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MARCUSCHI, Luiz Antônio. Gêneros textuais no ensino da língua.

In: ______, Produção


textual, análise de gênero e compreensão. São Paulo: Parábola Editorial, 2008.

O professor Luiz Antônio Marcuschi, nascido em 1946 e falecido em 2016, foi


doutor em filosofia da linguagem (1976) e pós-doutor em problemas de língua escrita e oral
(1987), ambos na Alemanha. Foi professor titular em linguística do Departamento de Letras
da Universidade Federal de Pernambuco, onde iniciou suas atividades em julho de 1976,
lecionando na graduação e na pós-graduação. Na UFPE, criou o Núcleo de Estudos
Linguísticos da Fala e Escrita. Dentre outras funções que desempenhou em vida, publicou,
entre artigos e livros, um vasto material sendo muitos deles pioneiros na área da Linguística.
Em Produção textual, análise de gênero e compreensão, o autor utiliza uma linguagem
formal, porém acessível e muito clara, cada capítulo contém um título referente ao que será
abordado e todo conteúdo é focado nos gêneros textuais.
No capítulo “Gêneros textuais no ensino da língua”, Marcuschi dá inicio ao trabalho
afirmando que é inegável que as publicações em torno da questão dos gêneros textuais
aumentaram muito nos últimos anos e também comenta que há uma “explosão” de estudos na
área que com isso, virou moda. Por mais que muitos trabalhos sejam de grande valiosidade,
são repetitivos e pouco proveitosos. Contudo, esse estudo dos gêneros textuais não é uma área
nova e o autor ratifica que há vinte e cinco séculos uma observação desta temática iniciou-se
com Platão (a tradição poética) e com Aristóteles (a tradição retórica). Surgiu,
especificamente com este último citado, uma teoria mais sistemática sobre os gêneros e sobre
a natureza do discurso.
No subcapítulo “O estudo dos gêneros mostra funcionamento da sociedade” o autor
alega que cada gênero tem um propósito claro que o determina e assim lhe dá uma esfera de
circulação e todos têm uma função e uma forma, um estilo e um conteúdo, entretanto o que
determina basicamente é a função e não a forma.
Seguindo, ele menciona algumas correntes adotadas no Brasil sobre os estudos dos
gêneros textuais onde temos várias tendências de tratamento que vai desde a linha bakhtiniana
alimentada pela perspectiva de orientação vygostskyana socioconstrutivista da Escola de
Genebra, passando pelo pensamento “swalesiano”, na linha da escola norte-americana mais
formal e influenciada pelos estudos de gêneros de John Swales (1990), incluindo uma linha
marcada pela perspectiva sistêmico-funcionalista de Halliday da Escola Australiana de
Sydney, com interesses na análise linguística dos gêneros, até uma quarta perspectiva menos
marcada por essas linhas e mais geral, com influências de Bakhtin, Adam, Bronckart, entre
outros.
Mais adiante, na parte “Noção de gênero textual, tipo textual e domínio discursivo”,
ele defende que “é impossível não se comunicar verbalmente por algum gênero, assim como é
impossível não se comunicar verbalmente por algum texto” (p. 154). Diante disso, o autor
explica que quando dominamos um gênero textual, não dominamos uma forma linguística e
sim uma forma de produzir linguisticamente objetivos típicos em ocasiões sociais
particulares. E também, exemplifica os atos retóricos praticados nos gêneros mostrando-nos
uma carta pessoal, enumerando as sequências tipológicas deste gênero textual, entre outras
coisas como afirmações que demonstram a noção com seus respectivos aspectos quanto às
funções, propósitos, ações e conteúdos.
No subcapítulo “Gêneros textuais como sistema de controle social”, ele diz que os
gêneros textuais são a nossa forma de inserção, ação e controle social no dia-a-dia. Que isto é
incontornável, mas não determinista, pois “a romântica ideia de que somos livres e de que
temos em nossas mãos todo o sistema decisório é uma quimera, já que somos imersos numa
sociedade que nos molda sob vários aspectos e nos conduz a determinadas ações” (p.162).
Nesse contexto, ele afirma que a língua é uma atividade sociointerativa de caráter cognitivo,
sistemática e instauradora de ordens diversas na sociedade.
Em “A questão da intergenericidade: que nomes dar aos gêneros?”, Marcuschi
aponta um caminho a se chegar à denominação dos gêneros informando que o espaço, por
algumas características específicas sugestivas, o qual o texto aparece, da a entender e nos
permite determinar, sem muita exatidão, cujo gênero se trata. Comumente utilizaremos um
desses parâmetros: forma estrutural, propósito comunicativo, conteúdo, meio de transmissão,
papeis dos interlocutores e contexto situacional.
Avançando mais um pouco, uma questão importante é sobre o suporte de gêneros
textuais, que ele dedica quatorze páginas para discutir e tipificar os suportes portadores dos
gêneros que ainda não existem, segundo ele, estudos sistemáticos a respeito dessa questão. O
modo de manifestação de material dos discursos (MAINGUENEAU apud MARCUSCHI, p.
173) “diz respeito tanto ao modo de circulação como ao modo de consumo dos gêneros e
ainda mais ao modo como são estabilizados para serem “transportados” eficazmente” (p. 173-
174). E então ele elucida dizendo que o suporte é uma superfície física de uma feição
particular que suporta, fixa e mostra o texto. Essa concepção envolve três aspectos: suporte é
um lugar (físico ou virtual), tem formato específico e serve para fixar e mostrar o texto. E, é
convencionalizado podendo assim contribuir ao gênero. Todavia, a distinção entre suporte e
gênero, nem sempre é feito com precisão. Para isso, ele explica que “há suportes que foram
elaborados tendo em vista a sua função de portarem ou fixarem textos” (p. 177) e então dá
alguns exemplos de suportes convencionais analisando-os e discutindo sua natureza. Contudo,
ele pondera: “Não se trata de uma classificação nem de um levantamento exaustivo” (p.178).
E enumera pontuando suas características, dando exemplos como, livro, jornal, revista, rádio,
televisão, telefone, outdoor etc. Não se esquecendo de exemplificar alguns suportes
denominados de incidentais, aqueles “que são apenas meios casuais e que emergem em
situações especiais ou até mesmo corriqueiras, mas não são convencionais” (p.183). Como as
embalagens, para-choques e para-lamas de caminhão, roupas, corpo humano (tatuagem) etc.
Além disso, Marcuschi também dá exemplos de serviços em função da atividade
comunicativa, como: os Correios, e-mail, mala-direta, internet etc.
No subcapítulo “Análise dos gêneros na oralidade”, o autor se atém aos gêneros
textuais da oralidade, “uma área na qual os estudos não são abundantes” (p.186). Os falantes
utilizam-se da compreensão de três grandes sistemas cognitivos para processar seus textos
(HEINEMANN & VIEHWEGER apud MARCUSCHI, p. 187). Esses três âmbitos do saber
são: saber linguístico, saber enciclopédico e saber interacional. São esses processadores que
operam como mecanismo que ativam a produção, segundo o autor. A partir disso, ele segue
formulando sua tese sobre a discursividade oral.
Após isso, ele faz correlações e considerações sobre a análise de gêneros textuais na
relação à fala e escrita tentando observar essa relação F-E numa visão antidicotômica,
sugerindo uma análise histórica, de origem das práticas sociais e sua funcionalidade.
Partindo dessas reflexões, o autor sugere distribuições sistemáticas acerca dos
gêneros sem necessariamente fazer classificações, mas propondo um quadro geral seguindo
critérios gerais e subdividindo a produção textual entre fala e escrita sobre as denominações
variadas que se submeteriam a uma análise em “Domínios discursivos e gêneros textuais na
oralidade e na escrita” em que uma breve relação não é definitiva nem representativa, à
medida que demonstra os gêneros textuais por domínios discursivos e modalidades. “Esta
lista é reveladora de um aspecto singular: há domínios mais produtivos em diversidade de
formas textuais e outros mais resistentes. Além disso, se fôssemos fazer um quadro
considerando culturas diversas, teríamos grandes surpresas. Pois há culturas em que situação
se inverteria totalmente em relação ao que se tem nesses quadros. Por fim, parece que hoje há
mais gêneros textuais na escrita que na fala” (p.196).
Sobre “Os gêneros emergentes na mídia virtual e o ensino”, Marcuschi faz indagação
sobre como a escola deverá se ocupar de como se produz um e-mail, por exemplo, ou se ela
não deve se atribuir a esse papel. Então, ele afirma mais a frente que “a comunicação mediada
por computador abrange todos os formatos de comunicação e os respectivos gêneros que
emergem nesse contexto” (p.199). Entendendo assim que a internet assumiria no futuro a
carga semântica e pragmática, como surgimento de um novo tipo de comunicação, hoje, em
franco desenvolvimento.
Diante da multiplicidade de gêneros que ora se apresentava, o autor desenvolve “A
questão dos gêneros e o ensino de língua” e interroga-se se existe algum gênero ideal para a
sala de aula ou se existe algum mais importante que os outros, o que “os próprios PCNs têm
grande dificuldade quando chegam a este ponto e parece que há gêneros mais adequados para
a produção e outros mais adequados para a leitura” (p. 206). Daí, ele discorre sobre a visão
dos Parâmetros Curriculares Nacionais e uma análise dos manuais de ensino de língua
portuguesa que “mostra que há uma relativa variedade de gêneros textuais presentes nessas
obras” (p. 207).
Nos subcapítulos finais, o autor posiciona-se sobre “A visão dos PCNs a respeito da
questão dos gêneros” diante das expectativas do ensino dos gêneros em relação às
adequações, às circunstâncias de uso da linguagem, às questões dos “Gêneros textuais na
língua falada e escrita de acordo com os PCNs” quanto aos critérios que têm sido usados para
estabelecer essas distinções. E comenta sobre os gêneros textuais em sala de aula e as
“sequências didáticas”, do qual ele fala sobre os procedimentos de realizar todas as tarefas e
etapas para a produção de um gênero e traça um esquema dessas sequências didáticas a serem
desenvolvidas no processo de produção.
Para finalizar, o autor apresenta “A proposta de Bronckart” que em L’enseignement
des discours (2001) “lembra que os textos são um objeto legitimo de estudo e que a análise de
seus níveis de organização permite trabalhar a maioria dos problemas relativos à língua em
todos os seus aspectos” (p.221). Para a elaboração de uma série didática, Bronckart propõe
práticas em quatro etapas: elaborar um modelo didático, identificar as capacidades adquiridas,
elaborar e conduzir atividades de produção e avaliar as novas capacidades adquiridas. Sobre
os aspectos apontados, Marcuschi desenvolve elucidações e reconhece que se pode ir bem
mais além e tratar de muitos outros apontamentos. “Uma sequência didática pode dedicar-se a
observar também questões específicas relacionadas a gêneros” (224).

Resumido por Lennon Marques dos Santos – Disciplina Linguística textual – 7º Bloco –
2018.1 – UESPI – Universidade Estadual do Piauí.