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Revista de Estudos Constitucionais, Hermenêutica e Teoria do Direito (RECHTD)

9(1):90-91, janeiro-abril 2017


Unisinos - doi: 10.4013/rechtd.2017.91.09

Resenha

Robert Alexy, princípios e direitos fundamentais:


abordagens críticas
Robert Alexy, principles and fundamental rights: Critical approaches

CAMPOS, R. (org.). 2016. Crítica da Ponderação – Método constitucional entre a dogmática jurídica e a teoria social. São
Paulo, Saraiva, 320 p.

David F.L. Gomes1


Universidade Federal de Lavras, Brasil
david.gomes@dir.ufla.br

Crítica da Ponderação – Método constitucional en- a concordância prática a que a ponderação visa não im-
tre a dogmática jurídica e a teoria social, organizado por pede que as contradições sociais reais, com o caráter
Ricardo Campos, contém um conjunto de textos que incomensurável e inconciliável dos interesses que nelas
podem redirecionar o debate brasileiro acerca dos di- entram em conflito, possam ser traduzidas de maneira
reitos fundamentais, há muito dominado, no âmbito ju- mais adequada para a linguagem do direito.
risprudencial, pelo consenso em torno de Robert Alexy O terceiro texto é de Ralf Poscher. Nele, um dos
e, no âmbito acadêmico, pela contraposição entre ele pilares centrais da teoria da ponderação é diretamente
e autores como Ronald Dworkin, Jürgen Habermas e criticado: um pilar conceitual – a saber, a definição do
Klaus Günther. que sejam princípios. Deixando claro que a ponderação
Ino Augsberg, sucessor de Alexy na cátedra de e a crítica da ponderação não tomam por objeto os
filosofia do direito e direito público na Christiar-Al- princípios conforme tradicionalmente compreendidos
brechts Universität, em Kiel, dá o tom geral do livro no no universo jurídico, Poscher parte em busca de uma
texto introdutório: não se trata simplesmente de uma conceituação mais precisa, o que o leva a recuperar cri-
contraposição entre a ponderação e a crítica da ponde- ticamente as mudanças operadas nessa conceituação
ração. Trata-se, antes, de explorar as diferenças e simili- por Alexy e também por seus alunos desde sua formu-
tudes entre ambas, diferenças e similitudes que podem, lação inicial.
exatamente, revelar a contribuição própria que o livro No texto seguinte, outro dos pilares centrais da
tem a oferecer. ponderação é posto sob suspeita: agora, um pilar, pode-
No segundo texto, Andreas Fischer-Lescano -se dizer, histórico, ou melhor, ligado à história da teoria.
questiona, por um lado, até que ponto a ponderação O argumento dos autores, Karl-Heinz Ladeur e Ricardo
acaba por abrir espaço para restrições aos direitos fun- Resende Campos, é de que a arquitetura teórica alex-
damentais, uma vez que outros bens jurídicos são trazi- yana como um todo – sua teoria da argumentação, sua
dos para o mesmo nível desses direitos e os objetivos teoria dos direitos fundamentais e sua teoria do direito
do Estado passam a ser lidos como valores constitucio- – partiria de uma reconstrução crítica do que seria a ju-
nais. Por outro lado, questiona também em que sentido risprudência dos conceitos, ou tradição analítica alemã,

1
Universidade Federal de Lavras. Departamento de Direito. Campus Universitário. Caixa Postal 3037, 37200-000, Lavras, MG, Brasil.

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no século XIX. Porém, segundo afirmam, essa recons- tos fundamentais como direitos de defesa em face do
trução de que Alexy parte estaria profundamente equi- Estado e concepção do sujeito desses direitos como um
vocada: nada mais do que um espantalho. Na medida em indivíduo isolado e descolado de seus contextos. Fren-
que sua teoria, em geral, dependeria da contraposição te a esses problemas, por um lado, Vesting propõe que
a esse espantalho, revelá-lo como tal a colocaria, como se concebam os direitos fundamentais a partir de um
um todo, em xeque. sujeito situado em uma cultura de redes caracterizada
O quinto texto corresponde, na verdade, à tra- pelo complexo conceito de “vizinhança”: nessas redes,
dução de um pequeno livro de Karl-Heinz Ladeur. Nele, o indivíduo constitui a si mesmo, ao mesmo tempo em
Ladeur parte de pressupostos já expressos nos textos que pode vir a ser ameaçado por elas em sua constitui-
anteriores – como a incomensurabilidade dos interes- ção. Por isso mesmo, dado o aspecto tanto constitutivo
ses em conflito e o temor perante o risco de que a quanto potencialmente destrutivo dessas relações de
ponderação acabe por colocar os objetivos estatais “vizinhança”, os direitos fundamentais, por outro lado,
no mesmo patamar dos direitos fundamentais – para não devem ser pensados apenas como direitos negati-
procurar desenvolver o que ele mesmo chama de um vos diante do Estado, mas como direitos que protegem
“apelo para uma renovação da teoria liberal dos direi- o indivíduo incrustrado nas tensões de tais relações.
tos fundamentais”. Esse apelo tem uma meta precisa: ele Finalmente, Günther Teubner é quem fecha o li-
se dirige contra os excessos de intervenção estatal que vro. Também ele se preocupa com uma renovação da
conseguem ser justificados no bojo da ponderação. Ao compreensão dos direitos fundamentais. Dando desta-
final, Ladeur conclui pela necessidade de uma renovação que aos problemas que surgem diante da compreensão
da dogmática dos direitos fundamentais, pela necessida- tradicional dos mesmos no âmbito das relações privadas
de de uma nova controvérsia metodológica no âmbito transnacionais,Teubner sustenta que direitos fundamen-
do direito constitucional. tais não podem ser lidos a partir de conflitos ponderá-
O penúltimo texto é da lavra de Thomas Vesting. veis entre pretensões subjetivas de pessoas individuais,
Ali, o apelo anterior de Ladeur é, de certo modo, aten- mas a partir de conflitos do tipo sistema/ambiente, de-
dido. O propósito de Vesting é exatamente renovar a vendo ser mais adequadamente tomados como contra-
compreensão liberal dos direitos fundamentais. Dois -instituições jurídicas e sociais que se opõem a tendên-
problemas são identificados na leitura tradicional: direi- cias expansionistas de subsistemas sociais.

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