre Marques da Silva e onde tomamos conheci- de Vilar de Mouros. Vilar de
Mouros: Centro de Instrução e
alguns episódios significativos
do conflito entre fazer moderno
que temos vindo a observar nos autores dos Portugal, é com facilidade que uns cedem e,
um modernismo e as pretensões nacionalistas. mento de que o edifício de Sá da Bandeira foi a Recreio Vilarmourense – Junta
de Freguesia de Vilar de Mouros,
e fazer nacional na arquitectura
portuguesa dos anos 40. Porto:
edifícios em estudo da Rua de Sá da Bandeira, outros, aderem à solicitação do regime.
Pelas semelhanças que tem com o Edifício primeira obra de grande envergadura do casal; 2003, p. 35.
19 AA/VV - Architectures à Porto.
FAUP publicações, 1996, pp. 23-24. é relativamente generalizado e foi exemplar- No Edifício Emporium, restos de alguma
Emporium, não resistimos a ilustrar aqui, o aí, surgem algumas, ainda que poucas, referên- Liége: Ed. Pierre Mardaga, 1990.
20 Jornal dos Arquitectos nº 206,
mente descrito por José António Bandeirinha a modernidade convivem com apontamentos
edifício da Câmara Municipal da Beira FIG.499, em cias a outras obras da filha de Marques da Silva Lisboa: OASRS, Maio de 2002 propósito da Exposição do Mundo Português: de uma arquitectura pretensamente nacional.
Moçambique, que José Porto projectou poucos e do seu marido, David Moreira da Silva. “Traição, recuo, retrocesso, reconversão, são pala- Exceptuando o Edifício DKW, que contextuali-
18
anos antes daquele, em 1945 . Neste edifício, David Moreira da Silva foi responsável por vras que têm vindo a caracterizar a mudança de zaremos de seguida, todos os edifícios da Rua
pequenas diferenças como a escala e a delicade- uma série de Planos de Urbanização, mas são rumo das linguagens arquitectónicas, que teve lugar de Sá da Bandeira deste período adoptam o
za dos seus elementos, fazem com que se insira poucas as obras de arquitectura que se mencio- no final dos anos trinta. É de crer, porém, (…) que a Art Déco, no entanto, muda o corpo destas
num delicado Art Déco colonial e que, apesar da nam na sua biografia, consultada na Fundação consistência ideológica e cultural dos pioneiros do arquitecturas, sendo substituída a anterior leve-
sua função, de modo algum partilhe a pretensa Marques da Silva. Uma obra de referência da sua modernismo em Portugal era tão frágil, que o pro- za e delicadeza, sobretudo através da escala
monumentalidade do Edifício Emporium. autoria foi a Sede Cooperativa de Produção dos cesso de substituição dos modelos formais ocorreu conferida pelo desenho da sua imagem pública
Já no Palácio do Comércio FIG.186 a 189 a Operários Pedreiros Portuenses, que projectou de um modo quase natural, não se podendo falar de pública, por uma massa e peso, comparativa-
monumentalidade não se limita a detalhes pon- entre 1934 e 1937, um edifício industrial onde ruptura, mas antes de transformação de processos. mente, esmagadores.
tuais do edifício, tal como no Edifício Emporium utiliza o léxico modernista com mestria. Três ordens de razões subsistem como processo
ou no Edifício EDP, sobretudo com o intento de Um outro prédio de rendimento de autoria justificativo dessa transformação. Em primeiro
dignificar o canto dos respectivos quarteirões, do casal é o Edifício Trabalho e Reforma FIG.500, lugar, a sua formação Beaux-Arts tende a ser posta
mas estende-se à própria escala do edifício, de 1949, e se o Palácio do Comércio é para- em contraste com o autodidactismo mais ou menos
que se destaca da massa construída da cidade digmático de uma nova monumentalidade diletante que lhes fomentou o gosto pelo moderno,
para se assumir como uma referência urbana para a arquitectura privada, o Edifício Trabalho permitindo-lhes, assim, uma maleabilidade de pro-
à escala da cidade, papel até aí reservado para e Reforma representa como nenhum outro, dução difícil de avaliar pelas gerações posteriores,
edifícios de carácter público. aplicado ao prédio de rendimento no Porto, o agarradas que estão à integridade ideológica ou ao
Para além de uma ilustração em estilo importado das ditaduras alemãs e italiana, rigor da coerência crítica. Em segundo lugar, há que
19
“Architectures à Porto” , só encontramos um Art Déco monumentalizado, e adoptado ter em conta o carácter de sistematização analítica
menção ao Palácio do Comércio num pequeno como estilo oficial do regime português desde a do funcionalismo – base teórica preferencial dos
20
artigo do Jornal dos Arquitectos , publica- Exposição do Mundo Português, tornando muito primeiros modelos -, que promovia a desagregação
clara a empatia do casal com o regime fascista. dos elementos de composição metodológica, favo-

244 Introdução Opções temáticas / objectivos / ESTRATÉGIA


247

O reivindicar
No Edifício DKW FIG.247 a 280 e 351 a 365 vimos a Em 1945, no ano do armistício, com um artigo 1 Ver ROSA, Edite – ODAM: valores
modernos e a confrontação com a
adopção de uma postura moderna, quer na de Fernando Távora, na altura ainda um jovem realidade produ- tiva. Barcelona:
Escuela Tecnica Superior de
interpretação e formalização dos programas, finalista de arquitectura da Escola de Belas- Arquitectura de Barcelona, 2005.
2 Citação de BARBOSA,
quer na imagem adoptada, em profunda sinto- Artes, publicado no semanário Áleo e intitulado Cassiano (compilação) – ODAM

do moderno
– Organização dos Arquitectos
nia com o uso dos novos sistemas construtivos. “O problema da Casa Portuguesa”, inicia-se Modernos: Porto 1947 – 1952.
Porto: Edições Asa, 1972, p. 9.
Os autores do Edifício DKW, Arménio Losa oficialmente o debate renovador: “O texto, escri- 3 Citação de ROSA, Edite –
ODAM: valores modernos e a
(1908-1988) e Cassiano Barbosa (1911-1981), to com alguma dureza, pretende, sobretudo, marcar confrontação com a realidade
produtiva. Barcelona: Escuela
foram dos elementos mais intervenientes e um lugar para a Arquitectura Moderna, (…). Távora Tecnica Superior de Arquitectura
de Barcelona, 2005, p. 12.
1
peças-chave na formação do ODAM - sigla sabe que esse lugar tem de ser conquistado metro a 4 Citação de BANDEIRINHA,
José António Oliveira – Quinas
utilizada com dupla leitura, Organização dos metro, tem consciência plena de quem são os oposi- Vivas: Memória Descritiva de
alguns episódios significativos
Arquitectos Modernos ou Organização em tores e do que eles valem. Da cuidada construção do do conflito entre fazer moderno
e fazer nacional na arquitectura
Defesa de uma Arquitectura Moderna - e, quer seu texto, deduz-se que ele, se por um lado se abre portuguesa dos anos 40. Porto:
FAUP publicações, 1996, pp. 79-80.
por esse motivo, quer pela importância e qua- em convicções puras e em premissas insofismáveis, O texto em causa foi inicialmente
publicado no semanário ALÉO
lidade da sua obra, são os autores de meados por outro põe-se em guarda, deixando transpare- a 10 de Novembro de 1945 e
foi posteriormente ampliado
do século XX do Porto mais citados nas publi- cer que a recensão àquilo que escreve estará longe e reeditado nos Cadernos de
Arquitectura em 1947.
cações de arquitectura, tal como tínhamos já de ser pacífica. Neste sentido, e também porque é 5 Citação de ROSA, Edite –
ODAM: valores modernos e a
enunciado no início do trabalho. perceptível o tom de desagravo em relação à cultura confrontação com a realidade
produtiva. Barcelona: Escuela
Cassiano Barbosa deixou-nos um impor- arquitectónica dominante na época, depois de um Tecnica Superior de Arquitectura
de Barcelona, 2005, pp. 42-43.
tante testemunho ao publicar, em 1972, uma começo em andamento de ensaio, vai adquirindo
4
compilação de escritos produzidos individu- uma toada culminante próxima do manifesto.”
almente pelos membros do grupo, durante o Um ano após o texto de Fernando Távora e
seu período de constituição, intitulada “ODAM um ano antes da formação do ODAM no Porto,
– Organização dos arquitectos modernos surge, em Lisboa, o ICAT (Iniciativas Culturais,
1947-1952” e utilizamos as suas palavras, na Arte e Técnica), “mais ligado à renovação dos con-
nota prévia desta publicação, para expor os ceitos e a uma procura comum entre as várias artes
objectivos da formação do grupo: e era constituído por diversos artistas e arquitectos
“A organização dos Arquitectos Modernos (ODAM) que tinham preocupações menos disciplinares e
tem como objectivo divulgar os princípios em que mais ideológicas e políticas. O grupo ODAM do Porto,
deve assentar a Arquitectura Moderna, procurando apesar de se ter destacado também pela contesta-
afirmar, através da própria obra dos seus componen- ção à pretensão oficial de impor regras de cariz polí-
tes, como deve ser formada a consciência profissio- tico ao exercício profissional, era unicamente consti-
nal e como criar o necessário entendimento entre os tuído por arquitectos ou estudantes de arquitectura,
arquitectos e os demais técnicos e artistas. Assim, estando, portanto, essencialmente empenhado na
5
procura divulgar a Arquitectura Moderna através de renovação da teoria e prática disciplinar.”
2
exposições, conferências, publicações, etc.”
O grupo forma-se em 1947, no Porto, “congre-
gando um total de aproximadamente 36 arquitectos
3
e
muito ligados à Escola de Belas-Artes do Porto”
a data do pedido de licenciamento do Edifício
DKW é coincidente com a data da sua formação,
pelo que a sua modernidade não se deve ao
caminho que efectivamente viria a ser des-
bravado pelo ODAM no sentido de uma maior
aceitação do moderno.

246 Introdução Opções temáticas / objectivos / ESTRATÉGIA


249

Grande parte dos escritos compilados por É neste ambiente, “marcado pela vinculada conso-
Cassiano Barbosa referem-se às participa- lidação da reacção nacionalista às primeiras obras
7
ções dos elementos do ODAM no I Congresso do Movimento Moderno” e pelo inicio da acção de
Nacional de Arquitectura de 1948, iniciativa reivindicação ao direito de fazer moderno, que
patrocinada pelo Estado mas que, ironicamen- Arménio Losa e Cassiano Barbosa entram com o
te, se constituiu numa excelente oportunidade pedido de licenciamento do Edifício DKW.
para os profissionais da arquitectura contesta- O Edifício DKW implanta-se num lote loca-
rem as políticas vigentes e fazerem a defesa dos lizado num quarteirão em cujo plano também
ideais da arquitectura moderna; as conclusões, terá participado o próprio Arménio Losa: segun-
“aprovadas por algumas centenas – a quase tota- do Manuel Mendes, “de 1939 a 1945, integrou a
lidade – de representantes seus no congresso (…), Comissão de Estética, foi técnico do gabinete de pla-
assim se caracterizavam: neamento urbanístico da cidade. Aqui acompanhou
‘- Que se considere que nem os arquitectos pres- estudos preliminares para o plano geral de urbani-
tam bom serviço à nação quando, ao construírem zação e ocupou-se de planos parciais para proble-
8
edifícios novos, com processos e materiais novos, mas circunscritos da rede urbana fundamental” ,
dão às suas concepções uma expressão plástica que na qual os prolongamentos dos novos arrua-
não traduz os ideais artísticos e as possibilidades mentos rompem quarteirões pré-existentes
técnicas dos nossos dias, nem a nação aproveita sem questionar a forma tradicional de construir
inteiramente a colaboração que os arquitectos cidade, desenhando ruas e praças onde a
podem dar ao progresso do País se lhes for cerceada nova construção colmata os quarteirões, em 6 Citação de BARBOSA, FIG. 501 - 502 Bloco Carvalhosa
rua de intensa circulação, foi propositadamente
a capacidade criadora.’ continuidade de alinhamentos e cérceas com Cassiano (compilação) – ODAM
– Organização dos Arquitectos
que vai transitando do moderno estruturalismo de Arménio Losa e Cassiano
Barbosa, de 1946
implantado com um recuo em relação ao alinhamen-
‘- Que o portuguesismo da obra de arquitectura o edificado pré-existente. No desenho do troço Modernos: Porto 1947 – 1952. internacional, no da Rua de Sá da Bandeira, 12
Porto: Edições Asa, 1972, p.120. to estabelecido oficialmente.” Grande parte dos 10 Citação de ROSA, Edite –
não continue a impor-se através da imitação de ele- da Rua de Sá da Bandeira compreendido entre 7 Citação de BANDEIRINHA, desenhado com o pórtico estrutural de betão ODAM: valores modernos e a
José António Oliveira – Quinas textos escritos a propósito deste edifício defen- confrontação com a realidade
mentos do passado, pois a época que atravessamos as ruas de Fernandes Tomás e de Guedes de Vivas: Memória Descritiva de armado e a intercepção do seu corpo saliente, produtiva. Barcelona: Escuela
alguns episódios significativos dem que este recuo relativamente ao alinha- Tecnica Superior de Arquitectura
deve ficar caracterizada em relação às outras com Azevedo, confere-se um carácter público ao do conflito entre fazer moderno para uma imagem com dispositivos arquitectó- 13
de Barcelona, 2005, p.72.
e fazer nacional na arquitectura mento das construções pré-existentes ocorre 11 O pedido de licenciamento deu
a diferenciação que entre elas existe. Torna-se, pois, interior do quarteirão onde se insere o Edifício portuguesa dos anos 40. Porto: nicos tradicionais, de vãos que se rompem na entrada na Câmara Municipal do
FAUP publicações, 1996, p. 79. para o desligar das construções envolventes, Porto em Dezembro de 1945.
necessário os conceitos de tradição e regionalismo, DKW, situação relativamente excepcional até 8 Citação de MENDES, Manuel in parede, construindo a transição para o prédio 12 Citação de Prédio de habitação
BECKER, Anette; TOSTÕES, Ana; conferindo-lhe o valor de objecto autónomo, na na rua da Boavista, Porto in
fomentando a aplicação de novas técnicas e aca- à data na cidade do Porto. Apesar de o seu WANG, Wilfried - Arquitectura do vizinho, um exemplo paradigmático do estilo Arquitectura, Lisboa, 2ª série, nº
século XX - Portugal. Deutches linha da maioria das realizações do Movimento 47, Junho 1953, pp. 4-6.
rinhando novos ideais estéticos para que a obra de interior ser pontualmente acessível, e de se Architecktur Museum Frankfurt “português suave”. Citando Edite Figueiredo 14
13 Edifício confrontado a este e
am Main; CCB: Druck-und Moderno. De facto, a própria construção do oeste com uma casa em andares
contemporânea possa ser coerente e atingir aquele lhe prever uma utilização comum, encerra-se Verlagshaus Zarbock, 1997, p.206. Rosa: “Estes alçados apesar de regrados por uma (António Brito, 1939) e um edifício
9 O edifício de gaveto das ruas de alçado, com o corpo maciço central ladeado em andares (José Peneda, 1949)
grau de perfeição e beleza que alcançaram as dos perifericamente na totalidade com construção Guedes de Azevedo e do Bolhão estruturação única entre si, denunciam a falta de referido por MENDES, Manuel -
entrou na Câmara Municipal do por planos envidraçados em sombra, parece Edifício de habitação plurifamiliar,
mais puros estilos do passado.’ e não questiona o quarteirão enquanto unidade Porto com o nº 218/1945, com autonomia formal relativamente ao contexto urbano bloco da Carvalhosa in BECKER,
termo de responsabilidade do querer reforçar a intenção de soltar o edifício Anette; TOSTÕES, Ana; WANG,
‘- Que os arquitectos portugueses repudiem toda repetível na construção do tecido urbano. Eng. Francisco Jacinto Sarmento envolvente, materializando-se como parcela de uma Wilfried - Arquitectura do
Correia de Araújo e com desenhos 10 das construções vizinhas. No entanto, regra século XX - Portugal. Deutches
e qualquer insinuação de que a sua obra, quando O Edifício DKW encaixa-se entre dois de arquitectura assinados por representatividade cívica existente.” Architecktur Museum Frankfurt
Rogério de Azevedo, numa versão geral, os seus autores respeitam alinhamentos am Main; CCB: Druck-und
se exprima de maneira diferente da considerada edifícios cujos licenciamentos lhe são ligeira- bastante similar à construída, Arménio Losa e Cassiano Barbosa têm Verlagshaus Zarbock, 1997, p. 202.
embora tenha sido alvo de e cérceas e projectam em continuidade com 14 Ver FERNANDEZ, Sérgio
como portuguesa, representa alheamento da sua mente anteriores: na Rua de Sá da Bandeira, aditamentos com desenhos uma extensa obra construída na cidade do – Percurso, Arquitectura
de arquitectura assinados por as pré-existências. Joana Rosas e Luzia Gama Portuguesa 1930/1974. Porto:
personalidade profissional e, o que é pior ainda, da o Edifício EDP de Manuel Passos Júnior e, na outros arquitectos, um deles com Porto, sendo vários os seus prédios de rendi- FAUP publicações, 1988, pp.52-53.
6 a assinatura de Júlio de Brito e assinalam o facto de o Bloco de habitação da 15 Citação de GAMA, Luzia;
sua nacionalidade.’” Rua de Guedes de Azevedo, um edifício com outro assinado por Manuel Paulo mento identificados na bibliografia, de entre ROSAS, Joana - O escritório da
Magalhães. Carvalhosa ser “um dos projectos cuja imagem dupla Arménio Losa / Cassiano
projecto inicial de Rogério de Azevedo, ambos os quais apenas nos debruçaremos sobre Barbosa. Porto: FAUP, 1990-1992,
constitui um caso isolado em todo o percurso. p.13.
com pedidos de licenciamento datados de alguns. De todos, o mais conhecido é o Bloco
9 11 Os autores não tinham até então ensaiado
1945 . Para os alçados dos blocos do Edifício da Carvalhosa FIG.501, projectado e construído
nenhum alçado que pudesse corresponder a
DKW FIG.247, os seus autores criam uma imagem contemporaneamente ao Edifício DKW e para o
esta concretização e nunca mais reutilizarão
mesmo cliente: “o edifício é um prédio de habita- 15
as soluções aqui traçadas.”
ção – aos andares, esquerdo-direito. Situado numa

248 Introdução Opções temáticas / objectivos / ESTRATÉGIA


251

FIG. 503 Edifício da Rua da Consti- 19 Baseado em TOSTÕES, Ana


tuição de Arménio Losa e Cassiano - Arquitectura Portuguesa nos
Barbosa, de 1949 Anos 50: “Os Verdes Anos” ou o
Movimento Moderno em Portugal,
Lisboa, Fac. de Ciências Sociais e
Humanas da Univ. Nova de Lisboa,
1994, p.69.

FIG. 504 Planta do primeiro piso


do Edifício da Rua da Constitui-
ção de Arménio Losa e Cassiano
Barbosa

FIG. 505 Edifício de escritórios da


Rua dos Bragas de Arménio Losa e
Cassiano Barbosa, de 1947

Ainda que, tal como no Bloco da Carvalhosa, bloco com outras condições de grandiosidade que Embora o Movimento Moderno pretenda Nos apartamentos maiores do Edifício da Rua
o Edifício da Rua da Constituição FIG.503, de não será fácil obter com projectos individualizados erradicar a simetria, a composição geral dos da Constituição FIG.504, de organização funcional
16 17
1949 , demarque e sublinhe a separação do ou simplesmente repetidos” Na base do edifício, alçados, quer do Bloco da Carvalhosa, quer do e racional, o corredor longitudinal é tangencial
seu corpo central com os alçados adjacentes aparecem visíveis os “pilotis” integrados numa Edifício da Rua da Constituição, faz uso desta, à sala comum e apenas se separam os dois
através de planos translúcidos, que neste caso base aligeirada, em oposição ao clássico emba- enquanto reflexo da organização interna dos espaços através de uma marcação da estrutura.
correspondem às circulações verticais comuns, samento maciço, solução que, como refere edifícios e denunciando a formação clássica dos Usam, por vezes, a assimetria, tal como o fizeram
16 Baseado em FERNANDEZ,
a verdade é que encaixa entre as construções Sérgio Fernandez, se transforma em protótipo Sérgio – Percurso, Arquitectura seus autores. Não é, no entanto, uma simetria no edifício de escritórios da Rua dos Bragas FIG.505,
Portuguesa 1930/1974. Porto: 19
vizinhas, eventualmente posteriores, sem pôr na cidade do Porto: “os ‘pilotis’, aqui reduzidos ape- FAUP publicações, 1988, p.78. estática: as linhas horizontais da cobertura e de 1947 , onde janelas horizontais corridas se
17 Excerto da memória descritiva
em causa alinhamentos ou reclamar autono- nas à sua imagem por não corresponderem a espaço do projecto citada por GAMA, das varandas conferem dinâmica ao alçado do contrapõem a vãos quadrados, que pontuam
Luzia; ROSAS, Joana - O escritório
mia. Os acessos verticais da entrada central aberto, fazem a sua aparição meramente formal, da dupla Arménio Losa / Cassiano primeiro e, no segundo, obtém-se o mesmo a marcação descentrada da entrada no alçado,
Barbosa. Porto: FAUP, 1990-1992,
não se denunciam no plano do alçado, refor- facto que se repetirá em muitos dos edifícios das p. 6. efeito através da perspectiva sobre o longo e fazendo-nos pressupor uma planta assimétrica.
18 18 Citação de FERNANDEZ,
çando a unidade do alçado. Podemos ler na sua nossas cidades.” Num alçado orientado a norte, Sérgio – Percurso, Arquitectura horizontal plano do alçado elevado do solo.
Portuguesa 1930/1974. Porto:
Memória Descritiva que “este edifício destina-se a tal como nos do Edifício DKW e do Bloco da FAUP publicações, 1988, p. 78.

três proprietários diferentes (que se associam) cada Carvalhosa com a mesma orientação, os vãos
um dos quais possue uma parcela de terreno com a do Edifício da Rua da Constituição abrem-se no
mesma extensão de frente. Associados para a exe- plano, emoldurados por uma moldura saliente.
cução das obras mandaram elaborar um projecto de
conjunto que, por isso, oferece o aspecto de um único

250 Introdução Opções temáticas / objectivos / ESTRATÉGIA


253

Retomando o tema do recuo do Bloco da O reclamar de um ordenado planeamento foi No entanto, apesar do desejo de mudança, a Para além destas intenções, o desalinhamento
Carvalhosa relativamente ao alinhamento das uma das tónicas dominantes do I Congresso obra realizada, quer em áreas consolidadas, relativamente às construções vizinhas explicar-
construções pré-existentes, vejamos os escritos Nacional de Arquitectura, tema a que Arménio quer em áreas de crescimento, tal como o -se-á, mais provavelmente, por uma engenho-
dos seus autores para tentar escrutinar qual o Losa dedicou uma das suas intervenções, sob assinalam Luzia Gama e Joana Rosas, paten- sa estratégia de resposta às solicitações do
seu posicionamento perante a relação da arqui- o título “Arquitectura e Urbanismo”, na qual cri- teia uma sensata atitude concertadora, não cliente: conseguem-se elevadíssimos índices
tectura com a cidade, para esclarecer se, de tica a “rua-corredor” e o povoamento disperso assumindo posições de ruptura: “os edifícios pro- de ocupação do solo, quer na mancha de
facto, este se deve ao desejo de reclamar auto- característico da região norte de Portugal, pro- jectados dão resposta ao desenvolvimento da cidade implantação, quer em altura. Aliás, na corres-
nomia para o edifício em conformidade com os pondo como solução alternativa a construção com uma atitude conciliadora, que os relaciona com pondência que os seus autores mantinham
postulados do Movimento Moderno. Num artigo em altura e uma nova forma de planear, que o passado identificando-os também com as novas com o cliente podemos ler, em dada altura, a
sobre a cidade do Porto, publicado no Jornal do pelas suas menções, se depreende a referência 20 Citação de LOSA, Arménio - A
construções. (…) Tanto na ocupação do lote e volu- seguinte argumentação: “Conseguir a construção 22 Citação de GAMA, Luzia;
Comércio, Arménio Losa reclama um ordenado ao urbanismo proposto nos CIAM: “As quatro Arquitectura e a cidade in O
Comércio do Porto, 26 de Janeiro
metria, como na imagem facilitam a continuidade de seis pavimentos habitáveis como era seu intento e ROSAS, Joana - O escritório da
dupla Arménio Losa / Cassiano
planeamento na construção de uma cidade funções do Urbanismo são teoria, ainda não aceite de 1954.
21 Citação de LOSA, Arménio
com os prédios vizinhos, o que os integra na envol- desejo, onde só era admitida a construção de quatro, Barbosa. Porto: FAUP, 1990-1992,
p.9.
22 24
ordenada e harmoniosa, numa relação com- oficialmente em Portugal. A rua – corredor continua - Arquitectura e Urbanismo in
BARBOSA, Cassiano (compilação)
vente próxima, conferindo unidade ao conjunto.” valorizando assim o terreno adquirido.” 23 Citação de Prédio de habitação
na rua da Boavista, Porto in
plementar entre a arquitectura e planeamento a servir de guia aos novos traçados. (…) As densi- – ODAM – Organização dos
Arquitectos Modernos: Porto
Com o recuo na implantação do Bloco O desejo de beneficiar o seu cliente fez com Arquitectura, Lisboa, 2ª série, nº
47, Junho 1953, pp. 4-6.
urbano e postula uma arquitectura integrada dades altas, as circulações mecânicas, as relações 1947–1952. Porto: Edições Asa,
1972, p.61-62.
da Carvalhosa, segundo os próprios autores, que procurassem e adoptassem uma muito invul- 24 Notas tomadas após a carta
de José A. Guimarães de 10 XI 48
com a construção envolvente: “É pois chegada mais convenientes entre a habitação e o trabalho, procurou-se, “forçando um pouco as regras fixa- gar solução no percurso de acesso ao edifício, citadas por GAMA, Luzia; ROSAS,
Joana - O escritório da dupla
a hora, que de há muito vem tardando, de dar de o desporto acessível à população são assuntos ofi- das para todas as ruas já mais ou menos edificadas, feita de tal modo que não chega a pôr em causa Arménio Losa / Cassiano Barbosa.
Porto: FAUP, 1990-1992, p.15.
novo à cidade o direito de uma legitima vontade: o cialmente ignorados entre nós. (…) Nas grandes cida- corresponder ao princípio lógico de que a habitação a leitura da rua e a unidade urbana – o jardim, 25 “a obrigatoriedade de
‘decorar as empenas! Esta
de se ver crescer com ordem, com harmonia, com des existem, há muito e cada dia mais agravados, deve ser tanto quanto possível isolada das artérias enquanto espaço de transição, embora não inflexível postura dava lugar a
confrangedoras composições
um pouco mais de beleza. (...) Do mesmo modo que sérios problemas que não poderão ser resolvidos com de circulação mecânica. Este recuo, embora peque- murado, assegura as continuidades urbanas e a cenográficas que alguns prédios
ostentam como testemunho
o urbanismo que despreze a arquitectura não pode os velhos métodos de urbanismo. Para o mais grave, no, permitiu realizar algumas vantagens de que o empena que daqui resulta “despida” é colmatada dos critérios perfilhados pelos
responsáveis da estética
ser perfeito, também a arquitectura para realizar-se o do alojamento dos habitantes, poderia encontrar- prédio beneficia: uma moldura de verde, isolamento trabalhando aspectos decorativos, embora ape- citadina da época a que se faz
referência” in nota 5 in BARBOSA,
25
integralmente, não pode desligar-se do planeamen- -se satisfatória solução se se adoptasse a construção dos ruídos mais incómodos e da trepidação causada nas para cumprir com disposições camarárias. Cassiano (compilação) – ODAM
– Organização dos Arquitectos
to urbano. A arquitectura, ordenadora do espaço, de grande altura que o actual adianto da técnica pelos veículos pesados, maior distância dos prédios Modernos: Porto 1947 – 1952.
Porto: Edições Asa, 1972, p. 15.
prolonga-se sempre para fora de si mesma e é tanto permite realizar. A construção em altura permitiria e, também uma maior altura sem prejuízo para ter-
mais completa quanto mais se harmoniza com o de resto solucionar muitos outros problemas que ceiros. O programa estabelecia um determinado tipo
que a rodeia, a natureza, as construções vizinhas, o afligem as nossas cidades: circulação, segurança, de habitação de renda necessariamente elevada e o
23
espaço exterior. Sozinha, isolada, independente de economia, rendimento dos trabalhos, etc. Estas solu- máximo aproveitamento do terreno.”
20
pouco vale (...)” ções arquitectónicas, inteiramente do nosso tempo, e
impossíveis antes do advento da civilização maqui-
nista, exigem que a estrutura urbana das cidades seja
21
também deste tempo, do tempo em que vivemos.”

252 Introdução Opções temáticas / objectivos / ESTRATÉGIA


255

FIG. 506 Corte transversal do FIG. 507 Planta do piso da entrada


Bloco da Carvalhosa de Arménio do Bloco da Carvalhosa de Armé-
Losa e Cassiano Barbosa nio Losa e Cassiano Barbosa, nível
da entrada

26 Ver, a este propósito, ROSA,


Edite – ODAM: valores modernos
e a confrontação com a realidade
produtiva. Barcelona: Escuela
Tecnica Superior de Arquitectura
de Barcelona, 2005, pp. 340-341.
27 Citação de FERNANDEZ,
Sérgio – Percurso, Arquitectura
Portuguesa 1930/1974. Porto:
FAUP publicações, 1988, p.52.
28 Citação de GAMA, Luzia;
ROSAS, Joana - O escritório da
dupla Arménio Losa / Cassiano
Barbosa. Porto: FAUP, 1990-1992,
pp.13-14.

29 Citação de Prédio de habitação


na rua da Boavista, Porto in
Arquitectura, Lisboa, 2ª série, nº
47, Junho 1953, pp. 4-6.
30 Citação de FERNANDEZ,
Sérgio – Percurso, Arquitectura
Portuguesa 1930/1974. Porto:
FAUP publicações, 1988, pp.52-53.

É muito interessante o comportamento do edi- introdução de um ‘saguão’ central e duas reentrân- determinada criteriosamente: a zona de serviço é adopção de uma fenestração reduzida, praticada no
fício no seu corte vertical perpendicular ao eixo cias laterais (relativamente ao limite do lote) é possí- estabelecida no lado norte apesar de ser o da frente paramento central da fachada, elemento de grande
da rua FIG.506, onde podemos aferir que o recuo vel desenvolver o fogo em profundidade conseguindo principal; os quartos de dormir são voltados para força a ligar a construção ao terreno. (…) Um vasto
relativamente ao alinhamento das construções uma efectiva hierarquização funcional, sem registar nascente, poente e sul; a zona de convívio, composta saguão FIG.508 permite a iluminação e ventilação dos
28
adjacentes permitiu o aumento da cércea e perdas na iluminação e arejamento do interior.” por dois grandes compartimentos apenas separa- compartimentos secundários da zona íntima, sem que
o desenho de um espaço verde de transição O volume gerado assemelha-se aos dos dos por cortinas, é iluminada simultaneamente pelo haja devassamento entre habitações. Em cada fogo
que, com o favorável desnível do terreno, ainda módulos do edifício estudado do Gaveto norte e sul, beneficiando assim de algumas horas um solário FIG.509 limitará esse saguão, proporcionan-
29
facultou a criação de um piso de habitação sob Noroeste da Rua Firmeza FIG.322, anterior a este e diárias de sol.” do uma zona suplementar de estar ou trabalhar, des-
26
o nível da entrada. Uma escadaria exterior de autoria de Manuel Passos Júnior, e, tal como Graças à estratégica localização dos dois de a qual se controlará o espaço destinado ao recreio
conduz até a entrada, já no segundo piso, “mar- aí, o saguão utiliza-se apenas para iluminar as espaços que constituem a sala, abertos entre das crianças, ao nível do terreno, junto das garagens.
cada pela existência de um grande vão que permite a casas de banho e as circulações comuns, quer si, na “alheta” do volume, onde este é menos (…) Os fogos respeitam um esquema de zonamento
leitura do átrio; naquele se insere um pórtico revesti- do prédio, quer do apartamento, embora, neste profundo, a luz do dia atravessa este espaço, racionalmente estudado em função dos hábitos da
27 30
do com pedra, a emoldurar a porta principal.” caso, com uma resolução da planta bem mais através das aberturas opostas uma à outra, média burguesia a quem o edifício se destina.”
A implantação também beneficia o seu engenhosa do que no anterior. Na sua descrição gerando assim uma transparência entre os
cliente avançando, em profundidade FIG.507, dos autores, “cada habitação é dividida em três amplos vãos envidraçados orientados a norte e
relativamente ao alinhamento posterior das sectores ou zonas completamente independentes: de a sul. Assumem-se as áreas de serviço orien-
construções vizinhas, com um corpo central serviço, de reunião e de repouso FIG.507. A orientação tadas para a rua, embora, tal como no Edifício
na zona posterior do lote: “Aqui, através da de cada zona e dos respectivos compartimentos foi DKW, “cuidando de lhes diminuir a presença, pela

254 Introdução Opções temáticas / objectivos / ESTRATÉGIA


257

Neste texto, para além da interessante alegação Vimos que, relativamente à relação da arqui-
na defesa de um espaço exterior na habitação, tectura com a cidade, Arménio Losa e Cassiano
os autores fazem a distinção entre “pátio” e Barbosa adoptam soluções de continuidade.
“saguão”, condenando este último e conside- Nos seus textos, podemos ver que a reserva
ram que o espaço exterior no centro do Bloco que demonstram para com a aplicação da
da Carvalhosa, se distingue de um “saguão” e arquitectura moderna no Porto deve-se, em
se poderá designar de “pátio”. O “saguão” do grande parte, ao atraso do país relativamente às
Bloco da Carvalhosa encontra-se muito bem civilizações industrializadas da Europa Central,
resolvido através da relação que estabelece cuja evolução tecnológica esteve na origem
com o interior do quarteirão, apenas filtrada das preocupações e propostas do Movimento
31 Citação de LOSA, Arménio in
‘Devem ser consideradas as seguintes circunstân- por estes “jardins de inverno”, e francamente Moderno e onde este floresceu, mas que não GAMA, Luzia; ROSAS, Joana - O
escritório da dupla Arménio Losa
cias antes de eliminar os terraços: aberto ao nível do solo para o pátio de acesso chegou a Portugal; as intervenções de Arménio / Cassiano Barbosa. Porto: FAUP,
1990-1992, pp.14-15.
As pias existentes nos quartos de banho das criadas às garagens, resolvendo, com estas medidas, os Losa no congresso insistem bastante na neces- 32 Citação de LOSA, Arménio
– Indústria e construção in
foram projectadas para lavar pequenas peças problemas de insalubridade que habitualmente sidade de actualização, sobretudo na dimensão BARBOSA, Cassiano (compilação)
– ODAM – Organização dos
de roupa: lenços, meias, etc. Estava prevista uma se associam a estes espaços e que estarão na que incide sobre o binómio arquitectura e cons- Arquitectos Modernos: Porto
1947 – 1952. Porto: Edições Asa,
lavanderia eléctrica que resolvia o problema da origem da veemente crítica que, nesta alega- trução, e fazendo inclusive a defesa da Máquina 1972, pp. 71-73.

restante roupa. Suprimida a lavanderia surge o pro- ção, Arménio Losa e Cassiano Barbosa lhes e respectiva estética como solução para a
blema da lavagem e principalmente da secagem da fazem. No entanto, e curiosamente, em simul- carência que existe de habitação condigna: “A
roupa. Só existe um local para a secagem da roupa. É tâneo com esta crítica, os mesmos arquitec- Arquitectura depende hoje, mais do que nunca, da

FIG. 508 - 509 Pátio interior e


nos terraços. tos, no Edifício DKW, utilizam uma solução de Máquina. Depende da produção em grande escala
alçado para o interior do quar-
teirão dos “solários” do Bloco da
A supressão dos terraços traz consigo a impossibi- saguão perfeitamente comum FIG.359, ainda que para ser útil e não apenas monumental e decora-
Carvalhosa de Arménio Losa e
Cassiano Barbosa
lidade de solucionar o problema da secagem da roupa. exclusivamente para iluminar e ventilar casas tiva; depende dos novos materiais e do emprego
A supressão dos terraços priva as habitações de banho e circulações comuns e, este saguão das novas técnicas, para dar satisfação às actuais
dum espaço ao ar livre cujo valor é inapreciável em partilhado com o prédio vizinho (com pedido exigências – aos temas novos. (…) Só o aproveita-
casa deste tipo. de licença anterior) era, o mais provavelmente, mento integral da máquina e da industrialização
A supressão dos terraços provoca a falta de luz um dado prévio à sua intervenção e que teria de poderá fornecer a casa perfeita e nas quantidades
na escada, nos quartos de banho e nas varandas ser comtemplado. requeridas para acomodar as populações. (…) O
envidraçadas facto que muito desvaloriza estas edifício – a habitação sobretudo – não tem podido
dependências. acompanhar a evolução dos tempos presentes, está
A supressão dos terraços tira às habitações o longe de alcançar o grau de perfeição, de exactidão,
elemento que corresponde ao jardim das mora- de eficiência, de conforto, de harmonia e mesmo de
dias individuais, privando-as de uma vantagem beleza que hoje possuem os automóveis, os aviões, a
insubstituível. carruagem de caminho de ferro e a grande maioria
A supressão dos terraços elimina a possibilidade dos produtos da indústria. E não só a casa mas o
de facultar às creanças um recreio ao ar livre sob o seu próprio conteúdo e equipamento, o mobiliário,
control familiar. mesmo o moderno na forma, é em geral antiquado,
A supressão dos terraços cria um saguão! ineficaz. (…) Os conceitos estéticos antiquados, os
Um saguão é o elemento mais condenável da sentimentalismos falsos, os métodos arcaicos de
Arquitectura. É uma solução inadmissível. construir, somados a muitas outras razões estra-
Num documento do processo (não identificado, A transformação do terraço em mais um com- nhas à questão, têm impedido o aproveitamento
mas aparentemente pertencente ao processo partimento vem onerar o preço da construção em conveniente dos recursos presentes, com prejuízo
camarário), no qual se dá resposta à proposta de alguns milhares de escudos não dando oportunidade para muitos e sem vantagens para ninguém. (…) As
eliminar os “terraços” existentes no projecto para de aumentar a renda pois elimina dois elementos experiências estão feitas: normalização, fabricação
32
cada habitação, os autores fazem a defesa apai- muito mais valiosos: em série, montagem.”
xonada da solução e as razões invocadas terão Um terraço ao ar livre é um local para
persuadido os técnicos da autarquia a terem em secar a roupa.
31
conta as pretensões dos arquitectos: Porto, 14 de Maio 1948 ”

256 Introdução Opções temáticas / objectivos / ESTRATÉGIA


259

A arquitectura moderna depende da estandar- “Paralelamente à intervenção do técnico, do econo- 33 Citação de LOSA, Arménio – A
arquitectura e as novas fábricas in
dização e do uso de novas tecnologias, ainda mista, do político, reclama-se a intervenção do arqui- BARBOSA, Cassiano (compilação)
– ODAM – Organização dos
não disponíveis, e propõe a industrialização da tecto: arquitecto construtor, arquitecto urbanista. Arquitectos Modernos: Porto
1947 – 1952. Porto: Edições Asa,
construção e a evolução tecnológica com um O campo de acção do futuro é vasto, quase virgem. 1972, pp. 63-70.
34 Citação de ROSA, Edite –
fim social; estas são as premissas que con- Dá lugar a todas as actividades imagináveis. Todas ODAM: valores modernos e a
confrontação com a realidade
ferem à arquitectura uma dimensão que até elas poderão ter lado a lado, sem acotovelamentos, produtiva. Barcelona: Escuela
Tecnica Superior de Arquitectura
então não lhe era atribuída, no reconhecimento o seu próprio lugar e o seu papel a desempenhar. A de Barcelona, 2005, p. 345.
35 Citação de MENDES, Manuel -
de que a sociedade está em transformação e complexidade crescente das diversas actividades Edifício de habitação plurifamiliar,
bloco da Carvalhosa in BECKER,
de que a arquitectura tem o dever de desem- – de cada matéria, de cada técnica – cria a especiali- Anette; TOSTÕES, Ana; WANG,
Wilfried - Arquitectura do
penhar um papel activo nessa transformação. zação e anula o amadorismo. O técnico, conhecedor século XX - Portugal. Deutches
Architecktur Museum Frankfurt
Forma-se uma nova consciência, o arquitecto já profundo da sua especialidade não pode abranger am Main; CCB: Druck-und
Verlagshaus Zarbock, 1997, p. 202.
não é apenas um “artista”, porque as novas soli- com a mesma profundeza todas as técnicas, e não
citações implicam interdisciplinaridade e uma pode ser sobretudo, ao mesmo tempo e completa-
resposta fundamentada e se, por um lado, este mente, homem de ciência e artista. Não pode executar
terá de se especializar, por outro, intervém em sozinho obra perfeita. (…) Ao arquitecto moderno
todos os sectores da vida, pelo que terá de ter impõem-se contudo novos deveres para com a socie-
um conhecimento actual e global do “Homem” dade a cujo serviço ficará mais intimamente ligado.
e da sociedade em que este se move; com a Não poderá, como no passado, limitar-se a servir a
ciência e o rigor introduzidos no exercício da um reduzido número de grandes senhores; nem se
disciplina, esta adquirirá credibilidade e passará resignaria a glorificar os deuses ou os príncipes. A sua
FIG. 510 Localização e perspectiva
a ser requerida, por se revelar necessária para nova missão, mais importante e fecunda, é servir toda do projecto para a Rua de Sá da
Bandeira de Viana de Lima de 1943
Já Viana De Lima (1913-90), um dos membros explanação da utopia na defesa de um Centro
a obtenção de eficiência e qualidade de vida: a população, todos os indivíduos. (…) Sem o conhe- do ODAM, assume, quer nas suas intervenções Habitacional, baseado na “Unité d´Habitation” e
cimento do homem e da máquina, o arquitecto não no congresso, quer na sua obra, um tom na na “Cité Radieuse” de Le Corbusier.
poderá intervir eficazmente; a sua colaboração será defesa do moderno, bem mais radical que o Na obra de Alfredo Viana de Lima é bastante
de reduzido benefício e a sua obra, obra de fachada. de Arménio Losa e Cassiano Barbosa. Na sua notória a sua admiração por Le Corbusier e, por
(…) O ensino nas escolas de arquitectura terá de ser intervenção sob o tema “O Problema Português esta época, apesar de já ter obra construída,
33
revisto em função dos novos deveres do arquitecto.” da Habitação”, a defesa do bloco como solução nomeadamente a, entretanto lamentavelmente
Na arquitectura de Arménio Losa e Cassiano para os problemas de habitação adquire um demolida, moradia da Rua de Honório de Lima,
Barbosa coexistem pacificamente as ideias do tom já quase panfletário, vislumbrando enormes de 1939 (“construída em 1943 e demolida em 1971
Movimento Moderno com uma formação clássica, 36 Citação de LIMA, Viana possibilidades num mundo sistematizado e (…), um dos poucos exemplares válidos de arquitec-
de – O problema Português 38
articulada com o seu conhecimento do moder- da habitação in BARBOSA, racionalmente organizado onde, naturalmente, o tura inspirada em Le Corbusier, na década de 40” ),
Cassiano (compilação) – ODAM
nismo, “devendo muito às obras modernas italianas – Organização dos Arquitectos urbanismo e a arquitectura desempenharão um ainda não tinha tido oportunidade de pôr em
Modernos: Porto 1947 – 1952.
quer na sua carga expressiva quer pelo nível de Porto: Edições Asa, 1972, pp.25- papel fundamental na sua edificação: “O espírito prática estes ideais na construção de um edifí-
27.
preocupações remete numa leitura apenas formal 37 Citação de BANDEIRINHA, colectivista e cooperativista deverá ser adoptado cio com programa de habitação plurifamiliar.
José António Oliveira – Quinas
para o desenho da casa na “Via Messina” em Roma Vivas: Memória Descritiva de na construção dos novos Bairros, para que todos Ainda que o seu projecto tenha sido prete-
34 alguns episódios significativos
do arquitecto Alberto Libera.”Partilham os ideais do conflito entre fazer moderno possam desta maneira usufruir as vantagens de rido a favor do de Maria José Marques da Silva
e fazer nacional na arquitectura
do modernismo, a que aderem sem os transfor- portuguesa dos anos 40. Porto: perfeito um equipamento moderno. A organização e David Moreira da Silva FIG.186 a 216 e 366 a 392, em
FAUP publicações, 1996, p.130. 39
marem num “credo”, fazendo com que adquiram, 38 Citação de BARBOSA, destes serviços livraria a mulher de uma pesada 1943 elaborou o projecto de um edifício para
Cassiano in BARBOSA, Cassiano
na sua obra, contornos específicos adaptados à (compilação) – ODAM – parte dos serviços domésticos, e, sendo postos à o quarteirão do Palácio do Comércio FIG.510 a
Organização dos Arquitectos
realidade em que intervêm; “outra concepção de Modernos: Porto 1947 – 1952. disposição das famílias, criariam uma raça sólida, 513 . Apesar de, nesta investigação, termos tido
Porto: Edições Asa, 1972, p.172. 36
arquitectura que abraça o ‘moderno’ contamina- 39 Baseado em ROSA, Edite – bela e sã.“ O inflamado discurso de Viana de como critério ilustrar apenas obras construídas
35 ODAM: valores modernos e a
do em caldo local.” Nos seus escritos torna-se confrontação com a realidade Lima, “de onde ressalta uma toada utópica eivada justifica-se que se analise aqui, excepcional-
produtiva. Barcelona: Escuela 37
evidente que não absorvem apenas os valores Tecnica Superior de Arquitectura de uma ingenuidade quase romântica” , prosse- mente, o projecto de Viana de Lima pelo facto
de Barcelona, 2005, p. 241.
epidérmicos da arquitectura do Movimento gue defendendo a habitação de baixo custo e de este, tendo o mesmo programa e sendo-lhe
Moderno, mas também aqueles que são os seus acessível para todos, inclusive dando soluções ligeiramente anterior, se destinar ao mesmo lote
fundamentos teóricos. de pagamento de casa própria, a longo prazo, de uma das obras em estudo.
para os mais desfavorecidos. O tom panfletário
permanece, até começar uma entusiástica

258 Introdução Opções temáticas / objectivos / ESTRATÉGIA


261

Na monografia dedicada a Viana de Lima, Pedro do quarteirão para o acesso aos grandes halls das
Vieira de Almeida descreve-o como sendo habitações. A ausência de depuração (do supérfluo)
“composto na sua última versão por dois blocos num compromisso linguístico entre uma pesada
quase paralelos, servido por um sistema de acessos materialidade art decó e uma modernidade doce
42
longitudinais em galeria, por sua vez apoiados em continuada na leitura do fecho do quarteirão.”
duas colunas de escadas que se dispõem frontei- Somos surpreendidos pelo desenho do seu
ras uma da outra, a meio dos lados mais pequenos topo sul FIG.510, onde se insinua uma monumen-
do quadrilátero imperfeito, que o todo constitui. talidade que contradiz a leveza do todo; mes-
As galerias abrem-se junto às escadas em amplas mo no desenho de um tão moderno arquitecto,
zonas de sociabilidade abertas à cidade. FIG.512 (...) é detectável o desejo de gerar imponência, o
Suponho que o maior interesse deste projecto que nos faz pensar que este se trataria de um
reside precisamente em que pela primeira vez os dos requisitos para este projecto (expresso de
fogos colectivos se articulam de maneira a tirar par- forma explícita ou não). Os alçados dos seus
tido expressivo da sobreposição de pisos FIG.511 . Este blocos FIG.511 são construídos através de uma
tirar partido expressivo – expressivo ao nível das grelha de betão, preenchida por panos envidra-
vivências – encontra-se perfeitamente documenta- çados e por varandas, reflectindo a modulação
do nos cortes transversais, quer no corte de conjunto interna do conjunto e propondo uma generosa
desenhado rigorosamente quer, ou talvez ainda mais abertura ao exterior.
explícito, nos esbocetos do fogo FIG.513 . Podemos A lógica de repetição modular FIG.512, no
também nestes entender melhor em planta o espaço projecto de Viana de Lima, legitimaria os topos FIG. 511 Planta do piso térreo e
do terraço no conjunto dos fogos, ao permitir o per- cegos dos blocos para a pequena praça que o alçado do projecto para a Rua de
Sá da Bandeira de Viana de Lima
curso circular envolvendo a sala de estar e o espaço edifício gera, em qualquer das versões da sua
frente às escadas FIG.512, percurso circular que foi implantação, tal como aliás sucede no projecto
depois activamente procurado resolver em progra- dos Edifícios-Villas de Le Corbusier, retirando
mas de habitação social. Por sua vez a varanda que importância a este alçado relativamente às
no piso superior do fogo se debruça sobre o terraço restantes frentes do edifício; no entanto, Viana
em baixo, prolonga o mesmo espaço no andar res- de Lima, contrariando a lógica modular do
pectivo, de uma maneira talvez rígida, mas mesmo projecto, gira os fogos criando uma frente para a
40
assim ao tempo inovadora.” praça, um gesto que, aliado à sua simétrica axia-
O projecto de Viana de Lima assume a lidade e à estatuária introduzida, engendra uma
desconstrução do quarteirão em dois blocos, inesperada monumentalidade, reforçada ainda
com uma imagem claramente referenciada mais pela bandeira posicionada ao centro, em
ao projecto dos Edifícios-Villas, de 1922, de sentido ascensional, remetendo a aparência
41
Le Corbusier . No entanto, citando Edite deste edifício civil para a de um edifício público.
Figueiredo Rosa, “relativamente ao modelo Com este gesto, curiosamente, é a solução de
corbusiano, este projecto contamina-se nos seus Viana de Lima aquela que maior destaque con-
arquétipos historicistas, e na impossibilidade de fere ao edifício na pequena praça; na solução
subverter ou executar os dispositivos formais das vencedora, a imponência é-lhe conferida pela
inspirações espaciais implicitamente propostas. sua escala e pelo tratamento dado aos seus
A ausência de abertura do interior do quarteirão alçados: o elemento posto em evidência é o 40 Citação de ALMEIDA, Pedro
Vieira de in AA/VV – Viana de Lima,
à cidade com programas que incentivem o uso cunhal da Rua de Sá da Bandeira, estando os arquitecto 1913-1991 (Catálogo
de Exposição). Lisboa: Fundação
comunitário de lazer e cultura do imóvel Corbusiano elementos escultóricos quase imperceptíveis Calouste Gulbenkian, 1996, p.75
41 Baseado em BOESIGER, Willy –
é aqui preterido por uma visão urbana convencional e apenas à espreita, do alto do seu alçado volta- Le Corbusier. Barcelona: Gustavo
Gili, 1985, pp.16-17.
de abertura do espaço comercial para a rua FIG.511 , do para esta rua. 42 Citação de ROSA, Edite –
ODAM: valores modernos e a
apesar de fomentar alguma diferenciação progra- confrontação com a realidade
produtiva. Barcelona: Escuela
mática obrigando ao atravessamento pelo interior Tecnica Superior de Arquitectura
de Barcelona, 2005, pp. 241-243.

260 Introdução Opções temáticas / objectivos / ESTRATÉGIA


263

FIG. 513 Corte transversal e


esboços do fogo-tipo do projecto
para a Rua de Sá da Bandeira de Apesar das suas fragilidades, ou eventuais
Viana de Lima
concessões, a proposta de Viana de Lima para
o quarteirão do Palácio do Comércio é de uma
enorme modernidade, sobretudo quando com-
parada com a proposta construída. A burguesia
portuense ainda não estaria preparada para o
seu moderníssimo discurso, o que terá indu-
zido a que fosse preterido a favor da imagem
Art Déco classicizante do projecto construído,
FIG. 512 Plantas dos pisos do opção bastante reveladora da mentalidade de apartamentos burguês, (solicitador da enco-
projecto para a Rua de Sá da
Bandeira de Viana de Lima Não encontramos precedentes, no Porto, des- monumentalidade, eram tranquilamente inseridos dominante na época, na cidade do Porto. É menda) e uma nova moradia socialista colectiva (o
te desejo, expresso em ambas as versões, de e absorvidos pela construção envolvente. Com a muitíssimo inovador para o Porto, sobretudo do falanstério) caminhando já no sentido das preo-
converter um edifício de carácter privado em sua monumentalidade dignificavam-se, e à cidade, ponto de vista tipológico, já que, pela primeira cupações sociais do ODAM. (…) No entanto apesar
monumento. A habitação e os serviços, tradicio- com a sua “nobre” presença, mas não procuravam vez, se propõem tipologias de fogos em dúplex, do “seu fracasso” num novo desenho radicalmente
nalmente, construíam o corpo homogéneo da competir com os edifícios públicos e religiosos em denunciadas no alçado através das varandas de inovador de estrutura de cidade, o imóvel habitacio-
cidade, de onde se podiam destacar as instituições representatividade: a monumentalidade das suas dupla altura. Edite Figueiredo Rosa faz a síntese nal urbano de Viana de Lima propõe-se, deste modo,
públicas e religiosas e, mesmo quando alguns fachadas não os colocava em destaque, pois não das suas contradições: “Esta solução de Viana de como suprimento qualitativo do jardim suspenso e
dos seus alçados de rua expressavam alguma procuravam esse protagonismo no espaço público. Lima é apontada como meio caminho entre o prédio unidade autónoma de grande altura e densidade

262 Introdução Opções temáticas / objectivos / ESTRATÉGIA


265

FIG. 514 Bloco de Costa Cabral de


Viana de Lima e Rocha Gonçalves, os recintos ao ar livre destinados às crianças, os
de1953
grandes relvados, as galerias cobertas ligando as
unidades e os quatro pequenos estabelecimentos
formarão o ambiente apropriado às necessidades
46
psicofisiológicas.”
O bloco construído, “notável pela relação
escultórica entre a expressionista pala de entrada e
47
a estaticidade do bloco de habitações” FIG.516 e 517,

foi aquele a que se acede a partir da rua pré-exis-


habitacional a formar um desenho de cidade por tente e cuja implantação já não coincide com
quarteirões conseguindo o objectivo de formalizar a que foi esboçada no estudo de conjunto. O
uma nova escala de cidade, o cumprimento de uma edifício, alinhado com a rua, recua relativamente
vida moderna com espaço racionalizado e organi- ao alinhamento das construções pré-existentes,
zado, através da amplitude que as varandas dos criando aí um espaço verde de transição.
43
duplexes transmitem à fachada.” Apesar de, no seu embasamento, exibir a
Viana de Lima só dez anos mais tarde, em estrutura, de novo, o bloco não liberta o solo
44
1953 , encontra finalmente oportunidade para da sua base, onde também integra habitações
pôr em prática as suas ideias, expressas aquan- apenas ligeiramente sobrelevadas no piso
do da sua intervenção no I Congresso Nacional térreo, cuja privacidade se assegura através do
de Arquitectura, no Bloco de Costa Cabral FIG.514 tratamento dos espaços verdes envolventes FIG. 516 Alçado e corte
transversal do bloco de
A 517, projectado em co-autoria com Rocha e da modulação do terreno do lado oposto à Costa Cabral
45
Gonçalves , apesar de o seu estudo apenas entrada e, tal como o assinala Edite Figueiredo
ter sido realizado parcialmente e de, dos vários Rosa, “os princípios fundamentais que presidem ao
blocos, apenas ter sido construído um FIG.515. projecto parecem efectivamente apontar algumas
Num extracto da Memória Descritiva, revela semelhanças de estruturação com as unidades
que sacrificou ligeiramente a orientação solar, de habitação corbusianas, embora a diferença de
de forma a adaptar o edifício à sua correcta escala e de tipologia habitacional deste projecto não
48
inserção urbana: “...torna-se todavia necessário permita mais do que subtis alusões a este modelo.”
46 LIMA, Viana de - excerto da
esclarecer que a implantação por nós desejada para Memória Descritiva in AA/VV
– Viana de Lima, arquitecto 1913-
a implantação das unidades, seria aquela em que o FIG. 515 Axonométrica do estudo 43 Citação de ROSA, Edite – FIG. 517 Pala de entrada do bloco 1991 (Catálogo de Exposição).
de conjunto e planta do piso ODAM: valores modernos e a de Costa Cabral de Viana de Lima e Lisboa: Fundação Calouste
eixo de cada unidade correspondesse à orientação térreo do bloco de Costa Cabral confrontação com a realidade Rocha Gonçalves, de 1953 Gulbenkian, 1996, pp. 40,130-133.
produtiva. Barcelona: Escuela 47 Citação de TOSTÕES, Ana –
Norte-Sul, mas a necessidade dum enquadramen- Tecnica Superior de Arquitectura Arquitectura Portuguesa nos
de Barcelona, 2005, pp. 241-243. Anos 50: “Os Verdes Anos” ou o
to com os alinhamentos existentes levaram-me a 44 Baseado em FERNANDEZ, Movimento Moderno em Portugal.
Sérgio – Percurso, Arquitectura (Dissertação de Mestrado em
verificar que a solução apresentada é a que melhor Portuguesa 1930/1974. Porto: História de Arte) Lisboa: Fac. de
FAUP publicações,1988, p.81. Ciências Sociais e Humanas da
se enquadra com o ambiente local, e dele resultou, 45 Baseado em ALMEIDA, Pedro Univ. Nova de Lisboa, 1994, p. 89.
Vieira de in AA/VV – Viana de Lima, 48 Citação de ROSA, Edite –
o jogo desencontrado das unidades que permitindo arquitecto 1913-1991 (Catálogo ODAM: valores modernos e a
de Exposição). Lisboa: Fundação confrontação com a realidade
uma boa penetração visual sobre o conjunto asse- Calouste Gulbenkian, 1996, p.81. produtiva. Barcelona: Escuela
Tecnica Superior de Arquitectura
gura também uma regular insolação. A arborização, de Barcelona, 2005, p. 428.

264 Introdução Opções temáticas / objectivos / ESTRATÉGIA


267

FIG. 518 Bloco da Rua Formosa de FIG. 520 Alçado e corte


Viana de Lima, de 1955
FIG. 519 Plantas do piso tipo e
Na monografia dedicada a Viana de Lima confir- É especialmente complexa a articulação formal Os blocos de Costa Cabral e da Rua Formosa Os próximos prédios de rendimento que ilus- transversal do Bloco da
Rua Formosa
do piso superior do Bloco da Rua
Formosa
mamos ser de sua autoria um prédio de 1955, na na “amarra” da esquina angulosa do paralelepí- já são bastante posteriores ao Edifício DKW traremos neste subcapítulo, que já vai longo,
49
Rua Formosa FIG.518 a 520, antiga Rua da Cancela pedo que define o seu corpo principal com o e inclusive posteriores ao ODAM, que dá por tal como estes de Viana de Lima, são todos
Velha. O edifício implanta-se num pequeno lote, alçado da construção vizinha que preserva: concluída a sua tarefa em 1952: “O texto editado eles já da primeira metade da década de 50 e
resultante das definições de novos alinhamentos um “edifício datado de 1937, de autoria dos arqui- na revista Arquitectura n.º 45, de Novembro de de membros do ODAM; estes são os prédios
no remate de um pequeno quarteirão triangular, tectos Manuel Marques e Amoroso Lopes na rua de 1952, ‘A arquitectura para os arquitectos’, atesta o referidos no início deste trabalho como sendo
50
construindo toda uma das suas frentes com a Rodrigues Sampaio” . Ainda que a assimilação reconhecimento do Grupo na difícil conquista das aqueles que habitualmente a crítica menciona,
imagem de bloco modernista, no corpo avan- deste alçado seja bem-feita, do ponto de vista liberdades conceptuais inerentes à profissão. Escrito os quais, pelo seu carácter vanguardista no
çado sobre o arruamento, ainda que ancorado da sua execução, o seu resultado formal é insó- pelo próprio vereador e presidente da Comissão de contexto da arquitectura nacional, definiram
às preexistências nos seus remates, nas viragens lito: é bastante polémica, e também talvez o Arte e Arqueologia da Câmara do Porto, afirma-se algumas das soluções que terão sido adapta- 51 Citação de ROSA, Edite –
ODAM: valores modernos e a
para os arruamentos adjacentes. seu ponto mais frágil, a opção de, deste edifício, como o reconhecimento por parte desta entidade das mais tarde, embora sem a mesma mestria, confrontação com a realidade
produtiva. Barcelona: Escuela
Apesar do modo como se apropria da ima- apenas preservar a sua fachada, assimilando-a pública da salvaguarda do exercício da arquitectura na construção corrente da cidade do Porto; Tecnica Superior de Arquitectura
de Barcelona, 2005, p. 259.
gem do bloco modernista, constrói e remata num conjunto cujas lógicas externa e interna já a executar só por arquitectos com a exigência da o seu desfasamento temporal para com o
um quarteirão; funde o “objecto” modernista nada têm que ver com as desta pré-existência, aplicação imediata desta directiva no respeitante à Edifício DKW atesta a importância, quer deste,
com o quarteirão, totalmente assimilado pela abrindo, inconscientemente, um precedente cidade do Porto. (…) Este reconhecimento terá com quer dos restantes de autoria de Arménio Losa
forma tradicional de construir a cidade. Adopta que se tornou numa perigosa receita para certeza contribuído também para a dissolução do e Cassiano Barbosa que os precedem; através
uma volumetria similar à dos edifícios da Praça preservar fachadas históricas com interiores Grupo, extraída a necessidade associativa de oposi- deles, queremos, não só, entender melhor
51
D. João I – o Edifício Rialto e o Palácio Atlântico reconstruídos, que pouco ou nada têm que ver ção colectiva às barreiras institucionais.” a fisionomia do moderno no Porto, na sua
FIG.16 a 18 –, destacando o volume central de com as pré-existências. O espírito cénico laten- vanguarda e na arquitectura corrente, tal como
49 Baseado em Viana de Lima, volumes laterais mais baixos que estabelecem te nesta atitude não deve nada à transparência temos vindo a fazer, como, também, as especi-
arquitecto, 1913-1981. Lisboa:
Fundação Calouste Gulbenkian, as continuidades com a construção pré-exis- que o Movimento Moderno reclama e cujo ficidades do significado do moderno no Edifício
1996, pps 130 a 133.
50 Citação de BRANCO, Luís Maria tente, ainda que aqui sem qualquer pretensão receituário se emprega na nova construção. DKW e da obra dos seus autores.
Aguiar; MARQUES, Maria Augusta
– Porto com Pinta. Porto: [s.n.], de monumentalidade.
[2005] (impressão: Ponto Comum).

266 Introdução Opções temáticas / objectivos / ESTRATÉGIA


269

FIG. 521 Bloco do Ouro de Mário


Bonito, de 1950

52 Citação de BANDEIRINHA,
José António Oliveira – Quinas
Vivas: Memória Descritiva de
alguns episódios significativos
do conflito entre fazer moderno
e fazer nacional na arquitectura
portuguesa dos anos 40. Porto:
FAUP publicações, 1996, p.126.
53 “Esta obra do edifício do Ouro
desenhado pelo arquitecto Mário
Bonito com a colaboração de
Rui Pimentel, elemento também
do ODAM (embora à data ainda
estudante) foi apresentada em
projecto na exposição realizada
pelo ODAM, no Ateneu Comercial
do Porto em 1951. Do historial
do projecto contam 3 fases,
o anteprojecto aprovado em
Outubro 1951, alterado em
Setembro 1952 e o aditamento
Mário Bonito (1921-76), “corbusiano até no modo de alinhamentos na rua e cria uma segunda definitivo em 1954.” In ROSA, definição de regionalismo, através de argumen-
52 Edite – ODAM: valores modernos
literário” , é habitualmente citado pela reali- cota, existindo a intenção de manter esta cota e a confrontação com a realidade tações de cariz racionalista e funcionalista que
produtiva. Barcelona: Escuela
zação do Bloco do Ouro FIG.521, cujo primeiro livre para usufruto comum e o edifício elevado Tecnica Superior de Arquitectura definem valores universais, conducentes a uma
53 de Barcelona, 2005, p. 399.
licenciamento data de 1951 , pouco posterior sobre os pilotis; a sua arquitectura, excepcional 54 Baseado em BOESIGER, Willy – arquitectura internacional: “A ARQUITECTURA
Le Corbusier. Barcelona: Gustavo
à da Unidade de Habitação em Marselha de Le na cidade do Porto naquela época, apenas foi Gili, 1985, p.192. deve exprimir-se numa linguagem INTERNACIONAL.
54 55 Citação de ROSA, Edite –
Corbusier de 1946 , ao qual assumidamente se consentida pelas entidades camarárias dado o ODAM: valores modernos e a (…) As oscilações de clima nas diferentes posições
confrontação com a realidade
referencia; este bloco de habitação, para além seu também excepcional programa, com fins produtiva. Barcelona: Escuela geográficas, as actividades económicas de cada
Tecnica Superior de Arquitectura
de ser o primeiro a ser construído no Porto assu- sociais: o bloco destinava-se a proporcionar de Barcelona, 2005, p. 400. região, definem a natureza dos temas e condicionam
56 Baseado em ROSA, Edite –
mindo a imagem internacional do Movimento habitações com renda económica para os ODAM: valores modernos e a os temas de construção. Na síntese, REGIONALISMO.
56 confrontação com a realidade
Moderno, numa forte ruptura com as pré-exis- trabalhadores da empresa Ouro . produtiva. Barcelona: Escuela FIG. 522 Corte e planta do (…) Tomando como ponto de partida o carácter efé-
Tecnica Superior de Arquitectura piso tipo do Bloco do Ouro
tências, é também o primeiro a utilizar galerias Podemos ler na memória descritiva do de Barcelona, 2005, p. 399. de Mário Bonito altura, os limites da cércea estipulados no art. 59º mero das formas resultantes dos meios de constru-
57 Citação de BONITO, Mário -
abertas para o exterior, como sistema distribu- Bloco do Ouro a argumentação do autor com Memória descritiva do processo do referido Regulamento, mas também obriga, com ção, eis a meta: sol e luz, pureza construtiva, plástica
de licenciamento (Licença n.º14-
tivo, e grelhas voltadas para o arruamento, na o fim de legitimar a solução proposta: “ Entende- 8081 de 1951). excepção do pavimento ao nível da Rua, ao recuo dos e estética, integração no lugar. Fundamentalmente,
58 BONITO, Mário – Tarefas
zona de estendal e lavandaria defronte à cozinha, se, ao que parece, que as previsões de alinhamento do arquitecto in BARBOSA, restantes pavimentos, em relação ao alinhamento ARQUITECTURA. O URBANISMO ordenará a ocupa-
Cassiano (compilação) – ODAM 57
solução que se tornará comum. e de cércea contrariam, de certo modo, a doutrina – Organização dos Arquitectos dos edifícios ora existentes.” ção do solo e a sua finalidade. (…) A técnica criou
Modernos: Porto 1947 – 1952.
“O programa de uso público formaliza-se num do recente Regulamento Geral das Edificações Porto: Edições Asa, 1972, p.109. A profunda crença de Mário Bonito nos elementos estandardizados na construção. A sua
59 Citação de BONITO, Mário
embasamento em ‘tabuleiro’ térreo mas o corpo Urbanas. Como se depreende da leitura do ante- – Regionalismo e tradição in ideais do Movimento Moderno transparece aplicação no local far-se-á em boa harmonia com
BARBOSA, Cassiano (compilação)
habitacional recua em relação à rua o que lhe permi- -projecto, trata-se de um conjunto arquitectónico, – ODAM – Organização dos também nas suas intervenções no congresso: a orografia e o clima, ou com o meio, o ambiente e a
Arquitectos Modernos: Porto
te subir em altura e conquistar presença e autono- a uma escala e com uma finalidade que requerem 1947 – 1952. Porto: Edições Asa, numa comunicação intitulada “As Tarefas do paisagem. O supérfluo deve ser combatido; a qua-
1972, pp.102-104. 58
mia formal FIG.522 . Este ‘tabuleiro’ de embasamento soluções espaciais e estas conduzem a um tratamen- Arquitecto” , o seu discurso incidiu sobre o lidade exaltada! A qualidade está implícita na pré-
cria um terraço visitável, uma segunda “cota térrea”, to arquitectónico específico; assim, e por um lado, o posicionamento do arquitecto moderno relati- -fabricação. (…) A pré-fabricação responde ao apelo
de onde se sugere a efectiva elevação do corpo habi- aproveitamento em altura é que garante a execução vamente à dicotomia arte/técnica, defendendo da originalidade: combinação múltipla dos estan-
tacional pela colocação, nesta 2ª cota aterraçada económica do imóvel com o consequente baratea- a racionalidade do processo criativo na leitura dardizados. Matematicamente dir-se-ia combina-
55
de habitações menos profundas.” Ora o processo mento das rendas atribuíveis a cada célula e o seu das necessidades do HOMEM da civilização ção de n elementos. AO SERVIÇO DO REGIONALISMO
59
não foi pacífico e implicou algumas cedências desenvolvimento em espaços com áreas desafoga- maquinista e, prosseguindo, tal como Arménio UMA SÃ PLÁSTICA.”
por parte de Mário Bonito, nomeadamente nes- das; por outro lado, tais factores e os condiciona- Losa, teceu fortes críticas ao atraso no proces-
tas habitações à cota do terraço, inicialmente mentos relacionados com a higiene e salubridade, so de industrialização em Portugal; sob o tema
não previstas; a base assegura as continuidades implicam solução que não só faz ultrapassar, em “Regionalismo e Tradição” propõe uma nova

268 Introdução Opções temáticas / objectivos / ESTRATÉGIA


271

Pereira da Costa, que efectuou o curso 1943/48 e


é um dos membros mais jovens do ODAM, na sua
60
prova de C.O.D.A. , em 1953, apresenta o projecto
para o Bloco de Cristo Rei FIG.523 a 528, que chega a
construir. O Bloco de Cristo Rei é constituído por
células de habitação dúplex com acesso por gale-
ria e tem como objectivo demonstrar as vantagens
da habitação em bloco, remetendo “para o imagi-
nário do ‘Imóvel de habitação’ de Le Corbusier e para
61
o discurso teórico deste.” Localiza-se numa zona
onde predominam habitações unifamiliares de
três e quatro frentes, rodeadas de jardins murados
e constrói, na totalidade, uma das frentes de uma
pequena praça e o fecho de um quarteirão. Não
liberta o solo mas, tal como no edifício para o quar-
teirão do Palácio do Comércio de Viana de Lima
FIG.510 a 513, eleva-se sobre pilotis propondo uma

frente recuada de comércio na relação do edifício,


ao nível do solo, com o passeio público. Tal como
Edite Figueiredo Rosa observa, o assentamento
directo no solo resultou em ambos “em experiên-
cias frutuosas, em que a complexidade do projecto é
aumentada, morfologicamente, por um investimen-
to tipológico de associações de duplex (servidos por
galeria), com apartamentos unifamiliares, numa
agregação a priori não uniforme mas apostada
antes numa diversificação tripartida de alçado
(clássico) como no projecto de CODA de Pereira da
Costa. Neste projecto, o segundo duplex abre para a
cobertura e define um capeamento de coroamento
diferenciador da uniformização tipo – morfológica
moderna associada a uma reapreciação do sistema
compositivo de diferenciação altimétrica da compo-
62
sição de fachada portuense tripartida.”

FIG. 523 - 527 Bloco de Cristo Rei 60 Prova de Concurso de


de Pereira da Costa (C.O.D.A. 1953) Obtenção do Diploma de
Arquitecto.
61 Citação de ROSA, Edite –
ODAM: valores modernos e a
confrontação com a realidade
produtiva. Barcelona: Escuela
Tecnica Superior de Arquitectura
de Barcelona, 2005, p. 244.
62 Citação de ROSA, Edite –
ODAM: valores modernos e a
confrontação com a realidade
produtiva. Barcelona: Escuela
Tecnica Superior de Arquitectura
de Barcelona, 2005, p. 245.
FIG. 528 Plantas e alçados do
bloco de Cristo Rei de Pereira da
Costa (C.O.D.A. 1953)

270 Introdução Opções temáticas / objectivos / ESTRATÉGIA


273

Nas participações dos membros do grupo ODAM própria; onde a compreensão do planificador só para 63 Citação de ROSA, Edite –
ODAM: valores modernos e a
FIG. 529 Edifício da Rua de Ceuta
de Arménio Losa e Cassiano
no I Congresso Nacional de Arquitectura, compi- revelar e dar realce à eficiência subjacente e não para confrontação com a realidade
produtiva. Barcelona: Escuela
Barbosa, de 1950

ladas por Cassiano Barbosa, podemos aferir que sobrepor uma predilecção artística à natureza própria Tecnica Superior de Arquitectura
de Barcelona, 2005, p 118.
64
estes arquitectos têm perfeito conhecimento do edifício.” 64 Frederic Towndrow citado
por VELOSO, António Matos -
da obra dos grandes mestres do Movimento Os valores que se levantam são mais altos Habitação rural e urbanismo in
BARBOSA, Cassiano (compilação)
Moderno, acompanham os C.I.A.M. e conhecem a e, nas suas intervenções no Congresso, torna- – ODAM – Organização dos
Arquitectos Modernos: Porto
Carta de Atenas, que defendem arreigadamente -se clara a formação de um corpo teórico que 1947 – 1952. Porto: Edições Asa,
1972, p.56.
como forma de planear a cidade moderna, assim sustenta a actividade. O exercício da arquitec- 65 Citação de ROSA, Edite –
ODAM: valores modernos e a
como, e implicitamente, das unidades de habita- tura deixa de ser entendido como apenas um confrontação com a realidade
produtiva. Barcelona: Escuela
ção como estratégia para resolver os problemas “metiér” para adquirir uma função social, trans- Tecnica Superior de Arquitectura
de Barcelona, 2005, p. 43.
de habitação. formando-se numa parte operante na transfor- Para alguns, dos membros do ODAM, tais como
O desafio foi lançado, a hora era de combate, mação do mundo, afirmando-se como causa Losa e Cassiano Barbosa, o moderno repre-
impunha-se reagir contra o sistema em prol de e não como consequência. O que se reclama senta uma postura a adoptar, para outros é um
elevados ideais. A situação era grave, era dema- é a possibilidade de intervir, com os instrumen- modelo a seguir, enquanto outros já têm, como
siada a repressão, o que justificou um acto de tos próprios da arquitectura, na resolução dos veremos, sobre ele uma visão critica, no entanto,
coragem na afronta directa ao regime; que os enormes problemas sociais com que o país se mesmo para esses, o momento ainda é apenas
arquitectos aproveitassem a reunião promovida debate. Os arquitectos do ODAM são movidos o de reivindicar o direito a fazer moderno.
pelo Congresso para, em uníssono, reivindicarem por um enorme idealismo e ingenuidade, por Nas obras onde o Moderno adquire uma
o direito ao exercício da profissão, reivindicarem o uma crença desmesurada nas possibilidades tónica de maior entusiasmo, como as de Viana
direito de porem em prática as teorias e experiên- das novas utopias para a criação de um mundo de Lima ou de Mário Bonito, tal como Edite 66 Citação de ROSA, Edite –
cias do Movimento Moderno, então cerceadas melhor e adaptado às recentes transformações. Figueiredo Rosa sintetiza, “a propositada cedência um edifício de escritórios e habitação, implan- ODAM: valores modernos e a
confrontação com a realidade
pelo poder, em prol do bem comum, para resol- “A ruptura com a tendência nacionalista fasci- linguística relativamente ao radicalismo do modelo tado num difícil talhão de forma triangular produtiva. Barcelona: Escuela
Tecnica Superior de Arquitectura
verem os enormes problemas sociais emergentes zante monumental ou ruralizante, reflectida numa da unidade de habitação corbusiana (ausência da resultante da abertura da nova rua FIG.530, na de Barcelona, 2005, p. 245.
67 Baseado em FERNANDEZ,
em que o país mergulhava. produção arquitectónica essencialmente contesta- liberação do solo térreo) obriga nestes projectos a esquina desta com a Rua da Picaria, resolvendo Sérgio – Percurso, Arquitectura
Portuguesa 1930/1974. Porto:
Não são modas, mas ideais, aquilo que se tária, estende-se a nível nacional, mas é sobretudo no concentrar a resolução global da fisionomia/lin- o cunhal em diálogo com o edifício adjacente, FAUP publicações, 1988, p.79.

reivindica; o que se defende não é a possibilidade Porto, que se entende como momento de fazer contas guagem do edifício, não tanto na uniformidade da pré-existente, do início do século. “O volume mais
de praticar um estilo, “mas antes uma nova forma com a modernidade e apesar do aparecimento, de resolução tipológico-morfológica, corbusiana mas na recuado colar-se-á ao longo do prédio existente e
de ver a arquitectura mais cultural mais integrada uma “cultura de oposição ao moderno” e de crítica resolução da sua excepção (ao modelo) de manei- com ele entrará em diálogo apenas pela manuten-
política, socialmente e também por essa via ideolo- ao “Estilo Internacional”, em curso em toda a Europa, ra a manter a coerência global do conjunto. (…) O ção da mesma cércea. Este corpo penetra no volume
63
gicamente ligada aos sistemas estéticos.” Nesse será na adesão aos ideais do movimento moderno assentamento diferenciado do edifício no solo e a sua mais saliente pelo prolongamento do seu segundo
sentido e com bastante pertinência, António que os arquitectos do Porto apostam na defesa morfologia compositiva hierarquizada configurada piso que, fazendo uma pequena torção, apontará,
Matos Veloso, na sua comunicação do congres- do seu desempenho social e disciplinar. De facto, numa urbanidade convencional representativa que juntamente com os degraus que se destacam do
so, cita Frederic Towndrow, num paragráfo que revela-se no Porto uma consciência profissional de se verifica na sua concepção global numa coerência passeio, a entrada do edifício. Um extenso mural de
permanece actual: “O facto de que dificilmente se entendimento entre os arquitectos que apostam na entre organização planimétrica e a formalização Augusto Gomes, localizado na parte mais recuada,
66
encontra nas nossas ruas uma construção que se possa defesa do seu desempenho social pela aproximação linguística de fachada torna-se o seu ponto fulcral.” contribui para ‘levantar’ o volume do prédio e enfatiza
dizer adaptada ao fim em vista, ou verdadeira, ou da disciplina à democratização da cultura arquitec- Na obra de Arménio Losa e Cassiano Barbosa o percurso até ao seu acesso. Este sector é marcada-
moderna no exacto sentido da palavra permanece e as tónica do país, assente na ideia de que o progresso, a o Moderno pratica-se com algum “senso mente denso; será rasgado por uma fenestração que,
tentativas modernistas quando feitas por Arquitectos todos os níveis (científico, técnico, social, etc.), seria o comum”: na sua obra, estes ensaiam uma postura variando de acordo com as necessidades do progra-
tradicionalistas e desactualizados, são tão estéreis garante de um futuro cada vez melhor. Pressupostos conciliadora entre a modernidade na qual acre- ma, mantém uma leitura acentuadamente horizontal.
como as suas cópias do antigo e, muitas vezes, mais inspirados numa visão com contornos de utopia ditam, a realidade portuguesa, a sua formação O corpo mais saliente, correspondendo aos locais de
néscias do que estas. Por moderno eu quero dizer uma social que claramente se identificam com as premis- e o contexto em que se inserem as suas obras, trabalho dos escritórios, é assinalado com uma grelha
construção em que cada elemento foi criado a partir sas ideológicas das arquitecturas das primeiras van- atitude de que o Edifício DKW é paradigmático. formando quebra-luzes, grelha essa que se anima
do ponto de vista da sua utilização e não a partir do seu guardas modernas e que provavelmente pesaram Em 1950, Arménio Losa e Cassiano Barbosa pela movimentação dos seus elementos horizontais.
67
aspecto visível; uma construção onde a consciência da na escolha das referências arquitectónicas a seguir. projectam o Edifício da Rua de Ceuta FIG.529, A regularidade da sua modulação será livremente
beleza, que o arquitecto tem, foi empregue unicamente (São tomadas referências de várias vanguardas interrompida no último piso; uma varanda inscrita no
65
como um meio para um fim e não como um fim em si modernas, Alemãs, Holandesas, Russas, etc.).” mesmo plano da grelha serve a habitação existente.
Este sector do edifício pousará sobre pilares cilín-
dricos expressivamente tratados com um material

272 Introdução Opções temáticas / objectivos / ESTRATÉGIA


275

FIG. 530 Planta do 5º piso de 68 Citação de FERNANDEZ,


habitação no edifício da R. Sérgio – Percurso, Arquitectura
de Ceuta de Arménio Losa e Portuguesa 1930/1974. Porto:
Cassiano Barbosa FAUP publicações, 1988, pp.79-80.
69 “Consultados documentos
diversos pode afirmar-se que
a Rua de Ceuta, tal como se
apresenta, foi projectada pelo
arquitecto Arménio Losa no
Gabinete de Urbanização da
C.M.P. em 1941/1942. (…) O
dimensionamento das frentes
dos novos edifícios e da sua
articulação revela a intenção
de se disciplinar geométrica e
morfologicamente o conjunto de
cada uma das fachadas norte e
sul. O acentuado declive do novo
arruamento colocou questões
de controlo de articulação de
RUA DE CEUTA
diferente; distanciando-se assim do perfil inclinado A rua rasga-se no tecido urbano pré-existente, cotas entre pisos de construções
vizinhas, tal como sucedera
FIG. 531 Edifício de Agostinho
do passeio. (…) A forma assumida pelos quebra-luzes proporcionando cinco lotes de cada lado, com durante o período almadino (João
e Francisco de Almada – séc.
Ricca e de 1953 no centro, ladeado
pelo de Carlos Neves, de 1951,
e a proporção da grelha que definem lembrarão o projectos da autoria de arquitectos com “nome XVIII e XIX) com os projectos das
íngremes Ruas dos Clérigos e de
no lado inferior, e pelo de Mário
Ferreira, de 1952, no lado superior
edifício do Ministério da Educação, no Rio de Janeiro, na praça”. Por ordem, desde a Praça de Filipa 31 de Janeiro. Esta possibilidade
de associação de modos tão
FIG. 532 Edifício de Mário Bonito,
68 de 1955
realizado com a intervenção de Le Corbusier.” de Lencastre, os autores dos edifícios da Rua distintos de intervir na cidade
em épocas tão distintas como
FIG. 533 De baixo para cima, os
edifícios do lado sul são: de José
O Edifício Ceuta insere-se num plano da de Ceuta são, do lado norte, Arménio Losa e as do iluminismo pombalino
e do Movimento Moderno
Moura da Costa, de 1950, de
69 Manuel Magalhães, de 1955, de
autoria do próprio Arménio Losa para um troço Cassiano Barbosa (1951-1954), Carlos Neves do pós-guerra, em Portugal,
revela, na nossa perspectiva, o
Júlio de Brito, de 1954, de Carlos
Neves, de1954
de uma nova rua a rasgar no centro da cidade, (1951-1954), Agostinho Ricca (1953-1955), Mário caracter ecléctico e pragmático
dos intervenientes nacionais
FIG. 534 Edifício de Agostinho
Ricca de 1951
a qual surge na sequência do plano da Av. da Ferreira (1952-1955) FIG.531 e Mário Bonito (1955- mais significativos. De facto,
observando-se o conjunto
Liberdade, tendo como objectivo ligar este espa- 1958) FIG.532, e, do lado sul, José Moura da Costa edificado que delimita e define
a Rua de Ceuta, verifica-se a 72 Citação de ROSA, Edite –
ço ao Jardim do Carregal. O único troço da rua a (1950-1954), Manuel Magalhães (1955-1956), Júlio adopção de temas da arquitectura
do Movimento Moderno – tais
Do outro lado da rua existe uma maior ambi- A concretização deste plano com uma imagem ODAM: valores modernos e a
confrontação com a realidade
70
ser realizado , foi aquele entre a Rua da Picaria de Brito (1954-1956), Carlos Neves (1954-1956) como o brise-soleil nas fachadas
expostas a sul e a alternância
guidade, sendo bastante conservadoras as de arquitectura do Movimento Moderno, por si produtiva. Barcelona: Escuela
Tecnica Superior de Arquitectura
71
e a Rua de José Falcão, onde ainda se pode ler, FIG.533 e Agostinho Ricca (1951-1956) FIG.534. de varandas reentrantes e
salientes na fachada exposta
imagens daqueles que ocupam o extremo só, já reflecte uma menor resistência, por parte de Barcelona, 2005, p.227.

nos prédios existentes no quarteirão seguinte, o No lado sul, o tema do volume projectado a norte -, em simultâneo com
o estabelecimento de regras
inferior, até o de Júlio de Brito onde, apesar dos organismos oficiais, perante a nova arquitec-
esboço do arranque do troço subsequente, que para o edifício da Rua de Ceuta de Arménio de unidade de conjunto tão
características da estratégia
de se destacar no seu alçado um volume tura internacional. Ainda assim, Arménio Losa,
não chegaria a ser efectuado. Era de tal forma Losa e Cassiano Barbosa estende-se a todos de construção da cidade
setecentista e oitocentista.” In
ligeiramente saliente que o relaciona a nível no seu plano, continua a propor a “rua-corredor”
premente esta ligação urbana que, recentemen- os alçados que compõem esta frente de rua, FERNANDES, Francisco Barata
- Rua de Ceuta. Sobre o eixo
de proporções com os do outro lado da rua, quando, na mesma altura, em Lisboa, já se
te, acabou por se concretizar ainda que sob o resolvendo a difícil relação com a acentuada nascente-poente in AA/VV -
Guia de arquitectura moderna:
este é executado num Art Déco com o “peso” construíam blocos perpendicularmente ao eixo
nível urbano, através de um túnel. inclinação do arruamento e obtendo uma Porto 1901-2001. Porto: SRNOA;
Civilização Editora, 2001.
característico das arquitecturas do Estado viário, libertando o solo entre eles para usufruto
invulgar unidade para um alçado de conjun- 70 Baseado em MENDES,
Manuel in BECKER, Anette;
Novo. Deste lado da rua estranhamos, inclusive, público, nomeadamente no conjunto Infante
to, na cidade do Porto, apenas ligeiramente TOSTÕES, Ana; WANG, Wilfried
- Arquitectura do século XX -
a proposta de Agostinho Ricca, para a esquina Santo e na Avenida Estados Unidos da América.
perturbada pela proposta de Agostinho Ricca, Portugal. Deutches Architecktur
Museum Frankfurt am Main; CCB:
superior, de um edifício simplesmente rebo- Recorrendo, de novo, Edite Figueiredo Rosa, “ao
onde varandas abertas lateralmente alteram a Druck-und Verlagshaus Zarbock,
1997, p.206: “Em 1942, o relatório
cado onde um outro volume avançado após contrário de Lisboa, em que serão realizados muitos
percepção do volume projectado. da actividade camarária relatava
a apresentação do projecto de
o dobrar da esquina, aparentemente com a projectos urbanos logo a partir de 50, obras de pro-
abertura do novo arruamento;
iniciadas as obras em 1947, o plano
intenção de criar a transição de escalas entre os moção estatal em que os arquitectos da capital parti-
de actividades da Câmara ainda
inscrevia dotações para a segunda
dois arruamentos, perturba a leitura do canto e ciparão de uma forma activa durante toda a década,
fase de obras em 1951.”
71 Baseado em FERNANDES,
do volume orientado para a Rua de Ceuta. no Porto o investimento municipal público declina a
Francisco Barata - Rua de Ceuta. partir de 50 tendo sido até esta data quase sempre
Sobre o eixo nascente-poente
in AA/VV - Guia de arquitectura imposto o estereótipo oficial em planos tipo “Bairro
moderna: Porto 1901-2001. Porto:
SRNOA; Civilização Editora, 2001. do Estado Novo”, a maior parte das vezes sem recurso
sequer ao arquitecto. Efectivamente, a arquitectura
no Porto caracterizava-se sobretudo pela proposta
individual, obra de autor como resposta à encomenda
privada, que incluía em maior quantidade a habita-
ção unifamiliar e a habitação colectiva em prédios de
72
preenchimento da malha urbana oitocentista.”

274 Introdução Opções temáticas / objectivos / ESTRATÉGIA


277

FIG. 535 Edifício da rua de FIG. 536 Edifícios contíguos


Olivença de Arménio Losa e de habitação da Rua de Santos
Cassiano Barbosa, de 1951 Pousada, ambos de Arménio Losa
e Cassiano Barbosa e de 1952

74 Baseado em GAMA, Luzia; 74


ROSAS, Joana - O escritório da
dupla Arménio Losa / Cassiano
Na Rua de Santos Pousada, em 1952 , cons- de continuidade. Actualizados relativamente às
Barbosa. Porto: FAUP, 1990-1992. troem dois prédios contíguos FIG.536: um deles, novas ideologias e conscientes da evolução dos
de varandas corridas, tem actualmente a sua estilos de vida, bem como das novas proble-
imagem bastante adulterada por marquises. No máticas daí resultantes, conhecem as soluções
outro, com uma construção da esquina através do Movimento Moderno que utilizam com bom
de dois volumes interceptados, os autores senso. Pelos seus escritos, torna-se evidente
retomam linguagens já anteriormente explora- que acreditam e subscrevem a teoria em que
das, nomeadamente no bloco da Constituição se fundamenta o Movimento Moderno, ainda
FIG.503 que lhe está bastante próximo. que a pratiquem com reservas e livres do recei-
73 Citação de FERNANDEZ, Arménio Losa e Cassiano Barbosa defen- tuário moderno, adaptando-a às circunstâncias
Sérgio – Percurso, Arquitectura
O Edifício da Rua de Ceuta foi um dos pioneiros regrar a composição ao transpor a modulação Portuguesa 1930/1974. Porto: dem uma maior racionalidade na organização específicas da realidade em que intervêm.
FAUP publicações, 1988, p.80.
no uso de uma grelha de betão de inspiração interior, coincidente com a da estrutura, para dos espaços, domésticos ou urbanos, e a Deste modo, a teoria moderna adquire, na sua
Corbusiana solta do plano do alçado enquanto o alçado Tal como Sérgio Fernandez refere, “as adopção das novas tecnologias construtivas, obra, uma componente humanista, anteci-
“brise-soleil”, na cidade do Porto. Arménio Losa janelas, marcadamente horizontais, abrangem toda em coerência com as respectivas possibilida- pando aquela que será a critica ao Movimento
e Cassiano Barbosa, um ano depois no prédio a largura dos módulos definidos pelos elementos des plásticas. Usam, com mestria, os novos Moderno e alguns dos caminhos que, na sua
da Rua de Olivença FIG.535, utilizam uma grelha resistentes. Ensaia-se aqui a reutilização do azulejo códigos linguísticos em consonância com uma revisão, serão traçados..
onde varandas alternam com janelas em panos que apenas forrará os panos de peito das referidas distribuição racional e funcional do programa A modernidade do Edifício DKW não sobres-
semi-encerrados e voltam a recuar o seu piso janelas. O seu desempenho e a sua coloração distan- e com a escolha dos sistemas construtivos, sai apenas na Rua de Sá da Bandeira, mas
térreo, para permitir que os pilares se desta- ciam-no no entanto, da imagem do revestimento constituindo-se como os precursores de adquire o estatuto de ícone de modernidade
73
quem das paredes. Este alçado, sem o carácter tradicionalmente utilizado na cidade.” uma nova tipologia de fogo de habitação no no Porto e no país; apesar do conturbado
excepcional do da Rua de Ceuta, transformou- Porto, caracterizado por uma hierarquização momento em que foi concebido, não nos refe-
-se com maior facilidade em protótipo para mui- funcional da planta. A adesão ao Movimento rimos a uma modernidade panfletária e cuja
tos dos prédios que nesta década e na seguinte Moderno, na obra destes autores, processa-se pertinência se perde passado o momento que
se construíram na cidade do Porto. A grelha, que pela adopção de alguns dos seus princípios, justifica a sua afirmação, mas a uma moder-
no edifício de Ceuta era exclusivamente um mas ignorando as suas propostas mais radicais, nidade clássica cuja pertinência sobrevive à
sistema de protecção solar, no prédio da Rua de não assumindo uma postura de ruptura com passagem do tempo.
Olivença faz apenas um tímido sombreamen- o passado, nem relegando a sua formação
to, funcionado sobretudo como sistema para clássica, em soluções que são, essencialmente,

276 Introdução Opções temáticas / objectivos / ESTRATÉGIA


279

Consolidação
e revisão do
modernismo

FIG. FIG. 537 Bloco de moradias da


O Edifício do Banco Popular FIG.281 a 299 e 401 Agostinho Ricca (1915), um dos membros Rua de João de Deus de Agostinho
Ricca, de 1949
a 449 de Agostinho Ricca e Benjamim do Carmo da primeira geração do ODAM, ainda que não FFIG. IG. 538 Planta do piso tipo
do bloco de moradias da Rua de
assume parcialmente uma imagem referencia- tenha discursado no Congresso, concebe o João de Deus de Agostinho Ricca,
de 1949
da ao Movimento Moderno: tal como em alguns Bloco da Rua de João de Deus FIG.537, em 1949,
edifícios analisados no subcapítulo anterior, uma das suas primeiras obras, uma década
nomeadamente o Bloco da Rua Formosa FIG.518 anterior àquela que está em estudo na Rua de
a 520, fragmenta a sua volumetria de forma a Sá da Bandeira.
obter autonomia para alguns dos seus volumes, O Bloco de João de Deus é o primeiro de
que assume com a imagem de blocos, enquan- que temos conhecimento no Porto a, para além
to secundariza aqueles que estabelecem as da leitura de um bloco, adquirir a autonomia
relações de continuidade com as pré-existên- de um bloco: é um volume independente de
cias; substitui a leitura de massa por leveza, de quatro frentes implantado a meio de um lote.
muros por superfícies e assume no exterior a É anterior ao Bloco de Costa Cabral de Viana
janela corrida horizontal. de Lima FIG.514 a 517 mas, se este procura criar
uma imagem de bloco de habitação colec-
tiva referenciada às unidades de habitação
Corbusianas, o Bloco de João de Deus, também
sem libertar o solo, é envolto por um jardim
privado, assumindo o jardim frontal murado e
distinguindo-se apenas de uma grande moradia
na medida em que se divide em diversas frac-
ções, não gerando novas relações urbanas nem
um novo entendimento da cidade.
Citando o próprio Agostinho Ricca: “Nesta
altura no Porto, havia ainda muito poucos blocos
habitacionais e todos eram feitos por particulares
como investimento. Este bloco contém somente 10
moradias, que eram muito amplas e com caracte-

278 Introdução Opções temáticas / objectivos / ESTRATÉGIA


281

FIG. 539 Edifício da Fiat na Rua de


Latino Coelho de Artur Andrade,
de 1958

1 Citação de RICCA, Agostinho, FIG. 540 - 541 Edifícios de


rísticas da época, isto é, com salas de estar e jantar A imagem da linguagem de janelas corridas RODRIGUES, A. Jacinto –
Agostinho Ricca, projectos e
habitação da Rua de Alegria e da
Rua de Fernão Magalhães, ambos
Artur Andrade (1913), é um dos membros mais No prédio da Rua da Alegria FIG.541, em simultâ-
diferenciadas e quartos duma grande área. O compreendidas entre dinâmicas faixas hori- obras de 1948 a 1995. Porto:
Ordem dos Arquitectos, 2001,
de Arménio Losa e Cassiano
Barbosa e de 1958
velhos do ODAM e, apesar de o seu primeiro neo e tal como no Edifício do Banco Popular,
esquema é o esquerdo-direito, com escada principal zontais do Edifício do Banco Popular e a parede p.17.
2 Baseado em MENDES, Manuel -
prédio de rendimento, o Edifício Fiat na Rua Arménio Losa e Cassiano Barbosa utilizam a pas-
e de ser viço com acesso directo às cozinhas. Recuado enquanto superfície e não como massa portan- Porto, école et projets 1940- 1986
in AA/VV - Architectures à Porto.
Latino Coelho, datar de 1958, foi o autor do tilha, ainda que sem explorar as possibilidades
3
relativamente à rua, permite o ajardinamento à fren- te, foi explorada, em simultâneo a este último, Liége: Ed. Pierre Mardaga, 1990,
p.61.
Cinema Batalha ainda em 1946 , uma das obras gráficas e cromáticas deste material, tal como o
te com prolongamento em todo o acesso às garagens por Artur Andrade no Edifício da Fiat, na Rua de que atraíram os arquitectos lisboetas na sua vi- fazem Agostinho Ricca e Benjamim do Carmo.
1 2
localizadas ao fundo do terreno.”A organização Latino Coelho FIG.539, aqui com uma extensa sita ao Porto, em 1947, para verem arquitectura O prédio da Rua da Alegria, com a diferenciação
em planta FIG.538 denota uma enorme raciona- frente que acelera a dinâmica das ininterruptas moderna; faz parte de uma geração que adere de tratamento que cria a nível do alçado entre o
lidade na sua deveras funcional organização, faixas, pontuando o seu final através de um piso ao moderno sem fazer tábua rasa da sua for- primeiro piso e os superiores, algo que poderá
mesmo quando ainda mantém os acessos de superior e de varandas em consola. Embora no 3 Baseado em FERNANDEZ, mação académica, num equilíbrio instável mas ser, eventualmente, o reflexo de uma alteração
Sérgio – Percurso, Arquitectura
serviço autónomos e orientados para o interior Edifício Fiat se utilizem alguns dos códigos do Portuguesa 1930/1974. Porto: profícuo entre “clássico” e “moderno”, denun- do programa, apresenta uma composição de
FAUP publicações,1988, p.53.
do quarteirão, e uma opção de orientação solar Movimento Moderno, tais como a fachada livre ciando uma “sensatez” idêntica à já identificada alçado extremamente invulgar, que não produziu
lógica, já que os quartos, do lado da rua, bene- e a imagem da janela horizontal corrida, mais na obra de Arménio Losa e Cassiano Barbosa, reflexos na arquitectura corrente da cidade.
ficiam da luz de nascente. O seu alçado de rua uma vez não se questiona a “rua-corredor” autores que, entretanto prosseguem coerente- No Edifício da Avenida de Fernão de
inicia, no Porto, uma imagem de prédio urbano e nem mesmo a janela é verdadeiramente mente a sua obra. Magalhães FIG.540 propõem uma nova escala
que veio a ser muito comum da década de 60 corrida: numa rigorosa modulação, alternam- para a frente construída da avenida, através
em diante, apresentando a janela corrida alter- -se vãos com panos cegos compreendidos de um edifício alto de três frentes e com uma
nada com faixas horizontais, com o tratamento pelas superfícies com revestimento cerâmico, elevada base, que recuam relativamente ao
da parede enquanto superfície e não como que supostamente seriam faixas horizontais alinhamento das construções pré-existentes. O
massa portante, e entre varandas, tal como no mas que, incongruentemente, junto à meação último piso retrocede, de modo a soltar o plano
alçado do Edifício do Banco Popular. envolvem lateralmente os vazios. superior da cobertura que fica a planar sobre o
prédio, e uma pala irrompe no espaço fronteiro
ao edifício para marcar a entrada, no alinha-
mento do pano envidraçado das circulações
verticais, ladeado pelas lavandarias.

280 Introdução Opções temáticas / objectivos / ESTRATÉGIA


283

FIG. 545-546 Bloco na Rua


O Bloco do Campo Alegre FIG.542 e 543, pratica- da Friagem de Alfredo Matos
Ferreira, de 1958
No mesmo ano do Edifício do Banco Popular A nível internacional, enquanto o ODAM se
4
mente simultâneo , apresentando para a rua e quase uma década depois do “edifício-vila” incumbia da urgente tarefa de ainda reclamar o
apenas o seu topo com expressão de torre, é da Rua de João de Deus FIG.537, Alfredo Matos direito a fazer arquitectura moderna, já se estava
o primeiro, dos vários que constroem a frente Ferreira projecta o Bloco da Rua da Friagem num período de revisão do moderno, embora
deste sector da rua, a estar implantado perpen- FIG.545 a 547, o qual é semelhante com este último alguns dos seus membros, sobretudo os mais
dicularmente ao seu eixo e pousado sobre uma na relação que estabelece com o lote e com jovens, já tivessem essa consciência crítica.
base alinhada, mas recuada, relativamente ao a cidade, ainda que seja bem distinto na sua
limite das construções existentes. Enquanto no expressão: assume a massa do bloco assen-
alçado do Bloco do Campo Alegre transparece te sobre uma base em alvenaria de granito
a modulação da estrutura portante, no prédio FIG. 544 Edifício de Faria aparente e utiliza apenas rasgos verticais numa
Guimarães de Arménio Losa e
de Faria Guimarães FIG.544, já da década de 60, Cassiano Barbosa e de 1961 disposição aparentemente livre; liberto do recei-
encaixado e alinhado com a frente da rua, são tuário moderno, assume uma posição critica
molduras verticais que absorvem, ora a fenes- relativamente ao Movimento Moderno e assinala
tração, ora as grelhas das lavandarias. Estas são um novo momento, o da sua revisão.
variações sobre experiências dos próprios e de
outros autores, que se repercutiram na obra
dos próprios e também de outros, marcando a
imagem da cidade nas décadas de 50 e 60.

FIG. 542 Bloco do Campo Alegre de 4 Baseado em MAIO, Ana;


Arménio Losa e Cassiano Barbosa OLIVEIRA, Maria Manuel;
e de 1959 RAPAGÃO, João Paulo (coords.) –
Arménio Losa/Cassiano Barbosa.
Mapa de Arquitectura. Porto:
CMP; OASRN, 2008.

FIG. 543 Entrada do bloco do


Campo de Alegre

282 Introdução Opções temáticas / objectivos / ESTRATÉGIA


285

FIG. 547 Plantas, corte,


alçados e detalhes do Bloco
da Rua da Friagem de Alfredo
Matos Ferreira, de 1958

5 Citação de TÁVORA, Fernando – EDIFÍCIO DA AV. BRASIL DE


O Problema da Casa Portuguesa. FERNANDO TÁVORA, DE 1952:
O artigo do jovem arquitecto Fernando Távora se empregaram e satisfizeram as necessidades do Lisboa: Cadernos de Arquitectura, Os ‘estudos’ que ele propunha viriam a realizar-se alternância entre as faixas horizontais banhadas
1947, p.11. FIG. 548 Imagem desde a avenida 9
“O Problema da Casa Portuguesa”, já referido momento. A casa popular fornecer-nos-á grandes 6 Citação de BANDEIRINHA, FIG. 549 Planta de piso tipo mais tarde sob a forma do ‘Inquérito à Arquitectura de luz e a penumbra dos nichos das varandas ,
José António Oliveira – Quinas
pela importância que adquiriu ao lançar o movi- lições quando devidamente estudada, pois ela é a Vivas: Memória Descritiva de Popular’. Viria o tempo de superação da ideia de ar- que aí usufruem da relação directa com o
alguns episódios significativos
mento de contestação das políticas do regime, mais funcional e menos fantasiosa, numa palavra, do conflito entre fazer moderno quitectura portuguesa liminarmente reduzida a um Atlântico, precisamente diante delas; insere-se
e fazer nacional na arquitectura
já indiciava uma postura relativamente ao aquela que está mais de acordo com as novas inten- portuguesa dos anos 40. Porto: formulário de postulados ornamentais. Viria, tam- num lote tradicional do Porto, apenas um pou-
FAUP publicações, 1996, p. 114.
passado distinta da do Movimento Moderno, ao ções. Hoje estuda-se pelo ‘pitoresco’ e estiliza-se em 7 Baseado em COSTA, Alexandre bém, o tempo de libertação da redutora normativa co mais largo do que o habitual (7,70m x 22m),
Alves – Dissertação. Porto: 6
propor a redefinição do termo “tradição” atra- exposições para nacionais e estrangeiros: não há Edições do Curso de Arqui- dos CIAM.” O “Inquérito à Arquitectura Popular entre casas unifamiliares pré-existentes e sem a
tectura da ESBAP,1980, p.23. 7
vés do estudo científico da arquitectura popular nada a esperar desta atitude que conduz ao beco 8 Baseado em FERNANDEZ, Portuguesa” inicia-se em 1956 e é publicado preocupação de se diluir no plano dos alçados,
Sérgio – Percurso, Arquitectura 8
portuguesa: “É indispensável que na história das sem saída da mais completa negação a que poderia Portuguesa 1930/1974. Porto: em 1961 . destacando-se pela sua cércea e pela abstrac-
5 FAUP publicações,1988, p.139.
nossas casas antigas ou populares se determinem as ter-se chegado” 9 Baseado em FERNANDEZ, No primeiro dos dois prédios de rendimen- ção da sua imagem. Esboça, no geral, a solução
Sérgio – Percurso, Arquitectura
condições que se criaram ou desenvolveram, fossem Na sequência do artigo de Fernando Távora, Portuguesa 1930/1974. Porto: to que o jovem arquitecto Fernando Távora de organização em planta do andar FIG.549 e de
FAUP publicações,1988, p.126.
elas condições da terra, fossem elas condições do para além de se iniciar o debate a favor do constrói na década de 50, em 1952, ainda não volumetria que, nestes lotes, frequentemente
Homem, e se estudem os modos como os materiais direito a uma arquitectura moderna, “surgem, se pressente o que virá a ser o seu discurso se virá a perfilhar embora aqui ainda com uma
também, as primeiras linhas de uma página que arquitectónico FIG.548. No prédio da Avenida solução de saguão para as áreas de serviço,
Fernando Távora, juntamente com alguns arquitec- Brasil, Fernando Távora assume uma imagem localizadas no centro da habitação.
tos da sua geração e apoiado nas mais conscientes abstracta construída unicamente através da
experiências da geração anterior, viria a completar.

284 Introdução Opções temáticas / objectivos / ESTRATÉGIA


287

“Távora não tenta soldar a tradição culta com a FIG. 550 Edifício na Rua de Pereira
Reis de Fernando Távora, de 1958
tradição popular (…) porque é uma distinção que não
lhe importa. Faz arquitectura a partir de um profundo
e vital enraizamento na realidade que o impede, (…)
por natureza, a traí-la na imposição de elementos
que a alienem. A sua arquitectura não se refere a este
ou aquele arquitecto, esta ou aquela escola, abarca
toda a dimensão da memória. É historicista no sentido
contemporâneo. Tende a infringir o código vigente,
não para substituí-lo por outro retirado do passado,
10 Baseado em FERNANDEZ,
mas para enriquecê-lo com outras valências das Sérgio – Percurso, Arquitectura
Portuguesa 1930/1974. Porto:
aquisições culturais de um homem que não tem um FAUP publicações,1988, pp.
129-130.
tempo. Não se trata de revogar o Movimento Moderno, 11 Citação de COSTA, Alexandre
Alves – Dissertação. Porto:
trata-se de manter uma ordem arquitectónica com Edições do Curso de Arquitec- tura
11 da ESBAP,1980, p. 28.
valor universal, acima dele e que o integre.” 12 “Como académico, Loureiro
prestará provas para professor
O único aspecto, em termos estéticos, que da ESBAP em 1960 (em con-
curso de emolução com Távora
relaciona o Edifício do Banco Popular com o e Felgueiras) defendendo em
tese um tema de importância
edifício da Rua de Pereira Reis de Fernando Tá- muito particular para o debate da
arquitectura em Portugal e que
vora é o tratamento cromático da superfície, o marcará de forma indelével a sua
obra e muita da arquitectura que
qual no entanto, adquire significações distintas outros farão também, naqueles
anos de esperança e dúvida.” In
O prédio da Rua de Pereira Reis FIG.550 é contem- nas duas obras, já que, no primeiro a pastilha FERNANDES, Manuel Correia –
Campo do Luso in AA/VV - Guia
porâneo do Edifício do Banco Popular e do Bloco não nos remete para nenhuma realidade con- de arquitectura moderna: Porto
1901-2001. Porto: SRNOA;
na Rua da Friagem de Alfredo Matos Ferreira FIG.545 creta, mantendo o caracter abstracto e inter- Civilização Editora, 2001.
13 Baseado em FERNANDEZ,
a 547, partilhando com este último uma atitude cla- nacional do Movimento Moderno, enquanto, no Sérgio – Percurso, Arquitectura
Portuguesa 1930/1974. Porto:
ramente revisionista relativamente ao Movimento segundo o azulejo reinventado é uma assumida FAUP publicações,1988,
pp.148-149.
Moderno, que os distancia a ambos do primeiro: alusão à arquitectura tradicional do Porto.
a utilização de azulejos onde se desenha um José Carlos Loureiro publica uma tese,
padrão de forte contraste no revestimento de em 1960, sob o sugestivo título “O AZULEJO –
paramentos, entre os topos de lajes em betão Possibilidades da sua integração na Arquitectura
aparentes e em alternância com vãos desen- Contemporânea”, onde, tal com Manuel Correia FIG. 551 Implantação, alçado e
perspectiva do Parque do Luso
volvidos verticalmente; a relevância dada aos Fernandes assinala, “prestará atenção a muitos de José Carlos Loureiro & Pádua
Ramos, de 1958
gradeamentos das varandas ou a carga expressiva aspectos disciplinares, culturais e técnico-construti-
de alguns dos seus elementos, nomeadamente o vos inerentes à utilização de um material tipicamen-
pórtico do rés-do-chão e as exageradas gárgulas te português como é o azulejo e que a corrente mais
de betão, acusam influências contemporâneas, internacionalista do ‘movimento moderno’ tinha
12
sobretudo italianas, que nos remetem para um tendência a menosprezar.”
“neo-liberty” estranho à sobriedade da arquitec- José Carlos Loureiro conjuntamente com
10
tura burguesa portuense . Pádua Ramos tem uma extensa obra no Porto,
Na verdade, quer a abstracção do primei- onde juntos ensaiam, não apenas a utilização
ro, quer o carácter “festivo” do segundo, são deste material, mas também a de outros mate-
estranhos ao que virá a caracterizar a obra de riais característicos da arquitectura vernacular
Fernando Távora a partir do Mercado Municipal portuguesa combinados com materiais con-
de Santa Maria da Feira, de 1953, e que terá temporâneos, nomeadamente no Parque do
13
como paradigma a casa de férias de Ofir, de Luso FIG.551 a 556, projectado em simultâneo ao
1956, onde, com uma grande autenticidade, uti- prédio de Pereira Reis, de Fernando Távora, e ao
liza o seu conhecimento da história e da cons- da Rua de Sá da Bandeira, de Agostinho Ricca e
trução vernacular para uma revisão do moder- Benjamim do Carmo.
no. Subscrevendo Alexandre Alves Costa,

286 Introdução Opções temáticas / objectivos / ESTRATÉGIA


289

O Edifício do Banco Popular foi, de facto, dos FIG. 556 Parque do Luso
de José Carlos Loureiro &
primeiros no Porto a não construir ambos os Pádua Ramos, de 1958

lados da rua, contrariando a tradicional con-


cepção da “rua-corredor”, deixando espaço
verde livre para usufruto público, defronte aos
edifícios, do outro lado da rua, mas, se neste
caso, o espaço verde foi, como vimos, uma
conquista ao longo do processo, no Parque
do Luso era algo que já estava previsto desde
o seu início. No Edifício do Banco Popular, os
blocos implantam-se ao longo dos arruamen-
tos e, inseridos na cidade tradicional, rematam
os quarteirões existentes, adquirindo apenas
pontualmente a leitura de blocos implantados
no espaço verde, nomeadamente no bloco que
se sobrepõe à rua e se dispõe ao longo da Rua
de Gonçalo Cristóvão. Exceptuando a experi-
ência truncada de Viana de Lima no Bloco de
Costa Cabral em 1955 FIG.514 a 517, é no Parque
do Luso onde, pela primeira vez, no Porto, se 14 Citação de FERNANDES,
implantam num parque verde público vários Manuel Correia – Campo do Luso
in AA/VV - Guia de arquitectura
Embora o Parque do Luso constitua uma ruptura Com pertinência, Manuel Correia Fernandes
edifícios soltos da construção existente e, neste moderna: Porto 1901-2001. Porto:
SRNOA; Civilização Editora, 2001.
tipo-morfológica em relação à rua, este, tal como observa que “se na base da concepção do Plano
caso, torres. Finalmente, a construção em altu- 15 Citação de VIEIRA, Álvaro Siza
feita por FERNANDES, Manuel
o Edifício do Banco Popular, não aplica “à letra” Geral, não estava assumida a ‘Carta de Atenas’, o
ra individualizada liberta o solo para usufruto Correia – Campo do Luso in AA/VV
- Guia de arquitectura moderna:
os princípios da Carta de Atenas: de dimensão facto é que o ‘Campo’ é, sem dúvida, um excelente
lúdico e público. Porto 1901-2001. Porto: SRNOA;
Civilização Editora, 2001.
razoável, o Parque do Luso é um conjunto misto exemplo da sua aplicação e a prova das suas poten-
de torres e de blocos a desenhar o espaço público cialidades sempre que dela não se faz uma interpre-
que lhe dá o nome FIG.551; as torres, dispostas ao tação mecanicista e a inteligência e a consideração
longo da rua, constituem uma subtil barreira de do lugar a temperam. Numa curiosa leitura desta
protecção ao parque localizado no centro do questão, Loureiro rejeita liminarmente a referência
conjunto; a última torre alonga-se até se transfor- directa à ‘Carta’ mas não deixa de acentuar que o
mar num bloco que, juntamente com os blocos projecto procura ‘muito espaço livre’, espaço natural
de menor altura ligados uns aos outros numa e de lazer e, muito em especial, de espaço vital para
14
implantação sinuosa, forma o fecho periférico do jovens e crianças.”
parque relativamente a uma zona da cidade ainda A título de curiosidade e a propósito do
não consolidada nessa época; não libertam o solo desenho das áreas exteriores do Parque do
na sua implantação e é a altura das torres que Luso, citamos Álvaro Siza que optou por aí resi-
cria as densidades que permitem libertar o solo dir: “No que respeita a prolongamentos exteriores
para a criação do parque. A própria modulação colectivos, é evidente a preocupação de conseguir
do terreno, elevado junto à rua e formando uma espaços complementares da habitação em vez de
FIG. 552 - 555 Parque do Luso depressão no centro, contribui para reforçar a inte- ‘uma paisagem’; zonas protegidas dos ventos domi-
de José Carlos Loureiro & Pádua
Ramos, de 1958 rioridade do parque. Apesar de se propor um novo nantes, zonas pavimentadas para recreio, zonas
entendimento da cidade, o conjunto é assimilado de sombra, aproveitamento de desníveis para uma
pela cidade tradicional devido à sua delicada inser- relação conveniente da rua, evitando a segregação
15
ção no tecido urbano; enquanto, na perspectiva ou o acesso perigosamente directo.”
da rua, as torres definem o alinhamento da rua, os
blocos, de menor altura e discretamente implan-
tados por detrás da vegetação de grande porte,
delimitam o espaço verde.

288 Introdução Opções temáticas / objectivos / ESTRATÉGIA


291

A relação harmoniosa entre construção e natu- 16 Baseado em FERNANDEZ,


Sérgio – Percurso, Arquitectura
reza do Parque do Luso já tinha sido explorada Portuguesa 1930/1974. Porto:
FAUP publicações,1988,
antes por José Carlos Loureiro e Pádua Ramos, pp.104-105.

em 1954, no Edifício Parnaso FIG.557 a 562, ainda


que aí com uma menor escala e dando origem
apenas a uma utilização semi-pública. Este
insere-se num conjunto do qual também faz
parte um outro bloco, construído para a irmã da
proprietária do Edifício Parnaso, o qual o ante-
cede na Rua de N.ª Sr.ª de Fátima e faz meação
com uma habitação unifamiliar de três frentes
FIG.561 , rodeada do respectivo jardim, cujo ali-

nhamento é retomado pelos blocos.


O Edifício Parnaso faz a esquina com a Rua
de Oliveira Monteiro e é composto por um
bloco e um conjunto de cubos de pequena
dimensão FIG.557, com rés-do-chão e 1º andar
que, implantados escalonadamente e man-
tendo apenas nos seus vértices o alinhamento
16

FIG. 557 – 561 Edifício Parnaso


da rua FIG.558 e 559, estabelecem, por um lado,
de José Carlos Loureiro & Pádua
Ramos (1954)
a transição de escala da construção da Rua de
Oliveira Monteiro para a dos blocos de maior
dimensão e, por outro, “cosem” o conjunto ao
edificado pré-existente, numa postura concilia-
tória que os demarca do Movimento Moderno.
Os blocos implantam-se na cota natural do
terreno, num nível inferior ao do arruamento,
preservando a vegetação aí existente. Acede-se
a estes através de pontes FIG.560, que fazem a
marcação das entradas a partir dos arruamen-
tos. Ambos os edifícios têm um programa de
habitação diferenciada, do qual fazem parte as
residências das respectivas proprietárias.
Para além dos programas habitacionais, o
Edifício Parnaso integra ainda um complexo pro-
grama de comércios, no piso térreo dos pequenos
volumes da Rua de Oliveira Monteiro, e equipa-
mentos culturais, distribuídos em torno do jardim
de que usufruem, numa surpreendente articula-
ção e em contacto estreito com a natureza FIG.562. FIG. 562 Plantas do
Edifício Parnaso

290 Introdução Opções temáticas / objectivos / ESTRATÉGIA


293

FIG. 563 Perspectiva do Edifício


Parnaso de José Carlos Loureiro &
Pádua Ramos (1954)

17 Actualmente esta foi FIG. 564 Plantas das torres do


transformada num pequeno
museu, sem que tenha sido
No Edifício Parnaso, na charneira entre os galeria enquanto sistema distributivo o que se exclusivo em azul e branco, onde o utilizam con- Na experimentação de José Carlos Loureiro Parque do Luso de José Carlos
Loureiro & Pádua Ramos, de 1958
alterado, no substancial, o espaço
da habitação, pelo que é fácil a
pequenos volumes e o volume de maior dimen- deve, por um lado, a ter sido utlizada frequente- juntamente com outros materiais característicos e Pádua Ramos são evidentes preocupações
sua visita.
18 Citação de TOSTÕES, Ana –
são, situa-se a caixa de escadas FIG.563, total- mente em habitação social, estando portanto das arquitecturas vernaculares portuguesas, tais com o custo da construção, reflectindo-se nas
Arquitectura Portuguesa nos
Anos 50: “Os Verdes Anos” ou o
mente envidraçada, a partir da qual partem as associada no imaginário colectivo a habitações como o perpianho de granito rusticado amarelo várias escalas do projecto, nomeadamente, na
Movimento Moderno em Portugal.
(Dissertação de Mestrado em
galerias de distribuição que constroem o alçado económicas e, por outro lado, ao desconforto aparente, conjugados com materiais contempo- visível contenção no dimensionamento dos
História de Arte) Lisboa: Fac.
de Ciências Sociais e Humanas
de rua do bloco, dominantemente de expres- que gera a exposição visual e ao clima no aces- râneos, tais como o betão descofrado aparente e vãos ou na optimização da organização de
da Univ. Nova de Lisboa, 1994,
pp.89-90.
são horizontal. Nos seus pisos inferiores temos so à habitação, não tendo sido uma solução o alumínio anodizado FIG.556. Estes materiais inse- cada apartamento FIG.564: “as áreas são rigo-
habitações de pequena dimensão, orientadas distributiva vulgarmente adoptada nos prédios rem-se numa ainda mais ampla “paleta” de mate- rosamente medidas e a racionalidade impera na
para o jardim, e os dois pisos superiores são de habitação, mesmo nesta sua versão com riais, “cujo uso e enquadramento vai variando tanto articulação dos espaços que, assim, são a expres-
19
ocupados, na totalidade, pela habitação da menor abertura ao exterior. em extensão como em singularidade de aplicação” , são da procura do maior benefício com o menor dos 19 Citação de FERNANDES,
21 Manuel Correia – Campo do Luso
proprietária. No outro bloco, a distribuição Quer o Edifício Parnaso, quer o Parque do não se limitando a revestir os exteriores, mas custos.” Quer neste, quer no bloco da Rua da in AA/VV - Guia de arquitectura
moderna: Porto 1901-2001. Porto:
é exclusivamente vertical, organização que Luso, são relativamente atípicos, e, exceptuando estendendo-se à caracterização dos espaços Friagem de Alfredo Matos Ferreira FIG.545 e 546 ou SRNOA; Civilização Editora, 2001.
20 Idem
transparece para a sua imagem exterior e, no na sua materialidade, não tiveram grandes reper- interiores, nomeadamente, as alvenarias de grani- no edifício de Pereira Reis de Fernando Távora 21 Idem

que parecia ser uma distribuição no patamar cussões na construção corrente. Ana Tostões to nas suas circulações comuns e o tijolo maciço FIG.550, formam um vão de sentido vertical, neste

em esquerdo-direito, é afinal a habitação da afirma que, “o jogo dos materiais aplicados, o tijolo, de barro vermelho que, usado de forma extensiva último e no Parque do Luso, associando visu-
proprietária que ocupa todo o seu lado esquer- a alvenaria pintada, o mosaico vidrado, a pastilha nos interiores dos apartamentos, “constitui uma almente o murete abaixo do parapeito ao vão
17
do, aquele que usufrui de três frentes . de “evinel”, aliados à concepção de um conjunto espécie de unidade ‘módulo’ que não só disciplina a propriamente dito.
Tal como no bloco do Edifício Parnaso, no volumétrico de grande rigor, desenhado e controlado composição e a medida das coisas, como estabelece No Parque do Luso, na torção de vários dos
bloco de maior altura do Parque do Luso a ao pormenor, testemunham o trabalho de um pro- a regra para resolver dobras, remates, entregas e seus paramentos acusam a influência das arqui-
18
distribuição faz-se por galerias resguardadas fissional atento.” De facto, é bastante notável a superfícies. Este mesmo material, contribui ainda tecturas orgânicas, nomeadamente de Alvar
por muretes altos e permitindo pontualmente a experimentação no detalhe construtivo e na con- pela riqueza da cor e da textura, para a concretiza- Aalto, na respectiva abertura para recepção da
relação visual com o exterior ao nível do obser- jugação de materiais, nestas obras de José Carlos ção de um certo conceito de conforto e modernidade luz solar. Prosseguindo a citar Manuel Correia
vador; a galeria do bloco do Parque do Luso não Loureiro e Pádua Ramos, tornando-se especial- pouco usual entre nós e, ainda, pela ‘eternidade’ do Fernandes, “a planta de cada piso, ligeiramente
é horizontal e gera um movimento sincopado mente significativa na interpretação da sua obra. material. Este partido, genericamente assumido em trapezoidal, abre-se subtilmente ao quadrante sul;
e ascendente que transparece no seu alçado, Já o referimos a propósito da tese de José Carlos todas as habitações é, mesmo, uma das ‘imagens de é engenhosamente organizada e produz espaços de
20
onde se destaca a coluna quase escultórica em Loureiro sobre o azulejo. Este material teve uma marca’ deste conjunto habitacional.” matriz orgânica em que o adoçamento dos ângulos
betão que alberga as circulações verticais. Em extensa aplicação nos revestimentos exteriores formados pelas paredes e a disponibilidade dos dife-
Portugal criou-se um estigma relativamente à do Parque do Luso FIG.552 a 555, com desenho rentes paramentos para darem lugar à sequência

292 Introdução Opções temáticas / objectivos / ESTRATÉGIA


295

FIG. 566 Gaveto da Rua de Costa


Cabral com a de Silva Tapada de
Benjamim do Carmo, licença 349
de 1962

FIG. 565 Edifício na Rua de Carlos


Malheiro Dias de Benjamim do
Carmo com Januário Godinho,
dos espaços, se assumem como elementos carac- O edifício na Rua de Carlos Malheiro Dias
licença 297 de 1960 terizadores da teoria compositiva adoptada para a FIG.565 , licenciado em 1960, apesar de recuado
22
compartimentação interna de todo o conjunto.” relativamente à rua, definindo um espaço de
O relativamente insólito remate superior transição que antecede a entrada do prédio,
das torres em telha do Parque do Luso FIG.553 é não reclama a autonomia do Edifício do Banco
uma menção clara ao “neo-liberty” italiano, e, Popular. O seu alçado, à semelhança do de Sá
perpetrando em simultâneo soluções similares da Bandeira, constrói-se com faixas horizontais
às do prédio de Pereira Reis de Fernando Távora que compreendem os vãos, ainda que aqui
FIG.550, faz parte, em conjunto com os aspectos sejam simplesmente rebocadas.
22 Citação de FERNANDES, atrás referidos, de uma assumida distancia- O edifício de gaveto da Rua de Costa Cabral FIG. 567 Gaveto de João
Manuel Correia – Campo do Luso Pedro Ribeiro com S. Brás de
in AA/VV - Guia de arquitectura ção em relação aos códigos internacionais do com a de Silva Tapada FIG.566, licenciado em Um prédio com uma proporção e estratégias enfatiza um maciço superior avançado das habi- Manuel Rodrigues e António
moderna: Porto 1901-2001. Porto: Machado, de 1962
SRNOA; Civilização Editora, 2001. Movimento Moderno, enquanto o Edifício do 1962, reutiliza os padrões em pastilha como compositivas semelhantes às do bloco da tações, que lateralmente se esvazia em varandas
24
Banco Popular assume o moderno como uma revestimento exterior numa volumetria onde, esquina é o do gaveto da Rua de João Pedro contínuas encaixotadas nos extremos.”
conquista do seu tempo que adapta à circuns- de novo, se procura autonomia para um dos Ribeiro com a Rua de S. Brás FIG.567, de Manuel Entretanto, está já em elaboração o Plano
23
tância urbana da intervenção. seus volumes, interceptado com um outro que Rodrigues e António Machado, de 1962 , bas- Director da Cidade de Robert Auzelle, finalizado
Não encontramos muita informação sobre estabelece as continuidades com os alinha- tante representativo da arquitectura do prédio praticamente em simultâneo com a conclusão
Benjamim do Carmo: sabemos, por Agosti- mentos da construção pré-existente na rua; de rendimento da cidade na passagem dos do último dos lotes a ser construído no Edifício
nho Ricca, que já não é vivo e apenas identifica- a estratégia adoptada na composição é uma anos 50 para os 60. Usando as palavras de Luís do Banco Popular, em 1962, e no qual se prevê
mos dois prédios de habitação licenciados sob variante do tema explorado na Rua de Sá da Aguiar Branco, “este volume construído recorre a aplicar os pressupostos da Carta de Atenas em
a sua responsabilidade, ambos com sistemas Bandeira, com janelas corridas em alternância uma digna simplicidade nos jogos arquitectónicos alguns dos novos bairros localizados fora do 23 Baseado em BRANCO, Luís
Maria Aguiar; MARQUES, Maria
compositivos semelhantes ao do Edifício do com varandas, aqui em consola, e planos cegos evidentes, configurando oposições de claro-escuro, centro da cidade. Augusta – Porto com Pinta. Porto:
[s.n.], [2005] (impressão: Ponto
Banco Popular. a resolverem as viragens FIG.286. cheio-vazio, e peso-leveza. Apoiado por pilares que Em 1962, Agostinho Ricca projecta o Bairro Comum).
24 Citação de BRANCO, Luís Maria
desmassificam o amplo e vítreo r/c comercial, solta- Aguiar; MARQUES, Maria Augusta
– Porto com Pinta. Porto: [s.n.],
-se o pilar de marcação da esquina que denuncia a [2005] (impressão: Ponto Comum).

entrada recuada em chanfro. Este pilar suporta e

294 Introdução Opções temáticas / objectivos / ESTRATÉGIA


297

do Foco e alguns dos seus edifícios FIG.568 a 570. O PARQUE RESIDENCIAL DO FOCO
DE AGOSTINHO RICCA COM
Plano Auzelle, o Bairro da Pasteleira cujo estudo
26
Bairro do Foco é praticamente autónomo rela- JOÃO SERÔDIO E JOSÉ CARLOS
MAGALHÃES CARNEIRO, DE 1962:
é coordenado pelo Arq. Alberto Rosmaninho
tivamente ao resto da cidade e nele Agostinho FIG. 568 Planta
FIG.571 . Citando Rui Ramos temos, para alguns dos

Ricca não aplicou à risca os princípios da Carta de FIG. 569 Vista dos blocos ao longo
da Av. da Boavista
seus sectores, “uma concepção formal próxima do
Atenas, desenhando uma solução mista, na qual FIG. 570 Planta do piso tipo
dos blocos
formulário decorrente da Carta de Atenas, onde a
quase que apenas os blocos ao longo da Rua cidade moderna é o somatório de blocos implantados
da Boavista adquirem autonomia; os restantes de acordo com a orientação solar, sobre um parque
edifícios interligam-se, através da intersecção de verde rasgado por vias de circulação segregadas
blocos e torres que se unem para, em conjunto e entre peões e automóveis, (…) a partir dos quais são
perifericamente, isolarem o espaço verde ao cen- distribuídos os acessos em cul-de-sac aos edifícios,
27
tro e com todo o protagonismo FIG.568. Os edifí- locais de estacionamento e zonas verdes.”
cios não são objectos enquadrados pelo espaço Sérgio Fernandez e Pedro Ramalho projec-
verde: é o espaço verde que é enquadrado pelos tam, para o Bairro da Pasteleira, cinco blocos de
edifícios, os quais filtram as suas relações com as habitação colectiva concebidos e edificados
vias de circulação exteriores; a construção e as entre 1963 e 1973, interrogando, através da
vias de circulação internas dispõem-se periferi- concepção dos edifícios, a estratégia moderna
28
camente por forma a libertar o espaço central de que o plano faz eco .
para o parque. Citando o próprio Agostinho Ricca: No primeiro bloco residencial a ser cons-
“O terreno tem uma área de 70.00 m2 e a superfície truído FIG.572, o revestimento exterior “é de tijolo
coberta pelos 10 imóveis de finalidade residencial, vermelho aparente o que segundo Sérgio Fernandez
FIG. 571 Planta
comercial, recreativa e cultural é de 25.000 m2. Os do plano geral da fará uma referência evidente aos modelos ingleses
Pasteleira
prédios localizam-se na periferia do terreno, man- centrados nas obras de Leslie Martin e de James
25
tendo, entre si, um espaço ajardinado.” Agostinho Stirling e James Gowan, com os quais terá tomado
Ricca, autor do plano geral, não acompanhou até contacto na década de cinquenta, durante a sua
29
ao final a construção de todo este conjunto resi- permanência em Londres.”
dencial; alguns dos projectos tiveram a colabo-
ração de João Serôdio e José Carlos Magalhães
Carneiro, mas são de sua autoria exclusiva os
projectos da Igreja e Centro Paroquial, do Cinema
e da Sala de Concertos.
26 Baseado em RAMOS, Rui -
Na imagem dos blocos FIG.569, implantados Pasteleira. Cinco edifícios de
habitação colectiva e super-
perpendicularmente à rua, formando no espaço mercado in AA/VV - Guia de
arquitectura moderna: Porto
entre eles pátios para estacionamento, temos 1901-2001. Porto: SRNOA; Civili-
zação Editora, 2001.
códigos ainda próximos dos do Edifício do Banco 27 Citação de RAMOS, Rui -
Pasteleira. Cinco edifícios de
Popular, nomeadamente, janelas corridas interca- habitação colectiva e super-
mercado in AA/VV - Guia de
ladas por varandas e topos tratados como planos arquitectura moderna: Porto
1901-2001. Porto: SRNOA; Civili-
cegos, conferindo destaque às torres das circu- zação Editora, 2001. FIG. 572 Planta e imagem exterior
28 Baseado em RAMOS, Rui -
lações comuns e soltando o plano da cobertura. Pasteleira. Cinco edifícios de
do primeiro dos blocos da
Pasteleira de Sérgio Fernandez e
habitação colectiva e super-
Os blocos implantam-se no solo mas cria-se, ao mercado in AA/VV - Guia de
Pedro Ramalho, de 1963

arquitectura moderna: Porto


nível do rés-do-chão, transparência através de 25 Citação de RICCA, Agostinho
1901-2001. Porto: SRNOA; Civili-
– Agostinho Ricca, projectos
zação Editora, 2001.
um hall amplo e vazado de lado a lado. e obras de 1948 a 1995. Porto:
29 Citação de RAMOS, Rui -
Ordem dos Arquitectos, 2001,
Pasteleira. Cinco edifícios de
A fluidez espacial que já se vislumbrava em p.42.
habitação colectiva e super-
mercado in AA/VV - Guia de
alguns dos andares da Rua de Sá da Bandeira tor- arquitectura moderna: Porto
1901-2001. Porto: SRNOA; Civili-
na-se clara nos apartamentos dos blocos do Foco zação Editora, 2001.

FIG.570, quando o movimento ocorre através de

espaços contínuos que ziguezagueiam por entre


paramentos que se assumem como “biombos”.
Praticamente em simultâneo é previsto, no

296 Introdução Opções temáticas / objectivos / ESTRATÉGIA


299

ÚLTIMO CONJUNTO DE BLOCOS vai atribuir um vincado protagonismo ao espaço da “Do neo-realismo italiano adopta-se a crítica do
DA PASTELEIRA DE SÉRGIO
FERNANDEZ E PEDRO RAMALHO, varanda-terraço na organização da casa. Segundo movimento orgânico ao racionalismo, à sua estreiteza
DE 1963:
Pedro Ramalho, ‘a ideia da varanda-terraço, pro- ideologia, à sua vocação tecnológica, ao seu purismo
FIG. 573 Imagem exterior
FIG. 574 Planta do piso tipo e longamento da vida do fogo para o exterior, assume linguístico. Revalidam-se os aspectos psicológicos,
rés-do-chão
aqui uma função de pátio de articulação entre a ambientais, naturais, a redimensionar a escala das
zona de estar e a de refeições, obviamente inspirada intervenções, a aderir mais pragmaticamente às
no bloco de habitações do bairro de Hansa, em Berlim condições histórico-sociais de cada comunidade. (…)
(Alvar Aalto, 1955-1957)’, influência a que não será Tenta-se definir uma linguagem directamente comu-
estranha a visita que realiza às obras de Alvar Aalto, nicativa para as classes populares, substituindo a
31
durante os anos 60, na Alemanha e Finlândia.” recusa da história pela retomada de muitos caracte-
No segundo dos blocos a ser construído FIG.573, A influência de Alvar Aalto e do “Inquérito à res tradicionais e regionais.
por diversos problemas que surgiram durante Arquitectura Popular Portuguesa” reflecte-se Do neo-empirismo nórdico adopta-se a amplia-
a construção, o projecto foi adulterado, “sendo também na materialidade da obra, no uso de ção dos termos linguísticos da lição racionalista,
o mais grave a alteração do acabamento exterior de materiais de qualidade telúrica conjugados com conferindo-lhe novas características. O termo função
tijolo aparente para reboco pintado. Contudo ainda se matérias da arquitectura vernacular e contem- passa a utilizar-se com um sentido mais lato, incluin-
pode ler nas suas fachadas o mesmo princípio de com- porâneos, demonstrando uma sensibilidade do por exemplo os aspectos de carácter psicológico.
posição, que será retomado no último conjunto edifi- táctil ao material na sua expressão natural, cor Substituem-se as rígidas e programáticas normas
cado, em que a janela da sala é articulada com o vão e textura, cuidadosamente articulados: “Pedro pelo bom senso, conformando edifício e ambiente de
da varanda, com marcação das diferentes alturas Ramalho explicita claramente a importância e signi- forma mais articulada, usando materiais e elementos
dos peitoris. (…) Os alçados revelam-nos tratamento ficado atribuído à influência da obra de Alvar Aalto na construtivos tradicionais. (…)
diferenciados. O alçado sul apresenta uma solução de realização destes projectos, quando identifica os seus Aalto, alheio a qualquer intenção programática,
janela horizontal interrompida no centro do edifício projectos como ‘uma atitude projectual de conten- ao naturalismo sueco ou ao populismo italiano, conti-
para a abertura das varandas, que serão igualmente ção, que se vai definindo como busca do essencial, nua a perseguir uma síntese baseada na relação, rica
o dispositivo de remate, através da fragmentação desse modo recusando a ‘via italiana’ em voga’.(…) em tensões, entre formas orgânicas e articulações
do volume, e de introdução à composição do alçado As referências à arquitectura inglesa e finlandesa e o geométricas, desenvolvendo as linhas de uma lingua-
oposto. O alçado norte apresenta uma composição Inquérito à Arquitectura Popular Portuguesa, entre- gem já formulada claramente nos finais dos anos 30.
diferente dos vãos, agora ligados entre si por uma tanto publicado em 1961, serão alguns dos factores A sua obra apresenta-se como alternativa pelo seu
janela contínua junto do tecto, libertando deste modo predominantes no percurso da arquitectura moderna naturalismo genérico e declarada fidelidade ao que se
o pano de parede, o que evidencia a leitura que do portuguesa dos anos 60, a que estes projectos não tem chamado funcionalismo psicológico.
30
exterior se poderá fazer da sua estrutura interior.” nos blocos do Foco FIG.570, quer nos de Sérgio 30 Citação de RAMOS, Rui - 31 Citação de RAMOS, Rui - serão alheios. (…) Como salienta Sérgio Fernandez: Do movimento que tenta recuperar a linha teórica
Pasteleira. Cinco edifícios de Pasteleira. Cinco edifícios de
Nos blocos do Bairro da Pasteleira de Sérgio Fernandez e Pedro Ramalho FIG.572 e 574, partindo habitação colectiva e super- habitação colectiva e super- ‘Constatava-se, de um modo diferente porque visto dos CIAM, ‘o brutalismo tenta afrontar uma socie-
mercado in AA/VV - Guia de mercado in AA/VV - Guia de
Fernandez e Pedro Ramalho detectam-se de uma base funcional e racional, privilegia-se o arquitectura moderna: Porto arquitectura moderna: Porto numa perspectiva de modernidade, o valor da arqui- dade de produção em massa extraindo uma espécie
1901-2001. Porto: SRNOA; Civili- 1901-2001. Porto: SRNOA; Civili- 32
algumas similitudes com os blocos do Foco, espaço da sala comum em relação directa com zação Editora, 2001. zação Editora, 2001. tectura vernacular’.” de poesia tosca das forças poderosas e confusas em
32 Idem
tais como a sua proporção e a configuração do uma ampla varanda, indiciando uma optimiza- 33 Citação de BECKER, Anette; Durante a revisão do Movimento Moderno, jogo’ (Smithson). Dele se adopta a exigência de indivi-
TOSTÕES, Ana; WANG, Wilfried
hall de entrada do prédio. Porém, os do Foco, ção dos espaços sociais no programa domés- - Arquitectura do século XX - o seu carácter ortodoxo é substituído pela plu- dualidade, de fantasia, de inédito. A busca de um novo
Portugal. Deutches Architecktur
num projecto de assumida urbanidade, não tico. O primeiro dos blocos de autoria de Sérgio Museum Frankfurt am Main; CCB: ralidade, diversificando-se influências, posturas humanismo capaz de extrair do universo tecnoló-
Druck-und Verlags- haus Zarbock,
criam um tão grande distanciamento relati- Fernandez e Pedro Ramalho a ser construído 1997, p.140. e percursos. Na arquitectura Portuguesa dos gico toda a sua força vital. Abandona-se o método
34 Citação de COSTA, Alexandre
vamente à arquitectura moderna como os na Pasteleira, de acordo com Rui Ramos, “tem a Alves – Dissertação. Porto: anos sessenta identifica-se “uma sobriedade e analítico e aditivo da tradição urbanística de antes de
Edições do Curso de Arquitec- tura
da Pasteleira, com referências à arquitectura particularidade de organizar o fogo em dois níveis, da ESBAP,1980, pp.26-27. autenticidade que busca nas raízes da tradição a guerra e, criticando o zonamento proposto pela carta
33 34
vernacular, nomeadamente na sua cobertura diferenciando a zona de estar e de comer, o que cons- sua inspiração mais profunda”; Alexandre Alves de Atenas, enfatizam-se os espaços de relação.”
feita num plano inclinado em telha, evidenciado tituía um aspecto pouco comum. (…) No último con- Costa enumera as diversas influências e como
na forma trapezoidal aparente nos topos dos junto a ser construído são mantidos alguns aspectos estas são absorvidas na arquitectura do Porto:
blocos FIG.572. Na organização da planta, quer relativos à organização do fogo experimentados
nas primeiras edificações. Contudo, a não utilização
de dois níveis para diferenciar o espaço doméstico

298 Introdução Opções temáticas / objectivos / ESTRATÉGIA


301

FIG. 577 - 579 Hotel D. Henrique


de José Carlos Loureiro & Pádua
Ramos, de 1965

FIG. 575 - 576 Vista e plantas da


Um ano antes do Parque Residencial do Foco, Para além de Agostinho Ricca, nos anos ses- Torre de Júlio Dinis de Agostinho urbano tradicional. Apesar de, pelo seu progra-
35 Ricca, de 1961
em 1961 , Agostinho Ricca projecta a Torre de senta, com a legitimação da construção em ma, já se encontrar fora do âmbito deste estudo,
Júlio Dinis FIG.575 e 576, acusando também neste altura no Plano Director Municipal da autoria de fazemos-lhe referência sobretudo pelo tema
projecto a influência de Alvar Aalto, ou até talvez R. Auzelle, são vários os autores, daqueles que que suscita: o da inserção da tipologia de torre
a de Hans Sharoun, não pressentidas nem na temos vindo a referir, que encontram oportuni- no tecido da cidade tradicional. Se, dos mesmos
Rua de Sá da Bandeira, nem no Foco, nas suas dade para construir torres. exigências. autores, as torres do Parque do Luso FIG.551 a 556
geometrias irregulares orientadas para um certo José Carlos Loureiro e Pádua Ramos, em libertam o solo para criarem o espaço a que
“organicismo”. Citando o seu autor: “Este edifício- 1965, retomam o tema da torre no Hotel D. alude o nome do empreendimento, posicionan-
37
-torre construído para investimento pelo Montepio Henrique FIG.577 a 580, aqui com uma esbelta do-se de modo a isolar este espaço lúdico do
Geral tem três habitações por piso do tipo T3+1.O silhueta de sentido fortemente ascensional, bulício da rua, a torre do hotel densifica a área
35 Baseado em RICCA, Agostinho
plano Auzelle previa que este fosse o edifício chave inspirada na Price Tower de Frank Lloyd Wright – Agostinho Ricca, projectos em que se insere. Se as torres do parque tomam
38 e obras de 1948 a 1995. Porto:
na Rua de Júlio Dinis, coroando a rampa na zona da de 1956 : os autores desfazem gradualmente a Ordem dos Arquitectos, 2001, o alinhamento dos alçados da rua, diluindo-se na
p.42.
curva. Um arruamento privado conduz à garagem e construção, “afiando” a sua ponta dirigida ao céu, 36 Citação de RICCA, Agostinho sua perspectiva, no caso do hotel, a opção pela
36 – Agostinho Ricca, projectos
permite o acesso abrigado à entrada.” criando a ilusão de uma maior altura na perspec- e obras de 1948 a 1995. Porto: torre reforça a sua própria presença ao assumir-
Ordem dos Arquitectos, 2001,
tiva do que aquela que a torre de facto tem. Este p.42. se, no gaveto, como ponto de referência urbana.
37 Baseado em FERNANDEZ,
edifício foi já referido no capítulo inicial, por estar Sérgio – Percurso, Arquitectura A torre do Hotel D. Henrique, encontrando-se
Portuguesa 1930/1974. Porto:
na vizinhança próxima da Rua de Sá da Bandeira FAUP publicações,1988, pp. “entalada” no seio da cidade tradicional, cria, no
150-151. FIG. 580 Planta do piso tipo e
e pelo tema que suscita: a inserção de tipologias 38 Baseado em ZEVI, Bruno – seu embasamento, os edifícios que lhe permi- corte do Hotel D. Henrique de
Frank Lloyd Wright, Barcelona, José Carlos Loureiro & Pádua
modernistas, como o bloco ou a torre, no tecido Edtorial Gustavo Gili, 1985, p. 238. tem relacionar-se com o seu contexto . Ramos, de 1965

300 Introdução Opções temáticas / objectivos / ESTRATÉGIA


303

Também os autores do Palácio do Comércio, TORRE DA COOPERATIVA DOS


PEDREIROS DE MARIA JOSÉ
TORRE DE ANTÓNIO PATRÍCIO DE
ARMÉNIO LOSA E CASSIA
Maria José Marques da Silva e David Moreira MARQUES DA SILVA E DAVID
MOREIRA DA SILVA, DE 1969
NO BARBOSA COM CO-AUTORIA
DE ALFREDO MATOS
da Silva, em 1969 e já libertos dos códigos do FIG. 581 Perspectiva da rua
FERREIRA DE 1968
39
Art Déco, projectam uma torre FIG.581 e 582: “ FIG. 582 Corte e plantas tipo
dos pisos T3 e T1
FIG. 583 Imagem do exterior
FIG. 584 Planta do piso tipo
a torre de habitação é uma extensão da sede da
SCPOPP (Sociedade Cooperativa de Produção dos
Operários Pedreiros do Porto), mais conhecida como
Cooperativa dos Pedreiros, que Moreira da Silva
40
Utilizam
projectou e construiu entre 1934 e 1937.”
materiais de acabamento tradicionais como
39 Baseado em LOUSA, António
o azulejo e o granito, ainda que não seja claro Portovedo – Edifícios-torre in
AA/VV - Guia de arquitectura
que isso se deva a um desejo de revisão do moderna: Porto 1901-2001. Porto:
SRNOA; Civilização Editora, 2001.
moderno. No que ao granito se refere, trata-se, 40 Citação de Maria José Marques
da Silva (1917-1996) in Jornal
antes de mais, de uma oportunidade de expor Arquitectos no 206. Lis- boa:
OASRS, Maio de 2002, p. 8-9.
a qualidade do trabalho da Cooperativa através 41 Citação de LOUSA, António
Portovedo – Edifícios-torre in
de trabalhos requintados de placagem com AA/VV - Guia de arquitectura
moderna: Porto 1901-2001. Porto:
diversas qualidades de granito nas molduras SRNOA; Civilização Editora, 2001.

projectadas para o exterior e nos muretes


inferiores dos vãos. Tal como António Losa
observa, “é patente uma clara indiferença à orien- 42 Citação de LOUSA, António
tação do edifício, prevalecendo o sentido da simetria Portovedo – Edifícios-torre in
AA/VV - Guia de arquitectura
A fechar este capítulo, ilustramos a torre que, No momento em que se inicia a revisão do
sobre o da orientação das habitações, bem como moderna: Porto 1901-2001. Porto:
SRNOA; Civilização Editora, 2001.
em 1968, Arménio Losa e Cassiano Barbosa moderno, o Edifício do Banco Popular é ainda
o privilégio da relação urbana estrita com a rua, 43 Idem projectam FIG.583 e 584, inicialmente destinada sintomático da aceitação do moderno e, pese
sendo a relação com a cidade apenas indiciada pelo para habitação, mas cuja construção, em embora algumas contradições que temos vindo
programa do último piso que se orienta claramente esqueleto, é interrompida em 1973, sendo a assinalar, tem a proeza de proporcionar, no cen-
41
a sul.” Assim, e pese embora a sua imagem entretanto destinada “para a Sede Regional da tro da cidade, um momento de desafogo alter-
modernista, não trata de igual forma os alçados, Segurança Social no Porto, iniciando-se um novo nativo à forma tradicional de conceber à cidade;
hierarquizando-os, optando por um tratamento projecto da adaptação da estrutura existente ao apesar de referenciado aos princípios da Carta
mais pobre no alçado nascente, aquele onde novo programa, tendo Losa convidado Alfredo Matos de Atenas, não cria rupturas, mas estabelece as
42
se descobre o volume em betão da caixa de Ferreira a desenvolver a nova fase de trabalho.” pontes entre um novo entendimento da cidade e
escadas e que é menos visível desde a rua. Nesta torre, a superfície do vidro apenas é inter- a cidade tradicional; assume o moderno fazendo
rompida pelos topos das lajes, que a protegem uma livre interpretação dos seus códigos, numa
devidamente da exposição solar, “projectados versão que se adapta à circunstância urbana e
horizontalmente na fachada sul, inseridos vertical- topográfica em que se insere. Aliás, como vimos,
mente nas fachadas poente e nascente. (…) O edifício esta adaptabilidade do moderno é uma caracte-
projectado por Losa/ Matos Ferreira, do ponto de vista rística constante do moderno comedido que se
da sua materialização, vincula-se a um entendimento praticou na cidade do Porto.
próximo de edifícios projectados por Mies ou Ponti,
43
numa descolagem em relação aos restantes.”

302 Introdução Opções temáticas / objectivos / ESTRATÉGIA


4.momento:
305

análise
comparativa
“atmosferas”

304 Introdução Opções temáticas / objectivos / ESTRATÉGIA


307

O corpo da arquitectura (…) trata-se de algo como


FIG. 585 Planta e alçados do sector
norte da Rua de Sá da Bandeira

uma anatomia. Na realidade, ao falar do corpo faço-o


no sentido literal da palavra, (…) como massa corpórea,
como membrana, como recubrimento (…). O corpo!
Não a ideia de corpo, senão o corpo! Um corpo que 1
FIG. 585 Edifício do Banco
Popular

me pode tocar. FIG. 586 Palácio do Comércio

Esta definição de Peter Zumthor, tal como as


dos seguintes subcapítulos, terá uma interpre-
tação assumidamente redutora e especifica-
mente neste abordaremos apenas a “ideia de
corpo”, ou seja, limitar-nos-emos a falar de volu-
metrias e das suas relações urbanas; na verda-
de, Peter Zumthor remete algumas das ques-
tões deste tema, tal como nós o abordamos,
para um dos três apêndices aos nove pontos
que lhe permitem descrever uma “Atmosfera”
(os conceitos que estruturam este capítulo), Os casos aqui em estudo, mesmo quando
apêndice que ele designa por “Arquitectura como introduzem novas lógicas urbanas, tal como o
meio envolvente”, e que corresponde ao modo Edifício do Banco Popular de Agostinho Ricca
como o objecto arquitectónico se funde e se e Benjamim do Carmo FIG. 585, não criam hia-
transforma numa peça fundamental para a tos, mas estabelecem as necessárias “pontes”
2
construção de um lugar. com a lógica pré-existente; mesmo quando,
Para já, o “corpo” que nos interessa é o modo enquanto edifícios, adquirem maior autonomia,
como cada edifício interage com a cidade e só tal como os blocos deste último ou o Palácio
mais adiante nos debruçaremos mais aprofun- do Comércio FIG. 586, que isoladamente constrói
dadamente sobre a sua interacção connosco: todo um quarteirão, não se se sobrepõem aos 2 Baseado em ZUMTHOR, Peter –
Atmosferas. Barcelona: Editorial
neste primeiro subcapítulo, ignoraremos as valias preceitos previamente estabelecidos para a Gustavo Gili, 2006, pp. 63-65.

próprias de cada edifício em estudo enquanto cidade FIGS. 7 A 10, mas é em conformidade com
objecto autónomo e focar-nos-emos no seu estes que introduzem novas leituras urbanas
préstimo enquanto parte de um organismo mais FIG. 2 . Todos juntos, constroem o espaço urbano

vasto que é a cidade; para já, deter-nos-emos que convertem em protagonista.


nas suas volumetrias e no modo como estas
1 Citação de ZUMTHOR, Peter – mutuamente se complementam e analisaremos
Atmosferas. Barcelona: Editorial
Gustavo Gili, 2006, p. 22. apenas as relações que estas estabelecem com
a envolvente próxima.
306 Introdução Opções temáticas / objectivos / ESTRATÉGIA
309

FIG. 587 Planta e alçados do sector


norte da Rua de Sá da Bandeira
Os edifícios do sector norte da Rua de Sá da O sector norte da rua de Sá da Bandeira con-
Bandeira inserem-se na lógica da cidade oito- trasta com o seu sector sul, o que é desde logo
centista da cidade construída por quarteirões, visível em planta através do seu parcelamento
definindo ruas, largos e praças numa malha onde FIG. 2: a base continua a ser o quarteirão, de forma

a construção, preenchendo o espaço que se lhe irregular, ainda que um novo cadastro crie con-
destina na frente do quarteirão, desenha com a dições para aqui se introduzir uma nova escala;
sua “fachada” a envolvência do espaço urbano e lotes de maior dimensão permitem a introdução
assume o papel de “cenário” da vida urbana FIG. 587. de maiores frentes contínuas e, para uma mes-
Sem questionar a cidade tradicional na sua ma largura de rua, com edifícios de maior altura,
estrutura de quarteirão, a Rua de Sá da Bandeira cria-se um novo perfil de rua e renova-se a sua
rompe o tecido oitocentista da cidade, no seu imagem pela introdução de uma nova escala
início ainda com a expectativa de se assumir que pretende ser mais cosmopolita.
como via principal de escoamento do centro e, Os edifícios do sector norte da Rua de Sá da
no seu final, assumida como um elemento da Bandeira respeitam os alinhamentos dos alça-
malha que o densifica, reduzindo à dimensão dos de rua, asseguram continuidades com a
dos quarteirões que se mantêm como unidades construção adjacente procurando, sempre que
de agregação urbana de forma irregular. A forma possível, alinhamentos de cérceas. Negando
do quarteirão resulta do traçado da rua e a do ser autónomos, fundem-se com a construção
lote de construção é consequência da sobrepo- existente e, em conjunto, formam o tecido da
sição desta ao cadastro pré-existente, ainda que cidade e constroem a rua. 3 Decreto de 14 de Fevereiro de
podendo gerar subdivisões da propriedade. No momento da construção das primeiras 1903, Regulamento de Salubridade
das Edificações Urbanas. Lisboa:
A disposição periférica da construção liberta frentes de quarteirão do sector norte da Rua Imprensa Nacional, Lisboa, 1903.
4 Decreto-Lei nº 38 382, de 7 de
o núcleo central do quarteirão, permitindo que de Sá da Bandeira FIGS. 588 A 591 estava ainda Agosto de 1951, in Regulamento
Geral das Edificações Urbanas.
aí surjam os espaços exteriores privados. No em vigor o Regulamento de Salubridade das Porto: Porto Editora, 1999
5 Citação do Artigo 5ª do Decreto
perímetro do quarteirão define-se a fronteira Edificações Urbanas (RSEU) na sua versão de 14 de Fevereiro de 1903
Regulamento de Salubridade
3
entre o espaço público e o privado, formalizada de 1903 , apenas substituído em 1951 pelo das Edificações Urbanas. Lisboa:
Imprensa Nacional, Lisboa, 1903.
pelas frentes da construção que, em conjunto, Regulamento Geral das Edificações Urbanas 6 Citação do Artigo 6ª do Decreto
de 14 de Fevereiro de 1903,
4
constroem o alçado urbano do quarteirão, deli- (RGEU) . No artigo 5º do Capítulo II do RSEU Regulamento de Salubridade
das Edificações Urbanas. Lisboa:
mitando e desenhando o espaço público das definem-se regras para a altura dos alçados, Imprensa Nacional, Lisboa, 1903.
7 Citação da 1ª alínea do Artigo 5ª
5
ruas e das praças que formam o espaço públi- a qual “será determinada pela largura das ruas” , do Decreto de 14 de Fevereiro de
1903, Regulamento de Salubridade
co e urbano. fixando o número de andares e a altura em das Edificações Urbanas. Lisboa:
Imprensa Nacional, Lisboa, 1903.
metros do alçado (Artigo 6º - “medidas desde a 8 Citação da 4ª alínea do Artigo 5ª
do Decreto de 14 de Fevereiro de
calçada ou pavimento até a parte superior da cor- 1903, Regulamento de Salubridade
6 das Edificações Urbanas. Lisboa:
nija” acrescentando, na alínea 1ª, que “serão Imprensa Nacional, Lisboa, 1903.
7
tomadas no centro da fachada” ) consoante a
largura do arruamento, estando o caso da Rua
de Sá da Bandeira previsto na alínea 4ª: “Quando
a largura for de 14 a 18 metros exclusivamente, a
altura das fachadas não será superior a 17 metros
8
(quatro andares).”

308 Introdução Opções temáticas / objectivos / ESTRATÉGIA


311

FIG. 588 Primeira frente de FIG. 589 Primeira frente de


quarteirão do lado poente do quarteirão do lado nascente
sector norte da Rua de Sá da do sector norte da Rua de Sá
Bandeira (Palácio do Comércio): da Bandeira (Edifício Garantia,
planta de piso tipo, corte Edifício Geminado de José Porto,
transversal e alçado Edifício do Instituto de Inglês e
Edifício TAAG): planta de piso tipo,
corte transversal e alçado

310 Introdução Opções temáticas / objectivos / ESTRATÉGIA


313

FIG. 590 Segunda frente de FIG. 591 Segunda frente de


quarteirão do lado poente do quarteirão do lado nascente
sector norte da Rua de Sá da do sector norte da Rua de Sá
Bandeira (Edifício EDP e Edifício da Bandeira (Gaveto Nordeste
DKW): planta de piso tipo, corte com a Rua da Firmeza e Edifício
transversal e alçado Emporium): planta de piso tipo,
corte transversal e alçado

312 Introdução Opções temáticas / objectivos / ESTRATÉGIA


315

FIG. 593 Piso recuado FIG. 594 Segunda frente de


do Edifício TAAG quarteirão do lado poente
do sector norte da Rua de Sá
da Bandeira: Edifício EDP e
Edifício DKW
FIG. 595 Segunda frente de
quarteirão do lado nascente
do sector norte da Rua de
Sá da Bandeira: Gaveto
Nordeste com a Rua da
Firmeza e Edifício Emporium

FIG. 592 Edifício Garantia


No entanto, os edifícios de gaveto da frente de argumentação para poderem fechar as varan-
quarteirão do lado nascente do tramo com- das do piso dos estúdios no Edifício DKW FIG. 596,
preendido entre as ruas de Fernandes Tomás no aditamento ao projecto FIGS. 364 E 365, fundin-
e da Firmeza FIG. 589, o Edifício Garantia FIG. 592 do o seu espaço com o interior. A alínea 6ª diz
e o Edifício TAAG FIG. 593, obtiveram mais altura que, para casos de arruamentos de diferentes
recuando o seu último piso, situação prevista na larguras, a altura será determinada pelo arrua-
2ª alínea do artigo 6º do RSEU, a qual refere que mento de maior largura, mas a largura da Rua
“acima da cornija e no plano da parede da fachada da Firmeza não excede a da de Sá da Bandeira.
não poderá ser elevada construção alguma excepto Estas situações provam que os serviços cama-
os acrotérios, seus acessórios e um só andar recolhido, rários tinham autonomia para decidir e permitir
9
para aproveitar o madeiramento do telhado”. excepções à lei geral, ainda que a alínea 7ª do
No gaveto que se lhes segue FIG. 591, o primei- artigo 6º do RSEU determine que estas sejam
ro dos edifícios que Passos Júnior aí construiu, determinadas por decisões especiais do gover-
10
o Gaveto Nordeste com a Rua Firmeza FIG. 595, no. Já o Palácio do Comércio FIG. 597 tem uma
nota-se já uma maior permissividade dos ser- altura de “fachada” bastante superior aquela
viços camarários permitindo, pontualmente, que se prevê na alínea 5ª como sendo a sua
11
que o piso que deveria permanecer recuado altura máxima , onde se fixa o limite máximo
avançasse até ao alinhamento do primeiro plano nos 20 metros FIG. 588.
do alçado (altura das caixas de escadas e no Em 1951 fixam-se, no Regulamento Geral de
gaveto) e, na esquina oposta FIG. 590, no segundo Edificações Urbanas português, aprovado pelo FIG. 596 Edifício DKW FIG. 597 Palácio do Comércio 9 Citação da 2ª alínea do Artigo 6ª
do Decreto de 14 de Fevereiro de
edifício do mesmo autor, o Edifício EDP FIG. 594, foi Decreto-lei n.º 38 888 de 7 de Agosto de 1951, 1903, Regulamento de Salubridade
das Edificações Urbanas. Lisboa:
já assumido avançar o piso que supostamente as condicionantes legais para a edificação de Imprensa Nacional, Lisboa, 1903.
10 7ª alínea do Artigo 6ª do
seia recuado, avançar na totalidade até ao plano raiz, das quais a mais famosa será a designada Decreto de 14 de Fevereiro de
1903, Regulamento de Salubridade
da “fachada”, mantendo-se apenas uma subtil “regra dos 45 graus”, que tanto moldou a ima- das Edificações Urbanas. Lisboa:
Imprensa Nacional, Lisboa, 1903.
demarcação mediante a introdução de um gem das cidades portuguesas daí em diante: “A 11 5ª alínea do Artigo 5ª do
Decreto de 14 de Fevereiro de
ligeiro ressalto após um friso de cantaria. Como altura de qualquer edificação será fixada de forma 1903, Regulamento de Salubridade
das Edificações Urbanas. Lisboa:
vimos, este criou o precedente de que Arménio que em todos os planos verticais perpendiculares à Imprensa Nacional, Lisboa, 1903.

Losa e Cassiano Barbosa se serviram na sua fachada nenhum dos seus elementos, com excepção

314 Introdução Opções temáticas / objectivos / ESTRATÉGIA


317

FIG. 598 Remate superior da Rua FIG. 599 Lado nascente


de Sá da Bandeiro(Edifício do do remate superior da
Banco Popular): planta de piso tipo Rua de Sá da Bandeira
(Edifício do Banco Popular): alçado

316 Introdução Opções temáticas / objectivos / ESTRATÉGIA


319

de chaminés e acessórios decorativos, ultrapasse interior deste quarteirão considerado como


o limite definido pela linha recta a 45º, traçada em espaço público sob a designação de Rua
cada um desses planos a partir do alinhamento da Particular, deveria ter sido observada a legisla-
edificação fronteira, definido pela intercepção do ção para os alçados de rua do Regulamento de
12
seu plano com o terreno exterior”. Apesar das Salubridade das Edificações Urbanas de 1903
excepções previstas em algumas alíneas da lei e o que, evidentemente, também não sucedeu.
da apreciação caso a caso, feita pela autarquia Ora, na verdade, a Rua Particular é um espaço
para a obtenção da respectiva licença, o carác- que se entende como uma bolsa de utilização
ter genérico da lei ignora a imagem da cidade, semipública, uma mera infra-estrutura com
continuando a ter quase como única preocu- acessos para estacionamento e zonas de
12 Citação do Artigo 59º do
Decreto-Lei nº 38 382, de 7 de pação as questões de salubridade e higiene. Tal serviço e, claramente, na observação da lei,
Agosto de 1951 in Regulamento
Geral das Edificações Urbanas. como o regulamento anterior, este permite que privilegia-se o espaço público em detrimento
Porto: Porto Editora, 1999.
13 2ª alínea do artigo 62º do a medida da altura das construções atinja a da do espaço privado.
Decreto-Lei nº 38 382, de 7 de
Agosto de 1951, in Regulamento largura do espaço público com o qual confron- Até ao aparecimento da “regra dos 45º”
Geral das Edificações Urbanas.
Porto: Porto Editora, 1999 ta, sendo no entanto possível acrescentar pisos pudemos ver que, na Rua de Sá da Bandeira,
14 “Nas edificações para habitação
colectiva, quando a altura do com sucessivos recuos da construção a partir prevalecia a continuidade de cérceas nas
último piso destinado a habitação
exceder 11,5m, é obrigatória a do limite superior da cércea ou, à semelhança frentes de cada quarteirão e, mesmo quando
instalação de ascensores. A altura
referida é medida a partir da do que foi observado no Bloco da Carvalhosa os autores se encontravam sob pressão para
cota mais baixa do arranque dos
degraus ou rampas ao interior do FIGS. 501 e 506, recuando a própria construção, obter altura, recorrendo a estratégias não muito
edifício.” Artigo 50º do Decreto-
Lei nº 38 382, de 7 de Agosto de criando uma bolsa à margem da rua, entre as distintas das que se passariam a utilizar depois, FIG. 600 Edifício Emporium
1951 in Regulamento Geral das
Edificações Urbanas. Porto: Porto empenas dos prédios vizinhos e defronte da quase sempre era procurado o domínio formal No sector norte da Rua de Sá da Bandeira, os No conjunto projectado por Agostinho Ricca FIG. 601 Palácio do Comércio
Editora, 1999.
nova construção mas, embora no exemplo que desta ocorrência. Com a entrada em vigor da primeiros gavetos fazem-se em curva e enfa- e Benjamim do Carmo, o Edifício do Banco
os precede, os seus autores tenham dominado lei, passou a ser suficiente o seu cumprimento, tizam continuidades, bem como a leitura dos Popular FIG. 585, os blocos assumem-se como
esta ocorrência, naqueles que se lhe seguiram ignorando-se critérios como o da imagem da quarteirões na cidade FIGS. 592 A 595. O espírito objectos escultóricos num espaço urbano
esta é, na maior parte das vezes, descontrolada. cidade. Os efeitos nefastos que esta lei teve no cénico da cidade oitocentista intensifica-se aberto, espelhando um novo conceito de cida-
Foi também ao abrigo da nova lei, que o Porto não se tornaram evidentes de imediato, nos gavetos que o Edifício Emporium FIG. 600 e o de, o da cidade-parque, ainda que conciliado
Edifício do Banco Popular FIGS. 598 e 599 pôde, por vários motivos, entre os quais a obrigato- Palácio do Comércio FIG. 601 pontuam com tor- com a cidade oitocentista, constituída por
precisamente no momento em que se liberta riedade da introdução de elevadores em cons- reões. A contrastar com todos estes, no Edifício quarteirões: estes blocos ancoram-se em volu-
o espaço do outro lado da rua, criando um truções com mais de três pisos acima da cota DKW decompõe-se a esquina em assimétricas mes de menor dimensão e estes, por sua vez,
14
jardim público, aumentar o número de pisos da entrada , que fez com que, durante algum e dinâmicas articulações de volume FIG. 596. cosem-se às construções adjacentes alinhan-
relativamente ao seu esboço inicial, utilizando tempo, os novos prédios de habitação pluri- Como vimos, foi apenas com o ODAM, nos do-se com estas na sua frente e na sua altura;
a construção em altura para, sem reduzir as familiar se mantivessem com alturas que, em finais da década de 40 e princípios da década assim, os volumes menores iniciam, em diálogo
densidades urbanas, desafogar a cidade de áreas já consolidadas, não diferiam em muito de 50, que surgiram os primeiros prédios de com as pré-existências, um novo discurso onde
quarteirões e criar espaços lúdicos na cidade das da construção pré-existente. Foi mais tar- rendimento reportados ao Movimento Moderno aquele que o precedeu estava interrompido,
FIG.585 . No entanto, estes edifícios não cumprem de, quando o elevador se tornou numa como- no Porto. O Edifício DKW, ícone de modernida- retomam as volumetrias pré-existentes nos
a nova lei no que à altura do alçado posterior diz didade imprescindível no contexto do mercado de, insere-se na esquina do quarteirão sem criar seus remates e fazem a transição para uma
respeito, a qual, segundo a 2ª alínea do artigo imobiliário que, nos processos de substituição rupturas, mas em perfeita continuidade com forma inequivocamente nova de construir a
62º, não pode exceder o dobro da profundida- da construção nas ruas existentes de estreitos a construção existente, fragmentando-se em cidade sem que se criem brechas ou rupturas:
13
de do logradouro , colocando consequente- lotes com habitações unifamiliares de baixa dois volumes que lhe permitem fazer o ajuste é em plena harmonia que se abre a rua, desafo-
mente em sombra, mais cedo durante a tarde, altura, se tornou vulgar surgir, entre elas, um alto às escalas dos dois arruamentos. Aliás, vimos gando o outrora enclausurado espaço público
os edifícios com que confronta do outro lado e muito estreito prédio de habitação plurifami- que os seus autores, apesar de subscreverem da cidade, ainda que congestionando o espaço
do quarteirão. Estas são preocupações ainda liar. A coroá-lo encontramos, a maior parte das teoricamente a cidade preconizada na Carta privado no interior do quarteirão. O “corpo” da
inexistentes na lei anterior, o que permite uma vezes, um piso recuado, cumprindo escrupulo- de Atenas, defendem a ordem e a harmonia da cidade muta-se, mas o seu “corpo” é preparado
elevadíssima densidade de ocupação nos samente a dita regra. Frequentemente, ao alte- cidade, o que se reflecte numa prática onde o para a mutação de forma que esta ocorra sem
quarteirões compreendidos entre as ruas de rar a leitura unitária da frente de quarteirão, esta “bom senso” predomina, sem nunca promover percalços e não deixe “cicatrizes” no espaço
Sá da Bandeira e do Bolhão FIG. 24 - o do Palácio é substituída pela expressão da individualidade, rupturas, mas actuando em conformidade com urbano. É com naturalidade que, no topo da
do Comércio FIG. 588 e o dos edifícios EDP e DKW quase sempre ditada por fins especulativos. os ditames antecipadamente definidos. O “cor- Rua de Sá da Bandeira, se passa de uma lógica
FIGS. 590 - onde, de qualquer forma, estando o po” da cidade mantinha-se estável. urbana para outra.

318 Introdução Opções temáticas / objectivos / ESTRATÉGIA


321

Vimos também que, no Porto, não foram ape- A utilização atribuída ao logradouro foi um dos Com o crescimento em altura dos edifícios e o Uma interessante e invulgar solução dada ao
nas os autores da Rua de Sá da Bandeira a intro- dilemas que surgiu com o prédio de habitação aumento do número de habitações, continua- espaço interior do quarteirão é a daquela onde
duzirem novas valências na cidade oitocentista plurifamiliar. Os quintais dos prédios de habita- ram a adoptar-se soluções semelhantes, base- se inserem os edifícios EDP e DKW (fig. 590), con-
submetendo a sua intervenção à lógica do ção unifamiliar proporcionavam um equilíbrio adas numa subdivisão do espaço do logra- cebido como um pátio de utilização comum
conjunto, sem gerar conflitos, mas que utilizam, entre o espaço urbano e a presença do “verde” douro em vários talhões para usufruto de cada designado por Rua Particular; este tem acesso
conscientemente, sistemas que permitem a na cidade, dualidade de que a própria habita- andar com acesso, ora através de uma entrada público e, neste caso, é quase apenas uma
inserção das novas tipologias urbanas, como ção usufruía nas suas duas frentes. comum no piso térreo, ora a partir de escadas infra-estrutura, resolvendo os acessos de servi-
o bloco ou a torre, na cidade tradicionalmente No Porto, os primeiros edifícios de habita- de serviço nas traseiras. Estas soluções davam ço e a estacionamentos em cave, curiosamen-
coesa; recordando alguns casos, a título de ção plurifamiliar são, frequentemente, peque- continuidade a uma cultura de subsistência e te, não apenas aos deste quarteirão, mas tam-
exemplo: Viana de Lima, na Rua Formosa, fun- nos edifícios de apenas duas habitações, de relação com a terra através de pequenas bém aos do Palácio do Comércio. O plano que,
de um bloco modernista com a construção muitas vezes com acessos independentes e, hortas, de pomares e inclusive da criação de neste quarteirão, definiu, geriu e fez a necessá-
existente através da criação de corpos laterais geralmente, apenas se recorria a um acesso animais, suavizando a transição para a vida em ria concertação entre os vários proprietários
(fig. 518); José Carlos Loureiro e Pádua Ramos, único quando o piso térreo era comercial. andares. No entanto, com a alteração progres- para criar este pátio, abriu o precedente para
no Parque do Luso (fig.s 551 a 556), abrem o Nesses casos, um lanço de escadas de tiro siva dos hábitos, esta cultura foi desaparecen- que, noutros quarteirões, se fosse ainda mais
interior do quarteirão à cidade, introduzindo a apoiadas na meação vence o desnível até o do e, pela sua escassa privacidade e pouco longe, criando espaços interiores para usufruto
tipologia da torre como forma de libertar o solo primeiro piso onde, num pequeno vestíbulo, fluida relação que estabelecem com o espaço de todos os seus locatários, proporcionando
para um espaço verde público, mas garantem a temos a entrada das duas habitações ou, tal da habitação, estes talhões têm sido, gradual- infra-estruturas comuns ou espaços lúdicos,
perspectiva de rua através do alinhamento das como nas casas de José Ferreira Peneda na mente, votados ao abandono. que podiam ser de uso restrito ou alargado. No
torres e, no Hotel D. Henrique (fig.s 577 a 580), enra- Rua da Firmeza, são umas escadas localizadas Este não é o caso de nenhum dos prédios entanto, esta feliz e pioneira experiência não
ízam através da sua base a torre na construção no centro da construção, sob uma clarabóia, estudados onde se verifica uma ocupação total viria a ter grande sequência.
adjacente, etc. que facultam o acesso ao piso superior, um do logradouro com construção, quer a ocupa- Os edifícios da Rua de Sá da Bandeira não se
No sector norte da Rua de Sá da Bandeira, esquema que continuou a ser adoptado mes- ção tenha sido prevista na sua origem ou efec- podem ler como objectos isolados, apenas se
quando o quarteirão é parcelado, a construção mo quando aumentaram o número de pisos e tuada mais tarde, através da ampliações dos entendendo o seu sentido quando analisados
lote a lote subjuga-se à lógica urbana, não recla- de habitações, tal como nos dois prédios gemi- armazéns comerciais. Outros utilizam o logra- no contexto urbano de que indubitavelmente
mando autonomia: todos os edifícios, em conjun- nados da Rua de Sá da Bandeira. douro como pátio de acesso a garagens (uma fazem parte; assumem o seu papel urbano,
to, constroem quarteirões com frentes alinhadas A acessos independentes correspondem, utilização comum e que, frequentemente, ser- densificando a malha com programas mistos
e pequenas variações de cérceas. A disciplina normalmente, casas de dois pisos e sobre- ve também de recreio para as crianças) mas, de serviços e habitação; dinamizam e partici-
nos alinhamentos de alçado da rua assegura a postas com uma organização interna que não em qualquer dos casos, trata-se de soluções pam directamente na vida urbana, favorecendo
unidade exterior dos quarteirões, em cujo interior diferia, no essencial, da da habitação unifami- que implicam, quase sempre, a total pavimen- relações directas entre o espaço público e o
se permite uma maior liberdade, expressa atra- liar. A principal questão que se colocava com a tação do seu solo e, por inerência, também do comércio, na sua base; qualificam o passeio
vés do desenho de traseiras recortadas. sobreposição das habitações era a da relação solo urbano, cuja total impermeabilização gera público, inclusive cobrindo-o para proteger o
da casa com o logradouro que, em algumas evidentes e nefastas consequências. peão das intempéries ou do calor do sol, tal
situações, existia apenas para usufruto da casa como no Palácio do Comércio, com a sua pala
inferior, enquanto noutras se criavam soluções contínua FIG. 597, ou no Edifício DKW, através do
mais “democráticas”, com escadas nas tra- seu dinâmico volume horizontal FIG. 596.
seiras, que facultavam o acesso da habitação
superior a um talhão posterior.

320 Introdução Opções temáticas / objectivos / ESTRATÉGIA


323

A consonância dos materiais (…) vamos colocando Nos edifícios do sector norte da Rua de Sá da
Bandeira não se investe especialmente numa

as diferentes coisas, primeiro mentalmente e depois no experimentação em torno da conjugação de


materiais, sendo a sua escolha consonante com

mundo real. Vemos como reagem umas com as outras. a corrente estética em que cada um deles se
insere, pelo que a nossa interpretação da “con-
Todos sabemos que reagem entre si. Os materiais sonância dos materiais” se funde com a dos res-
pectivos “códigos linguísticos” e expressividade.
concordam harmoniosamente entre si (…) e nessa No que se refere à opção para os mate-
riais de revestimento de exterior vimos que,
composição de materiais surge algo único.
1

no primeiro dos quarteirões a ser construído


no sector norte da Rua de Sá da Bandeira FIG.
602 , embora parcelado, todos os seus edifícios

aparecem simplesmente rebocados sobre


maciços embasamentos revestidos a pedra,
variando apenas as cores das pinturas e as
texturas das pedras. Utilizam-se as possibi-
lidades expressivas do reboco trabalhando
baixos-relevos que se utilizam para hierarquizar
a composição do alçado de rua. Não temos
dados específicos sobre aquelas que seriam as
cores originais dos seus rebocos mas, aqueles
que hoje em dia se encontram pintados com
tintas plásticas, terão sido, na época, muito
provavelmente coloridos exclusivamente atra-
vés da mistura de pigmentos na argamassa. A
sua impermeabilização conseguia-se à custa
de rebocos hidrófugos que deixavam a alvena-
ria de pedra respirar, alvenaria essa que agora
se encontra sufocada por tintas impermeáveis FIG. 602 Primeira frente de
quarteirão do lado nascente
que aceleram a sua deterioração. Esse tipo de do sector norte da Rua de Sá
da Bandeira: Edifício TAAG
solução, se não fosse a sujidade provocada pela (no canto direito da imagem),
Edifício Geminado de José
poluição, permitia um envelhecimento natural Porto, Edifício do Instituto de
Inglês e Edifício Garantia
da cor, mas não possibilitava tonalidades mui-
to abertas, tais como o branco luminoso do
moderno, e tendia para tonalidades suaves, o
que seria também o caso destes exemplos na
Rua de Sá da Bandeira.

1 Citação de ZUMTHOR, Peter –


Atmosferas. Barcelona: Editorial
Gustavo Gili, 2006, pp. 25-27.

322 Introdução Opções temáticas / objectivos / ESTRATÉGIA


325

FIG. 603 Imagem na rua do Gaveto FIG. 607 Imagem no interior do


Nordeste com a Rua Firmeza quarteirão do Edifício EDP
FIG. 604 Imagem no interior do
quarteirão do Gaveto Nordeste
com a Rua Firmeza

FIG. 608 Escadas de serviço do Gaveto


Nordeste com a Rua Firmeza

FIG. 609 Escadas de serviço


Nas arquitecturas do Estado Novo, entre as é precisamente nas traseiras, onde desapare- do Edifício EDP

suas cantarias de granito, era comum a alusão ceram as preocupações expressivas e onde os
ao tradicional uso da cal através do branco, tal autores se limitaram a dar resposta às questões
como no Edifício Emporium FIG. 605, ainda assim, funcionais, que se obtiveram os resultados
o branco empregue no Gaveto Nordeste com a de maior eloquência, nomeadamente Passos
Rua Firmeza, numa suave relação com a tonali- Júnior, com o seu expoente máximo no dese-
dade do granito aí utilizado, é aquecido por uma nho das galerias e escadas de serviço FIGS. 608 E
nuance creme FIG. 603. Introduzem-se cantarias 609 , onde explora as capacidades construtivas

de granito serrado a ritmar os rebocos, expres- do betão ainda que apenas a nível formal, já que
sando a solidez do Estado Novo, mas apenas reveste este material com reboco colorido.
nas suas “fachadas” de rua, uma vez que os No que à sua imagem urbana se refere, o
alçados para o interior do quarteirão são enten- Palácio do Comércio veste-se integralmente
didos como traseiras de serviço: no Gaveto com granito polido FIG. 597, jogando pontualmen-
Nordeste com a Rua da Firmeza temos actu- te com tonalidades e texturas variadas de diver-
almente, e provavelmente desde sempre, um sos granitos numa densidade coerente com a
tom ocre FIG. 604; no Edifício Emporium, ainda sua linguagem Art Déco.
que sem granitos, a linguagem não difere muito Arménio Losa e Cassiano Barbosa, no
da do alçado de rua, mas a tonalidade do seu Edifício DKW FIG. 596, prolongam a tradição do
branco foi arrefecida com um tom azulado FIG. reboco na frente deste edifício para a Rua de
FIG. 605 Imagem na rua do FIG. 606 Imagem no interior do 606, talvez precisamente porque a ausência dos Guedes de Azevedo, ao mesmo tempo que tra-
Edifício Emporium quarteirão do Edifício Emporium
granitos permitia arriscar uma cor fria associada balham em profundidade o seu alçado da Rua
a uma maior modernidade. O edifício de Passos de Sá da Bandeira, reforçado com gradações
Júnior que os confronta do outro lado da rua, de cinza distinguindo os elementos portantes
o Edifício EDP, encontra-se pintado de rosa FIG. dos paramentos numa grelha, solução moder-
594 , um rosa que cita as arquitecturas românti- na e inovadora no Porto.
cas da viragem do século que constam do figu-
rino nacional de Raul Lino. Ironicamente, quer
neste FIG. 607, quer nos edifícios atrás referidos,

324 Introdução Opções temáticas / objectivos / ESTRATÉGIA


327

EDIFÍCIO DO BANCO POPULAR: FIG. 614-615 Hall de entrada e


das carpintarias, inicialmente pintadas e depois FIG. 610 Bloco da Rua de
arranque das escadas comuns
do Edifício Garantia
apenas envernizadas. Aliás, este continua a ser, Gonçalo Cristóvão
FIG. 611 Bloco da Rua de
no seu essencial, apenas com pequenas varia- Sá da Bandeira
FIG. 612 Alçado da Rua de
ções, o mapa de acabamentos utilizado em Gonçalo Cristóvão
FIG. 613 Detalhe no remate das
apartamentos no Porto, sendo raras as excep- faixas horizontais do bloco
da Rua de Sá da Bandeira
ções, tais como os apartamentos do Parque do
Luso, onde José Carlos Loureiro e Pádua Ramos
“despem” o tijolo burro em algumas das suas
alvenarias, deixando-o aparente. A uniformida-
de na escolha dos materiais deve-se, em certa
No Edifício do Banco Popular FIG. 586, decom- medida, ao tipo de mão-de-obra e de técnicas
põe-se a volumetria em planos, cuja autonomia construtivas disponíveis e ao desejo de neutra-
se reforça trabalhando os respectivos topos e lidade nos interiores, induzindo a que se opte
superfícies com distintas cores e padrões geo- pelos materiais mais consensuais, reduzindo
métricos criados com pastilha FIGS 610 A 613; o uso bastante o espaço para a experimentação em
da pastilha está para além da sua função mera- torno da conjugação de materiais nos acaba-
mente construtiva de impermeabilização da mentos dos interiores dos apartamentos.
superfície, sendo retirado o máximo partido das Onde se verifica um maior investimento nos
suas possibilidades expressivas para a obten- acabamentos dos prédios de habitação é nas
ção de uma maior legibilidade. suas circulações comuns, o que nesta época No Edifício Garantia apenas se utiliza o mármo- bastante invulgar o ensaio feito por Júlio de
Vimos que nos interiores das habitações não se limitava às entradas do prédio e pata- re, com padrões geométricos que se obtêm Brito ao aplicar a cortiça como acabamen-
dos prédios estudados temos, invariavelmente, mares de acesso a elevadores e habitações, na conjugação de diferentes mármores no to final no lambril das escadas e patamares
a madeira nos pavimentos dos compartimen- estendendo-se às escadas, ainda não condicio- pavimento e lambris do espaço de recepção FIGS. 614 E 615 , um uso atípico para este material

tos “secos”, primeiro em soalho e mais tarde em nadas à posição estanque em que, entretanto, do prédio, espaço dominado pela presença característico de Portugal, aqui conjugado com
taco, e o reboco pintado nos tectos e paredes, a segurança contra incêndios as colocou. da sua enorme, pesada e densa porta semi- as madeiras das portas, dos pavimentos e cor-
enquanto nas áreas com presença de águas transparente em ferro forjado sobre vidro; é rimões de escadas.
alternam os materiais cerâmicos com as pedras
polidas. Variam os seus detalhes, bem como os

326 Introdução Opções temáticas / objectivos / ESTRATÉGIA


329

FIG. 616 Escadas comuns do


Edifício Geminado de José Porto
FIG. 617 Vista para o saguão desde
as escadas comuns do Edifício
Geminado de José Porto

FIG. 619 Escadas comuns


Nos prédios geminados com saguão pres- do Gaveto Nordeste com
a Rua da Firmeza
sentem-se parcos recursos económicos na FIG. 620 Hall de entrada
do Edifício EDP num das
caracterização destes espaços, uma maior entradas pela
Rua de Sá da Bandeira
economia espacial e material que se acentua FIG. 621-622 Escadas
comuns do Edifício
no de José Porto FIG. 616: a economia espacial Emporium

reflecte-se no desenho pouco ergonómico dos


seus lanços de escadas em leque e, a mate-
rial, no desenho extremamente simplificado
para a época das guardas de escadas e num
lambril que, sendo simplesmente rebocado e
pintado, se demarca das restantes superfícies Em alguns dos primeiros edifícios em que a hospitalar FIGS. 621 E 622, nos prédios de Passos
através de um friso de madeira e da cor. Apesar construção das escadas é feita em betão, o Júnior, o seu espaço é decorado através do
de terem estas características em comum, uso do material “nobre”, o mármore, não se delicado desenho dos elementos em ferro
diferem bastante a nível de ambiente que, com- limita à recepção do prédio mas estende-se, forjado, com motivos florais FIG. 620 ou motivos
parativamente, se identifica entre este e o do em pavimentos e lambris, desde a sua entrada geométricos, tais como as incrustações metá-
Instituto de Inglês FIG. 618, desde a semiobscuri- no prédio até as das habitações não diferen- licas de reflexo dourado na moldura das portas
dade nas escadas do prédio de José Penêda, ciando, na escolha dos materiais, o espaço de do elevador do Gaveto Nordeste com a Rua da
recortando em contraluz os delicados caixilhos chegada dos de distribuição. Enquanto nas Firmeza FIG. 619, detalhes que, comparativamen-
de madeira pintada das suas paredes translú- áreas comuns do Edifício Emporium, revestidas te, contribuem para criar uma atmosfera suges-
cidas, até a intensa claridade que, a partir dos a mármore e com um desenho relativamente tivamente acolhedora.
seus enormes janelões, invade as do de José depurado, se identifica um ambiente quase
Porto, pondo a “nu” o seu desenho austero e
propiciando uma inesperada transparência
sobre o pátio e o volume exterior da caixa de
escadas que lhe é simétrica FIG. 617.

FIG. 618 Escadas comuns do


Edifício do Instituto de Inglês

328 Introdução Opções temáticas / objectivos / ESTRATÉGIA


331

escritos de Arménio Losa e Cassiano Barbosa


que, embora estivessem conscientes e alerta-
dos para as vantagens que poderiam advir da
industrialização da construção, a pré-fabricação
e estandardização ainda não lhes eram acessí-
veis, pelo que se limitaram ao uso dos materiais
e tecnologias existentes, explorando magistral-
mente as possibilidades espaciais e expressivas
do betão, tal como muito bem o ilustram as
suas escultóricas escadas helicoidais em betão
armado; despojam o espaço dos elementos
com função meramente decorativa não assu-
mindo, no entanto, uma posição de escravatura
moral racionalista e funcionalista, mas explo-
rando as possibilidades poéticas, expressivas e
psicológicas da nova arquitectura.

PALÁCIO DO COMÉRCIO:

FIG. 623 Hall de entrada no prédio


de portas e incrustações metálicas douradas
FIG. 624 Detalhe da guarda do em rebuscados desenhos em relevo no tecto,
elevador na bomba de escadas
FIG. 625 Escadas comuns que integram a iluminação, criando uma den-
sidade barroca a sublinhar o carácter luxuoso
do empreendimento FIG. 623; experimentam-se
novos materiais e, nas superfícies translúcidas, o
tradicional vidro fosco martelado é substituído
por paredes de tijolo de vidro nos seus janelões
FIG. 626-628 Escadas comuns
FIG. 625 e acrílicos a envolver a bomba de esca- das habitações do Edifício DKW

das por onde circula o elevador, curvos quando


fazem a dobragem nas esquinas FIG. 624.
No pavimentos das circulações comuns do
Edifício DKW FIGS. 626 A 628, os seus autores utili-
zam um dos poucos materiais recentes de que
poderiam dispor – a marmorite –, certamente
não por deslumbramento com o “novo”, tal
como sucedeu no Art Déco, mas para explo-
rar as possibilidades plásticas deste material,
nomeadamente nas escadas, onde este se mol-
O Art Déco atinge o seu expoente máximo no da de forma a adelgaçar visualmente ainda mais
desenho das áreas de circulação do Palácio do a sua já fina laje; apenas usam o mármore nas
Comércio, naturalmente também revestidas paredes da entrada do prédio, em toda a sua
com padrões geométricos desenhados por dife- superfície, após a qual estas são simplesmente
rentes mármores e, sobretudo, no hall de entra- pintadas de branco, e também sem a marcação
da do prédio, onde o mármore reveste a toda a de qualquer rodapé a vincar arestas e a indivi-
altura as suas paredes, ainda que distinguindo dualizar as superfícies, tais como como o plano
um alto rodapé com um mármore mais escuro de vidro translúcido, pano de fundo do sen-
que o das paredes, e se conjuga com molduras sual movimento das suas escadas. Vimos nos

330 Introdução Opções temáticas / objectivos / ESTRATÉGIA


333

EDIFÍCIO DO BANCO POPULAR: criando um pequeno desnível entre o pas-


FIG. 629 Circulações verticais dos
prédios dispostos ao longo da Rua
seio público e o piso térreo evitando, deste
de Sá da Bandeira
FIG. 630 Patamar de escritórios
modo, a excessiva exposição da casa na rua,
do prédio de esquina entre as ruas
de Sá da Bandeira e Guedes de
tal como, citando alguns exemplos de prédios
Azevedo concebidos por alguns dos autores dos prédios
em estudo, no Gaveto da Praça Mouzinho de
Albuquerque com a Avenida da Boavista de
José Ferreira Penêda FIG. 468, no Edifício da Rua
de João Oliveira Ramos de José Porto FIG. 482,
nas habitações em banda do Largo do Priorado
de Manuel Passos Júnior e António Teixeira
Lopes FIG. 492 e no Bloco da Rua da Constituição
de Arménio Losa e Cassiano Barbosa FIG. 503,
entre outros, e nos quais podemos ver que este
desnível era ainda utilizado para abrir postigos
de iluminação e ventilação para a cave.
No centro urbano, com frequência, introduz-
-se um ou mais pisos entre o de comércio e os
de habitação, destinados a escritórios, tornando
assim mais gradual a passagem do público para FIG. 631 Edifício Garantia
No Edifício do Banco Popular usa-se o már- a exibir, frequentemente, no piso térreo, os “pilo- o privado; por vezes, ainda se introduz um piso Vimos no Edifício Garantia, aquele que tem a
more em todos os pavimentos das circulações tis” que remetem para segundo plano o encer- intermédio designado de sobreloja, regra geral frente mais extensa no primeiro dos quartei-
comuns e em algumas das suas paredes, con- ramento deste nível, solução preconizada pela integrado na base do edifício, para aumentar à rões a ser construído FIG. 589, como a altura da
jugado com pastilha; tal como no Edifício DKW, primeira vez no Porto no Bloco da Constituição sua escala ou para aproveitar a altura obtida nos sua base vai variando, desde a escala monu-
confere-se valor plástico à superfície, ainda que de Arménio Losa e Cassiano Barbosa FIG. 503. pés-direitos de espaços comerciais em frentes mentalizada dos pórticos de entrada em már-
neste caso, partilhando o protagonismo com Se, como vimos, quase todos os edifícios da extensas com embasamentos que têm de inte- more centrados nos alçados, integrando janelas
o movimento elíptico das escadas e explo- Rua de Sá da Bandeira expressam a sua solidez ragir com fortes pendentes de rua, sem sacrifi- no primeiro piso, até à reduzida altura da pala na
rando as possibilidades plásticas dos próprios em construções maciças, o Edifício DKW e o car uma relação de nível com o passeio público. esquina FIG. 631, abaixo do nível aí definido pela
materiais em padrões geométricos FIGS. 629 E 630, da autoria de Agostinho Ricca com Benjamim Nos prédios estudados temos tipologias base comercial, por forma a empolar a altura
conjugando cores e/ou texturas, tal como no do Carmo tendem para o imaterial: substituem marcadamente urbanas, consistindo em edi- do cunhal na perspectiva ascendente da rua.
revestimento exterior deste prédio. a leitura de paredes portantes por superfícies fícios mistos de habitação e escritórios, com Na obra construída verificamos a existência,
No Porto, tal como um pouco por todo o opacas alternadas com superfícies transpa- comércio ao nível da rua e estacionamento e/ ainda que durante a análise do projecto não o
lado e tal como o pudemos observar na Rua rentes e, em vez de uma base maciça com as ou armazéns em cave. tenhamos assinalado, de uma altura superior
de Sá da Bandeira, verifica-se uma gradual montras dos espaços comerciais abertas num O desenho da base do edifício é um dos àquela que estava prevista no licenciamento
passagem de uma arquitectura de raiz clássica, pesado embasamento de pedra, suspendem aspectos mais interessantes dos edifícios em desta fase para a base comercial da esquina
onde se afirma a massa construtiva, para, com os seus edifícios sobre bases translúcidas, pro- estudo na Rua de Sá da Bandeira pela forma e ao longo da Rua de Fernandes Tomás FIG. 302,
a consolidação do moderno, um progressivo curando negar o peso da matéria e obter uma como, em frentes de dimensão inusual no precisamente para alinhar com a altura míni-
desmaterializar da construção: deixam de se maior ligeireza e elegância construtiva. Porto, é resolvida a relação com a acentuada ma requerida pela pendente da Rua de Sá da
abrir simplesmente ocos nas paredes, mas No Porto, na relação da habitação com o pendente da rua sem perder a relação de nível Bandeira FIGS. 34 E 35, de tal forma que se torna
decompõe-se a volumetria em planos, numa solo e com o espaço público, continuaram do comércio com o espaço público FIG. 587. possível, durante a obra, introduzir uma sobre-
dinâmica relação de cheios e vazios, aumentan- basicamente a adoptar-se, para os prédios de loja nos espaços comerciais com maior altura e
do gradualmente a percentagem de superfície rendimento, as soluções de privatização do descer a pala para o nível do piso da sobreloja.
envidraçada; nega-se a parte portante da pare- espaço da habitação em relação à vida pública
de que se assume como superfície e a elegân- já experimentadas na habitação unifamiliar,
cia da construção passa a depender da sua ora através da introdução de um programa de
leveza; a matéria “levita”; os edifícios deixam de armazéns e/ou de comércio no piso térreo, tal
assentar em pesados “pódios” para passarem a como na Rua de Sá da Bandeira, ora, quando
aparecer como volumes suspensos, chegando o programa era exclusivamente de habitação,

332 Introdução Opções temáticas / objectivos / ESTRATÉGIA


335

FIG. 632 Edifício EDP


FIG. 633 Gaveto Nordeste
com a Rua da Firmeza

FIG. 634-636 Aspectos da base do


Palácio do Comércio

Nos dois edifícios que Manuel Passos Júnior tudo em cantaria de granito, interrompendo EDP oferecem, na perspectiva, uma maior legi- Quer no Gaveto Nordeste com a Rua da
constrói na Rua de Sá da Bandeira, o Gaveto superiormente faixas luminosas horizontais, bilidade à testa da base no gaveto aumentando, Firmeza, quer no Edifício EDP, onde a base
Nordeste com a Rua da Firmeza FIG. 591 e o cuja velocidade e expressiva dinâmica se acen- deste modo, a altura do “pódium” que prepara adquire maior altura, reduz-se à altura das mon-
Edifício EDP FIG. 590, identificamos embasa- tua na apertada curva do gaveto; nos alçados o movimento ascensional do cunhal, no Gaveto tras e introduzem-se postigos superiores. No
mentos idênticos: são assumidas bases con- laterias do Edifício EDP, os volumes de longas Nordeste com a Rua da Firmeza a estratégia Palácio do Comércio, as suas montras emol-
tínuas e maciças sobre as quais “assentam os e horizontais varandas em consola, alternadas assemelha-se mais à do Edifício Garantia, redu- duradas em sombra, sob a pala que protege
edifícios”, demarcados da sua base por uma com vãos inseridos em molduras horizontais zindo à altura da cavidade que marca a entrada o peão das inclemências do clima e define o
diferenciação do material: o pesado “pódium” é em cantaria de granito no plano da fachada, no cunhal através da introdução de postigos tabuleiro sobre o qual se ergue o edifício FIGS. 634 E
revestido num denso e escuro mármore polido criam uma dinâmica na perspectiva de escorço superiores, acontecimentos que, expressiva- 636, vão gradualmente aumentando à sua altura,

e nos pisos superiores predomina o reboco da rua que se inverte no gaveto, onde densas mente, reduzem à altura da base e que, coadju- acompanhando o desnível da rua FIG. 588 até que
pintado, ainda que com expressões distin- molduras verticais, também de granito polido, vados pela desfragmentação da volumetria na os espaços comerciais adquiram um pé-direito
tas nos dois edifícios. Em ambos os edifícios, se destacam em altura apontando na direc- silhueta dos alçados laterias, aumentam a altura que permita a introdução de “mezzanines”.
temos elementos que interceptam as respec- ção do céu FIG. 632. Apesar das formalizações da fachada no apertado “cotovelo” do cunhal.
tivas bases funcionando, no entanto, como opostas, identificam-se alguns objectivos em Se no Edifício EDP, tal como no Edifício Garantia,
o negativo um do outro: no Gaveto Nordeste comum, não só entre eles, mas também com as tensões no cunhal se acentuam através da
com a Rua da Firmeza FIG. 633, os alçados late- o Edifício Garantia: em todos eles procura-se, densificação dos ritmos verticais, no Gaveto
rais são ritmados verticalmente pelos corpos do ponto de vista expressivo, reduzir à altura Nordeste com a Rua da Firmeza, esta obtém-se
correspondentes às circulações comuns do corpo dos alçados laterais para a aumentar curvando as dinâmicas faixas horizontais.
sobrepostos às entradas no edifício FIGS. 95 E 96, nas viragens, para onde se transferem todas
as tensões e energia das respectivas imagens
urbanas. Para este efeito vimos a importância
que adquire, no Edifício Garantia, o desenho
da sua base; enquanto os volumes em consola
interceptados no embasamento do Edifício

334 Introdução Opções temáticas / objectivos / ESTRATÉGIA


337

planos transparentes FIGS. 256 E 257. Curiosamente,


é na entrada dos escritórios, do lado da Rua de
Sá da Bandeira, de carácter mais público, onde
se filtra a transparência de forma a despertar
uma maior atenção no transeunte, que é sugado
do exterior através de uma pala que irrompe
no passeio público, sendo a sua curiosidade
estimulada através da luz que jorra ao fundo do
“lobby” de entrada, por detrás das suas escultó-
ricas escadas helicoidais soltas das paredes e no
ASPECTOS DA BASE DO
EDIFÍCIO DKW: No Edifício DKW, do lado da Rua de Sá da enfiamento visual da entrada FIG.251.
FIG. 637 do lado da Rua Bandeira temos uma estratégia semelhante No tratamento das faces dos seus volumes,
de Sá da Bandeira
FIG. 638 do lado da Rua de à do Palácio do Comércio, embora com uma o Edifício DKW assume como cegas as de topo
Guedes de Azevedo
formalização radicalmente distinta FIG. 590: neste, e, naquelas que se orientam para a rua, ora
em vez de se rasgarem as montras no embasa- adopta uma solução essencialmente tradicio-
mento, constrói-se o alçado do nível térreo com nal, rompendo os vãos na alvenaria embora
as superfícies envidraçadas em sombra dos com umas molduras salientes de desenho
espaços comerciais a serem apenas interrom- inovador, ora revela a sua profundidade interior
pidas pela marcação da estrutura, coincidente destacando o pórtico estrutural FIG. 596.
com a modulação das lojas FIG. 637 e a suspender O Edifício do Banco Popular, tal como o
os volumes articulados e interceptados que Edifício DKW, desfragmenta-se em volumes FIGS. Nos edifícios estudados, em alçados triparti-
constroem a sua imagem FIG. 596; em vez de uma 281 A 286, distinguindo-se deste no tratamento dos, identifica-se um cuidado idêntico ao do
pala, temos um destes volumes em consola dado às respectivas faces que decompõem desenho da sua base no desenho do remate
sobre o passeio público definindo, com a sua a massa em planos, lidos como superfícies, superior, recorrendo a diferentes estratégias
proporção, uma forte horizontalidade em tensão de forma a negar o peso da matéria. Na longa e soluções: no Edifício Garantia, curvando
com o plano inclinado da rua, acontecimento face do bloco que se orienta para a Rua de expressivamente as suas pilastras, funde-se
exacerbado na perspectiva ascendente da Sá da Bandeira temos tiras horizontais que se o piso recuado com o corpo do edifício FIG.
rua FIG. 248. Ao contrário dos anteriores, onde se interrompem antes de interceptarem o plano 592; noutros recorta-se a sua silhueta no céu,

concentram as energias da sua imagem pública inclinado da rua FIG. 599; o volume desfaz-se gra- tal como no Gaveto Nordeste com a Rua da
no gaveto, no Edifício DKW a desfragmentação dualmente antes de tocar o solo, dando lugar a FIG. 639 Esculturas no topo do Firmeza, desmaterializando-a numa sucessão
Palácio do Comércio
da volumetria, exacerbada no seu canto, cria uma base imaterial onde a superfície envidra- FIG. 640 Palas na cobertura do Bandeira torna-se especialmente interessante de avanços e recuos ritmados nos alçados
Edifício do Banco Popular
duas frentes hierarquizadas através da tensão çada alterna com nichos em sombra, numa quando analisado o seu corte longitudinal FIG. laterais FIG. 603, ou no Edifício DKW, onde se evi-
provocada por este volume, atribuindo maior solução onde espaços comerciais com dupla 357, onde podemos verificar as respectivas con- dencia a inclinação do plano da cobertura na
protagonismo a todo o alçado voltado para a altura e “mezzanines” se intercalam com outros sequências para os pisos inferiores de estacio- perspectiva sobre o gaveto FIG. 247; noutros ain-
Rua de Sá da Bandeira e, em vez de uma base que integram uma sobreloja, acompanhando o namento e a sua exemplar resolução, contro- da, coroam-se os topos com esculturas clássi-
maciça, procura-se negar a materialidade da acentuado desnível da rua. lando os desníveis no tecto do estacionamento cas, tal como no Palácio do Comércio FIG. 639 ou
base de sustentação do edifício encobrindo a Numa cidade de topografia acidentada, FIG. 268 e aproveitando-os para a introdução até, poder-se-á dizer, com esculturas modernas
estrutura num mármore negro polido, dissolvido como é o caso do Porto, a relação da edifica- de pisos intermédios de apoio aos espaços como o serão, certamente, as palas de betão
no vidro a espelhar o exterior, e diluir as fronteiras ção com o solo apenas se começou a compli- comerciais. Actualmente, é vulgar assistirmos a em consola do edifício de Benjamim do Carmo
entre o exterior e o interior, colocando o vidro em car quando surgiu a necessidade de criar áreas uma evidente e chocante displicência em edifí- e Agostinho Ricca FIG. 640.
sombra (o alçado da Rua de Guedes de Azevedo de estacionamento nas caves dos edifícios. cios onde, perante este tipo de dificuldade, sim-
orienta-se a norte) para, reduzindo os reflexos, Nos edifícios estudados vimos que este, ora se plesmente se criam percursos em galerias de
obter uma maior transparência para o interior. remetia para o interior do quarteirão, mantendo nível paralelas, ora inferiores, ora superiores, ao
Inclusive, a entrada das habitações, com uma os armazéns dos espaços comerciais abaixo da inclinado passeio público, ou outras “receitas”
marcação discreta no alçado da Rua de Guedes cota do piso térreo, e apenas no Edifício DKW da mesma índole.
de Azevedo, evidencia-se através de uma reent- se sobrepõe o comércio a pisos de estaciona-
rância FIG. 638, definindo um espaço de recepção mento; no Edifício DKW, a relação dos espaços
no exterior, separado do interior apenas por comerciais com a pendente da Rua de Sá da

336 Introdução Opções temáticas / objectivos / ESTRATÉGIA


339

O som do espaço, escutai! Todo o espaço funciona


como um grande instrumento, mistura os sons,
amplifica-os, transmite-os a todas as partes.
1

Peter Zumthor refere-se à própria capacidade A casa urbana inserida num quarteirão recebe o
dos materiais emitirem ruído - os ruídos dos som da cidade através da sua frente, enquanto as
passos num soalho de madeira ou de um tacão suas traseiras se relacionam com o “miolo” verde
num piso de mármore - e ao modo como cada do quarteirão, supostamente mais calmo e redu-
espaço funciona como caixa acústica, ampli- zido às relações próximas de vizinhança.
ficando ou abafando estes sons e fornecendo Ainda nos dias de hoje, do interior de alguns
diversificadas informações a quem os escuta, quarteirões do centro do Porto, podemos,
2
inclusive acerca da sua proporção e escala. frequentemente, escutar o cantar do galo na
Juhani Pallasmaa sublinha que o sentido da madrugada, sinal de uma outra vida, mais rural,
visão implica exterioridade enquanto o da audi- que ainda subsiste na cidade e equilibra o rit- 2 A propósito deste tema
3
ção cria uma experiência de interioridade. mo das vivências urbanas. É lamentável quan- recomenda-se a leitura de
Ouvindo arquitectura, o último
Para além das diferentes capacidades acús- do os sons da natureza presentes no “miolo” capítulo do livro de RASMUSSEN,
Steen Eiler - Arquitectura
ticas dos materiais utilizados nos espaços de dos quarteirões são abafados pelos ruídos vivenciada, Livraria Martins
Fontes Editora, 2a edição, São
habitação, é do senso comum que são os ele- das ventoinhas das ventilações forçadas e dos Paulo, 1986
3 Baseado em PALLASMAA,
mentos de decoração aqueles que têm a maior aparelhos de ar condicionado dos comércios Juhani – The Eyes of the Skin:
Architecture and the Senses.
capacidade de absorver o som, anulando ecos do rés-do-chão e dos escritórios, criando uma Londres: Academy Press, 2005.
P. 34.
e reverberações. Aqui, considerando a homo- contínua vibração, surda mas perturbadora, da 4 Citação de MARCUS, Sharon
– Apartment stories. Berkeley:
geneidade, quer na escala dos compartimen- qual se toma maior consciência apenas quan- University of California Press,
1999, p.147 in MOTA, Nelson – A
tos, quer na escolha dos materiais para os seus do esta pára, proporcionando breves momen- Arquitectura do Quotidiano
Público e Privado no Espaço
interiores, não faremos a análise da sonoridade tos de silêncio, uma momentânea tranquilidade Doméstico da Burguesia
Portuense no Final do Século
de um material num espaço, debruçando-nos, fundamental para o equilíbrio do indivíduo. A XIX, Coimbra, edarq - Editorial
Departamento de Arquitectura da
sobretudo, no comportamento destas tipo- cidade e a arquitectura têm de ser capazes de FCTUC, 2010, p. 33.

logias urbanas relativamente ao som que lhes proporcionar o silêncio.


chega do exterior. Apesar disso, no apartamento do Edifício
Garantia com entrada pela Rua de Fernandes
Tomás que foi visitado, são as áreas de serviço
a beneficiarem dessa relativa calma do interior
do quarteirão, enquanto os quartos e salas se
orientam para a rua (fig. 589). Dir-se-ia que essa
possibilidade de participar indirectamente na
vida da cidade era, até então, desejada, fun-
cionando como uma compensação para a
vida regrada a que a moral burguesa obrigava
as mulheres, minorando o seu isolamento.
Segundo Sharon Marcus, “os manuais domésti-
cos prescreviam um sistema no qual os homens se
podiam mover entre o lar e o exterior, mas as mulhe-
1 Citação de ZUMTHOR, Peter – 4
Atmosferas. Barcelona: Editorial res não,” e Catherine Hall acrescenta que “esta
Gustavo Gili, 2006, pp. 29-33.

338 Introdução Opções temáticas / objectivos / ESTRATÉGIA


341

divisão entre os mundos masculino e feminino tinha e a elas, mesmo quando livres das tarefas servi-
uma conotação religiosa: pensava-se que a esfera çais, o decoro não lhes permitia uma excessiva
do público era perigosa e amoral. Os homens que exposição, o que, para além das óbvias questões
evoluíam nessa esfera só podiam ser salvos por um práticas que remetem as áreas de serviço para o
contacto regular com o mundo moral do lar, no qual interior do quarteirão, poderá ter contribuído para
as mulheres eram portadoras desses valores puros a opção de posicionar quartos e salas do lado da
que podiam neutralizar as tendências destrutivas do rua permitindo-lhes, desse modo, algum contacto
5
mundo dos negócios.” com a vida urbana.
Witold Rybczynsky coloca a burguesia no cen- Os pátios abertos para o interior do quar-
tro da discussão em torno do conforto domés- teirão, como os que se geram nas traseiras
6 5 Citação de HALL, Catherine – 10 “la casa se estaba convirtiendo
tico , definindo a “domesticidade” como uma do Edifício Garantia com a rotação do prédio Lar, doce lar in ARIÉS, Philippe en un lugar privado. Junto con esta
e DUBY, George (dir.) – História privatización de la casa, surgió
qualidade que surge da associação da intimidade no gaveto, colocam em confronto próximo as da vida privada. 4º vol. Porto: un sentido cada vez mayor de
Afrontamento, 1990, p. 70. intimidad, de identificar la casa
e da privacidade na habitação, tendo surgido varandas de serviço, situação que favorece o 6 “lo que sitúa al burgués en el exclusivamente con la vida de la
centro de mi análisis de conforto familia. Sin embargo, dentro de la
apenas na Holanda no século XVII onde, pela convívio directo entre o pessoal de serviço dos doméstico es que, al contrario casa la intimidad personal seguía
que el aristócrata, que vivía en un teniendo relativamente poca
primeira vez, a burguesia se assume como classe respectivos apartamentos. castillo fortificado, o el clérigo, que importancia.” In RYBCZYNSKI,
vivía en un monasterio, o el siervo Witold - La casa. Historia de una
dominante. Até aí, a casa era um lugar público e o Cada prédio acaba por se transformar numa que vivía en una choza, el burgués idea. San Sebastian: Editorial
vivía en una casa.” In RYBCZYNSKI, Nerea, 1989, p. 50.
seu espaço polivalente: “La gente cocinaba, comía, pequena comunidade: através dos tabiques Witold - La casa. Historia de una 11 “No sólo la casa se estaba
7 idea. San Sebastian: Editorial haciendo más íntima, sino que
recibía, y dormía en este espacio.” Com a separação chega, abafado, o som das conversas, escutam- Nerea, 1989, p. 36. además, en el proceso, iba
7 Citação de RYBCZYNSKI, Witold adquiriendo un ambiente especial.
que entretanto se processa entre o espaço de -se as passadas nos soalhos de madeira, sabe- - La casa. Historia de una idea. Se estaba convirtiendo en un lugar
8 San Sebastian: Editorial Nerea, femenino, o por lo menos en un
trabalho e o espaço para habitar, acentuam-se -se quando chega ou sai alguém do prédio, 1989, p. 36. lugar bajo el control femenino.”
FIG. 641 Galerias e escadas de ser-
9 8 “Os edifícios de apartamentos In RYBCZYNSKI, Witold - La
as fronteiras entre público e privado e a expo- chegando-se até ao ponto de os seus habitantes construídos na época de casa. Historia de una idea. San
viço no saguão do Edifício TAAG
Haussman já não possuíam Sebastian: Editorial Nerea, 1989,
sição da casa medieval é substituída por uma desenvolverem a capacidade de identificarem comércio no rés-do-chão. A p. 84.
10 prática de zonamento isolava os 12 “As mulheres possuíam agora
dimensão mais privada e caseira, domínio da pelo som os seus vizinhos, reconhecendo o seu bairros residenciais das áreas o encargo de proteger o interior
de negócio, promovendo desta do exterior, uma tarefa a ser
vida familiar, suportada pelo homem e gerida pela ritmo a subir as escadas e a sonoridade do seu forma uma maneira de o espaço desenvolvida no seio da unidade
11 doméstico se separar dos locais familiar.” In MARCUS, Sharon –
mulher . Alguns autores, entre os quais Sharon calçado nos degraus de madeira das escadas de troca.” In MARCUS, Sharon Apartment stories. Berkeley:
12 – Apartment stories. Berkeley: University of California Press,
Marcus e Richard Sennett, defendem ainda comuns dos prédios. Do mesmo modo, os movi- University of California Press, 1999, p.150 citado por MOTA,
1999, p.142 citado por MOTA, Nelson – A Arquitectura do
que, para além da gestão, competia também às mentos no seu corredor denunciam-se no inte- Nelson – A Arquitectura do Quotidiano Público e Privado no
Quotidiano Público e Privado no Espaço Doméstico da Burguesia
mulheres proteger o interior do exterior: “O público rior de cada compartimento. Espaço Doméstico da Burguesia Portuense no Final do Século
Portuense no Final do Século XIX, Coimbra, edarq - Editorial
como um domínio imoral significa coisas relativamente XIX, Coimbra, edarq - Editorial Departamento de Arquitectura da
Departamento de Arquitectura da FCTUC, 2010, p. 35.
diferentes para homens e mulheres. Para as mulheres, FCTUC, 2010, p. 33. 13 Citação de SENNETT, Richard
9 “A partir do momento que a rua – The fall of public man. London:
era onde se arriscava a perder a virtude (…). Ao se des- se tornou no único espaço no Faber and Faber, 1986, p. 23 in Nas culturas do norte da Europa, as janelas são dos outros. Nas culturas católicas, um elevado
qual era possível a vida pública, MOTA, Nelson – A Arquitectura do
locar para o público (…), um homem podia-se retirar surgiu um novo sentido de divisão Quotidiano Público e Privado no maiores por existir uma maior necessidade de nível de intolerância induz a que a vida privada
entre o interior e o exterior, Espaço Doméstico da Burguesia
desse carácter muito repressivo e autoritário de res- agora definido como a oposição Portuense no Final do Século luz solar, uma dimensão que no sul se reduz se resguarde da exposição pública, cuidadosa-
e a competição entre a esfera XIX, Coimbra, edarq - Editorial
peitabilidade que devia encarnar na sua pessoa, como pública e a privada.“ In MARCUS, Departamento de Arquitectura da para controlar a intensidade da luz e para pro- mente escondida por detrás de pequenas jane-
Sharon – Apartment stories. FCTUC, 2010, pp. 35-36.
pai e como marido no lar. Por isso, para os homens a Berkeley: University of California 14 Citação de RYBCZYNSKI, Witold teger os interiores do calor. Sem dúvida que las e cortinados e, consequentemente, o misté-
Press, 1999, p.147 citado por - La casa. Historia de una idea.
imoralidade do espaço público estava associada a um MOTA, Nelson – A Arquitectura do San Sebastian: Editorial Nerea, estes aspectos terão influenciado o desenho rio associado a esse recato acaba por suscitar
Quotidiano Público e Privado no 1989, p. 85.
subliminar sentido de imoralidade como domínio de Espaço Doméstico da Burguesia 15 tal como bem o caricaturiza a dos edifícios. No entanto, quando por exemplo um maior interesse público.
Portuense no Final do Século série televisiva espanhola “Aqui
liberdade, em vez de uma simples desgraça, como o XIX, Coimbra, edarq - Editorial no hay quien viva!”. na Holanda, passamos de povoações maio- Com o saguão intensificam-se informalmen-
13 Departamento de Arquitectura da
era para as mulheres.” Citando, de novo, Witold FCTUC, 2010, p. 33. ritariamente católicas para outras sobretudo te as relações de vizinhança: este funciona como
Rybczynsky: “Con la familia vino el aislamiento, pero protestantes, observamos que também se uma caixa acústica que amplifica o som vindo
también la vida familiar y la domesticidade. La casa se alteram as relações da vida privada com a vida dos vizinhos criando entre eles uma intimidade,
estaba convirtiendo en un hogar y, tras la intimidad y pública. Superficialmente, poderemos afirmar por vezes forçada, outras vezes desejada. Para
la domesticidad, estaba abierto el camino a un tercero que uma maior tolerância para com os com- além da sua função primordial – a de dotar de luz
14
Os homens
descubrimiento: la idea de confort.” portamentos individuais, presente na cultura natural e arejar o núcleo central do apartamento
estavam quase sempre ausentes de casa e a protestante do norte da Europa, faz com que as -, o saguão é um pequeno pátio interno onde se
vida doméstica era personificada pelas mulheres pessoas se desinibam de expor a sua vida priva- pode conversar, de janela para janela, onde se
da e com que se reduza a necessidade de cada desenvolvem ódios e amizades, onde se espia
cidadão se proteger dos olhares e julgamentos e comenta a vida dos vizinhos: estes espaços

340 Introdução Opções temáticas / objectivos / ESTRATÉGIA


343

FIG. 642 Corpo das circulações FIG. 643 Varandas de serviço


verticais no saguão do Edifício no saguão do Edifício do
Geminado de José Porto Instituto de Inglês

Como vimos, Arménio Losa e Cassiano Barbosa


foram pioneiros na intenção de reservar a cal-
ma do interior dos quarteirões para os quartos,
enquanto voltavam as áreas comuns para a rua,
inclusive as áreas de serviço e o quarto da criada
interna. No Edifício DKW FIG. 590, a planta racional
dos seus apartamentos isola as zonas privadas
das áreas comuns e o saguão, numa posição
periférica, serve exclusivamente para ventilar e
banhar de claridade natural as casas de banho,
transformam-se assim, frequentemente, no pal- lados, reduzindo bastante as relações de con- reduzindo as relações de vizinhança a eventuais O movimento moderno, com a cidade-parque
15
co para o desenrolar de ‘mini-novelas’ urbanas. fronto entre os fogos FIG. 642; o saguão permite a encontros nas escadas ou no elevador do pré- organizada num zonamento por actividades,
No silêncio do quarto ou da casa de banho ambos libertar os dois alçados disponíveis para dio, salvaguardando cada apartamento de con- desvia a habitação do centro de serviços urba-
(lugar de menor permanência), desejados ou localizar quartos e salas. frontações directas com os vizinhos. no, integrando-a em blocos que estabelecem
indesejados, penetram os sons da vizinhança Passos Júnior, nos seus prédios da Rua de No que a este tema se refere, são incompre- uma relação desafogada com a natureza e pro-
amplificados pelo saguão, enquanto na cozinha Sá da Bandeira, orienta para o saguão as casas ensíveis as opções tomadas no bloco do Edifício porcionando a cada apartamento uma tranqui-
estes acabam por ser abafados pela actividade de banho e também os vestíbulos e corredo- do Banco Popular ao longo da Rua de Sá da lidade difícil de obter na cidade tradicional cons-
que aí se desenrola. Ao invés do que ocorre em res, mas posiciona as cozinhas nas traseiras, Bandeira: dir-se-ia que o espaço verde que este truída com quarteirões. É precisamente a ener-
Espanha, onde é frequente termos quartos que ao longo das escadas de acesso às carvoeiras liberta do outro lado da rua, numa lógica demo- gia que emana destes efervescentes e agitados
dependem do saguão para receberem luz natu- FIGS. 590 E 591 , reduzindo ainda mais às vivências crática, deveria ser usufruído por todos, no centros urbanos que os torna tão apetecíveis
ral e serem ventilados, nos edifícios em estudo, do saguão e aos sons que aí se propagam, tor- entanto, não temos apartamentos com frentes para morar, o estar ali onde tudo acontece.
e no Porto, quase sempre se orientam para aí nando-o discreto e silencioso. No entanto, no e traseiras: estes, ora se orientam para o jardim,
apenas as áreas de serviço e casas de banho, Gaveto Nordeste com a Rua da Firmeza, colo- ora para um acanhado interior de quarteirão FIG.
minorando consideravelmente a “promiscui- ca quartos e salas em confronto directo nos 598, gerando uma assaz incongruente discrepân-

dade” entre vizinhos, e só pontualmente temos pátios abertos para o interior do quarteirão. A cia entre fogos, não apenas no que ao som se
quartos virados para o saguão, tal como acon- construção em betão das escadas comuns e refere, mas também em termos da qualidade da
tece no Edifício TAAG FIG. 589 onde, para agravar o uso de revestimentos em taco sobre lajes de luz (os primeiros orientam-se para poente e os
a sua falta de privacidade, ainda temos a gale- betão, nos pavimentos interiores, reduziu a uma segundos para nascente), vistas e desafogo que
ria e as escadas de serviço FIG. 641. Nos prédios ressonância pouco nítida o som que, da “vida” para cada um deles se proporciona.
com apartamentos geminados em torno de um do prédio, ecoava para o interior de cada apar-
saguão de José Ferreira Penêda e de José Porto tamento. Relativamente à construção dos pisos
FIG. 589 , apenas temos as varandas das cozinhas com travejamentos, a construção com lajes
e os postigos de ventilação das casas de banho de betão agregadas à estrutura vertical minora
virados para o saguão FIG. 642 E 643; no de José substancialmente a propagação dos sons agu-
Porto, para além disso, os volumes avançados dos entre os pisos e, apesar de não conseguir
das escadas comuns ocupam dois dos seus evitar a propagação dos sons graves que se
transmitem através da sua estrutura, proporcio-
na um maior isolamento.

342 Introdução Opções temáticas / objectivos / ESTRATÉGIA


345

A temperatura do espaço, (…) essa temperatura Com o modernismo e a sua moral contra a
ornamentação avança-se gradualmente para a

é tanto física como psicológica. superfície nua e branca, psicologicamente fria,


1

sobretudo quando contraposta com a densi-


dade da caracterização dos interiores que o
antecede. Nos apartamentos estudados já não
encontramos essa densidade, mas também
ainda não nos deparamos com os ambientes
FIG. 644 Circulações comuns
crus do purismo. do Edifício Garantia

Nos prédios de rendimento do Porto, até


bem recentemente, somos quase sempre
recebidos, na sua entrada, pela frescura do már-
more em sombra e a reflectir a luminosidade
do exterior, tal como acontece na entrada do
Edifício Garantia FIGS. 614 E 615 , após a qual, sendo
as suas escadas ainda construídas em madei-
ra, estas se conjugam com a original solução da
cortiça no lambril a “aquecer” o ambiente FIG.
644 . Apesar de, em alguns dos prédios da Rua de

Sá da Bandeira onde a utilização do mármore FIG. 645 Circulações comuns do


se estende a todas as circulações comuns FIG. Gaveto Nordeste com a
Rua da Firmeza
645 , termos identificado diferentes ambientes,

comparativamente com as superfícies brancas


e luminosas que envolvem as escultóricas esca-
das do Edifício DKW FIGS. 626 A 628, está patente,
em todos eles, uma sensação de frescura. A
frescura sugerida em tais circunstâncias pela
superfície polida e brilhante do mármore é tanto
psicológica como física: a pedra, quando colo-
cada em sombra no interior, tende a ser fria,
pelo que, no verão, arrefece a temperatura do
ar no interior, que se torna sensivelmente mais
fresca que a sentida no exterior.
Nas paredes das circulações verticais do
Edifício do Banco Popular, em vez do mármore,
utiliza-se a pastilha FIG. 646, material cerâmico
também capaz de sugerir psicologicamente a
FIG. 646 Circulações
frescura sem ter a massa para a produzir fisica- comuns do Edifício
do Banco Popular
mente mas que, no entanto, pelo movimento
ascendente do ar quente se torna real e, de
facto, em algumas das suas escadas sentimos orientadas a norte nos seus amplos patamares
que esta aumenta à medida que subimos, não é tão evidente esta variação de tempera-
embora tal apenas suceda quando estas são tura ao longo dos seus pisos, o que nos induz a
iluminadas superiormente por umas clarabóias concluir que a frescura das escadas comuns do
que permitem a incidência directa solar nas Edifício do Banco Popular se deverá sobretu-
suas superfícies e, consequente, o aqueci- do à sua posição protegida da incidência solar
mento destas e do ar; nas escadas que ape- directa, ora centralizadas no corpo do edifício,
1 Citação de ZUMTHOR, Peter –
Atmosferas. Barcelona: Editorial nas recebem a claridade através de aberturas ora confrontantes com o seu lado em sombra.
Gustavo Gili, 2006, p. 35.

344 Introdução Opções temáticas / objectivos / ESTRATÉGIA


347

FIG. 647 Corredor no Edifício do FIG. 650 Casa de banho


Instituto de Inglês no Edifício Garantia
FIG. 648 Detalhe no Gaveto
Nordeste com a Rua da Firmeza

FIG. 651 Casa de banho no Gaveto


Nordeste com a Rua da Firmeza

No interior dos apartamentos do período estu- A temperatura psicológica do espaço depende


dado, somos invariavelmente acolhidos por de variados factores, nomeadamente da inci-
paredes e tectos estanhados e pelo calor da dência solar, entre outros, que fará mais sentido
madeira, nas suas carpintarias e nos seus pavi- abordar a propósito de outros dos temas de
mentos, primeiro em soalho FIG. 647 e, mais tarde, análise propostos por Peter Zumthor pelo que,
em taco FIG. 648; as portas e janelas que inicial- neste subcapítulo, no que a questões tácteis e
mente eram pintadas passaram a ser frequen- visuais na percepção da temperatura diz res-
temente envernizadas FIG. 649, exibindo a densi- peito, nos limitamos a esta breve abordagem e
dade e o calor da madeira que, nestas, era ape- incidiremos, sobretudo, na temperatura física,
nas experienciado através do tacto. Chegados aquela que é medida pelo nosso corpo, anali- FIG. 652 Casa de banho no Edifício
do Banco Popular
às zonas de água deparamo-nos, de novo, com sada mormente através das características da Como vimos nos prédios estudados na Rua de
materiais facilmente laváveis e que se associam construção e da “qualidade do ar”. Sá da Bandeira, nos primeiros prédios de apar-
à frescura: inicialmente, pavimentos de mosaico O Porto, pela sua situação geográfica na cos- tamentos mantiveram-se, no essencial, os siste-
hidráulico com lambris de azulejos FIG. 650, con- ta do Atlântico, é uma cidade de clima tempe- mas construtivos com alvenarias exteriores em
jugação que, entretanto, nos empreendimentos rado. As cantarias de granito, escurecidas pelo pedra, ainda que de menor espessura que a da
de maior prestígio, passou a ser utilizada apenas tempo, absorvem o calor, enquanto os azulejos construção tradicional, utilizando perpianho de
nas áreas de serviço, sendo a casa de banho reflectem o calor. A construção tradicional em 35 cm e reduzindo à sua massa e inércia térmi-
principal muitas vezes revestida inteiramen- pedra, pela sua inércia térmica, garantiu sempre, ca. Em vez das portadas interiores de madeira
te a mármore FIG. 651; apesar de no Edifício do no verão, temperaturas amenas nos interiores e do calor psicológico que este resguardo pro-
649 Detalhe no Banco Popular ainda se ter utilizado o mosaico de pés-direitos elevados: o ar fresco dos níveis porciona, passaram a utilizar-se persianas exte-
Palácio do Comércio
hidráulico FIG. 652, este material fabricado arte- inferiores subia até aos níveis superiores através riores, as quais, pelo sombreamento que provo-
sanalmente foi caindo em desuso, tendo sido da caixa de escadas. O calor era apenas difícil cam sobre o vidro, são mais eficazes na protec-
gradualmente substituído por outros pavimen- de suportar no último piso, normalmente des- ção da incidência solar no verão, mas que, no
tos laváveis, desde as marmorites, aos materiais tinado à criadagem, apesar de os telhados fun- inverno, deixam no interior o contacto directo
cerâmicos e pedras volumes, entre outros. cionarem como um sistema de sombreamen- com a superfície fria e ressoada do vidro.
to, dando origem, com as suas quatro águas, a Pela sua disposição horizontal, os apartamen-
sótãos ventilados para libertar o ar sobreaqueci- tos dependem de uma ventilação transversal, a
do através das telhas. qual se torna especialmente eficiente nos prédios

346 Introdução Opções temáticas / objectivos / ESTRATÉGIA


349

FIG. 653 Janela com postigo de


ventilação superior do Gaveto
metro quadrado, o ar não se vicia, nem se satura FIG. 655 Janela de correr a do
Edifício do Banco Popular
Nordeste com a Rua da Firmeza
FIG. 654 Janela dupla no Palácio
tão rapidamente e, simultaneamente, pelo fac-
do Comércio to de se permitir que este se desloque para um
nível superior, uma maior altura proporciona uma
melhor qualidade do ar ao nível do utente.
Na verdade, nos apartamentos com cons-
trução mista de betão e alvenaria portante de
pedra, usam-se frequentemente as suas finas
paredes de pedra orientadas a norte ou em situ-
ações de prolongada sombra no inverno, facto
que, associado à inércia térmica do material, pro-
voca um enorme arrefecimento da pedra que
se transmite ao interior dos apartamentos, tal
como, inclusive, acontece em alguns dos prédios
estudados na Rua de Sá da Bandeira. Por este e
outros motivos surgiu, no senso comum, um cer-
to estigma relativamente a estes apartamentos
dos anos 30 e 40, a que se associa uma ideia de
desconforto provocada pelo frio no inverno; na
verdade, este é um problema que actualmente
com saguão, espaço por onde naturalmente se No Edifício do Banco Popular, aumenta-se às impede os seus empenos e, consequentemen- é de fácil resolução, existindo variadas soluções
libertava o ar quente. Os desenhos dos caixilhos dimensões dos vãos, abertos a toda a largura te, não faculta uma vedação eficiente. para isolar uma parede de pedra pelo interior,
dos prédios de Passos Júnior são especialmente de compartimentos de pequenas dimensões Em todos os apartamentos estudados ainda implicando apenas perder um pouco de área em
bem concebidos, por estarem dotados de postigos FIG. 655 , que recebem a luz do sol quando este temos apenas vidros simples, invariavelmente compartimentos que apresentam dimensões
superiores para libertar o ar quente e viciado, ao está baixo, permitindo que o seu calor entre em ressoados no inverno, o que provoca uma desa- generosas. Sendo a qualidade do ar um factor
mesmo tempo que previnem a entrada de odores profundidade no compartimento. Duma maior gradável sensação de humidade no interior; ao essencial para assegurar uma boa sensação tér-
FIG. 653. Trata-se de um excelente sistema de ventila- abertura ao exterior com a incidência de luz deficiente isolamento térmico do vidro simples, mica, vimos que, nestes apartamentos, os seus
ção que assegura uma boa qualidade do ar. solar directa, emergem espaços mais lumino- acresce ainda, no vão, uma solução deficiente elevados pés-direitos e a relação directa de todos
Entretanto, as paredes, que inicialmente sos e com uma temperatura física e psicológica no detalhe das persianas exteriores, a cuja caixa, os seus compartimentos com o exterior asse-
eram de pedra, passaram a ser em alvenaria superior, quando comparada com a tempera- para efeitos de manutenção, se acede a partir guram uma boa evacuação do ar viciado através
dupla de tijolo, perdendo-se massa e, portan- tura amena dos espaços em penumbra. Para do interior; na construção corrente ainda é vul- de uma ventilação exclusivamente natural; consi-
to, inércia térmica; no entanto, com a criação acentuar a situação, nos seus apartamentos gar encontrarmos esta deficiente solução para derando a sólida construção destas edificações
de caixas de ar ventiladas entre os dois panos que dependem apenas de uma frente voltada a caixa de persiana, inclusive, por vezes, em vãos e o dimensionamento dos seus vãos verifica-
de parede, reduzem-se as pontes térmicas e, ao exterior, a sua configuração não favorece onde já se utiliza o vidro duplo, o que induziu a mos que proporcionam desde uma equilibrada
através do sombreamento da parede interior, uma boa ventilação transversal, tornada viável que, para a obtenção de um melhor isolamento recepção da luz até à necessária protecção face
acautela-se o seu sobreaquecimento. no sentido oposto ao das aberturas ao exterior do exterior, se duplicassem janelas, colocando ao exterior; pressupondo que hoje em dia, tal
A adopção de coberturas de betão sem exclusivamente através da presença de core- uma nova pelo exterior da persiana; como vimos, como para o exemplo referido, se encontrarão
caixa de ar, deficientemente isoladas termica- tes, as quais, com as restrições regulamentares esta solução foi adoptada num dos apartamen- soluções sem grandes implicações para outras
mente, veio piorar as condições de conforto dos do Regulamento Geral das Edificações Urbanas tos visitados no Palácio do Comércio FIG.654. deficiências resultantes de questões constru-
pisos superiores. Nos estúdios do Edifício DKW, que desmotivaram o recurso ao saguão, pas- Nos apartamentos estudados, dos mais tivas, permitindo que, para além da sua natural
no verão, o tecto chega a queimar FIG. 271; na rea- saram a ser a opção possível para ventilar as antigos para os mais recentes, verifica-se uma frescura no verão, se obtenha o conforto de tem-
lidade, como vimos, no projecto original estas casas de banho, estrategicamente situadas no ligeira redução na altura do pé-direito dos seus peraturas amenas ao longo de todo o ano e até
coberturas encerravam espaços de dupla altura núcleo central do prédio, passando a ser com- compartimentos; ainda assim, os de pé-direito mesmo no inverno, poderemos afirmar que estes
ventilados superiormente FIG. 277, tendo sido ape- partimentos interiores. mais baixo têm uma altura superior relativamen- estão estruturalmente mais aptos para propor-
nas com a posterior introdução das “mezzani- Na construção corrente, durante os anos 50 te à dos actuais; se, por um lado, os espaços de cionar conforto térmico do que os de construção
nes” para os quartos que o calor, transmitido por e 60, arriscam-se janelas de correr em madei- pé-direito mais alto são mais difíceis de aquecer mais recente disponibilizados no actual mercado
esta cobertura, se tornou incomodativo no nível ra, frequentemente com um desenho que não no inverno, por outro, permanecem mais frescos imobiliário, privando assim de qualquer sentido o
superior cuja existência não estava prevista. no verão; com mais metros cúbicos de ar por estigma entretanto criado no senso comum.

348 Introdução Opções temáticas / objectivos / ESTRATÉGIA


351

Muitos dos apartamentos estudados estão densidad; un espacio sin memoria, lanzado al futuro
As coisas ao meu redor. Cada vez que entro em desactualizados, inclusive na sua organização contra el pasado.”
2

em planta. Até meados dos anos 40, nos apar- Não será exclusivamente devido ao seu cariz
edifícios, em espaços onde vive gente (…), sinto-me tamentos do Porto, não existia uma hierarqui- funcionalista e racionalista que uma arquitectura
zação funcional, não existia sequer uma distin- poderá conter a liberdade individual dos seus
impressionado pelas coisas que as pessoas têm consigo. ção entre salas e quartos: os espaços apenas utentes, mas esta contenção ocorre sempre
se sucediam, relativamente idênticos na sua que a arquitectura não tem a capacidade de
(…) Perguntava-me se era tarefa da arquitectura criar um caracterização e dimensão, ao longo dos espa- ser “recipiente”, acolhendo a vida com tudo o
ços de distribuição, existindo apenas uma even- que ela tem de informal e imprevisto. Adolf Loos,
recipiente que contivesse todas essas coisas.
1

tual vocação conferida sobretudo pela posição num pequeno conto intitulado “Sobre um pobre
3
que ocupavam no apartamento, mas sem que homem rico” publicado em 1900 , conta-nos a
fossem especializados para cumprir uma fun- frustração sentida por um cliente na vivência da
ção específica FIGS. 656 A 661. A sua função seria sua moderníssima e belíssima casa, desenhada
determinada pelo utilizador, que poderia fazer por um competente e apaixonado arquitecto,
uma livre apropriação destes espaços. Este obcecado com a coerência estilística, que deta-
entendimento terminou com o funcionalismo lha todos os detalhes da vida doméstica, coor-
e com a consequente racionalização da planta denando inclusive o vestuário íntimo dos habi-
do apartamento que, apesar de contemporâ- tantes com os motivos decorativos da arquitec-
neos destas arquitecturas, ainda não tiveram tura e não admitindo a presença visível de qual-
nelas qualquer repercussão. quer objecto pessoal ou de valor sentimental 2 Citação de ÁBALOS, Iñaki –
A crítica ao funcionalismo existe desde que que não se enquadre na sua harmoniosa “obra La buena vida. Visita guiada
a las casas de la modernidad.
este surgiu e uma visão bastante interessan- de arte”. Adolf Loos, contrariando a ideia de que Barcelona: Editorial Gustavo Gili,
2003, p. 75.
te sobre o tema é aquela que nos é dada por a arquitectura é arte, argumenta que “la casa 3 LOOS, Adolf – Sobre um pobre
homem rico in RODRIGUES, José
Jacques Tati no filme “Mon oncle”: Jacques Tati debe agradar a todos, a diferencia de la obra de arte Manuel (coord.) - Teoria e crítica
de arquitectura. Século XX. Casal
contrapõe o mundo positivista, com toda a sua que no tiene por qué gustar a nadie. La obra de arte es de Cambra: Caleidoscópio; OASRS,
2010.
fé na modernidade e num futuro que se prevê un asunto privado del artista. La casa no lo es. La obra 4 Citação de LOOS, Adolf –
Ornamento y delito: y otros
radiante, com o mundo caótico e fenomenoló- de arte se sitúa en el mundo sin que existiera exigencia escritos. Barcelona: Editorial
Gustavo Gili, 1980, p.229.
gico; coloca uma criança entre dois mundos, o alguna que la obrigase a nacer. La casa cubre una exi- 5 LOOS, Adolf – Ornamento y
delito: y otros escritos. Barcelona:
dos pais, na sua moderníssima casa onde tudo gencia. La obra de arte no tiene responsabilidad ante Editorial Gustavo Gili, 1980.

está previsto, um mundo funcional cuja higie- nadie; la casa la tiene ante qualquiera. La obra de arte
ne resplandece, e o do seu tio, monsieur Hulot, quiere arrancar a los hombres de su comodidad, a
indiferente à ideia de progresso, sensorial, ilógi- casa ha de servir a dicha comodidad. La obra de arte
4
co e caótico, mas onde existe lugar para o deva- es revolucionaria, la casa es conservadora.”
neio e para a imaginação; naturalmente que a Adolf Loos é o autor de um livro, publicado
preferência da criança recai sobre o mundo do em 1908, sob o expressivo título “Ornamento y
5
seu tio, um universo sugestivamente libertador, delito” , o qual, por si só, sintetiza os conteúdos
em contraponto ao sentimento de castração da obra deixando antever a enorme carga ética
que o dos pais lhe suscita. Utilizando a súmu- que transpõe para a arquitectura; esta induziu
la de Iñaki Ábalos, no mundo dos pais, “nada a um crescente depuramento na arquitectura
encontramos de la intensidad secretista del tortuoso durante a primeira metade do século XX, cujo
laberinto topológico de la casa fenomenológica de largo espectro de influência, como vimos, direc-
monsieur Hulot (…). La casa positivista será la casa ta ou indirectamente, se fez sentir inclusive nas
de la exposición de unos miembros frente a los otros primeiras arquitecturas modernistas do prédio
y de la familia como unidad al exterior. Su aire ya no de rendimento portuense, sendo que, dos pré-
será el denso aire fenomenológico sino que deviene dios estudados, aquele que melhor o ilustra é o
medicalizado, higiénico, un espacio desinfectado Edifício Geminado de José Porto FIG. 602. Como
proporcionado por la transparencia, el asolamiento vimos, alguns dos arquitectos modernistas
1 Citação de ZUMTHOR, Peter –
Atmosferas. Barcelona: Editorial y la limpieza. El espacio positivista es un espacio sin portugueses tendiam a isolar como signo de
Gustavo Gili, 2006, pp. 35-37.

350 Introdução Opções temáticas / objectivos / ESTRATÉGIA


353

ESBOÇO DAS PLANTAS DOS FIG. 662 Apartamento no cunhal


APARTAMENTOS VISITADOS: do Edifício EDP de Manuel de
Passos Júnior (1945)
FIG. 656 Apartamento no cunhal FIG. 663 Apartamento na Rua da
do Edifício Garantia de Júlio de Firmeza do Edifício EDP de Manuel
Brito (1937) de Passos Júnior (1945)
FIG. 657 Apartamento no sector FIG. 664 Apartamento na Rua do
norte do Edifício Garantia de Júlio Bolhão do Edifício EDP de Manuel
de Brito (1936) de Passos Júnior (1948)
FIG. 658 Apartamento no Edifício FIG. 665 Apartamento no cunhal
do Instituto de Inglês de José nordeste do Palácio do Comércio
Ferreira Penêda (1938) de Maria José Marques da Silva e
FIG. 659 Apartamento no Edifício David Moreira da Silva (1947)
Geminado de José Porto (1939) FIG. 666 Apartamento T3 no
FIG. 660 Apartamentos no cunhal Edifício DKW de Arménio Losa e
do Gaveto Nordeste com a Rua da Cassiano Barbosa (1947)
Firmeza de Manuel Passos Júnior FIG. 667 Apartamentos no Edifício
(1943) Emporium de José Porto (1948)
FIG. 661 Apartamento na Rua FIG. 668 Apartamento no Edifício
da Firmeza do Gaveto Nordeste do Banco Popular de Agostinho
com a Rua da Firmeza de Manuel Ricca e Benjamin do Carmo (1958)
Passos Júnior (1943)

352 Introdução Opções temáticas / objectivos / ESTRATÉGIA


355

FIG. 669 Compartimento


no Edifício Garantia
modernidade a simplicidade e sobriedade das Witold Rybczynsky, afirma que Adolf Loos “era FIG. 671 Compartimento
no Gaveto Nordeste com
FIG. 670 Compartimento
no Edifício Geminado de
arquitecturas de pendor racionalista, sem lhes adversario de la ornamentación pero no de la deco- a Rua da Firmeza

José Porto atribuir o pendor moralista contido no discur- ración, y los interiores de sus cubos no se parecían
so de Adolf Loos; praticam um certo despoja- en lo más mínimo a los exteriores. (…) Los interiores
mento no seu desenho, oportuno em período de Loos exhibían toda la domesticidad sólida, con-
de recessão, em arquitecturas reiteradamente fortable y burguesa que esperaban de una casa él y
7
híbridas, ora resultando da tendência para a sus clientes vienenses.”e prossegue com uma
estilização e geometria da forma do Art Déco, exacerbada e algo cínica crítica ao “purismo” e à
ora acusando a formação clássica dos seus arquitectura funcionalista e racionalista, a qual,
autores, nas arquitecturas que se passaram ainda que sem a subscrevermos na totalidade,
a designar como “arquitecturas do reboco” e citamos, pela posição extrema e oposta nele
de que, na sua versão classizante, o Edifício do assumida: “El vociferante ataque lanzado por Loos
Instituto de Inglês é paradigmático FIG. 602. contra la ornamentación, que más tarde habría de
O livro de Adolf Loos é, em grande medida, lamentar, abrió la puerta a una puesta global en tela
responsável pelo assumido desnudamento dos de juicio de los valores tradicionales. Además, como
interiores que se inicia durante o modernismo. él había establecido una base moral para su posición,
No entanto, Adolf Loos, apesar da depuração ese movimiento pronto adquirió la retórica y la segu-
ética do exterior, constrói no interior o espaço ridad en sí mismo de una cruzada. Para la vanguardia
subjectivo e íntimo do individuo, tal como José francesa, alemana y neerlandesa, la eliminación de
Fernando Gonçalves assinala, conferindo à la ornamentación no fue sino un principio. Le dieran
“casa” uma “dupla personalidade”: “a fachada seus interiores são relativamente despojados la vuelta de revés a las ideas de Loos y los interiores de
interior (do individuo), reflecte o mundo próprio e, aparte a sua escala e proporção, são carac- sus casas pasaron a ser igual de blancos y vacíos que
e subjectivo do utilizador (o Raumplan deriva terizados sobretudo pelas carpintarias e pelo los exteriores. Se eliminaran todos los vestigios de lo
da dualidade destes princípios: conceito espa- desenho das sancas, este último sintomático pasado. Si la ornamentación era un delito, también lo
cial contido numa caixa de estereometria fixa da sua postura relativamente à questão do era el lujo. Se acabaran los materiales ricos, se acabó
que tem que ver com critérios de empatia do ornamento na arquitectura: nos primeiros, o la suntuosidad, se acabaran los adornos. (…) Cuanta
8
individuo na concretização de cada função – Edifício Garantia FIG. 669 e o do Instituto de Inglês, más austeridad, mejor. (…)”
cada espaço tem uma área e volume propor- reduzem-se a umas marcações no reboco O Purismo foi um movimento que, em arqui-
cional à sua importância – e com critérios de para integrar a estrutura aparente no tecto; tectura, procurava a definição de uma estética
economia espacial que a suportam); a facha- José Porto assume a aresta viva nos seus dois maquinista e racionalista, através de volumes 6 Citação de GONÇALVES, José
Fernando – Ser ou não ser
da exterior, no respeito pela comunidade deve edifícios da Rua de Sá da Bandeira FIG. 670 e nos simples e formas depuradas que transmitissem moderno: Considerações sobre
a Arquitectura Modernista
manter-se silenciosa (a arquitectura muda, no edifícios do Estado Novo voltam a empregar-se de forma clara as funções para as quais foram Portuguesa. Coimbra: Edições do
Departamento de Arquitectura da
respeito pelos valores do colectivo; o exterior sancas em gesso para suavizar a relação das criadas, sucedeu ao Cubismo e foi fundado FCTUC, 2002, p. 33.
7 Citação de RYBCZYNSKI, Witold
pertence à civilização); qualquer ornamento paredes com o tecto FIG. 671. por Amédée Ozenfant, pintor e escritor, e por - La casa. Historia de una idea.
6 San Sebastian: Editorial Nerea,
imposto é indecente.” Não detectamos quais- Le Corbusier, editores de uma revista denomi- 1989, p. 203.
8 Idem, p. 203.
quer sinais desta filosofia na concepção dos nada “L’Esprit Nouveau”, onde publicam o seu 9 Baseado em Purismo. In
9 Infopédia [Em linha]. Porto: Porto
interiores dos apartamentos da Rua de Sá da manifesto. Le Corbusier, com a sua definição da Editora, 2003-2012.
10 Citação de ÁBALOS, Iñaki
Bandeira, com uma espacialidade herdada da casa como uma máquina onde se vive, funda o – La buena vida. Visita guiada
a las casas de la modernidad.
cultura clássica, composta por espaços está- maquinismo moderno, o qual está na origem do Barcelona: Editorial Gustavo Gili,
2003, p. 77.
veis e verticalizados FIGS. 669 E 670, ainda que, tal funcionalismo e racionalismo modernos e deno-
como já era prática corrente, sem que a circu- ta uma profunda fé na ciência e no progresso
lação se faça obrigatoriamente através deles, para a construção de uma nova sociedade justa
mas por sistemas distributivos autónomos. Os e democrática: “a casa positivista é de un mate-
rial neutro, el ‘blanco’, un material moderno,
visible e integrador, igualador al máximo, efi-
caz desde el punto de vista higiénico y también
10
como desdensificador del espacio”.

354 Introdução Opções temáticas / objectivos / ESTRATÉGIA


357

L’Esprit Nouveau fez-se representar num No seu livro “La buena vida” e a propósito do Num artigo em forma de entrevista de J. Os apartamentos T3 do Edifício DKW, pelo claro
pavilhão da Exposição Internacional de Artes filme “Mon Oncle”, Iñaki Ábalos, em conso- Badovici a Eileen Gray, publicado em 1929 sob zonamento da sua planta FIG. 666, são, de todos
Decorativas e Industriais Modernas de Paris e, nância com Witold Rybczynsky, afirma que o o título “Do eclectismo à dúvida” num número os que visitamos na Rua de Sá da Bandeira,
a seu propósito, Witold Rybczynsky compara a maquinismo moderno está ligado “a una visión especial de “L’Architecture Vivante”, Eileen Gray, aqueles cuja planta melhor encarna os propó-
postura de Le Corbusier com as “engenheiras más estética que práctica del confort, basada critica a fria e asséptica estética da máquina sitos do funcionalismo e do racionalismo. No
domésticas” americanas que, ainda antes de en la idealización de las técnicas y materiales defendida pelo Movimento Moderno em prol de entanto, apesar da optimização da planta com
13
Le Corbusier, no final do século XIX, procura- industrializados” e satiriza o arquitecto do um maior humanismo na arquitectura: pressupostos racionais, como vimos, o seu
ram definir regras que tornassem a casa mais Movimento Moderno, com a sua fé cega no pre- E. Gray – “…De la misma manera que traduciendo desenho não se reduz às questões funcionais.
eficiente, para chegar à conclusão de que, rela- sente e no futuro e com a consequente nega- al hombre individual con sus deseos, sus pasiones y Arménio Losa e Cassiano Barbosa, à seme-
tivamente às preocupações destas senhoras ção do passado, através desta expressiva ima- sus gustos se traducirá de lo mejor de la vida social y el lhança de Eileen Gray, complementam a arqui-
cuja intenção era, de facto, a de tornar a casa gem: “El arquitecto es siempre un turista fascinado orden colectivo. El arte está fundado en la costumbre, tectura moderna com uma visão humanizada,
num lugar mais eficiente, Le Corbusier estaria ante un maquinismo cuya mecánica desconoce, pero no en la costumbre fugaz, o más bien artificial, que praticam numa relação harmoniosa com
mais interessado na proposta de uma nova un turista que se embelesa con la belleza del tran- que crea la moda. Lo que hace falta es dar al objeto la o passado e com a sua formação clássica, sem
estética de carácter mais abstracto, ainda que satlántico en el que decide viajar para pontificar mejor convenga al gesto espontáneo o al reflejo ins- promover rupturas.
utilizasse as questões funcionais como funda- sobre la ciudad, pero que es incapaz de mostrar una tintivo con los que por su destino se corresponde.” (…) Uma das maiores debilidades da arquitectura
11
mento ; enquanto as “engenheiras domésti- misma sensibilidad frente à la memoria histórica de J. Badovici – “en suma quieres reaccionar contra do Movimento Moderno foi o seu deslumbramento
cas” definiam regras que seriam adaptáveis às la ciudad, mientras visita Córcega y Atenas elabo- las fórmulas da moda, volver hacia atrás.” para com as novas possibilidades da vida moderna,
especificidades de cada família, as normas de rando su ciudad ideal. A este turista no le temblará E. Gray – “No, quiero al contrario desarrollar esas a sua índole dogmática na defesa do mundo novo
Le Corbusier pretendiam ser universais, trans- el pulso cuando propugne la destrucción del pasa- fórmulas e impulsar-las hasta que encuentren el con- com uma inerente negação do passado.
formando-se numa imposição exterior a cada do a favor de la lógica maquínica social: ‘no puede tacto con la vida, enriquecer-las hasta que encuentren Quando, na Europa Central, se inicia o
12
unidade familiar ; uma planificação da vida que permitirse que por un culto mezquino del pasado, se el contacto con la vida, enriquecer-las, hacer penetrar processo de crítica e revisão do moderno, a
ignora a natureza humana, onde tudo estaria ignoren las reglas de la justicia social’, escribirá en la lo real en la abstracción. El arte no está en la expresión vanguarda portuguesa estava ainda a dar os
14
ordenado, previsto e solucionado, restando ao Carta de Atenas.” de las relaciones abstractas; debe cerrar también la primeiros passos contra a repressão do regime
individuo seguir ordeiramente as regras fixadas, expresión de las relaciones más concretas, de las exi- e apenas reclamava o direito a fazer moderno,
movendo-se num território onde até a nature- gencias más secretas de la vida subjetiva…” mesmo quando alguns dos protagonistas desta
za, domesticada e controlada, teria a sua fun- J. Badovici – “Es verdad que muchas obras son un batalha já tinham, sobre ele, uma visão crítica.
ção, a de purificar o ar e acolher as actividades poco frías pero, ¿no será porque estamos aún bajo la Os prédios de rendimento construídos no Porto
lúdicas e desportivas. influencia del pasado reciente? ¿y no serán los prin- pela vanguarda moderna portuguesa ajustam-
cipios de la higiene un poco los responsables de esta -se à realidade sem chegarem a criar rupturas:
11 “En qué consistía el Espíritu En el ‘Manual de la Vivienda’, Sin embargo, es imposible no Corbusier y las ingenieras baño cómodos, planchas eléctricas 12 “Cuando Gilbreth hablaba frialdad que nos choca? nem se aplica na íntegra o receituário moderno,
Nuevo? En primero lugar, en el publicado dos años antes, Le simpatizar con los esfuerzos de domésticas se refería a la question y máquinas de lavar. Le Corbusier, de ‘normas’, se refería a las
rechazo total del arte decorativo. Corbusier había ofrecido sus Le Corbusier por enfrentarse del aspecto que debía tener la casa al igual que la mayor parte de los normas personales que cada E. Gray – “¡Sí! ¡De la higiene de la muerte! De la nem se chega a desumanizar a arquitectura.
Ello significaba, evidentemente, consejos a quienes pensaban en con los problemas de la vida eficiente. La actitud de Christine arquitectos, no comprendía, o no familia decidía para sí; una vez
el rechazo de ornamentación comprarse una casa (JEANNERET, moderna, algo que diferenciaba su Frederick y Gilbreth respecto del quería aceptar, que la aparición establecidas éstas, podía aplicarse higiene mal comprendida. Pues la higiene no excluye No filme “Mon oncle”, Jacques Tati satiriza
los estilos que caracterizaba los Charles-Edouard – Towards a sencillo pabellón de los interiores aspecto de la casa no se puede de la tecnología y la gestión la técnica de la gestión científica
estilos de resurrección de épocas New Architecture. Londres: presuntuosos de los ‘ensembliers’ calificar más que de alegremente doméstica habían dejado en para hallar la forma más eficiente ni el conforto ni la actividad. No, estar intoxicados uma arquitectura asséptica onde tudo está
históricas que Le Corbusier John Rodker, 1931, pp. 122-123). del Art Deco. Intentaba, por pragmática; lo que les preocupaba un lugar subordinado a toda la de lograrlas. Para Le Corbusier, en
calificaba despectivamente de Luis Resulta sorprendente que pocos torpemente que fuese, convertir era la función, no el aspecto. cuestión del estilo arquitectónico.” cambio, las normas era algo que por el maquinismo. Pero previsto e, através do mundo de monsieur
A, B y C. Pero también significaba de esos consejos se refriesen la casa en un lugar más eficiente, Daban por hecho que la gente In RYBCZYNSKI, Witold - La se imponía desde fuera. Según
rechazar resurrecciones tan a la tecnología doméstica. (…) y pensar en la vida cotidiana, en desearía decorar sus casas de casa. Historia de una idea. San él, las necesidades humanas eran hay más cosas que maquinismo, el mundo está Hulot, atribui mérito à arquitectura que tem a
creativas como los estilos de Su propuesta de que la cocina lugar de los problemas esotéricos y forma diferente, y no advertían Sebastian: Editorial Nerea, 1989, universales y se podrían uniformar
Artes y Artesanías y de Secesión, estuviera en la parte alta de la casi anticuados de la decoración. A ningún motivo para afirmar que una pp. 193, 194-195, 196-197. y, en consecuencia, sus soluciones poblado de alusiones vivas, de simetrías vivas, difíci- capacidade de acolher o universo pessoal de
y de evitar incluso la decoración casa, para evitar los olores, era este respecto, compartía muchos forma fuese mejor que otra. (…) eran prototípicas, no personales.”
abstracta del Art Deco. Eso dejaría extraña y nada práctica. (…) El de los objetivos de las ingenierías Ningún de los dos advertía conflicto In RYBCZYNSKI, Witold - La les de descubrir, pero reales. Su exceso de intelectu- cada um, uma arquitectura cuja ordem não fica
un interior bastante desnudo, pabellón daba muestras de poco domésticas estadounidenses. alguno entre la decoración casa. Historia de una idea. San
verdad? Y que tenía eso de malo? interés por detalles tan técnicos Al igual que Frederick y Gilbreth, tradicional y la gestión doméstica Sebastian: Editorial Nerea, 1989, alidad quiere suprimir lo que hay de maravilloso en questionada pelo caos individual, mas que, pelo
Preguntaba Le Corbusier.(…) como el lugar para los enchufes Le Corbusier había leído el libro eficiente, y ese fue el motivo de pp. 195-196.
y las lámparas, Uno de sus dichos de F. W. Taylor sobre la gestión que sus enseñanzas gozaran de la 13 Citação de ÁBALOS, Iñaki la vida, con su preocupación mal comprendida por la contrário, tem capacidade para o absorver.
más famosos era: ‘La casa es científica, pero parecía no haber aceptación del público. – La buena vida. Visita guiada 15
una máquina en la que vivir’, aplicado las ideas de Taylor más En eso era lo que Le Corbusier a las casas de la modernidad. higiene y que lleva a una asepsia insoportable.” Iñaki Ábalos constata que nos pátios das
pero a juzgar de una perspectiva que a la construcción da las casas, se distanciaba de las ingenieras Barcelona: Editorial Gustavo Gili,
‘puramente’ mecánica, el Espíritu y no a las tareas domésticas en domésticas. En cierto sentido, 2003, pp.80-81. Nesta entrevista, Eileen Gray, para além casas de Mies Van Der Rohe “no hay lugar para el
Nuevo ofrecía poco que fuera… sí (TAYLOR, Brian Brace - Le seguía siendo un arquitecto del 14 Idem, pp. 80-81.
bien, nuevo. Corbusier et Pessac. Paris: siglo XIX empeñado en la batalla 15 Os excertos da entrevista de antecipar em vários anos a crítica ao pequeño huerto, ni para el cultivo de flores, ni para
Fondation Le Corbusier, 1972, p. de los estilos. De eso trataba el que aqui apresentamos foram
23). Los cuartos de estar de varios Espíritu Nuevo: un estilo nuevo, retirados de MORALES, José Movimento Moderno, aponta já também um objetos de uso doméstico, fuentes o piscinas, para
usos, los armarios empotrados, las un estilo adecuado al siglo XX, un - La Disolución de la Estancia,
duchas y la iluminación indirecta, estilo para la Era de la Máquina, un transformaciones domésticas caminho no sentido da sua revisão, a qual passa todo el conjunto de implementos con los que el hom-
que presentaba como ‘ideas estilo para una vida más eficiente. 1930-1960. Madrid, Editorial
nuevas’, eran lo corriente en las Su casa no era simplemente Rueda, 2005, pp. 27-28. não por negar as suas conquistas, mas por pro- bre, la familia-tipo moderna, amagan un contacto
casas estadounidenses desde moderna, sino una casa que 16
hacía decenios.” (…) parecía moderna. (…) No era la curar complementá-las com uma visão mais a sua
activo e implicado con el medio natural”,
Otra diferencia entre Le ausencia de papel de pared y de
zócalos lo que hacía moderna a lata e humanizada da vida e da arquitectura, função é meramente contemplativa e cumpre
una casa, sino la existencia de
calefacción central y de cuartos de numa linha de continuidade e não de ruptura. apenas o desejo de isolamento relativamente

356 Introdução Opções temáticas / objectivos / ESTRATÉGIA


359

à cidade da casa de um homem solteiro, que


Iñaki Ábalos descreve como sendo mundano e
17
de costumes sociais intensos . Nos seus inte-
riores “reina un vacío imponente pero no absoluto:
algunas obras de arte y pocos muebles conviven
casi sin solución de continuidad con los elementos
más arquitectónicos. El mobiliario no está dirigido
hacia el confort convencional ni a la especialización
funcional: adquiere a la vez valor artístico y arqui-
FIG. 672-675 Estúdio do Edifício DKW
tectónico, se transforma en otro momento clave del
‘sistema’ arquitectónico. Es más, siempre los dibuja
18
con precisión.”
Tudo está previsto, a ordem encontra-se
pré-estabelecida e não deverá ser contrariada
por contributos pessoais. A casa destina-se a
um homem que, tal como o define Iñaki Ábalos,
seria mundano e não precisaria de muitos per-
tences, que não só não os necessita como
19
também não os quer . O espaço é sofisticado e
destina-se a um homem solteiro sofisticado, que
deseja encontrar aí um espaço onde se possa
isolar “mas que necesita de poseer grandes espa-
cios (…) para las festas y las celebraciones fáusticas,
para desarrollar relaciones mundanas protegidas
20
de la indescrición y marcadas por lo imprevisible.”
Embora, nesta casa formada por espaços inte-
riores e exteriores enclausurados por muros,
seja óbvia a preocupação de Mies com a pri-
vacidade, o seu espaço aberto, mais do que
íntimo, dir-se-ia ser o palco de uma representa- 16 Citação de ÁBALOS, Iñaki
Os estúdios do Edifício DKW FIGs. 672 a 675, como recantos mais íntimos; o homem que habita – La buena vida. Visita guiada
ção para um público eleito; o homem de Mies é a las casas de la modernidad.
vimos, são uma tipologia de habitação bastante o estúdio DKW é claramente urbano, mas não Barcelona: Editorial Gustavo Gili,
obviamente alguém bastante ocupado e com 2003, p. 26.
excepcional na cidade do Porto e as caracte- tão mundano quanto o homem que habita as 17 Baseado em ÁBALOS, Iñaki
pouco tempo para usufruir da casa, que utiliza – La buena vida. Visita guiada
rísticas da pessoa solteira que Arménio Losa e casas-pátio de Mies. Além do mais, Iñaki Ábalos a las casas de la modernidad.
sobretudo para dormir e para conviver com o Barcelona: Editorial Gustavo Gili,
Cassiano Barbosa teriam em mente quando não duvida de que Mies tinha em mente ape- 2003, p. 28.
seu círculo íntimo de amigos, alguém que gosta 18 Citação de ÁBALOS, Iñaki
os conceberam não diferiria em muito deste nas um homem e jamais uma mulher quando – La buena vida. Visita guiada
de receber e, tal com Iñaki Ábalos refere, será 22 a las casas de la modernidad.
homem mundano para quem Mies imaginou as concebeu estas casas ; ainda que correndo o Barcelona: Editorial Gustavo Gili,
fácil de imaginar na cadeira Barcelona, na posi- 2003, pp. 32-33.
21 suas casas-pátio. No estúdio, o seu espaço inte- risco de se cair em algum sexismo, a depuração 19 Baseado em ÁBALOS, Iñaki
ção de bom conversador. – La buena vida. Visita guiada
rior, único e sem separações físicas, tal como o destes espaços e a sua ausência de domestici- a las casas de la modernidad.
Barcelona: Editorial Gustavo Gili,
do Mies, é hierarquizado através de nichos agre- dade, torna indubitavelmente os seus espaços 2003, p. 33.
20 Citação de ÁBALOS, Iñaki
gados ao seu espaço central, mas enquanto mais masculinos que femininos. O mesmo não – La buena vida. Visita guiada
a las casas de la modernidad.
Mies projecta um espaço fluído e contínuo, dilu- se aplica aos estúdios do Edifício DKW: o seu Barcelona: Editorial Gustavo Gili,
2003, p.28.
índo as suas fronteiras com o exterior, o espaço espaço, ainda que sofisticado, aloja o univer- 21 Baseado em ÁBALOS, Iñaki
– La buena vida. Visita guiada
deste estúdio é fortemente interiorizado, alte- so pessoal do seu ocupante, sendo propício a a las casas de la modernidad.
Barcelona: Editorial Gustavo Gili,
rando radicalmente a postura deste homem receber a domesticidade e a intimidade. 2003, p. 33.
22 Idem, p. 24.
no seu interior. O estúdio do Edifício DKW, sem
sacrificar a sua capacidade para ser social, per-
mite com facilidade a apropriação do espaço
dispondo perifericamente os espaços e criando
358 Introdução Opções temáticas / objectivos / ESTRATÉGIA
361

Poder-se-á inclusive, sem grande risco, pressu- No T3 do Edifício DKW FIG. 666 optimizam-se 23 Citação de ÁBALOS, Iñaki
– La buena vida. Visita guiada
24 Citação de ROSSI, Aldo –
Autobiografia científica. 2ª ed.
“La arquitectura era uno de los modos de super- Alguns dos críticos do Movimento Moderno,
por que o homem para quem Mies obcecada- as relações funcionais, distinguem-se as áre- a las casas de la modernidad.
Barcelona: Editorial Gustavo Gili,
Barcelona: Gustavo Gili, 1998.
25 VENTURI, Robert –
vivencia que habían perseguido los hombres, una tais como Robert Venturi que publica um livro
mente imaginava estas casas que não chegou as sociais das células privadas, agrupando-as 2003, p. 33, 34. Complexidade e Contradição em
Arquitectura. São Paulo : Martins
búsqueda de felicidad. (...) Con los instrumentos de sugestivamente intitulado “Complexidade e
25
nunca a construir seria ele próprio, “Mies mismo em distintas partes da casa, propõem-se áre- Fontes, 1995. la arquitectura, por tanto, podemos disponer un Contradição em Arquitectura” , chegaram
realizaba un autorretrato, ofrecía su propia persona as amplas e fluidas para uma sala que passa acontecimiento, al margen de que éste realmente se mesmo a por em causa a racionalidade dos
como proyecto. (…) Pero sí sabe que en su casa, en el a ser comum - é o espaço da família -, aberto produzca; e ese desear el acontecimiento tiene algo projectos de arquitectura.
espacio de su intimidad, necesita eses pocos y sabios e amplo em contraste com o carácter íntimo de “progresivo” en el sentido que Hegel da al término. Na casa da família da irmã do monsieur
objetos, un número reducido de elementos que, en su dos aposentos individuais, tornando-os, de (...) Por esa razón es muy más importante el dimen- Hulot, a introdução de um objecto não previsto
belleza y perfeccion, le acogen y ayudan a desarrollar algum modo, mais versáteis por oferecerem, sionado de una mesa o de una casa, pero no para inicialmente pode pôr em causa a harmonia
23
su propio proyecto vital.” Quando o vemos retra- num mesmo habitat, distintas atmosferas, ora resolver así una función determinada, como crean prevista, os seus espaços são difíceis de habi-
tado na sua intimidade, surge rodeado de objec- adequadas para interiorizar, ora para socializar. los funcionalistas, sino para admitir muchas. Es tar, impressionam muito mais do que acolhem.
tos pessoais, com alguma densidade e em espa- Assim como nestes apartamentos, o desenho decir, para permitir todo lo que de imprevisible hay No filme “Mon oncle”, Jacques Tati retrata bem
ços tradicionais que a acolhem pacificamente. das áreas de serviço dos apartamentos estu- en la vida. (...) Desde entonces he visto en la arqui- a subversão de que foi alvo a arquitectura do
Ao contrário da arquitectura do Movimento dados e, com especial relevância, o isolamento tectura el instrumento que permite el acontecer de Movimento Moderno, cuja ideologia se posi-
Moderno que lhe era contemporânea, que aspirava das circulações de serviço das áreas sociais, un hecho. (...) sin embargo, en ellos se alcanza un cionava contra a cultura dominante burguesa
a valores universais, as casas-pátio de Mies reme- dissipa quaisquer dúvidas que pudessem existir silencio, un grado de silencio no purista, como aquel e com propósitos igualitários e democráticos
tiam para um universo pessoal e subjectivo, cria- relativamente ao perfil burguês da família a que que perseguía en mis primeros dibujos, en los que mi mas que, na moderníssima casa da família da
vam um universo próprio para um tipo de utilizador se destinavam. preocupación consistía en las luces,, las paredes, las irmã do monsieur Hulot, uma funcional e assép-
específico e o seu desenho encontrava o seu senti- Não existe uma acomodação para a empre- sombras, los huecos. He comprendido que es impo- tica casa-máquina, serve propósitos de osten-
do na forma de estar desse mesmo utilizador. gada interna no estúdio do Edifício DKW, nem sible recrear una atmósfera. Están mejor las cosas tação: a casa não gera domesticidade, está
Tal como Eileen Gray e, posteriormente, nos prédios geminados com saguão, com um vividas e abandonadas; en principio todo debería continuamente pronta para ser mostrada e
Arménio Losa e Cassiano Barbosa, Mies Van der menor número de compartimentos e área preverse, pero lo inesperado es fascinante, tanto contém mecanismos que apenas se accionam
Rohe actua à margem do Movimento Moderno que os restantes FIGs. 658 e 659, nem nos apar- más, cuanto mayor es la distancia que lo separa de para as visitas; exibe-se quer pela sua sofisti-
e demonstra que este não esgota as possibili- tamentos T2 do edifício de Agostinho Ricca nosotros. (...) Ahora me parece suficiente detener los cação, quer pela sua modernidade, que, não
dades da arquitectura moderna, enriquecendo e Benjamim do Carmo FIG. 668, nos quais não objetos, comprenderlos, reproponerlos; el raciona- estando acessíveis a qualquer “bolsa”, se con-
o seu repertório com programas de valor não é muito claro qual o perfil do seu público- lismo es tan necesario como el orden, pero cualquier vertem em símbolos do sucesso económico e
universal, carregados de subjectividade, crian- -alvo: poderiam destinar-se, quer a uma família orden puede ser transtornado por hechos externos do progressismo desta família essencialmente
do ambientes que não são apenas informados pequena, quer a um casal sem filhos ou a um de tipo histórico, geológico, psicológico. (...) El tiempo burguesa. A verdade é que, desde sempre, a
por questões meramente funcionais, mas que casal com apenas um filho, quer, tal como os de la arquitectura ya no se me aparecía con su doble arquitectura teve também, em determinadas
geram espaços adequados a vivências específi- estúdios, a uma pessoa solteira. naturaleza de luz y sombra, o como un envejecimien- circunstâncias, a função de impressionar, requi-
cas de uma mesma função. Durante a crise do Movimento Moderno, em to de las cosas, sino un tiempo de desastre que arrai- sito que apesar de aparentemente ser estranho
No “micro cosmos” das casas-pátio de Mies oposição ao seu pendor universalista, alguma da ga en ellas. (...) Más que las cosas mismas es la apa- ao universo doméstico, aí serve frequentemen-
Van der Rohe, a vida que este acolhe já está crítica da segunda metade do século XX procura rición de las relaciones entre ellas lo que determina te o desejo de ostentação.
24
prevista e os movimentos e a gestualidade de recuperar a história e o particular, restaurando nuevos significados.” O Movimento Moderno ignorou o papel de
quem os habita já estão encenados. O progra- uma pluralidade que tinha sido ofuscada pela A falta de lógica do prédio onde habita o representação que a arquitectura também
ma não é meramente quantitativo: adquire uma universalidade do dogma do moderno. Ao con- monsieur Hulot, complexo e contraditório, não desempenha. A pós-modernidade tenta retirar
valência qualitativa, é informado por uma forma trário de um funcionalismo determinista e encer- foi produto de um pensamento único, mas a arquitectura do pedestal para que foi remetida
particular de se estar no mundo e, portanto, é rado em si mesmo, procura-se ampliar a noção de um somatório de intervenções parcelares no modernismo, cujo carácter abstracto não
dirigido a um perfil concreto de utilizador, de de função por forma a incluir as necessidades levadas a cabo ao longo de um largo período obteve empatia no imaginário colectivo, através
onde resulta um espaço fortemente caracteri- afectivas e psicológicas do indivíduo. A título de do tempo, um espaço que se foi construindo da introdução de signos colhidos da memória
zado e personificado. exemplo de uma interpretação alternativa da com sucessivas adições e na segunda metade colectiva e da semiótica. Esses esforços, no
noção de função em arquitectura, transcreve- do século XX procurou-se criar dispositivos que entanto, falharam e têm sido as experiências
mos uma passagem de um texto de Aldo Rossi: integrassem o inegável valor topológico des- desenvolvidas em arquitecturas mais dirigidas
te tipo de edifícios em arquitecturas eruditas. aos sentidos e menos preocupadas com coe-
rências técnicas e construtivas, aquelas que a
têm conseguido reaproximar da população a
que se destina. Naturalmente, e em particular no
que à habitação diz respeito, não nos referimos a

360 Introdução Opções temáticas / objectivos / ESTRATÉGIA


363

FIG. 676 Compartimento FIG. 677 Sala no


do Gaveto Nordeste com a Edifício do Banco
Rua da Firmeza Popular

efeitos de alguma espectacularidade, mas ape-


nas a estímulos subtis da percepção sensorial
que ocorrem com naturalidade. São arquitec-
turas que procuram proporcionar ambientes
adequados a diferentes estados de espírito, sem
condicionar o indivíduo, mas deixando lugar para
a fantasia. “Las texturas, la temperatura del color
reflejado, la sonoridad de las estancias regirán los cri-
terios selectivos incorporando activamente elemen-
tos naturales (…) que pasarán a ser entendidos y uti-
28 Temos noção da contradição
lizados como verdaderos materiales de construcción. implícita quando afirmámos que
não fomos capazes de fotografar
imaginado aquando da sua concepção, foi Pudemos ver, no apartamento T3 do Edifício
Se trata por tanto de una materialidad desinhibida y alguns destes espaços devido
à densidade da decoração,
caracterizado tridimensionalmente e, no con- DKW, que o carácter intimista da arquitectura
sensual, más propia de un bricoleur que de un ingenie- e admitimos o facto de nos
termos limitado a ilustrar aqui
trolo da relação de todas as suas proporções é um aspecto que as propostas funcionalis-
26
.
ro, más táctil que tectónica” aqueles cujos ocupantes eram,
tendencialmente, pessoas com
e de todos os seus elementos, está ainda pre- tas não descuram tal como, de resto, também
Ignasi de Solá-Morales, esclarecendo os uma formação que os sensibilizou,
de algum modo, para as questões
sente a tradição de desenho das academias da acontece com muitas das propostas dos seus
equívocos que a moral contra o ornamen- plásticas. Independentemente
de nos termos sentido mais ou
viragem do século. mais acérrimos defensores, nomeadamente,
to criada por Adolf Loos e prolongada pelo menos seduzidos por uns ou
por outros, acreditamos não ter
Quase sempre, existe a necessidade de dis- do próprio Le Corbusier: embora as funções da
Movimento Moderno gerou, propõe uma nova sido esse o constrangimento.
Necessitávamos de fotografar o
por perifericamente de um espaço. Nestas arqui- vida doméstica estejam previstas e distribuídas
definição para o termo decoração: “Decoração, espaço, a densidade da decoração
ofuscava o espaço capaz de
tecturas, a superfície por si só não é valorizada, é racionalmente na planta do apartamento, este
portanto, ou condição decorativa da arte e da arqui- ser retido pela lente da câmara
fotográfica, que dificilmente
apenas mais um dos lados que contribui para a é capaz de acolher a vida sem a castrar; apesar
tectura contemporâneas, não no sentido da vulgari- A ingenuidade do modernismo da arquitectura retrata o espaço percorrido e
vivido.
envolvência desejada para cada espaço: algumas de a função primária dos vários compartimen-
dade ou da trivialidade, da repetição de estereótipos da primeira metade do século XX em Portugal serão neutras, estarão expectantes, simples- tos já estar predestinada, estes são capazes de
estabelecidos, mas sim como discreto apêndice de fez com que este ficasse apartado das polé- mente à espera que as preencham. Um exemplo acolher os objectos de valor sentimental que os
uma função secundária, se se quiser, de uma função micas posições do Movimento Moderno, sem paradigmático do contrário, de um espaço que seus ocupantes transportam consigo, existindo
27
que sobrevoa o hipotético fundo das coisas.” perder a continuidade com o seu passado ou a não oferece momentos de estabilidade, é a sala condições para que se construam imaginários
Novos posicionamentos permitem novas sua humanidade. dos apartamentos mais pequenos do Edifício do individuais e se permita o imprevisto.
leituras da arquitectura, inclusive relativamente Regressando à Rua de Sá da Bandeira, nos Banco Popular FIG. 668; este pequeno espaço não é A arquitectura é “recipiente”. Cada um dos
às arquitecturas produzidas durante a primei- apartamentos visitados, não encontramos uma fácil de organizar e isso não se deve apenas à sua compartimentos poderá albergar, por detrás
ra metade do século à margem do moderno grande diversidade de ambientes. Parte do dimensão, mas também à sua configuração: com das suas portas, um mundo pessoal ou familiar
e continuamente julgadas sob o seu ortodoxo encanto dos compartimentos dos apartamen- 26 Citação de ÁBALOS, Iñaki portas em três dos seus cantos, inviabiliza a sua distinto daquele que lhe é contíguo. O espaço,
– La buena vida. Visita guiada
ponto de vista. tos dos anos 30 e 40, no Porto, reside precisa- a las casas de la modernidad. apropriação e dificulta a ocupação das superfícies ainda que caracterizado pelos elementos que
Barcelona: Editorial Gustavo Gili,
mente no carácter intimista dos seus espaços 2003, p. 100. diante das passagens; o outro canto é ocupado o constroem, não condiciona a sua futura utili-
27 Citação de SOLÁ-MORALES, 28
FIG. 676: o volume interior de cada espaço está Ignasi de – Arquitectura Debil por uma lareira, pelo que, ironicamente, quase que zação . Não são apenas as funções primárias,
in Quaderns d’Arquitectura I
claramente definido, os vãos rasgam-se a meio Urbanisme, nº175. Barcelona : apenas é possível dispor mobiliário sob a jane- mas também as psicológicas, que instruem o
Colégio de Arquitectos de
das paredes, o espaço é uno, é estável e com Cataluña, 1987. la para a varanda, o pouco que resta de parede programa da casa. Ainda assim, é fundamental
os seus limites perfeitamente controlados. O numa superfície que, afortunadamente, não é na que nem tudo esteja previsto: tem de existir
espaço é belo quando está vazio e contínua totalidade envidraçada FIG. 677, apesar de, na rela- lugar para que, com naturalidade, possa suce-
inteligível depois de preenchido. O espaço foi ção com a varanda, ser essa a lógica do projecto. der o inesperado.

362 Introdução Opções temáticas / objectivos / ESTRATÉGIA


365

Entre o sossego e a sedução, e tem que ver com o


facto de nos movemos na arquitectura. Sem dúvida,
a arquitectura é uma arte espacial, como se diz, mas
também uma arte temporal. Para nós era incrivelmente
importante induzir as pessoas a moverem-se livremen-
te, à sua vontade, numa atmosfera de sedução e não de Nos edifícios estudados, a propósito do movi- de organização é num dos apartamentos-tipo
mento, é impossível não referir aquelas que são localizados no cunhal com entrada pela Rua da
condução. Conduzir, induzir, deixar solto, dar liberdade.
1

as gradações do público para o privado no seu Firmeza do Edifício EDP e que não chegamos a
interior. Na transposição da organização fun- visitar FIG. 345; visitámos aquele que partilha com
cional da casa burguesa para o apartamento, este os patamares, onde não se define um hall e
apesar de estar implícito um novo estilo de vida, se posiciona a sala de jantar na zona mais recôn-
opera-se no estritamente necessário para fazer dita do apartamento FIG. 663, e outros dois, nas
a adaptação a esta nova circunstância, ou seja, outras entradas, onde um hall dá acesso apenas
redistribuem-se, num piso, as funções outrora a um escritório FIGS. 662 E 664; desde o hall de entra-
divididas por vários níveis. Referimo-nos, em da dos andares do Edifício Garantia podemos
particular, às gradações do público para o pri- aceder, num deles, a um compartimento e, na
vado no espaço da habitação, para onde se ausência de uma circulação própria de serviço,
transportam os hábitos sociais, ainda que agora à cozinha FIG. 656, enquanto no outro se acede à
adquiram uma nova leitura: frequentemente única casa de banho do andar após uma inflexão
encontramos um compartimento junto à entra- no hall, através de um segundo vestíbulo que,
da, utilizado como escritório ou sala de visitas, não se separando fisicamente do primeiro FIG.657,
que filtra o acesso ao resto do apartamento de resguarda o acesso desde os quartos a este
eventuais visitantes alheios à vida doméstica, espaço da entrada e garante que não existem
enquanto o espaço de reunião da família - a desculpas para os estranhos transporem a porta
sala de jantar - acontece no extremo oposto da que resguarda a vida doméstica; num dos apar-
casa, junto às áreas de serviço que se continu- tamentos do Palácio do Comércio, cuja organiza-
am a orientar para o interior do quarteirão. Este ção era já feita por zonas, um pequeno hall, ante-
é um tipo de apartamento bastante comum rior àquele que distribui para as áreas sociais e de
de se encontrar na construção urbana euro- serviço e privadas, dava acesso, a um espaço de
peia da viragem do século XIX para o século XX trabalho que entretanto, com as alterações fei-
e de que ainda existem resquícios em alguns tas pelos seus locatários, foi absorvido pela sala
dos apartamentos visitados na Rua de Sá da de estar FIG. 665.
Bandeira: onde melhor se espelha este tipo Já fomos assinalando, nos subcapítulos
anteriores, o cuidado posto no desenho da
marcação em alçado das entradas e das cir-
culações comuns nos prédios estudados. Nas
circulações dos seus apartamentos detectam-
-se maiores desequilíbrios: estas alternam
entre corredores e espaços vestibulares e em
qualquer um destes dois sistemas distributivos
fomos, por vezes, seduzidos, enquanto noutras,
meramente conduzidos.
1 Citação de ZUMTHOR, Peter –
Atmosferas. Barcelona: Editorial
Gustavo Gili, 2006, pp. 41-43.

364 Introdução Opções temáticas / objectivos / ESTRATÉGIA


367

FIG. 681-682 Corredor do apartamento


do Edifício Geminado de José Porto

EDIFÍCIO GARANTIA:
No Edifício Garantia, a organização do espaço e José Porto, no seu edifício de apartamentos FIG. 678 Corredor do apartamento
das circulações foi extremamente simplificada: geminados em redor de um saguão que é visível com acesso pela Rua de
Fernandes Tomás
as circulações verticais, sempre acompanhadas desde as suas íngremes escadas comuns FIGS. 616 FIG. 679 Inflexão após o hall de
entrada no apartamento com
da claridade que brota do exterior, são comuns E 617, privatiza, num caso, a passagem dos quar- acesso pela Rua de Sá da Bandeira
FIG. 680 Geometrias irregulares e
à habitação e aos escritórios e, quer nuns, quer tos da frente para a casa de banho, criando um ligações entre compartimentos no
apartamento com acesso pela Rua
noutros, predomina o corredor como eixo dis- vestíbulo próprio e, noutro caso, isola as circula- de Fernandes Tomás

tributivo FIGS. 303 A 311. No apartamento acedido ções de serviço do resto da casa, denunciando
a partir da Rua de Fernandes Tomás, após um já algumas preocupações funcionais FIG. 659; os
muito reduzido hall, temos um estreito e longo estrangulamentos e bolsas existentes nos seus
corredor que, criando algum mistério, esconde o remates pontuam o corredor que estabelece a EDIFÍCIO DO INSTITUTO
DE INGLÊS:
seu término após uma inflexão FIG. 678. Esta ocor- ligação entre os dois vestíbulos e os comparti- Quando foi analisado o projecto de José
FIG. 683 Hall de entrada do
rência é semelhante à que esconde o segundo mentos das traseiras FIG. 681, desígnio que, neste Ferreira Penêda para os apartamentos gemi- apartamento
FIG. 684 Inflexões do corredor
vestíbulo do hall de entrada no apartamento prédio geminado e abstraindo-nos do descon- nados do Edifício do Instituto de Inglês FIG. 316, FIG. 685 Mobiliário embutido no
corredor
que tem acesso pela Rua de Sá da Bandeira, trolo detectado no apartamento visitado devido vimos que este autor procurou criar uma
embora neste, aquilo que nos atrai é a claridade a modificações ao projecto FIG. 325, é mais acen- sequência de espaços vestibulares, não asso-
que se insinua por detrás da parede (FIG. 679); em tuado na habitação cuja meação contraria a ciando necessariamente cada um deles a uma
ambas as ocorrências, chanfrando os cantos ortogonalidade do projecto, da qual tira partido zona específica da casa; esta solução foi sim-
dos compartimentos, tornam-se mais fluídas as para a criação dos vários momentos ao longo do plificada na obra construída, onde temos um
viragens nas circulações; ao fundo do corredor, corredor e para enfatizar a sua profundidade na amplo hall com a dimensão de um comparti-
ligações entre os compartimentos geram uma perspectiva desde a entrada FIG. 682. mento FIG. 683 e um corredor com um sugestivo
maior fluidez espacial no seu espaço comparti- e sensual movimento, dado por uma sequência
mento e a sua geometria irregular introduz pers- de inflexões FIG. 684 ao longo de vários aconteci-
pectivas com uma dinâmica inesperada no seu mentos especializados pelo mobiliário embuti-
estático espaço FIG. 680. do FIG. 685, conduzindo até ao vestíbulo que dis-
tribui para os quartos de trás.

366 Introdução Opções temáticas / objectivos / ESTRATÉGIA


369

GAVETO NORDESTE COM


A RUA DA FIRMEZA:

FIG. 687 Tecto do hall de


entrada do prédio
FIG. 688 Vestíbulo de entrada
no apartamento
FIG. 689-690 Hall de entrada
FIG. 691 Corredor

Enquanto nos edifícios anteriores se distinguem Nas mesmas entradas laterais do Gaveto Apesar da forma sedutora como, nestes edifí-
simplesmente duas entradas para o apartamen- Nordeste com a Rua da Firmeza, chegados às cios, planearam os espaços de circulação, quer
to a partir de um mesmo patamar - a principal habitações (FI