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Cintia Lima Crescêncio

QUEM RI POR ÚLTIMO, RI MELHOR: HUMOR GRÁFICO
FEMINISTA (CONE SUL, 1975-1988)

Tese submetida ao Programa de
Pós-Graduação em História
(PPGHST) da Universidade
Federal de Santa Catarina (UFSC)
para a obtenção do Grau de
Doutora em História.
Orientadora: Prof.ª Dr.ª Cristina
Scheibe Wolff.

Florianópolis
2016

AGRADECIMENTOS

A pesquisa histórica, embora um trabalho solitário, é também
coletivo. Por isso, nada mais justo que pessoas queridas e importantes
sejam lembradas.
À professora Cristina Scheibe Wolff agradeço a confiança e
generosidade. Serei eternamente grata por todas as reuniões de
orientação em que fui tratada com respeito, carinho e incentivo.
Às professoras Joana Maria Pedro, Ana Maria Veiga, Janine
Gomes da Silva, Luciana Klanovicz e Erica Brasil por terem aceitado o
convite para participar da minha banca. Agradeço ainda a professora
Maria Lygia Quartim de Moraes pelas contribuições durante meu exame
de qualificação. Relembro ainda o professor Mark Sabine que me
orientou durante meu estágio em Nottingham, experiência que
contribuiu de maneira definitiva para a construção desta tese.
A todos e todas colegas e docentes da pós-graduação, em
particular Lorena Zomer, minha companheira de caminhada. Agradeço
ainda às maravilhosas componentes do Laboratório de Estudos de
Gênero e História (LEGH). O LEGH é repleto de sorrisos doces e
sinceros, muitas vezes a única coisa que precisamos para seguir.
Às pessoas maravilhosas que tive a oportunidade de conhecer na
ilha: Rochelle Cristina dos Santos, Betty Kammers, Gleidiane de Sousa
Ferreira, Tamy Amorim da Silva, Elias Ferreira Veras, Misael Correa,
Ronaldo Vicente Guimarães, Gabriela Hessman, Soraia Carolina de
Mello, Marcos Luã, Elton Francisco. Agradeço o carinho, todas as
aventuras e cada conversa de bar. Agradeço especialmente Dona Ieda e
seu Nabor que em muitos momentos me receberam no Campeche e
fizeram com que eu me sentisse em casa. À Gizele Zanotto, minha
eterna professora e amiga.
Agradeço ainda à Elizandra Mafra, talvez a pessoa com quem
mais conversei nos últimos meses de construção deste trabalho. Sou
grata, Eliz, pelas duas horas semanais que dediquei a inspirar e expirar
sob tua atenta e afetuosa observação. Um agradecimento especial
também à Heloisa Pereira D‘Angelo, a jornalista/quadrinista/cartunista
que produziu algumas das tirinhas que compõem minha tese.
À(o)s colegas da Universidade de Nottingham que me acolheram,
me apresentaram as maravilhas da comida turca/libanesa/britânica, as
cores do outono, o fish and chips, os formal dinners e o melhor
cheesecake do mundo. Miriam Grossi, Alberto Marti, Rubem Serem,
Rui Miranda, Alexandra Campos, Rino Soares e Manu, obrigada por
terem transformado uma experiência acadêmica em afeto. Ao Ricardo

Rubem Rato Rodrigues, o portuga, agradeço o amor e a infinita
bondade. Agradecimento especial à Jane-Marie Collins que
compartilhou comigo sua sala de aula.
À Erica Brasil que me acolheu em sua casa, em seu escritório, em
sua sala de aula, em sua família. Foram infinitas as conversas, risadas e
tristezas compartilhadas. Foram infinitos os abraços e beijos recebidos
de sua filha, Gabi, uma pequena gigante capaz de conquistar qualquer
coração. Erica e Gabi, obrigada pelo amor, um amor que só encontrei na
19, Bramwell Drive.
Agradeço à minha família, especialmente às mulheres, àquelas
que me ensinaram o valor da autonomia e da independência. Minha irmã
Kendra comemorou como se fossem dela todas minhas conquistas,
prova irrefutável de seu afeto genuíno. À minha vó Vilma que há mais
de 10 anos informa as amigas do crochê que não sou boba, não vou
casar, vou estudar e dominar o mundo. Obrigada por me aceitarem como
sou e por acreditarem em mim. Aos homens da minha vida, Francisco e
Breno, agradeço a chance de aprender a amar.
Minha mãe Denise é responsável por cada linha deste trabalho.
Sua força e coragem é que me permitiram trilhar meu caminho. Sem ela
nada disso teria sido possível.
Ao CNPq e à Capes pelas bolsas de estudo que tornaram minha
pesquisa viável.

[...] ditadores temem mais o riso do que as bombas [...]
Arthur Koestler

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do Brasil. estabelece uma relação complexa com a memória. ao longo do trabalho. através da produção. entre as décadas de 1970 e 1980. Brasil. deixou marcas nas memórias feministas. este trabalho demonstra não apenas a habilidade . a imprensa feminista. publicado e divulgado em periódicos também feministas dos países do Cone Sul. as mulheres são responsáveis pela criação de extenso conteúdo humorístico com perspectiva feminista. assim. ao contrário do que os cânones indicam. do Uruguai. o que fica evidenciado por depoimentos que apontam lembranças muito sutis sobre esta vasta produção. Tal modalidade de humor. como produtoras de humor. Ao mesmo tempo. momento de ditaduras civis e militares e de emergência dos movimentos feministas. consequentemente. a perpetuação de estereótipos comuns ao humor hegemônico. e de depoimentos de três mulheres leitoras destes jornais. o riso feminista. As feministas do Cone Sul. na medida em que não faz uso da violência simbólica e da ridicularização do outro. através da descrição e análise do humor gráfico feminista. Uruguai e Argentina. principalmente as feministas. contudo. especialmente. Em contextos autoritários. Com tais reflexões pretendo problematizar a produção gráfica humorística feminista de autoria de mulheres – mas também de homens –. conteúdos que apontam um esforço feminista de afirmar as mulheres como sujeitos do humor. políticos e econômicos. O humor gráfico feminista e. exploraram charges e tirinhas de modo a questionar uma cultura que as colocava como objeto de humor. publicação e divulgação do humor gráfico com teor feminista. evitando. Persona. caracteriza-se por uma abordagem particular no tratamento de elementos culturais. contribuiu para a construção de uma cultura do humor e do riso baseada em modelos alternativos de comicidade. procuro compreender de que modo o humor com perspectiva feminista foi explorado. nunca como seu sujeito. Nós Mulheres e Mulherio. Bolívia. Por meio de tais reflexões foi possível reconhecer que. RESUMO O presente trabalho tem como objetivo analisar o uso do humor gráfico feminista produzido. sociais. Para isso. pautado na agressividade do riso do opressor. La Escoba. como ferramenta subversora entre os anos 1975 e 1988. procuro identificar. da Bolívia. da Argentina. o humor hegemônico. Contrariando visões que ignoram a existência de mulheres. indícios que demonstrem a potencialidade das mulheres feministas na produção do humor e do riso. Cotidiano Mujer e La Cacerola. A partir de charges e tirinhas – entendidas como discursos – que integram os jornais Brasil Mulher.

Memórias. . Sujeitos do humor. como também sua capacidade em construir uma modalidade de humor que pode revolucionar estruturas.feminista em fazer rir. Cone Sul. Modelos alternativos de comicidade. Palavras-Chave: Humor gráfico feminista.

Cotidiano Mujer and La Cacerola. Through cartoons and comic strips – understood as discourses – integrated in the newspapers Brasil Mulher. I seek to understand how humour. but also the ability to create a type of humour that can revolutionise structures. throughout the study. although the canon insists in ignoring them. with a feminist perspective. I identify. This sort ofhumour. left scars in feminist memories. was explored. La Escoba. doe snot explore symbolic violence and is not used to mock others. from Bolivia. while setting a complex relationship with memory. mainly. For that. In authoritarian contexts. The feminists from the Southern Cone. published and released in feminist newspapers in the Southern Cone countries. Feminist graphic humour and. Uruguay and Argentina. contributed to making a culture of humour and laugh based on alternative comic patterns. however. social. . At the same time. never as the subjects. avoiding. as can be noted in the testimonies noting subtle remembrances about this extensive production. as humour producers. describing and analysingfeminist graphic humour. therefore. ABSTRACT This study aims to analyse the use of feminist graphic humour produced. the feminist press. political and economic elements. Nós Mulheres and Mulherio. hegemonic humour. and through three testimonies of women readersof these same newspapers. through its production. Bolivia. from Brazil. features a special approach in terms of understanding cultural. Brazil. this study argues that the feminists did not just have a skill for creating laughter. especially feminists. publication and disclosure of feminist graphic humour. containing elements that suggest a feminist effort of claiming women as a subject of humour. the perpetuation of stereotypes that are common in hegemonic humour. feminist laughter. between the decades of 1970 and 1980. From these reflections I intend to recount feminist graphic humour production authored by women – but also men –. evidence that show women‘s potential in the production of humour and laughter. Contrary to points of view that ignore women‘s existence. from Uruguay. accordingly. explored cartoons and comic strips as a way to interrogate a culture that placed them as objects of humour. during civil and military dictatorships and the emergence of the feminist movement. as a subversive device between 1974 and 1988. By means of these reflections it was possible to recognise that women are responsible for the creation of a large humour content with feminist perspective. Persona. from Argentina. based on the aggressive laughter of the persecutor.

Humour subjects. Discourses. Memories. Alternative comic patterns. .Keywords: Feminist graphic humour. Southern Cone.

............................................................................................................................................................................................................. 44 Figura 4 ................................................................................... 167 Figura 38 ..................................................... 102 Figura 16 .......................................... 113 Figura 19 .............................................. 96 Figura 15 ........................................................................ 151 Figura 33 ................................................................... 144 Figura 29 ................................. 72 Figura 11 ................................................................................................................................... 94 Figura 14 ........................................................................................................................................................... 70 Figura 10 ................................................................................................................................................................... 171 ................................................................................................................................................................................. LISTA DE FIGURAS Figura 1 ......................................................................................................................... 165 Figura 37 .................................................................................................. 141 Figura 28 ....................................................................................................................................................................................................................... 145 Figura 30 ..................... 129 Figura 25 ..................... 169 Figura 39 ...................... 128 Figura 24 .................... 122 Figura 21 ............................................................................. 19 Figura 2 .................................................................................................................................................................................... 160 Figura 36 ............................................................... 48 Figura 8 .............................................................................................................................. 46 Figura 6 ..................................................... 81 Figura 13 ............................................................... 158 Figura 35 .................................................... 75 Figura 12 .................................................................................................................................................................................................................................................................. 103 Figura 17 ............................................................................................................... 154 Figura 34 ...................................................................................................................................................................... 67 Figura 9 ................ 112 Figura 18 ............................................................ 123 Figura 22 ................................................................................................... 150 Figura 32 ............................................................................... 47 Figura 7 ..................... 42 Figura 3 .................................................................................................................................................... 149 Figura 31 ........................................................................................................... 131 Figura 26 ................... 139 Figura 27 ................................................. 118 Figura 20 ............. 45 Figura 5 .................................................. 126 Figura 23 ......................................................................................................................

.................................................... 197 Figura 46 .......................................................................................................................................................................................... 176 Figura 42 ....... 270 Figura 76 ............... 173 Figura 41 .............................................. 222 Figura 60 ...................................................................................................................... 226 Figura 62 ................................................................... 207 Figura 52 ................................ 269 Figura 75 ............................................. 243 Figura 64 ............. 273 Figura 78 ............................................................................... 218 Figura 58 ..................................................................................... 228 Figura 63 .................................... 202 Figura 48 ..... 262 Figura 72 ............................................................................ 279 .................................................................................................................................................................................................................... 257 Figura 69 ............................ 194 Figura 44 ........................................................................................................................................... 246 Figura 66 .................................................................................................................. 224 Figura 61 ............................................................................... 258 Figura 70 ........................ 245 Figura 65 .......... 265 Figura 73 ........................................... 196 Figura 45 ........... 192 Figura 43 ......................................................................................................... 200 Figura 47 ........................................................................................................................................................................................................................................................ 268 Figura 74 ...................................... 209 Figura 54 .............................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................. 219 Figura 59 .................................................................................................................................................................................................. 274 Figura 79 ........................................................................................................ 260 Figura 71 ................................................................................... 204 Figura 50 ...........Figura 40 ............................................................................................................................. 215 Figura 56 .............................................................................................................................................................................................................................. 213 Figura 55 ..................................... 203 Figura 49 ................................................................................................ 216 Figura 57 ....................................................................................................... 208 Figura 53 ....................... 278 Figura 80 .......................................................................................... 254 Figura 68 .......... 272 Figura 77 ............................................................................................................................................................................................................................ 253 Figura 67 ................. 206 Figura 51 ........................................................................................................................................................................................................................................

.................. 297 Figura 86 .................................................................................... 283 Figura 84 ................... 292 Figura 85 ......................................................................... 301 .............................................................................................. 280 Figura 82 ............................................................... 282 Figura 83 ............................................................................................................................................................................................Figura 81 ....................

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...........................1 AS MULHERES NO HUMOR GRÁFICO DA IMPRENSA FEMINISTA (por eles) ....................................................... 100 2.................................. 78 2......................1............................ CAPÍTULO 5 .........................1.....2................................................ 251 5.... INTRODUÇÃO ..................... 106 2...........1 AS CARTUNISTAS MULHERES .....................................................3 ESQUECIMENTOS...............................MEMÓRIAS DO RISO........ REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .................. 39 2.1...................4 BOLÍVIA ............. CAPÍTULO 3 ........................................................................ 294 6...................................................... CONSIDERAÇÕES FINAIS ....................................1.........................................................1..... 335 ANEXO A ........................................... CAPÍTULO 2 .......................................................................................................................1 La Escoba ............................2 O RISO COMPARTILHADO ................................................................................................................ 132 3. 89 2.................... 321 9.......................... 19 2............................................................................ 265 6.........1 BRASIL..............2 MARCAS DA MEMÓRIA ...........1 Cotidiano Mujer e La Cacerola ..... FONTES................. 117 3............1........................................................ 136 3........1 Persona ........3 URUGUAI ............................1 Problemas Regionais ...................................................2 O MASCULINO NO HUMOR GRÁFICO FEMINISTA DA IMPRENSA FEMINISTA (por elas e por eles) .........3 As Mulheres do Persona....................1 Brasil mulher e nós mulheres ..........ENTRE TRAÇOS FEMINISTAS ................................. 347 ......... 181 4. 108 3.........2 As Mulheres do Nós Mulheres e do Brasil Mulher ................................................. 191 4........... 62 2.... CAPÍTULO 4 ............. do Cotidiano Mujer (E do Nos/Otras e La Micrófona) ......................... 308 7......... 285 6..............1 DO QUE RIEM AS FEMINISTAS?. 220 5......3.................................................... 315 8........................................... 287 6...IMPRENSA FEMINISTA DO CONE SUL ..................................................................... 189 4...............................1 DA MEMÓRIA AO RISO .................................... 50 2............ 231 5.........................O RISO FEMINISTA...................... 97 2....1 As Mulheres do Mulherio........................................... SUMÁRIO 1................ CAPÍTULO 1 ........OS HOMENS CARTUNISTAS E OS HOMENS NO CARTUM....................................... 211 4. 323 APÊNDICE A .2 Mulherio ......................4..................... 175 4.......................................

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mas latino-americanos. . surge articulado a uma discussão relevante. 19 1. assinada por Ciça. Essas intervenções humoradas não são raras em periódicos feministas do Brasil e de outros países do Cone Sul. Paraguai. mudanças que vinham sendo reivindicadas pelos feminismos das décadas de 1970 e 1980. Mulherio. o homem é ‗ser humano‘ e a mulher ‗será humana?‘.1 pelo contrário. não só brasileiros. Nele as professoras Joana Maria Pedro.. portanto. juntamente a estudantes de graduação. Figura 1 Fonte: CIÇA.. por meio do riso. têm desenvolvido trabalhos financiados pela Capes e pelo CNPq em que o Cone Sul é entendido como sendo composto pelos seguintes países: Brasil. um pintinho questiona sua mãe: ―Mãe. Brasil. doutorado e pós-doutorado. faz uso do desenho. Chile e Bolívia. Uruguai e Bolívia. da inumanidade das mulheres. A tirinha. ao final. Edição 2. 12. Junho-Julho de 1981. Argentina. mestrado.‖ Em expressivo diálogo com o contexto dos movimentos feministas brasileiros do período. Trata-se do vislumbre de mudanças. a galinha responde: ―Pra muita gente. especialmente Argentina. Cristina Scheibe Wolff e Janine Gomes.. Uruguai. p. buscavam problematizar questões pertinentes à causa feminista: 1 Meu recorte geográfico e espacial relaciona-se com as abordagens de pesquisa do Laboratório de Estudos de Gênero e História (LEGH) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). INTRODUÇÃO Em tirinha do periódico feminista Mulherio. impressos como o brasileiro Mulherio e o argentino Persona chegaram a publicar em várias edições colunas de humor em que leitoras e leitores eram contempladas(os) com tirinhas e charges que. da metáfora com animais e de uma linguagem simples para provocar o riso e a reflexão. mas pela imagem reproduzida na sequência. o riso que busca ser promovido não só pelo texto. A constatação de que a mulher ―será humana‖ sinaliza mais do que um jogo de palavras bem humorado. qual é o feminino de ser humano?‖Após uma breve reflexão.

Millôr Fernandes. 3 Didaticamente a história do feminismo tem sido dividida em dois períodos. revista integrante do que se convencionou chamar de grande imprensa. n. através de suas charges e entrevistas. a esse respeito. educação. 2 SOIHET. trabalho doméstico. foi acusado por Rachel Soihet de promover uma espécie de violência simbólica. 2009. pp. Muitos debates são feitos sobre essa cronologia. participação política. Zombaria como arma anti-feminista: instrumento conservador entre libertários. vol. No Brasil. ocupou-se de desqualificar tudo e todas(os) que estariam vinculadas(os) a um dos movimentos sociais mais importantes do século XX. vol. . maternidade. do humor e da piada como instrumentos políticos válidos de transformação. a imprensa alternativa. as centenas de charges e tirinhas que localizei na pesquisa para elaboração desta tese em periódicos feministas do Brasil. 609. Argentina. nos períodos de ditaduras. do riso. o objetivo deste texto é analisar essa produção a partir de seu conteúdo humorístico feminista. uma vez que ela pode causar certa homogeneização. que trabalhou entre 1969 e 1975 no O Pasquim. A segunda onda emergiu nos anos 1960 e tinha como bandeira principal a luta pelo controle do corpo sob o mote ―o pessoal é político‖. n. cenário de emergência dos feminismos de segunda onda. Rachel. Clare. 3. 2005. setembro-dezembro. Isto é. 13. Ver. Nesse sentido. por meio do humor. na medida em que o levantamento da documentação demonstrou um fértil campo de pesquisas ainda inexplorado. pouco teria se esforçado para publicizar a causa feminista. chamados de ―ondas‖. e entre 1968 e 1982 em Veja. Uruguai e Bolívia.20 mercado de trabalho. pp. da chacota e da piada. mais especificamente O Pasquim (1969- 1991). 215-241. A primeira onda feminista emergiu entre os séculos XIX e XX e tinha como marca a luta por direitos civis. incluída a brasileira. Estudos já se dedicaram a refletir sobre décadas de antifeminismo na imprensa que. religião. 1. recebeu das pesquisadoras do campo dos estudos de gênero o desonroso título de machista e misógino. sexualidade. Já a imprensa feminista do Cone Sul. ainda não foi alvo de reflexão no que se refere a sua exploração do riso. É a partir desta verificação que esta tese foi pensada.3 ainda não foram significados em uma historiografia que frequentemente acusou o riso e o humor de serem armas de destruição e desqualificação quando o assunto é feminismo. em função de escolher o feminismo como um objeto de crítica. HEMMINGS. de maneira geral. direitos reprodutivos. p. 17. In: Revista Estudos Feministas. Contando estórias feministas. 591-611. teoricamente. contra mulheres que buscavam a transformação social.2 A grande imprensa. In: Revista Estudos Feministas.

de reflexão. Em minha análise dei um tratamento singular à coluna de Millôr. acredito que minha análise sobre o cartunista tinha relação direta com meu desejo de defender o senso de humor feminista. objetivando (des)construir modelos sisudos e mal-humorados que acompanham as mulheres envolvidas nas causas feministas há décadas. de ironia. Depois de quatro anos da defesa de minha dissertação. expectativas de gênero. questiono: não teria a imprensa feminista explorado outras possibilidades de humor. estando ele fadado a ser explorado na luta contra os ideais feministas? O uso do humor gráfico pelos periódicos feministas não é um sinalizador do potencial político e transformador do humor? Penso que os periódicos feministas. cedendo sentidos distintos a seus textos e charges que abordaram o tema feminismo. em função da historiografia ter tratado o cartunista como um dos grandes inimigos das reivindicações feministas. compreendendo-o também como divulgador dos movimentos feministas. de maneira pioneira. preceitos de feminilidade. injustiças sociais. de riso. Ao abordar as variadas colunas da revista. Minha problemática foi pensada a partir de pesquisa que empreendi em minha dissertação de mestrado. trabalhistas e econômicas? Teria sido o humor um instrumento utilizado apenas no combate aos feminismos. intitulada Veja os Feminismos em Páginas (Re)Viradas (1968-1985). visto que o contato com as fontes denuncia seu amplo uso como ferramenta mobilizadora. combatentes de uma ordem social e cultural estabelecida. fizeram uso do humor e do riso como arma de liberação. a coluna de humor assinada por Millôr Fernandes incomodou-me de maneira especial. e não como castigo e insulto a serem imputados a adversários. trabalho que me propus a refletir sobre Veja como divulgadora dos feminismos no Brasil. Na busca por textos que pudessem colaborar na escrita deste trabalho. Nas charges e tirinhas feministas o humor e o riso assume seu potencial político e é este potencial que pretendo explorar. percebi que ainda não existem pesquisas dedicadas a refletir sobre o potencial político do humor e do riso em se tratando da . A partir de tal experiência a reflexão sobre o potencial político do humor e do riso corporificou-se diante do levantamento de charges e tirinhas que busquei nos periódicos feministas. 21 A partir disso. para criticar e contestar modelos institucionalizados de política. colaborou para a construção de uma cultura do riso cuja base era a subversão. O humor gráfico feminista. ao contrário de muitas outras publicações. na medida em que não explorava a violência simbólica e o estereótipo para fazer rir.

me possibilitam construir a hipótese de que o humor gráfico feminista. não só está articulada à emergência de uma forma diferente de fazer jornalismo. integrante do nicho intitulado alternativo. Dessa maneira. no intuito de ceder novos sentidos ao humor e. 24. 2004. Versões e Controvérsias sobre 1964 e a ditadura militar. o que permitiria uma percepção transformada da própria forma de entender a política. p. assim como os periódicos brasileiros. Se o riso do opressor incomoda e castiga.. ampliar nossa visão sobre um período que. publicação pouco afeita às bandeiras feministas. La Cacerola (1984) do Uruguai e La Escoba (1987) da Bolívia são exemplos de impressos que exploraram o humor gráfico como ferramenta de reflexão. Lídia M. O mesmo ocorre quando lançamos este questionamento aos periódicos publicados nos países vizinhos. Florianópolis. In: Revista Estudos Feministas.22 emergência dos feminismos no Brasil e no Cone Sul. Pretendo. p. primou-se por privilegiar as possibilidades ―negativas‖ de charges e tirinhas de impressos como O Pasquim. v. . construí o problema de pesquisa baseada nas ricas possibilidades que as fontes anunciam. caráter que pode apontar para a construção de novos caminhos a serem trilhados pelos movimentos feministas atuais. Carlos. o riso assume uma performatividade transgressora. é tempo de promover o riso do oprimido. explorar as potencialidades que identifico na imprensa feminista do Brasil e de outros países do Cone Sul no que se refere à produção e divulgação de humor gráfico. Um olhar lançado aos três impressos feministas de maior circulação no Brasil. Cristina Wolff e Lídia Possas salientam que a história dos movimentos feministas no Brasil tem frequentemente buscado seus princípios junto a resistência à ditadura e aos movimentos de esquerda. Quando tal mote foi pensado. pp. 13 (3): 320. Vianna.5 Assim como a existência de uma imprensa alternativa estava vinculada ao próprio contexto nacional.. 5 WOLFF. ainda. que resultava em um riso subversivo. 587. setembro-dezembro/2005.] não se restringe à ditadura militar‖. 36. o Brasil Mulher (1975). neste trabalho em que pretendo mapear e compreender a exploração do humor como gesto político. In: Revista Brasileira de História. 29-60. 585-589. o Nós Mulheres (1976) e o Mulherio (1981). pp. nº 47. Escrevendo a história no feminino.4 Em tempos de discussão sobre os politicamente corretos. como aponta Carlos Fico ―[. a imprensa feminista. serviu às mulheres que buscavam contestar a ordem vigente com um olhar feminista. como também à efervescência feminista 4 FICO. portanto. Cristina Sheibe & POSSAS. São Paulo.

pp. Dessa maneira. 2. política e econômica.8 Portanto. É também em função da centralidade do Brasil na análise que o recorte temporal inicia-se em 1975. 215-241. 17. . bem como Chile e Paraguai. n. Ana Alice Alcântara Costa estende tal característica à América Latina. 7 HEMMINGS. 1. Bolívia e Uruguai. principalmente em função do melhor acesso à documentação. para esta pesquisa foi importante que o centro irradiador da análise fosse a imprensa feminista brasileira. a esse respeito. 5. Contando estórias feministas. Apesar de reconhecer rupturas e permanências que podem ser evidenciadas quando pensamos nos feminismos brasileiros e aqueles que se desenvolveram na Argentina. Clare. O movimento feminista no Brasil: dinâmicas de uma intervenção política. não raro. Obedecendo a sugestão de Clare Hemmings que alerta para os perigos da homogeneização quando se trata das ―estórias feministas‖. expressadas por estudiosas inseridas no campo dos estudos feministas e de gênero. 23 pela qual passava o país. 8 Não desconsidero as relações estabelecidas entre os feminismos brasileiros e os feminismos de países como Estados Unidos e França. 9-35. Ana Alice Alcântara. compreendo como essencial a sugestão da história regional que destaca a relevância da relação entre a parte e o todo. 215. Florianópolis. BORGES. bem como as fontes permitem tal relação dialógica. Uruguai e Bolívia. Dissertação de mestrado defendida no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). foram reproduzidas em jornais de diferentes países do Cone Sul. na medida em que não só a bibliografia. 9-35. embora o periódico argentino Persona tenha começado a circular em 1974. 2005.6 Tais impressões. pp. p. 6 COSTA. 2007. Niterói. afirmando que os movimentos feministas distantes de países como Estados Unidos e França desenvolveram um tipo bastante específico de feminismo. p. Charges e tirinhas idênticas. vol. In: Revista Estudos Feministas.7 julgo importante estabelecer o diálogo com a imprensa feminista do Cone Sul. Joana Vieira Borges. 1 sem. mas também os produzidos na Argentina. p. aliado a movimentos de oposição a governos autoritários. Ver. In: Gênero. da maior extensão bibliográfica e do maior número de fontes. Para além do tornar-se: ressonâncias das leituras feminista de O Segundo Sexo no Brasil. confirmam-se quando periódicos feministas do período são folheados e a causa feminista apresenta-se relacionada a problemas de ordem social. neste texto não são contemplados apenas os periódicos feministas brasileiros. v. 13. tanto no Brasil como em países vizinhos. 2009. n. que constantemente entravam em contato com os movimentos feministas brasileiros.

Sonia. O problema de pesquisa que apresento foi pensado em sintonia direta com meu contato com as fontes que. tenho o ano de 1975 como referência. Junho de 1999. quando interrogadas. Vol. os países citados passaram por contextos semelhantes em termos de acontecimentos políticos – ditaduras civis e militares – e de fortalecimento de movimentos sociais – movimentos feministas. a partir do uso do humor pela imprensa feminista brasileira. não configurando uma coleção de fontes significativa. em 9 RECKZIEGEL. além de temporalmente deslocados. 10 Ver. 6 (2). n.24 afirmando-se como de suma importância para estudos comparados. ALVAREZ. Nesta tese invisto em uma perspectiva comparada como tentativa de articular a emergência dos feminismos brasileiros ao feminismo dos países vizinhos. contudo. In: Revista Estudos Feministas. Sendo o Brasil o centro irradiador da análise a datação justifica-se também em função deste país. 265-284. portanto. é difícil analisar estas fontes em função de ter tido acesso a apenas uma publicação de cada país – La Micrófona e Nos/Otras –. proponho a construção de uma rede que. período de ditaduras nos países selecionados para análise. mas eventualmente são acionadas para colaborar com minhas reflexões. Passo Fundo. uma vez que o periódico teve suas atividades interrompidas pouco tempo depois de sua fundação. Uruguai e Bolívia. fizeram amplo uso do humor para problematizar questões caras aos movimentos feministas que se organizaram na segunda metade do século XX. a esse respeito. Ana Luiza Setti. sinalizaram a existência de um universo rico em metáforas. sendo que os exemplares são muito dispersos. In: História: debates e tendências. Sônia Alvarez identifica a existência de feminismos latino-americanos híbridos. Ambos países contaram com interessantes publicações feministas. 21. não são objetos diretos de análise. 1. . 1.10 Nesse sentido. As duas publicações. Os golpes e regimes autoritários tiveram temporalidades diferentes. pp. heterogêneos e multifacetados. História Regional: dimensões teórico- conceituais. 1998. se estenda por outros países do Cone Sul. países que. contudo. 11-22. pp. Argentina. Vol. Feminismos latinoamericanos. no entanto. p. assim como o Brasil. No que se refere ao recorte temporal o foco são jornais feministas publicados entre os anos 1975 (lançamento do brasileiro Brasil Mulher) e 1988 (encerramento das atividades do brasileiro Mulherio).9 Exploro ainda pequenas amostras de impressos do Paraguai e do Chile. O jornal alternativo Persona foi fundado em 1974 e integra minha análise. mas também de emergência dos movimentos feministas no Brasil.

9.jun. entre os anos 1970 e 1980. da piada. 50. Argentina. questão relativamente conhecida. 2007. p. para além dos estereótipos. 14. Henri Bergson destaca o riso como um gesto com significação e alcance sociais que. Elas mostram que. estruturas que foram alvo de vários impressos feministas. serve como castigo que se estabelece por meio da humilhação. pessoas e ideologias. na medida em que não chega a ser novidade os alcances do riso na desqualificação de acontecimentos. . Hobbes e a teoria clássica do riso. p 39-53. 2002. Uruguai e Bolívia. Quentin.12 Na mesma linha de pensamento. São Leopoldo: Editora da Unisinos. jan-. como ferramenta de crítica de temas importantes à causa feminista.13 Apesar de visões que insistem em apontar o riso como um desqualificador. por meio de charges e tirinhas. 25 criatividade e em imaginação. Seguindo as sugestões de Nancy Walker. n. as mulheres engajadas na causa feminista propuseram-se a combater velhos modelos e estruturas com humor. Henri. alia-se a Skinner. 9. produzidas e publicadas pela imprensa feminista do Cone Sul. ao final. O riso: Ensaio sobre o significado do cômico. v. fazendo rir por meio da chacota. culturais e etc. p. Rachel Soihet. Rachel. O humor costuma ser levado em consideração em vista de seu potencial danoso. entendo o humor feito por mulheres e. 1978. em sua pesquisa sobre os preconceitos (re)produzidos nas charges do O Pasquim. sociais. capaz de construir estereótipos e fortalecer-se sobre eles. Considero tal inovação a responsável pela construção de um riso diferenciado. Uberlândia. Preconceitos nas charges de O Pasquim: mulheres e a luta pelo controle do corpo. 13 BERGSON. da ridicularização de algo ou alguém.11 Na perspectiva do autor o humor é compreendido como ferramenta eficaz no combate a certas posturas políticas. 12 SOIHET. 98. Rio de Janeiro: Guanabara. Quentin Skinner destaca que por meio do riso podemos arruinar a causa do adversário e persuadir a audiência por meio do insulto. especialmente feministas. um riso que não se apóia no estereótipo e na zombaria dedicada ao outro. como um ataque aos privilégios e 11 SKINNER.. nesta tese tenho como objetivo principal analisar o uso do humor. As fontes levantadas demonstram mais do que o engajamento político-feminista de periódicos editados em uma fase conturbada da história de Brasil. In: Artcultura. ao apontar o semanário construindo imagens de feministas como feias e homossexuais. p.

14 O riso fruto do humor feminista é. destaca que o riso ―[. subversivo e revolucionário..p. 64. portanto. Hildete Pereira de Melo Hermes de Araujo e Iara Beleli. de reflexão. 15 SMITH. p. 16 BAKHTIN. direitos dos homossexuais e assuntos comunitários‖. Mikhail. 183-184. em tais periódicos.] jamais poderia ser um instrumento de opressão e embrutecimento do povo. American Visions: United States. Esse humor.16 Seguindo a perspectiva proposta pelo autor. contudo. fizeram uso do humor gráfico e do riso como arma de liberação. do intervalo entre as décadas de 1970 e 1980. Ninguém jamais conseguiu torná-lo inteiramente oficial. p. e não como castigo e insulto a serem imputados a adversários. Nancy. A imprensa alternativa. proponho uma breve discussão sobre as memórias do riso que marcaram as lembranças de três mulheres brasileiras e feministas.. pautado na provocação do riso que insulta e castiga. penso que os periódicos feministas. ao contrário de muitas outras publicações. ficção. notadamente: Ana Alice Alcântara Costa. A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. A decisão de explorar também fontes orais tem relação com a necessidade de refletir sobre o riso. São Paulo: Editora HUCITEC.15 Apesar dos temas inovadores que preenchiam as páginas das mais diferentes publicações alternativas. .]‖.. segundo Anne-Marie Smith. o resultado – possível – da 14 WALKER. 1998. boa parte dos impressos alternativos abandonava o humor politicamente desafiador em benefício do humor absurdamente racista e sexista. What’s so funny? Humor in American Culture. O humor. questões raciais. é explorado politicamente. 2000. 81. como apontam Quentin Skinner e Henri Bergson. 2002.. ao dissertar sobre a cultura popular medieval. combatentes de uma ordem social e cultural estabelecida. humor. cultura. Anne-Marie. momento de ditadura nos países do Cone Sul e também de emergência dos feminismos. Um acordo Forçado: o consentimento da imprensa à censura no Brasil.26 a liberdade monopolizada pelos homens. Articulada ainda ao papel intervencionista do humor feminista. feminismo. tinha alguns interesses de cobertura: ―Entre as matérias cobertas pela imprensa alternativa contam- se a política. como gesto subversor. não é o mesmo que pode ser localizado nas diversas publicações feministas do período. Ele permaneceu sempre uma arma de liberação[. notadamente. Mikhail Bakhtin. Rio de Janeiro: FGV. compreendida como o fenômeno de jornais surgidos durante as ditaduras em oposição aos regimes políticos vigentes.

NICHOLSON. In: PINSKY. a esse respeito. de fato. 2009. com muita frequência. na medida em que as leituras que podem ser feitas dos documentos impressos. portanto. Esta reflexão é construída no quinto capítulo da tese e serve como um elemento de crítica muito conveniente a todos os outros capítulos. tal hierarquia fica evidente no esforço de deslocamento do sujeito que é alvo do riso para o sujeito que ri. pp. As mesmas fontes que. . SCOTT. jul. Cuerpos que importan. a esse respeito.18 e das considerações de Judith Butler ao solicitar cuidados com o uso da categoria gênero. Carla Bassanezi. 311. Para 17 Ver. Consciente das colaborações de Joan Scott para a compreensão do gênero como uma construção cultural. o que significa estar atenta às diferenciações que discursivamente constroem noções hierárquicas de masculino e feminino. ao invés de usá-las como objetos Busco nos estudos de gênero ferramentas analíticas que julgo importantes para a construção de uma história feminista que privilegie o humor e o riso como instrumentos de intervenção política. 9-41. Barcelona. de certo modo./dez. 19 BUTLER. São Paulo: Contexto. inclusive nas memórias feministas. 71-99. In: Revista Estudos Feministas.8. 27 produção humorística. Florianópolis: vol. ser considerado subversor e causador de um riso revolucionário.17 dos alertas feitos por Linda Nicholson no que se refere aos perigos do essencialismo. Sobre los límites materiales y discursivos del ―sexo‖. pp. n. o que colabora para reforçar a hegemonia do humor masculino.19 visto que também ela é promotora de exclusões. Na construção das memórias sobre o riso.20 No caso do humor. as marcas que emergem são do esquecimento – do riso feminista – e de uma certa mágoa – do riso machista praticado pelo O Pasquim. entram em choque com os depoimentos das entrevistadas. Nesse sentido. Interpretando o gênero. Joan. é observar de que maneira o humor feminista foi elaborado e por meio de quais características ele pode. PINSKY. a categoria memória é útil especialmente no último capítulo. 18 Ver. também servem para legitimar a hipótese de que charges e tirinhas foram fruto de um esforço de construção de uma cultura do riso que contempla as mulheres. Minha iniciativa buscou evidenciar os modos que diferentes risos marcaram as memórias feministas. mulher e mulheres. Linda. a esse respeito. homem e mulher. Gênero. questionam a potencialidade do humor gráfico feminista. México: Paidós. Judith. Buenos Aires.2/2000. Gênero: uma categoria útil de análise histórica. p. Carla Bassanezi. 2002. 1995. O desafio. 20 Ver. saliento que lanço um olhar de gênero às minhas fontes. Novos temas nas aulas de história. especificamente. In: Educação e Realidade.

Tânia Regina de Luca destaca que o tratamento que deve ser concedido à imprensa em sua apropriação como fonte perpassa outras questões para além da exploração do seu conteúdo. Em se tratando de periódicos alternativos. 2005. o que os torna projetos coletivos. A produção humorística feminista é o motor da história que pretendo narrar. lança-se também o desafio de mapear grupos responsáveis pelas publicações.28 enfrentar tal desafio. pela pesquisa de Amelinha Teles e Rosalina Santa Cruz Leite (2013). no mais das vezes. insinua a necessidade de maiores esforços que são. em parte. . observados. lanço mão de algumas ferramentas metodológicas que colaboram na análise de charges e tirinhas feministas. nesta tese. São as charges e tirinhas que concedem o fio condutor à narrativa. O humor gráfico feminista. mas empreendimentos que reúnem um conjunto de indivíduos. crenças e valores que se pretendem difundir a partir da palavra escrita. História dos.] jornais e revistas não são. argumentativa e. ao incorporar a este texto grande número de periódicos com naturezas distintas. 140. principalmente. por agregarem pessoas em torno de idéias. Segundo a pesquisadora: [. Tânia Regina de. para além de seu status valioso..). todas com foco no cenário alternativo brasileiro. 21 LUCA. O caráter alternativo dos periódicos feministas. crítica e analítica.. o desafio adquire teor ainda mais complexo. facilitados pelas pesquisas de Elizabeth Cardoso (2004). o segundo vincula-se à noção de discurso como uma prática. e o terceiro baseia-se na consideração de que a imagem é também uma prática material constituinte do social. 21 Nessa perspectiva. centro da análise. origens de receita e público leitor. não tem uma função meramente ilustrativa. Ele tem uma função ilustrativa. Em termos metodológicos exploro três pilares básicos: o primeiro está ligado objetivamente à percepção da imprensa não apenas como fonte. pelo trabalho de Bernardo Kucinski (1991). p. ressaltados. In: PINSKY. obras solitárias. São Paulo: Contexto. nem simplesmente argumentativa. nos e por meio dos periódicos. na medida em que proponho que o maior número de elementos possíveis sejam destacados. mas também como objeto. Carla Bassanezi (Org. Fontes históricas.

Eni P. embora todas essas coisas lhe interessem. Campinas. Rio de Janeiro: Forense Universitária. não trata da gramática. como sugeriu Michel Pêcheux. mas aquilo por que. O discurso é assim palavra em movimento. o que o 22 FOUCAULT. relacionar e interpretar montagens sócio-históricas de sentidos. 17. a analista de discurso prima pela observação das redes com as quais os discursos se entremeiam. 2010. 55.. na medida em que essa disciplina propõe o trabalho de análise como descrição e interpretação. Ela trata do discurso. Tal metodologia objetiva o discurso. Michel. etimologicamente. reivindico o caráter de objeto de desejo que o humor encarna. .] o discurso não é simplesmente aquilo que traduz as lutas ou os sistemas de dominação.. 60. p. E a palavra discurso.25 A análise do discurso. SP: Pontes.. Assim. pelo que se luta. 1990. ele é produzido por mulheres e homens a partir de suas subjetividades. visto que a crítica e a reflexão fazem-se possíveis por meio dele. SP: Pontes. O Discurso: Estrutura ou Acontecimento. 25 ORLANDI. o poder do qual nos queremos apoderar‖.24 De acordo com Eni Orlandi a análise do discurso: [. 24 PÊCHEUX.22 Ao analisar os periódicos por meio do humor gráfico. p. p. Análise de Discurso: Princípios e Procedimentos. São Paulo: Edições Loyola. tempos. em que os termos sejam semanticamente analisados e compreendidos. 1996. Arqueologia do Saber. contextos. 2009. Michel. A Ordem do Discurso. compreendo o discurso como prática que forma sistematicamente os objetos de que fala. de movimento. 29 Michel Foucault destacou que ―[. de correr por. que implica o trabalho de explicitar. não visa uma análise linguística puramente.] não trata da língua. Nesse sentido. portanto..23 É em função desta perspectiva complexa de discurso que me aproprio da análise do discurso como ferramenta metodológica relevante aos estudos históricos. p. 23 Idem. 10. prática de linguagem: com o estudo do discurso observa- se o homem falando. de percurso. experiências. Campinas. descrever. O discurso não é estanque. tem em si a idéia de curso.

p. p. propostas cautelares. cultura visual. SP: Pontes Editores. Autoria. 2007.28 a análise do discurso serve a esta tese como instrumento metodológico capaz de enriquecer e aperfeiçoar o tratamento dado ao discurso que. Campinas. pp. 40. op. SP: Pontes Editores.11.. 21.26 [. portanto.] não se trata de transmissão de informação apenas. nº45.30 No entanto. p. nessa disciplina. Autoria. Peter. apresenta-se sempre articulado à exterioridade. O discurso. pois. também estão se produzindo. . temos um complexo processo de constituição desses sujeitos e produção de sentidos e não meramente transmissão de informação. 54. cit.27 Ao apropriar-me de tirinhas e charges como fontes. p.. In: Revista Brasileira de História. Partindo da premissa de que a língua significa porque a história intervém. Ulpiano Bezerra de Menezes vai além e propõe que historiadoras e historiadores lancem o olhar para o campo da visualidade como objeto detentor de historicidade31 e também como documento de 26 Idem.. p.p. Peter Burke alertou para o fato deste tipo de fonte também servir à suplementação e ao apoio dos documentos escritos.30 caracteriza como constituidor de sujeitos e de sentidos. além de considerá-las como produto do meio e como expressão visual. História visual. Ulpiano Bezerra de. São Paulo. 30 BURKE. 11-23. leitura e efeitos do trabalho simbólico. é compreendido como fruto da união entre língua e história. 46. Fontes visuais. no funcionamento da linguagem. consequentemente. Bauru: Edusc. 27 ORLANDI. Campinas. Balanço provisório. 31 MENEZES. Testemunha ocular: história e imagem. 2004. não apenas para leitoras e leitores. como também para sujeitos produtores(as) que ao produzirem sentidos. 2003. 29 Ibidem. v. leitura e efeitos do trabalho simbólico.29 Já no que concerne ao uso de imagens para a construção da narrativa histórica. a provocação de um riso singular. 28 Idem. entendo- as como dispositivos capazes de constituir sujeitos e sentidos. 233. que põe em relação sujeitos e sentidos afetados pela língua e pela história. 23. 2007. Nas fontes selecionadas essa construção perpassa um modelo particular de humor e.

33 De maneira complementar também são utilizados o Nos/Otras (1983-1988). As fontes que desencadearam meu problema de pesquisa. periódicos brasileiros. de produção. notadamente nas décadas de 1970 e 1980. mas que através das lentes da história e de suas possibilidades metodológicas. Portanto. em São Paulo. A prioridade é. o que fica evidente nos quatro primeiros capítulos. 31 ―natureza discursiva‖. paraguaia. 33 Os periódicos brasileiros podem ser encontrados em sua forma física no acervo do Centro de Informação da Mulher (CIM). Cotidiano Mujer (1985-1986) e La Cacerola (1984-1988). Como já expresso. o último. distribuição. assume novas formas. mais especificamente sete publicações feministas que circularam durantes as ditaduras civis e militares dos países do Cone Sul. foram as fontes impressas. é a partir da articulação de três perspectivas teórico- metodológicas que pretendo explorar charges e tirinhas. esta tese se construiu com base em fontes impressas. Também fontes orais foram exploradas e são representadas por três entrevistas analisadas especialmente no quinto capítulo. p. as imagens precisam ser compreendidas no seu contexto amplo. Nós Mulheres (1976-1978). Mulherio (1981-1988). notadamente. Uma série de outros jornais compõem o acervo do LEGH. as ferramentas analíticas da análise do discurso e a compreensão da imagem para além do seu caráter ilustrativo.32 Assim. . portanto. porém minha seleção foi baseada na produção e divulgação de humor em 32 Ibidem. são elas: Brasil Mulher (1975-1977). autoria. Conto com a coleção completa apenas dos brasileiros Nós Mulheres e Mulherio. 16. sendo que as datas apontadas indicam o intervalo que abrange os exemplares que tive disponíveis para análise. boletim boliviano. trajetória. Persona (1974-1986). Tais periódicos fazem parte do acervo do Laboratório de Estudos de Gênero e História (LEGH) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). periódicos uruguaios. bem como em seus sentidos iconográficos. La Escoba (1987). Eles foram digitalizados e atualmente encontram-se disponíveis para consulta. da mesma maneira que outras fontes. publicação chilena e La Micrófona (1990). é possível a construção de diferentes sentidos para uma documentação produzida com o objetivo de fazer rir e refletir. Penso que com o estabelecimento de uma relação entre a utilização da imprensa como fonte e objeto. refletir sobre a produção e a diulgação do humor gráfico no contexto de ditaduras e emergência dos movimentos feministas. periódico argentino.

em Florianópolis. dentre elas as professoras universitárias: Hildete Pereira de Melo Hermes de Araujo. suas relações com os periódicos alternativos e feministas da época. Com base na pesquisa de Elizabeth Cardoso (2004) é possível supor que muitos periódicos brasileiros ficaram de fora do meu levantamento. REF 20 Anos: Militância e Academia nas Publicações Feministas. ingenuamente esperava que Hildete. em especial. Porém. Referindo- se apenas ao Brasil pós-1974 a autora identifica 75 jornais feministas . periódicos e humor. e seguiram um breve roteiro elaborado por mim. Entretanto. não pode ser articulada aos outros países. o trabalho com história oral não se constrói de tal modo e fui surpreendida com memórias passageiras ou nulas no que se refere ao humor e ao riso feminista. Procurei priorizar jornais com coleções mais vastas. impressos durante a ditadura ou em períodos de redemocratização e no formato alternativo.32 periódicos feministas. No roteiro procurei contemplar suas trajetórias no feminismo. Ana Alice e Iara confirmassem o humor feminista como uma ferramenta de subversão sem igual. bem como suas memórias sobre o uso do humor nas publicações do período. que conversaram comigo nos intervalos do evento e me autorizaram a fazer uso da transcrição de suas falas. no entanto. Os depoimentos das mulheres entrevistadas enriqueceram de maneira tão direta o meu olhar sobre as fontes que decidi que eles deveriam compor um capítulo da tese. . evento que trouxe uma série de mulheres feministas à cidade. ocasião em que ocorreu o evento em comemoração aos 20 anos da Revista Estudos Feministas. No tratamento e organização das fontes outra preocupação emergiu: como as leitoras e produtoras dos jornais rememoram o humor feminista? Que tipo de memórias são acionadas quando o tema é humor e feminismo? Para tentar responder tais perguntas realizei três entrevistas entre os dias 8 e 9 de novembro de 2012. destaco que o número de charges e tirinhas localizadas nos sete periódicos em destaque é suficiente para o desenvolvimento desta tese. Destaco. que as entrevistadas são brasileiras e tal discussão. com ênfase nos motes feminismos brasileiros. sendo este o critério de seleção das entrevistadas. Ana Alice Alcântara Costa e Iara Beleli. As entrevistas tiveram um caráter temático. uma vez que não foram levantadas outras fontes orais. assumidamente feministas. como pode ser observado nos apêndices e na grande quantidade de imagens que compõem o texto. Todas elas se declararam leitoras de periódicos alternativos que circulavam no Brasil entre as décadas de 1970 e 1980. Confesso que minhas expectativas em relação às entrevistas eram outras.

habita vastas lembranças. minha problemática se mostrou solitária. uma vez que meu foco é o humor feminista. A construção da proposta de pesquisa sobre o humor feminista foi empolgante e animadora. 99. uma vez que o humor gráfico feminista na narrativa das entrevistadas foi marcado por esquecimentos. Tornou-se um problema ético e histórico integrar as fontes orais ao trabalho. São Paulo: Letra e Voz. algumas temáticas caras às minhas preocupações são abordadas em pesquisas já realizadas: movimentos feministas no Brasil e no Cone Sul. potencial político e subversivo do humor. O levantamento de um rico arcabouço de fontes e a constatação de seu ineditismo histórico. 2011..] a história de gênero e a história oral caminham de mãos dadas na ampliação do território da História e na renovação de seus objetivos e métodos de estudo‖34 optei por explorar as entrevistas e não apenas utilizá-las como alerta para a análise das fontes impressas e. já que elas não haviam sido exploradas de maneira direta – uma vez que apareciam eventualmente como ilustração de algum artigo. é uma demanda importante. A pequena amostra de entrevistas apontou poucas memórias sobre o uso do humor gráfico nos jornais feministas brasileiros. . A memória entre a política e a emoção. Luisa. dissertação ou tese – deram-me a certeza da importância da minha proposta de pesquisa. charges e tirinhas como fontes históricas. por si só. imprensa alternativa em tempos de ditadura. os depoimentos me mostraram que a pesquisa sobre o humor e o riso feminista. O desafio que teve início com os depoimentos que insinuavam memórias muito fluidas sobre a produção e divulgação do humor gráfico feminista se estendeu ainda quando iniciei a revisão bibliográfica sobre o assunto. Reconhecendo os significados que esquecimentos e lembranças apontam. por exemplo. exploro as entrevistas de modo a demonstrar os desafios da construção de uma cultura do riso feminista diante de um cenário – humorístico – dominado pelas formas de rir e provocar o riso dos homens. enquanto o humor antifeminista de O Pasquim. contrastando diretamente com minha excitação em explorar a construção de um humor gráfico feminista que procurava deslocar-se dos modelos de humor dominados pelos homens. ao final. 33 Ciente que ―[. 34 PASSERINI. De todo modo. de algum modo. p. Muito embora tenha localizado uma série de trabalhos que colaboram significativamente para a construção da tese..

as dissertações e teses defendidas no Programa de Pós-Graduação em História (PPGH) da UFSC e vinculadas ao LEGH merecem um destaque especial. são fundamentais para a construção do dialogo que procuro fazer entre os feminismos e o humor. As companheiras de laboratório são. Os esforços das companheiras de laboratório. A análise empreendida pela pesquisa sobre o humor do O Pasquim. também colaborou ostensivamente com a construção do meu problema de pesquisa e.34 No que se refere aos temas movimentos feministas no Brasil e no Cone Sul e imprensa alternativa em tempos de ditadura. destaco especialmente: a dissertação de Elizabeth Cardoso intitulada Imprensa feminista brasileira pós-1974. Seus artigos e livros foram fundamentais para a escrita desta tese e. contribuem de maneira muito significativa para a problematização do meu objeto de pesquisa. destaca a construção da imprensa feminista no Brasil através de análise detalhada dos jornais e uma série de testemunhos. A discussão historiográfica sobre o tema humor e riso em específico se mostrou bastante penosa. Há ainda uma série de outras pesquisas acadêmicas que contribuem para a construção desta tese. elemento que é desenvolvido durante a tese. com a tese como um todo. citadas com frequência. que identificam elementos fundamentais nos feminismos de segunda onda brasileiros e dos outros países do Cone Sul. é importante mencionar as pesquisas de Joana Maria Pedro e Cristina Scheibe Wollf. de 2013. Da Guerrilha à Imprensa Feminista. Os artigos publicados por Rachel Soihet são instrumentos essenciais para a compreensão do humor como construção masculina. o que culminou em uma tese que se dedica a apontar o humor feminista como um gesto subversor. explora depoimentos e vasto levantamento de documentação. As pesquisadoras têm desenvolvido um trabalho importantíssimo de mapeamento e articulação no que se refere a história dos feminismos do Cone Sul. liderado pela professora Rachel Soihet entre os anos 2003 e 2006. de Rosalina Santa Cruz Leite e Amelinha Teles. sem nenhuma dúvida. portanto. consequentemente. coordenadoras do LEGH. bem como o uso sistemático dos mesmos periódicos feministas que exploro em minha pesquisa. Já com enfoque no tema humor. de 1991. em Jornalistas e Revolucionários. Bernardo Kucinski apresenta um panorama da imprensa alternativa brasileira entre os anos 1960 e 1980. de 2004. o projeto Zombaria como arma antifeminista: Rio de Janeiro (década de 1960 aos anos 1980). motivou e despertou meu interesse pelo tema humor. certamente. uma vez que não são muitos os . No tema movimentos feministas e imprensa alternativa.

Elias Thomé. capítulos e projetos citados colaboraram para a construção desta tese. Apesar disso. O primeiro. . mas durante o primeiro levantamento bibliográfico as pesquisas de Elias Thomé Saliba e Florência Levín. especialmente. também se prestou a desconstruí-los. mais do que como um estado de espírito. visto que debate sobre os limites do representável ao analisar charges que têm como temática a repressão clandestina na ditadura argentina. o livro Hobbes e a teoria clássica do riso (2002). o humor – cada uma opta por uma ou mais categorias para se referir ao que faz rir – como um problema histórico. são eles: Imprensa. o famoso A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento (2002) de Mikhael Bakhtin. Humor e Caricatura organizado por Isabel Lustosa e publicado em 2011 e Uma História Cultural do Humor publicado em 2000 e organizado por Jan Bremmer e Herman Roodenburg. humano. a obra O riso e o risível na história do pensamento (2011) de Verena Alberti. me permitiu fazer uma série de relações entre humor feminista e uma modalidade de riso que se baseia em questões identitárias e. 2002. em obra sobre a representação humorística nas primeiras décadas do século XX no Brasil. notadamente. Em se tratando do tema humor feminista. Estas publicações apontam o riso. As dissertações. intitulada Raízes do Riso e publicada em 2002. A representação humorística na história brasileira: da Belle Époque aos primeiros tempos de rádio.35 Já Florência Levín levanta outras discussões sobre o riso e o humor no texto En los limites de lo representable. São Paulo: Companhia das Letras. em estereótipos. filosófico. artigos. 35 trabalhos que abordam o assunto. mas também 35 SALIBA. Cabe destacar ainda a obra O Riso (1978) de Henri Bergson. deram mais sentido às minhas propostas. inicialmente nada localizei. tangenciando minhas preocupações e alertando para perigos e soluções teóricas e metodológicas. Dois livros em especial mostraram-se importantes por trazerem coletâneas de artigos sobre humor e riso. funcionando como uma visão de mundo. p. Elias Thomé Saliba. 15. o cômico. teses. Raízes do Riso. de certo modo. Sua pesquisa aborda o Clarín e destaca que o humor trazido pelas charges publicadas pelo jornal permitiram a leitoras e leitores terem acesso a cenários silenciados e ocultados. acredito que foi possível construir uma bibliografia interessante sobre o tema. livros. apontou que se o humor serviu ao reforço de estereótipos. de Quentin Skinner.

A Very Serious Thing: Women‘s Humor and American Culture de 1988 e What’s so funny? Humor in American Culture de 1998. que tive acesso ao texto do autor. tivesse optado por não escrever o capítulo que.37 Elas foram construídas em diálogo com alguns dos debates levantados na tese e 36 LEVÍN. por último. Víctimas. Foi durante o doutorado sanduíche na Inglaterra. 1-25. de 1991. verdugos y mecanismos de larepresíon clandestina em la óptica de los humoristas del diário Clarín. 37 Heloisa Pereira D‘Angela é jornalista. a História. esta tese não é composta apenas por textos escritos. Prepared for delivery at the 2010 Congress of the Latin American Studies Association.com/Helozinhaflora/?fref=ts Acesso em 15 de março de 2016. Foi com o olhar aguçado do autor sobre as nuances da memória que me permiti construir o capítulo 5. . entre tantos outros. em 2015. talvez. agora. 1973-1983‖. The Frames of Comic ‗Freedom‘ que permitiu a construção da categoria humor feminista. Sem ele. fontes. Canada October 6-9. Ver. dedicado a refletir sobre as marcas deixadas pelo riso nas memórias de três mulheres feministas. https://www. o Esquecimento publicada em 2011 por Paul Ricoeur. percebo como fundamental a toda a análise que foi feita das fontes impressas. ―En los limites de lorepresentable. Toronto. No período que passei na Universidade de Nottingham adquiri mais de 15 obras que versavam especificamente sobre humor feito por mulheres e também por feministas. p. Florência Paula. They used to call me Snow White: women‘s strategic use of humor. categorias de análise e bibliografia. Foi sua introdução. a esse respeito. Ressalto.facebook. a obra Carnival. quando tive a oportunidade de ampliar de fato a bibliografia sobre o humor feminista. Por acreditar na potencialidade do humor feminista em termos políticos e históricos. cartunista e criadora da personagem Helôzinha. Ao longo das próximas páginas são apresentadas cinco tirinhas roteirizadas por mim e produzidas pela cartunista Heloisa Pereira D‘Angelo. 11. pp. Ressalto especialmente os livros de Nancy Walker. Por último faço menção a obra A Memória.36 violentos e chocantes. de Regina Barreca. Foi sua leitura e uma série de outras reflexões que motivaram que a discussão sobre as memórias e os esquecimentos do riso encerrassem a tese.36 Ambos inspiraram e confirmaram minha confiança nas charges e tirinhas feministas ao mostrarem que o humor serve à desconstrução e à problematização de assuntos considerados sérios. de Trina Robbins a coletânea The Great Women Cartoonists de 2001. de Umberto Eco. 2010.

notadamente o masculino. No capítulo 2. . São ainda apontadas especificidades de cada jornal em termos de produção e divulgação de humor gráfico feminista. como também a necessidade do humor em tempos difíceis. nomeado Os Homens Cartunistas e os Homens no Cartum. os esquecimentos e os ressentimentos despertados pelo riso em mulheres feministas que viveram a militância política durante a ditadura civil-militar brasileira. No capítulo 5. intitulado O Riso Feminista. No capítulo 4. procurei sistematizar informações sobre mulheres cartunistas que produziam humor gráfico entre os anos 1970 e 1980 e tinham seus trabalhos publicados pela imprensa feminista. exploro o papel desempanhado por cartunistas homens na produção de humor gráfico com perspectiva feminista. Entre Traços Feministas. disserto sobre a história da imprensa feminista em articulação com o contexto de ditadura e de emergência dos feminismos de segunda onda. procurei analisar teoricamente e através das fontes a construção de um humor feminista que visava um resultado que subvertia modelos de riso já conhecidos. Memórias do Riso. 37 demonstram não apenas a habilidade das feministas contemporâneas em fazer humor. No capítulo 3. disserto sobre as memórias. No capítulo 1. A Imprensa Feminista do Cone Sul.

38 .

Na Argentina. uma série de pesquisas tem empenhado esforços em demonstrar que os feminismos emergidos por aqui não se tratavam de uma cópia estrangeira. a exemplo do Movimiento de Liberación Femenina (MLF). eminentemente árduo. No caso da Bolívia os movimentos feministas organizaram-se de maneira sistemática a partir da década de 1980. 39 2. auto-biografias e entrevistas são algumas das fontes que atualmente permitem um maior conhecimento sobre a história dos movimentos feministas que se organizaram abaixo da linha do Equador. panfletos. Muitas pesquisas. mal acabada e atrasada em relação ao feminismo dos países desenvolvidos. Com tal trabalho de pesquisa. antes dos anos 1960. Sem desconsiderar os estímulos externos. O Uruguai. não é complexa se as fontes estiverem disponíveis. mas também a formação de redes e pautas comuns entre países frequentemente acusados de copiar a fórmula de movimentos feministas estrangeiros. mas apenas no começo da década de 1980 movimentos sociais conseguiram se organizar. as fontes podem ser interrogadas e trazer esclarecimentos sobre um dos movimentos sociais mais importantes do mundo. Essas mesmas fontes apontam. é uma atividade árdua.IMPRENSA FEMINISTA DO CONE SUL Os movimentos feministas que emergiram a partir dos anos 1970 no Brasil. Tal tarefa. já avançava nas políticas que beneficiavam os direitos das mulheres. periodização fruto de golpes e ditaduras repetidas que conservavam um . grupos efetivamente feministas começaram a vir a público depois de 1975. dentre elas da agitação feminista que se estabeleceu na Europa e nos Estados Unidos na segunda metade da década de 1960. algum nível de relacionamento entre os movimentos que se construíram dentro do Cone Sul. para a surpresa de muitas leitoras e leitores. CAPÍTULO 1 . A (re)invenção dos movimentos feministas do Cone Sul é diretamente articulada a golpes civis e militares que instauraram décadas de regimes autoritários em países que já esboçavam certa efervescência de grupos de mulheres. no início da década. No Brasil mulheres se organizavam no Movimento Feminino pela Carestia (MFPL) ainda no início da década de 1970. O levantamento de fontes sobre a história dos feminismos nos países do Cone Sul. já se fundavam organizações feministas. no Uruguai e a partir dos anos 1980 na Bolívia. criado em 1972. foram construídos a partir de uma série de influências. livros. na Argentina. o feminista. sem nenhuma dúvida. Periódicos feministas. especialmente nas duas últimas décadas. têm reunido uma série de documentos que auxiliam na construção de hipóteses sobre essas histórias. essa sim.

no exílio. presidente que anulou o Ato Institucional Número 5 (AI-5). alguns deles com edições efêmeras que duravam poucos números. pp. In: PEDRO. p. Narrativas do feminismo em países do Cone Sul. 115-137. Joana Maria. Muitos outros jornais foram produzidos e publicados. do Persona. nos seguintes modos: na participação de grupos de resistência às ditaduras.40 cenário político de muita instabilidade. e do Cotidiano Mujer e La Cacerola no Uruguai. 2010. o que articula às experiências nos movimentos de resistência ao desenvolvimento de um pensamento feminista no Brasil e países vizinhos. Luta armada. WOLFF. produziram algum tipo de material impresso com periodicidade que visava combater as ditaduras. A imprensa feminista é que especialmente interessa a esta pesquisa. no Brasil. A escolha destes sete jornais como fontes não se deu em função de sua duração. Florianópolis: Mulheres. destaca que a identificação com os feminismos deu-se basicamente. como o próprio Persona fundado antes do golpe militar argentino e retomado no período da redemocratização. 134. É o caso do Brasil Mulher. . bem como no Chile e Paraguai. através da influência de outras mulheres. Cristina Scheibe (Orgs. Os golpes e os regimes civis e militares que marcaram os países do Cone Sul na segunda metade do século XX interromperam. atrasaram. Nós Mulheres e Mulherio. Sem exceção. todos os países do Cone Sul. a última já em contextos de sutil abertura. o autoritarismo. por meio da luta por direitos humanos.). feminismos e ditaduras no Cone Sul. amorteceram a manifestação pública. nem por alinhamento a uma ou 38 PEDRO. do La Escoba na Bolívia. países que não são objetos desta pesquisa. nas universidades. guerrilha e imprensa feminista. incluidos Paraguai e Chile. na Argentina e no Uruguai. nem por sua vendagem. o gozo dos direitos. Joana Maria Pedro. uma vez que ela produziu e divulgou humor gráfico com conteúdo feminista. como no caso brasileiro em que os primeiros jornais foram criados depois da eleição do general Ernesto Geisel. Outros tiveram vida longa. reforçar a importância da democracia e proliferar vozes de mulheres e feministas.38 Quantitativamente é o primeiro item o mais recorrente. ao analisar narrativas de mulheres que viveram a emergência dos movimentos feministas no Brasil. Gênero. na Bolívia. na Argentina. No embate com regimes autoritários emergiram os movimentos feministas do Cone Sul e as formas de combate foram variadas. Maria Joana. mas também criaram novos espaços de mobilização e resistência. através da participação em grupos de consciência.

41 outra corrente feminista. Alguns com certa timidez. revolução em contextos duplamente opressores para as mulheres. não apenas em nível temático.39 A emergência do feminismo também é diversa. o riso. no Uruguai foram 12 anos. A imprensa feminista acompanhou tal emergência que. quando a violência do regime já diminuía. As temporalidades das ditaduras dos quatro países destacados para análise não são as mesmas: a ditadura na Argentina durou 8 anos. entre 1976 e 1983. apesar do país viver avanços de políticas para as mulheres anteriores à decada de 1960. entre 1964 e 1985. por sua vez. por exemplo. direta ou indiretamente. na Bolívia no começo dos anos 1980 e no Uruguai depois de 1980. era 39 Ibidem. . 116. como instrumentos de subversão. entre 1973 e 1985. na Bolívia foram 18 anos. o que sugere que as feministas de diferentes países liam umas às outras. no Brasil foram 21 anos. Nenhum dos jornais selecionados destacou-se pela criação de uma linguagem inovadora em termos de humor. como o fez O Pasquim. mas em coluna de sua edição número 17 defendeu a necessidade das mulheres rirem e fazerem rir. uruguaio fundado em 1985. no Brasil depois de 1975. acompanhava o recrudescimento ou o abrandamento dos regimes em termos de liberdades e direito de manifestação. Cotidiano Mujer. com algumas interrupções. mas também em termos de troca e reprodução. Mas todos eles exploraram o humor e. o humor gráfico feminista é mais um elemento que pontua as articulações dos feminismos dos quatro países. Entrevistas já indicam o estabelecimento de relações. como o caso do brasileiro Mulherio. Outros de maneira escancarada. consequentemente. entre 1964 e 1982. Seu conteúdo humorístico era relativamente modesto. por que não. como o Brasil Mulher. Na Argentina os movimentos organizados surgiram na primeira metade da década de 1970. mas sim porque todos eles exploraram o humor gráfico com perspectiva feminista em suas páginas. Joana Maria Pedro destaca que além do exílio nos Estados Unidos e Europa. a formação de base e a preocupação com a luta de classes não permitia e não via validade ou função na exploração do humor. libertação e. fundado em 1981. fundado em 1975 e com forte comprometimento com organizações de esquerda. bem como as experiências de mulheres exiladas nos países vizinhos. não explorava a linguagem do humor gráfico com grande intensidade. p. Apesar das temporalidades diversas.

Os exemplos que trago na sequência são todos posteriores aos anos 1980. p. Nas próximas páginas o intuito é destacar o contexto de ditadura e de produção de cada um dos jornais.42 comum refugiar-se no México. 40 Ibidem. Peru. Ri Melhor: Humor Gráfico Feminista (Cone Sul. como a iniciativa do Nós Mulheres de lançar uma coluna de humor e seu apego pelo tema trabalho doméstico.40 O humor gráfico feminista é. ou mesmo a ousadia do La Escoba com a publicação de uma charge sobre violência doméstica. na Argentina. provavelmente um sintoma da maior liberdade de envio e recebimento de materias impressos vindos do exterior. Brasil Mulher e Nós Mulheres circulassem já em 1974. Uruguai e Bolívia. pretendo refletir sobre a reprodução exata de cinco charges em diferentes jornais no intuito de justificar e articular uma pesquisa sobre o humor gráfico feminista no Brasil. Brasil. . portanto. 1975-1988). Argentina. Conteúdo produzido para compôr a tese Quem Ri por Último. Antes. muito embora Persona. ou de uma maior possibilidade de circulação de pessoas que poderiam transportar jornais e livros. Roteiro: Cintia Lima Crescêncio. no Uruguai e na Bolívia. bem como de emergência dos movimentos feministas nesses países. contudo. Argentina. Nesta etapa são elencadas ainda algumas especificidades das publicações em termos de produção e divulgação do humor gráfico feminista. novembro de 2015. notadamente Brasil. 134. mais um fator que aponta essa relação. 1975 e 1976. Brasil. respectivamente. A especificidade de uma relação humorada reside no fato de que a reprodução – entre os jornais – de charges e tirinhas só se tornou comum depois dos anos 1980. Figura 2 Fonte: HELÔ.

portanto. Na sequência destaco as ocorrências de reprodução de charges e tirinhas nos jornais feministas selecionados para análise. p. leituras. 13(2). Proponho. Maio-Agosto 2009. a simplificação que costuma reunir. 43 Procuro explorar uma perspectiva comparada como tentativa de reforçar e dar visibilidade aos vínculos que se construíram entre os feminismos latino-americanos. Junho de 1999. 1. 1960-1985). Passo Fundo. pp. uma vez que não é incomum que charges e tirinhas sejam copiadas por outra desenhista e publicadas sem a referência. a esse respeito. a partir do uso do humor pela imprensa feminista brasileira. n. como elemento essencial para estudos comparados.42 O todo. Cristina Scheibe. destaco que não há segurança em tal premissa. In: História: debates e tendências. Contudo. O esforço do periódico Persona em debater o tema aborto. países que. é quase único. WOLFF. não tem como referência Europa e Estados Unidos. assim. como ocorre com o último exemplo da charge reproduzida no La Escoba e no Mulherio. Não há serventia em identificar quem publicou determinado conteúdo primeiro. 42 RECKZIEGEL. pessoas e ideias no contexto de emergência dos feminismos no Cone Sul. como uma reprodução. 21. jornal com charges e tirinhas que reproduziu ou foi reproduzido com mais frequência. evitando. Dos cinco exemplos que apresento em destaque. então. 11-22. um total de dez charges e tirinhas. Uruguai e Bolívia. pp. História Regional: dimensões teórico- conceituais. se estenda para Argentina. mesmo que as influências não possam e não devam ser recusadas. Pretendo demonstrar a relevância da relação entre a parte e o todo. Vol. 1. assim como o Brasil. o importante é reconhecer que houve a circulação de jornais. por exemplo. três são 41 Ver. vínculo que é estabelecido também na historiografia de outros países do Cone Sul que viveram ditaduras concomitantes ao desenvolvimento dos movimentos feministas. . quatro envolvem o Mulherio. Das quatro ocorrências.41 Isto não significa recusar as diferenças que existem entre diferentes movimentos. a segunda ocorrência se configuraria. por exemplo. Ana Luiza Setti. a emergência dos feminismos brasileiros ao feminismo estadunidense. 124-130. In: História Unisinos. Narrativas da guerrilha no feminino (Cone Sul. Parto do princípio que a primeira data de publicação seria a versão ―original‖. entretanto. fizeram amplo uso do humor para problematizar questões caras aos feminismos emergidos na segunda metade do século XX. São cinco as reproduções. a construção de uma rede que.

A primeira imagem reproduzida é de autoria de Henfil e foi publicada no Mulherio em 1982. não são definitivos. Edição 7. À direita: HENFIL. Julho de 1984. Edição 2. Uruguai. do humor gráfico. p. p. uma reprodução do Mulherio e uma do Cotidiano Mujer. consequentemente. Curiosamente. Nós Mulheres e Persona não tiveram reproduções identificadas. Das três charges e tiras compartilhadas pelo Mulherio e pelo La Cacerola. são dois cartunistas homens que conquistaram espaço no jornal feminista uruguaio. La Cacerola. que não aparece em comparação a outros jornais. o que não causa prejuízo. Brasil Mulher. Junho de 1982. É importante relembrar que nem todos os jornais têm sua coleção completa. Muherio.44 repetidas no uruguaio La Cacerola. mas servem para demonstrar a circulação dos jornais por diferentes países e. Além disso destaco que era comum a tradução e publicação de textos escritos entre os jornais. Figura 3 Fonte: À esquerda: HENFIL. Em uma delas a autoria não foi identificada. O boliviano La Escoba destaca-se em duas ocorrências. em duas é possível afirmar com bastante certeza que o jornal uruguaio reproduziu o humor gráfico brasileiro com perspectiva feminista. 4.7. sendo . nesse sentido. Brasil. mas porque seus autores são Henfil e Miguel Paiva. não em função das datas. famosos cartunistas. Os números.

45 reproduzida dois anos depois no La Cacerola. Na charge um homem engravatado literalmente ―pisa‖ sobre a funcionária sentada a uma mesa diante de uma máquina de escrever e ainda cercada por xícaras de café. A segunda charge reproduzida pelos dois jornais não tem autoria legível. Brasil. 7. 43 A mesma charge foi publicada no Boletim Isis número 11 e 12. À direita: Ilegível. p. sem data. assim como a de Miguel Paiva e de outros homens cartunistas. p. profissão historicamente reservada às mulheres.43 Ela problematiza a exploração dos patrões. Mulheres e trabalho é um dos temas mais recorrentes em todas as publicações feministas. 12. é analisada no capítulo 4. Janeiro-Fevereiro de 1983. Uruguai. Edição 11. ao servir o marido que aguarda o jantar comodamente sentado à mesa. Figura 4 Fonte: À esquerda: Ilegível. jullho de 1984. pá. tendo produzido materiais especialmente para o Nós Mulheres. Mulherio. problematiza a dupla jornada de trabalho das mulheres que batem ponto na fábrica e em casa. . especialmente sobre as secretárias. publicação produzida em espanhol na cidade de Roma pelo Centro de Investigação e Documentação sobre o Movimento de Liberação das Mulheres. É uma crítica bastante nítida à submissão doméstica esperada pela profissão. Na tira o cartunista mineiro. e mesmo de movimentos de mulheres. considerado um dos gênios do seu tempo. Edição 2. La Cacerola. Henfil é conhecido por sua simpatia com as causas feministas. Sua contribuição. vassoura. do período.

principalmente. Miguel. de homens. Edição 21. responde: ―Sei não. 3. 3. outubro de 1985. de criação de grupos de estudo e pesquisa sobre as mulheres. foi apenas depois da década de 1980 que as mulheres organizaram-se de . Brasil.‖ Figura 5 Fonte: À esquerda: PAIVA. minha filha! Eu tava vendo outro canal. A representante do IBOPE questiona a dona de casa: ―Qual sua opinião sobre a condição da mulher?‖. Edição 5. Graciela Sapriza identifica a emergência de uma erfevescência feminista no Uruguai antes mesmo dos anos 1960. na transformação da condição de vida das mulheres. Miguel. À direita: PAIVA. A referência à televisão é outro elemento importante. Na charge fica claro o abismo que separava mulheres trabalhadoras do lar e um novo cenário que se apresentava. representadas pelo IBOPE. ao que a mulher com vassoura em mãos e lenço na cabeça. p. Apesar disso. Seu tema central também perpassa a questão do trabalho doméstico e é assinada por Miguel Paiva que.46 A terceira charge compartilhada pelos dois jornais foi publicada no mesmo ano. uma das boas adesões masculinas na Década‖. com a entrada maciça de mulheres de camadas médias nas universidades. uma vez que era comum a crítica de cartunistas ao papel desempenando pela TV na construção da subjetividade de mulheres e. Março-Abril de 1985. Mulherio. Na charge o cartunista ironiza o papel das pesquisas. p. uma no primeiro e a outra no segundo semestre de 1982. era considerado um simpatizante da causa feminista: ―De Miguel Paiva. La Cacerola. conforme sugere a legenda da versão do Mulherio. caracterizando uma personagem que desempenha o trabalho doméstico. Uruguai.

entretanto. p.44 A charge de Miguel Paiva. 21. com destaque importante para um feminismo acadêmico que começava a surgir. Buenos Aires: Feminaria. Cotidiano Mujer. 1986. Nos três casos citados o tema trabalho e mulheres é atravessado por questões como dupla jornada. Apesar de certa mudança da forma de apresentação. é um dos mais recorrentes em termos de humor gráfico. As reproduções. 42. pautaram muitas reivindicações feministas a partir dos anos 1970. À direita: ISLO. com destaque especial para charges e tiras produzidas e divulgadas no Nós Mulheres. Historia. . 2005. que tem relação com as possibilidades de impressão de cada jornal e algumas escolhas visuais. A charge reproduzida nos jornais uruguaio e boliviano tem uma terceira origem. o Boletin Manuela Romeu. muito embora seja sensato supôr que ela tenha sido pensada a partir da realidade brasileira que também viveu no anos 1980 um momento de criação de uma série de grupos de estudos sobre mulheres. Memorias del Cuerpo. La Escoba. O tema trabalho doméstico. p. Andrea et al (Orgs). Edição 2. p. parece ter dialogado diretamente com o contexto do feminismo uruguaio. efetivamente. Graciela. Edição 8. relação entre teoria e prática feminista. In: ANDÚJAR. Bolívia. género y politica en los 70. Figura 6 Fonte: À esquerda: ISLO. portanto. 2. Uruguai. A exemplo da charge publicada no uruguaio Cotidiano Mujer e La Escoba em 1986. Maio de 1986. assuntos que. do qual não foi possível levantar maiores informações. exploração dos patrões. não são todas relacionadas à produção e circulação brasileira. especialmente. como no caso do La Escoba que imprimiu ao lado da charge a bruxa – personagem historicamente ligada 44 SAPRIZA. 47 maneira sistemática.

p. Brasil. um marido sorridente pergunta: ―Vieja. . abril de 1987. A versão de 1987 é uma cópia – quase – exata da versão reproduzida no La Escoba. 17. com crianças. FemPress era uma publicação do Chile que circulou durante os anos 1980 através do Instituto Latinoamericano de Estudos Transnacionais (ILET). cobertas com uma manta remendada: ―Habia una vez azucar. março de 1986. p. O Cotidiano Mujer o demarca na lateral direita e o La Escoba na base inferior. A versão do Mulherio tem praticamente o mesmo cenário. À direita: Sem Autoria. Edição 1. Figura 7 Fonte: À esquerda: Sem Autoria. A charge do Cotidiano Mujer ainda é acompanhada por uma frase que ilustra o que acontece no dia das mães. Dessa vez a charge publicada no La Escoba em 1986 é reproduzida no Mulherio no ano seguinte. harina. Ambos jornais fazem referência ao impresso que seria o responsável pela imagem. Edição 28. Bolívia. Na charge do La Escoba uma mulher sentada sobre uma caixa lê uma história para três crianças deitadas em uma mesma cama. Na charge uma discussão frequente não apenas nos meios feministas é apresentada através da exploração do humor. como adequado à realidade brasileira. Novamente um conteúdo idêntico é reproduzido em jornais de países diferentes. La Escoba. Em uma cozinha caótica. 23. panelas no fogo e acessórios de limpeza. A última amostra apresenta um cenário curioso. Que es que lo mas te gustaria en el dia de la madre?‖. papas. Mulherio. A versão do jornal boliviano. Uma dona de casa com aparência de estafa responde: ―Que fueras la madre‖. no entanto. nesse caso Uruguai e Bolívia e ambos fazem referência a uma terceira publicação que teria originalmente publicado a charge. mas há algumas mudanças no desenho e no conteúdo do balão de fala que não apenas foi traduzido. arroz.48 à luta das mulheres – que simboliza o grupo que o publica. traz a referência da imagem na lateral direita: Fempress – ILET.

carne e café. arroz. levando em consideração a produção da imprensa feminista que marcou muito significativamente os momentos de maior abertura a tais movimentos. farinha. Uruguai e Bolívia têm origens diferentes. Há publicações personificadas por uma fundadora. pescado.‖. Com exceção da sutil adaptação cultural e de um pequeno equívoco de tradução – ou seria intencional? – que traduz ―havia‖ por ―tinha‖. Os jornais feministas de Brasil. Observadas as redes é tempo de refletir pontualmente sobre os golpes e ditaduras enfrentados por esses países a partir de sua relação com a emergência dos movimentos feministas. ao mesmo tempo em que as pernas estão despidas. ainda que em número modesto. pontes foram construídas. A charge do Mulherio é muito parecida. alimento muito comum no Chile. por fases financeiras. por perda ou ganho de apoios. Também os grupos envolvidos nas produções são diversos. vinculadas a organizações. bebida conhecida como tipicamente brasileira. por golpes ou por incentivos e por diferentes visões de feminismo.. Na tradução para o português o conteúdo da história foi adequado à realidade regional. Na sequência pretendo apresentar brevemente o contexto de cada um dos países destacados para este trabalho e então estabelecer relações entre o cenário autoritário e a emergência dos movimentos feministas e dos jornais feministas.. construídas de maneira independente e com muita dificuldade. acentuando a pobreza da cena. mas as fontes apontam caminhos nesse sentido e os cinco exemplos de reprodução de conteúdos aqui destacados.. apesar das barreiras políticas e fronteiras culturais que separavam esses países. . Os feminismos que emergiram nesse contexto são ainda mais diversos e são marcados por rachas.‖ O cenário é uma alusão direta à carestia enfrentada pelas mulheres que vêem o básico para a sobrevivência tornar-se uma historinha para crianças dormirem. Já na narração a versão brasileira também sofreu adaptações: ―Tinha uma vez açúcar. Argentina. apoiadas por fundações. Mais uma vez os feminismos do Cone Sul encontraram-se. Nela a caixa foi tranformada em um caixote. país de origem do Fempress. A multiplicidade torna a tarefa de sistematizar suas relações bastante complexa. destacando ainda mais o contexto de falta de itens básicos para sobrevivência. os conteúdos de ambas são iguais e ainda fazem ponte com um terceiro país. foi substituido pelo café. batatas.. Na versão brasileira o peixe. e a mulher que narra a história tem um cachecol enrolado ao pescoço. 49 carne. servem para ilustrar que.

o poder judiciário. Jorge Ferreira e Ângela de Castro Gomes. desaparecimentos e perda da liberdade. Discussões sobre os agentes promotores e contrários ao golpe que instituiu 21 anos de ditadura. Minas Gerais. Os debates historiográficos acumulam-se e sobrepõem-se desde então. começaram a ser trilhados anos antes. O peso histórico que a história tratou de apoiar sobre os ombros de setores golpistas. o potencial civil de interromper regimes democráticos sob um manto de legalidade e.1 BRASIL O golpe de 1º de abril de 1964 selou o desfecho da instabilidade política do governo João Goulart. . empresários 45 FERREIRA. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. exatamente porque. pôs fim ao regime democrático e instituiu a ditadura no Brasil. diante de uma guinada das esquerdas e do fortalecimento de presidentes como Jânio Quadros. Angela da Castro. vinculado ao Partido Trabalhista Nacional (PTN). contudo. causadora de mortes. provavelmente. 2014. No contexto do golpe civil-militar o mais pesado deles é. efetivamente. em livro que dá foco especial aos acontecimentos de 1964. No dia 1º de abril de 1964. praticamente toda a imprensa e os meios de comunicação. deu-se com a partipação de civis e militares. com escancarado apoio aos militares. ainda hoje. até mesmo. p. torturas. foi estrategicamente negado e hoje é constantemente rememorado. que nossa disciplina carrega o fardo de esquecimentos convenientes e de experiências repetidas. portanto. 1964: O golpe que derrubou um presidente. O país dividido nos últimos dias de março entre a permanência do então presidente da República e a necessidade de uma intervenção militar tomou contornos definitivos quando Jango desafiou a autoridade e a disciplina militar ao não punir marinheiros insurgentes. são a principal motivação de historiadoras e historiadores que procuram desvelar o evento que. Em termos históricos é possível dizer. São Paulo.45 Os caminhos que levaram até o golpe militar- civil. principalmente as oficiais.50 2. sem orgulho. Jorge e GOMES. apontam os sujeitos envolvidos no golpe que. Historicamente nossas memórias. os acontecimentos de março de 1964 levaram ao fim da democracia e à instauração de um regime autoritário e indefensável. em essência. trataram de excluir os grupos civis de narrativas que não encontram formas de negar a ilegalidade e inconstitucionalidade do golpe. sob promessas revolucionárias. governadores de importantes estados como Guanabara. 320. estavam o poder legislativo. é lembrado por alguns como um período de revolução.

Mas. 370. v. o autor destaca: [. Do mesmo modo. de fato. Carlos. . p. 52. In: Revista Brasileira de História. da implantação de um regime militar — em duas palavras: de uma ditadura militar. pp. 47 FICO. manchetes. recebendo cargos e com a política econômica de saneamento financeiro que servia aos interesses do capital internacional. proprietários de terra oposicionistas do governo. não deve impedir que se reconheça o papel de grupos civis em sua manutenção.. um regime militar. p. contudo. de tal reconhecimento emerge a necessidade de referir-se à ditadura civil-militar. sendo de conhecimento comum ainda a participação de empresários no financiamento de prisões e torturas que tiveram início já no mês de abril de 1964. além dos Estados Unidos. contudo. Isso não significa anular o papel dos militares em seu desfecho. redes de apoio e uma série de fontes não deixam dúvidas: o golpe não foi obra apenas de militares. tiveram dificuldades de lidar com as inferências oferecidas por fontes diversas que sugerem participação muito significativa de grupos civis na efetivação do golpe. 29-60. parcelas significativas da classe média. embora o papel militar tenha se sobressaído no golpe propriamente. que defende o impacto dos golpistas civis na sequência do regime.46 As memórias construídas pós-golpe. Conforme Carlos Fico. 2004. Se podemos falar de um golpe civil-militar. São Paulo. sucessivas levas de militares passaram a ocupar cargos em importantes agências governamentais. 51 da indústria e do comércio. Respeitando as considerações de Dreifuss. Concordar que a ditadura foi militar. trata-se. Outro debate recorrente acerca do golpe e da 46 Ibidem.47 O caráter militarizado do regime é o que parece causar menos controvérsias. menos ainda desconsiderar que o regime que se institui depois daquela madrugada de 1º de abril foi. discursos. trabalhadores(as) cansados(as) da inflação e da carestia..] as sucessivas crises do período foram resolvidas manu militari e a progressiva institucionalização do aparato repressivo também demonstra a feição militar do regime. país que à distância ressentia a recusa brasileira de intervir em Cuba em função da crise dos mísseis dois anos antes. nº 47. 24. no entanto. Versões e Controvérsias sobre 1964 e a ditadura militar. a preparação do golpe contou com colaboração de civis e militares.

fontes apontam que foram cinco mil presos. cit. Anne-Marie. op. Rio de Janeiro: FGV.. 1991. . defendendo sua permanência e o respeito à Constituição. dois mil funcionários públicos demitidos ou aposentados. o jornal defendesse uma intervenção que garantisse a entrega do poder aos civis rapidamente. op. op.53 muito embora. sete em cada dez diretorias de confederações e sindicatos de trabalhadores perderam seus mandados já nas primeiras semanas após o golpe.49 As controvérsias são variadas e perpassam ainda o papel da imprensa no acompanhamento e apoio ao golpe e ao regime que se instituiu na sequência. cit. Um acordo Forçado: o consentimento da imprensa à censura no Brasil. 51 FERREIRA e GOMES. 386-387. São Paulo: Editora Página Aberta. p. 2000.48 Entretanto. da subversão. 13 49 FERREIRA e GOMES. Tribuna da Imprensa e O Globo. 53 KUCINSKI.52 O argumento comum era a eliminação do comunismo. 327.50 Já Ângela de Castro Gomes e Jorge Ferreira apontam que no dia 29 de março parte significativa da imprensa ainda mantinha-se ao lado do presidente. cit. p.. 29.. Anne-Marie Smith chega a afirmar que a imprensa foi o catalisador do golpe. Bernardo Kucinski e uma série de pesquisas esforçaram-se para demonstrar que em seguida do golpe a violência era mínima e pouco visível. 13 54 FERREIRA e GOMES. tendo acelerado seu desfecho. p. op.. op. invadido e depredado assim que o golpe foi desferido. p. 50 SMITH. cit. Bernardo.52 ditadura é referente à data de origem da violência. p.54 48 KUCINSKI. Jornalistas e Revolucionários nos Tempos da Imprensa Alternativa.51 O único jornal que apoiou a manutenção do governo até o fim foi o Última Hora. entre eles o Jornal do Brasil. na emergência do golpe. 421 oficiais deslocados para a reserva. 359. 52 FERREIRA e GOMES. p. p. 383. teria maciçamente apoiado e até demandado a intervenção das Forças Armadas. cit.. Diante de tal episódio a grande imprensa. o inimigo construído cuidadosamente desde a posse de Jânio Quadros em 1960. Bernardo Kucinski cita ainda o Correio da Manhã como jornal da grande imprensa que logo depois do golpe condenava o autoritarismo e às violações de direitos humanos. situação que mudou diante da ação de João Goulart de perdoar marinheiros insurgentes e aceitar a renúncia do ministro da Marinha.

Um exemplo simbólico da confusão ideológica e política do período é Dom Evaristo Arns que deslocou-se até o Rio de Janeiro para abençoar tropas que chegavam para depôr o presidente. Muitos jornalistas desses mesmos jornais que apoiaram a intervenção tornaram- se conhecidos por sua militância e combate incansável à ditadura nos anos seguintes. na medida em que se beneficiava de financiamentos. 380. p. entre 1968 e 1978. 55 Ibidem. Como herdeiro do formato alternativo o Mulherio foi criado em 1981. a demanda pelo golpe e a preocupação com a infiltração comunista. Muitos dos editoriais dos jornais que fizeram franca oposição a Goulart e apoiaram abertamente o golpe. como no caso da imprensa. durante e após o 1º de abril. 56 Ibidem. vivia uma relação quase esquizofrênica com o regime.56 É preciso diferenciar. já integrante de outro contexto político em que a imprensa alternativa havia desaparecido. . da instalação da ditadura que se seguiu de maneira violenta e truculenta. que seria prerrogativa do Congresso Nacional. foram muitas as surpresas e mudanças de posição em função do rumo ditadorial que o golpe tomou. modalidade jornalística que se diferenciava em muitos níveis da grande imprensa que. Foi no cenário alternativo que emergiu Brasil Mulher e Nós Mulheres em 1975 e 1976. publicidade. 53 Afirmar que o golpe contou com apoio escancarado. sequer se referiam à formação de um governo militar. uma vez que opõe uma experiência à outra. mas que se tornou um dos religiosos mais combatentes em defesa do retorno da democracia. É comum que a definição de imprensa alternativa passe pela comparação com a grande imprensa. É importante questionar. uma forma de construir a modalidade alternativa como o outro. naquele momento. de grupos civis. portanto. respectivamente. Para Anne-Marie Smith tal conceituação é complexa. No contexto golpista já circulava o que se convencionou chamar de imprensa alternativa. não significa que esses grupos apoiavam a violência que se faria corrente nas décadas que se seguiram. mas também se via sujeita à censura que foi instituida por dez anos. nesse sentido. p. Nessa perspectiva ―grande‖ implicaria ser representativa e majoritária. 381.55 Pós-golpe. Eles defendiam e desejavam uma solução constitucional. nesse sentido. o que era a imprensa alternativa.

Rio Branco. não tinha o capital vindo da publicidade comum aos jornais e revistas da grande imprensa. 60 CAPELATO. Já ―alternativa‖ implicaria crítica. 58 KUCINSKI. 10. Como exemplo a autora faz referência ao sexismo do O Pasquim e o extensivo uso de piadas com gays. Haviam alternativos políticos que serviam para disseminar as ideias de diferentes partidos. lésbicas. defende que ela foi a última manifestação de utopia no Brasil e que a linha que unia diferentes jornais era o combate político e ideológico à ditadura. tipologia com influência existencialista personificada pelo fenômeno O Pasquim. uma vez que a imprensa alternativa se sustentava apenas com as vendas. os regionais. op. 1988. os estudantis. visto que expressam reivindicações de uma série de movimentos sociais. Para o autor tratava-se de um modelo ético-político. o jornalista.54 mas isso poderia significar apenas dominante ou mais bem-sucedida comercialmente.59 Maria Helena Rolim Capelato indica a riqueza de tais publicações. acompanhado de uma tradição de lutas por transformações estruturais e de crítica a um capitalismo periférico e ao imperialismo. p. os jornais de bairro. . A primeira em 1964. São Paulo: Contexto/EDUSP. XXV. op. 59 Ibidem.57 A definição costuma fazer uso ainda da sua manutenção econômica. os humorísticos. cit. Maria Helena Rolim. que circulavam em cidades como Porto Alegre. Bernardo Kucinski fez um levantamento de 150 títulos e de uma série de tipologias que marcaram a imprensa alternativa. p. porém isso poderia significar apenas não-conformista e idiossincrática.. os temáticos. que atuava nos impressos alternativos em plena ditadura. A ditadura. XVI. houve até um esforço de jornal alternativo baseado no sistema de cooperativa. nessa concepção. Já Bernardo Kucinski define a imprensa alternativa com outras preocupações.. variadas e se relacionam diretamente com o contexto ditatorial daquele momento. Belo Horizonte. negros e mulheres. com demandas locais e baseados no estilo da grande reportagem.58 Sua relação com a ditadura não significa reduzir sua existência à permanência do regime. É a partir dele que Kucinski identifica diferentes fases da imprensa alternativa. p. a exemplo dos feministas Brasil Mulher e Mulherio. p. era uma representação de estruturas a serem combatidas. 57 SMITH. publicados nas universidades. Apesar de reconhecer os desvios de muitos jornais alternativos. que (re)criava e montava estruturas próprias de funcionamento.60 De fato. Imprensa e história do Brasil. cit. As experiências foram muitas. 49.

p.62 Inúmeros depoimentos de fundadoras e editoras do referido jornal confirmam que ao sairem da prisão elas viram no jornal uma oportunidade importante de militância. apesar de ter como marco a relação com a ditadura. 129. a abertura iniciada em 1975 e o debate sobre anistia. 2013. de acordo com a cronologia do autor. apontam sim tendências que atravessam as etapas mais marcantes do regime.63 Já em 1964 proliferavam-se 61 KUCINSKI. Segundo Amelinha Teles e Rosalina Santa Cruz Leite o jornal foi formado por muitas ex-presas políticas que não sairam do país e se integraram à luta armada. é possível notar que a 4ª e a 5ª fase infiltram-se. Tal proposta temporal vai ao encontro da composição do Brasil Mulher quando de sua fundação. se desdobra em marcos político-ideológicos variados. cit. cit. op. que produziu dezenas de charges e tirinhas. O nome vinha da coluna assinada pelo humorista na revista O Cruzeiro. Amelinha e LEITE. 55 com o Pif-Paf. A partir disso é possível refletir sobre os dispositivos que permitem a construção de uma imprensa alternativa que. As cinco fases identificadas por Bernardo Kucinski não são estanques. 62 TELES. Rosalina Santa Cruz. a partir de 1977.17. com início em 1974 quando do retorno de presos políticos e do início do processo de abertura fruto das preocupações com os recentes fracassos do partido governista Arena. e a última. Da Guerrilha à Imprensa Feminista. op. de onde foi demitido por provocar a Igreja com suas charges e piadas sobre o mito do paraíso.. 63 KUCINSKI. como o Maria Quitéria de Therezinha Zerbini.3-5. Em termos de imprensa feminista. A narrativa construída até aqui tinha como objetivo situar a emergência da imprensa feminista no Brasil no contexto golpista. é relevante um debate sobre as diferentes fases vividas pela modalidade alternativa e sua relação com os acontecimentos que marcam a ditadura entre 1964 e 1978. aliado à linha-dura. que acentua o crescimento das esquerdas e o consequente golpe da direita. A 1ª fase foi inaugurada pelo jornal Pif-Paf de Millôr Fernandes em 1964.. com a emergência de jornais motivados pela campanha de anistia. está integrada à 4º fase alternativa. São Paulo: Intermeios. como veremos a seguir.61 A imprensa feminista. Sendo assim. bem como o papel e atuação da grande imprensa nesses acontecimentos. p. A construção do Feminismo pós-luta armada no Brasil (1975-1980). o humorístico de Millôr Fernandes. a quinta fase. notadamente o AI-5. não decretam o começo e o fim de um estilo e preferência. p. .

na crítica ao grotesco do golpe e no nacionalismo. a grande 64 Ibidem. são jornais de destaque O Sol. p. mas a agitação do cenário nacional e internacional interrompou a expressão impressa de tais aspirações. a partir de 1967. Por sua vez.21. 65 Ibidem. esse era um período de clara hegemonia do PC do B no campo da arte.. como ocorreu entre 1968 e 1969. mas foi fechado depois de uma grande apreensão e do esgotamento de seu criador. Com o acirramento das manifestações de rua contra o regime militar entre 1967 e 1968. . E nos momentos de grande comoção social. E com a eclosão das grandes greves operárias e da guerrilha urbana de 1968-1969. desaparecem os alternativos inspirados pelo imaginário da guerrilha.56 jornalistas/humoristas que buscavam sustento e um lugar para promover o humor gráfico. Nesse contexto. responsável por promover uma proposta de guerrilha.] o impulso decisivo da empreitada alternativa não foi o político. como o Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR).23 67 Ibidem. Pif-Paf fez certo sucesso. Poder Jovem e Amanhã.19. Para o autor os periódicos emergiam com força quando havia uma certa ―calmaria‖ no cenário nacional. Os três jornais foram produzidos dentro do movimento estudantil sob a influência do debate cubano sobre a luta armada e sob forte influência de movimentos revolucionários. [. p.. com reduzida tomada dos espaços públicos.65 A 2ª fase foi influenciada pelo imaginário da revolução cubana.66 Na segunda fase da imprensa alternativa a guerrilha era defendida como a única solução possível. p.64 Na primeira fase destacam-se ainda os jornais vinculados ao Partido Comunista do Brasil (PC do B). De acordo com Kucinski. com o aumento das perseguições e das ações nas ruas. desaparecem os jornais alternativos da primeira fase inspirados na idéia da resistência democrática. esses mesmos jornais praticamente desapareciam nos períodos de acirramento das violências. da cultura e do jornalismo. 66 Ibidem.67 Na sua cronologia Bernardo Kucinski considera a existência de uma certa alternância entre imprensa alternativa e militância. p. e sim o jornalístico.37.

conforme Carlos Fico. p. Pesquisas no campo da história oral. p. p. 34. no entanto.38. bem como longas sessões de tortura em mulheres presas. mutilações. op. . elas se anularam. oficializados. e sim reforçou os esforços feitos desde o 1º de abril.72 Narrativas orais revelam ainda as dificuldades enfrentadas pelas mulheres que militavam nas organizações de esquerda. foi a reafirmação do processo iniciado em 1964. No biênio 1968-1979. 70 Ibidem. Quando isso acontece.. 68 Ibidem. 28. portanto.69 As teorias que defendem que a violência não teve início na ocasião do golpe elegem exatamente o AI-5 como marco do crescimento da violência. O AI- 5. Há. têm demonstrado as violências e torturas específicas às quais as mulheres eram submetidas em função de seus corpos serem vistos como objeto e produto. cit. Nunca em outro momento da história do Brasil tantas mulheres pegaram em armas. lembrado pelas manifestações estudantis na França. 69 FICO. p. 71 TELES e LEITE. uma vez que o Ato anulou os mecanismos de controle próprios das democracias. considerado uma ação de recrudescimento do regime. assim.71 Atualmente um significativo número de pesquisas tem se dedicado a narrar a história de mulheres que participaram da luta armada no Brasil e em outros países do Cone Sul. uma interação complexa entre duas necessidades distintas: a do fazer político e a do fazer jornalístico. Na maior parte do grande arco de tempo que vai de 64 a 80 elas se somaram. Segundo Carlos Fico. op.33. p.70 Para Amelinha Teles e Rosalina Santa Cruz Leite. Depoimentos revelam estupros. nesse sentido o Ato não inaugurou um momento diferente.68 O autor identifica uma abertura da grande imprensa no ano de 1968. 72 Ibidem. corrupção –. assim como a partir de 1980. subversão. o AI-5 foi o dispositivo que faltava pra que a luta armada fosse colocada em prática e nela as mulheres assumiram papel importante. principalmente. 36. tortura e extermínio foram. 57 imprensa reabre seus espaços críticos. mas também pelo AI-5. permitindo que os direitos civis fossem desrespeitados e os direitos humanos violados. cit. que tanto podem se somar como se anular. os jornalistas não procuram a alternativa. uma tentativa de eliminar todas as formas de dissenso – comunismo.

depois de ter vendido 200 mil exemplares. com o princípio da abertura. Revista de Sociologia da USP. por jornalistas homens com um passado comum. Somado a isso apresentavam-se intensos problemas financeiros. contava com 5% de mulheres em sua composição. Ativistas políticos não tiveram participação expressiva. ou ainda a 73 RIDENTI.75 Ela teria chegado ao fim por volta de 1974. O Opinião. 76 TELES e LEITE. As mulheres na política brasileira: os anos de chumbo.. com destaque para O Pasquim. principalmente frutos dos processos movidos pelo Estado. . Nessa geração foram fundados uma média de 20 jornais. cit. portanto. 114. estima-se que nas organizações armadas brasileiras 18. 1990.58 sejam elas armadas ou não. Politika. quando da fundação dos primeiros semanários de circulação nacional. Marcelo Siqueira.46. p. tendo batido todos os recordes de vendagem da modalidade alternativa. No fim de 1969. O PC do B. a imprensa alternativa renovou forças e inaugurou sua 3ª fase. em sua maioria. partidos comunistas e socialistas.3% dos integrantes fossem mulheres. o importante de salientar é o aumento significativo da participação das mulheres na vida política do país. considerada por muitos a sua fase mais rica. uma vez que são dados da repressão. intelectuais de extração acadêmica e um empresariado progressista.74 É possível supôr que os números fossem subestimados. 74 Ibidem. 75 KUCINSKI. É comum atribuir o encerramento de atividades de periódicos alternativos com base nas dificuldades apresentadas pela censura. como apontado por Kucinski.76 no entanto é importante lembrar dos constantes rachas promovidos por diferentes posições políticas ou mesmo expectativas diversas já na fundação dos jornais. op. ou mesmo por perseguições policiais. O desaparecimento dos jornais alternativos. p. como os que viveu O Pasquim já no fim de sua existência. 46. É importante destacar que o fim dos jornais que emergiram desde 1964 no formato e princípio alternativo tiveram razões variadas para fechamento. tinha razões variadas que poderiam ter relação direta com uma tomada de redação pela repressão. responsável por apoio material. após período de intensificação da luta armada. por exemplo. cit. p.. p.73 Já nas organizações de esquerda que não pegavam em armas. jornais compostos. a participação de mulheres era ainda menor. De todo modo. 115. Bondinho. op. Tempo Social. além de certa alternância entre militância e imprensa. Apesar da resistência dos grupos de esquerda à participação das mulheres na luta.

problemas financeiros e o recolhimento de edições inteiras das bancas por agentes do Estado. 2004. aponta o impressionante número de 75 períodicos feministas no pós-74. Maria Quitéria (de Therezinha Zerbini). p. já com o evidente colapso do milagre econômico e com a soltura de presos políticos. Correio da Mulher. op. não fez parte da listagem do autor. Dissertação de mestrado defendida na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP). Seu recorte final são jornais fundados em 1992. iniciada em 1974. 137. Com foco específico na imprensa feminista brasileira. fundado ainda em 1974. o que o desloca da condição de imprensa alternativa. O Brasil Mulher é considerado precursor dessa voga feminista em que Bernando Kucinski identifica ainda outros cinco jornais: Nós Mulheres. proliferaram-se os jornais com cunho político – representantes de partidos – e surgiram os primeiros periódicos feministas de segunda onda. 19. fruto de levantamento exaustivo e merecedor de méritos. embora o formato seja alternativo. Na 4ª fase. O afastamento foi justificado pelo fato do jornal ser rodeado por ―jornalistas muito feministas‖. p. a pesquisa aponta a existência de duas gerações da imprensa feminista. A segunda tem como representantes os jornais ChanacomChana (1981) e o Jornal Fêmea (1992). cit. mas ela demarca uma outra fase dos movimentos feministas do século XX. que Therezinha Zerbini afastou-se do Brasil Mulher depois de participar e apoiar sua fundação. op. . no entanto. Sendo assim. publicado pelo Círculo de Mulheres em Paris. Vale lembrar que no início do século as sufragistas fizeram amplo uso da imprensa em defesa do voto e da educação de mulheres. contudo. Elizabeth Cardoso inaugura sua análise em 1974. a partir de uma instituição. p. Imprensa feminista brasileira pós-1974.. a Fundação Carlos Chagas (FCC). A primeira – 1974-1980 – é marcada pela atuação do Brasil Mulher. e distribuido no Brasil. cit. os seis jornais listados. Mulher do ABC e Mulherio. inclusive a partir da exploração de piadas e cartazes bem humorados. tendo Nosotras como o marco da emergência da imprensa feminista no Brasil.79 A autora não aponta um recorte final em função de 77 KUCINSKI.78 Além disso.. a imprensa feminista não foi inaugurada nesse momento.81.77 Vale reforçar. 79 CARDOSO. se reduzem a partir de um olhar mais cuidadoso em termos político-feministas. Elizabeth. Pesquisa posterior. composto por mulheres exiladas. O periódico Nosotras. 78 TELES e LEITE. Em um intervalo de 18 anos. Portanto. o Mulherio foi fundado apenas em 1981. 59 justaposição de rachas.

Muito embora Kucinski tenha afirmado que a imprensa feminista parecesse uma ala feminina dos alternativos políticos.. IV Encontro dos Núcleos de Pesquisa da Intercom. s/d. 83 82 CARDOSO. Além de um periódico sem data declarada. cit. eu não me importo. op. Eu respondi: ‗pois é.. que fazia parte da publicação.80 O levantamento tem caráter nacional. os números são bastante impressionantes. demonstrando que o fenômeno da imprensa feminista foi vasto e permanente. mais isso é a maneira de uma mulher fazer jornal. me disse com ares de censura: ‗escuta. De todo modo. insinuando ainda uma permanência incomum. cit. na sede do jornal Movimento. p. 2.82 80 Idem. . p.81 ela apresenta inovações e uma continuidade que insinuam sua existência como um acontecimento alternativo à própria imprensa alternativa típica da ditadura. [. A cronologia de Cardoso distancia-se da temporalidade de Kucinski. em termos jornalísticos. op. em depoimento a Elizabeth Cardoso. uma vez que suas preocupações são diferentes. se está certo ou está errado. Joana Lopes.] o período de 1974 a 1980 abriga os primeiros jornais feministas (9 no total).. Panorama da Imprensa Feminista Brasileira pós-1974. Bernardo‘. 89.60 alguns jornais ainda circularem na ocasião da finalização da dissertação. 81 KUCINSKI. p. Me recordo que quando levei o número 4. você não está fazendo jornal‘. o período de 1981 a 1989 vê surgir um grande número de publicações feministas (44 no total) e o período de 1990 a 1999 registra uma queda no número de publicações lançadas (21 no total). o Bernardo Kucinski. relata diálogo com Bernardo Kucinski na época em que ele integrava o jornal Movimento e ela o Brasil Mulher. ao contrário do que aconteceu com a imprensa alternativa de um modo geral. Um dos marcos que separam as duas gerações é exatamente a dificuldade de se assumir como uma publicação feminista.. em 2004. 2004. In: NP 13 – Comunicação e Cultura das Minorias.

84 A emergência da imprensa feminista no Brasil foi. A abertura política que se seguiu pós-eleições de 1976 e 1978. 2003. delegacias da mulher. jornais alternativos foram criados em termos de formato e proposta a partir dos anos 1980. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo. . 83 KUCINSKI. Vale lembrar a criação do SOS Mulher em Recife em 1981. e mesmo na grande imprensa. fruto de um outro cenário que se construía. como é o caso do Mulherio. o enfraquecimento do partido governista. Na década seguinte a proliferação de Organizações não Governamentais (ONG‘s) marca tal ascensão. anti-lucro. com nova vitória do partido da oposição. o choque com as mortes e torturas cada vez mais visibilizadas – como no caso do jornalista Vladimir Herzog em 1975 –. p. com equipes de jornalistas e ativistas independentes. em 1977. O tema anistia era recorrente nos jornais alternativos. cit. portanto. Jornais foram fundados em torno da demanda da anistia. com sustento via vendagem. p. inclusive. Céli Regina Jardim. 84 PINTO. com os jornais Maria Quitéria. Em termos de imprensa feminista essa característica fica bastante clara se observarmos o histórico feminista brasileiro. A ditadura persistia e permaneceu até 1985. com a eleição de um presidente civil. no que se refere ao feminismo. Céli Pinto identifica que os anos 1980 foram marcados por um feminismo ―profissionalizado‖. Uma história do feminismo no Brasil. 81-82. mas o debate era generalizado. Além disso. Repórter e Resistência. a decisão da Organização das Nações Unidas (ONU) de declarar 1975 o Ano Internacional da Mulher e a Década da Mulher marcou um período de confiança dos movimentos de mulheres e feministas. o modelo alternativo que preservava uma postura anti-burocrática. Em 1978 a censura à imprensa parou de ser empregada. desapareceu. de fato. Entretanto. op. organização que de maneira pioneira combatia a violência contra à mulher. com a criação de entidades e. 84. bem como um processo de absorção do modelo alternativo – crítico – pela grande imprensa. No período ocorreu uma espécie de institucionalização da imprensa alternativa.. desde 1975. permitiu a emergência de um momento em que mudanças eram reivindicadas através do Estado. A crise do milagre econômico tão alardeada. Movimento Democrático Brasileiro (MDB). embora ainda de maneira indireta. a promessa de abertura gradual de Geisel quando de sua posse em 1974.83 Findas as fases propostas por Bernardo Kucinski. 61 A 5ª e última fase da imprensa alternativa no Brasil foi marcada pelo acirramento do debate da anistia.

cit. recorrendo ao argumento da prioridade da revolução de classe e ao suposto modismo do feminismo estadunisense e europeu. tinham como preocupação principal as demandas de mulheres trabalhadoras... p. realizado em outubro na Câmara Municipal de São Paulo com apoio da ONU. em ambos prevaleceu um projeto voltado para as mulheres trabalhadoras. Com nomes fortes e profundamente simbólicos eles expressavam demandas que vinham sendo literalmente gritadas nas ruas brasileiras. o Nós Mulheres. em defesa da democracia e pelo fim da ditadura..62 bem como o anúncio da ONU. Brasil Mulher e Nós Mulheres buscavam contribuir com a formação política e feminista dos movimentos de mulheres.85 A afirmação de que o feminismo ―pousou‖ em terras brasileiras em 1975.86 85 TELES e LEITE. Em 1975. que atingiu os países do Cone Sul em diferentes níveis. contribuindo para o processo de abandono do paradigma clássico de ativismo baseado exclusivamente no conceito de <luta de classes>. . da periferia.] com atraso de alguns anos. apesar da efervescência dos movimentos de mulheres anteriores a esse ano e da ampla circulação do pensamento feminista nesse período. cit. 82. e no ano seguinte. 86 KUCINSKI. não há dúvidas de que os primeiros jornais. nasceu o Brasil Mulher. proclamado pela ONU Ano Internacional da Mulher.79. bem como os primeiros grupos feministas que se organizaram no período.1. Mesmo diante de algumas diferenças entre os dois jornais. [. op. p. é comum. segundo Amelina Teles e Rosalina Santa Cruz Leite. chegou no Brasil uma nova combinação de ideias e desejos de luta. mães. contudo. especialmente pelos movimentos de mulheres. então. a partir de um <Encontro de Diagnóstico da Mulher>. 2. da Cúria Metropolitana e de associações femininas. que pretendo pontuar na sequência. em 1975.1 Brasil mulher e nós mulheres Foi nesse contexto que. um novo ativismo político. possibilitaram um contexto propício para a criação da imprensa feminista – de segunda onda – no Brasil. nasceu o movimento feminista no Brasil. Apesar da crítica das esquerdas ao feminismo. op..

Artur César. O feminismo que. em plena ditadura militar. no início dos anos 70. não estava suficientemente familiarizado com a complexidade dos movimentos de mulheres e feministas do período. 56. que construiu sua tese no começo na segunda metade da década de 1980. de partidos políticos e atuantes da luta armada. 2011. Vivendo. Joana Maria. . Amelinha Teles e Rosalina 87 PEDRO.87 A autora pontua a importância da Década da Mulher e do Ano Internacional da Mulher e. o de livre disposição do corpo. ―com atraso de alguns anos‖.). 63 O autor. em vários países da Europa e nos Estados Unidos. a Década da Mulher e o Ano da Mulher proporcionaram o lançamento de vários eventos de questões relativas à Mulher. a relevância do papel da ONU em um país que passava por uma ditadura. In: PEDRO. emergiu no Brasil foi. principalmente. DITZEL. Hoje. nos quais as manifestações feministas enchiam as ruas das cidades. certamente. inclusive em termos de ideias que circulavam na Europa e nos Estados Unidos e eram acessadas por mulheres que viviam clandestinas ou no exílio. especialmente de grupos constantemente vigiados. O feminismo que veio da França. para reivindicar direitos. de movimentos feministas. como informa Kucinski. Ponta Grossa: Todapalavra. portanto. Joana Maria. resultado do contexto nacional e não uma novidade importada. bem como através do acesso a centenas de depoimentos de mulheres integrantes de movimento de mulheres. Para Joana Maria Pedro: Tem sido constantemente referenciada a importância do Ano Internacional da Mulher e do apoio da ONU para o Brasil. Carmencita de Holleben Mello (Orgs. Relações de poder e subjetividades. Convém destacar. antes de mais nada. ISAIA. dentre estes. mas ressalta que a iniciativa da organização foi fruto da repercussão de eventos anteriores. p. consequentemente. é possível esclarecer afirmações obscuras sobre o mito fundador de 1975 que demarca a declaração da ONU como a origem do movimento feminista de segunda onda no Brasil. era um risco muito grande. durante a qual qualquer reunião. desde 1964. que a iniciativa da ONU foi a repercussão do que estava acontecendo desde os anos 1960 e. com ampla bibliografia disponível.

essa avaliação pode ser considerada bastante ponderada. com um editorial que ainda hoje causa polêmica: ―O Brasil Mulher não é o jornal da Mulher. p. os feminismos foram construídos e não inaugurados. op. Mitos e Contradições: Feminismos em Tempos de Ditadura no Cone Sul. especialmente o Movimento pelo Custo de Vida. em realidade.. uma vez que como um acontecimento que responde a demandas sociais e como um discurso que se constrói a partir disso.91 Destaco ainda o Movimento Feminino pela Anistia (MFPA). como o Centro da Mulher Brasileira (CMB). 88. 2004. Cristina Scheibe. Seu objetivo é ser mais uma voz na busca e na tomada da igualdade perdida. jornalista envolvida com atividades culturais desde o começo de sua carreira. Joana Lopes. cit.88 aproveitando-se do contexto propício para a fundação de entidades. 51.‖92 A fundação do jornal foi ideia de Joana Lopes. foi publicado em 9 de outubro de 1975. 53-70. 89 Apesar do momento ser relativamente favorável. fundadora do Brasil Mulher. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora. cit.89 Se considerarmos os feminismos como um acontecimento. um discurso e não como uma invenção com autoria e data. . 90 CRESCÊNCIO. 88 TELES e LEITE.. cit. o primeiro movimento popular a ir às ruas depois do AI-5. Foi nessa complexa articulação que foi fundado o Brasil Mulher. loc. 91 TELES.90 O feminismo como acontecimento.64 Santa Cruz Leite afirmam que as mulheres. Segundo depoimento a jornalista foi procurada por Therezinha Zerbini. portanto não ―chegou‖ no Brasil. tiraram proveito da declaração da ONU. composto basicamente por mulheres da periferia. 2016. op. Trabalho que se destina a homens e mulheres.. foi detida 6 vezes. PEDRO. e a produção de periódicos. Cintia Lima. CARDOSO. In: Feminismos Plurais. O primeiro número do Brasil Mulher – o número zero –. cit. op. 92 TELES e LEITE. p. ele se construiu a partir das difíceis relações que se deram entre movimentos de mulheres e feministas. nem em outros países que também lidam com o marco histórico da ONU. e LEITE. como o Brasil Mulher. fundado em Londrina. Joana Maria e WOLFF. no Paraná. pp. Ondas. grupo que teve repercussão nacional e que mobilizava mulheres em torno da defesa de presos políticos. p. 105.

20 mil.. Versus. p. né? Era só isso que elas queriam. Com a reunião de uma série de depoimentos de mulheres que integraram o Brasil Mulher. o que ela considerava uma guerra contra os homens:―[. op. Os depoimentos das mulheres que não saíram do Brasil seguiram um caminho diferente. Joana aceitou e sugeriu a criação do jornal dentro da temática da anistia. Logo sua sede mudou-se para São Paulo e entre o final de 1975 e 1976 vendia 10 mil exemplares. 183. op. eu sou a favor de um jornal pela cidadania. op. Já no número 2. cit. sustentava-se com a vendagem. o jornal afastou-se do MFPA. Aborto. mulheres integrantes do 93 TELES e LEITE. principalmente por parte de mulheres que não querem ser taxadas de feministas. p. 13 mil.94 O relacionamento com a organização que defendia a anistia. pílulas. Juliet Mitchel. a fundadora do grupo era declaradamente contrária ao feminismo. Uma matéria defendendo a anistia como direito e uma entrevista com Zerbini afirmando que a anistia deveria ser perdão dedicado a militantes e militares consagrou o rompimento. op. são recorrentes. 138. Elas queriam trabalhar a questão só de aborto. Betty Friedan. 50 mil. 95 TELES e LEITE.] eu não sou por um jornal feminista. 15 mil.. Movimento. não durou muito tempo. Amelinha Teles e Rosalina Santa Cruz Leite destacam o papel de laboratório feminista desempenhado pelo jornal que acolheu várias presas políticas. no entanto. Crítica. 35 mil. (KUCINSKI. contudo. . e convidada a integrá-lo.93 Assim como os alternativos da época. O Brasil Mulher. diante de uma nítida incongruência de ideais. 96 TELES e LEITE. 90).95 As diferenças políticas não se encerravam na definição da anistia. Ex. cit. cit. ele não tinha publicidade. A confusão entre movimentos compostos por mulheres e os movimentos feministas dura décadas e os esforços para garantir a separação entre eles. São comuns os depoimentos de mulheres exiladas em países como França e Estados Unidos apontando que se reconheceram feministas quando ficaram expostas à literatura feminista de autoras como Simone de Beauvoir. Coojornal. 94 Vendagens de outros jornais: O Pasquim. acabou tornando-se um espaço importante de identificação e reconhecimento da importância do feminismo. 65 criadora do MFPA em São Paulo. p.‖96 A ambiguidade inicial explica o editorial número zero em que a equipe do jornal insistiu em afirmar-se como uma publicação para homens e mulheres. p. 51.. figurando entre os oitos jornais mais vendidos do período.... 20 mil. cit.

ou mesmo devido à baixa qualidade de resolução. Suas contribuidoras não recebiam nenhum tipo de remuneração. Sendo assim. além de três edições extras. pela reprodução da capa99: falta de saneamento básico. das favelas. Não supreende. cit. cit. 60. condições de trabalho. 98 Vinculada ao jornal foi inaugurada ainda a Sociedade Brasil Mulher (SBM) com sedes em diferentes estados que participavam das decisões do jornal. op. movimentos estudantis e parte do público da imprensa alternativa.97 Em depoimento. 74-75. o jornal chegava a sindicatos. bem como à necessidade de tornar determinadas imagens maiores em função de textos ilegíveis. carestia. ausência de postos de saúde. ainda.66 Partido Comunista (PC). falta de creches e escolas. distribuição de tarefas. mulheres da periferia. 100 TELES e LEITE. portanto. Seu último número foi publicado em março de 1980. as mesmas mulheres que produziam o jornal doavam recursos financeiros mensalmente para que o periódico continuasse a existir. op.. .100 Suas produtoras. era composta por um coletivo diversificado cuja ligação era a atuação de esquerda e a crença na dupla militância. clubes de mães. além de serem as principais responsáveis pelas vendas de exemplares e assinaturas. copy desk.. haviam todas tido acesso ao ensino superior. editor. pelo contrário. 86-87. portanto. do Movimento Revolucionário Oito de Outubro (MR-8). O Brasil Mulher teve dezessete edições – divididas por um racha político –. Joana Lopes informa que o jornal nasceu com uma proposta jornalística profissional: reunião de pauta. fotógrafo. p. comunidades populares. mesmo que de origens variadas. mas seu foco era bastante claro: operárias. cit. 98 CARDOSO. mulheres do campo. p. A publicação. As leitoras da publicação eram diversas. congressos de trabalhadoras. como pode ser evidenciado. das charges e das tirinhas não tem como base o tamanho real. 2004. da Associação Popular Marxista Leninista (APML). op. O número de mulheres variava. eram entre oito e trinta. As temáticas exploradas pelo jornal deixavam sua intenção ainda mais clara. que o Brasil Mulher tenha repercutido em suas páginas as concepções clássicas da esquerda em paralelo a preocupações de um feminismo em construção. 99 A reprodução das capas. p.. Todas as fontes visuais tiveram suas dimensões adaptadas à diagramação. além de mulheres sem partido e de pequenas agremiações políticas. com edições regulares de cinco mil exemplares. 97 TELES e LEITE.

op. 67 Figura 8 Fonte: Brasil Mulher. PC e do PC do B. Para Joana Lopes alguns grupos manipularam as eleições e queriam tomar conta do jornal. Ela e outras afastaram-se do Brasil Mulher e da Sociedade. 101 CARDOSO. forças da Ação Popular (AP). mulheres ligadas aos partidos de esquerda venceram as eleições para a diretoria da SBM e a proposta era direcionar o jornal para as questões gerais e e as questões de classe. defendendo um enfoque maior nas chamadas questões das mulheres.101 Nas edições seguintes é. segundo a fundadora. Joana Lopes e outras integrantes permaneceram na oposição. 92-93. Capa. cit. p. acontecimento comum em toda a imprensa alternativa do período. efetivamente. estavam habituadas ao jogo político e convocavam as mulheres a votar e decidir em torno das aspirações dos grupos interessados. Edição 8. Contudo. bastante nítido o redirecionamento do jornal para as questões de classe. Agosto de 1977. De acordo com depoimento da fundadora do Brasil Mulher. Entre a edição número 6 e 7 a harmonia que vigorava entre diferentes grupos de esquerda e mulheres autônomas na produção do jornal e da SBM foi tomada por um racha político. São Paulo. Brasil.. .

enumera pontualmente todos os assuntos abordados pelo humor gráfico nos primeiros oito exemplares do Brasil Mulher. com base em um jornalismo profissional e a partir do esforço de se refletir sobre as mulheres e o feminismo em plena ditadura. 147. que envolvia a discussão de temas específicos e análises conjunturais.65. p. p. no final de 1979. Ressente-se ainda de Kucinski que em sua tese afirmou que ela foi infiltrada pelo partido para causar o racha. op.68 articulado ainda à crítica do feminismo como ideologia burguesa. Processo semelhante era vivenciado nas eleições para a composição dos conselhos editoriais. informe que muitas companheiras do jornal a viam como uma força monitorada pelo PC do B. A tabela 2. 104 TELES e LEITE. das entidades independentes.103 A disputa.104 O conteúdo do Brasil Mulher era. E das equipes de redação. e podiam durar dias. 96. todos anteriores ao racha. não apenas em se tratando de imprensa. Nela é possível notar que o uso do humor gráfico não foi uma ferramenta amplamente explorada pelo jornal. como era o caso de sua fundadora 102 Ibidem. nesse sentido. pelo contrário. cit. inaugurando uma fase da imprensa feminista. das organizações armadas. muito embora. em depoimento. As pautas dos jornais alternativos feministas eram definidas em reuniões bem semelhantes às dos partidos clandestinos de esquerda. há um grande esforço de demonstrar como o Brasil Mulher estava articulado às demandas dos grupos de esquerda e lidava bem com a dupla militância. p. . em 1975.102 É interessante notar que o livro de Amelinha Teles e Rosalina Santa Cruz Leite não faz referência ao racha. a própria Amelinha Teles. mas também no que se refere aos próprios relacionamentos dentro dos partidos. bem como de mulheres já adeptas do feminismo. mas é importante destacar o papel de vanguarda da publicação. simboliza as dificuldades de emergência do feminismo no universo das esquerdas. fruto de debate de mulheres das mais diferentes vertentes políticas. na seção de apêndices. 103 Ibidem.. de algum modo. O jornal teria chegado ao fim com um racha generalizado cujo dispositivo foram os debates do II Congresso da Mulher Paulista. por meio de acirrado debate político.

perigosa.‖108A referência de humor era O Pasquim. já que explorar o potencial humorístico de temas delicados como anistia. direitos reprodutivos e saúde da mulher (14%). considerando-o atrasado. Os jornais alternativos vinculados à esquerda do período tinham propostas que não perpassavam a provocação do riso como uma possibilidade de intervenção. Ana Alice Alcântara Costa.105 Amelinha Teles e Rosalina Santa Cruz Leite. 108 Entrevista com Ana Alice Alcântara Costa concedida à Cintia Lima Crescêncio. jornais como Movimento. muito embora as feministas brasileiras exiladas olhassem para o jornal com certo preconceito. especialmente. 69 Joana Lopes. 73. p. 98. 106 Ibidem.9%). o primeiro e terceiro tema são alvo de charges. em ordem: custo de vida e inflação (40. discriminação racial. aborto e divórcio (5%) e violência (4%). discriminação racial (6%). educação (8%).6%) e eleicões de 1976/1978 (9. em entrevista. discriminação racial e aborto é uma aposta. 2012. em seu depoimento ela confirma: ―Eles eram jornais pesados. é sensato afirmar que no caso do Brasil Mulher a pauta dos jornais era reproduzida na abordagem humorística. trabalho rural e aborto. como reiventou toda uma linguagem com base nela. jornal que não apenas explorou a vontade de rir.107 Dos temas recorrentes. . os únicos que não foram abordados em termos de humor gráfico foram: anistia. os assuntos mais recorrentes são. creches (12%). provavelmente. trabalho rural (6%). 107 Idem. vale destacar que o periódico não explorava o humor gráfico de maneira sistemática. analisando as reportagens. nesse sentido. As relações que estabeleço. Do ponto de vista temático. Brasil Mulher e Nós Mulheres.106 Com exceção da segunda temática. tanto gerais quanto específicos. precisam ser avaliadas em termos de proporção. do ponto de vista conjuntural. pontua isso claramente. fizeram um levantamento dos temas mais recorrentes e concluiram que. Já em temas específicos. direitos das mulheres (9%). portanto. anistia e denúncias de presos (38. Para a ex-integrante do Brasil Mulher. as charges e tirinhas não são um conteúdo à parte do jornal. p.1%). que não foi problematizada no humor gráfico das edições selecionadas para análise. A exclusão de tais assuntos tinha. Florianópolis. ainda hoje. principalmente quando o parâmetro de 105 Ibidem. eram jornais ―sérios‖. os assuntos mais repetidos são. Portanto. relação direta com os limites do representável em termos de riso. Porém. em ordem: mulher e trabalho (22%).

5. há diferenças em termos de exploração do humor. os jornais feministas exploraram uma modalide de humor e de riso que. Edição 1. Se eles vangloriavam-se por não temerem temas tabus. o Brasil Mulher sinalizou um esforço de abordar os interesses feministas nas suas charges e tirinhas. p. elas podem orgulhar-se de terem colaborado na construção de um humor e um riso contra- hegemônico. tornando-se um fenômeno de público. enquanto o Mulherio emergiu com uma proposta de tratar de mulheres e feminismos de uma maneira menos rígida. dezembro de 1975. Não há dúvidas que o jornal da ―patota‖ explorou o humor e o riso em proporção muito maior do que os jornais feministas. guardadas as devidas proporções. Figura 9 Fonte: Sem Autoria. a exemplo da primeira charge publicada em seu número 1 que reproduzo na sequência.70 comparação é O Pasquim. Para O Pasquim tudo podia ser motivo de piada. Brasil Mulher fez uso dele de maneira bastante modesta. era muito mais subversora que a do Pasquim. já o Nós Mulheres até contou com a parceria do cartunista Henfil. em termos políticos. jornal que tinha como proposta política e editorial lançar mão do humor como linguagem e forma. Já os jornais feministas lançaram-se no uso do humor gráfico de maneira mais sutil. nenhum tema era proibido. Ainda assim. Brasil Mulher. foi exatamente por esse motivo que a publicação marcou época. Mesmo entre os jornais feministas. De todo modo. Brasil. o pensamento e o movimento feminista eram considerados assuntos sérios. .

Mesmo sem ser marcado pelo humor gráfico. ―menina não entra‖. 109 Ibidem.109 Na sequência é possível perceber que. Trata-se de uma versão adaptada do clube comandado pelo personagem Bolinha. espaço apenas de meninos. exatamente. inclusive em níveis temáticos e público alvo. A charge satiriza a estatal brasileira. companheiro de Luluzinha em tirinhas. suas principais diferenças residem na composição de seu corpo editorial e em um reconhecimento do seu feminismo desde o número zero. O lema do clube era. contudo eles diferenciavam-se em dois pontos importantes. A construção do Nós Mulheres é semelhante à do Brasil Mulher. 71 A imagem que representa um prédio da Petrobrás com o escrito ―Menina não entra‖ é uma referência à decisão da estatal de impedir que mulheres prestassem concursos para a função de geólogas e químicas pelo fato do trabalho ser considerado insalubre. . 59-60. O primeiro número do Nós Mulheres foi lançado no primeiro semestre de 1976. Na charge do Brasil Mulher os dirigentes da petroleira eram meninos mimados e privilegiados. histórias em quadrinhos e desenhos animados. A representação visual também é bastante semelhante ao clube de meninos – todos crianças –. fazendo um paralelo com o clube do Bolinha. p. o Brasil Mulher publicou 16 charges/tirinhas em seus primeiros nove exemplares. ele dependia de suas vendas. uma construção de tábuas rústicas com a proibição inscrita na entrada. Assim como o Brasil Mulher. os jornais eram muito semelhantes. das contribuições de suas integrantes e não tinha publicidade.

. sendo que lançou também uma coluna de humor com a promessa de dar visibilidade a trabalhos com perspectiva feminista e cartunistas mulheres. nem com mulheres afiliadas a partidos. Suas integrantes haviam participado de reuniões feministas durante o exílio em outros países e puderam voltar ao Brasil antes da Lei da Anistia. Desde o princípio o grupo proclamava e defendia a construção de um feminismo autônomo. Edição 2. Brasil. de explorar o 110 Ibidem. Capa.70. A iniciativa tímida do Brasil Mulher. toda sua coleção. Em apenas oito exemplares.72 Figura 10 Fonte: Nós Mulheres. p. o jornal publicou 22 charges e tirinhas. Setembro-Outubro de 1976. O primeiro deles é suas integrantes. 111 Ibidem. O Nós Mulheres não contava com mulheres ex-presas políticas. p. O jornal inaugura o esforço da imprensa feminista de produzir e divulgar humor gráfico com conteúdo feminista. Havia ainda muitas estudantes.110 mesmo que as preocupações características dessa camada de interesses fossem reproduzidas no jornal.82.111 O segundo ponto de diferenciação interessa diretamente a esta pesquisa e é defendido a partir da sistematização das fontes selecionadas do Nós Mulheres. São Paulo.

de fato. No reforço do papel da mulher como guardiã do espaço doméstico na década de 1950 estava o cinema e em um contra-movimento repleto de paradoxos destacava-se o papel das mulheres escritoras que fizeram uso do humor para 112 Ver. Boa parte do humor gráfico do Nós Mulheres tinha como tema o trabalho doméstico. Feminismos de Segunda Onda no Cone Sul Problematizando o Trabalho Doméstico. p. Em abril de 1977 o Nós Mulheres lançou. 113 TELES e LEITE. era a formação política de suas integrantes. embora presente nas discussões sobre mulher e trabalho. repercutiu uma tendência internacional que teve como marco a posição de Betty Friedan contrária ao que ficou conhecido como domestic humor. trabalho rural (6%). cit. 73 humor.113 As proporções entre um jornal e outro são praticamente as mesmas e apenas pequenas oscilações são registradas. op. o Nós Mulheres obedeceu a uma proporção temática semelhante ao Brasil Mulher. o que os separava. p.112 No que se refere a temas gerais e específicos das reportagens. direitos reprodutivos (14%). aborto e divórcio (5%) e violência (4%). MELLO.. da literatura e do humor. Vale destacar que o levantamento feito por Amelinha Teles e Rosalina Santa Cruz Leite levou em consideração todos os números de ambos jornais. . 94.98-99.. 2010. Nessas reações destacam-se o papel do cinema. creches (12%). direitos das mulheres (9%). Dissertação de mestrado defendida no Programa de Pós-Graduação em Historia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). discriminação racial (6%). Segundo Nancy Walker foram variadas as reações no pós-guerra. O mesmo acontece com a categorização de matérias por temas específicos: mulher e trabalho (22%). anistia e denúncias de presos políticos (25%) e eleições de 1976/1978 (10%) foram os temas dominantes nas suas matérias. uma edição extra em comemoração ao dia internacional da mulher. 2004. Aparentemente. a esse respeito. tema modesto no Brasil Mulher em termos de humor gráfico. educação (8%). Soraia Carolina. quando as mulheres foram chamadas de volta aos seus lares depois de um período em que sua mão de obra foi economicamente importante. Custo de vida e inflação (40%). cit. avançou e tomou uma proporção maior no Nós Mulheres. 114 CARDOSO. em parceria com a SBM. op.114 O Nós Mulheres. Isso não impedia ações conjuntas. ao insistir na exploração do humor gráfico privilegiando o tema do trabalho doméstico. A novidade não se encerra ai.

―if you are feeling desperate. Nancy. 118-119. Sua resposta é repleta de ironia e bastante contundente: não há graça nenhuma em piadas e gracejos que pretendem fazer humor através do cotidiano doméstico das mulheres. No entanto. Oxford University Press. loves and laughs at her son – and writes another book. Isn‘t funny? We‘re in the same trap. O esforço de Betty Friedan é bastante claro. 116 ―‘Ria‘. estariam presas nas mesmas armadilhas. Humor and Gender Roles: the ‗funny‘ feminism of the Post-World War II Suburbs. De maneira dramática ela ironiza o imperativo ―ria‖ destinado a mulheres que se sentem entediadas. afirmava: ―Laugh‖. ‗se você está se sentindo desesperada. The Feminine Mystique. 1987. Jean Kerr‘s plays are produced on Broadway. the Housewife Writers tell the real housewife. nas questões de transporte e lavação de louça‘. p. . chauffeuring and dishwashing details. em sua famosa obra A Mística Feminina.74 problematizar a retomada das cozinhas depois do final da guerra. entediada.‖ Do real housewives then dissipate in laughter their dreams and their sense of desperation? Do they think their frustrated abilities and their limited lives are a joke? Shirley Jackson makes the beds. presa na arrumação da cama. ama e ri com seu filho – e escreve outro livro. Betty.116 No trecho uma das mais famosas feministas estadunidenses elaborou uma crítica contundente às escritoras que sugeriam que as donas de casa rissem de sua própria condição. (ed). Nova York: Norton. trapped in the bed-making. Não é divertido? Nós estamos presas a mesma armadilha. Arthur Power. As dona de casa então dissipam no riso seus sonhos e desespero? Elas acham que suas habilidades frustradas e suas vidas limitadas são uma piada? Shirley Jackson arruma as camas. p. tradução nossa). vazias e encurraladas. England. que também são donas de casa. dizem as donas de casa escritoras para a verdadeira dona de casa. e as donas de casa comuns. 57. vazia. empty. As peças de Jean Kerr são produzidas na Broadway. A autora identifica um grande abismo entre mulheres comuns e escritoras consagradas que exploravam o sofrimento da vida doméstica para fazer rir. bored.‖ (FRIEDAN. 1963. In: DUDDEN. afirmando que entre uma atividade doméstica e outra as escritoras que exploravam o domestic humor publicavam um livro. uma 115 WALKER. A piada não é sobre elas.115 Betty Friedan. The joke is not on them. O excerto ainda satiriza a ideia de que as escritoras. American Humor.

Na tira de 1977 a protagonista Bia Sabiá figura mais uma das suas infinitas cenas de embate doméstico com seu companheiro Heitor.. Você chega do trabalho e ainda tem que dar duro. 15. Coluna de Humor. 75 abordagem a partir dos estudos do campo do humor podem levar a conclusões diferentes e a produção de humor gráfico feminista de autoria de Ciça.. recusando a possibilidade de ajudá-la com as tarefas domésticas. Figura 11 Fonte: CIÇA. É provável que nenhum homem tenha a ousadia de Heitor. recusando abertamente compartilhar ―tanto trabalho‖ – ou talvez tenha? –. sob pena de ter que desempenhá-lo. é um excelente exemplo. Nós Mulheres. trata-se de uma analogia às mulheres que são ignoradas em se tratando de trabalho doméstico. tá sabendo? Eu não aguento ver você assim. amplamente publicada no Nós Mulheres. com tanto trabalho. exatamente o elemento que aciona o riso: ―Então eu vou dar uma voltinha até o boteco.‖ No segundo quadro ele continua com seu discurso baseado na empatia: ―Eu acho um absurdo. um trabalho que é melhor fingir que não se vê. cuidando da casa. p. mas não é sobre isso que fala a tira. pra me distrair. Edição 5. ... Bia. junho-julho de 1977. Tchau!‖ A história que teve início com um companheiro generoso e empático foi finalizada com um companheiro que deu às costas abertamente à Bia. No primeiro quadro Bia é apresentada lavando a louça diante de uma observação generosa do companheiro que se compadece da dupla jornada da esposa: ―Que coisa. Brasil. Eu não aguento!‖ No último quadro a solidariedade do companheiro tem uma virada que se ampara no absurdo.

. simultaneamente. op. Finalmente.117 A familiaridade com as situações narradas. embora exagerada senão distorcida pelos propósitos do humor. a leitora é sutilmente convidada a concordar com a escritora sobre a fonte do desconforto – a concordar com a premissa de que alguém ou algo está em falta em uma cultura que isola e banaliza a experiência das mulheres. uncomfortable situation. Depois. Because the situations depict in these works are familiar ones to most female readers. p. however exaggerated or otherwise distorted for the purposes of humor… Next. causam reconhecimento imediato. não desconsidera a ponderação de Betty Friedan.76 Não podemos negar o caráter subversivo da tirinha e do riso promovido por Ciça. Nancy Walker. o humor torna-se uma estratégia para lidar com a frustração. the reader is subtly invited to agree with the writer about the source of discomfort – to assent to the proposition that someone or something is at fault in a culture that isolates and trivializes women‘s experience. 122-123.‖ (WALKER. Ambos baseiam-se no reconhecimento. the humor itself invites sympathy. the writers ability to make apparent fun of the situation engages the reader‘s respect and participation. and most importantly. Finally. humor becomes a strategy for coping with frustration. como a solidão de Bia no cuidado da louça. cit. o humor solicita simpatia. and the reader feels a bond with the writer who can simultaneously delineate and rise above a familiar. delinear e avançar sobre uma situação familiar e desconfortável. . mas vale destacar que situações como as narradas e desenhadas por Ciça vão ao encontro dos escritos de mulheres que produziram o domestic humor. 1987. mesmo que faça uso de certas distorções – como é o caso extremado de Heitor que anuncia que prefere não assistir. na simpatia e na concordância. tradução nossa). Em seguida emerge a simpatia fruto da habilidade da autora – nesse caso de Ciça – de conquistar as leitoras 117 ―Porque as situações representadas são familiares a maioria das leitoras mulheres. e a leitora sente uma ligação com a escritora que consegue. a habilidade da escritora de fazer graça da situação garante o respeito e a participação da leitora.. e mais importante. the reader first recognizes her own experience in the writer‘s account. a leitora primeiro reconhece sua própria experiência no relato da escritora..

Inês Castilho. tanto em território nacional. As temáticas gerais e específicas acompanham as tendências do Brasil Mulher.. em termos de humor gráfico. tinha relação direta com o papel desempenhado pelas esquerdas. no período de 1975 e 1980. fruto sim do amadurecimento do debate feminista. concordamos. de se fazer um meio de se comunicar com as mulheres trabalhadoras. com a sugestão da autora. É visível o avanço do debate feminista nas páginas do Nós Mulheres. assim. o jornal fundado por ex-exiladas e estudantes parece acompanhar também uma tendência internacional dos debates. quanto das experiências trazidas por ex-exiladas. especialmente do Nós Mulheres. integrante do Brasil Mulher. além de ter optado pelo uso do riso como ferramenta de ação e reflexão. mas. Assumir um jornal feminista para a classe média ou para as trabalhadoras foi uma polêmica que apareceu no grupo. notadamente. O Nós Mulheres. 83. cinco problematizam diretamente o trabalho doméstico. É nesse cenário que se enquadra o aumento qualitativo e quantitativo do debate sobre trabalho doméstico.118 O dilema apontado por uma das integrantes do Nós Mulheres acentua o debate em torno da busca por legitimidade feita pelo movimento que. teria sido o 118 TELES e LEITE. op. 77 por meio do humor sobre o universo cotidiano. Segundo Inês Castilho. p. não tinha experiência de militância – em partidos e organizações – e por isso teve uma função mais pontual. de preocupação de classe. Nesse sentido. Aliás. jornalista que fez parte do primeiro grupo do Nós Mulheres. o Nós Mulheres fez menos esforços para se articular com as trabalhadoras. em sua visão. Das 22 charges e tirinhas do Nós Mulheres. Para Vera Soares. no caso do Brasil e seu contexto de ditadura. . já maduro em países como Estados Unidos. foi um dilema do feminismo. Por fim as leitoras são levadas a identificar o responsável por tal injustiça – Bia continua sendo a responsável pelas tarefas domésticas depois que Heitor sai de cena –. cit. explica que o núcleo do jornal se contrapõe ao BM porque este estava atrelado às legendas de esquerda. um feminismo voltado para a classe média era condenado e essa realidade incentivava ainda mais o esforço dos jornais. o feminismo só se justificava na medida em que era voltado para as mulheres trabalhadoras.

cit. a número 8. 2. À Fundação eram vinculadas as pesquisadoras e jornalistas que levaram o jornal adiante. . seu compromisso.2 Mulherio A primeira edição do Mulherio. foi lançada em março de 1981. Ao contrário do Brasil Mulher e do Nós Mulheres. com as ONG‘s. as integrantes dos jornais enfrentaram as dificuldades de ingressar em um domínio dos homens.. Elas eram poucas.. p. de maneira duplamente alternativa.170. Além de uma postura muita defensiva e preocupada em deixar claro que o feminismo não era uma ameaça às esquerdas e ao país. foi publicada em 1978. Foi publicado até 1988.78 princípio de um projeto que se concretizaria décadas depois. defende que a autonomia em relação aos partidos permitiu que o jornal seguisse novos caminhos. O periódico teria sido uma forma de sistematizar os debates protagonizados pelos feminismos no Brasil. emergiu vinculado a uma instituição. Brasil Mulher e Nós Mulheres foram os primeiros jornais feministas de segunda onda criados e publicados no Brasil. à FCC. através da institucionalização. era com assuntos 119 TELES e LEITE. 120 TELES e LEITE.157.1. tendo encerrado suas atividades depois de 40 edições. todas interessadas em estudar assuntos referentes às mulheres. Apesar do caráter aparentemente academicista assumido pelo jornal. op. op. mas dispostas. automaticamente. desde a primeira edição.119 Maria Lygia Quartim de Moraes. Nasceu como um boletim provisório projetado pela pesquisadora Fúlvia Rosemberg e editado pela jornalista Adélia Borges. com destaque especial para o feminismo acadêmico. por muito tempo. cit. integrante dos Nós Mulheres. Uma tira de Henfil e outros textos ilustraram sua derradeira capa. O princípio da década de 1980 foi marcada por outras formas de organização feminista.120 A última edição do Nós Mulheres. que no final dos anos 1970 foi aos poucos desaparecendo. Não é acidental que todo e qualquer jornal feito por mulheres foi. considerado feminista. Os dois jornais acabaram no mesmo período. demarcando a emergência dos movimentos feministas do Brasil e também integrando. a imprensa alternativa. número zero. p. De algum modo ambos serviram como exercício de construção de um feminismo que se via diante de um cenário político complexo que propiciava a emergência de uma sobre/justaposição de lutas.

o Mulherio foi o mais feminista dos jornais. fotografias. tanto para cartunistas mulheres quanto para os cartunistas homens. 121 Ver. para Bernardo Kucinski. contava com o suporte material da Fundação Carlos Chagas. É curioso observar que. de fato. fugindo. portanto. 82. op. O Mulherio criou um cenário diferenciado em termos de produção e publicação de humor gráfico feminista. em termos de humor gráfico. o Mulherio. a esse respeito. A proposta era uma abordagem mais leve. nasceu já no final do ciclo alternativo. contudo. Mais da metade da produção humorística do jornal. Acesso em 27 de fevereiro de 2016. eram muitas ilustrações. o Mulherio procurou criar uma linguagem diferenciada para se comunicar com suas leitoras.org. um elemento que ajuda a romper com um modelo sério e sizudo de jornal. . com suas colunas de humor e esforços para visibilizar o trabalho de cartunistas mulheres. No capítulo 3 e 4 esta questão é debatida detidamente. São 102 charges e tirinhas distribuidas em 40 exemplares. O mais duradouro e mais feminista dos jornais feministas. 28 assinadas por cartunistas mulheres. era assinada por homens – 41 charges/tirinhas assinadas por cartunistas homens. Editado por Adélia Borges. http://www.121 Efetivamente. sendo que a cartunista mulher que mais foi publicada no jornal foi Célia. na visão das integrantes. o Mulherio seguiu realmente um rumo diferenciado. postura e padrão editorial. do modelo organizativo da imprensa alternativa dos anos 70.122 O jornalista e pesquisador já deixou claro em outros momentos que seu olhar para a imprensa feminista não era dos mais generosos. se lançarmos nosso olhar em direção ao conteúdo humorístico. deveriam ser tratados sem mal- humor e sisudez.html. e continuava a existir em janeiro de 1990.br/conteudosespeciais/mulherio/historia. cit. 10 ilegíveis e 21 sem autoria conhecida. foi o menos alternativo deles. 79 sérios que. Seu projeto gráfico também prometia uma leitura mais dinâmica.fcc. No momento é importante observar que. caminho já trilhado pelo Nós Mulheres. em parte mulheres trabalhadoras e em parte mulheres de classe média. apesar de semelhanças em conteúdo.. p. quase dez anos depois. em 1981. 122 KUCINSKI.

Não é possível negar que os anos 1980 foram um período de emergência e fortalecimento do debate acadêmico com cunho feminista. Interessante notar que.124 É. Outubro de 1987. não eram feministas ou que eram pouco originais.80 para ele a imprensa feminista era como uma ―ala feminina‖ dos jornais alternativos com cunho político. no grau de feminismo da imprensa. inclusive. à pesquisa de campo. oscilando entre a posição liberal (buscavam diálogo com o Estado) e a marxista (denunciavam o capitalismo. 124 GOLDBERG. . Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) da Universidade Federal do Rio de Janeiro. e como tal.123 Para o autor a imprensa feminista só teria se tornado feminista de fato. Como acontecimento o feminismo foi construído. o que bate todos os recordes é exatamente o que não é alternativo em sua essência.] os jornais feministas não atingiram graus elevados de desenvolvimento e autonomia conceitual. mergulhando no feminismo e desenvolvendo um padrão próprio. RJ – Brasil.. presumir que os debates anteriores. passou por processos distintos. 154. Rio de Janeiro. 123 Idem. quando encontrou seu padrão próprio. 125 Ibidem. e também conceitualmente original. Tal posicionamento é ainda mais evidente quando Kucinski afirma: [. p. 156. muito mais ligado ao meio acadêmico. Tese de Mestrado. no meio acadêmico que o feminismo também ganhou grande força quando o tema ―mulheres‖ afirmou-se como objeto de estudos. notadamente envolvido com o meio acadêmico. exatamente aqueles protagonizados por jornais como Brasil Mulher e Nós Mulheres. no entanto. um esforço claro de pontuar o movimento feminista como um movimento burguês.. p. Annete Goldberg destaca que pesquisadoras viviam em uma tensão entre a militância e a academia. Começaram como alternativa à própria imprensa alternativa. Anette.125 Reconhecer a emergência de um feminismo acadêmico não autoriza. mas mantiveram-se presos aos seus paradigmas e passaram pelos mesmos processos de <rachas>. Do que às instituições da sociedade civil. mas tentavam negociar com as instituições). só no final da década libertaram-se do universo anterior. Feminismo e Autoritarismo: A Metamorfose de uma Utopia de Libertação em Ideologia Liberalizante.

quando o jornal saiu da FCC. para ele o feminimo só era feminismo se estivesse desvinculado das organizações e da militância de esquerda. década em que foram fundados Brasil Mulher e Nós Mulheres. Edição 30. Figura 12 Fonte: Mulherio. O apoio da instituição foi mantido. como demonstra a capa em destaque. lançou-se em debates importantes e inovadores. Brasil. inclusive. fundado em uma época de fortalecimento dos movimentos feministas e das mulheres. vinculado ou não a espaços de pesquisa. São Paulo. O autor ainda atribui o feminismo do jornal ao seu nítido engajamento acadêmico. Mulherio. A equipe foi mantida. influenciada pelo projeto gráfico inovador e pelo contexto de emergência do Mulherio. 81 A observação de Kucinski é. mas a partir de 1984 a jornalista Inês Castilho assumiu o comando da publicação e o jornal enfrentou a instabilidade financeira que tanto afetava os jornais feministas e alternativos da . julho de 1987. provavelmente. Capa. Talvez. já bastante distante da violência e do autoritarismo que ainda marcavam o Brasil nos anos 1970. O Mulherio contou ainda com o apoio financeiro da Fundação Ford. entidade estadunidense que existe ainda hoje e financia projetos em países em desenvolvimento que beneficiem as mulheres.

br/conteudosespeciais/mulherio/historia. natural diante da mudança dos tempos e do amadurecimento de um pensamento feminista.82 década anterior. passando a se chamar Nexo. Se o Mulherio é lembrado porque fez parte e ajudou a construir um feminismo de cunho acadêmico. mas durou apenas mais dois números. Já em seu último ano. Mulherio alcançou grande popularidade e chegou ao fim já em plena redemocratização. a esse respeito. feminista. é porque as mulheres estavam. com a história das esquerdas e com a história das mulheres. Os debates entre academia e militância são cada vez mais fervorosos e hoje há um esforço das universidades de buscar nos movimentos sociais respostas e questões para a construção de um país. e essa história não é recente. Não é porque vivemos em uma democracia que o autoritarismo foi abolido e as organizações feministas. é porque o contexto de ditadura já estava sendo transformado. é apontado por muitas integrantes hoje como uma espécie de laboratório feminista. . 126 Ver. http://www. o periódico mudou de nome. divórcio. explorando. Debateu-se abertamente aborto. por que não. Conhecer a história dos três periódicos feministas brasileiros não deve ser um exercício de acompanhar uma linha evolutiva e cronológica do movimento feminista hoje.org. totalmente envolvido com partidos de esquerda e com grupos que integraram à luta armada. efetivamente. fundado em 1975. Acesso em 27 de fevereiro de 2016. principalmente. Se o Nós Mulheres é lembrado pelo amadurecimento do pensamento feminista.126 Em termos temáticos Mulherio inovou.html. 1988. mas sim um meio de compreender muitas das lutas que continuamos empreendendo na atualidade. sexualidade. inclusive. não só com armas em punho. reconhecendo a necessidade de embates. o poder de alcance das redes sociais. Se o Brasil Mulher. Tais paralelos não são uma tentativa de construir uma linha evolutiva. muito pelo contrário. com a construção de um feminismo que ―faz graça‖ dos absurdos e autoritarismos ainda vigentes.fcc. A discussão sobre autonomia é fundamental e pauta novos movimentos que se organizam hoje. é porque hoje um dos campos que mais fortalece os estudos de gênero e estudos feministas é o acadêmico. A timidez com que temas tabus eram tratados nos jornais anteriores deu lugar a uma discussão mais franca e aberta. Um dos pontos mais interessantes de observar nos primeiros jornais feministas publicados no Brasil durante a emergência do feminismo da segunda metade do século XX é sua direta relação com a história do país.

contudo. Todos os quatro presidentes que assumiram o comando da república nos anos que se seguiram eram oficiais do exército. especialmente do Brasil. Algunos elementos para analizar la dictadura argentina dentro de las dictaduras del Cono Sur.. Buenos Aires. las cuelas habían devenido creadoras de condiciones para a 127 ANSALDI. paradójicamente. [. dicen los dictadores y sus intelectuales. 35-36. p. Isso não impediu. marinha e aeronáutica). onde as eleições não foram abolidas –. 83 políticas ou autônomas. assim como mediava suas decisões. La trama corporativa de la última dictadura. acadêmicas ou sociais. o golpe argentino baseou-se na Doutrina de Segurança Nacional (DSN) para legitimar a interrupção do regime democrático e a instauração de oito anos de regime autoritário. 2.2 ARGENTINA O golpe de 24 de março de 1976 na Argentina iniciou um período de ditadura que se estendeu até 1983. foi na Argentina que o regime ditatorial durou menos. demagógicas y degeneradoras de los políticos. Siglo XXI. À junta cabia dar parecer sob as decisões do presidente. logo no dia do golpe foi lançado o Estatuto para o Processo de Reorganização Nacional que criou uma junta composta pelas três forças armadas (exército. em que os partidos existentes foram abolidos e dois partidos únicos foram criados pelo governo. A junta foi escolhida como orgão supremo do Estado e a partir desse momento tornou-se responsável pela escolha do presidente – ao contrário do Brasil.] las dictaduras no tienem un principio de legitimidad propio y.. para restaurar las democracias conculcadas por las prácticas corruptas. reforçam a realidade e as dificuldades impostas por essa condição com insistência. Matriuskas de Terror. . teriam de ser autorizados pela junta. 2004. da Argentina e do Uruguai. la democracia: las dictaduras se instalam. pp. que ele fosse considerado um dos mais violentos. tiendem a autofundamentar-se precisamente en aquello que su práctica niega. a DSN foi o elemento que vinculou diferentes regimes autoritários. Ministros e governadores.127 Apesar do modelo que se distancia do brasileiro. Waldo. Tecnócratas y Militares. por exemplo. passando a simular a democracia via eleição indireta. Dos países do Cone Sul. Assim como o golpe brasileiro. In: PUCCIARELLI. A (org): Empresarios. De acordo com Waldo Ansalti. 27-51.

presidente nomeado após o golpe de 1976. No que se refere ao caráter militarizado da ditadura argentina. Entre elas destacam-se gigantes internacionais como Mercedes Bens e Ford Motors. seis indústrias que mantinham relacionamentos de troca de favores com o governo antes do golpe e durante a ditadura. o bien para instaurar una nueva democracia. p. portanto. o que não aconteceu. afirmava que a luta a ser empreendida era contra a demagogia. foi uma espécie de marco ideológico que caracterizou regimes autoritários e violentos. Daí o ampliado uso de eufemismos como ―revolução‖ e ―reorganização nacional‖. 129 Ibidem. Elementos militares eram infiltrados nas fábricas para observar atividades sindicais e trabalhadores(as) que poderiam oferecer algum tipo de ameaça. especialmente o papel de empresas que. mesmo antes de março de 1976 . a corrupção e a subversão dos valores nacionais. nesse sentido. Mesmo diante da alcunha comum que reduz golpes e ditaduras a acontecimentos puramente militares. Crença semelhante era observada junto à imprensa brasileira que apoiava o golpe e o imaginava como uma interrupção rápida. já estabeleciam alianças com as forças armadas. como a discussão sobre participação de elementos civis no golpe e na manutenção do regime. p. 41-42. só encerrada em 1983. No ano seguinte o mesmo ditador garantia que o Processo de Reorganização Nacional tinha como objetivo um regime político democrático. tanto no que se refere a paralizações quanto a conspirações contra o governo. Cenário semelhante foi vivido pelo Uruguai. alguns debates historiográficos são semelhantes aos que se construíram no Brasil. uma correção dos vícios das democracias que assistiam recorrentes guinadas à esquerda. Já antes do golpe centenas de 128 Ibidem.128 O argumento para justificar os golpes e ditaduras foi.84 ―subversión marxista‖. Foram vinte e um anos anos de generais-presidentes. 41. . Victoria Basualdo destaca a existência de. O mesmo autor pontua que os generais que assumiram presidências e juntas logo após o golpe prometiam e esperavam a retomada das liberdades democráticas. no mínimo. Vale relembrar a posição do jornal Correio da Manhã que defendia a intervenção militar no Brasil e um retorno rápido dos civis ao poder. Logo após o golpe argentino o General Jorge Rafael Videla. também na Argentina os elementos civis precisam ser lembrados.129 A DSN.

Florência Paula. Número 5 (edición especial).. 1-21. ainda. a autora destaca: [. p.]131 130 Segundo Florencia Paula Levín: ―La descomposición del gobierno peronista y los enfrentamientos cada vez más cruentos entre las facciones de izquierda y de derecha del movimiento se convirtieron en caldos de cultivo para la emergencia de grupos terroristas paramilitares que.130 organização que também perseguia grupos feministas. 2010.. Há. Víctimas. pp. Canada October 6-9. 1973-1983‖. na Argentina não há dúvidas de que ela se instaurou no mínimo um ano antes do golpe. Astarsa. Ford. posición desde la que se encargó de otorgar innumerables beneficios a su empresa [. registros de mortes dentro das empresas e com sua colaboração. marzo 2006. Victoria. Estos grupos de choque. através de alianças entre empresas e forças armadas. Toronto. a Triple A. pp. 1-25. a exemplo da Alianza Anticomunista Argentina. p. Trabajo publicado en la Revista Engranajes de la Federación de Trabajadores de la Industria y Afines (FETIA).‖ (LEVÍN. 6 . sequestros. Enquanto no Brasil há discussões que procuram pontuar quando a violência de fato começou. verdugos y mecanismos de la represíon clandestina em la óptica de los humoristas del diário Clarín. torturas. Ledesma y Mercdes Benz. Complicidade patronal-militar en la última dictadura argentina: Los casos de Acindar. quien pasó de ser presidente de Acindar hasta 1976. 2) 131 BASUALDO.. estuvieron también vinculados con el entorno presidencial. há evidências nada anacrônicas que pontuam a parceria. Além dos depoimentos que atestam o relacionamento.] quizás la demonstración mas cabal de la mancomunión de los interesses de a empresa y de la dictadura esté centrada en la figura de José Alfreso Martínez de Hoz.. particularmente con la figura del ―brujo‖ José López Rega. bem como a partir da atuação de grupos paramilitares. Dálmine Siderca. hicieron su aparición en la escena hacia fines de 1973 ejerciendo una metodología de persecución y exterminio. asociados con las fuerzas policiales y con la llamada ―pesada‖ del sindicalismo peronista. ―En los limites de lo representable. tras el nombre de Acción Anticomunista Argentina (o Triple A). Prepared for delivery at the 2010 Congress of the Latin American Studies Association. 85 trabalhadores(as) sofriam prisões. Referindo-se à empresa Acindar Indústria Argentina de Aceros. a ocupar el cargo de Ministro de Economia de la Nación a partir del golpe militar.

de manter a ordem com escancarado apoio de industriais. como ainda reivindicava junto às forças armadas a prisão e detenção de trabalhadores(as) e líderes de organizações que lutavam pelos direitos trabalhistas. O cenário argentino. . p. existen numerosos testimonios que indican que. La relación entre la empresa y las fuerzas militares se puso de manifiesto de diversas maneras en el caso de Ford. Depoimentos ainda pontuam que havia controle do exército na porta das fábricas. Enquanto no Brasil a memória se encarregou de criar certa aura de vergonha pela participação de grupos civis no golpe e no regime fortemente autoritário e violento. Pesquisas indicam que algo semelhante aconteceu no Brasil. la empresa reclamó el secuestro de trabajadores y delegados gremiales a las fuerzas armadas. Por otro lado. trabajadores secuestrados testimonian que sus detenciones se efectuaron en camionetas F100 que eran proporcionadas a las fuerzas represivas por la empresa. desde o princípio. na Argentina forças militares e também paramilitares encarregaram-se. portanto. lejos de limitarse a apoyar a las fuerzas represivas. p. o que torna o mascaramento dessa participação uma atividade difícil. 133 Ibidem. Por un lado. detenção e averiguação de funcionários dentro da própria fábrica.134 Segundo depoimentos a Ford teria não apenas cedido automóveis que eram usados para prisão de trabalhadores. há o significativo episódio em que um presidente de empresa é nomeado ministro do regime autoritário que se instaurava. 132 Ibidem. 8. 7. Não podemos esquecer do caso do industrial Henning Boilesen. 134 Ibidem.132 No caso da empresa Dálmine Siderca testemunhos ainda apontam uma passagem de ligação entre a fábrica e um centro de detenção clandestino. no intuito de identificar figuras ―marcadas‖.86 Além da atuação dentro das fábricas e de ceder equipamentos e transporte para atuação das forças armadas. 9. apresenta muito mais desafios em desvincular o papel de elementos civis no golpe e na ditadura.133 No caso da Ford Motors Argentina há ainda indícios de colaboração material. contratação de agentes do exército infiltrados. p.

María Elema Oddone. Na Argentina os elementos industriais mais do que apoiaram a ditadura. implicaban una cierta burocracia y organización. Toda la evidencia disponible apunta a demostrar que los mecanismos mediante los cuales las fuerzas armadas y los sectores empresarios articulaban sus intereses y necesidades se hallaban institucionalizados. 135 Ibidem. definitivamente. Ana Maria. 87 acusado de financiar. 18. eles foram parte integrante dela. . In: PEDRO. de ampla violência e a manifestação pública. O interesse era. apoiar e até criar aparelhos para tortura. econômico. 136 VEIGA. Um Mosaico de Discursos: redes e fragmentos nos movimentos feministas de Brasil e Argentina. do Movimiento pela Liberación Feminina (MLF). do qual fez parte o periódico Persona.135 A autora pontua uma articulação sistematizada entre patrões e forças armadas que teve início ainda em 1975. efetivamente. 55. 2011. Resistências. WOLFF & VEIGA (orgs). 136 O contexto era. proporcionando listados de trabajadores a ser secuestrados y aportando recursos para el funcionamiento de la maquinaria de la represión. mas também de disciplinamento da classe trabalhadora. chegou a ser ameaçada publicamente pela Triple A. seja ela na forma de movimentos sociais organizados ou de imprensa. y adquirieron formas similares incluso en regiones distantes entre sí y actividades económicas disímiles. p. sino que la demandaron y guiaron. p. Los datos recogidos y testimonios como el precedente indican que los directivos de las grandes empresas no sólo aceptaron la represión a sus trabajadores. A violência da ditadura argentina e os esforços de desvelamento dos seus agentes. Esta breve exposição não deixa dúvidas do contexto de vigilância e ausência de liberdades que imperava no país e que reduzia muito a possibilidade de organização de movimentos sociais. Florianópolis: Editora Mulheres. momento de efervescência sindical e princípio da repressão contra os movimentos operários. era restrita. Gênero e Feminismos contra as Ditaduras no Cone Sul. insinuam um cenário ainda mais complexo.

137 O país vizinho. al tiempo que dispositivos premodernos 137 Ver. não é avaliar o papel da grande imprensa na ditadura argentina. É frequente. e que ainda hoje é protagonista de controvérsias. e outros jornais da Argentina. Voces y silencios. É lugar comum apontar o Clarín. desaparecimentos e mortes. mas sim apontar a grande relevância do humor na história do país. As 30 mil pessoas diretamente afetadas pelo regime que se arrastou por oito anos tiveram uma parte de seus algozes punidos diante de um significativo avanço das políticas de direitos humanos. por isso destaco o papel do Clarín. a esse respeito. só que assumindo ares anacrônicos. . a Argentina levou a tribunais mais de 600 militares responsáveis por torturas. como apoiadores do golpe. a acusação de que seus impérios foram construídos a partir da violência e do sofrimento. jornal que entre 1975 e 1976 explorava o tema da tortura e da violência na Argentina em suas charges. El humor gráfico de Clarín se sumó a la tematización e interpretación de temas y aspectos vinculados con la violencia y la represión ilegal a partir de un corpus llamativamente profuso y variado de tópicos y personajes a lo largo de todo el período estudiado. quando a censura passou a gestar tal ―publicidade‖.Víctimas y verdugos desfilaron por las páginas del diario junto con la esporádica aparición de fragmentos de cuerpos y calaveras. SABORIDO.88 Em termos de imprensa a Argentina viveu cenário semelhante ao brasileiro. contou com a publicação de um jornal da grande imprensa que sobreviveu a ditadura. Buenos Aires: Eudeba. em parte fruto de movimentos de pessoas desaparecidas que se organizaram com eficiência no país. La prensa argentina y la dictadura militar (1976-1983). Conforme Florencia Paula Levín o diário Clarín acompanhava a atuação da Triple A e publicava em suas páginas corpos mutilados e carbonizados até 1976. o Clarín. inclusive. Jorge e BORRELLI. Apesar dos esforços de definição entre as publicações que apoiaram e condenaram o golpe – os bons e maus – as posições oscilavam bastante com a visibilidade e o recrudescimento da violência. momento do golpe. com referências a tortura medieval e a política de segregação racial dos Estados Unidos que tinha como grupo radical representante a Ku Klux Klan. 2011. Meu objetivo. Pós-golpe o tema violência e tortura permaneceu. contudo. Marcelo (orgs). contudo. Ao contrário do Brasil.

Aparelhos de choque e capuzes eram elementos recorrentes nas representações que levam à reflexão sobre os limites do humor. aunque. como se verá. ou ainda a revista Humor. p. A revista Humor como espaço controversial (1978-1980)./jul. p. sendo que o uso do humor e da ironia complexificava essa mesma mensagem. pp. principales íconos de la represión en la Argentina.2. protagonizaron muchas de estas representaciones. jan. Para a autora. com o golpe essa modalidade enfrentou dificuldades de circulação.140 Publicações alternativas também eram comuns mesmo antes de março de 1976. dedicou grande fôlego à temática da violência e à repressão ilegal. fazem referência direta à morte. acionam ainda hoje longos debates sobre as possibilidades de representação do horror em forma de humor gráfico. 89 y modernos de punición y castigo se alternaron con referencias explícitas a la metodología represiva aplicada de modo sistemático por el gobierno militar argentino. Entre a comicidade. el conjunto de estas imágenes tendió a desplazar la mirada hacia escenarios ajenos y remotos. de acordo com a autora. RAÍCES. Nessa produção vítimas e torturadores eram representados em situações cômicas que. a esse respeito. à dor. 139 Ibidem. Com a emergência do golpe tal modalidade de humor gráfico tornou-se mais sutil. v. Não podemos esquecer da figura de Quino que alcançou grande fama com sua personagem Mafalda. cit. com muita frequência. 2012. o senso comum e a disidência. . op.139 A Argentina contava ainda com uma ampla tradição no campo do humor. publicada em 1978. tratava-se sim de uma mensagem. A publicização da violência foi convertida em um serviço de ameaça generalizada. 140 Ver. 6. em plena ditadura. In: Antíteses . ao sofrimento. 2. 4. 77-97. n.1 Persona O periódico Persona teve seu primeiro número publicado em outubro de 1974.09. entretanto. assim como o humor gráfico do Clarín.138 O humor gráfico do jornal. A revista. muito embora tenha permanecido em alusões menos diretas. Eduardo. a exemplo do que acontecia no Brasil. La picana eléctrica y las capuchas. tendo sua trajetória interrompida com o golpe em 138 LEVÍN. não se tratava de um humor de denúncia.

são atravessadas pelos golpes e pela instauração de regimes ditadoriais. O Movimiento Feminista Popular (MOFEP) e a Associación para a Liberación de la Mujer Argentina (ALMA) foram formados em 1974.141 A cronologia da ditadura argentina. nesse sentido a emergência do feminismo de segunda onda na Argentina foi ―amortecido‖ pelo golpe em 1976. mas também européias. presidido por María Elena Oddone. Gabriela Christeller. Voltou a ser publicado em 1980.90 1976.142 O aborto legal era um dos pontos que integravam o programa da Frente. A ex-esposa de militar era considerada uma mulher de direita e defendia um feminismo individualista em um contexto em que a horizontalidade era uma proposta bastante repetida por vasto número de grupos feministas. bem como da emergência dos movimentos feministas.. 12 anos antes. exatamente na fase mais violenta do regime. algumas dessas entidades e outras uniram-se em torno da Frente de Lucha por la Mujer (FLM). op.119. Enquanto o Brasil viveu o recrudescimento da ditadura com a instituição do AI-5 em 1968. Entre 1976 e 1980 o jornal esteve fora de circulação. p. María Elena Oddone era figura controvertida entre os movimentos feministas do período que. op. A entidade tinha contato com importante grupo do período. As temporalidades feministas. portanto. ainda durante a ditadura argentina que chegou ao fim apenas em 1983. Nelly Bugallo e Leonor Calvera. A entidade era uma versão argentina do Women‘s Liberation Front. cit. como os brasileiros. No Brasil o tema 141 VEIGA.. O golpe brasileiro. 2010. depois de ter editado dez exemplares. de pessoas – que aproximavam os dois países em termos de regime militar e de feminismo. fundada em 1970 por María Luisa Bemberg. é diferente em relação ao Brasil. grupo inspirado principalmente em diretrizes estadunidenses. O MLF foi formado em 1972. emergiram no campo da esquerda. 142 PEDRO. também conhecido como Women‘s Lib. p. a Argentina ainda vivia um regime democrático já com movimentações de grupos de mulheres e feministas. 49. cit. . No grupo reuniam-se feministas radicais argentinas. muito embora existam similaridades e redes – de leituras. ao declarar 1975 o Ano Internacional da Mulher e 1975-1985 a Década da Mulher. a Unión Feminista Argentina (UFA). No marco histórico da ONU. O jornal fazia parte do MLF. tendo sido retomado com força a partir de 1980. condicionou uma conjuntura distinta em que a declaração da ONU em 1975 e um certo desgaste do regime permitiram a criação de associações e entidades em defesa dos direitos das mulheres. Sua trajetória se encerrou em 1986.

A efervescência feminista nessa primeira etapa ocorreu entre 1970 e 1976. e lhe explicávamos todo o tempo que não podíamos nos unir.] Ela via 143 VEIGA. Ana Maria Veiga. ao analisar autobiografia da fundadora do MLF e do Persona. o que não ocorreu em muitas das agrupações argentinas.. como bem identifica o título do periódico. op. cit. seguiram caminho para o Brasil pós-1976. enquanto feministas brasileiras buscaram refúgio na Argentina pré- 1976. 52. 65. mesmo dentro dos meios feministas. Assim como as brasileiras.. inclusive. Isso ela nunca entendeu [. Mesmo antes do golpe o grupo paramilitar Triple A perseguia associações feministas. uma persona. . identifica certo ressentimento de María Elena Odonne em relação a outras companheiras. p. Sara Torres. também parte do grupo. porque se ela presidia um movimento. em variadas medidas por cadenciar as organizações feministas. um movimento horizontal e de pares. de algum modo elas foram responsáveis.144 Apesar das diferenças de proporções das diferentes ditaduras. bem como por propiciar a renovação e (re)invenção de movimentos em tempos autoritários. afirmou: Era mulher de um militar e ela se considerava a presidente do movimento. não só no Brasil e Argentina.143 A cronologia da história da ditadura argentina. principalmente na década de 1970. Em entrevista. A entrada das vizinhas argentinas na militância feminista teve início nos primeiros anos da década de 1970. em função de ser frequentemente considerada individualista. ainda sem o pano de fundo da ditadura militar. demarca a militância feminista. algumas.. não podia haver uma presidente. p. 144 Ibidem. 91 aborto continuou sendo um grande tabu. muitas das feministas argentinas partiram para o exílio. uma vez que ela é enfraquecida pela instauração da ditadura. portanto. mas com a intransigência e as ameaças dos paramilitares no período que antecedeu ao último golpe.

Além disso. 65. . integrante do grupo Nueva Mujer. em meio a muita discussão entre os diversos núcleos. considerava-se uma mulher de visão. ressaltando-se os desafios da dupla militância. as esquerdas foram o lugar de emergência do feminismo. a exemplo de Mirta Henault. feminista que teve uma formação marxista. María Elena Oddone disse às mulheres do PC argentino que fossem ―discutir con los machos‖ e que depois voltassem. Mesmo diante da figura controvertida que presidia o MLF. cit. p. que realmente merecia destaque. María Elena Oddone tinha consciência de que ―todos‖ os grupos feministas tinham a ideia ―equivocada‖ de que todas eram iguais e ninguém devia se destacar. loc. que reúnia mulheres de grupos distintos. p. 67. com claro apego a um pensamento de esquerda. ela sozinha. sabia que ficavam furiosas com ela por não pensar assim e por conseguir destaque na imprensa. produtor do Persona. Ou seja. via partido 145 VEIGA. 146 Para além das disputas que deixam bastante claras as variadas correntes feministas que circulavam na Argentina no período. com nítida prevalência do feminismo estadunidense. 146 Ibidem.92 um meio e se lançava. vale destacar que as companheiras integrantes do grupo eram também oriundas de grupos políticos de esquerda. a UFA era uma articulação composta por feministas autônomas. Por seu lado.. aludindo ao controle masculino ao qual aquelas mulheres estariam submetidas. Sara Torres rememora: Quando elabora o congresso pelo Ano Internacional da Mulher. argumenta que ela apenas era a crítica mais radical de todos e cada um dos pseudovalores que foram inventados para rebaixar sua condição humana. se esquecia de que formava parte de um grupo. é importante observar que na Argentina. assim como no Brasil.145 A companheira de grupo acentua a dificuldade de María Elena Odonne de conciliar um movimento que se pretendia horizontal com o desejo de sua fundadora de assumir sua liderança. Sobre isso. Na Argentina a relação com os partidos também era complicada.

As análises posteriores das integrantes de organizações do período. de linha feminista. especialmente Leonor Calvera. Ana Maria Veiga ressalta que não é possível identificar uma unidade no movimento feminista argentino e o mesmo vale pra o brasileiro. os movimentos feministas e os movimentos de mulheres. Talvez as narrativas das feministas brasileiras não acentuem as disputas com tanta clareza. Leonor. Transcrita por Ana Maria Veiga. .149 Nesse sentido. 149 CALVERA. afirmava-se mais pelo esforço de proliferação do pensamento feminista. Já o periódico Brujas148 é considerado uma publicação feminista de esquerda. uma vez que os últimos participaram ativamente da organização do congresso. além da proibição da entrada delas no evento. Buenos Aires. mas certamente elas existiam. destacam o Persona como um jornal produzido por intelectuais. mas não de esquerda. 93 político. 01/03/2007. O resultado disso foi uma brusca ruptura e exclusão das feministas da organização do congresso. p. notadamente uma publicação afeita à dupla militância. mas aproxima-se do Nós Mulheres que. mas em função de não explorar o humor gráfico em suas páginas não foi considerado uma fonte pertinente para minha pesquisa.147 A narrativa de Sara aponta um embate que passava por três instâncias distintas: as mulheres integrantes de partidos. um jornal de qualidade. Vale lembrar o relato de Amelinha Teles que informou que muitas companheiras do Brasil Mulher acreditavam que ela era elemento do PC do B infiltrado para manipular a publicação e ainda a acusação de Kucinski de que Amelinha Teles teria sido plantada no periódico para causar um racha. embora composto por mulheres com posição de esquerda. Entrevista a Ana Maria Veiga. Argentina. 147 Ibidem. Acervo LEGH/UFSC. 148 O periódico foi consultado para a produção deste trabalho. 57. o jornal distancia-se do brasileiro Brasil Mulher.

o Persona enfrentava os mesmos problemas de todos os periódicos feministas do período.94 Figura 13 Fonte: Persona. que na próxima vez ele fosse comprado. O periódico argentino trazia anúncios publicitários e muitas vezes pedia adesão das leitoras solicitando que se elas estivessem lendo um exemplar por empréstimo. Argentina.150 150 KLANOVICZ. Buenos Aires. como era o caso do Mulherio. especialmente os da década de 1970 e os que não tinham uma instituição nos seus bastidores. Setembro-Outubro de 1980. Luciana Rosar Fornazari & ATHAYDE. Em termos de estrutura financeira. Edição 4. Sexualidade e Erotismo nas Páginas dos Periódicos Feministas (Brasil . Capa. Maria Cristina de Oliveira.

Gênero e Feminismos contra as Ditaduras no Cone Sul. Apesar da linha editorial do jornal afirmar-se desde o princípio como aliada do Women‘s Lib. Não há dúvida de que elas eram produzidas especialmente para o jornal e para o MLF. para além do espírito da denúncia e com um esforço nítido de desvinculação da reprodução. As questões de sexualidade. cuja frase de ordem era ―Nosso corpo nos pertence‖. inclusive. o debate sobre sexualidade. tomou força na terceira fase da publicação argentina. e Argentina – décadas de 1970 e 1980). Do humor gráfico que teve sua assinatura reconhecida. p. 95 Do ponto de vista temático a publicação acompanhou a trajetória das publicações brasileiras. Destaque especial merecem as tirinhas da personagem Feminita. . pois ela convocava às mulheres a fazerem parte do MLF e assumirem suas lutas. só adquiriu fôlego depois da década de 1980. WOLFF & VEIGA (Orgs. Para essa pesquisa tivemos acesso a 14 edições. passagens em que as mulheres são diretamente convocadas a integrar o MLF argentino. O Persona é um dos poucos jornais que problematiza objetivamente o tema feminismo no humor gráfico. 151 Desde o seu primeiro número o recurso das charges e tirinhas era utilizado amplamente.). Para esta pesquisa tive acesso a quase todos os exemplares do jornal que teve seu primeiro número publicado em outubro de 1974 e o último em novembro/dezembro de 1986. assinadas por Sylvia Bruno. nove foram assinadas por mulheres e três por homens. 104. que eram discutidas muito timidamente nos periódicos brasileiros publicados antes de 1980. 151 Entre 1974 e 1986 foram publicados 17 exemplares. entre as historinhas. uma vez que há. Resistências. a maioria assinada por cartunistas mulheres. Florianópolis: Editora Mulheres. Persona chegou ao fim em 1986 e hoje é lembrado por muitas como uma publicação bastante panfletária. por exemplo. In: PEDRO. A charge que destaco na sequência é um excelente exemplo do esforço de abordagem humorística do próprio movimento. 2011. em suas páginas o próprio feminismo é alvo de humor. Dos 17 exemplares consultados foram localizadas 23 charges e tirinhas. quando o Mulherio já ousava mais no sentido de debater corpo e prazer. também a partir de 1980.

Inge Thomas. duas personagens icônicas das tirinhas dos Estados Unidos têm sua condição subvertida. p. University Press of Mississipi. refere-se ao marinheiro como uma figura complexa. referindo-se à personagem que tomou vida em historinhas sequenciais de três quadros. e Brutus. Edição 3. O 152 INGE. Para isso ingeria latas de espinafre que o deixavam mais forte e musculoso. 48. p. In: Comic as Culture. figura feminina frágil. tendo sido transformado em desenho animado e em um super herói de histórias em quadrinhos. . Popeye teve suas primeiras aparições na década de 1920. Popeye dedicava grande parte de seu tempo a proteger e lutar pela personagem mulher da história. Argentina. 1990. Alcançou grande projeção também em tirinhas publicadas em jornais. Faulkner‘s read the comic strips. 98. que não tem autoria identificada. Thomas M. personagem que disputava o amor de Olívia. Persona. dezembro de 1974. Na charge.152 O marinheiro Popeye contracenava com a namorada Olívia. multifacetada e marcada por características de antisociabilidade e violência.96 Figura 14 Fonte: Sem Autoria.

em ―câmera lenta‖. O golpe teria sido. Os modelos tradicionais de masculino e feminino representados por Popeye e Olívia são explorados através de um olhar feminista que desestabiliza os estereótipos que acompanham desde a década de 1920 o icônico personagem.3 URUGUAI O golpe de Estado uruguaio foi gestado como um evento bastante particular em relação aos golpes dos outros países do Cone Sul. Primeiro o golpe foi desferido pelo próprio presidente em exercício e segundo ele foi um movimento em marcha que teria se arrastado de 1972 a 1973. A expressão facial da personagem magra e amorosa também contrasta com o rosto de um Popeye perdido. doce. portanto. Como el Uruguay no hay. As temporalidades da história da ditadura e da história do feminismo na Argentina ora afastam-se. ele passou de presidente eleito a ditador. Olívia lança uma piscadela para o marinheiro. contudo. tendo finalizado seu mandato em 1976.. A franqueza com que o Persona lidava com o tema feminismo. é uma especifidade importante do jornal fundado antes mesmo do Brasil Mulher. foi eleito constitucionalmente em 1972. independente desses movimentos de contato e distanciamento. 2. o primeiro periódico criado no Brasil. as preocupações e reivindicações em termos de democracia e direitos das mulheres só fizeram unir os países vizinhos. Durante sua presidência. presidente que priorizou a luta antisubversiva. sensível. Terror de Estado e Segurança Nacional no Uruguai. Enrique Serra. Juan María Bordaberry Arocena. apaixonada. inclusive através do humor gráfico.. ora aproximam-se dos eventos análogos no Brasil. enquanto Olívia explora todos os elementos estereótipicos da feminilidade: frágil. Enrique Serra Padrós afirma que quando o então presidente assumiu seu posto o Uruguai já vivia um intenso processo de deterioração político que se acelerou no ano anterior ao golpe. (1968-1985): Do Pachecato à Ditadura Civil- . 97 personagem criado por Elzie Crisler Segar é uma representação típica da masculinidade. Na charge do Persona. é uma ação que expressa decisão. Na imagem é possível perceber um marinheiro surpreso e em dúvida diante de uma Olívia que tem o punho direito cerrado e em riste. nada disso tem valor. movimento símbolo de luta e do feminismo. jornal explorado para formação de base que ainda debatia-se com os desafios da dupla militância e do emergente feminismo.153 De acordo 153 PADRÓS. entretanto. mas. A piscadela não tem tom de romance ou flerte.

principalmente vinculada a políticas de ajuste ligada aos Fundo Monetário Internacional (FMI). En este marco de suspensión de las garantías constitucionales. In: Revista telematica di studi sulla memoria femminile. p. op. 155 PADRÓS. Era uma guerra entre ―ordem‖ e ―subversão‖ e toda e qualquer crítica ao governo era vista como tomada de posição. se produjo la militarización de importantes sectores de trabajadores públicos y privados (los más recordados. Los trabajadores se enfrentaron a esos intentos y la respuesta fue la implantación de medidas prontas de seguridad. recurso constitucional de excepción que sin embargo se aplicó casi initerrumpidamente durante el gobierno de Jorge Pacheco Areco (1968-1971). A organização guerrilheira crescia em efetivo. pp. em armamento. Após breve trégua eleitoral o grupo retomou suas ações armadas ―justificando‖ o aumento da repressão. 1973-1985). 336. . Tese de Doutorado defendida no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS. Los diferentes enfrentamientos que se produjeron entre un gobierno cada vez más violento y arbitrario y amplios sectores del movimiento popular – sumado al accionar de la guerrilla urbana – llevaron.DEP n. 2005. insinuando forte organização do movimento sindical.. primero a la militarización de la sociedad y finalmente a la ruptura institucional más grave y dolorosa del siglo que se produjo en 1973. p.156 O Militar.155 O crescimento do Movimiento de Liberación Nacional (MLN-Tupamaros) perturbava há anos os governos de direita e em 1972 ele se tornou ainda mais visível. 338. os anos 1960 foram marcados por uma crise econômica. p. 337. despedidos o suspendidos de su trabajo.154 O período é marcado ainda por 13 greves gerais em um intervalo de apenas seis meses. política e social. em base política.11 / 2009. 64-80.98 com Graciela Sapriza. Memorias de mujeres en el relato de la dictadura (Uruguay. los trabajadores de Ute y Bancarios) que fueron llevados a cuarteles. p. 156 Ibidem. Porto Alegre. 64. Graciela. 154 SAPRIZA. cit.

p. cit. op. O esforço de provar a legitimidade do regime 157 SAPRIZA. 160 PADRÓS. segundo Graciela Sapriza. op. p. p.160 Nessa fase. 162 Ibidem.162 Em 1978. .157 Oficialmente é possível supôr que a ditadura teve início em junho de 1973. Nesse contexto o país passou a ser governado por atos institucionais. tornando-se parte integrante da DSN uruguaia.‖158 Nesse contexto o terror passou a ser política de Estado. cit. assim como ocorreu no Brasil. 161 Ibidem. 379.159 O próprio regime. fruto de países alarmados com as denúncias de violação dos direitos humanos. com colaboração das forças armadas. 99 golpe uruguaio. p. 377. sem dúvida. p. diante de certas pressões internacionais. op. 391. Para Enrique Serra Padrós ―[. passou por mudanças. A primeira de 1973 a 1976. 158 PADRÓS. não foi uma interrupção de um estágio de legalidade. tendo se dividido em três fases. docentes e estudantes. mas que foram brutalmente interrompidas pela repressão.] a escalada autoritária foi fruto da decomposição de um sistema político que não encontrava soluções para a pressão por mudanças reivindicadas pelos setores populares. inaugurada por um plebiscito em que a população negou a reforma constitucional proposta pelos militares. nesse intervalo o esforço disciplinador foi uma marca visível. período marcado por manifestações de trabalhadores(as) que esperavam contêr o avanço autoritário. cit. portanto. com ampla visibilidade da participação de camadas civis e.. como aconteceu com o Brasil que entre o dia 31 de março e 1º de abril de 1964 assistiu a derrubada de um presidente constitucionalmente eleito e a formação de uma junta que em duas semanas escolheu um general para assumir o posto. 159 Idem. 376. de 1976 a 1980.. A última fase foi de 1980 a 1984.. Em 1976 o presidente golpista foi afastado pelas forças armadas. duas características marcaram a ditadura no Uruguai: o terrorismo de Estado e o empobrecimento da população. contudo. houve uma abertura mínima. 65. Com a instauração de um regime civil-militar. Manteve-se o intuito de sanear o Uruguai. quem foi nomeado presidente pelas forças armadas foi o jurista Demichelli e logo em seguida o também jurista Aparício Mendéz. O golpe uruguaio foi o resultado de dinâmicas institucionais que mantiveram o mesmo presidente. dentre os setores mais perseguidos destacam-se trabalhadores(as)..161 Na segunda fase. só que na posição de ditador.

com a declaração da ONU e o princípio da abertura política. p. critérios que guiaram a abertura política no três anos que se seguiram. 2. incluído o Uruguai. por exemplo. Um dos exemplos foi a proibição das palavras Tupamaro e guerrilheiro para se referir à resistência. Eram jornais políticos.168 Para las mujeres jóvenes de clase media.1 Cotidiano Mujer e La Cacerola Segundo Joana Maria Pedro. muito embora seja sensato supôr que eles existiam. viu emergir jornais feministas. O ingresso maciço das mulheres no mercado de trabalho e no ensino superior também foi precoce se comparado aos países vizinhos. 70 anos antes em comparação ao Brasil.164 Também no Uruguai a relação entre ditadura e meios de comunicação foi baseada em diferentes graus de adesão e controle. desde a abertura política. p.165 Enrique Serra Padrós confirma a tendência dos regimes autoritários da América Latina. muitos dos direitos reivindicados pelo que se convencionou chamar de feminismo de segunda onda já haviam sido conquistados no Uruguai ainda nos anos 1960.166 A repressão de movimentos sociais. no mínimo. op. ―la política estaba en la calle‖ y sobre todo en las 163 Ibidem. então. p. era legal desde 1907. p. em 1984. só foram localizados depois de finalizado o regime. . de sindicatos e dos espaços de ensino foram. tendo sido alvo preferencial do terror de Estado praticado no país.100 foi. a exemplo do que ocorreu no Brasil que. 168 PEDRO.. em 1981. cit. finalmente. entretanto. em vão. por sindicatos.163 Apenas nessa última fase um presidente militar assumiu o governo. 397. Periódicos feministas. paralelos ao contínuo controle da imprensa. p. 165 Ibidem. como o alternativo A Marcha. 131. Em 1981 o governo propôs.3. 278. então. feitos por estudantes. 167 Ibidem. a orientação era utilizar a palavra sedicioso. 164 Ibidem.167 O modelo de imprensa alternativa uruguaio assemelhava-se ao brasileiro. 401. 109. p. 166 Ibidem. de explorar a grande imprensa como meio de propaganda anticomunista e antisubversiva. O divórcio. 148. 2010. vinculados a grupos de esquerda.

temporalmente. na medida em que elas acompanham o fim da ditadura e a concretização das possibilidades de mobilização pública no período. identificaram-se feministas no exílio. uma informação relevante para entendermos um pouco mais do cenário de mobilização das esquerdas que não foi freado pelo golpe. reflejo del incremento de la matrícula femenina en la enseñanza media y superior. foi um dos protagonistas da emergência dos feminismos no Uruguai.169 A ―feminização‖ do ensino superior anterior à ditadura é. na prisão. iniciando la ―feminización‖ de la matrícula universitaria. 132. 170 Ibidem. mas dados os limites deste trabalho considero as duas publicações significativas de uma época. que os movimentos sociais encontraram espaço de mobilização.170 Isso não significa dizer que ele. É provável ainda que essa identificação tenha sido mediada por um contato com o meio acadêmico. É provável que outros jornais feministas tenham existido antes deles. muito embora a repressão tenha desacelerado o processo. p. O feminismo acadêmico. portanto. com grandes grupos de mulheres assumindo vagas nas universidades. p. certamente. En el Censo universitario de 1963 las mujeres eran el 41 % del total de estudiantes. do estudo e da participação em grupos de pesquisa em universidades. . p.171 Nesta pesquisa a publicação feminista com a data mais tardia encontrada foi La Cacerola. cit. a exemplo do que aconteceu no Brasil. 169 SAPRIZA. 101 movilizaciones estudiantiles que comenzaron en 1967 y 1968. de movimentos estudantis. O grande número de mulheres que foram presas por participarem da luta armada. 133. o Cotidiano Mujer foi fundado em 1985. O levantamento de Joana Maria Pedro aponta que as identificações com o feminismo no caso do Uruguai se deram principalmente a partir do exílio. no cotidiano das organizações de esquerda. Foi a partir de 1981. como em outros países do Cone Sul. 2009. com a abertura política. de organizações clandestinas. 171 Ibidem. fundado em 1984. op.. tenha se construído anteriormente. em função do cenário acadêmico propício mesmo antes dos anos 1970. é um sinal relevante da participação política de mulheres que. 71.

é uma referência direta à palavra panela. portanto. ajudavam a simplificar sua linguagem. O conteúdo da publicação se organizou de maneira semelhante a outros jornais. O nome da publicação. Sua estrutura. muitas ilustrações. ele também tinha influência sobre a organização gráfica do jornal. Novembro de 1984. O título. Seu formato diferia. O GRECMU é considerada uma organização feminista pioneira no Uruguai e tinha como integrantes mulheres pesquisadoras vinculadas a universidades. em certo número chamava-se Cocina Internacional. até 1988. La Cacerola. objeto doméstico historicamente associado às mulheres e a seus trabalhos no espaço do lar e ainda a expressão caldeirão. não figurava apenas na primeira página. Capa. da maioria das fontes selecionadas. no mínimo. era bastante dinâmica. Figura 15 Fonte: La Cacerola. utensílio historicamente associado às bruxas. A coluna de notícias internacionais. Edição 3. por exemplo. Tinha formato de boletim e era publicado pelo Grupo de Estudios sobre la Condición de la Mujer en el Uruguay (GRECMU). praticamente auto-explicativo. bem como charges e tirinhas. de maneira geral. Uruguai. Montevidéu.102 La Cacerola foi fundado em 1984 em Montevidéu e circulou. contudo. Os .

Sua criação está ligada à organização de mesmo nome que ainda hoje atua no Uruguai. como pode ser observado na tabela 8. reportagens. as integrantes do Cotidiano Mujer foram entrevistadas em edição do La Cacerola de 1988. Sob o título Entrevistando a Cotidiano Mujer. do trabalho doméstico. dos direitos reprodutivos. do corpo. O jornal Cotidiano Mujer foi fundado um ano depois. Além do jornal a entidade publicava e ainda publica uma série de livros. na seção de apêndices. Uruguai. a conversa entre os dois jornais esclarece sobre a fundação do periódico e sobre as dificuldades de se levar um jornal feminista adiante. do divórcio. março de 1986. de participação política. todos com temas de interesse feminista e de mulheres. Indicando uma relação amistosa entre as publicações. Figura 16 Fonte: Cotidiano Mujer. Em uma hora e meia de conversa a equipe do La Cacerola interrogou Lilián . de sexualidade. também em Montevidéu. o tema trabalho doméstico e mercado de trabalho são frequentes. mas o foco nos interesses das mulheres era permanente. Em termos de humor gráfico. Edição. Parte da Capa. Seu projeto diferencia-se dos outros na medida em que cada número tem um tema que centraliza a maioria das matérias. em 1985. Falava-se de eleições. O periódico teve vida longa e foram publicados mais de 30 exemplares. entrevistas e notas do jornal. 103 temas que o mobilizavam eram variados. Montevidéu. do mercado de trabalho.

org. . Foram localizadas apenas 9 charges e tirinhas. 9. a publicação é considerada pioneira em seu formato. ano 5. insinuando que o periódico foi o primeiro feminista a circular no Uruguai. a de reunir reivindicações de diferentes grupos de mulheres. extensivo... 173 Ibidem. março de 1988. temática e abordagem. posterior ao La Cacerola. 174 Ibidem. a esse respeito. 9-10.‖172 Apesar da primeira edição do jornal ter saído em 1985. Ainda sobre o sustento do jornal as leitoras são informadas da posição das integrantes do grupo em relação não apenas ao sustento material: ―[.. Especial. definitivamente. Elena Fonseca e Lilián Abracinskas.] creemos que ‗Cotidiano Mujer‘ es una experiencia importante desde el punto de vista de la comunicación alternativa y. informa que a ideia da publicação era produzir conteúdos feitos por mulheres e para mulheres no intuito de construir uma consciência coletiva em termos gerais e específicos.] no es escribir sobre la realidade. Lilián Celiberti.] como feministas reivindicamos la autonomia en toda sua expresión. segundo a entrevista. Entretanto. uma vez que o distanciamento em relação à imprensa oficial era nítido: ―El periodismo sobre y para mujeres tenia y tiene que recorrer un camino que no pasa por las leyes tradicionales del hacer periodismo [. p.104 Celiberti. n. ponderando as dificuldades de se falar sobre mulheres. uma das menores proporções dos jornais pesquisados. mesmo em espaços de esquerda que consideram esse assunto secundário. Justificando a importância da entrevista da seguinte maneira: ―[. As maiores dificuldades enfrentadas pelo grupo que produzia a publicação eram. 10. 175 Ver.cotidianomujer.. muy significativa para el movimiento emergente de mujeres en el Uruguay. Lilián Celiberti. sino aprender mirala. Um questionamento com resposta interessante foi sobre a diferença entre o jornal e a imprensa alternativa.. Uruguai. o uso do humor gráfico não é. In: La Cacerola. a su vez. p.175 Tive acesso a 17 exemplares do jornal.‖173 Na sequência as entrevistadas informam que vendiam 1500 exemplares por mês e que gostariam de atingir grupos variados de mulheres. p.uy/sitio/quienes-somos Acesso em 15 de fevereiro de 2016. ainda na entrevista. Es todo un trabajo de reelaboración y eso en toda ordem de cosas.‖174 Uma das integrantes do jornal. dada a 172 ―Entrevistando a Cotidiano Mujer‖. é ainda hoje coordenadora do grupo que publicou o Cotidiano Mujer. http://www. edições que circularam entre 1985 e 1987..

Em seu conteúdo o texto questiona. [. Pero si para plantear el tema. seguramente tendríamos hoy el mismo trabajo de intentar nuestra propia definición: el humor de las mujeres no está incluído em las antologias. ni como bobas. Qué es lo que nos hace reir a las mujeres? Qué es lo que nos resulta cómico? Nuestra búsqueda de tiras cómicas para incluir en esta página fue poco fructífera. otras tantas que planetaban verdades.‖176 A coluna que se dedicou a questionar os motivos que levam as mulheres a rir e que apontou a dificuldade encontrada pela equipe do jornal em localizar humor gráfico ―sobre‖ mulheres que. a eficácia do conceito de humor de Henri Bergson.. mesmo com números tímidos. não havia permitido a leitura da página e apenas uma tentativa posterior – e desperançosa – de ter acesso ao exemplar permitiu que o conteúdo fosse transcrito e compreendido. foi transcrita apenas em fevereiro de 2016. ya ha derrotado un sin fin de investigadores y filósofos de todos los tiempos. julguei adequado que ela fosse considerada na análise. de fato. na edição de número 20. op. con sus múltiples ventanas a una realidade dolorosa. 18.. No para castigar con el ridículo lo que 176 ―Entrevistando a Cotidiano Mujer‖. pouco propicio para reir. . inclusive. publicada em 1986 o jornal dedicou uma página inteira a charges e tirinhas e a um texto intitulado: ―Urgente: se necesitan mujeres dispuestas a reír. p. Qeremos reirmos con ternura e afecto. pero que no nos hacián reir. lo que nos hace reir. via digital. Além disso. fizesse as mulheres rirem. De haberlo logrado. Desechamos decenas de tiras hechas ―sobre‖ mujeres. 105 importância da publicação e da entidade da qual ela fez parte.] no queremos reir ni como payazos. Por eso empeamos por las preguntas. O jornal não dedicou muitas de suas páginas ao humor gráfico. No se escapa que éste número de Cotidiano es. y dirigir la ironia y la acidez hacia donde debemos dirigirla. cit. Sua reprodução.‖ La búsqueda de definir qué es lo cómico. mas o artigo reúne uma série de questionamentos levantados por esta tese. O artigo ainda demanda a quebra da ordem natural que compreende o humor sempre como agressão.

militante da Unión de Campesinos Pobres (UCAPO). Nos anos seguintes. como premissas necessárias à quebra da ordem natural das coisas. sino para incorporar al mundo y a la cultura esa visión lúdica que las mujeres no hemos tenido oportunidad de perder aun. bem como a ternura e o afeto. que seja desarticulado das pretensões de destruição e de violência. p. 1223-1240. p.177 O artigo é finalizado com a manifestação de desejo por um humor que incorpore o olhar das mulheres.4 BOLÍVIA A ditadura boliviana teve início em 1964. que assumiu através de um novo golpe. referindo-se a transição entre os curtos governos de Ovando e Torres e a presidência do general Hugo Banzer: 177 Idem. o periódico uruguaio. Seu governo ainda foi marcado pelo favorecimento do empresariado mineiro. tiras de Henfil. governando de 1971 a 1978. assumiram a presidência Alfredo Ovando e Juan José Torres. sendo que Torres era conhecido por ser simpatizante de grupos de esquerda. São Paulo: Boitempo. O intervalo de dezoito anos é composto por algumas interrupções no regime e alguns marcos definidores. grupo criado pelo Partido Comunista Marxista Leninista (PCML). 2. no artigo citado.106 nos duele. Depois do golpe o primeiro presidente foi René Barrientos que governou até 1969 e entrou para história boliviana por ter enfrentado a guerrilha encabeçada por Che Guevara. Latinoamericana: Enciclopédia Contemporânea da América Latina e do Caribe. Emir et al. 178 CAETANO. (Orgs. Muito embora seu conteúdo não tenha sido dedicado a produzir e divulgar um humor gráfico que tivesse a acidez e a ironia.178 Segundo relato de Miriam Suárez. permitiu-se refletir sobre o papel e o potencial de um humor feito por mulheres. Ambos foram responsáveis por largo processo de nacionalização de empresas de mineração. . 2006. mesmo ano em que ocorreu o golpe no Brasil. O presidente da sequência foi o general Hugo Banzer. Claire Bretecher e Angeli.). 189 – 204. e se encerrou em 1982. In: SADER. Gerardo. Em torno do texto. Quino. por intervalos curtos de um ano cada. Uruguai. morto em 1967. pouco antes da brasileira. Cotidiano Mujer antecipava em 30 anos uma série de questões que levanto em minha pesquisa.

a restauração da democracia. um grupo de mulheres mineiras iniciou uma greve de fome exigindo a anistia irrestrita. feminismos e ditaduras no Cone Sul. Florianópolis: Mulheres. 271. como o Ejército de Liberación Nacional (ELN). 2010. Se cuestionaba a los viejos partidos de izquierda que hicieron poco caso de la presencia guerrillera en territorio boliviano. viviam contextos de pouca participação popular e diferenças sociais e de raça muito nítidas. En las universidades y en algunos grupos de jóvenes. Cristina Scheibe. De acordo com Cristina Scheibe Wolff. Em termos comparativos o cenário da Bolívia era bastante específico. 139. op. Testemunho: Recordar pensando el pasado para repensar el presente. In:PEDRO. particularmente. assim como o Paraguai. los partidos de derecha. ainda sob a ditadura do general Banzer. p. Cristina Scheibe (Orgs. pp. Joana Maria. en Bolivia se sentía una efervescencia revolucionaria. Cristina Scheibe (Orgs. algunos hasta hablaban de traición a la revolución.).179 A efervescência revolucionária era anterior ao próprio golpe em 1964 e a oscilação do regime assistia a emergência de diferentes posições em torno da guerrilha. a libertação dos presos políticos. Florianópolis: Mulheres. cit. Miriam Suárez ressalta o compromisso que a juventude assumiu com tais grupos e com a luta pela libertação do povo boliviano. Em 1978. 107 En aquellos años. 2010. Já Brasil e Bolívia. 180 WOLFF. o retorno dos exilados e o fim das violências impostas pelo regime. alguns debates dos grupos de esquerda boliviano 179 SUÁREZ.. O Gênero da Esquerda em Tempos de Ditadura. WOLFF. 265.Gênero. a restituição de direitos. 181 SUÁREZ. Chile e Argentina interromperam regimes republicanos relativamente democráticos que vinham avançando em políticas sociais. 138- 155. WOLFF. pp.). O testemunho destaca ainda a existência de outros grupos guerrilheiros. Miriam. As mulheres tiveram papel importante nessa história. p. . surgían tendencias de condena a los militares y sus aliados. Gênero. 264- 275. Joana Maria. p.181 Assim como no Brasil e em outros países do Cone Sul. In: PEDRO.180 A Bolívia enfrentava ainda as lutas sindicais encabeçadas por mineiros e esposas de mineiros. feminismos e ditaduras no Cone Sul. ditaduras como do Uruguai.

assim como nos outros países aqui analisados. como o ano de 1975. Desde que o país conquistou sua independência. para Miriam Suárez. A relação entre os movimentos de mulheres e os feministas na Bolívia era especialmente complexa. De acordo com Joana Maria Pedro. foram convocadas três eleições e aconteceram quatro novos golpes.182 Em um intervalo de quatro anos. cit. as mesmas que de acordo com Miriam Suárez deram início a uma greve de fome em protesto que teve repercussão mundial.184 Dada a cronologia do regime e seu recrudescimento em períodos que poderiam ser de mais liberdade. 2010. as mulheres bolivianas. mortes e desaparecimentos. loc. cit. portanto. 122. op. foram recursos utilizados pelo governo para contêr a reação popular. quando a ONU não só declarou o Ano Internacional da Mulher. 2006. e as ―mulheres de mineiros‖.. grande parte de origem indígena. o país foi tomado por governos ditatoriais. De acordo com Joana Maria Pedro. a resistência e o retorno democrático tinham ―cara de mulher‖. 183 CAETANO. p. entre 1977 e 1980.. além de precisarem ser historicizados. torturas. precisam ainda ser colocados em diálogo com o contexto político desses países que não criaram movimentos feministas a partir de decretos.. as ditaduras bolivianas têm uma história extensa. 2010. 184 PEDRO. em média.1 La Escoba A história do feminismo boliviano é de difícil sistematização. Op. 189 – 204. 122. p. 2. a cada 25 meses. . cit.4. como o papel da ONU.183 Nesse cenário o regime já estava em derrocada e. como o Uruguai.108 giravam em torno da recorrente acusação de que as mulheres lutavam por interesses individuais. quando foi desencadeada uma revolução de caráter progressista. desempenharam papéis de protagonistas desde 1952. Alguns marcos considerados fundadores do feminismo. Referindo-se a às ditaduras pós-1964 a autora aponta que a principal disputa por trás desse cenário autoritário era o embate pelos recursos minerais do país. O mesmo fenômeno ocorreu em outros países. Não há dúvidas de que as mulheres 182 PEDRO. principalmente pela força que os movimentos de mulheres assumiram no país e em função da cronologia do seu regime. o feminismo boliviano encontrou liberdade de emergência apenas depois da década de 1980. em 1825. p. As prisões. mas também a Década da Mulher.

irmãs. no caso da Bolívia. Importante destacar que. divulgação de idéias. 186 Ibidem. 109 bolivianas mobilizavam-se há décadas. 123. . como é o caso de Miriam Suárez. paradoxo que dividiu muitas ONG‘s que se criaram em um contexto político mais propício à ampliação das reivindicações de mulheres e feministas. segunda a autora. amigas e colegas influenciavam umas as outras. bem ao modelo estadunidense. No contexto do feminismo institucionalizado os debates sobre autonomia são frequentes e. mas é apenas depois de 1985 que a identificação com o feminismo é apontada. em que o fortalecimento do feminismo acadêmico foi precoce e crescente. Mães. muitas vezes a partir de grupos autônomos. o feminismo boliviano passou por debates encabeçados por mulheres em meio a partidos marxistas. Segundo Virginia Aillón. Algumas entrevistadas relatam que três freiras católicas norte americanas. etc. bem como em experiências de exílio no exterior. foram um fenômeno que afetou também as reivindicações feministas brasileiras. há ainda o acirramento do debate sobre feminismo e ―perspectiva de gênero‖. em paralelo à emergência de um feminismo indígena. durante os anos 1990. Essa participação. a autora pontua uma maior recorrência no acionamento de memórias sobre participação em grupos de consciência. Mary Gnoll.185 No esforço de identificar os contextos e temporalidades que marcam o ―dizer-se feminista‖ na Bolívia. p. emergido de maneira sistemática e amplamente organizada já nos anos 1990. que trabalhavam na Bolívia. A partir de então. Em menor número são os relatos que apontam o espaço acadêmico como lugar privilegiado de identificação com o feminismo. foram as responsáveis pela divulgação de grupos de reflexão na região de Santa Cruz. O feminismo boliviano teria. a maioria tem um mesmo relato a respeito das ―origens‖ de um grupo chamado ―coletivo Rebeldia‖. então. ou por meio do trabalho de ONG‘s que. assim 185 Idem. Judy e Linn. era fruto de indicações. apesar das diferenças constatadas entre elas. começaram a fazer reuniões. organizações não governamentais.186 ao contrário do que acontece com o Uruguai.

9-29. 14-16. promovieron la participación de mujeres en los órganos públicos nacionales y sub-nacionales. número 34. tenha emergido com uma proposta de feminismo autônomo e anarquista. negociavam com governo. 187 AILLÓN. En ese camino. . que o grupo Mujeres Creando. como sugere a cronologia dos relatos citados por Joana Maria Pedro. 188 Ibidem. com abordagem interseccional – raça. formado em 1992.187 O mesmo processo marcou os feminismos de países vizinhos. 14. pp. además. Debates en el feminismo boliviano: de la Convención de 1929 al ‗proceso de cambio‘. las ONG‘s de mujeres elaboraron muchos proyectos de ley. entidades que prestavam contas. Nesse contexto. p. Uma especificidade do país foi o forte papel desempenhado por mulheres indígenas. à sensibilidade das mulheres marxistas a origem do feminismo no país. especialmente aqueles vindos do exterior. desarrollar propuestas para llenar tales insuficiencias. o processo de institucionalização do feminismo na Bolívia foi paralelo. inclusive através de financiamentos. y participaron activamente en varios planes y proyectos sobre los derechos de las mujeres. Virginia. Convertendo uma relação de confronto com o Estado. tanto rurais quanto urbanas.189 Através de uma atuação intermediada por instituições. junio 2015. esses grupos. à organização do feminismo enquanto movimento social com caráter auto-organizativo e independente. In: Revista Ciencia y Cultura. A autora atribui. notadamente a partir dos anos 1980. 189 Idem. teriam se conciliado com esse mesmo Estado e passado a atuar por meio de políticas públicas propostas. como as ONG‘s. grupos financiadores e etc. Não é coincidência. por ONG‘s. p. que o esforço de explorar uma perspectiva de gênero tenha tomado força em espaços menos autônomos. classe. é provável.110 como em movimentos guerrilheiros. portanto. 188 Esta nueva relación con el Estado suponía reconocer las insuficiencias del poder público para el despliegue de los derechos de las mujeres y. especialmente. contudo.

190 Ver. e ela era vinculada ao Centro de Información y Desarrollo de la Mujer (CIDEM). foi possível localizar apenas uma publicação que explorasse charges e tirinhas com perspectiva feminista na Bolívia. A resposta é relativamente simples: o nível de subversão do conteúdo humorístico do boletim. n.190 O debate feminista no contexto boliviano é recrudescido por nuances temporais e por preocupações políticas muito específicas. sexualidade –. assunto tabu. Bruxinhas e suas vassouras voadoras ilustravam as páginas do impresso. 19. Em apenas quatro exemplares. In: História Revista. Assim como o uruguaio La Cacerola fez uso da panela para ressaltar sua identidade visual. por exemplo. foi abordado o tema da violência doméstica. como a maioria das fontes citadas anteriormente. bem como suas capas que tinham o título La Escoba atravessado pela imagem da vassoura. a esse respeito. Produzir conhecimento sobre si mesmas: uma reflexão histórica sobre práticas feministas autônomas na Bolívia. não um jornal. 2014. 111 gênero. pp. em que foram localizadas 17 charges e tirinhas. Vale perguntar. Essas informações são importantes para este trabalho porque. O La Escoba teve seu primeiro número publicado em março de 1986 e tratava-se de um boletim. 3. em relação ao levantamento de fontes. o que justifica trazê-lo para o debate sobre imprensa feminista. uma média de quatro por exemplar. . o boletim boliviano explorou a relação histórica entre mulheres e bruxas – e suas vassouras – para construir sua marca. Em termos visuais a marca do jornal era a vassoura. V. Gleidiane de Sousa. 96-113. o La Escoba. tradução da palavra escoba que dava título à publicação. a partir da natureza distinta. sem vínculos partidários ou financeiros e aliado de mulheres de classes populares. FERREIRA. uma ONG.

certamente. a mais ousada ao reproduzir em uma charge um cenário de violência. La Paz. março de 1986. sendo que a charge do La Escoba.112 Figura 17 Fonte: La Escoba. mas em se tratando do assunto violência contra às mulheres a publicação boliviana foi. Em todos os sete jornais explorados como fonte o tema violência contra às mulheres foi abordado no humor gráfico em apenas cinco situações. Como explorar o humor para problematizar assuntos que causam sofrimento e dor às mulheres? Tal iniciativa era sempre arriscada. A resistência em lidar com temas tabus é justificada. reproduzida na sequência. é a abordagem mais direta. como pode ser observado nas tabelas da seção apêndices. Capa. . Edição 1. Bolívia.

muito embora ela faça uso de elementos cômicos como o absurdo. É nesta especifidade que reside a justificativa do uso do La Escoba neste trabalho que . Em charge de seu segundo número. Edição 2. um ambiente conhecidamente doméstico. hoy es el dia de las madres. pois trata-se de uma vítima –. O presente para as mulheres. Assistindo a cena uma criança informa: ―Hoy no. inclusive charges e tiras. a ironia. La Escoba. nessa representação. bem como a superficialidade da data comemorativa. O homem tem seu corpo inclinado para frente. Diante da investida do homem. é difícil imaginar que alguém ria de fato da charge do La Escoba. Em um cenário de violência e sofrimento a ―rainha do lar‖ nada domina. 27.‖ A charge tem como título. mas essa em especial diferencia-se de qualquer outra charge publicada. a mulher tem seu corpo prensado contra a parede. Coluna de Humor. papá. o boletim publicou uma reprodução do Fempress em que o tema é dia das mães. um homem com feição agressiva. Bolívia. que arregaça às mangas em sinal de disposição para luta – neste caso uma luta sem oponente. era não ser vítima da violência. cuja autoria não foi possível identificar. maio de 1986. ―La reina del hogar‖. Muito embora Deligne reforce o status do riso como algo que escapa do racional. bestial e uma garrafa em mãos intimida a esposa assustada e acuada. no topo da imagem. 113 Figura 18 Fonte: Autoria Ilegível. Não é novidade que o Fempress tinha muito de seus conteúdos publicados em jornais feministas do Cone Sul. a inversão. Em pleno mês das mães o boletim publicou charge de conteúdo difícil e elaborou uma crítica muito contundente à violência sofrida pelas mulheres. a mulher protege o rosto com o braço. p. Na representação de uma cozinha.

a esse respeito. O Centro informa que seu trabalho tem sido fundamental para contribuir com a ―transversalización del enfoque de género‖. publicado ainda hoje.114 priorizou jornais feministas.org. não se trata de uma recusa. março de 1986.192 O boletim se apresentou como feito por mulheres. mas finaliza que suas ações tem tido como objetivo o fortalecimento de uma política feminista. 192 Editorial. o que beneficia homens e mulheres. organização que está em atividade ainda hoje. Edição 1. para mulheres.php/quienes-somos. discurso que ainda hoje é utilizado para apontar que o jornal não era de fato feminista. . uma relação 191 Ver. transparecia no boletim. portanto. No primeiro editorial do boletim. Queremos ser um vinculo de reflexión. Para ayudar a hombres y mujeres dispuestos a romper el malefico hechizo que la sociedad capitalista y patriarcal ha impuesto a las mujeres obligándonos a sufrir multiples formas de explotación y discriminación social. ponto ressaltado por Virginia Aillón. Destaco ainda que o debate sobre reivindicar-se feminista ou defender uma perspectiva de gênero. mas há de fato um esforço de conciliar a perspectiva de gênero. Bolívia. fruto das dificuldades enfrentadas pela ―identidade‖ feminista.191 Definitivamente.bo/index. pero también un espacio de comunicación abierto a todas las mujeres deseosas de decir sua palabra y sentimientos. Vale ressaltar que é apenas nesse momento que o debate feminista começou a ser empreendido no país. não há uma negação do feminismo.cidem. La Escoba. No que se refere ao feminismo a entidade promete promover diálogo entre os movimentos de mulheres e movimentos feministas. assim como é bastante claro no website do CIDEM.html Acesso em 29 de fevereiro de 2016. http://www. mas sim de um contexto histórico particular que nas décadas seguintes viu-se ainda diante da discussão que colocava em debate movimentos feministas e perspectiva de gênero. a maioria publicado por grupos independentes. a partir da incorporação e criação de metodologias que foquem em direitos ―desde la perspectiva de género‖. mas visando colaborar na transformação da sociedade. em formatos diferentes. provavelmente. La Escoba lançou um discurso semelhante ao do Brasil Mulher em sua primeira edição.

assim como não é seguro atribuir a determinados marcos a responsabilidade pela emergência dos feminismos. reproduzidos e. que ideias. as temporalidades da história das ditaduras e da própria história dos feminismos foram intersseccionadas. forma e conteúdo. e também através de boletins. para além dos estereótipos e extrapolando modelos de cômico que presumem que o riso precisa ser baseado na tristeza do outro. uma vez que um olhar de gênero não garante uma ação ou uma abordagem feminista. causavam reconhecimento de que as fronteiras entre os países do Cone Sul funcionavam como espaços fluidos e não como barreiras de contenção. Em todos os países destacados para este trabalho. Brasil. Charges e tirinhas feministas inisinuam um esforço feminista coletivo de construir um humor particular e um riso próprio. A imprensa feminista do Cone Sul. como parte integrante da imprensa feministas. assim como em outros que foram citados mais modestamente. . notícias. A imprensa feminista desempenhou papel fundamental. É possível. 115 ainda hoje complexa. considerar que tais movimentos nasceram em contextos de autoritarismo e repressão que. sem nenhuma dúvida. Argentina. Era por meio de jornais. sofrimentos eram trocados. marcaram suas trajetórias em termos de forma e luta. como Chile e Paraguai. tornando o trabalho de sistematização uma tarefa árdua. foi um espaço que produziu e divulgou um humor gráfico até então inédito: o humor gráfico feminista com aspirações tranformadoras. demonstra não apenas a existência de redes formais e informais produzidas pelos movimentos feministas emergidos na segunda metade do século XX no cone geográfico que dermarca diferenças e semelhanças. O humor gráfico feminista. como foi possível perceber em poucos exemplos trazidos no primeiro excerto deste capítulo. Uruguai e Bolívia. Não é possível definir cronologicamente as origens dos movimentos feministas no Cone Sul. mais do que inovar em sua temática. subversivas e revolucionárias. propostas. no entanto.

116 .

é importante pontuar que a tomada de lugar. no entanto. Não é coerente afirmar de maneira categórica que o humor das mulheres e o humor feminista é sempre revolucionário. Contudo. sem senso de humor. Freud. CAPÍTULO 2 . por si só. ironia. Sigmund. encenada. chiste e uma série de outros conceitos que servem de base para discussões que têm como foco o universo da comédia. escrever e ter seus textos lidos.193 193 Ver. que a tomada do humor é por ele mesmo um ato de autoridade assumido por elas. dedicou importantes reflexões para explicar as nuances psicológicas que envolviam o chiste. A ação de deslocamento do sujeito que é alvo do humor para o sujeito que ri é. desenhar e ter sua arte apreciada. O que ninguém parece discordar. riso. em estudos menos conhecidos. ou melhor. é por si só um ato de transgressão. categoria que seria englobada pelo conceito de humor. 117 3. definitivamente. seja ela escrita.O RISO FEMINISTA Muitos estudos dedicam longas reflexões às noções de humor. é que o ato de produzir conteúdo para rir é assumir uma posição de poder e de controle. é reconhecer que se tem autoridade para falar e ser ouvida. Entretanto. é colocar-se em uma posição de superioridade. subversora e a iniciativa de produzir humor a partir da perspectiva das mulheres tem. . no que se refere às mulheres. Para as mulheres o ato de tomar para si o lugar de sujeito assertivo. dadas as justificativas históricas e científicas que rondam o senso de humor das mulheres. resultados diversos. o pai da psicanálise aponta que a sua estrutura psíquica é menos complexa. cômico. Penguin Book‘s: USA. principalmente. a esse respeito. que provoca o riso ao assumir o humor como uma forma de afetar as pessoas. 2002. Em sua obra O chiste e sua relação com o inconsciente ele deu importantes pistas que motivaram muitos estudos sobre o riso. na medida em que nosso superego não tem domínio suficiente sobre o ego a ponto de permitir que tenhamos senso de humor. The joke and its relation to the unconscious. FREUD. Assim como os homens. elas são capazes de produzir humor depreciativo – inclusive auto-depreciativo – e baseado nos estereótipos mais cruéis. na medida em que essa ação ignora a premissa das mulheres como sujeitos passivos e. fazer humor e fazer o outro rir. em forma de cartum.

e de muitos outros. Nancy A. 80. de cientistas. frequentemente apoiados em discursos científicos como o de Freud. tradução nossa).. Os cânones. de filósofos. começou negando-lhes a capacidade de pensamento lógico. o discurso que tem negado às mulheres senso de humor é o mesmo que. pode ser facilmente contestado sob os mesmos argumentos que enfrentam discursos que negaram às mulheres um papel na literatura. apesar da necessidade de serem repetidamente reforçados.‖ (Ibidem. United States: American Culture.. o esforço de provar sua inabilidade de rir e principalmente de fazer rir precisam hoje ser descontruídos e justificados por meio de provas mais do que concretas. 1988. Conteúdo produzido para compôr a tese Quem Ri por Último. cartunistas. ou no mundo das artes de maneira geral. Um vasto universo de produções de mulheres que fazem uso 194 WALKER.] who deny woman the sense of humor thus have begun by denying her capacity for logical thought.194 Estando inteligência e senso de humor interligados.‖195Assim como muitos outros discursos que. Brasil. é que as têm insistentemente ignorado. parece bastante claro que ―[.118 Figura 19 Fonte: HELÔ. por conseguinte. – principalmente durante o século XIX – questionou sua capacidade intelectual com base em argumentos de clérigos. Roteiro: Cintia Lima Crescêncio. figuram como verdades e constituem as vivências das mulheres. . p. Muitas atrizes especialistas em comédias. por exemplo. Segundo Nancy Walker. A very serious thing. 1975-1988). como produzem humor. Ri Melhor: Humor Gráfico Feminista (Cone Sul . 82. escritoras e comediantes ficariam felizes em voltar no tempo e mostrar a ele que tal discurso. novembro de 2015. Women‘s humor and American culture. 195 ―[…] quem negou o senso de humor das mulheres. p. As mulheres não só riem. por muito tempo.

Vale reforçar ainda as várias charges e tirinhas assinadas por mulheres dando sustento a esta pesquisa. Penguin Book‘s: USA. Ciça é nacionalmente reconhecida e teve dezenas de suas tirinhas publicadas em periódicos feministas. Nesse caso me refiro especialmente ao Brasil. afirma que o que muitos entendem por humor estaduninse é. Humor e Caricatura: a questão dos estereótipos culturais.‖ (BARRECA. Para Ricky Goodwin. Isabel (Orgs. incluído o dos países do Cone Sul das décadas de 1970-1980.). Nancy Walker. p. p. em função do acesso às fontes. . They used to call me snow white. afirma que ―The man who fears the laughter of women is the man who fears the power of women. 535- 555. A monovisão dos estereótipos no desenho de humor contemporâneo. foi um campo dominado por homens.197 O mesmo vale se formos lançar um olhar atento ao humor gráfico brasileiro. op. o humor gráfico que emergiu com força nos anos 1950 no Brasil e se fortaleceu nas décadas seguintes. É sempre perigoso que a invisibilidade de produções assinadas por mulheres. Regina Barreca. Um excelente exemplo é Ciça que atualmente é a única cartunista mulher que recebeu algum espaço no Museu da Imagem e do Som em São Paulo. Contudo. 14 198 ―O homem que teme o riso das mulheres é o homem que teme o poder das mulheres. é assumir que só conhecemos metade dessa história. p. 119 do humor colocam em cheque tais premissas e isso vale para diversos contextos. na verdade. Regina. refletindo sobre a invisibilidade do humor assinado por mulheres. Reconhecer o domínio do campo como masculino não demanda ignorar mulheres cartunistas que na época eram sim reconhecidas. but I drifted. As fontes nos mostram o contrário e presumir que o campo do humor é masculino.Imprensa. o humor masculino dos Estados Unidos. cit. afinal. incluída ai as humorísticas. 197 WALKER. Belo Horizonte: Editora UFMG. tradução nossa). seja naturalizada.196 É difícil negar tal afirmação. 552.. é totalmente questionável a inexistência de mulheres na extensa lista de cartunistas reconhecidos citados pelo autor em um intervalo de quase 50 anos. à vasta bibliografia e à conhecida tradição de humor fundada pelo O Pasquim que vigora aqui.. uma vez que ela se refere ao domínio de um campo.‖198 A citação pode facilmente ser apropriada como uma premissa e adequada a muitas 196 GOODWIN. In: LUSTOSA. é porque as mulheres não contribuiram com esse campo.. Women‘s strategie use of humor. 1991. . 130. se o campo é dominado por homens. Ricky. referindo-se ao humor estadunidense. 2011.

especialmente de outras mulheres.120 outras realidades vividas por diferentes mulheres em variados tempos. nossas sociabilidades que envolvem o humor são compartilhadas majoritariamente com outras mulheres. 26. então suas táticas devem ser de sobreviventes ao invés de salvadoras. de certo modo. desde sempre. sendo elas feministas ou não. que que somos capazes de causar o riso de outras pessoas. p. and often not to much their liking. so their tactics must be those of survivors rather than those of saviors. seja ele com perspectiva feminista ou não.. tanto do ponto de vista temático. tanto em sua produção como na forma de reagir a ele. cit.] women‘s humor develops from a difference premise: the world they inhabit is not of their making. assim como não é novidade. o humor é demarcado pelo gênero. Para as mulheres sempre foi uma luta e não um direito naturalmente concebido o de protagonizar espaços de fala e o fazer humor. Uma série de discursos tem construído e naturalizado a inaptidão das mulheres para a produção de humor em toda e qualquer modalidade. Todas nós estamos perfeitamente habituadas a rir e rir muito.‖200 Se a sociabilidade das mulheres é distinta da dos homens e se sua relação com o mundo é diferente. que ser protagonista. suas formas de significar esse 199 WALKER. o que tem relação direta com a invisibilização do humor produzido por elas.. .. uma vez que uma das características que marcariam as mulheres seria exatamente a passividade. ―[. O humor. As fontes que estão sendo analisadas nesta tese seguem o mesmo caminho. Variadas produções que têm enfoque no humor ao redor do mundo comprovam a diferença de gênero que atravessa os modos de rir e fazer rir. uma vasta produção com autoria de mulheres e com uma perspectiva feminista dedicada também a mulheres. e frequentemente não as agrada. como um domínio masculino. O humor feito por mulheres. tradução nossa). 200 ―[…] humor das mulheres se desenvolve sob uma premissa diferente: elas vivem em um mundo que não é feito por elas. p. assumir o controle e. Assim. sendo uma ação considerada assertiva. se comunica de maneira diferente com o mundo. 36. De acordo com Nancy Walker. op. nada mais é.199 As leitoras mulheres certamente estão se questionando sobre essa premissa. de imposição. o domínio de um campo que tem sido entendido. tornou-se uma espécie de oposição ao ―feminino‖. quanto na abordagem. espelhado na cultura. O problema aqui é que apesar de integradas a uma vivência que inclui homens e mulheres.‖ (Ibidem. para nós.

Umberto Eco faz uma importante distinção entre a comédia produzida na antiguidade. esse sim um instrumento de mudança em potencial Humor does not pretend. the picture of the structure of our limits. yet it is a true movement of freedom. Essa lembrança enfraquece a lei. Há uma série de debates que procuram decidir qual seria o termo mais adequado para lidar com tudo aquilo que faz rir: comédia. se adequa aos desejos feministas – principalmente os feministas. no mínimo. it undermines limits from inside.‖ (ECO. IVANOVV. Como já citado. 121 mundo provocam marcas inegáveis. no entanto. parece suficiente quando o olhar é lançado para uma produção humorística que leva a assinatura de mulheres feministas. The Frames of Comic Freedom. reminding us of the presence of a law that we no longer have reason to obey. Umberto. uma lembrança recorrente de quem está no poder. nas suas formas de lidar com o humor. cômico. In doing so it undermines the law. muitos foram os teóricos que se debruçaram sob o conceito de humor na tentativa de definí-lo. It is never off limits. 1-9. riso. Humor does not promise us liberation: on the contrary. to lead us beyond our own limits. p. like carnival. Humor não nos promete a libertação: pelo contrário. or better. que funcionava como um reforço das leis. DEU: Walter de Gruyter. It gives us the feeling. Carnival! Approachs to Semiotic. humor e etc. no entanto. it warns us about the impossibility of global liberation.V e RECTOR. lembrando-nos da presença de uma lei que não temos razão de obedecer. Nenhum desses esforços. conduzir-nos além dos nossos próprios limites. V. a imagem da estrutura dos nossos limite.201 201 ―O humor não simula. portanto. sistematizá-lo. e eu diria essenciais. ou melhor. 2011. It does no fish for an impossible freedom. pp. uma máscara de permissividade e o humor. Berlin. Umberto. parece ter chegado perto de uma definição que contempla a necessidade de pensarmos no humor como. ironia. Não procura uma liberdade impossível. como o carnaval. Ele nos dá o sentimento. Umberto Eco. Ele nunca é fora dos limites. revolucionário e que. tradução nossa). ele nos alerta sobre a impossibilidade de libertação global. Monica. . mas é um verdadeiro movimento de liberdade. chiste. Ele enfraquece os limites por dentro. 8. In: ECO. explicá-lo.

já que nesse momento são muito comuns as representações do masculino relacionadas à passividade e à acomodação. olhos revirados – olhar típico de quem está disfarçando um mau comportamento – e usando apenas uma ponta do dedo para sustentar o mesmo globo. A charge em destaque é um excelente exemplo para ilustrar essa concepção de humor que se diferencia profundamente do que é produzido e publicado. O humor feminista produzido por cartunistas no Brasil e nos países vizinhos. Mulherio. A postura do homem pode ser analisada em níveis diversos. . como os inúmeros pais de família que figuravam nas charges sentados em confortáveis poltronas. O humor como instrumento não faz uma promessa de libertação.122 Para o autor o humor é um movimento de liberdade. 17. pela maioria dos cartunistas do O Pasquim. Brasil. definitivamente. mas ele reforça a existência da lei e a não obrigatoriedade de vivermos sob ela. Figura 20 Fonte: Autoria Ilegível. uma mulher com o corpo curvado se esforça para segurar com as próprias costas algo que parece um globo terrestre. Na imagem. enquanto o homem é representado de postura ereta. embora ele não a garanta. é um movimento legítimo de libertação que em diferentes níveis evidencia a existência de uma lei/cultura que não só não beneficia as mulheres como as pune pelo simples fato de serem mulheres. Edição 25. p. por exemplo. março-agosto de 1986.

como um lampejo de plena consciência das injustiças do mundo. Figura 21 Fonte: BRUNO. sofrem violência em números sempre crescentes. Tal modelo masculino é analisado no capítulo 4. 123 lendo jornais em frente à televisão enquanto as mulheres cuidam de filhos e da casa.‖202 Nós sorrimos por termos descoberto a verdade. . A tirinha de Sylvia Bruno parece ilustrar com ainda mais perfeição a menção à lei a qual Umberto Eco se refere. dezembro de 1974. um triste riso de descoberta. lei que. como bem demonstra a tirinha de Sylvia Bruno. mesmo que por apenas um momento. contudo. 30. p. O riso provocado pela charge. em sua maioria. vale 202 ―Nós sorrimos porque nos sentimos tristes por temos descobertos. the truth. tradução nossa). only for a moment. é um riso muito parecido com o que costuma ser provocado por produções humorísticas de minorias políticas. Argentina. têm suas vidas sexuais e reprodutivas reguladas. por hora é importante focar no contexto geral da charge que dialoga diretamente com o conceito de humor apresentado anteriormente. por apenas um momento. Sylvia. a verdade. O riso feminista é. um riso de descoberta como aponta Eco: ―We smile because we feel sad for having discovered. Persona. não é qualquer riso. Edição 3.‖ (Idem. Esse riso é um riso triste. Nesse caso a lei que é questionada é a cultura sexista que rege o mundo e beneficia homens em detrimento de mulheres que têm jornada dupla de trabalho.

é uma excelente forma de contestá-la. de contestação da lei.‖ O debate é ilustrado por dedos em riste. emerge como um movimento não apenas legítimo. definitivamente. é representada sentada e com um balão de pensamento que informa seu desejo mais íntimo: ―Me pergunto quien les ortogo el ‗derecho‘ e ‗deber‘ de decidir sobre mi persona.204 203 ―[…] o mal-estar – a ausência de sentido – de viver sob uma lei. mas também reitera o fato de que uma lei que não nos atende. – Sostengo que es un dever. mas também de todas nós.‖ A conclusão de que as mulheres não legislam suas próprias vidas. É confrontacional e rompe limites uma vez que você vai embora sentindo-se brava mesmo que você ria. A tristeza causada pelo lampejo de consciência emerge junto a um sentimento de revolta e incômodo. – Sostengo lo que sostuve. qualquer lei. It‘s confrontational and boundary breaking since you walk away feeling angry even as you laugh.124 reforçar. estampado na pele da personagem que lamenta a trágica realidade das mulheres argentinas. estrategicamente demarcarda por símbolos que nos fazem reconhecê-la como tal. Ela nos deixa ainda .. se adequa ao uso da expressão lei proposta por Eco.. Nesse caso o feminismo. olhares bravos e uma postura aparentemente agressiva. uma vez que a descoberta e o riso triste nos fazem perceber ―[. abaixo da discussão empreendida por personagens que concluimos serem homens. – Sostengo lo que sostengo.‖ (Idem. No primeiro quadro quatro personagens debatem a distribuição de direitos e deveres: ―– Sostengo que es un derecho. tradução nossa). It should make us even more determined to change those aspects of our situation that confine us. No quadro seguinte. é esse sentimento que inspira o desejo de mudança. Conforme Regina Barreca. This sort of comedy does not do away with women‘s feelings of powerlessness – instead it underscores the political nature of a woman‘s role. 204 ―Esse tipo de comédia é arriscada. It is comedy that inspires as well as entertains. como necessário. não precisamos nos submeter a ela e o humor feminista. Esse tipo de comédia não encerra os sentimentos de impotência das mulheres – ao invés disso ela sublinha a natureza política do papel das mulheres. pode ser traduzida como a cultura que subjuga mulheres e o―feminino‖ aos homens e ao ―masculino‖. uma personagem mulher. Such comedy is risky.] the uneasiness of leaving under a law – any law. inclusive. não precisa ser respeitada.‖203 Se a cultura não nos contempla.

He knows at this point that he‘s probably not allowed to tell any of these jokes himself. desafia a autoridade. If a joke. considerado umas das formas mais populares de humor entre as minorias.‖205 O riso feminista esforça-se para tornar a ideia de desigualdade absurda. pelo menos não na companhia de homens e mulheres. 205 ―Humor feminista […] ri da própria ideia da desigualdade de gênero numa tentativa de tornar essa desigualdade algo absurdo e impotente. porque ele também diverte-se com tais piadas. 14-15. white. cit. ele apropria-se de estereótipos – por exemplo. patriarcal um parceiro. desestabiliza a norma. however.‖ (WALKER. É uma comédia que inspira e também entretém. branco. particularmente mulheres. tradução nossa). is directed at the power structure in front of a member of the power structure. but he still enjoys hearing them. Ao investir em um riso autorizado as mulheres estariam apenas reproduzindo velhos modelos. social e cultural que é baseada na evidente desigualdade entre homens e mulheres. p. Para a autora esse tipo de humor inspira e entretem: ―Feminist humor [. Se uma piada. Ele provavelmente sabe que não é autorizado a contar essas mesmas piadas. um humor que ameaça a ordem vigente. especially a joke laced with aggression. the results can be dangerous. ―If we tell these jokes about ourselves. we‘ll make the straight. at least not in mixed company. Seguindo uma direção oposta afirma-se o humor auto- depreciativo. because he finds these jokes funny too. deslegitimando-a. de gordas. pelo contrário. solteiras – para provocar o riso no outro através do riso de si mesma. 206 ―Se contamos uma piada sobre nós mesmas. p.. mas ainda assim ele diverte-se ouvindo-as. patriarchal man our pal. portanto.‖ (BARRECA. 145.] laughs at the very idea of gender inequality in an attempt to render such inequality absurd and powerless. 125 O humor com viés feminista é. tradução nossa). cit. uma vez que ele não subverte modelos.. principalmente uma piada construída com agressividade é direcionada a uma estrutura de poder diante de . Regina Barreca elabora forte crítica ao exercício de tal humor..‖206 mais determinadas a transformar aqueles aspectos de nossa situação que nos confina. op. reforça a importância de se repensar uma estrutura política. op. nós faremos do homem heterossexual.

sem dúvida. Ressalto que a charge é ilustrativa de um pequeno texto informando os debates um membro da estrutura de poder. as mulheres. no entanto. 1976. dedicado a questionar as estruturas de poder. Brasil.126 A crítica da autora reforça o papel conciliador do humor auto- depreciativo produzido por mulheres que. Nas charges e tirinhas de periódicos feministas do Cone Sul o humor é. Figura 22 Fonte: Sem Autoria. p. definitivamente ela não é corrente nas fontes selecionadas para esta tese. Tal charge é aquela que instiga qualquer pesquisadora a apenas informar que uma imagem vale mais do que mil palavras. Edição 20. os resultados podem ser perigosos. Sua publicação é contemporânea ao recorrente debate sobre a entrada de mulheres na Academia Brasileira de Letras (ABL).‖ (Ibidem. Embora tal modalidade de humor seja comum. ao provocarem um riso que busca a concordância da audiência. A charge que destaco na sequência é uma importante amostra do esforço de desacreditar a desigualdade como sistema que rege a sociedade. p. 25. especialmente a branca e heterossexual. Brasil Mulher. é importante fazer uso das mil palavras para refletir sobre ela. tradução nossa) . 5. nada mais faz que aliar o humor hegemônico a novos sujeitos. entretanto.

mas revelador. Um dos trechos do texto aponta a fala de um ―imortal‖ que afirma que a tentativa já havia sido feita e ―fora destrasosa‖. é recusada. contestando inúmeros paradigmas que desconsideram e invizibilizam esse tipo de produção. por último. quando as sufragistas respondiam com inteligência e humor os argumentos utilizados contra o voto feminino. uma mulher integrante da ABL. vestindo roupas imponentes. parece coerente presumir que o humor feminista produzido nos países do Cone Sul em formato de charges e tirinhas carrega em si uma possibilidade de transgressão. tradução nossa). ainda podemos celebrar o fato de que o conteúdo desse tipo de humor era e ainda é potencialmente transformador.. . it lies ins humor rather than in comic‖207 aponta o empreendimento de sucesso que vem sendo feito pelo humor feminista desde os finais do século XIX. quase um informe de que isso é inevitável independente dos protestos. masculino/feminino. um riso esperançoso. por sua vez. A conclusão de que ―If there is a possibility of transgression. fazendo menção a novos tempos. A partir do conceito de humor de Umberto Eco. a mulher é representada como integrante da ABL. e. não é fruto apenas do riso de descoberta. os imortais são apresentados como algo ultrapassado. Mais do que tirar do anonimato o humor feminista produzido abaixo da linha do Equador. eminentemente triste. Rostos caídos e óculos de lentes grossas não deixam dúvidas de que se tratam de homens velhos. terceiro. a fala de um deles implica não apenas na inadequação de tal de atitude em tempos feministas. Na charge a autoridade masculina somada a de uma instituição. como também o jogo que envolve o nós/eles. a mulher veste um par de calças. loc. um moderno e atual par de calças. 127 que vinham tomando conta da ABL sobre o ingresso de mulheres.. A transformação. e nós que viemos de túnica só para não a humilhar. 207 ―Se há uma possibilidade de transgressão ela está no humor e não no cômico. É exatamente isso – o desastre – que a charge evoca. segundo. saias/calças. tempos em que exclusões não serão impostas sem luta.‖ Há quatro elementos principais a serem observados na imagem: primeiro. é também derivado de um riso que celebra. ABL. baseado no movimento de liberdade e na descoberta que resulta em um riso triste. sendo uma das peças um elemento considerado por longos períodos masculino: calças.‖ (ECO.. Já os homens foram representados em vestes romanas e parece difícil de discordar que todos denotam idade avançada. Um deles afirma: ―. semblantes e vestes romanas deixam isso muito claro. Cit..

Brasil. seu direito ao corpo negado. 20. cit. Observar a ilustração do Mulherio é reconhecer nela o papel que a Igreja Católica e o discurso religioso como um todo tem na vida de milhões de mulheres que têm suas vidas sexuais reguladas. loc. Segundo Regina Barreca. uma sorri e a outra tem os braços para o alto. .128 A ilustração assinada por Lilita simboliza exatamente essa modalidade de humor feminista que se constrói de uma maneira muito específica. enquanto os homens contam piadas. com tinta. sugerindo felicidade. Observar os detalhes da ilustração é. geralmente. Mulherio. maio-junho de 1983. Tal concepção de lei. As duas mulheres representadas na imagem mostram satisfação. as mulheres contam histórias. reconhecer a cruz sendo tranformada no símbolo do feminino. p. o humor feito por mulheres feministas tem. histórias sobre si e sobre outras mulheres. inclusive. Edição 13.208 Sendo assim. serve de maneira muito eficaz para explicar e entender as lutas 208 BARRECA. entretanto. Figura 23 Fonte: LILITA. objetivos maiores a serem atingidos. (re)submetido às normas de gênero impostas socialmente. que aqui opto por entender como cultura. Celebra-se o poder das mulheres de contestar e mudar a lei. seu desejo de seguir uma vida religiosa. publicamente.

p.209 Havia medo que as mulheres 209 Recentemente um professor premiado com o Nobel renunciou de suas atividades em uma universidade do Reino Unido depois de um discurso que . vendrán las feministas‖. Mulherio. ele causa medo. Havia medo que a elas fosse dado o direito de votar. Havia medo que as mulheres ingressassem nas universidades. O humor feminista que ainda não figura nos canônes que celebram a linguagem inédita e satírica fundada por alguns poucos e significativos jornais alternativos. As mudanças causadas por esses movimentos também. desde suas primeiras manifestações organizadas. O medo. por exemplo. sob o argumento de incapacidade intelectual e outros. ainda em fins do século XIX. Edição 5. Os movimentos feministas. portanto. Tendo potencial de transformação. pode não ter seus melhores momentos publicados em belas edições de capa dura a venda por uma pequena fortuna. causam medo. ―Si no te duermes. 13. mas ele é potente e capaz de contestar privilégios e injustiças. junho de 1981. como os ―imortais‖ temiam a entrada de mulheres na ABL. Brasil. sentimento muito comum na sociedade em relação ao feminismo. especialmente se olharmos para a maneira como a arte do cartum foi explorada para esses fins. anuncia a charge assinada por Arana e publicada no Mulherio. Figura 24 Fonte: ARANA. assim como ainda hoje há discursos que questionam a habilidade das mulheres para a ciência. como aconteceu no Brasil. 129 feministas que foram empreendidas na segunda metade do século XX no Cone Sul.

Havia medo que as mulheres se descobrissem sendo exploradas em jornadas dupla de trabalho e remuneradas com salários menores que os dos homens. a esse respeito. Os mesmos jornais que contêm centenas de charges e tirinhas contestando os mecanismos que mantêm as mulheres submetidas a um sistema que não as leva em consideração. biologicamente. Quentin. o humor feito por mulheres – feministas ou não – é um humor de esperança.212 Rostos zangados são acionados com frequência para representar o ―inimigo‖ comum que precisa ser repreendido e derrubado. Argentina. focos privilegiados da análise. Os movimentos feministas do Cone Sul. mas defendia laboratórios de pesquisa separados para homens e mulheres. na França.com/ciencia-e-saude/noticia/2015/06/premio- nobel-renuncia-a-cargo-em-universidade-britanica-apos-comentarios- sexistas. que contesta estruturas. São Leopoldo: Editora da Unisinos. que pressupõe a destruição do adversário. indignação e desmoraliza quem sustenta esse sistema. mas não se trata de uma desqualificação que combina com as definições de Quentin Skinner.130 ingressassem de maneira maciça no mercado de trabalho.html Acesso em 22 de julho de 2015.. Havia medo de mudanças. Havia medo que as mulheres fossem autônomas para controlar sua vida sexual e reprodutiva. isso poderia prejudicar sua fertilidade. causa incômodo. faz pensar. 210 Idem. http://g1. op. p. Ver. em manifestações humorísticas bastante semelhantes as que aconteciam no mesmo período nos Estados Unidos.211 O humor feminista desarma. 143. sob pena de que os lares fossem abandonados a própria sorte. 2002. traziam à tona todos os medos fruto do vislumbre de mulheres contestando um sistema social baseado na desigualdade e na injustiça.210 O humor feminista desqualifica quem se coloca contra os direitos das mulheres. Havia e há medo. A diferença reside no fato de que usando o humor explora-se um recurso debochado que se recusa a levar a autoridade a sério. cit. Uruguai e Bolívia. revolta. No humor feminista produzido por mulheres no Brasil. no Reino Unido. de perda de privilégios. coloca em destaque os absurdos aos quais as mulheres são submetidas. Hobbes e a teoria clássica do riso. 212 WALKER. SKINNER. . contêm também inúmeros textos reiterando tal descontetamento. Havia medo que as mulheres praticassem esportes porque. cria identificação. Muitas outras formas de comunicação produziram as mesmas reflexões. De acordo com Nancy Walker.globo. no México. a esse respeito. 211 Ver.

não ter nenhuma identificação de gênero. a desigualdade. eventualmente. As personagens da charge não têm muitas identificações de gênero. Edição 6. a felicidade e a liberdade. As características do humor feminista são expressas em variados temas que contemplam especificamente as preocupações das . a injustiça. representados por faces descontentes e furiosas de homens. de canto. Novembro de 1986. p. o machismo são. Em tais imagens as mulheres raramente são representadas como as vilãs da história. de descrença. O exemplo do uruguaio La Cacerola se adequa bem a essa importante característica do humor feminista produzido em forma de arte gráfica no Cone Sul. Para as personagens ―insultadas‖ de feministas. 131 também de países como Paraguai e Chile. notadamente. de incredulidade. É o bigode o principal elemento de identificação. Uruguai. No entanto. a democracia. é desenhado com elementos que o identifiquem com o masculino. Figura 25 Fonte: Autoria Ilegível. 9. mas em sua maioria o personagem que tem uma premissa questionada. um olhar para o solitário protagonista da direita nos indica que se trata de uma figura que representa o masculino. o personagem solitário celebra o poder e vocifera: ―Feministas!‖ Na imagem a lei brada enquanto as militantes mantêm um olhar desconfiado. Alguns personagens podem. a lei não têm sentido. Se olharmos apenas para o grupo da esquerda concluímos que não é possível identificar se são homens ou mulheres. de estranhamento. sempre eles. a lei. Enquanto o grupo sem marcadores de gênero levanta placas celebrando a paz. La Cacerola.

felizmente. é crucial procurar entender os assuntos que moblizam esse humor gráfico. como também as formas como essas mulheres procuraram rir e. Sendo assim.132 mulheres do Cone Sul. 1998. colocar em cheque algumas premissas. portanto. como dito anteriormente. Afinal. relationships. Reconhecendo as diferenças na sociabilidade de homens e mulheres a autora destaca: […] women – like anyone else.213 A explicação da piada. as it often has. Vale reforçar que. com comediantes e etc. apesar da autora focar no uso do humor por mulheres escritoras – feministas ou não – ela faz movimentos de articulação com as mulheres produtoras de humor gráfico. até porque aprendemos desde sempre que uma piada que precisa ser explicada perde a graça. 5 . desnuda o gracejo de seu original potencial de fazer rir. no livro What’s so funny? informa que quem pesquisa humor não tem o dever de explicar porque algo é engraçado. do chiste. explicar os motivos pelos quais as mulheres feministas do Cone Sul riem de certas charges e tiras não é uma das intenções deste tópico. de refletir sobre os assuntos que mobilizavam esse humor que é tão singular se comparado com o humor tradicionalmente masculino. When their humor has been political. and children. É tempo. sewing circles. American Visions: United States. do cartum. já que essa compreensão ajuda a iluminar não só as preocupações feministas do período. p. como também demandas que no período consumiam as mulheres por todo o mundo. for that matter – have created humor about what they know best and what concerns they most […] they have written about neighbors.1 DO QUE RIEM AS FEMINISTAS? Talvez uma das perguntas mais obscuras que se possa fazer a qualquer pessoa que ri de uma piada seja a famosa: qual a graça? Nancy Walker. Entretanto. do que riam as mulheres feministas do Cone Sul? 3. What’s so funny? Humor in American Culture. Ao narrar a experiência com o humor das mulheres estadunidenses. Nancy. and other forms of equality since women won the right to vote […] women‘s humor has been less 213 WALKER. Nancy Wlaker identifica uma série de características que marcam essa modalidade de fazer rir. it has tended to focus on women‘s rights – suffrage until 1920.

tanto em termos temáticos. Em uma rápida comparação com O Pasquim.215 é importante não confundirmos.. p. ele tendeu a focar nos direitos das mulheres – sufrágio até 1920. o machismo. como aconteceu frequentemente. a homofobia e o racismo foram protagonistas frequentes em suas páginas e não em termos de crítica. e crianças. no entanto parece difícil de negar que a produção humorística delas baseou-se com muito mais frequência em questionamentos conscientes e engajados. mas em termos gerais é importante tentarmos compreender as marcas que carcaterizam esse humor feito por mulheres que se desobra no humor feminista. círculos de costura. e elas não são recusadas. por exemplo. p. assim como eles. 182.. produziram humor a partir daquilo que conhecem melhor e daquilo que as preocupam [. mas sim de produção de discurso..] as mulheres. women may be even more conscious than men […]214 A forma de produzir humor assinado por mulheres é identificado como distinto daquele dos homens. é possível concluir que. Obviamente há exceções. elas foram capazes de ser mais conscientes em relação aos homens na produção do humor.] por causa de sua condição desigual na sociedade. apesar da luta do alternativo por democracia e liberdade. crianças e questões políticas.] o humor das mulheres tem sido menos agressivo e hostil do que o dos homens [. portanto.. tradução nossa). Apesar de Regina Barreca entender que todo e qualquer humor assinado por mulheres é um gesto feminista.] because of their unequal position in society. 215 BARRECA.. 32. O humor gráfico produzido por mulheres... sob o risco da generalização.. e outras formas de igualdade desde que as mulheres conquistaram o direito ao voto [.] elas escreveram sobre vizinhos. quanto do ponto de vista da forma.. produziram humor sobre temas que conhecem e as preocupam. Quando o humor das mulheres foi político. humor feito por mulheres 214 ―[. no caso da realidade americana: vizinhos. relacionamentos. Elas. as mulheres podem ser mais conscientes do que os homens [.. De maneira geral é comumente aceito que o humor produzido por mulheres é menos agressivo que o dos homens. cit. . op. social e econômica das mulheres. como qualquer outro grupo. Esta última assertiva pode. Nancy Walker finaliza afirmando que em função da posição política.. como o voto feminino e seus desdobramentos pós-sufrágio. 133 aggressive and hostile than has that of men [... causar controvérsias. relacionamentos.]‖ (Ibidem. certamente. é construído de um modo diferente e podemos estender essa visão ao humor feminista.

. em termos gerais. porque no humor das mulheres frustração e raiva. incongruity has been a major device for decoding the myths of the patriarchy. talvez impossível. p. American Visions: United States. & DRESNER. Because in women‘s humor. Tais temas demarcam em diferentes níveis a mobilidade que as mulheres não possuem na transformação da estrutura patriarcal. mas charges e tirinhas feministas publicadas por aqui parecem seguir o mesmo caminho. between the inequities to which women have been subjected and the egalitarian ideals upon which the nation was founded. questiona o sistema patriarcal que promove uma cultura baseada na desigualdade e na exploração. entre as desigualdades às quais as mulheres são submetidas e os ideais igualitários aos quais a nação foi fundada. A autora refere-se especificamente aos Estados Unidos. 171-184. Tal modalidade de humor rompe barreiras de raça. As humoristas americanas tem como alvo o sistema patriarcal. 174.216 O humor produzido por mulheres. frustration and anger at gender-based inequities have had to be expressed obliquely.‖ (WALKER. American women humorists have targeted the patriarchal social system. também. In: What’s so funny? Humor in American Culture. com temas que dialogam e criticam diretamente um sistema que não as contempla. Nancy A. tiveram de ser expressas de maneira dissimulada. no caso do humor gráfico dos periódicos feministas que circularam durante as ditaduras por aqui. uma vez que se baseia na identificação. uma vez que muitos dos temas que preocupavam as mulheres feministas eram também preocupação de mulheres que não se consideravam feministas. tradução nossa). barreiras ideológicas. de classe e. Zita. 216 ―Incongruência tem sido um grande dispositivo para decodificar os mitos do patriarcado. pp. 1998. é tarefa muito complexa. Women‘s humor in America.134 com o humor feminista. É preciso ter em vista que as fronteiras entre o humor produzido por mulheres feministas e por mulheres não-feministas são muito fluidas. diferenciar estes dois tipos de humor. uma vez que suas experiências de socialização são muito parecidas. By exposing the discrepancies between the realities of women‘s life and the images of women promoted by the culture. No entanto. baseadas nas desigualdades de gênero. Expondo as disparidades entre as realidades da vida das mulheres e as imagens das mulheres promovidas pela cultura.

op. Uma tentativa de sistematização não anula. Uma charge que problematiza a maternidade pode debater ainda a sexualidade. . pode abranger ainda a questão da maternidade. os evidentes diálogos temáticos e contextuais que são acionados pelo humor gráfico feminista do Cone Sul. feminismo. Em termos globais charges e tirinhas debatiam trabalho doméstico. As tirinhas e charges são uma forma de comunicação bastante complexa e a interseccionalidade temática não é incomum. 135 O ineditismo de uma pesquisa sobre humor gráfico feminista no Cone Sul não se estende à novidade temática. 149. tópico explorado no capítulo 1. aborto. Os assuntos que mobilizaram charges e tirinhas feministas são os mesmos que mobilizaram as reivindicações de todo o conteúdo dos jornais citados. tudo de um ponto de vista feminista. mercado de trabalho. da participação política. Comédia é contextual. carestia. Além deste elemento. alguns deles debatidos desde os finais do século XIX e todos eles ainda presentes nas preocupações feministas do século XXI. na Bolívia e até fora do recorte geográfico proposto por este 217 BARRECA. Humor gráfico feminista com conteúdos muito parecidos promovem o riso no Brasil. cit. democracia. Apesar do esforço de categorizar as charges e tirinhas em motes. contracepção. portanto. Em termos regionais o humor gráfico acionava temas como eleições. uma vez que essa abordagem facilita a compreensão das escolhas e das preocupações feministas do momento. ela dialoga com as preocupações de um determinado período. por exemplo. divórcio. sexualidade. pelo contrário. assuntos que dialogavam diretamente com o contexto vivido por países que experenciavam regimes ditatoriais e a organização dos movimentos feministas. A novidade reside no esforço de rir de tais temas.217 Talvez o grande estranhamento em relação ao humor feminista seja o fato de ele continuar aparentando atualidade mesmo depois de décadas e até séculos. é importante destacar que a maioria deles são tranversais. Preocupações de ordem regional podem fazem articulações diretas com outros problemas locais e ainda levantar questões que mobilizavam feministas em outras parte dos mundo. educação das mulheres. liberdade de expressão.. religião e muitos outros. p. Uma tirinha que aborda o tema trabalho doméstico. maternidade. é importante ressaltar que ele ainda supera barreiras geográficas.

paraguais. Enquanto Simone de Beauvoir e Betty Friedan viajavam pelo mundo difundindo suas obras – no futuro reconhecidas como importantes marcos para os feminismos de segunda onda – muitas mulheres brasileiras. a relação dos feminismos com a esquerda. Enquanto grupos de reflexão feminista se fortaleciam nos Estados Unidos. foram cruciais para que a produção e/ou divulgação de charges e tirinhas feministas tivessem sim marcas singulares. localizei o jornal Bad Attitude. bem como a própria forma como era vista a emergência dos feminismos por aqui. v. 9- 35. O humor gráfico feminista de algum modo assume uma linguagem universal como veremos mais adiante. Embora ela ainda tenha seu potencial humoristico. A charge citada anteriormente. . é um exemplo. nossos valores e expectativas. O movimento feminista no Brasil: dinâmicas de uma intervenção política. sendo muitas vezes obrigadas a viver na clandestinidade.1. os temas do humor. que fala de seu próprio tempo.219 os países do Cone Sul experienciavam ditaduras civis e militares. 2. bolivianas e argentinas fugiam de seus países. 3. In: Gênero. pp. Niterói. publicação feminista que circulou nos anos 1980 com formato muito similar aos periódicos do Cone Sul. se atualizam e mudam. Ana Alice Alcântara. Porém. chilenas. que deu vasão ao movimento hippie e às lutas em defesa da paz. mas também se apropria de uma linguagem e temática que dialoga de maneira direta com mulheres que vinham tendo experiências parecidas naquele exato momento.1 Problemas Regionais Enquanto países como Estados Unidos e França viviam intensamente o fenômeno que ficou conhecido como contracultura. Em termos de questões regionais as ditaduras civis e militares. n. o que significa dizer que seus temas continuam em pauta. uruguais. nossas histórias de países colonizados e explorados. 10.218 Temporalmente as preocupações e. 219 COSTA. p.136 trabalho. em Londres. O uso de charges e tirinhas era recorrente. reforçando assim o papel do jornal como um meio de comunicação imediato. ela foi relativamente superada. consequentemente. Os países do Cone Sul definiram a produção de um humor gráfico feminista com características próprias. nunca 218 Em pesquisa na British Library. 5. 1 sem. referente a entrada das mulheres na ABL. todas as outras charges e tirinhas citadas até o momento permanecem contemporâneas. 2005.

O contexto histórico. 222 WALSH.fazendogenero. A partir dos anos 1960 aconteceram 220 TELES.pdf Acesso em 27/07/2015. 221 Ibidem. viveram a emergência dos movimentos feministas em cronologias nada distantes. Estavam entrando maciçamente no ensino superior. referindo-se ao contexto uruguaio. Amelinha e LEITE. Da Guerrilha à Imprensa Feminista. aquele que nos primeiros dias de aula da faculdade de história é apontado por toda e qualquer professora como o principal protagonista em narrativas de diferentes natureza. Una indagatoria sobre feminismos e izquierdas en épocas crueles. . Sobre el ‗difícil matrimonio‘. Na narrativa do escritor Rodolfo Walsh.br/7/artigos/G/Graciela_Sapriza_40. Florianópolis:UFSC. A construção do Feminismo pós-luta armada no Brasil (1975-1980). como fruto do contato com leituras feministas e viagens de exílio. p. Diante do machismo predominante na casa. no Chile se vivia a ditadura mais violenta do Cone Sul. foi preciso confrontar aliados e inimigos. integrando as organizações de esquerda. São Paulo: Intermeios. 11. 2. Graciela. Em paralelo aos tempos de guerra.220 Enquanto as mulheres francesas criaram um documento assumindo que fizeram abortos clandestinos para pressionar o governo francês a garantir contracepção e aborto legal gratuitos.221 as mulheres feministas do Cone Sul se construíram e se descobriram feministas. Rosalina Santa Cruz. Mesmo diante de contextos tão distintos e marcados por experiências profundamente discrepantes. no trabalho. na política e também nas esquerdas – aquela que combatia as arbitrariedades dos regimes ditatoriais –. tanto em função de suas experiências em seus países. ST 40. 137 na história brasileira tantas mulheres pegaram em armas. uma vez que ele criou marcas que não podem ser negadas. 2006. apud SAPRIZA. quanto os países do Cone Sul. 2013. A principal delas é. inclusive nos grupos de esquerda dos quais essas mulheres fizeram parte. Disponível em: http://www. A luta delas pela democracia foi acompanhada pela luta pela igualdade e reconhecimento dentro dos próprios grupos de esquerda. Acesso em 22 de agosto de 2015. p. o reconhecimento da desigualdade de gênero que imperava na sociedade.Anais Eletrônicos do Fazendo Gênero 7. tanto a Europa e Estados Unidos. talvez. p. as mulheres estavam fazendo a revolução dentro da revolução. no caso da história dos feminismos do Cone Sul assume um papel fundamental. 33.ufsc. vivendo a revolução da pílula.222 No caso do Brasil o cenário era semelhante.

as experiências de exílio no exterior. AI-5 (1968). deixaram ainda mais a mostra as expectativas de gênero que já incomodavam as mulheres do período.. depois da derrota da luta armada e no sentido da elaboração política e pessoal desta derrota. mas representou uma profunda transgressão com o que era designado à época para a mulher.edu/LASA98/Sarti.. Elas não desejavam servir café nas reuniões do partido.international. apesar de restritivo.. O início do feminismo sob a ditadura no Brasil: o que ficou escondido. Illinois. a especificidade das experiências nos movimentos estudantis e grupos de esquerda. Texto preparado para apresentação no XXI Congresso Internacional da LASA (Latin American Studies Association).] o feminismo no Brasil surge como conseqüência da resistência das mulheres à ditadura militar. Sem uma proposta feminista deliberada.. Elas não queriam cozinhar para os 223 SARTI. . provavelmente. A presença das mulheres na luta armada implicava não apenas se insurgir contra a ordem política vigente.138 uma série de eventos que significaram uma verdadeira revolução para as mulheres: invenção e distribuição da pílula anticoncepcional. The Palmer House Hilton Hotel.]223 As mudanças possibilitadas pela convivência extensiva com os companheiros de esquerda. p. instituição do Ano Internacional da Mulher e Década da Mulher pela ONU (1975). O cenário. muitas vezes confrontados com o protagonismo das mulheres. ― comportando-se como homens‖. Cynthia A. Vale ainda relembrar a ampla circulação de bibliografia feminista. 24-26 de setembro de 1998. as militantes negavam o lugar tradicionalmente atribuído à mulher ao assumirem um comportamento sexual que punha em questão a virgindade e a instituição do casamento. mulheres em armas. criação de clubes de mães e associações de bairros. Chicago.pdf Acesso em: 22 de agosto de 2015. Disponível em: http://lasa. De acordo com Cynthia Sarti: [. 3. elas queriam ser donas do bastão de fala. era de expansão para elas e essa expansão tomou forma exatamente nos grupos de esquerda. pegando em armas e tendo êxito neste comportamento [. ingresso no mercado de trabalho (fruto do caráter capitalista do regime). golpe civil-militar (1964).pitt.

elas queriam ir para a guerrilha. Entretanto. Muros e prédios . especialmente no Chile. consequentemente. era frequente nos anos de chumbo. Figura 26 Fonte: Autoria Ilegível. Na charge um homem inscreve em um muro a mensagem que vinha sendo bradada por todos os países do Cone Sul. 139 companheiros homens que iam para a guerrilha. Bolívia. A charge publicada no alternativo boliviano La Escoba colocou em destaque a luta que. A luta pela democracia que assolou os países do Cone Sul durante a segunda metade do século XX tornou-se também a luta pela igualdade de gênero. p. durante os regimes de exceção e principalmente nos momentos de reconstrução da democracia: ―Democracia en el país!‖ A mensagem pública. pela igualdade de direitos e deveres. La Escoba. tornou públicas às questões consideradas de mulheres e. novembro de 1987. de protesto. era personagem comum em charges e tirinhas que propunham um debate sobre política de um ponto de vista feminista. como o da charge em destaque. O muro. tal luta era uma luta apenas das mulheres. Edição 6. consideradas apenas no fóro privado. tornou-se a luta por uma democracia plena e irrestrita. sob a premissa de que o ―pessoal é político‖. 11.

y en la casa. nesse caso. A novidade reside no que foi inscrito junto às reticências.. Mesmo mote da tira El Humanista. uma espécie de observação à frase que ecoou por praticamente toda a América Latina: ―. Lutar por democracia.‖ Uma personagem mulher. .140 traziam marcas dos descontentes e perseguidos por regimes violentos e duradouros. As palavras de ordem que reivindicam democracia nos muros foram enriquecidas pelas reivindicações até então consideradas privadas.. com um sorriso no rosto e usando roupas costumeiramente associadas ao serviço doméstico corrige à demanda original. é lutar por democracia também nos lares e são elas que colocam em evidência o fato de que o discurso revolucionário em prol da democracia continua sendo um discurso de manutenção de um sistema que oprime milhões de mulheres.

. La Escoba. Edição 6. novembro de 1987. uma vez que não é incomum que as mulheres militantes tenham tarefas vinculadas ao que seria natural a elas – na luta e a manutenção de privilégios que é mantida nas relações interpessoais. 27. p. 141 Figura 27 Fonte: Sem Autoria. Bolívia. Em tirinha do mesmo número foi reforçada a igualdade que prevalece – o que nem sempre é verdadeiro.

aquelas responsáveis não só pela luta pela democracia. como pela criação de filhos e manutenção da casa. Políticas públicas e . elas denunciam os limites da revolução. os direitos civis. É o triste riso de descobrir que as mulheres só foram bem vindas na luta enquanto elas estivessem dispostas a fazer a manutenção das estruturas que as mantinham presas às expectativas de boas mães. justo.225 Tal constatação aponta para um problema 224 Referência à obra de Danda Prado Ser esposa: a mais antiga profissão. A democracia. In: GODINHO. De acordo com Helena Hirata. SILVEIRA. parecem conseguir colocar as mulheres exatamente na fronteira de tais reivindicações. Por la democracia.142 No primeiro guadro homem e mulher são representados em meio a uma manifestação segurando uma faixa com os dizeres: ―Por la igualdade. O homem sentado ao sofá em frente à televisão e com o jornal na mão questiona a companheira de luta pública: ―Que tenemos para comer hoy?‖ A tirinha não deixa dúvidas: a luta empreendida por um país democrático. Helena. militância. da oposição. a liberdade de expressão foram reivindicações que serviram de elemento aglutinador para a luta de homens e mulheres e foi o fato das mulheres terem levado a sério tais demandas que provocou uma certa instabilidade nas organizações das quais elas faziam parte. direitos civis. igualitátio. sem valor. desde que elas não desestruturassem a mais antiga profissão.‖ No terceiro quadro o desfecho. o doméstico.‖ No segundo quadro os dois personagens aparecem abraçados e afirmando com alegria: ―Por sempre juntos. inclusive em termos textuais. a de esposa. As charges e tirinhas que abordam o tema democracia. A luta pela democracia passou a ser denunciada em seu viés mais cruel. As mulheres. Maria Lúcia da. Tatau. 225 HIRATA. porta adentro eram sujeitos invisíveis. as mudanças observadas nos últimos 30 anos na atividade profissional das mulheres não foram acompanhadas por mudanças notáveis na repartição do trabalho doméstico entre os sexos. por um estado de direitos esbarrava em elemento fundamental de construção do país.224 Tal abordagem do tema democracia e militância política foi comum em todos os periódicos feministas do período. de 1979. Trabalho doméstico: uma servidão ‗voluntária‘? Resumo. Sua participação na luta política e armada era aclamada e bem vinda. a permanência das mulheres em seus velhos e empoeirados espaços. esposas e donas de casa.

Mesmo que as mulheres trabalhem 14 horas por dia. é convocada por um companheiro impaciente: ―Já pra casa!‖ A tomada da palavra e do palanque é confrontada com uma referência direta a um espaço historicamente construído como sendo das mulheres. os companheiros da esquerda também eram questionados e afrontados por uma cultura machista que extrapolava simpatia política e filiação partidária. portanto. tanto em termos de trabalho. um partido de esquerda. 226 Vários séculos depois. no fim do expediente elas são convocadas a cuidar de ―seus‖ afazeres domésticos. a resistência com a participação de mulheres em tudo que envolve o espaço público é mantida. como feministas. A Política. A charge da sequência. construir manifestações. igualdade de gênero. É notório o papel de grupos de esquerda na emergência dos movimentos feministas do Cone Sul. em muitos momentos tal construção era fruto do reconhecimento das desigualdades reproduzidas também em organizações que. sob um palanque. Nesse sentido. quando em termos de participação política. A frustração feminista com a militância nas esquerdas é. Mesmo que as militantes demonstrem plena competência em gerir reuniões. organizar ações de luta armada. ao fim elas são chamadas de volta ao lar. São Paulo: Edipru. 143 maior. fazer-se personagem principal na militância política também o é. No entanto. Assim como mulheres assumirem o protagonismo na produção do humor é uma forma de tomar para si o poder. o lar. independente da atuação das mulheres na esfera pública. também. Nas últimas décadas. . São Paulo: Prefeitura de São Paulo – Coordenadoria Especial da Mulher. 2008. mirando em um alvo específico. 2004. que extrapola a própria luta pela democracia. aponta a preocupação com mulheres que têm voz e se fazem ouvidas. um problema de ordem macro. 226 ARISTOTELES. em tese. Na imagem uma mulher com um microfone em punho. foi através deles que muitas mulheres construíram-se como militantes e. Aristóteles defendia no século IV a. eram motivadas por expectativas de futuro que negavam o autoritarismo promovido pelas ditaduras. Partido dos Trabalhadores (PT). a divisão sexual do trabalho não foi alterada.C que a contribuição das mulheres para com o mundo efetivava-se na família e não no espaço público e/ou político.

é relevante ressaltar que ela foi extraída do folhetim A Questão da Mulher. 22. pelo menos em algum nível.144 Figura 28 Fonte: Sem Autoria. novembro-dezembro de 1982. inclusive em termos de humor gráfico. Brasil. apesar da charge reforçar a dificuldade em se aceitar o protagonismo das mulheres em termos de política. reconhecia a condenável prática de oferecer vassouras em troca dos microfones que vinham sendo empunhados por mulheres. Edição 10. eram coisas de mulher. Mulherio. berço das feministas do Cone Sul. apesar de seu discurso democrático e até revolucionário. como pode ser . As esquerdas. produzido exatamente pelo PT baiano. quanto os grupos de direita ficaram conhecidos por seu machismo e resistência a debater assuntos que. seja na esquerda ou na direita. em tese. A frase evocada pelo companheiro é um pouco chocante. já que estamos habituadas a ouví-la sendo direcionada a cães e a crianças. Tanto os grupos de esquerda. p. também acabaram se inscrevendo na história pelos esforços de manutenção das desigualdades de gênero. O conservadorismo dominava o cenário político. Trata-se de uma crítica interna do próprio partido que. No entanto. Muitos foram os companheiros que apoiaram as lutas feministas.

Paraguai. Julia.. La Micrófona. duas personagem mulheres conversam sobre relacionamentos dando um enfoque político bastante evidente ao diálogo. que tener um novio marxista fue tremendo. Seriam os homens todos iguais? Figura 29 Fonte: SENDRA. No aternativo paraguaio La Micrófona. Uma delas informa: ―– Debo reconocer. Considerada uma causa menor. p.. durante los seis . Era a revolução dentro da revolução. junho de 1990. a luta das mulheres foi dupla. mas uma parte dos parceiros de luta ficou na memória em função do medo que a luta por democracia fosse longe demais. Edição 6. 145 evidenciado em alguns exemplos já citados e em outros que são destaque em outros capítulos. Coluna de Humor. 2.

Debater tal assunto é. um meio de repensar as narrativas que vêm construindo a história dos feminismos como uma história de progresso. é a de que elas não tinham empatia por mulheres pobres e/ou negras.146 meses que salimos pretindió converncerme de que ‗todos los hombres son iguales‘‖. traz consigo os mesmos vícios. classistas e brancos. assunto que parece nunca esgotar-se entre mulheres. principalmente as da segunda metade do século XX. acusados de serem elitistas. é a mensagem deixada pela charge. não se pode esperar que eles sejam diferentes. desse modo. Os machismos são todos iguais. O ponto principal aqui é que é importante avançarmos no sentido de perceber que ela não fala de qualquer homem.. preconceitos e expectativas de gênero que o homem de direita. O tema das empregadas domésticas não é tão comum em termos de humor gráfico feminista. aos seus aliados. que desestruturasse um sistema que mantinha há séculos as mulheres sob domínio. O humor gráfico que trata das relações entre homens e mulheres na militância política colocou em evidência as demandas feministas em termos de igualdade política. A informação de que ele a deixou por outra nada mais é que uma alegoria para informar às leitoras que. . mas ao companheiro de luta. de esquerda. Contudo. O companheiro de luta. é importante trazê-lo em destaque aqui.‖ A primeira vista é possível aceitar o diálogo como uma mera conversa entre amigas que concluem que todos os homens são iguais.‖ A segunda personagem concorda e encerra a conversa com uma constatação: ―– Eso! Todos los hombres son iguales. portanto. mas um homem marxista. Ao que julia pergunta: ―– Y al final. que paso?‖ Como resposta: ―– Se fue con otra. Os companheiros de esquerda foram questionados sobre seus privilégios e sobre sua disposição em abrir mão deles.. Os feminismos do período foram. sejam os homens de direita ou de esquerda. inclusive. bem como o conservadorismo travestido nos companheiros. A luta empreendida pelas mulheres era luta dupla e era dirigida. ou seja. Confrontados com um desejo genuíno de revolução. sejam elas feministas ou não.‖ Julia finaliza com a famosa frase: ―– Todos los hombres son iguales. com frequência. são poucas as charges e tirinhas que direcionam sua reflexão para o assunto tão debatido entre as feministas. uma vez que uma das mais comuns acusações feitas às feministas. eles tinham a opção de se repensar ou de ignorar as demandas feministas que não eram direcionadas às forças do governo.

Como uma derivação do trabalho doméstico o serviço doméstico remunerado é desvalorizado e mal pago. As últimas. 215-241.fes. In: Revista Estudos Feministas. o tema da classe e da raça já era apresentado como um problema. pp. por sua vez. nas primeiras manifestações feministas do Cone Sul já nos anos 1970 e 1980.227 Para surpresa de algumas pessoas não é possível negar que as demandas feministas não obedecem a calendários que insistem em dizer como e quando cada grupo lidou com cada assunto. majoritariamente desempenhado por mulheres. p. Miriam. Contando estórias feministas.de/pdf-files/bueros/brasilien/05632. 147 como se tudo que foi feito no passado fosse dispensável. contratam outras mulheres para cuidar de suas casas e filhos a salários ainda menores. 2009. 215.pdf#page=61 . As empregadas domésticas. Na imprensa feminista não foi diferente e o papel das empregadas domésticas é fundamental em tal debate. também por mulheres. Trabalho Doméstico e Emprego Doméstico. afirma-se como uma forma de terceirizar um trabalho que é desempenhado de maneira invisível e gratuita. 227 HEMMINGS. 1. O aumento do emprego doméstico acomoda a realidade de um número crescente de mulheres profissionais com carreira sem o correspondente crescimento dos serviços públicos ou a redução da jornada de trabalho que para todas e todos considerem o tempo do cuidado de si próprios e das/dos dependentes. virgindade. Clare.228 Trata-se de um ciclo que é composto basicamente por mulheres: mulheres com postos profissionais e sobrecarregadas com o serviço doméstico contratam mulheres para desempenhar esse serviço. De acordo com Miriam Nobre. 61. São Paulo: CUT Brasil. 228 NOBRE. In: Reconfiguração das Relações de gênero no Trabalho. p. Disponível em: http://library. vol. n. 17. divórcio. prostituição. 2004. elas próprias necessitam contratar outras mulheres para cuidar de seus filhos ou dos serviços domésticos com salários menores e menos direitos. Acesso em 1 de agosto de 2015. sendo desempenhado principalmente por mulheres negras e pobres. O uso extensivo do emprego doméstico. Assim como no começo do século XIX havia mulheres debatendo sexualidade.

230 NOBRE.231 informação que tem relação direta com a charge do Brasil Mulher publicada em 1976. op. op. A indústria passou por muitos investimentos nos anos 1980. das favelas e dos cortiços. fruto da lógica capitalista que imperava durante o regime ditatorial. não é possível negar que elas dialogam diretamente com o contexto brasileiro de expansão do ingresso das mulheres no mercado de trabalho. Não bastasse isso. cit. op.. apenas ¼ das trabalhadoras domésticas tinham carteira assinada e contribuíam com a previdência social. No entanto.. crescimento da periferia. O reflexo das mudanças foi imediato: aumento da pobreza. 29. p. 65. 231 NOBRE. 1977 e 1982. cit. o que fortaleceu ainda mais o peso da jornada dupla. o baixo índice de formalidade é concentrado no sul e sudeste e entre trabalhadoras brancas. 66.229 Miriam Nobre informa que em 1990 o setor de emprego doméstico foi o que mais criou postos. cit. No entanto. o tema foi abordado apenas em três situações e somente em periódicos brasileiros.230 Vale ressaltar que em 1995 apenas 4. A autora identifica ainda um aumento da formalização.4% das trabalhadoras domésticas de Fortaleza tinha carteira assinada. Em termos de humor gráfico. houve grande migração do campo para a cidade e o Brasil tornou-se a 8ª economia mundial. o que inclui pagamento de direitos trabalhistas. Cresceu a demanda para o trabalho das mulheres.148 Não há muitos números e estatísticas para ilustrar as três charges que abordam o serviço doméstico publicadas nos anos 1976. 229 TELES e LEITE.. . Em 2001 concentrava seis milhões de trabalhadoras: 94% mulheres e 66% brancas.

5. negras. 1976. a categoria raça a acompanha. Um chapéu culturalmente demarcado como do cangaço nos informa que se trata de uma migrante. o marcador raça emerge com força em se tratando de serviço doméstico. mulheres pobres. presente e muito difícil de ser mediado. cheios de prédios altos. A metáfora da janela é ainda mais simbólica. portanto. uma vez que nos bairros de classe média. Em um país colonizado que fez amplo uso da mão de obra escrava para crescer economicamente. coberta de jóias e com pose de desdém observa uma ―empregada‖ literalmente pendurada no parapeito de uma janela. Brasil Mulher. Brasil. A charge fala menos do perigo que as janelas significam e mais da opressão que as mulheres podem exercer sobre elas próprias. ricos e murados brasileiros. Sendo a categoria classe um importante marcador do serviço doméstico. com heranças culturais que remetem a mucamas e amas de leite sendo responsáveis pelos cuidados das casas e das crianças. Edição 3. A primeira ilustra um texto que tem um caráter mais informativo. Na imagem uma patroa maquiada. p. uma vez que explica para as mulheres . O problema de classe era. 149 Figura 30 Fonte: Sem Autoria. nordestinas arriscam-se em janelas para garantir a vista translúcida e límpida de janelas muito bem limpas. Nas duas charges que trago na sequência é tal marcador que salta aos olhos.

março-abril de 1977. Na imagem uma trabalhadora doméstica é ―assaltada‖: ―Isto é um assalto!! Passe todas as garantias!!‖ A escolha de uma trabalhadora doméstica pra ilustrar o artigo que não fala especificamente desse setor trabalhista não é acidental. 5. pois destaca nosso passado e presente de exploração. Já a segunda é mais dolorosa. partia-se da premissa que com o casamento elas parariam de trabalhar. ou seja. p. O texto destaca que. ainda marcam as vidas de milhões de trabalhadoras domésticas no Brasil. A lei naquele momento partia da premissa que a solicitação do fundo de garantia por casamento só poderia acontecer caso a mulher pedisse demissão. A representação da trabalhadora como negra . A importância do emprego doméstico. e sua inversamente proporcional desvalorização. Nós Mulheres.150 como funciona o fundo de garantia para elas. Na charge a diferença de tratamento é apontada e ela tem gênero. no caso do fundo de garantia há uma discrepância que desconsidera as nuances do trabalho desempenhado por elas. Edição 4. classe e raça. A charge ilustra um texto chamado Direitos da Mulher que narra de maneira bastante didática como funciona o resgate do fundo de garantia para as mulheres casadas. Figura 31 Fonte: ANGELI. apesar de todas as mulheres serem beneficiadas por todas as leis trabalhistas que contemplam os homens trabalhadores. Brasil.

remonta a tempos anteriores aos de ingresso das mulheres no mercado de trabalho. Em se tratando de raça ainda são as mulheres negras. Figura 32 Fonte: HENFIL. Apesar dos debates feministas e do movimento negro. vestidas. As mudanças parecem. portanto. Edição 7. maio-junho de 1982. . A terceirização e exploração do serviço doméstico. As mulheres ricas brancas brasileiras foram servidas. por exemplo. definitivamente. Mulherio. em sua maioria. nossa história substituiu criadas por empregadas domésticas e sem nenhum constrangimento perpetua valores e expectativas que. não foram abolidos. ter apenas agregado uma pequena remuneração a um trabalho que antes era fruto do sistema escravagista. infelizmente. p. No comércio de pessoas negras escravizadas o preço por mulheres que dominavam afazeres domésticos e que poderiam amamentar os filhos das famílias brancas era relativamente mais alto do que o das mulheres negras que trabalhavam no campo. 151 também nos diz muito de uma modalidade de trabalho que em muitos casos termina por ser a única opção de geração de renda para mulheres pobres e negras sem acesso à educação. 9. que desempenham as funções atribuídas às trabalhadoras domésticas. alimentadas e tiveram suas proles cuidadas e alimentadas por mulheres negras escravizadas durante os séculos XVIII e XIX. Brasil. É o que nos mostra a charge de Henfil.

encerar as salas e móveis.152 Na charge são representadas uma trabalhadora doméstica e uma patroa. tem ares de escravagismo. Maria. sem acesso à profissionalização. tirar o lixo. passar as cuecas do Romualdo e levar o Titi para fazer cocô na praça. cheia de jóias. escovar os sapatos e tapetes. A segunda personagem informa: . limpar as privadas e bidês. Mais uma vez o riso acionado é um riso triste. Eis é a mensagem da charge. Maria! Depois que você fizer a feira. A tipologia física também demarca sua origem e a vassoura nas mãos afirma sua posição. A representação da patroa tem destaque no capítulo 4. Primeiro porque seus afazeres são repetitivos. em que o foco é sobre os temas que eram abordados para provocar o riso das mulheres feministas. esfregar as roupas. quase um riso de constrangimento. A trabalhadora doméstica é negra. Quando Maria poderá comemorar o aniversário de libertação dos escravos? Nunca. assim como as roupas lavadas e as crianças trocadas. uma vez que é notável o fato de que a charge é uma das poucas de todo o universo de fontes a elaborar uma crítica tão direta ao comportamento das próprias mulheres.. afinal. é importante destacar a relação que a charge faz entre o trabalho escravo e o trabalho remunerado que no século XX.. pode ir na comemoração da libertação dos escravos. cada uma de . As duas únicas charges que apontam a relação patroa e empregada são também as únicas a fazerem críticas diretas às mulheres. Segundo porque a libertação dos escravos não aconteceu.Claro. O ato de pintar as unhas aponta sua posição. um riso de identificação. Alguns marcadores não deixam dúvidas sobre a simbologia que envolve as duas personagens. pediu à patroa para celebrar o aniversário de libertação dos escravos. como demonstra a cor de pele. Por hora. para o autor. É um golpe duro o que Henfil dá nas mulheres que no período faziam uso da terceirização do serviço doméstico. trocar as fraldas mijadas. submetem-se a um serviço doméstico com ares de eternidade. provavelmente. Já a patroa é representada por uma mulher gorda. cozinhar o almoço e lavar a louça. como deixa implícita a lista de afazeres listada pela patroa. muito maqueada e com uma coroa na cabeça. Maria é a personificação de milhões de mulheres negras que. apenas um sorriso no rosto. Maria não tem voz. polir a prataria. A comida precisa ser feita novamente.

A forte industrialização. a fadiga. a alimentação insuficiente. talvez o tema trabalho doméstico remunerado seja um dos mais delicados que as teorias feministas no Brasil ainda precisam aprender a tratar. 153 nós conhece. a 232 YAZBEK. chamada por alguns autores de capitalismo tardio. de sensação de impotência diante de um sistema e de uma cultura que nos levam a acreditar que é assim que as coisas funcionam. Pobreza no Brasil Contemporâneo e Formas de seu Enfrentamento. 2012. o desemprego. Ainda para a mesma autora. Tal riso em especial. os empregos de modo precário e intermitente. São Paulo. Em um país com passado escravagista isso afetava diretamente a população negra./jun. as feministas brasileiras não se omitiram e o tema da pobreza foi frequente nas páginas dos jornais com viés feminista. Apesar de seu pouco destaque em se tratando de humor gráfico feminista. abr. historicamente excluída das possibilidades de estudo e trabalho qualificado e também as mulheres. De acordo com Maria Carmelita Yazbek. referindo-se ao Brasil: A pobreza é parte de nossa experiência diária. Sendo elas afetadas em alto nível pelo acirramento da pobreza. p. a expressão pobreza não se refere apenas ao número e qualidade de bens ao qual uma pessoa tem acesso.232 Sendo assim. Soc. 288-322. . 290. pp. In: Serv. mas também ao universo de direitos e oportunidades. em específico os brasileiros. Outro assunto que mobilizou os periódicos feministas do período. é ou conviveu com uma Maria. uma vez que elas retratam uma realidade de luta pelo pão diário e pelo próprio direito de existir. 110. Mães e avós. o desconforto da moradia precária e insalubre. quem sabe. a fome. é de vergonha. eram protagonistas em um contexto doméstico de pobreza que afetava as classes menos favorecidas. portanto. acirrou a pobreza e a desigualdade social. é importante lançarmos um olhar múltiplo para as charges da sequência.. a debilidade da saúde. Os impactos destrutivos das transformações em andamento no capitalismo contemporâneo vão deixando suas marcas sobre a população empobrecida: o aviltamento do trabalho. Soc. uma vez que a manutenção dos lares foi historicamente articulada a elas. n. a ignorância. foi a pobreza/carestia/custo de vida. os que se tornaram não empregáveis e supérfluos. que caracterizou a política econômica do período ditatorial. Maria Carmelita.

debilidade da saúde. fadiga. . p. Figura 33 Fonte: Sem Autoria. Nela observamos uma família composta por mulher e filhos muito magros pedindo alimento em um mercado. 1976. Edição 4. Brasil. a revolta. 4. uma delas no colo com ares cadavéricos.233 A charge extraída do Brasil Mulher e reproduzida na sequência tem relação direta com a citação em destaque. a tensão e o medo são sinais que muitas vezes anunciam os limites da condição de vida dos excluidos e subalternizados na sociedade. espaço em que a 233 Idem. uma vez que ela pontua os impactos do capitalismo que são destacados na imagem: desemprego. A criança da direita é representada de forma clássica em termos de fome e miséria: pernas finas e barriga grande.154 resignação. alimentação insuficiente. João de Mello e Fernando Novais referem-se a tal biotipo infantil como tipicamente rural. ―Me dá um pãozinho?‖ indaga a mulher grávida acompanhada de seis crianças. Brasil Mulher. fome.

235 Foi assim que migraram para as cidades. A industrialização e a urbanização geram empregos. nos anos 50. 235 Ibidem. 155 vida era profundamente dura. 579. . Ao descrever a vida privada de famílias do campo os autores praticamente narram o que é evidenciado na charge: ―Todos descalços. pp.236 O crescimento econômico característico do período. História da vida privada no Brasil: contrastes da intimidade contemporânea. 1998. barrigudas. uma variação crua do ―a vida como ela é‖. e se o tem é certamente para desempenhar funções com remunerações baixas. antes mergulhadas na extrema pobreza do campo. p. não há como negar.. V. 4. João Manuel Cardoso de e NOVAIS. 578. cheias de vermes. principalmente pelo mercado informal e o serviço doméstico. 581. um ou outro possuindo uma bota ou uma alpargata. 8 milhões de pessoas (cerca de 24% da população rural do Brasil em 1950). [. Em três décadas a espantosa cifra de 39 milhões de pessoas. Capitalismo tardio e sociabilidade moderna. 236 Ibidem.] são incontáveis as mulheres. mas a cifra citada pelos autores insinua a existência de um sistema que dificilmente tem possibilidade ou mesmo interesse de incorporar uma mão de obra ainda não qualificada. Lilia Moritz (Org.‖234 É difícil de avaliar a origem da família representada. confirmam isso. as crianças nuas ou só de calçãozinho. São Paulo: Companhia das Letras. In: SCHWARCZ. contrasta com uma população empobrecida que se via obrigada a buscar alternativas de trabalho e sustento em grandes cidades. 17 milhões nos anos 70 (cerca de 40% da população rural de 1970). que 234 MELLO. celebrado com frequência para justificar o saudosismo do regime autoritário. umas velhas aos trintas anos. no entanto é possível imaginar que se trata de uma família vinda do campo que.. O fato das mulheres terem sido absorvidas pelo mercado de prestação de serviços. Fernando A. p. 559-658.). quase 14 milhões nos anos 60 (cerca de 36% da população rural de 1960). As mulheres. diante da modernização selvagem da agricultura iniciada nos anos 1960 viu-se em situação de extrema miséria e sem alternativas. p.

balconistas. No combate à pobreza emerge o assistencialismo e a ação da Igreja. ressalto que em termos de mobilidade social esses grupos tinham pouquíssimas possibilidades naquele período. O estigma que acompanha a situação de pobreza é nítido. alguns de qualificação média. por exemplo. empregos que seriam os responsáveis por tirar da pobreza mulheres vindas da miséria do campo. . vendedoras. cabelereiras. a fome. atendentes. políticos e econômicos – . no lugar de movimentações estruturais que poderiam transformar o cenário. No confronto. que na charge é expressado pelo pedido de ajuda. A pobreza é ressaltada como uma experiência de mulheres. apesar da absorção de grandes massas de trabalhadores(as) rurais que chegavam às cidades. se amplia durante ele. Em um país que desde sempre foi marcado pela concentração 237 Ibidem. a mulher pobre. O olhar sob ela não é estrutural – em termos sociais. ele atende a mitos que envolvem expectativas de força de vontade e desejo de mudança. Na charge. que dificilmente fará alguém rir. operárias que passaram a ocupar um sem-número de postos de trabalho de baixa qualificação. é importante observar que a degradação do rural tem relação direta com a mecanização da agricultura. já que são elas que acabam responsáveis pelo cuidado da prole e da família. e na sequência é questionada se possui um cartão de crédito de ―mordomia‖. a saúde debilitada e uma mulher sozinha como o pilar da situação de sofrimento são o destaque. a não ser em situações excepcionais. caixas.156 se tornaram empregadas domésticas. Não é novidade para nós. que muitas meninas filhas de empregadas domésticas seguem o caminho das mães. peixinho é‖ se aplica a uma dura realidade protagonizada por tratores que expulsaram famílias do campo. a fadiga. 584. manicures. Além disso. p. enfermeiras. O ditado ―filho de peixe. uma indústria moderna geradora de empregos subalternos para as famílias e promotora de um destino que. com fome e cheia de filhos é chamada de ―madama‖.237 Ao mesmo tempo que são celebradas as oportunidades de emprego geradas nas cidades. estava traçado em se tratando de transmissão geracional. Atrás do balcão o atendente responde de maneira muito objetiva ao pedido de alimento: ―Mas a madama tem cartão de crédito da mordomia?‖ A desigualdade que já existia pré- regime. uma referência a uma possível recusa ao trabalho.

como base do desenvolvimento. p. 239 YAZBEK.globo. tudo articulado a um cenário em 238 Pesquisa com dados de 2013 apontam que 10% da população brasileira concentra 40% da renda do país. com a implantação de novas estratégias de desenvolvimento concentradoras de capital. a partir de fontes de investimento externas. fortaleceu uma história de desigualdade e injustiça que marca o Brasil desde a invasão dos portugueses em 1500. apesar de acusados de elitismo. intensificando o nível de exploração da classe operária. A desigualdade social se acentua em um clima repressivo e autoritário. tinham uma preocupação de classe inevitável. de eletrodomésticos e o investimento em energia cresciam abruptamente. . As preocupações econômicas e a abertura ao capital externo colaborou ainda mais com a concentração de renda e a exploração das classes trabalhadoras. foi o berço de sua emergência. Diposnível em: http://g1. abriu o país ao capital monopolista.com/economia/noticia/2014/12/10-mais-ricos-concentram-40- da-renda-do-pais-diz-ibge. como já dito. uma vez que a esquerda. o cenário que adentrou a década de 1970 e 1980 foi combatido com bastante empenho por diferentes vertentes dos movimentos sociais. op.html Acesso em 18 de agosto de 2015. 157 de renda a questão da pobreza atravessa todos os períodos históricos e se acirra durante o regime civil-militar que investiu em grandes obras no país e o abriu para o capital externo. tornando-se o eixo político da recomposição do poder burguês.. dentre eles os movimentos feministas que. Enquanto as telecomunicações. a indústria automobilística. cit. A opção pelo crescimento econômico acelerado. O espírito de otimismo e crescimento que cercava o Brasil na segunda metade do século XX contrastava com o acirramento da desigualdade social e do não acesso à cidadania. satisfazendo as camadas médias e empobrecendo as camadas baixas. O Estado amplia seu nível de intervenção. os níveis de pobreza o acompanhavam.238 O início da década de 1960 acirra as contradições do capitalismo periférico trazendo consigo o golpe militar e a instalação do Estado autoritário. portanto.239 O estabelecimento de um regimo autoritário. 299. No entanto. alimentícia.

março-abril de 1987. não se sustentou. cit. café. As mudanças nos padrões de consumo.240 Muitas narrativas reforçam o crescimento econômico vivido entre os anos 1960 e 1970 seguido do que se convencionou chamar da década perdida ao se referir aos anos 1980. Brasil. farinha. A charge de 1987 sinaliza exatamente tal fase. a migração de grandes massas. Figura 34 Fonte: Sem Autoria.‖ O uso do verbo ―ter‖ no passado indica claramente que o período de melhoria de vida.. arroz. As duas primeiras décadas foram superadas por um período de estagnação que gerou queda na produção e consequente desemprego. Nela uma mulher lê para os filhos e sua estória ilustra exatamente o período de crise vivido pelo país: ―Tinha uma vez açucar. foi seguida de crise. como pontuei no 240 MELLO e NOVAIS. A mesma charge foi reproduzida no boliviano La Escoba e tinha origem em uma terceira publicação. a industrialização acelerada. op. carne. inflação. mesmo para alguns grupos das camadas baixas.158 que o universo rural e urbano coexistiam. De acordo com João de Mello e Fernando Novais. A simplicidade da cena protoganizada por uma mãe sentada em um caixote de madeira e por três crianças cobertas por uma manta remendada expõe de maneira direta quem é que perde na década perdida. p. p. Edição 28. . 23.. entre as décadas de 1960 e 1980. Mulherio. queda do consumo. o Brasil viveu uma fase que partiu do otimismo e desembocou na desilusão. batatas. altos preços. a crescente urbanização.. do Chile. 562.

A carestia. A desilusão. saúde. 159 capítulo 1. econômicas. certamente. apesar de seu vínculo com O Pasquim.‖241 As contradições sociais. colaborou muito com períodicos feministas e com a reflexão sobre os impactos dos feminismos na sociedade Brasileira. volta a assombrar a consciência moderna ao exibir a sociedade mais desigual do mundo. não era exclusividade das mulheres brasileiras. 241 Ibidem. portanto. políticas e culturais são muito bem representadas pela charge de Henfil que. que já chocara as nações civilizadas ao manter a escravidão até fins do século XIX. Diante de transformações econômicas que visavam a criação de um Brasil como potência mundial. 633. atingiu os mais pobres em suas necessidades mais básicas: alimento. moradia. a estagnação em termos de mudanças estruturais só causaram mais pobreza e mais desigualdade. De acordo com João de Mello e Fernando Novais: ―O Brasil. aquela citada por João de Mello e Fernando Novais como desfecho do otimismo vivido nas primeiras décadas. . p.

A afirmação: ―Brasil: 4º lugar em beleza mundial!‖ é claramente ironizada pelas duas personagens mulheres que carregam grandes sacos na cabeça. 16. As personagens foram representadas na passarela da . um riso melancólico. diante de um ranking que avalia beleza em termos de aparência e não em termos de qualidade de vida. A simplicidade de Clotilde e sua companheira de trabalho. Brasil. novamente. o estabelecimento das mulheres brasileiras em 4º lugar no ranking de beleza mundial. incapaz de ignorar a assimetria. para em seguida apontar o contraste que o dado impõe a uma realidade de mulheres que trabalham duro. provocam empatia imediata e. Na imagem o cartunista parte de um dado.160 Figura 35 Fonte: HENFIL. Uma delas reage ao ranking: ―Êta nós hein Clotilde?‖ O uso de um nome popular como ―Clotilde‖ e o uso de uma expressão ainda mais popular ―êta nós‖ indicam como a realidade das mulheres comuns pouco tem a ver com rankings de qualquer espécie. janeiro-fevereiro de 1982. p. indicando um universo de mulheres trabalhadoras que pouco têm a se beneficiar com o status estético das mulheres brasileiras perante o mundo. Edição 5. Mulherio.

como a questão da natalidade. especialmente. A possibilidade de evitar a gravidez era e ainda é um meio de controlar o próprio corpo. um contexto de exploração cujo capital não as contempla. Os filhos ocupavam crescentemente o centro da vida doméstica. evitar filhos era controverso. mas inevitável. 161 desigualdade. foi revolucionária em termos de controle de natalidade para as mulheres. o medo de interrupção da gravidez em uma sociedade que fazia uso da culpa para evitá-la. principalmente homens negros. foram os periódicos brasileiros que mais se destacaram ao colocar a pobreza das mulheres como protagonista de várias charges e tiras. reforçar e piorar desigualdades. as feministas que produziam periódicos nos outros países do Cone Sul também questionavam os novos modelos ecônomicos instaurados por ditadores que só serviam para reproduzir. Seu número diminuira consideravelmente. Contudo. obviamente eles eram. Entretanto. do uso de . definitivamente. Se até então elas estavam sujeitas a métodos de contracepção pouco ―científicos‖. Era a possibilidade de evitar famílias numerosas. em termos de humor gráfico. Em uma cultura que começava a valorizar ainda mais o papel das crianças na sociedade. em razão do controle de natalidade que se viera praticando – especialmente entre os de maior renda e de maior formação escolar . No humor gráfico feminista a femininização da pobreza é evidente. como coito interrompido e tabelinha. O tema da pobreza não foi uma preocupação exclusiva do Brasil. É importante pontuar que o tema pobreza atravessa outros assuntos. filhos em ―escadinha‖. Isso não significa dizer que os homens não eram afetados por ela. o conceito de femininização da pobreza nos permite refletir sobre a carestia e o alto custo de vida que afetavam as mulheres de modo a inserir esse cenário num contexto maior. A pílula. por meio. a partir da invenção e comercialização da pílula um novo universo de possibilidades emergiu. a vida e o futuro. o drama mensal de estar ou não grávida. Seus corpos estão perfeitamente alinhados e a postura é perfeita. Os anos 1960 marcaram uma grande revolução em termos de vida sexual para as mulheres.. atitude de modelos que contrasta diretamente com o peso de seus fardos.

Vol.162 preservativos. A pílula.70% seriam afro- asiáticas. o mundo teria 8 bilhões de pessoas e. p. p.. no ano 2000. esbarravam e ainda esbarram em uma questão de gênero em termos de sexualidade e autonomia das mulheres. De acordo com Joana Maria Pedro: [. no seu surgimento. A experiência com contraceptivos no Brasil: uma questão de geração. In: Revista Brasileira de História. Tendo sua 242 Ibidem. no Brasil. de dados alarmantes sobre o perigo de superpopulação no mundo. 239-260. São Paulo. Tanto a ―tabelinha‖ quanto o coito interrompido têm altos índices de ineficácia e os preservativos. Assim. Porém. garantia 99% de eficácia e colocava nas mãos das mulheres o desejo de engravidar ou não. dessas. Ao mesmo tempo que se valorizava a prole. tudo isso sob o discurso aterrorizante da explosão demográfica. em abril de 1960. 243 PEDRO. Joana Maria Pedro. pp. As notícias sobre o novo contraceptivo — considerado mais eficaz que os anteriores — vieram acompanhadas. . seu contexto de distribuição colocou em suspenso os modos como essa medicação colaborou com a liberdade sexual das mulheres. 23 nº 45.. o controle de natalidade das populações mais pobres. uma vez que sua distribuição tem relação direta com acordos internacionais que demandavam dos países de terceiro mundo. 241. entre eles o Brasil. ela era evitada para possibilitar uma vida mais confortável. a questão dos anticoncepcionais é muito mais complexa. assim o número de filhos diminuía junto às classes médias que faziam uso de métodos de controle de natalidade parcialmente eficazes. no Brasil a pílula anticoncepcional e o DIU foram comercializados sem entraves desde o início da década de 60. jul/2003. informava que dali a 40 anos.] enquanto em lugares como a França a pílula somente foi liberada para consumo em 1967. a revista Seleções.243 Apesar do anticoncepcional ser considerado um ganho. 613. como sabemos. do método Ogino-Knaus (a tabela) e do coito interrompido. ANPUH.242 Um paralelo interessante se formava. ou seja. num artigo intitulado ―Gente Demais! Que Fazer?‖.

p. convém reforçar. um país considerado de 1º mundo. como também em vista da relação que os movimentos de esquerda mantinham com a Igreja. renda. maternidade transferida e lutas pela saúde reprodutiva. op. Além disso.. São Paulo: Abril. p. sua vida. pp. p.‖244 A mídia. In: Revista Estudos Feministas. Na chamada de capa lia-se ―Planejamento familiar: como evitar a explosão. uma vez que o otimismo e esperança prevalecentes nas décadas de 1960 e 1970 deram lugar à preocupação em termos de emprego. não apenas em função do tabu que girava em torno de sua prática. A autora cita a revista Seleções. 301-323. o Brasil já contava com um dos métodos contraceptivos mais eficazes já inventados.245 Também conhecido como laqueadura. a imprensa prestou o serviço de ―alertar‖ a população sobre os perigos do crescimento demográfico desenfreado. (2) 2002. Proteção social. 2003. 646. Suely Gomes. 83. mesmo o método sendo bastante invasivo. 1981. 21 jan. cumpriu um papel crucial de alarmar a população chamando a atenção para meios de controlar a reprodução. op. 316. O que as feministas de classe média viam como um direito. Veja. nela o público foi conclamado a preocupar-se com o crescimento populacional. mas vale lembrar ainda uma capa com ares de ―fim do mundo‖ produzida pela revista Veja. é preciso relativizar a empolgação do dado que aponta que antes mesmo da França. cit. n. Céli Pinto relembra que a questão do planejamento familiar era complexa. 246 PEDRO. poderia ser visto pelas mulheres de movimentos populares como uma forma de controlar suas escolhas.. seu corpo. 247 PINTO. 245 COSTA. consumo. 163 comercialização relação direta com políticas internacionais de controle de natalidade dos países mais pobres. a autora destaca que em paralelo à distribuição da pílula. Tudo isso articulado. visto que remetia ao controle de natalidade de populações pobres.Vale ainda lembrar do recurso da esterilização utilizado por muitas mulheres a partir da década de 1970. 250. cit. O tema aborto era ainda mais complicado. .246 Como política pública o esforço de controle de natalidade nada tinha a ver com o interesse feminista em debater a questão da contracepção. portanto. a um contexto econômico de crise. O Estado construía um discurso de medo.247 Não podemos ignorar o fato de que em termos de combate à ditadura civil-militar a 244 Capa. o método para evitar a gravidez foi utilizado por 38% de uma amostra de 150 mulheres entrevistadas por Joana Maria Pedro.

Em termos de humor gráfico. por exemplo. p. por hora é importante atentar a sua abordagem temática.249 Convém não esquecermos. Já o argentino Persona desde a década de 1970 tinha como uma de suas pautas o aborto como uma forma de decidir sobre o próprio corpo. o tema sexualidade emergiu tarde no Brasil. Regina Barreca destaca que o tema sexo. 153..164 Igreja estava politicamente indo contra o regime vigente. confirma-se nesse caso. raramente discutia-se o aborto como um direito antes da década de 1980. além de ser visto como preocupação de mulheres burguesas pela esquerda. tratavam muito sutilmente o tema aborto e mesmo em relação à produção textual a questão era tratada com muito tato e de maneira pouco frequente. . e uma ameaça à família pela direita. De maneira geral. portanto. leituras e subjetividades estabelecem relações mais libertárias com temas considerados tabu. primeiro: estamos lidando com feministas.248 A resistência ao tema. os periódicos brasileiros feministas. p. o ambiente mostra-se propício para o estabelecimento de relações de confiança em termos de debates e reflexões que em outros contextos poderiam ser consideradas constrangedoras. A tirinha da sequência. 249 BARRECA. op. A assertiva de Regina Barreca. No capítulo 4 disserto sobre o autor e a história das personagens. publicada no Mulherio em 1981. contudo. que não é o mesmo que sexualidade. mulheres que em função de suas experiências. 84. tem como assunto a sexualidade e os direitos reprodutivos das mulheres e um autor homem. 248 Ibidem. assim como os movimentos de esquerda. contudo. em função de ser considerado um problema menor diante de um país com tantos desafios. não o barrou e não é surpresa que o tema sexualidade seja um excelente assunto no que se refere à humor. Segundo: trata-se de humor feito para mulheres que circula entre mulheres. Nos jornais feministas brasileiros. especialmente Brasil Mulher e Nós Mulheres. tradicionalmente foi assunto de um humor masculino. pelo menos os números a que tive acesso. a abordagem era de denúncia sobre mortes. cit. logo.

no último foi desenhada com ares de regozijo e satisfação. a fome. p. A mensagem é quase popular: contra fatos não há argumentos. argumentar contra uma reflexão sobre sexualidade utiliza apenas um par de exclamações ao ser apresentada a uma família pobre composta por pai. Mulherio. Afinal. .. é nítido. Edição 2. 22. mãe grávida e seis crianças. duas mulheres são apresentadas em meio a uma discussão sobre sexo. Brasil. sem diálogos.. A personagem que nos quatro primeiro quadros não tinha fala. nos primeiros quatro quadros. a mulher cuja função foi. No primeiro quadro uma das mulheres afirma: ―Sem essa de sexualidade!‖ No segundo a mesma personagem reforça: ―Isso lá é problema? Problema é o desemprego. O paradoxo entre um debate sobre sexualidade e planejamento familiar. contudo. A tirinha dialoga diretamente com o pensamento de Céli Pinto. 165 Figura 36 Fonte: MAGALHÃES. Como na charge analisada nas páginas anteriores. Na tirinha protagonizada por rostos muito expressivos e por uma linguagem crua e popular. pobreza e planejamento familiar. Henrique. as vestimentas dão indícios de que se trata de uma família pobre.‖ No quarto ela encerra seu argumento: ―Você já viu alguém trepar com fome?‖ No último quadro.‖ No terceiro ela continua: ―Sexualidade é uma luta menor. O homem apresenta uma expressão triste e a mulher um certo nervosismo. A sexualidade não estava sendo encarada devidamente e a personagem que nem precisa de balões de fala para dar o seu recado deixa isso bastante claro. Julho-agosto de 1981.

que viria a financiar. principalmente nas camadas populares. atuaram no País sociedades civis internacionais. . A dificuldade reside na impossibilidade de identificarmos o que se trata de reivindicação feminista que privilegia a situação da mulher pobre e cheia de filhos – o que incluiria a questão do direito ao corpo – e o que é discurso de controle de natalidade. independente de seu uso por organizações internacionais. enquanto a silenciosa mulher. possivelmente também grávida. em especial. O debate tem relação direta com a situação das mulheres pobres. destacar o papel desempenhado pelas ações internacionais. a decisão de engravidar ou não. mas seu contexto de produção é indício importante de seu lugar no discurso que apresentava o planejamento familiar. principalmente as pobres. contrastando com a vestimenta de sua interlocutora. É necessário. De todo modo. Suas roupas podem sugerir que se trata de uma mulher jovem e ―moderna‖. é relevante ter clareza que a pílula. o controle de natalidade e a sexualidade como uma questão a ser pensada. letrada. sinalizam um discurso externo àquela realidade. é representada com uma peça de roupa parecida com a da mãe das seis crianças no último quadro. a partir de 1965. A informação de que a ilustração foi uma contribuição do grupo Nós Também de João Pessoa é outro indicador. A tirinha não ilustra nenhum texto reflexivo ou matéria. A personagem dona da fala poderia ser uma mulher jovem. A gravata e a saia curta.166 demonstrando o longo caminho necessário para se desvincular discussões sobre sexualidade e direitos reprodutivos. portanto. urbana. Embora não tenha partido do Estado brasileiro qualquer iniciativa explicitamente controlista. sendo colocada em contraponto com a mais crua realidade das mulheres pobres. Não foi a primeira vez que uma política com motivações questionáveis foi transformada em um instrumento de potencialização da autonomia das mulheres. de corpos de mulheres pobres em cenário de pressão internacional e conivência nacional na contenção do crescimento populacional. A personagem que protagoniza o discurso de ditar a regra indica ainda um problema de classe e geração. foi uma invenção que colocou nas mãos das mulheres. paulista. Foi o caso da IPPF — International Planning Parenthood Federation.

cujo nome causa boa impressão a alguém desavisado: Sociedade Civil-Bem Estar Familiar no Brasil (BEMFAM). 250 PEDRO. 7. Edição 7. junho de 1977.250 Uma organização internacional. p. financiando uma associação para o controle de natalidade. op. 167 a BEMFAM — Sociedade Civil Bem-Estar Familiar no Brasil. Brasil Mulher. Brasil. p. Figura 37 Fonte: LILA. 242. 2003. . Não é preciso dizer que a atuação da BEMFAM era criticada dado seu viés e a charge em destaque aponta a ambiguidade protagonizada por um título tão simpático e as genuínas intenções da Sociedade. cit..

A confissão de que a distribuição dos anticoncepcionais tem foco na população de baixa renda é feita e o insucesso da iniciativa é exposto pela grávida vigiada pela BEMFAM. C. propiciaram a milhares de mulheres evitar a gravidez indesejada. mesmo que os riscos não fossem de saúde. p. foi através da organização que muitas mulheres pobres encontraram uma maneira de evitar o crescimento de suas proles. doutor? Eu vim aqui só porque me disseram que os senhores cuidam do bem estar das famílias. Então eu vim atrás duma ajudazinha. Mesmo negando repetidas vezes que sua intenção era o controle da natalidade de populações pobres. 2004. certamente.‖ Na primeira fala o uso da expressão de ―alto risco‖ nada tem a ver com a saúde da mulher ou do feto.. A política controlista não visava a autonomia das mulheres. Acuada e minimizada. social e econômico de tal evento. 11. com disribuição de anticoncepcionais que não tiveram suas vendas autorizadas nos Estados Unidos e com pouca ou nenhuma 251 PETERSEN. uma mulher pobre e grávida é o centro das atenções de três homens que personificam a instituição BEMFAM que profere: ―– Penso que isso ai é gravidez de alto risco. assinada por Lila. principalmente porque as ações da entidade eram feitas às escuras. avós. – Faça-se um novo relatório para a International Planning Parenthood Federation. Só isso. 138. a mulher pobre.. Na terceira e última fala a conclusão de que apesar do dinheiro gasto – o que invoca a culpa – as mulheres continuam engravidando. A expressão era frequentemente usada para justificar o aborto em mulheres pobres. Janine. N.. Oficialmente tinha como objetivo o bem estar da família como célula constitutiva da nação e se dedicava a um trabalho informativo- educativo em termos de saúde reprodutiva. . geralmente sustentadas por núcleos familiares compostos apenas por mulheres – mãe.. Os feminismos e a polêmica da anticoncepção no Brasil. O olhar das feministas brasileiras sobre as ações da BEMFAM era de rejeição. pp.‖ A BEMFAM foi fundada em 1965 na última sessão da XV Jornada de Ginecologia e Obstetrícia e contava com o financiamento da International Planning Parenthood Federation (IPPF) com sede em Londres. o risco é em relação à reprodução de pessoas pobres e o significado político. mas os usos de tais iniciativas. Na segunda fala a referência é à burocratização e o subjugo de uma iniciativa no Brasil com capital internacional. 11. In: Revista Esboços. – [.168 Na charge. grávida e de pés descalços responde: ―Mas o que é isso. 135-144.251 Apesar disso. a fama construída pela entidade reforçava o caráter controlista de suas ações. tias.] e milhões foram gastos em anticoncepcionais para diminuir a população de baixa renda.

como se procurasse olhos e ouvidos vigilantes. Brasil. Figura 38 Fonte: CIÇA. você nem imagina. e desabafa: ―Botei uma duzia de ovinhos!‖ E finaliza: ―Agora que a BEMFAM me pega!‖. Edição 6. agosto-setembro de 1977. uma alegoria à situação das mulheres brasileiras no período. p. Dei a maior mancada!‖ Bia Sabiá. dona Pardalina. Os ―ovinhos‖ de Dona Pardalinha são apontados como um quase crime que pode ser punido. Na sequência a tirinha de Ciça sugere o tipo de reação que a atuação da BEMFAM provocava. Coluna de Humor. Nós Mulheres. O uso da expressão ―me pega‖ é sintomática da crença de que se fez algo errado. A inocência das personagens em forma de animais não deve fazer com que percamos de vista o problema político enfrentado por elas. De acordo com Céli Pinto foi apenas em 1983 que esse modelo de controle de natalidade começou a ser revisto com a criação do Programa de Atenção Integral à Saúde da Mulher (PAISM). Bia. questiona: ―Que foi?‖ Dona Pardalinha em um rápido movimento com a cabeça olha para os lados. interessada. 15. tudo bem?‖ Ao que a personagem responde: ―Chi. O crime é a reprodução e a instituição punitiva é exatamente a BEMFAM. 169 orientação médica. A clássica personagem Bia Sabiá encontra-se com uma amiga na rua e em um rotineiro diálogo de conhecidas pergunta: ―Bom dia. O programa .

O programa abrangia todas as fases da vida da mulher. p. em termos econômicos. da adolescência à velhice. mantendo uma média entre 2 e 3 filhos por mulher entre as décadas de 1960 e 1990 em função de sua trajetória política baseada em altos investimentos em educação e bem estar social. op. tomando em consideração aspectos não apenas biológicos. O mesmo aconteceu 252 PINTO. Clair. cit. a esse respeito.80.254 A política controlista.91.81. Disponível em: https://claircastilhos. 84. mas também sociais. p.252 O PAISM foi sem dúvida uma das mais bem- sucedidas intervenções de um movimento social organizado na esfera das políticas públicas.com/2012/04/26/as- cegonhas-vao-parir-tudo-esta-resolvido/ Acesso em 24 de agosto de 2015. Como sabemos a questão do planejamento familiar e das altas taxas de fecundidade era uma preocupação que também mobilizava os outros países integrantes do Cone Sul. O PAISM começou a causar polêmica anos depois. . Rio de Janeiro: IBGE. Séries estatísticas retrospectivas/ Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. continha o crescimento das famílias pobres e acidentalmente permitia a autonomia das mulheres. seja em nível privado.255 Em 1990 esse número caiu para 2.35. No Chile a taxa de fecundidade em 1960 era de 5.58 e nos anos 1990 essa taxa despencou para 2. enquanto que nos anos 1990 esse número caiu para 4.62.170 foi fruto da pressão de grupos como SOS Corpo Recife e Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde de São Paulo. 253 Idem. 255 IBGE — Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. O Uruguai é um caso a parte. assistiu também uma crescente queda do modelo de controle da natalidade que pouca relação tinha com o bem estar das famílias.. seja em termos sócio-econômicos.253 A década perdida. quando uma releitura sua reduzia à saúde da mulher à questão da maternidade. e por outro. das condições em que a maioria das mulheres viviam. de um lado. CASTILHOS.49. 1986. Na Bolívia a média de filhos por mulher em 1960 era de 6. Entre os anos de 1940 e 1980 a taxa de fecundidade no Brasil passou de 6. 254 Ver. uma vez que as expectativas de consumo e de acesso a bens e serviços apresentavam-se como mais positivas para famílias menos numerosas.16 para 4.wordpress. As Cegonhas vão Parir: tudo está resolvido. as camadas médias acompanhavam a queda.

br/publicdata/explore?ds=d5bncppjof8f9_ Acesso em 24 de agosto de 2015.32 em 1980 e uma suave queda para 2. Persona. a imprensa feminista argentina não se omitiu em debater a questão do planejamento familiar.99. Ele pergunta: ―Senora. ela também problematizava em páginas feministas e no humor gráfico a questão das famílias numerosas.google. portanto. Em consulta a outras fontes os dados podem variar tanto para cima como para baixo. quiero su opinion sobre la planeación familiar. O Paraguai registra a menor queda.256 Tal preocupação. No ano de 1960 a taxa era de 6. por exemplo. Figura 39 Fonte: Sem Autoria. não era privilégio das feministas brasileiras e em função de muitas relações que todos os jornais mantinham entre si.54.11 em 1960.11 para 2. eram solidárias a causa. .80 e em 1990 era de 4.com. Com uma taxa de fecundidade de 3. Disponível em: https://www. mas para o objetivo de apontar queda ou aumento da taxa de fecundidade nos países do Cone Sul ela é suficiente. 171 com a Argentina que registra uma pequena queda de 3. Apesar da Argentina registrar números distintos em relação ao Brasil. Argentina. A charge do argentino Persona é exemplo. 10. Edição 3. outubro de 1983. p. mesmo as nações que não se consideravam com problemas em termos de planejamento familiar.99 em 1990. 3.‖ Uma sala de 256 Os números foram gerados a partir da ferramenta Indicadores do Desenvolvimento Mundial do Google. Na charge um pesquisador questiona uma mulher grávida e descabelada em sua casa.

em última análise sempre as responsáveis por manter o casamento. p. dada sua relação direta com a manutenção do patriarcado. Apesar do número pouco significativo o tema é bastante pertinente. Marlene. foi bastante modesta. Com a Lei 6. pp. Em termos de humor gráfico sua incidência não foi alta. Vol. a mulher também passou a ter o direito de reivindicar o término do matrimônio. apenas duas charges nos exemplares a que tive acesso. um não-lugar entre casada e solteira. primeiro sob o jugo do pai e depois do marido. 01.172 estar com mobília destruída diante de crianças ativas. apesar dos mitos que a cercam. O interesse feminista no debate sobre o divórcio tinha relação direta com modelos de família que mantinham as mulheres sob o domínio masculino. A nova lei desautorizou o Estatuto da Mulher Casada de 1962 (Lei 4. um passo inicial nas mudanças de expectativas culturais que recaíam sobre as mulheres. Lei do Divórcio. In: Caderno Espaço Feminino.257 O divórcio foi uma demanda historicamente feminista. por exemplo. 335-357. A charge evoca não apenas uma questão de política pública.515. Desquite e Divórcio: a polêmica e as repercussões na imprensa. é constantemente alvejada pela crua realidade.121/1962) que pregava ser a mulher a colaboradora da célula familiar e o homem o seu chefe. portanto. uma vez que não existia preocupação com as famílias pobres que já necessitavam de atenção. O atraso é que dá bases à crítica das ações da BEMFAM no Brasil. por isso vale uma breve reflexão a respeito das intensas discussões que se deram no Congresso no período que o divórcio passou de demanda à realidade. não interessa o que aconteça. muito embora seja 257 FÁVERI. de 1977. Jan -. 341. O último tema com ares locais que gostaria de ressaltar é a questão do divórcio no Brasil. . Jul. Diante desse cenário a mulher ainda levava consigo o estigma da mulher disquitada. 17. assunto que durante os anos 1970 foi intensamente debatido e que em 1977 foi oficializado juridicamente. pelo contrário. Convém destacar que até a década de 1970 apenas o homem tinha direito legal de dissolução do casamento. n. ou Lei Nelson Carneiro. como também os desafios da maternidade que. apenas com sua proliferação. um bebê chorando e os cabelos emaranhados parecem dar a resposta: é tarde demais! A charge evoca ações que de uma hora para outra começam a preocupar-se com o planejamento familiar e pouco fazem para melhorar a vida de famílias numerosas que já existem. Uma legislação que presumisse a possibilidade de interromper o modelo era. 2007.

‖ Ela aciona a cultura de que crianças devem aproveitar a infância nas ruas livremente. O homem concorda e ressalta: ―Sim. Dissertação de mestrado defendida no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Brasil.. Edição. junho de 1977. Cintia Lima. O diálogo que poderia se referir a inocentes crianças jogando futebol assume seu sentido político quando lemos na bola a palavra 258 Ver. 173 recorrente o argumento de que o debate sobre divórcio emergiu para distrair as mulheres de problemas mais importantes. A mulher afirma: ―É bom deixar os meninos brincarem em liberdade de vez em quando. Uma cena cotidiana que ilustra o cotidiano de muitas famílias brasileiras. Figura 40 Fonte: Sem Autoria. Veja o Feminismo em Páginas (Re)viradas. 7. 15. mas faz uma ressalva em relação ao bom comportamento – ―não abusarem‖ – e encerra dizendo que isso só é possível quando os meninos tiverem ―aprendido as lições‖. 2012.. CRESCÊNCIO.‖ Ele não discorda da opinião da companheira. Na charge um homem e uma mulher observam um grupo de meninos jogando bola no quintal. Em 1975 e 1977 a revista Veja publicou duas capas sobre o assunto e o protagonista era o deputado Nelson Carneiro. É intrigante observar que foram os homens os protagonistas da disputa. a esse respeito. .258 Foi exatamente o protagonismo masculino que foi satirizado por charge do Brasil Mulher de junho de 1977. (1968-1989). é saudável. mas se eles não abusarem e tiverem aprendido as lições. p. data em que a emenda que tornava o divórcio legítimo no Brasil foi aprovada. Brasil Mulher.

mais vitórias. contracepção. divórcio. No humor gráfico feminista o jogo político masculino foi reduzido a uma ―pelada‖ jogada por meninos que querem mais posse de bola. na segunda metade do século XX. portanto.174 ―divórcio‖. mas como toda historiadora me vi diante de algumas possibilidades e fiz uso da escolha para refletir sobre as questões que considero mais relevantes e significativas no que se refere às fontes selecionadas. Trata-se da construção de narrativas que tenham como ponto de partida nossos medos e preocupações. mais especificamente. consequentemente. Uruguai e Brasil. assim como de Paraguai e Chile. bem como à bibliografia para amparar minha análise. foi uma preocupação totalmente marcada por regionalismos? . quando sabemos que o tema pobreza e contracepção. por que ter como base os Estados Unidos para definir as demandas feministas daqui. Convém relembrar que. por exemplo. foram o destaque. que o fato de charges e tirinhas bolivianas ou argentinas figurarem entre a humor gráfico nacional durante a análise é muito significativo para pensarmos sobre a existência de feminismos latino-americanos e. Afirmar nossa história como independente não é dizer que ela é isolada. Na charge feminista publicada pelo Brasil Mulher os nobres deputados eram vistos como crianças disputando uma bola. Outros tantos temas são explorados nos diferentes capítulos. serviço doméstico remunerado. pobreza. mais gols e. do Cone Sul como uma história autônoma em relação às narrativas mestras que submetem nossas histórias feministas às histórias feministas de países como Estados Unidos ou França. de maneira geral. apesar da pesquisa privilegiar os feminismos dos países do Cone Sul. Argentina. Nelas os problemas que mobilizaram os feminismos de Bolívia. Nas últimas páginas foram destacadas uma série charges/tirinhas com temática feminista que dialogam diretamente com preocupações das mulheres do Cone Sul. trata- se de ridicularizar o jogo protagonizado pelos homens do congresso no debate sobre o divórcio. Não se trata de uma ode à liberdade infantil de tomar às ruas para se divertir. contudo. Como ficou bastante evidente a maioria dos temas é transversal e evoca outros assuntos também de interesse feminista. foi baseada no interesse geral que cada imagem sugeria: militância de mulheres. A eleição das temáticas locais. nem uma homenagem à importância dos estudos. Afinal. É importante reforçar. portanto. em função do maior acesso aos periódicos feministas brasileiros. o Brasil afirma-se como o centro irradiador da discussão. Muitos outros temas poderiam ter sido focalizados. o humor gráfico feminista elegia um tema e o explorava.

Regina Barreca aponta que estudos no campo da psicanálise sugerem que os homens têm maior tendência a rir de alguém em uma posição de constrangimento. definem os modos de 259 BARRECA. geração e muitas outras podem atuar como divisores dentro dos movimentos feministas e isso vale não apenas para os feminismos do Cone Sul.261 Os marcadores de gênero. mas também pode ser a intenção de riso de uma charge em que uma mulher é ridicularizada. 261 BARRECA. 260 BARRECA. ou uma pessoa negra. demandas e situações foram colocadas diante de uma produção que tinha como objetivo provocar a união. virilidade.. op.259 Historicamente tal posição de poder foi domínio masculino. A empatia entre elas seria mais comum do que entre eles. abuso de poder. logo o humor segue no encalço e carrega consigo as marcas do masculino: agressividade. raça. cit. é importante pensarmos sobre o potencial de um riso compartilhado. na medida em que assumir a posição de provocar o riso é também se assumir hierarquicamente mais poderoso. op. orientação sexual. tem como uma de suas consequências a construção de um senso de pertencimento que só é possível por meio do riso. cit.260 Essa posição poderia ser uma queda acidental. cit. o compartilhamento: o riso. O uso do humor gráfico feminista. Defendo que as diferentes expectativas. portanto. 3. uma cena cotidiana. 13. Não é novidade que questões como classe. por exemplo. A mesma autora reforça que as mulheres produzem um humor mais humanizado que se recusa a rir da aparência de alguém. a solidariedade. op. p. ou de suas condições social. p. 25. ela serve ainda para compreendermos o que unia essas mulheres – e o que as separava – em suas práticas feministas. a exemplo do já citado O Pasquim. p. se reproduz nas formas de rir e fazer rir. enquanto as mulheres tendem a ajudar. Sendo assim. 175 A definição de problemas regionais serve não apenas para construir uma narrativa que esteja atenta aos feminismos também locais. . de algum modo.2 O RISO COMPARTILHADO A existência de um humor masculino relativamente estabelecido cria toda uma cultura também masculina que se comunica por meio da intenção de provocar o riso. Em termos de fontes não parece difícil demonstrar como o humor se constrói de maneira generificada. 12. portanto. A predominância cultural. cultural e econômica.

op. Trata-se da emergência de um humor em que as mulheres são protagonistas e não os alvos. novembro de 2015. provavelmente. tradução nossa). dado nosso aparato cultural. cit. Nesse universo de diferenças – de humor –. Figura 41 Fonte: HELÔ.‖262 As charges e tirinhas publicadas nos periódicos feministas do Cone Sul reforçam que diante da existência de um humor masculino. temos barreiras conscientes e inconscientes em achar graça de um humor com marcadores nitidamente masculinos. eles. enfrentam barreiras ao serem confrontados com um humor não masculino. 129. Brasil. em termos de mulheres feministas.‖ (WALKER. Assim como nós. Roteiro: Cintia Lima Crescêncio. .. 1988. 1975-1988). se temos acesso a uma referência crítica. The fact that humor. tais modos são ainda interseccionados pela reflexão que identifica as dicotomias e desigualdades às quais as mulheres estão sujeitas em uma sociedade que privilegia o masculino. requires that the reader be familiar with the social context it describes has worked against the appreciation of 262 ―[…] a linguagem do humor das mulheres reforça o senso de separação da cultura dominante. Ri Melhor: Humor Gráfico Feminista (Cone Sul. Conteúdo produzido para compôr a tese Quem Ri por Último. to be successful. A separação simbólica tem impacto direto no modo como os homens veem o humor produzido por mulheres. sejam elas feministas ou não feministas. ―[…] the language of women‘s humor reinforces the sense of separation from the dominant culture. conforme Nancy Walker.176 rir de homens e mulheres e. o humor produzido com preocupação feminista acabou por criar um senso de separação da cultura dominante. consequentemente.

264 ―O riso depende do reconhecimento. 53. In part humor depends on our complicity. exigir que o leitor esteja familiarizado com a situação descrita prejudica a apreciação. é necessária uma base compartilhada. Reconhecendo suas referências. nós estamos concordando com a premissa de que também já passamos por isso. – uma das . para obter sucesso. da cultura dominante. Uma tirinha que ironiza o medo das feministas só faz sentido em um cenário cultural em que o feminismo é considerado uma ameaça. tradução nossa). cit. p. p. ―[…] The laughter depends on our response of recognition. For the humor to work. By recognizing her references. Uma charge que satiriza um debate entre homens sobre os direitos da mulher funciona em um cenário cultural em que as mulheres têm pouca predominância na política. there has to be a shared basis of particular experience – one of the reasons comedy often doesn‘t seem as eternal as tragedy is because comedy often relies on getting a particular play with words or the overturning of a particular rule. Ou pelo menos que nós entendemos. 177 much women‘s humor by the dominant culture: the very separation of male and female ‗spheres‘ and values that it describes means that men have been hard pressed to understand and find amusing what women have created. já que o riso não é uma certeza. de grande parte do humor feito pelas mulheres: a própria separação das ―esferas‖ e dos valores do masculino e do feminino que os descrevem indicam que os homens têm dificuldades em entender e divertir-se com a criação – humorística – das mulheres‖ (Ibidem. because so many of the workings of humor lose impact when they are explained. mesmo que o sucesso não signifique necessariamente graça. porque muitos dos trabalhos de humor perdem impacto quando são explicados.. op. a compreensão. do envolvimento da expectadora. we‘re complying with the premise that we‘ve gone through it too. uma experiência particular. Ele depende diretamente do domínio do contexto para que sua mensagem seja enviada com sucesso.‖ (BARRECA. tradução nossa).263 Convém reforçar que o humor gráfico é absolutamente contextual.265 263 ―O fato do humor. é apenas através do reconhecimento que garantimos. Segundo Barreca.‖264 O riso depende diretamente do reconhecimento das referências. 265 ―Em parte o humor depende de cumplicidade. Or at least that we understand it. 72. Para que o humor funcione. no mínimo.

de compartilhamento. Women‘s humor. por meio do humor. na preocupação com a geração de filhos. entretanto. mas é importante que tenhamos em mente que o humor gráfico que se distanciava de um modelo masculino de produção colaborou. often posing a ‗we-they‘ dialect. uma vez que qualquer ação cujo objetivo seja fazer graça perde o sentido se explicada. para o fortalecimento de algum senso de compartilhamento. a existência de bandeiras coletivas dá conta. assim uma série de códigos precisam ser compreendidos para que o riso seja – ou não – disparado. na medida em que o humor gráfico afirma-se como uma ferramenta de união. empatia é fundamental em um movimento social. Nesse sentido. . like that of minorities. Obviamente que essas experiências não são compartilhadas por todas as mulheres e no mesmo nível. em termos de humor também. razões pelas quais a comédia frequentemente não é vista como eterna como a tragédia é porque a comédia frequentemente depende de um jogo de palavras particular ou da derrubada de uma regra particular. na sensação de impotência em termos políticos-institucionais. Assim. tradução nossa). que a desigualdade de gênero é reproduzida mesmo na militância de esquerda e etc. no mínimo. displays a consciousness of a group identity. Se as esferas masculino e feminimo prevalecem em termos globais. afinal. and both types of humor feature common stereotypes of members of the dominant culture. indepente das discussões que possam ser feitas para questionar o uso de categorias como mulher. como se tratam de mulheres feministas.― (Idem. Seria equivocado falar da criação de uma identidade de mulheres. para que o objetivo do humor seja atingido é preciso que ele seja amparado por uma base de alguma experiência particular.178 Para a autora o humor depende de cumplicidade. Women‘s humor. A identificação tem papel muito importante em termos de imprensa feminista. de conscientização que as mulheres não estão sozinhas em suas rotinas domésticas estafantes. mulheres e gênero. No caso das charges e tirinhas feministas a base da cumplicidade é o reconhecimento de que as políticas públicas de controle de natalidade afetam os direitos das mulheres. o senso de separação da cultura dominante e de criação de um lugar de fala protagonizado por mulheres se afirma. like minority humor.

o humor é com frequência um meio de lidar com a frustração ou raiva. Finally. e impresso. Oralmente as piadas de mulheres são contadas entre as mulheres e em relação ao humor impresso em publicações em que o público alvo são mulheres. assim como o das minorias. 179 is usually expressed within the group. 267 BARRECA. ao invés de diante de grupos mistos – oralmente. em publicações prioriariamente dedicadas a outras mulheres. Finalmente. Além disso.. 1988. 106. the humor is frequently a means of dealing with frustration or anger. cit.267 Apesar da utopia quase típica de concursos de beleza. De todo modo. cit. mais do que simplesmente celebratório e divertido‖ (WALKER. esse tipo de humor não visa simplesmente fazer rir. e ambos tipos de humor caracterizam estereótipos de membros da cultura dominante. é geralmente expresso junto ao grupo. esse humor é exposto dentro do próprio grupo. mas que não é tão frequente. and in print. é difícil negar que as charges e tirinhas publicadas 266 ―O humor das mulheres. A reflexão sugerida pela citação diz muito sobre as charges e tirinhas listadas até aqui. apesar delas não poderem ser identificadas como grupo de minorias. Se o humor feito por elas já se afirma como diferencial. op. assim como o humor das minorias. com a raiva. op. . tradução nossa).. mas também no humor de mulheres feministas. a mensagem se torna ainda mais específica se não pensarmos apenas no humor de mulheres. frequentemente afirmando uma dialética ‗nós-elas/eles‘. p. 183. in groups composed only of women. em grupos compostos apenas por mulheres. rather than in mixed company – orally. o humor das mulheres se assemelha muito ao produzido por negros e judeus. Ao contrário do humor com base em modelos masculinos.266 Nancy Walker destaca que. ele é uma forma de lidar com a frustração. Humor das mulheres. in publications intended primarily for other women. em termos de exploração do estereótipo masculino que existe. o humor feminista é marcado também pelo desejo de transformação. rather than simply celebratory or fun. p. A autora informa que tal modalidade de humor se apóia na criação de uma identidade de grupo. através do uso frequente da relação ―eu-elas/eles‖ e da exploração de estereótipos de quem integra a cultura dominante. apresenta uma consciência de identidade de grupo. De acordo com Regina Barreca o humor feminista é sério e é sobre mudar o mundo. a única ressalva seria. talvez.

.180 em periódicos feministas do Cone Sul queriam nada além de mudar o mundo.

Não é possível negar que as informações sobre mulheres cartunistas são muito mais escassas se comparado aos homens. fui elogiada por lançar um novo olhar ao periódico alternativo mais famoso do país.ENTRE TRAÇOS FEMINISTAS Desde o início desta pesquisa é comum que pesquisadoras e pesquisadores demonstrem grande entusiasmo quando são informadas do seu tema. existem muitas mulheres cartunistas. apenas um parâmetro de comparação. Costumo responder de maneira bastante direta e curta que exploro charges e tirinhas publicadas durante as ditaduras do Cone Sul. a surpresa com o tema é frequente. assim como hoje. durante uma comunicação sobre as particularidades do humor feminista em relação ao alternativo da ―patota‖. Eventualmente tal referência costuma acionar o conteúdo do O Pasquim. Minha segurança tem suscitado no interlocutor uma necessidade de certeza e novamente sou questionada: mas existiam mulheres cartunistas? Sim. elas existem. como Isabel Lustosa e Elias Thomé Saliba. o humor gráfico contava sim com preciosa colaboração das mulheres. esta pesquisa surge para mostrar que. embora muitas fontes e esforços de sistematização demonstrem que elas estavam produzindo humor gráfico. CAPÍTULO 3 . Apesar da existência de nomes já renomados no campo. Também é seguro afirmar que elas encontravam mais dificuldades de divulgar seu trabalho em um mercado editorial já complexo – o dos quadrinhos e do humor gráfico –. 181 4. quando a publicação em questão não era minha fonte de análise. É no segundo momento que as pessoas geralmente me questionam o que procuro no humor gráfico que elegi como fonte e é nesse ponto que quero chegar. com conteúdo feminista ou não. A pergunta que segue é sempre a mesma: fontes. inclusive com perspectiva feminista e que o humor foi explorado de maneira muito sofisticada por elas. A excitação tem início no fato de uma historiadora interessar-se em estudar o humor. o que era agravado pela resistência do campo do humor gráfico à produção com autoria de mulheres. Em 2013. em tempos de internet. O desconhecimento dessa existência reside no dogma que insiste em recusá-las. Tal diálogo sobre minha pesquisa tem tido sempre um final certeiro. Naturalmente respondo que meu foco é no humor feminista publicado por mulheres em jornais feministas editados por mulheres. existiam mulheres cartunistas. elaborado em forma de pergunta: mas essas fontes existem? Sem hesitar venho respondendo que sim. . apesar dos obstáculos. Entretanto.

at 15. e deu início a uma carreira de sucesso mundial. engajada no universo dos quadrinhos alternativos e sempre dedicando pesquisas às mulheres cartunistas. no excelente A Century of Women Cartoonists. Trina Robbins. A autora.182 Trina Robbins. aos 15 anos. Na Enciclopédia dos Quadrinhos organizada pelos braslileiros Hiron Goidanich e André Kleinert. aos 15 anos. eles a fizeram sentar-se e produzir um desenho in loco. p. tradução nossa). as mulheres estão lá citadas. began a career that would span half a century and bring her world to fame. Ressalto que produtoras e produtores de humor gráfico são 268 ―Quando os jurados viram a menina de 13 anos de idade que havia ganho o prêmico. to prove she was the artist. Rose O‘Neil inscreveu-se e venceu um concurso em um jornal de Omaha com um desenho de sua autoria. O livro é um dos mais recentes esforços de reunião dos principais nomes dos quadrinhos mundiais do século XX. inclusive Trina Robbins. Em 1888. cita dezenas de exemplos como o da jovem desenhista.‖ (ROBBINS. Trina. Two years later she sold her first illustration to TRUTH magazine and. ano considerado o marco de origem das tirinhas em função da publicação da tira The Yellow Kid. para provar que ela era a artista. 1993. por exemplo. lista dezenas de cartunistas estadunidenses que desde o final do século XIX – momento em que a semente das histórias em quadrinhos teria sido plantada com as tirinhas – vem fazendo história nos Estados Unidos. Kitchen Sink Press: United States. uma delas é exatamente a menina de apenas 13 anos que ao vencer um concurso de desenho foi obrigada pelo juri do prêmio a desenhar diante deles. 6. . A autora afirma: When the judges saw that a 13-year-old-girl had won the prize. they made her sit down and produce a drawing on the spot. Ela deu início a sua história de um século de mulheres cartunistas citando três desenhistas que mesmo antes do marco de 1895 já estavam produzindo a alcançando sucesso. já vinha investindo seu talento no campo da ilustração. Dois anos depois ela vendeu sua primeira ilustração para a revista TRUTH.268 Trina Robbins fez uma interessante escolha narrativa. para provar que ela era a autora do desenho vencedor. uma cartunista renomada. A Century of Women Cartoonists. começou a carreira que durou meio século e levou à fama. Pouco tempo depois a mesma artista vendeu seu primeiro desenho. começa sua narrativa com a trajetória de Rose O‘Neil que mesmo antes de 1895.

apenas o Mulherio (40 exemplares) e o Nós Mulheres (8 exemplares). Hiron Cardoso e KLEINERT. 270 GOIDANICH.272 Os autores homens – publicados em jornais feministas – que produziam humor gráfico com conteúdo feminista são praticamente todos listados nos verbetes. Já o número total de cartunistas mulheres que foram passíveis de identificação nos jornais é de 22. apesar de em muitos momentos eles se perderem em discursos que citam o talento e a beleza das cartunistas. 272 Ibidem. p. roteiristas e editores homens. vasto. estão integralmente disponíveis para avaliação. Nas mais de 500 páginas são citadas pelo menos 28 mulheres quadrinistas. Só a letra A conta com 72 nomes. Irã. 67. Alguns jornais têm poucas edições sendo analisadas. da Argentina. Algumas autoras que figuram nas páginas dos períodicos feministas do Cone Sul são listadas na coletânea. Como qualquer outra enciclopédia o livro apresenta um resumo da obra e da vida de centenas de autores e autoras distribuidos em mais de 500 páginas. França. p. Uruguai. Filipinas. 183 frequentemente integrantes dessa modalidade maior. além de outras. as histórias em quadrinhos. Itália e muitos outros países. afinal. como é o caso do Nos/Otras. Elas são em menor número. Argentina. RS: L&PM. portanto. mas estão presentes. um número pequeno se comparado ao número total de desenhistas. de A a Z. 271 Ibidem. O Persona. As autoras citadas pela Enciclopédia e publicadas pelos periódicos feministas são apenas três: as brasileiras Ciça270 e Mariza271 e a francesa Claire Bretecher. ou mesmo uma intensa necessidade de explicar que certo autor que utiliza certo pseudônimo considerado de mulher é. roteiristas e editores. André. . contudo destaco que a maioria das mulheres citadas são cartunistas. Coréia do Sul. na ―verdade‖. 95. Espanha. Porto Alegre. p. Inglaterra. teve 17 exemplares analisados. O recorte geográfico é. Enciclopédia dos Quadrinhos. um homem. 2011.269 O esforço dos autores em listar as mulheres deve ser reconhecido. mas ainda é uma coleção incompleta. No levantamento que levou em consideração nomes de cartunistas mundialmente conhecidos são listados(as) artistas do Brasil. Reforçar tais 269 Os autores listam cartunistas. no mínimo. Tais jornais tiveram uma análise mais abrangente de seu conteúdo de humor gráfico. é muito provável que muitas das charges e tirinhas que não tiveram suas assinaturas identificadas – ou que não eram assinadas – tivessem como autora uma mulher. Estados Unidos. A maioria do jornais pesquisados não tem sua coleção completa. 302. do Chile.

Lila. no Cone Sul e no mundo. portanto. sendo que conta com 22 charges e tirinhas. O Persona. portanto. 4 por Ciça. Lila Figueiredo. 1 por Angela. que teve nove de suas produções publicadas no Mulherio. Mulherio. 1 por Roberta Mele. Christine Roche. em jornais que não tive a oportunidade de pesquisar. do Uruguai. 1 por Mariza. Além dos nomes já reconhecidos pelos verbetes da Enciclopédia dos Quadrinhos – Ciça. De 23 charges e tirinhas.184 informações é importante porque o número de 22 autoras é uma média por baixo. cartunista britânica que ilustrava livros infantis e dirigia filmes de animação. Os outros jornais – La Escoba e La Cacerola – não são citados porque não tiveram suas charges e tirinhas reconhecidas em termos de autoria de cartunistas mulheres. teve 23 charges e tirinhas levantadas. 1 por Eva. são elas: 4 por Sylvia Bruno e 5 por Nuria Pompeia. 9 com autoria de mulheres. são elas: 2 por Eliana Paiva. O Nós Mulheres também tem sua coleção completa. teve 4 assinadas por mulheres. 2 têm como autora uma mesma cartunista. de um total de 4 charges e tirinhas. inclusive sobre feminismo. 2 por Cahu. 2 por Christine Roche. que na década de 1970 alcançou projeção por suas ilustrações de Alice no País das Maravilhas. de um total de 9 charges e tirinhas. não foi localizada em nenhuma de minhas bibliografias. bem como não tem informações disponíveis no espaço virtual. principalmente em termos de autoria de . 1 por Sandra. 1 por Ana Maria Marques. escritora e cartunista argentina. O Brasil Mulher fazia pouco uso do humor gráfico. 1 por Lilita. Célia. O primeiro jornal que cito é exatamente o que apresenta a coleção completa e também o maior número de charges e tirinhas. com 102 no total. 1 por Lilá Galvão. É muito sensato supôr que elas fossem muito mais numerosas em edições às quais não tive acesso. 1 por Lilita Figueiredo. portanto. 2 por Claire Bretecher. 9 por Célia. 9 delas são de autoria de mulheres. da Argentina. produziam e produzem humor gráfico no Brasil. O levantamento de informações é.. com um traço muito interessante e histórias que ocupavam uma página inteira. com assinaturas que não fui capaz de identificar. levantando uma bandeira assumidamente feminista. 1 por Rosanna. As mulheres. É tempo. difícil. 1 por Anne Delcoigne. por exemplo. Cotidiano Mujer. Mariza e Claire Bretecher – localizei informações apenas sobre: Nuria Pompeia. Diana Raznovich. de dar nome a essas mulheres. 28 com autoria de cartunistas mulheres. cartunista espanhola que alcançou grande projeção entre os anos 1960 e 1980. contou com a colaboração de uma cartunista mulher. Diana Raznovich. são elas: 5 por Ciça. O chileno Nos/Otras. 1 por Cristina Burger.

da França. da Argentina. dos Estados Unidos. p. dos Estados Unidos. Chantal Montellier (1947).273 Já no conteúdo da Enciclopédia. Ciça (?). Maria Aparecida de Godoy (1945). do Brasil. do Brasil. os homens são uma maioria maciça e às mulheres foi cedido um espaço de. 274 Ibidem. Claire Bretecher (1940). do Brasil. da série Mulheres Alteradas e Patricia Breccia. op. do Uruguai. do Brasil. Michele (1942). Certamente devemos considerar questões maiores que estão por trás desse tipo de seleção. 15 páginas. Gisella Dester (1936). 129.274 espaços que não são conhecidos por empregar homens e mulheres simetricamente. dos Estados Unidos e Marjane Sartrapi (1968). do Brasil. do Brasil. p. Cada página tem em média de três a cinco verbetes. assim como pelas escolhas dos organizadores que assumiram. Penfold (Pseudônimo). do Brasil. Dadi (?). Alison Bechdel (1960). Pagu (1910-1952). do Brasil. Patricia Breccia (1955). 185 cartunistas mulheres. da Itália. logo. da França. como importantes nomes recentes. Rosalind B. Nela Hiron Goidanich buscou construir uma breve e informativa história linear do surgimento da história em quadrinhos e para isso citou. do Irã. da França. A mesma Enciclopédia de Quadrinhos que ganha mérito por não deixar as mulheres totalmente de fora também merece certo crédito por citar algumas delas em sua introdução. Hèléne Bruller (1968). Annie Goetzinger (1941). desde o princípio. as argentinas Maitena. Chiquinha (1984). Martha Orr (1908-2001). Edna Lopes (1962). da Itália. alvos de verbetes. contudo não se deve perder de vista o fato de que são 28 mulheres distribuidas em mais de 500 páginas. Gladys Parker (1905-1966). em média. Adriana Melo (1976). da Argentina. 16. da França. o foco nas editoras DC e Marvel Comics. Maitena (1962). do Brasil. p. Mariza (1952). estão: Aurélia Aurita (1980). Wendy Pini (1951). do Brasil. Erica Awano (1978).. dos Estados Unidos. Lina Buffolente (1924- 2007). Angela e Luciana Giussani (1922-1987 e 1928-2001). Nesse sentido é importante que algumas páginas sejam dedicadas a refletir sobre o espaço das mulheres no universo do humor gráfico. A primeira vista a lista pode causar algum nível de animação. fortemente determinada por sucesso editorial e visibilidade. Trina Robbins (1938). cit. os Estados Unidos. da França. . 275 ROBBINS. Trina Robbins destaca que tais editoras sempre foram resistentes às desenhistas sob o argumento de que os estilos artísticos das mulheres não condiziam com as expectativas editoriais e de mercado. 15.275 Em uma 273 Ibidem.

A proporção de coloristas é mais extrema: durante três meses. De todo modo. inclusive mundialmente. a decisão dos organizadores da Enciclopédia dos Quadrinhos em priorizar DC e Marvel já delimita o levantamento de mais cartunistas mulheres. The representation of women cartoonists at DC is similar […]276 Em três meses de publicações da Marvel foram contabilizadas cinco mulheres desenhistas e 62 homens. Outras variáveis precisam ser consideradas.. The ratio of inkers is more extreme: during those three months..186 pesquisa feita em exemplares da década de 1980 o problema de ―estilos‖ é expressado em números: [. A representação de mulheres cartunistas na DC é similar[. ficaram de fora 276 ―[. mesmo que o cenário de desigualdade não seja comprovadamente uma cópia do que acontecia no Brasil e em outros países do Cone Sul entre os anos 1970 e 1980. 277 Entre os anos 1960 e 1970 cartunistas se reuniram em grupo organizado para defender a nacionalização dos quadrinhos no Brasil. Pagu... Em se tratanto da editora DC os números são semelhantes. Historicamente temos consumido o produto estadunidense. p.. as artistas – e também os artistas – brasileiras têm conseguido alcançar projeção nos últimos anos. 278 GOIDANICH e KLEINERT. 154. and five female pencillers. Marvel Comics employed exactly two women inkers.277 mas. Mulheres coloristas foram apenas duas.]‖ (Ibidem. O mercado das histórias em quadrinhos no Brasil é significativamente menor do que é nos Estados Unidos. mesmo quando o país viveu quedas significativas de sua produção o mercado brasileiro ainda permaneceu menor. op. como a notoriedade de algumas escolhidas. por exemplo. Sendo assim. nomes bastante conhecidos. . é citada em um verbete por terem localizado cinco tirinhas de sua autoria publicadas no jornal O Homem do Povo. tradução nossa). graças a popularização da internet e meios alternativos de produção. e duas mulheres. A Marvel Comics empregou exatamente duas mulheres coloristas. O verbete ainda complementa que Patrícia Rehder Galvão foi a segunda esposa de Osvald de Andrade.. 368. ele permite um parâmetro de comparação suficiente. cit.] um estudos de três meses nos números dos quadrinhas da Marvel revelou sessenta e dois desenhistas homens.278 Por outro lado. p.] a study of three months worth of Marvel comics turned up sixty-two male pencillers.

280 GOIDANICH e KLEINERT. incluindo em termos de humor gráfico. fez um vasto levantamento em antologias que procuravam desvelar a história do humor no Brasil. jornalista e cartunista brasileira conhecida pela série O Pintinho. 176.. muito embora seu pai. tenha merecido atenção. mangás. contudo questiona que até mesmo nomes conhecidos não sejam listados em obras que prometem apresentar um panorama do humor no Brasil. 187 dos verbetes: Jacky Fleming (1955). muito embora grande parte das autoras e autores se envolvessem em diferentes níveis de produção: ilustrações. A primeira foi publicada em 1980 e uma das principais críticas feitas em sua versão original foi ao fato da autoria brasileira não ter sido 279 ROBBINS. .281 Destaco ainda que essa lista da Enciclopédia dos Quadrinhos não enumera apenas mulheres que trabalharam com humor. 281 A tese de doutorado de Alba Valéria Alves Tinoco Silva. assim como muitos cartunistas homens que faziam parte do cenário alternativo e independente estadunidense.. também ficaram de fora. livros infantis. 65. um dos livros ilustrados por ela tem como título 101 reasons why a cat is better than a man(1994). A Enciclopédia está em sua segunda edição e é o mais recente esforço de sistematização que leva em consideração a produção nacional. cartunista estadunidense que tem como uma de suas mais famosas personagens Sylvia. Nicole Hollander (1936). p. as mulheres são minoria no campo do humor. cit. op. e nem seria possível. charges e tirinhas. defendida em 2008 no Instituto de Letras da Universidade Federal da Bahia. cartunista que problematizava a questão da mulher negra nos Estados Unidos entre as décadas de 1980 e 1990279 também não compõe a lista de verbetes. intitulada Só rindo a sócapa: uma antologia de 21 contos. casos e crônicas. os autores não têm a obrigação. escritos por mulheres no Brasil. elaborar uma enciclopédia que abranja todas as minorias políticas. Barbara Brandon. Dezenas de cartunistas listadas por Trina Robbins. op. Linda Barry (1956) que nasceu nos Estados Unidos e alcançou fama por meio da literatura e do humor gráfico. Jr. gibis. em números absolutos. cit. cartunista britânica conhecida pelo conteúdo político e feminista de seu humor gráfico. e identificou que a maioria delas ignora muitas mulheres cartunistas. no entanto é nosso trabalho refletir sobre como essas escolhas são feitas. conhecido por sua tirinha Luther. incluídas as mulheres que fundaram nos Estados Unidos o coletivo Wimmen‘s Comix em 1970. o cartunista Brumsick Brandon. Alexandra Moraes (1981). com humor.280 De fato. A pesquisa reconhece que. p.

Apesar da revista ser voltada para às mulheres. Em termos de Cone Sul há verbetes para duas argentinas e uma uruguaia. São vários os verbetes da Enciclopédia que fazem tal referência. não devemos perder de vista as 22 autoras – no mínimo – protagonizando a autoria do humor gráfico nas páginas de jornais feministas que não foram listadas pela coletânea. publicada na revista a partir da década de 1960. que elas avançam no campo há décadas. Ziraldo alcançou grande sucesso com sua personagem Super Mãe. O mesmo acontece com os homens? Sim.‖ O que é possível de ser afirmado a partir da listagem da referida coletânea é que as mulheres cartunistas só são reconhecidas se atingem sucesso estrondoso e mundial. como Ciça na Folha de São Paulo. 72.188 privilegiada. De fato. especialmente na Itália. afinal. 283 Vale ressaltar que não se trata de uma obviedade a revista Claudia ter uma cartunista mulher como colaboradora. Claire Bretecher. p. contudo. não podendo ser ignoradas. ainda permanece. a exemplo dos periódicos feministas do Cone Sul. em termos regionais ou não. . Diante de tudo que foi exposto. mas ainda assim as autoras brasileiras citadas são apenas sete.283 Mesmo assim o reconhecimento não é garantido por fatores diversos. certamente.‖282 Arrisco dizer que se tal frase fosse o prólogo poderia facilmente ter modificada a sua última observação por ―especialmente no mundo. Há um relativo esforço de contemplar autores do Brasil e da América Latina como um todo. ou se assumem um espaço difícil de ser conquistado. os arquivos demonstram. Marjane Sartrapi. apesar de elas serem um vasto e significativo número. É provável que elas sejam menores em número quando o 282 Ibidem. Já as mulheres nas mesmas condições. a localização das autoras é difícil se o foco for em levantamentos por meio de bibliografia. Quando protagonistas de um cenário alternativo de difícil projeção eles não raramente ficam conhecidos por sua luta pela arte dos quadrinhos ou por terem morrido na pobreza. Referindo-se à quadrinista italiana Lina Buffolente os autores afirmaram: ―Não é muito fácil encontrar mulheres quadrinistas. mas em medida muito menor. por exemplo. como é o caso de Alison Bechdel. não merecem o mesmo crédito. mas a invisibilidade das autoras mulheres. Hoje a segunda versão é elogiada por ter tentado sanar essa dívida. Michele na revista Claudia. arrisco afirmar que o que não é fácil é encontrar organizadores dispostos a lançar olhar para a produção de quadrinhos e humor gráfico de autoria de mulheres. Mariza no O Pasquim. Maitena. publicando em periódicos feministas.

de se integrarem no mercado estadunidense e sobreviverem de sua arte. entre os anos 1950 e 284 WALKER. p. Existem no número de 25 cartunistas. Acredito que nesse item é que é possível vislumbrar com mais clareza toda a diversidade que compunha os traços das mulheres cartunistas. informa que o humor das mulheres não é de imitação ou derivado do masculino. Cada risco. O humor produzido por elas têm personalidade própria. mas ainda assim é possível conhecer um pouco sobre algumas delas. referindo-se às escritoras humoristas. roteiristas e editoras (excluidas Ciça. 189 parâmetro de comparação são os autores homens. 1998. lutando por seu espaço. É relevante pontuar que as cartunistas apresentadas na sequência têm traços e formações variadas. por exemplo. Existem em todas as cartunistas não citadas e lembradas em antologias. pontualmente. Ramona Fradon desenhou por 10 anos. Eis a resposta para a pergunta se elas existiam: existem no número de 22 autoras nos periódicos feministas do Cone Sul. Nancy Walker.. nada mais justo que esta tese. cada escolha visual e textual é particular. Existem nos arquivos que é de interesse feminista explorar. 4.284 Tal afirmação deve ser adequada ao humor gráfico feito por mulheres e reforçada em termos de habilidades de criação. Existem em assinaturas não identificadas. nem que seja apenas vislumbrando suas produções publicadas nas páginas dos jornais feministas do Cone Sul. cada balão de fala. Existem em dezenas nas coletâneas de Trina Robbins (focadas nos Estados Unidos). . O humor feito por mulheres tem personalidade única.1 AS CARTUNISTAS MULHERES Provado em números que elas existem. fale sobre elas. exatamente o que impedia as cartunistas dos Estados Unidos. já que a maioria das autoras mergulhou em um anonimato que minha pesquisa não desvelou. cit. mas elas estavam e estão lá. Mariza e Claire Bretecher) listadas pela Enciclopédia dos Quadrinhos que enumera produções de todo o mundo. op. Reforço que não pretendo essencializar um estilo gráfico típico às mulheres. mas peço atenção às especificidades dos desenhos produzidos por elas. Existem em charges e tirinhas não assinadas. Definitivamente não é uma tarefa fácil. que se propõe a refletir sobre o uso revolucionário que as mulheres feministas fizeram do humor. 172.

I was really not interested in drawing super heroes – male fantasies. para os personagens de Ziraldo. Eu não estava interessada em desenhar super-heróis – fantasias de homens. tradução nossa). portanto. como um peixe fora d‘água ou algo assim.190 1960.. 285 ―Eu sempre me senti um pouco estranha. pesado. Um capítulo dedicado aos traços feministas. dá pistas das diferenças em relação à produção das mulheres no mesmo período. cit. entende? Pessoas batendo umas nas outras ou planejando dominar o mundo [. 285 Ela narra que sentia-se fora de lugar em um campo macissamente dominado por homens. Eu tinha muitos problemas com essa dinâmica. assim como o traço das mulheres é diferenciado. Mesmo as charges produzidas por Miguel Paiva e Angeli. é possível explorar o sentimento de Ramona Fradon para descrever o humor gráfico de conteúdo feminista que circulava nos jornais feministas em comparação com os cartunistas que alcançaram fama no Brasil. Isso sempre me incomodou. . Mesmo falando de outro contexto e de uma outra modalidade de expressão gráfica. têm traços muito distintos dos das cartunistas mulheres. que foram publicadas no Mulherio e no Nós Mulheres. Ramona Fradon afirma que sempre enxergou esse tipo de arte gráfica como algo feio. Here I was in a totally male- dominated field. é um meio de reconhecer esteticamente a produção dessas mulheres. Não há doçura. It‘s the tradition.] Algo que sempre me chocava visualmente era observar o peso e a feiura da maioria das histórias da arte dos quadrinhos. o personagem Aquaman para DC Comics. Lá estava eu em um campo totalmente dominado por homens.. That always troubled me. I had a lot of trouble with the subject matter as well.‖ (ROBBINS. O humor feminista tem uma sofisticação incomum. There‘s not much sweetness. op. you know? People hitting each other or scheming to take over the world […] Something that has always jarred my eyes is to see the kind of heaviness and ugliness about most [male] comic art. the look. Um olhar para as edições comemorativas do O Pasquim. p. revelando anos depois que nunca esteve satisfeita com a função: I always felt rather strange.. like a fish out of water or something. É a tradição. 128. para as charges de Millôr Fernandes publicadas em Veja. além de não ter interesse em desenhar super heróis e as típicas fantasias masculinas cheias de violência e tentativas de dominar o mundo. o visual.

visão política.1. em apenas quatro exemplares. de 1981. Ana Maria Marques. o que era difícil naquele contexto. carreira. Infelizmente. publicou 17 charges e tirinhas. Lilita Figueiredo. São 15 mulheres: Eliana Paiva. obra. A primeira ilustração que trago em destaque é de autoria de Eliana Paiva. Seu conteúdo dialoga diretamente com um texto intitulado Irmãos de Sangue. Cristina Burger. 102 no total. o Mulherio é o jornal que apresenta maior diversidade de autoras. a maioria delas é representada apenas por um pequeno excerto de sua produção.1 As Mulheres do Mulherio O Mulherio foi o jornal feminista brasileiro com maior tempo de circulação e que contava com maior periodicidade. 191 Sendo assim. Nesse item. de repente. Entretanto. O texto projeta um mundo imaginário em que a menstruação teria outro significado caso ela fosse uma experiência dos homens. não apenas em termos de liberdade de expressão. Christine Roche. Ciça (explorada no item seguinte). Anne Delcoigne. começo por eles. e no mínimo um exemplo de charge e/ou tirinha daquelas a que não tive acesso a maiores informações. pretendo apresentar informações de cada autora. uma média de 2. Lilá Galvão. 4. Célia. Isso não significa que ele foi o periódico feminista que mais fez uso do recurso do humor gráfico. Angela. por exemplo. deixou um legado importante. Nós Mulheres.7 charge e/ou tirinha por número. Persona. Em termos de número é ele que tem a maior quantidade de charges e tirinhas publicadas a que tive acesso. na sequência. menstruar se tornasse uma característica masculina? A resposta é quase óbvia: a menstruação passaria a ser . todos eles cuidadosamente digitalizados e disponíveis para acesso virtual gratuito. em função do seu número geral absoluto. portanto. Rosanna. que tiveram charges e tirinhas publicadas no Mulherio. Roberta Mele. Lilita. com coleção completa. O boliviano La Escoba. uma vez que não localizei mais dados. 22 cartunistas. texto traduzido de Gloria Steinem. mas principalmente financeiro. 40 exemplares. Brasil Mulher. uma média de quatro por exemplar. O que aconteceria se. Como os jornais brasileiros são em maior número. Claire Bretecher (explorada em item posterior). Eva. as que tive acesso a informações como vida. Cotidiano Mujer e Nos/Otras são apresentadas. via FCC e com apoio da Fundação Ford. O periódico fundado pós-1975 com incentivo da ONU.

Figura 42 Fonte: PAIVA. Brasil. . praticamente envergonhar. festas de iniciação sexual. mas também razão pela qual ela deve se guardar. setembro- outubro de 1981. símbolo da maturidade sexual da mulher. Os meninos. é Eliana Paiva quem lança mão do talento gráfico. Mulherio. em algumas épocas considerado algo sujo. seria razão de comemorações e admiração. 11. setembro-outubro de 1981. publicado na revista MS e reproduzido no boletim Revolutionary & Radical Feminist.192 invejada. Brasil.286 O texto debate com ironia e perspicácia os valores dos elementos que cercam o universo dos homens. por sua vez. Se entre as mulheres a menstruação é algo a ser escondido. Para ilustrar a discussão de Gloria Steinen. Edição 3. p. motivo de orgulho. In: Mulherio. comemorada como os eventos que despertam orgulho na família. marcariam a vinda do primeiro ciclo como prova concreta de masculinidade – o que merece ritos religiosos. 286 Original de Gloria Steinem. 11. Eliana. Edição 3. Os homens não se inibiriam em fazer alardes sobre duração e volume. p. entre os homens ela poderia simbolizar status.

aciona elementos que podem levar ao riso através de uma linguagem típica do cartum. por fim. Informações sobre a ilustradora. do homem que é importante: a maleta. . Com inteligência e sutileza a ilustração reforça a mensagem. Na imagem muitos símbolos do masculino são explorados: costeletas grossas. clássica marca de absorventes. uma maleta. gravata e. Dialogando diretamente com o texto. não foram localizadas. A ilustração. ao tratar o tema com ironia. exatamente o item que resguarda o produto de higiene feminina. apresenta um homem com uma embalagem de Modess. que só ganha esse significado se aliado ao texto. no entanto. uma vez que. do homem que produz. apesar de conceitualmente não traçar uma charge. 193 Já afirmei em alguns momentos deste trabalho que minhas escolhas foram baseadas no caráter cômico das produções gráficas e Eliana Paiva enquadra-se perfeitamente nessa modalidade. o absorvente assume o protagonismo no universo masculino ao ser guardado e protegido por um símbolo do homem público. O mesmo vale para Anne Delcoigne e sua ilustração da sequência. queixo quadrado.

entrevista com a socióloga espanhola Helem Salem que durante uma viagem ao Rio de Janeiro. especificamente o texto É Preciso Mudar a Ciência. Há muitos homens talentosos no campo do humor . para participação em seminário promovido pelo Núcleo de Estudos da Mulher. 6. p. Anne. Novamente trago em destaque uma ilustração que integra um conteúdo escrito.194 Figura 43 Fonte:DELCOIGNE. contudo. Edição 4. Brasil. É provável que a leitora não encontre graça na imagem. afirmou que não bastava as mulheres ingressarem no universo da ciência. novembro-dezembro de 1981. Mulherio. organizado pela Pontifícia Universidade Católica (PUC). não há como negar uma certa subversão gráfica na sua forma e é por isso que a trago em destaque. Para ilustrar a entrevista o desenho de Anne Delcoigne representa a ciência como um muro de tijolos. era preciso que a ciência fosse produzida a partir de uma ―ótica feminina‖. Atravessando o muro é possível visualizar o espelho de Vênus.

Algumas cartunistas também deixavam claro a simpatia pelo movimento feminista de maneira muito direta e objetiva. como pode ser observado na charge da sequência. Dada a dificuldade de encontrar informações sobre a maioria dessas mulheres. mas sim de apontar que a socialização das mulheres e suas experiências de vida marcam de maneira muito significativa seus traços e abordagens. só posso cogitar certa empatia pelos debates feministas em muitos conteúdos gráficos humorísticos que problematizam as experiências das mulheres. . cartunista que também não encontrei maiores informações. mas ouso afirmar que as abordagens assinadas por mulheres são permeadas por sutilezas incomuns. mas em alguns é possível identificar intencionalidades muito claras em termos de apropriação de um debate feminista. com certa frequência. os muros. Elas também exploram. Na imagem a cartunista explora um dos lemas característicos dos movimentos feministas da segunda metade do século XX. geralmente indicadores do universo público. são essencialmente mais potentes em termos de reflexão. assinada pela artista Eva H. por exemplo. Não se trata de dizer que as mulheres são essencialmente mais propensas a fazer determinado tipo de desenho. Os temas escolhidos pelas mulheres. 195 gráfico e do desenho de maneira geral. O acabamento do desenho e um traço um pouco rústico insinuam que se trata de uma cartunista amadora e simpatizante do feminismo. O corpo cheio de curvas e sexualizado comum nas charges do O Pasquim não tem vez no desenho de Eva. principalmente quando elas se entendem como mulheres em uma sociedade em que o masculino – vide texto de Gloria Steinen – tem méritos por simplesmente existir.

Portanto. Edição 29. . corpo parcialmente nu. Trata-se de uma sereia sobre uma pedra. à mulher o que pertence à mulher. Brasil. mas pouco expressivo. minhas regras‖. ―Meu corpo é meu‖. a sereia faz uma defesa das muheres em níveis variados. 2. mas eventualmente ele faz aparições importantes. inclusive o mítico. sem opinião‖ ―Meu útero é laico‖ e assim por diante. O tema feminismo – por essência – não é o mais comum no humor gráfico feminista. O conteúdo da placa que a personagem mítica carrega é o que sela a mensagem final: ―Meu rabo me pertence!‖ Em uma analogia direta às palavras de ordem cunhadas por feministas no século XX. rosto sério.196 Figura 44 Fonte: H. Ainda hoje nas marchas das vadias que acontecem pelo país anualmente uma das frases mais comuns é exatamente essa. mas sem referências ao erotismo comum dos cartunistas homens. Mulherio. ―Sem útero. A sereia de Eva tem cabelos esvoaçantes. maio-junho de 1987. p. ―Meu corpo me pertence‖. Eva. seguido de suas variações como ―Meu corpo. mas sem movimento.

que também não localizei maiores informações. fundado para salvar jovens perdidas – certamente as mesmas jovens que subvertem a fachada do edifício–. no humor gráfico feminista publicado em jornais também feministas o importante era a potência da mensagem e a charge de Lilita. apresenta traços quase infantis. Ela integra uma pequena nota de junho de 1983 que informa que um edíficio chamado Bom Pastor em Roma. terem sido desenhados por uma criança. Figura 45 Fonte: LILITA. já explorada no capítulo anterior. Edição 13. 197 mesmo quando estão do lado das bandeiras feministas. praticamente uma boneca de palitos. a maturidade ou a beleza do traço. mas com uma mensagem poderosa. em muitos momentos. pouco interessa o profissionalismo. foi transformado em centro de lutas . A questão é que. Na imagem duas mulheres subvertem a fachada de uma Igreja em plena luz do dia. O ato de transformar a cruz em espelho de Vênus é festejado. Sol e nuvem poderiam. O traço infantil contrasta com a cruz de traço firme e definitivo bem como se diferencia de outros desenhos da cartunista que insinuam conhecimento no campo da arte gráfica. assim como a personagem que está no chão. maio-junho de 1983. é potente. A ilustração é totalmente real. sem dúvida. 20. Brasil. Mulherio. p. É muito provável que a autora da charge não fosse uma cartunista profissional A ilustração assinada por Lilita. perfeitamente.

há ainda uma série de permanências históricas que insistem em fazer sentido décadas depois. 343. Sírio. 288 POSSENTI. apesar de ser totalmente contextual. Brasil. a realidade é oscilante. 333-334. Entretanto. e de tantas outras que vou destacar a seguir. algo muito típico desse conteúdo. Há. faz apelo a um saber. ou. 2007. p. In: Filol. Praticamente todas elas são capazes de comunicar-se com uma leitora e um leitor de hoje. são marcadas por eventos específicos. Humor de Circunstância. um romance. O conteúdo de tirinhas diárias. grande parte das tirinhas e charges com conteúdo feminista parecem insistir em fazer sentido em pleno ano de 2016. Mas essa não é uma característica exclusiva do humor. como pode ser observado. apesar de algumas terem um alvo direto.287 pontuando o papel da Igreja Católica na promoção e perpetuação das desigualdades de gênero. Fato análogo pode fazer falhar um poema. a questão da memória partilhada e do reconhecimento.] o discurso humorístico.. 20. 9. podem ser associados de alguma forma). port. lingüíst. como é o caso do muro de Anne Delcoigne e a Igreja de Lilita. Os textos podem fazer apelo a memórias diferentes. a uma memória. Muitas das charges e tirinhas. por exemplo. que. um filme. maio-junho de 1983. de ―prazo‖ diferente (seja em seu aspecto psicológico.288 O referido autor dedica-se especialmente a questionar a premissa de que o humor é cultural. contudo. é descartado no dia seguinte e pode ou não fazer sentido anos depois. pelo menos. . pp. Edição 13. No caso das imagens destacadas até aqui. n.. certamente. De acordo com Silvio Possenti: [. creio. nos diversos gêneros textuais em que se materializa.198 pela emancipação da mulher. afirmando que é preciso justificar de outros modos um riso provocado em diferentes lugares do mundo por um mesmo dispositivo. p. O que o faz falhar é fundamentalmente a ausência dessa memória ou desse saber (exceto quando o que falha é uma associação verbal).. No caso do humor feminista essa justificação parece 287 Isso que é vingança! Mulherio. uma Casa da Mulher. seja em seu aspecto histórico. uma passagem de obras como essas. Em função disso há autores que defendem que tal tipo de produção é caracterizada pela efemeridade. Como título a nota ostenta um sonoro ―Isso que é vingança!‖.

290 Nesse sentido. Para a tarefa escolhi uma tirinha de autoria de Ciça e receosa preparei uma fala visando explicar um conteúdo humorístico. preocupações e público alvo. na Inglaterra. reforço: mesmo que contextual em termos de temática. 12. espanhóis. é uma verdade universal. é preciso ter em conta fenômenos como a globalização. Enquanto uma charge satirizando o ditador Figueiredo exige um aparato histórico para ser entendida hoje. o uso do humor como instrumento revolucionário pelas feministas é um recurso que extrapola a apropriação desta ferramenta de subversão. Em 2015. seu estilo de fazer humor teve objetivos diferentes. nossas teses fossem apresentadas e debatidas. todas pessoas presentes foram capazes de entender aquela mensagem. afinal. durante período do doutorado sanduíche na Universidade de Nottingham. Português e Estudos Latino- Americanos. portugueses. contudo. No evento estudantes de pós-graduação apresentaram suas teses para o corpo docente do Departamento de Espanhol. p. 1998. o poderio do riso compartilhado por tal conteúdo. econômico e político.Edição 2. 290 WALKER. cit. sem exceção. A tirinha em questão era a que abriu esse trabalho em que um pintinho questiona: ―Mãe. Nancy Walker ressalta que.. uma vez que as mulheres 289 CIÇA. irlandeses. que uma piada explicada perde seu potencial cômico. desigual em nível social. praticamente universal e compartilhada em escala macro. 199 residir na história de luta das mulheres. . 173. Mulherio. Brasil. inclusive em termos teóricos. o que por si só é um desafio. Junho-Julho de 1981. p. Certamente. argentinos e turcos. através de uma imagem. Reforço. bem como se concretizava de uma maneira distinta. op. as vezes mesmo quando fazem referência a personagens e eventos específicos. que permite uma intensa troca de informações pelo mundo. portanto. o humor gráfico feminista do Cone Sul parece conter em si uma mensagem universal que extrapola barreiras culturais e de tempo. A proposta era que. qual é o feminino de ser humano?‖289 Em um público composto por ingleses. pois ele aciona identificações de gênero que em diferentes culturas são compostas pelas mesmas assimetrias. tive a oportunidade de apresentar minha pesquisa em um fórum da pós-graduação. porque aquele questionamento fazia sentido para todas elas. nesse tipo de reflexão. Meu maior medo era não ser capaz de comunicar em inglês a mensagem de humor feminista que a tirinha possuia. em função da posição social que a mulher ocupa. a maioria das charges e tirinhas feministas são facilmente compreendidas.

maio-junho de 1983. como já dito. o universo doméstico. Na cena a mulher utiliza o produto enquanto o homem. Lila Galvão apresenta uma mulher sendo engolida pelo aparato doméstico.200 cartunistas. as expectativas culturais. p. . Novamente. pelo ataque violento. de algum modo. Figura 46 Fonte: GALVÃO. embora ela signifique por si só a difícil relação das mulheres com o trabalho doméstico. A queixa reside na condição passiva e silenciosa da mulher que em nenhum momento do comercial tem voz. Ao explorarem o absurdo. Lila. O texto faz crítica a uma propaganda da Walita que apresenta um novo modelo de liquidificador ao mercado. A próxima imagem que destaco tem autoria de Lila Galvão e satiriza um dos temas mais comuns no humor gráfico feminista e feito por mulheres. 23. Mulherio. as cartunistas mulheres subverteram os meios de fazer humor. muito marcada pela destruição. um homem negro – fato celebrado pela autora da nota – apresenta as maravilhas do novo liquidificador Walita. a imagem ampara e é amparada por um texto escrito. Reforçando o conteúdo do texto. Muito do que provoca o riso tem relação direta com o inesperado e é exatamente esse elemento que é acionado em muitos casos. construíam uma cultura do riso que se diferenciava da cultura do riso masculina. Edição 1. Brasil. as normas de gênero.

dialoga com o texto em termos de reflexão dentro do próprio feminismo sobre a questão do feminino. Sendo assim. que ele reforça a mensagem do texto escrito e ainda fala por si só. 201 Assim como a nota sobre a ocupação do prédio da Igreja em Roma pode ter seu significado universalizado. a mulher sendo prensada em um liquidificador de Lila Galvão também o pode. contudo. representa uma cultura que consome as mulheres até não sobrar nada delas mesmas. Na mesma linha seguem as duas imagens da sequência. O texto aponta o papel do O Pasquim no processo de desindentificação com o feminismo e ao mesmo tempo critica o feminismo que recusaria o debate sobre feminilidade. de autoria de Christine Roche e Roberta Mele O desenho de Christine Roche. Sobre a imagem é importante destacar dois elementos principais: primeiro a mão que empurra a cabeça para baixo e as duas mãos que se agarram nas bordas do copo. senão uma esposa sorridente que manuseia o liquidificador. O conteúdo de autoria de Eliane Robert Moraes é uma reflexão sobre a construção das feministas como não-mulheres. nitidamente. ao contrário dos já citados.291 a maioria dos conteúdos gráficos produzidos por mulheres e publicados nos jornais feministas possui uma autonomia quase inerente. que se seguram às bordas acompanhadas de um rosto assustado. portanto. A mão. A imagem. Não cabe aqui uma discussão sobre os problemas suscitados pelo texto em termos de discussão sobre sexo-gênero. Sua mensagem é apenas parcialmente comunicada se o texto de suporte não é lido. Não há como afirmar se esse tipo de humor gráfico foi produzido especialmente para ilustrar algum conteúdo específico. mesmo quando ilustrativos. 291 Ana Alice Alcântara Costa reforçou em sua entrevista que o conteúdo humorístico dos jornais costumava ter como objetivo ilustrar textos escritos. Já as duas mãos. É fato. escapar do sistema. Aqui nos interessa a informação visual inscrita no cartum. . não significa por si só. fazem referência a essas mulheres que tentam. sempre na linha do feminismo de protesto e não com foco no humor. ele é dependente do texto para que sua mensagem seja completamente compreendida. já que a autora afirma que ser mulher é uma identidade sexual. O título do texto que acompanha a imagem é uma interrogação: Feminista é mulher?. mas não conseguem.

Mulherio. Na capa da obra uma mulher é apresentada sentada sobre uma florida poltrona que. julho-agosto de 1984. Brasil. Christine Roche é uma cartunista britânica. mas a mensagem visual para se completar precisa ser amparada. a maternidade.‖ A mensagem só pode ser compreendida com as informações do texto que informa o receio das mulheres em se identificarem com o feminismo em função da pecha que o acompanha. Edição 17. . desse modo. fora da redoma. Nesse exemplo. 8. de uma feminista acusando uma mulher por ser uma mulher feminina. é viável supôr que o cartum teve seu conteúdo traduzido para o português. p. portanto. imagem e texto andam juntos. A cartunista em questão é assumidamente feminista e é citada por antologias britânicas que procuram narrar a história das mulheres no universo do humor gráfico. então. Ela também atuava como ilustradora. por sua vez. dedo em riste. com feição furiosa. a psicanálise. O texto escrito significa por ele mesmo. Em uma redoma com as mensagens ―carregue com cuidado‖ e ―frágil‖ uma mulher acuada é intimidada por uma outra mulher. escritora e diretora de cinema. uma crítica ao movimento que recusaria a feminilidade. Seu livro I’m not a feminist but publicado em 1985 apresenta uma série de charges que tem como alvo os homens. o que não é incomum nesse meio. Christine. Trata-se.202 Figura 47 Fonte: ROCHE. Christine Roche elabora. está sobre o corpo de um homem representado apenas pelas pernas saindo por sua lateral. A mulher livre da redoma afirma: ―Te acuso.

Brasil. 203 Já a charge de Roberta Mele passa uma mensagem certeira para toda a população brasileira familiarizada com a expressão ―mamar nas tetas do governo‖. Ethel. Tanto ela quanto a da sequência. 3. de autoria de Ana Maria Marques. seus candidatos e. . salve. pedimos a várias desenhistas que apresentassem sua versão gráfica do tema.‖292 O fato das imagens serem fruto de encomendas sugerem que se tratava de cartunistas brasileiras. Mulherio. no referido texto. novembro- dezembro de 1984. novembro-dezembro de 1984. foram uma demanda do jornal a cartunistas e ambas dialogam com o texto: ―Mátria amada. Ethel Leon. Mátria amada. Mulherio. 292 LEON. porém não foi possível localizar informações sobre elas. Roberta. Edição 19. salve salve. informa: ―Queríamos saber como algumas mulheres enxergam a sucessão presidencial. para isso. Brasil. Figura 48 Fonte: MELE. p. 3. salve‖. Edição 19. p.

Ana Maria. Ao fundo muitos olhares assistem a cena de amamentação que ilustra o texto que joga com a palavra pátria e a substitui por mátria. ao final. Maluf e Tancredo. p. portanto. novembro-dezembro de 1984. sugerindo que são as mulheres. os dois candidatos à presidência. de autoria de Roberta Mele. É válido lembrar que . Em 1984 a proposta foi rejeitada. Trata-se de uma referência ao movimento que se organizou pedindo eleições diretas e em apoio a Emenda Constitucional Dante de Oliveira que propunha reinstaurar as eleições diretas no país. Na primeira. Ana Maria Marques seguiu o mesmo rumo na tirinha em que uma mulher com placa pedindo por ―Diretas Já‖ apresenta-se feliz e satisfeita até ser surpreendida pelo pássaro que sobrevoa sua cabeça.204 Figura 49 Fonte: MARQUES. São três as imagens que integram o texto e foi possível identificar autoria de duas. Na tira é reforçado o papel das mulheres no movimento que pedia pelo retorno de eleições diretas no Brasil e já anunciava a forte participação que as mulheres tiveram na construção da Constituinte. que pagam pelos desmandos dos políticos homens. Brasil. Edição 19. 4. O par de óculos e a ausência de cabelos não deixa dúvidas de que o estereótipo do político brasileiro foi acionado. uma charge e uma tirinha. O conteúdo explorado por Roberta Mele e Ana Maria Marques reforça o caráter alternativo da imprensa feminista. uma mulher de seios fartos e olhar lânguido amamenta dois políticos. é uma referência a câmara de deputados que decidiu por manter eleições indiretas para o ano seguinte. Mulherio. O pássaro.

205 mesmo diante das barreiras enfrentadas pelas mulheres nos espaços de esquerda. Não se tratava de debater ―questões de mulheres‖.. consequentemente. a exemplo do Wimmen’s Comix fundado em 1972.‖ (WALKER.‖293 De acordo com a autora o humor feito por mulheres tem sido frequentemente apontado como mais gentil e distinto se comparado ao dos homens. cit. uma relação direta com os espaços de luta dos quais as mulheres faziam parte. Um dos requisitos necessários para qualificar o ato seria o status de ingenuidade da moça e 293 ―[…] o humor das mulheres tem sido descrito como mais suave e correto em comparação com o dos homens. mais interessado em empatia do que no ridículo. mais focado nas questões privadas do que as públicas. carestia e muitos outros tinham. seja ele escrito ou gráfico. Os debates sobre democracia. imagem que dialoga com uma entrevista intitulada ―Salvem-se as ‗ingênuas‖. p. 1998. Nancy Walker. . inclusive a nível institucional. analisando o conteúdo temático da literatura de humor. tradução nossa). mais interessado na simpatia do que no ridículo. Como já debatido em outros momentos deste trabalho o humor assinado por mulheres constantemente tem sido descrito como diferente do produzido por homens. A charge de Lilita Figueiredo ilustra a subversão entre público e privado promovida pelo humor gráfico feminista. p. uma vez que a compreensão de política e. como no caso dos exemplos de humor gráfico citados. a construção cultural das mulheres tem permitido a emergência de uma sensibilidade diferenciada em termos de humor e também em termos de estéticas visuais. luta de classes. quando a autora finaliza que o humor feito por mulheres tem mais foco no privado que no público. Tais características parecem ser apropriadas ao humor gráfico feminista publicado no Cone Sul. Mais afeito ao fazer rir do que ao escárnio. more concerned with wit than derision. portanto. foi nesse meio que elas encontraram um nível de acolhimento suficiente para que o debate feminista emergisse. more focused on private than on public issues. De fato. texto que explica o crime de sedução previsto no código penal. ela cria uma dissidência. more interested in sympathy than ridicule. tratava-se de refletir sobre política em todos os seus níveis. de público e privado. como também nos movimentos de mulheres cartunistas que se organizaram nos Estados Unidos. é reelaborada não só no humor feminista do Cone Sul. 173. afirma que: ―[…] women‘s humor has been described as more gentle and genteel than men‘s. contudo. mais preocupado com a perspicácia do que com o escárnio. assim como nos jornais alternativos sem uma perspectiva feminista.

Na charge Lilita Figueiredo cria um aparelho para medir os níveis de ingenuidade de uma mulher. Na charge o exame ―corpo delito‖ tem a função objetiva de identificar o crime. 8. no caso o delito de não ser ingênua. A localização da tira sugere que se tratava de uma leitora que enviou o material para o jornal e corroborando com tal premissa não foram localizadas informações sobre ela.206 é exatamente esse item que foi representado pela cartunista que demonstrou grande senso de oportunismo. É o caso da tira que compõe um espaço de divulgação das cartas e observações das leitoras. O debate feminista. portanto. O aparelho é ligado a um fio que. de autoria de Angela. Brasil. subverte as fronteiras entre público e privado e constrói novos conceitos de política que se expressam no humor gráfico. Há ainda um humor gráfico feminista que celebra o ―feminino‖. Mulherio. p. Lilita. a cartunista rompe as barreiras do que seria considerado privado – o corpo da mulher – ressaltando o absurdo do aparato jurídico legislar com tal parâmetro. embora ele seja bem menos comum nas publicações feministas alternativas. Figura 50 Fonte: FIGUEIREDO. Edição 19. . Satirizando a possibilidade de verificar se alguém é ingênuo ou não perante a lei e apontando que fatores como honra e moral são historicamente avaliados com base no corpo das mulheres. novembro-dezembro de 1984. com um bastão posicionado dentro da vagina da personagem cumpre sua função de verificar se a mulher é mais ou menos ingênua. o ingenuômetro.

Mulherio.‖.. em função de si ou em função dos outros. Ao mesmo tempo pode ser que se trate de uma mensagem que estimula o empoderamento. não sou espirituosa e nem muito inteligente. A personagem inicialmente afirma com traços de tristeza: ―Não sou charmosa e nem gostosa. 207 Figura 51 Fonte: ANGELA.. p. 2.... A tira passa uma mensagem bastante paradoxal.. O conteúdo é de difícil análise. . Edição 28.‖ Uma mensagem negativa de autodepreciação é encerrada por uma afirmação inversa: ―E meu nome é esperança. Brasil. O fato é que a essência da mensagem é de celebração. pois pode passar a mensagem superficial de que se trata de uma mulher insatisfeita consigo mesma e que quer mudar. pois a melancolia que acompanha os dois primeiros quadros é encerrada com uma mensagem positiva no terceiro. março-abril de 1987.

apesar da cartunista assinar nove histórias publicadas no jornal. já que esse uso não é tão comum nos jornais feministas. Mulherio. p. A imagem dialoga com o texto Inseminação Artificial no Brasil: Assunto Estéril. todas com a mesma personagem e . É uma referência direta ao que se convencionou chamar de bebê de proveta. A próxima imagem que trago em destaque é assinada por Cristina Burger e tem uma linguagem de quadrinhos bastante clara no que se refere à tradição e é por isso que a destaco. Brasil. esperança na mudança. Apesar de ter priorizado uma seleção de fontes que fizesse uso do riso esse exemplo não se enquadra nessa categoria. com um traço que lembra muito os quadrinhos estadunidenses. 7. técnica que avançou muito durante a década de 1990. de nome Esperança.208 proferida por uma mulher. não pude reunir mais informações. trata-se de Célia que. Para finalizar o item que apresentou 13 das 15 cartunistas publicadas pelo Mulherio – Ciça e Claire Bretecher são exploradas na sequência – destaco uma das mais interessantes cartunistas que figurou nas páginas do referido jornal. infelizmente. maio-junho de 1987. representa uma mulher segurando um tubo de ensaio com um feto. Edição 29. ou seja. Cristina. Figura 52 Fonte: BURGUER. A autora.

psicodélico. p. eventualmente abstrato e se assemelha um pouco ao que era feito no universo alternativo dos Estados Unidos na emergência dos Comix em 1960.294 Um olhar para a edição real do jornal exige certos segundos 294 ROBBINS. p.. 24. Brasil. cit. . Figura 53 Fonte: CÉLIA. setembro de 1987. op. 130. Mulherio. Edição 32. O traço da desenhista é bastante rebuscado. 209 integrantes do título Fantasmasia. A sequência sugere que os quadrinhos de Célia faziam parte de uma série ainda maior.

é com o ―Não‖ que ela é representada novamente livre das amarras sociais. traços e formas de Célia sejam organizadas na retina e formem uma narrativa com começo. 295 WALKER. 1º amor. Carmencita. ainda. Seu traço é marcante e sua abordagem é totalmente particular. Trata-se de uma referência à subversiva personagem da ópera Carmen. econômica e politicamente em relação aos homens. não é parecido com nada publicado em nenhum dos periódicos feministas do Cone Sul e. no entanto o contato com uma amostra do trabalho de cada uma nos permite. op. . seus traços. tudo isso acompanhada de uma postura de final ou início de espetáculo.. é uma produção absolutamente singular. construir uma impressão sobre suas produções que. talvez uma versão original de si mesma ou ainda uma femme fatalle. que costuma ser representada por traços incompletos e seios a mostra. suas preocupações.. suas abordagens e. Casamento. ao menos. desnivelada social. meio e fim. de George Bizet. determinou suas formas de fazer humor. tanto em termos de objetivos quanto meios295 e esse capítulo funciona como um panorama central para entender o lugar delas no universo do humor gráfico.210 para que as figuras. Nancy Walker destaca repetidamente que a posição social que as mulheres ocupam. Hoje eu estou mais pra.. Acompanhada dessa identidade ela ostenta um volumoso leque. apresenta seu dilema: ―Colégio. A maioria das cartunistas citadas e publicadas pelo Mulherio não teve informações sobre carreira e produção localizadas. em função dos detalhes visuais e do uso do abstrato. 173. na maior parte das vezes. O jogo estético e a construção narrativa das histórias de Célia sempre exploram os dilemas.‖ Até a negativa a personagem não tinha os característicos seios a mostra. como se Carmencita tivesse nascido para brilhar. são desconhecidas da história e do grande público. um grandioso vestido e um sorriso satisfeito. A personagem de Célia nega todas as oportunidades oferecidas pela vida e decide que será Carmencita. medos e avanços das mulheres. A personagem original era uma dançarina que usava seus talentos para seduzir os homens. simplesmente Carmencita. até que a personagem afirma: ―Não. vislumbrar sua existência. Debutante. embora lembre um pouco a estética alternativa de alguns quadrinhos estadunidenses. cit. 1998. Na história a personagem.‖ As ―possibilidades‖ resguardadas às mulheres são apresentadas junto às vestimentas que compõem tais identidades.

a abordagem feminista e política também se mostrava fator de diferenciação. Havia outras mulheres ilustradoras. p. o que ocorre até hoje. o cotidiano das relações entre homens e mulheres. mas não eram muitas – como ainda não são atualmente na imprensa. Da Guerrilha à Imprensa Feminista. as cartunistas identificadas são: Ciça.2 As Mulheres do Nós Mulheres e do Brasil Mulher As condicões de produção dos brasileiros Nós Mulheres e Brasil Mulher eram diferentes em comparação ao Mulherio. uma média de pelo menos 1. No jornais fundados em 1975 e 1976. . Cahu. Rosalina Santa Cruz. mas pela raridade de se ter mulheres como cartunistas na imprensa. 63. no Nós Mulheres.1 por exemplar. Amelinha e LEITE. Sandra e Mariza. [. o Nós Mulheres publicou nove charges e tirinhas assinadas por mulheres. apesar do modesto número de oito exemplares. Carmencitas e ―medidores de ingenuidade‖ eram praticamente impensáveis.. que não há garantias que seja a mesma cartunista publicada pelo Mulherio. Já o Brasil Mulher publicou uma única autora mulher. são muito marcantes. não só pelas personagens criadas. apesar do Nós Mulheres não contar com o talento do fotógrafo Chico Rezende para compôr suas capas. 211 4. O que os distinguia em especial era o acesso a recursos financeiros. como fez o Brasil Mulher. de forma lúdica e crítica.296 296 TELES. 2013. pois os primeiros jornais dependiam diretamente das assinaturas e da contribuição de integrantes e leitoras.. que retratam. Lila. Não havia receita através da publicidade e não havia nenhuma instituição financiadora por trás dos 17 exemplares do Brasil Mulher e 8 números do Nós Mulheres. ele contou com marcantes tirinhas de autoria de Ciça. Amelinha Teles e Rosalina Santa Cruz Leite. Mas. São Paulo: Intermeios. respectivamente. A construção do Feminismo pós-luta armada no Brasil (1975-1980). A variedade de autoras do Nós Mulheres e do Brasil Mulher é menor em comparação ao Mulherio. Nesse momento as discussões de classe tinham muito mais força. Apesar disso eles foram os primeiros periódicos feministas fundados no Brasil e foram fundamentais para a construção do feminismo do período.] as ilustrações de Ciça. ao explicar o projeto gráfico dos dois jornais destacam que.1. muito embora ambos tenham sido fundados pós-75.

de 1977. afirma que não considerava a produção da cartunista muito impactante. Em seus oito exemplares o Nós Muheres lançou três colunas de humor. A iníciativa foi apresentada formalmente na edição número 4. dentre os 297 GOIDANICH e KLEINERT. cit.298 Independente das memórias pessoais e afetivas que sua produção evoque. Maria Lygia Quartim de Moraes. quanto mais páginas. protagonizaram muitas páginas feministas. melhor. mas devido ao mercado estreito e solapado pelo similar extrangeiro (sic). além de ter criado a personagem Bia Sabiá especialmente para publicações ―femininas‖. e. livros de humor brasileiro.212 Cecília Whitaker Vicente de Azevedo Alves. Bom. p. mais conhecida como Ciça. do povo brasileiro. daí que. contínua. como leitora e como integrante da equipe do Nós Mulheres. fundamental na criação de uma cultura num país como este nosso. Ciça dividia espaço com Henfil em muitas delas. Entretanto. . engrossando os números que identificam a autoria de mulheres cartunistas nesses jornais. especialmente Bia Sabiá.297 Ciça era cartunista frequente no Mulherio e no Nós Mulheres. com direito a nota intitulada ―O Humor de Nós Mulheres‖ que anunciava o objetivo de construir uma coluna de humor. op.. é fato que as personagens de Ciça. Com personagens sempre em forma de animais a cartunista fez sucesso no Brasil e na Europa. revistas. tornou-se conhecida com sua série O Pato publicada em coletânea em 1986. alegre embora nem sempre o humor seja alegre. Foi colaboradora do O Pasquim e de muitos outros jornais. Ciça é um caso raro de mulher cartunista que alcançou fama no Brasil naquele período e ainda hoje. Os cartunistas brasileiros são excelentes. 95. De acordo com seu verbete na Enciclopédia dos Quadrinhos. Em 2008 publicou nova coletânea intitulada Pagando o Pato. em concorrência francamente desleal (―cobra preço de banana‖) não tem tido muitas oportunidades de explorar seu potencial. O nosso objetivo é criar uma página de humor dentro do nosso jornal. foi uma das poucas cartunistas mulheres lembrada na Enciclopédia dos Quadrinhos. obviamente. 298 Essas informações foram concedidas por Lygia Quartim de Moraes por ocasião de minha banca de qualificação de doutorado em 21 de novembro de 2014 e tiveram seu uso autorizado.

Nós Mulheres. p.. exatamente Ciça.‖ No segundo Bia chega em casa e sua expectativa só aumenta: ―La vem ele. março-abril de 1977.‖ No terceiro quadro o companheiro Heitor sequer abre o embrulho e já anuncia: ―Oi Bia! Olhaí que surpresa pra você.‖ No último e derradeiro quadro Bia é apresentada em 299 O humor de Nós Mulheres. Figura 54 Fonte: CIÇA. seis charges e tirinhas assinadas por mulheres. Brasil.. 9.. Ciça é apresentada às leitoras através de sua mais significativa personagem no meio feminista.. março-abril de 1977. Mariza e Sandra... Um belo e super moderno ferro elétrico para você passar roupas!. A passarinha. Brasil.. Ou será um vestido novo? Uma gravura? Quem sabe uns discos?. junto a seu companheiro Heitor. os quatro nomes de mulheres que publicaram em todas as oito edições do periódico. O texto não sugere em nenhum momento que a coluna seja protagonizada apenas por mulheres. 9. Bia Sabiá. protagoniza uma de suas cenas de questionamento sobre os papéis domésticos resguardados às mulheres... colecionamos para iniciar esta série. Deve ser aquele coleção de livros que eu queria tanto. p. que bom! Hoje é meu aniversário e o Heitor disse que tinha um presente surpresa pra mim..299 A coluna de humor foi apresentada e justificada pela necessidade de construir um espaço em que o humor nacional fosse privilegiado. existem mulheres cujo trabalho de alto nível. Nós Mulheres. No primeiro quadro Biá é apresentada voando pra casa excitada com a surpresa que a aguarda: ―Puxa. Cahu. Edição 5. Coluna de Humor. 213 conhecidos humoristas brasileiros. apenas quatro delas com autoria legível. afirma apenas que há muitas mulheres entre os humoristas brasileiros e é com elas que a coluna é inaugurada. Edição 5. .

flagrantes e caricaturas de gente entrevistada. Inicialmente em São Paulo. Nas mulheres nem se fala.. na verdade. trabalhando ininterruptamente como cartunista e ilustradora para um grande número de jornais e revistas. Desde que cheguei no Brasil. . no Rio. relata brevemente sua trajetória que teria começado aos 16 anos. Minha carreira como desenhista de imprensa começou aos 16 anos quando ainda estava cursando a escola de artes gráficas de Hamburgo (Alemanha).. vou fazer 19 anos de casa. Ela narra sua experiência em jornais do Rio e São Paulo e informa que trabalha há 19 anos no Estadão. p. presentes para ela própria usufruir. existia muito pouca concorrência nos primeiros tempos entre os desenhistas homens. Durante os anos ―50‖ fui chargista da Tribuna da Imprensa. segundo Amelinha Teles e Rosalina Santa Cruz Leite. No Estadão.214 lágrimas e soluçando diante de um Heitor com feições de incompreensão: ―Mas o que foi que eu fiz?‖. ele pergunta. onde atualmente faço exclusivamente charges para a política nacional. A cartunista.] histórias em quadrinhos para mostrar o interesse de trabalhadoras em 300 TELES e LEITE. mas também com um pequeno relato da ilustradora que é de naturalidade alemã. Especialmente porque no início eu fazia ilustrações para reportagem. não apenas em termos estéticos. Destaco especialmente o segundo quadro. Naturalizada brasileira desde 1952. depois no Rio de Janeiro e de novo em São Paulo desde 1962. Sobre as dificuldades de se afirmar no campo a cartunista afirma que não havia muita concorrência no Brasil no período. quando a passarinha imagina que tipo de presentes irá ganhar. teria produzido ―[. Na tira Ciça satiriza um clássico dos erros cometidos por companheiros e filhos em datas comemorativas ao presentear mulheres com utensílios domésticos. cit.300 Cahu. 64. Todos os itens que ela cita são. cujo verdadeiro nome é Wilde Weber. principalmente entre cartunistas mulheres. Na mesma coluna o público é apresentado a Cahu. campo onde me encontrava praticamente sozinha naquela época. não encontrei dificuldades na minha profissão.. estou no Brasil há 44 anos. op.

O fato da criança. novamente um muro protagoniza o humor gráfico feminista. estar sobre os ombros da mulher sugere que ela o estava ajudando a pular o muro. 9. p. ela tentava derrubar. cit. indicando que enquanto ele tentava pular. Coluna de Humor. As mãos do menino não são representados de maneira tensionada como as dela. op. são desenhados de modo a mostrar força em direção ao muro. Brasil. . Figura 55 Fonte: CAHU. um menino. mas é possível elaborar algumas possibilidades a partir da imagem. 9. p.‖301 Não fosse o próprio relato de Cahu. A partir da charge não é possível levantar questionamentos muitos específicos. Nós Mulheres. Nós Mulheres. março-abril de 1977. É possível presumir ainda que o muro estivesse caindo de maneira acidental e que a mulher 301 O humor de Nós Mulheres. Edição 5. contudo.. Os braços da mulher. não teríamos mais informações sobre ela que na coluna de humor inaugurada pelo Nós Mulheres foi representada por uma charge em que uma mulher e uma criança derrubam um muro. 215 participar do Congresso das Metalúrgicas. assim como a inclinação de seu corpo indicam um impulso contra a parede. Por outro lado a inclinação e as pedras soltas nas laterais e bordas indicam sua queda.

Nós Mulheres. é relevante observar que tratava-se de uma mulher e uma criança transpondo um muro. JT. Em suas mãos uma enorme pena é usada para pintar o chão. Peço atenção especial a mão que segura a pena. Figura 56 Fonte: SANDRA. Essa é a única informação que temos sobre ela e o tema escolhido por Sandra colabora exatamente na problematização do ingresso das mulheres no universo do desenho. p. o mesmo chão em que ela pisa. sugere que se trata da subversão da representação de uma vassoura. rompendo com algo. Uma interpretação possível é. Na mesma coluna foi publicada charge de Sandra. Tal interpretação parece . com a colaboração da pena gigante. não é um toque característico para alguém que pretende desenhar e escrever. Independente da interpretação que pareça mais adequada à leitora. A cena sugere que a representação de uma mulher desenhando deveria ser tão natural quanto a de uma mulher que varre a casa. que se trata de uma tentativa de naturalizar o ingresso das mulheres no universo do desenho. março-abril de 1977. Coluna de Humor. Na charge uma mulher é representada como uma lata de nanquim. 9. é um toque rústico que. portanto. referenciada como integrante da equipe do Jornal da Tarde. Há ainda a possibilidade da imagem significar o papel fundamental da mulher na criação das crianças. Brasil. Edição 5.216 estava apenas pocurando segurar-se.

302 Uma das poucas cartunistas que fizeram parte da jornal recebeu seis linhas em seu verbete que excluiu seu trabalho no jornal. . o que a charge publicada no Nós Mulheres demonstra ser falso. A charge do Nós Mulheres. op. uma vez que a estréia da coluna procura dar visibilidade a elas. 217 bastante possível. Mariza. contudo. cit. em 16 de outubro. não teve essa parte de sua biografia citada na Enciclopédia dos Quadrinhos. De acordo com os autores: Mariza Dias Costa nasceu no Rio de Janeiro. Nelma Quadros. Movimento e Jornal do Brasil. Mariza. Mariza Diaz trabalhou também como ilustradora da coluna de Paulo Francis – seu companheiro de O Pasquim – e atualmente ilustra uma coluna de psicanálise na Folha de S. apesar de ter feito parte do grupo. 302 GOIDANICH e KLEINERT. colaborou em Ovelha Negra. 302. curiosamente. p.. questiona a formação do inconsciente masculino. A equipe do O Pasquim não contava com muitas mulheres. também mereceu espaço na coluna. cartunista do O Pasquim. Seus melhores trabalhos em quadrinhos foram publicados pela revista O Bicho (Os Mestitofinhos) e Ficção Quadrinhos (Traca-xinol óvulos). lançar livros e investir em trabalhos autorais. assim como outras referências sobre a autora. D. Paulo. muito embora sua edição comemorativa lançada pela editora Desiderata tenha sido dedicada à secretária do jornal. não teve tal informação citada em seu verbete. Apesar de ser uma das poucas mulheres que integraram o time do O Pasquim. além de fazer exposições. é como se Mariza nunca tivesse passado por lá. Como cartunista e quadrinista desde 1974.

Coluna de Humor. Lila Galvão. A última cartunista dos jornais brasileiros que trago em destaque é Lila. no entanto os traços nas diferentes charges produzidas por diferentes assinaturas me fizeram optar por apresentar uma amostra de cada. em charge já analisada em capítulo anterior. 9. desenhista com traços delicados. uma mulher questiona um homem que é representado de braços dados a uma enorme mulher com características bestiais: ―Você e seu inconsciente. Na charge que hoje facilmente poderia ser utilizada para ilustrar a exclusão do O Pasquim do verbete da cartunista. Edição 5. 63. que se trate da mesma artista.‖ Em um jogo visual e textual a cartunista brinca com o inconsciente masculino sobre o feminino e ao mesmo tempo o confronta com uma mulher real e questionadora. p. cit. Lilita Figueiredo e Lilita são a mesma pessoa. p. 303 TELES e LEITE. De acordo com Amelinha Teles e Rosalina Santa Cruz Leite trata-se de Lila Figueiredo. Brasil.. março-abril de 1977. op. .218 Figura 57 Fonte: MARIZA. Nós Mulheres.303 Não foram encontratadas outras informações sobre ela e uma variação do mesmo nome não permite garantir se Lila. É muito provável que sim.

no que tange a participação das mulheres no Brasil. p. Lila Galvão. como é no caso da crítica à BEMFAM. junho de 1977. Edição 7. assinada por Lilita. ainda é um universo complexo e de difícil avaliação. A charge de Lila dialoga diretamente com o conteúdo de matérias que defendem os interesses das mulheres. obedece ao mesmo princípio. as antologias concedem poucas pistas sobre elas . ou mesmo de Lila – que pode ser ainda Lilita. através deles. O campo do humor gráfico. Os jornais brasileiros. 219 Figura 58 Fonte: LILA. Brasil. são os que apresentam maior variedade de autoras. Por outro lado. em maior número. foi possível perceber que cartunistas renomadas como Mariza e Ciça tiveram passagens pelos alternativos feministas. afinal. A charge de 1983 publicada no Mulherio e que subverte a fachada de uma Igreja. Lilita Figueiredo. como é o caso de Célia. Informações específicas sobre o cenário nacional indicam ainda que a produção de Lila era feita sob encomenda. mesmo que muitas vezes não tenha sido possível elucidar muitos elementos sobre elas. 7. Brasil Mulher.

do Cotidiano Mujer (E do Nos/Otras e La Micrófona) O cenário dos quadrinhos e do humor gráfico argentino é marcado pela simbólica figura de Quino e sua famosa personagem Mafalda.3 As Mulheres do Persona. Os outros países do Cone Sul viveram um cenário semelhante em termos de participação de mulheres no universo do humor gráfico. 4. . assim como o Brasil. podia acontecer a partir de uma encomenda sobre determinado tema.1. mas objetivos bastante congruentes. foi inicialmente desenvolvido para uma campanha publicitária. também conta com autoras mulheres em suas páginas. Em 1969 foram publicadas na Itália com apresentação de Umberto Eco e daí em diante rodaram o mundo. Foi também a partir da publicidade que emergiram as tirinhas nos Estados Unidos. 390. o país viveu a emergênia de uma imprensa com caráter feminista e. permanece viva na memória de velhas gerações. semanário informativo. Em 1973 Quino aposentou Mafalda e seguiu sua carreira. de maneira geral. mas muitas cartunistas não profissionais também produziam charges e tirinhas. assim como conquista as novas. Entre a profissionalização e o voluntariado oscilam diferentes traços. Colaborações de profissionais eram demandadas e oferecidas. Recentemente a produção de Maitena. não surpreendemente. Entretanto. p. O uso de charges e tirinhas.. eram horizontais.304 A personagem. Vale lembrar o modelo das redações dos periódicos alternativos que decidiam suas pautas e conteúdos em reuniões que chegavam a durar dias. As discussões eram sempre acompanhadas de um vasto número de pessoas e as decisões. tem conquistado o público argentino. Além disso a reprodução de charges e tiras era frequente. é isso que sabemos – no Brasil – sobre o humor gráfico na Argentina. criada em 1964. A proposta do cartunista argentino. contudo. Persona. de debater o cotidiano de uma família de classe média. Logo as tiras de Quino perderam seu caráter publicitário e começaram a ser produzidas de maneira regular e publicadas na revista Primera Plana. Companheiras de luta ou de jornal eram convocadas a produzir humor gráfico. portanto.220 e uma pesquisa extensa em arquivos a procura da autoria das mulheres ainda é um esforço a ser empreendido. op cit. jornal que tem a 304 GOIDANICH e KLEINERT. Formalmente. criada entre 1993 e 1994. especialmente a série Mujeres Alteradas. por exemplo.

221 maioria de suas charges assinadas por mulheres. Feminita. não localizei informações sobre a autora. até mesmo. . assim como o próprio jornal feminista argentino Persona. enquanto Sylvia Bruno e Nuria Pompeia publicaram. Seu traço é simples. respectivamente. Quino. a partir de uma linguagem inocente e infantil. Apesar da recorrência da cartunista nas páginas do Persona e de Feminita integrar. o jornal privilegiava as mulheres. teve duas de suas tiras publicadas no jornal. a personagem costumeiramente triste. evoca as mulheres a integrarem organizações feministas. A cartunista costumava enumerar as cenas protagonizadas pela menina que sempre aparecia solitária e refletindo – no caso dos exemplares a que tive acesso. pode ser confundida com uma boneca da pano. como é o caso da história reproduzida na sequência. Portanto. a personagem. representa uma série de insatisfações que marcavam as mulheres do período. A personagem. uma vez que seu corpo não tem formas definidas. é uma menina que convida as mulheres a refletirem sobre as amarras que as prendem e. A personagem mais frequente de Sylvia Bruno é uma menina que protagoniza as tiras intituladas Feminita. Feminita é como uma boneca em construção. em especial. uma série. são singulares por explorarem de maneira direta o humor gráfico para problematizar o próprio feminismo. aparentemente. quatro e cinco charges e tirinhas. Suas histórias sugerem um nítido engajamento feminista e político. também explorou o tema feminismo com muita frequência. por vezes. o grande expoente do humor gráfico argentino entre as décadas de 1960 e 1970.

apontar um papel ao qual ela simpatiza. ao final. Na cena 2 ela novamente pensa: ―Iglesia? . Na cena 1 a menina pensa: ―F.. a personagem destaca a restrição do espaço que é dedicado apenas aos homens. p.‖ Fazendo referência a sigla utilizada para referir-se às forças armadas argentinas. novembro de 1974.A. mas que reserva lugares específicos a elas e nunca os de poder. Edição 2. Argentina.A? Solo para varones. Persona. Na cena 3 a ..‖ Ela cita novamente uma instituição. a Igreja..F.. ni siquiera el derecho de decidir que una no quiere ser papisa. Na tira em destaque a menina questiona os papéis reservados a ela para.222 Figura 59 Fonte: BRUNO. Sylvia. dessa vez uma que aceita às mulheres. 51.

como o laço na cabeça. uma feminista. além disso a cartunista ficou famosa como uma das poucas cartunistas mulheres que atuavam na Espanha em plena ditadura Franquista. ela anuncia que quando for adulta algo irá mudar.F‖. é uma brincadeira com a expressão feminino e feminista. ela é uma criança. periodista y escritora . Feminita tem marcado na pele o símbolo do feminino. Pionera del movimiento de liberación de la mujer en España. desse modo. A personagem. já que não se tem notícias de mulheres em tais funções. identifica-se como mulher e é feminista. que no participaba de las reivindicaciones del movimiento feminista. Núria Pompeia fue una de las pocas mujeres que consiguió un espacio en la prensa de los años 70 para analizar la realidad desde un punto de vista feminista. como o era a Mafalda de Quino.. questiona-se e questiona o mundo ao seu redor. su obra es el resultado de un compromiso que no sólo se enfrentaba a la falta de libertades de la dictadura. a melancolia por seu destino que é determinado pela cultura e pelas expectativas de gênero que a cercam dá lugar a um sorriso final. com um sorriso no rosto e um panfleto com símbolo do feminino nas mãos ela afirma: ―voy a pertenencer al M. O mesmo vale para Nuria Pompeia. mas seu nome Feminita. em especial. A tristeza deu lugar a um sorriso e um tom decidido e autônomo. O conteúdo de sua produção publicada pelo Persona deixa claras suas convicções políticas e ideológicas. Sua representação de tristeza é comum nas outras tiras. definitivamente. A cartunista criadora de Feminita era. Na cena final. assim como adereços considerados de mulheres. mas nessa. a segunda cartunista que publicou no jornal argentino. O maior dos questionamentos é. Y por si fuera poco. integrar o MLF. quando ela decide integrar um movimento que lhe garanta escolher o que ela quer ou não ser. porque quando a menina crescer ela irá integrar o Movimiento pela Liberación Femenina. Na cena 4: ―Cuando yo sea grande.L. talvez uma boneca de pano. sem dúvida. a las reacciones de la burguesía catalana de la que formaba parte esta dibujante.‖ a personagem substitui as lamentações e as feições tristes por um braço em riste e o princípio de uma mudança. Profissões como astronauta são apresentadas como um privilégio masculino. 223 menina continua: ―Astronauta? Jocketa? Torera? Alguna vez una?‖. A menina questionadora. también a la incomprensión y la falta de apoyo de parte de la izquierda antifranquista. Seu corpo não tem muitas formas.

224 que llegaría a redactora jefa de la revista Por Favor. ele sorri e praticamente celebra sua condição de dominador em relação à personagem dominada. Argentina. ação que ele desempenha com muita satisfação. o homem. Foi provavelmente com base nessa identificação política que o jornal publicou alguns dos trabalhos da cartunista. entre eles a charge que trago em destaque. A mensagem do imagem é crua é agressiva. maio-junho de 1981. Com uma trajetória semelhante a das mulheres argentinas e das outras militantes do Cone Sul. Persona. O homem representado na imagem tem feições singulares se comparado a outras personagens homens traçados por mulheres. 305 Disponível em: http://www. Edição 7. Nuria. trata-se de um homem dominando uma mulher como se ela fosse um animal. Na imagem. em um espaço artificial e espetacularizado. com uma mensagem muito direta. com um chicote e um arco na mão assiste sorridente a uma mulher desempenhando o truque que costuma ser feito com cachorros e outros animais. a partir do comando do domador. A mulher é apresentada saltando o arco. 305 A segunda cartunista que figura nas páginas do Persona é uma famosa militante de esquerda espanhola que através do humor gráfico levantava a bandeira do movimento pela liberação feminina. provavelmente. .com/nuria-pompeia/ Acesso em 11 de dezembro de 2015. Figura 60 Fonte: POMPEIA. um homem representado como um domador. Ele está feliz. p.culturaenaccion. 12. Nuria Pompeia via-se diante do autoritarismo da ditadura e da incompreensão dos movimentos de esquerda do período. a mulher. o circo.

225 A linguagem de Nuria Pompeia não é sutil ou singela. no de ataque. como oportunista. Célia. . devota y abnegada para el que le habían educado. Además de ofrecer su testimonio sobre la situación de la mujer. tirinhas e cartuns. integram um mesmo esforço de questionar o paradigma do humor gráfico como algo masculino e ainda avançam ao problematizar questões de interesse das mulheres e das feministas. Nem todas cartunistas que publicavam em jornais feministas podem ser simplesmente identificadas como feministas. O homem não foi apresentado como uma vítima do sistema. como machista ingênuo. mas não há dúvida que existia no mínimo uma simpatia com as causas tão comuns em suas charges. al que concebía como ―un arma.306 O trabalho da cartunista é marcado por sua experiência como mulher que encontrou no humor gráfico uma maneira de combater o que considerava errado no mundo. com traços e abordagens mais sutis se comparados ao exemplo de Nuria Pompeia. sua charge era nitidamente combativa em sua própria forma. Venho defendendo a existência de um humor gráfico feminista explorado como instrumento de luta e subversão na mão de mulheres que historicamente e – na historiografia – costumam ser citadas como alvos corriqueiros do humor. a única autora mulher identificada no humor gráfico publicado pelo jornal. sino de defensa ante lo estúpido y grotesco que puede llegar a ser el mundo‖. Lila. Cahu e tantas outras. Relembro que a cartunista também assinou alguns quadrinhos 306 Disponível em: http://www. su trayectoria profesional refleja una actitud combativa para cambiar la realidad desde el humor gráfico. exatamente o humor gráfico que era explorado por mulheres no período. No uruguaio Cotidiano Mujer é uma cartunista francesa que figura na autoria de uma história em quadrinhos. Y Pompeia se rebeló contra las imposiciones de su entorno burgués al rechazar el rol de mujer sumisa. ―La opción es muy clara: te rebelas o te resignas”. arrisco dizer que tratava-se sim – e por que não? – de um ataque com uma arma poderosa. Ele é um vilão. Claire Bretecher.culturaenaccion.com/nuria-pompeia/ Acesso em 11 de dezembro de 2015. Ciça. A citação destaca que ela utilizava o humor como arma de defesa e não ataque. contudo.

More Frustration e Still More Frustration. Cotidiano Mujer. muito embora seja sensato supôr algum nível de influência dos debates feministas no seu trabalho. incluido nele o casamento. todas obras que satirizam o universo das mulheres. Em sua página pessoal a cartunista se identifica como humorista socióloga e não reconhece nenhuma relação com o feminismo. a maternidade e o trabalho doméstico.226 publicados no brasileiro Mulherio. p. O trabalho da cartunista francesa se concretiza sempre no modelo de pequenas histórias em quadrinhos. 3. apresenta uma mulher em um dia comum em casa. Figura 61 Fonte: BRETECHER. Edição 3. com texto traduzido para o espanhol. no trabalho. Entre suas coletâneas destaco Frustration. Claire. novembro de 1985. no mercado. A posição que parece amadurecer ao longo . A história. integrante da série Frustradas. no transporte público. Durante o dia seus pensamentos são todos dedicados a tomar a decisão de pedir o divórcio. como pode ser observado na sequência. Uruguai.

mas que permitem estabelecer relações importantes.html Acesso em: 11 de dezembro de 2015. 68. Em entrevista ao jornal Público. sendo publicada. quando ela beija o companheiro sentado ao sofá e decide que irá conversar sobre o divórcio no dia seguinte. no livro Marcas da Fantasia – com histórias diversas –. enquanto no Brasil ela foi publicada apenas uma vez. inclusive. da Espanha. em 2011. nem em seus livros.idSource=FR_E- 6722aeffb9efebf88c6ed4ddfef4179&param.es/actualidad/diana-raznovich- convencida-soplo-buen. embora tenha publicado muitos livros de humor gráfico e alcançado ainda mais fama através deles. grupos editoriais da Espanha publicaram coleções inteiras assinadas pela cartunista. Segundo Hiron Goidanich e André Kleinert.action?param. seus desenhos têm traços rebuscados. há um posicionamento definitivo sobre isso.308 Bretecher é. Bretecher sublinha o obscurantismo das relações enfrentadas pelas mulheres.centrepompidou. p. trabalhadoras e donas de casa. Claire Bretecher teria aberto o caminho do debate feminista no cartum francês com sua produção. organizado por Henrique Magalhães. 309 Disponível em: http://www. A última desenhista que destaco é Diana Raznovich – nascida na Argentina –. 308 Ibidem.publico.seance=20151130 Acesso em 11 de dezembro e 2015. o cotidiano de mães. sombras estratégicas e um ar sombrio. A cartunista tornou-se conhecida como escritora e dramaturga. uma profissional do ramo.id=FR_R- 6722aeffb9efebf88c6ed4ddfef4179&param. apesar de ser sensato supôr que suas reflexões tivessem forte influência feminista. autora de duas tiras: uma publicada no chileno Nos/Otras em 1988 e uma publicada no paraguaio La Micrófona em 1990. principalmente pela projeção mundial que ela alcançou. mas de um modo melancólico.fr/cpv/ressource. porque está muito cansada. sem dúvida. jornais que não são foco direto de nossa análise.307 Entretanto. a autora afirmou que o humor é uma arma para derrubar barreiras. De acordo com um dos maiores museus de arte moderna da França.309 Como Nuria Pompeia. em periódicos feministas do Brasil e do Uruguai. . 227 da rotina diária é desfeita ao final. nem em seu endereço virtual pessoal. A cartunista problematiza. Enquanto Ciça aponta os machismos cotidianos de maridos como Heitor de maneira leve. a artista argentina também traçou uma história de lutas na Espanha. através do humor. problematizando temas de interesse feminista e lutando pela igualdade 307 Disponível em: https://www.

outono de 1988.‖ Enquanto na terceira cena elas se questionam: ―Somos el . possibilitando a criação de uma vida própria. Nas duas primeiras cenas as personagens são apresentadas: ―Dos mujeres. transcender a condição dada.228 de gênero.. Nos/Otras. p.. sobrepôr. Diana.. Luchando por la vida. Figura 62 Fonte: RAZNOVICH. principalmente em relação à rotina. Chile. Na imagem é a transcedência do feminino que é colocada em questão.11.. Na tira a autora problematiza a transcedência. superar. Ainda de acordo com o jornal Público ela teria alcançado notoriedade no país a partir da luta pelos direitos das mulheres na década de 1970. conceito filosófico existencialista que de maneira mais objetiva significaria ir além.

É necessário destacar. é apenas intitulada ―Búsquedas‖. indicando um esforço de construção de um feminismo. é ainda desconhecida em sua maioria. assim como apontar que esse é um mercado difícil até para eles. 229 simbolo de que?‖ Para finalizar com uma conclusão complexa: ―Creo que es inútil buscarle transcendencia a la rotina. as dezenas de charges e tirinhas que eram publicadas sem nenhuma identificação. É válido utilizar argumentos que justifiquem tal ausência pelo número menor – em relação aos homens – de mulheres no universo do humor gráfico. outras por mulheres que apenas apreciavam a arte gráfica. com influência dos debates feministas entre as décadas de 1970 e 1980. pois a problemática da imagem leva a uma reflexão que não atravessa dispositivos cômicos. Charges e tirinhas feministas mostram que uma das mais ricas possibilidades era exatamente fazer uso do riso para questionar uma cultura assimétrica e injusta. ou mesmo de um movimento de mulheres. Inés!!‖ Na tira a transcendência não poderia ser alcançada via rotina. também é válido apontar que elas são em número muito maior do que supõe a maioria das antologias que prometem apresentar um panorama do humor gráfico. na imprensa feminista. ainda. em que a individualização da assinatura não era uma obrigatoriedade. horizontal. construindo uma ponte direta com Simone de Beauvoir que apontava as mulheres como ―prisioneiras‖ da imanência e incapazes de transcender. de maneira geral. Tais fontes demonstram o esforço das mulheres de tomarem para si a condição de sujeito que faz rir. algumas por profissionais do campo do humor gráfico. mas a amostra possível de ser levantada a partir dos periódicos feministas apresenta-nos um olhar novo sobre uma produção que constantemente tem sido ignorada. Apesar de Diana Raznovich fazer amplo uso do humor em seu trabalho. . é de liberdade e de apreço pela militância que não precisava ter nome. A relação com a autoria. As mulheres exploraram amplamente o humor em suas mais variadas possibilidades. esse não é o caso. A produção de mulheres cartunistas no Cone Sul. A tira não acompanha nenhum texto. Entretanto. São muitas as charges e tiras assinadas.

230 .

. com acesso à bibliografia estadunidense. muito embora tenha encontrado vasto número de livros e de artigos que se dedicassem ao tema humor. os homens produziram humor gráfico com perspectiva feminista e foram amplamente publicados por periódicos alternativos também feministas do período. no entanto. Nesse sentido . permitiram um outro olhar para as minhas fontes. 231 5. podendo ou não. me inspiraram a pensar. tive a possibilidade de conhecer estudos que enfocavam o humor feminista e. Não são todas as fontes selecionadas para esta tese que permitem tal afirmação. fiz uso de esforços matemáticos que. em termos de humor. uma vez que a solidão de pesquisa inicial parecia ter desaparecido. situação que mudou quando. informam que. O fato das tirinhas e charges publicadas em periódicos feministas do Cone Sul terem um foco ideológico e político muito nítido e uma proposta de humor que fugia do convencional fizeram com que minha análise fosse um tanto solitária. a questão do riso de mulheres. em termos numéricos. Isso porque enquanto pesquisava no Brasil encontrava bastante dificuldade em problematizar o tema do humor feminista. se não atendem a esse questionamento diretamente. históricos e culturais que podem ajudar a responder tal questionamento. sociais. portanto. Diante da generalização frequente de autoras como Nancy Walker e Regina Barreca. julguei importante tentar responder à pergunta: podem os homens produzir humor gráfico feminista? Para além dos esforços filosóficos. O contato com pesquisas que se preocupavam com as questões de gênero no que se refere à construção do riso e do humor. uma vez que tive acesso a amostras diferentes de cada jornal. CAPÍTULO 4 . entre outras coisas. ao menos. O confronto com textos que questionavam – de maneiras bastantes distintas – os usos e abusos das relações de gênero. as publicações que permitem. no papel da autoria do humor gráfico. bem como ao humor feminista e ao riso feminista. Por outro lado precisei enfrentar um desafio. consequentemente. me vi amparada. que referiam-se ao humor de mulheres ou ao riso de mulheres. políticos. apontar a forte participação dos homens na produção humorística feminista não deixa dúvidas que o campo do humor gráfico.OS HOMENS CARTUNISTAS E OS HOMENS NO CARTUM Durante o período do doutorado sanduíche tive a possibilidade de ampliar as bibliografias que dissertavam sobre a construção de um riso feminista. já que não são poucas as tirinhas e charges publicadas em períodicos feministas com autores homens.

sendo 28 assinadas por mulheres e 41 por homens. identificar a autoria de 71 charges/tirinhas que são distribuidas da seguinte maneira. no caso do Mulherio. O Mulherio. É importante . sendo impossível afirmar sua origem.232 um campo dominado pelos homens. apresentava obstáculos para as mulheres. Do número total. enquanto 28 charges/tirinhas são assinadas por mulheres. São 71 charges e tirinhas com autorias identificadas. publicado entre 1981 e 1988. É possível. contudo. Gráfico 1 Mulherio. dez charges/tirinhas não tiveram sua assinatura identificada. mesmo quando em espaços feministas. No seu universo total de exemplares foram localizadas 102 charges/tirinhas que estão quantificadas em termos de autoria no gráfico da sequência. Brasil (1981-1988) Autoria de Charges e Tirinhas 50 41 40 28 30 21 20 10 10 0 Sem Autoria Ilegível Autoras Autores Mulheres Homens * Em 40 exemplares que circularam entre os anos de 1981 e 1988 (do número 0 ao 39) foram publicadas um total de 102 charges e tirinhas. maior que o número de mulheres. Ele foi preservado de maneira eficiente e encontra-se disponível integralmente para acesso online e gratuito. apresenta-se como a amostra ideal para tal avaliação estatística. prática bastante comum no período. seja em função da qualidade do suporte físico ou em função da dificuldade de reconhecer a assinatura em si. O número de homens identificados como autores é. sendo que 21 não apontam autoria e 10 têm autoria ilegível. como demonstram as maiores fatias do gráfico: 41 charges/tirinhas são assinadas por homens. Sendo assim. os 40 exemplares publicados entre os seus oito anos de circulação foram passíveis de análise. Outras 21 não contém assinatura.

maior que o número de homens autores. apesar de confirmarem certo equilíbrio. portanto. uma vez que foi possível ter acesso a todos os oito exemplares publicados durante sua existência. tive acesso a apenas nove exemplares que circularam entre os anos 1975 e 1977. é ideal. Em termos de distribuição da autoria: nove são assinadas por mulheres e oito são assinadas por homens. O Brasil Mulher foi publicado entre 1975 e 1980. Das 22 charges/tirinhas localizadas no jornal. As amostras seguintes. Novamente é preciso atentar ao equilíbrio que esta diferença de uma charge/tirinha sugere. Brasil (1976-1988) Autoria de Charges e Tirinhas 10 9 8 8 6 4 3 2 2 0 Sem Autoria Ilegível Mulheres Homens * Em 8 exemplares que circularam entre os anos de 1976 e 1978 (do número 1 ao 8) foram publicadas um total de 22 charges e tirinhas. O número de mulheres autoras é. três têm autoria não identificada e duas não são assinadas. apontam uma distribuição relativamente igualitária de autoria em termos de identificação de gênero de suas autoras e autores. É relevante lembrar ainda a dupla militância que imperava no referido jornal. o que fazia com que a autoria fosse um fator . Os dois periódicos que estou assumindo como amostras ideias. são parciais. em função de ter acesso à coleção completa. a amostra do Nós Mulheres. para esta pesquisa. Assim como o Mulherio. mas parcial. sendo 9 assinadas por mulheres e 8 por homens. entretanto. sendo que 2 não apontam autoria e 3 têm autoria ilegível. São 17 charges e tirinhas assinadas. como demonstra o gráfico. 233 percebermos que a diferença de 13 charges/tirinhas aponta algum nível de equilíbrio. A quantificação de autoria não é absoluta. publicado entre 1976 e 1978. Gráfico 2 Nós Mulheres.

o Nosotras. cartunista que não foi possível localizar mais informações. Mesmo sendo apenas uma amostra parcial. uma vez que a política editorial do jornal. .234 negligenciado em todas as suas colunas. ou mesmo as condições em que ele era produzido. foram publicadas cinco charges. dado o difícil contexto de sua produção. não permitem que hoje sejam feitas análises que contemplem a distribuição generificada da autoria. publicado em Paris e distribuido nos países latino-americanos. não fez amplo uso de charges e tirinhas. Brasil (1975-1977) Autoria de Charges e Tirinhas 25 20 20 15 10 5 2 1 0 Sem Autoria Ilegível Mulheres Não identificada *Em nove exemplares que circularam entre 1975 e 1977 (do número 0 ao 8). A horizontalidade e o trabalho coletivo prevaleciam. A maioria das produções publicadas pelo jornal não contava com autoria reconhecida. não priorizava a assinatura de seu conteúdo. A exemplo do Brasil Mulher. Assim como o primeiro. a exemplo das charges e tirinhas. sendo que 20 não são assinadas. Gráfico 3 Brasil Mulher. São três charges com autorias identificadas. duas de autoria de Lila. referente a dois anos do jornal. como pode ser evidenciado no gráfico da sequência. foram publicada um total de 23 charges (com pouca exploração do humor e do riso). o número de 20 tirinhas e charges de autoria desconhecida confrontando com três assinadas demonstra que a noção de trabalho coletivo prevalecia. todas sem assinatura. Dos oito exemplares que consultei. o jornal publicado pelo Círculo de Muheres de Paris. O Brasil Mulher em especial não permite elucubrações em termos de distribuição de autoria para homens e mulheres. entre os anos 1974 e 1976. cartunista mulher e uma de Cortés.

ela demonstra uma prevalência da autoria de mulheres com uma significativa soma. Entre os anos de 1974 e 1986 foram publicadas 23 charges e tirinhas. 235 O jornal argentino Persona não permite um gráfico absoluto pois não tive acesso a todas as suas edições. Apesar da amostra não ser muito extensa. Embora não tenha o número absoluto. De um total de 23 charges e tirinhas. Para esta pesquisa tive acesso a 17 exemplares distribuidos durante toda sua existência. mesmo com um número pequeno de charges e tirinhas. No caso do Persona não é possível falar em equilíbrio em termos de número. Gráfico 4 Persona. 9 assinadas por mulheres. o humor gráfico. O boletim boliviano La Escoba começou a ser distribuido em 1986 e ainda hoje é publicado pelo CIDEM. o triplo da autoria de homens. Para esta pesquisa tive acesso a . Argentina (1974-1986) Autoria de Charges e Tirinhas 10 9 8 8 6 4 3 2 2 0 Sem Autoria Ilegível Mulheres Homens * Em 17 exemplares que circularam entre 1974 e 1986 (números variados) foram publicadas um total de 23 charges e tirinhas. oito não são assinadas e duas estão ilegíveis. o total de autoras sugere maior sucesso das mulheres em termos de avanço em um domínio considerado masculino. é possível estabelecer uma média de autoria com base nas edições disponíveis. Ele teve tiragens. São 13 charges e tirinhas assinadas. já que. enquanto nove têm autoria de mulheres e três têm autoria de homens. sendo que 8 não apontam autoria e 2 tem autoria ilegível. 3 assinadas por homens e uma assinada por Liotta. propostas e intervalos de circulação distintas.

seja por não ser possível identificar a assinatura. Gráfico 5 La Escoba. O uruguaio La Cacerola apresenta cenário semelhante. em cinco colunas de humor. 5 assinadas por um homem e uma assinada por Islo. Nos quatro exemplares localizei 17 charges/tirinhas distribuidas. Não foi possível identificar nenhuma autora mulher no humor gráfico publicado pelo boletim boliviano. Vale ressaltar que a identificação de Quino só foi possível pelo fato do cartunista ter atingido grande notoriedade na América Latina. O periódico La Escoba sugere desequilíbrio e o domínio masculino na produção. sendo que 6 não apontam autoria e 5 tem autoria ilegível. enquanto cinco tirinhas foram assinadas pelo mesmo autor. 5 e 6) foram publicadas um total de 17 charges e tirinhas. inclusive. ou porque as imagens não contam com assinatura de suas autoras e autores. Quino. 2. São 6 charges e tirinhas assinadas. fazendo com que seu traço e sua personagem Mafalda sejam facilmente reconhecidos. Ele circulou entre os anos de . Bolívia (1986-1987) Autoria de Charges e Tirinhas 7 6 6 5 5 5 4 3 2 1 1 0 Sem Autoria Ilegível Homens Não Identificada * Em 4 exemplares que circularam entre 1986 e 1987 (números 1.236 quatro números distribuidos entre os anos de 1986 e 1987. o recorte temporal que mais me interessa. a identificação da autoria não foi possível na maior parte dos casos. Apesar do uso extensivo de charges e tirinhas. Outras seis charges/tirinhas não são assinadas e cinco não permitiram identificação de autoria. já que as assinaturas costumam ser bastante autorais. Em muitas outras charges e tirinhas tal tarefa é difícil.

Em seis delas a autoria é ilegível e em três é uma autoria masculina. algumas sejam de autoria de mulheres. São 4 charges e tirinhas assinadas. Apenas uma não conta com assinatura. Não foi possível identificar autoria de mulheres. não permite muitas conclusões em termos de autoria. Seguindo o padrão dos outros jornais é possível presumir que homens e mulheres publicassem charges e tirinhas feministas em periódicos reconhecidamente feministas como O Cacerola. todas do cartunista brasileiro Henfil. apesar de uma amostra extensa. Das 11 charges e tirinhas apenas três tiveram sua autoria identificada. 17 exemplares entre 1985 e 1987. O também uruguaio Cotidiano Mujer. muito embora pareça sensato afirmar que no universo de seis tirinhas e charges de origem não identificada. sendo que 1 não aponta autoria e 6 têm assinatura ilegível. 3 assinadas por homens e 1 assinada por Cipaf. . 237 1984 e 1988 e de um universo de cinco anos tive acesso a nove exemplares. Nos nove exemplares foram publicadas 11 charges e tirinhas Gráfico 6 La Cacerola. Uruguai (1984-1988) Autoria de Charges e Tirinhas 7 6 6 5 4 3 3 2 1 1 1 0 Sem Autoria Ilegível Homens Não Identificada * Em 9 exemplares que circularam entre 1984 e 1988 (do número 2 ao 8 e duas edições especiais) foram publicadas um total de 11 charges e tirinhas.

238 Gráfico 7 Cotidiano Mujer. O Isis. Das nove charges e tirinhas localizadas quatro são assinadas por mulheres. que circularam no ano 1990 (do número 3 ao 10). produzido em Roma.5 0 Sem Autoria Mulheres Homens Não Identificada * Em 17 exemplares que circularam entre 1985 e 1987 (números variados) foram publicadas um total de nove charges e tirinhas. são ainda mais esparsas e permitem a construção de poucas hipóteses para além da já levantada. sendo que uma não aponta autoria. um de 1982 e . Em dois exemplares do periódico argentino Mujeres. que os homens dividiam. uma não é assinada e uma tem a autoria ilegível. e distribuido nos países latino-americanos. quase em pé de igualdade. As amostras de jornais que foram apenas consultados e que não são explorados como fontes. foram publicadas um total de oito charges e tirinhas.5 1 1 1 0.5 4 4 3. Em seis exemplares do jornal paraguaio La Micrófona. publicou seis charges e tirinhas nos seis exemplares a que tive acesso. São oito charges e tirinhas assinadas. quatro não têm autoria e duas são ilegíveis. Uruguai (1985-1987) Autoria de Charges e Tirinhas 4. a autoria de charges e tirinhas feministas. no entanto eles apontam que homens e mulheres compartilhavam a autoria de charges e tirinhas feministas que eram publicadas em periódicos também feministas. três assinadas por homens e uma assinada por Islo.5 3 3 2. todas assinadas por mulheres. três por homens. quatro assinadas por mulheres. São quatro charges e tirinhas assinadas. Mais uma vez os números não são conclusivos em termos de definir de maneira incontestável a distribuição de autoria.5 2 1. sendo que três não apontam autoria e uma tem autoria ilegível.

sexualidade. publicado em Paris. do riso feminista. contudo. foram publicadas quatro charges e tirinhas: uma sem autoria. embora o uso do humor e a autoria de mulheres fosse expressiva. Questionar a permanência dessas desigualdades é crucial em um trabalho que se propõe a apontar o humor feminista como uma arma nas mãos de mulheres que lutavam não apenas contra o machismo. em um contexto cujo ingresso das mulheres no campo do humor era difícil. não é verdadeiro. consequentemente. Até mesmo trabalhos com uma perspectiva feminista sobre história em . quanto os jornais com amostras parciais. não comprovam que os homens estavam assumindo o protagonismo da luta encampada no campo do humor. trabalho doméstico. no mínimo. As lutas dessas mulheres parecem se desdobrar em diferentes esferas e em termos de domínio do campo do humor ela esbarra no não reconhecimento de sua produção. autoritarismo. São dezenas de charges e tirinhas que problematizam maternidade. quando faziam uso do humor gráfico. direitos das mulheres. uma vez que os estudiosos que se dedicam a falar de humor insistem em afirmar que elas praticamente não o produziam. toda uma cultura machista e sexista. Os números. Os números expressos nos sete gráficos anteriores demonstram que tal premissa é um grande equívoco. privilegiavam autores homens. O mesmo não acontecia em outros periódicos alternativos que não eram feministas e que. nem mesmo servem para demonstrar a desigualdade desse domínio eminentemente tido como masculino. todas assinadas por homens. Tanto os periódicos com amostras absolutas. O contrário. igualdade de gênero. não há razão para falar sobre elas. 239 outro de 1988. como também contra ditaduras civis e militares. portanto. metade de uma produção que falava intencionalmente dos problemas enfrentados pelas mulheres. os homens permaneciam dominando. Sendo as amostras ideais ou parciais. consequentemente. apresenta-se como um grande desafio diante de números aparentemente frios. mas também em termos de reconhecimento. demonstram o grande desafio da construção do humor gráfico feminista e. não apenas diretamente. O mesmo foi verificado no já citado Nosotras. como é o caso de Henfil e Quino. logo. o que não era tão frequente. na maior parte das vezes cartunistas bastante reconhecidos e com nomes que circulavam até internacionalmente. Defender a tese que os feminismos do Cone Sul fizeram uso do humor para contestar e criticar expectivas de gênero. Os números apontam sim o empenho de mulheres feministas e cartunistas em assumir um espaço que por muito tempo lhes foi negado. elas demonstram que. duas ilegíveis e uma com autoria de uma mulher. desigualdade social e.

240

quadrinhos, que incluem o humor gráfico em sua abordagem, parecem
ignorar o esforço das mulheres em assumir o humor gráfico não apenas
como uma habilidade, mas também como um instrumento
revolucionário. O livro Mulher ao Quadrado de Selma Regina Nunes
Oliveira, por exemplo, faz uma importante contribuição para a
historiografia feminista ao analisar a representação das mulheres nos
quadrinhos norte-americanos (explorando alguns brasileiros) entre os
séculos XIX e XX. Na obra a autora faz um vasto levantamento de
títulos – incluindo tirinhas –, mas nenhuma autora mulher é citada, seja
de origem estadunidense ou brasileira.
Ricky Goodwin, em uma tentativa quase sobre-humana de
justificar o sexismo e o domínio masculino no campo do humor, aponta
que, apesar das mulheres cartunistas não existirem, os homens
assumiram o ―importante‖ papel de dar visibilidade a elas por meio de
variadas personagens. Segundo Goodwin:

O humor gráfico continuou sendo um campo
dominado pelos homens, mas Angeli e Miguel
Paiva, por exemplo, criaram personagens
femininos amplamente favoráveis às mulheres. O
primeiro, com RêBordosa, de forma mais
debochada, e o segundo, com Radical Chic, dentro
dos modismos do comportamento, alcançam
grande sucesso entre o público de ambos os
sexos.310

O mesmo autor apresenta um panorama dos principais cartunistas
do período e não cita uma única mulher, muito embora seja nítido, a
partir dos gráficos e fontes já reproduzidas, que elas estavam lá e eram,
não podemos negar, um grande número. O esforço de citar cartunistas
homens que deram atenção ao universo ―feminino‖, portanto, afirma-se
como uma tentativa frágil e pouco crítica de justificar e se isentar da
responsabilidade por uma cultura que nega às mulheres muitos direitos e
privilégios, entre eles o de reconhecimento. Mulheres cartunistas
existiam, cabe questionar o nível de reconhecimento e espaço que elas
conseguiram conquistar. Estar atenta a tal discurso não significa ignorar
o trabalho de talentosos cartunistas como Angeli e Miguel Paiva, citados

310
GOODWIN, Ricky. A monovisão dos estereótipos no desenho de humor
contemporâneo. In: LUSTOSA, Isabel (org). Imprensa, Humor e Caricatura: a
questão dos estereótipos culturais. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011. pp.
535-555. p. 552.

241

por Goodwin, como também de outros que colaboraram com as causas
feministas por meio de seus traços. Contudo, até mesmo o louvor a
personagens ―favoráveis às mulheres‖ precisa ser criticado e
desconstruido.
A personagem Rê Bordosa fez suas primeiras aparições na revista
Chiclete com Banana fundada por Angeli na década de 1980. Ela foi um
grande sucesso e ainda hoje é lembrada com carinho por muitas
mulheres que viveram o período. Ana Alice Alcântara Costa em
entrevista informou:
[...] um referencial que a gente vai ter, e ai eu não
estou lembrada, se começa a aparecer, é a Rê
Bordosa. A Rê Bordosa vai ser a nossa catarse. Ai
já bem adiante, depois... Eu me sentia a própria,
me sentia meio que representada na Rê
Bordosa.311

A narrativa da entrevistada vai ao encontro da afirmação de
Ricky Goodwin. Ana Alice Alcântara Costa informou que se sentia
representada por aquela personagem. Rê Bordosa era uma mulher de 40
anos, bebia, fumava, morava sozinha, nunca havia se casado, não tinha
filhos, vivia na noite em bares e boates e fazia sexo quando e com quem
desejasse. Não há dúvida de que a personagem criada por Angeli era
muito diferente das personagens mulheres já existentes. Rê Bordosa não
era representada como namorada do mocinho, como uma feminista mal
humorada, ou como um copor a ser apreciado, ela era desviante, não há
dúvidas, mas toda sua desobediência e liberdade podem ser analisadas
de forma bastante ambigua. De acordo com Selma Regina Nunes
Oliveira:
Rê Bordosa sai pela noite para beber e curtir,
porém, em algumas histórias, o sexo é moeda
corrente que ela troca por mais uma dose de uma
bebida qualquer. Um de seus parceiros mais
frequentes é o garçom Juvenal, com quem se casa
em uma última história. Quase sempre bêbada, Rê
Bordosa não mede as consequências do que faz.
Ela não é uma personagem má, a não ser consigo
mesma. Ela representa tudo aquilo para o que uma
mulher não é educada durante toda sua vida. Ela
bebe, fuma, transa, tem sempre uma aparência
amassada, mora sozinha, não sabe cozinhar, tem

311
Entrevista com Ana Alice Alcântara Costa concedida à Cintia Lima
Crescêncio, Florianópolis, 2012, p. 9-10.

242

relacionamentos efêmeros, enfim, ela é a
prostituta que ronda ou que existe em toda
mulher. Rê Bordosa é aquela mulher desregrada,
a devassa, a meretriz que é apontada por todos os
vizinhos e vizinhas e envergonha os pais.
Podemos até entender a personagem como uma
crítica nelson-rodriguiana ao falso moralismo, e é
exatamente nisso que reside a questão: o que
avilta as normas dos bons costumes e a tradição é
a conduta feminina.312

A primeira vista Rê Bordosa pode representar os anseios de toda
feminista que viveu entre os anos de 1960 e 1980 no Brasil, mas sua
frequente demonstração de vazio sempre disfarçado pelo humor
eficiente de Angeli não pode ser ignorada. Um grande número de tiras
tem um caráter muito crítico em termos de estruturas sociais e
expectativas que tinham as mulheres como alvo. Tantas outras sugerem
um universo triste que assolava a liberada Rê Bordosa. Sessões de
terapia eram frequentes, assim como os parceiros sexuais que era
incapaz de se lembrar na manhã seguinte. É fato que a personagem de
Angeli reagia a um discurso moral que impactava exatamente as
mulheres, mas também é importante levar em consideração uma série de
outros eventos protagonizados pela personagem que indicam certo vazio
em sua existência.
Rê Bordosa era, certamente, uma personagem polêmica que
desestabilizou os modelos de personagens mulheres no período. Seu
escracho, inclusive, era uma forte característica que demarcava também
O Pasquim. O humor feminista produzido por mulheres, nas fontes a
que tive acesso, não costumava fazer uso de tal abordagem. A
personagem Bia Sabiá, de Ciça, era uma mãe, trabalhadora e dona de
casa que se via diante dos machismos cotidianos do companheiro e dos
filhos. Os quadrinhos de Claire Bretecher, cartunista francesa,
problematizavam a exploração da mão de obra das mulheres sem fazer
uso do ridículo. As personagens da argentina Sylvia Bruno tinham como
objetivo desestabilizar a separação entre o público e o privado. Tantas
outras figuras que protagonizam as anedotas feministas não podem ser
caracterizadas pelo escracho. Angeli teve suas produções publicadas em

312
OLIVEIRA, Selma Regina Nunes. Mulher ao Quadrado. As representações
femininas nos quadrinhos norte-americanos: permanências e ressonâncias
(1895-1990). Editora Universidade de Brasília: Finatec, 2007, p. 137.

243

jornais feministas, inclusive as protagonizadas por seu personagem
Bibelô, um machista do subúrbio. Rê Bordosa protagonizou apenas uma
tirinha publicada no Mulherio em 1987, em um número dedicado ao
tema aborto. Tiras da personagem começaram a circular ainda em 1984,
quando o jornal já circulava.
Aborto e violência contra as mulheres, talvez, sejam os dois
temas mais delicados para serem tratados com humor. Tal afirmação não
é baseada apenas em uma impressão, mas no fato que o tema da
violência doméstica foi problematizado de maneira direta apenas uma
vez em uma charge na publicação boliviana La Escoba em 1986 e o
aborto em uma tira do argentino Persona, também em 1986. A tira de
Rê Bordosa, em sua única aparição em periódico feminista brasileiro –
ao menos os explorados neste trabalho – integra um número sobre
aborto, mas seu tema não é o aborto em si, muito embora Angeli tenha
produzido tiras especificamente sobre o assunto. Na tira publicada no
Mulherio, Rê Bordosa é representada no balcão do bar do garçom
Juvenal, seu confidente frequente.

Figura 63

Fonte: ANGELI. Mulherio, Brasil, julho de 1987. Edição 30, p. 6.

No primeiro quadro a personagem desabafa: ―Sabe, Juvenal, ando
preocupada... Acho que estou grávida!‖ No segundo quadro o garçom
questiona: ―E eu posso saber quem é o culpado.‖ Rê Bordosa finaliza
com um questionamento: ―Como é que se pronuncia o nome desse
conhaque mesmo?‖ A desconfiança da personagem é confrontada pela
procura do ―culpado‖. Ao final Rê Bordosa conclui que o pai é o álcool.
Um olhar crítico e desapegado de uma análise de humor pode sugerir
que o culpado da gravidez não é apenas a bebida, mas sim a vida
irresponsável da personagem, incapaz de lembrar o nome do conhaque,
ou seja, do pai. Acredito que se o questionamento do garçom Juvenal
fosse diferente, a culpa não recairia sobre a personagem. Se perguntada
pelo ―pai‖ e não pelo ―culpado‖ a responsabilidade de Rê Bordosa seria

244

atenuada, no entanto ela foi questionada sobre o ―culpado‖ e, sendo ele
o conhaque que Rê Bordosa não se recorda do nome – assim como do
pai –, a mulher assume a culpa por beber demais e sequer recordar-se
do parceiro sexual.
A singularidade de Rê Bordosa fica evidente se comparada às
fontes já apresentadas. Ela se distingue facilmente da produção de
cartunistas mulheres, mas também da dos cartunistas homens. Nesse
sentido, parece compreensível que a personagem, muito embora tenha
marcado muitas memórias e ainda hoje seja lembrada como uma
personagem revolucionária, não tenha tido tanto espaço nos jornais
feministas. A única tirinha que alcançou esse espaço, como
demonstrado, implica em um velho modelo: culpabilização da mulher
pela gravidez. As publicações feministas, portanto, evitavam o humor
escrachado.
Tal informação é bastante significativa se for levado em conta
que as mulheres representadas nas charges e tirinhas publicadas nos
periódicos feministas costumeiramente não são colocadas em situação
de ridículo ou escracho, sejam elas assinadas por homens ou por
mulheres. O humor feminista divulgado nas páginas alternativas evitava
estereótipos, muito embora levasse a sério a máxima ―A forma mais
superior de humor, a mais sublime, é aquela que ri de si mesmo.‖ 313 Rê
Bordosa, de Angeli, portanto, ao apresentar-se como personagem
contraditória, embora subversiva, marcou memórias. No entanto, não foi
por sua circulação nas publicações feministas.
Henfil é lembrado com carinho por Ana Alice Alcântara Costa no
capítulo 5. Segundo a entrevistada o cartunista tinha um traço ―mais
amoroso‖ em termos de feminismo.314 Maria Lygia Quartim de Moraes
confirma a predileção por Henfil, não apenas em função de sua
preocupação com as temáticas feministas e de mulheres, mas também
porque ele chegou a colaborar com o trabalho do periódico Nós
Mulheres. Segundo a professora que participava da edição do jornal,
Henfil cedia suas charges e tirinhas para publicação no jornal feminista,
bem como produzia algumas especialmente para serem veiculadas no
Nós Mulheres. O cartunista teria, inclusive, solicitado encontros com o
grupo que produzia o jornal, relação que no futuro teria influenciado seu

313
SALIBA, Elias Tomé. Entrevista Elias Tomé Saliba. In: Revista de História
da Biblioteca Nacional. Ano 7, Nº 79. Abril de 2012. pp. 30-35, p. 34.
314
Entrevista com Ana Alice Alcântara Costa concedida à Cintia Lima
Crescêncio, Florianópolis, 2012, p. 9-10.

245

trabalho.315 Na sequência destaco cartaz produzido por Henfil com uma
de suas mais famosas personagens, Graúna.

Figura 64

Fonte: HENFIL. Brasil. Cartaz, 1979.

A narrativa da ex-integrante do Nós Mulheres parece confirmar a
postura política do cartunista que, em entrevista, quando questionado
sobre a sua participação profissional em lutas sindicais respondeu:

O cara chegava para mim e falava assim: ―Vem
cá, Henfil, faz ai uma campanha pra nós, desenhos
pra nossa campanha salarial.‖ Eu não conseguia
fazer. Eu ia lá, assistia às reuniões, se eu
começasse a me emocionar com a coisa, saía. Se
eu não fosse lá, ou se eu fosse e não me
emocionasse, eu não conseguia fazer. Saía uma
porcaria, eu não entregava.316

Henfil afirma, na entrevista cedida em 1984, que seu
envolvimento em uma causa dependia de um envolvimento afetivo, o
reconhecimento de que certa luta o tocava e parece que foi exatamente
tal sentimento que o feminismo do Nós Mulheres despertou, bem como
toda a efervescência feminista do período. Nessa mesma entrevista o
também cartunista Tárik de Souza aponta Graúna, a protagonista do
cartaz anterior, como a primeira personagem feminista dos quadrinhos
no Brasil.317

315
Essas informações foram concedidas por Maria Lygia Quartim de Moraes
por ocasião de minha banca de qualificação de doutorado em 21 de novembro
de 2014 e tiveram seu uso autorizado.
316
HENFIL. Depoimento a Tárik de Souza. Como se faz humor político. São
Paulo: Kuarup, 2014, p. 67.
317
Ibidem, p. 48.

246

Graúna era personagem da tira do cangaceiro Zeferino que teve
suas primeiras aparições no O Pasquim. Seu comportamento oscilava
entre a submissão e o ativismo, seu corpo era apenas um ponto de
exclamação.318 A criação dos anos 1970 era, em teoria, para agradar os
homens, uma chamada para o combate à ditadura, uma exaltação da
guerrilha, mas ao final a ave Graúna destacou-se e conquistou o público
em geral, principalmente as mulheres.319 O caráter contestário de
Graúna ficou marcado pela subversão de suas falas e tiradas, mesmo em
um universo de variados personagens homens. Graúna foi protagonista
do cartaz chamando para festa do Nós Mulheres e também aparece em
um rascunho de Henfil cedido por Maria Lygia Quartim de Moraes,
infelizmente, não datado.

Figura 65

Fonte: HENFIL. Brasil. Rascunho. s/d.

No rascunho que, aparentemente, foi feito durante uma das
reuniões das quais Henfil participou, a rebelde Graúna, fruto de um
simples ponto de exclamação, grita palavras de ordem muito
características de seu comportamento. Ao contrário de Rê Bordosa de
Angeli, Graúna aparenta menos ambiguidade, talvez porque sua
personagem subverta na fala e no visual e não no comportamento. Ela
critica o machismo, as teorias marxistas, o regime autoritário, o discurso

318
Ibidem, p. 15.
319
Ibidem, p. 47.

ele comenta o fato de um assaltante. Ah. Graúna protagonizou algumas tiras que circularam no período. Estamos com você. colares e pintado de batom. mas também na sua página semanal na revista Isto É. mil) Lindomar Castilho tem o legítimo direito de matar a Eliane de Grammont. turbante. 247 moralista. ele é apenas misericordioso. Tão pensando que eu sou o que? Uma mulherzinha?‖ Dá-lhe. não assinado. uma mulher. ao final. Edição 1. anuncia: ―Estamos com você. pato e galinha? Sim. ter sido obrigado pela polícia carioca a ―desfilar pelo morro requebrando como uma cabrocha‖. É por isso que um (dois. Quis livrar Eliane da humilhação. Enquanto Rê Bordosa não alcançou muito espaço nos alternativos feministas. não apenas no Brasil. .. três. Pelo contrário. Pois. Rogério da Cunha Ribeiro. O texto. Na carta à sua mãe publicada na edição de 8 de abril da revista.‖ 320 Mulherio. p. maio-junho de 1981.. Brasil. Na ocasião o humorista e cartunista teria questionado uma ação da polícia carioca que para humilhar um preso o obrigou a trajar-se como mulher: ―Por que ser mulher é a coisa mais humilhante e desmoralizante que tem?‖. de vestido.320 A nota destaca o comportamento crítico de Henfil em sua coluna da Isto é intitulada Carta a sua Mãe. diariamente levado ao ar na TV mulher. da desmoralização de ser. HENFIL – O humorista Henfil continua fazendo graça – séria – com os problemas das mulheres. Tô falando sério. Henfil. Em nota de 1981 o Mulherio apoiou abertamente a atuação de Henfil como humorista. porque se tivessem vestido o Rogério de cachorro não ia ter nenhum impacto. Henfil pergunta: ―Por que é que vestir um homem de mulher é humilhar. ia aparecer gente interessada pelo pedrigree e até anúncios nos muros. não só em seu quadro ―TV Homem‖. apesar de seu status de mulher liberada. Ou melhor: você está com a gente. Cão Rogério Km 72. Ou melhor: você está com a gente. 14. é desmoralizar? Por que ser mulher é a coisa mais humilhante e desmoralizante que tem? Pior que ser cachorro.

p. 591-611. cintos grossos e cabelos curtos. 2005. Henfil apoia os feminismos. Todos os brasileiros fizeram carreira publicando em periódicos conhecidos. para isso. 3. Henfil assumiu um compromisso com o humor que levava em consideração os seus efeitos. Para basear tal argumento a historiadora cita trecho escrito pelo cartunista em que ele afirma que o verdadeiro sonho das mulheres era ser igual aos homens e. . a publicação de charges e tirinhas se dava de modo um pouco improvisado e muitas 321 SOIHET. protagonizou apenas uma tira nestas publicações. O apoio declarado das feministas a Henfil. considerado um destemido opositor do autoritarismo. vol. contudo. o papel de Henfil parece pouco apto a questionamentos e críticas. O cartunista Angeli também tinha circulação relativamente significativa nos periódicos feministas brasileiros do período. destacou como também ele. embora em menor número que Henfil. Outros nomes reconhecidos do cartunismo do período também figuraram nas páginas dos periódicos alternativos feministas. de maneira geral. logo. In: Revista Estudos Feministas. com adoção de roupas largas. É importante notar que. 596. famoso por sua propaganda antifeminista. Teria Henfil amadurecido? Apesar do olhar crítico lançado ao cartunista. pp. Seja em lutas empreendidas junto a sindicatos. mas logo acrescenta que o motivo do apoio é porque ―você está com a gente‖. Ele foi publicado tanto no Mulherio quanto no Nós Mulheres – os quais analiso todos os números –. com o nítido objetivo de apoiar a postura de Henfil.248 A nota. indicando que os movimentos feministas do período reconheciam seu trabalho e o acolhiam. bem como nos uruguaios Cotidiano Mujer e La Cacerola. 13. entre eles destaco: os brasileiros Paulo Caruso.321 A crítica é feita sobre um texto de 1972. mesmo com as ressalvas feitas por Rachel Soihet. O cartunista mineiro parece ter atingido um status diferenciado. Miguel Paiva. Rê Bordosa. contrasta com crítica elaborada por Rachel Soihet que. Os desenhos de Henfil foram publicados nos brasileiros Mulherio e Nós Mulheres. enquanto a ode e apoio das feministas do Mulherio é de 1981. ele era apoiado pelas feministas. setembro-dezembro. n. Rachel. ao analisar O Pasquim. sua personagem mais famosa. sua mudança será visual. ou ao Nós Mulheres. era capaz de reproduzir o discurso essencialista e sexista do jornal. Laerte e o argentino Quino. reforça seu intuito com o ―Estamos com você‖. contudo. Ele é rememorado e referenciado como um aliado ainda hoje. ao PT. inclusive no O Pasquim. Zombaria como arma anti-feminista: instrumento conservador entre libertários.

ridiculariza ou objetifica as mulheres? 322 SMITH. Primeiro. talvez fosse importante mostrar. uma estratégia? Quinto. afinal. Anne-Marie. ou seja. conhecimento e reconhecimento da difícil situação vivida pelas mulheres nos países do Cone Sul. p. cit. p. tanto pelos números. O feminismo era.322 O próprio Henfil reforça que. op. um indicador.] pegar todos os bondes da história. 249 vezes sem autorização expressa de autoras e autores. não devemos automaticamente presumir que eles assumiam algum nível de ativismo político em prol do feminismo. seria o caso de fazer uso desses números e personagens mulheres para provar que eles estavam do lado das mulheres? Segundo. portanto. e talvez uma prova.‖323 Parece evidente que os homens produziram humor gráfico com perspectiva feminista. parece viável afirmar que o avanço no campo da temática feminista foi fruto do medo de perder um valioso domínio? Quarto. que até nos periódicos feministas. quando pela sua aceitação pelos movimentos. emergem como veículo que permite a notoriedade de tal produção? Por último. em termos de autoria de homens no humor gráfico feminista. 64. como indica Anne-Marie Smith. Rio de Janeiro: FGV. . mais um dos assuntos que interessavam cartunistas e jornalistas da imprensa alternativa do período. 65. a partir dos gráficos. Desse modo.. em se tratando de produção e conquista do público. 2000. seria essa aceitação de homens cartunistas em páginas eminentemente feministas uma forma de não assustá-los.. de que o domínio masculino jamais existiu e que o grande obstáculo sempre foi o reconhecimento do talento humorístico e humorado das mulheres? As publicações feministas. ou mesmo que tivessem alguma simpatia com o movimento do período. no mínimo. 323 HENFIL. era preciso ―[. tal situação parece se assemelhar a muitas outras em que eles assumiram o protagonismo da luta das mulheres. Sendo assim. publicações inteiramente feitas por mulheres e para mulheres. seriam os números levantados dos periódicos feministas. via de regra. cabe questionar se os homens podem produzir humor gráfico feminista. o humor feminista produzido por homens é capaz de escapar do humor hegemônico que. Embora os conteúdos gráficos humorísticos indiquem. eles estavam tentando assumir o controle? Terceiro. Um acordo Forçado: o consentimento da imprensa à censura no Brasil. Tal pergunta se desdobra em tantas outras. não afirmo que tais cartunistas que produziram humor gráfico com perspectiva feminista eram defensores do feminismo.

costumavam focar em temas como fronteira. nesse sentido é importante questionarmos se tal uso pode ser enquadrado de maneira assim dicotômica em termos temáticos. no entanto é preciso atenção a tais generalizações. podemos destacar e forçar o público a reconhecer que as mulheres feministas podem. pelo menos até a década de 1980 e pensando na realidade dos Estados Unidos. individualismo. Diante disso. o conteúdo e a abordagem que prevaleciam no humor gráfico feminista de autoria de homens. . é crucial atentar às temáticas que mobilizaram os homens.250 Os homens podem. Segundo Nancy Walker. mas que também os aproxima. Em se tratando do humor feminista e dos desafios de sua autoria. a partir de agora. não é possível negar que o humor e o riso são generificados. principalmente. Nesse sentido. 1998. é necessário observar uma série de nuances que ora afastam o humor gráfico de mulheres do humor gráfico de homens. os homens dariam conta do universo público e as mulheres do privado. Enquanto elas dedicariam sua produção humorística às questões relacionadas ao universo privado. p. bem como sua abordagem.324 Se partimos do princípio que humor é sim contextual. produzir charges e tirinhas feministas e nós. como arma de intervenção. principalmente quando estamos admitindo que eles produziam conteúdo feminista. querem e devem assumir o protagonismo de mais essa luta. Portanto. Os homens tomam conta do que é público e as mulheres do que é privado. Nancy. Eles. existe uma diferença temática que separa homens e mulheres no que se refere à produção de humor. com cuidado para evitar essencialismos. 324 WALKER. política. tal premissa confirma a reprodução da cultura no campo do humor. cabe questionar. algumas páginas sejam dedicadas a compreender o tipo de humor gráfico feminista produzido pelos homens e. American Visions: United States. no sentido abstrato. Será? Desde as primeiras linhas deste trabalho tem se tornado crucial reconhecer o extensivo e inteligente uso que as feministas do Cone Sul fizeram do humor gráfico. como feministas. tanto em sua produção quanto em sua recepção. violência. What’s so funny? Humor in American Culture. a luta que usa o humor como instrumento político. 9. Certamente. Diante de vasto universo numérico e dos problemas teóricos que a autoria do humor gráfico desperta. é importante que. o papel desempenhado pelas mulheres em tais traços. principalmente.

entendido como a produção de charges e tirinhas. era de prata (1961-1990). como o fez 325 OLIVEIRA. p.326 Não é um equívoco. distribuição. mas apenas parcialmente. e nela inclui-se o chamado quadrinho de autor. A afirmação da autora pode ser mais acertada em alguma medida se tomarmos como corpus de análise o humor gráfico difundido pelo O Pasquim – publicação alternativa. representação de personagens e expectativas de gênero similares. por sua vez. os teóricos denominam a fase que se inicia a partir de 1980 de novas tendências. Selma Regina Nunes Oliveira afirma que os quadrinhos brasileiros foram todos inspirados no modelo norte-americano. era de outro (1930-1945).327 Tendo a concordar com a autora. 327 Ibidem.. foram se desdobrando em tirinhas e histórias em quadrinhos. portanto. sem sucesso. As histórias de super-heróis que encontraram seu auge entre os anos 1930 e 1940 também tinham ampla circulação no mercado editorial brasileiro. op. O próprio Henfil tentou se inserir no mercado americano.‖ OLIVEIRA. diferenciada em termos de público. 132. . porque foi considerado ácido demais. A grosso modo. partir do princípio que o humor estadunidense teve grande influência sobre o humor gráfico no Brasil.325 Por aqui tiras famosas encontraram um mercado promissor. uso dos mesmos formatos. cit.1 AS MULHERES NO HUMOR GRÁFICO DA IMPRENSA FEMINISTA (por eles) A emergência do humor gráfico. 17. as caricaturas teriam dado origem às charges que. recessão (1946-1960). no entanto. O mesmo aconteceu com as Graphic Novels. é datada dos séculos XIX e XX. Sua circulação é alternativa e sua integração ao mercado é. p. na medida que as tirinhas e charges destacadas neste trabalho não integram essa grande indústria cultural. Tal datação é tipicamente estadunidense. 326 ―A história das histórias em quadrinhos norte-americanas divide-se nas seguintes eras: os funnies ou pioneiros (1895-1929).. é preciso reconhecer a forte influência dos Estados Unidos na produção impressa brasileira. consequentemente. Observando as personagens mulheres veiculadas no jornal dentro de uma perspectiva feminista. 251 5. O país influenciou nossa indústria cultural fortemente e uma série de paralelos podem ser feitos em termos de humor gráfico: semelhança nas temáticas. popularizadas no fim dos anos 1980. como Peanuts criado em 1950 por Carlos Schulz e Calvin e Hobbes. relação com códigos de regulação e também no que se refere à autoria. 15. p. cit. op. criado em 1985 por Bill Watterson.

op. cit. p.330 Parece óbvio. seja quais forem seus atributos físicos. Uberlândia. Pode ser encontrada na cama ou na cozinha (ou seja. pp. 330 GOODWIN. 328 Ver. 329 OLIVEIRA. mesmo quando os autores são homens. de mentalidade rasa. Preconceitos nas charges de O Pasquim: mulheres e a luta pelo controle do corpo. a feia inteligente/a bonita tola. Apesar das ressalvas a personagens como Rê Bordosa e das observações que se apresentam na sequência no que se refere às representações das mulheres no humor gráfico feminista produzido por homens. v. Dotada de curvas abundantes. A teoria feminista auxiliou-nos na investigação dos modelos femininos construídos pelos roteiristas e pelos desenhistas de hqs – representações duplas como virgem/vagabunda. em termos gerais.329 Os modelos de mulheres identificados podem ser localizados em diferentes medidas nas charges e tiras de Jaguar.. 548. . referindo-se ao O Pasquim: A mulher é tratada também como um ser superficial. In: Artcultura. 9. 2007. SOIHET. as representações de personagens mulheres na imprensa feminista são distintas das convencionais.jun. a mocinha/vilã e muitas outras construções. 39-53. Ziraldo. ou sendo ‗feia que dói‘. faz-se crucial diferenciar os modelos que são explorados no O Pasquim e em outros meios de comunicação e os que são explorados pela imprensa feminista.252 Rachel Soihet. 14. que não é exatamente tal modelo de personagem mulher que circula nos periódicos feministas dos países do Cone Sul. a inteligência atribuída lhe será pequena. satisfazendo as fomes do homem). mas é relevante ressaltar. Rachel. Millôr. p. cit.328 é possível construir um paralelo com as impressões da autora que analisou as personagens criadas nos Estados Unidos. a esse respeito. a morena boa/a loura má.. n. Não há dúvidas que muitos autores colocavam-se em situação de ambiguidade. esposa dedicada/esposa fútil. Paulo Caruso e outros. jan-. op. Conforme Ricky Goodwin. 29. Tal ambiguidade fica bastante evidente na charge da sequência assinada por Miguel Paiva. contudo.

Nele era sugerido que bundas fossem arredondas. ele é raro. . p. no entanto. cit. Um olhar lançado só para o homem e para a fala da mulher indica o personagem homem sendo colocado em situação de ridículo. Mulherio. Ele tem uma postura quase heróica. mulher quando vê um homem não sente esse nervosismo íntimo conhecido por tesão.‖ 332 OLIVEIRA. nos jornais feministas. Esta é uma das poucas charges de todos os periódicos que apresenta esse nível de representação. Independente do texto escrito e do personagem homem sendo colocado como o rejeitado. Mesmo quando cartunistas mulheres fazem uso de corpos com 331 ―Não adianta se exibir. 15.332 O modelo dos manuais era comum no O Pasquim. não surpreendentemente. Selma Regina Nunes Oliveira cita o manual de desenho Wizard que ensinava a desenhar o corpo das mulheres. Arionaldo. Ela tem traços faciais que denotam certa displicência. op. de chamar a atenção para a personagem mulher. Pode se tratar de um modismo gráfico. de uma característica dos integrantes do O Pasquim. característica reforçada pelo desenho esvoaçante do casaco. Edição 2. 21. p.. julho-agosto de 1981. o ponto é que tal modelo de mulher não era traçado por autoras mulheres em charges e tiras publicadas nos jornais feministas. quase uma capa. Brasil. enquanto seios arredondados e um largo quadril são evidenciados.331 A situação da charge sugere uma mulher rejeitando um homem sobre a cama. Miguel. as cinturas finais e os seios fartos. a representação da mulher é objetificada. deitada sobre a cama e coberta pelos lençóis. Gostaria. 253 Figura 66 Fonte: PAIVA.

Nos primeiros quadros a personagem mais jovem faz uma espécie de monólogo enquanto sua parceira de cena apenas escuta: ―Sem essa de sexualidade. já que ele suscita questões que passam pelos desafios da diferença dentro do próprio feminismo – geração. Figura 67 Fonte: MAGALHÃES.. No diálogo o centro do debate é a questão da sexualidade das mulheres e da natalidade. Mulherio. Edição 2. p. e sim de colocar em questão os atritos que emergem entre mulheres e mulheres e não entre mulheres e homens. Isso é lá problema? Problema é o desemprego. mas sim para simbolizar libertação pessoal. classe social. a personagem que se manteve calada durante o diálogo tem um sorriso .. Sexualidade é uma luta menor. julho-agosto de 1981. como a personagem de Célia.. O tema. a fome!. Henrique. também frequente em discussões de cunho feminista. raça.. por isso gostaria de destacar apenas o debate protagonizado pelas duas personagens da tira. sexualidade – foi explorado várias vezes pelos cartunistas homens e raramente pelas cartunistas mulheres. No quadro que finaliza a tirinha. Brasil. Afinal. 22.. elas não são construídas como elementos para apreciação do outro.. A tirinha que trago na sequência já foi problematizada anteriormente. Você já viu alguém trepar com fome?‖.254 curvas. por exemplo. Nesse caso não se trata de evidenciar mais ou menos o corpo enquanto objeto sexual a ser consumido.. Uma abordagem mais frequente é a que coloca mulheres em conflito.

php?secao=entrevistas&id=1207889794 Acesso em: 18 de dezembro de 2015. mesmo que ela tenha uma relação afetiva estreita com Pombinha. o Henfil. Em entrevista ele explica a origem de Maria. Eu queria fazer uma personagem diferente e procurei fugir das que eu já conhecia. . mas a elas a gente não tinha muito acesso. em tiras mais recentes. atuando no mesmo universo masculino. se politizando juntamente comigo. Havia já as personagens eróticas européias. Ela foi amadurecendo junto com meu processo evolutivo e passou a ser minha porta-voz. a personagem principal e o papel de Pombinha na trama. Disponível em: http://www. Com o tempo ela assumiu características distintas. já dos 333 Entrevista de Henrique Magalhães a Marcio Baraldi em 11 de abril de 2008. sob declarada influência de outro Henrique.net/index. 255 de satisfação no rosto em função da família pobre e cheia de filhos que ilustra a cena e destrói os argumentos da empolgada jovem. O diálogo é protagonizado pelas personagens mais conhecidas de Henrique Magalhães – Maria e Pombinha –. que abordava o mesmo tema da solteirona. de Milson Henriques. até do amor entre mulheres. Colocar a mulher como personagem central não era comum. Ela é livre para tratar de qualquer assunto. Com o tempo a Maria foi se transformando. um cartunista paraibano que não obteve tanta projeção quanto os moradores do sudeste. ao entrar na universidade. Vale destacar que a personagem Pombinha. mas é livre para falar disso. em geral elas eram coadjuvantes dos heróis ou heroínas. Eu sempre digo que Maria é meu alter ego. Foi aí que senti a influência da obra de Henfil. No início eu pensei a personagem como uma solteirona em busca de um marido. Eu não considero Maria uma personagem lésbica.bigorna. O autor responde ao questionamento do entrevistador sobre a orientação sexual de Maria informando que ela não é lésbica. Depois conheci Marly.333 A origem da personagem – uma solteirona – não combina nenhum pouco com o combate feminista aos estereótipos no humor gráfico. Não havia nada do tipo na época.

256

anos 2000, costuma protagonizar uma série de histórias cujo tema é a
militância de lésbicas e gays.
A tira de Henrique Magalhães protagonizada por Maria e
Pombinha problematiza a questão da sexualidade, dos direitos
reprodutivos, da natalidade e o senso comum que procurava elencar as
questões sociais que eram dignas de atenção.
Nesse tópico, cuja proposta é refletir sobre os modelos de
personagens mulheres, destaco o esforço de mostrar não só o
conservadorismo que poderia ser parte da cultura das mulheres, mas
também o conflito que emerge entre uma mulher aparentemente jovem,
de classe média e, não podemos esquecer, dona da palavra, afinal, é ela
quem tem voz e Maria, que aparenta mais idade e uma origem mais
simples. A tira parece ser uma crítica muito bem elaborada às próprias
mulheres. Não ouso afirmar que a crítica é sem fundamento, pelo
contrário. Porém, julgo adequado salientar que tal atrito raramente é
colocado em destaque em tiras e charges com autoria de mulheres.
Maria é a personagem espirituosa de Henrique Magalhães, Pombinha é
sua companheira de cena e ambas protagonizam um embate, o que não
costuma ser evidenciado no humor gráfico produzido por mulheres.
A tirinha de Henrique Magalhães problematiza um tema
importante que já foi alvo de reflexão no capítulo 2. A relação entre
natalidade, pobreza e direitos reprodutivos das mulheres é uma pauta
antiga e muito comum no humor gráfico feminista. O cartunista,
portanto, não explora um terreno novo em termos temáticos, no entanto,
a opção por colocar duas mulheres na situação do confronto sobre o
assunto serve para alimentar o mito da inviabilidade da amizade entre as
mulheres, bem como para sublinhar as diferenças dentro dos próprios
movimentos feministas. Não há dúvidas da importância da reflexão
sobre as diferenças de classe que marcam os feminismos, no entanto, é
curioso observar que os homens sintam-se no direito de elaborar tal
crítica.
Na charge de Miguel Paiva, novamente, o conflito e a tensão são
os protagonistas. Nela uma menina questionadora, personagem muito
comum, – Mafalda, Lucy –, conversa com a mãe que desempenha
atividades domésticas.

257

Figura 68

Fonte: PAIVA, Miguel. Mulherio, Brasil, janeiro-fevereiro de 1982. Edição 5,
p. 22.

Em um cenário de certo caos doméstico com piso sujo e molhado,
panela sobre o fogão transbordando e uma pia cheia de louças, a menina
informa: ―Apesar de pertencermos a duas gerações diferentes, a duas
linhas de pensamenro diametralmente opostas, vou me aliar a você
porque somos mulheres e devemos lutar pela mesma causa!‖. Uma mãe
esfarrapada e com olhar vesgo responde: ―Ótimo, então eu lavo e você
enxuga.‖
O cenário de caos doméstico não é uma novidade no humor
gráfico feminista, seja de autoria de homens ou de mulheres. Na charge
há uma tentativa da criança, aparentemente a voz da maturidade
feminista, de se aliar a sua mãe, uma dona de casa com problemas
bastante concretos, reais e visuais. A chamada para dividir a tarefa
doméstica é uma exaltação bastante evidente do conflito que se
estabelecia entre as próprias mulheres. Novamente, um tema que não era
costumeiramente objeto de reflexão de mulheres feministas no humor
gráfico, é colocado em pauta por um homem.

258

Na mesma linha está a charge de Henfil já analisada em capítulo
anterior. Na imagem patroa e empregada doméstica negociam a
liberação da funcionária para comemorar o aniversário da abolição.

Figura 69

Fonte: HENFIL. Mulherio, Brasil, maio-junho de 1982. Edição 7, p. 9.

Na charge o conflito de raça e classe é acionado entre duas
personagens mulheres separadas pelas diferenças. A empregada é muito
magra, tem a pele negra, está de pé e agarrada a uma vassoura, além de
ter atributos físicos bastante criticados em termos de representação
negra no humor: curvas e lábios exageradamente enfatizados. Seu rosto
tem um sorriso simples e um olhar subserviente. A patroa é uma mulher
gorda que se encontra acomodada em uma larga e luxuosa poltrona, com
muita maquiagem e jóias, além de uma coroa sobre a cabeça. O diálogo
se dá enquanto a patroa pinta as unhas. Seu rosto tem um largo sorriso.
O cartunista desafia o feminismo a lidar com um conflito histórico, de
raça, de classe e intra-gênero.
Mais uma vez, dessa vez pelo traço de Henfil, o conflito é
colocado em pauta. Henrique Magalhães, Miguel Paiva e Henfil, nos
três exemplos, provocam os anseios feministas ao apontar, em diferentes
níveis, as diferenças que afastam as mulheres, tanto materialmente

259

quando em termos de ideais. É provável que ninguém se arrisque a
questionar a validade da crítica. A intersecção é ainda hoje um problema
a ser enfrentado pelos movimentos feministas de todo o mundo.
Contudo, é importante analisar o fato de serem os homens a elaborarem
tal crítica no humor gráfico. Muitos eram os textos que circulavam nos
alternativos feministas que problematizavam essa questão, a maioria
maciça de autoria de mulheres. Na Bolívia, por exemplo,
desenvolveram-se extensos debates sobre as mulheres indígenas. Na
emergência do feminismo organizado no Brasil, na segunda metade da
década de 1970, discutia-se a validade de um movimento que não
tivesse como base as mulheres pobres e trabalhadoras. Tais discussões
atravessavam o Cone Sul. Contudo, em se tratando de humor, as
cartunistas optaram por não criticar umas às outras, assim como
evitaram todo e qualquer tipo de estereótipo que pudesse ridicularizar às
companheiras feministas e as mulheres.
Sobre a representação da mulher negra é possível fazer uso de
uma série de teorias do campo do humor para demonstrar como tal
modelo de mulher negra servia apenas para ridicularizar e construir
estereótipos sobre a população negra. Entretanto, como já foi
demonstrado, as mulheres negras não são traçadas no humor gráfico
produzido por mulheres cartunistas que circularam nos jornais
feministas do Cone Sul, elas não estão lá representadas – pelo menos
não nos exemplares dos periódicos levantados para esta tese. Elas
protagonizam fotografias, são temas de artigos, mas não são
personagens de charges e tirinhas, a não ser no traço de Henfil e em uma
charge de Angeli, em ambos casos problematizando o tema do emprego
doméstico.
Não era apenas de críticas – muitas pertinentes – aos movimentos
feministas que se construía o humor gráfico feminista feito por homens.
Muitas são as produções que valorizam as mulheres e questionam o
papel desempenhado pelos homens na nossa sociedade. Regina Barreca
identifica cenário parecido na literatura de humor assinada por homens
nos Estados Unidos. Segundo a autora, apesar de muitos humoristas
terem dedicado precioso tempo a ridicularizar e satirizar as mulheres e
tudo que a elas se relaciona, outros tantos optaram por um humor que as
valorizasse.334 No Brasil, Henfil, não acidentalmente, é lembrado por
sua abordagem ―amorosa‖ ao tratar dos interesses das mulheres em seus
desenhos. É provável que ele seja um dos poucos que lidou com a

334
BARRECA, Regina. They used to call me snow white... but I drifted.
Women‘s strategie use of humor. Penguin Book‘s: USA, 1991, p. 169.

260

emergência dos movimentos feministas de maneira sensível – não
apenas apontando as diferenças dentro dos próprios movimentos – e
tirando a centralidade do masculino na abordagem. Ainda assim, ele foi
autor de conteúdos polêmicos e que a historiografia feminista fez
questão de pontuar.
Henfil tinha como um de seus assuntos prediletos o futebol.
Alguns de seus personagens representavam não propriamente os clubes,
mas sim suas torcidas.335 Um espaço reconhecidamente masculino não
escapou à crítica do cartunista que ―está com a gente‖.

Figura 70

Fonte: HENFIL. Mulherio, Brasil, novembro-dezembro de 1981. Edição 4, p.
23.

Na charge intitulada Esporte, Reduto Masculino, duas
personagens frequentes nas problematizações de Henfil são
representadas com pesados sacos sobre as cabeças. Ambas são
mulheres, magras, com cabelos bagunçados, usam vestidos simples e

335
HENFIL, op. cit., p. 37.

261

chinelos. A cena, sem nenhuma dúvida, reforça como mulheres
desempenham trabalhos que demandam muita força física. Uma delas
afirma, na única frase do diálogo: ―Sou contra mulher jogar futebol! É
muito pesado...‖ A contradição é fundamentada por um
(contra)argumento triplo: o futebol é um espaço masculino, as mulheres
são tão fortes quanto os homens, elas não devem jogar futebol porque
são frágeis.
Habilmente o cartunista ataca a comum justificativa de que as
mulheres não são adequadas ao futebol ao mostrar a realidade de um
país em que elas são uma grande força de trabalho. O fato de ser uma
personagem mulher que afirma a contrariedade pode indicar
concordância, mas também ironia, o que é expresso em outras charges
da dupla, bem como pelo cenário que destaca o absurdo do argumento
que mantém o esporte e, especialmente, o futebol, como um reduto
masculino. A charge, portanto, valoriza as mulheres e questiona o
argumento embasado por um discurso masculino – mesmo que as
mulheres o reproduzam.
A representação das mulheres como sujeitos fortes, contrastando
diretamente com as expectativas de gênero às quais as mulheres são
submetidas, difere em termos de abordagem e temática se comparada ao
conflito entre empregada doméstica negra e patroa burguesa. Enquanto
uma reforça o poder das mulheres a outra foca em uma fragilidade que
deve ser enfrentada pelos movimentos feministas. No contraste de
abordagem das duas charges é a escolha política que as diferencia,
porque uma explora o absurdo para enaltecer a força das mulheres e a
outra faz uso da intersecção de classe e de raça para pontuar a fraqueza
dessas mesmas mulheres, no caso as mulheres organizadas em torno de
anseios de um mundo feminista. A autoria de homens não é comum na
imprensa feminista, talvez seja através do humor gráfico que eles
tenham alcançado maior infiltração. Henfil, sem dúvida, teve papel
fundamental, contudo, é relevante estarmos atentas ao fardo do gênero
na construção do humor gráfico.
Em tira do cangaceiro Zeferino, espaço em que a personagem
Graúna se imortalizou, Henfil vai adiante e problematiza a liberdade das
mulheres e a necessidade dos homens de sua dependência. Na história o
cartunista não poderia estar mais alinhado à causa feminista.

262

Figura 71

Fonte: HENFIL. Nós Mulheres, brasil, agosto-setembro de 1977. Edição 6.
Coluna de Humor, p. 15.

Nos dois primeiros quadros uma Graúna com tons decididos
informa: ―Zeferino! Assumi meus direitos e minha liberdade... De hoje
em diante você não me mandará mais, não me ordenará nada, não me
baterá...‖ Sob os protestos do cangaceiro: ―Não Graúna, Não!...
Piedade!! Sou dependente da tua dependência.‖ Zeferino passa por três
estágios de representação: susto, protesto, súplica. Já Graúna passa de
uma feição séria nos dois primeiros quadros, para uma finalização com
um leve sorriso diante da súplica do companheiro de cena.

263

Henfil enfatiza o desespero – quase ridículo – do cangaceiro
diante da proclamação de independência de Graúna. A personagem
representada por um pássaro, traçada a partir de um simples ponto de
exclamação, centraliza a tira ao informar que assume seus direitos e sua
liberdade. A escolha pelo verbo ―assumir‖ não pode ser considerada
mero acaso, afinal, ela não conquistou seus direitos, ela assumiu o que
era seu por direito. A tirinha publicada em 1977 não só faz referência às
mulheres assumindo seus direitos e sua liberdade, como também refere-
se ao medo masculino diante de tal acontecimento. A exclamatória
Graúna representa milhões de mulheres lutando por um mundo
diferente. O ultrapassado Zeferino representa o tradicional mortificado,
em pânico diante das transformações.
Nancy Walker destaca que o humor feminista indica a
necessidade de conectar o pessoal com o político,336 ação incomum no
humor hegemônico predominantemente masculino. No humor gráfico
feminista produzido por mulheres no Cone Sul, esse movimento de
relacionar o pessoal com o político é repetido em exaustão. Há um
esforço contínuo de alargar a própria noção de política. Arthur P.
Dudden afirma: ―Humor on the topic of politics has been familiar
vehicle for popular disdain or even opposition throughout American
History. Politics has afforded abundant targets for wits, satirists, and
comedians which to aim their scorn.‖337 Nessa abordagem o humor tem
servido como veículo para questionar o universo da política no seu
sentido mais restrito, o da política institucional, com seus homens
engravatados, sua preocupação com a política externa, a economia, a
inflação, a causa e/ou resolução de conflitos, enfim, a política partidária.
O humor feminista é político, mas suas preocupações são mais extensas,
talvez mais humanas.
Assim como as cartunistas feministas, Henfil, em algumas de
suas charges, tiras e personagens, conecta o pessoal com o político,
trazendo à tona o que o humor gráfico sem uma perspectiva feminista

336
WALKER, 1988. Op. cit.,p. 148.
337
―O humor sobre o tema política tem sido veículo familiar para produção de
desdém ou ainda como oposição através da História Americana. A política tem
proporcionado vastos alvos para piadistas, satíricos e comediantes que
canalizam seu desprezo.‖ (DUDDEN, Arthur P. The Record of Political Humor.
In: DUDDEN, Arthur Power. (ed). American Humor. Oxford University Press,
England, 1987, p. 51, tradução nossa).

264

insiste em negar: a desigualdade salarial, a pobreza das mulheres, a
dupla exploração nas jornadas trabalhistas, o sexismo dos homens, as
contradições da militância de esquerda, o eterno embate por direitos
reprodutivos. Outros cartunistas também fizeram tal esforço, mas o
mineiro, talvez, seja o cartunista que mais se aproximou de tal objetivo.
Podem os homens produzir humor gráfico feminista? Não, não
podem, porque se trata da disputa por um campo que tem sido negado a
elas, tem sido tomado por homens que protagonizam falas e narram
experiências que não os atravessam como atravessam as vidas das
mulheres. Antologias sobre humor ao redor do mundo têm listado a
existência de brilhantes cartunistas homens, enquanto as mulheres têm
sido consideradas ―desinteressadas‖ pela atividade de fazer rir. Números
e fontes mostram que tal informação é falsa, portanto, não se trata da
necessidade de ―dar voz‖ a uma minoria política, pelo contrário, trata-se
de colaborar para que tais vozes continuem silenciadas e representadas
por um porta-voz legitimado pela filosofia, pela literatura, pela
psicanálise, como o ser mais capaz de rir e provocar o riso.
É preciso reconhecer o papel de cartunistas homens que
produziram humor gráfico pró-feminista, especialmente figuras como
Henfil que fazia do seu traço uma ferramenta política de transformação.
Inclusive, vale destacar: Maria Lygia Quartim de Moraes informou que
o cartunista intermediava a publicação de propaganda do Nós Mulheres
no O Pasquim. Entretanto, em termos de humor gráfico, o tema
feminismo só era debatido por homens cartunistas nas páginas do O
Pasquim, nunca por mulheres cartunistas. Mesmo Mariza, mulher
cartunista integrante da equipe do jornal – raramente citada quando são
listados os membros do jornal –, não costumava problematizar questões
referentes ao feminismo no jornal.
O humor gráfico feminista produzido por homens teve importante
contribuição na vizibilização e problematização de uma série de
questões que preocupavam os movimentos feministas entre os anos
1970 e 1980. Entretanto, em termos de domínio do campo, a expansão
dos homens cartunistas em direção ao humor feminista sugere uma
tentativa de manter o monópolio e o domínio de uma área que muitas
mulheres procuravam construir suas carreiras: Sylvia Bruno, Ciça,
Claire Bretecher, Nuria Pompeia, Célia, Lilita Figueiredo, Lilá Galvão,
Eliana Paiva e outras. Embora seja importante lançar um olhar positivo
sobre a problematização feminista através do humor gráfico em veículos
de comunicação que não os feministas, é também fundamental olhar
criticamente essa ―expansão feminista‖ em termos de tema, mas não de
produção e reconhecimento.

265

Figura 72

Fonte: HELÔ, Brasil, novembro de 2015. Conteúdo produzido para compôr a
tese Quem Ri por Último, Ri Melhor: Humor Gráfico Feminista (Cone Sul,
1975-1988). Roteiro: Cintia Lima Crescêncio.

O papel dos homens nas lutas feministas é, portanto, de
ambiguidade. Eles apoiam o feminismo e também se entendem no
direito de fazer a crítica. Eles saem às ruas com as companheiras de
militância e de volta à casa aguardam o jantar ser servido. Eles
ridicularizam o machão, mas para isso representam mulheres como
objeto sexual. Eles celebram as conquistas das mulheres e em paralelo
esperam que seus privilégios sejam preservados. Eles aceitam as
companheiras ativas nos sindicatos, no entanto esperam que elas
continuem servindo o café.

5.2 O MASCULINO NO HUMOR GRÁFICO FEMINISTA DA
IMPRENSA FEMINISTA (por elas e por eles)

Os traços que deram forma às personagens mulheres nos cartuns
assinados por mulheres e homens foram objeto de análise deste capítulo
e do anterior. Iniciei a discussão enfocando em como as mulheres
cartunistas representavam suas personagens mulheres e que tipo de
temas e abordagens prevaleciam. Tal debate permitiu observar a
construção de um humor gráfico que se diferenciava do que costumava
circular na grande imprensa, bem como do que era publicado nos
alternativos não-feministas.
As personagens mulheres de autoria de cartunistas também
mulheres são questionadoras, inconformadas, rebeldes, mas também se
mostram – com muita frequência – exaustas e vítimizadas diante de uma
cultura que insiste em colocá-las como gênero de segunda categoria. Já
as personagens mulheres criadas por cartunistas homens são
representadas por evidentes níveis de ambiguidade. Elas podem ser

266

liberadas, mas também são culpabilizadas, elas são questionadoras, mas
ainda assim são submissas, elas satirizam os homens, mas não deixam
de ser representadas como objetos a serem consumidos. No humor
gráfico assinado por eles o conflito entre mulheres também é colocado
em evidência, algo que não acontece no humor gráfico assinado por
elas. Portanto, a representação das mulheres nos traços de mulheres e
homens cartunistas é diferenciado pela socialização que tais sujeitos
tiveram ao longo de suas vidas, a responsável por definir os modos de
traçar corpos e mentes de mulheres.
As expectativas de gênero que marcaram a construção das
subjetividades de mulheres e homens, como é natural supôr, também
afetaram os modos de representar os homens no humor gráfico com
perspectiva feminista. Nos personagens homens, assim como nas
personagens mulheres, traços e abordagens os representam de um
determinado modo. Entretanto, ao contrário das personagens mulheres,
os personagens homens parecem todos seguir a mesma direção, sejam
eles de autoria de mulheres ou de homens. A ambiguidade que pode ser
evidenciada nas personagens mulheres (por eles) não parece ser
categoria útil para analisar a representação dos personagens homens (por
elas e por eles).
As premissas defendidas por Nancy Walker são novamente pouco
adequadas à realidade do humor gráfico alternativo com perspectiva
feminista produzido e difundido nos países do Cone Sul. A autora
identifica três diferenças básicas no humor masculino e no humor feito
por mulheres: o tema do humor, a forma do humor e o meio como a
mensagem é entregue.338 Em certos níveis os temas podem se aproximar
se considerarmos um esforço de mulheres e homens de conectar o
pessoal com o político, mas novamente a forma parece se diferenciar já
que o produto final em termos de representação dos homens parece se
aproximar tanto no humor das mulheres quanto no humor dos homens.
Os personagens homens, de maneira geral, são representados
como vilões, machos inseguros, maridos acomodados e passivos
sentados em confortáveis poltronas, patrões machistas e burocratas
sentados atrás de uma mesa de escritório, companheiros de militância
que no espaço doméstico optam pela manutenção da divisão
generificada do trabalho. A representação dos homens nos traços com
perspectiva feminista é, portanto, mais homogênea. Em função do

338
WALKER, Nancy A. A very serious thing. Women‘s humor and American
culture. United States: American Culture, 1988, p. 44.

267

alinhamento comum este item não faz uma separação com base na
autoria para debater a representação dos homens, uma vez que charges e
tirinhas, assinadas ou não – seja por mulheres ou por homens –
compartilham modelos de masculino muito semelhantes. Sendo assim,
na sequência, proponho a análise de tais modelos com base nos
diferentes personagens que protagonizam o humor gráfico feminista.
Muitas charges e tiras exploradas no três capítulos anteriores já
apontaram a existência de certos modelos de personages homens. A
organização temática da tese, embora possa causar o desmembramento
da análise do conteúdo das fontes, colabora para a construção de
argumento que, por exemplo, enfoca na singularidade do humor
feminista ou na questão da autoria. Diante disso, não se deve perder de
vista todas as outras charges e tiras já citadas nos capítulos anteriores,
uma vez que todo temas estão articulados pelo mesmo fio condutor: o
humor e o riso feminista como instrumento subversor e revolucionário.
Os personagens homens que integravam o humor gráfico
feminista aparecem em situações das mais variadas e os modelos que
destaquei para analisar são apenas uma parte de um universo maior.
Para finalizar o capítulo pretendo analisar três categorias específicas que
foram identificadas a partir das próprias fontes, são elas: o homem do
sofá, a ambiguidade da militância dos homens e o machão. É na última
categoria, o machão, que o ridículo enquanto objetivo aparece com mais
frequência, embora a ridicularização não costumasse ser uma forma de
humor explorada com frequência pelo humor feminista.
É importante destacar que o uso de tais categorias não são uma
exclusividade da imprensa feminista. Faço menção especialmente ao
homem do sofá e ao machão, representações muito corriqueiras
reproduzidas não apenas nas páginas de alternativos como O Pasquim,
mas também da grande imprensa que acolhia cartunistas como Millôr
Fernandes – revista Veja –, Henfil – Isto É. Os homens que
protagonizavam as charges do O Pasquim, por exemplo, eram
repetidamente baixos, gordos, carecas, engravatados, velhos babões,
guerreiros ―públicos‖ que no espaço privado agarravam-se às televisões,
aos jornais e às poltronas que desempenhavam o papel de trono.
Ainda que tais representações de masculino estivessem
emergindo com força, outras tantas, mais hegemônicas, permaneciam
aquecendo o mercado editorial de histórias em quadrinhos. O famoso
personagem Super-Homem começou a ser publicado no Brasil ainda em
1938, meses depois de seu lançamento nos Estados Unidos, sendo que
em 1984 a editora Abril lançou sua própria revistinha. As tiras de
Popeye foram lançadas em 1929 nos Estados Unidos e apenas três anos

Figura 73 Fonte: PAIVA.268 depois já circulavam em jornais brasileiros. p. é uma projeção dos homens reais. Brasil. Conforme Selma Regina Nunes Oliveira. cit. variava. por aqui – na imprensa feminista do Cone Sul – os personagens homens guardavam suas capas e mantinham suas latas de espinafre fechadas. O modelo do personagem homem. portanto. talvez o único super-poder que lhes restava. 61. Lois Lane e Olívia Palito. com avental sujo e mãos na cintura questiona: ―O que você acha que eu sou? Sua empregada?‖. Um marido afundado em uma poltrona cuidadosamente decorada com 339 OLIVEIRA. contudo. No humor gráfico feminista do Cone Sul seus acessórios eram poltronas fofas. Mulherio. 7. o herói dos quadrinhos é um modelo transportado. op. uma esposa e mãe bagunçada. No cenário. setembro-outubro de 1981.339 Super-Homem e Popeye. adequam-se muito bem a tal modelo masculino de uma parte dos quadrinhos. . com sua força e capacidade de proteger suas respectivas namoradas. jornais e uma atitude quase onipotente.. Miguel. p. Edição 3. Na charge de Miguel Paiva a personagem que já figurou em discussão com a filha questionadora aparece confrontando o marido.

gravata e olhos fechados para ajudar no descanso responde: ―Por enquanto não posso me permitir esse luxo. de chinelos e pés sobre as cadeiras. Mulherio.23. Edição 9. o homem é novamente representado agarrado ao seu acessório primordial do ambiente doméstico. p. Sua condição de homem trabalhador – como sugere a gravata – fazem do personagem homem o rei do lar e como rei suas obrigações são assumir seu trono – a poltrona – e esperar que a rainha do lar cumpra com suas ―obrigações de mulher‖. . 269 paninhos nos braços. setembro-outubro de 1982.‖ O provedor e herói do lar que encontra em casa seu espaço de descanso desafia a esposa não apenas com seu discurso machista. cartunista que não foi possível identificar outras informações. Kahil. por isso se atenha às suas obrigações de mulher. como com sua postura arrogante e despreocupada. Brasil. a poltrona. Figura 74 Fonte: KAHIL. Em charge de M.

Em primeiro plano a dona de casa e mãe. A participação de Bia Sabiá é de figurante. faz malabarismos com quatro crianças. resume sua ação a um braço estendido para trás (em direção ao primeiro plano) para pegar seu par de óculos. A cabeça e os olhos do marido permanecem vidrados no aparelho de televisão. A abordagem de Ciça é nitidamente mais sutil do que as duas charges anteriores. Após a chegada . junho de 1976. A esposa com suor no rosto e cara de desespero estende sua mão para o marido que se encontra no segundo plano da imagem. novamente trajando um avental. protagoniza a cena da chegada em casa com seu companheiro após um dia de trabalho. Equilibrado entre seu indicador e seu polegar está o óculos do ―rei do lar‖ que. Edição 1. Nós Mulheres. Brasil. a personagem mais famosa da cartunista. p. todo o esforço é empreendido pela personagem mulher. por isso vou focar nas falas do personagem que representa o companheiro nos seis últimos quadros. dessa vez com a poltrona sendo substituida por uma almofada e uma cadeira. 2. Bia Sabiá. Figura 75 Fonte: CIÇA. para alcançar o objeto.270 O cenário é complementado com um aparelho de televisão prostrado frente ao seu expectador. embora o mote central seja o mesmo. Em tirinha de autoria de Ciça uma cena similar às duas anteriores se repete.

é imediata e mais contundente. para ler o jornal. o pássaro.. apenas aceito como uma premissa. A naturalização do trabalho doméstico como algo a ser desempenhado pelas mulheres não é questionado por eles. Na sequência. faz o mesmo. provavelmente. certamente. já sentado à mesa: ―Que qui tem de sobremesa? Traz aí o café!. me faz ai uma limonada? E o jantar. quase um Super-Homem sem uniforme que encontra a calmaria em um ambiente que só é sinônimo de descanso para ele. Heitor. Assim como os dois primeiros personagens homens comodamente sentados em suas poltronas o companheiro de Bia Sabiá. Não existe nenhuma referência ao reconhecimento do quão pesadas são as atividades doméstica e a dupla jornada não parece ter alguma validade. a de hoje estava uma droga!‖. O homem do sofá de autoria de Ciça é amortecido pela simplicidade da humanização de animais. repousa o corpo na pedra para descansar e constatar como as mulheres andam querendo mais do que devem. Heitor senta-se para aguardar o jantar. na medida em que se trata da representação de um homem que. enquanto isso ele se comunica com a companheira: ―Ah. Olhai essas notícias. insinua que a função de sua esposa é serví-lo. Já sentado em uma cadeira – como se fosse uma poltrona – e novamente lendo o jornal ele vocifera: ―O mundo tá perdido. Ainda assim ele é representado na mesma posição de passividade que marca o arrogante homem do sofá de Miguel Paiva. Tá fazendo a minha marmita de amanhã? Capricha nela. abre o jornal e inicia a leitura. No último quadro o ato final do personagem é ilustrado por uma Bia Sabiá com rosto de revolta enquanto enxuga os pratos: ―Afinal. o que mais vocês querem na vida?‖. a diferença é que a protagonista é a mulher.. As mulheres tão com tudo.. 271 em casa o pássaro acomodado em uma almofada no chão. sem timidez. Qual é?‖. mas a simplicidade do cenário e a metáfora dos animais são uma forma de abordar um mesmo tema de maneira. não demonstra nenhum senso de autocrítica. vai demorar?‖. ameniza nossa reação a ele. No quadrinho de Claire Bretecher uma história semelhante se repete. O uso de um animal para representar um personagem polêmico. A repulsa e revolta causada pelo personagem de Miguel Paiva. Heitor. O homem é representado como o trabalhador que no espaço doméstico encontra seu refúgio. são umas folgadas e ainda vêm com esse tal de movimento feminista.. . Todo o enredo se desenvolve em torno da tomada de decisão da esposa em pedir a separação ao companheiro. como Heitor.

O marido só aparece na cena nos dois últimos quadros.. Edição 3. Ele encontra-se sentado no sofá assistindo o aparelho de televisão no momento em que recebe um beijo da esposa que dedicou o dia a tomar sua decisão. se lo diré mañana. novembro de 1985. nem a olha com arrogância. A personagem é representada em um dia comum em que dispende seus pensamentos em (re)afirmar a decisão de finalizar a relação por estar cansada de ser tratada como uma escrava. Claire. Ele insinua maior melancolia.. na medida em que permanece na mesma posição. 3. No último quadro ele permanece sentado enquanto a esposa pendura seu casaco e pensa: ―. Uruguai. Cotidiano Mujer. p. Na história da cartunista francesa homem e mulher estão presos. esta noche estoy demasiado cansada.272 Figura 76 Fonte: BRETECHER.‖ O homem do sofá de Claire Bretecher não desafia a esposa. ...

a mulher arruma-se para a atividade que o marido desempenhou pela manhã. Edição 8. Novembro de 1984. todas situações acompanhadas pelos diferentes quadros. La Cacerola. limpar lavar roupas e tomar conta do filhos. O quadrinho narra um dia de celebração da democracia. A esposa demonstra a mesma excitação e informa que fará o mesmo em breve. Depois de cozinhar. p. Uruguai. No . No primeiro quadro o companheiro informa a alegria de estar indo votar. Figura 77 Fonte: Autoria Ilegível. 273 Em história cuja autoria não foi identificada o protagonismo do sofá e de seu proprietário é novamente reforçado. 5.

assumindo a identidade secreta – o homem do sofá. Roteiro: Cintia Lima Crescêncio. mas sim um sorriso simples e singelo. ou melhor. Conteúdo produzido para compôr a tese Quem Ri por Último. Entretanto. Nem todos eles são assumidamente machistas como o homem do sofá de Miguel Paiva. ao final. com uma janela iluminada pela lua e o marido. Figura 78 Fonte: HELÔ.274 último quadro. aquele que desempenha o seu papel de provedor fora de casa – como um super-herói – e à noite veste sua roupa de rei do lar. Do alto de seus tronos. ainda é acionada de maneira bastante direta a invisibilidade do trabalho doméstico desempenhado maciçamente por mulheres. como sempre. Nessa história. acomodado em sua poltrona. Um mesmo modelo de homen é traçado em todas as charges e tiras. ao final todos eles são o mesmo exemplar de um mesmo homem. mesmo que algumas diferenças possam ser notadas em termos de compartamento. . Os cinco exemplos de humor gráfico escolhidos para problematizar a representação dos personagens masculinos como o homem do sofá têm autorias e origens variadas. assim como nem todos têm um sorriso bondoso no rosto como o do último quadrinho. A mensagem. a frase derradeira encerra a cena: ―Las mujeres siempre dejando lo importante para ultimo momento. Ri Melhor: Humor Gráfico Feminista (Cone Sul . Nem todos declaram abertamente. especialmente. de suas poltronas. novembro de 2015. os maridos observam a dificuldade de suas companheiras de cuidar de todas as tarefas domésticas e esperam que elas os sirvam.‖ Ele não tem feições arrogantes como o homem do sofá de Miguel Paiva. assim como nem todos permanecem silenciosos como o homem no sofá de Claire Bretecher. 1975-1988). é a mesma. como o companheiro de Bia Sabiá. Brasil. que as mulheres estão muito abusadas.

76. infra-estrutura doméstica e afetiva pela mulher. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 548. São Paulo: Brasiliense. o homem é um indivíduo autônomo e completo. nunca as mulheres constituiram uma casta estabelecendo permutas e contratos em pé de igualdade com a casta masculina. Socialmente. De acordo com a autora: Não varia muito de uma camada social para outra o IDEAL referente à família. Ambos os sexos são necessários um ao outro. sem valor e considerado improdutivo. O homem do sofá evidencia todas as vicissitudes de um homem que ―da porta para dentro‖ age como um hóspede dentro da própria casa. compreensão e amizade entre pais e filhos). ao comportamento esperado entre seus membros (responsabilidade econômica do marido. O Segundo Sexo. ele é encarado antes de tudo como produtor e sua existência justifica-se pelo trabalho que fornece à coletividade. mas essa necessidade nunca engendrou nenhum reciprocidade. p. O que é família. . 275 Simone de Beauvoir afirma que: O casamento sempre se apresentou de maneira radicalmente diferente para o homem e para a mulher. 2009. A reciprocidade é inexistente diante de um homem sujeito autônomo e produtivo que contribui com o coletivo. p.340 Pensar a relação de homens e mulheres com o casamento é fundamental. Simone. 1985. principalmente diante de um modelo de masculino que enraiza o homem em uma condição de sujeito passivo no espaço doméstico. uma vez que ela contribui ―apenas‖ com a manutenção do espaço doméstico e tudo que gira em torno dele. Em tal cenário o modelo de mulher representada desempenha um trabalho invisível. Danda Prado. aos laços que aí são valorizados (amor entre o casal. Danda. em livro que se dedicou a definir o conceito de família em 1982. apresenta-nos informações que reforçam a existência de um ideal muito claro que perpassaria todas as famílias brasileiras no período. 341 340 BEAUVOIR. 341 PRADO. e à expectativa dos papéis sociais que deverão ser cumpridos por cada um. obediência às diretivas paternas).

História dos Homens no Brasil. 343 Ibidem. enquanto o homem provê a família com recursos materiais de sobrevivência.‖342 O mesmo autor destaca trechos da revista intitulada Ele Ela que nos anos 1970 mostrava preocupação com os questionamentos que se faziam ao papel do homem na sociedade e convocava os homens a resistir a preconceitos promovidos pelas minorias (referindo-se a mulheres e homens gays). 342 MONTEIRO. 2013. Mary del e AMANTINO.). a entrada maciça da mulher no mercado de trabalho. a esposa deve se ater ―às suas obrigações de mulher. Marcia (Orgs. Marko Monteiro. todas sabemos. Masculinidades em Revista: 1960-1990. O modelo ideal descrito pela autora é flexibilizado por diferentes realidades listadas pelas charges e tirinhas. Marko. apesar de todas as mudanças que ocorreram a partir da organização e mobilização dos movimentos feministas.‖343 As charges e tirinhas feministas que colocavam o homem como figurante e ao mesmo tempo protagonista no ambiente doméstico sugerem a permanência de expectativas e modelos de relações domésticas que. de 2010. destaco especialmente o cenário frequente de jornada dupla desempenhada pelas mulheres.. . mas não são absolutas: o homem perde espaço como chefe inquestionável da família.. desse modo. PRIORI. ressalta que ―[. São Paulo: Editora Unesp. In. 346. era constantemente reforçado nos seus papéis mais tradicionais. porque. uma mulher com filhos dedica 25. ainda existem. p. como diz o personagem homem de Miguel Paiva. mas sua posição pivilegiada não desaparece por completo. Segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). O que esta informação traz de relevante ao debate? Mesmo diante das mudanças típicas da segunda metade do século XX. O título do artigo era ―Homem.] as mudanças socioeconômicas e culturais em curso são visíveis. a realidade da dupla jornada só se reforçava. Tanto a personagem Biá Sabiá de Ciça. portanto. quanto a protagonista de Claire Bretecher que carinhosamente beija o marido ao chegar em casa – depois dele – deixam claro que seu trabalho acontece no espaço público e no espaço privado.‖ O modelo de masculino. referindo-se ao contexto de transformações em termos de mercado de trabalho e consequentemente em se tratando do deslocamento de gênero entre as décadas de 1960 e 1970. Cabe a mulher cuidar do ambiente doméstico. p. 350.9 horas por semana aos cuidados com a casa.276 As expectativas de gênero. com muito orgulho. demandam que cada membro desempenhe suas próprias tarefas.

. em diferentes níveis. poltrona.345 Na sua dificuldade de ruptura com antigos modelos os homens de esquerda e companheiros de militância também foram criticados por sua postura contraditória em termos de igualdade de gênero. portanto. O machismo do companheiro de militância. ainda que deslocada..344 O equilíbrio só existe no trabalho remunerado. embora seja apenas uma representação de um modelo de homem. op. 277 enquanto os homens na mesma condição dedicam 15.8 horas semanais. Não acredito que esse traço que enraiza o homem ao seu lugar de descanso – sofá.. . Entretanto. [.com. no entanto. machista. A masculinidade tradicional. a força e a iniciativa como atributos tipicamente masculinos. O homem do sofá. Apesar do vícios machistas cotidianos.br/comportamento/homem-apenas-ajuda- nas-tarefas-domesticas/n1596824771480. radicalmente diferente do homossexual. p. preguiçoso e nada solidário.ig. almofada.4. Já foi dito que os movimentos de esquerda tiveram papel fundamental para a emergência dos movimentos feministas em todos os países do Cone Sul. que o ridículo seja acionado para problematizar a invisibilidade e a desvalorização do trabalho doméstico. apresenta-se como uma realidade que atravessa todas as classes e raças. Defendo. Em termos de trabalho no espaço público elas trabalham em média 36. o espaço assumido pelas mulheres na luta não foi uma concessão. mas um conflito permeado por relações de gênero que escapavam dos espaços dos partidos. As cenas protagonizadas no espaço de ―descanso do guerreiro‖ insinuam que as tranformações culturais enfrentam resistências difíceis de serem rompidas. jornal. representado no humor gráfico feminista como um ser passivo. cit. 345 MONTEIRO.] no interior de novas formas de representar o homem. enquanto eles 41. valorizando a virilidade. as lutas contra as ditaduras civis e militares foram enfrentadas por mulheres e homens.5. televisão – faça uso do ridículo para expôr o homem a todas as contradições que emergem a partir da divisão generificada do trabalho. dos movimentos revolucionários.html Acesso em 21 de dezembro de 2015. 344 Disponível em: http://delas. cadeira. vemos recontextualizadas algumas das antigas referências da masculinidade tradicional: radicalmente oposto ao feminino. das organizações clandestinas. não é simplesmente apagada. 352.

p. Figura 79 Fonte: MORALES. um casal celebra o ano internacional da mulher que foi instituido em 1975 pela ONU. Persona. 5.278 também foi problematizado pelo humor gráfico feminista e são as atividades domésticas que. novamente. Edição 5. como já foi informado. é considerado um importante marco para o fortalecimento dos movimentos feministas em todo o mundo. Em história de Martin Morales. Na primeira parte um casal entusiasmado brinda a decisão da ONU. Na última e derradeira cena a mulher apresenta-se sobre os joelhos com uma vassoura e uma pá limpando o incidente compartilhado por ela e por ele. Nas duas sequências seguintes as taças se partem e seus cacos e conteúdo caem sobre o chão. A contradição de celebrar uma data importante . publicada no argentino Persona. O evento. enquanto o personagem homem é apresentado de costas servindo uma nova taça para si e acendendo um cigarro. ajudam a elaborar tal crítica. Martin. Argentina. 1975.

Na cena que sugere o fim do protesto os . No primeiro quadro marido e esposa são representados em uma manifestação junto a outras pessoas. Ambos têm sorrisos largos. 279 para as mulheres e a incapacidade de ser empático à personagem mulher. braços levantados e seguram um mesmo cartaz com os dizeres: ―Por la igualdad. La Escoba. 27. Bolívia. Figura 80 Fonte: Sem Autoria. O companheiro que celebra o avanço das mulheres e dos movimentos feministas é o mesmo companheiro que pouco ou nada reflete sobre seus próprios privilégios. o cartaz já repousa sobre o chão e a manifestação parece dispersar no plano de fundo. novembro de 1987. traçada com olheiras profundas indicando cansaço – talvez cansaço pela luta privada e pública – não deixa dúvidas. p. Contexto semelhante é problematizado pelo boliviano La Escoba em uma cena que alia manifestação – espaço público – e o já famoso personagem poltrona/sofá – espaço privado. Por la democracia‖. No segundo quadro o casal encontra-se abraçado. Edição 6.

‖ A imagem que não teve sua autoria identificada insinua a disposição dos homens em comemorar os avanços das mulheres desde que eles permaneçam nas suas posições de privilégio que exploram as mulheres em diferentes níveis: no mercado de trabalho. Nos/Otras. Na mesma linha encontra-se a charge do chileno Nos/Otras em que uma mulher carrega sobre os ombros um homem que grita: ―Hala! Arre! Vamos a celebrar por ahí el año de la mujer. dessa vez um balão de fala: ―Por sempre juntos. Ele. sentado em sua poltrona com os pés descansando sobre um banquinho. Mais uma vez não há o uso do . A esposa é representada sem expressão. lê o jornal diante da televisão.280 dois são representados novamente compartilhando dizeres. no consumo do corpo. p. portanto. não tem status de humana. O conteúdo que dá início aos dois quadrinhos não altera seu desfecho. 10. após um dia de militância política. Na imagem a mulher é bestializada. as mulheres continuam ―presas‖ a ―obrigações‖ culturalmente vinculadas ao seu gênero. Ela o serve e não tem vontade própria. ela é um animal que carrega o homem nas costas para onde ele desejar. no espaço doméstico. novembro de 1983. Chile. Figura 81 Fonte: Autoria Ilegível.‖ No último quadro ambos encontram- se novamente em casa. Sem Edição. ela está apenas de pé diante do companheiro com duas crianças chorando ao seu lado. O decreto da ONU e a ativa militância das mulheres. são apenas uma pequena iniciativa em um universo de transformações necessárias. e diz: ―Que tenemos para comer hoy?‖.

respectivamente. apesar das duras críticas e do eventual papel de vilão que eles assumem. O ridículo e o deboche. é deixar clara a importância da reflexão sobre os próprios privilégios. Carnival! Approachs to Semiotic. p. Berlin. a falta de lógica e os absurdos da lei – cultura – as quais as mulheres são submetidas.346 Nas representações dos homens. muito embora a charge. Ambas são protagonizadas por personagens que fizeram fama em outras publicações.V e RECTOR. simpático à causa das mulheres ou não. não foram recursos totalmente ignorados nas charges e tiras publicadas nos periódicos feministas do Cone Sul. como já foi reforçado em outros momentos. . pode despertar uma análise que se aproxime das noções de humor baseadas no estereótipo. In: ECO. o mote dessa ação era mais voltado para o destaque ao absurdo. Porém. Destaco primeiro a de Angeli em que Bibelô candidata-se a um emprego e precisa dar informações para sua ficha de cadastro. The Frames of Comic Freedom. contudo. 1-9. DEU: Walter de Gruyter. O uso do ridículo era raro. mas ele é evidente em duas tiras publicadas no Mulherio e assinadas. um lampejo de plena consciência. por Angeli e Miguel Paiva. assim como a de Miguel Paiva. 2011. Retomo o conceito de humor desenvolvido por Umberto Eco que ressalta que um humor genuinamente subversivo é triste. 281 ridículo. é como um ato de descoberta. não perpassava a ridicularização do outro. é muito importante não perdermos de vista os diferentes níveis de violência simbólica que a exploração de um personagem como o homem do sofá evoca em comparação as mulheres curvilíneas ou masculinizadas desenhadas por Ziraldo. Ressaltar a existência de um homem do sofá. em algumas situações mais extremas. pp. são evidenciadas e como um dos agentes da lei os homens são apontados como parte fundamental da mudança. o que não era tão comum no humor gráfico feminista. cause revolta e tenha uma abordagem violenta. Umberto. V. militante ou não. 346 ECO. Mesmo o homem do sofá. por exemplo. 8. As escolhas que definiam a produção e a publicação de charges e tiras feministas. Monica. IVANOVV. Umberto.

é muito peludo. Tudo isso em contraste com seu nome. como se essa ação fosse potencializar seu status de homem.282 Figura 82 Fonte: ANGELI. p. um Bibelô sorridente pede que seu gênero seja grifado. Sexo? Masculino. Bibelô é um machão suburbano que se vê a todo tempo tendo que reforçar sua condição de macho. Mulherio. Bibelô é declaradamente machista. Na sequência o funcionário pergunta e responde: ―.. Bibelô não aceita ser registrado em um formulário como homem. Brasil. ou melhor. seu corpo é grande e forte. com um sorriso no rosto: ―Dá pra grifar esse item?‖. Edição 18. tem bigode. Bibelô figura em diálogo com funcionário da agência. homem sublinhado. setembro-outubro de 1984. finalizando a cena. desde suas primeiras aparições. Suas tiras costumam ter como argumento principal a relação do personagem com sua própria masculinidade ou episódios declarados de machismo.. No primeiro quadro o empregado questiona: ―Seu nome cidadão?‖ Como resposta: ―Bibelô‖. Na tirinha em questão é exatamente nessa condição que Angeli o coloca. .. mas publicada em 1984. No último quadro. ele quer ser visto como muito homem. Na tira com data de 1983. Desde o primeiro quadro.‖. homem em negrito. 4. homem com H. o personagem de Angeli foi construído com traços considerados muito masculinos. A fragilidade e a instabilidade do modelo de masculinidade representado pelo personagem são evidenciados por sua preocupação em ressaltar sua condição de homem.. Bibelô sugere ao datilógrafo.

Um novo homem – com expressão altiva e rosto desafiador – responde: ―Lanche? Ora. que destaco para análise. Mulherio. carrega em si uma série de contradições que refletem uma crise de masculinidade com séculos de história. senhor?‖. Ih! A aeromoça... definitivamente. cit. gracinha.. janeiro-fevereiro de 1985. p.. pelo contrário... Na última tira.. As charges e tiras que lançam luz a essa ―crise‖.. Ai. são de autoria dos homens cartunistas.347 não surpreende. p. pelo menos. não é fixa. 283 A palavra bibelô significa objeto de adorno pequeno. Bibelô. No desfecho da história o passageiro volta a suar e a incorporar sua expressão de terror: ―. Ave Maria cheia de. 341).. Figura 83 Fonte: PAIVA.‖.. Pode ser usado para referir-se a pessoas.. Edição 20.‖ No quadro da sequência a comissária se aproxima e pergunta: ―Lanche.. inspirado em Badinter. Ah. o personagem. O autor sugere. Está jogando tanto. Que tal um jantar à noite?‖. acho que vou vomitar... Marko. No primeiro quadro o homem sentado durante um vôo com suor no rosto e expressão apavorada pensa: ―Morro de medo. Miguel Paiva evidencia um abismo separando o que os homens pensam e o que os homens demonstram ser. acho que quero mamãe!! Essa joça vai cair. ela não teve início com a emergência dos movimentos feministas no século XX. Brasil. O passageiro homem tem dois grandes medos 347 De acordo com Marko Monteiro foram inúmeras as crises que afetaram os modos de ser homem na história da humanidade. 5. quero algo mais excitante. o século XVII (MONTEIRO. Miguel. .. a existência de uma sucessão de crises desde.. há centenas de anos os homens esforçam-se para fixar uma identidade que. op.. mais forte!. Miguel Paiva apresenta um personagem homem tendo uma crise de pânico em um avião. inclusive para homens em um sentido visto como pejorativo. delicado e frágil.

insinua. não o Pai Nosso. e também a fragilidade do masculino e todos os indicadores acionados para torná-lo fixo e definitivo. O homem do sofá é somado ao homem bibelô que esforça-se para demonstrar força e virilidade. porém. Ele representa uma figura passiva no sentido doméstico e coloca em evidência. Sua oração. o papel de homens libertários na construção de um mundo diferente. No humor feminista marcado pela necessidade de conectar o pessoal com o político. inclusive. A participação dos homens na produção do humor gráfico com conteúdo feminista permite uma crítica diferenciada às expectativas de gênero referentes ao masculino. homem sem sublinhado ou negrito. . encerrando a cena. A linha que os une. convoca sua mãe e Maria. que o caminho para a conciliação seria exatamente o da problematização do modelo masculino naquele contexto. pouco homem. Também o homem do sofá recebe muita atenção. cartunistas mulheres e homens.284 expostos: o de avião e o de parecer fraco. frágil. na representação do masculino eles são capazes de satirizar com bastante propriedade os modelos de masculinidades que os rodeiam. A tira de Angeli e a de Miguel Paiva destacam a fragilidade dos homens – enquanto seres humanos que são –. tanto de cartunistas mulheres quanto de cartunistas homens. muito embora eles tenham avançado num campo em que as mulheres cartunistas lutavam e ainda lutam para se afirmar. os homens fizeram esforços importantes. ou seja. Se na hora de representarem mulheres eles dedicam muita atenção às diferenças que as separam.

mas também não é a charge do humor.. A produção humorística da qual Hildete Pereira não se recordou foi a base para a construção da minha tese. . 2012.] a charge foi muito usada como educação popular. 349 Entrevista com Ana Alice Alcântara Costa concedida à Cintia Lima Crescêncio. p. Florianópolis. A historiadora Rachel Soihet. Entretanto. que se recordou das charges utilizadas pelos periódicos feministas brasileiros – especialmente o Brasil Mulher e o Nós Mulheres – afirmou: ―[. 2012. Para finalizar.‖349 Também a segunda entrevistada rejeitou uma das categorias das quais eu estava me apropriando – o humor – sugerindo que minha abordagem sobre os periódicos. Antes de uma primeira leitura cuidadosa dos jornais feministas acessei oito anos de O Pasquim no intuito de construir uma tese sobre ele.MEMÓRIAS DO RISO ―Não.348 Tal afirmação. Tal relato não foi um caso isolado. Quando o riso era lembrado como um mobilizador nos periódicos citados.. então. 14. dentre tantas outras. Segui. não lembro. deu início a um longo processo de reelaboração das fontes apresentadas até aqui e tantas outras que não puderam ser reproduzidas. já havia seguido tal caminho. Ana Alice Costa. ele era visto com cautela. CAPÍTULO 5 . Tive sucesso. é a charge descritiva de uma situação. não lembro das charges e das tirinhas‖ afirmou Hildete Pereira de Melo Hermes de Araujo em entrevista concedida na primeira quinzena de novembro de 2012. é a ilustração. p. quando questionadas sobre suas memórias sobre o riso no período de emergência dos feminismos no Brasil. era um equívoco. com foco no uso do riso feminista subversor. unanimemente. como se não tivesse um papel muito significativo nessa modalidade de publicação. em busca das publicações feministas e através de uma leitura minuciosa e da localização de centenas de charges e tirinhas com perspectiva feminista fui capaz de construir um problema de pesquisa baseada no questionamento da premissa de que as mulheres feministas foram objeto e alvo de humor na segunda metade do século XX. 285 6. citaram O Pasquim como referência no que se refere ao uso do humor. não é o humor. em extensa pesquisa. as entrevistadas. não me convenci de que seria capaz de produzir uma pesquisa original e inovadora. portanto. em escapar da abordagem sobre O Pasquim como 348 Entrevista com Hildete Pereira de Melo Hermes de Araujo concedida à Cintia Lima Crescêncio. 14. As entrevistas realizadas com Iara Beleli e Ana Alice Alcântara Costa tiveram desfechos parecidos. Florianópolis.

não provocou. Este caminho não se justifica somente pela minha trajetória de pesquisa. Procurando fugir da perspectiva destrutiva do riso. no entanto. fontes impressas e fontes orais. Com a localização de centenas de fontes. muito pelo contrário. Afinal. a rejeição de nenhum dos documentos levantados. como também refletir sobre seu papel e sua repercussão nas memórias de mulheres. e obtive respostas importantes.286 perpetuador de desigualdades e estereótipos. dentro de uma lógica do cômico. pude então reconhecer que as mulheres feministas produziram conteúdo humorístico e foram capazes de construir charges e tirinhas com potencial subversor. até então inexploradas. Do desejo de refletir sobre o potencial político e subversor do humor e do riso. bem como pela produção acadêmica inspirada em um olhar feminista. já fundamentada do ponto de vista teórico. Com uma nova problemática que se alia ao meu questionamento inicial foi possível. que eram leitoras dos respectivos jornais. se é revolucionário. não só debater o uso do humor por periódicos feministas. . de autoria de mulheres e homens. pelo contrário. tal ampliação do debate me pareceu inevitável e é a partir disso que justifico a construção desta tese com um último capítulo que versa sobre as marcas da memória. três mulheres feministas. Em texto sobre a exploração dos estereótipos pelo 350 As primeiras reflexões sobre as memórias do riso tiveram início na disciplina Gênero e Memória ministrada pela professora Janine Gomes da Silva no segundo semestre de 2012 na UFSC. definiu a necessidade e a importância de capítulo sobre as memórias do riso. Não acredito que a relação das entrevistas com minhas fontes desqualifiquem minha proposta. iniciada com a análise das charges e tirinhas feministas que culminou nos depoimentos que me levaram a refletir ainda mais sobre as fontes impressas selecionadas. questionei minhas fontes. como pode ser observado nos apêndices. parti ainda para o debate sobre o papel das mulheres no campo do humor. Mesmo diante da evidência material que os periódicos apontavam. foi através de seus depoimentos que pude ampliar minha reflexão. por que não é lembrado? O cruzamento das fontes de naturezas distintas. de algum modo. Sendo assim. mas também por uma citação que. os depoimentos das entrevistadas. especificamente de humor gráfico. o ressentimento e o esquecimento. bem como para uma análise sobre os modelos de mulheres e homens que protagonizavam tais produções. contradiziam minha tese inicial que reivindicava o caráter revolucionário da produção humorística feminista350.

foi o referido jornal que foi citado.. Isabel (Org). mas foi através delas que pude ampliar minha reflexão. destacou: ―O Pasquim para gente era a subversão. 287 universo do humor. Belo Horizonte: Editora UFMG. integrante da Sociedade Brasil Mulher da Bahia nos anos 1970 e uma das fundadoras do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Mulher (NEIM) da Universidade Federal da Bahia (UFBA) na década de 1980. 60. In: Clio: Série Revista de Pesquisa Histórica. quando questionada sobre o significado do jornal na época. confirmam que O Pasquim ocupa um papel importante na construção da memória. 59-82. que palavras de ordem bem humoradas ―[. p. era a ideia da transgressão. diziam o que eu não queria ouvir. 353 Entrevista com Ana Alice Alcântara Costa concedida à Cintia Lima Crescêncio. Florianópolis.‖353 A presença do semanário nas narrativas. 2012.1 DA MEMÓRIA AO RISO Joana Maria Pedro apontou. não o de produção‖. pp. assim. 47-68. a partir da análise de frases de protesto que colorem as ruas de La Paz. Humor e Caricatura: a questão dos estereótipos culturais. Da bondade dos estereótipos. . 7. a partir das entrevistas pude perceber que o riso machista. Joana Maria. N 26-1. aquilo que consideram que deva ser transformado. 351 ZINK. marcar na memória. literalmente.‖352 Se inicialmente previ que o riso feminista marcou também memórias. porque ele era um jornal de humor. e não os feministas que se aventuraram no uso do humor. Era divertido. p. 2011. 2008. 6. p. Imprensa. Rui. 55. fui convencida a colocar os depoimentos em diálogo com uma pesquisa que assumiu as fontes impressas como objetivo principal. mas ele deixava a gente meio raivosa. Os Feminismos e os Muros de 1968 no Cone Sul. pp. In: LUSTOSA. a possibilidade de ler coisas não permitidas. preconceituoso e misógino do periódico O Pasquim foi o grande marcador de memória dessas mulheres. 352 PEDRO. ao se lembrarem da produção humorística dos anos 1970 e 1980. pelo ridículo e pela ironia.351 Apesar dos medos de desacreditar as fontes pelas quais me apaixonei. na medida em que..] fazem rir e tentam. a citação de matérias e charges específicas. a rememoração dos integrantes do jornal. Rui Zink afirmou: ―O interessante numa anedota é o fenômeno de recepção. Ana Alice Alcântara Costa. As fontes orais.

bem como histórico – ao articulá-la à noção de tempo – o autor permite que o conceito seja explorado de maneira muito singular quando colocado em diálogo com os depoimentos das três entrevistadas. afirmou: ―O Ziraldo era asqueroso‖ (2012. De Michael Pollak a Paul Ricoeur. acredito que diversas perspectivas têm muito a contribuir com as discussões históricas que. Afinal. 355 Destaco que essas impressões são baseadas nas três entrevistas realizadas. história e esquecimento empreendidas por Paul Ricoeur. quando se aventuram a explorar fontes orais. Le Goff. Não ousaria escolher um autor ou autora e decretar finalizado o debate sobre a memória. o que leva a manutenção de memórias que causavam fúria. cabe uma discussão de caráter menos instrumental e mais teórica. Pelo contrário. Ao conceder à memória um caráter narrativo – e imaginativo – . se deparam com uma série de desafios. provavelmente. passamos ainda por Pierre Norra. destacou como a manipulação narrativa serve ao exercício de dominação e intimidação discursiva. Beatriz Sarlo. um levantamento mais extenso de depoimentos. em detrimento do riso feminista?355 Em busca de sanar tais questionamentos me aproprio das reflexões sobre memória. levará a resultados mais diversos. ao ser questionada sobre produtores de humor que causavam maior mal estar nas publicações do O Pasquim. É importante um breve debate sobre a memória. Henri Bergson.288 Tal observação exige uma série de procedimentos no que se refere à análise das fontes impressas: compreensão da amplitude de circulação dos jornais. 354 Ana Alice Alcantara Costa. . tempo de publicação. Nesse momento. No caso desta pesquisa o desafio é procurar entender os componentes da memória que permitem que alguns acontecimentos sejam lembrados enquanto outros são esquecidos. p. 8). principalmente. Que dispositivos permitem que o riso jocoso e machista permaneça marcado nas memórias de mulheres feministas. constrangimento e asco?354 Por que lembramos de maneira seletiva? O que permanece e o que jamais será narrado? São muitas as categorias constituintes da memória que atualmente vem sendo acionadas para respaldar teoricamente trabalhos no campo da história. Graciela Sapriza. recorrência na publicação de charges e tirinhas e uma série de outras ações que são empreendidas em capítulos anteriores. em que optei por refletir sobre as cicatrizes deixadas nas memórias de mulheres feministas. Paul Ricoeur. Maurice Halbwachs. ao reconhecer que a dominação se dá não apenas por meios físicos.

À memorização forçada somam-se as comemorações convencionadas. Ricoeur sugere a construção de um discurso dominante que conta: 1. Um pacto temível se estabelece assim entre rememoração.] História ensinada. Para Foucault o 356 RICOUER. p. Aprendemos com uma série de estudos que o poder é circular.. a princípio. A memória. pela publicação de livros. é fundamental uma análise cautelosa sobre o chamado ―pacto‖ entre rememoração. na medida em que ele permite uma problematização bastante interessante que extrapola a construção de um discurso tido como dominador. pela mídia. uma memória ensinada. como o nazista.. Com o exercício forçado de memorização que pode ser desenvolvido por escolas. não é um conjunto de instituições. por exemplo.356 O alerta feito pelo autor pode parecer. uma memória exercida é. 2. Campinas. a memorização forçada encontra-se assim arrolada em benefício da rememoração das peripécias da história comum tidas como os acontecimentos fundadores da identidade comum [. um pouco exagerado para ser apropriado aos objetivos deste texto. 3. memorização e comemoração. Ao me apropriar de tal reflexão. fruto de um esforço de dominação discursiva. não é um sistema geral de dominação.. a história apreendida e celebrada publicamente. responsável por promover e reverberar acontecimentos e sujeitos específicos.] a memória imposta está armada por uma história ela mesma ‗autorizada‘. Paul. 98. no entanto. De fato. É importante ressaltar que a análise de Paul Ricoeur está muito centrada no estabelecimento de regimes autoritários. 289 [. . O poder não é de propriedade de alguém. SP: Editora da Unicamp. história apreendida. o ―pacto‖. proponho um olhar mais genérico para tal esquema. a história.. da memorização e da comemoração. 2007. a história oficial. no plano institucional. memorização e comemoração. Com a colaboração da história oficial. Portanto. Com a celebração de alcance amplo e repetitivo. o esquecimento. mas também história celebrada. se estabelece por meio da rememoração.

mas também com a esquerda da época. O Pasquim prometia inovar dentro da própria imprensa alternativa.encontro2010. In: Anais do XIV Encontro Regional da Anpuh-Rio. 358 QUEIRÓZ. A principal ideia era dar voz a uma intelectualidade boêmia da zona Sul do Rio de Janeiro. Contudo. Millôr e o Cenário Carioca dos Anos 60. Apesar de apartidário. 1988. o objetivo dessa modalidade da imprensa alternativa – representada pelo O Pasquim – era de crítica dos costumes e do moralismo da classe média..358 A autora pontuou o caráter suprapartidário do jornal. como também sobre as marcas que o semanário insiste em deixar nas memórias das três feministas entrevistadas. Memória e Patrimônio.pdf Acesso em: 12 de março de 2011. Andréa Cristina de Barros. História da Sexualidade: a vontade de saber.] é o nome dado a uma situação estratégica complexa numa sociedade determinada. p. principalmente no O Pasquim. um ano após a decretação do AI-5. Edições Graal. da qual eles mesmos faziam parte. Inaugurado em um dos momentos mais tensos da ditadura brasileira. Conforme Andréa Queiroz: O Pasquim possuía uma linguagem diferente dos outros alternativos da época. foram afastadas as lógicas empresarial e hierárquica. mas sem um engajamento político-partidário. Era um grupo interessado em contestar o conservadorismo da classe média.‖357 Com uma compreensão específica de poder podemos utilizar a estrutura do pacto proposta por Ricoeur para refletir não só sobre o papel do periódico O Pasquim durante a ditadura civil- militar brasileira. buscando-se uma forma alternativa de se fazer jornalismo. como também criar um canal de debate e oposição à ditadura civil-militar (1964-1985). (vol. Como foi debatido no capítulo 1.. 8. mas também na imprensa alternativa de modo geral.290 poder ―[. em função disso deu-se o afastamento do que se 357 FOUCAULT. UNIRIO: 2010.rj. Rio de Janeiro. I). 103.anpuh. ocupado mais em criticar costumes e opor-se ao autoritarismo da ditadura. Disponível em: http://www. Por meio do humor e de uma nova forma de linguagem. p.org/resources/anais/8/1276709038_ARQUI VO_Texto-ANPUH-RIO2010. Michel. . havia uma simpatia não só com a resistência ao regime civil-militar. é importante considerar que os homens que faziam o semanário não estavam completamente alheios aos rumos institucionais da política.

melhores quadrinhos e charges do aclamado semanário. tirinhas. O Pasquim ainda marca gerações que. Assim que o país rumou em direções democráticas. Inovou nas formas de linguagem e atacou um regime político construído de maneira ilegítima e que se mantinha no poder fazendo amplo uso da violência. mesmo já falido. O Pasquim mostrou a que veio. No entanto. O Pasquim marcou uma geração. portanto. o alternativo mais lembrado e prestigiado do país entrou para os livros de história escritos com um olhar de gênero – e cravou marcas nas memórias de mulheres feministas –. portanto. ocupou um espaço privilegiado em todos os livros de história que se dedicaram a narrar a história da ditadura brasileira. através de um pacto repetitivo de rememoração. Em 2009. em um momento tão complexo da história recente. A edição comemorativa. é protagonista de uma ―memória múltipla‖. Com o reconhecimento geral de seus intuitos revolucionários e de seu pertencimento a uma modalidade de imprensa considerada alternativa. Nessa . Contudo. chamando as mulheres de volta ao lar. entrevistas e matérias em que feministas eram o alvo predileto de ridicularização. o jornal. melhores capas. de memorização e de comemoração. a geração que lutou contra a ditadura brasileira. ano em que o jornal completaria quarenta anos. machista. sexista. os mesmos homens que empreenderam uma luta a favor da democracia. ridicularizando feministas. não pode ser discutida. explorando estereótipos de gênero. a Editora Desiderata publicou uma antologia composta por três volumes com as melhores entrevistas. empreenderam também uma luta contra as mulheres – não apenas as feministas. Ressalto que a antologia traz um número reduzido de charges. O Pasquim. continua construindo velhas e novas memórias. ouso dizer. Sob a liderança de jornalistas e cartunistas engajados politicamente e com um projeto gráfico e discursivo definido. a favor da alcunha imprensa alternativa. O Pasquim figura hoje como o grande jornal de contestação que combateu o regime autoritário que viveu o Brasil. A relevância do semanário. adequou-se ao cenário atual e evitou a emergência de novas/velhas polêmicas. Adorando curvas representadas em largos quadris e seios fartos. como uma publicação misógina. 291 convencionou chamar de grande imprensa.

359 Figura 84 Fonte: O Pasquim. que questionava a inteligência das mulheres. como um campo de batalhas. . nos livros de história e na mídia como um combatente corajoso e sagaz. que reduzia corpos a objetos de desejo e 359 Referência ao texto ―Quando a memória é um campo de batalhas: envolvimentos pessoais e políticos com o passado do exército nacional‖ de Alistair Thompson. 4 a 10 de fevereiro de 1975. nas memórias feministas – memória individual e também coletiva – o mesmo periódico é ainda rememorado em função do riso.292 lógica. Se oficialmente O Pasquim figura na memória coletiva. Edição 292. mais do que nunca. Brasil. Capa. Um riso que ridicularizava mulheres consideradas feias. a memória afirma-se.

temos a necessidade de outros e continua: ―Cada memória individual é um ponto de vista da memória coletiva‖.. 1990.São Paulo: Vértice. Partindo de tal premissa o riso assume nesta tese um papel importante. p. BREMMER e ROODENBURG (Orgs. a esse respeito.360 O autor também colabora na análise que concede ao O Pasquim o protagonismo na história e na memória. A monovisão dos estereótipos no desenho de humor contemporâneo. 2011. . seja analisando depoimentos.364 São frequentes as 360 HALBWACHS. na medida em que. 65. No O Pasquim as mulheres eram quase figuras de adorno e foi com o humor que seus integrantes procuraram ―colocar‖ cada peça em seu lugar. 363 Ver. 555. O riso: Ensaio sobre o significado do cômico. No caso das mulheres feministas. o riso – revolucionário e/ou conservador – é o motor da história que pretendo narrar. BERGSON. 364 GOODWIN. 361 LE GOFF. Há outros periódicos alternativos que alcançaram grande reconhecimento. 535-555.361 sendo assim. Imprensa. 2000. São Leopoldo: Editora da Unisinos. SKINNER. ele tem uma história. Hobbes e a teoria clássica do riso. Ricky Goodwin afirmou: ―[. Henri. Belo Horizonte: Editora UFMG. defendeu que o riso deve ser compreendido como fenômeno cultural.). Le Goff. O Riso na Idade Média. quiseram as fontes orais. a esse respeito. Quentin Skinner362 e Henri Bergson363 já dissertaram longamente sobre o potencial danoso do riso. A Memória Coletiva. p. a memória não só é marcada pelos atos heróicos e corajosos do jornal.). uma breve história do riso feminista que.. pp. Jacques.] os estereótipos sempre existirão e o humor fará uso deles‖. Rio de Janeiro: Record. como também por um dos seus temas preferidos: o riso dedicado à feministas e às mulheres. Ricky. Isabel (Org. fosse ainda articulada a uma reflexão sobre as memórias do riso. Em obra recente e reconhecida no universo acadêmico. Já os alternativos feministas tiveram ainda menos notoriedade. 362 Ver. Maurice Halbwachs afirmou que para mantermos lembranças. 94. 2002. Maurice. Humor e Caricatura: a questão dos estereótipos culturais. Quentin. em estudo sobre Idade Média. Rio de Janeiro: Guanabara. Uma história cultural do humor. p. 293 contemplação. In: LUSTOSA. 1978. Parece difícil negar que o ―pacto‖ citado por Ricoeur é uma forma interessante de análise das marcas deixadas pelo O Pasquim. seja explorando fontes impressas. enquanto outros periódicos – com destaque especial aos feministas – são esquecidos nas narrativas e nas estatísticas. mas nenhum deles no nível da publicação carioca.

na medida em que a relação do jornal O Pasquim com os sentimentos controversos das entrevistadas faz-se presente em muitos momentos dos depoimentos. O mesmo autor. Segunda Dissertação: ―Culpa‖. de um grande ressentimento que permanece marcado na memória. quando bem questionadas. Maria Stella. Márcia (Orgs). NAXARA.. Trata-se. 6. as invejas.2 MARCAS DA MEMÓRIA Friedrich Nietzsche afirmou que ―[. Era de tal abordagem e de tais fontes que procurei escapar quando me debrucei em periódicos feministas em busca de algo que ainda não tinha clareza do que era. 2001. preocupado em debater a questão da história articulada à memória dos ressentimentos. portanto. forte ressentimento. pois são exatamente estes os sentimentos e representações designados pelo termo ressentimento‖. afirmou que ―É preciso considerar os rancores. História e memória dos ressentimentos. F. Rancor é um sentimento de profunda aversão provocado por experiência vivida. Pierre.294 abordagens como a de Skinner e Bergson.‖367 O frequente uso pelas entrevistadas da expressão raiva e/ou raivosa ou mesmo a 365 NIETZSCHE.] o que não cessa de causar dor fica na memória‖. ódio profundo não expresso. fazendo uso dos estudos de Freud. ao invés de rirem do oprimido. 24. a não ser no mundo da utopia. 15-36. In: BRESCIANI. a erradicação completa dos ressentimentos. In: Genealogia da Moral. riem do absurdo da cultura que ridiculariza e inferioriza mulheres. Na ―fuga‖ localizei grande número de charges e tirinhas que. Campinas: Unicamp. os desejos de vingança e os fantasmas da morte. p. p. 367 Ibidem. Pierre Ansart. 61. Bem como visões semelhantes às de Goodwin que insistem em justificar certas modalidades de humor como ―brincadeiras‖. 366 ANSART.366 A observação do autor é fundamental para análise das fontes orais que trago em destaque. talvez. São Paulo: Brasiliense.365 A citação. pp.. Tais amostras. 15. W. p. Memória e (res)sentimento: indagações sobre uma questão sensível. ―má consciência‖ e coisas afins. informa: ―Freud lembra-nos que seria ilusório esperar. ironias e brincadeiras. que afirmam o potencial destrutivo do humor e a inviabilidade de construir outras formas de riso. 1988. justifique a dedicação que a historiografia feminista reserva ao jornal alternativo O Pasquim. . respondiam com piadas.

àquela inicialmente marcada pelo pacto definido por Ricoeur.. notadamente o ressentimento. o rancor. Afinal. No entanto. .. em função da escolha pelo debate acerca das marcas da memória. a raiva. 369 ANSART. o ressentimento.. 2012. é marcada ainda pelo ressentimento. mas também por entender as dificuldades de eleger um sentimento. Não só por não ser o objetivo do meu trabalho. a princípio. Florianópolis.] Certamente é muito mais difícil traçar a história de ódios do que a história de fatos objetivos. sendo assim. 295 declaração de Ana Alice Alcantara Costa que. op... A 368 Entrevista com Ana Alice Alcântara Costa concecida à Cintia Lima Crescêncio. [. como objeto de análise histórica. é inevitável que uma reflexão sobre os ressentimentos causados pelo jornal assumam uma parte do capítulo. é bastante problemático para se discutir no campo da história. 28. p. A questão dos ressentimentos nos defronta com uma dificuldade permanente das ciências históricas: a de restituir e explicar o devir dos sentimentos individuais e coletivos.] que memória conserva o indivíduo de seus próprios ressentimentos?‖370 Aproprio-me da pergunta e a estendo às narrativas das três entrevistadas: que memórias as mulheres feministas conservam de sua relação com O Pasquim? Que ressentimentos insistem em marcar memórias? Seriam as cicatrizes compostas apenas por ressentimentos? A zombaria do semanário fundado em 1969 não foi uma novidade para mulheres que lutavam por seus direitos. principalmente quando analiso o modesto número de três depoimentos. p. Essa memória. Ansart questiona: ―[.368 evidenciam um elemento que. 30. ressentimentos também são responsáveis pela constituição de uma memória múltipla.369 Não tenho a intenção de traçar a história dos ressentimentos produzidos pelo famigerado semanário O Pasquim nas memórias feministas. p. afirma: ―O Ziraldo era asqueroso‖. ao se referir a um dos cartunistas do O Pasquim. cit. 370 Ibidem. A prática de desacreditar feministas é centenária e foi bastante recorrente na emergência do que se convencionou chamar de movimento sufragista – movimento feminista de primeira onda – no princípio do século XX. 9.

‖ Essa é uma forma muito fácil dos homens nos colocarem em uma vulnerabilidade muito forte. Essa acusação já nos colocava na defensiva. igualdade entre os sexos. ainda se depararam com a oposição de um jornal que. lésbicas. como também charges e tirinhas que se tornaram mais comuns a partir de 1950. Hildete Pereira de Melo Hermes de Araujo. O uso de estereótipos era exaustivo e a representação das mulheres feministas era bastante óbvia: feias. era um ―auê‖. integrante do PC desde a década de 1960. Florianópolis. mal humoradas. uma das criadoras do Centro da Mulher Brasileira (CMB) e que já nos ano 2000 ocupou uma série de cargos na Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM) junto ao Governo Federal. 2012. sempre sob a pecha do que significava dizer-se feminista naquele momento. apenas a atualizou para novos tempos e em uma linguagem inovadora. Os feminismos brasileiros. renomado caricaturista que não hesitava em ironizar o desejo do ―sexo gentil‖ de votar ou trabalhar fora do ambiente doméstico. As demandas dos movimentos feministas de segunda onda. entrevistas. como feia. 12. como direito ao corpo. Assim. está arrombando portas e já é recebida como mal humorada. embora 371 Entrevista com Hildete Pereira de Melo Hermes de Araujo concedida à Cintia Lima Crescêncio. portanto.296 pesquisa de Rachel Soihet abrangeu também tal período e denunciou práticas que se repetiram na emergência dos feminismos de segunda onda brasileiros. bem como de outras mulheres que escreveram sobre O Pasquim após anos de militância feminista. do regime civil-militar que comandava o país naquele momento. nem abriu a porta. bem como a famosa frase ―o pessoal é político‖.371 A posição da narradora é muito semelhante à das outras entrevistadas. explorando não só piadas escritas. como ―não arranja um homem e é por isso que adota essa bandeira. . reportagens. solteironas. Como rir. mal amadas. destacou o que significava naquele momento o tratamento concedido pelo O Pasquim às feministas. Se nos anos 1960 havia O Pasquim e sua equipe. O Pasquim não inaugurou uma modalidade nociva de humor. no início do século havia a Revista Ilustrada e Angelo Agostini. p. além de terem de enfrentar o conservadorismo da sociedade civil. mostraram-se pratos cheios para as intenções do semanário.

Ana Alice Alcântara Costa. uma vez que não têm corpos que provocam o desejo de consumo. Figura 85 Fonte: ZIRALDO.‖372 A lembrança do primitivismo de Ziraldo não é única. O recado dado ainda avança ao apontar que. 8. Se a personagem for intepretada como uma mulher feminista. Brasil. Florianópolis. Por fim. O desenho dele não era uma coisa civilizada.. tudo bem as feministas serem donas de seus corpos. O Pasquim. Na imagem de autoria de Ziraldo. mais baixa. cabelos curtos. como fica evidenciado na charge da sequência. 12.. pois tais corpos não são de interesse dos homens. 297 se afirmasse libertário. 3 a 9 outubro de 1980. para Ziraldo. 2012. O corpo masculinizado 372 Entrevista com Ana Alice Alcântara Costa concecida à Cintia Lima Crescêncio. o desenhista é famoso por desagradar feministas por sempre procurar trazer mulheres de volta ao lar e por colocá-las na posição de objeto sexual. p. colocava as mulheres em uma situação de ―vulnerabilidade muito forte‖. A personagem da esquerda. P. sem uma abordagem que traga algum resquício de novidade. segundo ela: ―[. duas pessoas picham uma parede com dizeres similares. como demonstra o trecho do depoimento. o cartunista sugere que feminismo é ―coisa‖ de mulheres feias. trata-se de uma charge que insinua que mulheres feministas não são desejáveis. lembrou da figura de Ziraldo que. traços retos e roupas largas pode ser interpretada como uma mulher feminista.] era asqueroso. Na parede ela escreve: ―Nosso corpo nos pertence‖. palavra de ordem e princípio político dos movimentos feministas de tal período. Edição 588. . ao ser questionada sobre a atuação dos integrantes do jornal que mais a perturbavam.

] o feminismo era mal visto no Brasil. a frase pichada é significativa. . também pode ser analisado como uma personagem homem. demonstrando as dificuldades de ―adaptação‖ de suas perspectivas. A personagem mulher que interessa ao consumo dos homens é alta. pelos militares. é a principal característica da chamada imprensa alternativa. Uma história do feminismo no Brasil. reforça a função de objeto dos corpos das mulheres. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo. Também nesse contexto..298 traçado por Ziraldo. 64. serão consumidos e objetificados. ao ser substituída pela palavra ―nus‖. não só do O Pasquim. os corpos das mulheres não pertencem a elas. São frequentes os personagens homens do O Pasquim representados como figuras baixas e de roupas ―quadradas‖. pela esquerda. portanto. À direita a palavra ―nos‖. como é o caso de Henfil. entretanto. em que a personagem é entendida como um homem. Céli Regina Jardim Pinto identifica os problemas enfrentados pelos feminismos no Brasil durante o período. enquanto o ―nos‖ apenas exalta o direito ao corpo garantido a mulheres feministas – feias – e aos homens. afinal. um dos motes do feminismo. tem muitas curvas e está disponível. [. 2003. por uma sociedade culturalmente atrasada e sexista que se expressava tanto entre os generais de plantão como em uma esquerda intelectualizada cujo melhor representante era justamente o jornal Pasquim. com longos cabelos esvoaçantes. que associava uma liberalização dos costumes a uma vulgarização na forma de tratar a mulher e a um constante deboche em relação a tudo que fosse ligado ao feminismo. p. A mensagem de Ziraldo assinala que de nada interessa os movimentos feministas. ressaltada ainda pelas roupas da mulher representada. ―Nosso corpo nos pertence‖ é totalmente adequada à realidade dos homens. embora muitos cartunistas produzissem charges que divulgavam as causas das mulheres e dos movimentos feministas.373 373 PINTO. Tal atitude. Charges com tal teor são comuns no período. veste roupas justas e curtas. já que seu escrito aponta que tais modelos de corpos ―pertencem‖ a alguém que não é ela própria. A personagem que escreve na parede ―Nossos corpos nus pertencem‖ é totalmente diferente da personagem à esquerda. contudo. Céli Regina Jardim.. com teor conservador.

] 375 O destaque para o desconforto causado pela entrevista com Betty Friedan foi notório. 299 Como demonstrado na citação. A publicação. pelos estudos de Rachel Soihet e etc. Me incomodou o escracho da Leila Diniz de deixar eles brincarem. A entrevista da Betty Friedan foi uma coisa que incomodou. em diálogo com a feminista estadunidense. Florianópolis. o emergente feminismo de segunda onda brasileiro enfrentava uma série de obstáculos. Mas eu me lembro que uma coisa que me incomodou muito foi a entrevista da Betty Friedan e a piada: dá um fogão para ela. mas também pelos discursos que 374 Entrevista com Ana Alice Alcântara Costa concecida à Cintia Lima Crescêncio. Os revolucionários e subversivos. por ocasião de sua visita ao Brasil. Florianópolis. 7 375 Entrevista com Hildete Pereira de Melo Hermes de Araujo concedida à Cintia Lima Crescêncio. ficou muito desagradável[. A feminista que influenciou gerações de mulheres. Eu não sei até que ponto era uma consciência feminista ou um pensamento conservador de estar pensando na forma que eles tratavam as mulheres. . As entrevistadas. p. como pode ser evidenciado pela citação anterior. consta a entrevista concedida por Betty Friedan ao semanário em 1972. nas páginas do O Pasquim.. Não bastasse a opressão de um governo ditatorial e autoritário que proibia o direito de reunião.. assumidamente liberal. ainda era preciso lidar com as críticas elaboradas pela esquerda e principalmente pelo semanário O Pasquim. memórias que são constituídas pela experiência. 2012. foi chamada a lavar panelas e ainda foi acusada de ser feia pelos jornalistas que editavam o jornal. 2012. p.374 Quando a Betty Friedan veio e deu a entrevista que O Pasquim fez aquela gozação. pela notoriedade e fúria que promoveu. motivadas pela vivência daquele período. é sempre lembrada nas narrativas historiográficas que se preocupam em contar a história dos feminismos no Brasil. ou ainda construídas pelos discursos que contam histórias feministas. tomaram rumos desrespeitosos a ponto de marcarem memórias. também fizeram questão de rememorar o episódio ao serem questionadas sobre o que incomodava no conteúdo do O Pasquim. 7. Dos episódios incansavelmente destacados.

p. No mesmo ano. 98.. No artigo. com merecido destaque ao tratamento concedido pelo semanário O Pasquim a então visitante. ser feminista é também compartilhar memórias e a memória de Betty Friedan e sua representação no O Pasquim foi muito bem compartilhada.376 ou seja. . O primeiro é o fato primordial de ela ser uma feminista. é ressaltada a enorme contribuição da estadunidense aos feminismos dos anos 1970 e sua visita ao Brasil em 1972 é rememorada. como forma de homenagem. exatamente no dia em que completaria 85 anos. O segundo é o fato de Friedan ser uma mulher assumidamente liberal. cit. Em 4 de fevereiro de 2006 Betty Friedan faleceu. muito embora ela não seja justificada. a Revista Estudos Feministas publicou o artigo ―Betty Friedan: morre a feminista que estremeceu a América‖ de autoria de Ana Rita Fonteles Duarte. 376 RICOUER.300 compuseram o episódio. nascida nos Estados Unidos. um dos alvos prediletos do semanário. Motivos para a ―perseguição‖ não faltavam. op. No encontro entre O Pasquim e Betty Friedan há no mínimo dois elementos a serem considerados. Paul Ricoeur reforça que a memória é incorporada à própria constituição da identidade que se dá por meio da função narrativa.

301 Figura 86 Fonte: O Pasquim. Capa. no Pasquim. Sobre o contexto da entrevista. 3 a 9 outubro de 1972. Até um olhar pouco cuidadoso é capaz de perceber que a foto escolhida para figurar na capa não foi escolhida acidentalmente. entrevistada e entrevistadores acabaram se entendendo. Brasil. Finda a troca de farpas. sabidamente antifeministas. baseada em informações trazidas por José Luis Braga. em que foi publicada sua entrevista. foi levada por Rose para ser entrevistada por Millôr Fernandes e seus asseclas. nas palavras da própria Rose. Provocada durante toda a entrevista. Ana Rita Fonteles Duarte. Edição 94. destacou: Logo que chegou ao Rio. O número 94 do jornal. O Pasquim não é o primeiro nem será o último jornal a escolher ângulos poucos favoráveis de mulheres poderosas para divulgar em capas e reportagens. trazia a . ela se irritou e ―deu uma cacetada no gravador que foi parar longe‖.

Brasília: Editora UnB. Rose Marie. 2001. Carmem da Silva. Afinal. na medida em que a lembrança recorrente do episódio está relacionada a um cenário de furor da mídia da época. Ela própria fez uma observação pouco generosa. O Pasquim e os anos 70: mais pra eba que pra oba. no trecho. a acusação da falta de humor nos círculos feministas era difícil de ser combatida e. 291. Florianópolis. o mesmo que havia iniciado a entrevista perguntando a ela se tinha vindo ao Brasil para dar fim à ―submissão secular da mulher brasileira‖. 380 Ibidem. almoços de negócios foram realizados. 292. O relato detalhado sobre Betty Friedan é relevante. que ―foi muito estimulante o papo com Betty Friedan. 1991. 2006 apud BRAGA. p.302 seguinte frase de capa: ―Desculpe Dona Betty. p. a responsável por trazer Betty Friedan ao Brasil e que a acompanhou durante sua estada na maior parte das entrevistas. Ana Rita Fonteles. Rio de janeiro: Editora Rosa dos Tempos. Rose Marie Muraro buscasse a aceitação do grupo. In: Revista Estudos Feministas. da revista Claudia. janeiro-abril. o jornalista Paulo Francis. mas nós vamos dar cobertura às furadoras da greve de sexo. uma vez que a própria Rose Marie Muraro era alvo constante dos integrantes do O Pasquim que a atacavam principalmente em termos de estética. referindo-se à visitante como ―feia e agressiva. Muitas entrevistas foram publicadas.‖378 A incorporação e reprodução da piada é um fenômeno curioso. referindo-se à visita da famosa feminista ao Brasil. cit. José Luiz. talvez.‖377 A autora. palestras lotaram auditórios. O relato sobre o gravador foi feito por Rose Marie Muraro. op. Betty Friedan: Morre a feminista que estremeceu a América. narra um pouco dos bastidores da entrevista. 14 (1): 336.379 Carmem da Silva. uma conivência estratégica poderia ter algum impacto positivo.‖ Na edição. fez uso de sua influência para protestar contra o tratamento concedido pela imprensa brasileira à visitante. p. Os seis meses em que fui homem. declararia que eles haviam gostado dela. Ao aceitar e repetir a opinião do jornal sobre Betty Friedan. 379 DUARTE.380 Em sua coluna A Arte de Ser mulher. 378 MURARO. p.. diante de homens pouco dispostos a repensar o papel político de sua produção humorística. . colunista reconhecida. afirmou: 377 DUARTE. 17. 106.

São Paulo: Abril. A revista Veja. sem cerimônia e contraditados com a maior suficiência. ela acusou noticiários de serem superficiais em seus questionamentos. notadamente. não está dirigida somente ao O Pasquim. por mim mesma. nos grosseiros ataques contra uma hóspeda cortês e nas suposições gratuitas sôbre sua vida íntima. 3. 1971. Veja o Feminismo em Páginas (re)Viradas (1968-1983).382 A descrição nada generosa foi acompanhada ainda de uma foto que em pouco contribuiu para causar simpatia com a feminista estadunidense. conceitos que ela jamais emitiu. Friedan dizia uma coisa e os meios de comunicação ―reproduziam‖ outra completamente diferente. p. Isso sem falar nas perguntas primaríssimas que foram dirigidas a uma mulher com formação universitária. Cansei-me de ouvi-la expressar com mediana clareza idéias que logo apareciam truncadas e deformadas: vi como lhe foram atribuídos. 106. Confirmando a competência intelectual e a importância social e política de Friedan. ela dá a impressão de estar fazendo uma conferência para um auditório universal. São Paulo. 18. P.383 Foram muitos os veículos de comunicação que 381 Claudia. 21 abr.381 Carmem da Silva. N. Veja. CRESCÊNCIO. ao apresentar a entrevistada das páginas amarelas assim a descreveu: Baixa. Dissertação de mestrado defendida no . Betty Friedan não possui um tipo físico atraente. Seus gestos são vigorosos (talvez pretendam até ser dominadores). condenou de maneira veemente os modos da imprensa brasileira no tratamento a Betty Friedan. julho de 1971. A declaração. Empolga-se quando fala – e fala muito. n. de nariz pronunciado. Ano X. 383 Ver. Cintia Lima. a esse respeito. 382 Entrevista com Betty Friedan (Jornalista Ronald de Freitas) . além de sair em defesa da visitante. cabelos grisalhos e voz quase rouca. que nem sempre se pode dar crédito ao noticiário. na conversa mais informal. integrante de um nicho da imprensa bem distinto do alternativo. 137.Guerra às panelas. E. por exemplo. bem como manipuladores na divulgação das declarações da feminista. 303 Durante essa visita verifiquei.

a repercussão de sua vinda tem uma relação direta com as memórias feministas. a coisa cáustica do humor e da brincadeira.384 Betty Friedan não é a única a ser lembrada e foi exatamente a sua ―anfitriã‖ na visita de 1972 um dos principais alvos do humor do O Pasquim. pensamentos. o discurso que se construiu em torno de sua principal obra. principalmente as feministas. fazendo uma briga de foice em um quarto escuro.304 divulgaram – ou distorceram – as intenções e palavras de Betty Friedan e. ter uma receptividade com as mulheres. certamente. Para além do tornar-se: ressonâncias das leituras feminista de O Segundo Sexo no Brasil. serve só para enfeite. com relação à questão do humor. colaboraram e muito para que Betty Friedan povoasse memórias. dizendo que ela era feia e tal. na sociedade. que mulher é burra. como um livro fundamental para explicar os feminismos da época. 100. mas também de um esforço coletivo – bem como de uma comoção localizada temporalmente – de preservação de certas histórias. são fruto não só de suas memórias individuais. era fácil fazer piada com a questão das mulheres. Florianópolis. criar. Quando a gente começa a encorpar ideias. Os relatos de Ana Alice Alcântara Costa e Hildete Pereira de Melo Hermes de Araujo. de depreciar. 384 BORGES. 2012. Joana Vieira Borges. Mas a gente não sabia como responder com riso a esse tipo de piada. nos chocava. de certo modo. Eu não sei dizer para você nenhuma piada de gozação com relação ao machismo masculino. Dissertação de mestrado defendida no Programa de Pós-Graduação em História Cultural da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). p. ao lado de O Segundo Sexo de Simone de Beauvoir. isso nos incomodava profundamente. A Mística Feminina. Mas a gente não tinha uma resposta política para isso. isso foi muito desagradável. O grande começo da indignação é em cima da brincadeira pesada com a Rose Marie Muraro. . Joana Vieira Borges identifica A Mística Fermina como a obra feminista mais citada no período. Além disso. pessoas. Só me lembro das acusações da Programa de Pós-Graduação em História Cultural da UFSC: Florianópolis. 2007. Rose Marie Muraro era frequentemente citada pelos jornalistas e cartunistas que integravam o jornal.

Eles usavam o recurso do humor para desqualificar. O fato do Pasquim assumir uma postura tão machista significava que as questões que nós estávamos colocando ressoavam. 305 imprensa de que as feministas eram mal humoradas: bando de mulher mal humorada e não sei o quê. Eles respondem com a ideia de que eram mal amadas e tal e a gente ficava furiosa. Afinal. acabava desqualificando a questão. Florianópolis. eram não só ridicularizadas como nomeadas. mesmo que com reservas. Se na época a fúria compunha as relações das feministas com O Pasquim. 8. Mas era um beco sem saída. Trazia a tona. A atuação do O Pasquim causava revolta e. Perguntada de sua avaliação sobre o jornal hoje. ao mesmo tempo. 40 anos depois. como se responde ao humor. É um reconhecimento da ressonância da temática que era trazida por nós. o que seria uma possibilidade de reagir à zombaria. estas mulheres conseguem atribuir à controversa publicação. principalmente o destrutivo? Ela ainda ressalta seu desconhecimento em termos de piada. Talvez daí essa tensão 385 Entrevista com Hildete Pereira de Melo Hermes de Araujo concedida à Cintia Lima Crescêncio. o que serviu para nutrir rancores que ainda hoje se expressam. O depoimento de Hildete Pereira de Melo Hermes de Araujo é bastante simbólico. bem ou mal. Por mais que eles pudessem estar bem intencionados.385 As feministas. mas ela permitia uma desqualificação. somente hoje. paralisia. eram alvo do semanário e as que se destacavam. 2012. uma vez que mais de uma vez ela sugere que os ataques as deixavam em um ―beco sem saída‖. afinal. que era simplesmente: vamos brincar. Porém. da questão da igualdade. como é o caso de Betty Friedan e Rose Marie Muraro. é uma forma de colocar o problema. o lamento pela perseguição do jornal não anula o papel que. As ressalvas à produção do O Pasquim são muitas. a brincadeira também serve. . sentimentos como raiva e desapontamento são comuns a tudo que é humano. Hildete Pereira de Mello Hermes de Araujo respondeu: Eu me rendo a ideia de que falar de mim. uma análise posterior e atual possibilitou que as três mulheres revissem suas impressões antes tão definitivas. p. de maneira geral.

mas eu fui descobrir a Betty Friedan pelo O Pasquim. ele era inovador e ele possibilitava isso. Se a gente pegar hoje O Pasquim daquela época e pensar naquele contexto. não se perderam nas páginas do jornal. Florianópolis.386 O relato inicia com a constatação que o periódico prestou um desserviço ao feminismo. mas era uma possibilidade de você estar discutindo essa coisa da sexualidade mais autônoma. A entrevista da Leila Diniz quebra. 2012. Essa coisa que me marcou da entrevista com Betty Friedan. Eles reconheciam esse papel. mas eles abriam essa possibilidade. a própria brincadeira com o feminismo. 2012. porém. 387 Entrevista com Ana Alice Alcântara Costa concedida à Cintia Lima Crescêncio.306 permanente entre nós e eles e a pecha de que as feministas eram mal humoradas. p. de repente. mesmo que eles resistissem. os problemas feministas foram colocados em pauta. que é a sexualidade: a mulher dá para quem quer. . Para eles essa do ―dar‖ era o ―dar‖ de usar as mulheres. Ele teve isso. Florianópolis. eles abriram espaço para determinadas mulheres falarem coisas diferentes. 19. O conjunto de entrevistas. Ana Alice Alcântara Costa afirmou: Eu não diria que mesmo com aquela coisa ele tenha prestado um desserviço porque. p. desarruma nossa cabeça e outras mulheres que eles entrevistaram. gostando ou não. ele traz esse diferencial que o campo da esquerda tradicional não trazia tanto. mesmo com a piadinha deles. identifica que o jornal serviu para a constituição de estereótipos que permaneceram. Questionada no mesmo sentido. no mínimo. porque continuava tratando certas questões como tabu. mas logo na sequência a entrevistada reconhece que. E tem um campo que ele foi muito importante. ele traz mais contribuições do que O Movimento fazendo um discurso certinho. 387 386 Entrevista com Hildete Pereira de Melo Hermes de Araujo concedida à Cintia Lima Crescêncio. 7. O olhar mais maduro. Nesse ponto. ele trazia... acabava sendo o veículo de divulgação também do feminismo que chegava.

que brincava com as mulheres de um jeito. que hoje atua como coordenadora do Núcleo de Estudos de Gênero Pagu. mulheres que não eram evidenciadas pelo jornal O Movimento. Florianópolis.] ficava completamente enlouquecida e raivosa. 307 Do trecho selecionado destaco a relevante informação de que Betty Friedan foi descoberta por uma feminista atuante ainda hoje. ele colocou as mulheres em cena. indignação que foi substituída pela compreensão de que o jornal. desqualificou. por exemplo. naquele momento eu só me incomodava e ficava muito brava. as mulheres nem existiam. de certo modo.. pelas páginas do O Pasquim. ao menos. eu achava misógino.‖388 Ela reforça: Eu tinha muita raiva do Pasquim. não colocava. E hoje eu fico pensando. Iara Beleli destaca a revolta causada pelo O Pasquim.389 Com um discurso bastante semelhante. jornal de esquerda que tinha como proposta ideológica enfatizar as questões políticas. permitia a existência das mulheres em suas páginas. p. eu achava que destratava as mulheres. porque os outros sequer mencionavam. 2012.. da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). política entendida em seu sentido institucional. por exemplo. Iara Beleli. mesmo que por motivos discutíveis. . para eles. Florianópolis. p. eu consigo elaborar isso hoje. naquele momento eu não pensava que elas não eram. 389 Entrevista com Iara Beleli concedida à Cintia Lima Crescêncio. não sei. 9... Ela prossegue: Eu acho que O Pasquim foi muito importante. Claro. a citação demonstra que. sujeitos. Se o jornal ofendeu. informou que lia e que ―[. Ana Alice Alcântara Costa destacou ainda a questão da liberação sexual. 9. 388 Entrevista com Iara Beleli concedida à Cintia Lima Crescêncio.. prestou um desserviço aos feminismos e às feministas. 2012. O Pasquim era o único meio de difundir a ideia de que as mulheres tinham direito a exercer sua sexualidade como bem entendessem. que talvez O Pasquim tenha colocado na cena uma questão que o jornal O Movimento. Para ela. ao ser perguntada se lia O Pasquim. em que até a comparação com O Movimento se faz presente.

O fazer rir. a partir de um contexto em que ―ter voz‖ era um grande desafio. cit.391 As narrativas das três mulheres sobre o jornal variam entre sentimentos de raiva. como o próprio nome indica. demonstrando a importância do O Pasquim e as marcas que ele deixou nessas memórias. componente da memória. a função do O Pasquim naquele momento foi positiva. com muitos custos. p. No filme o personagem principal é: o limite do riso. 391 RICOUER. para o bem ou para o mal. Então acho que O Pasquim. 2012. p. talvez. na medida em que ele ―pôs o movimento feminista em cena.390 Em última análise. a um sentimento de certo reconhecimento. favoreceu um olhar mais brando sobre a publicação. lançado no final de 2012.youtube. Obviamente.com/watch?v=PRQ1LuBWoLg Acesso em 10 de janeiro de 2013. é sempre baseado no rir de alguém em benefício do riso dos outros. op. 390 Entrevista com Iara Beleli concedida à Cintia Lima Crescêncio. Florianópolis..308 absolutamente ignoravam. quando mulheres engajadas com a causa questionavam os modos de fazer rir de periódicos alternativos como O Pasquim. O passar do tempo. 6. foi composta mais de esquecimentos do que de lembranças. acabasse sendo compreendida como algo produtivo. resume um debate sobre o riso que vem sondando os debates feministas desde a década de 1960. como apresentado na película. em se tratando do uso do riso em periódicos feministas. de indignação. de direção de Pedro Arantes. 451.‖ A impossibilidade de divulgar as bandeiras e ganhar mais espaço fez com que a atenção dedicada pelo jornal aos movimentos feministas. Memórias que. 9. possa ser articulada à ideia de que lembrar-se é não esquecer e esquecer é ter que perdoar. 392 Disponível em https://www. de fúria. de uma maneira enviesada e torta. as entrevistadas concordaram que. .3 ESQUECIMENTOS O documentário O riso dos Outros. até para que a gente pudesse contestar esse tipo de bordão e pudesse vir dizer o que é que o movimento feminista estava propondo. Tal benevolência. pôs o movimento feminista na cena. mesmo que sempre baseadas na chacota e na piada.392 de certo modo.

em última análise. quando questionada sobre tirinhas e charges nos periódicos Nós Mulheres e Brasil Mulher. como fizeram questão de demarcar as entrevistadas? Minha hipótese é que sim.‖393 A negativa se repetiu quando o questionamento foi sobre o Mulherio. embora poucas marcas tenha deixado na memória das três entrevistadas. aparentemente. no entanto.‖394 É importante relativizar tais respostas que. a segunda afirmou: ―Nada. concedem certo crédito ao O Pasquim no que se refere à visibilidade dos movimentos feministas brasileiros de segunda onda. Tal debate. é possível pensarmos em um riso feminista. tais ações não sejam polos opostos. pela perseguição. cabe o questionamento: como se configura o riso de uma minoria política que tem sido construída como o alvo de piadas e não como a promotora do riso? É possível fazer uso da expressão riso feminista em um contexto sempre lembrado pela ridicularização. p. é o riso subversivo. como já anunciei. respondeu: ―Nenhum dos dois jornais eu lembro dessas tiras. o riso também foi arma de intervenção feminista. Questionada sobre memórias de charges e tirinhas nos periódicos feministas. Hildete Pereira de Melo Hermes de Araujo. Quentin Skinner e outros estudos. 309 Já refleti brevemente sobre o riso. 2012.. muitas vezes. mesmo que. São muitas as evidências de que o riso serve à destruição e não à construção.. Florianópolis. como bem demonstraram os depoimentos das três entrevistadas que. na medida em que. acabam reconhecendo e cogitando a existência de material humorístico nas publicações feministas. p. mas eu não sou boa nisso porque eu não sou fã de tirinha [. 14.] Só lembro da repugnância que eu tenho com as piadas machistas. notadamente. Entretanto. como destacado por Henri Bergson. . o riso que faz um caminho inverso. foi uma exigência das fontes orais que trouxeram a tona ressentimentos em torno do riso. são muito definitivas. Nesse sentido. no decorrer das entrevistas. o que me interessa desde o princípio. que evita o uso de estereótipos e se vale do humor para construir realidades distintas. comumente lembrado em função de seu potencial negativo. pela chacota. A fala de Ana Alice Alcântara Costa e a de Iara Beleli reforçam o esquecimento. Tanto Hildete quanto Ana Alice. Florianópolis. realidades mais justas e igualitárias para nós mulheres. 2012. 394 Entrevista com Iara Beleli concedida à Cintia Lima Crescêncio. como foi apontado nos capítulos anteriores. 15. as lembranças são vagas e pouco 393 Entrevista com Hildete Pereira de Melo Hermes de Araujo concedida à Cintia Lima Crescêncio.

. para mim é o sufragismo. que saíram naquela revista de história. quando você fala do referencial do riso com o feminismo. o ―não lembrar‖ de Hildete Pereira de Melo Hermes de Araujo sinaliza uma memória lisa. op. componha o espaço de esquecimento e não de lembranças que constituem a memória. na sua memória. isto é.396 Trata-se sim de refletir para tentar compreender os motivos do riso feminista não ter marcado memórias. quando informada da existência de uma coluna de humor no alternativo Nós Mulheres reage com surpresa: ―É mesmo?‖395 Dar ênfase ao esquecimento de uma modalidade de riso feminista não significa condenar mulheres que liam periódicos.397 Nessa conceituação. e tal esforço de recordação. Hildete. 2012. p. não marcada. o riso que subverte por não explorar estereótipos. cit. A pergunta. inclusive. por ser combativo.] Pra mim assim. e esqueceram-se disso. Florianópolis. O esquecimento é designado obliquamente como aquilo contra o que é dirigido o esforço de recordação. no entanto sua narrativa especifica a modalidade de charges e tirinhas que. . então é muito mais uma crítica externa ao 395 Entrevista com Ana Alice Alcântara Costa concedida à Cintia Lima Crescêncio. deparavam-se com tirinhas e charges de conteúdo feminista. quando bem sucedido.. isso era muito mais forte. e a dúvida. ao contrário de lembranças que insistem em constituir uma memória machista e preconceituosa de outros jornais. 46. que ela trabalha muito[. de maneira eficaz como marcaram as charges do O Pasquim. hipótese muito bem rejeitada por Paul Ricoeur. circulavam nas publicações. que permanecerão. 428. 13. são os motivos para que o riso feminista. recebe a nomeação de ―memória feliz‖. Tem umas matérias. Não se trata de encarar o esquecimento como uma disfunção clínica. da brincadeira com o machismo. Ana Alice Alcântara Costa afirma recordar-se de tal conteúdo ser veiculado nos periódicos feministas brasileiros. 396 RICOUER. que nada mais é que uma recordação bem sucedida.310 pontuais.. mais especificamente as memórias das três entrevistadas. é uma charge muito do feminismo de protesto e não com a brincadeira com a situação da mulher. p. da Rachel Soihet. 397 Ibidem. A charge que aparecia era ilustrativa de um artigo. p.

. se começa a aparecer. É claro que são muitos os casos que confirmam o status de ilustração. promovem discussões totalmente particulares sem estarem articuladas a produções textuais. O fato de ela recordar-se de Henfil. A narrativa de Ana Alice Alcântara Costa sinaliza alguns elementos interessantes além do já citado.. é um indício interessante das nuances da produção de humor gráfico da época. Eu me sentia a própria. por si só. A RêBordosa vai ser a nossa catarse. Na mesma pergunta em que a entrevistada confirma sua repulsa a Ziraldo. seja na Folha de S. Sendo assim. e isso em qualquer publicação. então ele ficou.] o Henfil era uma coisa mais amorosa. Muitas charges e tirinhas foram publicadas sem necessariamente fazerem o papel de figuração em relação ao texto escrito e isso. 398 Entrevista com Ana Alice Alcântara Costa concedida à Cintia Lima Crescêncio. por exemplo. pontuo uma informação relevante: de maneira geral charges e tirinhas dialogam sim com conteúdos escritos. p. seja no Mulherio. Florianópolis. me sentia meio que representada na RêBordosa. [.] Mas a RêBordosa. de alguma maneira..] Para mim era uma coisa assim como se fosse os dois extremos: de um lado o Henfil.. 8. uma vez que tal produção humorística tem como base notícias recentes. Do feminismo de dentro para fora não tinha muito senso de humor. um referencial que a gente vai ter. Entretanto. entrevista. 2012. é a RêBordosa. era muito explorada pelas publicações brasileiras. não marcou as memórias e as narrativas das três entrevistadas. que não funciona como figura de adorno de um texto escrito.. seja no O Pasquim.. É importante dar destaque às colunas que. isto é.398 No trecho selecionado a entrevistada pontua um tipo de ilustração que. e ai eu não estou lembrada. mas nem sempre. como pode ser observado nos apêndices. efetivamente. [. é alta. Ademais.. Paulo. de outro o Jaguar com o Ziraldo. .. Inúmeros textos vinham acompanhados de charges com caráter meramente ilustrativo. reportagem. [. são muitas as charges e tirinhas com conteúdo imagético que ―fala por si‖. ela demonstra sua admiração por Henfil. 311 feminismo. E depois. a probabilidade de uma charge ou tirinha ilustrar alguma matéria. geralmente elaboradas com base no tema do artigo que acompanhavam.

As memórias das entrevistadas. conquistou a admiração de Ana Alice Alcântara Costa e de muitas outras. Henfil. conhecer bem a situação e o que 399 Entrevista com Ana Alice Alcântara Costa concedida à Cintia Lima Crescêncio. Ziraldo sempre foi pesado. Seus conteúdos são lembrados. o conteúdo feminista. sua produção era ―amorosa‖. citados pelas entrevistadas e pela historiografia como grandes ―vilões‖ dos movimentos feministas. O que gostaria de destacar a partir destas informações é que. isso não foi suficiente para marcar memórias. configura-se de modo superficial nas narrativas das entrevistadas. ―[. Jaguar. Ainda. na medida em que suas produções. . nem a qualquer hora..] podemos rir de tudo.312 principalmente o Ziraldo. não eram agressivas ou debochadas. de casos que causaram desconforto. baseado no humorista francês Pierre Desproges. segundo a entrevistada. p. Florianópolis. ao questionar se podemos rir de tudo. se inspiraram nele. Ziraldo.. O que isso nos diz a respeito do esquecimento do riso feminista? Enquanto as lembranças do O Pasquim são acompanhadas de nomes.399 Henfil publicava no O Pasquim no mesmo período que Millôr. Iara Beleli informou lembrar-se que o periódico Mulherio fazia circular conteúdo com o que estou chamando de humor feminista. portanto. no entanto. estão vinculadas a sujeitos que se não foram integrantes do O Pasquim. nada em especial marcou sua memória. Allan Deligne. também publicou charges e tirinhas nos alternativos Nós Mulheres e Mulherio. como já pontuado no capítulo 4. mesmo as que circulavam no jornal alternativo. pelo contrário. 2012. nem com qualquer pessoa. 9-10. afirma. eles não são lembrados por tal produção. de exemplos de charges que perturbaram. embora os próprios jornais feministas tenham lançado mão de cartunistas reconhecidos. mas não seus vínculos e espaços de circulação. É preciso. mas não em qualquer lugar. notadamente. no que se refere a charges e tirinhas. muito embora tais produtores de humor tenham tido passagens por periódicos feministas. O cartunista Henfil não costuma ser lembrado como um autêntico integrante do O Pasquim. personagem de Angeli que. Ana Alice Alcântara Costa recorda-se ainda de Rê Bordosa. mais especificamente de Ana Alice Alcântara Costa.

De que maneira o riso pode ser considerado subversivo? In: LUSTOSA. e outros risos efetivamente subversivos. em tese. Devem ser sim. 313 convém‖. Imprensa. O comprometimento com questões sociais pode sim ser utilizado como justificativa para o ―mau humor‖ feminista. É tempo de lembrar.). pode nos mover para uma realidade distinta. como fuga do domínio lógico e como ingresso no domínio afetivo. . Entretanto. 400 DELIGNE. p. argumento que motive nossa reflexão sobre os rumos e limites do riso em nossa sociedade e as marcas que ele pode. pp. mas do que. O riso. as chamadas minorias. é um fator essencial para a produção de marcas nas memórias feministas. aborto. Allan. consequentemente. 401 Ibidem. humor e caricatura: a questão dos estereótipos culturais. afinal. Belo Horizonte: Editora UFMG.401 marca memórias. mas as razões para que o riso feminista não tenha marcado memórias. é preciso refletir sobre o tipo de riso que vem sendo promovido. o que está em jogo neste capítulo em particular não é o motivo de feministas não rirem de sua própria condição. 29-46. do humor. um gesto que visa problematizar questões como trabalho doméstico. 30. é quem o produz. 31. como um discurso masculino. na produção de cicatrizes suficientemente profundas a ponto de comporem narrativas hoje. Se um riso transformador como o feminista está submetido tão intensamente ao esquecimento. ou não. uma realidade em que o riso feminista. como signo que designa um comportamento para além de qualquer objetividade. Para além do argumento mais coerente que poderia supor que a ofensa e a humilhação são marcadores de memória mais eficazes. não são assuntos que devam ser encarados com menos seriedade. Os esquecimentos ou as poucas lembranças que têm como protagonista o riso feminista não devem ser argumento de condenação de mulheres que viveram a tensão do período ditatorial filiadas a movimentos de esquerda e aos movimentos feministas. visto que charges e tirinhas mostram o contrário. p. Mas. judeus. piadas sobre negros. mulheres. não ―ri‖ de assuntos menos controversos que o riso ―tradicional‖.400 O riso feminista. O que diferencia esses risos. 2011. sexualidade. como estado de comunicação não discursivo. sejam o motor da transformação. portanto. não do passado. o discurso normativo e masculino teve prevalência. provocar. Isabel (Org. penso que a constituição do riso e. quem sabe.

314 .

misógino. bem como suas protagonistas. Nesta tese optei por não seguir tal abordagem. não raro. pessoas com deficiência. mulheres. CONSIDERAÇÕES FINAIS Os movimentos feministas. charges. muito embora este caminho parecesse possível com tantas outras fontes. cartunistas. premissas e narrativas que no nível social e simbólico assumem status de verdade. pobres. mas a revolta de grupos que não acham engraçado o riso do opressor. danoso e destrutivo do humor. quando iniciei a escrita do projeto de tese. ainda hoje. fizeram uso de um humor corriqueiro. desde os finais do século XIX. na televisão. Pesquisadoras que se dedicam a contar histórias feministas. homofóbico. A partir do uso dos estereótipos mais comuns o universo do humor foi cruel com as feministas. ainda inexplorados. foram alvo do humor em suas mais diversas modalidades. uma vez que piadas de negros. Ainda em 2011. no cinema. feministas ou não – diariamente luta contra um tipo de riso que nada constrói. precisam reagir a acusações. com frequência. Através de análise cuidadosa e levantamento vasto a historiadora demonstrou como uma publicação alternativa foi capaz de construir seus recordes de venda com base em um humor machista. que poderiam ser minhas fontes de pesquisa. destrutivo. modelos. Pesquisas assim são essenciais e servem para indicar o potencial político. Não são incomuns as reclamações sobre os ―tempos chatos‖ em que vivemos. piadas. de maneira pioneira e inovadora. é transformada em prova de falta de senso de humor. habita os mais variados espaços e cada uma de nós – mulheres. são um exemplo de tal demanda. roteiristas e comediantes. no teatro. causam não o riso. avaliaram os usos do humor antifeminista pelo O Pasquim durante a emergência dos feminismos da segunda metade do século XX no Brasil. principalmente a partir da exploração de estereótipos. Nossa luta. tal modalidade cômica – baseada na ridicularização – deixou cicatrizes profundas em memórias de mulheres feministas que viveram um período político que por si só provocou suas próprias marcas. muitas delas perturbadoramente atuais. transformando-as em objetos de riso. Humoristas. Fiz. inclusive. Ao encontro de uma série de reflexões sobre a potencialidade do humor e do riso. Tal humor. um . caricaturas. Estudos teóricos e pesquisas em diferentes línguas dedicaram vasto tempo a refletir sobre o humor que procura destruir o outro. Os estudos de Rachel Soihet que. hegemônico. jornalistas. mulheres que lutaram e ainda lutam por direitos foram escolhidas como alvo. Em canções. 315 7. consultei uma série de jornais e revistas.

fundação do Brasil Mulher e 1988. tal caminho não se justificava plenamente. Foi quando consultei outros jornais feministas da mesma época e averiguei que boa parte deles fez uso de tal humor. analisar charges e tirinhas feministas de modo a compreender de que modo tal humor foi construído. pude construir meu problema de pesquisa. Elaborei tabelas temáticas dos dois jornais. portanto. Meu objetivo era. Contudo. Jornais alternativos de esquerda também foram selecionados. Tive nas mãos vasta documentação que permitia a construção de um projeto de tese cujo objetivo era refletir sobre o antifeminismo do humor gráfico na imprensa. propositivo e afirmativo. Com grande apego a sistematização dos dados.316 levantamento do O Pasquim.Paulo. crente que daquelas páginas eu poderia extrair uma coleção de fontes. mas eu procurava na documentação algo ainda incerto. Superada a fase de questionamento da documentação. o uso do humor como arma de destruição. O desconforto com minha escolha permaneceu até que. ao invés de ser um caminho de reação. baseado na crítica e na reflexão. apesar de eu ter construído um primeiro projeto inteiro com base nele. O mesmo fiz em exemplares do Clarín. em uma tentativa de escapar de tal abordagem fiz um levantamento de jornais feministas no LEGH. mas me surpreendi positivamente ao verificar que o Mulherio publicou mais de 100 charges e tirinhas em toda sua existência. Novamente dediquei certo tempo à sistematização. através da análise de charges e tirinhas publicadas em periódicos feministas do Cone Sul durante a emergência dos feminismos da chamada segunda onda. intervenção e crítica. Encontrei meu caminho e ele era feminista. novamente. Minha proposta foi. um humor subversivo. elaborei tabelas que me permitiram ter uma visão geral dos documentos disponíveis. O foco seria. demonstrar como as mulheres feministas fizeram uso do humor e do riso como instrumento de reflexão. Também procurei respostas em revistas feitas para mulheres. negação e defesa. explorador do absurdo e também da tristeza de uma cultura que trata as mulheres como sujeitos de segunda categoria. jornal de grande circulação na Argentina. foi quando consultei as cópias dos brasileiros Mulherio e Brasil Mulher. portanto. sendo que praticamente todas tinham uma perspectiva feminista. encerramento de atividades de vários jornais. Inicialmente acreditei que uma ampliação das fontes colaboraria para que minha abordagem não fosse de mão única. . Inicialmente não tinha clareza de como definí-lo. A clareza de que o humor era meu objeto de interesse nunca foi obscurecida. Verifiquei um número de charges e tirinhas relativamente modesto no Brasil Mulher. e na Folha de S. notadamente entre 1975.

relembro a importância da . o domínio do humor e do riso. totalmente articuladas a contextos privados e políticos. em particular. tiveram de ser repensadas com base nos relatos. a maioria de origem estadunidense. Foi durante o estágio doutoral na Universidade de Nottingham. diante da exigência de produção de um artigo sobre minha pesquisa. conceitual. como a defesa de Henfil no Mulherio e a reflexão sobre o humor das mulheres do Cotidiano Mujer. em muitos momentos. portanto. obviamente. causou alguns meses de crise na escrita. que tive sucesso em fazer da pesquisa histórica um trabalho de fato coletivo. já como aluna do doutorado. uma vez que me vi questionando a importância de minhas fontes. ao dissertar sobre escritoras de humor colaborou para que eu identificasse a construção do humor e do riso no Cone Sul como produções e experiências generificadas. de uma luta por um domínio. Durante as aulas da disciplina Gênero e Memória. Tive a oportunidade de acessar uma série de leituras. Teoricamente sentia-me desafiada a construir o humor feminista como uma categoria distinta e particular se comparada aos conceitos de humor mais recorrentes. acredito tenha acontecido. Os depoimentos apontaram poucas lembranças sobre o humor gráfico feminista. A constatação de que o humor machista do jornal marcou amplas e detalhadas memórias. procurei identificar as memórias sobre o humor e o riso feminista. No trabalho exaustivo de descrever e analisar imagens. 317 mas paulatinamente a tese tomou forma. na Inglaterra. Tratava-se. Entretanto. Nancy Walker. enquanto o humor feminista poucas marcas deixou. discursiva. Foi necessário certo tempo para reconhecer que se tratava de uma disputa política. mas reforçaram o papel do O Pasquim na produção de um humor antifeminista. em 2012. o que. mas também da luta pela construção de um outro tipo de humor e de riso. embora sem nunca ter passado por mudanças drásticas. ilustram de maneira rica este embate. Através de depoimentos conduzidos de maneira temática. Alguns pequenos textos produzidos pelas equipes dos jornais. que versava especialmente sobre a construção de um humor feito por mulheres e feminista. perdia a dimensão cômica das fontes. Parecia claro que minhas considerações sobre donas de casa despenteadas e homens afundados em sofás extraíam toda a potencialidade de riso de cada charge e tirinha. de fato. Acreditava que os testemunhos confirmariam o esforço de construção de um humor feminista. e que essa era protagonizada pelo humor gráfico feminista em um campo dominado por um humor masculino e hegemônico. fiz entrevistas com três feministas brasileiras que foram leitoras dos jornais que explorava como fontes. As expectativas.

Coube a eles. Apesar do número relativamente modesto. algumas profissionais e reconhecidas. Excluindo-se as que não eram assinadas. metade do humor gráfico com perspectiva feminista. Muito embora boa parte de sua produção estivesse alinhada às demandas feministas. O humor feminista. mesmo quando elas atingem sucesso internacional. divulgando e vendendo suas produções de maneira independente. Trata-se. é exatamente nos conteúdos assinados por homens cartunistas que algumas ambiguidades vividas pelos próprios movimentos são aparentes. mulher . outras colaboradoras dos jornais que não eram profissionais. e não do outro. é preciso reconhecer a produção de mulheres e a produção feminista como integrante de um esforço coletivo de assumir um espaço historicamente negado. é um humor produtor desse tipo específico de riso. ao deslocar o sujeito costumeiramente alvo do humor. No anexo reproduzo uma lista de mais de 400 mulheres brasileiras produtoras de histórias em quadrinhos. charges. Foi Angeli o criador da personagem Rê Bordosa. na maior parte dos casos. foram localizadas 28 cartunistas mulheres. Antologias e enciclopédias de quadrinhos deixam isso bastante nítido ao ignorarem a existência de várias delas. certamente. assim como as que tinham assinaturas ilegíveis. não ser efetivamente algo para ser engraçado. o baseado em estereótipos. No esforço de definir o humor feminista como categoria. mesmo as que tem um traço considerado profissional. Se nos anos 1970 e 1980 os obstáculos às mulheres cartunistas eram múltiplos. O humor feminista. de um riso triste. como Célia. sem dúvida. um espaço hostil às mulheres. zines. atualmente a rede mundial de computadores e as redes sociais colaboram para transpô-los. para o autor. um riso consciente do absurdo em que vivemos. não integram as antologias. em que é destaque o fato do humor subversivo. levantar informações sobre as autoras de charges e tirinhas que circularam nos jornais feministas. A maioria das cartunistas mulheres. em sua essência. é um humor potencialmente melancólico. Nos jornais selecionados para compôr meu trabalho eles foram autores de. A maioria delas está na ativa hoje. Um dos principais desafios deste trabalho foi. O campo do humor gráfico é. na degradação de alguém. pontuar as relações assimétricas entre patroas e empregadas. mas que tinham boas ideias. para a condição do sujeito que ri. inegavelmente. no mínimo.318 introdução escrita por Umberto Eco no livro Carnival!. outro desafio surgiu: os homens cartunistas. como a representação de mulheres em conflitos de raça ou classe. tirinhas.

eles compartilharam de um espaço feminista para divulgar suas produções. A escrita dos cinco capítulos que culminaram nestas considerações finais não se deu de maneira ordenada. Mais de 200 charges e tirinhas foram levantadas. afinal. Nós Mulheres. É possível construir pesquisas que enfoquem na recorrente opção por charges e tiras não assinadas. principalmente a televisão. Apesar disso. Trabalho doméstico. principalmente nos jornais que assumiam a dupla militância. figura símbolo e referência para muitas mulheres no período. o que reforça a importância da horizontalidade para os movimentos. a cronologia que apresentei nas últimas páginas disserta sobre o processo de construção da tese e demonstra como meus caminhos não foram lineares. direitos reprodutivos. é preciso que estas fontes sejam exploradas também a partir de seu uso do humor. mercado de trabalho e pobreza das mulheres foram temas recorrentes. mas sim na construção de algo único. têm feições demoníacas e sarcásticas. O humor gráfico feminista é um tema inesgotável. é rica uma pesquisa que explore o papel da cultura de massas no humor gráfico. nenhuma tirinha foi finalizada sem (re)avaliação do rascunho e algumas vezes da própria versão final. Um levantamento cuidadoso sobre cartunistas mulheres do período. Algumas tirinhas foram totalmente . Cotidiano Mujer e La Cacerola renderiam um trabalho inesquecível. personagem que protagonizou muitas imagens reproduzidas nos cinco capítulos. La Escoba. Mulherio. mas também a personagem inconsequente. os representantes do capital. assuntos ainda tratados como temas tabu. 319 liberada. assim como as tirinhas que foram produzidas especialmente para integrá-la. Outros foram menos frequentes. Minha iniciativa de olhar para as fontes a partir de seu potencial humorístico subversivo e feminista é um primeiro passo para a construção de histórias feministas que não se baseiem na reação. como aborto e violência doméstica. Persona. falas e objetivos da tira. As charges e tirinhas de tais jornais ainda carecem de trabalhos que não as entendam como elementos ilustrativos. A cada roteiro eu descrevia cuidadosamente o cenário. Temas pertinentes à causa feminista foram identificados. uma discussão mais profunda sobre os cartunistas homens também é uma vasta possibilidade de pesquisa. Esta tese foi roteirizada. os homens engravatados também são uma interessante fonte de análise. principalmente no que se refere à representação gráfica e humorística. talvez seja o elemento que merece ainda mais aprofundamento. a partir dos nomes que circulavam nos jornais. irresponsável e instável. Entrevistas com as cartunistas publicadas por Brasil Mulher.

esta tese pretendia lançar um olhar feminista para o humor. Outras venceram o processo de criação. Desde o princípio a intenção era construir um trabalho que se articulasse à criatividade e ao potencial subversivo de mulheres feministas. análise e finalização.320 descartadas. Com o encerramento desta pesquisa – ou seria o princípio? – finalizei também meu desejo de demarcar o humor feminista como uma ferramenta política revolucionária capaz de fazer pensar. Ainda pesam sobre nossos ombros séculos de humor antifeminista. Diante de roteiros diversos. ri melhor! . assim como cada um dos meus capítulos. mas não tenho dúvidas: quem ri por último.

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335 APÊNDICE A Tabela 1. Charge Henfil Pobreza das Não 12/81 Mulheres/ Creche 4 11 e 6 Charge Anne Mulheres e Sim 12/81 Delcoigne Ciência 4 11 e 23 Charge Henfil Mulheres e Sim 12/81 Trabalho 4 11 e 24 Charge Ilegível Mulheres e Sim 12/81 Liberdade 5 01 e 10 Charge Sem Autoria Mulheres e Sim 02/82 América Latina 5 01 e 16 Charge Henfil Mulheres e Sim 02/82 Pobreza . MULHERIO – Brasil (1981-1988) Ed. Data P. Tipo Autoria Tema Ilustração 0 03 e 4 Tirinha Ciça Trabalho Não 04/81 Doméstico 1 05 e 10 Tirinha Ciça Trabalho Sim 06/81 Doméstico 1 05 e 13 Charge Arana Feminismo Sim 06/81 2 06 e 6 Charge Ilegível Violência Sim 07/81 contra Infância 2 06 e 7 Tirinha Ciça Direitos Sim 07/81 Humanos 2 06 e 12 Charge Henfil Trabalho Sim 07/81 Doméstico 2 06 e 21 Charge Miguel Sexualidade Sim 07/81 Paiva 2 06 e 22 Tirinha Henrique Direitos Não 07/81 Magalhães Reprodutivos 3 09 e 7 Charge Miguel Trabalho Sim 10/81 Paiva Doméstico 3 09 e 11 Charge Eliana Paiva Menstruação Sim 10/81 3 09 e 18 Tirinha Eliana Paiva Trabalho Sim 10/81 Doméstico 3 09 e 21 Tirinha Sem Autoria Gênero Sim 10/81 4 11 e C.

336 5 01 e 22 Charge Miguel Trabalho Não 02/82 Paiva Doméstico 5 01 e 22 Tirinha Ciça Trabalho Não 02/82 Doméstico 6 03 e 6 Charge Sem Autoria Sexualidade e Sim 04/82 Direitos Reprodutivos 6 03 e 22 Charge IGE Machismo Sim 04/82 6 03 e 23 Charge Ilegível Imprensa Não 04/82 Feminista 7 05 e 4 Tirinha Henfil Mulheres e Sim 06/82 Trabalho 7 05 e 5 Charge Henfil Mulheres e Sim 06/82 Trabalho 7 05 e 6 Tirinha Henfil Mulheres e Sim 06/82 Trabalho 7 05 e 8 Charge Henfil Mulheres e Sim 06/82 Trabalho 7 05 e 9 Charge Henfil Emprego Sim 06/82 Doméstico 7 05 e 17 Charge Francesco Sexualidade Sim 06/82 Tonucci 8 07 e 12 Charge José Luiz Direitos das Sim 08/82 Ohi Mulheres 8 07 e 13 Charge José Luiz Direitos das Sim 08/82 Ohi Mulheres 8 07 e 15 Charge Ilegível Direitos Sim 08/82 Reprodutivos 9 09 e 23 Charge M.Kahil Trabalho Não 10/82 Doméstico 10 11 e 3 Charge Rosanna Feminismo Sim 12/82 10 11 e 7 Charge Henfil Trabalho Sim 12/82 Doméstico 10 11 e 20 Charge Sem Autoria Direitos das Sim 12/82 Mulheres 10 11 e 22 Charge Sem Autoria Mulheres e Não 12/82 Militância 10 11 e 22 Charge Sem Autoria Mulheres e Não 12/82 Trabalho 10 11 e 22 Charge Sem Autoria Trabalho Não 12/82 Doméstico 11 01 e 7 Charge Ilegível Mulheres e Sim .

337 02/83 Trabalho 12 03 e 3 Charge Sem Autoria Direitos Sim 04/83 Reprodutivos 13 05 e 4-5 Charge Laerte Mulheres e Sim 06/83 Arte 13 05 e 12 Charge Caruso Direitos das Sim 06/83 Mulheres 13 05 e 15 Charge Caruso Mulheres e Sim 06/83 Arte 13 05 e 20 Charge Lilita Mulheres e Sim 06/83 Igreja 13 05 e 23 Charge Lila Galvão Trabalho Sim 06/83 Doméstico 14 07 e 20 Charge Sem Autoria Mulheres e Sim 08/83 Ciência 16 05 e 3 Tirinha Miguel Muheres e Sim 06/84 Paiva Trabalho 17 07 e 8 Charge Caruso Direitos das Sim 08/84 Mulheres 17 07 e 17 Charge Christine Feminismo Sim 08/84 roche 17 07 e 22 Tirinha Miguel Casamento Não 08/84 Paiva 18 09 e 4 Tirinha Angeli Masculinidade Sim 10/84 18 09 e 5 Tirinha Angeli Masculinidade Sim 10/84 19 11 e 3 Charge Roberta Mulheres e Sim 12/84 Mele Política 19 11 e 4 Tirinha Ana Maria Mulheres e Sim 12/84 Marques Política 19 11 e 5 Charge Ilegível Mulheres e Sim 12/84 Política 19 11 e 18 Charge Lilita Sexualidade Sim 12/84 Figueiredo 19 11 e 23 Tirinha Claire Menstruação Não 12/84 Bretecher 20 01. 02. 05. 05. 5 Tirinha Miguel Masculinidade Sim 03/85 Paiva 20 01. 6 Charge Caruso Direitos Sim . 22 Tirinha Henfil Menstruação Sim 03/85 21 04. 3 Charge Miguel Trabalho Sim 06/86 Paiva Doméstico 21 04. 02.

08. Tirinha Angeli Machismo Sim 02/86 25 03 e 17 Charge Ilegível Mulheres e Sim 08/86 Trabalho 26 09 e 21 Charge Sem Autoria Trabalho Sim 11/86 Doméstico 27 12 e 3 Tirinha Claire Mulheres e Não 02/87 Bretecher Trabalho 28 03 e 2 Tirinha Ângela Feminismo Não 04/87 28 03 e 15 Charge Sem Autoria Violência Sim 04/87 contra às Mulheres 28 03 e 22 Charge Sem Autoria Maternidade Sim 04/87 28 03 e 22 Charge Sem Autoria Paternidade Sim 04/87 28 03 e 23 Charge Sem Autoria Sexualidade Sim 04/87 28 03 e 23 Charge Sem Autoria Mulheres e Sim 04/87 Pobreza 28 03 e 23 Charge Sem Autoria Maternidade Sim 04/87 29 05 e 2 Charge Eva H.338 06/86 Reprodutivos 21 04. Feminismo Sim 06/87 29 05 e 7 Charge Cristina Maternidade Sim 06/87 Burguer 29 05 e 15 Charge Pozza Direitos das Sim 06/87 Mulheres 29 05 e 19 Charge Henfil Mulheres e Sim 06/87 Trabalho 30 07/87 6 Tirinha Angeli Aborto Sim 30 05 e 12 Charge Sem Autoria Política e Sim 06/87 Educação 30 05 e 12 Charge Sem autoria Censura Sim 06/87 30 05 e 12 Charge Sem Autoria Política Sim 06/87 30 07/87 21 Charge Ilegível Mulheres e Sim . 23 Charge Ilegível Direitos das Sim 06/86 Mulheres 22 07. 17 Tirinha Henrique Direitos Sim 09/85 Magalhães Reprodutivos 24 01. 05.

339 Educação 30 07/87 24 Tirinha Célia Sexualidade Não 31 08/87 7 Charge Pozza Política Sim 31 08/87 23 Charge Escobar Justiça Não 31 08/87 24 Tirinha Célia Amor Não 32 09/87 2 Charge Sem Autoria Trabalho Não Doméstico 32 09/87 22 Charge Martin Direitos das Sim Mulheres 32 09/87 24 Tirinha Célia Liberdade Não 33 10/87 4 Charge Waldemar Violência Sim Zadler contra às Mulheres 33 10/87 23 Tirinha Célia Amor Não 34 11/87 10 Charge Henfil Pobreza Sim 34 11/87 11 Tirinha Henfil Pobreza Sim 34 11/87 23 Tirinha Célia Liberdade Não 35 12/87 20 Charge Sem Autoria Mulheres e Sim Pobreza 35 12/87 24 Tirinha Célia Liberdade Não 36 01/88 24 Tirinha Célia Amor Não 37 03/88 3 Charge Ilegível Sexualidade Sim 37 03/88 24 Tirinha Célia Machismo Não 38 03/88 24 Tirinha Célia Amor Não * Em 40 exemplares que circularam entre os anos de 1981 e 1988 (do número 0 ao 39) foram publicadas um total de 102 charges e tirinhas.Brasil (1975-1977) Ed. Data P. Tipo Autoria Tema Ilustração 1 12/75 5 Charge Sem Autoria Mulheres e Sim Trabalho 1 12/75 5 Charge Sem Autoria Discurso Sim generificado 2 76 5 Charge Sem Autoria Mulheres e Sim Literatura 3 76 5 Charge Sem Autoria Emprego Sim Doméstico 3 76 5 Charge Sem Autoria Mulheres e Não Educação . sendo que 21 não apontam autoria e dez têm autoria ilegível. São 71 charges e tirinhas com autorias identificadas. BRASIL MULHER . sendo 28 assinadas por mulheres e 41 por homens. Tabela 2.

340

4 76 3 Charge Sem Autoria Educação Sim
4 76 4 Charge Sem Autoria Mulheres e Sim
Pobreza
4 76 4 Charge Sem Autoria Violência Sim
contra às
Mulheres
4 76 4 Charge Sem Autoria Eleições Sim
6 76 3 Charge Sem Autoria Eleições Sim
6 76 11 Charge Sem Autoria Trabalho Sim
Doméstico
6 76 14 Charge Sem Autoria Mulheres e Sim
Trabalho
7 06/77 3 Charge Sem Autoria Cidadania Sim
7 06/77 5 Charge Sem Autoria Pobreza Sim
7 06/77 6 Tirinha Sem Autoria Creche Não
7 06/77 7 Charge Lila Direitos Sim
Reprodutivos
7 06/77 12 Charge Lila Educação Sim
7 06/77 12 Charge Sem Autoria Mulheres e Sim
Educação
7 06/77 12 Charge Sem Autoria Educação Sim
7 06/77 13 Charge Sem Autoria Educação Sim
7 06/77 14 Charge Sem Autoria Mulheres e Sim
Trabalho
7 06/77 14 Charge Cortés Mulheres e Sim
Saúde
7 06/77 15 Charge Sem Autoria Divórcio Não
*Em 9 exemplares que circularam entre 1975 e 1977 (do número 0 ao 8),
foram publicada um total de 23 charges (com pouca exploração do humor e
do riso), sendo que 20 não são assinadas. São 3 charges com autorias
identificadas, 2 de autoria de Lila e uma de Cortés.

Tabela 3. NÓS MULHERES - Brasil (1976-1978)
Ed. Data P. Tipo Autoria Tema Ilustração
1 06/76 2 Tirinha Ciça Trabalho Sim
doméstico

341

1 06/76 5 Charge Ilegível Imprensa Não
Feminista
1 06/76 5 Charge Cahu Mulheres e Sim
Trabalho
2 09 e 10/76 3 Tirinha Ciça Trabalho Não
doméstico
4 03 e 04/77 5 Charge Angeli Trabalho Sim
doméstico
4 03 e 04/77 9 Tirinha Ciça Trabalho Não
doméstico
4 03 e 04/77 9 Charge Sandra Imprensa Não
Feminista
4 03 e 04/77 9 Charge Cahu Mulheres e Não
Luta
4 03 e 04/77 9 Charge Ilegível Gênero Não
4 03 e 04/77 9 Charge Ilegível Casamento Não
4 03 e 04/77 9 Charge Mariza Machismo Não
4 03 e 04/77 11 Charge Angeli Carestia Sim
5 03 e 06/77 7 Tirinha Laerte Carestia Sim
5 03 e 06/77 14 Tirinha Sem Autoria Imprensa Não
Feminista
5 03 e 06/77 15 Tirinha Henfil Carestia Não
5 03 e 06/77 15 Tirinha Ciça Trabalho Não
Doméstico
6 08 e 09/77 16 Charge Sem Autoria Divórcio Não
6 08 e 09/77 7 Charge Ignatz Gênero Sim
6 08 e 09/77 13 Charge Ignatz Direitos Sim
Reprodutivos
6 08 e 09/77 15 Tirinha Henfil Feminismo Não
6 08 e 09/77 15 Tirinha Ciça Direitos Não
Reprodutivos
7 03/87 3 Charge Angeli Liberdade Sim
* Em 8 exemplares que circularam entre os anos de 1976 e 1978 (do número 1
ao 8) foram publicadas um total de 22 charges e tirinhas, sendo que 2 não
apontam autoria e três têm autoria ilegível. São 17 charges e tirinhas assinadas,
sendo 9 assinadas por mulheres e oito por homens.

Tabela 4. LA MICRÓFONA – Paraguai (1990)
Ed. Data P. Tipo Autoria Tema Ilustração
3 03/90 12 Tirinha Sem Autoria Mulheres e Não
Trabalho
3 03/90 12 Tirinha Sem Autoria Gênero Não

342

4 04/90 10 Charge Any Trabalho Não
Doméstico
4 04/90 10 Charge Any Mulheres e Não
Trabalho
6 06/90 9 Charge Sem Autoria Direitos Sim
Reprodutivos
6 06/90 10 Charge Ilegível Mulheres e Não
Educação
6 06/90 10 Tirinha Diana Liberdade Não
Raznocic
6 06/90 10 Charge Sendra Mulheres e Não
Militância
* Em 6 exemplares que circularam no ano 1990 (do número 3 ao 10) foram
publicadas um total de 8 charges e tirinhas, sendo que 3 não apontam
autoria e 1 tem autoria ilegível. São 4 charges e tirinhas assinadas, todas
assinadas por mulheres.

Tabela 5. LA ESCOBA – Bolívia (1987)
Ed. Data P. Tipo Autoria Tema Ilustração
1 03/86 9 Charge Ilegível Mulheres e Não
Trabalho
1 03/86 10 Charge Sem Autoria Trabalho Não
Doméstico
1 03/86 17 Charge Sem Autoria Mulheres e Não
Pobreza
1 03/86 26 Charge Ilegível Mulheres e Não
Trabalho
1 03/86 26 Charge Sem Autoria Trabalho Não
Doméstico
1 03/86 26 Charge Sem Autoria Mulheres e Não
Trabalho
2 05/86 21 Charge Islo Trabalho Não
Doméstico
2 05/86 21 Charge Ilegível Mulheres e Não
Cultura de
Massa
2 05/86 27 Charge Ilegível Violência Não
contra às
Mulheres
5 05/86 13 Tirinha Quino Trabalho Não
Doméstico

343

5 05/86 13 Tirinha Quino Trabalho Não
Doméstico
5 05/86 13 Tirinha Quino Trabalho Não
Doméstico
5 05/86 13 Tirinha Quino Trabalho Não
Doméstico
5 05/86 13 Tirinha Quino Trabalho Não
Doméstico
6 11/87 6 Tirinha Sem Autoria Mulheres e Não
Trabalho
6 11/87 11 Charge Ilegível Trabalho Sim
doméstico
6 11/87 27 Tirinha Sem Autoria Mulheres e Sim
Militância
* Em 4 exemplares que circularam entre 1986 e 1987 (números 1, 2, 5 e 6)
foram publicadas um total de 17 charges e tirinhas, sendo que 6 não
apontam autoria e 5 tem autoria ilegível. São 6 charges e tirinhas assinadas,
5 assinadas por um homem e uma assinada por Islo.

Tabela 6. PERSONA – Argentina (1974-1986)
Ed. Data P. Tipo Autoria Tema Ilustração
1 10/74 54 Tirinha Sylvia Gênero Não
Bruno
2 11/74 30 Charge Sem Autoria Mulheres e Sim
Igreja
2 11/74 51 Tirinha Sylvia Feminismo Não
Bruno
3 12/74 21 Charge Sylvia Mulheres e Não
Bruno Educação
3 12/74 30 Tirinha Sylvia Direitos das Sim
Bruno Mulheres
3 12/74 48 Charge Sem Autoria Feminismo Sim
5 75 5 Tirinha Martin Trabalho Sim
Morales Doméstico
6 03 e 21 Charge Nuria Mulheres e Sim
04/81 Pompeia Educação
7 05 e 7 Tirinha Ilegível Mulheres e Sim
06/81 Cultura de
Massa
7 05 e 12 Charge Nuria Machismo Sim
06/81 Pompeia
7 05 e 15 Charge Ilegível Mulheres e Sim
06/81 Cultura de
Massa

344

10 01 e 43 Charge Nuria Mulheres e Sim
02/82 Pompeia Educação
14 03, 04 51 Charge Sem Autoria Direitos Não
e 05/82 Humanos
B3 10/83 8 Tirinha Quino Trabalho Sim
Doméstico
B3 10/83 10 Charge Sem Autoria Direitos Sim
Reprodutivos
B3 10/83 13 Charge Sem Autoria Trabalho Sim
Doméstico/
Mulheres e
Religião
B 09 e 6 Tirinha Sem Autoria Aborto Sim
16 10/86
B 09 e 9 Charge Sem Autoria Trabalho Sim
16 10/86 doméstico
B 09 e 10 Tirinha Quino Trabalho Sim
16 10/86 doméstico
B 09 e 10 Charge Sem Autoria Trabalho Sim
16 10/86 doméstico
B 11 e 4 Tirinha Liotta Feminismo Sim
17 12/86
_ _ _ Tirinha Nuria Trabalho Não
Pompeia Doméstico
_ _ _ Tirinha Nuria Casamento Não
Pompeia
* Em 17 exemplares que circularam entre 1974 e 1986 (números variados)
foram publicadas um total de 23 charges e tirinhas, sendo que 8 não
apontam autoria e duas têm autoria ilegível. São 13 charges e tirinhas
assinadas, 9 assinadas por mulheres, 3 assinadas por homens e uma assinada
por Liotta.

Tabela 7. COTIDIANO MUJER – Uruguai (1985-1986)
Ed. Data P. Tipo Autoria Tema Ilustração
3 11/85 3 Tirinha Claire Trabalho Não
Bretecher doméstico
4 12/85 3 Charge Francesca Maternidade Sim
8 06/86 2 Charge Islo Trabalho Sim
doméstico
20 08/87 7 Tirinha Claire Mulheres e Não
Bretecher Trabalho

345

20 08/87 7 Tirinha Henfil Mulheres e Não
Trabalho
20 08/87 7 Tirinha Angeli Machismo Não
20 08/87 7 Charge Quino Trabalho Não
Doméstico
20 08/87 7 Tirinha Maitena Trabalho Não
Doméstico
30 11/86 6 Charge Sem Autoria Violência Sim
contra às
Mulheres
* Em 17 exemplares que circularam entre 1985 e 1986 (números variados)
foram publicadas um total de 9 charges e tirinhas, sendo que 1 não aponta
autoria. São 8 charges e tirinhas assinadas, 4 assinadas por mulheres, 3
assinadas por homens e 1 assinada por Islo.

Tabela 8. LA CACEROLA – Uruguai (1984-1988)
Ed. Data P. Tipo Autoria Tema Ilustração
2 Ano 1, 4 Charge Cipaf Mulheres e Sim
07/84 Trabalho
2 Ano 1, 6 Tirinha Henfil Mulheres e Sim
07/84 Trabalho
2 Ano 1, 7 Charge Henfil Mulheres e Sim
07/84 Trabalho
2 Ano 1, 12 Charge Ilegível Mulheres e Sim
07/84 Trabalho
8 Ano 1, 5 Tirinha Ilegível Trabalho Sim
11/84 Doméstico
8 Ano 1, 9 Charge Ilegível Direitos das Sim
11/84 Mulheres
4 Ano 2, 5 Charge Ilegível Mulheres e Sim
05/85 Educação
5 Ano 2, 5 Charge Miguel Paiva Trabalho Sim
10/85 Doméstico
6 Ano 3, 9 Charge Ilegível Feminismo Não
11/86
Esp Ano 5, 6-7 Tirinha Ilegível Trabaho Não

346

ecia 03/88 Doméstico
l
Esp Ano 5, 26 Charge Sem Autoria Gênero Não
ecia 08/88
l
* Em 9 exemplares que circularam entre 1984 e 1988 (do número 2 ao 8 e
duas edições especiais) foram publicadas um total de 11 charges e tirinhas,
sendo que 1 não aponta autoria e 6 têm assinatura ilegível. São 4 charges e
tirinhas assinadas, 3 assinadas por homens e 1 assinada por Cipaf.

Tabela 9. NOS/OTRAS – Chile (1983-1988)
Ed. Data P. Tipo Autoria Tema Ilustração
_ 11/83 9 Tirinha Sem Autoria Trabalho Sim
Doméstico
_ 11/83 10 Charge Ilegível Machismo Sim
_ 11/83 12- Charge Sem Autoria Feminismo Sim
13
_ 88 11 Tirinha Diana Mulheres e Sim
Rasnovich Luta
* Em 2 exemplares que circularam entre 1983 e 1988 foram publicadas um
total de 4 charges e tirinhas, sendo que 2 não apontam autoria e 1 tem
assinatura ilegível. Diana Rasnovich foi a única autora identificada.

behance.br 7.weebly.com/document/d/1prkSTfLl3lLzhLiT6oeQLamIeG9 l0M3D5aFV1NfbvAg/edit Acesso em 13 de maio de 2016. coloristas.alepresser. Acrescentem seus nomes ou de outras quadrinistas! 1.facebook.21 4. roteiristas e outras atuantes nos quadrinhos no Brasil.com/alessandra. Esta lista está aberta à edição.com 2.com 15.facebook. 347 ANEXO A No dia 10 de março de 2016 a quadrinista Aline Lemos compartilhou. uma lista de mulheres que trabalham ou trabalharam no universo dos quadrinhos brasileiros.com/RhivenRhypers 13.com. Aline Lemos www.com/ / http://arroz.com 8.com/@alinezouvi . via redes sociais. Alice Gauto https://www. letristas.net/alicegauto 9. Alexandra Presser http://alepresser.com.com 11.com/obra. Aline Zouvi http://medium.freitas.co 3.br/product_info. Aline Diniz (Nyoh) ://www.google. Disponível em: https://docs. Alessandra Gomes de Melo http://www.php?id_obra=561&capitulo=3855&pagina= 2 14. desenhistas.wix. alguns deles foram protagonistas desta tese. Adriana Melo http://www. Adriana Yumi (Yumi Moony) http://www. a partir do início do século XX até hoje. Aline Gonçalves http://smocci.adrianamelo. No dia 13 de maio a lista contava com 432 nomes. A legião de mulheres nos quadrinhos no Brasil Uma lista extensiva de mulheres quadrinistas.com/aline-daka-hqcomics 12. Alessandra Freitas www.com 10.sigmapi-project. Alice Grosseman Mattosinho (Alice Monstrinho) http://rebelhound.comix. Aline Daka http://dakhadessin.desalineada. Alexandra Moraes http://opintinho.php?products_id=20668 5.com/alexandramattos 6.wix. Alexandra Mattos http://alexandra- lmattos. Aline Cruz (Lila Cruz) http://colorlilas.

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