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ARIEL TAVARES PEREIRA UM ESPECTRO RONDA A ILHA: O comunismo na imprensa de São Luís (1935-1937) Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal do Maranhão como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Ciências Sociais. Orientador: Prof. Dr. Igor Gastal Grill SÃO LUÍS 2010 Pereira, Ariel Tavares Um espectro ronda a Ilha: o comunismo na imprensa de São Luís (1935- 1937) / Ariel Tavares Pereira. - São Luís, 2010. 141fl. Dissertação (Pós-Graduação em Ciências Sociais) – Curso de Mestrado em Ciências Sociais, Universidade Federal do Maranhão, 2010. 1. Comunismo – Imprensa – São Luís (MA) 2. Comunismo – Imprensa – Representações 3. Política – São Luís – 1935-1937. CDU: 330.85 (812.1) “1935-1937” 2 ARIEL TAVARES PEREIRA UM ESPECTRO RONDA A ILHA: O comunismo na imprensa de São Luís (1935-1937) Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal do Maranhão, para obtenção do título de Mestre em Ciências Sociais. Aprovada em / / BANCA EXAMINADORA ______________________________________________ Prof. Dr. Igor Gastal Grill (UFMA) (orientador) ______________________________________________ Profª. Dra. Arleth Santos Borges (UFMA) ______________________________________________ Prof. Dr. Marco Aurélio Santana (UFRJ) 3 À Dona Rosa, que com seu afeto e coragem, aprontou-me para a vida. 4 AGRADECIMENTOS "Não sou nada. Nunca serei nada, não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo". Fernando Pessoa Estranho. Parece que é mais difícil escrever estes agradecimentos do que o próprio trabalho que, como todos que conviveram comigo sabem, foi tarefa muito árdua e sofrida, por vários motivos. Agora, no momento em que faço as últimas correções do texto e, ao mesmo tempo, tento redigir os agradecimentos, lembro de tantas coisas que aconteceram e, principalmente, dos amigos que estavam do meu lado nos momentos de angústia e “estresse”, mas também nos de alegria e descontração, e que me deram força pra seguir em frente, sempre. Gostaria de colocar aqui o nome de cada um de vocês, mas, sabemos, esta página não comportaria. E além do mais, sempre esquecemos alguém, geralmente tão importante que precisamos imprimir outra página de agradecimentos, com a devida retificação. De uma coisa vocês sabem, e é isso que importa: amo todos vocês. Seria imperdoável não citar o nome das pessoas que participaram diretamente do processo de elaboração dessa dissertação. Fábio Ribeiro Lima, meu amigo e historiador, foi responsável, no período em que estive no Rio de Janeiro, por realizar a parte final da pesquisa nos jornais da Biblioteca Benedito Leite. Aproveito para agradecer também aos funcionários dessa instituição, que apesar das limitações estruturais (apenas duas, e antigas, máquinas leitoras de microfilmes!) sempre nos receberam com educação e presteza. Muita gente me ajudou com a digitação das transcrições: Elton, Fabrício, Rafaela, Elisene, Fagner e Fábio (outra vez!). Cada palavra digitada ou “ditada” foi importante, obrigado. Quero agradecer a Deus por ter me dado a família que tenho. Em primeiro lugar minha mãe, D.Rosa Tavares, mulher admirável, que, junto com meu pai, Seu Raimundo Sardinha, soube educar seus treze filhos com doçura e firmeza, sem fraquejar ou ceder jamais. Sempre insistindo para que estudássemos, apesar de todas as dificuldades. A todos os meus irmãos, direta ou indiretamente responsáveis por eu ter conseguido chegar até aqui: Benedito (in memoriam), Mário, Samuel, Juvenal, Elson, Celias e Elton. A todas as minhas irmãs que, junto com a D.Rosa, são responsáveis pela 5 determinação e o pouco de sensibilidade que há em mim: Socorro, Dora, Eliane, Rosinha e Aubélia. Aos meus sobrinhos Ivo (hoje com seis anos), Rafael (cinco), César (três) e Rita de Cássia (um ano e onze meses) que trouxeram muitas alegrias sempre que me “visitaram” em São Luís ou das vezes que fui até eles, em Centro Novo do Maranhão. “Titio, quando o senhor vai terminar este trabalho?”, “Titio, a gente pode brincar no computador?”... Agradeço à turma do mestrado pelas discussões enriquecedoras, tanto em sala de aula quanto nos corredores da UFMA ou ainda nos bares da Praia Grande. Tenho um agradecimento especial para uma colega dessa turma: Elisene, hoje minha namorada e em breve minha esposa. Quero agradecer aos professores do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, especialmente à professora Maristela de Paula Andrade, minha “madrinha” nessa empreitada, que por várias vezes insistiu para que fizesse a seleção: “meu filho, por que você não larga isso aqui [graduação em C. Sociais] e vai fazer o mestrado?”. Agradeço ainda a estimulante disciplina que ministrou durante o curso e que, ao lado da do professor Igor Grill, foram as que mais contribuíram para melhorar o projeto e, posteriormente, para dar continuidade à pesquisa. Ao professor Igor, quero agradecer ainda pela orientação séria e competente, pautada sempre pelo rigor científico, mas também pela compreensão e tolerância com as minhas limitações e/ou “teimosias” na elaboração do trabalho. Agradeço ao professores André Botelho, José Ricardo Ramalho e Marco Aurélio Santana que me receberam muito bem na cidade maravilhosa durante o período cursado no IFCS/UFRJ. Agradeço as contribuições então dadas ao projeto pelos professores André Botelho e Marco Aurélio. Não poderia deixar de agradecer aos professores que aceitaram participar da banca examinadora: Professor Dr. Marco Aurélio Santana e professora Drª Arleth Santos Borges. Sem o apoio da Capes, concedendo bolsa durante os dois anos do curso, esta dissertação não seria possível. 6 Aderbal Quadros não entendia aquelas conversas. Sobre o que se passara na Rússia, tinha apenas idéias nebulosas: ouvira falar numa “revolta braba” em que os revolucionários tinham “feito o serviço” na família imperial, instituindo um regime em que tudo era de todos. Érico Veríssimo (extraído de O tempo e o vento) No bonde, mais tarde, a caminho de casa, João Maurício isolou-se numa ponta de banco com o seu cigarro, a refletir sobre o ambiente tenso de São Luís, nos últimos tempos. A cidade havia perdido a cordialidade de seu feitio, sem os passeios da Praça Gonçalves Dias, as rodas de amigos no Largo do Carmo... A luta política radicalizara as paixões. […] E já havia mesmo quem vociferasse, em plena via pública: - Viva Lenine! E a resposta não tardava: - Viva Hitler! Viva Mussolini! Josué Montello (extraído de A coroa de areia) 7 RESUMO Investigamos neste trabalho um dos momentos históricos (1935-1937), conhecido como primeira “onda anticomunista”, no qual se processou a construção e propagação de representações acerca do comunismo e dos comunistas na cidade de São Luís/Maranhão. Tendo como fonte de material empírico jornais publicados nesse período: O Combate; Pacotilha; O Imparcial e Tribuna. Todos ligados às facções que monopolizavam o jogo político oligárquico da época. O tema de pesquisa em torno do qual buscamos construir o objeto de investigação é o imaginário anticomunista no Brasil, o qual veio sendo significado e ressignificado pelos diversos grupos sociais e instituições que buscaram impor uma visão "verdadeira" acerca do comunismo/comunista. Os discursos sobre esses referentes produzidos pelos jornais de São Luís na década de 1930 é um elemento dentro de uma formação discursiva mais ampla, que foi se gestando em diferentes contextos históricos com a participação de diversos agentes sociais. Procuramos enfocar as estratégias discursivas adotadas pelos jornais pesquisados, bem como tentar identificar o papel destes na constituição de um imaginário anticomunista. Palavras-chave: política- comunismo- imprensa- representações. 8 ABSTRACT Investigated in this work of the historical moments (1935-1937), known as first “anti- communist wave”, in which he sued the construction and propagation of representations about communism and communists in the city of São Luís, Maranhão. Having as source of empirical papers published in this period: “O Combate”; “Pacotilha”; “O Imparcial” and “Tribuna”. All linked to factions that monopolized the oligarchic political game of the time. The research theme around which we build the object of investigation is the imaginary anti-communist in Brazil, which came with new meanings and significance of the various social groups and institutions that sought to impose a vision of "true" about communism / communist. The discourses about these related produced by the newspapers of São Luís in the 1930’s is an element within a wider discursive formation, which was taking shape in different historical contexts, with the participation of various social actors. We try to focus on the discursive strategies adopted by the newspapers surveyed, and try to identify their role in the formation of an imaginary anti-Communist. Keywords: politics; communism; press; representations. 9 SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO 11 2. A SÃO LUÍS DAS PRIMEIRAS DÉCADAS DO SÉCULO XX 26 2.1 A (quase eterna) crise maranhense 27 2.2 Os serviços “públicos”: a segregação do espaço urbano em 30 São Luís 2.3 As facções políticas e seus veículos de comunicação 34 3. REPRESENTAÇÕES DO COMUNISMO E DO COMUNISTA NA IMPRENSA DE SÃO LUÍS 45 3.1 O Combate: a defesa do “regime democrático” e a 49 instrumentalização do comunismo 3.2 Pacotilha: a repressão ao comunismo em nome da “ordem” 63 3.3 O Imparcial: as visões heterogêneas acerca dos “extremismos” 73 3.4 Tribuna: aliancistas e comunistas na imprensa ludovicense 93 3.5 Notas sobre o conservadorismo católico na imprensa de São Luís 102 4. A CIVILIZAÇÃO AMEAÇADA PELO “PERIGO VERMELHO” 107 4.1 “Devemos ir às escolas”: o papel dos intelectuais e da educação no combate ao comunismo 107 4.2 Em defesa da ordem e da moral cristã: “Deus, pátria e família” 120 4.3 A cobertura do “caso espanhol”: um exemplo do “Terror Vermelho” 130 5. CONCLUSÃO 136 REFERÊNCIAS 139 10 1. INTRODUÇÃO Investigamos neste trabalho um dos momentos históricos (1935-1937), conhecido como primeira “onda anticomunista”, no qual se processou a construção e propagação de representações acerca do comunismo e dos comunistas na cidade de São Luís/Maranhão. Este cenário maranhense estava interligado ao quadro político-nacional que apresentava neste momento (1935-1937) uma intensificação do fenômeno anticomunista em razão da fracassada tentativa de Revolta Comunista ocorrida em novembro de 1935 nas cidades de Natal, Recife e Rio de Janeiro. Todavia já existiam manifestações anticomunistas em conseqüência do avanço dos movimentos políticos de tendência socialista e comunista nos principais centros urbanos brasileiros desde os anos os primeiros da década de 19301. Desse modo, o tema de pesquisa em torno do qual buscamos construir o objeto de investigação é o do imaginário anticomunista no Brasil, o qual veio sendo significado e ressignificado pelos diversos grupos sociais e instituições que buscaram impor uma visão "verdadeira" acerca do comunismo/comunista. Tendo como fonte de material empírico jornais publicados nesse período, entre os principais estavam: O Combate; Pacotilha; O Imparcial e Tribuna. Todos ligados às facções políticas2 que monopolizavam o jogo político oligárquico da época. A idéia de realizarmos essa pesquisa surgiu no decorrer da elaboração da monografia de conclusão do curso de História, realizada em 2006. Na oportunidade analisamos as visões da imprensa ludovicense3 acerca do conflito político entre a Aliança Nacional Libertadora (ANL4) e a Ação Integralista Brasileira (AIB5). Percebemos, então, a 1 Ver: SILVA, s/d. e MOTTA, 2002; 2007. 2 O conceito de facção aqui utilizado segue a definição dada por Carl Landé (1977). São grupos não- corporados que se caracterizam por “membros instáveis, duração incerta, liderança personalística, ausência de organização formal e um interesse maior por poder e espólios do que por ideologia ou política” (LANDÉ, 1977, p.52). Não se trata, portanto, de tentar impor uma classificação pejorativa para as referidas correntes políticas, mas de procurar caracterizá-las com maior precisão analítica. 3 Ludovicense ou sanluisense são as duas formas com que se pode designar quem ou o que é originário desta cidade. 4 A ANL foi fundada no Rio de Janeiro em março de 1935. No Maranhão sua existência legal se deu entre os meses de abril e julho, quando Vargas decretou o fechamento nacional da organização. Para a trajetória detalhada da ANL no Maranhão: CALDEIRA, José de Ribamar. A ANL no Maranhão. São Luís: Edufma, 1990. 5 A AIB, movimento nacionalista de forte caráter fascista, atuou legalmente no Maranhão entre os anos de 1933 e 1937. Para uma análise do caráter fascista da AIB: TRINDADE, Hélgio. Integralismo (o fascismo brasileiro na década de 1930). São Paulo/ Porto Alegre: Difel/UFRGS, 1974. Sobre a AIB no Maranhão: CALDEIRA, João Ricardo. Integralismo e política regional: a Ação Integralista no Maranhão. São Paulo: 11 recorrência de editoriais, artigos e matérias que alertavam para o “perigo do comunismo” (PEREIRA, 2006). Isso chamou nossa atenção, especialmente por não encontrarmos indícios de movimentação comunista organizada, na cidade de São Luís daquele período (meados da década de 1930), que pudesse representar qualquer ameaça concreta para o jogo político estabelecido, então controlado pelos grupos oligárquicos (CALDEIRA, 1981; REIS, 2007). Também durante a monografia surgiu a inspiração para o próprio título do trabalho, uma paráfrase do famoso texto de Marx e Engels publicado em 1848: Um espetro ronda a Europa: o espectro do comunismo. Para combatê-lo, unem- se numa Santa Aliança todas as potências da velha Europa: o Papa e o Czar, Guizot e Metternich, os radicais da França e os policiais da Alemanha […]. Quais os oposicionistas que não são acusados de comunistas por seus adversários no poder? Quais os oposicionistas que, por sua vez, não têm replicado, a seus adversários da direita ou da esquerda, com a alcunha infamante de comunistas? (MARX; ENGELS, 2006) Procuramos, então, tomar conhecimento da bibliografia disponível sobre anticomunismo na produção das ciências sociais brasileira. Deparando-nos com uma certa lacuna de estudos sobre essa problemática específica, o que se explicaria, segundo Rodrigo Santos de Oliveira (2004a), pelas duas décadas de uma ditadura militar que tinha como uma de suas bandeiras legitimadoras justamente o combate ao comunismo. Tal situação dificultava a realização de pesquisas na área. Isto funcionou como mais um estímulo para tentarmos desenvolver o trabalho, desta feita procurando articular a problemática histórica a uma perspectiva sociológica, fazendo uso, assim, de referenciais teórico-metodológicos oriundos das ciências sociais. Quando elaboramos o projeto de dissertação, no final de 2007, os principais estudos que conseguimos encontrar, e com os quais pretendíamos dialogar, caracterizavam-se por uma abordagem historiográfica centrada na idéia do imaginário anticomunista. Este é o caso, por exemplo, da dissertação de mestrado de Carla Simone Rodeghero, publicada em livro sob o título O diabo é vermelho: imaginário anticomunista e Igreja Católica no Rio Grande do Sul, no qual a autora analisa a produção de um imaginário anticomunista através de jornais católicos no Rio Grande do Sul, entre 1945 e 1964, ou seja, num período em que já era forte a polarização entre os blocos soviético e estadunidense. Este trabalho foi muito importante ainda na época de desenvolvimento do Annablume, 1999. 12 projeto de pesquisa, nos servindo como referencial para as nossas primeiras formulações acerca do material coletado nos jornais de São Luís, apesar de tratar de um período diferente do que estávamos analisando aqui em São Luís. Outro importante livro sobre o anticomunismo no Brasil é o de Rodrigo Patto Sá Motta, Em guarda contra o perigo vermelho: o anticomunismo no Brasil, obra de referência nessa área não somente por conseguir dar conta de um longo período (de 1917 até 1964), mas principalmente porque esclarece com propriedade determinadas questões acerca das origens e matrizes ideológicas do chamado anticomunismo brasileiro. Rodrigo Motta é um dos primeiros a romper com certas concepções tradicionais sobre o imaginário político anticomunista, como é o caso da interpretação produzida pelo Estado, e notadamente pelo Exército, em torno da chamada Intentona Comunista, transformada numa espécie de “mito fundador” do anticomunismo no Brasil. Tal interpretação localizava o início do combate ao comunismo como uma conseqüência dos levantes em quartéis nas cidades de Natal, Recife e Rio de Janeiro. As forças armadas brasileiras decidiram, inclusive, marcar a data de 27 de novembro como “dia nacional de repúdio ao comunismo”, como aponta Rodrigo Santos de Oliveira em sua dissertação de mestrado: “Perante o tribunal da história”: O anticomunismo da Ação Integralista Brasileira. Neste trabalho, o autor realiza uma análise aprofundada do anticomunismo da Ação Integralista, revelando que o meio impresso (jornais, revistas e livros) foi o principal instrumento de divulgação das representações anticomunistas produzidas pela AIB. Outro trabalho instigante que tivemos acesso foi o livro de Roberto Martins Ferreira Organização e Poder - Análise do discurso anticomunista do exército brasileiro, em que o autor realiza uma investigação através das chamadas ordens do dia, um documento oficial que anualmente o exército divulgava como parte das ações que buscavam marcar a luta contra o comunismo. Percorrendo um longo recorte cronológico, o trabalho consegue descortinar alguns elementos recorrentes do discurso do exército que tiveram um papel decisivo na construção da imagem do comunismo e do comunista. Do ponto de vista metodológico, ele segue uma orientação mais forte da análise de conteúdo que busca identificar os recursos argumentativos utilizados pelo enunciador, e ainda como este produz estratégias para convencer o leitor a engajar-se na defesa das idéias apresentadas pelo discurso. Ao livro de Carla Luciana Silva, intitulado Onda vermelha: imaginários 13 anticomunistas brasileiros (1931-1934), tivemos acesso quando de nossa passagem pelo Rio de Janeiro no primeiro semestre de 2009. A autora apresenta a tese de que o fenômeno anticomunista seria anterior à ANL e aos levantes de novembro de 1935, apontado como marco inicial das campanhas anticomunistas no Brasil. Carla Silva baseou sua pesquisa na análise dos Anais da Assembléia Nacional Constituinte de 1934 e dos jornais fluminenses (Correio da manhã e O Jornal) e gaúchos (A Federação e o Correio do povo). No bojo das discussões e propostas que se faziam no período e que tinham como núcleo central a “questão social” e suas possíveis soluções, a autora identifica a disseminação de um imaginário anticomunista. Segundo sua análise, o anticomunismo funcionou, desde então, como “uma forma de justificação para os vários setores das elites políticas nacionais se definirem pelas propostas autoritárias” (SILVA, s/d, p.19). Como primeiro passo na construção do nosso objeto de análise, decidimos relativizar um aspecto presente entre os principais trabalhos que tratam da temática dos discursos sobre o comunismo, qual seja: sua abordagem a partir da perspectiva específica de um imaginário anticomunista construído pelo discurso dos diversos agentes sociais que combatiam o comunismo, notadamente a Igreja Católica e o Integralismo. Nossa percepção é de que esse viés interpretativo muitas vezes não possibilita enxergar que se trata de um espaço de disputa entre representações que visam impor um sentido determinado para um determinado referente. Para pensarmos com Ernesto Laclau, o comunismo deve ser tomado, especialmente numa configuração de crise política, como sendo um significante flutuante6, cujo sentido/significado que vai defini-lo ou tornar-se hegemônico em uma determinada configuração social, encontra-se em disputa com outras definições, formuladas por agentes sociais que ocupam posições antagônicas às ocupadas por aqueles que formularam a definição que veio a se tornar hegemônica. Não descartamos o uso da idéia de um anticomunismo, ou melhor, de anticomunismos, forjados dentro dos diversos quadros históricos e sociais vividos pelo país. Pretendemos apenas situar-nos, como ponto de partida para a análise, desde uma posição que nos possibilite enxergar que existia uma pluralidade de enunciados sobre o comunismo, e que nem todos visavam apresentá-lo como um fenômeno deletério dos valores sociais vigentes e, portanto, negativo ao país. Mesmo que nossa abordagem se limite ao discurso da imprensa, que visava, 6 LACLAU, Ernesto. Reflexões sobre a Revolução de nosso Tempo. s/Ed,1990. 14 todavia, em sua quase totalidade, impor um sentido negativo para o comunismo, não devemos esquecer que se produziu também um discurso cujo objetivo era difundir uma imagem positiva do mesmo. Em determinado momento, é possível encontrar mesmo na imprensa de São Luís, às vezes dentro de um mesmo veículo, a tensão própria desse espaço de concorrências entre diferentes perspectivas do comunismo ou do bolchevismo, como se passou a designar mais precisamente a experiência particular da Rússia. A visão hegemônica que se vai configurar acerca do chamado comunismo soviético é o resultado de uma luta pela constituição da imagem legítima, a que seria o “verdadeiro retrato” da realidade vivida pelo povo russo sob o regime comunista. Mas esta visão que conseguiu se impor como verdadeira não foi a única que se produziu. Nos jornais estudados é possível vislumbrar um pouco esse espaço de tensão e disputa de idéias na discussão, por exemplo, sobre qual seria o melhor regime político, econômico e social para o Brasil. Ou ainda nas posições críticas assumidas por certos jornalistas em relação ao integralismo, como se deu especialmente no jornal Tribuna à época da existência legal da ANL. A postura do cientista social não é assumir uma posição, mas procurar compreender os posicionamentos e visões de mundo presentes nos diversos discursos analisados, como já alertava Weber, tratando justamente do caso de uma possível agenda de pesquisa que a sociologia poderia formular para o estudo da imprensa (WEBER, 2002, p.187). Compreendemos que o discurso sobre o comunismo e o comunista produzido pelos jornais da época foi um importante elemento para que se plasmasse, com o auxílio de outros sujeitos e instituições sociais, a identidade desses dois referentes (comunismo e comunista). Uma identidade que se torna, pela força da imprensa enquanto instituição capaz de fazer ver e existir aquilo de que trata, a única identidade possível. Uma ferramenta teórica importante em nossa abordagem do discurso jornalístico enquanto um elemento que contribuiu para a elaboração de representações acerca do comunismo e do comunista é a noção de representações sociais, tal como foi elaborada, ou melhor, re-elaborada por Roger Chartier (1990). Sua conceituação das representações sociais foi bastante influenciada pela sociologia reflexiva de Pierre Bourdieu, e principalmente por Marcel Mauss e Durkheim (CARVALHO, 2005), e busca compreender as práticas e representações sociais, bem como as “estratégias que determinam posições e relações e que atribuem a cada classe, grupo ou meio um ‘ser- apreendido’ constitutivo da sua identidade” (CHARTIER, 1990, p.23). Essa imposição ou 15 determinação do “ser apreendido” (ou da identidade social) ocorre, e pode ser percebida, através dos discursos que classificam e delimitam papéis sociais. Como sabemos, o conceito de representações sociais foi formulado por Émile Durkheim (2003), e buscava, dentro de um contexto específico de disputa com outras ciências, delimitar um espaço legítimo de atuação para a sociologia. Ao diferenciar representações coletivas de representações individuais, Durkheim fundou a sociologia enquanto área do conhecimento, porque lhe atribuía um objeto especifico de estudo, as representações coletivas. Juntamente com Marcel Mauss, ele pensou as representações articuladas às relações sociais concretas, não como algo pairando abstratamente sobre as cabeças dos indivíduos. Nas palavras de Mauss: “mesmo as representações coletivas mais elevadas só têm uma existência, isto é, só o são verdadeiramente a partir do momento em que comandam atos” (apud CHARTIER, 1990, p.18). É nessa linha que esses clássicos da sociologia são recuperados por Roger Chartier, quando estabelece que o conceito de representação ocupa um lugar central no seu programa de pesquisa de uma história cultural ou sociologia histórica, como ele próprio nomeia sua agenda de trabalho. Chartier entende que a pertinência operatória desse conceito se dá na medida em que torna possível articular três modalidades da relação com o mundo social: 1) os processos de classificação, divisão e delimitação que organizam a apreensão do mundo social; 2) as práticas que objetivam tornar conhecida uma determinada identidade social; e 3) as formas objetivadas ou institucionalizadas que “representam” determinado grupo ou classe social. Como se pode ver, essa formulação é tributária das concepções de Pierre Bourdieu. Assim, seguindo seu desenho conceptual, as representações são pensadas dentro de um espaço de disputas ou campo de concorrências, onde diversos agentes buscam impor uma visão legítima acerca do mundo social, bem como determinar o seu lugar e o lugar do outro nesse mundo. As representações sobre o comunismo lhe atribuem um sentido definido, constituindo, assim, seu “ser-apreendido”, sua “identidade”. Todavia, essa construção de identidade ocorre dentro de um espaço de lutas onde diferentes agentes atuam visando determinar essa identidade (BOURDIEU, 2004a). Existe uma relação indissociável entre representações sociais e a constituição de uma identidade social, pública, que se processa num campo de disputas entre agentes (indivíduos, grupos sociais ou instituições) que pretendem impor os princípios de visão e 16 divisão legítima do mundo social. O entendimento adequado dessa relação passa pela superação da oposição entre representações e realidade, uma vez que as representações fazem parte da realidade, elas existem efetivamente, seja sob a forma de “atos de percepção e apreciação, de conhecimento e reconhecimento em que os agentes investem os seus interesses e os seus pressupostos”, seja através de objetos (emblemas, bandeiras, insígnias, etc.) e das “estratégias interessadas de manipulação simbólica que têm em vista determinar a representação mental que os outros podem ter destas propriedades e dos seus portadores” (BOURDIEU, 2004, p.112). Existe, portanto, uma luta pelo poder de instituir a verdade das coisas e dos grupos sociais através de sistemas simbólicos de classificação que determinam, por exemplo, quem é incluído e quem é excluído de determinado grupo social, aqueles que devem ser considerados “patriotas”, “bons brasileiros” ou, pelo contrário, “impatrióticos”, “maus brasileiros”, enfim, “inimigos” da “Nação”. Desse modo, a identidade é sempre relacional, na medida em que é produzida enquanto marcador da diferença em relação a um exterior. Tanto comunistas quanto anticomunistas buscam construir uma visão legítima acerca do que seria o comunismo, pois através das classificações, delimitações e exclusões que operam em seus discursos e práticas a realidade é contraditoriamente construída e dada a ler. No nosso caso a ênfase será dada ao discurso jornalístico apreendido enquanto constituindo uma unidade discursiva acerca do comunismo7. Ao mesmo tempo, partimos da idéia de que o discurso, ao tratar de um objeto, também o produz. Como isso se dá no caso da idéia de comunismo é o que buscamos compreender melhor. Não se trata de reconstituir a história do comunismo em si, reclamando uma voz de verdade sobre os seus princípios e objetivos, ou, utilizando alguns pressupostos teóricos de Foucault, não se trata de fazer uma história do referente, mas de tentar compreender como se processou a construção de um objeto dentro de uma dada unidade discursiva (FOUCAULT, 2007, p.53). Como afirma na Arqueologia do saber, a agenda do programa arqueológico busca tomar os discursos não apenas como conjuntos de signos (...), mas como práticas que formam sistematicamente os objetos de que falam. Certamente os discursos são feitos de signos; mas o que fazem é mais que utilizar esses signos para designar certas coisas. É esse mais que é preciso fazer aparecer e que é preciso descrever. (FOUCAULT, 2007, p.55. Grifo nosso) 7 “Os enunciados, diferentes em sua forma, dispersos no tempo, formam um conjunto quando se referem a um único e mesmo objeto” (FOUCAULT, 2007, p.36) 17 Em nossa apropriação do texto foucaultiano, visando analisar o discurso da imprensa sobre o comunismo, entendemos que esse mais, dentre outras coisas, pode ser entendido enquanto processo que contribui para formar uma imagem do que seja o comunismo e os comunistas. E não só isso, pois o discurso veiculado pelos jornais, pautado na estratégia da estereotipização, cria também uma visibilidade e uma dizibilidade, ou seja, ele permite ver e dizer o objeto de que fala (ALBUQUERQUE, 2006, p.36). Através das imagens e enunciados clichês que os jornais põem em funcionamento dentro dessa maquinaria imagético-discursiva, produz-se um significado específico para o comunismo/comunista. Nesse sentido, eles são efeitos de verdade produzidos pelo discurso. O que queremos saber é como isso se deu, ou melhor, quais as condições de possibilidade8 desse discurso. Seria possível identificar as estratégias discursivas que possibilitaram construir esse objeto específico, singular, que é o comunismo enquanto regime da anarquia, da barbárie, que destrói os valores nacionais, que não respeita a propriedade? O discurso é entendido aqui enquanto prática cultural que se trama na teia de relações sociais, mas que ao mesmo tempo tem o poder de instituir o real. Segundo Michel Foucault, o discurso tem regras próprias de aparecimento, condições específicas de apropriação e utilização, e que se apresenta desde o início (“e não simplesmente em suas ‘aplicações práticas’”) perpassado pela questão do poder. Sendo, portanto, objeto de uma disputa política, o discurso é, ao mesmo tempo, constituinte da trama social. (FOUCAULT, 2007, p.136-137). Ernesto Laclau, refletindo acerca da dimensão política da existência social, destaca que o investimento de sentido que constitui o ser dos objetos se dá dentro de um sistema de relações marcado por um antagonismo radical. Desse modo, o resultado dessa luta pela constituição de identidades sociais e políticas não pode ser pré-determinado, pois estamos num campo de identidades relacionais. O que significa dizer que a identidade “não seria o que é fora da relação com a força que a antagoniza”, sendo esta força “parte das condições de existência dessa identidade” (LACLAU, 1990, p.18). Daí a noção de um 8 Entendido, segundo Foucault (1992, pp.10-11), como espaço de ordem a partir do qual são “possíveis conhecimentos e teorias”, irrompem “idéias, constituem-se ciências, formam-se racionalidades”. O conceito foi originalmente formulado para análise do processo de constituição da positividade histórica, ou solo epistemólogico, das chamadas ciências humanas, projeto levado a cabo na obra As palavras e as coisas – arqueologia das ciências humanas. 18 “exterior constitutivo”, imprescindível nessa relação de constituição de identidades. Ou seja, na medida em me diferencio do outro, do que é exterior a mim e ao meu grupo, eu busco elaborar minha identidade numa relação em que, ao mesmo tempo, estabeleço uma identidade para o outro. Tanto os comunistas quanto os não-comunistas são compreendidos enquanto produtores de um discurso sobre o comunismo; emitem enunciados, formulam conceitos, lançam mão de estratégias enunciativas que visam definir o que seja o comunismo, e assim impor uma visão “verdadeira”, reconhecida socialmente como legítima. Portanto, “fala-se” em comunismo de diferentes maneiras: segundo a concepção dos “católicos”, “integralistas”, “liberais”, etc. Poderíamos mesmo nos perguntar, se para cada um desses grupos a visão que têm do comunismo é una, homogênea, sem nuanças. Será que dentro do que convencionalmente identificamos como Igreja Católica existe uma única concepção, responsável pela produção dos mesmos enunciados acerca do comunismo? A igreja dos anos 1920/1930 é a mesma dos anos 1960/1970? Como é possível surgir de dentro de uma mesma instituição diferentes formulações para um mesmo objeto? É preciso se perguntar quais as condições sociais específicas em que se elabora um determinado discurso. A análise arqueológica deve dar conta de como se instaura certo discurso, quais suas condições de emergência. Tal análise deve fazer aparecer também os “domínios não discursivos” a que remetem e nas quais tomam corpo os enunciados. São as instituições, os acontecimentos políticos, os processos econômicos e culturais (FOUCAULT, 2007, p.182-183). Essa questão das práticas é um aspecto imprescindível da metodologia de pesquisa proposta por Foucault, que enfatiza a necessidade de se descrever os enunciados em sua materialidade, sem tentar interpretar ou mesmo revelar significados ocultos à superfície dos mesmos. O enunciado, ou o conjunto dos enunciados, é um fenômeno inscrito na história, nas relações materiais, na vida social, devendo ser procurado nesse nível concreto da sua existência. Sendo o enunciado, ao mesmo tempo, não oculto e não visível, a análise enunciativa só pode se referir a performances verbais realizadas, já que as analisa no nível de sua existência: descrição das coisas ditas precisamente porque foram ditas. A análise enunciativa é, pois, uma análise histórica, mas que se mantém fora de qualquer interpretação: às coisas ditas, não pergunta o que escondem, o que nelas estava dito e o não-dito que involuntariamente recobrem, a abundância de pensamentos, imagens ou fantasmas que as habitam; mas, ao contrário, de que modo existem, o 19 que significa para elas o fato de se terem manifestado, de terem deixado rastros e, talvez, de permanecerem para uma reutilização eventual (...). (FOUCAULT, 2007, p.124). Os enunciados sobre o ser do comunismo/comunista são formulados em contextos históricos específicos por agentes sociais determinados, mas também são acionados “eventualmente” por outros agentes nesse mesmo contexto ou no decorrer do processo histórico, passando por reatualizações e ressignificações. Desse modo, afirma-se que os enunciados constituem um arquivo de textos e imagens que “permanece para reutilização eventual”. O êxito de um determinado enunciado, ao qual Bourdieu denomina, a partir dos filósofos da linguagem, de “enunciado performativo”, se deve ao preenchimento das condições sociais de adequação entre o locutor e o discurso que pronuncia. É preciso que o primeiro disponha do poder necessário para emitir determinado discurso, em outras palavras, o sujeito do discurso precisa deter autoridade reconhecida, pois de outro modo seu discurso estará condenado ao fracasso (BOURDIEU, 1996, p.89). Do mesmo modo Foucault afirma que o discurso está perpassado por certos procedimentos de exclusão, dentre os quais a interdição: Sabe-se bem que não se tem o direito de dizer tudo, que não se pode falar de tudo em qualquer circunstância, que qualquer um, enfim, não pode falar de qualquer coisa. Tabu do objeto, ritual da circunstância, direito privilegiado ou exclusivo do sujeito que fala. (FOUCAULT, 2008, p.9) Delimitamos, para efeito de análise, dois grupos ou pólos de onde emanam enunciados acerca do comunismo. De um lado, os detratores, aqueles interessados em impor uma imagem negativa, caracterizando os comunistas como “materialistas”, “ateus”, “violentos”, “desumanos”. De outro, os fomentadores de uma visão marcada pelo seu engrandecimento, que se pautaria pelos princípios da solidariedade, igualdade e pela defesa do bem-comum, buscando ainda libertar a humanidade da exploração, etc. A produção da ameaça comunista, real ou não, era obra das instituições sociais (como a imprensa e a Igreja Católica) e também do Estado autoritário que marcou quase toda a década de 1930. Desse modo, uma característica da noção de representações sociais que buscamos enfatizar é justamente a idéia de elas são sempre determinadas pelos interesses 20 de grupo que as formulam, implicando num “necessário relacionamento dos discursos proferidos com a posição de quem os utiliza” (CHARTIER, 1990, p.17). Daí considerar que as representações são matrizes de discursos e práticas diferenciadas. Por isso, devemos compreendê-las de um modo particular e historicamente determinado, pois elas não existem num continuum ahistórico. Chartier faz questão de destacar a descontinuidade fundamental das formações sociais e culturais, e, por conseguinte, das próprias representações sociais. Assim, por exemplo, nas conjunturas políticas em que experimentou a liberdade de atuação, o PCB buscou dissociar sua imagem do ateísmo, com o objetivo de diminuir a resistência junto ao eleitorado católico. E mesmo nos períodos de ilegalidade o PCB formulou e buscou implementar, através dos movimentos ou organizações políticas que controlava, um conjunto de princípios políticos que pregavam a reunião de todas as forças políticas, e também de todo cidadão brasileiro, contrários ao imperialismo, ao latifúndio, ao fascismo e em defesa da Pátria. As chamadas frentes políticas ilustram bem esse aspecto da tentativa de reverter o processo de depreciação ou mesmo exclusão através do descrédito imposto aos comunistas. No Maranhão, foram fundadas organizações com esse caráter, a exemplo da VAF (Vanguarda Anti-Fascista) e da FUP (Frente Única Proletária)9. Tanto comunistas quanto anticomunistas demonstravam assim certo domínio do espaço das tomadas de posição em uma situação determinada do campo político. “Concretamente, a produção de tomadas de posição depende do sistema das tomadas de posição propostas em concorrência pelo conjunto dos partidos antagonistas” (BOURDIEU, 2004, p.178). Portanto, toda ação ou tomada de posição no jogo só tem sentido se pensada relacionalmente; existe uma força que se exerce sobre os agentes e que provém do próprio espaço de concorrência em que lutam pela preferência dos consumidores. A isto Bourdieu chama de um “sistema de desvios”: O campo, no seu conjunto, define-se como um sistema de desvios de níveis diferentes e nada, nem nas instituições ou nos agentes, nem nos actos ou nos discursos que eles produzem, tem sentido senão relacionalmente, por meio do jogo das oposições e das distinções (BOURDIEU, 2004, p.179). Afirmar a existência de uma propaganda comunista, que estaria fomentando o 9 Frente Única Proletária (FUP). Originou-se a partir da V.A.F.(Vanguarda Anti-Fascista). Ambas eram orientadas pelo PCB. A FUP foi um dos movimentos de esquerda criados e orientados pelo PCB, assim como a VAF, que a antecedeu e como a ANL, que a sucederá no pós-eleições de 1934. Ver: CALDEIRA, 1990, pp. 35-7. 21 crescimento e a penetração dos seus princípios políticos em diversas instituições da sociedade brasileira é o que justifica e pauta a ação dos grupos sociais que assumem a bandeira de uma “união sagrada” 10 contra o “inimigo comum” (o comunismo). Tal apelo em defesa da união de forças contra a “ameaça comunista” tornou-se recorrente na imprensa de São Luís, constituindo uma clara manifestação da solidariedade profunda que marca a relação entre aqueles que possuem o monopólio ou o “privilégio de investir no jogo político” 11. Estas tomadas de posição de políticos ou de jornalistas políticos, como a campanha anticomunista empreendida pelo Pe. Astolfo Serra através da imprensa e ainda em organizações políticas como a O.R.D.E.M (Organização de Resistência Democrática ao Extremismo no Maranhão), visavam, além de defender a manutenção do jogo político numa conjuntura de crise e de questionamentos não só do governo central, preservando o jogo (revolução constitucionalista) mas também do próprio regime em vigor no país (insurreição comunista de novembro de 1935). Segundo Chartier, a categoria representações coletivas aponta para a incorporação, pelo indivíduo, do mundo social a partir de sua própria posição dentro deste mundo. Este é, basicamente, o modo de operação do conceito de habitus de Bourdieu, onde as categorias mentais ou esquemas de percepção são o resultado da incorporação das divisões do mundo social que definem para cada indivíduo a maneira de classificar, falar ou atuar. O estudo das representações religiosas em Durkheim está ligado a um esquema mais amplo de compreensão dessas lógicas culturais de classificação simbólica que organizam a vida social, não apenas nas sociedades “simples”, mas também nas sociedades industriais modernas. Procurando elementos que pudessem dar sustentação à escolha da imprensa como registro principal para a elaboração de uma pesquisa sociológica chegamos até um texto de Max Weber (2002) intitulado “Sociologia da imprensa: um programa de pesquisa”. Trata-se de uma palestra, pronunciada em 1910, em que se justifica a 10 Expressão usada por Assis Chateaubriand, proprietário da rede nacional de jornais, Os Diários Associados. 11 Nas palavras de Bourdieu, “esta solidariedade de todos os iniciados, ligados entre si pela mesma adesão fundamental ao jogo e às coisas que estão em jogo, (…) pelo mesmo investimento fundamental no jogo de que eles têm o monopólio e que precisam perpetuar para assegurarem a rentabilidade dos seus investimentos, não se manifesta nunca de modo tão claro como quando o jogo chega a ser ameaçado enquanto tal” (BOURDIEU, 2004, pp.172-173). 22 importância desse empreendimento, buscando demarcar alguns procedimentos para sua realização. Um postulado-chave para a construção de uma análise objetiva da imprensa seria buscar apreender os posicionamentos e visões de mundo presentes nas páginas dos jornais. “Apenas isso12, por certo, e não uma tomada de posição, seria nossa tarefa.” (WEBER, 2002, p.187). Os jornais constituem uma importante fonte de consulta para uma pesquisa histórica que pretenda compreender um determinado contexto, o qual se entende como possível solo13 que permitiu a emergência de certos discursos. A pesquisa que tem por base a imprensa descortina ainda a possibilidade de visualizar as diferentes relações sociais que compõem uma determinada conjuntura no espaço-tempo e perceber as suas transformações históricas. Ao tomar conhecimento dos “contatos dos jornais com os partidos”, das suas ligações com “o mundo dos negócios, com todos os inumeráveis grupos e pessoas que influem na vida pública e são influenciados por ela” abre-se diante do pesquisador um “campo impressionante para a investigação sociológica” (WEBER, 2002, p.187). É comungando dessa percepção acerca do potencial sociológico da análise da imprensa que procuramos descortinar essa teia de relações na qual se enredam os jornais, mas que é também construída por eles. O referido texto de Weber nos serviu como esteio teórico e metodológico da pesquisa, permitindo explorar diversas possibilidades na análise desse tipo de fonte. Além dos jornais citados, os quais pertenciam às principais facções políticas em atuação na cena política maranhense, compõem ainda o nosso corpus documental alguns jornais que tiveram vida curta e/ou poucos exemplares editados dentro do nosso recorte cronológico, mas que tiveram certa importância na época. São eles o Diário do Norte, dirigido por Antonio Lopes14 e Notícias, dirigido pelo Padre e ex-interventor Astolfo Serra. O Diário do Norte é fundado em abril de 1937, às vésperas, portanto, do golpe do Estado Novo; Notícias foi lançado em março de 1932 por Astolfo Serra, logo após sua saída do posto de Interventor do Estado do Maranhão. E conseguiu se manter por pouco mais de dois anos, pois em junho de 1934 deixou de ser produzido. Consultamos, ainda, alguns veículos de tiragens semanais ou mesmo mensais, 12 Grifos do autor. 13 Ver nota 7. 14 Advogado, professor de Filosofia do Direito na Faculdade de Direito e escritor, Antonio Lopes adquiriu reconhecimento no meio intelectual maranhense nas décadas de 1930-1940. Fundou, em 1937, o jornal Diário do Norte, folha que exerceu grande influência na mocidade intelectual de São Luís, pois acolhia generosamente aos jovens poetas e escritores. 23 mas que também participaram do referido processo de produção e reprodução de idéias e juízos sobre o comunismo, tais como: O Integralista, O Legionário e Maranhão. Estes dois últimos são jornais católicos. O jornal O Integralista, como o nome já indica, era produzido pela Ação Integralista Brasileira – AIB15 – Seção do Maranhão. Desses, foi possível perceber que pelo menos O Legionário teve circulação por outras cidades do Maranhão. Este jornal era órgão criado pela “União de Moços Católicos” da cidade de São Bento, região da Baixada Maranhense. Foi fundado em 1935, mas circulou por outras cidades do Maranhão e nos serve para considerar que estava disseminado o discurso anticomunista católico em terras timbiras. Assim, nos interessa compreender as estratégias discursivas elaboradas pelos jornais e ainda o conjunto de referências simbólicas que é mobilizado visando facilitar a transmissão de um sentimento anticomunista. Convém também caracterizar as heterogeneidades do discurso anticomunista na imprensa ludovicense, levando em consideração que os jornais em circulação naquele período eram a expressão das disputas que se davam entre as facções políticas, visando consolidar ou alcançar a posição de mando na cena política local. Sendo uma imprensa faccionalista, ela buscava defender os interesses da facção política que representava. Dessa forma, os jornais vão manipular de diferentes maneiras o discurso sobre o comunista/comunismo, muitas vezes acusando os adversários de “extremistas”, palavra que era usada para designar todos aqueles que visavam “perturbar a ordem pública”, notadamente os comunistas. A estrutura do trabalho foi pensada da seguinte forma: primeiro, uma introdução contendo breve apresentação da temática, onde aproveitamos para tratar muito sumariamente, de alguns trabalhos acadêmicos que tratam da questão do anticomunismo. Os procedimentos teórico-metodológicos empregados na construção do objeto também estão nessa parte. No primeiro capítulo tentamos compor um quadro sócio-histórico da cidade de São Luís, buscando situar o tipo de configuração social em que se desenrola o processo específico analisado. Empreendemos uma pequena digressão econômica e histórica com o intuito de situar melhor o leitor no espaço de disputa entre as diferentes facções políticas e como isso está diretamente ligado a alguns usos específicos do espectro comunista. O segundo capítulo é onde tentamos analisar cada um dos jornais, identificando 15 Para a atuação da AIB no Maranhão ver: CALDEIRA, 1999. 24 as estratégias discursivas utilizadas no modo como apresentam a questão do comunismo, onde ganha corpo o sentido hegemônico de que ele representaria uma ameaça à ordem social. No terceiro e último capítulo destacamos os principais elementos do discurso jornalístico que nos permitirão compor um argumento acerca das possíveis regularidades discursivas. O qual é formulado na conclusão do trabalho, onde defendemos que a ênfase atribuída pelos jornais à dimensão da prova, da objetividade, recorrendo muitas vezes ao argumento da ciência, nos leva a concluir que o princípio de unidade desse discurso se encontra na mobilização de recursos de autoridade, que a imprensa se atribui a capacidade ou o poder de “revelar” ou “retratar” a realidade. Portanto, o discurso jornalístico se colocará perante o público leitor, no que diz respeito ao tema comunismo/comunista, como um intérprete do que seria a verdadeira realidade desse sistema ou regime político, constituindo, através das representações que são forjadas e difundidas, mas também simplesmente reproduzidas, pela própria imprensa, uma identidade para esses referentes. 25 2. A SÃO LUÍS DAS PRIMEIRAS DÉCADAS DO SÉCULO XX No período que vai do final do século XIX até as primeiras décadas do XX é possível identificar, no Estado do Maranhão, mas cujo foco foi sua capital, São Luís, uma tentativa de implementar alguns elementos do modelo de modernização urbana, fenômeno que outras capitais brasileiras vinham empreendendo mais ou menos no mesmo período. Procuravam seguir o estilo das principais capitais da Europa, Paris notadamente. As condições objetivas, no entanto, impediam grandes obras. Não foi por outra razão que São Luis deixou de realizar um “bota abaixo” nos moldes do que experimentou a então capital da República. Desse modo evitou-se a 16 destruição dos já velhos prédios do centro da cidade (PESAVENTO, 1999) . Digamos que se tratou de uma tentativa de não perder de todo o compasso da história, modernizando o que dava para modernizar. O mais importante era não parecer que estava atrasada em relação àquelas inovações e avanços da modernidade, visto que a vontade de distinguir-se das outras capitais brasileiras impulsionava a alta sociedade de São Luís a estar sempre “atualizada” com o que de mais moderno existia no mundo, segundo ela própria acreditava, em especial em matéria de moda e cultura (literatura e teatro, notoriamente). Isto a levava a patrocinar a vinda de companhias de teatro e ópera estrangeiras para se apresentar em São Luís; importar as modas parisienses; bem como as obras literárias e científicas (francesas) mais recentes. As idas ao teatro e a leitura dessas obras eram uma forma de assegurar a existência de uma suposta ligação entre a sociedade ludovicense e a cultura francesa. Com efeito, isso fazia parte da estratégia de construção de uma imagem de cidade singular, diferenciada das outras capitais brasileiras. Os encontros sociais (saraus, teatro, etc.) que a própria elite fazia questão de manter seriam formas de alimentar aquele sentimento de superioridade cultural, que recrudesceu nos momentos de crise da economia do estado, como foi o caso no final do século XIX e início do XX, época em que se gestou o mito de cidade fundada pelos franceses17. O que está diretamente ligado ao processo de elaboração de “uma certa 16 Falar em “apropriação do modelo haussmaniano” em São Luís soaria bastante exagerado. Isto teria acontecido em algumas cidades brasileiras, mas em decorrência de uma situação histórica que propiciou transformações daquela envergadura, caso de São Paulo e Rio de Janeiro, centros econômicos dinâmicos. Cf: PESAVENTO, 1999. 17 Ver: LACROIX, 2002. 26 maneira de pensar”que se verificou nas primeiras décadas do século XIX e que se caracterizou por transformar o problema da decadência da lavoura num tema obrigatório para se pensar a história do Maranhão. Este pensamento de escola forneceu os esquemas explicativos para todos os intérpretes que daí em diante se debruçaram sobre as questões econômicas e sociais da província. “O padrão de explicação” articulado no começo do século XIX “instituiu, assim, uma modalidade tida como legítima para se pensar o Maranhão transcendendo o tempo em que foi elaborado e se mantendo contemporaneamente nos meandros do pensamento erudito a nível regional.” (ALMEIDA, 2008, p.58)18. 2.1. A (quase-eterna) crise As clássicas interpretações historiográficas sobre o quadro sócio-econômico vivido pelo Maranhão nas décadas de 1920 e 1930 encontram as razões para a crise desse período nos eventos que marcaram a derrocada do regime Imperial, ou seja, a Abolição da Escravidão e a Proclamação da República. Segundo Jerônimo Viveiros, a primeira “desorganizou o trabalho agrícola”, e a segunda trouxe “novas obrigações para o Estado”, não se preocupando com a situação das classes produtoras (VIVEIROS, 1992, pp.1 e 2). Essa visão, além de elitista, porque vê a história apenas do ponto de vista dos proprietários rurais, que constituíam a elite econômica e política, padece também de uma melhor fundamentação científica, que a liberte dessa camisa de força que a faz reproduzir, ad infinitum, as interpretações formuladas pelos patronos da historiografia maranhense (ALMEIDA, 2008). De fato, o Maranhão encontrava-se diante de uma forte crise econômica, todavia, as razões desta não estavam apenas naqueles dois acontecimentos que puseram fim ao regime monárquico escravista. Como ensina Fernand Braudel, é preciso mergulhar no mar da história, ultrapassando as espumas dos simples acontecimentos. Não se trata de fazer ou pretender fazer, em outro sentido, a reconstituição de todo o processo histórico de formação do Maranhão, recorrendo à “lógica mítica das origens e do primeiro começo” (BOURDIEU, 2004, p.78). O que nos obrigaria a retornar, como de costume, ao 18 Para um melhor entendimento dos fundamentos ideológicos dessa produção intelectual ver: Almeida, Alfredo W. Berno de. A ideologia da decadência: leitura antropológica a uma história da agricultura do Maranhão. Rio de Janeiro: Casa 8/ Fundação Universidade do Amazonas, 2008. 27 consagrado marco zero da história econômica do Estado, a implantação da Companhia Geral de Comércio do Grão-Pará e Maranhão no ano de 1755. Com efeito, desde as últimas décadas do século XIX que o Maranhão vinha experimentando uma queda acentuada nos preços dos seus principais produtos agrícolas, então o açúcar e o arroz. Este último o carro-chefe da economia. De acordo com Flávio Reis (2007, p.35), o declínio dos preços destes dois produtos “durante toda a segunda metade do século XIX” agravou a escassez de capital monetário no setor rural, que já existia. “O setor mercantil comandava toda a estrutura de comercialização externa” e, também, o “financiamento da produção” (idem, p.35). Portanto, as causas da forte crise enfrentada pela economia maranhense na passagem do século XIX para o século XX devem ser buscadas nas próprias características da sua formação econômica, condicionante e condicionada pelo perfil social e cultural, como notou Bandeira Tribuzi (1981). Segundo este economista, o modelo da economia apresentava algumas características dominantes, que teriam marcado todo século XIX. Tratava-se de um modelo que, nas suas palavras: [...] acumulava fortemente a renda; não criava infra-estrutura; impedia a elevação da tecnologia da produção e a formação de um mercado interno significativo; condicionava o processo produtivo ao mercado externo (com a conseqüente propensão à monocultura), cujas exigências qualificativas não sabia, contudo, enfrentar; flutuava em ondas de prosperidade e depressão à mercê das conjunturas externas. (TRIBUZI, 1981, p. 24) O caso do algodão, por exemplo. Considerando-se o total das exportações desse produto pelo país entre os anos 1850 e 1880, a participação do Maranhão passou de 30% para 17% (REIS, 2007, p.32), ou seja, caiu pela metade. Mesmo levando em conta o boom dos anos 1860, quando, devido à guerra civil, os Estado Unidos deixaram de fornecer algodão às indústrias da Europa. Outro fenômeno importante no cenário econômico do Maranhão nesse momento de transição, importante também para compreender, mais à frente, as movimentações das organizações políticas como a ANL e AIB, foi o processo de constituição de uma indústria têxtil no bojo da crise do sistema agro-exportador. Dentro da evolução dos sistemas primário-exportadores, a diversificação do capital mercantil em atividades do setor de serviços e na formação de indústria leve de consumo não constitui novidade (REIS, 2007, p.38). Não devemos, portanto, indagar-nos 28 por que surgiu uma indústria têxtil, mas sim por que os investimentos neste setor se deram de maneira tão precipitada, considerando-se que, num espaço de cinco anos (entre 1890 e 1895) 14 fábricas foram inauguradas em todo o Estado, mobilizando recursos da ordem de dez mil contos e mais ou menos três mil operários (CALDEIRA, 1988: apud REIS, p.38). Segundo análise de Flávio Reis, as razões dessa “brusca aceleração dos investimentos” encontram-se em três condicionantes, que assim sintetizamos: a) possibilidade de encontrar taxa de lucratividade maior e mais segura do que o setor açucareiro, abalado por incertezas quanto à sua capacidade de manutenção; b) as mudanças na política econômica (Encilhamento) facilitaram a reunião de capital; c) a probabilidade de alcançar os mercados do Norte/ Nordeste. Sempre dependendo de alguma circunstância externa que permitisse um novo surto econômico, o Maranhão do século XX passou a viver do passado. Escrevendo nesse período, e deixando transparecer certo saudosismo dos míticos tempos áureos, Fran Paxeco19 afirmava que no passado o Maranhão havia alcançado um inquestionável predomínio em duas áreas, na agricultura e nas letras. Porém, o tempo passara e agora se vivia um “declínio” tanto das “tradições agrícolas’’ quanto das “tradições literárias”: Eram dois predomínios que nenhuma zona brasileira lhe requestava, por que se criou um tom uníssono em torno dessas verdades axiomáticas. Mas os anos correram. [...] surgiram competições – e, tanto nos arrozais como nas letras, escancarou-se o declínio, passou a viver-se da fama (Apud: VIVEIROS, 1992, p.4). Um editorial de Tribuna também se refere às condições decadentes do Maranhão, afinal não era mais segredo para ninguém o “apoucamento a que chegamos nas letras, na política e na administração”, tendo se tornado “assunto de toda roda” (TRIBUNA,11/08/1935, p.01: "Ódio, inveja e paixões"). Para ilustrar a dependência econômica das conjunturas externas apontada por Tribuzi, citemos um exemplo de como a economia maranhense “flutuava em ondas de prosperidade e depressão”. Foi o caso do que se sucedeu quando da Primeira Guerra 19 Manuel Fran Paxeco (1874-1952) - Nasceu em Setúbal, Portugal. Foi cônsul de Portugal no Maranhão, onde chegou em 1900. É um dos fundadores da Academia Maranhense de Letras (1908) e da Faculdade de Direito de São Luís (1918), primeira instituição de ensino superior do Estado. Escreveu trabalhos sobre literatura portuguesa e brasileira, além de obras sobre a história e a geografia do Maranhão. Retornou a Portugal em 1935, onde faleceu. In: http://pt.wikipedia.org/wiki/Manuel_Fran_Paxeco#Biografia (acessado em 10/02/2010) 29 mundial. As conseqüências desse conflito, para economia maranhense, foram animadoras: experimentou-se o surto de 1917-25, quando os altos preços internacionais de alguns produtos (algodão, babaçu e tecidos) ajudaram a “reequilibrar as finanças empresariais e públicas, vivendo o estado alguns anos de otimismo“ (TRIBUZI, 1981, p.26). Tendo cessado os bons ventos da conjuntura externa que, todavia, não gerou modificações nas bases da estrutura produtiva local, a economia do estado retornou à situação quase habitual de crise, apresentando no período de 1925 a 1935 “taxas medíocres de expansão” (TRIBUZI, 1981, p. 27). 2.2. Os serviços “públicos”: a segregação do espaço urbano em São Luís E não se restringia a estes aspectos a situação de crise pela qual passava a cidade. As condições de moradia de uma grande parcela da população eram precárias, já que apenas uns poucos privilegiados tiveram acesso à implantação e/ou reforma realizadas nos serviços públicos no final da década de 1920 que, mesmo assim, apresentavam muitas deficiências20. A São Luís da década de 1930 não mudara muito no que diz respeito a essa questão da qualidade de vida. A sua população estimada em 70 mil habitantes, continuava enfrentando sérias dificuldades e reivindicava, inclusive através da imprensa, medidas para solucionar a proliferação de lixo pelas ruas, a falta de energia elétrica, etc21. As reclamações desse tipo geralmente tinham o apoio dos jornais, como no caso que se pedia solução para o problema do lixo que se acumulava nas ruas da cidade: RECLAMAÇOES POPULARES Pedem os moradores da Praça Gomes de Sousa e adjacências attenção das autoridades competentes para o fato de pessoas inescrupulosas virem fazendo daquela praça deposito de lixo. Por ser uma questão de higiene urbana, temos que providencias serão tomadas com urgência. (O IMPARCIAL, 31/08/1935, p.5) Mesmo que algumas reivindicações fossem encampadas pelos jornais esse apoio compreendia certos limites, pois no momento em que os protestos populares assumiam formas mais concretas, em atos que exigiam melhorias urgentes nos serviços públicos básicos, eram logo considerados “actos condemnaveis”. Este é o título de uma nota de Tribuna que relata as depredações sofridas pelos bondes da Ullen management company, empresa estadunidense que tinha a concessão dos serviços de iluminação, 20 Para uma análise detalhada da questão ver: PALHANO, 1988. 21 TRIBUNA, 13/07/1935. p.4: “A Camboa quer luz”. 30 transportes e abastecimento de água da capital. (TRIBUNA, 21/08/1935, p.3). É possível enxergar esse quadro a partir das indicações de Pierre Bourdieu acerca do espaço social e de como as classes ou grupos sociais se impõem enquanto segmentos reconhecidamente legítimos. Assim, as “relações de força objetivas” tenderiam a reproduzir-se nas “relações de força simbólicas”, como parte das estratégias sociais de reprodução dos próprios segmentos sociais (BOURDIEU, 2004, p.145). O que constitui a força dos agentes são as diferentes espécies de capitais que os agentes possuem, elas “definem as probabilidades de ganho num campo determinado” (idem, p.134). Podemos pensar isso integrado ao processo de segregação sócio-espacial que se observa na cidade quando das reformas e/ou implantações dos chamados equipamentos de consumo coletivo. Têm-se assim um espaço de disputa social onde aqueles grupos que possuem melhores trunfos (ou capitais) sociais (posição social, influência política, etc.) tendem a ter maiores vantagens na distribuição dos ditos serviços públicos. O fornecimento de água encanada jamais contemplou todos os citadinos, de modo que pelo menos até 1928 a vendagem livre de água era ainda intensa na capital, especialmente às camadas mais pobres, para as quais o serviço de encanamento permaneceu inacessível. (CÂMARA, 2008, p.43) Aqui também temos o fenômeno social que destacamos para outros serviços públicos como transporte, coleta de lixo, luz, etc. Trata-se de uma segregação espacial que é decorrência da diferenciação social que pautava a organização e estruturação da sociedade ludovicense. Por outro lado, não devemos fazer crer que esses serviços funcionassem a contento mesmo para aqueles poucos privilegiados que habitavam as áreas servidas. A própria implantação de alguns daqueles equipamentos de consumo coletivo se deu muito tardiamente, como foi o caso da coleta de esgoto, que somente nos anos de 1920 tornou-se realidade na capital maranhense. E mesmo depois de estabelecido, esse serviço, assim como os outros, apresentava problemas vários, sendo freqüentes as reclamações e denúncias nos principais jornais da cidade por parte dos moradores daquelas áreas “nobres”, privilegiadas pelos “modernos” serviços públicos. E assim era com a coleta de lixo, realizada de modo precário e ineficiente; com a iluminação pública, de fornecimento intermitente, cujos funcionários encarregados simplesmente deixavam de acender os combustores, condenando assim os moradores a reviverem as noites de breu dos anos anteriores. 31 Até as décadas de 1920 e 1930, grande parte desses serviços de consumo coletivo ainda padecia dos mesmos problemas e tendo a sua área de atendimento restrita à parte central da cidade, deixando o restante da população excluída desses benefícios. Nesse contexto de crise econômica, se apresentava, segundo REIS (2007) imbricada à questão urbana, também uma questão social, que tendem a se intensificar no final dos anos 1920 e começo dos anos 30, em especial devido a um crescimento de organizações e sindicatos de trabalhadores que começaram a reivindicar melhores condições de trabalho e moradia. Essa incipiente mobilização dos trabalhadores ganhou força principalmente na cidade de São Luís onde as facções políticas dissidentes, em particular a facção marcelinista22, buscavam captar as reivindicações populares em seu discurso “anti-oligárquico” questionando, através dos jornais oposicionistas, a legitimidade das facções dominantes. Novos sindicatos de trabalhadores continuam sendo fundados na capital, a exemplo do Sindicato dos Catraieiros (TRIBUNA, 26/04/1935, p.5), do Sindicato dos Bancários do Maranhão, fundado no começo de abril de 1935 e noticiado por Tribuna em 1º de maio desse ano (TRIBUNA, 01/05/1935, p.4). Bem como os que já existiam prosseguem suas atividades sindicais: UNIÃO DOS CHAUFFERS DE S.LUIZ (Assembléa Geral) Convoco os srs. socios, para uma reunião, em nossa séde, à rua 7 de setembro, nº 208, hoje, às 20 horas, afim [sic] de tratar de assumptos de grande interesse para a sociedade. Espero o comparecimento de todos e agradeço. Maranhão, 28 de maio de 1935 Vicente Serejo Dias Presidente Entendendo que o processo de produção dos discursos está diretamente articulado a conjuntura política (LE BART, 1998, p.40), impõe-se esclarecer alguns pontos referentes ao período analisado e, principalmente, situar no espaço das disputas políticas do Maranhão da década de 1930, o que estamos chamando de imprensa ludovicense. Para uma melhor compreensão das questões aqui abordadas, cumpre reconstruir alguns aspectos da conjuntura política imediatamente anterior ao período analisado (1935-37), ou seja, o quadro político geral instaurado pela revolução de 1930. 22 Esta facção política era liderada pelo médico Marcelino Machado, mais à frente trataremos com mais detalhes o quadro político local. 32 2.3. As facções políticas e seus veículos de comunicação. No Maranhão, as disputas faccionistas ocorriam com certa intensidade quando a Aliança Liberal tomou o poder na chamada Revolução de 1930. Nos primeiros anos dessa década, contexto bastante conturbado politicamente, tem-se um afastamento momentâneo das facções políticas que até então brigavam pelo controle do poder estadual e a nomeação pelo governo central de interventores estaduais. Com o início do governo de Getúlio Vargas, seguiu-se na maioria dos estados à derrubada dos governadores e ascensão dos correligionários da Aliança Liberal. No Maranhão, as facções marcelinista e tarquinista23, então na oposição ao governo do estado, haviam apoiado a candidatura de Vargas na eleição de 1929, mas não quiseram se comprometer nas conspirações que planejavam a tomada do poder no estado em outubro de 1930. Apesar de declararem apoio ao novo governo, os marcelinistas não tiveram acesso aos postos da administração estadual. Os primeiros interventores foram indicados por ou com a aprovação de Perdigão, então bastante prestigiado junto a Juarez Távora, o comandante da Revolução no Norte. Esses primeiros interventores tentaram estabelecer uma ligação direta com novos atores políticos, a exemplo dos sindicatos que então existiam na cidade. Com isso, objetivavam isolar ou mesmo excluir as facções políticas tradicionalmente dominantes do jogo político no estado. Decorreu daí uma forte oposição às interventorias, que mudam constantemente de titular, gerando um quadro de instabilidade. Isso demonstra que a força daquelas facções não terminara de imediato à mudança dos ocupantes dos postos dirigentes, persistindo sob formas diversas as relações de interdependência que asseguravam a sua participação no jogo, que agora contava com novos jogadores, mas que não deixava de se pautar pelas regras estabelecidas em um momento anterior. Desse modo, a liderança do chamado movimento revolucionário ficou a cargo do bacharel em direito e simpatizante do tenentismo José Maria dos Reis Perdigão. Depois de ter participado da rebelião tenentista de 192424 em São Paulo, Reis 23 A facção tarquinista tinha como era liderada por Tarquínio Lopes Filho, médico, dissidente do situacionismo magalhãesista. 24 “Em dezembro de 1923, o julgamento e a punição dos implicados no levantes militares do ano anterior (Os 18 do Forte), acusados de promover um golpe de Estado, agravaram as relações entre o Exército e o governo federal. A tensão crescente redundou na eclosão, em julho de 1924, de uma rebelião militar em São Paulo, articulada pelo general reformado Isidoro Dias Lopes, pelo major Miguel Costa. Tiveram ainda participação destacada os tenentes Juarez Távora, Eduardo Gomes, João Cabanas e Filinto Müller”. In: http://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/AEraVargas1/anos20/CrisePolitica/Levantes1924. 33 Perdigão, mesmo sendo civil, tornou-se o principal nome do tenentismo no Maranhão. A partir de então ele passou a atuar na capital federal como jornalista, sempre mantendo contato com seus aliados no Maranhão. Quando se iniciou a mobilização para destituir o governo de Washington Luís e as chamadas oligarquias estaduais, ele se deslocou para São Luís a fim de participar da conspiração que apearia do poder os chamados governos oligárquicos. Acreditava, enquanto partidário do tenentismo, que esses dirigentes políticos, ligados ao predomínio do latifúndio e à exploração estrangeira, eram os responsáveis pelos graves problemas sociais que impediam o desenvolvimento do país. Vitorioso o movimento, que no Maranhão ocorreu a 8 de outubro de 1930, antecedendo, portanto, a deposição do Presidente Washington Luís, levada a termo em 24 do mesmo mês, Reis Perdigão liderou a junta governativa provisória, formada por ele e dois militares. As facções marcelinista e tarquinista, que haviam apoiado a candidatura derrotada de Getúlio Vargas, logo se apressaram em proclamar o seu apoio ao novo governo estadual. Reis Perdigão inicialmente privilegiou os marcelinistas na distribuição das novas nomeações, provocando retraimento de Tarquínio Lopes Filho. Firme na decisão de não aceitar o posto de interventor, preferindo figurar como eminência parda do governo no cargo de secretário geral, Perdigão logo rompeu com os partidários de Marcelino Machado quando soube da manobra em curso no Rio de Janeiro para conseguir a indicação do ex-líder oposicionista para a interventoria do Maranhão (REIS, 2007, pp.108-109). O nome escolhido por Reis Perdigão e confirmado pelo governo central foi o do Pe. Astolfo Serra, escolhido justamente porque não estava ligado a nenhuma das chamadas correntes políticas oligárquicas. Mas este procurou o apoio da facção marcelinista, ao mesmo tempo em que tentava cooptar os sindicatos de trabalhadores da capital. Tentava assim viabilizar uma rede de apoio que pudesse garantir a sustentação do seu governo, afastando-se ao mesmo tempo da forte influência de Reis Perdigão. Rompida sua relação com este último e sofrendo uma forte campanha das facções oposicionistas, sua situação se tornou insustentável como uma série de escândalos produzidos e publicados pela imprensa de São Luís, cuja repercussão nos jornais da Capital da República foram a gota d’água para sua exoneração, em agosto de 1931. Dentre as várias acusações constava uma que dizia, ou melhor, comprovava, segundo os jornais da época, que o Padre-interventor era comunista. A prova do fato estaria na descoberta de um suposto filho, o que já seria um escândalo considerável, e que 34 o mesmo teria sido batizado, por desígnio do padre, sob o nome de Lenine25. Podemos observar com mais clareza o quanto a imprensa estava se tornando uma arma fundamental na disputa, conquista e sustentação do poder político no estado do Maranhão, e de resto em todo o país. Com efeito, é interessante observar que não apenas os antigos participantes do jogo político local, as facções que monopolizaram até 1930 esse jogo, buscavam imprimir suas idéias ou discursos legitimadores através dos seus próprios veículos de comunicação. Tanto Reis Perdigão quanto Astolfo Serra, as duas principais personagens que surgem no espaço da política local imediatamente após o movimento de outubro de 1930 também vão fundar um órgão de imprensa com o objetivo de garantir, pelo menos, a sua permanência nesse espaço de disputa. Já atuavam como jornalistas antes de passarem à frente da direção política do Estado, e mesmo não conseguindo se manter no governo durante muito tempo, em grande medida devido à pressão das facções que se reorganizavam para recuperar seus antigos postos de mando, pressão essa que se dava principalmente através da imprensa, ainda tentaram se manter em evidência no jogo político mantendo cada um seu próprio jornal. Até certo ponto podemos dizer que houve significativa proliferação de jornais nesse contexto de instabilidade política experimentado pelo Maranhão na primeira metade da década de 30. A maioria teve duração efêmera, mas mesmo assim demonstra que começava a tomar forma um fenômeno que não era novo, mas que ganha contornos mais definidos daí em diante, tornando-se cada vez mais freqüente na vida política brasileira. Trata-se do que podemos chamar de afirmação institucional da imprensa, a qual mostrar- se-á capaz de determinar temas, questões e problemáticas a serem debatidas pelos profissionais da política, influenciando o próprio equilíbrio de poder no espaço das disputas políticas26. Podemos usar aqui, tendo um certo cuidado em demarcar as peculiaridades locais do caso maranhense, o conceito de agenda, visto que ele nos permite compreender esse processo pelo qual os jornalistas se colocam na condição de dizer o que deve ser tratado “politicamente”. Ce sont pour l’essentiel les journalistes que detiennent le pouvoir de tout a la fois reveler socialment une situation, la designer comme 25 “O processo de agenda é decerto um jogo complexo que nenhum ator ou grupo pode pretender controlar: mas é evidente que os profissionais da política não estão aqui em posição dominante” (LE BART, 1998, p.42) 26 Seguimos em certa medida a sugestão de pesquisa que oferece Christian Le Bart que, ao tratar do discurso político, ressalta a importância de se estudar, especialmente nos períodos de crise política, o papel dos jornalistas como formuladores de “problemas” políticos os quais interpelam os profissionais da política que se vêem na obrigação de, pelo menos, respondê-los. Para tanto formula o conceito de agenda (LE BART, 1998, pp.41-42). 35 problematique et comme politique, et interpeller les “decideurs”27. Mas sem esquecer que existe uma grande diferença entre a imprensa francesa contemporânea, onde existe um espaço jornalístico com uma relativa autonomia diante das injunções externas. Na década de 1930 em São Luís a configuração da imprensa está pautada no atrelamento umbilical com as correntes políticas que monopolizavam a disputa pelo poder. Em junho de 1933 é nomeado como interventor o capitão Antonio Martins de Almeida, que se aproxima dos “decaídos” magalhãesistas e os ajuda a fundar o Partido Social Democrático do Maranhão (PSDM), que será a base de sustentação do seu governo. As eleições de 1934 dão vitória às facções oposicionistas (PR- marcelinistas e URM- genesistas), que garantiram maioria na Assembléia Constituinte Estadual e, conseqüentemente, o direito de escolher o governador do Estado. Esta coligação escolheu, como nome de consenso das duas facções, o médico-sanitarista Aquiles Lisboa, que assumiu o governo em junho de 193528. Apesar de ser considerado “alheio ao partidarismo”, Lisboa logo demonstrou suas pretensões em se constituir como liderança efetiva no Estado, descumprindo pontos do acordo que o tornara governador. A facção genesista cobrava, em documento oficial encaminhado ao governador, a indicação do prefeito da capital, além de outras nomeações como forma de estabelecer a “perfeita proporcionalidade na distribuição dos cargos” (REIS, 2007, p.114). Decidindo manter na prefeitura de São Luís um nome de sua confiança, acabou perdendo a maioria na Assembléia para a oposição, reforçada com os cinco deputados da URM de Genésio Rego. Estendendo-se a crise até o limite da duplicação de poderes, resolve o governo central intervir em junho de 1936, nomeando provisoriamente Carneiro de Mendonça, e em agosto, após acordo com as facções em disputa, o maranhense Paulo Ramos, funcionário do Ministério da Fazenda que atendia ao pré-requisito usual de não ter vínculos com a disputa política local. O que, entretanto, 27 Tradução livre: São os jornalistas que possuem o poder ao mesmo tempo de revelar socialmente uma situação, designá-la como problemática e como política e, ainda, interpelar as ‘autoridades competentes’ (LE BART, 1998, p.41). 28 Aquiles Lisboa nasceu em 1872 na cidade de Cururupu-MA, filho de grandes proprietários de terras, seus pais não tiveram dificuldades em mantê-lo seja na capital do Estado, seja na capital do país (NUNES, 2000, p.324). Assim, Lisboa cursou, em Salvador, a faculdade de farmácia e, no Rio de Janeiro, a faculdade de Medicina. Foi eleito membro da Academia Maranhense de Letras e se tornou patrono da cadeira nº32 do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão. Em 1931 é nomeado diretor do Jardim Botânico no Rio de Janeiro. Era já um cientista consagrado quando começou a galgar postos e cargos no campo político (NUNES, 2000, p.323). Ainda nos anos 1920 foi prefeito de sua cidade natal, depois concorreu, e perdeu, ao cargo de senador da República, e, em 1935, alcançou o posto de Governador do Maranhão, no qual permaneceu pouco mais de um ano. 36 acabava sempre determinando a “criação de novos pólos de interesse” (REIS, 2007, p.115). Consideramos que as noções de quase-grupos ou facções “vagamente ordenadas” (em oposição às unidades políticas organizadas) entendidas como “unidades de conflito acionadas em ocasiões específicas”, fundadas mais em “transações”, disputas por cargos e postos da administração do que em “questões de princípio” (MAYER, p.149) são pertinentes para a análise do caso estudado. Segundo Flávio Reis, tratava-se de uma crise intra-oligárquica, característica recorrente da “estrutura política de mando” que veio se constituindo a partir da segunda metade do século XIX, marcada pelo predomínio de um “setor político” que passa a “controlar as instâncias de decisão” ao mesmo tempo em que está submetido às pressões do governo central, onde efetivamente sustentava seu poder (REIS, 2007, p.207 e 216). As crises intra-oligárquicas se caracterizam, segundo Reis, pela presença de novas lideranças que reivindicam espaço de influência dentro da estrutura ou “padrão de dominação” estabelecido, ou seja, da estrutura política oligárquica. Essas crises tendem a apresentar variáveis específicas do momento em que ocorrem, no entanto, sua natureza é a mesma: fruto da renovação e substituição de lideranças oligárquicas. Como foi dito anteriormente, a análise se deteve especialmente sobre os seguintes jornais: O Imparcial, O Combate, Pacotilha e Tribuna, escolhidos por sua regularidade durante os anos de 1935-1937, mas principalmente porque estavam diretamente ligados às três principais facções políticas em atuação naquele período. Com efeito, eles representavam os interesses genesista, marcelinista e magalhãesista. A facção genesista, que controlava o jornal O Imparcial, estava organizada em volta da liderança de Genésio Rego e se reunia sob a sigla da União Republicana Maranhense (URM). A facção marcelinista era liderada por Marcelino Machado, médico e proprietário de O Combate que se tornou a grande liderança de oposição ao situacionismo magalhãesista, tendo forte influência na cidade de São Luís. Os marcelinistas estavam reunidos no Partido Republicano (PR). Os magalhãesistas tinham como grande liderança Magalhães de Almeida, que havia sido a principal liderança política do Estado, comandando o processo que elegeu os três governadores durante a década de 1920 (Luis Domingues, Godofredo Viana e o pŕoprio Magalhães de Almeida). A partir das eleições de 1934 estão organizados sob a sigla do Partido Social Democrático do Maranhão (PSDM). Pacotilha e Tribuna são veículos que seguem sua orientação política. Ademais, os referidos veículos impressos eram aqueles de maior tiragem e 37 circulação da capital, sendo o título de jornal de maior circulação reivindicado, ao mesmo tempo, por O Imparcial e O Combate. Podemos considerar os jornais ludovicenses como órgãos oficiais, ou paraoficiais, de divulgação dos ideais das principais facções políticas em atuação naquele momento. Assim, vejamos: O Combate traz como epíteto “órgão do Partido Republicano - orientação política do Dr. Marcelino Machado”; Pacotilha também reconhece sua filiação partidária (é “órgão do P.S.D.”); já O Imparcial se diz “alheio aos interesses políticos dos partidos maranhenses”, mas defende os interesses da U.R.M. de Genésio Rego; Tribuna é um jornal magalhãesista. Dos quatro jornais, dois declaram sua orientação partidária abertamente, o que faz com que os outros os identifiquem como “a imprensa partidária” e, ao mesmo tempo, reclamem para si uma certa neutralidade política, como é o caso de O Imparcial. Ao contrário da imagem que procurava construir para si, este veículo, como também os outros, fazia parte da imprensa partidária. Com efeito, O Imparcial estava diretamente ligado a URM de Genésio Rego. O que vemos em todo jornal é uma campanha abertamente pró-genesista, ao lado de críticas às outras facções, em particular aos magalhãesistas. Isto enquanto formava ao lado dos marcelinistas um bloco situacionista. Em algumas matérias e principalmente nos artigos de primeira página o jornal simula atacar o “partidarismo”, apontado como “causador de todos os nossos males” (O Imparcial, 17/07/1935, p.1). Ao lado da crítica ao “partidarismo tacanho” que tinha sacrificado o Maranhão, este jornal não consegue esconder suas preferências político-partidárias, pois se identifica(va) com a facção agora à frente do governo do Estado, resultado de uma coalizão entre a URM de Genésio Rego e o PR marcelinista. A afinidade de idéias está colocada na diferenciação que o jornal procura fazer entre as “passadas administrações” e o governo que se inicia, representante de uma “era nova” para o Maranhão. O que se pode esperar da nova administração, diz O Imparcial, é que não se deixe “desviar da solução dos problemas maranhenses pelas conveniências da política”, não permita que “se cometa injustiça”, devendo-se conservar os funcionários “dos quais não se apurarem faltas” e punir “com severidade” todos os responsáveis por “irregularidades nos diversos ramos do serviço do estado”. Assim O Imparcial queria que fosse o novo governo do estado do Maranhão, do qual se sentia partícipe e buscava distingui-lo das outras administrações, marcadas por “lutas políticas prejudicialíssimas” e 38 por “governos descuidados da administração [pública] e apenas preocupados com a política”. Os jornais estudados possuem relações claras com as facções políticas que monopolizavam o jogo político local. Em cada um, a linha editorial é fortemente marcada pela defesa e engrandecimento das ações e posicionamentos da principal figura da facção ao qual está atrelado. Vejamos como Tribuna se referia ao ex-governador Magalhães de Almeida em maio de 1935: Deu-nos, hontem , a honra de sua visita o ilustre comte. Magalhães de Almeida, preclaro chefe do PSD. Na palestra, com que o distincto político nos prendeu, por longo tempo, a attenção, ouvimos as mais decisivas afirmações e os mais sábios princípios da política de honestidade e trabalho, com que ele conduz o partido, sobre o qual pesa a responsabilidade da direção do Estado. As palavras, não relatam apenas os mais edificantes episódios de uma vida toda devotada à grandeza do Maranhão; ellas definem um homem que só compreende a vida pelo seu aspecto moral e pelos imperativos que o levam a assumir attitudes só reveladas aos que têm a dolatria do dever e da justiça. Bem viva a impressão deixada pela visita, que agradecemos. (TRIBUNA, 01/ 05/ 1935, p.1) Ao “ilustre” comandante Magalhães de Almeida são atribuídas qualidades que o distinguem como homem público. Ele é portador dos “mais sábios princípios da política de honestidade e trabalho”. Toda sua vida, marcada pela moralidade e pela “dolatria do dever e da justiça”, foi “devotada à grandeza do Maranhão”. Um homem assim não poderia deixar outra impressão: “bem viva foi a impressão deixada”. A intenção era que também deixasse boa impressão nas pessoas que liam o jornal. É devido a essa ligação dos meios de comunicação impressos com as facções políticas em atuação no cenário político maranhense que podemos dizer que a imprensa daquela época era muito mais uma imprensa político-partidária do que uma atividade determinada pelos interesses comerciais. Os jornais expõem o pensamento e os interesses de um grupo determinado de pessoas; dessa maneira são sempre marcados por preferências pessoais (JUNQUEIRA, 1995, p.58). Ao mesmo tempo em que o jornal se constitui como meio de divulgação e informação, ele realiza também outra função, embora raramente por ele admitida, que é de caráter ideológico. Quer dizer, ao veicular a notícia ou comentar determinado fato ele o faz de uma forma particular, forma esta condicionada pelo conjunto de valores políticos, ideológicos, religiosos etc. defendidos por cada jornal e por cada jornalista em particular. A isso deve-se acrescentar o fato desses veículos pertenceram e serem 39 produzidos por um mesmo segmento social. Não apenas seus proprietários e diretores, mas também seus redatores e jornalistas faziam parte de uma pequena elite política que controlava o jogo político no Estado do Maranhão da década de 1930. Tanto é assim, que rapidamente conseguem recuperar o controle ou a posse do aparato de poder, que Getúlio Vargas havia deixado com os tenentes após o golpe de 1930. No caso dos jornalistas ou articulistas que escrevem nos jornais, que muitas vezes não eram funcionários efetivos dos mesmos, eles pode tanto pertencer à linha ideológica dominante do jornal, aquela que pauta de maneira geral o posicionamento do veículo, e que é determinada pela facção política a que está ligado ou, por outro lado, pode apresentar uma postura, até certo ponto, “independente” da posição hegemônica. Todavia, caso raro é a posição totalmente contrária, por parte de um jornalista, àquela que orienta o jornal em sua relação com as facções locais. Interessante, nesse sentido, é o caso de Byron de Freitas. Ele é advogado e exerce o ofício de jornalista no jornal Tribuna, aparecendo como um dos principais integrantes da ANL no Maranhão. Tendo mesmo ocupado o cargo de secretário do Núcleo dos funcionários públicos, como noticiado no próprio jornal. A presença de um aliancista naquele jornal ajuda vislumbrar, inclusive, a possibilidade de que pudessem existir outros simpatizantes dentro da imprensa ludovicense. Essa questão toma corpo com os casos de pessoas que escrevem sejam algumas poucas matérias assinadas ou mesmo artigos em coluna durante certo tempo, como é o caso de José Osvaldo de Carvalho, acadêmico de direito que escreve no jornal Tribuna. Registro Diário é o nome da coluna que este passa a assinar, a partir de junho de 1935 neste matutino magalhaesista. De origem social elevada ele desferiu críticas explícitas aos que defendiam as idéias de Mussolini e Hitler no Brasil; elogiando, por outro lado, os acontecimentos protagonizados pela ANL, que teriam desencadeado, segundo ele, uma espécie de conscientização popular: REGISTRO DIÁRIO Os operários se movimentam levados pela ansia de obterem um pão menos duro, de possuírem uma terra que seja sua e conquistarem, mesmo tingida de sangue, uma liberdade. Liberdade que a todos atinja e dê proteção, sob o seu manto augusto idolatrado. É a alma29 nacional que se movimenta. [...] É uma nacionalidade inteira que tirita pela hora sagrada das suas legitimas e verdadeiras reivindicações. O povo está cansado de lançar os seus protestos platônicos a sua benedita paciência se acha esgotada e ele, na retaguarda dos paladinos das suas aspirações, quer lutar e vencer[...]. 29 Mais tarde vamos abordar a questão que se colocava nesse momento da necessidade de construção da alma nacional. 40 (TRIBUNA, 28/06/1935, p.5.) Uma outra possibilidade de entendimento seria o fato desse espaço surgir em jornal da facção oposicionista, que permitia que indivíduos estranhos ao jogo político também contestassem aquela conjuntura política específica. Quando Weber diz que “teremos que investigar, sobretudo, as relações de poder criadas pelo fato específico de que a imprensa torne públicos determinados temas e questões” somos levados a questionar o porquê desse jornal publicar, mais do que todos os outros veículos, tantas matérias sobre o comunismo, muitas delas carregadas de ambigüidade, pois não são simplesmente detratoras, como as que encontramos em O Combate e O Imparcial, por exemplo, compondo mesmo um conjunto heterogêneo. Parece-nos importante, ainda, destacar que nesse momento a imprensa ainda não possuía o reconhecimento social que reivindicava para si, de modo que ela está inserida, nesse momento histórico, em uma disputa dentro do espaço social, buscando legitimar-se enquanto instituição que exerceria uma função social importante na medida em que buscava informar a sociedade. A A.B.I. ESTRANHA A ATTITUDE DO PRESIDENTE BARROS BARRETO PARA COM OS JORNALISTAS. Em sessão de sua directoria, a Associação Brasileira de Imprensa votou, por unanimidade de votos, a seguinte resolução: “a directoria da Associação Brasileira de Imprensa lamenta que o des. Barros Barreto, presidente do Tribunal de Segurança Nacional, esquecendo o patriótico apoio que a imprensa tem prestado ao combate do extremismo, attitude essa que tem sido reconhecida por todas as autoridades, e, especialmente, por s. ex. o Presidente da República, esteja criando embaraços aos jornalistas, em serviço naquele Tribunal e cujo objetivo não é outro senão o fiel registro dos acontecimentos que tanto interessam ao país”. (TRIBUNA, 30/01/1937, p.6. Grifos nossos) O fato da imprensa “estranhar” a atitude do magistrado em relação ao que seria simplesmente o exercício da sua função de “fiel registradora” dos acontecimentos demonstra que ela ainda precisava reivindicar uma posição social legítima. Ao mesmo tempo, sua manifestação através de órgão coletivo nacional (a Associação Brasileira de Imprensa - ABI) significava que ela já ocupava uma posição, a partir da qual podia mobilizar um certo capital (“todas as autoridades e, especialmente, [o] Presidente da República” têm “reconhecido” seu “apoio patriótico” no combate ao extremismo), o qual lhe permitia medir forças com esferas de poder do tipo do Tribunal de Segurança Nacional, que diga-se de passagem, não gozava de uma legitimidade de consenso, sendo questionado 41 por outras agentes sociais30. Dentro desse quadro político mais amplo ocorreu o surgimento de novas organizações ou correntes políticas, a exemplo da ANL e da AIB. Para os objetivos do nosso trabalho seria importante destacar alguns elementos da movimentação aliancista, tendo em vista que ela atraiu a atenção de uma parte da imprensa de São Luís e serviu de motivo para o surgimento e proliferação, principalmente, após seu rápido crescimento nacional, de discursos que a tomavam como organização comunista. Dos documentos produzidos pela ANL no Maranhão restaram, somente, aqueles que foram por ela entregues para publicação nos jornais da cidade. É, portanto, através desses manifestos, notas e convites veiculados na imprensa ludovicense e, principalmente, por meio da cobertura do movimento aliancista, que podemos divisar a repercussão da ANL em São Luís, tanto na fase da legalidade, quanto no período que se sucedeu à cassação do seu registro. Todavia, não vamos realizar aqui tal empreendimento, o qual foi realizado por José Ribamar Caldeira (1990). Destacamos apenas a ANL iniciou sua organização no Maranhão em abril de 1935, atuando legalmente até julho do mesmo ano, quando foi fechada, em todo país, por decreto de Getúlio Vargas, amparado na Lei de Segurança Nacional que fizera aprovar no começo do ano. Sua atuação no Maranhão se restringiu ao espaço urbano de São Luís, o que se justificaria pelo fato de nessa cidade se concentrar o maior número de comunistas maranhenses (CALDEIRA, João Ricardo, 1999, p.72). O recrutamento político concentrou-se sobre os chamados segmentos médios, os quais estavam divididos entre os dois novos movimentos políticos que surgiram naquela época: a AIB (que reunia os fascistas brasileiros) e VAF, depois FUP, e por fim ANL, que congregava todos os antifascistas da época (desde liberais até comunistas). Esses segmentos médios eram, sobretudo, formados por profissionais liberais, servidores públicos e professores. Eram eles que constituíam a maior parcela dos integralistas e dos comunistas da região (CALDEIRA,1990, p.35). A AIB e ANL eram organizações de caráter nacional pautadas por ideologias claramente opostas, que pretendiam arregimentar simpatizantes em todo país com o objetivo de se legitimar enquanto força política e, de alguma forma, reivindicar o poder político. 30 Para não falar apenas dos comunistas presos após os levantes de novembro de 1935, os quais foram processados e julgados pelo TSN, deve-se mencionar que parte dos membros do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) considerava aquele tribunal inconstitucional. Ver: Dulles, 1985, p.73. 42 A dificuldade de arregimentação era maior entre os trabalhadores urbanos maranhenses. O pequeno proletariado urbano dividia-se entre aqueles que apoiavam a facção governista, que era a parcela mais numerosa, segundo José Ribamar Caldeira (1990); aqueles que estavam ligados à facção oposicionista (o que se explica pelo discurso e prática marcelinista, que visavam especificamente os trabalhadores); e alguns poucos que aderiram às organizações orientadas pelo PCB; e ainda existiam operários que apoiaram e militaram na AIB maranhense (CALDEIRA,1990, p.36). 43 3. REPRESENTAÇÕES DO COMUNISMO E DO COMUNISTA NA IMPRENSA DE SÃO LUÍS Neste capítulo, analisamos cada um dos jornais que compõem o corpus documental do trabalho, procurando destacar os principais elementos ou recursos discursivos que os mesmos mobilizam ao tratar, e, ao mesmo tempo, construir significados acerca do comunismo e do comunista. As notícias de que existiriam grupos comunistas arquitetando complôs ou golpes para tomar o poder no Brasil eram muitas, servindo para amalgamar, no imaginário social, toda uma profusão de imagens, boatos e lendas, como neste caso narrado no jornal A Lucta: PERIGO Passando, hontem, à noite, pela rua da palma, ouvi [...] este diálogo: Pois é como lhe digo, cumpadre. Larguei roça, cavalo, famia, e outros bicho pra vim sabê a verdade do que corre lá pela minha terrinha. Estava quase doido. A muié não trabaiava mais, e eu, cumo uma besta, - de dentro pra fora, de fora pra dentro [...]. Lá, se diz que os comunistas estava aqui; que tudo ia se tomá pra elles dividi e comê, até as muié [...] Além disso, que tinha um baruio por via da política, que tinha metraiadoras por riba das igreja [...] uma ruma de coisa desencontrada! Cheguei, não vi nada. Os comunista tão na grade e o nosso querido governadô dirigindo tudo dêreito, no Palácio. (A LUCTA, 05/01/1936, p.4. Grifo nosso). Analisando a nota podemos perceber o uso de algumas construções imagéticas acerca do comunismo e dos comunistas que posteriormente vieram se cristalizar no imaginário social. A idéia de que no regime dos comunistas “tudo ia se tomá pra elles dividi e comê”, trazia para perto do pequeno lavrador o medo ou pavor da perda de suas propriedades, “roça” e “cavalo”, bem como de sua família, posto que “até as muié” seriam compartilhadas, o que representava uma verdadeira subversão dos alicerces fundantes daquela sociedade. Esse desmoronamento dos pilares sociais se completaria com a destruição simbólica da religião (católica), o que se dá através da profanação do seu lugar de culto (“tinha metraiadoras por riba das igreja”). O discurso mobilizava a superstição como forma de comunicação do medo à população que era preciso manter sob controle. O discurso da imprensa nesse caso procura acionar o que ela considera como valores básicos: a família, a propriedade e a religião. Indicando o perigo que elas corriam caso o comunismo assumisse o governo. Desse modo 44 se buscava instilar o medo do comunismo. Podemos dizer que a forma de dominação efetiva se concretiza a partir do “medo que une e assegura a ordem social” (HARDT & NEGRI, 2001, p.344). O discurso sobre o comunismo/comunista produzido pelo imprensa atua disseminando o medo, criando assim as condições para a legitimação de medidas de repressão e controle a toda e qualquer possível ameaça à chamada ordem social. O comunismo foi classificado e nomeado de movimento extremista, ou seja, movimento que, no intuito de alcançar seu objetivo político (a implantação de outro regime político), recorria ao uso da força e da violência, não hesitando muitas vezes em matar pessoas inocentes, não respeitando as tradições, valores, nem a religião de um povo. Uma das formas de utilização do discurso sobre o comunismo/comunista, ou mais propriamente dos efeitos pejorativos que acompanham o discurso detrator acerca do comunismo, diz respeito à tentativa de identificar adversários políticos como “comunistas”. Tratava-se de um expediente muito usado na luta política do período: a acusação de ser comunista. Era sem dúvida uma forma de desqualificar e, assim, retirar o concorrente da disputa. PRESO COMO EXTREMISTA O acusado é fazendeiro, chefe político e amigo do senador Leandro Maciel. Aracaju, As autoridades prenderam em Itabaianinha, fazendo em seguida embarcar para esta cidade, o conhecido fazendeiro daquele município cel. Anthenor Vieira, chefe político oposicionista e amigo intimo do senador Leandro Maciel. Impetrada uma ordem de ‘Habeas corpus’, em favor do fazendeiro preso, a Corte de Apellação pediu informações à chefatura de policia, tendo esta declarado que a prisão fôra determinada por motivos politicos. [...] quer isto dizer que o sr. Anthenor Vieira não sahirá da prisão, no entender da policia, s.s. é communista [...] (TRIBUNA, 03/02/1937, p.06) Apesar de não se referir ao contexto social ludovicense, essa notícia faz parte do conjunto de enunciados que compõem a superfície de inscrição onde se constituem os imaginários sociais. “O imaginário é um horizonte: não é um entre outros objetos, mas é um limite absoluto que estrutura um campo de inteligibilidade” (LACLAU, 1990, p.71). Nomear de comunista, fazer com que essa categorização fosse aceita como verdadeira, dependia da capacidade dos agentes interessados em impor sua visão; dos meios de que dispunham para tornar bem-sucedida essa iniciativa. Dependia, por exemplo, do controle ou pelo menos da possibilidade de exercer influência seja junto à polícia ou ao judiciário, seja junto à imprensa. Como aponta Bourdieu (2004, p.142) a categorização é 45 um procedimento que busca tornar público determinada idéia acerca de alguém ou de alguma coisa: De fato, este trabalho de categorização, quer dizer, de explicitação e de classificação, faz-se sem interrupção, a cada momento da existência corrente, a propósito das lutas que opõem os agentes acerca do sentido do mundo social e da sua posição nesse mundo, da sua identidade social, por meio de todas as formas do bem dizer e do mal dizer, da bendição ou da maldição e da maledicência, elogios, congratulações, louvores, cumprimentos ou insultos, censuras, críticas, acusações, calúnias, etc. Não é por acaso que a katègorein de que vêm nossas categorias e os nossos categoremas, significa acusar publicamente. A explicação para a repulsa do comunismo, por grande parte da imprensa ludovicense, não pode ser buscada apenas no conservadorismo e provincianismo dessa sociedade. Existia uma influência externa das regiões que eram focos de elaboração e difusão de imagens e idéias do que seria comunismo ou bolchevismo. Estamos falando da imprensa dos centros urbanos que ocupavam posições dominantes na produção de notícias jornalísticas no Brasil. Na sua grande maioria, as notícias e matérias publicadas pelos jornais desses centros eram também publicadas, com alguns dias de atraso, pelos jornais dos outros Estados. Este era o caso da imprensa de São Luís31. As principais reportagens sobre as chamadas idéias extremistas que ela publica, são originalmente produzidas nos referidos centros de produção jornalística. Talvez seja um aspecto da “colonização” interna mencionada por Darcy Ribeiro em sua reflexão sobre a formação do Brasil32. A imprensa foi um instrumento que teve papel de destaque na elaboração e difusão das idéias geradoras de visões acerca do comunismo e dos comunistas. Assim podemos ver nesse fragmento de matéria publicada no jornal O Imparcial: O JULGAMENTO DOS EXTREMISTAS. OS EMISSARIOS DO “KOMITERN” HAVIAM RECEBIDO INSTRUCÇÕES PARA FUZILAR MILHARES DE BRASILEIROS - A INTENTONA DE 35 FOI OBRA DE MOSCOU. SERIAM FUZILADOS 70 MIL BRASILEIROS. Rio, 7 (H) - A secretaria do Tribunal de Segurança distribuiu aos representantes da imprensa as razões finais do Procurador Geral do Tribunal, sobre o processo 31 O mesmo fenômeno se verificou em estudo sobre a imprensa goiana: ALMEIDA, Maria Isabel de Moura. O anticomunismo na imprensa goiana: 1935-1964. Dissertação de mestrado defendida no Programa de Pós- graduação em Sociologia/UFG, 2003. 32 O processo de formação teria sido unificador, mas a sua realização se deu através de três ordens de diferenciação. Uma delas são as “diferenças de desenvolvimento regional que, ativando sucessivamente diferentes áreas como núcleos polarizadores da vida econômica, provocam graves efeitos de colonização interna” (RIBEIRO, 1991, p.141). A colonização aí se refere ao campo cultural, fundamentalmente. Portanto compreende também a dependência dos meios de informação (imprensa). 46 dos cabeças do movimento de novembro de 35, nos quais demonstra, amplamente, que o movimento foi orientado pelo governo de Moscou. Vitorioso o movimento de 35, seriam fuzilados, segundo instruções recebidas da 3ª Internacional, cerca de 70 mil brasileiros. (O IMPARCIAL, 08/05/1937, p.5) A partir da década de 1930 as referências à presença de supostos “emissários” de Moscou ou do Komintern tornam-se freqüentes na imprensa brasileira, como podemos ver no trabalho de Carla Silva (s/d). As notícias dando conta de complôs arquitetados pela Rússia Soviética através dos seus “agentes” infiltrados no Brasil são comuns no corpus documental analisado. Quando consideramos o contexto da época e todo o clima de tensão e ameaça de uma possível “revolução” que se alastrava através do discurso alarmista cotidianamente enfatizado pela própria imprensa, devemos, então, reconhecer que aquelas notícias tocavam diretamente um conteúdo de referências simbólicas que fazia parte do cotidiano dos leitores. Veja-se o caso do Legionário, veículo fundado em 1935 na cidade de São Bento, mas que circulou por outras cidades do Maranhão, como se pode concluir dessa matéria que saudava em editorial o centenário da vizinha cidade de Codó: SALVE CODÓ Nestes momentos de perturbação em que aventureiros se querem apossar do Brasil para torná-lo um mísero escravo da Rússia, pregando a dissolução dos costumes, banindo a idéia de Deus, Pátria e Família, é bem significativo e consolador ver-se uma cidade celebrar seu centenário. Esta comemoração é um protesto contra as idéias demolidoras. Codó celebra o primeiro século da fundação de sua paróquia e de sua comarca. Ahí está bem claro o apego às nobres tradições que engrandecem um povo [...]. Este é e será sempre o sentimento do povo brasileiro, que adora a Deus, ama a Pátria e defende e acarinha a Família. (LEGIONÁRIO, --/08/1935, p.1. Grifos nossos). Interessante perceber como se aproveita uma data comemorativa local, o aniversário de fundação da paróquia, para alertar contra os supostos perigos que espreitavam a sociedade brasileira naqueles “momentos de perturbação”, representados por “aventureiros” que pretendiam tornar o Brasil um “mísero escravo da Rússia”. Já encontramos aqui, de maneira bem articulada, a crença de que as tais “idéias demolidoras” ameaçam o tripé da ordem social (“banindo a idéia de Deus, Pátria e Família”) e que seria necessário lutar contra essa ameaça de “dissolução dos costumes”. Por isso, o jornal enfatiza que a comemoração pelo primeiro século de fundação da paróquia (representando a presença de Deus) deve ser louvado como uma demonstração de que o “apego às nobres 47 tradições que engrandecem um povo” está bem consolidado no espírito do povo brasileiro. É relevante destacar ainda que esta matéria foi produzida em meados do ano de 1935, mais exatamente em agosto, alguns meses antes das fracassadas tentativas de levante nos quartéis que ocorreram no Rio Grande do Norte, Pernambuco e Rio de Janeiro (VIANNA, 2007). Através de matérias como estas se difundia a necessidade de estar alerta contra o perigo que ameaçava as nossas tradições patrióticas. Apesar de focarmos a capital São Luís, achamos relevante observar que a divulgação de um discurso anticomunista alcançava outras cidades do Maranhão. Tanto assim que não devemos estranhar o destaque e mesmo a veemência com que frequentemente ela concitava os brasileiros a se engajar nessa luta: COMBATER O COMMUNISMO É DEVER PRECIPUO DE TODOS OS BRASILEIROS QUE PREZAM AS TRADIÇÕES DA PATRIA E DESEJAM O SEU ENGRANDECIMENTO MORAL. (DIÁRIO DO NORTE, 24/10/1937, p.1) Esta mensagem foi publicada na primeira página do jornal Diário do Norte, em letras garrafais acima do título do periódico. Reflete a intensificação da campanha anticomunista que naquele momento estava sendo usada para justificar as constantes renovações do Estado de sítio e que agora se tornara Estado de Guerra, preparando o terreno para o golpe que assumiria de vez a ditadura. 3.1. O Combate: a defesa do “regime democrático” e a instrumentalização do comunismo Os jornais analisados possuem interesses políticos específicos determinados pelas principais facções que disputavam o comando do aparelho estatal no Maranhão. Cada uma delas possuía um jornal, orientando-os frente aos diversos temas ou questões abordados. O Combate era oficialmente “órgão do partido republicano”. O jornal fora fundado em 1925 por Marcelino Machado, chefe daquela que, durante todo o período que vai da década de 1920 à de 1930, se constituiu na principal facção política oposicionista no Estado do Maranhão. O jornal teve três fases: a primeira durou de 1925 até 1937; a segunda transcorreu entre os anos de 1945 e 1959. Por último, o jornal voltou a funcionar em 1965, encerrando nesse mesmo ano suas atividades. No início do período abarcado pela pesquisa, entre os meses de janeiro e junho 48 de 1935, quando se dava a movimentação da Aliança Nacional Libertadora (ANL), esse jornal praticamente ignora seu surgimento e atuação, seja em nível nacional, onde ela teve uma certa dimensão e repercutiu na imprensa, ou mesmo local, que apesar de não representar um agente de peso no jogo político teve espaço em todos os outros grandes jornais da cidade. As preocupações de O Combate estavam concentradas, nesse momento, em torno da disputa pela conquista do poder estadual travada entre os magalhãesistas e os marcelinistas. A partir de julho as notícias sobre os chamados “movimentos extremistas” começam a aparecer com mais freqüência, passando o jornal a dar espaço para o debate que se travava em relação aos modelos político-sociais, ao mesmo tempo em que busca alertar para o que era considerado como o perigo dos “extremismos”, tanto da “esquerda” (identificado com a ANL) quanto da “direita” (representado pelo integralismo e sua disposição em formar milícias). Depois do fechamento da Aliança Nacional Libertadora (ANL) em todo país, em julho de 1935, acusada de crime contra a ordem política, começaram a aparecer matérias alertando para a importância do “combate ao extremismo”, quase sempre fazendo referência ao chamado movimento comunista. Essa campanha ganhou força no plano nacional após as tentativas de levante comunista em novembro de 1935. Este evento se tornou, então, a principal temática tratada pela imprensa brasileira. No Maranhão, O Combate aproveitava essa questão para defender as medidas do governador Aquiles Lisboa, no cargo desde junho de 1935, resultado de uma aliança política envolvendo as facções marcelinista (PR) e genesista (URM). Esta aliança, no entanto, durou apenas dois meses, retirando-se a URM devido a uma disputa por cargos e nomeações, elemento vital para a manutenção e crescimento do poder de uma facção política (REIS, 2007, p.114). O governo ficou sem maioria na Assembléia Legislativa. O bloco oposicionista era agora formado pelos “decaídos” magalhãesistas (PSD) e os genesistas (URM), que passaram a usar de todas as armas possíveis para (re)tomar a direção do governo estadual33. Toda atividade que porventura viesse comprometer ou mesmo determinar o 33 A partir dessa cisão entre as facções se estabelece uma crise que vai se estender até junho de 1936, quando Vargas nomeia um interventor interinamente, enquanto costurava um acordo entre os dois blocos que reivindicavam o poder. Eles aceitaram a indicação do nome de Paulo Ramos, a ser eleito pela Assembléia como governador para completar o mandato constitucional de quatro anos. 49 enfraquecimento do Governo Aquiles Lisboa nesta hora de perigo nacional, encontraria a reprovação formal da consciência pública, afirmava O Combate. A polêmica se travava principalmente em torno das medidas tomadas pelos deputados das facções oposicionistas que procuravam inviabilizar o governo de Aquiles Lisboa. Terá refletido bem o deputado Felix Valois? Terá balanceado todos os fatos relacionados com a segurança das instituições e os episódios registrados no Maranhão? Pesem todas as responsabilidades que lhes cabem na luta entre a ordem e a desordem. Saibamos todos cumprir os nossos deveres perante a Patria. Quem não estiver de corpo e alma na defesa da ordem vigente será pela desordem que visa a destruição social e política do Brasil. (O COMBATE, 03\04\1936, p.1) Atuando como porta-voz do governo, que nesse momento era sustentado politicamente pelo PR marcelinista, o jornal buscou justificar a importância de alguns decretos baixados pelo executivo estadual que visavam o “melhor aparelhamento da Policia Civil”, dizendo se tratar de uma medida que tinha por fim “prevenir e combater os movimentos subversivos”, perpetrados pelo “monstro comunista”. O editorial é claramente uma tentativa de identificar as facções oposicionistas ao governo Aquiles Lisboa como responsáveis pelo avanço do “extremismo insidioso” no Maranhão, visto que “estranhamente” procuravam privar o governo estadual dos recursos necessários para “reprimir o comunismo ameaçador”. Dizia não entender o porquê desta determinação dos deputados da oposição em enfraquecer o governo “nesta hora de perigo nacional”, quando devia falar mais alto o patriotismo, deixando-se momentaneamente de lado as “dissensões” políticas típicas do faccionismo. A anulação dos decretos de “interesse público” era vista pela jornal como um gesto que demonstrava de que lado estava a oposição estadual na “luta entre a ordem e a desordem”. O jornal se referia ao deputado Felix Valois, líder da oposição e um dos principais críticos da administração de Aquiles Lisboa, responsabilizando por colocar em perigo “a segurança das instituições”. Este deputado vai ser posteriormente acusado, pelo próprio jornal O Combate, de ser simpático ao comunismo, e o fato dele ter estado no Teatro Artur Azevedo na solenidade de posse da diretoria da ANL, seria suficiente para comprovar que ele professava o credo comunista. Mais um caso da estratégia de desqualificação dos adversários usando o poder de construir uma imagem pública ou uma identidade social do indivíduo. Assim se deu também com Astolfo Serra acusado de comunista pelos integralistas. 50 O discurso que se apropria das referências acerca do comunismo é até certo ponto repetitivo em seus argumentos, os conteúdos que enfatiza giram em torno da imperiosa necessidade de defesa dos “interesses nacionais”, devendo-se preservar as instituições definidoras da nacionalidade, a família, o regime político democrático, as liberdades individuais, de expressão e imprensa. As diferenças estão na apropriação dessa referências discursivas pelos diversos agentes sociais. SOTURNA PERSPECTIVA O mundo é um vulcão, as lavas do ódio escorrem por todos os setores da vida humana. […] A Rússia é um dragão infernal, de esgares satânicos, que quer a todo transe realizar em torno do mundo o seu programa sinistro. O Brasil, triste dizê-lo, é sua presa favorita. Não é para admirar que estrangeiros conspirem contra o ritmo nacional. O que nos abate e sucumbe é saber que consciências brasileiras, que valores brasileiros se venderam ao ouro soviético pela destruição da terra magestosa, da inconfrontavel terra do Cruzeiro do Sul. Dignos, a um tempo, de compaixão e despreso. Por ventura já não bastam as convulsões internas, inspiradas na politicagem vil, verdadeiro crime de lesa- Pátria ? Não nos bastam, por ventura, as competições partidárias que separam a família brasileira, notadamente a maranhense? […] Congreguem-se os valores maranhenses em proveito da terra berço. […] (O COMBATE, 06\04\1936, p.1) No caso que acabamos de ver, a imprensa representante do situacionismo no Estado buscava pressionar as facções rivais, então majoritárias na assembléia, a desistirem da intenção de destituírem do cargo o governador Aquiles Lisboa. Para isso usava o argumento de que agindo nesse intuito desagregador, a oposição, inspirada numa “politicagem vil”, acabava ajudando a concretização dos planos satânicos do comunismo, visto que aquele “dragão infernal” se alimentava do ódio que brotava de “todos os setores da vida humana”. O apelo desta matéria tem endereço certo: a renhida oposição das facções magalhãesista e genesista. Alertando para o perigo que, supostamente, rondava o país, o jornal governista procurava criar um clima de congraçamento, de união contra o “dragão infernal” cuja presa favorita seria a terra do Cruzeiro do Sul. A família brasileira estava, segundo afirmava o jornal, separada pelas competições partidárias, e isso a enfraqueceria perante o avanço das “lavas de ódio” que escorriam pelo mundo, facilitando a infiltração dos “estrangeiros” que estariam conspirando “contra o ritmo nacional”. Ainda segundo O Combate, a família maranhense encontrava-se abatida por “convulsões internas”, por isso a necessidade, segundo ele, de se congregar os “valores maranhenses em proveito da terra berço”. 51 Em 20 de julho novamente na primeira página O Combate publica mais um editorial que se volta para a questão do combate ao comunismo, enfatizando a necessidade de uma contra-ofensiva à propaganda comunista. O título da matéria traz consigo a intenção pedagógica que marcava a abordagem dessa questão: “O que todos devem saber”. No combate á propaganda comunista promovida e realisada por estipendiados pelo governo soviético, dever-se-ia divulgar por todos os meios e modos, quanto se escreve e é publicado em todos os países da Europa e na América do Norte sobre o que é a Rússia na atualidade e como aí se vive, segundo o depoimento imparcial de testemunhas que a visitaram e não tem outro interesse senão o de relatar o que viram. […] A propaganda comunista usa e abusa do recurso á mentira, á fantasia e ao embuste, fazendo acreditar que a Rússia Soviética é um paraíso onde se desconhecem as grandes necessidades, onde todos desfrutam dos mesmos prazeres […]. Ante a ofensiva dessas fantasiosas e inverídicas informações, faz- se preciso a contra-ofensiva da verdade e da realidade, para se demonstrar a má fé e o embuste dos interesseiros adeptos dos ideais leninescos. […] (O COMBATE, 20\07\1936, p.1). Informar a verdade e mostrar a realidade da situação na Rússia era um papel que o jornal se atribuía, que ganhava importância e desse modo o legitimava socialmente e principalmente diante dos governos. E isto se combinava na cobertura da atuação das forças policiais responsáveis no estado pelo combate à “tarântula vermelha” no Maranhão. Em editorial, O Combate elogia a atuação “segura”, “enérgica” e “reflectida” do chefe de polícia do Maranhão, o “dr.” Humberto Fontenele da Silveira, na repressão ao comunismo que, segundo o periódico marcelinista, já se preparava para destruir a Democracia. O comunismo, denominado pelo jornal de “aranha maldita”, estaria agindo através dos seus seguidores, iludindo alguns “conterraneos menos avisados” e, assim, pondo em prática os seus “planos sinistros e diabólicos”. O que colocaria em jogo, alertava o jornal, a segurança do lar, do próprio regime democrático e de “nossas mais honrosas tradições”. Considerando-se o “sovietismo” uma verdadeira tarântula venenosa, que, segundo a visão do jornal, ameaçava estender suas teias assassinas sobre todo o mundo, seria imprescindível que os países defensores do Direito Público Internacional se congregassem para, “pelo menos”, circunscrever as “atividades maléficas” dos Sovietes à Rússia34. Um tema frequentemente tratado pelo jornal O Combate, e também por outros veículos, refere-se aos chamados modelos político-sociais existentes no mundo (liberal- 34 O título do editorial é “A Tarantula Vermelha”. O Combate, 02/01/1936, p.1. 52 democracia, comunismo, fascismo), dentre os quais o país precisava optar por um. Segundo o jornal, existiam elementos que representavam essas forças e que estavam em atuação no país buscando implantar o regime político que defendiam. O papel que os jornais, de maneira geral, se atribuem nessa discussão é o de apontar aquele que seria mais apropriado para as condições da sociedade brasileira. No caso do matutino O Combate a posição assumida é bastante clara quanto à negação do comunismo, visto como ameaça às tradições e instituições brasileiras. NEM UM SÓ ARGUMENTO A FAVOR DA IDEOLOGIA MARXISTA Ninguém, positivamente ninguém, apresentou até hoje um só argumento sério, em favor da aplicação do regimen [sic] comunista em nosso país. Ao contrario, todas as pseudo-razões invocadas em abono das teorias marxistas, são flagrantemente inajustaveis á realidade e ao ambiente brasileiro. O comunismo teoricamente, pretende anular as desigualdades das classes sociais, destruindo as castas privilegiadas, muito embora na prática, não haja conseguido esses desiderata. Ora, no Brasil não existem marcadas e profundas desigualdades de classes e, menos ainda, aqui se formaram castas privilegiadas. Teremos, quando muito, pessoas que se guindaram ao apogeu da fortuna e do poder. Mas essas pessoas não são de modo algum células de um casta privilegiada. Serão, se assim o quizerem, indivíduos de mérito e qualidades pessoais que souberam se impor no meio em que vivem. A cada passo, no borborinho da vida quotidiana, todos nós topamos com homens portadores de um nome ilustre ou de um nome que nos traz á memória o fausto e a fortuna de seus antepassados […] e que, no entanto, vivem como nós outros, mantendo-se do produto do seu trabalho honrado. […] assim é a vida no Brasil, assim se passam as coisas no Brasil. Não temos castas privilegiadas, nem radicais desigualdades de classes sociais. […] Não, as teorias de Marx e o regime comunista serão talvez, excelentes […] para países e povos de características muito diferentes da nossa. Para nós e para o nosso país, no entretanto, elas são positivamente uma concepção teratológica, porquanto seus postulados provada e comprovadamente, não se ajustam nem aos dados das questões em foco, nem aos termos da equação em que são postos os nossos problemas. […] (O COMBATE ,21\10\1936, p.1. Grifos nossos) As razões supostamente invocadas pelos defensores da implantação do regime comunista não se ajustariam à realidade brasileira porque se baseavam em problemas desconhecidos por nosso país, como seria o caso das desigualdades de classe. Parte-se de um “fato”: a inexistência de “profundas” desigualdades de classe, e chega-se à “comprovação” de um outro fato, igualmente inquestionável, segundo seu autor: as teorias marxistas seriam flagrantemente “inajustáveis à realidade e ao ambiente brasileiro”. Esse argumento faz uso da idéia de “prova”, buscando atribuir a si próprio uma certa irrefutabilidade. O que seria corroborado pelo fato de até então, outubro de 1936, não se ter apresentado nenhum único “argumento sério” em favor da implantação do comunismo no 53 Brasil. O editorial de O Combate se situa enquanto detentor de uma certa autoridade que lhe permitiria afirmar esse discurso. Sendo a palavra oficial do jornal, esse editorial procurava demonstrar o conhecimento profundo do jornal acerca das coisas de que tratava, empregando uma linguagem erudita e, ao mesmo tempo, pretensamente científica. Para tanto mobiliza categorias do que seria um duelo filosófico-científico (“argumento sério”, “postulados” e “prova”, “realidade”, “pseudo-razões” etc) entre os que defendiam que o comunismo poderia ser instaurado com sucesso no Brasil e aqueles que discordavam disso. Demonstrando ainda conhecer a “teoria marxista” o jornal afirmava que esta concepção seria completamente (“positivamente”) “teratológica” ao “meio” brasileiro. Dentre os muitos crimes ou atentados aos valores da civilização que se convencionou imputar ao comunismo encontra-se o fato dele afirmar que as diferenças sociais não eram legítimas, e ainda defender a necessidade da luta entre patrões e empregados para superá-las. Isso demonstraria sua incompatibilidade com uma suposta natureza humana. Os indivíduos que alcançavam o “apogeu da fortuna e do poder” o faziam pelo mérito, segundo afirmava ainda o mesmo editorial. Eles sabiam impor suas qualidades pessoais ao meio, mesmo porque não existiriam no Brasil, segundo o jornal, castas sociais que tivessem quaisquer privilégios. Neste país as coisas seriam assim: cada um viveria do “produto do seu trabalho honrado”. Em outra matéria que se insere nessa questão dos regimes ou modelos políticos o autor do artigo intitulado afirmava que “O melhor dos regimes” era o existente no Brasil. O que o levava a defender que “deveríamos todos os bons brasileiros” reagir à propaganda mentirosa que por aí estariam fazendo os “camelôs comunistas”. O MELHOR DOS REGIMES Falaz ilusão nutrem muitos brasileiros, supondo que as imperfeições do nosso regime político não podem ser corrigidas no quadro das instituições vigentes, e necessários se faz a sua transformação por completo de modo radical. E, quando ao contato do primeiro porta-voz interessado e estipendiado para propagar certos credos exóticos e extremistas, se deixam embalar por ilusórias ou falsas informações, se tornam, então, exaltados adeptos de outros regimes de governo que, na verdade, só têm o mérito de não ser o nosso e, por isso, são desconhecidos os seus defeitos e não são sentidos os seus males. O confronto imparcial, sereno, esclarecido e culto, porém, entre as normas de governo que nos regem e essas outras que por aí em fora se praticam como o comunismo, o hitlerismo e outros “ismos”, evidenciará com diáfana clareza, demonstrará em flagrante palpável, que a liberal-democracia é o regime de governo ideal. Senão, compare-se o poderio, a grandeza, a organização e elevado grau de civilização da Inglaterra e dos Estados Unidos da América do Norte com o que vale outros países onde não se pratica a liberal-democracia. Semelhante prova é decisiva: todos indubitavelmente prefeririam ser um necessitado inglês, ou um operário inglês, ou um burguês inglês, ou um nobre 54 inglês, a ter a vida equivalente nos domínios de Stalin. [...] Aí, nessas palavras, se encerram conceitos cristalinos que enaltecem com toda a verdade as excelências e os méritos do regime democrático, tão lamentavelmente menoscabado por brasileiros transviados que se deixaram empolgar por uma propaganda tendenciosa e falsa, mantida e desenvolvida à custa de dinheiros de um governo estrangeiro que evidentemente, só visa [ilegível] em um país colonial ou submetido ao seu protetorado [sic]. Ninguém se iluda a esse respeito. A Rússia é hoje em dia um país asfixiado, sem comercio com o exterior. E o Brasil seria para os comunistas um mercado excelente onde ela viria colocar os seus produtos, se acaso conseguisse implantar aqui um governo soviético. Este o motivo por que Moscou tanto se interessa pelo nosso país. Devemos, pois, todos os bons brasileiros, reagir contra a propaganda mentirosa que por ai se faz, inspirada por programas traçados em Moscou, e tendentes a desmoralizar o nosso regime de governo, que, malgrado a parolagem oca e vazia dos “camelôs” comunistas, nos proporcionou o grau de grandeza e progresso que atingimos e sempre fez a felicidade do nosso povo. (O COMBATE, 13 de outubro de 1936, p.03. Grifos nossos.) A posição é de defesa explícita do regime em vigor no país que, segundo afirma o autor do artigo, havia proporcionado ao “povo” um elevado grau de grandeza e progresso, expressão da felicidade com que viveria nesse regime o “nosso povo”. Percebe- se mais uma vez o uso de categorias de um discurso da objetividade/cientificidade, tais como a idéia de “prova”, “evidência” e “conceito”, todavia, isso é feito com o fim de ressaltar as vantagens do que considerava “o melhor dos regimes”, o qual estaria em vigor no Brasil, e era identificado como “regime democrático” ou “liberal-democracia”. Algumas vezes essa discussão acerca de modelos sociais era apresentada de uma perspectiva mais religiosa, ocupando o cristianismo a posição onde anteriormente aparecia a liberal-democracia. A FOICE, O SIGMA OU A CRUZ? Comunismo, integralismo ou cristianismo? Diante da intrincada situação em que se acha o país, é dever urgente de todo cidadão decidir-se, sem reservas, pelo cristianismo puro; pois somente o cristianismo, praticado com sinceridade, é capaz de trazer justiça, paz e real liberdade. Coligimos e apresentamos aqui alguns exatos e suficientes para que os nossos patrícios façam uma escolha acertada entre as três orientações que pretendem salvar o Brasil. O COMUNISMO 1- É materialista e ateu, provocando a condenação de Deus. 2- Sufoca a liberdade, o direito e a democracia. 3- É violento e destruidor. 4- Perturba a vida social e comercial do país, produzindo greves e levantes sangrentos. 5- Escraviza o povo a meia dúzia de tiranos, que o explora atrozmente. 6- Promete muito e nada cumpre, ilude os operários com promessas falazes e depois os torna mais infelizes e miseráveis. 55 7- É extremista, o que quer dizer sem senso, sem prudência. Age legalmente contra os que não são como ele, eliminando-os do mundo por qualquer processo. 8- Resume-se o comunismo nessas três palavras. Inveja, ódio e violência. O INTEGRALISMO 1- É contraditório. Os mais eminentes integralistas do Brasil são Gustavo barroso e Plínio salgado. Entre ambos há divergências profundas. […] 2- É confuso. Não tem orientação segura. Pronuncia-se dubiamente a respeito do capitalismo, judaísmo, liberdade de consciência e religião. 3- É intolerante. Não admitirá no seu ilusório reinado, outros partidos. Plínio salgado tacha os que não adotam o seu sistema confuso, de retardados mentais ou de velhacos (“A Ofensiva” de 01\11\36). 4- Julga os homens pela cor da camisa. Se esta não for verde o sujeito é um defunto moral. 5- Estabelece divisão entre brasileiros, criando um grupo privilegiado o da camisa verde. 6- É irracional. Exige que se obedeça sem discussão a um homem falível como os demais, privando-nos do dom divino da analise, do exame e do raciocínio. 7- Produz fanáticos em vez de homens equilibrados e sensatos. 8 – É partidário de concordatas, ligando o temporal ao espiritual, com evidentes prejuízos para ambos. 9 – Não cumpre o que promete. Há muitos capitalistas integralistas e os seus operários não só não recebem salário justo, como não são tratados com a consideração que o sistema promete; teoricamente combate o Carnaval, mas ainda este ano a Polícia em Belém do Pará, foi com um bloco integralista “inteirinho” ás grades da prisão… Por isso alguém já disse que o Integralismo é a pele de cordeiro de baixo da qual se oculta a alma do lobo do capitalismo… O CRISTIANISMO 1 – Não há incerteza para o verdadeiro cristão. Ele sabe como deve agir e para onde vai. 2 – O cristianismo é tolerante. Exige que se ame os próprios inimigos, apresenta os homens como irmãos. 3 – Não julga os homens pelo exterior. Avalia-os pelo coração e pelo caráter, que procura aperfeiçoar. Não faz distinção entre o rico e o pobre, o judeu e o etíope, o patrão e o operário. […] 4 – Exige obediência voluntaria e consciente, não a um homem como nós, mas a cristo. 5 – Garante a felicidade do lar, implantando nele o amor, pelo qual todos cumprem com alegria o seu dever e se respeitam mutuamente. 6 – Faz a grandeza de qualquer pais, levando os homens a cumprir o seu dever com honestidade e desprendimento. Se escolherdes mal, tereis que suportar as conseqüências desastrosas da vossa escolha! Um anti-extremista (Da “A Tarde”, de Carolina) (O COMBATE, 18\05\1937, p.3) As atividades patrocinadas pelo comunismo internacional, por um lado, já seriam, segundo essa ótica, denunciadoras do iminente risco de “desordem e anarquia”, em especial quando voltadas para combater os defensores do fascismo brasileiro, gerando uma situação de “intranqüilidade generalizada”, ameaçando colocar a autoridade pública em colapso. Por outro, as “doutrinas extremistas da direita”, buscando combater as “doutrinas extremistas da esquerda”, usariam de métodos radicais, como a militarização; gerando uma espécie de ciclo vicioso, enfatizado por um articulista de O Combate: “abyssus abyssum 56 invocat, diziam os latinos. O abismo atrai o abismo, o extremismo chama o extremismo. Para a esquerda não há maior apoio que a certeza de que a direita se organiza. E vice- versa” (O Combate, 02/07/1935, p.04). Dentro desse quadro, a posição defendida pelo autor do artigo torna-se clara: os extremismos são perigosos para a ordem e a manutenção dos valores tradicionais (família, propriedade, etc.) da sociedade brasileira, ameaçando destruir o Estado liberal democrático, segundo o autor, em vigor no país. Deve-se, então, combater ambos os extremismos, de esquerda ou de direita. É isso que reclama o Brasil, continua o articulista, já que “por índole, por tradição, por educação, o brasileiro é hostil aos extremismos. Prefere a orientação equilibrada” (idem). Como estamos afirmando, a estratégia recorrente do discurso de construção de uma imagem social para o comunismo, colocada em funcionamento pelos jornais ludovicenses da década de 1930, centrava-se no argumento da verdade científica, acompanhada dos pressupostos da objetividade, neutralidade e imparcialidade na análise dos fatos. Com efeito, quase sempre as matérias recorrem a uma autoridade científica, supostamente reconhecida enquanto tal pela comunidade de cientistas dos outros países. CADA UM NO SEU POSTO NA DEFESA DO REGIME […] Um dos maiores sociólogos modernos, BERDAEFF, escreve […] as seguintes linhas que merecem ser divulgadas: “os que não vêem no Bolchevismo senão a violência exterior de uma quadrilha de bandidos exercendo-se sobre o povo russo têm dele uma concepção superficial e falsa. Não se concebe assim o destino histórico dos povos. […] os bolchevistas não são uma quadrilha de bandidos que haja atacado o povo russo no seu caminho histórico e lhe tenha amarrado as mãos e os pés: a sua vitoria não se produziu por acaso. O Bolchevismo é fenômeno muito mais profundo, muito mais terrível e apavorante. Menos terrível é uma quadrilha de bandidos. […] Nada há de particularmente feliz a esperar da Rússia, após a Revolução. As devastações são muito graves, a desmoralisação terribilíssima. Deve baixar o nível da cultura. […] O mundo caminha para uma dualidade trágica e para uma luta entre elementos espirituais opostos. Mas é [de] uma importância enorme que as ilusões se dissipem e seja o homem posto em face das realidades positivas.” E quais são essas realidades ? […] nós as experimentamos dolorosamente e podemos resumi-las no quadro sinistro de 24 e 27 de novembro do ano passado que deve permanecer gravado na consciência dos brasileiros, povo e governo, como uma sangrenta advertência a todas as forças organisadas, ás energias morais e ás energias políticas do Brasil, para que ninguém se detenha um momento na meditação acomodatícia dos fatos consumados e que cada um tome na luta defensiva o logar que lhe assinala o cumprimento do dever, custe o que custar. (O COMBATE, 21\08\1936, p.1) 57 O Combate, procura explicar, através da “análise sociológica” de Berdaeff35, o fenômeno do bolchevismo. Tal análise acerca da situação russa sob o regime implantado naquele país desde 1917 é usada para explicar determinados acontecimentos políticos no Brasil dos anos 1930, tidos como exemplos concretos e dolorosos da “realidade positiva” a que seriam impelidos os povos frente à ameaça bolchevista. O que o jornal pretende demonstrar é que os brasileiros já conheciam essa “realidade positiva” do bolchevismo revelada pelo grande “sociólogo moderno”. Tal realidade teria se manifestado, segundo afirmava, de maneira dolorosa para a consciência nacional, através do “quadro sinistro” de novembro de 1935. O qual deveria ficar gravado, ainda segundo palavras do próprio jornal, na consciência de todos, “povo e governo”, como “advertência sangrenta” para que cada um tomasse o seu posto na luta em “defesa do regime”. Faz-se uso aqui de uma autoridade científica supostamente consagrada entre seus pares, ou seja, no campo da sociologia, tomada como ciência legítima para explicar as sociedades. As condições a serem preenchidas para que um enunciado performativo tenha êxito se reduzem à adequação do locutor (ou melhor, de sua função social) e do discurso que ele pronuncia. Um enunciado performativo esta condenado ao fracasso quando pronunciado por alguém que não disponha do “poder” de pronunciá-lo ou, de maneira mais geral, todas as vezes que “pessoas ou circunstâncias particulares” não sejam “as mais indicadas para que se possa invocar o procedimento em questão”, em suma, sempre que o locutor não tem autoridade para emitir as palavras que enuncia (BOURDIEU, 1996, p.89) 36. No caso de Berdiaeff o jornal lhe reconhecia enquanto portador de uma autoridade para falar sobre a situação da Rússia. As palavras do sociólogo seriam ainda reforçadas em sua pretensão de verdade, por serem pronunciadas por um cientista que, além de respeitado no mundo científico, era nascido na própria Rússia, conheceria, portanto, a realidade daquele país antes e depois da instalação do “regime dos sovietes”. 35 Nikolai Berdiaeff Filósofo soviético nascido em Kiev, foi um dos principais representantes do existencialismo cristão, escola filosófica que buscava examinar a condição humana numa perspectiva cristã. Envolvido em atividades marxistas foi condenado a três anos de exílio (1899). Depois de cumprida a pena morou em São Petersburgo, onde tomou parte em movimentos culturais e religiosos. Mudou-se para Moscou (1907) e, após da revolução (1917), lecionou filosofia na Universidade de Moscou, porém entrou em conflito com o regime e foi expulso do país, principalmente por suas ligações com a igreja ortodoxa russa. Radicou-se em Paris, onde com outros exilados fundou uma academia de estudos filosóficos e religiosos (1924) e um jornal, Put' (1925), por meio do qual combateu o comunismo (QUADROS, 2009, p.73). 36 As aspas que aparecem no excerto correspondem a “citações” que Bourdieu faz do trabalho de J.-L. Austin, How to do Things with Words. 58 O interessante no uso que o jornal faz dessa fala autorizada é que, em certa medida, ela própria advém do peso que lhe empresta o veículo. Ou seja, quem garante sua credibilidade é a imprensa, enquanto instituição que se coloca como mediadora entre o saber científico e a sociedade. Esse poder de verdade é atribuído às palavras do sociólogo quando o jornal afirma tratar-se de um dos maiores sociólogos modernos, e por isso suas palavras “merece[ria]m ser divulgadas”. Tal poder de verdade decorria também do fato do jornal considerar como a realidade o que é dito pelo sociólogo Berdaeff, devido à força atribuída às suas palavras. Ou seja, ele reconhece nesse discurso uma fala autorizada. Desse modo, suas palavras adquiriam o poder mágico de criar aquilo de que tratava. Temos que considerar as condições sociais dos usos da linguagem para não cairmos numa análise puramente textual que tenta encontrar nas palavras o poder ou, segundo os filósofos da linguagem, a força ilocucionária que muitas vezes elas exprimem (BOURDIEU, 1996, p.85). Como contraponto à posição notadamente contrária ao sistema político e social em vigor na Rússia assumida por O Combate, podemos destacar uma matéria, publicada em outro jornal, que se utiliza da mesma estratégia discursiva, mas com interesse diferente. A matéria saiu em Tribuna e procurava mostrar a “eficiência do regime” soviético no campo da pesquisa científica, para tanto, referendava suas afirmações nas palavras de uma autoridade da área científica brasileira. O ESTADO SCIENTIFICO DA RUSSIA VISTO POR MAURICIO DE MEDEIROS Rio, 27 (H) – Entrevistado sobre a descoberta do professor Kedfowski o professor Mauricio de Medeiros disse que, no livro que publicou há dois anos sobre sua viagem á Rússia, fala longamente do estado scientifico da Russia, dizendo: O meio revolucionario russo envolve um meio scientifico, mesmo com desrespeito pelas tradições e pelo dogmas da ciência. E só assim pode esta progredir. [...] É o estado proletário que facilita todas as pesquisas. O homem de ciência na Russia vive fóra de quaesquer preocupações politicas; tem todos os recursos materiaes de que carece e, como não ha em torno delle as reducções da vida e da opulencia da sociedade burgueza, satisfaz-se simplesmente com a vida simples e confortavel mas fertilmente produtiva, que o Estado lhe assegura. Se qualquer influencia lhe vem do meio externo, é essa especie de ansia pela perfeição, que se nota na Russia sovietica e que faz de cada cidadão um collaborador consciente do progresso do paiz num orgulho muito justo de mostrar a eficiência do regime. O homem de sciencia trabalhando num meio assim, deve certamente produzir muito. É innegavel que a sciencia russa, que sempre foi digna de respeito, fez um salto prodigioso no sentido do progresso, desde que o regimen sovietico della fez uma collaboradora, a quem nada se nega, acho possível, sob este aspecto geral, qualquer descoberta ou invenção, por mais audaciosa que pareça. É o que posso dizer com respeito á 59 notícia sobre a descoberta do meio biologico de immunização e tratamento da lepra. (TRIBUNA, 28 de março de 1934, p.4. Grifos nossos.) Maurício de Medeiros era médico psiquiatra, professor, jornalista e político. Formou-se na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, da qual viria a ser um dos professores catedráticos. Ocupava uma posição de destaque no quadro científico nacional da década de 1930, tendo já alcançado o reconhecimento internacional por suas contribuições à psiquiatria37. Iniciara, concomitantemente à sua carreira científica, atividade de jornalista e uma carreira política, tendo sido eleito deputado estadual (em 1916 e 1920) e depois federal (em 1921) pelo estado do Rio de Janeiro, posto que deixou em 1923 para assumir a seção de patologia geral da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Em 1927 foi novamente eleito deputado federal e reeleito em 193038, quando teve seu mandato interrompido pela revolução que estabeleceu o Governo Provisório chefiado por Getúlio Vargas. Assinando matérias no Diário Carioca e no diário paulistano A Gazeta frequentemente criticava os rumos tomados por aquele governo. Após a fracassada tentativa de revolução comunista em novembro de 1935 foi atingido pelas medidas repressivas adotadas pelo governo, que o demitiu do cargo de professor catedrático na faculdade de medicina, junto com vários colegas. A matéria não se preocupa em explicar quem é Maurício de Medeiros, limitando-se a dizer que ele é professor, mas não sabemos de que nível (secundário, universitário). Acreditamos que isso ocorre por se tratar de uma personalidade bastante conhecida no cenário científico, político e jornalístico do país. O livro de que trata a reportagem, intitulava-se Rússia (Notas de viagem- impressões-entrevistas-observações sobre o regimen soviético), lançado há dois anos (a matéria do jornal é de março de 1934), ainda estava fazendo um enorme sucesso, alcançando números de vendagens acima da média, considerando-se os padrões editoriais do período (MOTTA, 2007, p.232). Segundo Motta o imediato pós-1930 propiciou um debate político em que se buscavam alternativas para o país. Este anseio por idéias novas estimulou a produção de livros, que atendiam os diferentes pontos de vista ideológicos do público leitor. A Rússia atraiu a atenção, “tanto de detratores quanto de simpatizantes” 37 Ver biografia de Mauricio de Medeiros no sítio do CPDOC/FGV (acessado em 11/02/2010, às 22h): http://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/JK/biografias/mauricio_de_medeiros 38 Não conseguimos descobrir por qual partido político ele se elegeu em todas essas oportunidades. Mais importante, no entanto, parece ser o fato de que ele assumiu posição contrária ao regime instalado em 1930. 60 (idem, p.232), por representar uma das mais diferentes e inovadoras propostas sociais, e desencadeou-se assim um “surto editorial” sobre a experiência dos Sovietes (idem, p.232). Uma novidade foi o interesse despertado pelas edições simpáticas ao experimento bolchevique, como os livros de Maurício Medeiros, Osório César, Caio Prado Jr., Cláudio Edmundo, entre outros39. Rússia, do médico e professor universitário Maurício de Medeiros tornou-se um marco, afinal, foi o primeiro relato de viagem de um brasileiro à União Soviética. Foi também o que encontrou maior sucesso de público, verdadeiro estouro para os padrões editoriais da época: a editora Calvino tirou seis edições sucessivas de Rússia, numa tiragem total de 24 mil exemplares! (MOTTA, 2007, p.232) O “Estado proletário” propiciaria, segundo fala do cientista brasileiro Maurício de Medeiros, que visitara a Rússia, “todos os recursos materiais de que carece” o homem de ciência. Explicava-se assim porque os cientistas russos podiam efetuar novas e importantes descobertas na área, comprovando desse modo “o progresso da ciência” naquele país. Este “salto prodigioso” da ciência teria se iniciado, afirmava o professor entrevistado pelo jornal, “desde que o regime soviético dela fez uma colaboradora, a quem nada se nega”. O efeito de sentido se caracteriza pela funcionalidade que um enunciado pode assumir numa formação discursiva na qual é (re)produzido. Todos os possíveis efeitos de sentido devem ser entendidos em seus contextos e a partir de suas condições de emergência específicas. N’A Arqueologia do Saber, Foucault (2007, p.75) afirma que a função ou o papel do discurso no campo das práticas não-discursivas, bem como o seu regime de apropriação (o direito de falar; a competência para compreender; o acesso lícito e imediato ao corpus dos enunciados já formulados etc.) devem ser entendidos como elementos formadores do discurso, que nos permitem caracterizá-lo em sua unidade discursiva. Na sua aula inaugural no Collège de France sintetizou o que seria, até então, um princípio orientador das suas pesquisas: [...] a produção do discurso é ao mesmo tempo controlada, selecionada, organizada e redistribuída por certo número de procedimentos e perigos [...] sabe-se que não se tem o direito de dizer tudo, que não se pode falar de tudo em qualquer circunstância, que qualquer um não pode falar de qualquer coisa. (FOUCAULT, 2008, p.9). 39 Motta (2007, p.232) fornece as referências completas: Maurício Medeiros. Rússia (Notas de viagem- impressões-entrevistas-observações sobre o regimen sovietico). Rio de Janeiro: Calvino, 1931; Osório César. Onde o proletariado dirige. São Paulo: s/ed., 1932; Caio Prado Jr. URSS, um mundo novo. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1934; Cláudio Edmundo. Um engenheiro brasileiro na Rússia. Rio de Janeiro: Calvino Filho, 1933. 61 As palavras do professor, escritor e homem público Maurício de Medeiros, nas condições sociais específicas em que emergem no discurso jornalístico são apropriadas de modo a produzir um efeito de sentido determinado, qual seja, elas expressariam a verdade acerca da realidade vivida no “regime proletário russo”, em especial no que diz respeito à avançada produção científica desse país. “Vivemos em uma sociedade que produz e faz circular discursos que funcionam como verdade, que passam por tal e que detêm, por este motivo, poderes específicos” (Foucault, 1979, p.231). Não é possível contestar o discurso (re)produzido pelo jornal, afinal, o mesmo era pronunciado por um cientista reconhecido (BOURDIEU, 1996), que estivera na Rússia comprovando o “inegável salto de progresso” da ciência naquele país sob “regime proletário”. 3.2. Pacotilha: a repressão ao comunismo em nome da “ordem” O jornal Pacotilha tem uma longa história. Fundado em 1880 com o objetivo de combater a Escravidão e defender a República, foi publicado quase ininterruptamente, nessa sua primeira fase que durou exatos 50 anos. Em 1930 parava de circular, mas em 1934 retornou ao cenário da imprensa maranhense, perdurando até 1938, quando encerrou definitivamente. A direção do matutino foi entregue ao jornalista Nascimento Moraes que a repassou, em julho de 1935, para Constancio Carvalho40. Não sabemos se à época da revolução de 1930, que retirou do poder no Estado do Maranhão a facção magalhãesista, este veículo já seguia as orientações dessa facção. Nos parece que sim, visto que o jornal só voltaria a circular em 1934, justamente quando Magalhães de Almeida procurava retomar sua condição de estrela de primeira grandeza no cenário político local, aliando-se ao interventor Martins de Almeida e fundando o Partido Social democrático (PSD) e reabrindo, como órgão oficial desse partido, o jornal Pacotilha. Nesse sentido talvez seja interessante destacar a contraposição existente entre os jornais Pacotilha e O Combate. Claro, os diferentes enfoques são frutos do posicionamento político de cada um dos jornais que, através de suas matérias, procuravam demonstrar a honestidade, a dedicação e a grandeza dos seus políticos: O Combate 40 Presidente do diretório do PSD e suplente de deputado federal. 62 representava a facção marcelinista que havia indicado para o governo do estado, em eleição vitoriosa na Assembléia Estadual, o sanitarista Aquiles Lisboa41; Pacotilha, por sua vez, pertencia à facção magalhãesista, que estivera à frente do poder estadual durante a década de 1920, destituídos dessa posição em 1930, quando se iniciou o período das interventorias. Os dois jornais travavam uma disputa em torno da legitimação pública de cada uma das facções, deslegitimando ao mesmo tempo o outro lado. Quando a facção marcelinista assumiu o comando do estado, o que se deu com a posse de Aquiles Lisboa, ocorrida em junho de 1935, a facção magalhãsista já havia conseguido se aproximar da interventoria do Capitão Martins de Almeida, e gozava, portanto, das vantagens auferidas do controle da máquina de poder no Estado. E como Aquiles Lisboa fora escolhido devido ao critério de não pertencer a nenhuma das correntes políticas que compuseram a aliança PR-URM, Pacotilha ainda tentava, nos primeiros dias do novo governo, defender os interesses da facção magalhãesista. Sob a capa de um discurso em prol da economia de gastos e da defesa dos serviços públicos, ela procurava justificar a manutenção dos funcionários das repartições públicas. Procurando fazer uso do que ela mesma chamava de “opinião pública”, Pacotilha pressionava Aquiles Lisboa para que não atendesse aos “interesses partidários” e não se deixasse levar pela “vaga das competições pequeninas”: UMA PERSPECTIVA... Não acreditamos que o critério partidário, ou melhor a parcialidade no julgamentos dos valores seja o preferido pelo atual Presidente do Estado nas reorganizações que vai fazer nas Repartições Públicas. Alias não estamos de ânimo deliberado a aceitar que S.exc. meta ombros a mais uma reorganização nos quadros dos funcionários das Repartições Públicas. Inúmeras já têm sido postas em prática, e nenhuma, pelo que nos parece, correspondeu às necessidades dos serviços, pois que já se fala em nova reorganização... Pelo visto, o que ocorre é que todas as reorganizações não têm visado até hoje melhorar os serviços públicos, mas a satisfazer interesses partidários, aumentar despesas e adquirir novos funcionários que em coisa alguma favorecem a economia do trabalho. […] […] tantas reorganizações, reformas e mudanças que só servirão para colocar bem protegidos aflitos [sic] e colocar mal o governo perante a opinião pública. Mas estamos certos que S.exc. […] não se deixará levar pela vaga [ilegível] das competições pequeninas, que sempre se precipitam pelas portas adentro dos gabinetes dos Chefes de Estado. […] 41 Convém lembrar que se tratou de uma aliança entre a facção marcelinista, reunida sob a sigla do Partido Republicano (PR) e a facção genesista, organizada em torno da União Republicana Maranhense (URM), que, desse modo, obtiveram maioria na Assembléia. Assim lhes coube o poder de indicar o governador e os dois senadores do Estado. 63 S.exc. cairá no erro de muitos administradores, alguns até bem intencionados, e que não deixaram no governo traços de sua superior orientação, por terem esperdiçado longo tempo em reformas e organizações que os seus sucessores pensando como eles, deitaram abaixo, ao tomarem as rédeas do governo! Confiamos no espírito penetrante e na alta cultura do dr. Achilles Lisboa. (PACOTILHA, 4 de julho de 1935, p.1) Mas a questão das nomeações era central na manutenção das facções políticas e Aquiles Lisboa logo após sua posse daria início às substituições dos funcionários da administração pública estadual, indicando logicamente indivíduos os que faziam parte das duas facções que detinham o poder nesse momento, os marcelinistas e genesistas, também chamados de “unionistas” devido estarem reunidos na União Republicana Maranhense (URM). UM MÊS DE GOVERNO Em trinta dias o sr. Aquiles Lisboa, o homem que veio governar sem partidos, sem ódios e sem vinganças, demitiu ou transferiu cerca de seiscentos funcionários públicos, adversários políticos dos marcelinistas e unionistas. […] (PACOTILHA, 23 de julho de 1935, p.01) A partir de então a disputa entre as duas facções, que repercutia nas páginas dos seus respectivos diários, tornou-se mais aberta, mobilizando-se inclusive acusações de que, entre os deputados da oposição magalhãesista existiam aliancistas. Por sua vez, Pacotilha representava a facção magalhãesista e por isso estava sempre elogiando ou defendendo os seus integrantes, como no caso de uma acusação que dizia ser aliancista o deputado Felix Valois. Sua resposta veio sob a forma de desafio ao próprio governador, a quem o deputado acusado não perdia a oportunidade de criticar. Aqui vemos uma notícia que comentava a repercussão dos fatos na capital do país: O REPTO DO DEPUTADO VALOIS. COMENTADO PELA IMPRENSA CARIOCA. Rio, 27 – Causou ótima impressão, aqui, o gesto do deputado Felix Valois, reptando o sr. Achiles Lisboa a provar ser ele adepto da Aliança Libertadora. A imprensa comenta com simpatia a atitude desassombrada desse constituinte maranhense, citando as dificuldades em que se encontra o sr. Achiles Lisboa para obter provas do que afirmara ao ministro. (PACOTILHA, 28 de agosto de 1935, p.1) O deputado Felix Valois pertencia ao PSD (facção magalhãesista) e vinha se destacando na Assembléia Estadual como um líder da oposição, segundo noticiava 64 Pacotilha. Após a cassação da ANL iniciou-se uma “caça às bruxas” (aliancistas) em todo o país e diversas pessoas foram acusadas de simpatizar ou mesmo atuar naquela organização. O deputado, devido ter estado presente em pelo menos uma das reuniões ocorridas no Teatro Arthur Azevedo, começou a sofrer “acusações” de que era membro da ANL. O silêncio da Pacotilha em relação à ANL no primeiro semestre de 1935, ou seja, no período em que aquela organização estava na legalidade e atuava em São Luís tentando recrutar adeptos e conquistar simpatizantes, nos fez deixar um pouco de lado esse matutino magalhãesista, à época da elaboração do trabalho de conclusão da graduação. Somente depois que tivemos oportunidade de consultar suas páginas referentes aos anos de 1936 e 1937, além do segundo semestre de 1935, foi possível perceber sua orientação política em relação ao fenômeno do “extremismo”, como muitas vezes é chamado o comunismo em suas matérias. Com efeito, a partir de julho de 1935 as notícias dando conta do caráter comunista da Aliança Nacional Libertadora se tornam mais freqüentes nesse jornal. Assim vejamos o que se dizia por ocasião do fechamento da ANL: REPRIMINDO O EXTREMISMO Rio, 15 – A Polícia, de posse do plano de bolchevização do Brasil, traçado na Rússia e que foi publicado, em parte, pelos jornais, conforme instruções do governo, [que] está agindo severamente no sentido de assegurar a ordem pública e as instituições nacionais. Rigorosas instruções foram transmitidas a todos os governadores dos estados para a devida segurança do País. O plano se configurava nesse ponto de vista: a Rússia, comprimida entre o Japão e a Alemanha, estabeleceu o seu ponto de apoio no Brasil, visando a bolchevização de toda a América do Sul. (PACOTILHA, 16 de julho de 1935, p.2) Antes mesmo da decretação de ilegalidade da ANL a posição do jornal Pacotilha não era nem um pouco favorável às atividades da entidade, sobre a qual não se divulgava nenhuma notícia. Quando ela aparecia nem mesmo era citada, ficava implícita na matéria que se tratava da ANL, como no caso das mobilizações planejadas para marcar a “gloriosa” data de cinco de julho42 e que foram objeto de diversas tentativas de boicote por parte da AIB, que contou com o apoio da imprensa. Sem esquecermos que, tendo já à sua disposição a Lei de segurança nacional, a Polícia de Vargas estava à espera de uma 42 Repercutindo a influencia dos tenentes e, ao mesmo tempo, procurando se ligar ao que chamava os movimentos revolucionários de 1922 e 1924, que estouraram em 5 de julho, a ANL organizou grande comemorações em todos os estados visando demonstrar o quanto era popular e revolucionário o seu movimento. 65 oportunidade para poder fechar a ANL. Mas foi a imprensa que se encarregou de divulgar que pairava sob a nação uma ameaça: PREVENÇÕES CONTRA POSSÍVEIS ALTERAÇÕES DA ORDEM Rio, 04 - Acham-se de prontidão todas as forças da Marinha, Exército e Polícia. Essa medida foi tomada em conseqüência de boatos que estão circulando em torno das expressivas manifestações projetadas para cinco de julho, da qual participarão elementos de todas as classes. (PACOTILHA, 05 de julho de 1935, p.6) Este jornal se colocava como um defensor da “ordem pública e das instituições nacionais”. Sempre disposto a apoiar as medidas do governo central no sentido garanti-las. A tendência conservadora do matutino podia ser notada nas frases que estampava na primeira página, logo acima do nome do jornal. Logo em seguida ao cerceamento da liberdade de atuação da ANL, ainda no bojo das discussões acerca da constitucionalidade da medida, Pacotilha afirmava em uma daquelas frases de capa: COM O TEMPO, A CALMA SE RESTABELECE E, SE A CENSURA FOI PROPORCIONADA AO DESVIO, OS SEUS EFEITOS REMOTOS SERÃO ÚTEIS E SALUTARES. (SERRAS E SILVA) (PACOTILHA, 21 de julho de 1935, p.01) Como já dissemos, a postura desse veículo era sempre no sentido de procurar justificar ou mesmo legitimar as medidas repressivas tomadas pelo governo no tocante ao que chamava de manutenção da ordem e tranqüilidade públicas. Segundo é possível perceber nas notícias e matérias da Pacotilha, “as autoridades” estariam de prontidão, atuando sempre no sentido de impedir que “as agitações extremistas” obtivessem sucesso: AS AGITAÇÕES EXTREMISTAS Rio, 22 – As agitações extremistas estão preocupando as autoridades, tendo sido frustradas várias greves que tentataram rebentar aqui e nos estados. [...] a polícia esteve em grande atividade para empedir qualquer movimento. (PACOTILHA, 24 de julho de 1935 p.01) A construção da identidade social de um sujeito político como o comunista, e do “regime” que ele defendia, foi se processando de maneira sempre negativa pela imprensa, suas características definidoras encontram-se ligadas ao que poderíamos chamar o campo do mal, marcado pela desordem, subversão, imoralidade, violência, crueldade, materialismo (no sentido de que é contrário ao “espiritualismo”), antinacional, e daí a idéia de traição, de covardia, reforçadas e repetidas ad infinitum, não só pela imprensa, mas pela 66 Igreja, militares, intelectuais, depois dos levantes comunistas de novembro de 193543. O que dizemos pode ser verificado em muitas matérias que o jornal Pacotilha no período de 1935 a 1938 dando conta de complôs, assaltos, furtos de gado, enfim, tudo o que era social e moralmente condenável podia ser ligado à atividade dos comunistas e mesmo do Partido Comunista, o qual procuraria, através de sua estratégia demolidora, causar desordens e instabilidades sociais com o fim de revoltar a população contra as autoridades e o regime legalmente estabelecido. Ou ainda noticiando as “descobertas” de complôs comunistas, que funcionavam como um elemento propagador de tensão e medo, devido à suposta ameaça de alteração violenta da ordem que adviria caso um desses planos fosse bem sucedido. Isso demonstrava o quanto era necessária a atuação precavida e enérgica da polícia na repressão aos movimentos de caráter subversivo. Se considerarmos toda a imprensa, foram muitas as noticias de complôs por todo o país, em alguns casos o Maranhão aparecia como possível cenário de um deles, os quais nunca se desdobravam em ação, eram sempre “descobertos”, “frustrados” pela policia... COMPLOT “EXTREMISTA”? Fortaleza, 25 – os jornais desta capital publicaram telegramas do Rio, noticiando a existência de um “complot” extremista com raízes aqui, no Maranhão e no Pará, visando depor os respectivos governadores. (PACOTILHA, 27 de agosto de 1935, p.1) A disseminação do medo constituía elemento fundamental para o controle político e social. Chama atenção o emprego freqüente dos termos “complô” e “intentona” para significar as movimentações de caráter “subversivo” que estariam sendo arquitetadas com a ajuda do comunismo internacional, ou seja, pela Rússia. Dentre os casos que teriam sido descobertos pela polícia antes de sua deflagração, um dos mais impressionantes e ousados, segundo a matéria que Pacotilha publicou, foi o suposto plano de assalto ao trem pagador arquitetado pelos comunistas de São Luís. O jornal dá destaque à cobertura dos embates entre integralistas e aliancistas, que depois de julho, ou seja, depois do fechamento da ANL, passam a ser chamados de comunistas. Assim, em 7 de novembro de 1935, se noticiava a ocorrência de “graves acontecimentos no espírito santo entre integralistas e comunistas”. Nesse mesmo mês se noticiava que na Bahia, todos os sindicatos do estado haviam protestado contra o congresso 43 Tornou-se “fato” que militares, ou melhor, traidores da pátria, vendidos ao ouro de Moscou teriam assassinado covardemente seus colegas de farda na noite em que tentaram sublevar unidades militares na capital da República com o objetivo de entregar o país ao jugo estrangeiro. Ver: VIANNA, 2007; e MOTTA, 2002. 67 integralista44. mas de maneira geral, o que sobressai são matérias que reforçavam as ações do governo de reprimir exclusivamente o movimento aliancista, acusado de planejar subverter a ordem: ALIANCISMO E INTEGRALISMO Rio, 24 – Estando os jornais aliancistas insistindo para que sejam fechadas as sedes integralistas, ouvimos no Ministério da Justiça que o governo não pode cogitar do fechamento dessas sedes por serem muito diferentes as situações legais da Ação Integralista Brasileira e da Aliança Nacional Libertadora, e porque o movimento integralista não tem caráter subversivo. Noticiam que elementos terroristas encobertos [sic], propalam que estão prestes a estourar greves gerais em Porto Alegre, Paraná, São Paulo, Minas, Bahia e Pernambuco. Acrescentam as notícias que, os governos da União e dos Estados estão tomando providências para garantir a ordem, cercando por força armada os bancos e as repartições de serviço público. (PACOTILHA, 26 de julho de 1935, p.2) Com a mobilização de uma parte da imprensa pedindo o fechamento da Ação Integralista Brasileira (AIB), outros veículos, como Pacotilha, se apressaram logo em dizer que, segundo o próprio governo, o movimento integralista não teria o “caráter subversivo”, e, diferentemente, da ANL não representaria um perigo para a segurança do país. Proliferavam também notícias de greves gerais organizadas por “elementos terroristas” que teriam fim único de desestabilizar o regime, criando desordem social. Foi nesse clima que se intensificou também o processo de constituição de um consenso em torno da idéia de que o comunismo era o principal inimigo da Pátria. Ele passou a ser cada vez mais entendido como sinônimo de “terrorismo”, “subversão da ordem” e, principalmente, de “extremismo”. É interessante porque nesse momento e para grande parte da imprensa de São Luis, que refletia de certa forma o quadro jornalístico brasileiro, somente o comunismo era uma ameaça à ordem e às instituições nacionais. Nesse caso, o qualificativo “extremista” era usado para se referir apenas aos comunistas. Sem dúvida isso estava ligado ao fato do próprio governo Vargas ter preferido não incluir a AIB no rol das organizações subversivas, considerando que a mesma não constituía perigo à ordem do país. Mas acreditamos que, para além disso, existiam posicionamentos que expressavam a própria visão de mundo do veículo. Em relação ao integralismo, por exemplo, existia um espaço maior para notícias e em sua páginas não se encontram tantas críticas a esse movimento como em Tribuna e O Combate. O jornal publicava matérias informando acerca dos fatos importantes ligados à campanha dos integralistas no país inteiro. 44 Protestaram contra o congresso integralista da Bahia. In: Pacotilha, 14/11/1935, p.5. 68 Encontravam-se assim entrevistas ou reportagens sobre eventos integralistas. Abaixo trechos de uma entrevista de Plínio Salgado que teria sido publicada por um jornal alemão: UMA ENTREVISTA DO SR. PLÍNIO SALGADO Berlim, 18 – O “Deutsche allgermeine Zeitung” publica uma entrevista do seu correspondente no Rio de Janeiro com o sr. Plinio Salgado, chefe do movimento integralista no Brasil. Nessa entrevista o sr. Plinio Salgado declara que, no momento oportuno, os integralistas salvarão o Brasil. Perguntado sobre se o programa integralista comportava o combate aos semitas o chefe integralista respondeu que o problema a resolver no Brasil era moral e não étnico. Os integralistas eram partidários do equilíbrios orçamentário pelo monopólio financeiro do Estado […]. Eram contrários às ligas secretas internacionais, aos trustes e aos partidos internacionais exploradores. O chefe integralista terminou fazendo o elogio do nacional-socialismo alemão. (PACOTILHA, 19 de setembro de 1935, p.1) Antes dos levantes de novembro ele já noticiava acerca do “perigo comunista” que rondava o país: “Luiz Carlos prestes estará no Rio?”, caso isso fosse verdade tal fato poderia constituir uma ameaça à ordem estabelecida (PACOTILHA, 7/11/35, p.2). Depois que estouraram os levantes comunistas em novembro de 1935, as coisas teriam mudado no Maranhão. O que antes não passava de notas esparsas informando sobre eventos políticos que terminavam em desordens ou em conflito entre extremados (e minguados), fanáticos de credos políticos assumem ares mais realistas e concretos para a população do Estado. Os comunistas estariam agindo sem que as pessoas se dessem conta do perigo que representavam. Os seus planos, os quais já estariam sendo postos em prática, seguiam as orientações de Moscou, segundo afirmava o jornal: A QUADRILHA ERA COMUNISTA. DESCOBERTO “COMPLOT” PARA O ASSALTO DO TREM PAGADOR – O PONTO DE REUNIÃO ERA O CAMPO DE OURIQUE – UMA CÉLULA MOSCOVITA NO JOÃO PAULO - A DIVISÃO DO DINHEIRO – MOCAMBO, 248 – O “IDEALISMO” COMUNISTA – REPORTAGENS. Conforme notícia [que] ontem inserimos, a Polícia descobriu nessa capital, uma quadrilha que se preparava para assaltar o trem “pagador”. De inicio, recaíram suspeitas sobre certos elementos, declaradamente comunistas. Essas suspeitas foram cabalmente confirmadas pela prisão dos elementos componentes da trama sinistra que são quase todos fichados na Polícia como partidários do credo comunista. O LOCAL DO ASSALTO Os membros do complô descoberto, designaram como local para o assalto ao trem “pagador”, o kilômetro 14, Baixa do Sacavém, onde espreitariam a passagem do comboio. Entretanto, para a realização dessa empresa, se fazia necessária a posse de armas, o que seria arranjado com o ataque a guardas-civis no último dia do carnaval. Esse plano de adquirir armas fracassou, porque um dos “chefes” foi preso no dia 69 anterior à sua realização. A EMPREITADA SINISTRA Sabedores do dia e hora em que partia o trem, os comunistas se deslocariam para o kilometro 14, onde seria, como já dissemos armada a emboscada. Com a alavanca, a chave inglesa e o pé de cabra os trilhos seriam deslocados e o trem precipitar-se-ia no fatal abismo. Enquanto isso, com um alicate seriam cortados os fios telegráficos, evitando desse modo, qualquer comunicação com uma estação próxima. Feito o saque, os comunistas dariam inicio à partilha do dinheiro, estando como “tesoureiro” o indivíduo Lauro Sampaio, talvez, o mais “capaz” entre todos os “capazes”. Agora, o que é revoltante, é a finalidade destinada à vultosa quantia se bem roubada, que seria dividida em três partes distribuídas equitativamente da seguinte maneira: uma parcela para o Partido Comunista; outra, para o Congresso da Juventude Estudantil e Proletária do Brasil e a última para os empreendedores do assalto. ONDE FOI ARQUITETADA A TRAMA A polícia conseguiu apurar que esses genuinamente “extremistas” se reuniam no campo do Ourique, na Pedra da Memória. A célula comunista freqüentada pelos assaltantes era localizada no “João Paulo”. Em busca dada à casa número 248, da rua do Mocambo, residência de José Soares, a Polícia apreendeu uma alavanca e uma chave inglesa com que seriam arrebentados os parafusos e tala de ligação dos trilhos. Estão presos os seguintes implicados no miserável complô, sendo em sua quase totalidade, conhecidos da Polícia como “extremistas”: Lauro Sampaio (o “tesoureiro”); José Soares, que guardava as ferramentas, José de Ribamar Soares, que prestou importante depoimento, narrando o caso em todos os seus pormenores; Aluysio Serra, que será ouvido ainda hoje. BELO “IDEALISMO!” Dessa maneira, os agentes de Moscou, supõem conquistar a consciência nacional! O arrombamento dos bancos de Natal bem demonstram ao Brasil que tanto repudia o comunismo, seu elevado “idealismo” e desejo de “salvar” a nossa Pátria. Agora esse processo posto em prática no Maranhão, o qual é apenas o cumprimento fiel do programa traçado por Moscou, é uma prova de que os Soviets são partidários desses atos de roubos, arrombamentos e assaltos. ÚLTIMA HORA Já [antes de] encerrarmos a presente edição, fomos informados de que a Polícia tinha prendido mais um implicado no complô. Imediatamente procuramos o Sr. Primeiro Delegado que nos confirmou o “consta” que nos havia dado[,] informando que o preso é operário da Estrada de Ferro São Luís-Teresina. Segundo nos informaram, essa prisão abrirá caminho para novas investigações. (PACOTILHA, sábado, 29 de fevereiro de 1936, p.2) O que seria “revoltante”, segundo o jornalista responsável pela “reportagem”, não era propriamente o roubo em si, mas o destino que seria dado ao dinheiro: uma das três parcelas em que seria dividido o butim deveria ir para o Partido Comunista, outra para ajudar a financiar um “Congresso da Juventude Estudantil e Proletária” e a última seria repartida entre os comunistas que organizavam o assalto. Mesmo não tecendo mais comentários ao fim que teria o dinheiro, depreende-se que ao informar que o mesmo serviria para financiar as atividades políticas dos comunistas no país, como um congresso da juventude estudantil ficava implícito que se tratava de um mau uso, porque patrocinaria 70 “complôs” sinistros como esse que aconteceria na capital maranhense, não fosse a ação da policia que conseguiu frustrar esse “miserável complô” comunista. O fato servia de alerta para a sociedade ludovicense porque o perigo estava bem perto, existindo “células comunistas” em bairros da capital, a exemplo da que funcionava no João Paulo, onde a polícia teria encontrado a prova do crime: uma alavanca e uma chave inglesa. A prova do crime mesmo encontrava-se no fato de se tratar, no caso dos indivíduos presos, de pessoas declaradamente comunistas e que possuíam, por isso, ficha na polícia confirmando que eram “adeptos do credo comunista”, conforme acentuava o jornal. No mesmo período saiu notícia informando da presença de comunistas no vizinho estado do Piauí, que teriam envolvimento com a “mazorca comunista” ocorrida, cuja “trama se estendia a quase todos os estados”: OS COMUNISTAS DO PIAUÍ Rio, 21 – O “Diário de Notícias” comentando a denúncia do procurador da República contra 43 comunistas, no Piauí, publica o seguinte suelto (sic): “Enviam de Teresina um telegrama capaz de causar pasmo a muita gente: o procurador da República apresentou denúncia contra 43 pessoas inculpadas de participantes, na mazorca comunista, cuja trama se estendia a quase todos os Estados. Mas o curioso é que nenhum dos chamados pequenos estados, salvo o Rio Grande do Norte, apresenta um número tão elevado de comunistas às voltas com a Justiça. Se excluirmos o Distrito Federal, São Paulo, Rio Grande do Norte e Pernambuco, nenhuma outra região do país prestou mais volumosa contribuição ao movimento soviético ao qual devemos as delícias do estado de sítio. Só o Piauí! Quem diria que por lá se ‘alinhasse’ tantos comunistas? E ocorre notar que o maior número não é da capital; a denúncia do procurador da República atinge trinta indivíduos só da pequena cidade do Parnaíba!”. (PACOTILHA, 29 de fevereiro de 1936, sábado, p.8) O jornal só publicava aquilo que achava relevante tornar público, e essa matéria era importante porque demonstrava o quanto estaria disseminado pelo país o credo comunista. Mais do que isso fazia ver que o perigo rondava o Maranhão, já que havia tantos comunistas no estado vizinho. Se apenas na “pequena cidade de Parnaíba”, fronteira do Piauí com o Maranhão, existiam trinta comunistas atuando, quantos não haveria na capital do Maranhão, e por todo o interior do estado? FURTO DE GADO NO INTERIOR. ORDENS DO KOMINTERN. O Departamento de Segurança Pública tem recebido de diversas zonas de criação de gado, no Estado, reclamações lacinantes [sic] contra os furtos de bovinos, 71 cavalares e suínos nos Campos da Chapada, de Pinheiro e Santa Helena; em Anajatuba, Rosário e outros municípios […]. Surge, porém, no meio dessas roubalheiras, uma circunstância grave, que é a da presença de um agente comunista a insuflar e mesmo orientar esses furtos de animais. […] efetivamente, todos os sinais [quais?] indicam que um agitador comunista há dias preso pela Polícia, e que agia naquela zona, em poder do qual foi apreendida documentação vermelha, era o orientador desses atos de rapinagem, agindo naturalmente, abusando do estado de analfabetismo do nosso caboclo. Sabemos, perfeitamente, que as ordens do Komintern são nesse sentido, não só para agitar as massas, como para provocar a falta de carne nos mercados que, logicamente, vai gerar descontentamento no meio das populações. […] (PACOTILHA, 26 de fevereiro de 1937, p.8) Mais uma vez uma notícia que poderia se resumir a mais um simples caso de furto de gado em cidades do interior do estado se transformava numa “circunstancia grave”. Como no caso do assalto ao trem pagador, a história mudava de feição quando se descobria tratar-se de “agentes comunistas” que procuravam perturbar a tranqüilidade da vida nessas terras. Esses furtos de gado teriam como objetivo, segundo o jornal, causar escassez de carne para o consumo da população e, desse modo, plantar a semente do descontentamento. Tudo isso fazia parte, segundo a visão difundida pelo jornal, das orientações emanadas do komintern, cujas ordens, “sabemos perfeitamente” visavam sempre “agitar as massas”. 3.3. O Imparcial: as visões heterogêneas acerca dos “extremismos” Pacotilha não era o único jornal que pedia repressão aos “movimentos extremistas por parte do governo” que, segundo o jornal, estaria “no dever de tomar medidas severas, senão proibir as provocações extremistas quer da esquerda, quer da direita”. Estas recomendações eram dirigidas ora aos comunistas e integralistas, ora apenas aos “vermelhos”, como ocorria geralmente em O Imparcial. Esse pedido de atuação repressiva do Estado era sempre justificado por uma defesa de democracia liberal, que vigorava no país, segundo afirmavam todos os jornais estudados. Este matutino se dizia independente e, diferente de O Combate e da Pacotilha, não era oficialmente o jornal de nenhuma facção política. O jornal foi fundado em 1º de maio de1926. Tornou-se mais tarde órgão dos Diários Associados, jornal de grande circulação no estado. E é o único dentre os que consultamos que ainda existe até hoje. O Imparcial contribuiu com as atividades integralistas em São Luís, garantindo 72 um espaço considerável seja para as notícias que divulgavam as reuniões, seja veiculando textos ou matérias a pedido dos chamados camisas verdes45 maranhenses. É somente neste matutino que encontramos, por exemplo, os anúncios dos livros integralistas que eram vendidos em São Luís (O Imparcial, 05/04/1935, p.6). Foi ele também o único que veiculou a nota da AIB maranhense que objetivava boicotar a solenidade de instalação oficial da ANL em São Luís, ocorrida em 5 de julho de 1935, no Teatro Arthur Azevedo (O Imparcial, 05/07/1935, p.7). E como conclusão da campanha anti-aliancista e depois anticomunista desse jornal citamos a série de matérias transcritas a pedido da seção da AIB no Maranhão durante os dias 10 e 13 de julho, justamente visando “coincidir com a presença da Caravana aliancista em São Luís” (CALDEIRA, 1990, p.66). Nessa ocasião, o jornal publicou uma série de artigos combatendo a atuação do PCB, acusado de se disfarçar sob a bandeira da ANL. As matérias começaram a aparecer no dia 10 de julho de 1935 e prosseguiram nos três dias seguintes, sempre apresentando “provas cabais” da ação “insidiosa e maquiavélica do comunismo” no Brasil. Escolhemos um trecho de uma dessas “reportagens”, como as chama o próprio matutino, para dar uma idéia do seu conteúdo: A ANL É UM DISFARCE GROSSEIRO DO PARTIDO COMUNISTA BRASILEIRO. Contra a cavilação das frases ordenadas no sentido do despistamento, a eloqüência dos fatos e a lógica das provas. Procurando mistificar a opinião publica, o diretório da A.N.L em Pernambuco esquece a confissão do próprio chefe, quando diz, em mensagem aos seus correligionários, que é comunista atribuindo os aplausos que recebe à doutrina de que é adepto. […]. (O IMPARCIAL, 10/07/1935, p. 2) Uma maneira de dar veracidade às matérias é enfatizar a questão das provas. Estas teriam sido oriundas de uma investigação minuciosa empreendida pela polícia de Pernambuco, que havia encontrado uma grande diversidade de documentos (cartas, planos de ação, panfletos etc) em poder de comunistas, inclusive russos e poloneses, presos na cidade do Recife. E se não fosse suficiente ”a eloqüência dos fatos e a lógica das provas” para demonstrar o caráter bolchevista da ANL, visando aqui implantar o comunismo, bastaria observar 45 Como ficaram conhecidos em todo o país os integrantes do movimento integralista. O que se deveu ao fato de usarem uniformes de cor verde oliva. TRINDADE, 1979; CALDEIRA, 1999. 73 [n]a própria exposição de motivos e fins da ANL a prova incontestável de que o movimento que ela dinamiza tem fins nitidamente marxistas. Está no seu manifesto: ‘trabalhadores manuais e intelectuais, proletários e semi-proletários das cidades e do campo, comerciantes garroteados pelo Fisco, [...] jovens e mulheres oprimidas, o povo pobre em geral – marchamos todos em fileiras cerradas e compactas sob a bandeira da ANL, para a defesa e realização das suas oportunas quão justas reivindicações: suspensão das dívidas externas; nacionalização das empresas e bancos imperialistas; moratória para os pequenos industriais, comerciantes e agricultores e anulação de todas as dívidas dos trabalhadores do campo para com os grandes senhores territoriais’. Que significa toda essa pregação, todo esse programa se não a simples e pura técnica comunista universalmente preconizada pelos seus agentes como remédio para os males econômico-sociais de todas as pátrias? […] Os partidários da importação da planta exótica de Moscou […] precisam se aperceber de que o povo já atingiu a sua maior idade, já sabe discernir, não sendo mais possível a ilusão da sua boa-fé […]. A embromação não surtirá efeito. Pelo contrário: irritará as massas sofredoras mais de perto visadas pelo embuste. […]. (O IMPARCIAL, 13/07/1935, p.2). Em julho de 1935 temos outro fato que demonstra o posicionamento do jornal em relação à presença de movimentos comunistas no Brasil. O Imparcial faz uma transcrição, solicitada pela AIB- secção do Maranhão, de uma matéria publicada pelo Diário da Manhã, jornal da cidade de Recife46, que tratava de um livro “rigorosamente imparcial” sobre a Rússia dos sovietes. Segundo o resenhista, existia um debate que colocava em lados opostos dois grupos: para um “aquilo é o céu”, para o outro, tratava-se do “inferno”. O autor do livro, um jornalista brasileiro, viajara àquele país com o objetivo de “tirar a limpo” esta controvérsia. Algumas características devem ser destacadas nessa matéria, elas constituem também aspectos recorrentes das construções discursivas e imagéticas sobre o comunismo, o que estamos chamando de formação discursiva. Produziram imagens como esta: O BOLCHEVISMO NA RÚSSIA O Regime do comunismo, através de uma crítica do jornalista Plínio Barreto, redator-chefe do “Estado de S. Paulo”, ao livro de Gondin da Fonseca47. 46 De fato uma parte considerável das matérias e notícias veiculadas pela imprensa ludovicense não são produzidas localmente, mas retiradas de outros órgãos, nacionais ou internacionais. Todavia, importa destacar que elas são publicadas porque atendem a interesses e necessidades locais, caso contrário não seriam veiculadas. 47 O jornalista Gondin da Fonseca esteve em Moscou como enviado do jornal Correio da Manhã, do Rio de Janeiro. Tornou-se conhecido por suas reportagens sobre a “realidade da Russia soviética”, seus relatos eram considerados “valiosos e insuspeitos”, segundo muitos outros jornalistas e autores de textos sobre o comunismo tanto na imprensa quanto sob a forma de livros. Analisando um folheto apócrifo publicado nos anos 1930 e intitulado Onda vermelha: bolchevismo e comunismo (regime de sangue... de fome... de escravidão...) a historiadora Carla Silva constatou que Gondin da Fonseca é citado como um jornalista insuspeito, pois seria simpático ao marxismo, antes de viajar até à Rússia. Ver Silva. s/d, p.160-162. Depois dessa visita à Russia Gondin da Fonseca escreveu um livro sobre o que teria testemunhado in loco. 74 (Transcrição do “Diário da Manhã” de Recife solicitada pela AIB, no Maranhão). […] Em toda a Rússia, ninguém possui gatos nem cachorros. Foram devorados todos os cães e todos os gatos. Como poderia o povo suatentá-los se as rações que não chegam a sua própria alimentação! [...] Em algumas aldeias do interior, a aparição de ratos é considerada uma benção providencial, - disputam-se como petiscos ratos! [...] Houve tempo, nas vesperas da N.E.P., em que se chegou, no interior da Rússia, a comer gente. “Ainda hoje”, afirma o Sr. Gondin da Fonseca [autor do livro], durante invernos rigorosos há, por vezes, nos sovietes, casos de anthropophagia. “Nenhum comunista honesto que haja percorrido e estudado a URSS poderá negar esta minha afirmativa. [...] De noite, nas aldeias, o cidadão não sahia da porta da rua para fora com medo de ser devorado pelo faminto semelhante. Um pavor!” […] (O IMPARCIAL, 05/07/1935, pp.2 e 4) Em todos esses casos de relatos ou reportagens de “observadores” que teriam estado na Rússia os jornais procuravam afirmar que constituíam “estudos sinceros”, análises “imparciais” de um determinado fato, sempre ligado à “realidade” da Rússia soviética. Recuperando as construções discursivas e imagéticas presentes na matéria jornalística que transcrevemos d’ O Imparcial, devemos destacar os elementos que consideramos enquanto aspectos recorrentes da formação discursiva comunismo/comunista. Consideremos o seguinte enunciado: “Em toda a Rússia, ninguém possui gatos nem cachorros. Foram devorados todos [...]. Como poderia o povo sustentá-los se as rações não chegam a sua própria alimentação!”. Os três períodos que o compõem são relativamente curtos, o que demonstra o cuidado em transmitir de maneira objetiva e clara a informação. Ao mesmo tempo, as orações são encadeadas de modo que a ordem de aparição de cada uma delas explica de imediato a antecedente. O resultado é um quadro panorâmico bastante expressivo do que seria a situação vivida naquele país, que serve como introdução para se compreender as situações seguintes a que teria sido submetido o “povo” da Rússia, conforme apresentado pelo discurso jornalístico presente na matéria que estamos analisando. O período subseqüente ([...] Em algumas aldeias do interior, a aparição de ratos é considerada uma benção providencial, - disputam-se como petiscos ratos!) funciona como uma espécie de transição entre as imagens aterradoras que o texto compõe. As orações deste período possuem a mesma estrutura do anterior, são curtas e estão interligadas, e assim como no primeiro caso, termina com uma oração exclamativa, 75 demonstrando surpresa, mas, principalmente, repulsa diante de tão humilhante situação por que passaram e ainda estariam passando os habitantes de “algumas aldeias do interior” daquele país. Todo esse quadro de miséria e degradação humana delineado em pinceladas rápidas pelo articulista, torna-se ainda mais vivo e ao mesmo tempo apavorante, com a descrição dos casos “em que se chegou [...] a comer gente”. O que teria ocorrido na década de 1920, época dos planos econômicos conhecidos como NEP, sigla para Nova Política Econômica48. Ficava assim constatado que o regime político em vigor na Rússia era um fracasso, além de totalmente nocivo ao ser humano, infringindo-lhe calamidades terríveis como a fome, que de tão desesperadora só deixou como última saída ao russo faminto devorar o seu semelhante. “Ainda hoje [...] durante invernos rigorosos há [...] nos sovietes, casos de antropofagia”, segundo o autor do livro em que se baseia a matéria jornalística, Gondin da Fonseca, “nenhum comunista honesto que haja percorrido e estudado a URSS poderá negar esta minha afirmativa”. Devido ao fato de se tratar de um jornalista conhecido em todo país e que havia viajado à Rússia a serviço de um grande jornal da capital da República com o objetivo de fazer a cobertura “imparcial” dos fatos, suas palavras compartilhavam da autoridade institucional da imprensa, ele era o seu porta-voz autorizado49 (BOURDIEU, 1996, p.87 e 89). Gondin da Fonseca afirmava que a fome, o desespero e o medo seriam as únicas coisas que estavam bem distribuídas entre a população. A intranqüilidade era maior à noite, quando o “cidadão” nem sequer saia de casa, devido o “medo de ser devorado pelo faminto semelhante. Um pavor!”. O objetivo de matérias como essa era transmitir um sentimento de medo em relação a uma possível “comunização” do Brasil. Estes enunciados penetrariam fundo no imaginário social, compondo um sólido arquivo de textos e imagens, tendo fornecido as referências simbólicas para o discurso sobre o comunismo\comunista não só dos anos 1930, mas também foi sendo reativado e ressignificado por outros sujeitos em diferentes conjunturas políticas. Importante observar que a matéria de O Imparcial foi publicada no dia 5 de 48 Após a guerra civil pela conservação do regime instaurado em 1917, e devido ainda ao forte bloqueio econômico das nações capitalistas, a Rússia estava com sua economia seriamente abalada. A NEP foi a política econômica implantada por Lênin para reverter esse quadro, utilizando instrumentos da economia de mercado coordenados pelo Estado (HOBSBAWM, 1995, p.369). 49 “O porta-voz autorizado consegue agir com palavras em relação a outros agentes e, por meio de seu trabalho, agir sobre as próprias coisas, na medida em que sua fala concentra o capital simbólico acumulado pelo grupo que lhe conferiu o mandato e do qual ele é, por assim dizer, o procurador” (BOURDIEU, 1996, p.89). 76 julho, justamente uma data que o movimento aliancista buscava construir como símbolo das lutas pela libertação do país e que marcava o lançamento oficial do Diretório Estadual do movimento aliancista no Maranhão, em solenidade no teatro Arthur Azevedo, em uma data que buscava simbolizar as lutas revolucionárias de 1922 e 1924, empreendidas pelos tenentes. Com efeito, isso fazia parte, por um lado, de uma estratégia dos aliancistas (e comunistas), que visava instituir datas nacionais como marcos simbólicos de uma luta política que tem significado efetivo somente para um grupo específico, mas à qual se procura impor uma percepção de grande data nacional. O Directorio Estadual da Aliança Nacional Libertadora convida a família maranhense, funccionarios publicos, federaes, estaduaes e municipaes, commerciantes, militares, auxiliares do commercio, estudantes, as classes liberaes, operarios, a imprensa, o povo em geral, para assistirem à sessão que realizará no Theatro “Arthur Azevedo”, às 20 horas do dia 5 de julho, na qual, homenageando a grande data nacional, será officialmente installado o mesmo Directorio e empossado o Directorio Municipal de São Luís, recem-eleito. São Luís, 3 de julho de 1935 O DIRECTORIO ESTADUAL: Evandro Cunha – Presidente Pedro Bona – Secretario Geral Raimundo N. Gonçalves – Thesoureiro Francisco Figueiredo – Secretario de Organização Joaquim Rêgo – Chefe de publicidade. (TRIBUNA, 04/07/1935, p.6) Por outro lado, os adversários, como os integralistas e liberais conservadores, tentavam justamente marcar as mesmas datas com uma intensa campanha de “esclarecimento” sobre as desordens e violências que acompanhavam movimentos pretensamente revolucionários e que diziam lutar pela libertação do povo. Como o sentido do discurso é dado a partir de um sistema de relações que são tanto lingüísticas como extralingüísticas, ele pode ser constituído, ou segundo Joanildo Burity “hegemonizado” de diferentes maneiras, servindo dessa forma, como lugar de atuação de diversos processos de significação. (BURITY, 2001). Em relação ao apelo que a nota fazia para que “a família maranhense” comparecesse à solenidade, importa destacar que essa questão tinha uma importância para os movimentos políticos da época, devido ao peso decisivo dessa instituição naquele momento histórico, especialmente porque seria ela uma das instituições que o comunismo visaria destruir, segundo afirmavam os anticomunistas. Por isso não apenas os integralistas vão procurar mobilizar essa idéia de “família”. Por outro lado, a família era “convidada” a participar da Aliança Nacional Libertadora numa demonstração de que os aliancistas não 77 seriam contrários a ela, considerando-a como uma instituição importante para alcançar seus objetivos político-sociais de transformar o país. Analisando a conjuntura pós-novembro de 35, verificamos que a postura de O Imparcial é no sentido de se posicionar enquanto guardião do que ele chama as “instituiçoes democráticas” do país, que estariam ameaçadas nesse “grave momento” da nossa história. É assim que atua divulgando e estimulando a criação de organizações político-sindicais, como foi o caso do Comitê de Propaganda e Organização Syndical e de Combate ao Extremismo: Reuniram-se nesta capital, nos últimos dias de setembro findo, 14 syndicatos representando mais de 5.000 trabalhadores e sob a presidência do dr. Paulo de Oliveira deliberaram fundar um Comitê de Propaganda de organização syndical e de combate ao extremismo, visando assim não só organizar as classes proletárias, fortalecendo os respectivos syndicatos, como colaborar com o Governo na solução dos problemas que dizem respeito ao mesmo proletariado, formando uma Frente Única de Combate ás idéias extremistas, deletérias e dissolventes que ameaçam, neste momento, o mundo. Foram acclamados patronos desse comitê, os drs. Getúlio Vargas, presidente da República, Agamenon Magalhães, Ministro do trabalho, e Paulo Ramos, governador do Estado. A comissão organizadora [...] [deu] conhecimento do ocorrido ao chefe do executivo e pediram a s.exc. que transmitisse o acontecimento ao dr.Agripino Nazareth, procurador geral do Ministério do Trabalho, solicitação que foi atendida. Em resposta, o sr. dr. Governador acaba de receber o telegramma que abaixo reproduzimos: ¨Agradeço a v. excia. a communicação de haver installado, nesta capital, o Comitê Proletario de Propaganda Syndical e Combate ao Extremismo. A iniciativa de trabalhadores maranhenses, orientados pelo dr. Paulo de Oliveira e prestigiados por v.excia. merece aplausos de todos os bons brasileiros, nesta hora em que os extremistas da esquerda e da direita combatem a social democracia, regimen adoptado pela Constituição de Julho. Attenciosas saudações. – Agripino Nazareth. Procurador Geral Interino.¨ Estão, pois de parabéns, as classes syndicalisadas, pelo apoio que lhes deu o illustre governador e a magnífica repercussão que sua iniciativa teve nos altos cúpulos do Ministério do Trabalho. (O IMPARCIAL, 02/10/1936, p.1) O objetivo desse comitê era auxiliar as “classes proletárias” a encontrarem solução para os problemas que enfrentavam, dentre os quais o “combate ao extremismo” e suas “ideias deleterias e dissolventes” devia ser tratado como uma de suas prioridades, devido à grave ameaça que representava para a unidade da Pátria brasileira. Fundado em setembro de 1936 reunia, segundo noticiava O Imparcial, mais de 5.000 trabalhadores de 14 sindicatos só da capital maranhense! Interessante como o jornal buscava dessa maneira mostrar-se, principalmente para as autoridades federais, combativo aos males que segundo ele próprio ameaçavam o país. É através do apoio e mesmo criação de organizações desse tipo que a imprensa 78 procurava ligar-se ao Governo Federal, contribuindo com as políticas trabalhistas que naquele momento já estavam ganhando espaço dentro do cenário de disputa com as diversas correntes sindicais em atuação no movimento sindical brasileiro (GOMES, 2008). Desde março de 1931 que vigorava no país uma nova lei de sindicalização, que visava transformar os sindicatos em órgãos consultivos e colaboradores do Estado. Segundo Ângela de Castro Gomes, a lei de sindicalização tinha como objetivo o “combate a toda organização que permanecesse independente, bem como a todas as lideranças – socialistas, comunistas, anarquistas etc. definidas como capazes de articular movimentos de protesto contra a nova ordem institucional” (GOMES, 2008, p.163). Cabe destacar o modo ou a estratégia de inserir a problemática no cenário da tensão ou crise vivida pelo país. E ela estaria na ordem do dia não apenas aqui no Brasil, sendo tão grave que ameaçava destruir o mundo. Uma forma de valorizar a si próprio enquanto promotor de possíveis soluções para um problema dessas proporções. A participação desse órgão de imprensa na organização dos trabalhadores torna-se mais compreensível quando sabemos que o advogado que “orienta” esse comitê é também o redator-chefe de O Imparcial, Paulo de Oliveira. Vemos, assim, o quanto estão atrelados imprensa e política, no cenário de indistinção, onde os jornais procuram atuar como intermediadores entre as “classes syndicalisadas” e o governo, prefigurando o modo de organização que será implantado no Estado Novo. Mas nesse período, anterior ao golpe de 1937, já se reforçam alguns princípios que depois serão institucionalizados pela legislação trabalhista de Vargas, como o paternalismo e a orientação governamental dos sindicatos de trabalhadores (idem, p.165). Em um trecho da matéria se afirma que a iniciativa de criação do comitê mereceria o aplauso dos “bons brasileiros”, porque num momento em que os “extremistas da esquerda e da direita” combatiam a “social democracia” era louvável uma iniciativa como aquela levada a cabo pelo “dr. Paulo de Oliveira”. Ao indicar que existiam brasileiros que eram “bons” deixava-se implícito que outros brasileiros eram “maus”, os quais só podiam estar associados “às idéias extremistas, deletérias e dissolventes” que ameaçam a suposta democracia brasileira. A Frente Única de Combate que se planejava criar deveria justamente combater esses maus brasileiros, rotineiramente associados aos “extremistas”, que às vezes incluíam “os da direita”, mas sempre “os da esquerda”. Em outro artigo, sempre publicado com destaque na primeira página, Paulo de Oliveira reforça a sua posição e também a do jornal, visto que ele é o redator-chefe de O 79 Imparcial, no sentido de conferir legitimidade às posturas das autoridades que defendem a necessidade de estar alerta para combater os “traidores do regime”. DE PÉ – PELO BRASIL (Ao presado e respeitável amigo Sr. Dr. Paulo Ramos. Energia moça, ao serviço da Patria.) A nota que o ministro da guerra enviou à imprensa carioca e foi transmittida, pelo alto commando de nosso glorioso Exército, a todas as Regiões Militares, para effeito de publicidade não é só um documento de tranquillização à nacionalidade, porque ella consagra, também, na concisão indemolível de seus termos, nesta hora de graves solicitações para a Patria, o principio da autoridade, que resulta firme e decisivo, alertado em todos os sentidos para rechassar os trahidores do regimen, onde quer que elles apareçam. [...] (O IMPARCIAL, 03/10/36, p.01) A posição de apoio incondicional se estende para o chefe do poder estadual, junto ao qual demonstra ter uma certa relação de proximidade, dedicando-lhe o artigo: “ao presado e respeitável amigo Sr. Dr. Paulo Ramos...”. O que demonstra claramente a posição política do jornal O Imparcial. Estava posicionado do lado governista, o que não era fato raro na configuração política dos anos 1930. Com efeito, a indicação do funcionário público federal Paulo Ramos para a interventoria do Estado foi uma medida de conciliação encontrada por Vargas para encerrar, por um momento, a renhida disputa entre as facções políticas locais pelo poder estadual. Por um lado, o nome de Paulo Ramos não foi questionado, já que não estava ligado a nenhuma das facções políticas, e, por outro, sua chegada colocou todos na condição de possíveis aliados, o que fez com que tentassem uma aproximação. Assim os jornais de cada uma das facções procuravam ganhar as graças do “Sr. Dr. Governador”. Outra entidade fundada e dirigida por um articulista de O Imparcial foi oportunamente nomeada de O.R.D.E.M, Organização de Resistência Democrática ao Extremismo no Maranhão. Ela é criada em julho de 1937 pelo padre Astolfo Serra. Desde o final de 1936, ele possui uma coluna, chamada Placard, em O Imparcial, na qual comenta acontecimentos cotidianos da vida política e literária do estado, além de fazer também orientações religiosas e morais. Antes disso, fundou e dirigiu, em 1932, o jornal Notícias, que tinha como redator-chefe Nascimento Moraes, jornalista que possuía um certo reconhecimento no espaço da imprensa da capital maranhense. A atuação do Pe. Astolfo Serra na imprensa de São Luís tornou-se mais freqüente depois da sua rápida administração à frente da interventoria estadual. Ele foi um dos muitos interventores que se revezaram no poder do estado logo depois da Revolução de 1930. Não ficou mais de 80 alguns meses, tendo sido na época contestado pelas principais facções, então afastadas do poder, mas que possuíam muita capacidade de pressão, exercida principalmente através dos jornais que controlavam. A pressão dos chamados “decaídos” juntamente com a perda do apoio de Reis Perdigão, minaram suas chances de permanecer à frente da interventoria. Tentou se eleger deputado para a assembléia estadual nas eleições de 1934, mas não obteve sucesso. Os objetivos da ORDEM parecem seguir a mesma linha do Comitê Proletário dirigido por Paulo de Oliveira, com a diferença de buscar congregar todos os grupos sociais e profissionais, além da ênfase moral e religiosa devida ao seu idealizador. Segundo consta de matéria publicada em O Imparcial, o programa da entidade é “simples”: I- DEFENDER o nosso regime, a Democracia, as Instituições pátrias contra o COMUNISMO e contra o INTEGRALISMO. II- NENHUMA interferência em assumptos privativos dos partidos locaes, porque no combate ao EXTREMISMO todos os partidos podem e devem se aliar á ORGANIZAÇÃO DE RESISTENCIA DEMOCRATICA AO EXTREMISMO NO MARANHÃO, embora possam divergir no tocante á atittude assumida na campanha presidencial. III – Orgão de acção essencialmente política, a ORDEM sufragará nas eleições de janeiro o nome do eminente brasileiro DR. JOSÉ AMÉRICO DE ALMEIDA. MARANHENSES! Unamo-nos na defeza do Brasil, contra o COMMUNISMO e contra e o INTEGRALISMO! Tudo pelo Brasil e pela Democracia! Viva o Brasil sem dictador proletário ou totalitário. (O IMPARCIAL, 31/07/37, p.03) Ao mesmo tempo em que combate os extremismos, a ORDEM pretende se tornar uma força suprapartidária, com a intenção clara de influir na disputa presidencial e, caso fosse bem sucedida na sua escolha, receber depois o apoio do governo central em sua pretensões na política local. Vê-se o quanto o “combate aos extremismos” podia funcionar como investimento para o acúmulo de notoriedade e honorabilidade social que poderiam depois ser mobilizadas na disputa política local. O Pe. Astolfo Serra, assim como o advogado e jornalista Paulo de Oliveira, estão acumulando trunfos políticos e sociais em sua campanha que visa afastar as ameaças ao “regime democrático” e às “instituições pátrias”. Isto fica patente ainda no interesse que têm em divulgar as respostas das altas personalidades e autoridades da política nacional com as quais tentavam se articular: O.R.D.E.M. O nosso confrade Astolpho Serra, que orienta com um grupo de amigos a novel 81 organização democrática denominada ORDEM recebeu, ontem, do ministro José Americo de Almeida, candidato á Presidencia da Republica o seguinte telegrama: RIO, 9. Padre Astolpho Serra S.Luiz. Com os meus calorosos applausos ao vosso movimento democratico agradeço desvanecido o apoio da ORDEM a minha candidatura, pedindo estender esse agradecimento demais amigos. JOSÉ AMERICO (O IMPARCIAL, 10/08/1937, p.2) Importante também era demonstrar que se estabeleciam relações dentro do Maranhão, que confirmavam a aceitação e o crescimento da ORDEM, essa “organização que”, segundo afirmavam contraditoriamente, não teria “caracter de partido politico”: O.R.D.E.M. A Organização de Resistência Democrática ao Extremismo no Maranhão, criada e orientada pelo nosso confrade Astolpho Serra, com um grupo de amigos, organização que não tem caracter de partido politico, ha recebido, em nosso meio, valiosas adhesões de elementos de todas as correntes partidarias e de valiosos elementos independentes. A ORDEM acaba de fazer uma frente unica de combate aos extremismos com 25 syndicatos proletarios filiados ao “Comité de Propaganda e Organização Syndical”. Essa frente unica vem constituir, em nossa terra, uma formidavel resistencia democratica na defesa sadia das instituições patrias. A proposito desse movimento democratico o Padre Astolpho Serra vem de receber da longinqua cidade de Carolina o seguinte telegramma: Padre Astopho Serra. S.Luiz. Com a devida venia transcrevi no periodico local “A Tarde” vosso placard de 20 de julho. Aproveito oportunidade dar-vos inteira solidariedade. (O IMPARCIAL, 13/08/1937, p.6) O reconhecimento de sua importância em “nosso meio”, quer dizer, no próprio estado do Maranhão, era dado pelas adesões de “valiosos elementos”, sejam os “independentes”, significando dizer que não estavam ligados às principais facções políticas, sejam os que pertenciam a alguma dessas “correntes partidárias”. Mas também corroborava o crescimento da organização o fato do telegrama vir de Carolina, “longinqua cidade” maranhense, demonstrando, mais uma vez, o quanto estava difundida a ORDEM de Astolfo Serra. Cabe destacar que a sua pregação tinha como objetivo declarado combater os extremismos, incluindo além do comunismo, então atuando na clandestinidade, o movimento integralista que contava, nesse momento (agosto de 1937), com a condescendência do Governo Vargas, interessado que estava em utilizá-lo na sua 82 orquestração para deflagrar mais um golpe de estado. A posição da ORDEM, e consequentemente de seu mentor, se expressa em tomadas de posição como esta: PLACARD Não me surprehendeu a carta que o dr. Achilles Lisbôa fez publicar em Acção de ontem. Aquilo tudo é um desabafo; força é confessar. Quem sahiu do governo nas circumstancias em que sahiu o illustre leprologo, após os movimentados episodios de sua administração, ha-de forçosamente trazer a alma cheia de travores, e a boca amarga de maldições aos homens e ao mundo. A carta do brilhante intelectual cathecumeno do integralismo é um impressionante SCHEMA de seu estado psychologico, que, depois do silencio de um anno , aproveita a primeira oportunidade para deflagrar numa descarga. O que me causou especie, no caso em apreço, foi a ingenuidade do consagrado scientista, em quem a sinceridade e admiração dos homens justos, reconhecerá um espirito esclarecido e douto; ingenuidade dolorosa, por certo, que vae ao cumulo de suspirar pela vinda de um regime, como é o integralismo, que jamais lhe daria essa liberdade de acção para insultar, pela ACÇÃO os altos poderes da Republica e até áquelles seus mais dedicados amigos, que o elevaram ao poder e o cercaram decididamente! Respeito os motivos de fôro intimo, que exacerbam o dr. Achilles, bem como a suggestiva influencia de ordem sentimental, nascida da sua amizade ao venerando dr.Belizario Penna, que o polariza agora para o Sigma. Mas, não se illuda o illustre jornalista. Nesta Democracia, apesar dos pezares, ha mais sinceridade, mais lealdade, mais justiça que no Integralismo, cujo regime é de despersonalização do individuo, e um dos mais arrojados systemas de sociolatria. A prova é muito simples. E eu vou recolhel-a na propria ACÇÃO e na OFFENSIVA. Pela carta do dr. Achilles verifica-se o abysmo, que se cavou entre elle e o grande presidente Getulio Vargas e os amigos e admiradores do Presidente. Ahi está um ponto capital... Pois bem, essa mesma ACÇÃO deverá causar ao dr. Achilles aborrecimentos tremendos, se o respeitavel medico folhear a collecção de maio e junho ultimo. O Dr. Getulio é para os integralistas maior que Plinio Salgado, mau grado agora acceitem esses violentos ataques do dr. Achilles ao Chefe da Nação! Vou demonstrar: -Leia-se a seguinte manchete de ACÇÃO de 7 de maio, nº 57: “Quando o historiador do futuro fizer o cadastro dos patriotas, que actualmente se oppõem ao triumpho dos inimigos da Patria, inscreverá entre os mais decididos e destemerosos o nome do presidente Getulio Vargas”. -Outra manchette de ACÇÃO de 12 de maio, nº61: “A attitude energica e prompta do Presidente Vargas repelindo os impetos criminosos de certos satrapas de provincia, a serviço do Anti-Brasil, traz á Nação Brasileira a certeza de que a Patria não sucumbirá aos golpes traiçoeiros de seus covardes inimigos.” -Mais esta de ACÇÃO de 12 de junho […] -Para terminar: Leia o dr.achilles esta legenda de ACÇÃO de 16 de junho, nº 92, ao cliché do dr. Getulio: “Presidente Vargas, unica espereança de liberdade e justiça”. […] Isto posto, que pensará o Sr. Achilles desses homens que se propõem a salvar o Brasil? Qual, senhores, regime bom é o nosso e … viva o Dr. Getulio Vargas! (O IMPARCIAL, 12/08/1937, p.5) 83 Em todo perpassado por um domínio das regras do jogo e demonstrando uma certa noção das coisas que estavam em disputa no jogo, este texto de Astolfo Serra é uma tentativa de demonstrar o quanto valia a pena jogar este jogo político. Sua intenção era alertar o “ingênuo” Aquiles Lisboa, rifado da posição de destaque que ocupou em virtude de uma determinada configuração do equilíbrio de poder entre as principais facções, para o fato de que é somente dentro deste “regime”, ou através deste jogo de tipo oligárquico (ELIAS, 1999, p.93), por Astolfo Serra denominado de “Democracia”, que existe a possibilidade de reivindicar as coisas, principalmente os benefícios, que o jogo oferece e que tendem a mobilizar os agentes em disputa pelas melhores posições. Aquiles Lisboa havia esposado, em nota pública saída no jornal ACÇÃO, as idéias de Plínio Salgado e, dessa forma, estava buscando se reposicionar no concorrido espaço político maranhense. A fala do líder da ORDEM soa como um conselho em que se diz que é melhor continuar a jogar este jogo, visto que mesmo estando deslocado ou fora das principais posições de poder, existe sempre a possibilidade de alcançá-las novamente, fora dele esta possibilidade não existe, este seria o caso sob o integralismo, onde, segundo Astolfo Serra, a liberdade de atuar, discordar ou reivindicar o poder, não existe. Existe uma certa heterogeneidade de vozes que se pronunciam acerca do integralismo n'O Imparcial. Ainda em 1934, encontram-se matérias elogiosas desse movimento, como uma que destaca a presença na capital maranhense do “illustre escriptor” Gustavo Barroso que iria ministrar, na qualidade de “doutrinador integralista”, uma série de conferências no Teatro Arthur Azevedo. Como veremos, a nota expressa o ponto de vista oficial do jornal em relação ao movimento integralista e, por isso, a transcrevemos integralmente: GUSTAVO BARROSO E A CARAVANA INTEGRALISTA Espera-se, hoje, em S.Luis, a Caravana Integralista, dirigida por Gustavo Barroso. Os embaixadores do Integralismo aportarão a esta capital no “Itahité” e serão recepcionados condignamente, quer pelos integralistas sanluisenses, quer pela intellectualidade e o povo do Maranhão. A figura de Gustavo Barroso, o illustre escriptor [ilegível] a caravana e actua neste momento infatigavel e ardentemente, na propaganda que vem operando no paiz o Integralismo, é bastante estimada em nosso meio não só pela sua projecção na vida literária do Brasil actual como pelo facto de ter deixado, na terra maranhense, amizades formadas durante uma temporada que passou nesta cidade, ha alguns annos. 84 Recebe, pois, o Maranhão, calorosamente a Gustavo Barroso e seus companheiros de propaganda. Irá ouvir sua palavra culta em varias conferencias. Traduzindo, no desataviado desta notícia, os sentimentos do Maranhão para com Gustavo Barroso, o “Imparcial” apresenta boas-vindas ao illustre escriptor e seus dignos companheiros. Das 19 as 20.30 horas, terá logar, no Theatro Arthur Azevedo, a recepção solene feita pelos integralistas locaes a Gustavo Barroso, que doutrinará sobre o integralismo. (O IMPARCIAL, 02/01/1934, p.1) O veículo se coloca enquanto porta-voz da “intellectualidade” e do “povo” do Maranhão, dando boas-vindas à Caravana Integralista e ao seu Chefe de Doutrina, garantindo que seriam “condignamente recepcionados” na terra maranhense. Mas, ao contrário da intenção demonstrada pelo jornal, as posições em relação ao integralismo estavam longe de ser homogêneas. Assim, é no próprio O Imparcial que vai ser publicada um artigo que desmonta qualquer pretensão de um consenso acerca do integralismo. O título desse artigo, “Doutrina ou 'gaffe'!”, já assinala a direção das críticas endereçadas àquele que, uma semana atrás, era tido como uma figura de projeção na vida literária do país. O artigo é assinado por Amorim Parga e constitui-se numa espécie de cobertura da passagem por São Luís da Caravana Integralista, destacando as conferências ocorridas no principal teatro da cidade. As críticas revelam, por um lado, certo nacionalismo e, por outro, paradoxalmente, um aferrado bairrismo, cioso das suas próprias “tradições literárias” que não se poderia sequer comparar com o “embusteiro” Gustavo Barroso. As razões dessas críticas nos ficam claras quando sabemos que Amorim Parga, que assina essa matéria em O Imparcial, é um militante político de esquerda que ajudou a fundar, ao lado de conhecidos comunistas ludovicenses como Pedro Bona e Abdelgard Brasil Corrêa, a Liga Anti-fascista, conforme nota publicada no mesmo O Imparcial: LIGA ANTI-FACISTA Em reunião realizada ante-ontem na qual estavam representadas todas as classes sociaes, fundou-se, nesta capital, a Liga Anti-Facista, que, como seu nome indica, tem como objectivo unico combater a doutrina política facista[sic]. Para confecção do programma de acção dessa agremiação, foi escolhida uma commissão entre os seus fundadores, composta de nove membros. Dentro de poucos dias reunir-se-á novamente a Liga Anti-Facista, para tomar conhecimento do trabalho da commissão referida. Está assim constituido o Comité de Organização da Liga Anti-Facista: Pedro Bona, Amorim Parga, Fabio Castro, Abdegard Brasil Corrêa, Callisto de Moraes Accaccio, Benedito Costa, Herculano Pastor de Almeida, Amâncio Pires e Raymundo Octavio de Jesus. (O IMPARCIAL, 14/01/1934, p.6) 85 Dentre os fundadores da Liga Antifascista, os mais conhecidos integrantes do que podemos chamar de movimento esquerdista de tendência comunista no Maranhão, são Pedro Bona e Abdelgard Brasil Corrêa, que atuaram decisivamente na organização da ANL, ocupando postos de liderança. Em correspondência localizada nos arquivos do Poder Judiciário do Estado do Maranhão encontramos alguns ofícios em que o Executor do Estado de Guerra no Estado, o Coronel Otto Feio da Silveira, informava ao Juiz Federal acerca da prisão de alguns indivíduos suspeitos de tomarem parte no “movimento subversivo de que ia ser teatro o Maranhão” em novembro de 1935. Ministério da Guerra S.Luiz, Em 7/5/36 Nº 47 Do coronel Executor do Estado de Guerra. Ao Exmo. Sr. Dr. Juiz Federal neste Estado. ASSUMPTO: (comunicação) faz uma I – Comunico a V. Excia. que mandei recolher presos ao Quartel do 24º B.C., em compartimento especialmente para esse fim preparado, os extremistas, JAYME GUTMAN, JOSÉ LEAL GONÇALVES, ABDEGARD BRASIL CORRÊA, JOAQUIM MORAES REGO, JESUS NORBERTO GOMES, RAYMUNDO CLARINDO SANTIAGO E IGNACIO DE AMORIM PARGAS, em consequencia do relatorio constante dos autos do inquerito policial mandado instaurar pelo Dr. Chefe de Policia sobre os factos de origem communista occorridos nesta Capital em Novembro do anno findo. II – Nesse relatorio, apresentado pelo 1º delegado Dr. Ignacio Pinheiro, consta […] que esses individuos “tinham cooparticipação no movimento subversivo de que ia ser theatro o Maranhão”. […] Otto Feio da Silveira Cel. Executor do Est. de Guerra. Os acontecimentos ocorridos em novembro de 1935 referem-se às possíveis tentativas de levante comunista na capital do Estado. Todavia, em toda a imprensa, não se noticiou qualquer mobilização de caráter subversivo ou comunista da qual se pudesse dizer que objetivava tomar o poder político durante o período em que insurreições desse tipo ocorriam em Natal, Recife e Rio de Janeiro. Mas acerca das prisões efetuadas não resta dúvida que foram motivadas por serem aqueles indivíduos presos os mais destacados e conhecidos integrantes ou simpatizantes do movimento aliancista em São Luís. Consideramos que a compreensão mais adequada do surgimento e atuação no cenário 86 maranhense de um grupo de militantes de orientação comunista, que acreditamos teve sua gênese no início da década de 1930, demandaria uma outra pesquisa. Todavia, identificamos alguns fragmentos dessa história que, para os objetivos de nosso trabalho, nos permitem visualizar essas movimentações comunistas na capital maranhense. A partir do recorte cronológico estabelecido, 1935-1937, consultamos também algumas edições de jornais dos anos de 1934 e 1938, apenas para efeito comparativo, visto que partimos do pressuposto de que a incidência de matérias sobre o comunismo tornou-se maior com o surgimento da ANL e principalmente após os levantes de novembro de 1935. Assim, em 2 maio de 1934 encontramos a seguinte notícia: O 1º DE MAIO Ao amanhecer de ontem, a policia prendeu alguns auxiliares do commercio, estudantes e funcionários públicos quando pregavam boletins de propaganda communista na via publica. (O IMPARCIAL, 02/05/1934, p.1) Interessante observarmos que estas prisões ocorrem no mês de maio, dando a entender que esses militantes estavam atuando no sentido de difundir seu movimento político, tendo como um foco privilegiado os trabalhadores urbanos. A nota é quase um telegrama na maneira direta como informa sobre o fato ocorrido. No entanto, não oferece maiores detalhes acerca do mesmo, limitando-se a dizer da profissão dos propagandistas do comunismo na ilha de São Luís. Não sabemos, por exemplo, onde essas prisões ocorreram, se no centro da cidade ou em bairros mais afastados, a partir dessa informação poderíamos inferir qual era o público visado pelos militantes comunistas. Através dessa nota curta de O Imparcial não somos informados acerca de quantos foram presos, ou se esses que o foram eram efetivamente todos os que estavam pregando boletins comunistas, não tendo tempo de escapar absolutamente nenhum desses indivíduos. Encontramos respostas para algumas dessas questões em duas matérias saídas em outro jornal da cidade, o vespertino Notícias. Vejamos a primeira delas: A PRISÃO DE COMMUNISTAS A ATTITUDE ENERGICA DA POLICIA A policia tomou, hontem, providencias no sentido de evitar que elementos extremistas fizessem propaganda do credo de Moscou, atacando as autoridades constituidas. O policiamento foi reforçado e dirigido pessoalmente pelo Capitão Alberto Zamith. Foram efetuadas diversas prisões de elementos communistas encontrados fazendo distribuição de manifestos ao mesmo tempo que, alguns jovens, escreviam nas fachadas dos predios, com carvão e piche, palavras 87 incendiarias. O policiamento prolongou-se até pela manhã de hoje, quando as autoridades dirigiram-se a Central de Policia, afim [sic] de ouvir os prisioneiros, que são em numero de oito, todos eles rapazes muito jovens. A policia encontrou em poder dos communistas grande quantidade de boletins pregando abertamente o credo marxista. (NOTÍCIAS, 01/05/1934, p.5) Através dessa matéria, publicada no dia 1º de maio, ficamos sabendo que se tratou de um plano de repressão organizado e levado a cabo pelo próprio chefe do policiamento da capital, Capitão Alberto Zamith, cujo objetivo era exatamente coibir a manifestação dos chamados extremistas nessa data em que se comemorava o dia do trabalhador, obviamente um momento propício à divulgação dos movimentos que buscavam alcançar o apoio dos trabalhadores urbanos para suas respectivas causas. Tanto integralistas como comunistas procuravam recrutar os chamados operários para suas organizações políticas, daí a preocupação por parte do governo de Getúlio Vargas em combater os movimentos extremistas, com uma ênfase especialmente sobre os propagadores do “credo marxista”. A matéria do jornal é bastante elogiosa em relação à “atitude energica” da polícia; que teria tomado, com antecedência, as devidas “providencias” para evitar que os “elementos extremistas” realizassem qualquer propaganda do “credo de Moscou” na capital maranhense. Para tanto, o policiamento foi reforçado, contando com a presença do próprio Chefe de Polícia e tendo se prolongado até a manhã do dia 1º de maio, quando foram presos 8 “elementos communistas”, os quais foram levados à Central da Polícia para serem interrogados. Importante destacar ainda que a matéria frisa o fato de que os comunistas presos eram todos “rapazes muito jovens”, mas nada diz sobre a provável profissão deles, muito menos cita nomes. Dois dias depois, o mesmo jornal publicava mais uma matéria sobre “o caso dos communistas” presos pela polícia: O CASO DOS COMMUNISTAS. FORAM SOLTOS HONTEM PELA MANHà Hontem pela manhã, o capitão Alberto Zamith mandou libertar os rapazes que foram encontrados nos suburbios da cidade distribuindo boletins communistas e escrevendo com giz e piche nas fachadas dos predios. Conforme podemos apurar foram presos na madrugada de ante-hontem, 11 rapazes, a maioria estudantes e tres operarios que foram recolhidos, como medida preventiva à Penitenciaria do Estado. Hontem, porem, o Cap. Chefe de Policia mandou soltal-os depois de convenientemente aconselhados. 88 (NOTÍCIAS, 03/05/1934, p.5) Dessa vez somos informados de que as prisões ocorreram nos subúrbios da cidade de São Luís. Informa-se, ainda, que foram onze os comunistas presos nas manifestações do 1º de maio, número diferente da matéria publicada dois dias antes, quando se falava em oito presos. Nessa segunda matéria sobre “o caso” afirma-se que os propagandistas do comunismo eram em sua maioria estudantes, mas que contavam também com a participação de três “operários”. Por que foram soltos tão rapidamente? Quem eram os estudantes, quem tinha acesso à educação formal? Seriam filhos de pessoas influentes, que estavam querendo demonstrar um pouco de rebeldia juvenil? Dá a impressão de que, para a Polícia, esses “jovens rapazes” não representavam efetivamente um perigo à ordem social e política, limitando-se a “aconselhá-los” sobre seu comportamento. Como os nomes não foram divulgados, não foi possível localizar informações sobre quem são esses militantes presos e logo em seguida soltos pela Polícia. Seria importante saber, por exemplo, se tinham origens sociais que lhes pudessem pesar a seu favor para que fossem logo postos em liberdade, em defesa dos quais se poderia argumentar, ainda, o fato de que eram apenas “jovens estudantes”, sendo compreensível seu idealismo. Tratar-se-ia de um grupo de pessoas que estavam concretamente empenhadas em torno de certas idéias políticas de esquerda? O foco principal, pelo que se depreende, seria organizar um movimento capaz de mobilizar os grupos letrados das camadas médias urbanas, em especial estudantes, empregados do comércio, funcionários públicos, além, é claro, dos operários fabris que moravam nos chamados subúrbios da cidade, a exemplo dos conhecidos distritos do João Paulo e do Anil. Somos informados pela segunda matéria que as prisões aconteceram “no subúrbio da cidade”, o que nos leva a acreditar que muito provavelmente ocorreram em um desses lugares, pois se tratava do dia 1º de Maio e nada mais coerente do que, no dia do trabalhador, divulgar as idéias comunistas nos bairros onde estes residiam, objetivando assim ganhar seu apoio para essa causa. Numa outra perspectiva, O Imparcial é o único jornal que faz uma espécie de cobertura policial sobre os comunistas que estariam ainda atuando em São Luís nos anos de 1936 e 1937, período de caça às bruxas. Assim ele noticia uma prisão efetuada pelo Polícia no bairro do João Paulo: A POLICIA PRENDEU O COMMUNISTA F.FIGUEIREDO. ESSE PERIGOSO ELEMENTO PRESTARÁ DECLARAÇÕES HOJE A NOITE. 89 Há quase um anno que a policia andava no encalço do communista Francisco Marques Figueiredo, ex-escriturário da Directoria de Fazenda. Varias diligencias foram organizadas, todas sem resultado. Seguramente informada de que Figueiredo estava em sua residencia, no João Paulo, a policia deu uma ¨batida¨ ali, ás primeiras horas de hontem, conseguindo prendê-lo. A diligencia foi chefiada pelo sr. Francisco Galdino Saraiva, inspector da Guarda Civil. Figueiredo foi encontrado dentro de um buraco, especialmente feito em um fugão [sic], junto a uma parede. Sempre que a policia fazia algumas diligencias na casa do referido communista, ele se recolhia ao esconderijo. [...] O ex-funccionario do Estado, acusado como um dos principais elementos dessa cidade está bastante enfraquecido e muito barbado, tendo declarado que sofreu recentemente um ataque de congestão. [...] Figueiredo foi recolhido á peninteciaria devendo prestar declaração hoje á noite. (O IMPARCIAL, 19/10/1936, p.3.) A manchete destaca que se trataria de uma prisão importante por tirar de circulação alguém que é considerado um “perigoso elemento”, que, dessa forma, não mais poderia ameaçar a tranqüilidade da capital. Percebe-se que a atribuição de que Francisco Figueiredo representa um perigo à paz social, vem logo em seguida à sua identificação como comunista. A manchete diz primeiro: “a policia prendeu o communista F.Figueiredo”, depois complementa, “esse perigoso elemento prestará depoimentos...”. Esta matéria é importante ainda porque permite percebermos que de fato existiam, ou existiram em algum momento, determinados movimentos de caráter comunista atuando na capital do estado. Francisco Figueiredo era funcionário público, trabalhava como escriturário da Fazenda estadual e, segundo se depreende da matéria, havia sido exonerado desse posto, devido sua atividade como comunista. Como era procurado “há quase um ano” pela policia, depreende-se também que sua prisão foi decretada após os eventos de novembro de 35. Francisco Figueiredo esteve presente de maneira destacada em pelo menos duas organizações apontadas como tendo caráter comunista. Primeiro, a Vanguarda anti- fascista (VAF), que existiu durante alguns meses do ano de 1934 em São Luís e que tentava combater o crescimento do movimento integralista; logo em seguida, ele participou também, nos primeiros meses de 1935, da fundação da Aliança Nacional Libertadora (ANL), tendo sido um dos seus principais dirigentes no Maranhão. No final do ano de 1935, logo após as tentativas de levante nos quartéis do exército em novembro, ganhou força na imprensa brasileira uma campanha contra a chamada “onda vermelha” que ameaçava destruir a unidade nacional. Nesse período o combate ao comunismo se tornou um dos temas principais, senão o principal, da imprensa 90 de todo o país. Apresentada como uma questão que exigia medidas urgentes e firmes por parte, não só do governo, mas de toda a sociedade brasileira, sob pena de colocar em risco as nossas mais sólidas tradições. É nesse contexto que devemos entender alguns editoriais d’O Imparcial naquele mês de dezembro de 1935. Chamamos atenção especialmente para dois deles, um do dia 6, o segundo do dia 11. O primeiro fala da campanha de mobilização contra o comunismo que existe em todo o país, a qual não seria fruto da imprensa nem da burguesia, mas refletiria uma repulsa unânime da própria “família brasileira, indignada diante da intentona que ameaçou o destino do Brasil”. Seguindo o estilo peculiar das referências eruditas dos jornalistas maranhenses de então, o editorial recupera o episódio da guerra entre Roma e Cartago para ilustrar as medidas que se deviam tomar em relação ao inimigo ameaçador da unidade do país: Catão, reconhecendo o perigo que aguardava Roma, terminava os seus discursos com a frase terrível: Delenda Cartago! E a sociedade brasileira, ameaçada de dissociação pela onda vermelha, sente necessidade de se livrar do comunismo, que vem cavando um abismo para o Brasil. E a frase do romano vem a propósito: É preciso combater o comunismo! (O IMPARCIAL, 06/12/1935, p.1) Procurando meios concretos que realmente levassem à eliminação do suposto perigo ameaçador, foi que surgiu, no bojo da discussão sobre as medidas necessárias ao combate do comunismo, a idéia de regulamentar a pena de morte a todos os indivíduos responsáveis por movimentos que pretendessem, daí em diante, subverter a ordem vigente. Argumentava-se que a medida não seria retroativa, ou seja, não se aplicaria aos envolvidos nos levantes de novembro de 1935. A proposta foi levada à Câmara Federal sob a forma de emenda ao texto constitucional de 1934. Os jornais do país começaram a debater a questão, alguns argumentando a favor, outros condenando a medida. O segundo editorial que destacamos é exatamente uma tomada de posição em relação a essa questão do matutino que se considerava nessa época o jornal de maior circulação do Estado do Maranhão, O Imparcial. Eis as partes principais do editorial: PENA DE MORTE Cogita-se […] de emendar o artigo 161 da Constituição Republicana a fim de que seja aplicada a pena de morte aos responsáveis por movimentos subversivos. O momento inspirou essa medida para os crimes de natureza política ou 91 sediciosa. […] O assunto […] tem vindo até agora, através dos anos, […] alegando-se que a sociedade moderna vive ainda infiltrada dos mais perigosos vícios. […] Os poetas, e mesmo alguns criminalistas, só encaram o assunto pelo coração, evocando um sentimentalismo que fecha os olhos à defesa social e atende apenas o lado comovedor das almas generosas. […] Lombroso não se arreceia de atribuir a superioridade dos corações em nosso século, relativamente ao passado, à seleção da raça pela pena de morte. […] para o professor J.A. Roux, da Universidade de Strasburgo, […] o critério dominante, na apreciação da velha contenda, deve ser o da “necessidade da pena de morte”, subordinando-se essa “necessidade” às condições do “meio e do momento”. Pois bem, a emenda que ora se pretende fazer no Brasil é subordinada às condições do momento e à natureza política e sediciosa dos fatos. É uma medida excepcional, sem efeito retroativo, aplicável aos militares e civis, de acordo com as normas do Código Militar Brasileiro. (O IMPARCIAL, 11/12/1935, p.01) O jornal deixa claro que não se trata de uma simples opinião, mas de uma medida que se impunha como necessária, segundo era demonstrada pelo próprio pensamento científico. Para fundamentar e comprovar a necessidade de adoção dessa medida extrema, o jornal recorria às ponderações de uma autoridade internacional, o professor J. A. Roux, da Universidade de Strasburgo. Segundo esse cientista, afirmava o jornal, deve-se considerar uma “necessidade” quando as condições do meio e o momento assim o demonstrem. “Pois bem, a emenda que ora se pretende fazer no Brasil é subordinada às condições do momento e à natureza política e sediciosa dos fatos”. O que devia ser suficiente para demonstrar que sua adoção se pautava no mais absoluto rigor cientifico, ficando provada a necessidade dessa medida para solucionar o grave problema das tentativas de subversão política. 3.4. Tribuna: aliancistas e comunistas na imprensa ludovicense Tribuna pode ser identificado como um jornal que era controlado por Magalhães de Almeida, líder político regional que praticamente monopolizou o poder político no Maranhão durante a década de 1920, e que era governador do Estado quando ocorreu a Revolução de 1930. Aspecto interessante desse jornal, orientado pela facção magalhãesista, é o fato de nele encontrarmos os maiores espaços para as matérias, notas e mesmo comunicados oficiais da ANL. Quando em outros veículos, desde o primeiro momento, essa organização foi vista como fachada do comunismo. Isso poderia ser explicada justamente, pelo fato de 92 se tratar de um jornal da facção oposicionista. Vejamos alguns exemplos da cobertura da ANL que demonstram certa simpatia ou aprovação desse movimento. O jornal Tribuna publica uma matéria sobre as movimentações daquela organização no Estado: ALLIANÇA NACIONAL LIBERTADORA Prosseguem, activamente, os trabalhos do Directorio Estadual. Como está acontecendo em todos os Estados, esse sympathico movimento popular vem empolgando todo o Maranhão. A reunião de hontem foi mais uma prova da confiança que o povo deposita no programma e na orientação deste movimento libertador. Usaram da palavra os srs. Antonio Napoleão, Fernando Perdigão, e o acadêmico Mourão Rangel e Pedro Bona que dissertaram sobre a Acçao imperialista no Brasil, finalidade última da Alliança Nacional Libertadora e latifúndio antigo e moderno no Brasil. Fica também assentado que todas as sextas-feiras haverá reunião pública da Alliança Nacional Libertadora, à rua Oswaldo Cruz n°558, sua séde provisória. (TRIBUNA,14/05/1935, p.2.) O título da matéria é o próprio nome da organização política, o que, aliás, se tornou comum na cobertura da imprensa ludovicense daquela época. Todavia, é importante ressaltar alguns aspectos. Primeiramente, percebemos se tratar de uma nota do jornal e não da ANL, que solicitaria a publicação da mesma, como era de praxe nesses casos. Portanto, o texto é produzido pelo próprio jornal, que expressa sua opinião acerca do movimento aliancista, considerando-o um movimento “simpático e popular”, explicando-se assim porque ele “vem empolgando todo o Maranhão”. Um segundo aspecto particular desta matéria é que ela, praticamente, não se diferenciava de uma nota da ANL, com todos os interesses de difusão e propaganda que tem uma nota produzida pela própria organização política, que objetiva sempre expandir- se; à matéria de Tribuna não escapa um único detalhe: fala dos objetivos do movimento (combater a “ação imperialista e o latifúndio”), informa da decisão acerca das reuniões semanais e ratifica a localização da sede provisória: “rua Oswaldo Cruz n° 558”. E, por último, busca colocá-la em sintonia com os interesses populares afirmando que o “povo” apóia e confia no programa da Aliança como teria demonstrado a reunião do dia anterior, “mais uma prova da confiança que o povo deposita no programa e na orientação deste movimento libertador”. Como já falamos, o jornal Tribuna tinha entre seus redatores o 93 advogado/jornalista Byron de Freitas, um dos principais líderes aliancistas. A presença de aliancistas entre os jornalistas desse periódico poderia explicar sua cobertura atípica da ANL no que se refere aos demais veículos da imprensa de São Luís. Mas como se explicaria essa presença de aliancistas, ou mesmo de comunistas, como seria o caso do advogado/jornalista Byron de Freitas? Os jornais costumavam sempre identificar a origem das notas ou convites em que as organizações políticas solicitavam sua publicação. Além do mais, estas notas de propaganda, oficiais, vinham sempre com os nomes dos signatários, como neste caso: O Directorio Estadual da Aliança Nacional Libertadora convida a família maranhense, funccionarios publicos, federaes, estaduaes e municipaes, commerciantes, militares, auxiliares do commercio, estudantes, as classes liberaes, operarios, a imprensa, o povo em geral, para assistirem à sessão que realizará no Theatro “Arthur Azevedo”, às 20 horas do dia 5 de julho, na qual, homenageando a grande data nacional, será officialmente installado o mesmo Directorio e empossado o Directorio Municipal de São Luís, recem-eleito. São Luís, 3 de julho de 1935 O DIRECTORIO ESTADUAL: Evandro Cunha – Presidente Pedro Bona – Secretario Geral Raimundo N. Gonçalves – Thesoureiro Francisco Figueiredo – Secretario de Organização Joaquim Rêgo – Chefe de publicidade. (TRIBUNA, 04/07/1935, p.6) Algumas dessas produções internas eram publicadas sem os nomes dos membros da organização, todavia, a forma como são escritas e posteriormente veiculadas, nos permite identificá-las. Nesta outra, a tentativa de conquistar novos adeptos é mais explícita: O Directorio Estadual Provisorio da Alliança Nacional Libertadora pede-nos a publicação da seguinte nota: - a Directoria Estadual da ANL leva ao conhecimento dos maranhenses que, ao contrario do se tem propalado nesta 50 Capital , a sua organização foi procedida mediante delegação do Directorio Nacional Provisório, com o qual mantem o mais estreito contacto e trabalha para a victoria, bem próxima, desse grande movimento popular nacional. (TRIBUNA, 14/ 06/ 1935, p. 2) Percebe-se que a nota foi redigida pela ANL que solicita à Tribuna sua publicação (“pede-nos a publicação”). Quanto ao seu conteúdo importa dizer que a nota tem o objetivo de defender a legitimidade do núcleo aliancista que se formava no Maranhão; segundo se depreende da leitura, aquela legitimidade vinha sendo contestada. 50 Os grifos são meus. 94 Contribuindo para percebermos como a cobertura da ANL por parte de Tribuna era realmente diferente dos demais jornais, apresentamos a seguir mais alguns exemplos. A divulgação do programa aliancista ocorre de modo particular nesse matutino. Não é apenas um ponto ou outro do programa que se divulga, a exemplo do que se fazia em outros veículos, e quando estes publicavam alguma coisa sobre a ANL. A Tribuna traz, nessa matéria, o que poderíamos chamar a essência do programa aliancista, numa apresentação sintética e objetiva dos seus aspectos mais relevantes, dando-nos a impressão de que assim o foram escolhidos porque seu objetivo era divulgar o movimento: O PROGRAMMA DA ALLIANÇA NACIONAL LIBERTADORA Rio,8 – A Alliança Nacional Libertadora publicou o seu programma basico, consubstanciado em cinco itens : 1º) Supressão do pagamento das dívidas imperialistas; 2º) Nacionalização das empresas imperialistas; 3º) Protecção aos pequenos e médios proprietário; 4º) Protecção aos camponezes e trabalhadores estrangeiros; 5º) Constituição de um governo popular. A Alliança declarou textualmente absterse, por completo, de questões e credos religiosos. (TRIBUNA, 09/07/1935, p.1) A publicação deste programa corrobora o que afirmamos. A ANL é tratada de uma maneira particular por Tribuna. Por que os outros jornais não publicaram este programa? Com efeito, podemos colocar Tribuna em oposição a O Imparcial, pelo menos no que se refere ao primeiro momento analisado, ou seja, ao período anterior ao levante de novembro de 1935, quando a grande questão era o embate entre integralistas e aliancistas (AIB X ANL). Enquanto o jornal de Genésio Rego teve uma postura que poderíamos chamar de anti-aliancista, Tribuna concedeu, dentre os jornais pesquisados (O Combate; Pacotilha; O Imparcial e Tribuna), o maior espaço para a ANL, publicando inclusive artigos favoráveis aos aliancistas. Tribuna pode ser vista ainda como contraponto a O Imparcial no que se refere à divulgação de obras literárias e científicas cuja tendência é, grosso modo, de esquerda. Da mesma forma que O Imparcial, ela também publica anúncios de livros. Mas não aqueles integralistas. Durante todo o mês de maio de 1935, por exemplo, encontramos à venda, por 8$000 (oito mil réis), exemplares do livro “Aonde vai a Alemanha?” de Leon Trotski (TRIBUNA, 10, 11, 14, 16, 17, 19 de maio de 1935). Trotsky não era apenas um escritor, mas também um símbolo da Revolução Russa. Em razão das suas divergências políticas com o caminho trilhado pela Rússia, vivia, já desde alguns anos, as perseguições 95 do stalinismo51, peregrinando por alguns países, como a própria Tribuna noticiou em junho: TROTSKY NO SEU NOVO EXÍLIO Oslo, 24 – o famoso líder comunista russo sr. Leon Trotski e esposa, chegaram aqui. Obtiveram permissão do governo para ficar seis mezes na Noruega, sob a condição de se abster de qualquer actividade política. Diz-se que o sr. Leon Trotsky está soffrendo de tuberculose pulmonar em grau avançado. (TRIBUNA, 25/ 06/1935, p.5) Somente em Tribuna encontramos anúncios dos livros de Trotski. É possível delinear um pouco mais claramente essa tendência que estamos apontando em Tribuna através de outro anúncio, onde encontramos títulos mais conhecidos da literatura marxista. Nesse caso os livros são acompanhados de uma pequena mensagem que tenta convencer o leitor a adquirir os títulos anunciados: Enriqueça a sua estante com estes livros. Uma biblioteca não é um luxo, é uma necessidade. Socialismo: Manifesto Communista, Princípios do Communismo, Socialismo Utópico e socialismo scientifico, ABC do communismo. Filosofia: O Marxismo Economia: O Capital, O plano qüinqüenal. Politica: A Revolução Espanhola, Tempestade sobre a Asia, Revolução e contra- revolução na Allemanha. (TRIBUNA, 23 de fevereiro de 1934, p.1) Trata-se, mais uma vez, de um anúncio do próprio jornal. Com efeito era comum naquela época os jornais venderem livros em sua própria sede, quando chegavam novos títulos, eles eram logo anunciados pelo jornal. Algumas vezes traziam os autores, mas no caso em questão os títulos não são acompanhados pelos nomes dos seus autores, no entanto é possível identificar que compõem certa tendência ideológica comum. São, em sua maioria, livros de divulgação das idéias comunistas. Manifesto comunista, Socialismo utópico e Socialismo científico, O Capital são obras muito conhecidas e é surpreendente que estivessem em circulação mesmo antes da aprovação da chamada Lei Monstro de abril de 193552, que vai proibir a circulação de “gravuras, livros, panfletos, boletins ou quaisquer publicações, nacionais ou estrangeiras” nas quais se verificasse “a prática de ato 51 CARONE, 1978, p.366-7. 52 Como passou a ser denominada pelos sindicalistas e militantes de esquerda a Lei nº 38, de 4 de abril de 1935, que o governo chamou de Lei de “Segurança Nacional”. Ela definia o que constituía crime contra a ordem política e social, limitando direitos e garantias constitucionais. 96 definido como crime nesta lei, devendo-se apreender os exemplares” (CARONE, 1978, p.61-63). Segundo o historiador Edgar Carone ocorreu, na década de 1930, uma “espantosa multiplicação de livros marxistas e de editoras voltadas exclusivamente a esta linha de pensamento”, cujos livros seriam de venda garantida (apud SILVA, p.59). Seria preciso destacar também que os livros integralistas e anticomunistas tiveram uma difusão nesse período, como demonstra sua propaganda nos jornais. Assim como em Tribuna é possível identificar uma tendência pró-aliancista, em determinadas matérias de O Imparcial podemos ver um posicionamento bem definido em relação ao integralismo, como se vê, por exemplo, na publicação de notas que informavam antecipadamente sobre discursos do líder integralista que seriam transmitidos pelo rádio: O INTEGRALISMO Rio, 2 – o sr. Plínio Salgado, chefe nacional da Ação Integralista, falará, amanhã, às 21 ½ horas, na estação radio Mayrink Veiga, ao Brasil inteiro. (O IMPARCIAL, 02/08/1937, p.8) Mas é preciso apresentar elementos mais contundentes para sustentarmos nosso argumento em relação à simpatia que identificamos em algumas posturas de O Imparcial na cobertura do movimento integralista. Vejamos a seguinte crônica, publicada em abril de 1937, cujo título é uma indagação que vai ser respondida no fechamento da sua narrativa: Devemos ficar com os homens ou com as idéias? A ironia popular é uma cousa terrível e as mais das vezes de uma perversidade desconcertante. Somente em 1º de abril é que será resolvido o “caso” da sucessão. Foi a frase solta de um grupo apressado que passava pela porta do Abreu vindo colher de chofre a todos os que se achavam abancados proseando e tomando “o cafezinho da tarde” naquele tradicional bar de São Luiz. Um segundo, todos, instintivamente , se entreolharam cheios de malicia, para, em seguida, soltarem estridentemente, uma verdadeira gargalhada coletiva. Foi uma pandega. Comentários dos mais sutis ziguezaguearam de banca em banca, até que, chegando o cansaço de tantas pilherias, surgiram conhecidas discussões dos “parlamentares populares”, aonde se elaboram as leis-boatos, quase sempre pronunciadoras de profundas verdades e de proféticos acontecimentos... - Se eu mandasse, o pau roncava, mas o Getulio ficava! - Qual nada! Ele já teve o seu tempo! Daqui a pouco ele estará com mais de dez anos de governo e com a lei nas mãos [,] a seu favor...Não poderá mais ser desempregado...Só com a aposentadoria![...] - sabe de uma coisa? Vamos acabar com essas histórias. O homem vem de Minas, que tem um milhão de votos! O homem é o Mello Franco. Se querem a prova, leiam este jornal! “Embarcou para os Estados Unidos o sr. Mello Franco” [...] - Toda a trapalhada é porque ainda politicamente somos um povo 97 desorganizado. Somos um povo desorganizado porque não possuímos organização econômica. Não temos por estas e outras coisas, os necessários partidos políticos nacionais organizados. Os que conquistam o poder representam efemeramento [sic] e sem nenhuma expressão de soberania popular, os tais “partidos” PP, PPS, PSD, PRP, e muitos outros por aí a fora, numa ressonância enjoada de “pês”, que nem é bom falar! - O único partido nacional é o integralismo!Gritou um dos que até aquele momento mantinha-se calado e bisbilhoteiro. - Concordo. O integralismo é realmente a única organização política de aspecto nacional. Mas para ser integralista, é igualmente como se ter vocação para pregador protestante ou padre católico romano! - A mesma coisa. Sem vocação não vai! - Em todo caso merece meditação, e bem séria, as palavras do chefe Plínio Salgado, berrou o “camisa-verde”, que tirando de um dos bolsos do paletó, um folheto todo amarrotado pelo uso e sem dar tempo, foi logo lendo em altas vozes: “Não estamos com homens. Não nos interessam os homens, nem dentro de nossas fileiras, muito menos fora delas. Estamos com idéias!” Que venham, então, as tais idéias! (O IMPARCIAL, 01/04/1937, p.2) Em nossa interpretação o ponto de vista defendido aqui está, no mínimo, muito próximo da perspectiva integralista. O Imparcial se destaca dentre os outros jornais por apresentar alguns sinais que demonstram, ou pelo menos, indicam, uma relação com os integralistas. A exemplo dos anúncios de obras integralistas ou da cobertura do movimento do Sigma. OS LIVROS RECEBIDOS - Historia secreta do Brasil, 2ª parte – Gustavo Barroso. - Judaísmo, maçonaria e comunismo – Gustavo Barroso. - Brasil, colônia de banqueiros – Gustavo Barroso. Estes livros acham-se à venda na LIVRARIA UNIVERSAL De Ramos de Almeida & C.Ltda Praça João Lisboa, 114 (O IMPARCIAL, 01/08/1937, p.8) CHEGARAM OS SEGUINTES LIVROS: Judaismo, Maçonaria e Comunismo, por Gustavo Barroso. Integralismo e catolicismo, por Gustavo Barroso. Historia Secreta do Brasil, 1ª e 2ª partes, por Gustavo Barroso. […] Os Quarenta e cinco, 3 vol., por Alexandre Dumas. (O IMPARCIAL, 03/08/1937, p.4) Enquanto Tribuna divulgava apenas os títulos da literatura marxista O Imparcial faz o mesmo com as obras dos autores integralistas. Mesmo levando-se em consideração que se trata, no caso do primeiro, de um anúncio comercial pelo qual o jornal 98 devia receber, é preciso destacar que não se tratava de uma simples determinação de mercado a escolha dos referidos títulos integralistas. Acreditamos que as matérias citadas e estes anúncios apontam para um posicionamento, pelo menos de uma parcela do jornal, indicativo do apoio que davam ao movimento integralista. O que, todavia, não deixa de expressar ambigüidade, uma vez que é no mesmo O Imparcial que Astolfo Serra publica sua coluna Placard, na qual escreve contundentes críticas ao integralismo. É ainda este mesmo veículo que divulga as “ações patrióticas” da ORDEM liderada pelo próprio Astolfo Serra. A sua campanha à frente dessa organização estava orientada contra todos os extremismos, ou seja, combatia tanto o comunismo quanto o integralismo. Porém, Astolfo Serra tinha nutria uma mágoa particular pelos camisas verdes maranhenses, por conta do episódio em que fora acusado de ser comunista, tendo sido forjadas provas, pelos integralistas, que supostamente comprovariam aquela acusação. O que parece mais acertado é conceber os jornais, cada um deles, como espaços heterogêneos, marcados por disputas internas entre diferentes posicionamentos políticos, com o predomínio muitas vezes de uma determinada corrente, o que não quer dizer que não seja factível encontrar no mesmo veículo pontos de vista conflitantes. Travava-se de uma batalha contra as idéias comunistas e similares (como o aliancismo). Isso pode ser verificado em todos os jornais pesquisados, inclusive em Tribuna. Todavia, devemos ressaltar os espaços de difusão das idéias aliancistas no período em que a ANL existiu legalmente. A cassação do registro da organização representou um primeiro golpe para os jornalistas que eram aliancistas, ou mesmo comunistas, ou para aqueles que eram apenas simpatizantes e encontravam espaço nesse órgão para demonstrar suas preferências. A saída dos jornalistas que tinham proximidade com a ANL, como Byron de Freitas, além daqueles que esporadicamente escreviam em Tribuna ajuda a compreender a inflexão na linha política do jornal. Com efeito, ele se torna mais declaradamente anticomunista, os espaços que existiam antes do fechamento da ANL desaparecem de vez em conseqüência da repressão que se segue à fracassada tentativa de tomada do poder em novembro de 1935, atribuída aos comunistas e também aos aliancistas. Um caso interessante que exprime a posição particular de Tribuna em relação às “idéias de esquerda” é o do articulista José Osvaldo, que passa a assinar suas colunas nesse jornal a partir do primeiro semestre de 1935. Na sua maioria elas tratam de temas comuns àqueles da ANL, quando discutem a própria organização. Apesar das dificuldades 99 de compreensão de alguns elementos do texto, nossa leitura identifica pontos comuns com o discurso aliancista. Assim, analisemos um exemplo: REGISTRO DIÁRIO Os aliancistas teem sobejos motivos para contentamento. Pois não é que o Sr.Getulio Vargas fechou-lhe as sédes, prendeu-lhe adeptos e chefes? Quando um movimento se pronuncia com a força do aliancista é signal que tudo está muito ruim para um lado e optimamente bom para o outro. Assim essa reação significa, apenas, que a Aliança Nacional Libertadora já não é corrente frágil e sim algo de temível, de espantador, trazendo no seu bojo conquistas que são derrotas para os poderosos de hoje. A prisão de João cabanas e Caio Prado são expressões latentes de quanto são respeitados, pelas policias de Armando Salles e Felinto Muller, os proceres da aliança. Os operários se movimentam levados pela ansia de obterem um pão menos duro, de possuírem uma terra que seja sua e conquistarem, mesmo tingida de sangue, uma liberdade. Liberdade que a todos atinja e dê proteção, sob o seu manto augusto idolatrado. É a alma nacional que se movimenta. [...] É uma nacionalidade inteira que tirita pela hora sagrada das suas legitimas e verdadeiras reivindicações. O povo está cansado de lançar os seus protestos platônicos a sua benedita paciência se acha esgotada e ele, na retaguarda dos paladinos das suas aspirações, quer lutar e vencer para que, de futuro, a fama de uma raça padrão se alardeie em propaganda para efectivações de padrões de raças. E é esse o papel da massa popular. E o começo do seu desempenho deve agradar mesmo aos brasileiros que estão contra os seus irmãos. É a demonstração pratica da vitalidade da nossa gente. É a repetição dos fatos que nos deram tradições. São os espíritos de Beckman, Felipe dos Santos, Frei Caneca, Henrique Dias, Camarão, Negreiros, Tiradentes, Benjamim Constant, Patrocínio, dos 18 do forte, todos, indomitos representantes das três raças, dos três sangues puros, os quaes representam a nossa mesclada nacionalidade, que bafejam sobre a mentalidade presente exigindo acontecimentos importantes, para que a nossa época não passe em brancas nuvens, silenciosa, sem emissão de um reflexo que vai pairar no cérebro e no intimo da posteridade. Uma era sem acontecimentos é uma pagina em branco da Historia. A nossa Historia carece de fatos. E qual brasileiro que vai confiar na Historia do seu paiz, feita em paginas em branco? José Osvaldo (TRIBUNA, 26/ 07/1935, p. 5) A persistência de questões envolvendo a ANL é um primeiro aspecto. Seus artigos estão sempre fazendo menção a ela. Neste caso apontam para o seu fortalecimento, pois o fato de Getulio a ter fechado não quer dizer outra coisa senão que a ANL se expandia e conquistava mais adeptos. O objetivo de mobilizar as massas tinha sido alcançado, segundo o articulista, visto que agora demonstrava sua capacidade de luta (“demonstração pratica da vitalidade da nossa gente”). Este um segundo ponto. Outra característica comum é a crítica da concentração fundiária vivida pelo país, que 100 aprisionava o camponês, dependendo sempre do proprietário. Mas todos estavam já “cansados de lançar os seus protestos platônicos” e movimentam-se, então, para “conquistarem, mesmo tingida de sangue, uma liberdade”. O nacionalismo é mais um elemento, e também estava presente no discurso aliancista. José Oswaldo aparece como secretário de propaganda do Diretório Municipal da ANL em notícia publicada pela própria Tribuna (07/07/1935, pp. 1e 5). Nesta oportunidade seu nome vem acompanhado do sobrenome: José Oswaldo de Carvalho. Descobrimos que o articulista de Tribuna é estudante da Faculdade de Direito e sobrinho do desembargador Constancio Clóvis de Carvalho, suplente de deputado pelo PSD magalhãsista e ainda diretor do jornal Pacotilha. Seus artigos constituem uma evidência de que era, ou melhor, havia sido secretário da Aliança. No Catálogo histórico da imprensa maranhense, interessante compilação de Quincas Vilaneto, encontramos o registro de um jornal intitulado Esquerda, publicado em 1934 pela Sociedade Acadêmica Maranhense. Este jornal tem como diretor Osvaldo de Carvalho. Não sabemos, ainda, se, neste último caso, realmente se tratava da mesma pessoa, mas os indícios parecem coincidir bastante com o esboço do perfil desse jovem jornalista e estudante de direito com boas ligações na política regional. 3.5. Notas sobre o conservadorismo católico na imprensa de São Luís O Imparcial publica trechos de uma entrevista de Tristão de Athayde, na qual o “líder católico” fala sobre as relações entre o catolicismo e o integralismo, justificando a aprovação católica ao movimento integralista ao afirmar que não existia nada que o incompatibilizasse com as diretrizes da Igreja Católica, sintetizadas na “hierarquia superior dos valores espirituais sobre os sociais e os nacionais”: TRISTÃO DE ATHAYDE E O INTEGRALISMO RIO, 26 – O sr. Tristão de Athayde, “leader” católico, concedeu ao “Diário da Noite” uma entrevista sobre o Integralismo, assim terminando: “O Estado reconhece a autonomia da Igreja e a sua procedência em matéria de educação; a hierarquia superior dos valores espirituais sobre os sociais e nacionais. O ideal cristão, base da sociedade, não é o estado totalitário absoluto como muitas vezes é o estado liberal, sem falar no socialista. Enquanto, a Ação Integralista reger-se por essas diretrizes, não encontra, na minha consciência de católico, nada que se incompatibilize. Não faço política. Só a ação católica está colocada fora de toda a política, militante e partidária. A não ser que as autoridades religiosas determinem ou o Integralismo mude de orientação e 101 demonstre, na prática, que não seguirá ao que sustenta em teoria, não tenho motivos para alterar estas conclusões. A tática comunista, hoje, é aliar-se aos partidos burgueses, com a capa de defesa das liberdades democráticas na campanha antifascista a fim de melhor introduzir-se na sociedade e apoderar-se do poder. Se tal desgraça sucedesse no Brasil, poderíamos rezar a oração fúnebre. Entre nós, a atitude dos católicos, diante do integralismo, deve ser de inteira liberdade de ação.” (O IMPARCIAL, 27 /11/1935, p.4) Tristão de Athayde era o pseudônimo de Alceu Amoroso Lima, professor, crítico literário, tradutor e jornalista muito conhecido no cenário intelectual brasileiro. Formou-se em Direito no ano de 1913, mas dedicou-se à atividade de jornalista e escritor. Mesmo tendo nascido em uma família católica, afirmava não ter nenhuma crença religiosa. A partir de 1919, quando ingressou em O Jornal, do Rio de Janeiro, adotou o pseudônimo de Tristão de Athayde. Nesse mesmo ano conheceu Jackson de Figueiredo53, com o qual passou a manter uma correspondência quase diária, somente interrompida pela morte deste último em 1928. Desse período de quase dez anos de contato com o líder da intelectualidade católica no país, resultou a conversão de Alceu Amoroso Lima ao catolicismo. E não apenas isso, com a morte do seu amigo, jurou continuar sua tarefa. Com efeito, tornou-se o seu sucessor, assumiu a direção do Centro Dom Vital e também a chefia de redação da revista A Ordem. Sob a direção de Alceu Amoroso Lima foram fundados novos núcleos do centro em outros estados, alcançando o movimento leigo católico uma projeção nacional. Nesse momento o Centro Dom Vital consolidava-se como o núcleo da inteligência católica. Essa influência repercutia não apenas entre a intelectualidade católica. Em seu estudo sobre o ideário anticomunista das elites católicas presente na revista A Ordem (GROPPO, 2007, p.30), Célia Maria Groppo afirma que o Centro Dom Vital se transformou, na década de 1930, “num concorrido espaço de encontro da intelectualidade não só carioca, como brasileira”. Suas reuniões, que eram informais e atraíam poucas pessoas, foram substituídas por cursos e conferências, e reuniam “um público cada vez mais numeroso, composto por intelectuais, profissionais liberais, professores, políticos, empresários, mesmo que não formalmente ligados à instituição” (GROPPO, 2007, p.30). No Maranhão, não encontramos, considerando o período abrangido pela 53 Jornalista, fundador da revista A Ordem e do Centro Dom Vital que tinham o objetivo de reunir intelectuais católicos visando constituir um núcleo para o fortalecimento e divulgação dos ideais católicos (GROPPO, 2007, p.10). 102 nossa pesquisa (1935-1937), nenhuma informação acerca da existência de filial do Centro Dom Vital. Todavia, existiam alguns veículos impressos de orientação católica, geralmente ligados a entidades católicas leigas, como a “União de Moços Católicos”. Esses jornais eram geralmente de periodicidade semanal, a exemplo de O Correspondente, fundado em julho de 1935, e também de O Maranhão, fundado no ano seguinte pela mesma à União de Moços Católicos, ambos eram editados e publicados em São Luís54. Não temos conhecimento da existência de pesquisas que tenham abordado, especificamente, a imprensa católica ou as organizações de leigos que se colocavam sob a orientação da Igreja no estado do Maranhão desse período. Portanto, não sabemos qual a dimensão dos movimentos católicos no campo da produção dos bens culturais nesse estado. Em nosso trabalho de pesquisa foi possível identificar sinais de uma movimentação de católicos leigos na imprensa desse período. É possível afirmar que se tratavam de indivíduos que possuíam uma formação escolar, ou seja, eram pessoas letradas, e que estavam engajados na difusão dos ideais e valores da Igreja Católica. Percebe-se, ainda, que sua presença não se restringia à imprensa católica. Os sinais de que falamos podem ser vislumbrados a partir das publicações dos veículos de imprensa que foram fundados nessa época, não apenas na capital do Estado. O Legionário foi fundado em 1935 na cidade de São Bento, tinha como subtítulo “órgão do Grêmio D. Luis de Britto55 e da União de Moços Católicos” e circulava por outras cidades do Maranhão. Por outro lado, alguns jornais, mesmo não estando diretamente ligados à Igreja nem às organizações católicas de leigos, concediam espaço para a publicação de artigos assinados por clérigos ou por leigos católicos que defendiam os valores e orientações da Igreja. Existia, portanto, uma presença católica na imprensa de São Luís na década de 1930, talvez refletindo a movimentação nacional por parte da principal instituição religiosa do país. Com efeito, desde a década de 1920, a Igreja Católica vinha procurando, mais incisivamente, recuperar um papel de destaque no quadro político-social do país, propondo inclusive “leis católicas” como a que tornava obrigatório o ensino 54 O Maranhão teve uma longevidade bem maior que os outros jornais católicos citados. Em nossa pesquisa encontramos matérias desse veículo datadas de 1936 e 1937, todavia, segundo o Catálogo de Jornais Maranhenses do Acervo da Biblioteca Pública Benedito Leite (1821-2007), consta que O Maranhão, em uma primeira fase, existiu até 1941, depois voltou a ser produzido entre os anos de 1947 e 1953 e, por último, retornou em 1957, último ano que foi editado, ainda no mesmo formato semanal e seguindo uma orientação católica. 55 D. Luis da Silva Britto nasceu em São Bento e alcançou alto posto na hierarquia eclesiástica, chegando a Arcebispo de Olinda. Ele é reverenciado pelo jornal como o “mais glorioso dos sambentuenses, o grande orador sacro e preclaro Arcebispo de Olinda”. 103 religioso nas escolas públicas de todo o país56. Um exemplo que ilustra a presença, em jornal não-católico de São Luís, do que poderíamos chamar de pensamento católico, está na publicação da seguinte mensagem, em letras garrafais, na primeira página da Pacotilha: QUEREMOS UMA REFORMA SOCIAL NA BASE DA JUSTIÇA E DE UM ESPÍRITO DE “FRATERNIDADE CRISTÔ E NÃO DE INDIFERENÇA BURGUESA OU DE ÓDIO PROLETÁRIO. Tristão de Athayde (PACOTILHA, 16/07/1935, p.1) Essa nota expressava o pensamento do jornal Pacotilha em relação ao rumo político que deveria tomar o país naquele momento conturbado de sua história, onde várias eram as propostas de regime que se confrontavam tanto no plano teórico, quanto no nível dos movimentos políticos organizados, como era o caso da ANL e da AIB. A crítica do intelectual católico Tristão de Athayde, que defendia também a Ação Integralista, deixava claro que tanto o liberalismo burguês quanto o comunismo proletário não correspondiam aos requisitos cristãos de justiça e fraternidade, devendo ser descartados enquanto alternativas para a reforma social de que necessitava o país. As palavras de Tristão de Athayde tinham um peso de autoridade porque ele falava de um lugar privilegiado, alguém que representava a intelectualidade cristã, cujo ponto de vista tinha o respaldo da Igreja Católica, ainda que não fosse seu porta-voz oficial, ele era reconhecido como uma autoridade, em grande medida devido ao capital simbólico que lhe fora delegado por aquela instituição. Considerando-se a legitimidade ou o capital simbólico que possuía dentro do espaço intelectual, podemos dizer que ele emitia, nessas circunstâncias, um discurso de autoridade, ou seja, um discurso autorizado institucionalmente e enquanto tal reconhecido57. As palavras de Tristão de Athayde tendiam, portanto, a funcionar, e provavelmente funcionavam, como palavras de ordem, no sentido de que exprimiam uma adequação entre o locutor e o discurso pronunciado, ou seja, ele podia mobilizar eficazmente o capital acumulado pelo grupo a que pertencia e 56 Proposta elaborada e defendida pelo Cardeal do Rio de Janeiro, D. Sebastião Leme, que contou com o apoio dos intelectuais católicos reunidos em torno da liderança de Jackson de Figueiredo, já então atuando à frente do Centro Dom Vital e da revista A ordem (GROPPO, 2007, pp.44-45). 57 Segundo Bourdieu a compreensão adequada da eficácia dos discursos de autoridade implica entender que o seu poder não deriva da força ilucionária das palavras em si mesmas, mas das condições institucionais de sua produção e de sua recepção, onde devem ser consideradas as relações entre as propriedades do discurso, as propriedades do seu emissor e as da instituição que o autoriza a falar (BOURDIEU, 1996, p.89 e 91). 104 representava (BOURDIEU, 1996, p.89). Devido à sua notoriedade, as tomadas de posição de Tristão de Athayde eram sempre noticiadas e comentadas pelos veículos da imprensa, como no caso em que ele discordava das declarações do Arcebispo de Porto Alegre, D. João Becker, que condenavam o integralismo. Segundo “o sr. Tristão de Athayde”, dizia a matéria publicada na Pacotilha, “a doutrina integralista não contém princípios anti-cristãos podendo ser integralista elementos de todos os credos teístas” e que desse modo ele, Tristão de Athayde, só podia “ser contrário ao ponto de vista de D.Becker”58. 58 O integralismo. In: Pacotilha, 24/11/1935, p.6. 105 4. A “CIVILIZAÇÃO” AMEAÇADA PELO “PERIGO VERMELHO” Neste capítulo buscamos destacar quais são as principais temáticas discursivas em que a questão do comunismo aparece. Quais são os argumentos desenvolvidos pelo discurso jornalístico visando significar o fenômeno comunista ao tratar de temas como a educação, a religião, a família ou mesmo a Guerra Civil na Espanha. Esses e outros contextos temáticos são utilizados pelos jornais para explicar ou justificar porque o comunismo não serviria ao Brasil, devendo ser combatido. A essa espécie de missão cívica parte considerável da imprensa sanluisense se dedicou, principalmente no pós Novembro de 1935. Cada uma das temáticas encontra-se articulada a diversas outras questões. O que poderíamos chamar de questão religiosa, por exemplo, é praticamente inseparável de temáticas como a família, o casamento, a mulher e também a própria questão da educação. Isso demonstra que na realidade esses temas estão todos imbricados. A tentativa de analisá- los separadamente somente se justifica enquanto procedimento metodológico com fins de compreensão e explicação sociológica. 4.1. “Devemos ir às escolas”: O papel dos intelectuais e da educação no combate ao comunismo Para tratarmos da questão em que se articulam as temáticas do comunismo e da educação durante os anos de 1930, seria preciso esclarecer que a configuração sócio- histórica apresentava-se marcada, no que diz respeito ao âmbito da educação, pela discussão, coordenada pelo Ministério da Educação e Saúde, em torno do Plano Nacional de Educação para o país. Com efeito, o estabelecimento desse plano visava cumprir uma determinação da Constituição Brasileira de 1934, que definia como competência da União “fixar o plano nacional de educação, compreensivo do ensino de todos os graus e ramos, comuns e especializados; e coordenar e fiscalizar a sua execução, em todo o território do país” (apud SAVIANI, 1999, p.125). Como é possível ver, esse plano traçaria o que se convencionou chamar de diretrizes e bases nacionais da educação no Brasil (SAVIANI, 1999, p.126). O que estava ocorrendo em 1936 eram discussões e debates, tendo em vista as 106 diferentes propostas pedagógicas que se enfrentavam nesse processo de definição das diretrizes da educação no Brasil59. Daí porque, nesse contexto, se falar no “momentoso tema” da educação. O que pretendiam homens como Alceu Amoroso Lima, um dos integrantes do Conselho Nacional de Educação, órgão recém-criado e que estava encarregado de elaborar o referido plano de educação, era convencer aqueles que duvidavam da “presença insidiosa do comunismo nos mais diversos setores da sociedade brasileira” e que, para combatê-lo eficazmente, urgente se fazia implantar uma pedagogia orientada para esse fim. Segundo esse entendimento, a pedagogia comunista já estava difundida nas escolas brasileiras, aproveitando-se da confusão proporcionada pelo predomínio de um ingênuo e “puro liberalismo pedagógico”. Alceu Amoroso Lima assumiria no contexto intelectual dos anos 1930 a condição de notável guardião da ordem moral, pautada nos valores cristãos e, consequentemente, defendia no plano educacional a tutela da Igreja sobre o ensino público (PÉCAUT, 1990, p.28.). E assim como outros tantos intelectuais da corrente católica, também ingressou no movimento integralista. Os intelectuais se acreditavam elites dirigentes, e buscaram legitimar-se enquanto detentores de uma vocação para a “organização social”. Desse modo compartilhavam de uma visão elitista sobre qual seria o seu papel dentro do processo histórico brasileiro. Eles seriam, segundo suas concepções, os responsáveis por indicar qual o caminho que deveria seguir a nação diante dos desafios daqueles novos tempos. Isso poderia ser observado quando falavam do comunismo e da necessidade de combatê-lo (SILVA, p.55). Por isso eles procuravam demonstrar que a diretriz educacional de uma nação não deveria mais ser entregue ao “puro liberalismo pedagógico” como ainda tentavam fazer alguns no bojo das discussões sobre o Plano Nacional de Educação. Era o que dizia, 59 O debate em torno da reforma educacional opunha, grosso modo, dois grupos de educadores: os liberais e os católicos. Em 1932 o primeiro objetivou sua proposta através do que designou como “Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova”, onde aparece pela primeira vez a idéia de plano no âmbito da educação. Esses educadores do movimento renovador concebiam o plano de educação como um instrumento que permitiria introduzir uma racionalidade científica na política educacional. Essas idéias influenciaram sobremaneira o debate nos anos 1930, sendo reapropriadas por Getúlio Vargas, Gustavo Capanema e por intelectuais católicos, como Alceu Amoroso Lima, que converteram a idéia de plano de educação num “instrumento destinado a revestir de racionalidade o controle político-ideológico exercido através da política educacional” (SAVIANI, p.126). Ao mesmo tempo os educadores católicos passaram a atacar os defensores da educação nova identificando no próprio manifesto elementos “comunizantes” (CURY, 1988, p. 23). 107 por exemplo, Alceu Amoroso Lima na matéria publicada por O Combate: EDUCAÇÃO E COMUNISMO A importante conferência que o sr. dr. Alceu de Amoroso Lima pronunciou sobre o momentoso tema “Educação e Comunismo”, teve a assisti-la uma atenta multidão que encheu, literalmente, todo o salão nobre do Instituto Nacional de Musica. [...] O Sr. Vicente Ráo60 encarece então a significação daquela conferencia, quando os poderes públicos tornavam efetiva e implacável a campanha de repressão ao extremismo. Ao lado das atividades policiais e do pronunciamento dos tribunais, punindo os responsáveis pelos dias incertos da Pátria, a educação das massas na repulsa ao credo vermelho, seria um grande passo para a estabilidade das instituições políticas e sociais do Brasil. Tem então a palavra o sr. Alceu de Amoroso Lima (...): - “Foi para o Brasil a última e fugaz revolução de novembro um desses acontecimentos que permitiram convencer muitos céticos da iminência de um perigo social, que havia adotado com êxito, a tática da confusão para despistar os incautos. E com isso pode ser fixado, com segurança ao menos um dos inimigos em ação: - o comunismo”. O orador prossegue a sua brilhante oração, enumerando os princípios da pedagogia comunista. A escola soviética, conforme o depoimento de numerosos autores russos, também lhe merece um minudente exame. Depois de por a nu os meios de que lançam mão os comunistas para atrair as massas às suas escolas afirma textualmente: “[...] também nos momentos históricos de transição, como o nosso, não é tão difícil talvez combater os inimigos como desvendá-los. (...) Basta um golpe de vista pelo mundo de hoje principalmente pelas nações politicamente resolvidas como a Rússia, a Alemanha, a Itália, (...) para se ver que o problema escolar se apresenta inteiramente ligado às condições políticas e ao ambiente ideológico dominante. Em nenhum desses países se vê mais o domínio do puro liberalismo pedagógico, como entre nós ainda se proclamava ou proclama implícita ou explicitamente. Em toda parte o que se nota é o reconhecimento de que o problema pedagógico está ligado às condições gerais do Estado e da vida, de modo que não pode ser considerado apenas como um problema puramente quantitativo, metodológico ou cognoscitivo. Quer dizer que não basta apelar para a “educação” como uma panacéia; não basta apelar para a “educação” moderna como resolvendo tudo; nem basta invocar a “curiosidade” intelectual, o famoso culto da cultura, a febre do “saber”, seja o que for ou como for. Tudo isso representa apenas uma outra face do problema. Mas não vai ao ponto oculto ou patente, onde tudo, mais cedo ou mais tarde, termina – a finalidade da educação. Por mais que queiram evitar esta sempre ao procenio [sic], pois sendo a pedagogia um conhecimento normativo, exige por natureza uma direção. A pedagogia ou é “dirigida” ou não é pedagogia”. [...] - “Não basta para combater o comunismo pedagógico repelir a concepção soviética da escola, seguindo os traços característicos que já hoje podemos conhecer. É preciso restaurar primeiramente a concepção integral da educação, fugindo das multidões parciais apontadas”. [...] - “Se o Plano Nacional de Educação se inspirar em princípios pedagógicos sadios, será um grande passo para esse ideal. Mas não basta pois a eficiência das leis, depende do valor dos homens que as aplicam. E para impedir o domínio da pedagogia comunista só um sistema educativo que possa, como ele, apoderar-se do homem todo, mas orientando-o para o primado da verdade e da sabedoria não 60 Vicente Ráo foi Ministro da Justiça do governo Getúlio Vargas no período de 1934 a 1937. Ele era advogado e jurista, em 1931 publicou um livro em que analisava as leis soviéticas relacionadas à família. Este fato teria contribuído para torná-lo uma autoridade em relação ao tema do comunismo. Foi o relator, em 1935, da Lei de Segurança Nacional. Era filiado ao Partido Democrático de São Paulo (SILVA, s/d, p.126). 108 lhe servindo apenas para adornar a inteligência, para conquistar um diploma ou para dominar a natureza.” (...) (O COMBATE, 31/03/1936, p.4) A questão da educação se constituía num problema central porque estaria intimamente ligada à sobrevivência do Estado, por isso que as “nações politicamente resolvidas” davam especial atenção ao “problema escolar”, compreendendo que ele estava “inteiramente ligado às condições políticas e ao ambiente ideológico dominante”. Daí decorre, para o autor da matéria que corrobora a fala de Amoroso Lima, uma conclusão lógica: se quiséssemos combater o avanço do comunismo, teríamos de elaborar um plano de educação que, ao lado da repressão policial e do seu amparo jurídico-legal, pudesse imprimir nas “massas” a “repulsa ao credo vermelho”. Essa mudança pedagógica deveria se iniciar com a restauração da concepção integral de educação. O sucesso de uma pedagogia como essa representaria, segundo a matéria, “um grande passo para a estabilidade das instituições políticas e sociais do Brasil”. Vê-se aqui uma clara instrumentalização da educação, concebida como uma poderosa arma de combate ao avanço da “pedagogia comunista”, que, segundo Alceu Amoroso Lima, estaria se aproveitando da confusão reinante no país, e, em particular, no campo da educação, para apoderar-se do “homem todo”, ou seja, de todo o seu referencial sobre as coisas do mundo, seus valores, suas concepções de vida, trabalho, sociedade, enfim, o que os integralistas gostavam de chamar de “a mentalidade” do homem. O avanço dos intelectuais se operou em larga escala sob o signo da ciência. Constantes menções à sociologia, ao mesmo tempo como ciência do social e como ciência do governo, da administração. Os argumentos “científicos”, conforme o jornal, são manejados pela imprensa, pelo menos desde o começo da década de 1930, como forma de “comprovar” que o comunismo era um regime inviável, pois “os sociólogos mais eminentes, mais desinteressados, mais desejosos de servir à causa popular, demonstraram, por a + b, os erros fundamentais do marxismo”.61 Assim é o caso do primeiro texto que vamos trabalhar nessa seção sobre a relação que os jornais da época estabeleceram entre o comunismo e a educação. Trata-se de um interessante artigo que saiu no jornal Diário do Norte, cujo título, “O credo vermelho”, procura deixar claro quem é o inimigo da “democracia brasileira”. O tema da educação surge articulado com a idéia de nacionalidade, de defesa da “Pátria” que, 61 GRAVE, João (de Lisboa). Uma nova figura européia. Correio do Povo, p.3. apud: SILVA, s/d, p.71. 109 segundo o autor, encontrava-se ameaçada pelo comunismo. Este, desde que invadira o nosso território, e já sabendo da importância da educação na luta pela conquista das mentes, teria procurado desde cedo se infiltrar nas “nossas escolas”. O artigo é assinado por Antonio Lopes, o redator-chefe do jornal. Como era comum na época, esta não era sua única atividade profissional. Tratava-se de um intelectual que ocupava, ainda, o posto de professor na Faculdade de Direito de São Luís62. Na verdade ele foi um dos fundadores dessa instituição em 1918, juntamente com Fran Paxeco, Henrique Couto, Domingos Perdigão e outros. Escreveu obras sobre vários temas: crítica literária, Direito, economia e educação63. A guerra contra o comunismo deveria ter, portanto, como cenário de uma das suas mais importantes batalhas a arena da educação, conforme informa o jornal. Daí porque se conclamar, como faz o autor do artigo abaixo, os professores e alunos das escolas superiores para que se mobilizassem, organizando campanhas de esclarecimento nas escolas secundárias e também entre o “proletariado”. Nessas ocasiões se deveria mostrar, aos estudantes e trabalhadores, qual a verdadeira “realidade do regime dos Sovietes na Europa”: “descrevendo-lhes as cenas do Terror Vermelho”, “a guerra à tradição, ao Cristianismo”, “o sangue jorrando por todos os cantos do país, a espionagem, a felonia, o crime, a miséria e o luto”. O CREDO DE MOSCOU Desde que, no Brasil, triumphou a revolução chefiada pelo Sr. Getulio Vargas, o Comunismo invadiu nosso território. A propaganda vermelha, custeada pelo dinheiro da Rússia, entrou a desenvolver-se no país quase de maneira sistemática e corrompeu consciências, immiscuiu-se em diversas camadas sociaes, alliciou agentes e fez proselytos um pouco por toda parte. Nenhum obstáculo lhe foi oposto pelos homens do nosso regime. Eles olhavam displicentemente para o presente e não cogitavam sequer do futuro. Passaram-se os dias. A campanha insidiosa dos asseclas do credo vermelho foi ganhando intensidade. E um belo dia começaram, aqui e ali, os motins comunistas, até desfecharem no sanguinolento drama de 1935. Aí foi que o governo brasileiro despertou da sua indiferença e tratou de reagir contra o communismo. A tempestade foi breve mas terrível, e passou. Entra o governo, de novo, naquela atitude displicente. Nenhuma contra-propaganda se organiza contra a praga moscovita. E em surdina esta recomeça seu trabalho dissolvente. Ora, a democracia brasileira devia opor-lhe, sistematicamente, uma campanha de 62 O intelectual brasileiro dos anos 1920-1940 apresentava comumente três perfis, segundo Daniel Pécaut (1990, p.34): 1º) o de bacharel em direito; 2º) o de engenheiro, frequentemente caracterizado pelo positivismo e inclinado para uma visão técnica do poder; e 3º) o de homem de cultura. 63 Entres estas destacamos, por nos parecerem pertinentes para demonstrar a preocupação desse intelectual com a educação, os seguintes títulos: O ensino da Geografia nas escolas primárias, Relatório sobre a Educação Intelectual, Noções sobre ensino obrigatório, A Instrução Escolar, A Instrução Publica Municipal de São Luis em 1919 – trabalho apresentado no Congresso Pedagógico reunido em São Luís, em 1920. 110 idéias. Submeter o Comunismo, por todo o país a uma análise severa, feita por pessoas competentes, levar esse trabalho e suas conclusões à escola, às universidades, às massas, pela imprensa, pela conferência, pelo rádio, por todos os meios modernos de divulgação das idéias, renová-la à luz de argumentos sempre fortes, - esse, sim, seria o meio mais verdadeiramente capaz de combater a expansão comunista no Brasil, com a cooperação de leis repressivas severas para punir as atividades dos possessos da detestável ideologia. Nas minhas aulas da Faculdade de Direito há bons cinco anos, não perco oportunidade de mostrar à mocidade que o Comunismo, velharia filosófica apresentada como novidade por uma súcia de vesgos e sistema político baseado numa de série de preconceitos, a começar pelo de classe, somente podia medrar na mentalidade européia e é de todo em todo contrário à índole mesma dos povos da livre America, onde o homem, bem cedo, se libertou do aferro das gentes do Velho Mundo a umas tantas idéias. E concito os meus alunos a combaterem a praga vermelha. Penso que devíamos ir com a mocidade acadêmica às escolas secundárias, fazer a campanha anticomunista, tratando de defender contra o contágio da perigosa ideologia o Brasil do futuro. E devíamos fazer a mesma campanha no seio do proletariado, mostrando quais têm sido, na realidade as atividades do regime dos Sovietes na Europa, descrevendo-lhe as cenas do Terror Vermelho, a compressão exercida sobre a consciência popular, a destruição sistemática de todas as liberdades políticas, a guerra à tradição, ao Cristianismo, a deformação do homem até a sua completa despersonalização em benefício de um estatismo feroz, o sangue jorrando por todos os cantos do país, a espionagem, a felonia, o crime, a miséria e o luto. Eis aí idéia que apresento aos professores maranhenses e aos alunos de nossas escolas superiores. Articulemo-nos para essa campanha e teremos, com a sua realização, fortalecido a nossa nacionalidade, prestando-lhe um serviço valiosíssimo. E, na jornada que empreendermos, não nos esqueçamos de propagar esta idéia fundamental: os povos americanos não precisam de formulas européias para sua organização político-social, a sua civilização tem, hoje, um sentido próprio, inconfundível. A sua mentalidade não pode ser, não será nunca a mesma da Europa. (DIÁRIO DO NORTE, 15/09/1937, p.6) Está vivamente presente no texto o que Daniel Pécaut (1990) chamou de o imperativo nacional, noção que veio se afirmando em diversas instituições e setores do país a partir dos anos 1920, notadamente entre os militares, mas que segundo Pécaut (1990, p.59) foi incorporada por parcela significativa da intelectualidade brasileira do período 1920-1940, num contexto de afirmação e reconhecimento social desses intelectuais pelo regime de 193064. O artigo de Antonio Lopes objetivava chamar a atenção da sociedade maranhense, em especial dos “professores maranhenses” e dos “alunos de nossas escolas superiores”, para a necessidade de se iniciar uma “campanha anticomunista”, impedindo desse modo que a “praga moscovita” se alastrasse pelo país. O “Brasil do futuro” não poderia ser contaminado por essa “perigosa ideologia” que seria o comunismo. Seu texto é produzido com uma intenção clara de mobilizar as pessoas (“articulemo-nos”) em torno de uma 64 Segundo Pécaut esse reconhecimento se deu em razão do papel atribuído aos intelectuais na “‘redescoberta do Brasil’ e na construção científica da identidade brasileira” (PÉCAUT, 1990, p.59). 111 bandeira de luta contra o inimigo. Mas não é qualquer pessoa que ele convoca, pois tratar- se-ia de por em marcha uma “campanha de idéias”, cujo objetivo seria submeter o comunismo a uma “análise severa”. Estes aspectos implicavam no recrutamento de “pessoas competentes”, as quais são nomeadas e convocadas no último parágrafo do texto: são os professores e alunos de “nossas escolas superiores”. Ou seja, são os intelectuais que devem tomar a frente dessa campanha anticomunista, realizando conferências, difundindo nas escolas secundárias e no meio operário a verdade acerca do comunismo, “mostrando” a realidade desse regime na Europa: a destruição das liberdades políticas, a guerra à tradição e ao Cristianismo, a espionagem e o crime, a miséria e o luto. Essa missão que o autor atribui aos intelectuais esta alicerçada na defesa do valor supremo que é a nacionalidade, segundo ele o êxito dessa campanha teria como principal beneficio o fortalecimento da “nossa nacionalidade”. Com efeito, a ênfase na construção da nacionalidade brasileira estava no centro do debate político e social levado a cabo pelos intelectuais do período e se refletia na imprensa de todo país. Segundo Carla Silva, essa discussão “levava em conta diversos elementos provenientes dos pensadores autoritários, os quais permitiram que se defendesse, por exemplo, que a sociedade humana era desigual por natureza e que essa desigualdade deveria ser observada também nas relações sociais” (SILVA, s/d, p.52). Dentro desse universo ideológico marcado pela defesa do nacionalismo, do Estado forte e do autoritarismo encontravam-se todos os movimentos e correntes políticas surgidas nos anos 193065. O Imparcial também afirmava, em editorial de fevereiro de 1935, que o governo de Getulio Vargas, mesmo dotado de “poderes discricionários, assistiu à expansão de tais correntes políticas, sem tentar uma enérgica e sistemática ação contra as mesmas” (O Imparcial 16/02/1935, p.1). Chama nossa atenção o fato de se voltar exclusivamente para o comunismo. Ele não fala em “extremismo” muito menos em integralismo, o que nos leva a considerar que tal omissão não foi por acaso. Principalmente se considerarmos que naquele momento histórico uma das principais disputas dizia respeito à que opunha, no quadro das forças políticas, integralistas e comunistas. O artigo de Antonio Lopes compartilha uma opinião presente em outras matérias jornalísticas ao situar como data da provável “invasão” do comunismo, no território 65 SAES, Decio. Nome do artigo. In:FAUSTO, Boris. O Brasil republicano: sociedade e política (1930- 1964)/História Geral da Civilização Brasileira. Ano, p.516 517. 112 brasileiro, o período que se seguiu à revolução de 1930. De certa maneira, essas matérias davam a entender que o movimento comandado por Vargas, sem querer, abrira as portas do país aos vermelhos, permitindo que a propaganda comunista se desenvolvesse “quase de maneira sistemática”, corrompendo consciências e fazendo “prosélitos” nas mais diversas camadas sociais. Os “homens do regime” nada teriam feito para deter a “campanha insidiosa dos asseclas do credo vermelho”66. O preço dessa indiferença por parte das autoridades teria um alto custo para o regime político brasileiro: a intranqüilidade, a desordem e a anarquia ilustrada pelos vários “motins comunistas”, que culminaram no “sanguinolento drama de 1935”. Somente então teria o governo resolvido tomar uma atitude “contra o comunismo”, despertando de sua apatia. Mas depois de passada a “terrível tempestade”, ou seja, a frustrada tentativa comunista de tomar o poder em novembro de 1935, o governo voltava a assumir, segundo o jornal, uma “atitude displicente”. Observamos, assim, que o jornal cobrava do governo de Getúlio Vargas uma postura mais enérgica em relação aos comunistas. Essa atitude deveria se concretizar em uma campanha de contra-propaganda à “praga moscovita”. Através dela o comunismo seria submetido a uma análise severa, que consequentemente revelaria sua verdadeira face, que, entre outras coisas, seria uma “velharia filosófica” marcada por uma série de preconceitos, “a começar pelo de classe”. Esta campanha deveria ser conduzida por “pessoas competentes” que utilizariam “os meios modernos de divulgação” para levá-la à “escola”, às “universidades”, enfim, à “massa”. A proposta de “campanha anticomunista” que é aqui defendida pelo professor da Faculdade de Direito e redator-chefe do Diário do Norte, já estava, de certa forma, sendo colocada em prática por ele em suas aulas, há pelo menos “bons cinco anos”. Nessas aulas, ele não perdia a oportunidade de mostrar que o comunismo, fenômeno tipicamente europeu, jamais poderia “medrar” na livre América, onde os povos já teriam encontrado um sentido próprio para sua civilização, não necessitando, portanto, de “fórmulas européias”. Percebemos a presença de um ideário nacionalista típico das correntes conservadoras no Brasil, cujo maior representante na década de 1930 era o integralismo. 66 O Imparcial também afirmava, em editorial de fevereiro de 1935, que o governo de Getulio Vargas, mesmo dotado de “poderes discricionários, assistiu à expansão de tais correntes políticas, sem tentar uma enérgica e sistemática ação contra as mesmas”. (O Imparcial 16/02/1935, p.1.) 113 Conforme Gilberto Vasconcellos (1979:74), a pretensão de forjar uma nova civilização baseada na singularidade da “alma” ou do “espírito” do brasileiro, independente dos influxos da Europa, não era apenas um “delírio nacionalista, ou mais ainda, xenófobo; tratava-se, isto sim, de um mito narcisista”. Idéias como “índole” (ou “alma”), “nacionalidade” e “mentalidade”, empregadas por Antonio Lopes em seu artigo, eram categorias que caracterizavam o discurso integralista. Intelectuais de todos os matizes procuravam, nesse momento, forjar a idéia de alma ou de caráter nacional. No caso dos conservadores como o catedrático de direito Antonio Lopes, bem como os intelectuais católicos e os integralistas, utilizavam-se dessa definição dos valores nacionais para contrapor a “civilização” singular que surgia na “livre América” aos ideais internacionalistas do comunismo que pretendiam aniquilar todas as formas de sentimento nacional. O comunismo só poderia florescer na velha Europa, visto que aqui na América, e mais ainda no Brasil, não existiam os preconceitos de classe em que se baseava esse regime. Na linha desse primeiro texto se encontra um outro que desenvolve seu argumento em cima da questão da juventude, segundo seu autor, o alvo principal dos “agentes moscovitas” que estariam agindo em todo o país, inclusive aqui no Maranhão. É importante destacar a presença da idéia ou do princípio da nacionalidade. O que demonstra o quanto estava difundido esse ideal; não eram apenas as elites militares, os próprios intelectuais, laicos e católicos, também passaram a comungar do mesmo ideal. O que, em plena Capital Federal, faziam, no magistério, no parlamento, na administração e no seio do proletariado, os Anisio Teixeira, os João Mangabeira, os Pedro Ernesto e os Joaquim Pimenta, faziam no Maranhão, no Ceará, em Pernambuco e nos demais Estados, agentes moscovitas fieis aos mesmos infernais propósitos de descrédito e cabal destruição dos princípios evangélicos em que se alicerçou a nacionalidade. Estamos informados de que os profissionais da corrupção judaico ateística entregues á faina em São Luis, muito dano causaram mo meio incauto (naturalmente accessível as sugestões do inédito e do novo) da adolescência e da juventude. Tactica genuinamente diabólica, estratégia na elaboração de cujos meios se esmerou o inferno, certo de que na posse de semelhante material humano, tinha em favor do ideal maldito, um elemento a que de ordinário se prende o êxito das grandes causas ou das causas difíceis; mas que delito innominavel, abusar dos sentimentos promptos e generosos que distinguem a mocidade. (MARANHÃO, 08/08/1936, p.1) A chamada mocidade (ou “juventude”, e ainda às vezes “adolescência”) é um dos signos mais mobilizados pelos jornais quando se trata de alertar para o perigo da 114 infiltração comunista na sociedade brasileira. Por um lado, ela é considerada geralmente como imprudente, não precavida, um “meio incauto”, por outro, os jornais a caracterizavam como portadora de “sentimentos prontos” e “generosos”, qualidades que a tornariam mais suscetível a tudo que se apresentava como “novo” ou “inédito”. Estes aspectos teriam sido especialmente aproveitados pelos “profissionais da corrupção judaico- ateística” para conquistá-la, garantindo assim a “posse” de um importante elemento para a concretização do seu “ideal maldito”. Esta tática não poderia ser qualificada de outra maneira: ela é “diabólica”, tendo mesmo o “inferno” se ocupado com esmero dessa conquista porque sabia que à posse de “semelhante material humano” estaria ligado, de ordinário, o êxito das causas difíceis. Ainda nessa discussão relativa aos jovens ou “moços estudiosos” das novas gerações tornou-se comum os jornais mostrarem comportamentos que consideravam exemplares: São Paulo, 28 – A mocidade estudiosa deste Estado após entendimento com o general Parga Rodrigues e o governador Cardoso de Mello Netto, organizou o plano de combate ao communismo, o qual constará de irradiações de discursos, exibições de filmes, cartazes sugestivos, caravanas, etc. (DIARIO DO NORTE, 29/10/1937, p.6) A “mocidade estudiosa” de SP é mostrada como exemplo para os estudantes de outros estados. Considerava-se que era justamente através da mocidade que o comunismo se difundia, ameaçando gravemente o futuro da Pátria. Essa preocupação com a juventude também se manifestou entre alguns intelectuais, que buscaram mobilizar os jovens para o combate ao que consideravam o verdadeiro inimigo da nação: o comunismo. Afonso Arinos de Melo Franco, que exercia na época uma grande influência no meio intelectual, publicou, em 1934, um livro cujo título era Preparação ao nacionalismo (Carta aos que têm vinte anos). Na conclusão ele concitava a “nova geração” a lutar contra o “antinacionalismo”, o qual era representado pela “revolução internacionalista” baseada na doutrina de Marx, um judeu que pregava o combate ao nacionalismo, que chamava de anti-semitismo e que por isso era considerado o grande inimigo do comunismo(!)67. Em 1938 Francisco Campos apresentou um projeto de militarização da juventude. Ele previa a criação de uma “organização nacional da juventude”, de caráter paramilitar, a idéia não se tornou realidade devido às “reticências” do Ministro da Educação Gustavo Capanema (PÉCAUT, 1990, p.67). 67 SILVA, p.80. 115 Entre os temas que mais aparecem articulados à questão do comunismo, ou mais especificamente ao combate dele, no conjunto do corpus analisado, a educação ocupa, sem dúvida, um lugar destacado. Ela é apontada como desempenhando uma tarefa de suma importância, porque seria responsável pela formação da própria mentalidade do indivíduo e, por conseqüência, do “corpo social”. O ensino representou um dos campos onde seria mais sistemático o esforço do regime para criar a mentalidade do “homem novo”. Constituem-se num elemento recorrente do material analisado as referências ao sucesso particular que a propaganda comunista estaria obtendo no meio educacional brasileiro. E para embasar tais afirmações algumas matérias jornalísticas citavam passagens dos relatórios que teriam sido apresentados em reuniões da “Terceira Internacional”, como neste caso da matéria intitulada “Como se pratica o comunismo”, publicada por O Combate: COMO SE PRATICA O COMUNISMO […] Não há fantasia nem sequer exagero da nossa parte ao escrevermos as linhas acima. Na última reunião da Terceira Internacional realizada em Moscou, Dimitroff fez o seguinte relatório sobre a marcha da propaganda em nosso país [...]: “No Brasil, segundo estamos amplamente informados pelos nossos melhores agentes e principalmente pelo nosso ilustre camarada Prestes, a luta tem sido intensa, devendo vencer o espírito conservador e profundamente católico do povo brasileiro, que em outras épocas já chegou a ser quase fetichista. As propagandas anti-religiosas que ali vêm sendo feitas desde alguns anos já vão dando resultados principalmente entre os marinheiros e soldados. […] Podemos verificar com satisfação que os últimos relatórios apresentados no presente congresso, indicam o grau do progresso que ali tem tido a nossa causa, principalmente entre os intelectuais, professores, estudantes de academias, liceus e ginásios oficiais, pois não tem sido possível introduzir a nossa propaganda nos estabelecimentos religiosos ou de ensino particular. […] (O COMBATE, 03/09/1936, p.1) A questão da educação constitui-se num espaço de disputa muito importante para aqueles que consideravam que o comunismo estava se infiltrando na sociedade brasileira, a começar pelas instituições escolares, consideradas, então, determinantes para o sucesso da campanha anticomunista. Podemos identificar, a partir do trecho do suposto relatório destacado pelo jornalista, os principais sujeitos políticos que estariam implicados nessa “marcha da propaganda” comunista no Brasil. Além, é claro, dos “agentes de Moscou”, que representam o pólo inimigo, aparecem nesse texto três outros personagens: o 116 povo, os militares e os intelectuais. Em outra matéria, intitulada “repulsa ao comunismo”, defende-se a necessidade de se “educar o homem brasileiro numa diretriz nacionalista” reagindo-se dessa maneira ao trabalho dos “técnicos da bolchevização”. Este trabalho, segundo o articulista, estaria sendo desempenhado pelos “mestres” que têm se aprimorado em destruir a idéia mais cara da nacionalidade, qual seja, a idéia de “Pátria”, substituída pela idéia “vaga” e “imprecisa” de humanidade, cujo resultado seria uma mocidade de “mentalidade deformada e corrompida”. Segundo o autor, estaria se constituindo, dessa forma, um campo fértil para a disseminação do credo vermelho. Vejamos algumas partes desse artigo: REPULSA AO COMUNISMO […] Já houve quem dissesse que os comunistas são dos que julgam a democracia o regime que tem por obrigação, em homenagem ao liberalismo de seus princípios, permitir até a organização de sua ruína pelos seus adversários. Eles são partidários da força ao extremo, e invocam a liberdade quando ainda não se apoderaram da máquina do Estado [...]. Isso demonstra que a pedagogia, por si só, não é suficiente para anular os germes corrosivos da sociedade. Que é necessário, todavia, educar o homem brasileiro numa diretriz nacionalista, não há duvida e tão necessário, que as escolas vêm sendo de há muito trabalhadas pelos técnicos da bolchevização. Eles sabem o valor dos frutos a colher de uma mentalidade deformada e corrompida. O nosso país apresenta nesse particular, um espetáculo edificante com numerosos mestres destruindo nos discípulos a consciência cívica, e opondo à idéia de pátria a idéia de humanidade, vaga, imprecisa, sutil como se fosse lícito um mundo, uma humanidade, sem que estes se constituíssem de um conjunto de nacionalidade. Da importância que os comunistas emprestam à escola temos um exemplo expressivo do que ocorre nos Estados Unidos [...]. Lá o escândalo chegou ao ponto de duzentos mil dólares [...] serem desviados para fins de propaganda bolchevique [...]. É por esse processo, e é com essas armas que os comunistas combatem a democracia. Entre nós, porém, eles têm sido repelidos na altura da sua audácia. [...] (O COMBATE, 24/11/1936, p.03) A educação aparece aqui intimamente ligada à questão da nacionalidade, ou melhor, da necessidade de defendê-la, principalmente através da educação, contra o perigo da bolchevização. Segundo a matéria acima, a educação e a propaganda são as armas com 117 que os comunistas combatem a democracia. Devemos combatê-los à altura, ou seja, se eles dão ênfase ao trabalho pedagógico de disseminação das suas idéias dissolventes, precisamos contrapô-los nessa arena, educando o homem brasileiro, restaurando nele a consciência cívica e o amor pela Pátria. O que está expresso aqui, e em diversos outros textos e matérias dos jornais, é a posição que, segundo seu autor, deveriam assumir os intelectuais, as “pessoas competentes”, os “mestres”, “professores e estudantes de academias”, frente ao que ele identificava como avanço da “propaganda bolchevista” no Brasil. O papel desempenhado por eles consiste em esclarecer e revelar a realidade, a verdade das coisas do Brasil. E mais do que isso, eles deveriam se engajar na luta. A imprensa funciona como um dos veículos de difusão das suas idéias e propostas de combate ao inimigo vermelho. Desse modo, as propostas de contra-propaganda passam a ser discutidas e cobradas pelos jornais, que afirmam, de maneira cada vez mais alarmista, a necessidade de um plano de combate aos extremismos, sob pena de se colocar em dúvida o “futuro do regime consagrado na Constituição”: O REGIME E O EXTREMISMO Sem a menor dúvida o combate aos extremismos é indispensável á conservação do regime democrático ora vigente no pais. O Brasil precisa resolver: ou se mantem fiel a esse regime ou dá cabo do extremismo, dentro do seu território, onde elle penetrou – diga-se a verdade – em seguida á revolução de 1930, sob as formas diversas que apresenta. Vemos a cada momento reunirem-se ministros, generais e almirantes em conciliábulos em que se trata de organizar um plano de defesa de nossa democracia contra as machinações do extremismo. Mas na realidade esses optimos propósitos não se objectivam numa campanha segura e efficiente. As gerações novas estão se educando no culto ao communismo, ao facismo, ao nazismo. A propaganda dessas ideologias, velada ou abertamente, visa, é claro, a gente moça [...]. Enquanto isso, não se organiza, nas escolas, uma propaganda da democracia liberal[;] e das vantagens dos regimes totalitários faz-se propagandas por toda parte. Fato bem mais grave é que se verifica frequentemente de atuarem prosélitos de doutrinas extremistas no próprio ambiente oficial. E não menor dificuldade decorre, para o combate ao extremismo, da compreensão que os governos teem do que seja doutrina extremista. Na Bahia, por exemplo, governadores atacam vivamente o Integralismo, considerando-o manifestação extremista do pensamento político. Essa mesma compreensão teem do credo que tem por symbolo o Sigma os srs. José Américo e Armando de Salles. Não acontece, porem, o mesmo em vários Estados, onde os governos encaram como extremistas apenas o communismo. No meio dessa desintelligencia, como combater os extremistas? Como fazer campanha contra as doutrinas que pregam o anniquilamento da democracia liberal, se nesta parte do Brasil, ellas vêem sendo tidas por perigosas e, naquellas, por inoffensivas? A continuar tanta balburdia, ninguém pode ter segurança no futuro do regime 118 consagrado na Constituição Federal. E para termos – é forçoso confessar – tal segurança, indispensável se faz uma campanha cohesa, baseada nestes dois pontos: primeiro – que doutrinas vão ser combatidas; segundo – de que meios lançar mão, por todo o país, para esse combate. (DIARIO DO NORTE, 08/09/1937, p.1). A mensagem do artigo é clara e direta: ou a democracia brasileira acaba com os extremismos ou os extremismos acabam com o regime democrático vigente no país. O jornal cobra das autoridades um “plano de defesa” coeso capaz de se objetivar numa “campanha segura e eficiente” de combate aos extremismos. Apesar das várias reuniões secretas entre os ministros, generais e almirantes, os seus “ótimos propósitos” não se materializavam em planos de ação concretos. Enquanto isso, segundo o autor, “as gerações novas” iam sendo educadas no culto do comunismo, do fascismo e do nazismo, sem que se promovesse uma propaganda da democracia liberal para concorrer com a propaganda das ideologias “totalitárias”, das quais, afirma ele, se fazia propaganda por toda parte. Classifica de desinteligência o fato de alguns governos estaduais considerarem extremistas apenas os comunistas, o que, segundo ele, impediria o combate eficiente das “doutrinas que pregam o aniquilamento da democracia”. Entre estas deveria ser incluído o integralismo. O ponto de vista defendido por este artigo publicado no Diário do norte se diferencia, por exemplo, daquele de autoria do próprio redator-chefe desse jornal, Antonio Lopes, onde a ênfase na luta contra o comunismo é muito mais acentuada, deixando em segundo plano, quando não simplesmente omitindo, a questão do chamado extremismo da direita, representado pelo movimento integralista. Nesse ponto o artigo é bem claro ao dizer que é fundamental determinar quais são os movimentos políticos considerados extremistas e quais os meios de que se deve fazer uso para tornar o seu combate eficaz. A atitude do jornal é de defesa do regime democrático, que considera em vigor no país, ameaçado pelo avanço dos extremismos no seu território, o que teria se iniciado logo após os acontecimentos revolucionários de 1930. 4.2. Em defesa da ordem e da moral cristã: “Deus, pátria e família” A presença da dimensão religiosa no discurso jornalístico sobre o comunismo constitui um aspecto marcante de toda a imprensa de São Luís no período pesquisado. A Igreja Católica aparece como uma das instituições mais prestigiadas, suas orientações ultrapassam a esfera do comportamento estritamente religioso e são reproduzidas nos veículos da imprensa. 119 A fundamentação católica de uma parte considerável dos enunciados jornalísticos pode ser percebida em matérias que expunham a posição da própria Igreja Católica, considerada exemplar para todas as sociedades ameaçadas pelo perigo vermelho. Algumas dessas matérias eram produzidas por clérigos, outras são simplesmente a transmissão de orientações católicas, porém, também demonstram a posição do jornal. NO IMPERIO VERMELHO Por Cônego Melo Lula O comunismo tem sede de sangue humano. Na Rússia vermelha já não há noção da própria dignidade humana. “Le Matin”, jornal francês, publicou uma estatística referente ao número das vitimas da hidra comunista. Até o fim do ano de 1935 foram mortos na Rússia por ordem do governo soviético: 228 arcebispos e bispos; 6.778 sacerdotes; 6.535 professoras; 54.858 oficiais; 260.000 operários e camponeses ou 11.816.961 criaturas humanas. Além disso, de fome, mais de 10 milhões de pessoas. Sabe-se que na Criméia o furioso Bela Kun fez fuzilar 70.000 pessoas. [...] Os emissários de Moscou têm sede de sangue, de muito sangue. O ódio contra Deus e contra a Igreja e toda idéia religiosa é o mais horrível e diabólico. [...] Aí está, brasileiros do Centro, do Norte e Sul, a linguagem blasfema dos novos bárbaros contra Deus e as coisas de Deus. A “Frente do Ateísmo” continua, e titânica. Daí a necessidade de uma Frente Comum contra o perigo vermelho. Não se iludam os brasileiros. Todos vigilantes e unidos contra os agentes de Moscou. Eles querem a destruição da idéia de Deus, da Pátria, da Família e da civilização cristã. (O COMBATE, 20/08/1936, p.4) Cabe destacar o quanto eram recorrentes nos jornais as mensagens que afirmavam a “necessidade” de se unirem todos os brasileiros na defesa de “Deus e das coisas de Deus”, ou seja, a “Família”, a “Pátria” contra a “Frente do Ateísmo” que quer destruir a “civilização cristã”. É um discurso que se preocupa em demonstrar de modo categórico porque o comunismo era o maior inimigo da religião cristã. As estatísticas impressionantes sobre os números de mortos na Rússia revelariam, segundo a visão difundida, a fúria assassina, a “sede de sangue, de muito sangue” que tinham os emissários de Moscou. O Cônego que assina o artigo procurava mostrar assim aos brasileiros (“Aí está, brasileiros”) o modo de agir desses “novos bárbaros”, cujo ódio contra “toda idéia religiosa” seria o mais horrível e diabólico. Numa linha mais doutrinária temos uma longa matéria que O Combate publica em maio de 1936. Ela se baseia numa espécie de lista de recomendações que o Arcebispo de Paris transmitia aos fiéis católicos, tendo em vista o “desenvolvimento da propaganda comunista” na França. 120 CATOLICISMO E COMUNISMO Sob a direção do Arcebispo de Paris, funciona um Conselho de Vigilância, a quem incumbe, entre outros encargos, o de, simples, clara e concisamente, fornecer ao público instruções práticas sobre a religião e moral. Recentemente, ante o desenvolvimento da propaganda comunista, julgou ele necessário recordar aos católicos os pontos que vamos epitomar: 1º. A igreja, guarda de tudo o quanto interessa à vida espiritual, deu ensinamentos preciosos para se organizar a atividade econômica e a existência social, de conformidade com a justiça e a dignidade do homem. Especialmente nas grandes encíclicas Rerum Novarum, Quadragesimo anno68 [...] estão expostas as verdades a manter e propagar sobre a justiça e a caridade fraternal; sobre a família; sobre o fundamento, o bom uso e os limites do direito de propriedade; sobre as instituições da Economia Política; sobre a iniciativa particular; sobre o papel da autoridade na organização econômica. A igreja definiu com precisão o que é o direito natural imutável, e, ao mesmo tempo, indicou em que sentido a presente ordem social deve ser corrigida e melhorada, para se tornar mais conforme as exigências do Direito e do bem humano. 2º. Os católicos devem compenetrar-se dessa doutrina social da Igreja e largamente difundi-la. Evitarão desse modo para si próprios o risco de admitir teorias que podem ser generosas em algumas de suas tendências, mas que trazem em si germes destrutivos da vida social. Ao contrário, a doutrina católica, apresentada de modo verdadeiro e completo a todos quantos procurem, no sacrifício, na dúvida, na agonia, mais justiça e mais bem estar lhes ministra soluções que devem ser acolhidas, ao menos com simpatias. 3º. Em face dos que se deixam arrastar pelo comunismo, lembre-se da distinção capital que a Igreja sempre estabeleceu entre a caridade, ou amor das pessoas particulares, e a manutenção da verdade, a qual é um bem universal necessário às pessoas e à sociedade. Entre aqueles que aderem ao comunismo, ou simpatizam com alguns dos seus lemas, há, de certo, espíritos com intenções retas e generosas. Mesmo os dominados pelo ódio não devem ser excluídos do nosso interesse fraternal. Mas o comunismo é doutrina essencialmente destruidora das verdades e valores morais mais necessários à humanidade. 4º. Em particular, jamais se esqueça que o comunismo explicitamente substitui a civilização hodierna por uma vida social atéia e materialista. Com efeito, o comunismo, de maneira constante, se impregna da doutrina de Karl Marx. À luz do pensamento marxista, o ateísmo, o materialismo, a violência, o repúdio da caridade não são somente, no regime preconizado por ele, excessos provocados por oposições encontradas, ou por exageros muito habituais nas lutas das revoluções, mas constituem aspectos essenciais da vida que o comunismo quer para a humanidade. Segundo o marxismo, não existe nenhum Deus, ordenador e juiz, o mundo inteiro não passa de uma luta constante, em que tudo se muda e desaparece. A religião consiste em um enfraquecimento e entrave nessa luta e transformação do mundo. Lenine proclamou: Toda idéia religiosa é uma abominação. Consoante ainda ao marxismo, não há vida futura e deve predominar sempre a procura dos gozos terrestres. As mais sagradas das liberdades das pessoas devem ser subordinadas aquilo que se julga o bem coletivo. Essa filosofia da transformação total e contínua destrói, evidentemente, toda 68 A encíclica Quadragesimo anno pregava a necessidade de uma harmonia entre capital e trabalho. 121 estabilidade e toda obrigação na família, torna caducos os compromissos e os contratos. Não é apenas a propriedade particular o que se nega e combate, mas também o conjunto dos valores morais fixos sobre os quais se alicerça toda verdadeira civilização. 5º. Na sua propaganda atual, ao menos em França, o comunismo pensa ocasionalmente útil não insistir na luta contra a religião e apresenta-se como paladino da justiça. Mas como até agora, nada foi eliminado na doutrina acima exposta, como as brochuras e folhas volantes que disseminam essa doutrina subversiva continuam a ser profusamente distribuídas, atacando não só a organização econômica, como também a religião, a moral da família, etc, forçoso é concluir que na aparente moderação às vezes manifestada, não há senão uma tática. Tal tática, aliás, foi prevista e recomendada por Lenine que, pregando a necessidade de extirpar as raízes sociais da religião, achava que, em certos casos, a propaganda francamente atéia pode ser supérflua e prejudicial à causa, ao ponto de vista do progresso da luta de classes. Nas condições atuais da sociedade capitalista, os operários cristãos hão de chegar ao ateísmo, não em virtude de discursos e sermões, mas de crises e injustiças habilmente exploradas. Assim, a propaganda anti-religiosa não deverá ser um meio para a luta de classes, fomentará praticamente o ateísmo. [sic] 6º. Empenhem-se os católicos em impedir que, nas consciências, o interesse parcial que possa oferecer tal ou tal realização comunista, ou a caridade quanto às pessoas, não as leve a uma espécie de complacência para com erros dos mais perniciosos na sua forma exterior. Eis, em substância, as advertências do Conselho de Vigilância do Arcebispado de Paris, advertências aplicáveis a todo o globo, onde o comunismo, como as grandes epidemias, está, mais ou menos grassando, incutindo apreensões de contaminação geral. Houve quem ousasse comparar o movimento comunista com o dos cristãos primitivos, há 20 séculos. Irrisória, revoltante comparação! (O COMBATE, 19/05/1936, p.4). O jornal referenda ou incorpora uma tomada de posição da Igreja Católica frente a teorias e doutrinas que pretendiam orientar a vida social. O que se desejava, através da apresentação resumida dos pontos destacados na advertência do Conselho de Vigilância do Arcebispado de Paris, era mostrar a diferença que existiria entre a doutrina social da Igreja Católica e a doutrina comunista, reverenciando a obra cristã em favor da melhoria da “ordem social”, conforme as exigências do “Direito e do bem humano”. Assim, enquanto o comunismo é representado como uma doutrina “essencialmente destruidora das verdades e valores morais mais necessários à humanidade”, a Igreja Católica é significada como construtora e guardiã da civilização hodierna, pautada nos ensinamentos católicos que lhe permitiram organizar a “atividade econômica e a existência social, de conformidade com a justiça e a dignidade do homem”. Existe um apelo ao fiel católico para que não apenas defenda a doutrina social da igreja, mas para que o faça de um modo a convencer os que aderiram ou simpatizam 122 com os lemas do comunismo a enxergar a verdade dessa teoria, ou seja: apesar de generosa em algumas de suas tendências, ela traz em si o germe destrutivo da vida social. Apesar disso, é preciso não desistir dessas almas, pelo contrário, mesmo aqueles que estão dominados pelo ódio devem ser objeto do interesse fraternal de todo católico verdadeiro. A guerra do comunismo contra Deus precisaria, de acordo com os jornais, da união de todos contra o inimigo comum, ou seja, católicos e protestantes são chamados a participar ativamente dessa campanha. PROTESTANTISMO A ATTITUDE DOS EVANGELICOS Em face dos perigos que ameaçam a ordem politico-social do Brasil – apesar de alheios aos movimentos politicos, não podem os evangelicos ficar indiferentes deante da sorte da Patria ora ameaçada pela onda revolucionaria do materialismo bolchevista, diametralmente opposta ao espiritualismo christão mormente nesta hora, em que o nosso governo, vendo periclitar a paz e a ordem politico-social da Republica decreta o estado de guerra e conclama todas as forças espirituais da nação para uma acção conjuncta ao terreno das idéas contra o inimigo comum. As igrejas evangelicas, ramos da grande arvore do Cristianismo tão combatido pelo communismo, precisam de estar em guarda contra o inimigo commum e assentar planos para a obra ideologica de rebate ao atheismo arrogante que alicerça a filosofia e sociologia communistas. Nesta hora, sejam quaes forem as nossas diferenças, devemos unir-nos na obra patriotica de colaboração com o poder publico para conjuração do grande perigo que ameaça as nossas instituições, a nossa paz, a nossa liberdade, a nossa propriedade, a nossa familia, a nossa actividade e sobretudo a religião cristã, cujo vulto central – Jesus Christo – é o alvo da mofa e do combate do atheismo communista. Jeronimo Gueiros. (DIÁRIO DO NORTE, 28/10/1937, p.5) O tom geral do texto é de apelo ao engajamento das igrejas evangélicas na “obra patriótica” de conjuração do inimigo comum: o comunismo e seu ateísmo arrogante. Os evangélicos não poderiam ficar indiferentes nesse momento porque não é somente a “ordem politico-social” que está ameaçada, mas o próprio “espiritualismo cristão”. Com efeito, este se constituiria, segundo o discurso jornalístico, num dos principais alvos da “onda revolucionária do materialismo bolchevista”. Por isso é preciso superar as diferenças, aconselha a autor do texto, que parece falar de uma posição de um cristão não- evangélico. Os grandes referentes desse discurso de união e mobilização para a guerra contra o inimigo comum estão presentes: é preciso proteger as “nossas instiuições”: paz, liberdade, família, propriedade e, principalmente, aquilo que é a amálgama deste texto especificamente, a religião cristã. Outro elemento que não podemos deixar de observar diz 123 respeito à posição assumida perante o governo. “Devemos” colaborar com ele para a obra de conjuração do grande inimigo. Segundo a matéria o governo estaria “conclamando”, nesta hora premente, “todas as forças espirituais da nação para uma acção conjuncta” contra o inimigo comum, à qual não seria admissível, enquanto membros da grande árvore do cristianismo, ficar indiferentes. Os evangélicos são interpelados a agir, junto com todas as outras igrejas cristãs, nessa guerra em defesa da Pátria e de Deus. Um artigo muito interessante para analisarmos a dimensão social que tomou o chamado “combate ao comunismo” no Maranhão aborda especificamente o tema da família frente ao comunismo. Nesse artigo, assinado por um certo “Cap. Teotimo Ribeiro”, aparece também uma concepção acerca do que deveria ser o papel da mulher na sociedade. Vejamos alguns trechos: A FAMÍLIA E O COMUNISMO O comunismo é a negação de tudo. […] Todos que viajam a Rússia de hoje, os mais imparciais e neutros, atestam a ineficácia de tal regime. Um observador, recentemente, estudando a realidade do trabalho sob a ditadura proletária, assim se expressa: “todos os ramos da vida econômica se acham completamente socializados. […] Toda a população de 165 milhões de habitantes não conta um único individuo que trabalhe para um particular na produção de qualquer artigo; […] ” Quanto custou semelhante desatino, que foi devastar um país outrora tão rico e próspero? […] Mas o nosso objetivo é autenticar como vive a família, no presente, sob o domínio soviético, depois que as mulheres foram também socializadas. “A ditadura russa legisla sobre todos os aspectos concebíveis da vida dos russos. Ela tira e concede a vida. Destrói a Igreja e provê a educação. Muda o conceito moral e altera o senso da justiça. Recompensa as crianças que denunciam os pais e funda creches para os bebês” Quanto ás ocupações das mulheres nas cidades, “é coisa comuníssima verem-se nas multidões, mulheres vestidas de palitó, calças de lona e botas, a caminho dos ‘metros’, onde vão trabalhar cavando túneis.” […] “Até as mulheres concorrem para aumentar a força do Exército. Já existem nove regimentos de atiradoras”. O que não impede Vorochilov de achar pouco. Num de seus últimos discursos […] o infatigável preparador da guerra, não receia dizer: “as mulheres devem preparar-se como os homens para a luta. […] devem elas aprender o uso do fuzil, pois a próxima guerra será uma guerra de morte das classes […]” Nós outros, latinos e principalmente brasileiros e […] que mantemos o amor á família como um dogma, não nos envergonhamos, jamais, de proclamar o conceito em que temos essa sagrada instituição. Entendemos que o homem, para que consiga formar o seu caráter com as virtudes peculiares a uma individualidade de escol, precisa que esses traços essenciais de suas faculdades morais sejam fundados no cadinho da família. […] 124 Em conclusão, sendo a Pátria, a Família e a Religião, os fundamentos de todas as sociedades que se regem pela moral cristã, o comunismo procura, a todo transe, eliminar semelhante estorvo aos seus planos de terror e de aniquilamento. (O COMBATE, 09\04\1936, p.4). Já no começo do texto temos uma definição objetiva e clara do que seria o comunismo: ele é a “destruição de tudo”. Essa totalidade a que se refere é composta dos valores mais caros a todas as sociedades regidas pela “moral cristã”, que são “a Pátria, a Família e a Religião” (cristã católica). O texto jornalístico é baseado no relato de “um observador” que recentemente teria visitado aquele país com o fito de estudar sua nova organização política, social e moral. Este aspecto é particularmente destacado nos fragmentos que o articulista de O Combate transcreve e aos quais ajunta seus comentários. A preocupação dele é mostrar “como vive a família, no presente, sob o domínio soviético, depois que as mulheres foram também socializadas”. A escolha do tema família, que está articulada à questão mais ampla de uma “moral cristã” revela uma provável proximidade, por parte do militar que assina o artigo, com o ideário católico e também com os parâmetros ideológicos dos integralistas, a começar pelo próprio lema “Deus, Pátria e Família”, que no texto aparece levemente modificado (“Pátria, a Família e a Religião”). A Ação Integralista Brasileira (AIB) teve entre seus integrantes muitos militares, o Capitão Teotimo Ribeiro seria um deles? Ou simplesmente um militar, de formação cristã católica, que procurava defender sua “pátria” frente ao plano comunista de aniquilar os valores que são os alicerces das sociedades que se regem pela moral cristã? Devemos considerar que a terminologia empregada estava muito em voga na época. Certamente essas idéias não faziam parte apenas do programa da AIB, mas compunham, sem dúvida, a base de outras organizações e instituições, especialmente as de caráter nacionalista que procuravam se estribar em valores religiosos, mais especificamente católicos. Desde princípios da década que já era possível encontrar, articulados sob um lema, esses temas. Silva cita matérias publicadas em jornais do rio de janeiro em março de 1931 em que se afirmava: “haja o que houver, nos encontrará na linha de frente, combatendo por Deus, pela Pátria e pela família.”69 A defesa dos ideais religiosos pode ser apontada como uma característica marcante das matérias presentes nos jornais analisados, o que demonstra a força ou o prestigio de que gozava a Igreja mesmo junto ao que podemos considerar um segmento da 69 Correio do povo, 26 de março de 1931, p.12. apud SILVA, p.126. 125 intelectualidade do país. Pois como é possível perceber, as pessoas que escrevem essas matérias são em grande parte os chamados profissionais liberais (notadamente advogados), professores e estudantes, funcionários públicos. Outro aspecto chocante tanto para a visão de mundo do observador, “imparcial e neutro”, quanto para a do articulista, diz respeito à atividade laboral desempenhada pela mulher para além do espaço doméstico. A descrição das “multidões” de mulheres vestidas de “palitó, calça de lona e botas” a caminho do trabalho em grandes obras de construção, bem como a declaração do “infatigável preparador de guerra” russo de que as mulheres deveriam ser recrutadas para compor as forças armadas, eram provas de que o comunismo queria destruir a família, essa “sagrada instituição”. O lugar da mulher deve ser em casa, onde, junto da família, contribui para formar o caráter humano em suas virtudes peculiares e faculdades morais. No livro de Carla Luciana Silva, Onda vermelha – imaginários anticomunistas brasileiros (1931-1934), onde a autora analisa jornais do Rio Grande do Sul e do Rio de Janeiro, encontram-se também alguns desses elementos que parecem ser freqüentes nos discursos que pretendem retratar a situação da mulher no regime comunista. Nesses jornais o comunismo é apontado “como um flagelo para a mulher russa” e uma ameaça à liberdade das mulheres dos outros países. Segundo muitos articulistas da época a mulher deveria permanecer no lar, supervisionando a educação dos filhos(SILVA, s\d, p.94 e 150)70. Para efeito de comparação podemos utilizar, mais uma vez, matéria publicada no jornal Tribuna: A MULHER NO REGIME PROLETARIO O sr. Gastão Pereira da Silva já nos deu alguns livros definitivos. “Para comprehender Freud, Lenine e a Psycanalyse”, seguiram-se outros de igual sucesso. Agora nos põe em contacto com “A mulher no regime proletario”, livro de divulgação e de analyse, com uma farta documentação sobre as reivindicações femininas na Russia. Há no seu livro detalhes curiosissimos. Pouca gente conhece a verdadeira situação da dictadura proletaria. Diz-se por ahi cousas absurdas, disparates tremendos que ferem, estrangulam os postulados sociologicos. A leitura do pequeno livro de Pereira da Silva serve para evitar que se incida na pratica dos absurdos e das affirmativas levianas. (TRIBUNA, 03/03/1934, p.1) 70 Silva cita um panfleto distribuído em 1918 às mulheres da Alemanha: “Mulheres alemãs! Sabem a ameaça que o bolchevismo representa para vocês? O bolchevismo quer a socialização das mulheres: 1.O direito de propriedade sobre as mulheres entre os 17 e os 32 anos é suprimido; 2. Todas as mulheres são propriedade do povo; 3. Todo homem deve denunciar as mulheres que resistirem a eles […]” (SILVA, s\d, p.152.) 126 Esta matéria, apesar de ter sido produzida antes do período de maior repressão e combate ao comunismo, constitui-se num contraponto a outras que se referem à situação da mulher sob o regime soviético. Podemos destacar o fato do autor não assumir explicitamente uma posição pró-soviética, mas, por outro lado, não deixa de emitir críticas à maneira pouca científica, estranguladora dos “postulados sociológicos”, que difundiria “cousas absurdas” e “disparates tremendos” sobre o regime em curso na Rússia, acerca do qual “pouca gente” conheceria “a verdadeira situação”. O mesmo ocorrendo em relação “às reivindicações femininas” sob a “dictadura proletaria” russa. O livro que então se publicava, tinha como um de seus principais méritos contribuir para que cessassem as “affirmativas levianas” sobre essas questões. A importância da dimensão religiosa estava presente no discurso da imprensa, apesar de reivindicar-se uma instituição de caráter laico. Quando procura combater o florescimento da chamada “planta exótica” os jornais também vão utilizar o profundo sentimento católico do povo brasileiro para argumentar e provar, segundo eles, que o comunismo não serviria ao Brasil. O COMUNISMO DESTRÓI A FAMÍLIA. O instinto de conservação nos indivíduos de todas as espécies, determina no homem o desejo de prolongamento da vida, da conservação da espécie e do sentimento moral e religioso; e nas horas angustiosas da vida, não esquece a existência de Deus, para quem apela pedindo prolongamento da sociedade. Do anseio do prolongamento da sociedade, que vem do instinto de conservação, resulta a organização das instituições para promover e facilitar o bem geral. A organização das instituições jurídicas tem como escopo a verdade e a justiça, não pode nunca vir da anarquia, da mentira oficializada e do amor livre, praticado pelo comunismo soviético. O conceito filosófico que a ação humana, essencialmente subordinada ao pensamento social, não pode alcançar aceitação pacifica, daí vem o erro do determinismo materialista de Karl Marx, cujo objetivo é o emprego da técnica para satisfação do Estado e do homem. O comunismo, investindo contra a religião, a pureza de costumes e a verdade nega a moral individual e coletiva, visto que o princípio primário dos nossos deveres é necessariamente Deus, ainda que o objeto deles seja diverso, segundo se refira a Deus, ao próximo e a nós mesmos. O escola do materialismo sustenta, que na vida da sociedade a ação precede o pensamento. A moral é a mãe do direito, o alicerce das sociedades organizadas sob o ponto de vista de uma filosofia religiosa, surgindo das suas instituições jurídicas o direito que é a força. O comunismo nega a Deus porque lhe não convém religião alguma, nega o direito porque quer que prevaleça a mentira oficial, nega a moral porque quer o amor livre, e prole irregular, pais e filhos serão propriedade do Estado, uma vez que o partido comunista deve substituir a família. Devemos combater o comunismo com a moral e a justiça; moral administrativa rígida dos governos para reflexo na sociedade, na família. Não basta que os governos apliquem severas medidas de repressão, é necessário que seus atos reflitam um pensamento em Deus, no desejo de bem servi-lo, servindo a sociedade. 127 Não foi senão a bacanal da corte de São Petersburgo que gerou no espírito das massas, o instinto de vingança, contra a sociedade constituída, e assim preparou o terreno que os ideologistas de Lenine, aproveitaram para lançar a semente do credo maldito. É preciso combater o comunismo com a palavra divina, verdadeira, que é essa que emana dos atos puros dos que governam com justiça. É preciso resguardar o direito individual como garantia das nossas instituições democráticas que são patrimônio da Nação. Combater o comunismo é dever de todos nós, para resguardo da Família, que é uma obrigação imposta pelo criador à criatura. (O COMBATE, 10/11/1937, p.1) A defesa dos valores cristãos que se acreditava estarem representados pela Igreja Católica pode ser verificada numa nota que o jornal Maranhão publicou sobre uma peça teatral em cartaz em São Luis. Acima do título do jornal, na primeira página, era comum aparecer alguma frase que chamava atenção do leitor devido à sua posição estratégica e principalmente pelo tamanho das letras. Em 10 de outubro de 1936 o Maranhão alertava, no alto da primeira página e em letras garrafais: A COMEDIA “AMOR” ESTÁ MARCADA PARA HOJE A NOITE. É IRREVERENTE PORQUE ATTENTA CONTRA OS SENTIMENTOS RELIGIOSOS DO POVO! É IMMORAL E COMMUNISTA PORQUE PREGA O AMOR LIVRE! AS PESSOAS DE VERGONHA NÃO DEVEM ASSISTIR A ESSA COMÉDIA! (MARANHÃO, 10/11/1936, p.1) Quando o jornal afirma que a peça “atenta contra os sentimentos religiosos do povo”, ele está assumindo, ou procurando assumir, o papel de porta-voz do “povo” e, portanto, de conhecedor e defensor do que seriam os seus verdadeiros “sentimentos religiosos”. De acordo com o discurso jornalístico, a referida comédia pregaria o “amor livre”, aspecto que demonstrava sua intenção de atacar os valores morais da sociedade, dissolvendo seus alicerces. Tudo isso só poderia resultar em uma coisa: a comédia “Amor” era comunista! E desse modo, todas as “pessoas de vergonha”, que respeitavam os valores religiosos e morais afrontados pela peça teatral, jamais deveriam assisti-la. A sociedade é dividida em duas partes: a primeira seria a “boa” sociedade, formada pelos que defendiam os sentimentos religiosos cristãos e cumpriam suas obrigações morais enquanto “pessoas de vergonha”, respeitando suas tradições, como o sagrado sacramento cristão que era o casamento. A outra parte da sociedade seria composta por todos os que fossem de encontro a esses princípios e valores, agindo como elementos contaminadores procurando corromper a parte sã do organismo social. Daí a importância de não se entrar em contato com essas pessoas, sob o risco de ser inoculado pelo veneno 128 deletério, cuja fonte principal residia no comunismo ateu que pregava dentre outras coisas o “amor livre”. Por “amor livre” o jornal entendia todo comportamento amoroso que não estivesse assentado nos princípios cristãos, mais exatamente aqueles instituídos pela Igreja Católica. A relação amorosa somente deveria ocorrer dentro das normas referendadas por ela, ou seja, as pessoas tinham primeiro que se casar e assim, consoante as leis de Deus, elas poderiam manter relações amorosas (leia-se sexuais), sempre com o fim de procriação. Tudo passa a ser sinal das maquinações comunistas ou exemplo da corrupção dos valores morais patrocinada pela propaganda bolchevista. A notícia de que algumas noivas estavam comparecendo ao casamento em trajes diferentes do tradicional era logo entendida como uma afronta que só poderia encontrar explicação na intenção comunista de desmoralizar as instituições e os valores mais sagrados da cristandade. SEM VÉU Escreve um jornal carioca: “Está-se tentando entre nós a introdução de um péssimo costume: algumas noivas pretendem apresentar-se perante o altar sem o belo e simbólico traje tradicional, branco, com véu e grinalda. Trata-se de uma manhosa propaganda bolchevista para desprestigiar o casamento. Nenhuma virgem cristã se deve apresentar perante o altar em coustume de viagem e outros, com que se pretende desmoralizar o sacramento do matrimonio. Quem não quiser conformar-se com as tradições e praxes respeitáveis da Igreja não procure os templos religiosos.” (DIÁRIO DO NORTE, 04/08/1937, p.4) 4.3. A cobertura do “caso espanhol”: um exemplo do “Terror Vermelho” A guerra civil na Espanha constitui-se em outro tema muito tratado pela imprensa brasileira de um modo geral, e conseqüentemente reproduzido pelos jornais da capital maranhense. O nosso objetivo, ao analisarmos a forma como foi abordado, pela imprensa de São Luís, o processo político espanhol, é justamente perceber de que modo o discurso que visava construir uma imagem negativa do comunismo se apropriou dos “fatos” ocorridos na Espanha para reforçar determinadas idéias ou aspectos que supostamente definiriam o chamado regime comunista. Sua obsessão em aniquilar a idéia de religião no espírito do ser humano estaria fartamente exemplificada pelos vários casos de profanação e destruição de igrejas pelos comunistas espanhóis; sua índole maligna 129 comprovada pelo banho de sangue de inocentes (crianças, mulheres, idosos etc) que teriam ocorrido em diversas cidades da Espanha, patrocinados sempre pelos “vermelhos”, cuja violência alcançaria requintes de crueldade. São estes alguns dos traços que supostamente compunham a essência do comunismo, os quais estariam fortemente delineados pelo caso espanhol, segundo o discurso produzido e reproduzido pelos jornais. A destruição das igrejas é um dos elementos mais referenciados no discurso dos jornais quando tratam da guerra civil espanhola. Essa destruição é empreendida pelos comunistas porque constitui, segundo os veículos da imprensa buscam demonstrar, um aspecto central e definidor da sua luta contra a civilização cristã; faz parte dos seus objetivos, não se tratando, portanto, de uma mera conseqüência dos conflitos. Tanto seria assim que eles, os comunistas espanhóis, procuravam sempre eliminar os representantes religiosos: padres e freiras eram logo fuzilados. Como procuravam fazer ver as matérias jornalísticas sobre a Guerra Civil 71 Espanhola , os comunistas seriam impiedosos, cruéis e desumanos, os exemplos que comprovavam esta “realidade axiomática” eram muitos: O TERRORISMO VERMELHO NA ESPANHA Lisboa, agosto. O enviado especial do diário “O século”, sr. Leopoldo Nunes, que percorreu as localidades de Sevilha e Huelva, declarou que as depredações cometidas pelos partidários do governo espanhol nos primeiros dias da revolução exigirão mais de um ano para ser reparadas. Informa, ainda, o senhor Nunes que visitou Palma do Condado, localidade com uma população de 7.000 habitantes, onde os comunistas, em sua maioria operários das minas do Rio Tinto, detiveram todas as pessoas não marxistas e saquearam as casas mais abastadas do lugar. A medida que se passavam os dias, aumentavam as cenas de perseguição e crueldade, não tendo os presos a sua disposição nem comidas nem bebidas, até que a 30 de junho chegou a notícia de se estar aproxi mando da cidade uma coluna revolucionária, procedente de Sevilha. Houve um momento de intenso furor, durante o qual ocorreram episódios que constituem a página mais sombria de toda a guerra civil: o cárcere era antes um pátio fechado, que tinha uma só porta e algumas janelas no alto. Como estivesse fechada a porta, um comunista subiu na parede com uma escada de mão e contou, no pátio, dezenove presos. Imediatamente, lançou a primeira bomba de uma janela, matando alguns deles. Depois contou os restantes, em alta voz, e lançou outra bomba, que fez novas vítimas. Os gritos de dor morriam dentro do recinto. A mesma pessoa voltou ainda para atirar quatro bombas. A esse tempo jaziam no solo dezessete mortos, embora o criminoso julgasse que todos haviam perecido. Ainda assim, não contente com sua obra, atirou mais algumas bombas, que destruíram as paredes, tendo dois dos prisioneiros se salvado milagrosamente. Em Utrera os comunistas entrincheiraram-se no castelo de dominava a cidade, depois de haver incendiado as igrejas de Santa Maria e Santiago e fuzilado 18 71 130 pessoas. Só no interior do quartel foram fuziladas 10 pessoas das que ali se encontravam detidas. Em Dayma, queimaram vivos dois homens e fuzilaram 24. Também incendiaram o asilo, em que estavam 21 anciãos, dos quais somente 9 se salvaram. Em Arabal, a crueldade chegou ao auge. A 20 de julho foram detidas e conduzidas ao calabouço da prisão, onde apenas se podiam mover, 30 pessoas, entre elas a srª.Tereza Arias de Reina, o padre Antonio Ramos e 2 meninos que não quiseram abandonar seus pais. A cada momento, os prisioneiros eram ameaçados com fuzilamento. Além disso, quase nenhuma alimentação lhes era fornecida. A 22 de julho, aproximava-se de Arabal uma coluna revolucionária, que vinha para libertar a população. Em vista disso, ao amanhecer, um comunista auxiliado por uma mulher, assomou à janela do calabouço e derramou sobre os detentos uma lata de gasolina. Sem compreender plenamente o que estava para suceder, os presos começaram a pedir misericórdia aos seus algozes. Fechou-se a janela e, momentos depois estavam todos envolvidos em chamas. O único que conseguiu se salvar, embora com graves queimaduras no rosto, foi o sacerdote. Os demais se achavam totalmente carbonizados quando as tropas revolucionárias entraram, vitoriosas, na povoação. (TRIBUNA, 16/08/1936, p.3) É interessante percebermos a estratégia de caracterização pejorativa e impressionista dos comunistas, cujas atitudes seriam marcadas pela crueldade e violência, as quais aparecem com uma espécie de marca particular dos mesmos. Muitas matérias vão enfatizar o quão desumanos seriam os comunistas, aproveitando-se sempre para lembrar qual seria o cenário caso o comunismo viesse a ser implantado no Brasil. Apesar do país já ter enfrentado e vencido uma investida traiçoeira, arquitetada pelos agentes de Moscou, a qual tivera como único efeito positivo, segundo afirmavam os articulistas, o fato de ter demonstrado o quanto era real o perigo que rondava a pátria. Esta não deveria baixar a guarda um segundo sequer, pois o inimigo se preparava, afirmavam as matérias jornalísticas, para novas ofensivas contra a sua unidade. Este aspecto está presente no artigo que se segue, publicado em jornal católico da capital maranhense: ESPANHA EM SANGUE Pe. J.J. DOURADO Soares d’Azevedo [...] de volta de sua viagem á Europa [...] elle [...] promette um livro [...]: “Espanha em sangue”. Por este livro, diz elle, os nossos catholicos ficarão sabendo o que temos a esperar do communismo e dos communistas. [...] “Pois é claro que o perigo não passou. A serpente, quando ferida na tocaia, é que alteia o colo com mais força para sortidas de morte. A hydra vermelha não morreu. Procura talvez um instante de confusão para uma arremettida trágica. A opressão que sofreu, aguçou-lhe mais o veneno cruel. Os açoites afundaram ainda mais os instinctos de vingança truculenta. E vem d’ahi nossa aprehensão. O momento mais delicado é precisamente o que atravessamos. O menor descuido dos timoneiros que nos governam, será sufficiente para um golpe fatal. 131 Plínio Salgado, do seu alto posto de signaleiro da Patria, já deu o grito de alarme: “Inimigos mysteriosos andam nas trevas. A archanjo reprobo, o tenebroso gênio da mentira, insinua-se, em todas as actividades brasileiras, estabelecendo a confusão, em cujas nevoas fulguram os punhaes trahidores que abatem pelas costas a nacionalidade”. (MARANHÃO, 31/10/1936, p.1) Vemos como o “caso espanhol” servia de base para que se refletisse sobre a situação vivida pelo Brasil. Conforme relato do Padre J.J. Dourado, que assina a matéria, o país atravessava um momento decisivo e, segundo ele, era imprescindível estarmos alerta para uma possível investida da “hydra vermelha” que ainda se manteria viva, na verdade agora ela se tornara mais perigosa, afirmava o clérigo, porque depois de ferida ela nutrira seus instintos vingativos. Tolos seriam aqueles que pensavam que ela não representaria um perigo para a nacionalidade. Lisboa, 21 – um caixeiro viajante de nome Juan Grande, que conseguiu fugir de Madri narrou ao correspondente do “Diário da Manhã” em Avila as monstruosidades cometidas em Madri dizendo: - a maioria do público madrilenho ignora a verdadeira situação das forças governamentais, porque os jornais anunciam diariamente vitorias sobre os rebeldes. Nos primeiros dias do movimento revolucionário, Madri esteve absolutamente sob domínio dos vermelhos, ouvindo-se constantemente tiros e vendo-se por toda parte os templos e conventos incendiados. Os marxistas incendiaram e destruíram quase todas as igrejas, tendo em vista a igreja de San Andrés e a Catedral de Madri reduzidas a um montão de ruínas. Nas igrejas que não foram incendiadas, os marxistas içaram a bandeira vermelha, transformando-as em quartéis e vendo-se a promiscuidade mais vergonhosa de homens e mulheres. Os marxistas passeiam em automóveis novos tirados dos “stands” dos representantes. Para dar uma sensação de normalidade, os marxistas obrigaram a abrir os estabelecimentos, que ainda não foram saqueados por milicianos fardados e comandados pelos respectivos chefes, os quais entregam vales que serão pagos – dizem eles – quando o regime comunista se normalizar. Os marxistas têm sofrido grandes baixas que em depósito judicial existiam tantos cadáveres que exalavam tão mau cheiro que impossibilitava transitar perto. Os marxistas instalaram no Teatro Calderon um dos vários hospitais de sangue da cidade. Aos indivíduos anti-marxistas é aplicada, invariavelmente, a pena de morte. Concluindo, o sr. Juan Grande disse: “Em Madri assassina-se e fuzila-se com uma facilidade pasmosa e com uma inconsciência que faz medo”. (TRIBUNA, 22/08/1936, p.2) Se tomássemos o discurso jornalístico simplesmente como informador dos acontecimentos, dificilmente teríamos uma aproximação mais objetiva acerca dos fatos, o mais provável seria vivermos sob uma situação similar àquela apresentada por George Orwell em 1984, onde a verdade é produzida pelo Miniver (o ministério da verdade), único órgão que divulga informações sobre a situação do país, de cuja veracidade ninguém 132 (pode) duvida (r)72. A linguagem empregada não deixava dúvida, os fatos bárbaros ocorridos na Espanha são verdadeiros e “autenticados” por vários observadores imparciais que os testemunharam: “Um inglez, Mr. Hayward viu...”; “Um suisso viu... ”. CRUELDADES BOLCHEVISTAS AUTHENTICADAS (Tradução do jornal hollandez NIEUWE VENLO COURANT, de 13 de setembro ultimo, especial para “Maranhão”.) Em Santander os vermelhos mataram 280 alumnos do seminário. O vigário de Cebreros foi costurado num sacco, pendurado a uma trave e depois mergulhado diversas vezes em água quente até morrer. O bispo de Serguenza foi detido nas ruas da cidade, rasgado a facadas e depois queimado vivo. O vigário de Roblegardo foi morto a facadas. O coadjutor a assistir o martyrio do vigário, tendo enlouquecido de medo e pavor. Em Somossierra os communistas prenderam um facista, ensoparam-lhe com petróleo e tocaram-lhe fogo. Em Alfaro os soldados prenderam duas moças cujo pai havia partido para a frente nacionalista, deshonraram-nas, amputaram-lhe os seios e mandaram-nas para casa. Em Badajoz os communistas cortaram as orelhas a muitas pessoas da alta sociedade. Em diversas aldeias da Andaluzia muitos filhos de facistas foram mortos e os corpos pendurados em prédios públicos. Em La Rabida as tropas communistas incendiaram o histórico mosteiro de onde Colombo partiu para descobrir a America. Centenas de mulheres, a maior parte da aristocracia, foram expulsas da casa, consuzidas ás guarnições vermelhas, onde foram expostas á maior deshonra e aos instinctos bestiaes dos soldados. Um jornalista francez viu cadáveres pendurados ás arvores das avenidas e ás igrejas. Um inglez Mr. Hayward viu uma mocinha cortar a cabeça a um padre doente. Em Barcelona 80 igrejas foram saqueadas e destruídas, a Eucharistia lançada ás ruas. Houve uma procissão sacrílega na qual os communistas se vestiam com paramentos sacerdotaes. Construíram fogueiras para queimar as imagens, estatuas e livros sagrados. Um suisso viu soldados bolchevistas cortarem um padre em pedaços. No convento das Visitandinas 7 freiras foram ligadas a fios elétricos e eletrocutadas. [...] Quando as tropas vermelhas achavam uma imagem ou qualquer objecto religioso numa casa, era isso um motivo para matar toda a família. Numa casa os bolchevistas acharam um padre, mataram não só o padre, mas também todas as pessoas da casa. Esta lista dá apenas uma pequena parte dos horrores commetidos pelos communistas. Só mais tarde, quando os Nacionalistas estiverem no poder saberemos o que a Espanha soffreu sob o terror bolchevista. (MARANHÃO, 24/10/1936, p.3) Claro que não é possível separar certos aspectos da vida sobre os quais se manifestaram os defensores da “sociedade cristã e democrática”, como eles mesmos se identificavam. Fazemos isso apenas para efeito de análise numa tentativa de enxergar 72 Diga-se de passagem, foi a própria experiência nos campos de batalha da Espanha, da qual participou ao lado dos republicanos que inspirou o autor de 1984, além é claro, das movimentações e alinhamentos das grandes potências para e durante a Segunda Guerra Mundial. 133 melhor algumas nuances dentro do vasto repertório de referências simbólicas que são mobilizadas para significar de um determinado modo o fenômeno do comunismo. O caso espanhol é muito referenciado porque, dentre outras coisas, guardaria para os sujeitos que escreviam e comentavam as matérias uma semelhança muito grande com a própria sociedade brasileira, o que os levava a fazer uso desses relatos para demonstrar o que poderia ocorrer no Brasil caso os comunistas alcançassem o controle do país. O destaque é sem duvida o aspecto religioso. A herança católica, a história desses dois países (Espanha e Brasil) estaria inextricavelmente ligada à historia da Igreja Católica. Como muitas vezes afirmavam os jornais: era a “própria nacionalidade” que estaria em perigo nesse momento que os comunistas avançavam sobre a Espanha, saqueando e destruindo igrejas, assassinando barbaramente padres e freiras, violando moças e acabando com famílias inteiras. 134 5. CONCLUSÃO Como uma primeira característica do corpus analisado podemos destacar, por um lado, a pouca variação no emprego dos recursos argumentativos em relação ao fenômeno do comunismo e do comunista. No sentido de que os jornais procuravam sempre negativizar ou pejorativar esses referentes. Caberia aqui uma ressalva em relação ao jornal Tribuna que, até novembro de 1935, teve uma postura diferenciada, muitas vezes simpática ao movimento aliancista, em geral apontado como de caráter comunista pelos outros veículos. Mas isso se explica pelo fato de ter, entre seus jornalistas, membros da ANL. Por outro lado, percebemos, por parte dos jornais, uma utilização variada da temática do comunismo, dado a ler, no entanto, a partir de significados bastante precisos de ameaça à ordem social, representando o “gérmen” da destruição dos valores e tradições mais caros da sociedade brasileira. Desse modo, a manipulação do tema comunismo irá desempenhar funções diversas no campo das práticas não discursivas: faz-se uso do espectro comunista na disputa entre as facções políticas (das quais os jornais eram os porta-vozes) para obter e/ou sustentar posições de mando, como no caso em que os marcelinistas tentaram justificar a aprovação de medidas administrativas e orçamentárias no governo de Aquiles Lisboa, e, depois, a própria permanência deste no cargo, alegando a preservação da “família maranhense” face à “ameaça vermelha”; utilizam-se representações anticomunistas também para difundir um certo medo na população através das imagens aterradoras de que “tudo ia se tomá” para dividir entre os comunistas ou, ainda, quando se demonstrava, segundo os jornais, a violência e crueldade inatas dos mesmos (exemplificadas pela Guerra Civil na Espanha e, principalmente, pela Intentona Comunista no Brasil); o comunismo, ou melhor, o significado específico que foi hegemonizado pela imprensa como sendo o comunismo, desempenhou um importante papel no processo de legitimação social da própria imprensa, que se colocou perante a “Pátria” como defensora dos valores nacionais. A imprensa se coloca de um modo geral como responsável por manter a sociedade informada dos fatos, buscando alertar para os supostos perigos que ameaçariam a ordem social e política estabelecida. Por um lado, ela busca afirmar sua auto-imagem enquanto órgão de informação pautado pela imparcialidade e objetividade dos fatos narrados, o que se vê pelo uso frequente de um discurso de cientificadade, citando autoridades da área ou mesmo procurando demonstrar que, no caso dos seus jornalistas, se 135 tratavam de observadores imparciais que observavam in loco a Rússia. Mas por outro lado, fica clara a sua posição de instituição defensora do status quo, invariavelmente ligada a uma facção política do Maranhão, ao mesmo tempo procuravam sempre ligar-se ao governo central do país, reclamando para si a condição de aliado incondicional no combate aos inimigos do regime brasileiro. Até mesmo Tribuna se mostraria disposta a apoiar as ações do governo no sentido de reprimir os extremismos. O tema dos extremismos é um dos pretextos mais acionados, a exemplo da ORDEM de Astolfo Serra que, defenestrado do jogo político por conta das pressões das diversas facções, tentava ainda manter-se nesse concorrido espaço da política maranhense. Ele mesmo ilustra ainda um dos principais usos do comunismo levado a cabo na conjuntura política dos anos 1930, qual seja, a acusação de que se era comunista. Frequente na esfera da política profissional, encontramos exemplos também de um cidadão comum que buscava se precaver dessa acusação tornando público, através de nota na imprensa, de que não eram comunista. A disseminação de alarmes sociais servia para reforçar o controle sobre as mobilizações ou organizações políticas consideradas extremistas, a exemplo da ANL, ou mesmo para justificar a proibição legal delas, caso do próprio PCB. As “instituições pátrias” são outro conjunto de questões muito acionadas pelos jornais. O exemplo da Família poderia ser destacado. Segundo uma quantidade considerável de matérias fica explícito que esta instituição seria inapelavelmente esmagada sob o regime comunista, transformando-se a mulher em simples objeto que deveria ser socializada entre os homens, devendo ainda participar como operária das grandes obras de construção empreendidas pelo Estado comunista e também, se necessário, combater como soldado nas guerras levadas a termo pelo “comunismo infernal”. Seguindo esses apontamentos delineados pela pesquisa, nos arriscamos a propor duas conclusões principais. Na primeira afirmamos que a imprensa de São Luís na década de 1930 procurou se colocar enquanto elemento de mediação entre os leitores e o que seria o comunismo, materializado em alguns exemplos que ela mesma fornecia: a Rússia, que foi o principal referente mobilizado nas explicações acerca da “verdadeira realidade” vivida sob o regime comunista; o caso espanhol, devido às supostas semelhanças com a sociedade brasileira, ilustraria, segundo os jornais pesquisados, ainda mais forte e vivamente as possíveis conseqüências que adviriam ao Brasil caso fossem bem-sucedidas as inúmeras tentativas de subversão, complôs e insurreições que, segundo 136 os jornais, estariam sendo empreendidas pelos “impatrióticos” e “criminosos” comunistas brasileiros. A comprovação definitiva dessa ameaça se daria com o que os veículos impressos, usando entre outros qualificativos, denominavam de: “sangrenta”, “covarde”, “sinistra”, “maldita” “intentona comunista” de novembro de 1935. Em todos esses casos a imprensa, de maneira geral, vai se posicionar como “fiel registradora” dos “acontecimentos”, dos “fatos”. Nesse processo ela produziu e reproduziu diversas representações acerca do comunismo e do comunista. Em torno das estratégias discursivas de que ela se utilizou para formular e disseminar essas representações é que se encontra a segunda conclusão deste trabalho. Acreditamos que tais estratégias estão pautadas pelo discurso de autoridade que a imprensa procurou mobilizar em relação à questão do comunismo. Esse discurso foi sendo apresentado de formas variadas. Algumas vezes se enfatizava o fato da imprensa expressar a “opinião pública”, arvorando-se como defensora dos “mais nobres valores” da “nacionalidade”, reunidos geralmente sob a forma de slogans e/ou palavras de ordem como “Deus, Pátria e família”, a “defesa da ordem”, da “liberal-democracia”, da “educação das novas gerações”, etc. Em outros casos são acionadas idéias como a de objetividade e cientificidade: seja através da fala de certas autoridades da ciência ou da literatura (escritores e sociólogos a quem a própria imprensa reconhecia entre “os mais respeitados” da época); seja por intermédio de jornalistas correspondentes que teriam estado pessoalmente no palco dos “acontecimentos” (Rússia e Espanha) e desse modo, tinham testemunhado os “fatos” e seriam “imparciais” e “sinceros” em seus relatos; seja, ainda, nos próprios editoriais e artigos que procuravam “provar” de maneira cabal que o comunismo não se adequaria à realidade brasileira, em vista do que também se justificava a repressão policial. Em todas essas situações se tornam recorrentes os apelos à idéia de que a imprensa apenas mostrava a verdade dos fatos, ou seja, a realidade. 137 REFERÊNCIAS ALCÂNTARA JÚNIOR, José. O conceito de sociabilidade em Georg Simmel. In: Ciências humanas em revista / Universidade Federal do Maranhão. São Luís, 2005. v.3, nº2. ALMEIDA, Alfredo W. Berno de. A ideologia da decadência: leitura antropológica a uma história da agricultura do Maranhão. Rio de Janeiro: Casa 8/ Fundação Universidade do Amazonas, 2008. ALMEIDA, Maria Isabel de Moura. O anticomunismo na imprensa goiana: 1935-1964. Dissertação de mestrado defendida no Programa de Pós-graduação em Sociologia/UFG, 2003. BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. 7ª Ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2004. _______________. A linguagem autorizada. In: A Economia das Trocas Linguísticas: o que falar quer dizer. São Paulo: EDUSP, 1996. BURITY, Joanildo. 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