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Saúde Coletiva: Revisitando a sua História

e os Cursos de Pós-Graduação
Everardo Duarte Nunes 1

Resumo: Neste trabalho, o autor analisa os principais aspectos da história da Saúde Coletiva e dos
cursos de pós-graduação em Saúde Coletiva no Brasil, restritos ao Mestrado e Doutorado. A partir dos
primeiros cursos, iniciados nos anos 70, verifica-se a sua paulatina ampliação até os dias atuais. No momento,
existem no país 24 cursos, incluindo os denominados genericamente de Saúde Coletiva ou Saúde Pública,
e os que se especializaram em Epidemiologia. Estão excluídos desta relação os cursos da área da enferma-
gem, odontologia social, administração em saúde e saúde da criança. São levantados alguns aspectos
referentes aos fatores que foram importantes na emergência desses cursos, e que são tanto de ordem político-
social, sanitários, como institucionais; a origem da denominação Saúde Coletiva; as discussões sobre o
conceito de coletivo; os principais conteúdos que configuram a área. Nas Considerações Finais, ressalta-se
o fato bastante atual da especialização na área da Saúde Coletiva, com a formação de áreas de concen-
tração, das quais o destaque é a Epidemiologia; faz-se também referência às disciplinas consideradas como
núcleo comum à área, destacando o papel das Ciências Sociais.

Palavras-Chave: Saúde Coletiva, história; Saúde Coletiva, ensino; Saúde Coletiva, mestrado e doutorado;
Saúde Coletiva, Brasil.

Summary: The paper analyzes the milestones of the history of Public Health and of the Post-graduation
stricto sensu courses in Brazil. Since its beginnings in the 70s we can observe a gradual broadening of the
scope and an increase of the number of available Post-graduation courses. Presently, there are 24 Public
Health Post-graduation courses in Brazil, including both the ones with a comprehensive curriculum and the
ones mainly concerned with Epidemiology. The present analysis does not include courses in the field of
nursing, social odontology, health administration and social pediatrics. The main aspects involved in the
creation of those courses were studied in detail, including social and political background, data concerning
public health context prevailing in Brazil and institutional issues. The paper also addresses the terminology
employed in the field, e.g. Public Health, Community Medicine... as concepts embodying its guidelines.
Finally, the growing specialization in the realm of Public Health was discussed, exemplifying it with the
contemporaiy development of Epidemiology. In order to preserve a "core" of knowledges common to the
different specialties, the paper highlights the role of Social Sciences applied to health.

Keywords: Public Health, history; Public Health, teaching; Master and Doctor in Public Health Courses;
Public Health in Brazil.

1
Departamento de Medicina Preventiva e Social - Faculdade de Ciências Médicas, Unicamp, Campinas, São Paulo.
Introdução xar de mencionar que as suas bases inscre-
vem-se nos movimentos europeus de reforma
Um fato que tem sido constantemente sanitária e de reforma médica ocorridos na
apontado no plano educacional brasileiro é a segunda metade do século XIX. Esses movi-
bem sucedida experiência dos cursos de pós- mentos trazem, juntamente com as idéias li-
graduação. Não se trata, neste momento, de berais, a consciência da importância do papel
reavaliar esta situação em seu conjunto, mas dos fatores sociais para a compreensão dos
rever como no campo da Saúde Coletiva esta problemas de saúde e das relações da medi-
proposta vem se desenvolvendo. Embora não cina com os assuntos públicos, e, em certo
seja objeto deste trabalho analisar as estrei- sentido, como no caso da França, o do mono-
tas relações entre desenvolvimento social e pólio da profissão médica sobre o saber e a
formação profissional, não se pode deixar de prática da Medicina. Data desse momento a
apontar que no nível da formação na pós- definição da ciência médica como uma ciên-
graduação a capacitação de pesquisadores e cia social. Até então, as denominações que
a profissionalização docente são elementos acompanhavam essas idéias eram muito vari-
fundamentais para alavancar a ciência e a adas: higiene social, polícia médica, saúde
tecnologia. Nesse sentido, este trabalho pro- pública, medicina legal. Foi durante o movi-
cura recuperar de forma geral a trajetória da mento de reforma médica, ocorrido nesse
Saúde Coletiva como campo de práticas e momento, que se procurou agrupar sob a
saberes, assim como a história do desenvol- rubrica de medicina social um conjunto de
vimento dos cursos de mestrado e doutora- preocupações em torno de algo com maior
do, em crescente expansão, que nessa área consistência e organização. Refiro-me à idéia
têm contribuído substancialmente para a cri- desenvolvida por Jules Guérin, quando afir-
ação de uma "comunidade científica" que na mava, em março de 1848: " T í n h a m o s t i d o já
academia, nos serviços e na gestão técnico- o c a s i ã o d e i n d i c a r as n u m e r o s a s r e l a ç õ e s q u e
adminstrativa já demonstrou capacidade para existem e n t r e a m e d i c i n a e os a s s u n t o s p ú b l i c o s .
ir além do projeto e finnar-se como realidade. A p e s a r destas a b o r d a g e n s p a r c i a i s e n ã o coor-
Trabalhos anteriores (ABRASCO, 1982; denadas que havíamos t e n t a d o incluir sob ru-
ABRASCO, 1983; ABRASCO, 1986, ABRASCO, bricas tais como p o l í c i a m é d i c a , s a ú d e p ú b l i c a
1988) servem de base documental para mui- e m e d i c i n a l e g a l , c o m o t e m p o estas partes
tos dos aspectos tratados neste texto, que s e p a r a d a s v i e r a m a se j u n t a r e m u m t o d o or-
busca sistematizar informações e idéias cen- g a n i z a d o e a t i n g i r seu m a i s a l t o p o t e n c i a l s o b
trais, com base também em autores que ao a designação de medicina social, que melhor
longo de quase duas décadas têm estudado expressa seus p r o p ó s i t o s . . . " .
os fundamentos conceituais da medicina pre- De outro lado, são bastante conhecidos
ventiva e social, da saúde pública e da saúde os estudos que mostram que a intervenção
coletiva. sobre a saúde da coletividade iria se expres-
sar diferentemente, conforme as formações
sócio-econômicas. De forma paradigmática,
As O r i g e n s d e u m Pensamento Foucault (1979) analisa estas formas de inter-
Social e m Saúde venção quando mostra a origem de uma cha-
mada "medicina urbana", na França, "medici-
Mesmo sem a pretensão de estabelecer na estatal", na Alemanha e "medicina da força
uma revisão histórica detalhada sobre as ori- de trabalho", na Inglaterra. Em verdade, a
gens mais longínquas de um pensamento partir da segunda metade do século XIX,
social em relação à saúde, não se pode dei¬ afloram nesses países tentativas de compre¬
ender os fenômenos patológicos dentro de ç õ e s e m q u e s t ã o " . Observa-se, inclusive, um
quadros explicativos mais abrangentes. São recrudescimento da expressão Saúde Pública,
sobejamente conhecidas as idéias de obviamente, sem os reducionismos que a
Neumann e Virchow, quando afirmavam: "A caracterizaram no passado (OPAS, 1 9 9 2 ) . Mas,
ciência m é d i c a é intrínseca e essencialmente u m a como diz Schramm ( 1 9 9 3 ) , em seu recente
ciência s o c i a l e, a t é q u e isto n ã o seja r e c o n h e - doutoramento: " i n t u i t i v a m e n t e , as três expres-
c i d o na p r á t i c a , n ã o s e r e m o s c a p a z e s d e d e s - sões r e f e r e m - s e a u m a m e s m a r e a l i d a d e d e
frutar seus b e n e f í c i o s e t e r e m o s q u e nos c o n t e n - ' r e u n i ã o ' ( c o l e t i v o ) , d e ' a s s o c i a ç ã o ' (social), d e
t a r com u m v a z i o e u m a m i s t i f i c a ç ã o " e "A 'coisa c o m u m ' (público)".
medicina é u m a ciência social e a política n a d a De um modo geral, pode-se dizer que o
mais é d o q u e m e d i c i n a e m u m a g r a n d e e s c a - segundo momento onde se detecta de forma
l a " (Rosen, 1983). Em outros contextos, as mais sistemática a incorporação de uma abor-
análises são extremamente coerentes quando dagem do social em saúde será a partir do
demonstram como os fatores econômicos, término da 2 Guerra Mundial. Muitas são as
a

políticos e ideológicos estão presentes na mudanças que acontecem em todos os paí-


configuração das propostas no campo da saú- ses, afetando não somente a sociedade como
de. Estudo recente, por mim realizado, sobre um todo, mas provocando alterações em di-
a história da saúde pública, que revisa traba- versos níveis, como o educacional e o da
lhos escritos a partir da década de 70, não saúde. Este debate, que se inicia nos Estados
deixa dúvidas quanto ao papel dos contextos Unidos, atinge a América Latina quase vinte
sócio-políticos na emergência das práticas anos depois. Há casos esporádicos de ensino
sanitárias (Nunes, 1994). Voltando à questão das ciências sociais em escolas brasileiras,
apontada por Guérin (1848), verifica-se que como os cursos de Problemas de Sociologia
esse esforço de nominar um campo disperso Aplicada à Higiene, na Faculdade de Saúde
de atividades não seria adotado de forma Pública/USP, em 1 9 4 6 , e o de "Fundamentos
unânime. Tanto assim, que uma nomenclatu- Sócio-econômicos", na Escola Nacional de
ra diversa persistiria e estaria presente ao Saúde Pública, do Rio de Janeiro; mas foi na
longo do tempo e seríamos herdeiros dessa segunda metade dos anos 5 0 que se instalou
tradição. No Brasil, as faculdades denomina- um grande debate em torno das reformas do
ram-se de higiene e saúde pública, assim como ensino na saúde, particularmente em relação
as primeiras cátedras e departamentos que se à formação médica. Desencadeado na Europa
estabeleceram junto às faculdades de medici- e Estados Unidos, este debate teria importan-
na neste século. E, ainda hoje, convivemos tes repercussões na América Latina. Dentre
com as expressões medicina social, saúde os inúmeros seminários sobressaem os que
pública e saúde coletiva; não que essas ex- se realizaram em 1955 e 1 9 5 6 , em Viña del¬
pressões não sejam portadoras de significa- Mar (Chile) e Tehuacán (México), que defini-
dos específicos, como já formulado por Fran- ram para a América Latina as propostas da
co & Nunes (1991) quando assinalam que: medicina preventiva, daí decorrendo uma
" P a r t i c u l a r m e n t e n o Brasil, e d e f o r m a crescente revalorização do social. A proposta era não
e m o u t r o s países d a R e g i ã o , v e m se u t i l i z a n d o somente preencher o vazio deixado pela Hi-
o t e r m o S a ú d e C o l e t i v a . Este t e n t a s u p e r a r a giene, mas definir o papel do médico perante
medicalização e o contraste público-privado, a família e a comunidade e criar uma nova
r e s s a l t a n d o a t e m á t i c a d a s a ú d e e seu c a r á t e r atitude preventivista que deveria ser desen-
c o l e t i v o . N ã o s e n d o redutível o s o c i a l a o c o l e - volvida durante o processo de formação mé-
tivo, t a m p o u c o esta e x p r e s s ã o t e m p o d i d o re- dica. No fundo da questão estava a pretensão
solver t o t a l m e n t e a i n s u f i c i ê n c i a das d e n o m i n a ¬ de reordenar a prática médica, formando pro¬
fissionais portadores de um novo perfil. Nos área da saúde pública. Como tem sido obser-
currículos com conteúdos inovadores desta- vado por muitos estudiosos (existindo igual-
cavam-se as dimensões integral, preventiva e mente neste relato esta perspectiva), as ques-
social (Arouca, 1975). tões da saúde pública não permaneceram
Sem dúvida, a grande conquista desse adstritas somente às faculdades de saúde
período foi a implantação dos departamentos pública, mas se deslocaram para departamen-
de medicina preventiva e social, que veio tos e outras instituições congêneres. Não sen-
acompanhada pela instalação de algumas dis- do nosso objeto estabelecer a trajetória des-
ciplinas e temas como a epidemiologia, as ses cursos, mas de assinalar seus pontos de
ciências sociais (à época, denominadas ciên- inflexão numa história mais ampla, permito-
cias da conduta), o planejamento, a organiza- me voltar aos anos 70.
ção e administração de serviços de saúde, a Nos anos 70, os movimentos de reforma
medicina quantitativa (através da bioestatísti- médica iriam incorporar novas dimensões;
ca). Além desses aspectos de estruturação destas, a principal ficou conhecida como
curricular — com inovações, de fato, impor- medicina comunitária ou saúde comunitária.
tantes —, não se pode minimizar a influência Esta questão, posteriormente, seria alvo de
destas propostas ao pensar de forma crítica a intensas críticas. Estas voltaram-se para o
educação, a organização e a prática médica. caráter controlador, manipulador e ordenador
As críticas ao modelo que fundamentou o presentes nos chamados programas de "Orga-
ensino da medicina preventiva e social seria nização e Desenvolvimento de Comunidades",
tarefa dos anos 70, e, passadas duas décadas, e também em decorrência de suas limitações
nem todas as questões então apontadas fo- como estratégia de ensino. A legitimação de
ram resolvidas; por exemplo: a integração uma disciplina para as novas faculdades de
disciplinar, as relações teoria/prática, a inte- medicina seria decorrência da adoção do Cur-
gração do ensino à rede de serviços, etc. rículo Mínimo, aprovado em 1969, com a cri-
É importante lembrar, para que este es- ação de uma disciplina intitulada "Estudos da
boço histórico não fique sobremodo incom- Saúde Coletiva". De certa forma, mesmo com
pleto em relação ao campo específico do as limitações impostas pelos clássicos currí-
ensino da saúde pública, as suas vinculações culos de ensino médico, percebia-se a tenta-
com o ensino médico. Assim, o Departamen- tiva de introduzir um conhecimento de uma
to de Higiene foi criado junto à Faculdade de natureza até então estranha ao plano de es-
Medicina e Cirurgia de São Paulo, em 1918, tudos — com isso, legaliza-se a presença do
através de um acordo entre o Governo de social. Este esforço estendeu-se pela década
São Paulo e a Fundação Rockefeller. Em 1924, de 60. Isto não quer dizer que até esse mo-
foi oficializado o Instituto de Higiene que, mento nada houvesse sido produzido. Inte-
com isso, deixa de funcionar como seção da ressante verificar que a questão dos "fatores
Faculdade de Medicina e Cirurgia; em 1931, sócio-culturais na saúde" já era pesquisada
ocorreu o reconhecimento oficial do Instituto por antropólogos que trabalhavam junto a
de Higiene e Saúde Pública, incorporado à serviços de saúde no final dos anos 30 e
Universidade de São Paulo, em 1938. Em 1945 durante a década de 40. É o caso de Charles
ele é transformado em Faculdade, adotando a Wagley, que se encontrava no Brasil, desde
denominação de Faculdade de Saúde Públi- 1939, a convite do Museu Nacional, realizan-
ca, em 1969 (Candeias, 1984). Portanto, me- do estudos na Região Amazônica para a ins-
nos de uma década depois da criação da pri- talação do Serviço Especial de Saúde Pública,
meira instituição desse tipo no mundo, o Brasil onde permaneceu até 1946, tendo assumido a
iniciava a formação de recursos humanos na ¬ direção da Divisão de Educação Sanitária. Na ¬
década de 50, outro antropólogo, Kalervo até então haviam predominado no sentido de
Oberg, realiza, a pedido do SESP (Serviço explicar essa realidade. Dizia-se que havia uma
Especial de Saúde Pública) e do Instituto de crise tanto na geração de conhecimentos,
Assuntos Interamericanos, estudos de comu- como de uma determinada prática. Apesar dos
nidades (no Pará, Espírito Santo e Paraná), a milagres econômicos latino-americanos, pre-
fim de subsidiar o planejamento sanitário. senciava-se uma crescente deterioração da
Também no início dos anos 70, assiste-se saúde coletiva. Ao lado de um aumento na
ao início das discussões acerca da extensão mortalidade infantil, que já havia apresenta-
de cobertura e da racionalização dos usos de do sinais anteriores de decréscimo, a desnu-
recursos para a saúde. Esta discussão, que trição era um problema não resolvido e ou-
teve lugar em 1972, na III Reunião Especial tros começavam a se manifestar, como os
de Ministros de Saúde das Américas, propu- acidentes de trabalho e o aumento das
nha ainda a intervenção do Estado, a fim de doenças cardiovasculares.
garantir a saúde como um direito inalienável Interessante que, ao final da década,
de todos os indivíduos. Lembre-se que, neste quando é criada a Associação de Pós-Gradua¬
momento, cerca de 37% da população não ção em Saúde Coletiva, com o objetivo de
recebia qualquer forma de atenção à saúde. rearticular a formação de pessoal na área, a
Assim, na década de 70, enfatizou-se a proposta assentava-se, justamente, na identi-
atenção primária e seus desenvolvimentos ficação dos graves problemas que os anos 70
paralelos, salientou-se a integração docente- não haviam sido resolvidos e que haviam,
assistencial, observando-se ainda uma inten- mesmo, se agravado durante esse período.
sa procura da redefinição das ações de saú- Assim, os princípios básicos da Associação
de, que têm nas práticas coletivas o seu prin- destacavam que as diferenças nos padrões de
cipal ponto de referência. Acrescente-se que, morbi-mortalidade traduziam a heterogenei¬
em 1975, em nível do Ministério da Saúde, e dade estrutural, refletindo os desequilíbrios
em 1976, em nível da Secretaria de Estado da sociais causados pelo processo global de de-
Saúde de São Paulo, ocorreram importantes senvolvimento. Ao caracterizar o sistema de
modificações na organização da saúde públi- prestação de serviços como profundamente
ca e intensos movimentos de sanitaristas. Entre marcado pela desigualdade de acesso, cha-
as propostas então formuladas temos o PIASS mava-se a atenção para a questão do "empre¬
(Programa de Interiorização das Ações de Saú- sariamento" da saúde, no que ficou conheci-
de e Saneamento do Nordeste), em agosto de do como a "indústria da saúde" (ABRASCO,
1976, e, em agosto de 1980, o PREV-SAÚDE 1982).
(Programa Nacional de Serviços Básicos de Percebia-se que as questões de saúde não
Saúde), que não chegou a ser concretizado. poderiam continuar a ser discutidas sem um
Sem dúvida, quando se analisam retros- profundo repensar que envolvesse a forma-
pectivamente as áreas da Medicina Preventiva ção de recursos humanos dentro de "novas"
e Social e a Saúde Pública, verifica-se que a categorias. Não bastava a denúncia. Precisa-
década de 70 sobressai em todos os pontos. va-se de um arsenal teórico que desse conta
Percebe-se, claramente, que havia muitos de uma situação onde estavam presentes con-
motivos para que as atenções se voltassem tradições e conflitos. Nesse sentido, assiste-
para a saúde. De um lado, as questões de se a um movimento que, proveniente do final
saúde e de atenção médica não haviam sido dos anos 60, encontra um solo fértil para
equacionadas e, por sinal, haviam se dete- realizar as suas propostas e passa a contar
riorado de outro, não mais se podia contar com o apoio da Organização Panamericana
como exclusivos os modelos teóricos que ¬ da Saúde. Refiro-me aos seminários sobre o
ensino e a metodologia das ciências sociais teve como "fontes constitutivas" os Programas
em saúde, realizados em Ribeirão Preto & PESES (Programa cie Estudos Sócio-Econômi-
Campinas, Buenos Aires e Cuenca (Equador), cos em Saúde), na Escola Nacional de Saúde
assim como à publicação, em 1972, do livro Pública/FIOCRUZ e o Instituto de Medicina
Ediicación Médica en la América Latina, de Social na Universidade do Estado do Rio de
autoria de Juan César Garcia, que seria, a Janeiro. Mostra como foi o desenvolvimento
partir desse momento, marco de referência do apoio institucional que, naquele momen-
nos estudos sobre educação médica, aí in- to, tornou-se possível através do Programa
cluída a mais completa avaliação sobre o de Saúde Coletiva n o âmbito da FINEP
ensino da medicina preventiva e social até (Financiadora de Estudos e Projetos).
então elaborada. Havia, portanto, nesse momento, um con-
Gostaria de me deter um pouco mais neste junto de condições políticas e institucionais
momento da história, de modo a situar quais que favoreciam o encaminhamento da revi-
eram as questões teóricas mais candentes. Em são do modo de produzir especialistas que
1972, por ocasião de um importante seminá- contemplassem novas propostas, e que
rio para avaliar a questão das ciências sociais reestruturassem o campo da saúde pública.
em saúde, realizado em Cuenca, sob o patro- Até a década de 50, a pós-graduação era
cínio da OPAS, procede-se a um vigoroso realizada nas Escolas de Saúde Pública (São
questionamento das abordagens teóricas uti- Paulo e Rio de Janeiro), ou no exterior. Os
lizadas. Põe-se em discussão a sociologia programas de residência médica vinculados
médica funcionalista, explicitando-se suas li- aos departamentos de medicina preventiva e
mitações explicativas, desvios ideológicos e social surgem por volta de 1962, época tam-
parcelamento da realidade estudada. Critica- bém em que ocorre o desenvolvimento da
va-se, então, a concepção estática na análise pós-graduação stricto sensu nas escolas de
dos problemas de saúde, a descrição formalista saúde pública. Os cursos descentralizados e
da relação entre tais problemas e outras esfe- posteriormente regionalizados da Escola Na-
ras dos processos produtivos em geral. En- cional de Saúde Pública/FIOCRUZ datam de
fim, buscava-se entender a determinação es- 1975, e têm como objetivo formar especialis-
trutural da produção e distribuição da doen- tas, num esquema de pós-graduação lato sensu
ça e das relações entre a organização das (Nunes, 1993b).
ações de saúde e as formações sócio-econô¬ Todos os esforços de formação de recur-
micas. Ressaltava-se ainda a importância das sos humanos, que se prolongam pela década
investigações históricas sobre a formação e de 80, como será referido adiante, têm como
desenvolvimento das práticas sanitárias e de horizonte a presença de uma economia que
ensino (Nunes, 1993a). A análise crítica será em toda a América Latina apresentava um
marcada pela produção de alguns trabalhos quadro recessivo, desde fins dos anos 70, o
que se tornaram referências obrigatórias: que se agudiza por volta de 1982. A evidên-
Donnangelo (1975, 1976) & Arouca (1975). cia dessa crise pode ser constatada quando
Cumpre lembrar, c o m o assinala Costa se verifica que, em relação â nutrição, somen-
(1992), que: "Essas preocupações teóricas ou te 4 8 % das crianças até 5 anos podiam ser
de procedimentos foram condições necessárias, classificadas como "normais"; que a esperan-
porém não suficientes para explicar a enorme ça de vida era de menos de 64 anos para a
repercussão que o campo das ciências sociais América Latina e de menos de 60 para a
teve na saúde coletiva". Salienta, com bastante América Central; que persistia um diferencial
propriedade, que a primeira conjuntura da na mortalidade infantil quando analisada por
pesquisa em saúde coletiva, de 1975 a 1978, estratos sócio-econômicos, e que havia uma
tendência a uma menor redução deste nos realizada em Ribeirão Preto. Paim (1982), ao
períodos de crise; que se observava um au- resgatar as origens dessa discussão, assinala
mento dos acidentes de trabalho, da preva- que: "Esta d e s i g n a ç ã o (...) r e p r e s e n t o u a r u p -
lência das doenças infecciosas e de outras tura c o m o m o d e l o docente e de investigação
patologias. Simultaneamente, reduziam-se os conformado e controlado pela Fundação
gastos públicos, em particular o gasto social Rockefeller n o â m b i t o d e u m desses cursos [no
e, mais especialmente, os da saúde. da Bahia] e a b u s c a d e u m m a r c o c o n c e i t u a i
Neste contexto, os Ministros de Saúde das a l t e r n a t i v o p a r a o c o n j u n t o d o s c u r s o s " . Refere-
Américas formulam a proposta da Atenção se à discussão em torno da criação de uma
Primária, cuja Declaração de Princípios seria entidade que congregaria todos os cursos de
aprovada em Alma-Ata, em 1978. Para o Bra- pós-graduação dessa área. Em dezembro de
sil, em particular, uma década nos separava 1978, quando da Reunião realizada em Ribei-
de um dos momentos mais relevantes na dis- rão Preto, após a apresentação dos diversos
cussão de um projeto para a saúcle - a reali- programas, foi agendada uma reunião que
zação da VIII Conferência Nacional de Saúde, teria como finalidade a criação de uma Asso-
em 1986, que problematizaria e redefiniria a ciação de Pós-Graduação. Isto se efetivou em
saúde, consicleranclo-a como o resultado das 27/9/1979, durante a realização da I Reunião
condições de existência em uma sociedade sobre a Formação e Utilização de Pessoal de
determinada, c o m o direito de todos e de- Nível Superior na área de Saúde Coletiva,
ver do Estado. promovida pelos Ministros da Saúde e Previ-
dência e Assistência Social e pela OPAS, em
Brasília. Criava-se a Associação Brasileira de
Evolução Histórica dos Pós-Graduação em Saúde Coletiva —
Cursos de Saúde Coletiva ABRASCO, que tinha como objetivo a forma-
ção de pessoal em nível de pós-graduação.
Acompanhando a evolução histórica dos Esta formação deveria ser orientada por " u m
cursos cie pós-gracluação stricto senstu (mes- p r o c e s s o g e r a d o r d e a n á l i s e crítica do setor
trado e doutorado) que se incluem na ampla s a ú d e na r e a l i d a d e s o c i a l e m q u e se insere;
denominação de "saúcle coletiva", verifica-se q u e seja p o t e n c i a l m e n t e c a p a z d e influir n o
que é a partir dos anos 70 que estes se ini- c a m p o da d o c ê n c i a , pesquisa e prestação de
ciam. Como foi dito acima, a expressão "saú- s e r v i ç o s " . O Documento Preliminar afirma em
cle coletiva" não era utilizada no início dos uma de suas partes que: " E m t e r m o s d e c o n -
anos 70. Tanto assim, que os dois cursos que teúdo programático, a Associação reconhece
se tornaram paradigmáticos nesta área, como q u e se d e v a e s t a b e l e c e r u m a d e q u a d o equilí-
resultado dos primeiros movimentos de reno- b r i o e n t r e os c o n t e ú d o s t é c n i c o s e t e ó r i c o -
vação no campo da saúde pública, denomi- c o n c e i t u a i s , entre o ' b i o l ó g i c o ' e o ' s o c i a l ' , entre
navam-se de "medicina social", aquele criado o ' o p e r a c i o n a l ' e o 'crítico', c o m o f o r m a de
em 1974, no Rio cie Janeiro, junto ao Instituto evitar o ' t e c n i c i s m o ' e o ' b i o l o g i s m o ' presentes
de Medicina Social da UERJ, e aquele criado na t r a d i ç ã o d e e n s i n o d a á r e a d e S a ú d e C o -
em 1975, em Xochimilco, junto à Universida- l e t i v a " (ABRASCO, 1982).
de Autônoma Metropolitana, do México. A Assim, em 1979, foi cunhado por um gru-
idéia de "saúde coletiva" é tratada em dois po de profissionais de saúde do Brasil o ter-
momentos, no ano de 1978: no I Encontro mo "Saúde Coletiva", ao mesmo tempo em
Nacional de Pós-Graduação em Saúcle Coleti- que se criava uma Associação de moldes
va, realizado em Salvador, e na Reunião Sub- corporativos, agregando profissionais com
Regional de Saúcle Pública da OPAS/ALAESP, formação em diferentes áreas do conhecimen¬
to. Esses profissionais eram oriundos das áreas • Saúde Coletiva - Rio de Janeiro - Insti-
de Saúde Pública e/ou Medicina Preventiva e tuto de Medicina Social/UERJ — Mestrado,
Social e, como já foi observado, a ênfase criado em 1974 (curso multiprofissional), áre-
recaía na orientação teórico-metodológica e as de concentração: ciências humanas e saú-
política em relação à saúde, de modo a pri- de, epidemiologia e política, planejamento &
vilegiar o social como categoria analítica. administração de serviços.
Atualmente, existem no Brasil quinze • Saúde Coletiva - Rio de Janeiro - Ins-
cursos em nível de Mestrado e oito em nível tituto de Medicina Social/UERJ — Doutorado,
de Doutorado, aí incluídos os cursos denomi- criado em 1991 (curso multiprofissional), con-
nados stricto sensu de Saúde Coletiva, Saúde tando com as mesmas áreas de concentração
Pública e Epidemiologia. A eles se agregam, do Mestrado.
no âmbito da pós-graduação em Saúde Cole- • Saúde Coletiva - Campinas - Facul-
tiva, seis Mestrados e um Doutorado em En- dade de Ciências Médicas/UNICAMP — Mes-
fermagem; dois Mestrados e um Doutorado trado (curso multiprofissional), criado em
em Odontologia Social; um Doutorado em 1991. O curso anterior c o m a denominação
Engenharia Biomédica; um Doutorado em de Mestrado em Medicina - área de concen-
Demografia e um Mestrado em Administração tração em Saúde Coletiva, criado em 1985,
Hospitalar e Serviços de Saúde. somente para profissionais médicos, foi
Abaixo são discriminados os cursos in- substituído pelo atual.
cluídos na dimensão stricto sensu da Saúde • Saúde Coletiva - Campinas - Faculdade
Coletiva, de acordo com a sua denominação de Ciências Médicas/UNICAMP — Doutorado
atual, local, nível, data de criação e áreas de (curso multiprofissional), criado em 1991- O
concentração. curso anterior com a denominação de Douto-
rado - área de concentração em Saúde Cole-
• Saúde Comunitária - Salvador - UFBa tiva, criado em 1985, somente para médicos,
— Mestrado, criado em 1973 (curso multipro- foi substituído pelo atual.
fissional); áreas de c o n c e n t r a ç ã o : epide- • Medicina Preventiva - Ribeirão Preto -
miologia e administração e planejamento em Faculdade de Medicina/USP — Mestrado (cur-
saúde. so somente para médicos), criado em 1971.
• Saúde Pública/Epidemiologia - Salva- • Medicina Preventiva - Ribeirão Preto
dor - UFBa — Doutorado, credenciado em - Faculdade de Medicina/USP — Doutorado
1989 (para quem tenha o título de mestre em (curso somente para m é d i c o s ) , criado em
Saúde Coletiva). 1971.
• Saúde Pública - Rio de Janeiro - Escola • Medicina Preventiva - São Paulo - Fa-
Nacional de Saúde Pública — Mestrado, cri- culdade de Medicina/USP — Mestrado (curso
ado em 1977, com as seguintes áreas de con- somente para médicos), criado em 1973.
centração: Epidemiologia Geral, Epidemiologia • Medicina Preventiva - São Paulo - Fa-
das Grandes Endemias, Planejamento em Saú- culdade de Medicina/USP — Doutorado (cur-
de, Saúde do Trabalhador, Saúde Ambiental, so somente para médicos), criado em 1973,
Saúde e Sociedades, Toxicologia Ocupacio- • Saúde Pública - São Paulo - Faculda-
nal (cursos multiprofissionais). de de Saúde Pública/USP — Mestrado (cur-
• Saúde Pública - Rio de Janeiro - Escola so multiprofissional), criado em 1970, áre-
Nacional de Saúde Pública — Doutorado, cri- as de c o n c e n t r a ç ã o : Epidemiologia, Nutri-
ado em 1980 (curso multiprofissional), con- ção, Saúde Ambiental, Serviços de Saúde
tando com as mesmas áreas de concentração Pública, Administração Hospitalar, Saúde
do Mestrado. Materno-Infantil.
• Saúde Pública - São Paulo - Faculdade Horizonte/Minas Gerais - Universidade Fede-
de Saúde Pública/USP — Doutorado (curso mul- ral de Minas Gerais — Mestrado, criado em
tiprofissional), criado em 1970, contando com 1992.
as mesmas áreas de concentração do mestrado.
• Saúde Coletiva - Londrina/Paraná - A reconstituição da história dos cursos
Faculdade de Ciências da Saúde — Mestrado de Saúde Coletiva no Brasil, evidencia que, a
(curso multiprofissional), criado em 1990. partir de 1980, houve uma crescente preocu-
• Saúde Pública - Recife/Pernambuco - pação em definir o campo da Saúde Coletiva,
FIOCRUZ/Centro de Pesquisas Ageu Maga- já que esta questão, que poderia parecer se-
lhães/Núcleo de Pesquisas em Saúde Coleti- cundária, reveste-se da maior importância. Isto
va — Mestrado (curso multiprofissional), cri- porque não se trata simplesmente da denomi-
ado em 1995, início das atividades em 1996, nação de um campo de trabalho, mas de saber
áreas de concentração: epidemiologia e pla- quais são os seus conteúdos. Em 1981, Paim
nejamento e gestão de serviços. (1982) apontava, num tópico denominado "O
• Saúde Coletiva - Campo Grande - Uni- objeto e a prática da Medicina Social", que:
versidade Federal de Mato Grosso do Sul — "A a t u a l c o m p r e e n s ã o do o b j e t o dessa d i s c i p l i -
Mestrado (curso multiprofissional), instalado na sugere o e n v o l v i m e n t o de questões no â m -
em 1992. bito das ciências biológicas e sociais, exigindo,
• Saúde Coletiva - Cuiabá - Instituto de portanto, uma abordagem teórica e
Saúde Coletiva - Universidade Federal de Mato m e t o d o l ó g i c a q u e utilize c o n h e c i m e n t o s episte¬
Grosso — Mestrado (curso multiprofissional), m o l ó g i c o s d a s d u a s á r e a s " . No sentido de
área de concentração saúde e ambiente, cria- delimitar essas questões, incluía "o e s t u d o d o s
do em 1993. d e t e r m i n a n t e s d a p r o d u ç ã o s o c i a l das d o e n ç a s
• Saúde Coletiva - Cuiabá - Instituto de e d a o r g a n i z a ç ã o s o c i a l d o s serviços d e s a ú d e ,
Saúde Coletiva - Universidade Federal de Mato a l é m d a h i s t o r i c i d a d e do s a b e r e d a s práticas
Grosso — Doutorado (curso multiprofissio- de saúde".
nal), área de concentração: saúde e socieda- Como foi apontado acima, esta questão
des, criado em 1993. iria se tornar recorrente com o passar do tem-
• Epidemiologia - São Paulo - Escola po. Não se pode deixar de mencionar que,
Paulista de Medicina — Mestrado (curso mul- em seus inícios, foi ela objeto de um texto
tiprofissional), criado em 1988. que se tornaria referência obrigatória no trato
• Epidemiologia - Pelotas/Rio Grande deste assunto. Preparado por Cecília
do Sul - Faculdade de Ciências Médicas — Donnangelo, para o II Encontro Nacional de
Mestrado, criado em 1990. Mestrados e Doutorados na área de Saúde
• Saúde Pública - Fortaleza/Ceará - Cen- Coletiva, realizado em 1982, baseava-se em
tro de Ciências da Saúde/Universidade Esta- um trabalho escrito em colaboração com
dual do Ceará — Mestrado, área de concen- Oswaldo Campos e apresentado em dezem-
tração: Políticas e Serviços de Saúde, Nutri- bro de 1981 no Seminário sobre Saúde Públi-
ção em Saúde Pública, Saúde Mental em Saú- ca, organizado pela FUNDAP/SP (Donnangelo,
de Pública. Criado em 1993, início das ativi- 1983). Trata-se da revisão feita pela autora
dades em 1994. sobre as principais tendências da produção
• Saúde Pública/Epidemiologia - Forta- científica na área da Saúde Coletiva nos anos
leza/Ceará - Universidade Federal do Ceará 70. Como escreve Donnangelo, ao discutir a
— Mestrado, criado em 1993, início das ativi- questão da produção procurava estabelecer
dades em 1994. " u m a delimitação aproximada do campo, não
• Saúde Pública/Epidemiologia - Belo ¬ a t r a v é s d e d e f i n i ç õ e s f o r m a i s e s e m referência
à e s p e c i f i c i d a d e q u e a d q u i r e , na sociedade porando, à compreensão do objeto da saúde
brasileira, d e t e r m i n a d o conjunto de práticas coletiva, as idéias desenvolvidas por Pereira
r e l a c i o n a d a s à q u e s t ã o d a s a ú d e " . Afirma a (1983)- Para este autor, a Medicina Social tra-
autora que para se chegar a entender o cam- taria dos aspectos sociais e institucionais da
po da Saúde Coletiva é necessário contrapô- medicina, no sentido cie compreender os pro-
lo às práticas da medicina individual. Quanto cessos que mantêm a saúde ou provocam a
a esta última, sua institucionalizaçào assenta- doença e para as práticas sociais que procu-
va-se em uma estrutura de saber e prática ram recuperar ou manter aquela. Textualmen-
que tinha como centro o indivíduo e o bioló- te, afirma: " T r a t a - s e d e u m a m u d a n ç a q u a l i t a -
gico, e, mais do que isso, havia " p e r m a n e c i d o t i v a , p o r q u e o o b j e t o d e tal d i s c i p l i n a n ã o seria
relativamente resguardada dos efeitos de representado por corpos biológicos, mas por
reordenações econômicas e político-ideológi- c o r p o s s o c i a i s . N ã o se t r a t a r i a , t ã o - s o m e n t e , d e
c a s " . Prossegue, lembrando que essa estrutu- i n d i v í d u o s , m a s d e sujeitos s o c i a i s , d e g r u p o s e
ra era relativamente estável e unívoca. O classes sociais e d e r e l a ç õ e s sociais referidas a o
mesmo não acontece com a Saúde Coletiva. p r o c e s s o s a ú d e - d o e n ç a . Deste p o n t o d e vista
Escreve Donnangelo (1983): " A s práticas d e - as p r á t i c a s sociais d a m e d i c i n a s e r i a m o b j e t o ,
signadas de 'saúde coletiva', propostas origi- e s p e c i f i c a m e n t e , dessa d i s c i p l i n a d e f r o n t e i r a " .
n a l m e n t e como c a m p o d a S a ú d e Pública insti- Aponta como grande desafio para o campo o
t u c i o n a l i z a d a , n ã o p a r t i l h a m dessa h o m o g e n e i - fato da adoção de um objeto ao mesmo tem-
dade do saber médico. A imprecisa designa- po natural e histórico-social.
ção de Coletivo tem recoberto efetivamente Paulatinamente, o campo da Saúde Cole-
distintos o b j e t o s d e s a b e r e d e i n t e r v e n ç ã o " . tiva desenvolveu uma série de investigações,
Salienta o fato de que a noção de coletivo o que proporcionou à área uma conforma-
tem sido freqüentemente utilizada de maneira ção. Assim, a Saúde Coletiva toma como seu
acrítica para designar um campo supostamen- objeto a própria análise das formações
te uniforme. Na época em que escreveu, e discursivas, como se constróem conceitos e
frente à produção existente, verificou que objetos, mas ao mesmo tempo se depara
havia "marcadas variações temáticas, pela com a problemática de repensar a determi-
ênfase e m distintos o b j e t o s e e m distintos c a m - nação da doença, não mais no modelo da
pos d e s a b e r , p o r v a r i a ç õ e s t e m á t i c a s e m e t o - epidemiologia clássica, mas dentro de um
d o l ó g i c a s d e a n á l i s e , p o r distintas o p ç õ e s s o - paradigma que privilegie o social. Some-se
bre m o d e l o s e x p e r i m e n t a i s " . Resumia a situa- a isso a necessidade de desvendar a pró-
ção, afirmando: "Essas v a r i a ç õ e s r e p r o d u z e m , pria organização social da prática médica,
e f e t i v a m e n t e , a a m p l i t u d e possível d a g a m a d e na medida em que esta se estrutura através
conotações assumidas pela n o ç ã o de coletivo: de relações políticas, econômicas e ideológi-
coletivo/meio; coletivo/conjunto de indivíduos; cas, quer na expressão dos serviços de saúde,
c o l e t i v o / i n t e r a ç ã o entre e l e m e n t o s ; coletivo como ou nas propostas das políticas de saúde. Hoje,
c o n j u n t o d e efeitos o u c o n s e q ü ê n c i a s d a v i d a no momento em que se revisam muitas das
s o c i a l ; c o l e t i v o t r a n s f o r m a d o e m social como formulações que originariamente embasaram a
c a m p o específico e estruturado de práticas". compreensão das políticas sociais, objeto do
Ressalte-se que o ponto fundamental nessa "desvio determinista" — leia-se, economicista
concepção, mesmo heterogênea, de coletivo, — é importante não cair em outra forma de
é a necessidade de que este seja sempre toma- reducionismo. Este aspecto foi enfatizado por
do em suas manifestações histórico-concretas. Oliveira (1992), ao tecer uma série de comen-
Posteriormente, Fleury (1985) retomaria tários no Seminário sobre "Saúde e Políticas
os pontos centrais acima delineados, incor¬ Sociais na América Latina", ao lembrar a impor¬
tância de estabelecer a relação entre estruturas O que se percebe é que, embora exista
e processos, estrutura e atores, a fim de evitar um núcleo comum (em geral formado pelas
a simples clesqualificação do elemento da de- disciplinas de Epidemiologia e Ciências So-
terminação, sem que nada seja posto em seu ciais), há uma grande diversidade de áreas
lugar. e temas c o m p o n d o o quadro atual dos cur-
De um modo geral, estes aspectos têm sos de pós-graduação. Esta dimensão é mais
permeado os cursos de pós-graduação, ou seja, evidente nos cursos ministrados nas Escolas
estes têm procurado compreender a doença de Saúde Pública, embora os cursos criados
como fenômeno social e a prática em saúcle em épocas mais recentes já enfrentem hoje
como uma prática social. Assim, alguns cur- este problema. Lembremos que a questão do
sos, como o da Bahia, explicitam estes pon- conteúdo foi um dos principais pontos discu-
tos quando assinalam que o modelo curricu- tidos na Oficina de Avaliação da Pós-Gradua-
lar toma como pressupostos que "A s a ú d e , ção stricto sensu em Saúde Coletiva, realizada
e n q u a n t o estado vital, setor de p r o d u ç ã o e em Porto Alegre, em 16-17/5/92. Nessa Ofici-
c a m p o d e s a b e r , está a r t i c u l a d a à estrutura d a na, os participantes constataram que, dada a
s o c i e d a d e s através d a s suas instâncias e c o n ô - natureza interdisciplinar complexa e abran-
micas e p o l í t i c o - i d e o l ó g i c a s " ; que " A s a ç õ e s d e gente do objeto da Saúde Coletiva, há neces-
saúde ( p r o m o ç ã o , proteção, recuperação, rea- sidade de se repensar a própria estrutura dos
bilitação) constituem u m a prática social e tra- cursos. Ou seja, essa pós-graduação deve ter
z e m c o n s i g o as i n f l u ê n c i a s d o r e l a c i o n a m e n t o um caráter especializado, tendência que já
d o s g r u p o s s o c i a i s " . Afirma-se que " O o b j e t i v o vem se observando de maneira bastante ex-
d a S a ú d e C o l e t i v a está c o n s t i t u í d o nos limites pressiva. Como está no documento desse
d o b i o l ó g i c o e d o social e c o m p r e e n d e a in- grupo, " h á u m a t e n d ê n c i a à f o r m a ç ã o d e áreas
vestigação dos determinantes da p r o d u ç ã o so- d e c o n c e n t r a ç ã o n o i n t e r i o r d o s cursos já exis-
cial d a s d o e n ç a s e d a o r g a n i z a ç ã o s o c i a l d o s tentes e d a a b e r t u r a d e n o v o s cursos com o r g a -
serviços d e s a ú d e e o e s t u d o d a h i s t o r i c i d a d e n i z a ç ã o c u r r i c u l a r e m t o r n o d e g r a n d e s áreas
d o s a b e r e d a s p r á t i c a s s o b r e os m e s m o s " t e m á t i c a s como E p i d e m i o l o g i a , P l a n e j a m e n t o ,
(ABRASCO, 1982). A d m i n i s t r a ç ã o e m S a ú d e , S a ú d e A m b i e n t a l , etc."
De forma menos detalhada, o Curso cio (Minayo, 1992a).
Instituto de Medicina Social da UERJ formula Em certo sentido, esta questão se torna
também esta perspectiva, quando define que mais patente nos cursos que têm lugar nas
os objetivos do curso são: " F o r m a r mestres e m Escolas de Saúde Pública que, pela própria
S a ú d e C o l e t i v a c a p a c i t a d o s a d e s e n v o l v e r pes- estrutura e propósitos, compreendem uma
q u i s a , e n s i n o e p r e s t a ç ã o d e serviços n o c a m p o extensa variedade de conteúdos. Em recente
da S a ú d e C o l e t i v a ; d e s e n v o l v e r i n s t r u m e n t o s d e discussão na Escola Nacional de Saúde Pú-
reflexão s o b r e a m e d i c i n a c o m o p r á t i c a s o c i a l , blica, Minayo (1992b) afirmava que um dos
analisando a gênese e o desenvolvimento d o problemas a ser enfrentado é o " d e q u e n ã o
s a b e r e d a s p r á t i c a s d e s a ú d e , b e m c o m o suas existe c o n s e n s o na á r e a e m q u e l i d a m o s , d a d a
dimensões técnicas, econômicas e político-ideo- a sua c o m p l e x i d a d e , p o l i s s e m i a e f r a g i l i d a d e
l ó g i c a s " (ABRASCO, 1982). n o e s t a b e l e c i m e n t o d e p a r a d i g m a s " . Para tal,
De outro lado, embora sem assumir uma impunha-se ciar uma resposta à questão: Existe
definição explícita cie Saúde Coletiva, outros um núcleo comum de conteúdo indispensá-
cursos procuram compor um elenco de discipli- vel à pós-graduação em Saúde Pública ? Se
nas que possam dar conta dessas dimensões, existe, qual ? Especificamente, como ela de-
como, por exemplo, o curso ministrado na veria ser tratada em nível de Mestrado e Dou-
UNICAMP, ou o de Londrina, entre outros. torado? Previamente, foram entrevistados vin¬
te e sete professores, dos quais vinte e qua- comum. De certa forma, essas estruturas cur-
tro (88,9%) optaram, basicamente, pela idéia riculares prendem-se às próprias origens dos
de currículos diversificados, segundo as dife- cursos e também a uma tradição em torno de
rentes temáticas; apenas três (11,1%) optaram determinados objetos de investigação. Cite-
por algo próximo da proposta de um currícu- se, por exemplo, a intensa e extensa investi-
lo "igual para todos". Entre os que fizeram a gação epidemiológica realizada na pós-gradua-
primeira opção, dois sugeriram a inclusão de ção de Ribeirão Preto, desde o início de suas
uma disciplina comum obrigatória (Histórico atividades, em 1971. Isto não impediu que se
e Conceituação da Saúde Pública) e um suge- associasse à pesquisa de caráter epide-
riu outras disciplinas, além da citada acima: miológico a análise de problemas relaciona-
Epidemiologia, Introdução aos Métodos Quan- dos à assistência médica e mesmo à educação
titativos e Sistemas de Saúde (Oliveira, s.d.). médica. Trabalho escrito por Rocha, Noguei-
Em realidade, a Escola Nacional de Saú- ra, Pereira & Simões (1978) reportava-se aos
de Pública ministrou, a partir do primeiro diversos enfoques que orientaram as pesqui-
semestre de 1992, a disciplina "História e sas — epidemiológico-preventivista, da medi-
Paradigmas do Pensamento e da Prática So- cina comunitária, da teoria dos sistemas e his-
cial em Saúde" para todos os pós-graduandos tórico-estrutural — fornecendo um quadro
em nível de Mestrado e recomendada ao geral da situação e explicitando as vinculações
Doutorado (Nunes, 1992). Esse curso foi divi- dos conteúdos do programa de pós-gradua-
dido em três unidades que trataram dos se- ção e das pesquisas realizadas.
guintes aspectos: Quanto aos programas de criação mais
Unidade I - Os saberes, a ciência e os recente, como no caso da UNICAMP, perce-
paradigmas; be-se que se está em busca da melhor ade-
Unidade II - A constituição do campo da quação de conteúdos, a fim de abranger uma
saúcle coletiva — trajetória; formação teórica mínima em Saúde Coletiva.
Unidade III - A constituição do campo da Dessa forma, as disciplinas obrigatórias irão
saúcle coletiva: disciplinas e temas; tratar da metodologia epidemiológica, bioes-
Unidade IV - Conhecimento e prática em tatística, elementos teóricos de saúde coletiva
saúde coletiva: um desafio permanente. e métodos de investigação em saúde coletiva.
Há disciplinas opcionais e geralmente incen-
Esta última aspecto foi objeto de uma tiva-se, de acordo com os temas de pesquisa
mesa-redonda, visando sistematizar três pon- escolhidos e frente à necessidade de aprimo-
tos: a prática teórica, a prática política e a ramento em determinados aspectos, que se-
prática pedagógica — considerados fundamen- jam feitos cursos em outras unidades e depar-
tais na concepção da saúde coletiva. tamentos da Universidade, ou mesmo em
Já se teve oportunidade de mencionar que outras instituições.
tanto na Escola Nacional de Saúde Pública,
como na Faculdade de Saúde Pública há di-
versas sub-áreas de concentração. O que se Considerações Finais
pode constatar é que o perfil desses cursos
difere daqueles que se desenvolvem no inte- O que se pode perceber claramente é que,
rior dos Departamentos de Medicina Preven- durante as duas décadas que nos separam da
tiva e Social. Não se trata de rever todos os criação dos primeiros cursos em Saúde Cole-
conteúdos desses cursos, mas apontar que tiva, a área conseguiu, em um tempo relativa-
existe uma grande heterogeneidade, embora, mente curto, estabelecer um bem-sucedido
como já foi afirmado, haja um certo núcleo ¬ processo de institucionalização. Há, sem dú¬
vida, um amplo caminho a percorrer, mas já dade de delimitar de forma clara e acabada o
existe um quadro de realizações que permite seu âmbito de práticas e saberes. Gonçalves
avaliá-lo como altamente positivo. Esta apre- (1991), destacava que, entre outras ocorrênci-
sentação tratou exclusivamente da pós-gradua- as na década de 80, haviam surgido outros
ção stricto sensu; e, em relação a esse proces- recortes da realidade que não tomavam a
so, uma questão a ser ressaltada é a presença doença como parâmetro. Estão entre estes a
da especialização, com a conseqüente tendên- "saúde da mulher", a "saúde do trabalhador",
cia à formação de áreas de concentração. De a "saúde do deficiente", a "saúde mental" e,
outro lado, chama a atenção o fato de que a acrescente-se, o mais recente, a "saúde ambi-
demanda atual de caráter multiprofissional ental". Para o autor, a constituição dessas
conduz, necessariamente, à criação de um reflexões e práticas foi decorrência da partici-
núcleo comum para os cursos onde já exis- pação ativa de muitos grupos da sociedade,
tem tradicionalmente áreas de concentração da atitude crítica, da interação militante e da
e, nos cursos onde não existem essas áreas, multidimensionalidade de enfoques.
o fortalecimento de disciplinas básicas de Possivelmente, as características dos cur-
caráter geral. Nessa direção, a existência de sos de pós-graduação destacadas neste traba-
disciplinas sobre metodologia científica e fi- lho impedem, até certo ponto, que se propo-
losofia da ciência são de fundamental impor- nha um modelo único para a sua organiza-
tância, não devendo nos esquecer que a pre- ção. Assim, ao assumirmos a necessidade de
sença das ciências humanas tem balizado o diversificação interna, provavelmente concor-
campo da saúde coletiva. Birman (1991), na remos para uma maior efetividade da "espe-
apresentação de Physis - Revista de Saúde cialização" dessa área, a qual, a partir de uma
Coletiva, enfatizava que " a c o n s t i t u i ç ã o do perspectiva geral, poderia estabelecer, na
discurso t e ó r i c o d a s a ú d e c o l e t i v a , com a i n t r o - expressão de Foucault (1972), os seus "dis-
d u ç ã o das ciências h u m a n a s no c a m p o da cursos parcelares". Ao demarcar e analisar as
s a ú d e , reestrutura as c o o r d e n a d a s desse c a m - "formações discursivas" inerentes a cada cam-
p o , d e s t a c a n d o as d i m e n s õ e s s i m b ó l i c a , ética e po, poder-se-ia nesse grupo de enunciados
p o l í t i c a , d e f o r m a a revitalizar o d i s c u r s o b i o l ó - " d e m a r c a r e definir u m referencial, u m tipo de
g i c o " . A mesma proposta aparece também no desvio enunciativo, u m a rede teórica, u m c a m -
Editorial da Revista Saúde e Sociedade (1992), po d e p o s s i b i l i d a d e s e s t r a t é g i c a s " .
ao destacar o caráter multidisciplinar da Saú-
Isto, com toda certeza, não invalida o que
de Coletiva e a necessidade de abrir "maior
tem sido discutido e exposto pelos especialis-
e s p a ç o p a r a as á r e a s d a s c i ê n c i a s humanas
tas, mas reforça a posição que afirma, como
cuja contribuição a o c a m p o da Saúde Coletiva
Frenk (1992), que: " A saúde é um ponto de
a p r e s e n t a - s e como p r i m o r d i a l " .
e n c o n t r o . Aí c o n f l u e m o b i o l ó g i c o e o s o c i a l , o
Ainda, como lembra Birmam (1991), é indivíduo e a c o m u n i d a d e , a política social e a
importante que o campo teórico da saúde e c o n ô m i c a . A l é m d e seu v a l o r intrínseco, a s a ú d e
coletiva promova " u m a leitura d i f e r e n c i a d a d a s é u m m e i o para a realização pessoal e coleti-
relações e s t a b e l e c i d a s e n t r e n a t u r e z a e s o c i e - v a . C o n s t i t u i , p o r t a n t o , u m í n d i c e d o êxito a l -
d a d e p o r o u t r o s s a b e r e s , já q u e , q u a n d o iso- c a n ç a d o pela s o c i e d a d e e suas instituições d e
l a d o , o d i s c u r s o naturalista e n c o n t r a limites p a r a g o v e r n o na busca d o b e m - e s t a r q u e , n o f i m das
realizar este t r a b a l h o " . Tornar-se-ia repetitivo c o n t a s , é o sentido ú l t i m o d o d e s e n v o l v i m e n t o " .
insistir que, por ser uma área profundamente Para isso, deve-se estar atento à forma-
marcada pela diversidade e historicidade dos ção de recursos humanos que possam estabe-
objetos c o m que trabalha, a saúde coletiva lecer uma reflexão crítica contínua acerca da
vê-se, continuamente, às voltas c o m a dificul¬ realidade de saúde, com base em um crescen¬
te aprofundamento conceituai e teórico, a fim sanitários, procurando conciliar ao saber aca-
de que a identificação clara e objetiva dos dêmico o saber militante, tão bem explicitado
problemas possa redundar na formulação de por Max Weber em 1918, em duas conferên-
políticas de saúde de cunho democrático e cias magistrais e fontes de sabedoria socioló-
transformador. Esta seria, sem dúvida, uma gica: "A Ciência como Vocação" e "A Política
forma de enfrentar os inúmeros problemas como Vocação" (Weber, s.d.).

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