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A MASCULINIDADE HEGEMÔNICA

NA CULTURA BRASILEIRA

RESUMO
Este trabalho, eminentemente teo n co , pretende articular algumas teorizações recentes
provenientes da Antropologia Cultural e da Psicologia Social brasileira acerca da masculinidade
hegemônica no contexto brasileiro.

Palavras-chave: masculinidade - identidade - gênero.

THE HEGEMONIC MASCULINITY IN THE BRAZILIAN CULTURE

ABSTRACT
This theo retical article intends to link some recent views from Brazilian Cultural Anthropology and
rhose from Social Psychology concerning hegemonic masculinity in Brazilian society.

Key Words: masculinity - identity - gender.

. Antropólogo. Mestrando em Psicologia Social - Universidade Federal de Minas Gerais. Email: marleoni@yahoo.com.br

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REVISTA DE PSICOLOGIA, FORTALEZA, V.20(I), P. 28-41, JAN.lJUN.2002
INTRODUÇÃO suposto básico é de que as condutas sexuais são
social e culturalmente desenvolvidas e orientadas
A presente reflexão acerca daís) masculinidade(s)
(BOZON et al, 1995; GIDDENS, 1993). En-
almeja ser um exercício antropológico de cunho psi-
quanto terreno cultural, a vida sexual e afetiva é
ológico. Portanto, em momentos mais tenros da cons-
dada em contextos históricos e geográficos especí-
tituição da disciplina antropológica era comum se referir
ficos, e está sujeita aos mesmos instrumentos de
a uma 'Antropologia Política', da Religião, etc., e nos
análise propostos pelas teorias sociais com referên-
parece que há pessoas que ainda insistem em falar de
cia aos processos econômicos e políticos, por exem-
uma Antropologia do Gênero, da Mulher ou, agora,
plo. Tal postura pode ser, em parte, debirável a uma
do Homem. A Antropologia não deve ser encarada
perspectiva construtivista na Antropologia atual.
como um aglomerado de 'gavetas' temáticas que se
Esta proposição se baliza na contribuição dos es-
recharn em especialidades metodológicas ou teóricas:
tudos de FOUCAULT (1993), entre outras, que
o invés disso, defendemos a proposta de uma
propõem ser o sexo socialmente construído e que
rnologia J compromissada.
merece ser lido através de causas culturais e soci-
O presente trabalho se propõe a realizar
ais. A sexualidade não deve ser tomada per se, mas
ma leitura psicoantropológica acerca dos te-
associada a acontecimentos históricos, materiais e
mas referentes à sexualidade masculina e ao gê-
culturais, que hoje em dia estão orientados por uma
• ero, instâncias que permitem apreender as
mentalidade 'pós-moderna'.
ogicas das organizações humanas, suas dinâmi-
Em A História da Sexualidade 1, Michel
.a de ação, seus meios de expressão e os relacio-
FOUCAULT (1979) toma como objeto de aná-
. amentos dos indivíduos entre si. Antes de
lise o processo que conduz à constituição daquilo
aI quer coisa devemos perceber a inviabilidade
que ele denomina 'dispositivo da sexualidade',
e atualmente se produzir uma Antropologia ide-
que em linhas gerais se origina a parrir de um
izada, 'romântica', que se pretende isenta de
movimento social de singularização que elege a
uaisquer juízos de valor ou imune às trajetóri-
sexualidade como eixo estrururado r da pe soa.
a de vida dos pesquisadores. Há que se minar
Isso acontece com a modernidade, sendo que na
~ se tipo de ilusão, que só contribui para carica-
camadas mais 'privilegiadas' tem seu desenvol-
ru rar e estereotipar a referida Ciência, e inibe os vimento mais expressivo e visível. A sexualida-
forços legítimos de sistematização e sofisrica- de, desta forma, se torna autônoma e se
câo teórica não só na Antropologia, como nas desenvolve enquanto produto - e produtora -
i Ciências Humanas. de transformações no nível sociocultural, com
A sim, tomamos a 'sexualidade' neste texto destaque ao terreno do individualismo em suas
b uma ótica mais ampla, sendo que, ao contrário várias facetas: psicológica, jurídica, econômica,
i so, ela vinha se constituindo objeto de vários es- política, etc. A sexualidade hoje, sob a égide do
orços de rígida sistematização e enquadramento te- Indivíduo, tem se tornado o próprio âmbito pri-
orico. Visualizamos o surgimento e desenvolvimento vilegiado deste, tornando-se um complexo ca-
deste campo com o advento da 'modernidade'. Esta paz de sintetizar atributos fundamentais da
nova forma busca compreender as múltiplas possi- identidade pessoal e que por isso mesmo codifi-
bilidades de representar e viver o sexo encompassadas ca nossas principais referências sociais. Enfim, a
egundo 'lógicas' que não são determinadas exclusi- sexualidade transformou-se em um foco de pro-
'amente por traços psíquicos ou biológicos, sendo dução de significados e verdade para os indiví-
que atualmente, nas Ciências Humanas, um pres- duos na modernidade".

Entendendo aqui 'etnologia' enquanto a análise e compreensão de ma etnografia, que, por sua vez, significa uma coleta de
dados descritiva acerca da vida social e cultural de uma cole ividade qualquer. Seu fundamento mor é a comparação e a
apreensão de significados (VELHO, Gilberto, 1985).
~ :lar modernidade podemos aplicar a definição de Anthony GIDDENS em The Consequences of Modernity (1990): seria o
~ncípio da sociedade Ocidental pós-século XVIII por excelência, caracterizando-se pelo racionalismo das relações sociais e
na produção e pela crescente individualização da pessoa. No aspec o econõmico se caracteriza pela industrialização em
--'assa, tendo seu ápice com o capitalismo financeiro.

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Pós-modernidade e multiplicidade de Giddens, Marilena Chauí, Daniel Welzer-Lang,
gêneros Chrisropher Lasch. Tal mudança no perfil dos
esrudiososías) deste tema pode ser pensada como
É inegável o crescimento e, ainda mais, o re- um reconhecimento da importância do gênero
conhecimento da produção científica sobre gêne- como 'uma variável cada vez mais explicativa dos
ro no Brasil a partir dos anos 60. Tendo sua gênese
processos sociars. .
nas preocupações feministas em denunciar a opres-
A existência de revistas dedicadas a ques-
são sofrida pelas mulheres, os estudos de gênero
tões de gênero, centenas de dissertações de
questionam, entre outras tantas coisas, a idéia de
mestrado e teses de doutorado, núcleos e grupos
'natureza' feminina (e masculina) e reforçam a con-
de trabalhos em reuniões científicas, livros, refle-
cepção de que as características atribuídas à mu-
te o amadurecimento desta linha de estudos den-
lher - e ao homem - são, na verdade, socialmente
tro e fora do Brasil. O marco simbólico foi a
construídas. Portant~, neste raciocínio diferencia-
publicação do clássico O Segundo Sexo, de Simo-
se o sexo (dimensão biológica dos seres humanos)
ne de Beauvoir, em 1949.
do gênero (um construto social), sendo um ins-
Por outro lado, estas investigações abriram
trumento profícuo para mostrar que os comporta-
um espaço de reflexão sobre grupos estigmatizados
mentos, sentimentos, desejos e emoções, vistos
socialmente, como prostitutas, homossexuais,
como parte de uma essência masculina ou femini-
travestis e transexuais, assuntos considerados
na, são produtos de um determinado contexto his-
interessantes para um público cada vez maior,
tórico e/ou geográfico. Mas o que mudou para que
sendo que, ao lado dos estudos érnicos, são os
estes estudos, antes desprestigiados e considerados
que mais atingem o grande público, ou seja, ambas
pouco científicos pelos acadêmicos mais ortodo-
as temáticas são as que mais atraem a sociedade
xos, adquirissem legitimidade e visibilidade tão
extra-acadêmica, contribuindo para tornar o
ampla?
pensar universitário útil de alguma forma. Desta
O debate neste campo tem se intensificado
forma, os estudos referentes aos afro-brasileiros
e permitido cada vez mais a convivência - nem
(bem como a outras etnias) e os estudos de gênero
sempre pacífica, mas bastante enriquecedora - de
têm tido considerável espaço nos meios de
múltiplas posições. e inicialmente a preocupação
comunicação de massa.
dominante era a de denunciar as discriminações e
Em suma, ajudando a entender melhor de-
violências sofridas pelas mulheres e homossexuais,
terminados fenômenos sociais, ampliando seu le-
hoje existem autores que acreditam que as
que de questões, sendo objeto de atenção da
diferenças entre os sexos estão desaparecendo (fala-
mídia, os estudos de gênero passaram a ser perce-
se até de uma androginização do indivíduo pós-
bidos como um produto importante para o mer-
moderno) e há também aquelas(es) que apontam
cado editorial que tem publicado inúmeros títulos
as conquistas femininas como as principais
sobre a temática em questão. Um dos assuntos
responsáveis por uma suposta 'crise e transformação
que mais tem atraído a atenção deste mercado
da masculinidade'. Em suma, a problematização
editorial é a chamada 'crise da masculinidade',
do conceito de gênero, colocando em xeque sua
merecendo não apenas a publicação de livros
própria existência, tem tornado a discussão muito
como também artigos em jornais e em revistas de
mais complexa e elaborada teoricamente no
grande circulação.
presente momento.
Durante décadas os estudos de gênero fo-
ram realizados quase que exclusivamente por pes-
Os gêneros da masculinidade
quisadoras feministas, passando, nos últimos anos,
a despertar o interesse de pesquisadores não mili- Embalada pela crítica feminista dos anos 70,
tantes assim de antropólogos(as), sociólogos(as), a noção de gênero emerge no cenário acadêmico
psicólogos(as) e historiadoresías) renomados(as), balizada na constatação de assimetrias - visíveis
como, por exemplo, Pierre Bourdieu, Anthony pela perspectiva comparativa - no âmbito das de-

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terminações culturais de 'sexo'. A Antropologia Portanto a categoria gênero emerge no ce-
se apropria imediatamente deste instrumental nário acadêmico-científico como sustentáculo des-
intelectual, vendo nele promessas de renovação tas transformações e bastante comprometida com
de sua vocação para a desnaturalização da vida o movimento político do feminismo. Conforme
ocia!. Esse conceito então surge como o pilar da assinalam as críticas engajadas, este compromisso
'Antropologia da Mulher', capaz de explicar os por muito tempo custou o ofuscamento dos ho-
atribu tos culturais que orientam as condutas dos mens enquanto atores lídimos de roda esta temática
exos em situações sociais. Gênero está, portan- nos estudos antropológicos. Os Womens studies, em
to, desde sua inauguração enquanro espaço de re- seu viés militante, relegaram as masculinidades a
Flexão acadêmica, relacionado às disposições um patamar intocável e homogeneizado, a um
morais socialmente atribuídas em contextos cul- status de dominante. Como ressalta Miguel V. de
rurais específicos, não redutíveis à base biológica ALMEIDA, a abordagem feminista deste período
ornecida pelo sexo. "ao tornar o masculino em equivalente implícito
Observamos que a temática da masculinida- do social retirou-lhe autonomia e possibilidade de
de se apresenta como um campo incipiente dentro desconstrução crírica" (ALMEIDA, 1995:129).
desta área de investigação maior constituída pelo David Gilmore também sustenta esta ad-
ênero, mas mesmo assim vivencia pontos de moestação e de maneira ainda mais contundente:
efervescência e de passagem obrigatória, mesmo para "rnuch of the recent cross-cultural research is not
aquelesfas) que se debruçam especificamente sobre only about women, but by women, and in some
o feminino/mulher (ALMEIDA, 1996). O mais sense, for women" (GILMORE, 1990:2).
contundente dentre estes ponws fulcrais talvez seja Parece que o equívoco desta postura inicial,
que diz respeito ao seu relacionamento com a já arredia em relação à masculinidade, deveu-se em
:nencionada 'Antropologia da Mulher' - produções grande parte ao contexto e às trajetórias de vida da-
ue têm como marca a crítica aos essencialismos em quelas antropólogas pioneiras e aos instrumentos
zorno do sexo e que se consolidaram num mornen- teórico-analíticos utilizados. Maria L. Heilborn vê
zo no qual as transformações acontecidas no con- o ideário individualista, pertinente ao contexto cul-
texto sociocultural do Ocidente viabilizaram tural moderno do Ocidente, como determiname
rásricas posturas políticas encabeçadas pelas m u- deste tipo de abordagem, em que a apreciação da
eres. A estas coube uma verdadeira luta, encarna- problemática feminina através das idéias de 'opres-
a no movimento organizado do feminismo, pela são' e 'dominação' aconteceria dentro da dinâmica
zonsolidaçâo de direitos econômicos, jurídicos, se- das esferas da vida social - família, sexualidade, re-
xuais, emocionais e culturais igualitários frente à di- produção - cada vez mais autonomizadas. Esta au-
-erenciação nas relações com os homens. Anthony tonomia crescente em relação às instituições redunda
Giddens percebe este momento como marcado pelo no centramento da pessoa na categoria de indiví-
ue ele chama de uma 'transformação da intimida- duo, no Eu (HEILBORN, 1993).
e'. Segundo o autor, esta mudança consiste na pas- Em acréscimo podemos pensar que também
- gem do 'amor romântico', que em muito tolhia havia a manipulação de uma idéia estreita da no-
ânsias femininas em detrimento das demandas ção de poder - e dominação - que, "aplicada a gê-
os homens, ao ideal do 'relacionamento puro', nero", ocultava a dimensão fundamentalmente
o qual ocorre a ampliação das acepções de sexua- relacional desta categoria; gênero e poder eram
idade. A sexualidade, de agora em diante, tende- concebidos numa lógica fechada, a partir de
ria a não estar mais vinculada exclusivamente à dicotomias excludentes como dominantes x domi-
reprodução, seria uma realidade cada vez mais nados, opressores x oprimidos, homens x mulhe-
'e locada da moral coletiva, tendo como foco res. Tal pensamento é banido com as proposições
.manador o Eu, que operou mudanças que di- deslanchadas por Michel FOUCAULT, ao tomar
em respeito mais que a ambos os sexos, mas à as relações de poder sob um prisma multifacetado
rópria dinâmica da vida social e também às es- na forma de redes difusas de forças que agem so-
_ uras de gênero (GIDDENS, 1993). bre as ações sociais (FOUCAULT, 1979).

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Posteriormente Pierre Bourdieu também re- ... rarely involves tests orproofi ofaction,
força tal abordagem, com sua teoria e prática, e or confrontations with dangerous fles;
lança luzes neste mesmo sentido ao tratar de A Domi- uiin-or-loose contests dramatically played
naçãoMasculina, embasada por seus dados etnograficos out on the public stage. Rather than, a
da Argélia. De acordo com Pierre BOUROIEU, as critical threshold passed by traumatic
relações de dominação são inevitáveis na vida so- testing, an either/or condition, ftmininity
cial, fazem parte do processo instaurador que é is more often construed as a biological
ciassificarório por excelência, e que por si só já é given th at is culturally refined or
hierárquico. Em suas palavras, augmented(GILMORE,1990:12).
... dans les rapports sociaux de domination Cabe lembrar que GILMORE (1990) assume
et d'exploitation qui sont institués entre ser uma tarefa difícil delimitar esta elaboração do 'ser
lessexes, et dans les cerveaux, sous Iafor- homem' numa proposta transcultural. Quanto a esta
me des principes de di-vision qui problemática optamos por uma perspectiva mais
conduisent à classer toutes les choses du conjugada, na qual seria impossível supor o apaga-
monde et toutes les pratiques selon des mento das contribuições até agora formuladas pela
distinctions réductibles à l'opposition 'Antropologia da Mulher'. Assim sendo, compreen-
entre le m asc ulin et le féminin, le demos aquela polarização como uma disputa emi-
systême mytico-rituel est continúment nentemente política, retrato de um momento de
confirmé et legitimé par les pratiques efervescência do feminino, Porém reconhecemos que
mêmes qu'il détermine et légitime hoje, ao invés de promover a dicorornia 'homem x
(BOURDIEU, 1972: 7-8). mulheres', os(as) intelectuais se referem a 'homens &
mulheres'. Por conseguinte, acatar totalmente a pro-
Retomando a relação Antropologia da Mu-
posta de David Gilmore seria incorrer nos moldes do
lher e masculinidade, apontamos que Oavid
referido maniqueísmo, agora sob o broquel dos mens
Gilmore radicaliza as objeções aos primórdios da
studies. Por outro lado, seu trabalho não deixa de cha-
literatura feminista, sugerindo que havia uma
mar a atenção, já que salienta o fato de também o
quase total desconsideração para o projeto de uma
masculino não é algo dado simplesmente pela reali-
incursão invesrigativa pela masculinidade. Seus
dade anatõmica, e sim adquirido em específicos e
ressentimentos se concentram na especificidade
complexos processos de socialização.
desta literatura inicial, que ignorava o fato de que
Neste aspecto não seria incorreto afirmar
o masculino também é uma realidade social
que a masculinidade é algo frágil (ALMEIDA,
consrruída, problemática e relaciona!. Desta for-
1995). Chegando a ilações semelhantes por vias
ma, a masculinidade, para GILMORE (1990),
de reflexão distintas, HEILBORN (1993), inqui-
apresenta-se desafiante, tendo em vista os proces-
rindo-se sobre a proeminência do masculino na
o de sua elaboração e consolidação nas diversas
cultura Ocidental, também assevera acerca desta
ociedades por ele arroladas em suas pesq uisas.
fragilidade. Para a autora, o masculino no plano
. 'a ornparaçâo de informações de um gran-
simbólico precisa superar o feminino, que repre-
de univer o ernozra ias o autor procurou res-
senta sua condição originariamente submissa, ten-
altar in e corno o -ário tipos de
do em vi ta a relação biogenética entre mãe e filho.
drarnari i a e o roem o 'er-
Em uas próprias palavras:
dadeiro hom n In-
tuito maior foi en o ar - ro - ndas da ... a cultura rejeita a possibilidade do par
masculinidade, arq é '. - a o om ulina. mãejilho poder engendrar outra geração.
Ao acentuar sua per pe -' -a c em rela ão aos O interdito do incesto abomina a produ-
estudos de mulheres, -o iza enralrnenre ção de uma imagem autoftcundante da
as dificuldades impostas ao em sua socia- mãe, o que importaria negar não só a tro-
lização, que diferem das di - e encontradas ca, fundamento do social, como a condi-
na construção da feminilidade: e ta última ção de sujeito do filho. Na verdade, isso

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significa dizer que o masculino carece seria reduzir um campo fértil de alteridades a uma
alijar-se do encompassamento original. massa uniforme de organismos biológicos, postura
Donde (..) a importância verificável em esta que vem sendo duramente combatida desde o
múltiplas culturas em favor dos ritos de início pela Antropologia, que condena as generaliza-
iniciação masculina - muito mais elabo- ções de largo espectro tanto quanto a idéia de socie-
rados que osfemininos ... (HEILBORN, dade global, apoiada na noção de relarivisrno cultural.
1993: 68). Logo, postula a pluralidade das identidades, tanto
Tal posicionamento teórico da autora, ex- masculinas quanto femininas.
cetuando-se o ponto de vista acerca das militan- Ao tomarmos a masculinidade e a feminili-
dade de maneira desnaturalizada e, assim, como
tes feministas, é bem próximo daquele adotado
metáforas de poder e capacidades de ação acessí-
por Camile Paglia, que usa os termos 'femealidade'
veis a ambos os 'sexos' (ALMEIDA, 1996), pode-
e 'hombridade', distinguindo-os de feminilida-
mos vislumbrar múltiplas possibilidades e
de e masculinidade: segundo ela, estes dois últi-
combinações de papéis e de identidades de gêne-
mos termos seriam mais abrangentes, construções
ro. Os estudos referentes a esta ternática têm,
culturais referentes a gênero que existem em todas
portanto, que levar em consideração as formas
as sociedades, manifestando-se de formas diferen-
sociais de expressão que autorizam alguém a ser
tes. Já a femealidade e a hombridade são constru-
considerado 'homem', e o que cria a variabilida-
ções culturais tipicamente ocidentais. A seguinte
de destas modalidades nas práticas cotidianas.
passagem deixa evidente esta aproximação entre as
Retomando o que já fora dito anteriormente,
duas teóricas:
gênero, de maneira um tanto particular, apresenta a
o clímax dramático ocidental foi pro- propriedade de permear todas as outras categorizações
duzido pelo agon da vontade masculi- de identidade social do sujeito. Significa uma catego-
na. A ação é a rota de fuga (. ..), mas ria social de apreensão do mundo real e assim como
toda a ação completa o círculo e retorna tempo e espaço funciona como um princípio
às origens, o útero-túmulo (. ..). Édipo, classificatório capaz de conferir significado ao ensí-
tentando escapar de sua mãe, corre di- vel e, assim sendo, trespassa o outro níveis da iden-
reto para os braços dela (. ..). Para o tidade: etnia, classe, religião. aixa etária etc.; desta
homem, todo ato sexual é um retorno à feita, as propostas de investigação ientí ica que gi-
mãe, no sexo o homem é consumido e ram em torno do zênero repre entam um desafio,
novamente liberado pelo poder 'denta- por proporem uma incursão nos inrersrícios da mas-
do' que o deu à luz. A femme fatale foi culinidade com outras variáveis socioculturais. Di-
produzida no Ocidente pela mística da zendo de outro modo: ao se buscar compreender
ligação entre mãe e filho (PAGLIA como ocorre o processo dinâmico de construção,
1992: 23-24). desconstrução e reconstrução daís) masculinidadeís)
Assim, o caráter dominante da hombridade no Ocidente moderno, devemos estar atentos/as para
(masculinidade ocidental) exige constantes reafirmações as interferências e determinações de ordem etária,
e uma grande disciplina e aurocontrole para a manu- étnica, de classe, de grau de escolaridade, orienta-
tenção de um status, o que lhe impõe duras provas. ção sexual, entre outras tantas. Isso equivale a dizer
Em vista disso sustentamos que são várias as masculi- que são várias as formas de ser homem, de se jogar
nidades, e a referida 'hornbridade' é uma delas. Iden- com os atributos de gênero que dizem o que é e o
tificar-se como homem - ou mulher - não é que não é 'hombridade'.
irnplesmenre função, ou mesmo uma elaboração Talvez por isso seja difícil estudar a mas-
complexa de atributos fisiológicos, sendo que todo culinidade com um paradigma exclusi-
esse processo social toma caminhos específicos e ar- vo. Em última instância todas as
bitrariamente definidos segundo suas próprias lógi- perspectivas contribuem num ou nou-
cas de formação e reprodução. Não considerar isso tro aspecto (ALMEIDA, 1995: 130).

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o postulado acima nos faz refletir que a cate- como le em as relações de gênero através
goria gênero, justamente devido a sua ampla área da dere o eras morais que orientam a ação
de abrangência, não opera isoladamente. No nível tendo em vi ta as categorias simbólicas que regem
da práxis se entrecruza com as demais classificações a construção de te domínio (de uma masculinida-
culturais de identidade, sendo condicionadora e de geral, sem homens). O que propomos é atentar
condicionada em relação a elas. Este é um fator que às masculinidades concretas - como são vividas no
reforça o protótipo teórico de múltiplas masculini- contextos sociais. Desta forma, o mapa simbólico
dades assumindo complexos e diversificados vetores que recorra o real, fornecido pela lógica do siste-
na interaçâo social concreta - nos embates cotidia- ma de gênero, não deve ser compreendido com
nos nos quals os sUjeitos entram em contato. um fim em si, como uma 'chave mágica' para a so-
As trajetórias de vida funcionam então como lução de todos os problemas da análise sociocultural.
elaborações produtoras do gênero, bem como Logo, na interpretação das categorias simbólica
atualizam na realidade o sistema abstrato de gênero devem ser somadas as práticas que as dinamizam
vigente na sociedade. A análise de qualquer (HEILBOR ,1994).
masculinidade carece, pois, conjugar estrutura e Há que se ter cuidado de não incorrer no erro
prática (ou estrutura e história, global e local, micro de um determinismo das estruturas; olhar para aqui-
e macro, social e psíquico), articulando o contato lo que é ser homem, portanto, é lobrigar para as múl-
constante entre a lógica cognitiva que orienta a ação tiplas determinações socioculrurais que são vividas por
e as práticas contingentes que estão a selecionar, pessoas reais. É focalizar as maneiras como se organi-
excluir e reformular aquelas categorias simbólicas zam hierarquicamente, atentar às múltiplas identida-
- partes integrantes da lógica geral. des, às expressões psíquicas e aos sentimentos vividos
Compreender como acontece, num con- na interação cotidiana. Cabe aos antropólogos e aos
texto específico, esta coabitação dos esquemas psicólogos sociais (em especial) que se debruçam sobre
inconscientes de pensamento - orientados por as masculinidades procurar aqueles critérios segundo os
um princípio social de divisão que classifica o quais homens concretos são culturalmente diferencia-
real segundo oposições entre masculino e femi- dos. Categorias e critérios estes que obviamente não ema-
nino, e as práticas, as situações sociais que, em nam exclusivamente de estruturas inconscientes
sua infinita variabilidade e riqueza, criam rami- a-históricas e imutáveis, e sim de uma realidade mais
ficações, afirmações e situações de reprodução dinâmica e inreracional, onde são constantemente to-
das estruturas cognitivas - é o desafio maior de mados e retomados, acatados e reavaliados, empre-
todos/as aqueles/as que se debruçam sobre este gados e abandonados. Em síntese, há que se buscar
insólito terreno acadêmico. Salientando este as- a inrer-relação entre estrutura e prática
pecto, Marshall Sahlins acredita que há
... ao nível da negociação cotidiana, das
... uma interação dual entre a ordem interaçõ es carregadas de poder, das
cultural enquanto construida na soci- rejormulações das narrativas de vida
edade e enquanto vivenciada pelas pes- (ALMEIDA, 1996: 164).
soas: a estrutura na convenção e na
Logo as ignificações do que é ou não é um homem
ação, enquanto uirtualidade e enquan-
são várias e estão empre sendo negociadas, reforçadas e/
to realidade. Os homens em seus pro-
ou questionadas, exigindo por isso reafirmações
jetos práticos e em seus arranjos sociais
ritualizadas e estereotipadas constantemente. São
submetem as categorias culturais a ris-
fluxos sociais inrerativos, em nada estanq ues.
cos empiricos (SAHLINS, 1994: 8).

Isto aponta para uma outra distinção impor-


tante quanto às estratégias de análises e que urge
Masculinidade e corporalidade
ser lembrada. Uma coisa seria enfocar a masculini- Até o presente momento deslocamos a cons-
dade enquanto lógica cognitiva e classificadora, tra- trução da masculinidade de toda relação com uma
tar abstratamente sobre as maneiras arbitrárias base biológica, dos atributos físicos. Entretanto,

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o corpo deve ser considerado nestas formulações. Desta maneira, os corpos são alvos de
Por isso o consideramos como uma base concreta objetificação destas estruturas marcadas por pa-
sobre a qual se investe o social. Admitir esta idéia res de oposições que
implica entender o corpo não como um fim, um
... enferme les hommes et lesfemmes dans
dado, mas como um meio variável de expressão
un cercle de miroirs qui réfléchissent
de caracteres socialmente determinados, meio este
indéfiniment des images antagonistes,
que é moldado de diversas maneiras. Nestes ter-
mais propes à se valider mutuellement
mos, diferentemente dos culturalistas radicais, não
(BOURDIEU, 1972: 10).
entendemos o corpo enquanto 'criado', inventa-
do pela cultura, mas sim como uma matéria-pri- O peculiar destas distinções classificatórias ar-
ma amorfa que as sociedades moldam, formatam, ticuladas e informadas pelas relações de gênero, e
atrofiarn, expandem, cada uma à sua maneira. que se materializam nos corpos de 'homens' e 'mu-
Conforme sugere Marcel Mauss, devemos ter em lheres', é a maneira como se espraiam por toda a
mente a idéia de técnicas corporais para bem com- paisagem social. Sendo categorias de apreensão do
reender este processo social de 'modelagem' do real, se difundem e permeiam todas as instâncias,
~orpo. Tais técnicas corporais então seriam fazendo com que o terreno social pareça um terreno
naturalizado. É a concorrência destas estruturas
... as maneiras como os homens, socie-
cognitivas às estruturas objetivas que possibilita a na-
dade por sociedade e de maneira tradi-
turalização das relações hierárquicas instiruintes do
cional, sabem servir-se de seus corpos
plano social. O conceito de habitus, que retoma a pro-
(MAUSS, 1974: 211).
blemática da mediação no debate entre objetivismo e
Os corpos são produtos de práticas culturais que fenomenologia, parece ser adequado para compreender-
onstroern tanto simbolicamente, como foi por nós mos os corpos socializados. Por conseguinte, este concei-
monstrado nas observações anteriores acerca da mas- to é delineado como um
- idade, quanto materialmente - ambos os aspectos
... sistema de disposições duráveis, estru-
manifestam no corpo transformando 'machos' em ho-
turas estruturadas predispostas a funcio-
. A partir dos indícios teóricos deixados por David
narem como estruturas estruturantes, isto
ore e por Miguel V. de Almeida, é lícito afirmar que
é, como princípio que gera e estrutura as
ornem requer habilidades específicas.O fato de se ser
práticas e as representações que podem ser
mente reconhecido como homem é sustentado ba-
objetivamente 'regulamentadas' e 'regula-
camente por meio de habilidades discursivase corporais
das' sem que por isso sejam o produto de
'naturais'. este sentido a masculinidade é uma expressão
obediência a regras objetivamente adap-
o discurso e também do discurso enquanto prática, ma-
tadas a um fim, sem que se tenha necessi-
rerializado (FOUCAULT apud ALMEIDA, 1995). E
dade da projeção consciente deste fim ou
neste 'idioma' da masculinidade o corpo é um elemento
do domínio das operaçõespara atingi-Io,
expressivode discursividades que se manifestam na rigo-
mas sendo, ao mesmo tempo, coletivamen-
sa disciplina dos gestos, dos modos de falar de se vestir,
te orquestradas sem serem o produto da
atitudes frente às situações de inreração social e as
ação organizadora de um maestro"
_ oções. Assim, o mundo social trata os corpos como
(BOURDIEU apud ORTIZ, 1986: 15).
ma pense-bête:
Disto decorre que as práticas orientadas pe-
II y inscrit, sous Ia forme notamment
las estruturas e relações de gênero - bem como
de principes sociaux de division que le
por outros sistemas sociais de classificação e de
langage ordinaire condense dans des
poder - vêm reforçar e justificar estas próprias
couples d'op ositi ons, les catégories
estruturas que as informam. Desta forma, é cor-
fondamentales d'une vision du monde
reto afirmar que
(ou, si l'on préfere, d'un systême de
ualeurs, ou d'un systéme de préferences) ... é em termos destas distinções que os
(BOURDIEU, 1972: 11). homens e mulheres constroem mais ela-

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•• DE PSICOLOGIA, FORTALEZA, V.20(1), P. 28-41, JAN.lJUN. 2002
ramente seus mais significativos e mais Masculinidade(s) brasileira(s)
profundos entendimentos de si própri-
Várias clivagens podem ser percebidas nes-
os, tanto como indivíduos como mem-
te terreno da masculinidade, ainda que sejam mais
bros de uma ordem social particular
infreqüentes do que aquelas que acontecem no
(PARKER, 1991: 104).
âmbito da feminilidade, sendo que um dos moti-
As próprias marcas corporais que definem vos para isso é que o masculino está mais imbuí-
homens mulheres, que encontram seu sentido do de valor social positivo, desta forma há uma
na lógica binária de classificação, são as mesmas maior relutância na sua tran formação e uma
que alimentam a reprodução desta ordenação sim- maior articulação homogeneizadora em torno dos
bólica entre masculino e feminino. Assim, a ex- seus vários atributos.
periência corpórea vivida é naturalizada, o que Mesmo que isso ainda não ocorra tão am-
significa dizer que homens e mulheres, exercen- plamente, a mídia noticia casos de homens que
do seus respectivos papéis sociais, o fazem 'natu- cuidam dos filhos sozinhos, casais gays alugando
ralmente', segundo lógicas que dizem respeito a barrigas para realizar o desejo de ser pai, homens
direrrizes socioculturais. É através destes corpos que brigam na justiça pela guarda dos filhos e até
socializados que o passado se reproduz, sendo que a possibilidade de homens virem a engravidar em
tais corpos funcionam como bases existenciais da um futuro próximo. Além disso, um direito que
culrura (ALMEIDA, 1995). São, porquanto, ins- era negado ao homem, o de ser afetivo a acompa-
nhar o crescimento de seus filhos (mesmo direito
trumentos a reforçar desigualdades entre homens
que era negado aos seus filhos, obrigados a verem
e mulheres, e transpondo estas diferenças para um
no pai uma figura violenta ou ausente), agora não
plano onrológico, tornam-se a essência e a justi-
só é permitido como estimulado.
ficativa desta assimetria. Sendo assim, a domina-
Roberro Da Marta frisa a importância da
ção masculina se faz e se perpetua nestes termos.
relação entre casa e rua na organização do uni-
ão necessita de uma explicação para, frente à
verso simbólico brasileiro (DA MATTA, 1985),
'óbvia' inferioridade feminina, se afirmar.
articulação teórica que é de suma importância
A assirnerria fundamental se expressa então
para entendermos a masculinidade e a femini-
na 'técnicas corporais', reproduzindo-se no espaço
lidade no referido contexto. Sua argumentação
e no tempo. Quanto a isso, nota-se delinear em re-
flui pela demarcação de um 'espaço moral' tra-
lação ao sistema de gênero duas dimensões que lhe
çado pela oposição entre as categorias de casa e
são co nstirutivas: como já foi tratado, tem-se gêne-
rua ': assim,
ro com uma 'carrilha' social, um princípio de classi-
ficação ordenador do real, idéia abstrata, sem Quando (...) digo que 'casa' e rua sao
homens ou mulheres, e por outro lado, gênero como categorias sociológicas para os brasilei-
um produto da pessoa, conecrando a dimensão sim- ros estou afirmando que, entre nós, es-
bólica à sua conrrapartida material, à corporalidade, tas palavras não designam simplesmente
noção ligada ao terreno confuso e sujeito a riscos espaços geográficos ou coisas físicas
da vida 'mais real, como defende 'lar hall comensurdueis, mas acima de tudo en-
SAHLI S (1994). Gênero e, por con ezuinre. a tidades morais, esferas de ação social,
dominação masculina ancoram- e tanto na dimen- províncias éticas dotadas de positividade
são simbólica, quanto na imagem da pe oa. on- ( . .) capazes de despertar emoções, rea-
dição concreta de expressão desta lógica. ões, leis ... (198 5: 12) .

3 DA MATTA (1997). ao lembrar de alguns fatos marcantes de sua lntãncra e a e ena cidade do interior de Minas. nos deixa
importantes indícios para se compreender a estrutura simbólica da mascul rudade. U dos signos é a obsessão dos meninos com
o tamanho do pênis já que "ter o pênis grande era sinal de orgulho e marca de asc ínidade" (p. 41). Obsessão esta que gerava
concursos para medir o tamanho do pênis. Ainda segundo o autor: "Diz-se no Bras que, numa situação de confronto, um homem
vai decidir tudo 'mostrando o pau', isto é, apresentando o seu falo para os ou ros homens implicados no conflito. Do mesmo modo
ele lembra que 'dar porrada', 'meter o pau' em alguém denotam agressão e ou depreciação de outra pessoa.

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Esta dicotornia estabelece uma lógica ordenadora ção do marido. O direito ao voto feminino no Bra-
real que o divide em público e privado, sendo que sil, conquistado em 1932, teve opositores ferrenhos
Brasil são âmbitos que não devem se misturar, e que diziam que a 'única missão da mulher deveria
da, o privado é 'confundido' com doméstico. Este consistir em ser o anjo tutelar da família'. É interes-
cimo espaço, privado/doméstico, é a esfera da ordem sante olhar estas matérias buscando encontrar o
icional fundada na assirnetria articulada pela ideo- 'bode expiarório' do momento para as 'angústias'
~la patriarcal. Ao homem cabe prover econornica- masculinas: de forma nada sutil, o trabalho femini-
nre este âmbito, local de retiro e paz, de no e o aumento do poder da mulher no seio famili-
oal izaçâo", informalidade, orquestrado pela ar são apontados como os responsáveis pela ausência
her. A calma e o ritmo feminino da casa têm como cada vez maior do homem em casa, assim como pelo
tO a impessoal idade e o dinamismo da rua, este enfraquecimento de sua imagem (leia-se poder) di-
. círculo dominado por homens. É preciso ser forte ante dos filhos.
melhor que o resto' para se sair bem neste arnbien- Em suma, o homem moderno, segundo os
ostil e competitivo, onde apenas os verdadeiros meios de comunicação, não apenas está em crise, mas
• igos têm 'vez', daí a importância dada pelos ho- também está sendo ameaçado de extinçâo, E a mulher
ens à camaradagem e às fraternidades - oficiais, pode ser apontada como uma das principais
_ mo o exército ou a maçonaria, ou informais, como causadoras do desaparecimento da 'espécie'. Os textos,
torcidas organizadas de futebol. Tal como aponta de diferentes formas, assinalam que a crise de
irado popular, neste âmbito vigora, especialmente identidade que os homens atravessam foi, em grande
- ociedades 'mediterrânicas', a seguinte menrali- parte, provocada pela mudança no papel das mulheres.
de: "aos amigos tudo, aos inimigos a lei". É interessante analisar tais tipos de matérias, bem
como muitas revistas femininas que repetem,
exaustivamente: 'o homem tem medo de mulher
. lídia: o masculino em questão independente', 'o homem se sente ameaçado com as
conquistas femininas', 'o homem está inseguro e frágil
De acordo com a mídia de grande circulação no porq ue perdeu sua iden ridade'. Estas falas e discursos
. as mudanças na casa e na família brasileira, como consolidam a idéia de que a mulher independente
menro da participação da mulher na divisão de representa um perigo para a masculinidade e é
nsabilidades e a crescente ausência do homem têm dererrninante da crise que tanto o homem quanto a
do confusões prejudiciais às crianças. Entre as con- família tradicional atravessam. Esta mulher, ao
.ências está a delinqüência juvenil. Uma matéria contrário de er percebida como uma parceira, uma
re este assunto estava na primeira página da Folha companheira que pode tirar de seus ombros uma série
-io Paulo de um domingo (1/11/98): Ausência do de obrigações que lhe eram exclusivas, é vista como
-I Cria Confosão nos Filhos. Desta forma, as rnudan- uma rival, disputando seu poder, seu emprego,
no comportamento da mulher estariam a nublar' pri -ile ios e uas regalias: uma inimiga, uma rival a
_ a tumultuar a demarcação entre público e privado. er -encida.
OCa) leitorta) do referido artigo rapidamente Corroborando a precedente análise, temos o es-
nclui que a 'culpa' é das mulheres que trabalham rudo sobre as mulheres que são amantes de homens
ra e que criaram uma confusão no homem e na casados, As Outras. Naquela ocasião Míriam
ília e, portanto, incentivaram a delinqüência ju- GOLDENBERG (1997) ouviu o outro lado, o mas-
nil. Esta matéria recente repete e reforça, explici- culino. Isso porque é mais comum mulheres estuda-
mente, os mesmos argumentos dos que eram rem mulheres, homens heterossexuais estudarem
nrra o voto feminino e o trabalho da mulher fora homens heterossexuais, gays estudarem gays, fato que,
lar há quase um século. O Código Civil Brasilei- além de causar um certo estigma ao pesquisador que
de 1917, reservava à mulher casada um estatuto 'não' investiga o grupo a que pertence (se ela estuda a
roral submissão à autoridade do marido, o que a outra é porque deve ser a outra ...'), produz uma com-
dia de ter conta bancária em seu próprio nome preensão limitada dos papéis desempenhados por ho-
er qualquer vínculo de emprego sem autoriza- mens e mulheres na cultura brasileira. Então, saindo

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deste lugar-comum com esta pesquisa, realizada com Um dos elementos consrituidores da masculini-
homens universitários de idades entre 30 e 50 anos, dade hegemônica ocidental, e mais especificamente da
moradores da Zona Sul do Rio de Janeiro, a autora hombridade mediterrânea, é o comportamento 'don-
percebeu que muitos estereótipos a acompanhavam. juânico': João Silvério Trevisan (1998) explica o don-
Quanto a isso, procurou rrilhar o pensamento de juanismo como uma busca obcecada e insatisfatória
Michel Foucault: de novas aventuras, que gera a 'infidelidade típica do
macho' ocidental e mais especificamente do homem
Existem momentos na vida onde a questão
latino, estereótipo tão disseminado que, em muitas
de saber se sepode pemar diftrentemente do
culturas, acabou se tornando evidência de virilidade.
que se pensa, e perceber diferentemente do
I to posto, entendemos que o conceito de 'masculi-
que se vê, é indispemável para continuar a
nidade hegemônica' aponta para valores e conjuntos
olhar ou a refletir (FOUCAULT apud
de significados que ordenam a apreensão do mundo
GOLDE BERG, 1997: 189).
segundo uma lógica de divisão e distribuição desi-
Portanto, não permaneceu ouvindo apenas gual de poder enrre os gêneros. A masculinidade
as mulheres. o tou que precisava aprender um hegemônica subentende outras masculinidades sub-
pouco mais sobre os homens. E neste sentido, um metidas a ela numa relação de subordinação, sendo
dos aspecws que mais chamou a atenção da autora esta assimetria consensualmente vivenciada pelos su-
foi o faw de que todos os homens entrevistados se jeitos sociais, onde os dominados (estas outras manei-
perceberem como fora do modelo de masculini- ras de ser masculino e todos os 'femininos') participam
dade. Com relação ao número de parceiras sexu-
de sua própria dominação na medida em que defendem
ais, alguns tiveram apenas uma, enquanw outros (verbal e cornportamentalmenre) a legitimidade de ape-
afirmaram que tiveram mais de cem. Todos, no en-
nas uma masculinidade.
tanto, acreditavam estarem 'fugindo' da regra, afir-
Assim sendo, esta masculinidade hegemônica
mando que seus amigos 'transararn' com muito
reproduz para o interior da 'masculinidade' (conceito
mais mulheres. Também aqueles que nunca tive-
generalizante) as relações hierárquicas de dominação
ram relacionamentos extraconjugais acreditavam
que estruturam a idéia de gênero na interaçâo entre
que eram exceção, julgando que seus amigos tive-
masculinidade/s dominante/s e feminilidade/s subal-
ram vários casos e aventuras mesmo amando as es-
terna/s. Há, deste modo, masculinidades múltiplas e,
posas. Em vários momentos da pesquisa os
assim, há um grande abismo entre a proposta
nrrevistados demonsrraram o medo de serem acu-
hegemônica e as possibilidades de atualizações concre-
sados de 'vi ad o s' ou 'afeminados' por não
corres ponderem ao modelo (ideal) de virilidade do
tas deste modelo. °
conceito hegemônico é uma res-
posta cultural acabada, completa e inatingível, que
brasileiro, ao mesmo tempo em que, paradoxal-
mente, acusavam os homens com tal performance jamais é encontrada numa pessoa integral e concreta-
de 'rnachistas' e 'galinhas'. mente. Como define Miguel V de Almeida:
Cabe aqui mencionar outro conceito essencial
A masculinidade hegemônica é um modelo
para se entender a masculinidade: é a noção de
cultural ideal que, não sendo atingível- na
'hegemonia' que deriva das formulações de GRAMSCI
prática e de forma consistente e inalterada
(apud VELHO, 1986) sobre a política nas relações en-
- por nenhum homem, exercesobretodos os
tre as classes sociais. Em consonância com tal conceito
homens e sobre as mulheres, um efeito
está a idealização de 'um' masculino geral, manifesta
controlador(ALMEIDA, 1996: 163).
pelos entrevistados da autora:
... a noção gramisciana de hegemonia Assim, surgem algumas dificuldades na vida dos
tem sido particularmente importante homens, pois a sua experiência social é justamente o diá-
para chamar a atenção para os aspectos logo por vezes difícil entre a complexidade polimorfa dos
ideológicos da dominação em contraste seus sentimentos e comportamentos e o maniqueísmo
com a visão reificada do puro domínio dos padrões (ALMEIDA, 1995). São oprimidos pela
daforça (VELHO, 1986: 134). sua dominação, o que não deixa de ser preferível, ten-

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do em vista o que ocorre com as mulheres, que são mente desviantes. Podemos sentir, facilmente, uma os-
subjugadas por um modelo que a princípio não é o cilação entre um modelo tradicional de gênero e, ao
eu. Necessitamos pesar também que mesmo tempo, o desejo de inventar e questionar os com-
portamentos e papéis sexuais existentes. Conseqüente-
... para os homens é mais difícil inven-
mente, cada indivíduo pode sofrer na pele o dilema de
tarem outras formas identitárias, pois,
mudar ou permanecer, confuso entre o medo de ser di-
seguindo opensamento dicotômico, a al-
ternativa que resta é a inferior, femini- ferente dos demais e a liberdade de poder ser tudo o que
deseja. Esta ambigüidade se reflete na mídia e se traduz
na (ALMEIDA, 1995: 247).
em muitas dificuldades que heterossexuais, homossexu-
Nestes termos, e da mesma forma como tarn- ais e bissexuais devem enfrentar em seu cotidiano.
ém foi apresentada anteriormente enquanto uma Desta maneira, o homem dos anos 90 e do
nstância lógica da ordenação das interações de gêne- século XXI parece ocupar o espaço de reflexão que
ro, visualizamos uma masculinidade que é instável. teve a mulher nos anos 60 e 70, tanto no mundo
Carece, pois, de sustentação contínua, de constantes acadêmico quanto fora dele. Os debates nos progra-
e reperitivos mecanismos de reafirmação, ritos
mas de televisão são outro reflexo desta mudança de
reiterativos que são os responsáveis pelo caráter nota-
enfoque. Na verdade, continua a preocupação com
.elmente performático e ritualizado, algumas vezes
os mesmos temas - tais como a distribuição desigual
eirando a esrereoripia, das relações entre os homens.
de poder,· mas que a cada momento ganham uma
Aqui merece ser introduzido o conceito de
nova roupagem. É interessante observar como estas
esmapeamento proposto por FIGUEIRA (1985), ex-
preocupações, antes restritas a grupos de elite, expan-
emarnente útil para analisar a presença de ideais apa-
diram-se para todos os setores sociais, ainda que com
renremenre contraditórios no masculino atualmente:
forças diferentes.
nostalgia da segurança advinda da posição superior e
d.!orizaçãode um relacionamento sem vínculos obri-
_ órios e sem o desgaste do cotidiano podem, contra-
CONCLUSÃO
_'oriamente, conviver na mesma pessoa. De acordo
_ m o autor, as mudanças sociais são rápidas e 'visf- Tendo em vista esta situação, não é de estranhar a
" não sendo acompanhadas no mesmo ritmo e in- matéria publicada no O Globo (31/1/1999) que anuncia
en idade pelas subjetividades individuais, que o verão de 1999 como sendo O Verãoelos 'Espadas'. A
orporaram práxis 'modernas' sem eliminar ethos'tra- matéria afirma que 'espada' é a nova gíria do Rio de Janei-
ionais', que permanecem invisivelmente atuantes ro e que veicula a idéia de masculinidade nos anos 90. É
entro dos sujeitos. Esse descompasso entre aspectos um termo recuperado dos círculos dos playhoyselegantes
iveis e invisíveis das relações de gênero leva à coexis- dos anos 50, e e fundamenta num ícone guerreiro euro-
ncia de mapas, ideais e normas contraditórias que peu. A gíria espada, para o psicólogo Sócrares Nolasco,
iuiras vezes é insuportável. A convivência do ideal lembra os heróis medievais e está sendo usada pela
oleto', que permanece ativo e poderoso num pla- nova geração como uma tentativa de revalorizar a vi-
inconsciente, com um ideal 'de vanguarda' no pla- rilidade, em um momento em que a figura do ma-
consciente gera este desmapeamento. Apesar desta cho está tão desgastada.
igüidade, motivo de desorientação e sofrimento
uico, a sociedade reforça ilusoriamente a idéia de O homem heterossexual branco está inti-
as pessoas são livres para optar, escolher e cons- midado. Houve uma atualização da ima-
r eus estilos de vida e relacionamentos. gem social da mulher, do negro, do
Se, de um lado, percebemos que continua a exis- homossexuaL. O homem continuou como
r uma esrigmatização daqueles que são percebidos como era. Nesta nova ordem do mundo, ele vi-
desvio do modelo dominante, como os hornosse- rou o opressor,opoliticamente incorreto.A
ais (sobretudo os de orientação sexual passiva e/ou espada é uma representaçãodo guerreiro, é
êminados), de outro, inicia-se um reconhecimento, e viril, resgataaforça e ostatus (NOLASCO,
te mesmo valorização, destes comportamentos social- 1995: 74).

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Alguns homens, no entanto, parecem não que- ditando que o futuro aponta para o predomínio das
rer ser 'espada' e optam por descobrir novas possibili- relações bissexuais, quando o sexo biológico terá me-
dades de 'ser homem'. São pessoas que reconhecem e nos importância do que a pessoa pela qual se está apai-
contribuem para as mudanças que o comportamento xonado e/ou desejando. Elisabeth BADINTER (1986)
masculino vem sofrendo. Para João S. TREVISAN já discutiu esta possibilidade em Um É o Outro, bem
(1997), muitas dessas mudanças podem ser vistas como como Camille PAGLIA (1996) em Vamps 6- Vadias.
produto dos espaços conquistados pelos homossexuais Para a socióloga francesa, homens e mulheres estariam
masculinos que então se abriram para os heterossexuais, cada vez mais próximos e indiferenciados, sem traços
tais como a utilização de roupas mais descontraídas, ca- culturais marcados como exclusivamente femininos ou
belos compridos ou pintados, brincos, cuidados com a masculinos.
aparência e o corpo e, até mesmo a possibilidade de fa- Os estereótipos do homem 'viril' e varonil e da
zer cirurgia plástica por razões puramente estéticas. mulher feminina e delicada estariam, nesta perspectiva,
âo é à toa então que artigos de jornais e de sendo pulverizados. Não existirá mais um modelo obri-
revistas, assim como seriados (Will 6- Grace) e filmes gatório e rígido, mas uma infinidade de modelos possí-
americanos (A Razão do Meu Afeto), mostram que o veis. Curiosamente, é esta liberdade para escolher entre
gay passou também a ser objeto de desejo de algumas uma rnultiplicidade de comportamentos e de identida-
mulheres, aquelas que também fogem dos estereóti- des, e a conseqüente responsabilidade que ela acarreta,
pos. Um exemplo disso é a declaração, hoje clássica, que parece estar assustando homens e mulheres. Eles e
da pop star Madonna à revista gay norte-americana elas demonstram ter medo de perder as regras e classifica-
Advocate (1990). Segundo a controvertida atriz e can- ções cerceadoras (porém seguras) que tornavam relati-
tora, 'todo homem deveria sentir a língua de outro vamente previsível saber como se comportar, o que
homem na boca pelo menos uma vez'. Tudo isso de desejar e que papéis cumprir. Hoje, tanto as opções
um modo ou de outro (pois até mesmo o fato de se afetivo-sexuais. quanto as profissionais estão cada vez
condenar declarações como estas faz com que se pen- mais infinitas e flexíveis, e as escolhas podem provocar
se sobre elas), favorece o desmapeamento anterior- verdadeiro pânico do desconhecido.
mente citado. Em epítome, o que demonstra a profusão destas
Considerando, tal como postula KIMMEL modificações é que aquilo que era visto como um tema
(1998), que tanto a masculinidade hegemônica quan- periférico nas Ciências Humanas e Sociais hoje é esti-
to a feminilidade ideal produzidas pela sociedade pa- mulado por financiamentos e concursos, criando um
triarcal são 'imperceptíveis' àqueles que tentam obtê-Ia can1pOfértil de estudos. Talvez isso signifique que a mas-
como ideais de gênero, pode-se dizer que o que vem culinidade, ao contrário de estar em crise, se tornou uma
ocorrendo atualmente é uma maior consciência crítica questão a ser pensada e debatida. Algo que era entendido
das experiências e visões de mundo consideradas espe- como natural, o poder do 'macho', passou a ser questio-
cíficas de homens e mulheres. Papéis considerados nado, objeto de crítica, ou melhor, problematizado por
como masculinos, como, por exemplo, o homem pro- homens e mulheres. Até recentemente, como lembra João
vedor, chefe de família, e aqueles tidos como exclusi- .TREVI (I 998), homens heterossexuais não se jul-
vamente feminino orno a posa, mãe exemplar, gavam passíveis de discussão acadêmica ou mesmo no
dona de casa -o n o r a u..a o por outro atri- senso comum. Hoje tende-se, ainda que lentamente,
butos como homem e I "ai o o e ernorivo e para uma não existência de um único modelo como
mulher forte, empreen ora coraio Este jogo per- única referência de masculinidade para todos. O
mite observar, nitidamente a oexis ência de mode- 'rnachisra' é, agora, alvo de risos e críticas.
los tradicionais de ser homem mulher e novas
representações sobre o mas ino e sobre o femini-
no, traduzindo-se em múltiplo padrões ornpetin- BIBLIOGRAFIA
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ALMEIDA, Miguel Vale de. Senhores de si: uma in-
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