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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FACULDADE DE EDUCAÇÃO
LICENCIATURA EM GEOGRAFIA

Relatório de Estágio

Marília Sossoloti Moreira da Silva


N° USP 7200792 – noturno
Profa. Dra. Núria Hanglei Cacete

São Paulo, Junho de 2015


Introdução:

O presente relatório é resultado do estágio realizado para a disciplina


Metodologia do Ensino de Geografia I, ministrada pela Profa. Dra. Núria
Hanglei Cacete.
Foi realizado em um Cursinho popular na cidade de Jandira, durante os
meses de abril a junho, no qual atuo como professora, no entanto, minha
proposta de estágio é estudar a relação do cursinho com a comunidade, qual a
influência do cursinho na vida dos estudantes e para o entorno da cidade.
Quais são os papéis sociais que o cursinho cumpre no cotidiano dos
adolescentes, bem como nas cidades em torno. Essas são algumas das
indagações que permearam o estágio.

Sobre o cursinho:

O Cursinho Popular de Jandira (CPJ) se encontra no município de


Jandira, região metropolitana de São Paulo, microrregião de Osasco, com
apenas 17 km² o município possui aproximadamente 108.436 habitantes. A
área em que o cursinho está localizado faz parte de um conjunto de cidades na
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periferia de São Paulo caracterizadas por serem cidades-dormitórios , a
maioria da população trabalha na capital e volta para a cidade apenas à noite.

O CPJ foi criado em 2003, a partir de um projeto da prefeitura para


atender os estudantes de baixa renda do município e também de cidades
vizinhas, como Itapevi. Totalmente gratuito, oferecendo o material didático, o
Cursinho atende no período noturno, as aulas começam às 19h10 e terminam
às 22h30, com um intervalo de quinze minutos onde é servido o jantar para os

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Bastante utilizado, o termo “cidade-dormitório” apresenta íntima relação com processos demográficos
e sociais, principalmente em regiões metropolitanas. aponta que o surgimento da noção de
cidade-dormitório àqueles estudos urbanos que trabalhavam sobre a perspectiva dicotômica
‘centro-periferia’. Ojima (2007; p.83)
estudantes e professores. Há seis salas de aulas com aproximadamente vinte
alunos em cada sala. Existe uma sala que se destaca das outras devido à
idade dos alunos, na maioria acima de 50 anos. A distribuição dos alunos nas
salas foi realizada a partir de uma prova diagnóstica aplicada no início do ano
letivo sendo separados a partir de seu desempenho, de forma que há uma sala
dos “mais fortes” e as outras tiveram seus alunos misturados. Além dessa
distribuição existe a já citada sala dos alunos mais velhos, que fica no andar
térreo, separada das outras, no piso inferior, uma vez que alguns estudantes
apresentam dificuldade de locomoção.

O quadro de professores é composto por nove docentes, que são


estudantes, na maioria da Universidade de São Paulo, com contrato de estágio
firmado entre a USP e a prefeitura de Jandira. Os professores são buscados na
estação Jandira e levados até o cursinho. Na volta também são levados até à
estação de trem.

Por ser um projeto da prefeitura, o CPJ não possui espaço próprio e


funciona em uma escola pública municipal de Ensino Fundamenta l. Durante os
doze anos em que existe o cursinho ele sempre utilizou os espaços públicos
para ministrar as aulas. Em seu histórico já houve parceria com outras
prefeituras, como a de Barueri e atualmente os municípios de Cotia e
Santana de Parnaíba estão tentando aplicar esse projeto educacional em suas
respectivas cidades. O perfil socioeconômico dos estudantes é de baixa renda,
a maioria frequentou ou ainda frequenta a escola pública.

Embora exista material didático, que foi resultado de uma parceria com a
prefeitura de Barueri, os professores têm liberdade pra escolher quais assuntos
irão abordar com os alunos e qual será o cronograma escolar. Assim, alguns
professores optaram por não adotar o material didático, tendo em vista,
principalmente o fato de o cursinho ter iniciado suas aulas em abril, de maneira
que não seria possível abordar todo o conteúdo do material a tempo.
Eu optei por utilizar o material didático, pois a partir de conversas e de
conhecer os alunos entendi que as apostilas eram uma ferramenta de apoio
aos estudantes. Auxiliando-os nos estudos.

Metodologia:

Para a execução do estágio foram feitas entrevistas com cinco


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estudantes , a fim de investigar a relação que o cursinho tem com a
comunidade, ou seja, qual sua importância para os estudantes. Também foram
coletados dados durante as aulas ministradas desde abril.
Muitos alunos não se sentiam a vontade para responder as questões do
questionário, no entanto era perceptível que durantes as aulas, em uma
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conversa informal eles conseguiam expor melhor os motivos pelos quais
faziam o cursinho e qual a importância desse para suas vidas.
Segue o modelo de questionário que foi aplicado.

● Qual seu nome?

● Quantos anos você tem?

● Como foi sua vida escolar?

● Como ficou sabendo do cursinho popular de Jandira?

● Qual a importância do Cursinho na comunidade (cidade)?

● Porque você está fazendo cursinho?

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O questionário foi aplicado a aproximadamente 25 alunos, no entanto, apenas 5 responderam.
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Em todas as salas foi perguntado a cada estudante, durante a apresentação, o porquê eles
frequentavam o cursinho, desse modo embora as entrevistas não sejam de um número expressivo, as
informações sobre os alunos podem nos auxiliar.
As perguntas eram relativamente simples, no entanto conseguiam
abordar a importância do cursinho no cotidiano do aluno e traçar um quadro
quais são as pretensões do estudante no cursinho.

Das entrevistas:

As questões colocadas para os alunos perguntavam qual era a


importância do cursinho na vida deles e se esse espaço era importante para a
cidade.
Todas as respostas apontavam para o mesmo sentido, de que o
cursinho era um local importante para os estudantes, pois eles estavam
estudando e tendo acesso a conteúdos que nunca tinham visto antes. Também
ressaltaram que agora tinham interesse em aprender e que as aulas não eram
chatas, ao contrário da escola que para muitos foi um período monótono. Além
disso, acreditam que é um espaço que proporcionará novas oportunidades
para eles, o que a escola não fez.
Segue uma entrevista:

● Como foi sua vida escolar?


Foi um tédio, não tinha curiosidade de aprender, ao contrário de agora!

● Como ficou sabendo do cursinho popular de Jandira?


Há dois anos atrás fiquei sabendo por meu irmão, e esse ano foi através
da secretaria que me ligou.

● Qual a importância do Cursinho na comunidade (cidade)?


Importante para nos dar a oportunidade de adquirir mais conhecimentos
necessários para nossos objetivos.
Segundo os entrevistados a escola não oferece arcabouço teórico o
suficiente para proporcionar a eles recursos para atingirem seus objetivos, na
maioria dos casos passar no vestibular (alguns desejam fazer concurso
público, principalmente os mais velhos)

Da discussão:

O material coletado nos demostra que os alunos voltaram à escola


(cursinho) para acessarem conhecimento que não tiveram. Podemos a partir
desse ponto discutir que a estrutura da escola é diferente do cursinho, uma vez
esse tem em sala de aula aproximadamente 20 alunos, enquanto na escola
são em média 35. Para o processo de aprendizagem dos alunos e também
para o professor é muito mais fácil lidar com sala pequena. Outro fator que
também contribuir para o interesse dos alunos é que todos os professores são
jovens e de algum modo conseguem se conectar ao cotidiano dos alunos e
utilizar-se de linguagens comuns em determinados momentos. É importante
ressaltar aqui, que a prefeitura não quis contratar os próprios professores
municipais, pois segundo eles esses não tinham aulas dinâmicas, isso se
mostra para nós como um problema, pois padroniza e estereotipa o professor
que dá aulas em cursinho, muitas vezes conhecido por dar aulas show.
Outra questão que também foi observada é o fato de muitos estudantes
não se comportarem como se a presença no cursinho fosse opcional, muitos
conversam bastante em sala de aula, não levam cadernos, se sentam de lado
para conversar com o colega. Isso nos demostra o perfil da escola ainda é
presente em seu cotidiano, talvez isso se de pela forma, já que o cursinho
funciona em uma escola de ensino fundamental I. Outra possibilidade pode ser
porque eles ainda não consigam compreender como se estuda para passar no
vestibular, uma vez que nunca ou poucas vezes foram estimulados ao estudo.
Um fator também observado, e talvez seja a mais importante, é que a
cidade de Jandira não possui equipamentos culturais, onde os jovens possam
se sociabilizar como parques e praças, centros culturais, dessa forma o
cursinho funciona como ​lócus​ de sociabilização, no qual o ensino para muitos é
secundário. Para se compreender a complexidade desse fator é importante
destacar um acontecimento que ocorreu durante o início do mês de maio na
cidade. Houve a morte da esposa de um traficante que estava preso e algumas
pessoas colocaram fogo em ônibus, houve toque de recolher na cidade e as
aulas foram suspensas por uma semana. Isso nos mostra como é difícil para os
alunos conseguirem se encontrar na cidade à noite fora do cursinho.
Outra discussão levantada se relaciona ao fato de o cursinho ser um
projeto da prefeitura, para preparação de jovens para o vestibular e outras
provas, no entanto questiona-se o porquê não há investimento na educação
pública ao invés de se criar um projeto que fará com que os alunos voltem à
escola depois de formado. Sabemos que a prefeitura não é a responsável pelo
Ensino Médio, que é função do estado, no entanto nos parece controverso
formar o adolescente no ensino básico e depois levá-lo a escola novamente.

Conclusão
Barroso, em seu texto “Os professores e os novos modos de regulação
da escola pública: das mudanças do contexto de trabalho às mudanças da
formação” aborda a questão de que a escola se configura como um território
educativo, não apenas para os alunos, mas também para a comunidade, uma
vez que ela é um espaço público. A partir dessa ideia podemos compreender
que a escola está cumprindo esse papel na cidade de Jandira haja vista que
existe um grande retorno da sociedade para a escola.
Também é abordado em seu texto que a escola passou de um contexto
de certezas, para um contexto de promessas, inserindo-se atualmente num
contexto de incertezas. Nesse imbróglio o Cursinho se insere na perspectiva
anterior, no contexto de promessas, ele é para os alunos um lugar de
promessas, para chegar à universidade, para conseguir um emprego público,
para conseguir qualificação no mercado de trabalho.

Bibliografia:
BARROSO, João. Os professores e os novos modos de regulação da escola
pública: das mudanças do contexto de trabalho às mudanças da formação. ​In
Trajetórias e Perspectivas da formação de educadores / Raquel Lazzari Leite Barbosa,
organizadora. – São Paulo: Editora UNESP, 2004.

OJIMA, R; SILVA, R. B e PEREIRA, R.H.M. ​A Mobilidade Pendular na


Definição das Cidades-Dormitório: caracterização sociodemográfica e novas
territorialidades no contexto da urbanização brasileira​. ​Abep, Nepo, UNICAMP.