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CALVINO, Ítalo. O mundo observa o mundo In Palomar. São Paulo: Companhia das letras, 1191.

Na sequência de uma série de desventuras intelectuais que não merecem ser recordadas, o
senhor Palomar decidiu que a sua principal actividade será observar as coisas do lado de fora. Um
tanto ou quanto míope, distraído, introvertido, não parece caber por temperamento naquele tipo
humano que é normalmente definido como um observador. E no entanto sempre lhe sucedeu que
certas coisas — um muro de pedras, uma concha vazia, uma folha, um bule — se lhe
apresentassem como que pedindo uma atenção minuciosa e prolongada: põe-se a observá-las
quase sem dar por isso e o seu olhar começa a percorrer todos os detalhes e não consegue mais
afastar- se delas. O senhor Palomar decidiu que daqui para a frente redobrará as suas atenções: em
primeiro lugar, para não deixar fugir os apelos que lhe chegam das coisas; em segundo lugar, para
atribuir à operação de observar a importância que ela merece.
Nesta altura sobrevém um primeiro momento de crise: seguro de que a partir de agora o
mundo lhe revelará uma riqueza infinita de coisas para olhar, o senhor Palomar experimenta fixar
tudo aquilo que lhe vem à mão: não obtém nisso qualquer prazer e deixa de o fazer. Segue-se uma
segunda fase na qual está convencido de que as coisas a observar são apenas algumas e não outras
e que deve ir à procura delas; para isso, tem de enfrentar problemas de escolha, exclusões,
hierarquias de preferências; cedo se apercebe de que está a estragar tudo, como sempre acontece
quando põe de permeio o seu próprio eu e todos os problemas que tem com o seu próprio eu.
Mas como se faz para observar alguma coisa deixando de lado o eu? De quem são os olhos
que olham? Normalmente, pensa-se que o eu é uma pessoa debruçada para fora dos seus próprios
olhos como se estivesse no parapeito de uma janela e que observa o mundo que se estende em toda
a sua vastidão, ali, diante de si. Portanto: há uma janela que dá para o mundo. Do lado de lá está o
mundo; e do lado de cá? Sempre o mundo: que outra coisa queriam que estivesse? Com um
pequeno esforço de concentração, Palomar consegue deslocar o mundo que está ali à frente e
coloca-o debruçado no parapeito. E então, fora da janela, o que é que fica? Ainda e sempre o
mundo, que nesta ocasião se desdobrou em mundo que olha e mundo que é olhado. E ele, dito
também “eu”, ou seja, o senhor Palomar? Não será ele também um pedaço de mundo que está
olhando ou outro pedaço de mundo? Ou então, dado que há mundo do lado de cá e mundo do
lado de lá da janela talvez o eu não seja mais do que a janela através da qual o mundo olha o
mundo. Para se olhar a si próprio o mundo tem necessidade dos olhos (e dos óculos) do senhor
Palomar.
Portanto, daqui em diante, Palomar olhará as coisas do lado de fora e não do lado de
dentro; mas isto não basta: olhá-las-á com um olhar que vem de fora, não de dentro de si. Procura
fazer a experiência — agora não é ele a olhar, mas sim o mundo de fora que olha para fora. Uma
vez estabelecido isto, volta a olhar à sua volta, à espera de uma transfiguração generalizada. Qual
quê! Continua rodeado pelo habitual cinzento quotidiano. É preciso reestudar tudo desde o
princípio. Que seja o fora a olhar para fora não basta: é da coisa olhada que deve partir a trajectória
que a liga à coisa que olha. . Da muda extensão das coisas deve partir um sinal, um apelo, uma
piscadela de olho: uma coisa sobressai por entre as outras com a intenção de significar alguma
coisa... que coisa? Ela mesma; uma coisa está contente por ser olhada pelas outras coisas apenas
quando está convencida de que se significa a si própria e a nada mais, no meio das coisas que se
significam a si próprias e nada mais.
As ocasiões deste gênero não são certamente frequentes, mas mais tarde ou mais cedo
deverão com certeza apresentar-se: basta esperar que se verifique uma daquelas felizes
coincidências em que o mundo quer olhar e ser olhado no mesmíssimo instante e o senhor
Palomar se encontre a passar ali por perto. Ou se, ah, o senhor Palomar não deve sequer esperar,
porque estas coisas acontecem apenas quando menos se espera.