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CULPA, VERGONHA, REJEIÇÃO E HOMOSSEXUALIDADE

Uma leitura Psicanalítica sobre o filme Orações Para Bobby

Polline Almeida de Oliveira1

RESUMO: o texto promove uma análise do filme “Orações para Bobby” na tentativa de
compreender, sob o viés da psicanálise, como as emoções como culpa, vergonha, medo e
rejeição atuam no aparelho psíquico e afetam o desenvolvimento emocional.

PALAVRAS-CHAVE: Bobby; Psicanálise; Freud; culpa; vergonha; medo; rejeição;


suicídio.

ABSTRACT: The text promotes a review of the movie “Prayers for Bobby” in trying to
understand, under the bias of psychoanalysis, as emotions such as guilt, shame, fear and
rejection act in the psychic apparatus and affect the emotional development.

KEYWORDS: Bobby; Psychoanalysis; Freud; fault; shame; fear; rejection; suicide.

Final de 2015. Nas redes sociais estampa-se uma manchete da Revista Galileu:
“Jovens homossexuais têm mais tendência ao suicídio, diz estudo”. O subtítulo trazia a
mensagem “Pesquisa norte-americana mostra que adolescentes gays são cinco vezes mais
propensos a tentar suicídio do que os heterossexuais; ambiente influencia”.
Segundo a reportagem, a pesquisa foi realizada pela Universidade de Columbia, nos
Estados Unidos, onde um estudo relacionou a opção sexual ao suicídio entre jovens. Os
resultados mostraram que os homossexuais têm mais probabilidade de praticar o ato, além de
concluir que o local de convívio social também exerce bastante influência – ambientes mais
abertos à homossexualidade apresentam menos casos de suicídio.
Cerca de 32.000 jovens anônimos participaram do estudo e os dados analisados pela
equipe são provenientes de uma pesquisa anual realizada pelo Estado do Oregon, a Oregon
Healthy Teens Survey. Com base nas respostas dos jovens participantes - alunos de escola
púbica entre 13 e 17 anos, a pesquisa concluiu que a probabilidade de um homossexual
cometer suicídio é cinco vezes maior do que um jovem heterossexual.
Uma das conclusões alcançadas é de que o ambiente em que o jovem convive pode
fazer muita diferença. Os adolescentes que vivem e estudam em locais que aceitam melhor

1
Jornalista pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB, 2004). Historiadora pela Universidade de
Uberaba (UNIIBE, 2017). Psicanalista Clínica credenciada pela Sociedade Contemporânea de Psicanálise do
Brasil. Mestranda em Ensino e Relações Étnico-raciais pela Universidade Federal do Sul da Bahia UFSB
gays e lésbicas têm 25% menos probabilidade de tentar o suicídio do que em ambientes mais
repressores.
A matéria nos levou a fazer uma analogia com o filme “Orações para Bobby”, um
dos principais longas de 2009 sobre a temática homossexual. Baseada em fatos reais, a
produção é inspirada no livro "Prayers for Bobby: A Mother's Coming to Terms with the
Suicide of Her Gay Son", de Leroy Aarons, sem lançamento em português. Retrata, em
poucos capítulos, o drama de ser gay na adolescência fazendo parte de uma família
ortodoxamente religiosa. Mas não há como economizar as palavras para falar de um assunto
tão latente na atualidade: o índice de suicídio entre os jovens homossexuais.
Quem assistiu “Orações para Bobby”, independentemente da orientação sexual,
dificilmente não se emocionou. Na história, Bobby, um jovem gay, se suicida após se sentir
rejeitado pela mãe rigorosamente protestante. Uma morte prematura que provoca um grande
abalo emocional na família conservadora, trazendo, entre os desdobramentos, a reverberação
da culpa entre os familiares, principalmente na mãe, que passa a buscar dolorosamente uma
alternativa para superar o trauma ou mitigar a sua dor.
Na época, "Orações para Bobby" se tornou um fenômeno graças à pulverização
promovida pelos usuários da Internet. O público interessado do mundo inteiro teve a
oportunidade de baixar o filme por meio de servidores de arquivo, como o Torrent e o
Megaupload (serviços multilíngues de download e upload de arquivos). As legendas foram
traduzidas e rapidamente se disseminaram através de blogs, do YouTube e de comunidades
em redes sociais, onde com uma simples pesquisa ainda é possível encontrar links para
download do filme completo legendado em português.
Com um roteiro sem efeitos especiais, a produção conseguiu abordar de uma forma
precisa um tema bastante comum na vida de muitas famílias.
Na trama, a mãe de Bobby, Mary Griffith, tenta "curar" o filho gay através da Bíblia
e da psicoterapia. O garoto Bobby, que desde criança foi doutrinado por sua genitora, lutava
para se enquadrar na crença religiosa adotada pela família, embora seu desejo sempre fosse
outro. Ele não pleiteava sair da igreja, mas não suportava mais esconder do grupo familiar a
sua orientação sexual. Quando decidiu revelá-la, esbarrou na resistência materna que começou
a adotar medidas para “reverter” a homossexualidade do filho, impondo culpa, vergonha e
rejeição, acabando por impulsioná-lo ao suicídio.
"Eu não posso deixar que ninguém saiba que eu não sou hétero. Isso seria tão
humilhante. Meus amigos iriam me odiar, com certeza. Eles poderiam até me bater. Na minha
família, já ouvi várias vezes eles falando que odeiam os gays, que Deus odeia os gays
também. Isso realmente me apavora quando escuto minha família falando desse jeito, porque
eles estão realmente falando de mim... Às vezes eu gostaria de desaparecer da face da Terra."
Essas foram as palavras reais de desespero de Bobby, escritas em seu diário quando tinhas 16
anos. Aos 20, ele cometeu suicídio, se jogando de um viaduto em uma rodovia entre os
caminhões.
Uma morte que causou grande sofrimento à sua família, mas também foi a
responsável por ensiná-los a olharem de forma mais humana e acolhedora a vida dos
homossexuais. Alcançaram uma compreensão, através da dor da perda, de que há uma
necessidade de se entender melhor o assunto, prevenindo tragédias, e que, independentemente
dos credos e classes sociais, muitas famílias ainda encurralam seus filhos gays para quadros
de depressão, revolta e desesperança.
Antes do sucesso no cinema e na TV, a história de Bobby já era emblemática para
quem estuda a homossexualidade. Para os especialistas, estudos (como o de Columbia, citado
no início deste texto) alertam que a taxa de suicídios é explosiva entre jovens homossexuais,
principalmente entre efeminados, usuários de álcool e drogas, que não resistem a tanta
repressão e angústia.
No livro A Experiência Homossexual (2007), a psicoterapeuta Marina Castañeda
informa que, nos EUA, um em cada três homossexuais tentou se suicidar pelo menos uma
vez. A autora traz explicações e conselhos para gays, suas famílias e terapeutas e afirma que a
construção da identidade homossexual dura, em média, 15 anos, ou seja, é um longo período
de incerteza que tem um custo afetivo muito elevado. Escreve Castañeda:
Os anos que muitos homossexuais passam se perguntando e explorando sua
sexualidade poderiam explicar seu isolamento e sua imaturidade em certos campos.
Em inúmeros casos passaram boa parte de sua juventude em conflitos internos ou
em relações problemáticas, engajados na difícil tarefa de compreender a sua
identidade sexual.

A CULPA

A principal razão de nos determos na culpa e na vergonha durante este artigo, é que
ambas, comumente, estão associadas à depressão. A culpa, semelhantemente à vergonha, tem
suas raízes tanto naquilo que não deveria ter acontecido como naquilo que aconteceu. É a
sensação de ter feito algo errado, o sentimento doloroso de autocensura por ter-se praticado
uma ação considerada imoral, errada, criminosa ou pecaminosa. A vergonha, por sua vez,
costuma gerar sentimento de tristeza e mágoa profunda, assim como uma falta de autoestima.
Estas duas emoções, principalmente quando associadas, podem resultar num sentimento de
autodesvalorização, desesperança, impotência, depressão, ou até mesmo noutras emoções
tóxicas que criam um ciclo incessante de pensamentos negativos, tolhendo a liberdade
pessoal, a força e a saúde física e emocional.
No fundo, a pessoa que se sente envergonhada ou culpada, acha que não merece o
amor e o carinho de ninguém.
E quando a culpa é falsa?
Há uma distinção entre culpas falsas e verdadeiras. A culpa verdadeira surge quando
fazemos algo que sabemos estar errado e sentimos remorso pelo que cometemos. A falsa
culpa surge quando não fizemos nada de errado, mas tomamos como nossa a culpa que,
legitimamente, pertence à outra pessoa. É o que o Dr. Don Colbert, no seu livro Emoções
Mortais (2013), intitula de “Personalização”, uma espécie de crença negativa ou distorção
cognitiva que ocorre quando as pessoas culpam a si mesmas por eventos sobre os quais elas
não tiveram qualquer controle ou tiveram menos controle do que acreditam ter tido. Uma forte
razão que leva as pessoas a se autossabotarem, prendendo-as psicologicamente a um padrão
negativo de pensamentos.
Façamos aqui um paralelo com a história de Bobby, onde a não aceitação da família
quanto à sua orientação sexual implicou num sentimento de Personalização, gerando
distorções cognitivas que culminaram na falsa culpa, autorrejeição, autodesvalorização,
desesperança e suicídio.
O sentimento de culpa, para a Psicanálise, é a experiência edípica que inaugura as
bases da moralidade. O superego, sequela deixada pelo Édipo, é a instância responsável pela
veiculação da culpa.
Vale lembrar que o superego é uma das três instâncias dinâmicas do aparelho
psíquico. Em 1923, Freud abordou esse assunto na obra Além do princípio do prazer,
destacando a forma como se dava o processo de interação entre os lados conscientes e
inconscientes de nosso cérebro e definindo a existência do id, ego e superego.
Para Freud, o superego constitui-se como a parte moral da psique, representa
os valores da sociedade e divide-se em dois subsistemas: o ego ideal, que dita o bem a ser
procurado; e a consciência moral, que determina o mal a ser evitado. Seus maiores objetivos
são inibir (através de punição ou sentimento de culpa) qualquer impulso contrário às regras e
ideais por ele ditados (consciência moral); forçar o ego a se comportar de maneira moral
(mesmo que irracional) e conduzir o indivíduo à perfeição - em gestos, pensamentos e
palavras (ego ideal).
O superego forma-se após o ego, durante o esforço da criança de introjetar os valores
recebidos dos pais e da sociedade a fim de receber amor e afeição, podendo funcionar de uma
maneira bastante primitiva, punindo o indivíduo não apenas por ações praticadas, mas
também por pensamentos.
Conforme Freud, o sentimento de culpa veiculado pelo superego é o pilar da
civilização, pois através dele as pulsões de destruição inerentes ao ser humano são
redirecionadas para o bem-estar da humanidade A Psicanálise Freudiana acredita que sem o
sentimento de culpa a humanidade estaria fadada à destruição.
Freud ainda descreveu que existe uma culpa de natureza “biológica”, decorrente do
estado de desamparo do infante, que depende dos cuidados primários do adulto para a sua
sobrevivência, e uma culpa originária da resolução do complexo de Édipo, a qual é reeditada
na cultura, isto é, a culpa que nasce no núcleo familiar através do interdito que já se encontra
latente no social. A hipótese freudiana da transcendência de uma vivência individual do Édipo
culminou na culpa social descrita em “Totem e Tabu” (1912/1913).
De acordo com o pensamento freudiano, o sentimento de culpa está diretamente
atrelado ao nascimento do superego, como uma sequela deste. A culpa surge da observação e
críticas constantes dirigidas ao ego, da incapacidade de se cumprir com as exigências de uma
idealização internalizada, de uma conduta moral ou ética a ser seguida e que foram
estabelecidas pelo processo de socialização, primeiramente na família e depois na
comunidade.
Goldenberg & Peixoto abordaram as considerações freudianas da seguinte maneira:

“O pensamento freudiano evidencia o conflito entre as exigências individuais e as


sociais, e é neste embate que se dá a formação de uma sociedade, de uma cultura.
Em todo agrupamento social está em jogo a urgência de um relacionamento possível
entre seres humanos e a satisfação dos desejos individuais, estes muitas vezes
contrários ao bom convívio social.” (GOLDENBERG & PEIXOTO, 2011, p.3)

Vinte anos após Freud vincular o sentimento de culpa ao nascimento da civilização


em “Totem e Tabu”, o psicanalista escreveu sobre o desconforto da sociedade em “O Mal-
estar na Civilização” (1929/1930). Neste trabalho, o sentimento de culpa é abordado de forma
mais cuidadosa. O título, autoexplicativo, sugere a inevitabilidade da sensação de mal-estar
em qualquer forma de agrupamento social. Isto se daria pelo fato de que a organização social
vai de encontro à felicidade individual, visto que há um embate entre as satisfações
individuais e as sociais - portanto, a felicidade jamais poderia ser alcançada.
Em “O Mal-estar na Civilização”, Freud cria uma nova roupagem para o sentimento
de culpa, afirmando que ela nasce da tensão entre um superego severo e o ego, e manifesta-se
através da necessidade de punição. A culpa passa a ser a grande controladora da civilização e
tem sua origem no desamparo, no medo da perda do amor materno ou de um cuidador.
Em 2005, o psicólogo clínico Michael Kahn escreveu que existem três tipos de
culpa: a ruidosa, que é explícita e consciente ao sujeito; a reservada, que não se anuncia como
culpa; e a culpa silenciosa, a que não dá sinal de alerta, mas que pune através de diversos
mecanismos, como o sentimento de infelicidade e menos valia. No entanto, em níveis
distintos, todo sentimento de culpa pode ser nocivo para o indivíduo, podendo levá-lo ao
adoecimento físico-psíquico.
Para Kahn, a culpa possui um caráter inibidor e patológico que se alimenta de uma
grande quantidade de energia psíquica para manter a constância do sofrimento na pessoa, a
qual se acha merecedora de punição. O castigo é infringido por um superego cruel que induz o
sujeito a ter atitudes autopunitivas, levando-o ao desenvolvimento da depressão, da fobia e
dos transtornos de ansiedade e alimentares, por exemplo.

A VERGONHA

Sobre a vergonha, a psicanalista e membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de


São Paulo - SBPSP, Marina K. Bilenky, escreveu um artigo intitulado “Vergonha: sofrimento
e dignidade” (2013), onde desvela de forma concisa qual a dimensão desse afeto na estrutura
emocional do ser. Nas suas palavras, ela diz:
“A vergonha é um sentimento doloroso. De origem narcísica, é ferida difícil de
cicatrizar, permanece indelével na memória e está relacionada muitas vezes a
situações de impotência. Sentimento social, surge quando o olhar do outro vê o que
não deveria ser visto. É o rubor inoportuno, a umidade da pele, a tremedeira, o
gaguejar, o branco. Revelação de uma falha sem reparação. A imagem manchada, a
desqualificação. A vontade de sumir da face da terra. É a exposição de uma
fraqueza, a perda das aparências e da dignidade – o mundo interior desmascarado
aos olhos do outro.”

A vergonha é um sentimento social que aparece diante do olhar do outro, que por sua
vez é parte fundamental no processo de constituição da nossa subjetividade. Desta forma, um
olhar muito crítico ou um olhar que não reconhece os desejos e necessidades do ser como
legítimos e, portanto, merecedores de consideração e cuidados, pode inibir, prejudicar ou
intoxicar seriamente o desenvolvimento emocional.
De acordo com Bilenky, não podemos esquecer que esse sentimento é também um
fator básico do ser humano, regulador dos vínculos sociais e mantenedor da dignidade. No
entanto, no setting psicanalítico, é comum o paciente evitar temas que lhe causem vergonha.
O indivíduo se fecha exatamente para se proteger, por temer o julgamento e olhares críticos
do outro. O envergonhado acaba por ampliar a sua angústia e dá lugar a inibições,
impossibilitando o seu desenvolvimento.
Fairbairn (1944, apud Bilenky), para explicar a divisão do ego e a criação de um ego
sabotador, traz a ideia de que, ao não ser atendida em suas demandas, a criança precisa
proteger o objeto, seja para que o objeto continue a amá-la, seja para que ele não se vingue de
seu ódio. Assim, à experiência de frustração, a criança reage para dentro e não para fora. Num
nível muito primitivo, a frustração vem acompanhada de uma experiência de desintegração e
morte psíquica iminente. Quando a criança é um pouco mais velha, a experiência de
frustração é traduzida como menosprezo ou diminuição de seu valor, e a criança sente
vergonha dos próprios desejos. Num outro nível, essa situação pode ser vivida como
humilhação. Em virtude dessas experiências de humilhação e vergonha, a criança se sente
reduzida a um estado de inutilidade, miséria afetiva e depauperamento. A percepção de seu
valor próprio é ameaçada e ela se sente mal no sentido de "inferior".

A REJEIÇÃO

Quanto à rejeição, provavelmente seja ela o motivo da ferida psicológica mais


comum e recorrente nas nossas vidas. No livro "Emotional First Aid" (Primeiros Socorros
Emocionais), lançado nos Estados Unidos em 2013, o doutor em psicologia e especialista em
terapia de casais, Guy Winch, escreveu que “as rejeições são os cortes e arranhões
psicológicos que machucam a pele emocional e penetram na carne”.
E de fato, a rejeição é bastante poderosa. Costuma deixar marcas na autoestima,
especialmente quando provocada pelos pais. Nesse caso, as marcas podem ser bastante
profundas e influenciar o comportamento pelo resto da vida caso a pessoa não perceba e nem
trate o sentimento.
Mas porque dói tanto ser rejeitado?
O que acontece quando alguém é rejeitado, ou se sente rejeitado por alguma atitude
de uma terceira pessoa, é o surgimento de um sentimento de menos valia. A pessoa rejeitada,
no fundo, acaba sentindo que tem algo de errado em si mesma, ou seja, a rejeição implica
diretamente na autorrejeição.
Essa é a causa maior da dor: achar que a rejeição ocorreu por que há um ‘defeito’ na
pessoa e isso a levou a ser descartada, desprezada, abandonada, rejeitada. A pessoa busca a
explicação, não encontra ou concorda, e, inconscientemente, é levada sentir que tem algo de
errado nela que levou a outra pessoa a rejeitá-la. É aí que entra a conexão com outros
sentimentos, como a culpa por exemplo. Se sentir culpado por não ser uma pessoa boa o
suficiente, por não corresponder às expectativas dos pais (ou especificamente da mãe, como
no caso de Bobby).
Nós já nascemos ligados ao sentimento de rejeição. É ele que nos move em direção a
uma eterna procura de aprovação e em direção ao medo de não sermos aceitos pelos
semelhantes. Essa tensão vivida pelo homem seja em relação à culpa ou a rejeição, é que está
por trás de sentimentos negativos como o remorso e o arrependimento.
Do ponto de vista psicanalítico, a culpa e a rejeição passam a ser elementos
psicopatológicos nucleares da depressão.
É possível entender que o sentimento de culpa e a agressividade são mantenedores
um do outro: um desejo que não tem permissão para se satisfazer promove uma tensão pela
condição de não realização; conseqüentemente, promove o sentimento de culpa - por possuir
o desejo e o sentimento de agressividade em relação ao outro que não permite a satisfação do
desejo; desencadeia uma sequência: desejo - não satisfação do desejo - agressividade -
sentimento de culpa. Isso impossibilita, cada vez mais, a conscientização e satisfação do
desejo, conforme Freud descreve em “Notas Sobre Um Caso de Neurose Obsessiva” (1909).
Em a “Origem e Repercussões do sentimento de Culpa” (2010), Antonio Fyskatoris
afirma que o processo de culpa e rejeição cria um círculo vicioso que pode permanecer sem
nunca ser percebido, a não ser pelas conseqüências que acarretarão em nosso cotidiano: “Na
realidade, a permissão interna não existe mesmo, porque a necessidade de punição por ter um
desejo “inoportuno” é maior do que a permissão para a satisfação”.
Nas relações familiares, acredita-se que esse ciclo apresenta peculiaridades. No
âmbito familiar as normas tendem ser mais austeras, pois configura um ambiente de maior
cobrança posto que a relação com o outro transcorre de forma mais íntima como um todo. É
ali que comumente ocorre a assimilação de quem se “é” e de quem se “pode ser” a partir da
aceitação ou rejeição do referencial familiar. Podemos inferir que esse ambiente representa
uma das maiores fontes de normas e repressões, promovendo a insatisfação dos desejos e, na
seqüência, o sentimento de culpa, a necessidade de punição e o remorso.
Pensando nessas figuras parentais (pai, mãe, tios, avós, etc.) enquanto as maiores
referências para a construção de nossa identidade, a partir dessas relações um leque de
informações nos é transmitido e vai contribuir decisivamente para nossa percepção de como
devemos ou não nos comportar no mundo. Dessa forma, quando nossas ações não são aceitas
pelas figuras parentais, começamos a nos sentir inadequados e rejeitados, com medo de perder
o amor e proteção por parte delas.
Por temer não corresponder ao que o outro espera de nós, é comum nos sentirmos
desamparados, optando por reprimir a satisfação dos nossos desejos, que, com grande
probabilidade, continuarão pulsando em forma de agressividade, sentimento de culpa e
necessidade de autopunição.
A culpa, como no caso de Bobby, pode ser desenvolvida pelo desejo de ser outra
coisa que não aquilo que nossas figuras parentais esperam de nós e, principalmente, por sentir
necessidade de agredir nossos “entes queridos” que se colocam na condição de opositores de
nossos desejos. Como alternativa, há o recalque ou repressão do verdadeiro self por medo de
não ser aceito, aprovado e amado e, como tentativa de se libertar desse sentimento coercivo.
No setting analítico, a rejeição familiar e o sentimento de culpa podem representar
uma grande possibilidade de orientação para o trabalho psicoterápico. Podem ainda trazer à
tona os verdadeiros desejos que, uma vez rejeitados, revestem-se de uma agressividade
recalcada e voltada para o ego sob uma forma severa de autopunição.

E O SUICÍDIO?

Iniciamos esse tópico com o entendimento do suicídio enquanto um ato não apenas
individual, mas também social, pois a relação que o sujeito estabelece consigo está
diretamente inter-relacionada com a que ele estabelece com sua família e com a sociedade em
que vive.
As razões para que se cometa um ato suicida são bastante singulares. Vingança,
raiva, autopunição, culpa, desesperança, vergonha, humilhação, inferioridade são os estados
afetivos comumente narrados pelas pessoas com ideias suicidas, mas, sob estes, subjazem
outros que no momento não estão acessíveis à percepção da pessoa. Esses afetos vão se
tornando intoleráveis, as ideias suicidas vão aparecendo, preparações para o ato começam a
ser construídas e em determinado momento o controle egóico entra em falência e o ato ocorre.
A psicanálise nos ensina que em todo evento psíquico há um conflito com dois lados:
no caso do suicida há uma vontade de matar o corpo e outra de sobreviver. O suicida espera
que vá existir um “estado de não sofrimento” após o seu ato, ou seja, o suicida não deseja pôr
um fim à vida, mas à dor.
A partir da psicanálise, o ato suicida é visto em parte, como um evento onde a pulsão
de morte prevalece em relação à pulsão de vida, existindo uma luta constante entre o Eros e o
Tânatos, onde o último acaba prevalecendo. Para Freud (1920), é necessário que exista um
equilíbrio entre as duas pulsões, onde a de morte permaneceria atrelada a serviço da vida,
atuando em um movimento paralelo. Cassorla (1991) fala que a psicanálise vê a morte como
um parto ao contrário, onde se deseja o reencontro em simbiose com a mãe, em uma espécie
de útero. O suicida busca uma figura protetora, visando basicamente o princípio de prazer.
Macedo (2007) fala que o suicídio é uma agressão ao exterior, e que
secundariamente se volta contra o ego. Matando-se, o sujeito consegue anular
psicologicamente a perda do objeto, vingando-se do ambiente, onde provoca sofrimento aos
outros. Para este autor, a partir de experiências clínicas, pôde-se observar que frequentemente
o suicídio destina-se a destruir a vida dos sobreviventes, onde os que pretendem cometer o ato
vêem nesta prática a única forma de vingança satisfatória contra os pais, amigos ou qualquer
ente querido. O fato causará extremo sofrimento às pessoas que os cercam, fazendo-os
sentirem-se culpados e responsáveis por, de alguma maneira, terem permitido, fomentado ou
não evitado o ato.
Para Freud, no texto “Luto e Melancolia”, o suicídio seria a volta da destrutividade
contra o próprio sujeito, onde há um desejo de matar um outro, e como autopunição, essa
agressividade volta contra si mesmo. Macedo (2007), também coloca que para Freud, nenhum
neurótico abriga pensamentos de suicídio que não consistam em pensamentos assassinos
contra outros, o qual voltam contra si. A energia necessária para tirar-se a vida precisa estar
vinculada ao mesmo tempo com o desejo de matar o objeto a qual se identifica, enquanto que
esse desejo de morte que era orientado para a outra pessoa volta-se para si. O suicídio é assim,
uma agressão direcionada para o íntimo, contra um objeto de amor introjetado e investido,
com um desejo reprimido de matar uma outra pessoa.
Freud aponta que "no luto, é o mundo que se torna pobre e vazio; na melancolia, é o
próprio eu" (1917, p.278). Sendo o eu desvalorizado e passível de punição haverá um
desapego à vida. Contudo, Freud afirma que isto é "secundário; trata-se do efeito do trabalho
interno que lhe consome o eu - trabalho que, nos sendo desconhecido, é, porém, comparável
ao do luto" (1917, p.280).
Nesse ponto, a analogia com o trabalho do luto é reforçada, pois há uma perda
relativa a um objeto, mas, a melancolia aponta para uma perda relativa ao eu. Freud diz que
na melancolia as autorrecriminações são recriminações feitas a um objeto amado, que foram
deslocadas desse objeto para o eu. A retirada dessas acusações do objeto amado e
direcionadas para o eu é pilar na reflexão psicanalítica acerca da melancolia e para a
construção de considerações sobre o suicídio.
Não obstante termos feito uma abordagem psicanalítica sobre suicídio, ele é um tema
revisado pelas mais diversas áreas de estudo.
Na Sociologia, Durkheim publicou em 1897 o livro intitulado "Le Suicide",
defendendo que as causas do autoextermínio têm fundamento social e não individual. Sendo o
suicídio definido como "todo caso de morte que resulte direta ou indiretamente de um ato
positivo ou negativo, praticado pela própria vítima, sabedora de que devia produzir esse
resultado" (Durkheim, 1982, p. 16).
Em seus estudos, o sociólogo classifica o suicídio em três tipos: egoísta, altruísta e
anômico. O primeiro tem como causas a depressão, a melancolia e a sensação de desamparo
moral provocados pela desintegração social. O segundo, ocorre com mais frequência nas
sociedades primitivas onde é percebido como um dever que, se não for cumprido, o indivíduo
é punido pela desonra e por castigos religiosos. O terceiro ocorre por conta de um
desregramento social, no qual as normas não existem ou perderam o respeito; acontece
quando existe um estado de anomia, em que falta uma orientação, uma moral, as relações são
precárias e as regras são indefinidas (Durkheim, 1982).
Durkheim traz reflexões a respeito da grande influência que a sociedade exerce nos
indivíduos, mesmo quando a questão tratada se refere a um problema individual, que é a
escolha ou não da vida, a decisão e opção pelo seu término - a morte.
Na Filosofia, escritores como Camus, Nietzsche, Schopenhauer, entre outros,
escreveram a respeito do suicídio. Albert Camus, em “O mito de Sísifo”, afirma: "Só existe
um problema filosófico realmente sério: o suicídio" (1942, p. 7), demonstrando a pertinência
do tema abordado e estudado por diversos filósofos.
Para a Psicologia, o suicídio pode ser compreendido como resultado de uma intensa
dor psíquica, um ato inserido no campo da Psicopatologia (área do conhecimento que se
dedica um estudo sistemático do comportamento, da cognição e da experiência anormais; o
estudo do produto de uma mente com transtornos mentais). Uma tentativa de suicídio pode
ser compreendida e pensada pela Psicologia como uma saída para uma crise, para um intenso
sofrimento, em que sentimentos ambivalentes de desamparo estão presentes na vida do
sujeito.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Elaborar esse texto partiu da dor. Da dor da inconformidade provocada pela
recorrência de notícias sobre os crimes contra os homossexuais e a forma como, cruelmente,
eles têm sido impelidos a lidarem com a sensação de rejeição e menos valia.
Não se tratou de apresentar sugestões pragmáticas para a operacionalização de
políticas sociais e educativas destinadas à promoção e à defesa dos direitos humanos. A
verdade é que não é fácil sequer definir o objetivo deste texto. Mais que respostas,
procuramos, antes, levantar algumas questões fundamentais sobre a toxicidade que algumas
emoções podem causar ‘naqueles’ que carecem ser respeitados, tolerados e amados. E quem
são ‘aqueles’ se não ‘nós mesmos’, ‘todos’ e ‘qualquer um’? O que difere a nossa estrutura
psíquica enquanto humanos, senão as emoções e as vivências que adquirimos durante nossa
trajetória de vida? E sendo nós viventes entre iguais, questionamos se precisamos mesmo de
tolerância ou de um melhor entendimento sobre afetividade e igualdade.
Ora, a tolerância... Certa feita Saramago teceu algumas conjecturas sobre este termo
ao afirmar:
“Eu sou contra a tolerância, porque ela não basta. Tolerar a existência do outro e
permitir que ele seja diferente ainda é pouco. Quando se tolera, apenas se concede, e
essa não é uma relação de igualdade, mas de superioridade de um sobre o outro.
Sobre a intolerância já fizemos muitas reflexões. A intolerância é péssima, mas a
tolerância não é tão boa quanto parece. Deveríamos criar uma relação entre as
pessoas da qual estivessem excluídas a tolerância e a intolerância.” In ‘Globo
(2003)’

Tolera-se aquilo que, mesmo enquadrando-se no conceito de “errado”, precisa-se


aprender a conviver. É o verdadeiro: ‘- Tolero, mas discordo. Tolero, mas trabalho
arduamente contra. Tolero, mas desejo que determinadas ideias e comportamentos sejam
extirpados da sociedade, para que ela possa evoluir.’
O mundo prescinde de tolerância. Urge por igualdade, respeito, olhares horizontais.
No tocante à homoafetividade, lateja a necessidade de compreensão de que corpo e mente são
entes demasiadamente complexos para que as vontades e desejos sejam balizados por uma
dicotomia.
RESPEITO pelo semelhante! Tolerar já não basta. O respeito traz em si um grau de
sensibilidade superior e altamente desejável. Vem do latim “respicere”, que significa olhar
para trás, dando-nos a ideia de se analisar um fato, uma atitude ou comportamento de alguém
e atribuir a este alguém o valor merecido. A pessoa se dispõe a colocar na balança os seus
valores e os valores do outro. Há uma análise, uma reflexão, antes de se formar um juízo de
valor sobre determinado assunto.
Alimentar preconceitos e rejeições não pode ser aceitável! Tolerar, a esta altura, seria
algo como “fazer um favor” ao outro, mostrar-se “superior” por aceitar as diferenças.
Sem a pretensão de encerrar o assunto, por que não sugerir uma boa dose de AMOR
pautada numa concepção mais ampla e generosa? Afinal, como afirma o Dr. Marco Aurelio
Silva na sua obra “Quem ama não adoece” (2015): “Se assim agirmos (em amor), estaremos
contribuindo para formar homens mais felizes e melhores; e só por meio da construção de
homens melhores, lograremos o sonho de construir um mundo melhor para todos os homens”.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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