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ll()ri nlr i'l)()crl dt'strgc|ir', n() l)r'('s('nt(', rrrrr ltrlril,r 1rossívt'l t1r-rc [rão cstá

('()rtll)l('liul)cltt('rlroll(), urtt:t lirthrt tlt' Ítrtrrlizirç.i() (lu('( ()rrtinLra â pcrsistil'


rr<r rrúrclco rncsmo do atual. E desse ponto de vista que convém, talvez,
t-orrsitlcrar hoje os jogos vetoriais: menos por sua capacidade de nos re- DesprogramaÍ o Íuturo'
vt'lrrr r-rn.r cstaclo originário do videogame que por seu potencialucrôníco.
l)avid Lapoulade
( l()n.r rr scgLlinte consequência: não é certo que a morte natural dos jogos
vt'toli:ris telrha eliminado a tendência profunda do videogame que se ma-
nili'stava através deles. Outros dispositivos estão sendo inventados neste
rr r ( ) r1 c n [o. B as ta pensar ern Child of Eden, a op er a sinestésica rcalízada p or
r

'li'tsr-rya Mizuguchi, o autor de Rez'. ali reencontramos, numa encenação


tlrrt' bcira o kitsch, todos os elementos do estilo gótico e linear dos antigos
jogos vetoriais. Mais que um piscar de olho aos aficionados do gênero, é
rr prova de que o futuro do jogo vetorial - o futuro que era ou podia ser "O futuro não é mais o
«» clcle - continuou a levar uma existência surda e paralela ao longo dos O que Valéry quer dizer quando afirma:
vou analisar o papel
iur()s lc)9o e 2ooo. q.," .rr;'? Que sentido dar a essa frase célebre? Não
os paradoxos que se
.rsa frase desempenha em Valéry, nem explorar
(.1r,"
do seu contexto e tentar
POB UM RETBOFUTUBISMO OBJETIVO poderia tirar dela- Ao contrário, vou separá-la
compreendê-la como uma proposição para
o pensamento' Para a vida'
que o futuro
As observações precedentes, a despeito de seu curso meandroso, ti- para nós,hoje, aqui e agora' O que quer dizer afilmar hoje
menos duas coisas: ou que
n lrrr rn por finalidade, no fundo, introduzir uma ideia bastante simples em não é mais o que era? Pode querer d:zer pelo
de uma novidade radical
scLr princípio: o retrofuturismo pode ser considerado uma propriedade o futuro oferece daqui por diante possibilidades
não apenas o futuro'
rbsoluta, e não um efeito de perspectiva temporal ligado ao enraizamen- sem precede.rr.r, q.r"r" i.tesperadas, que modificam
to histórico da consciência num presente necessariamente transitório. rnas a própria ideia que podemos fazer do
futuro; ou' ao conttârio' que o
preenchíamos no passado
'li'ata-se, em suma, de defender a hipótese de um retrofuturismo objethto, ltuturo se esvaziou das possibilidades com que o
ou melhor' saturado de
portanto não nostálgico, um pouco à maneira como Stendhalpodiadizer c se apresenta a nôs i.,t'p"t'd'mente vazio -
esperanças' É netse sentido
clc Shakespeare que ele era, já em sua época, plenamente romântico, e r-rma realidade que aniquila todas as nossas
que nos falam Jo "fi* à" utopias"' Se o futuro
isso antes mesmo do aparecimento do romantismo histórico. Do mesmo não é mais o mesmo' é
utopias que o povoavam'
nrodo, pode-se dizer que um estilo arquitetônico, um filme, um romance, porque seu horizonte se esvaziou de todas as
lrm projeto de artista, é retrofuturista nele mesmo, pela maneira como Se, no primeiro caso, o futuro ultrapassa nossas esperanças' no segundo
àssume o presente com seus futuros virtuais. O retrofuturismo não se cle deixou de ser uma tazáo de ter esperança'
de Valéry tem por objeto
rcduz a esse movimento segundo o qual o presente
volta com nostalgia se Seria um erro, Porem, acreditar que a frase
das aparências' Então' do
ou condescendência às antecipações formadas pelos homens do passado: o futuro. Ela nada diz sobre o futuro, apesar
uma espécie de ava-
cle pode ser produzido diretamente no presente, em consideração - por que ela fala? Ela se aPresenta antes de tudo como
não seja outra colsa
que não? - de tempos fururos. liação do presente; talvez aideia mesma de futuro

r Tradução de Paulo Neves

233
ll (llie é0 retrofuturismo? IntroduÇâo aos Íuturos virtuais
s('ni() .rl) lo 1,1ç.t,,.111,,. ( )1,r, o (llt(.(.unl tlilrgrr(tstico? Sit[x,ntos
r/irtqrtrí.rlirtr
r ,lctivos («rpcrários, ;rlunos, prisioneiros, loucos, doentes) são substituí-
tlrrc sii,,snróclicrs 11r-rt'tli:rgrr.sri(.rr, sir(, t.lt,s tlut.r.t,vclam
os sirtt.mats, ,l,rs pol bancos de dados. Constituímos coletivamente bancos de dados.
,s siruis arurciadorcs clc unrrr crrr.rrçu,u crc Lrr-r.rc
mclhora. Fazcr un-r ()
tliagrróstico do preser-rte é transÍôrnrar-sc, rlem l)()(l('r'não disciplina mais, ele informatiza,no sentido de que antecipa
que se,a por um breve rr r Ír rr rrrações que faz circular através de uma quantidade sempre crescente
ern "médico da civirização", segundo as palavras
'rstarlte,
"o Í'.rturo não é mais o que era" de Nietzsche. , lc rtrlcs de toda naürreza. Não cessamos de fazer fluir comunicações, de
é a frase de um médico da civrrização.
ll talvez ela convoque a esperança de vida das civilizações (de r,'r olhcr informações, de numerar seus acessos, e quanto mals comunl-
modo que ( .ull()s e trocamos informações, tanto mais nos submetemos a isso. Es-
.ssa fi'ase deveria ser relacionada com ouüa
expressão célebre de varéry:
'Âgora, sabemos que t:rrrros sob controle permanente, expostos ao controle pelo controle que
as civilizações são mortais,,). O médico não
tem ( x('r'ccmos sobre nossas redes de comunicação. Sabe-se tudo de nós, o que
rlqL' por vocação curar, mas apenas identificar
linhas de forças, aqueras l.rzt'mos, compramos, vendemos, pensamos; sabe-se onde estamos, em
q.c encerram novas porenciaridades, que contêm os germes
de um fu_ (lu(' momento. Todo o nosso espaço-tempo é esquadrinhado pelos fluxos
rLlro - sombrio ou radioso, um pouco à
maneira como Kafka farava das
"potências diabólicas tlt' inÍbrmação que ele faz circular. E esse controle se exerce mais e mais à
do futuro quejá batem à porta". se houve alguém
rrrcclida que tudo passa pelos computadores e pelas trocas de informações.
com percepção de médico, capaz de ler os sinais
do futuro no presenre, l)r't'ssente-se claramente que tudo é dirigido para um computador total,
fbi Kafka. Ainda que hoje sintamos a farta de
um Kafka para áecifrar o ., rrnra tela total,
um mundo povoado de telas de controle.
a
Íirturo, vemos claramente que nossas sociedades
atravessam um conjunto
tlt' rnutações tecnológicas sem precedente que
mostram uma transformação
Esses aspectos, conhecidos de todos,
desenham novas linhas de
íirr'ças. Eis aí um diagnóstico ;rltlítunda do capitalismo, que agora tem por objetivo menos a produção
muito geral, feito de inúmeras vozes concor_ (lr.rcr a superprodução. Como drzDeleuze, e o capitalismo da superprodu-
tli,tes - jornalistas, sociólogos, filósofos
e outros mais -, cujos traços é
p.cciso esclarecer para tentar adivinhar que futuro çio (em que a produção industrial é lançada à periferia do mundo rico).
ele nos reserva. lile não compra mais matérias-primas e não vende mais produtos aca-
o que dizem então os rumores? Dizem que vivemos numa sociedade
bados; compra produtos acabados ou monta peças separadas. O que ele
de comunicação ou de controle. como se o futuro
devesse agora passar .1uer vender são serviços, e o que ele quer comprar são ações. Doravante
por uma sociedade que se desenvolve, se estende
e se governa pelas infor-
tudo está voltado para a venda, mais que para a produção industrial. Nes-
mações que ela não cessa de fazer circular por
todos os -.io, possíveis. sc sentido, Deleuze pode dizer que o modelo da empresa substituiu o da
'I'rata-se de um poder de
um no,.o tipo. o poder não funciona mais por iudústria. E certamente, aos olhos de Deleuze, o modelo da comunicação
encerramento e disciplina, como analisou Foucault
em relação ao século ou do controle é, de uma ponta a outra, empresarial. São em primeiro
xrx e à primeira metade do século xx. Não
se encerram mais os indivíduos
lugar as empresas que comunicam, e comunicaq de uma maneira ou de
cm escolas, depois em casernas, depois em fábricas,
asilos, hospitais, para ()utra, é entÍar no mundo da empresa. Comunicar é necessariamente
submetêlos a uma disciplina. o poder é cadavez
menos disciplinar. Não tornar-se empresário. Eis algumas das linhas de forças que constituem
sc lida mais com as massas e os indivíduos,
que são as duas realidades do
nosso presente e nas quais devemos tentar ler, decifrar o futuro que nelas
poder disciplinar: a quantidade das massas e a assinatura
dos indivíduos. se prepara. Ele é sombrio? É radioso? O presente no qual vivemos nos
Pelo menos, é o diagnóstico de Deleuze. Na
esteira de Foucault, Deleuze
obriga a afirmar, como Valéry, que o futuro não é mais o que era? Em
sustenta que vivemos agora numa sociedade
de controre e de comuni- outras palavras, que diagnóstico estabelecer a partir daí?
cação. Indivíduos e assinaturas foram substituídos
por códigos de acesso
.u por números. Não se assinam mais documentos: cod.ificam-se Já entrevimos que havia dois diagnósticos possíveis, cuja natrreza
acessos devemos agora explicar. Prímeíro diagnósrico. Conhecemos todos os discur-
dc informações, numeram-se fluxos. As massas
organizadas em corpos sos, por tê-los ouvido com muita frequência, para os quais se desenham,

i )Í)slllogramar o futuro
David Lapoujade 235
'll
D('ssirs nr.rtaçõ('s 1t't'rrolirgit';rs, possrl,ilrtl,rtk.s irri.tlitirs,
irrcspcr-aclas. I)r. Mrs r:rrtã«l o que seria o outro diagnóstico? Como clc p«rtlt.vt.r o
íirt«r, algurrs vccm aí Lun lr()v() r't'girrrt.(1r(.[)(,r.nlit(,Lura
clemocratizaçã(:) Irrlrrro cic rn;ureira tão sombria e pessimista? Segundo quais linhas dc
tl. ctlrrhccimento,uma tra,sparôrcia c.|,s sabercs, contra as opacidades, lolq'ir cle se cor-rstrói? É que as mutações tecnológicas nunca fazem se-
,rs scgredos de Estado à moda antiga.
euem não ouviu esses discursos rrrrr r rc forçar um único e mesmo sistema, o do capitalismo, sempre mais
s.b'c a web, sobre as novas redes, sobre seu caráter ao mesmo tempo lo- trirrnÍànte. O futuro está inteiramente encerrado no interior dos limites
cal c global, não centralizado, sobre a livre circulação de informação tlo crrpitalismo, que captura todas as suas possibilidades para estender-se,
e de
«rpiniões, da mais trivial à mais protegida? As novas forças
do futuro cons- l)r'()pagar-se. Não há futuro exceto no capitalismo. E todo futuro nunca é
tituem um modelo de democratrzação, de comunicação horizontal, st'rrão o fururo do capitalismo. Como lembra FredricJameson num artigo
não
t:.nrrolada por uma instância superior central (iá que o controle
está em iustamente chamado "Future City", é mais fácil em particular para o
t,da parte, age em toda parte), em que a informação não cessa de circular r'inema americano - imaginar o fim do mundo que o fim do capitalismo,
scgundo os acessos e os códigos digitais que regulam seus fluxos. ( ()rÍlo se não houvesse mais outro horizonte possível. O que seriam então
Iremos
scmpre em direção a mais democrarização, a mais liberdade individual. rrs Í.brças de democratização, de liberdade, de que falei há pouco?
um dos modelos recorrentes, sinar dessa democratiza É que esse contrapoder funciona, em realidade, como um novo po-
ção, ê o vaza-
mento de informação tal como o sistematizou o wikileaks. Desse ponto tlcr. Como não ver que nenhum de nós consegue escapar a este mundo
de vista, o vazamento de informação não é um erro ou rlc informações, de comunicações, que ele não cessa de nos controlar,
uma disfunção,
nlas pertence pof natureza à sociedade de comunicação. pode-se clc obter inúmeras informações sobre nossos modos de existência para
mesmo
clizer que o principal, nela, é o vazamento de informações, transformá-las em dados comerciais? Tornou-se impossível subtrair-se
como garantia
cle seu funcionamento, de sua eficácia, em suma, de seu poder,ou melhor, r este mundo, a não ser lançando-se em sua periferia, lá onde reina a
clc seu contrapoder. A sociedade de comunicação não
se coloca, de início, profunda miséria que ele, por outro lado, produz. Vivemos num mundo
como poder, mas como contrapoder, contra todos os antigos poderes cujo futuro está tamponado, regulamentado, programado, um mundo do
disci-
plinares que segmentam, que separam, que centralizam e hierarqu izam.É qual agora é impossível sair. É o todo da "sociedade do espetáculo" ou dos
a força democrática da circulação de informações,
sinal de sua transparên- r-neios de comunicação de que fala Guy Debord, ou mesmo o fantasma da
cia futura, a informação como conffapoder: o que vocês têm a rcalização de um novo tipo de totalitarisrno high-tech: não podemos mais
esconder,
poderosos? Sob certos aspectos, vemos que essa circulação constitui escapar daluzdo poder, de suas telas de controle e de suas circulações de
um
novo tipo de poder na medida em que o saber pode ser colocado à dados, a luz gloriosa do poder, como diz Giorgio Agamben subscrevendo
dis-
posição de todos e rornar-se uma força coletiva dispersa, nãolocalizâvel, as descrições de Guy Debord. Passa-se, por deslizamentos sucessivos, do
segundo um modo de funcionamento horizontal oposto às hierarquias conceito de todo ao de totahzação, depois do conceito de totaTização ao
verticais e centralizadas do antigo poder. Mais ainda, as redes só funcio- de totalitarismo. Por isso, nosso futuro seria sem futuro para nós por-
nam de maneira eficaz com a condição de não serem centralizadas. que global quer dizer total, e porque total jâ quase quer dizer totalitário.
E foi
possível dizer que voltávamos à convivialidade das praças de aldeia, Somos pegos num vasto sistema que nos escapa por todos os lados, sobre
em
que os habitantes se reuniam para falar coletivamente dos problemas o qual não temos poder de intervenção nenhum, a não ser irrisório, e no
Io-
cais: do mais arcaico ao mais contemporâneo, é a famosa "aldeia interior do qual nenhuma decisão individual tem agora importância. Eis
global,,,
a conjunção do local e do global. Isto quanto ao primeiro
diagnóstico. se aí, rapidamente esboçada, a visão própria ao segundo diagnóstico.
o futuro não é mais o que era, é porque, pela primeir a vez TTahistória, Nos diagnósticos considerados, temos duas maneiras de conceber o
informação e comunicação não podem mais pertencer a poderes centrais Todo do futuro. Ou ele é concebido (ingênua ou cinicamente) de forma
e unificados que decidam sobre o curso de nossas existências.
neoliberal como um todo aberto que favorece a livre circulação dos bens,

Desprogramar o Íuturo
David Lapoujade
,lcst'nvolvcr.n cllr todas as direções por intermédio das novas tecrlologiâs,
nr,rs conscl'va-se a ideia de ubiquidade, de centralismo difuso do "po-
,lcr"' r-r«r seio mesmo dessa propagação. Percebe-se o controle como um
n,rvo nrodo de vigilância, uma versão high-tech da vigilância disciplinar:
sr rbstitui-se o guarda da prisão pelo satélite de vigilância.
O erro de Agamben ou de Debord (para citar apenas esses dois auto-
rcs) é permanecer num esquema disciplinar de encerramento, quando,
,ro contrário, o controle funciona em meio aberto. Que vivamos em so-
controle não quer dizer que estejamos sob controle (como
t it'clades de
t stírvamos outrora sob vigilância e como ainda estamos), mas sim que
pxrduzimos controle; antes de tudo, cada um de nós é que não cessa de
prrrduzir controle enquanto comunica. O que se deve entender por isso?
fri clue o modelo atual é o da empresa (e já que esse modelo se difunde em
t«rcla parte), vou tomar o modelo do trabalho em empresa para tornáJo
rrrais facilmente perceptível. Também aí existe uma literatura abundante
pula descrever os novos modos de trabalho em empresa, a flexibilida-
tlc, a polivalência, o management, que, sob pretexto de "criatividade", de
"rrbertura", de "adaptabilidade", obriga o empregado a se investir de tal
rnaneira que não fique mais sob as ordens de um superior hierárquico,
rnas que prodtza ele próprio essas ordens na forma de metas çlue con-
tlibuirão para seu êxito profissional e seu desenvolvimento pessoal, que
csteja em fase de adaptaçáo e de formação permanente etc.: todas as ma-
rripulações do discurso do management (e a literatura mais interessante ou
rr mais terrível não é a que denuncia essas práticas, mas a que a encoraja
c a desenvolve, todos os livros dedicados ao mandgeme,4t). No limite, não
há mais hierarquia, pois a comunicação vertical das ordens faz perder um
tempo precioso, há somente um conjunto coletivo de competências que
se autorregula em função das metas que foram fixadas. É a competência
que decide eventuais hierarquias, não mais o inverso.
Por que se fala aqui de controle? É que o trabalho em empresa consiste
cadavez mais em dividir de maneira interna o trabalho, de tal modo que
Llm empregado participa de várias atividades cuja interconexão ele asse-
gura; sua atividade consiste em "gerenciar fluxos" distintos, simultâneos,
mas também em conhecer e estabelecer os protocolos que permitam re-
lacionar esses fluxos uns aos outros. Tomemos um exemplo que nada tem
a ver com o trabalho: um condutor de veículo não é mais apenas um indi

Desprogramar o futuro

David Lapoulade
vitltto tlttt'st'strlrrttt.l« (()lt l.tír).t t( l,,ltl,un(.nl,t(,,to rotlovi:ir i:r t.t-ttjlt
Ítrtit.,t ..r nr('snr(), e a lazão pela qual é difícil conformar-se com o diagnóstico
'ttivttl,ttlt'toltsislt't'tttvigiltr ,tt'slr.rtl,r lssot r).llrl()nrohilistlr tllts«lcicclaclt.
Irr,lts Ix'sslnllsta.
tlisti;rlirr.rr Agolll,('tt(lttllttl()vigilr lrt'stlrrrlu,t.lt.r-onssl(a()(ir)s,aolrcsnr()
Ncssc caso, dcvemos então ser otimistas? Devemos nos alegrar com a
l('rrr)() ('rr (lrc tclcfirra par:r rcs()lvc. u.r problcrna,.o rresmo
tcmp() oprtgação ilimitada desses fluxos de informações? Mas se o conceito de
( rr (Jr('(()r('ctâ scu rádio e se ocLrpa 1,r
dospassageiros (se forem crianças, ,,»rtlolc não é tão totalitário quanto se supõe, não é certo, inversamen-
;,r,r .xt'.rplr).lisse indivíduo vê sua atenção se dividir, distribui,do se
r(', (lue o conceito de comunicação ou de informação seja tão libertário
s.grrrrtl, l)()r)tos fi)rtes e pontos fracos, da mesma maneira que
uma tela (luilnt() se imagina. Volto um instante a Deleuze. Deleuze, justamente, é
,l. t'.rrrl.rtrtacl«rr se divide em janelas. Todos os fluxos de informações
são rrrrrito cético acerca das noções de infor:mação e de comunicação. Numa
r .rrrínrr«rs, sirnultâneos, paralelos, e se conectam ou se
desconectam entre crrtrevista a Toni Negri, ele declara o seguinte:
sr
' r,Íi,'r.c ()s momentos. o importante
aqui não é a hiperatividade, a
sr'rlrir:r :rt'r:lcração temporal a que o indivíduo é submetido,
é a relação (ou
Você pergunta se as sociedades de controle ou de comunicação não
rr,i.)tlt'irtcrcclnexão, a divisão interna da atividade numa pluralidade
de
ll'x,s tluc pâssam sob seu controle. Mesmo num Jugar tão isorado como suscitarão formas de resistência [ .] Não sei, talvez. Mas não seria na
medida em que as minorias pudessem retomar a palavra.
rr, vt'icul., o indivíduo é atravessado, assaltado por informações. o ho-
rrr,'rrr tlt» c..trole é um indivíduo ao mesmo tempo
hiperconcentrado e Deleuze prossegue:
I r )r, I Ir l r(' )[ (' cl istraído, hiperconectado e totalmente
r
dcsconectado.
l\'rtt'lrt'se: as sociedades de controle não nos colocam sob contro-
Talvez a fala, a comunicação, estejam apodrecidas. Estão inteiramente
lr , r'l,rs rrrs Írrzem controlar. ou, se prefêrirem, estar sob controre é ter
penetradas pelo dinheiro: não por acidente, mas por nar.)reza. É preci-
llrrr,,s,rr rrlividades sob seu controle. E todos esses diversos organismos
so um desvio da palavra. Criar sempre foi algo diferente de comunicar.
t lr r,r rr r.lc, i'dividuais ou coletivos,
não estão submetidos a uma forma
O importante seráÍalvez criar vacúolos de não comunicação, interrup-
s'r)( li()r'(rLrc os englobaria; quando muito se pode dizer que
cada orga tores para escapar ao controle.
rrisrrr<r clc c.ntrole fazparte, ele também, emboraparcialmente,
de outro
.,r'r1''risrlo de controle, por sua vez controlado por outros, sem
que se Por que tal desconfiança? Por que tal pessimismo acerca da comuni-
Prssir lirla. de unidade última ou de uma forma superior, centralizada,
cação? Para Deleuze, o modo de comunicação atual passa essencialmente
tl. t'.r1role. só e possível falar de totalização quando esta se faz gradual-
pelas imagens e pela linguagem. Vivemos cercados de linguagem e cer-
,r('rtc riuL à distância, não sem Íragmentação, clispersão. Toda ativiclade
(lr-r('
cados de imagens; nosso cérebro está banhado nas imagens e na lingua-
irtcrconecta fluxos ou lhes gerencia a simultaneidade se estende,
gem. Mas arraruteza delas, ou pelo menos a percepção que temos delas,
lrrv,r'.ccr o ent'elaÇamento do controle. Não existe aí totalidade
alguma, mudou. As imagens entre as quais vivemos agora não remetem mais ao
I)11)ccsso de totalização algum, pelo contrário. Dissipa-se a miragem ou o
mundo exterior, mas a outras imagens. É esse o seu poder comunicante.
lrl,,t.)sma do poder com p maiúsculo, o poder como totalidade
ou todo, o Sua característica é seÍem sem exterioridade (embora não possuam tam-
lli.g lh'other. Qr-ranto mais o controre conjuga os fluxos
para ligá ros, tanto
pouco interioridade); elas possuem apenas um ayesso e um direito, ou
l

se faz, paralelamente,
descontinuidade, a desconexão. o mundo
a
'rai,r então deslizam umas sobre as outras. Constituem assim um mundo-tela ;;
lo',olr se um mundo estilhaçado, improdido numa mulriplicidade
de autossuficiente, isto é, um mundo que se tornou uma espécie de mesa de ,j
r.i'lr-rlas independentes que tendem a se separar umas
das outras ao mes-
informações tal que as imagens comunicam diretamente informações ao
,r() tcmpo em que não cessam de multiplicar as interconexões. Eis
por cérebro; não são mais imagens a ver, mas imagens a ler. Um pouco como i
t1r,rc é difícil conceber esse mundo como um Todo
acabado, fechado em
os turistas que nem olham mais os lugares que visitam, contentando-se
I

I )urprogran ar o IutuTo
David Lapoujade 241 I

I
t'rrr Íilrllli los pal':t vô-los tlt'pr »is. Iil:rs rr.r. (')irll(.rr pr.irrrcir.irlrt,ltç
u,,r olh., rt'tltrndânciir, rcssonância, repetição de informação, t. t1rrt. lirz t1rrt. t'irtl,r
nrirs ul-,, t'í'rcbro. I)cssc ponto tlt.visrir, () (.()rr)l).lJrl()r.,
pafil L)eleuze, é o l()r'nril controle a outra. O fluxo de linguagem é controlado pclo Íluxo
íirrr d, ,lho, pclo mcnos o 6m clc surr ilLrt()r()nria
cr., fâvor de
um reinado tlt' ilnagern, o fluxo de imagem é controlado pelo fluxo de linguagem,
t'xcl'siv<l do cérebro (que subordina o orho), não
em vista de uma ação tlondc a multiplicação e a saturação quase imediata da informação que
tf irltlucr, mas em vista da circuração de informações. É o fim da percep-
nos íàz passar imediatamente de uma informação a outra, ela também
q'i, t'r., proveito da simp]es leitura (que não rem mais finalidade
motora). irrrcdiatamente saturada de imagens e de linguagem, e assim por dian-
l'i t',r.r-r, urna mutação corporal que ribera
o cérebro do problema da tt'. fsso explica e confirma o que eu diziahâ pouco: ao mesmo tempo
rrrotricidade. Deleuze ainda;
lripcrconcentrado e totalmente distraído, hiperconectado e totalmente
ticsconectado. É or.rt., maneira de dizer que o mundo exterior passou
A agem não cessa de se recortar noutra imagem,
i n-r
de se imprimir atra- rr<i segundo plano. Perdemos, por assim dizer, contato com o mundo.
v(.s deuma trama aparente, de deslizar sobre outras imagens
num flu_ ( ) perigo da comunicação é a perda do mundo ou, o que dá no mesmo,
xo incessante de imagens, e o próprio plano se assemelha
menos a um sua substituição pela informação (e pela informática, que é seu suporte).
rll-ro que a um cérebro sobrecarregado que absorve
constantemenre Objetarão que isso se deve ao fato de estarmos saturados de informa-
inÍbrmaçôes: é o par cérebro_cidade que substitui
o par olho_n atlreza.
ções, de haver agora informações demais e de não sabermos mais o que

ll('('rcontramos nosso automobilista de há pouco, l)cnsar, de se produzir um fenômeno sem precedente de aceleração da co-
que lida menos rnunicação que nos fazperder de vista o próprio mundo. Para barrar esse
(
'') .',r rrundo exterior que com um painel de bordo no qual desfiram
(
ÍL'nômeno bastaria selecionar ou diminuir o consumo desses fluxos inu-
llrrx's tlc informação visuais ou sonoros que ele tenta
controlar. Ele é rneráveis. Mas dizer isso é desconhe ceÍ arraf.Íeza mesma da informação.
'r('r()s
.m olho que percebe um mundo exterior que um cérebro
que l)ois é próprio da informação propagar-se aré o ponro em que ela própria
.lt't'ili'a um mundo agora sem exterioridade.
sc anula, em que ela atinge um ponto de saturação que a torna ineficaz e
Iir-, ral mundo, as imagens funcionam como a linguagem. pois
a lin- nos deixa abestalhados, sem reação, hiperconectados e desconectados ao
guâgcm é também sem exterioridade. sabe-se que
toda frase remete a nlesmo tempo. Comunicar é anular a informação no momento mesmo
,r'rtra frase que ela supõe ou implica. Todo enunciado
remete a um enun- cm que ela é transmitida, é conectar os indivíduos aos fluxos informativos
ciado anterior e não a uma realidade exterior. Mesmo
se me perguntam o ou informáticos e desconectá-los do mundo. Não há informação sem que
st:,tido da palavra "sol" e mostro o sor com o dedo, nao
ponht em reração jâhaja informação demais. A saturação é consubsrancial à informação.
a palavra e a coisa do mundo exrerior, não
d.igo nada do próprio sol, ape-
Mas, se tal é nossa situação, será que não nos vemos no mesmo encer-
rras explico a significação de uma palavra.
Não saio da linguagem. pois a ramento de há pouco, enclausurados na correspondência entre o todo das
linguagem é sem exterioridade. Não há nada no exrerior
da linguagem, imagens e o todo da linguagem, na incapacidade de sair da linguagem e de
c«rmo não há nada no exterior das imagens.
De modo que a linguag emfaz sair das imagens, já que nada existe fora? Não se juntaria Deleuze ao cam-
clc r.rós emissores ou transmissores de informação,
assim como a imagem po dos pessimistas? Não retornamos à alternativa da qual eu queria sair?
firz de nós receptores ou cérebros-telas. Mais
ainda, percebe-se que ver é Entretanto vimos por onde passava a solução, para Deleuze. Ela con-
scmpre colocado em correspondência com falar,
e vice-versa. Na maioria
siste em criar, em sermos criadores. Mas isso é algo muito modesto. De
falar é transmitir a informação sobre aquilo que há para
clas vezes,
ver, fato, o que é criar? Ciar éum ato de resistência, mas que não consiste em
rrssim como ver é olhar o que nos dizempara
orhar. Há um sistema de propor um contrapoder; não se trata de derrubar o poder das imagens
lctomada da linguagem pela imagem e, inversamente,
da imagem pela ou da linguagem, como uma ação revolucionária tenta derrubar um po-
Iinguagem, um enrrelaçamento em circuiro fechado
que é inteiamente der político. Derrubar é derrubar um todo, o todo de uma organização

I )ílsp ogramar o Íuturo


David Lapoujade 243
I)()líti(-lt, ('rI íitv()r (l(.()utrr li,rrntl,r rr1r.r
tl6 t6tl9, tlrrs t1;tlrlitlaclt,s.
lo1,s1 ,r ,rlgunrrr coisa da qr-ral a Íàla nada pode dizer, criando assim brechas ou
Nlio st. tllttlt ck. l.ct()ntilt.o
1l«rtlt.r.. J )t.lt.rrzt.
tliz rsso lrt,rrr: lrã<l sc trat:t ci(. v:rc(rolos de não comunicação, segundo seus termos. Com isso, talvez,
r ('r(),)i* rf
r)lrlavra..- para l)crcuzc, ir (r.(.sti() rtrcrit t rtyirtt.r, ,ão derrubar. iro pcrclermos nossas conexões, reencontramos fragmentos do mundo,
(.)tr;rl ir tliÍi'r'crrça? Não
há nada Íbra do todo, mas o proprio todo ('sl)nços-tempo não quadriculados pelo controle, imagens não saturadas
tem um
lir.rr sc prcÍêrirem, um avesso. Iá um avesso
'rr' da linguagem, um avesso tlt' inÍ-ormações e que nada têm a comunicar senão elas mesmas. Não se
tl;rs irnirgcr.rs. O que isso quer dizer?
tlrlta de uma utopia, isso não muda em nada o futuro, o futuro continua
'sig'iíica que é preciso desfazer a reração de correspondência regulada scrrdo o que era, isto é, uma ideia, nada mais que uma ideia ou um progra-
(rr(' s(' t:stabeleceu entre imagem
e linguagem. É precrs o fazerpassar o nra que otimistas e pessimistas preenchem com suas convicções; trata-se
tlrrt' r'slir rr, interior da lingr-ragem ou da imagem
para o exterior delas. rgora de crer num fragmento do mundo presente, que volta a ser dado
Nir t'xistc rrrais nada fora da ringuagem e da imagem,
mas eras têm um or-rliberado nos intervalos ou nos interstícios do controle.
.xr.r'i'r', um limite que rorna seu exercício impossível
rr r,rr ir.r.rpossível
- ou melhor, que Num belo texto recente, Sobrevivência dos vaga-Lumes, Georges Didi-
relacionar o que se diz ao que se vê, e vice-versa,
quando I Iuberman escreve o seguinte:
ust-u,rente há algo que se vê e que não se pode
dizer, ou q.r. p.._
'r clizcr mas que
t'is, "lgo
é
não se consegue fazerver,quando no visível out a
se vê Será o mundo tão totalmente subjugado quanto o sonharam - quanto
( ( )rsrr (rrc ,ão o que
ere mostra, quando se percebe no dizíver
ouúa coisa o projetam, o programam e no-lo querem impor - nossos atuais conse-
tltit'ttitr () (lue se deixadizer. É o qu. Deleuze chama
umdcontecimento. theiros pérfidos? Postular isso é justamente dar credito ao que a máqur-
l)'rss,rr st'rrlguma coisa que é grande
demais, forte demais para que eu na deles quer nos fazer acreditar. É não ver senão a noite negra ou a luz
;', rss:r tlizi. lrr, para que eu possa propor sua simples im"g._à,
enunciá_ ofuscante dos projetores. É agir como vencidos: é sermos convencidos
l'r t'rrr rrlgtr.ras palavras. Existe aí
como que uma brecha, uma espécie de de que a máquina cumpre seu trabalho sem resto nem resistência. É
I.rrtlrr, rlt' r'achadura no sistema de comunicação
ou de controle que abala ver apenas o rodo. Portanto, é não ver o espaço nem que seja intersti-
rr rt.Ltçã<l cntre imagem e linguage
-
cial, intermitente, nômade, improvavelmente siruado - das aberturas,
Vcr c falar entram então numa relação disjunta,
uma não relação. dos possíveis, dos vislumbres, dos apesar de tudo.
() qr'rc digo não se relaciona mais
ao que vejo (embora seja inseparáver
tlclc); o que vejo não se relaciona mais ao que
digo. Lidamos .o,, orra.^ Fora da escuridão e daluz, há ainda a pulsação de vaga-lumes que
lí»gica, mais de retomada ou de comunicação, mas
'ão de interrupção, captam uma luz que não é a das telas de controle e que aparecem em
tlt' ruprura' cada forma atinge seu rimite próprio.
A ringuagem só atinge espaços-tempo não quadriculados.
st'r-l prriprio exterior ou seu limite
se romper com seus laços visuais; a vi- Percebe-se bem que a questão não é mais, em absoluto, ser otirnista
si. só atinge seu próprio exterior ou seu rimite se romper
com a sinraxe, ou pessimista. Eu buscava há pouco outro termo .Talvez seja em William
t-,,r a ordem sintática estabelecida e as significações convencionais. Isso James, um filósofo americano do século xrx, já hostil a toda ideia de to-
i' 1rróprio do aconrecimento- senti ou vivi algo de
muito forte para fazê- talidade, de unificação, de totalização, que eu deva procurá-la. Aos olhos
l, cntrar,a relação regulada entre imagem e ringuagem. por
um breve dele, o erro tanto do pessimismo como do otimismo é justamente consi-
,srante, passei para o avesso da linguagem (o indizível
que, no entanto, só derar o mundo como um Todo coletivo, perdido ou salvo apioi, corno
p,de ser dito numa linguagem estranha) ou o avesso
do visíver (o invisível se a ação de cada um de nós não modifi.casse em nada o resultado final.
(ruc, no entanto, só pode ser
visto num estranho exercício de vidência). Como diria Georges DidiHuberman, somos já vencidos (ou já vencedo-
l)cleuze dá exemplos em alguns cineastas, quando
a voz quefara evoca res) se supomos que o todo precede as paÍtes. É assim que se pode dizer:
rulguma coisa que não é visíver na imagem,
ou quando a imagem mostra de todo modo, o todo da comunicação conduz à democratizaçáo; de

I )rsprogramar o futuro
David Lapoujade 245
totl«r rnotlo, «r tockl cftl corrlrrrlr.t.olttluz.,t uln n()v() ttp() clc t«rtalitarisnto.
l)t'ttslt-sc chl tcrnlos de toclos, tlt'totulirllrtlt.s, ('()nr() rros convida
a isso.
Prriplio tcnlro "globalização". E sim, diantc dc urn rodo coletivo, não sc
l('rr ().t'a cscolha senão serpessimista ou otimista. Mas o que seria diante
Dentro do nevoeiro: o Íuturo em suspensão
tlirs ;'rartcs que compõem esse todo? O que se passa entre essas partes?
li, P'incipalmente, o que se passa quando se desce nos interstícios, nos Guilherme Wisnik
irrt t'r'vrlrs do todo? como diz williamJames: 'As coisas esrão relacionadas
unlils (:()nr a1s outras de muitas maneiras; mas não há uma que encerre
.rr rl,,rir.rc todas elas. uma frase arrasta sempre consigo a palavra e, que
;r P'.l.rrgrr. FIá sempre alguma coisa que escapa". No interior
mesmo do
t.tk», hh alguma coisa que escapa para fora, que revira o todo do avesso.
.frrrrrt's utiliza um termo inventado por George Eliot. Ele chama melhoris-
rrrrr ir rrtitude segundo a qual, se o mundo é aberto, ele pode ser, aqui
ou
rrli, t.rrado melhor ou diferente, mais rico, por nossas ações individuais. Há momentos históricos fortemente orientados pela dimensão de
Mrrs i'p.cciso estender o que diz williamJames: essas ações Íirturo, como o modernismo. Há outros, por sua vez, nitidamente reviva-
devem ser
r.r'irrçõr's cic espaços-tempos que desfaçam a trama do controle, listas, voltados para o passado, como o chamado pós-modernismo. Hoje,
atos de
r.sisli'rciu clue introduzam um pouco de não comunicação, disjunções no entanto, não somos nem utópicos nem nostálgicos. Parece-me que a
,rr irrrt'r'r'r-rpções no fluxo de informações que se propaga
em todas as
dominância da dimensão temporal refluiu, no mundo contemporâneo, em
tlirr'ç<rt's. Iirrtão não se considera mais o futuro, o porvir de um todo favor de uma espacializaçãoprôpria à experiência da globaltzaçáo. Espaço
ou
tl. trrrrrr t,talidade; entra-se num ilevir com as partes desse mundo, às ve- indeterrninado, no qual nos vemos imersos e sem recuo suficiente para
zt's irs rr.rnis irrisórias, às vezes as mais ínfimas, mas que têm pelo enxergar o seu contorno e a nossa própria posição relativa em seu interior
menos
rr Íirrça de resistir aos prodigiosos meios desenvolvidos pelas (Fig. r, p. 5o5).
sociedades
clc controle, das quais, aliás, participamos inevitavelmente. Apesar de üvermos um período histórico que não é revolucionário do
Então, sim,
trlvez valéry tenharazão de afirmar que "o futuro não é mais o que era,,; ponto de vista artístico, há sinais claros de que estamos em meio a profun-
p.r iss. é preciso deixá-lo aos programadores de todo
tipo e arriscar-se a das mudanças de paradigmas, que correspondem a uma alteração na base
crltrar em devires que anulem o futuro que nos programam. por isso é produtiva da sociedade e parecem reestruturar as formas de subjetividade.
prccis., na medida em que tivermos força e desejo para isso, desfazer-se No campo da arquitetura, nota-se um progressivo deslocamento de ênfa-
rla idcia de futuro ou desprogramar suas possibilidades preestabelecidas. se simbólica do esqueleto estrutural - a transparência moderna - paÍa a
pele - o invólucro pós-moderno e os véus contemporâneos. Ao mesmo
tempo, dá-se uma transição da ênfase mecânica dos edifícios para o seu
comportamento energético, que corresponde à passagem do paradigma
industrial ao biomórfico, ou, como define Stan Allen, da natureza objetual
do edifício à condição de campo, estruturada por relações que se dão em
nuvens e redes, de maneira próxima à incomensurabilidade identificada
e trabalhada por Robert Smithson nos anos 196o e início dos r97o'. Nesse

r. Stan Allen, "Del objeto al campo: condiciones de campo en la arquitecrura y el urbanismo" , Naturtleza

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