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UM ASSUNTO PESSOAL

The Tycoon's Temptation

Renee Roszel

"Não se trata de negócios...”


Mitchell Rath era um homem que gostava de desafios. Sua habilidade em assumir o
comando de empresas à beira da falência fizera dele um homem poderoso de
negócios. Mas uma de suas negociações apresentou mais problemas do que ele
esperava...
O dedicado executivo tinha pouco tempo para o lazer... e nenhum tempo para
romance. Mas quando se envolveu com a empresa de Elaine Stuben, o coração
endurecido de Mitchell começou a sentir indesejáveis arroubos de compaixão e
simpatia! E o que era pior, na presença de Elaine a muralha de frieza e reserva que
erguera a seu redor começou a ceder a um calor inesperado e irresistível, um calor
inegavelmente abrasador...

Digitalização: Nina
Revisão: Crysty
Renee Roszel - Um assunto pessoal
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Copyright © 2002 by Renee Roszel Wilson

Originalmente publicado em 2002 pela Silhouette Books,


divisão da Harlequin Enterprises Limited.

Todos os direitos reservados, inclusive o direito de reprodução


total ou parcial, sob qualquer forma.

Esta edição é publicada através de contrato com a


Harlequin Enterprises Limited, Toronto, Canadá.
Silhouette, Silhouette Desire e colofão são marcas
registradas da Harlequin Enterprises B.V.

Todos os personagens desta obra são fictícios.


Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas
terá sido mera coincidência.

Título original: The Tycoon's Temptation

Tradução: Ligia Chabu & Deborah Mesquita


Editora e Publisher: Janice Florido
Editora: Fernanda Cardoso
Editoras de Arte: Ana Suely S. Dobón, Mónica Maldonado
Paginação: Dany Editora Ltda.

EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.


Rua Paes Leme, 524 - 10a andar
CEP 05424-010 - São Paulo – Brasil

Copyright para a língua portuguesa: 2002


EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.

Impressão e Acabamento
R.R. Donnelley América Latina
Td.: (55-11) 4166 3500

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CAPÍTULO I

Um pilantra estava se apossando da casa de Elaine e não havia nada que ela pudesse
fazer a respeito. Distraída com seus pensamentos, sentiu uma mão em seu ombro,
desligou o aspirador de pó e se virou.
— Sim, tia Claire? A mulher mais velha secou as mãos na calça jeans.
— Hora de comer, Elaine. Faça um intervalo. Você está trabalhando desde às cinco
horas da manhã.
Quando Elaine abriu a boca para argumentar, a tia levantou uma mão, detendo-a.
— Temos mais duas semanas antes que você tenha de se mudar desse imenso
mausoléu. Não precisa se matar, tentando limpar tudo num dia só. — Ela tirou um
lenço do bolso de sua camisa de flanela e passou-o nas faces de Elaine de modo ma -
ternal. — Como conseguiu sujar o rosto desse jeito?
Elaine tentou sorrir, mas seus esforços foram em vão. Sabia que a mulher que a criara
estava tentando animá-la com brincadeiras, mas não conseguia esquecer que teria de
entregar aquela mansão histórica a um sujeito grosseiro.
Infelizmente, considerando a terrível situação de Elaine, o maior cômico do mundo não
seria capaz de arrancar-lhe um sorriso naqueles últimos dias. Ela estava falindo,
perdendo seu negócio e todas as suas economias, além de cada centavo que sua tia
economizara tão duramente. Aquela propriedade estivera nas mãos da família do
marido de Elaine por gerações e ela a perderia. Sem mencionar a trágica morte do
marido... e a culpa que a incomodava, independente de quão irracional fosse.
Ela engoliu em seco, lutando pára expulsar a tristeza que se recusava a abandoná-la.
Ajeitando a faixa verde que enrolara em volta da cabeça, respondeu:

— Limpei a lareira da suíte principal.

— Com o rosto? — A tia molhou uma ponta do lenço com saliva e esfregou o nariz de
Elaine, mas ela recuou. — Fique parada, Elaine.

— Por favor, tia Claire. — Elaine passou as costas da mão no nariz, com medo que
pudesse ficar pior. Com vinte e sete anos, era velha demais para permitir aquilo.
Limpando as mãos no jeans desbotado, respirou fundo. Excessivamente exausta, não
tinha nem força nem vontade para argumentar. Além disso, achava mesmo que
precisava comer, uma vez que ainda estava em jejum. Indicando os fundos da casa,
falou: — Certo. Vamos preparar uns sanduíches.
O som de uma batida na suntuosa porta com maçaneta de cobre chamou a atenção
das duas.

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— Oh, é o pequeno Harry com minha pasta de dentes e meus tênis. — A mulher mais
velha apontou para seus chinelos de dedo. — Esta coisa velha arrebentou e já consertei
tantas vezes que perdi a conta. — Claire acenou para o hall de entrada com
papel de parede e volumosas cortinas, todas de veludo roxo, caindo em ondas sobre o
chão encerado. O candelabro de cristal francês, do século XIX cintilava com a luz do
entardecer, for mando um arco-íris de cores vívidas, fazendo o lugar parecer um castelo
de fantasia.
Elaine prendeu a respiração quando olhou ao redor do recinto. Mesmo depois de morar
lá por um ano, cada cômodo continuava a ser uma visão inspiradora para os olhos.
Com mobília dourada e entalhada, paredes pintadas à mão, tapetes persa, a sala de
visitas era uma eclética obra-prima.
E agora, perdera aquilo para os credores. Pela milionésima vez a culpa a atingiu,
fazendo-a contrair os músculos do corpo todo.
— Atenda a porta, Elaine — pediu a tia, enquanto se virava em direção à cozinha. —
Vou começar a preparar o almoço.
Elaine sentiu o empurrão apressado da tia.
— E dê uma gorjeta a Harry porque prometi a ele por trazer algumas coisas para mim
até aqui. Ele está economizando para comprar uma nova bicicleta. Aquela coisa que ele
pedala por aí está um perigo.
Elaine caminhou até o hall.
— Esse menino de doze anos vai conseguir comprar a bicicleta antes que eu consiga
acabar de pagar meus sapatos novos — murmurou ela para si mesma. Harry era um
ótimo menino. Trabalhava duro depois da escola. Merecia uma bicicleta segura.
Imaginou o rostinho sardento de Harry Browne. Os dentes tortos à vista quando ele ria.
O furo no joelho da calça jeans e o boné que nunca tirava, sobre os revoltos cabelos
ruivos. Harry era um garoto doce. Elaine sofrera por ter que despedir a mãe dele, que
trabalhava para ela na oficina industrial dos acolchoados. Mas pelo menos conseguira
encontrar um trabalho para ela no supermercado das redondezas.
Encontrando duas moedas de vinte e cinco centavos no bolso da calça, Elaine abriu a
pesada porta.
— Aqui está, querido. Obrigada por... — Ela estendeu o dinheiro e levantou o olhar,
interrompendo bruscamente a frase.
Em vez do menino de doze anos que esperara ver, uma figura muito mais alta estava
parada na varanda de pedra. Naquele momento ela se pegou observando o tórax do
homem. Seus instintos femininos deram um sinal de alerta e ela deu um passo para
trás, percebendo alguma coisa... ou alguém fora do normal.

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A silhueta de um metro e noventa de altura era impressionante e quase batia no arco


de entrada da varanda. Embora Elaine tivesse um metro e setenta e não fosse
exatamente magra, sentiu-se frágil perto dele.
Apesar do breve vislumbre, teve uma sensação de medo que não sabia explicar. Sentia-
se como se estivesse em frente a uma fortaleza imponente ê impossível de ser
conquistada.
Que pensamento estranho para ter sobre uma pessoa de carne e osso! Ela meneou a
cabeça e fitou o rosto do homem.
Os olhos dele foram a primeira coisa que lhe chamou a atenção. Profundamente
negros. Com pálpebras pesadas e cílios espessos, eram incrivelmente sedutores. Ao
mesmo tempo que havia calor naqueles olhos, eles pareciam advertir para que
mantivesse distância, o que a intimidou.
Elaine engoliu em seco. Os lábios bem formados curvaram-se num sorriso enquanto ele
tirava as luvas de couro pretas. Ela observou os movimentos propositadamente calmos
com uma estranha sensação de êxtase.
Depois de tirar as luvas, ele as dobrou e guardou-as no bolso do casaco. Quando
finalmente olhou-a, levantou uma mão.
— De nada — disse ele, pegando as duas moedas da mão de Elaine. Então as jogou
para cima. Elas cintilaram antes de caírem de volta na palma da mão dele. — As
pessoas raramente me recebem à porta com dinheiro e palavras de afeto. — Ele
embolsou as moedas.
Aquela voz fez o corpo dela formigar, mas as palavras foram confusas, fazendo pouco
sentido. Obviamente ela não estava no seu normal. Pestanejou diversas vezes na
tentativa de conseguir raciocinar.
De repente deu-se conta de que o estranho estava se divertindo à sua custa. O próximo
fato que registrou foi que ele ficara com os cinqüenta centavos que ela não estava em
condições de desperdiçar.
Contrariada, lançou-lhe um olhar crítico. Por baixo do sobretudo de lã, ele usava um
terno preto impecável e sapatos de couro da melhor qualidade. Embora a expressão do
estranho tivesse perdido o breve toque de humor, as feições angulosas eram
aristocráticas e marcantes. Os cabelos, negros e brilhantes, estavam muito bem
cortados. Ele era o protótipo do executivo. Talvez fosse um velho amigo de faculdade
de seu marido. Mas se tivesse vindo para prestar seus pêsames, estava atrasado pelo
menos meio ano.
Quando ele sorriu, Elaine quase desmaiou. Embora a temperatura de janeiro em
Chicago estivesse congelante e com vários centímetros de neve acumulados da última
nevasca, aquele sorriso enviou-lhe uma incontrolável onda de calor por todo o corpo.

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Tentando falar com naturalidade, engoliu em seco e perguntou:


— Posso ajudá-lo?
Ele arqueou uma sobrancelha, como se a resposta fosse óbvia.
— Quero falar com a dona da casa.
Elaine sentiu-se contrafeita por aquele homem deduzir que ela era a empregada. Fora
forçada a despedir os empregados alguns meses antes. Evitando olhar para si mesma,
de jeans, tênis e suéter de gola olímpica, encarou o fato de que realmente não tinha a
aparência de proprietária daquela mansão. Ela empertigou-se.
— Por favor, diga o que deseja.
Ele a fitou.
— Eu terei um imenso prazer em fazer isso. — Após um segundo, acrescentou: — Para
a dona da casa.
Elaine ficou irritada com a impertinência do homem.
— A sra. Stuben não pode recebê-lo no momento. Ela é uma pessoa muito ocupada.
Elaine surpreendeu-se ao se dar conta de como fora ríspida. Sem mencionar que estava
mentindo. Afinal, era ela a dona da casa, pelo menos seria durante os próximos catorze
dias.
Aprendera a ser rude por ter passado um ano de pesadelo ao lado de Guy. Vira a
mudança repentina de um homem amável e sensível antes do matrimônio, que se
transformara completamente depois da lua-de-mel num brutamontes dominador, com
uma necessidade doentia de ter o ego constantemente massageado. E tinha acessos de
ciúme cada vez que ela falava com outro homem.
Depois viera a morte súbita e trágica cinco meses atrás. E depois disso, sua constante
batalha para salvar a fábrica de acolchoados. Talvez todo esse sofrimento a tornara
mais dura. Ou talvez estivesse simplesmente tão exausta, tão cansada do mundo, que
não tivera a capacidade de controlar a língua por muito tempo.
Fosse o que fosse, sua explosão fez o homem franzir o cenho.
— Olhe, está frio — disse ela, nervosa. — Diga o que deseja ou vá embora.
Ele cruzou os braços.

— Por favor, diga à ocupada sra. Stuben que Mitchell Rath apreciaria um encontro.

— Mitchell Ra... — Ela fez uma pausa, atônita. — Você é... Mitchell Rath?

Ele assentiu, então lhe estendeu a mão.


— E você é a ocupada sra. Stuben.

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Elaine enrubesceu. Ele não a tomara por empregada da casa.


— O que... Como... como você sabe que sou a sra. Stuben?
— Então era ele quem estava destruindo sua empresa e roubando sua casa!
O olhar dele vagou pela faixa que cobria os cabelos de Elaine, então deslizou vagarosa
e deliberadamente até os tênis. Após alguns segundos, ele a encarou novamente.
— Como eu sabia que você era a sra. Stuben? — Mitchell sorriu de modo sensual. —
Você não podia ser a empregada — concluiu ele. — Elas se vestem melhor.
Antes que ela respondesse ao comentário sarcástico, o homem aproximou-se e tocou-
lhe a ponta do nariz. Elaine sentiu a fragrância da loção pós-barba.
— O que é isso no seu rosto?
Deus, ela esquecera-se da fuligem da lareira no rosto!
Elaine ficou tensa. Aquele homem não apenas estava se beneficiando de sua ruína
financeira, como também encontrara uma forma de ridicularizá-la. Furiosa, disparou:
— Isso é repelente para animais predadores! Obviamente, eu deveria ter passado mais!
Mitchell piscou, mas Elaine não entendeu o significado daquele gesto.
— Está tremendo, sra. Stuben. — Ele apontou para o hall.
— Por que não fazemos nossa demonstração de admiração mútua lá dentro, antes que
pegue uma pneumonia?
O som de passos chamou a atenção de Elaine. Ela então avistou Harry correndo através
do enorme pátio de entrada. O homem nada bem-vindo virou-se, enquanto o menino
de doze anos pedalava a bicicleta em volta do Mercedes prateado conversível.

— Sra. Elaine! Aqui está o pacote da sra. Claire. — Ele estava ofegante. Mostrando seu
lindo sorriso de dentes tortos, tirou o pacote da mochila jeans. Sua atenção se desviou
para o homem alto. — Olá — disse ele.

— Olá — respondeu Mitchell, interrompendo os pensamentos furiosos de Elaine.

Ela o fitou e surpreendeu-se ao ver que ele sorria para o menino. Mesmo de perfil,
Elaine notou os dentes brancos perfeitos. Então voltou-se para Harry:
— Olá, sr. Browne — disse com mais entusiasmo do que sentia. — Quer entrar e tomar
um chocolate quente?
Ele meneou a cabeça, ajeitando o boné do time de beisebol.

— Preciso voltar para ajudar mamãe no supermercado. O sr. Goff prometeu me dar
dois dólares se eu limpasse o depósito dos fundos e jogasse fora algumas caixas de
papelão.

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— Dois dólares, hein? — Elaine sorriu. Harry era mesmo um garoto e tanto. — Então é
melhor que eu o libere logo. — Ela vasculhou no bolso e então se lembrou de quem
tinha usurpado os cinqüenta centavos do menino. Olhou para Mitchell.

— Você está com o dinheiro dele. — Ela teve que morder a língua para não
acrescentar: Claro, pegar o dinheiro dos outros é aquilo que você faz!
Enfiando a mão no bolso do casaco, ele retirou diversas notas e as estendeu ao garoto.
Harry pegou as notas e Elaine pensou ter visto uma de cinco no meio delas. Ali havia
pelo menos oito dólares.
— Uau! Obrigado, senhor! — O sorriso de Harry se ampliou. Apontando para o carro
esporte, perguntou: — Aquela máquina é sua?
O homem de preto assentiu.
— E alugado.
O alto assobio de Harry surpreendeu Elaine. Nunca o ouvira assobiar daquele jeito tão
esfuziante.

— Algum dia vou ter minha própria máquina.

— Aposto que terá.

O discreto elogio do homem pareceu significar uma coisa enorme para Harry, pelos
olhos brilhantes e a risada livre.

— Você acha mesmo?

— Sem dúvida. — Mitchell deu uma piscadela para ele. — E nunca me engano.

— Obrigado! — Virando-se rapidamente, o menino acrescentou: — Sra. Elaine, ligue


para mamãe no supermercado se precisar que eu lhe traga algo amanhã. — Ele
encarou Mitchell Rath mais uma vez: — Vejo você depois? — A questão era quase um
pedido.

— Claro.

Elaine franziu o cenho para o homem, irritada por ele enganar o menino daquela
maneira. Harry já tivera um pai que o abandonara. Será que precisava de homens
como Mitchell Rath, fazendo-lhe promessas absurdas? Amenizando a expressão, ela
acenou para Harry.

— Até amanhã... com certeza!

— Até! — O menino pedalou a bicicleta e desapareceu.

— E então? — Mitchell perguntou.

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Elaine se afastou num sobressalto. Com um remanescente sorriso curvando-lhe os


lábios, ele era lindo. Furiosa com seus hormônios traidores, Elaine o fitou.

— Então, o quê?

— Não vamos entrar? — Ele a olhou, a expressão provocante. — Pelo registro, sra.
Stuben, esta é a minha casa.
Ela se arrepiou.
— Não pelas próximas duas semanas.
Mitchell contraiu o maxilar e Elaine teve a nítida impressão de que ele estava
apreensivo. Ela sentiu um sabor de vitória. Ótimo! Pela primeira vez, estava
aborrecendo-o! Quando ele tirou o sobretudo e se aproximou, Elaine deu um passo
para trás.
— O que está fazendo?
Mitchell colocou-lhe o casaco sobre os ombros. A volumosa peça de roupa a envolveu
por inteiro, até os tornozelos.

— Se você pretende ficar aqui fora, debatendo o assunto pelas próximas duas
semanas, precisará de um casaco.

— Apenas pretendo permanecer aqui fora enquanto você estiver aqui!

— Tente duas semanas.

— Duas... duas... — A voz dela falhou. Desta vez a gagueira não era devida ao vento
do inverno, mas à sugestão de que ele estaria em Chicago pelas próximas duas
semanas. Aquilo parecia um pesadelo. Ela não devia ter ouvido direito. — Você... você
vai ficar aqui duas semanas? — perguntou, incrédula.
Ele comprimiu os lábios. Aparentemente o silêncio era a resposta mais eloqüente.
Elaine sentiu medo. Por que ele a estava ameaçando daquele jeito? Por que chegara
com duas semanas de antecedência? Será que planejava roubar-lhe até mesmo os
últimos dias no lugar que fora seu lar durante o último ano? Havia muito a fazer.
Empacotar, limpar e... e além do mais, ainda não encontrara outro emprego nem casa
para morar.
Ele a fitou por alguns instantes, então a segurou pelo braço e induziu-a a entrar no hall.
— Por isso, um tour pela casa seria ótimo.
A porta se fechou assim que eles entraram. Elaine se soltou bruscamente da mão dele
e virou-se para encará-lo.
— Jamais ponha suas mãos em mim! Já basta o que tenho suportado...

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Não, Elaine! Você não vai expor seus problemas pessoais para este homem! Uma outra
voz em sua mente tentou lhe enviar um lembrete sobre quão atencioso e cortês Guy
fora quando se conheceram. Com um título de honra da melhor universidade
americana, uma família de classe alta e um inacreditável charme, fora impossível
resistir ao namoro relâmpago e ao casamento. Depois disso, já era tarde demais.
O ciúme irracional de Guy e o temperamento ameaçador foram um choque. Poucos dias
após o casamento, já não lhe era permitido sair sem a permissão de Guy. E o contato
dela com clientes do sexo masculino no trabalho, o tinham levado à ira total.
Ele enfronhara-se na empresa dela com grandes idéias para expansão. Apavorada pelo
temperamento explosivo do marido, Elaine não soubera como se desvencilhar da tirania
de Guy, que basicamente assumira o comando do que Elaine vagarosamente viera
construindo durante cinco anos. O que começara como uma pequena lojinha de
artesãos, transformara-se numa grande fábrica de acolchoados de arte.
O ciúme medíocre de Guy e suas atitudes absurdas levaram o casamento de Elaine
para o mesmo buraco que seus negócios. Ele desprezara as preocupações dela,
solicitara empréstimos no banco, negociara contratos, fazendo promessas que ela e a
equipe de talentosas costureiras não podiam cumprir.
Na manhã do dia da morte de Guy, ela finalmente encontrara coragem para decidir. O
casamento de sete meses e a sociedade nos negócios tinham sido um pesadelo.
Naquela noite, ela já tinha até feito as malas e planejara dizer-lhe que tudo estava
terminado. Em vez disso, a trágica notícia da morte dele havia chegado. Desde então,
não fora capaz de afastar a crença irracional de que seu desejo de abandonar um mau
casamento, de alguma maneira, interferira no destino de Guy.
Elaine sentiu a garganta apertar. Os últimos cinco meses tinham sido piores do que os
cinco anos de batalha para formar sua empresa. Debatendo-se contra um débito
devastador e trabalhando sob condições impossíveis, ela lutara com toda sua fibra para
salvar a empresa.
Tudo aquilo era passado agora. O negócio estava acabado. Todo seu dinheiro se fora. E
o de Claire também. A parte física da empresa pertencia a Mitchell Rath, incluindo
aquela propriedade. Ela precisava encarar o fato. Tinha de começar a trabalhar, apesar
do sentimento de culpa. Recomeçar, economizar o bastante para reiniciar sua
confecção de acolchoados...
— O que você tem suportado? — perguntou ele.
Não, sr. Rath... Você pode ter se apossado de tudo que era meu, mas não vai invadir a
minha vida pessoal!
— Nada. Esqueça — Elaine respondeu. — O que você tem a ver com isso?
A expressão daquele homem bonito endureceu por um instante, mas ele não respondeu

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de imediato. Era quase como se ela tivesse lhe ferido os sentimentos.


Ele deu de ombros e examinou com os olhos o elegante hall.

— Perdoe-me. Não tive a intenção de me intrometer. Que voz sexy, pensou ela.

— Vou pegar isso, se você não se importa — disse ele. Elaine franziu a testa, confusa.

— Meu casaco — esclareceu, inclinando-se sobre ela. Sentindo-se tola por deixar-se
arrebatar por algo tão frívolo como uma voz, Elaine tirou o casaco e o entregou.
— Obrigado — disse Mitchell. — Agora, se puder me mostrar meu quarto.
Elaine o olhou estupefata. Após um disparo do coração, encontrou palavras para falar:

— Seu quarto? — Como o homem ousava presumir que ela o deixaria ficar? Os
advogados da empresa dele haviam prometido que ela tinha mais duas semanas na
casa antes que Mitchell Rath tomasse posse. Isso não fora escrito, mas ela acreditara
que o homem manteria a palavra! — Tente o Hotel Holliday Inn.

— Que tal a suíte principal? — Ele olhou ao redor, parecendo procurar algo. — Isso
seria tradição.
— Tradi... — Ela mal conseguia falar. — Aquele é o meu quarto!
Ele caminhou até o armário embutido do hall. Depois de pendurar o casaco, virou-se e
fitou-a com os olhos negros magnéticos. Elaine se recusou a ser afetada, dizendo a si
mesma que aquele brilho era perfeito para a criatura fria e cruel que ele era. E pensara
ter visto calor naquele olhar!
Mitchell assentiu com um lento gesto de cabeça.
— Já que a suíte principal está ocupada, quem sabe então um quarto com face sul?
— Face sul? — ecoou ela. — Acho que você deveria escolher algum dos quartos da face
norte... para manter gelado esse sangue frio que corre em suas veias!
O ambiente ficou mortalmente silencioso. Eles se entreolharam por um longo tempo. O
olhar duro de Mitchell, combinado com a misteriosa sensualidade que ele irradiava, a
perturbava completamente. Elaine não gostava do efeito tórrido que o homem exercia
sobre ela.
— Percebo que isso é uma imposição, sra. Stuben. Tentarei não lhe causar nenhum
estresse indevido.
Ela se controlou com dificuldade, com raiva de si mesma por permitir que aquele
homem cruel a afetasse daquela forma.
— Você não pode estar falando sério.
— Sobre não lhe causar estresse?

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Ela deu uma risada, ridicularizando.


— Oh, claro! Isso acontecerá. Não, não sobre seu desejo tão sincero em não me causar
nenhum estresse indevido, mas sobre achar que eu consideraria permanecer sob o
mesmo teto que você! Nem ao menos uma noite, senhor. — Ela levantou o queixo,
desafiadora. — Quem dirá duas semanas!
Ele enfiou as mãos nos bolsos da calça.
— Claro, a decisão é sua.
A aparência tranqüila dele perante sua ameaça de sair da casa, a irritou ainda mais.
— Você não tem nenhum remorso por expulsar pessoas de suas próprias casas?
Ele não respondeu.
— Bem, de acordo com o combinado, posso permanecer aqui por mais duas semanas!
— disse ela.
— Não estou lhe pedindo para sair, sra. Stuben.
Aquilo era verdade. Furiosa, ela cruzou os braços e desviou o olhar. Um rápido
pensamento invadiu-lhe a mente.
— Então é esse o seu jogo? — Ela apontou um dedo para ele. — Você não me fará sair,
mas sabe que não ficarei. — Ela se aproximou, desejando dar-lhe um tapa no belo
rosto. — Brilhante estratégia! Pode tirar uma pessoa de casa semanas antes do prazo e
sem violação de contrato, só porque você é uma companhia muito detestável.
Ele a fitou seriamente e Elaine começou a tremer.
— Bem, sra. Stuben — disse ele com voz calma e controlada —, a decisão é sua.

CAPITULO II

Elaine encarou Mitchell boquiaberta, claramente não esperando que ele a tivesse
convidado a se retirar de sua própria casa.
Mitchell estava surpreso consigo mesmo, uma vez que aquilo não era o que queria.
Todo seu plano dependia de Elaine Stuben. Ela não podia se mudar. Ele não permitiria.
Aqueles grandes olhos verdes piscaram várias vezes. Ele notou que ela estava tentando
conter as lágrimas e praguejou silenciosamente. Detestava aquilo. Detestava estar lá.
Estava acostumado a assinar um cheque para que seus advogados lidassem com o lado
humano daquelas transações.
Fazia muito tempo que se isolara do sofrimento do mundo, disciplinando-se para não se
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deixar comover por emoções alheias. Fora uma lição que aprendera durante sua
criação, vendo seus pais compartilharem o pouco dinheiro que tinham com pessoas
sofridas e necessitadas.
Uma vez que herdou os genes dos pais, sabia que estava geneticamente predisposto a
ser um seguidor de uma história triste, então passara à idade adulta endurecendo o
coração contra súplicas e choros.
Os lábios de Elaine começaram a tremer e ele experimentou uma compaixão nada bem-
vinda.
Ela mordeu o lábio inferior, virou-se, então desapareceu pelo corredor que levava para
dentro da casa.
Mitchell estava confuso. Pensara que ela iria ao quarto para fazer as malas. Mas ela não
subiu. Possivelmente o plano da sra. Stuben era escapar pela porta dos fundos, pegar o
carro e então desaparecer na cidade- Ele decidiu que era melhor segui-la. Seu plano de
jogo não incluía dar queixa de uma pessoa desaparecida, que preferiria ser devorada
por leões a passar uma noite sob o mesmo teto que ele. Então, seguiu-a.
Não demorou muito para perceber que ela não estava fugindo pelos fundos. Ouviu
vozes femininas, uma das quais reconhecera como a de Elaine. A outra voz, de uma
mulher um pouco mais velha, soava preocupada.

— Mas, Elaine, para onde vamos? Meu novo sistema de calefação não será instalado
antes de três de fevereiro. Ainda faltam duas semanas. Está muito frio para ficarmos lá
sem aquecimento.

— Um hotel então — disse Elaine.

— Como vamos pagar? — Houve uma pausa e Mitch pensou ouvir um suspiro desolado.
— Nós perdemos o meu dinheiro também, tentando salvar o seu... — A sentença não
se completou.

— Oh, tia Claire, o que vamos fazer?

Mitch já ouvira o suficiente. Escutar atrás da porta não estivera em seus planos, mas
aquilo lhe deu a munição que precisava para coagir a moça teimosa a reconsiderar uma
abrupta partida. Ela tinha muito a ganhar se ficasse, e nada a perder.
Ele parou na porta da imaculada cozinha tamanho industrial, em aço com azulejos
extremamente brancos. As únicas coisas coloridas eram os pratos com sanduíches
sobre o balcão de metal polido.
Nem a fuligem no rosto da sra. Stuben mascarava o rubor de raiva de sua face. A
mulher mais velha usava uma camisa de flanela vermelha e os cabelos alvoroçados
davam-lhe um visual interessante. Parecia uma pessoa de bem com a vida. Mitch
gostou dela imediatamente, então franziu o cenho para o pensamento. Não planejava

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tornar-se amigo daquelas pessoas. Elas seriam úteis por um tempo. Só isso.
A dupla provavelmente o ouvira chegar, pois ambas se viraram ao mesmo tempo. A
sra. Stuben o encarou. A outra mulher o observou, parecendo desconcertada. Ele pôde
ver um semblante familiar nas duas. A mais velha, Mitch calculou que teria uns
cinqüenta anos. A maturidade lhe dera alguns quilos a mais, mas estava em boa forma
física. O nariz era comprido e afilado, mas ela tinha os mesmos grandes olhos verdes e
generosos lábios de sua sobrinha.
— Escolha qualquer quarto da casa — murmurou Elaine. — Iremos embora assim que
empacotarmos as coisas.
Mitch suprimiu a irritação, assumiu uma aparência diplomática e falou.

— Obrigado.

— Não me agradeça. — devolveu ela. — E a sua casa, recorda-se?

Ele assentiu.
— Sim, é. — Indicando a mulher mais velha, perguntou: — E quem é esta... adorável
senhora? — Então presenteou Claire com um sorriso charmoso.
A simpática senhora sorriu.
— Sou Claire Brousse, tia de Elaine. Estou aqui desde que ela... hum... despediu os
empregados. Para ajudar a deixar a casa pronta para... o novo proprietário.
Mitch instintivamente soube que ela era generosa. Uma benfeitora da humanidade. Ela
o lembrava sua própria mãe e ele sentiu a familiar dor da perda. Sua mãe morrera
quando ele tinha dez anos e ainda lhe doía lembrar. Ele pigarreou, mantendo o sorriso
com dificuldade.

— Como vai, sra. Brooke?

— Senhorita — corrigiu ela. — Sou uma solteira convicta.

— E eu sou o Predador... ou o Mágico. — Ele inclinou a cabeça num leve cumprimento.

— Mágico? — Elaine soou duvidosa. — Por quê? Porque você transforma o dinheiro
duramente ganho das pessoas em seu?
A pergunta irônica o fez hesitar, mas ele não demonstrou.
— Não, sra. Stuben. Porque transformo destroços em ouro.
— Isso foi o que eu disse. Ouro seu!...
Ele contou até dez, controlando-se.

— Vamos pegar a sua empresa como exemplo. Em seu estoque você tinha setecentas
bandeiras para bordar o logotipo de um banco. Você não pôde completar o pedido todo

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no prazo, então o banco cancelou a encomenda. E você ficou com setecentos pedaços
de pano inúteis e sem valor.

— Isso é arte têxtil. Arte têxtil feita à mão — disse ela, secamente.

— Que seja. — Ele desprezou o argumento dela. — Encontrei uma cadeia de lojas que
deseja comprar aqueles tecidos, cortá-los e transformar em travesseiros. Subitamente,
eles agora já têm valor. — Ele deu de ombros. — Ouro.
Mitch a encarou e perguntou-se como ela seria com o rosto limpo e os cabelos livres
daquela faixa. Encaracolados, brilhando como ouro vermelho. Pareciam claros e macios.
Ele imaginou como seria senti-los...
Com um sobressalto, percebeu por onde a mente vagara. O que está acontecendo com
você, Rath?
— Repito — murmurou ela. — Mais uma vez, ouro seu.

— Não inteiramente. Eu lhe paguei um preço justo. Ela olhou para cima.

— E você ficou feliz por receber — acrescentou ele, mantendo o tom civilizado.
Elaine o olhou feio, mas não respondeu.
— Olhe, sra. Stuben, alguém ia fazer isso, e por acaso fui eu — Mitch defendeu-se.
Elaine bufou, indignada.
— Acho isso uma técnica suja.
Raiva o levou ao limite de seu controle. Por que aquelas pessoas o odiavam? Ele estava
lhes prestando um favor. Sem ele, estariam em maus lençóis com os credores. Será
que não entendiam isso? Tentou ser racional.
— Isso é apenas um negócio. Você sempre pode começar outro.
Elaine engasgou.
— Como você pode ser insensível assim? Para mim, essa carcaça, da qual você está
fazendo tanto descaso, não é apenas um negócio. Isso tem coração e alma. —
Endireitou o corpo orgulhosa, tremendo de raiva. — Meu coração e minha alma!
Ele assistiu uma lágrima perdida descer pela face suja de fuligem. Sentiu uma dor
amarga por dentro e de repente teve pena dela, mas lutou contra a sensação.

— Para sua informação, senhor...

— O nome é Mitchell Rath, sra. Stuben — interrompeu ele. — Chame-me de Mitch.

A mágoa e a raiva nos olhos verdes quebraram a barreira de proteção, mas ele
conseguiu preservar a compostura.
— Para sua informação, Mitch, aqueles tecidos que desenhei eram trabalhos de arte
Projeto Revisoras 15
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(Mom Intimos 143)

feitos à mão. Minhas costureiras e eu cuidadosamente demos vida a eles para uma
linha que eu desenhei. E eles valiam quatro vezes o que você pagou!
— Eles valiam o que você pudesse conseguir por eles — replicou Mitch. — Para ser
honesto, você teve sorte por eu ter encontrado alguém que quisesse aquelas coisas.
Ela ficou boquiaberta.
O sorriso de Claire se apagara e ela parecia aborrecida. Aparentemente, também se
chateara com a observação dele.

— Desculpem-me se as ofendi — disse ele, sinceramente. — Tenho certeza de que eles


eram... muito bonitos.

— Não se preocupe em desculpar-se, senhor... Mitch. — Elaine puxou a tia pela mão.
— Você está certo. Eles eram apenas coisas inúteis e sem valor, independente de com
quanto carinho foram criados. E o dinheiro que você me pagou foi apenas o suficiente
para pagar meus funcionários. Muito obrigada.
Conduzindo a tia até a porta, ela deu uma parada e o encarou. Eles estavam perto
agora. Havia fúria nos olhos de Elaine.
— Alguma vez já saboreou o prazer de criar algo único e belo, sr. Rath? — Ela fez uma
pausa. — A criação é algo que nos traz um contentamento verdadeiro.
Ele estendeu a mão, alcançando o outro lado do batente, interceptando a passagem
dela. Estava cansado de discutir. Fora um longo dia e sua paciência se esgotara.

— Podemos discutir meu contentamento ou a falta dele em outra hora. No momento,


tenho uma proposta para você e não pretendo deixá-la sair antes de ouvir minha
oferta.

— Oferta? — perguntou Claire.

Mitch olhou para a face inquisitiva da mulher mais velha. Quando voltou a encarar
Elaine, a expressão dela era de dúvida.
— Oferta? — ecoou ela. — Nosso negócio está terminado. Não tenho mais nada para
ser roubado.
Aquele comentário doeu em Mitch, mas ele precisava dela. Não podia deixar que o
orgulho destruísse seus planos.
— Se você escolheu usar o termo roubar, vamos usá-lo então. — Buscando controle,
ele falou calmamente: — Permitindo-me roubar duas semanas do seu tempo e
experiência, você pode me convencer a deixá-la manter isso aqui. — Ele estendeu o
braço, indicando a mansão.
Elaine o encarou com descrença.

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— Manter... a... a casa?

Mitch assentiu, observando-a.

— Não entendo — sussurrou ela, sem fôlego.

Ele já sabia daquilo. Também sabia, pela expressão incrédula de Elaine, que ela estava
se perguntando que tipo de experiência possuía que valeria uma propriedade
multimilionária como aquela de volta. O semblante endureceu. Os olhos arregalaram
em choque.
— Por acaso você enlouquec...
— Não, sra. Stuben — interrompeu ele. — Não pretendo roubar seu corpo, se é isso
que está pensando.
Elaine corou. Como ele adivinhara seus pensamentos?
— Por favor, explique exatamente o que quer dizer, sr. Rath — pediu Claire.
Elaine ouviu a pergunta da tia, mas não conseguia desviar os olhos de Mitchell Rath.
Olhos negros brilhantes. As feições esculpidas exerciam uma influência sensual tão
forte que pareciam imobilizá-la.
Como podia desprezar aquele homem se não era nem capaz de desviar os olhos dele?
Um homem bonito não era desculpa para que ela se rendesse a seus princípios!
— Sim — conseguiu dizer finalmente, a voz rouca. — Qual é a sua oferta?
Mitch se encostou no batente, uma mão ainda pressionada do lado oposto, perto dela.
Parecia muito calmo e inatingível, mas em algum lugar abaixo da superfície, Elaine
percebia uma energia irrequieta. Embora a expressão e a linguagem corporal dele
fossem de enorme frieza, por dentro produzia um calor erótico suficiente para
descongelar os pólos terrestres. Aquilo a intrigava terrivelmente.
— É muito simples, sra. Stuben — disse ele, tirando-a do devaneio. — Quero um
contato direto com o grande Paul Stuben. Como nora dele, você tem acesso e
influência. Arranje-me uma reunião com o homem e poderei permitir que você fique
com a mansão.

— Meu... Meu Deus! — sussurrou Claire.

— Uma... uma reunião?,— repetiu Elaine, ainda tentando assimilar aquelas palavras.

Ele tirou a mão do batente e cruzou os braços.


— Não será tão simples quanto parece. Faz um mês que estou tentando falar com ele.
O poderoso líder das Lojas de Departamentos Stuben se recusa a atender meus
telefonemas.
A oferta girava na cabeça de Elaine, e ela meneou a cabeça.

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— Bem, se seu objetivo é uma reunião com Paul Stuben, eu sou a pessoa errada para
lhe ajudar. Ele me odeia. — A recordação das acusações grosseiras do perturbado
sogro lhe voltou à mente. Ela se encostou contra a parede, abaixando o olhar.
— Ele me acusa pela morte de Guy.
Mitchell Rath não disse uma palavra. Elaine manteve o olhar baixo, com a sensação de
tristeza retornando. Sabia que estava sendo ridícula por deixar-se abater pelas
acusações dele. Nunca teria desejado a morte de Guy. Mas justo no dia que planejara
dizer-lhe que o casamento findara... ele morrera. Ela não podia se livrar daquele
repugnante senso de responsabilidade.

— É verdade, sr. Rath — reafirmou Claire, delicadamente. — - Guy morreu num acidente
de avião. Ele construiu uma aeronave experimental. Elaine achava que aquilo era
apenas um hobby. Não tinha idéia de que ele faria uma coisa tão perigosa quanto...

— Ele não precisa da história da nossa vida, tia Claire. — Elaine relutantemente olhou
para Mitch. Para salvar a casa dos ancestrais do marido, ela faria aquilo tranquilamente,
mas o ódio de seu sogro, o esmagador sofrimento pela morte de Guy, bem, a discórdia
era tão insuperável, que não haveria acordo.
— Não posso lhe ser útil. Paul Stuben não fala comigo desde o funeral do filho.
As feições de Mitchell Rath endureceram.
— Entendo — disse ele, obviamente decepcionado. Através das emoções conflitantes,
Elaine experimentou, enquanto observava a expressão dele, um repente de satisfação.
Diante dos olhos dela, o vilão que colocara um ponto final na sua empresa estava
sofrendo uma falência. Ela imaginou que testemunhar um momento assim da vida de
Rath seria um privilégio de poucos indivíduos.
Mas a euforia de Elaine durou apenas até ver a mudança na expressão de Mitchell.
Totalmente surpresa, viu-se confrontada por um sorriso tão sexy, tão deslumbrante...
que fez seu corpo inteiro tremer.

CAPITULO III

— Você pode não ser uma das pessoas favoritas de Paul, sra. Stuben — disse Mitch. —
Mas tem acesso, por exemplo, ao clube de campo dele. Isso não é verdade?

— Suponho que sim, como um membro da famíl...

— E você recebe convites para as mesmas festas e eventos beneficentes, não?

Projeto Revisoras 18
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— Bem, sim, do tempo que...

— E gostaria de manter essa bela mansão, assim você não precisaria se mudar, certo?

Elaine nunca poderia ficar morando ali. Afinal, se Guy estivesse vivo, ela teria se
mudado muito tempo atrás. Nunca pensara naquela mansão como sua. Mas adoraria
que a propriedade continuasse no nome da família Stuben. Se pudesse salvá-la para
recompensar Paul Stuben... Bem, daria qualquer coisa para fazer isso.
Porém, o sr. Rath não precisava saber dos detalhes. Então ela assentiu sem palavras.
— Então você pode ser de grande ajuda para nós dois.
— Elaine? — intercedeu Claire. — Não custa tentar, custa?
Elaine olhou para a tia e de volta para Mitchell Rath. Sentia-se magoada. Como ele
podia continuar seduzindo-a com a mansão, exigindo o impossível como se fosse
simples? Ele não entendia.
— Ouçam-me! Vocês dois! Paul Stuben me odeia. Ele não ouviria nada que eu tivesse a
dizer ou se preocuparia em receber alguém que eu indicasse...

— Não tenha tanta certeza — respondeu Mitch. — Dizem que ele anda fazendo
algumas coisas estranhas ultimamente.

— O que você está falando?

— Ele está tomando más decisões nos negócios, agindo excentricamente. Você não
ouviu rumores de que ele está à beira de um colapso emocional, pretendendo levar seu
império à falência?
Elaine apenas o fitou, incrédula.

— Não...

— Elaine não vê o sogro há meses — comentou Claire. — Ela não tem nada a ver com
as lojas de departamentos e certamente não tem tido dinheiro para fazer compras lá.

— Não vejo Paul desde o enterro de Guy — repetiu Elaine, recapitulando quão rude e
irracional o sogro fora após a morte de Guy. Ela ainda sofria pelas acusações dele.
Estaria o sogro tão perdido em tristeza que destruiria deliberadamente o império
centenário das lojas de departamentos, famosa pelo refinamento e bom gosto? Seria
aquilo possível? Ela suspirou.

— Isso está acontecendo — disse ele.

— O que é que está acontecendo? — perguntou Elaine, perdida em seus pensamentos.

— O quadro de diretores está nervoso. Estão com medo de que ele afunde a empresa.
Se ele o fizer, quero estar no primeiro lugar da fila para comprar o que restar.

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Aquela admissão brusca a assustou.

— Você... quer me usar para ajudá-lo a ser o primeiro a comprar os destroços? Acha
realmente que eu faria parte de um plano desprezível desses?

— Encare, sra. Stuben. — Ele a fitou. — Se seu sogro quebrar, alguém vai encampar a
carcaça. Se isso acontecer, você vai querer perder a casa da família também? Não
preferiria que eu fosse a pessoa a assumir os resíduos? Pelo menos assim você ainda
teria um teto sobre sua cabeça.

— Ele tem uma forte argumentação — ponderou Claire, olhando de maneira suplicante
para a sobrinha.
Elaine estava enojada.

— Isso é chantagem!

Mitch comprimiu o maxilar.

— Isso é simplesmente negócio, sra. Stuben.

— Elaine?

Elaine virou-se para a tia, desviando os olhos de Mitch com relutância.

— O que foi, tia Claire?

— Sei que isso não é da minha conta, e que o sr. Rath é conhecido por ser um
empresário sem misericórdia. — Ela deu um olhar envergonhado para ele. — Sem
querer ofender.
Mitch assentiu com um gesto sério de cabeça. Claire encarou Elaine.
— Mas ele está certo quando diz que isso é negócio. Sei que isso não é da minha conta,
mas apenas quero o melhor para você. — Ela tocou a face de Elaine com carinho. —
Vou subir, assim vocês dois podem conversar. — Ela olhou para Mitch. — Tenho
certeza de que você está com fome. Há sanduíche de frango sobre o balcão e leite na
geladeira. — Passando pela porta, acrescentou: — Elaine não comeu nada o dia inteiro
e quando esquece de se alimentar, fica nervosa. Comam. Os dois. Vocês se sentirão
melhor.
Antes que Elaine pudesse protestar contra o estranho conselho da tia de que ela
jantasse com o maior inimigo, a mulher mais velha tinha desaparecido.
O silêncio tornou-se tão intenso que Elaine pôde escutar o barulho da torneira
pingando.
— Talvez seja melhor você comer. — A voz grave ecoou na imensa cozinha.
Ela o fitou com raiva.

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— Nem mesmo um estômago cheio mudará minha atitude em relação a você.


Mitch olhou para o corredor, aparentemente acompanhando a partida de Claire e
tentando se controlar.

— Se quer comer ou não, o problema é seu, mas pretendo mostrar minhas boas
intenções a Paul Stuben — disse ele. — Deixá-lo me ver como um mágico e não como
um predador. Tudo que peço é que você deixe claro que está satisfeita com o quanto
eu a ajudei comprando a sua empresa.

— Satisfeita? — A expressão dela era de perplexidade. — Você não precisa de mim, sr.
Rath. Precisa de uma atriz sem nenhum caráter moral.
Ele tencionou o maxilar de modo tão sexy, que Elaine teve que desviar o olhar.

— Acho que vou comer — anunciou ele.

— Você... Você o quê? — perguntou ela, chocada. Então o assistiu adentrar a cozinha e
caminhar até o balcão. Ele indicou os pratos de sanduíches. — Alguma preferência?
Elaine deu uma gargalhada cínica.
— Sim. Que você vá embora.
Mitch franziu o cenho antes de pegar um sanduíche e dar uma mordida.

— Você vai mesmo comer o jantar da minha tia? — Ela deu alguns passos e se colocou
na frente dele, mãos nos quadris.

— Estou com fome — disse ele. — Não comi nada o dia todo também. — Ele puxou um
banco alto e se sentou, levantando a metade do sanduíche na direção dela. — Está
ótimo.
— Sei que está ótimo. Eu fiz o frango.
Ele comeu outro pedaço e sorriu.
Exasperada que aquele sujeito ousado estava realmente se sentindo em casa, Elaine se
recusou a sucumbir à fome na frente dele. Tentou ignorar o ronco de seu estômago e
rezou para que ele não o ouvisse.
Mitch se levantou e caminhou até a geladeira. O movimento repentino a surpreendeu e
ela deu um passo para trás.
— Olhe — começou ele —, você podia muito bem tirar proveito de mim e parar de ser
medrosa. — Não vou lhe causar nenhum dano físico. — Ele lhe lançou um olhar
esquisito, como se estivesse curioso sobre o comentário grosseiro que ela deixara
escapar mais cedo.
Elaine enrubesceu. Nas últimas semanas antes de Guy morrer, ela tivera medo dele. O
ciúme doentio do marido havia aumentado. Ele ainda não a agredira fisicamente, mas

Projeto Revisoras 21
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ela tinha o pressentimento... temia...


— Bem, pretendo ficar por aqui até conseguir a reunião com seu sogro. — Ele abriu a
geladeira, retirou uma caixa de leite e olhou para ela. — Onde ficam os copos?
Ela indicou uma prateleira ao lado da geladeira metálica.
Mitch pegou dois copos, retornou ao banco e encheu-os de leite. Empurrando um na
direção dela, começou a comer a outra metade do sanduíche.
— Estamos completamente em casa, agora? — Elaine perguntou, sarcasticamente.

— Não completamente — disse ele, terminando o sanduíche.

— Mesmo? Que pena! Por favor, diga-me o que posso fazer para que você se sinta mais
à vontade.

— Eu gostaria de usar o chuveiro. — Ele bebeu um pouco do leite, olhando-a através do


copo.
Será que Elaine detectara uma certa zombaria no tom dele? O predador estava
caçoando dela, divertindo-se à sua custa?
— Você é grosseiro, cruel, bruto e perverso! — exclamou ela,
furiosa.
Ele pousou o copo no balcão com um som forte.
— Você é teimosa, boba e sofre de excesso de orgulho! — Mitch balançou o prato na
direção dela. — Coma. Sua tia pode me mostrar o quarto. Amanhã, depois que você
tiver descansado e se alimentado, verá as coisas com mais clareza. — Ele levou o prato
e o copo para a pia e jogou água neles. — Entenderá suas opções. Ou perder tudo para
mim, ou ajudar-me. Se você se decidir pela opção número dois, tem a chance de salvar
esta propriedade.
Ele abriu a máquina de lavar louça e depositou o prato e o copo ali antes de encará-la.
— Isso sem falar no valor estimativo. Sei que a mãe e a avó de seu marido nasceram
aqui. — Ele se levantou, muito sexy, com seu bronzeado californiano e os dedos longos
pousados na ponta do balcão.
Subitamente Elaine teve a sensação de que alguma coisa nele estava diferente, menos
ameaçadora. O quê? As mãos molhadas? Aquela era a única coisa que havia mudado.
— Boa noite, sra. Stuben — Mitch falou, sem tirar os olhos dela.
Instintivamente ela alcançou o pano de prato e o estendeu para ele.
— Boa... boa noite. — Elaine não sabia por que era importante que ele secasse as
mãos. Será que ela o queria mais ameaçador? Certamente não.
Ele pegou o pano, secou as mãos, colocou sobre o balcão e se foi.

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Elaine ficou parada ali, atônita. Depois que o som dos passos de Mitch desapareceu, o
único ruído que podia detectar era o ronco de seu estômago. Mitchell fechara a torneira
tão forte que ela não pingava mais. Então Elaine olhou para os sanduíches e o copo de
leite esperando sobre o balcão.
Não sabia o que era mais bizarro... a liberdade dele dentro daquela cozinha ou o fato
de que ele queria que ela lhe facilitasse as coisas com seu sogro hostil.
Esgotada, sentou-se no banco da cozinha, apoiando os cotovelos sobre o balcão e
descansando a cabeça entre as mãos. Mitchell Rath era um pirata engenhoso... que
lavava sua própria louça. Ela fechou os olhos.
Mas então, qual era o problema de ele ter boas maneiras?
Em algum lugar na mente, uma comparação emergiu. Em todo o tempo que fora
casada com Guy, nunca o vira lavar um prato ou servir-lhe alguma coisa. Claro que fora
criado num ambiente de luxo, onde estava acostumado a ser servido. Elaine não tinha
idéia sobre a criação do sr. Rath. Evidentemente alguém o ensinara alguns preceitos
básicos da boa educação.

— Mas isso não muda o fato de que Mitchell Rath é um chantagista.

— O que não muda o fato de eu ser um chantagista?

A voz dele irrompeu no silêncio. Virando-se, ela quase caiu do banco.


— Eu... pensei que você tivesse saído! — Uma coisa era ele saber como ela se sentia,
outra bem diferente era ouvir as palavras ofensivas. Ela recuou.
A expressão dele não dizia nada.

— O que não muda o fato de eu ser um chantagista, sra. Stuben? — requereu ele
novamente. O homem era insistente em conseguir respostas.

— Você lavou seu prato.

Ele a observou por um instante, franziu o cenho, parecendo querer entender a


colocação dela.

— Era assim que meus pais faziam. — Ele sorriu de modo sarcástico. — Mas através dos
anos, venho desaprendendo muito do que eles me ensinaram.

— Realmente! Você deve ter desaprendido muita coisa. — Ela levantou a cabeça em
desafio. — O que o fez voltar aqui? Ou se tornou um hábito escutar atrás das portas os
murmúrios de sua presa?
Mitch se aproximou e ela se afastou rapidamente. Ele notou a visível rejeição e franziu
o cenho.
— Voltei porque decidi levar um desses para sua tia.

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— Você não quer comer mesmo, quer?


Elaine não respondeu. Apenas o fitou. Por que ele queria levar um sanduíche para sua
tia? Ele vira o interior da geladeira. Será que o fato de não ter visto nada além de leite,
o fez sentir pena de Claire?

— Ela não ficará tão facilmente do seu lado, sabia? — provocou ela.

— Não esteja tão certa. Sou insistente o bastante para tentar. — Ele apontou para o
andar de cima. — Onde é o quarto dela?

— No topo da escadaria — disse ela. — A esquerda. — Ela apontou na direção,


desejando poder ler os pensamentos do homem. — Primeira porta.
Mitch assentiu, puxou um pequeno telefone celular do bolso e o estendeu para ela.
— Ainda estou com fome. — Ele tirou a carteira do bolso do paletó, pegou um cartão
de crédito e colocou-o sobre o balcão. Peça uma pizza. Ouvi dizer que Chicago é
famosa por isso. — Ele guardou a carteira de volta no bolso, pegou um copo de leite e
se virou para sair.
Mitch já estava perto da porta quando ela conseguiu levantar os olhos para o celular
que ele colocara em suas mãos.

— Pizza... que pizza você quer?

— Escolha você. — Ele se virou para olhá-la. — Peça aquilo que acha que um predador
apreciaria. Apenas tenha em mente que você também vai comer dela. — Ele enfrentou
o olhar dela por um longo instante e partiu.
Elaine franziu o cenho. Aquilo era puro sarcasmo ou ele estava realmente comprando o
jantar dela? Será que ele notara geladeira vazia, ou estava meramente preocupado em
ir dormir com fome?
Estava desnorteada e não gostava da sensação. Ele seria mesmo gentil ou aquilo era o
resultado da incômoda consideração infiltrada nele pelos pais?
Ela pegou o cartão de credito e o analisou. Considerando o fato de que não era
nenhum segredo sua antipatia por ele, o homem estava sendo incrivelmente confiante,
deixando um cartão cinco estrelas em suas mãos! Perplexa, ela meneou a cabeça. O
homem tinha uma perturbadora mistura de generosidade e ambição.
Descendo do banco, foi até a porta da cozinha e espreitou o hall através do corredor
vazio. Ele realmente se fora. Ela se encostou à parede e fitou o celular em uma mão e o
cartão na outra.
— Certo, Elaine — murmurou ela. — Então ele é um chantagista cavalheiro.

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CAPITULO IV

Elaine comeu a metade da pizza e Mitchell Rath ainda não retornara à cozinha. O que
estaria fazendo todo aquele tempo? Alimentando tia Claire? Pelo jeito, ele não estava
faminto como alegara.
Ela estava mais que satisfeita. Olhou para a porta da cozinha. Se ele pensava que ela
ficaria ali, esperando-o, estava enganado.
Fechou a embalagem da pizza e colocou o celular e o cartão de crédito sobre a tampa.
Queria livrar-se dele e de seus pertences. O melhor era segui-lo e entregar-lhe tudo.
Subindo a escada, dirigiu-se ao quarto da tia. Uma vez que as mãos estavam ocupadas,
bateu levemente à porta.

— Sim?

— Tia Claire? O sr. Rath está aí?

— Oh, céus, não! — Ela parecia sonolenta. — Estou deitada.

— Quer que eu leve seu prato lá para baixo?

— Não, Elaine, obrigada. Faço isso amanhã. Você precisa descansar.

Elaine ajeitou as coisas na mão quando o celular começou a escorregar.

— Certo... Que quarto você deu ao sr. Rath? Eu... pedi pizza. Houve um bocejo.

— Ele está no quarto ao lado do seu.

— Ao lado do... — Elaine quase não podia acreditar no que ouvira. — Meu?

— É o melhor dos quartos virado para o sul. Sendo da Califórnia, ele não está
acostumado com invernos rigorosos. Achei que ele ficaria mais confortável lá.

— E por que você se incomodaria em deixá-lo confortável? — O que estava


acontecendo com sua tia? Será que não via o homem como o ladrão que era?

— O quê, Elaine?

— Falei...

Ela ouviu um pigarro e virou-se para ver o ladrão em pessoa, aproximando-se pelo
corredor. O som dos passos fora abafado pelo tapete oriental, então ele estava perto
demais para não ter ouvido seu último comentário.
Ele trocara a roupa por uma calça jeans e um blusão de moletom vermelho desbotado,

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onde estava escrito Universidade da Califórnia.

— O quê? — chamou Claire. — Não entendi.

— Ela disse que apreciou sua atitude em me acomodar confortavelmente, Claire.

— Ah... Ótimo. Avisei que ela melhoraria o humor depois de comer. Boa noite, Mitchell.
Boa noite, Elaine.

— Boa noite — respondeu ele, aparentemente por ambos, já que Elaine não conseguia
fazer mais nada além de fitá-lo.
Os cabelos de Mitch estavam um pouco revoltos. Aquilo a surpreendeu. Presumira que
ele gastava o tempo livre admirando-se perante um espelho. Aquele ar casual não se
encaixava na imagem que ela possuía do homem.

— Deixe-me ajudá-la, sra. Stuben. — Ele tirou o celular e o cartão das mãos dela,
guardando-os no bolso do jeans. — Espero que tenha me aguardado para comer a
pizza.

— Comi metade dela. Eu lhe avisei que minha atitude em relação a você não ficaria
nada melhor, mesmo de estômago cheio.

— Ah, certo — disse ele, sorrindo. Elaine estendeu-lhe a caixa.

— Espero que você goste de abacaxi com cebola. Mitchell fez uma careta.

— Pizza de fruta com vegetal? Tenho certeza que deve ser


bem... nutritivo.
A provocação dele fez amolecer os joelhos de Elaine. Respirando fundo, ela desviou o
olhar.

— Bem, vou me deitar. Tenho um longo dia aman...

— Nós começaremos pela -manhã, sra. Stuben.

Aquele comentário a deteve. Desconfiada, virou-se para encará-lo.

— Começaremos?

— Onde estará seu sogro pela manhã? No escritório? Ela meneou a cabeça.

— Ele normalmente joga golfe nas manhãs de sexta. Mas com neve, estará no clube,
jogando baralho.

— Então... iremos lá.

Ela não se abalou com a declaração. Já esperava por isso. Sem dúvida, com
determinação total para alcançar um objetivo era como ele conseguira chegar onde
estava. Ela fechou os olhos e respirou fundo.

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— Isso não vai funcionar.

— Com essa atitude negativa, não me surpreende que sua empresa tenha falido.

Elaine arregalou os olhos.


— Minha atitude não tem nada a ver com a falência da minha empresa. E apesar disso
não ser da sua conta, sou muito otimista!
Irada, avançou na direção dele, como se pretendesse agredi-lo.
— Mantenha sua opinião para si mesmo, sr. Rath! — exclamou, lutando para manter o
auto controle. — Você não sabe do que está falando.
Ele a observou alguns segundos antes de assentir.
— Tem razão, sra. Stuben. Peço desculpas. — Com um leve gesto de cabeça, ele se
despediu. — Boa noite.
Mitchell passou por ela, caminhou pelo corredor e desapareceu para dentro do quarto.
A porta se fechou com uma pancada sólida.
Elaine andou pelo longo corredor, resmungando da louca decisão da tia de colocá-lo
justamente no quarto ao lado do dela. Havia outros oito quartos perfeitamente
adequados na casa, embora nenhum deles tivesse a preciosa exposição para o sul que
a sensibilidade californiana do homem requeria.
Os pensamentos voltaram ao plano de chantagem dele. Era muito desprezível e ela
detestava a idéia de fazer parte daquilo, mesmo para salvar a mansão.
O pensamento a alertou. E se Paul Stuben retomasse o controle e não afundasse a
empresa? Se isso acontecesse, até mesmo se ela fosse adiante com o horrível plano, as
manipulações de Mitchell Rath teriam sido inúteis. A única razão que a estava fazendo
considerar o plano, era a segurança do sogro. A propriedade deveria reverter para ele,
se tivesse que ir para alguém.
Elaine chegou à porta de seu quarto, mas não chegou a virar a maçaneta. Não tinha
nenhuma intenção de ir adiante com aquele plano se havia uma chance de perder a
propriedade para Mitchell Rath.
Determinada, bateu à porta dele.
Não houve resposta, então ela bateu com mais força.

— Sr. Rath! Preciso lhe falar. Imediatamente!

— Certo, certo — veio a voz profunda, soando irritada. — Estou indo.

Ela colocou as mãos nos quadris, permitindo-se um sorriso de orgulho. Gostava de


irritá-lo. Dava-lhe uma louca sensação de poder. Quase saboreando o confronto,
levantou o queixo, recapitulando a solicitação que ela insistiria ser, adicionada na

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negociação deles.
— Sr. Rath — murmurou ela para si mesma, treinando. — Se eu fizer tudo que você me
pedir, exijo que abandone qualquer direito sobre esta propriedade, independente do
que acontecer entre você e Paul Stuben. — Sim. Aquilo estava bom.
A porta se abriu. Elaine abriu a boca, mas o discurso preparado ficou preso na garganta
até que o único som que conseguiu produzir foi:
— Oh?! — Aquilo soou como uma questão: Por que você não está usando nada além
de uma toalha?
Ele cruzou os braços sobre o musculoso tórax, coberto de pêlos escuros.
— Gosto de visitas, sra. Stuben. Mas isso não podia esperar até amanhã?
O olhar dela percorreu o tórax até a toalha verde-água, precariamente amarrada na
cintura.
Elaine conhecia aquela toalha, e pelo que se lembrava, era enorme, pelo menos quando
a havia dobrado no dia anterior. Mas observando-a agora, notou que mal cobria a
metade das coxas musculosas, bronzeadas bem feitas. Ficou alterada por descobrir que
não havia uma parte sequer no corpo do homem que não fosse atraente.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntou ele. — Ou você se esqueceu de desejar que
eu sonhasse com os anjos?
Ouvindo aquele tom sarcástico, tentou concentrar a atenção no rosto dele.
— Humm... — Ela perdera a linha do pensamento. Tudo que podia ver era uma toalha
verde que não disfarçava os atributos masculinos. Tremeu perante a visão sexy que se
recusava a deixar sua mente.
O que estava acontecendo com ela? Qualquer um pensaria que nunca vira um homem
de toalha antes. Apenas porque sua vida com Guy se transformara numa existência
triste, apenas porque cada partícula de amor fora sistematicamente esmagada pelo
domínio dele, não era desculpa para ficar excitada com...
— Você quer entrar?
Meu Deus! Será que o sujeito estava pensando que ela queria alguma coisa íntima com
ele?
— Nem morta, obrigada. Vim aqui porque quero deixar uma coisa clara, sr. Rath. —
Elaine achava difícil se referir a ele tão formalmente, considerando que o homem
estava quase nu.
— E... — Ela titubeou. — Quero lhe fazer uma pergunta. Se eu fizer tudo o que você
me pedir, no seu plano para marcar uma reunião com meu sogro, e ele assim mesmo
não negociar com você, vou perder a propriedade?

Projeto Revisoras 28
Renee Roszel - Um assunto pessoal
(Mom Intimos 143)

A questão o fez franzir o cenho. Ele a estudou por alguns instantes como se estivesse
dando séria importância à pergunta dela.
O silêncio que se seguiu era enervante.
Elaine suspirou.
— Pense bem, sr. Rath — disse ela, quebrando o silêncio. — Porque se sua resposta for
não, recusarei participar do seu plano.
Ele a observou com aqueles experientes olhos negros e frios. Porém, havia um calor
que irradiava do fantástico corpo masculino e as faces de Elaine queimaram com o
efeito.
— Bem — resmungou ela. — Estou esperando.
Mitch levantou uma única sobrancelha e os lábios se comprimiram por um segundo.
— Você está pedindo uma negociação difícil.
Ela não respondeu, com medo de se trair na voz.
— Mas... tenho confiança em mim. — Ele sorriu. — E no seu sogro.
Elaine perguntou-se o que ele queria dizer. Que confiava que o sogro dela tivesse
habilidade para ver o lado dele das coisas ou que o homem estava mesmo à beira de
um colapso mental e não teria nenhuma chance, senão vender a companhia?

— Então, independente do que acontecer, eu fico com a propriedade? — perguntou ela


com esperança.

— Se... — Ele descruzou os braços, expondo aquele maravilhoso tórax. — Se você fizer
tudo o que eu lhe pedir.
Ela o encarou.
— Você não me pedirá para fazer nada ilegal ou que atente contra meus códigos
morais, certo?
Mitch não falou por um momento, o que a preocupou. Mas não podia fazer nada a não
ser manter o olhar no rosto dele.
— O que exatamente violenta seus códigos morais, sra. Stuben?
Como ele ousava fazer aquela pergunta? Não fora perfeitamente clara? O homem
estaria sendo obtuso apenas para deixá-la embaraçada?
— Você sabe exatamente o que quero dizer.
— Claro que não! — exclamou ele, a expressão impassível.
Ela suprimiu a fúria por ele estar forçando o assunto e o fitou com raiva.
— Não dormirei com... com ninguém.

Projeto Revisoras 29
Renee Roszel - Um assunto pessoal
(Mom Intimos 143)

A declaração ficou no ar enquanto Mitch a fitava fixamente.


— Você parece preocupada com sexo, sra. Stuben. Se eu fosse
você, procuraria um terapeuta desta área.
Elaine o olhou de modo desafiador.

— Não estou apenas preocupada com sexo, senhor! E o seu código de moral funesto
que me é duvidoso. Quero me certificar...

— Pensei que tinha sido claro que sua honestidade estava a salvo comigo —
interrompeu ele. — Preciso de sua assistência, não do seu corpo e nem mesmo de sua
afeição.
Elaine nunca sentira tanta raiva na vida. Ao mesmo tempo estava confusa. Por que o
fato de ele pensar que ela não era capaz de incitar o desejo de um homem a aborrecia
tanto?
— Bem — disse ela, ferida e esperando revidar. — Para seu conhecimento, sr. Rath,
nunca, jamais, terá minha afeição!
A sobrancelha dele arqueou e então a expressão se tornou cínica. Ignorando o
comentário, ele deu um passo para dentro do quarto.
— Não se preocupe que não irei me aproveitar de você. Se um dia quiser alguma coisa
comigo, deixo a iniciativa nas suas mãos. Sonhe com os anjos, sra. Stuben. —
Enquanto fechava a porta entre eles, ele concluiu: — Esteja pronta às nove.
Mitch não dormira bem, embora não pudesse encontrar nenhuma falha no quarto ou na
cama. Mas virara-se a noite toda.
— Se um dia quiser alguma coisa comigo, deixo a iniciativa nas suas mãos —
resmungou ele, incrédulo consigo por ter dito uma coisa daquelas. Ele se serviu de uma
caneca de café. Por que dissera aquilo?
Ela não podia ser mais transparente sobre como se sentia em relação a ele. Se
qualquer um na história do mundo odiasse alguém mais do que ela o odiava, ele faria...
faria...
— Falou comigo, sr. Rath?
Ele se virou ao som da voz de Harry e substituiu a testa franzida por um sorriso
amistoso.

— Sim, amigão. Pronto para mais panquecas? O jovem com o boné de aba para trás
riu.

— Com nozes?

— Lógico!

Projeto Revisoras 30
Renee Roszel - Um assunto pessoal
(Mom Intimos 143)

— Então, claro. Nunca comi panquecas com nozes antes.

— E uma especialidade minha. — Ele depositou a caneca sobre o balcão e deslizou mais
três panquecas na grande frigideira.

— Foi muito gentil de sua parte, Mitch. — Claire sorriu para ele enquanto derramava
melado sobre as nozes de sua panqueca. — Todas essas compras e ainda fazer o café
da manhã? — O sorriso irradiava dos olhos dela, o mesmo verde lindo dos da hostil
sobrinha. — Que jeito delicioso de acordar!

— Não gostaria de pedir pizza para o café da manhã, então achei que panquecas seriam
uma boa idéia. — Ele serviu Harry da terceira panqueca e parou ao lado da cadeira de
Claire no balcão metálico. — Mais café?

— Se você não se importa... — Ela levantou a caneca para ele. — Mas lembre-se, Elaine
e eu lavamos a louça. É mais que justo.
— Combinado.
Ele pegou a caneca e a serviu.

— Aqui está.

— Agora faça seu prato, Mitch. — Claire bateu no assento estofado do banco ao lado
dela. — Sente-se e relaxe.
Ele voltou para perto da frigideira, arregaçou as mangas até os cotovelos e virou as três
panquecas que estavam no meio do processo. Então olhou para o relógio. Oito horas.
Aparentemente a briguenta sra. Stuben pretendia privar-lhes dó passeio até o clube de
campo naquela manhã.
De repente imaginou-se acariciando os cabelos dela, sentindo sua pele sedosa... O que
era aquilo? Estava maluco? Mantenha a cabeça nos negócios, avisou a si mesmo.
Adquirir o império Stuben será uma vitória de bilhões de dólares. Você precisa da ajuda
da mulher, então mantenha os olhos na recompensa! Como você mesmo disse, ela não
está aqui para satisfazer seus desejos sexuais. Está aqui, cheia de relutância e
escandalizada, para ajudá-lo por um curto espaço de tempo...
— O que está acontecendo?
Mitch não precisou se virar para saber de quem era a voz sonolenta que fizera a
pergunta. Amaldiçoou a si mesmo pelas batidas nitidamente aceleradas de seu coração.
Calma, garoto, disse a si mesmo. Ela detesta você. E você lhe disse que não tinha
nenhum desejo por ela. Tente manter isso em mente. Então por que seus sonhos
foram cheios de visões de grandes olhos verdes e cabelos vermelhos espalhados sobre
lençóis de seda? Lembre-se: o império de Paul Stuben é a realização coroada da vida
profissional de qualquer empresário. Concentre-se!

Projeto Revisoras 31
Renee Roszel - Um assunto pessoal
(Mom Intimos 143)

Até mesmo após o severo discurso para si mesmo, seu olhar foi direto para a porta.
Lá estava ela, num robe azul-claro e chinelos da mesma cor. Os cabelos avermelhados
desciam até os ombros, emoldurando-lhe o rosto perfeito. Ela parecia ter acabado de
sair da cama, uma mulher doce e sexy.
Mitch suprimiu um gemido. Ela estava mais irresistível do que em seus sonhos. Por que
aquela mulher o excitava tanto? Seria a síndrome do fruto proibido? Ou seria o fato de
não ter nada a ver com ele que a fazia parecer excitante? Ele gostava de perigo, mas
os negócios que o haviam levado a Chicago já eram suficientemente perigosos.
Eles se entreolharam e o encantamento das pálpebras sonolentas desapareceu,
recolocado pela já familiar expressão de raiva.
— Bom dia, Elaine — disse Claire, carinhosamente. — Junte-se à festa. Mitch fez
panquecas para o café da manhã... Estão deliciosas.
Elaine desviou os olhos, observando a mesa posta para quatro, então voltou a encará-
lo. A expressão de raiva não aliviou. Ela esfregou os olhos com as costas das mãos. Era
quase cômico, como se não acreditasse no que estava vendo.
Andou arrastando os pés pela cozinha, parecendo fraca e cansada, como se não tivesse
dormido bem. Os cabelos desalinhados cintilavam na luz fluorescente.
— De onde veio toda essa comida, tia Claire? — perguntou ela, claramente ignorando
Mitch. Parando no canto do balcão, entre Harry e a tia, ela pôs as palmas das mãos
sobre o tampo e olhou para o menino. — A que devemos o prazer de sua companhia,
meu anjinho?
Ele engoliu um pedaço de panqueca e riu.

—O sr. Mitch precisava de alguns ingredientes. Mamãe entrou no trabalho bem cedo
hoje. Vou com ela nos dias frios, já que a escola fica perto do supermercado. Quando o
sr. Mitch me cumprimentou, me ofereci para embalar as compras. Willie, o caixa da
noite, nos trouxe até aqui. Quando chegamos, ele nos convidou para tomar café, mas
Willie tinha que ir para casa. — Harry deu um grande gole no suco de uva, deixando
um bigode roxo desenhado na boca. — O sr. Mitch vai me levar para a escola no carro
legal dele.

— Vai? — Elaine olhou para Mitch, franzindo o cenho. Quando voltou a olhar para Harry
a expressão dela suavizou. — Você está parecendo o Groucho. — Tocou o lábio
superior do garoto com a ponta do dedo e Mitch quase pôde sentir a carícia contra sua
própria boca.
O menino pareceu confuso.

— Groucho?

Projeto Revisoras 32
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(Mom Intimos 143)

— Lembra-se do filme dos irmãos Marx que aluguei no seu aniversário o mês passado?
Groucho era aquele do bigode engraçado.
— Ah, sim. — Harry riu.
Mitch sorriu para a aconchegante cena de alegria familiar em volta da mesa do café da
manhã.
Harry deu uma risadinha e levou a manga da camisa à boca.

— Não faça isso! — Elaine pareceu aflita e pegou o guardanapo de papel ao lado do
prato dele. — Use isso, criança. Mancha de uva não sai da roupa.

— Ah, sim. — O menino passou o guardanapo na boca e comeu mais um pedaço de


panqueca. — Estas panquecas estão muito gostosas.
Elaine olhou para Mitch, desconfiada, como se ele tivesse feito as panquecas não por
cortesia, mas com um objetivo em mente.
Ele suprimiu uma risada e tentou parecer indiferente. Por alguma razão que não sabia
qual, admirava-a. Talvez porque pessoas que tinham perdido tudo normalmente se
sentiam fracassadas, tornando-se por isso inseguras e depressivas. Mas não a sra.
Stuben. Ela era mal-humorada, lógica, entusiasmada e teimosa.
Não sentia pena dela. Longe disso. Sentia uma atração sexual devastadora e isso o
fazia vulnerável, uma falha de caráter contra a qual lutara contra durante toda a vida
adulta.
Elaine deu a volta mesa, pegou uma caneca e se serviu de café. Inclinando-se sobre o
balcão, olhou-o.
Mitch imitou a postura dela, debruçando-se sobre o balcão. Tentando manter o controle
sobre seu desejo sexual, levantou a caneca numa leve saudação.

— Posso ver que você não é uma pessoa matutina. Ela tirou uma mecha de cabelos do
rosto.

— E você não é uma pessoa que gosto de ver pela manhã. Ele deu um gole no café
para mascarar uma risada irônica.
Consegui, sra. Stuben, pensou ele. Você está deliciosa e sexy esta manhã, e com um
humor afiado! Que bela combinação!

— Pensei que vocês dois tinham chegado a um acordo — disse Claire, parecendo
aborrecida.

— E chegamos, tia Claire. — Ela fixou os olhos em Mitch com raiva. — Concluímos que
não gostamos um do outro.
Elaine passou na frente dele, olhou o conteúdo da frigideira e então foi até o armário e

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(Mom Intimos 143)

pegou a caixa de cereal.

— O que você está fazendo? — indagou Claire.

— Preparando meu café da manhã. — Ela abaixou-se no armário ao lado de Mitch para
pegar uma tigelinha.

— Estou vendo que você não gosta de panquecas — comentou Mitch, capturando o
aroma de flores dos cabelos dela, desta vez sem a fuligem da noite anterior. Ele tentou
afastar o pensamento, mas viu que era impossível.

— Adoro panquecas, sr. Rath. É de você que não gosto. E não quero sua caridade.

— Você não pode viver de cereal pelas próximas duas semanas — apontou ele.

Elaine pegou uma colher na gaveta da pia e virou-se para encará-lo.


— Quer apostar?
A amável atitude dele evaporou. Apenas uma linha fina separava a determinação da
teimosia. Elaine Stuben acabara de cruzá-la. Irritado, Mitch andou até ela e espreitou
dentro da caixa de cereal. Não havia muito ali. Num silêncio mortal, ele pegou a caixa e
a esvaziou sobre sua panqueca.

— O que você acha que está fazendo? — gritou Elaine.

— Vou comer panqueca com cereal de café da manhã.

— Mas... mas isso é tudo que eu... — ela interrompeu a frase. Mitch olhou para ela.

— Como? — perguntou, fazendo-se de inocente. — Oh, lamento! Ela enrubesceu de


imediato.

— Você não lamenta nada! É um ladrão e tem inclinação para roubar até o último
pedaço de comida de uma pessoa.

— Vocês estão brigando?

A questão veio de Harry. Ele parecia triste. Mitch se perguntou se os país dele brigavam
daquela maneira e se assistir a algo similar o amedrontava.
— Não. — Mitch se virou e sorriu para o menino. — Estamos tendo apenas uma
divergência de opinião. Adultos têm dessas coisas.
Harry franziu o cenho, parecendo preocupado.
— Não seja ruim para a sra. Stuben — avisou ele. — Se você a fizer chorar, eu... eu
não serei mais seu amigo.
Mitch experimentou um nó no estômago. Harry era fã de Elaine e com seus doze anos

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(Mom Intimos 143)

era claramente seu protetor.

— Oh, meu anjinho... — Elaine deu a volta no balcão, tirou-lhe o boné e acariciou-lhe os
cabelos. — O sr. Rath está certo. Estamos apenas tendo uma... divergência de
opinião... de adultos. — Ela recolocou o boné e segurou o rosto preocupado do menino
entre as mãos. — Pronto, tudo acabou agora, querido. — Ela olhou para Mitch e deu
um sorriso. — Acho que vou comer uma dessas... deliciosas panquecas.

— Ótima idéia — disse ele, devolvendo o sorriso. Então tirou a tigelinha da mão dela e a
serviu de três panquecas. — Estão quentinhas.

— Obrigada. — Os olhos de Elaine faiscavam animosidade. Mitch se perguntou se


aquela expressão conseguia enganar Harry.

— De nada. Espero que você goste.

— Tenho certeza que estão... boas. — Ela pegou o melado e recheou as panquecas.

— Suco de laranja ou de uva? — perguntou ele. Ela respirou fundo sem levantar os
olhos.

— Laranja... por favor.

Após servi-la, ele colocou nozes sobre o cereal que espalhara sobre suas próprias
panquecas. Certo, então talvez fora um tolo sobre o cereal, mas detestava lidar com
tanta teimosa.
Mitch voltou ao balcão e sentou-se na frente de Claire. Elaine sentou-se a sua direita.
Ele consultou o relógio. Oito e meia. Tinha tempo para comer, levar Harry para a escola
e então vestir um terno.
Ele comeu em silêncio enquanto Elaine, Claire e Harry conversavam sobre a
tempestade de neve.
Após alguns minutos, Mitch abaixou o garfo e olhou para Harry.
— Bem, amigo, está pronto para ir para a escola?

— Claro — respondeu o menino, bebendo o último gole do suco.—, Prometi a Mitch que
lavaríamos a louça, Elaine — anunciou Claire, levantando-se. — Mas não se apresse.
Vou começar limpando a frigideira.
Harry pegou o prato, talheres e copo e carregou-os para a pia.
— Obrigada, querido — disse Claire com um sorriso. — Ah! Sua gorjeta! — Ela
vasculhou o bolso e então o olhou aborrecida.
— Terei que subir para pegar...
— Claire, as compras foram minhas. Eu dou a gorjeta. — Mitch pegou a carteira e tirou
uma nota de cinco. — Aqui está, Harry.
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(Mom Intimos 143)

O menino saiu da pia e pegou a nota.

— Obrigado, sr. Mitch.

— De nada — replicou Mitch e se levantou. — Vamos para a escola então. — Ele se


sentiu culpado por magoar o menino e odiou-se por aquilo. Pelas próximas duas
semanas, tinha que fingir ser amigo daquelas duas mulheres. Por esse motivo, pousou
a mão sobre a de Elaine, deixada sobre a mesa, e pressionou-a gentilmente num gesto
de amizade. Então inclinou-se um pouco na direção dela e murmurou: — Vejo você às
nove, Elaine?
Ela largou o garfo num sobressalto. Os grandes olhos encontraram os dele e Mitch deu-
lhe um sinal disfarçado, avisando que Harry os estava observando. Com alguma sorte,
ela pensaria que ele estava fazendo a cena de bons amigos para aliviar a ansiedade do
garoto. Após um segundo de hesitação, os lábios dela se curvaram num sorriso
trêmulo. A sorte ainda estava a seu lado.

— Oh... Claro, Mitch. Às nove. Estarei pronta.

— Ótimo. — Contra vontade, ele reparou que as mãos de Elaine eram quentes e a pele
macia. Pegou-se pressionando-a novamente. Elaine liberou a mão e pegou o copo de
suco. Francamente, ela chegara ao limite de fingir ser amiga dele, até mesmo pela
tranqüilidade de Harry.

— Melhor irmos, sr. Mitch. — O menino segurou na manga do pulôver dele, sorrindo
novamente de modo doce e espontâneo.

— Certo, sr. Browne. Mas primeiro vamos arrumar esse chapéu — brincou Mitch. — Está
todo atrapalhado. — Ele tirou o boné e o recolocou com a aba para frente na cabeça do
menino.
— Pronto, assim está melhor.
— Ah... você é mesmo engraçado, companheiro! — Com uma gargalhada, Harry virou a
aba para trás. — Vamos apostar uma corrida até o carro?

— Sim, claro. Quem ganhar destranca as portas com este controle remoto. — Ele
balançou as chaves no ar.

— Uau! — Harry agarrou as chaves com uma mão e saiu da cozinha em disparada.

Mitch correu atrás dele. No corredor, surpreendeu-se levando a mão ao rosto, inalando
o perfume de Elaine. Seu sorriso se apagou.

CAPÍTULO V

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Elaine e Mitch dirigiram em silêncio para Vale Avalon. Através dos anos o majestoso
clube fora receptor de grandes contribuições da família Stuben. Mitch informou ao
guarda da portaria que sua passageira era a esposa do falecido Guy Stuben. O
segurança uniformizado espiou dentro do carro e imediatamente sorriu, reconhecendo
Elaine, uma vez que ela e Guy foram freqüentadores assíduos do clube. Sentia-se
nauseada só de pensar no confronto. Gostaria de pular a próxima meia hora de sua
vida.
A antiga sala de jogos estava quase vazia naquele dia chuvoso de janeiro. Do lado de
fora das janelas em arco, o céu estava cinza e pequenos flocos de neve caíam. Lá
dentro, o cheiro da fumaça de charuto penetrou nas narinas de Elaine e a fez engasgar.
Ela tossiu cobrindo a boca com a mão, observando o recinto. Teve a esperança de que
pela primeira vez seu sogro tivesse ficado em casa. O desejo não foi atendido. Lá
estava ele, sentado a uma mesa com quatro homens, do outro lado da suntuosa sala.
Atrás deles, uma rústica lareira de pedra produzia um fogo agradável.
Elaine mordeu o lábio, nervosa. Controle-se Elaine, preveniu a si mesma. Não importa
como você se sente ou o que Paul pensa, você não é responsável pela morte de Guy.
Você não tem nada pelo que se desculpar! Guy não era santo e embora Paul tivesse o
direito de sofrer, não tinha o direito de condená-la!
Os homens grisalhos sentados ao redor da mesa forrada de couro verde estavam
entretidos numa partida de pôquer. Ela deu dois passos para dentro da sala, as pernas
bambas. Precisou de toda sua força para se manter em pé. Mitch sussurrou:
— Qual deles é o seu sogro?
Elaine não respondeu.
— O que houve? — sussurrou Mitch. Está se sentindo mal? Você me parece pálida.
Ela o fitou, respirando com dificuldade. Fitar aquele homem não ajudava em nada seu
estômago nauseado.

— Estou tonta — resmungou ela. Ele franziu o cenho.

— Não vá desmaiar em cima de mim. Elaine fez uma careta.

— Não se preocupe. — Ela não sabia o que era pior. Se encarar os olhos negros do
homem que a estava chantageando ou o homem que a detestava do fundo da alma.
Quão bem ela se lembrava daquele perfil, o nariz reto, o maxilar protuberante, os
cabelos grisalhos. A tristeza invadiu seu coração e ela recuou. Com um misto de
melancolia e aversão, Elaine lembrou-se o quanto Paul e seu filho eram parecidos.
Examinando melhor, desde a última vez que o vira, ele parecia ter emagrecido.

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Tardiamente ela se recordou da questão de Mitch.


— Paul é o da esquerda — murmurou ela. — De suéter caqui e calça azul-marinho.
Mitch não respondeu, então ela deduziu que ele estava espreitando sua presa. Tudo
que Elaine ouvia era o estalar do fogo e os baixos rumores dos homens jogando. A
fumaça de charuto ardia-lhe os olhos e a enjoava, mas caminharia até dentro da jaula
do leão.
Paul levantou um copo de conhaque e deu o último gole. Sem levantar os olhos,
estalou os dedos no ar.
— Reggie, preciso de outra dose.
Com o canto dos olhos, Elaine viu um homem de preto aproximar-se da mesa, levando
uma garrafa. Ele completou o copo de Paul. Quando ia saindo, Paul levantou a mão e
segurou o braço dele.
— Qual o problema com você, Reggie? Encha direito esse copo.
O homem murmurou alguma desculpa e colocou ainda mais conhaque no copo.
Elaine teve um mau pressentimento. Paul Stuben nunca fora de beber durante o dia. E
ainda eram apenas nove e meia da manhã. Os outros homens também estavam
bebendo, só que preferiam suco de laranja e café.
Mitch a tirou dos pensamentos quando lhe segurou pelo braço, coagindo-a a andar.

— Vamos, sra. Stuben.

— Não me empurre! — Ela puxou o braço. — Estou indo.

— Você conhece os outros homens? — perguntou ele no ouvido dela. Elaine detectou o
calor da respiração contra sua face. O aroma era de cedro e café. A prazerosa
combinação ajudou-a a aliviar o enjôo, relembrando-a das caminhadas noturnas que
Claire fazia com ela quando criança. Mas ele era um pirata chantagista e era bom que
ela mantivesse aquilo em mente.

— Você os reconhece? — perguntou ele.

— Oh... sim. O homem na frente de Paul com o charuto é Marlon Breen, um dos
membros do quadro de diretores da Stuben. Aquele outro quase careca é Cal
Landenburg. O terceiro, não conheço. Provavelmente algum jogador de golfe
deprimido.
O sr. Deprimido foi o primeiro a notá-los, uma vez que a cadeira dele estava virada
para a porta. Ele segurou as cartas mais perto do peito e indagou:
— Podemos ajudá-los?
Naquele ponto os três outros se viraram. Elaine sabia que os dois homens do quadro de

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diretores a reconheceriam. O que não sabia era quanto veneno espirrariam. Seu sogro
a odiava sem limites. Quanto poderia ter influenciado a diretoria de sua empresa...
bem, ela logo saberia.
Ela respirou o ar poluído e tossiu com a fumaça. Então pigarreou e esboçou um leve
sorriso.

— Olá, Marlon, Cal. — Ela gesticulou a cabeça educadamente, notando que a expressão
deles era mais de surpresa do que de repúdio. Marlon até mesmo amoldou o charuto
no canto da boca e sorriu.

— Olá, Elaine.

Ela assentiu e desviou o olhar para o sogro.


— Olá, Paul. Quanto tempo.
Paul fitou as cartas que segurava como se não tivesse a intenção de responder. Então
ela se adiantou:

— Cavalheiros, gostaria de apresentar-lhes um... um amigo meu. — Ela sentiu


dificuldade de pronunciar aquelas palavras fraudulentas, mas havia muita coisa em
risco. Para salvar a mansão Stuben para Paul, chamaria até uma cobra venenosa de
melhor amiga... O que não era muito diferente do que estava fazendo. — Este é
Mitchell Rath. — Ela o indicou com um gesto de cabeça, esforçando-se para manter a
expressão cordial. — Mitchell, esse é meu sogro, Paul Stuben... e Cal Landenburg e
Marlon Breen. — Ela fitou o único estranho. — Desculpe-me, mas não me...

— Eu dobro. — Paul abaixou as cartas com força, encarando Elaine. Os olhos castanhos
estavam cheios de ódio. — Tenho que dar um telefonema, cavalheiros. — Ele quebrou
o contato ocular tão rápido quanto o fizera. Elaine se sentiu como se tivesse sido
esbofeteada. — Desculpem-me — resmungou ele, pegando o copo. Ele se levantou
instável e segurou-se no encosto da cadeira como apoio.
Elaine se moveu para ajudá-lo. Segurando-o pelo braço, o ajudou a ficar em pé.

— Você está se sentindo bem, Paul? — perguntou ela. Ele lhe deu um olhar mortal e
exclamou:

— Tire suas mãos de mim!

— Paul, por favor — começou ela. —, não sou sua inimiga. Deixe-me ajudá-lo.

— Nós dois gostaríamos de ajudar — adicionou Mitch, aproximando-se.

Paul olhou para Mitch, o ódio por Elaine claramente sendo transferido para seu
companheiro. Sem uma palavra, Paul liberou a cadeira, passou o copo para a mão livre
e puxou o braço da mão de Elaine. Então dirigiu-se para a porta onde se lia: Vestiário
Masculino. Um instante depois a pancada da porta batendo quebrou o silêncio.
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A ansiedade de Elaine foi substituída por pena. Com dificuldade, voltou os olhos para os
homens à mesa de jogo. Todos pareciam tristes.
— Lamento ter interrompido o jogo.
O estranho deu de ombros.
Mitch limpou a garganta.

— A culpa foi minha.

— Não se preocupe, Rath. — Marlon soltou uma baforada de fumaça e Elaine prendeu a
respiração. — Stuben tem estado... Bem, não encare isso como afronta pessoal, filho.

— E muito gentil de sua parte. — Mitch estendeu a mão para o fumante inveterado. —
E um prazer conhecê-lo. Sou um grande admirador das operações Stuben. Espero
conhecer Paul Stuben... quando ele estiver... em melhores condições.
Mitch se moveu ao redor da mesa e trocou apertos de mão com Cal e depois com o
homem mais velho de óculos. Elaine não captara o nome dele. Estava muito ocupada
assistindo o Predador em pleno ataque.
Ele parecia um alto executivo naquele impecável terno azul-marinho e gravata. O traje,
apesar de tradicional, emanava súbita elegância. Elaine se perguntou se aquele visual
sofisticado era parte do truque dele. Se aquela aparência fosse tão bem-sucedida com
aqueles capitalistas mais velhos de Chicago, quanto fora com as freqüentadoras do
sexo feminino do clube, ele estava no caminho certo para a vitória.
Exceto por uma cuidadosa complicação. Paul Stuben partira.
Ela se sentiu fraca e respirou fundo. No meio de tanta fumaça, irrompeu em um ataque
de tosse.
— Elaine? — chamou Mitch. — Você não me parece bem. Gostaria de tomar um ar
fresco?
A observação a surpreendeu. Ele sabia que ela estava ansiosa e triste. Por que a súbita
preocupação?

— Elaine, perguntei se você gostaria de tomar um ar fresco.

— Adoraria — respondeu ela. Estava sufocando ali dentro. Suspeitara que Paul seria
desagradável, mas nunca imaginara que a cortaria mortalmente com os olhos.

— Elaine — disse Marlon. —, minha filha Tiffany está aqui com o bebê dela, na
lanchonete, tomando um café. Tenho certeza que ela adoraria vê-la. Por que não vai
até. lá para encontrá-la?
Elaine agradeceu Marlon com um sorriso e estava quase saindo quando o homem mais
velho olhou para Mitch.

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Renee Roszel - Um assunto pessoal
(Mom Intimos 143)

— Enquanto Elaine vai ver Tiffany, por que você não se senta para uma partida, Rath?
Mitch riu.

— Não jogo pôquer desde a faculdade — replicou ele, quase parecendo verdadeiro em
sua modéstia. Quase!

— Então será um prazer ganhar o seu dinheiro, filho. — Marlon depositou o baralho na
mesa em frente à cadeira vazia. — Era a vez de Paul dar as cartas.

— Se você insiste. — Ele se sentou na cadeira desocupada.

Elaine não entendeu o que Mitch estava fazendo. Talvez estivesse com esperança de
que Paul retornasse. Mas não era tão ingênuo para acreditar nisso. Possivelmente
decidira que conhecer os amigos de Paul lhe traria algum proveito. Ou talvez
simplesmente gostasse de pôquer.
Fosse como fosse, o tempo que passaria na mesa de jogo daria a ela chance de
respirar. Precisava afastar-se do efeito devastador daquele homem. Desde que
retornara da escola de Harry, a estava olhando de modo estranho e aquela inspeção
silenciosa a incomodava terrivelmente.
— Sim... bem... — murmurou ela.
Mitch embaralhou as cartas e começou a distribuí-las.
— Perdoem-me se eu estiver enferrujado.
Elaine o observou dando as cartas. Ele levantou os olhos para ela.
— Há algo que você queira me dizer, Elaine?
Ela meneou a cabeça. Mas o que estava fazendo parada ali, observando-o tão
profundamente?

— Não... estou indo.

— Divirta-se — disse ele. — Não vou demorar.

— Não tenha pressa. — Ela se virou. Divirta-se! A quem ele estava tentando enganar
com aquela atitude amigável?
Aliviada pela chance de escapar daqueles olhos observadores, ela saiu apressada.
Adorava bebês e se divertiria vendo o de Tiffany. Seu coração apertou. Quisera ter
filhos também, mas muito cedo esse sonho fora soterrado. Nunca poderia trazer uma
criança ao mundo, dominada pelo pulso cruel e impiedoso de Guy Stuben.
Uma hora depois Elaine tomava um refrigerante, sozinha, na lanchonete do clube, na
mesa que compartilhara com Tiffany. Mãe e filho tinham ido embora para uma consulta
no pediatra, mas Elaine permaneceu. Não tinha intenção nenhuma de voltar à sala de
jogos para buscar Mitch. Ele podia muito bem ir procurá-la.

Projeto Revisoras 41
Renee Roszel - Um assunto pessoal
(Mom Intimos 143)

— Bem, eu ganhei.
Ela levantou os olhos e viu o homem que menos queria ver no universo. Parecia mais
alto, se é que isso era possível. Ela respirou fundo e abaixou a cabeça.
— Ganhou o quê?
Mitch se sentou ao lado dela.
Uma garçonete se aproximou da mesa.

— Deseja algo, senhor?

— Café — respondeu ele e voltou-se para Elaine: — Ganhei cinqüenta centavos. — Ele
riu, o som profundo e não familiar. Ela reagiu com um tremor de apreciação que não
desejava sentir. — Aqueles capitães da indústria são jogadores sagazes.
Elaine não gostou do assunto. Além de outros defeitos, Guy também tinha provado ser
um jogador sagaz. Ela não descobrira até após sua morte que ele perdera no jogo seu
seguro de vida. Quando oferecera investir dinheiro na empresa dela para grandes
negociatas, mal sabia Elaine que ele penhorara a mansão da família para aquilo.
Guy era extremamente ambicioso e por conseqüência havia sobrecarregado a empresa
dela com contratos que ela não poderia cumprir. Devido a seu ego colossal,
comportamento imprudente e compulsão por jogo, ele a deixara afundada em dívidas.
— Eu estava brincando. Pensei que você acharia graça.
Elaine deu um gole no refrigerante.
— Parabéns pelos cinqüenta centavos. Sei que arrancar dinheiro dos outros é sua
principal força propulsora na vida. Só achei que a missão de hoje era com meu sogro.
A garçonete reapareceu com o café e colocou a caneca na frente de Mitch.
— Obrigado — disse apenas, retornando o olhar para Elaine. — Esse era o plano. — Ele
deu um gole no café, observando-a por cima da borda da xícara.
Ela começou a sentir aquele tremor outra vez. A atenção dele era muito deliberada.
Embora não tivesse perguntado nada, ela se sentia como se estivesse sendo
interrogada.
Ele abaixou a caneca.
— Você vai ter que fazer melhor do que fez hoje.
Elaine não gostou do tom de ameaça.

— Avisei-lhe que seria difícil. Você tem sorte de Paul não ter atirado o copo de
conhaque em nós.

— Notei que ele o pegou ao levantar-se da mesa. — Ele franziu o cenho. — Estava um

Projeto Revisoras 42
Renee Roszel - Um assunto pessoal
(Mom Intimos 143)

pouco alterado.
Elaine não podia negar aquilo.

— Eu vi. — Ela se inclinou, apoiando os cotovelos na toalha branca. Absorta, correu o


indicador pela borda do vaso de cristal que sustentava um arranjo de rosas vermelhas.
— Ele não costumava beber desse jeito.

— Ele não costumava fazer um monte de coisas.

Pelo canto dos olhos, ela viu Mitch beber mais um gole de café. Virou-se para fitar a
janela panorâmica que dava para o campo de golfe coberto de neve, dotado de
pinheiros e carvalhos.
— Então Guy a fez chorar?
Ela franziu o cenho. Positivamente ouvira mal.
— O que foi que você falou?
Ele se ajeitou para vê-la melhor. Elaine sentiu a perna dele roçar de leve no seu joelho
e experimentou um tremor indesejável. Rapidamente, cruzou as pernas para evitar o
toque.
— Harry me disse que Guy a fazia chorar — repetiu ele em tom confidencial. — Ele
falou um bocado sobre você e seu falecido marido.
Uma dor a assolou e ela fechou os olhos com a memória daquelas horas sofridas pela
loucura irracional de Guy. Quando abriu os olhos, a expressão de Mitch era ilegível, o
olhar investigador.
Tomando o controle das emoções, ela exclamou:
— Não quero discutir meu casamento com você.
Mitch apoiou o braço sobre a toalha.
— Harry ama você, sabia? — Ele se inclinou e sussurrou: — Ele me avisou que não a
fizesse chorar... como Guy fazia.
Embaraçada por ter sido assunto entre Harry e aquele homem, Elaine desviou o olhar,
contemplando a garçonete com uma bandeja de pratos de almoço.

— Ele batia em você?

— Não! — Ela virou-se abruptamente e o encarou. Era verdade que Guy nunca batera
nela. Mas ela sabia que fora somente por uma questão de tempo. E exatamente por
aquilo, decidira partir. As malas estavam prontas quando recebera a notícia da morte
dele. — Falei que não gostaria de discutir...
— E a ameaça dele que a faz ser tão antagônica em relação a mim? Porque teme ser
capacho de um homem novamente?
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Renee Roszel - Um assunto pessoal
(Mom Intimos 143)

Ela abaixou o olhar e Mitch a observou, sem piscar, sem se mover. O olhar fixo dele
não a deixava respirar direito. Elaine tentou mudar de assunto:
— Sou antagônica a você porque não gosto de você, sr. Rath.
Mitch sorriu com tristeza
— Por sorte, apenas lhe pedi que fingisse afeição por mim. Ela vasculhou a mente por
uma resposta a altura, mas nada encontrou. Por que o sorriso dele, mesmo cínico como
era, causava um curto-circuito na sua capacidade de raciocinar?
— Então, seu marido a fazia tão feliz que você chorava? — perguntou ele.
O persistente sarcasmo a ofendeu. Certo, talvez ela estivesse reagindo de forma
exagerada, sobre algumas coisas, por causa das ameaças e do domínio excessivo de
Guy. Talvez aquele fosse o porquê de ela e do Predador continuarem em desavença, in-
dependente de ele ter comprado o jantar e todas aquelas coisas para o café da manhã.
Todas as vezes que haviam se encontrado, ela fora tão perversa quanto era possível
ser. Tinha que admitir, uma pequena porção da sua raiva podia ser um resultado direto
da tirania de Guy.
— E daí que ele me fazia chorar? — admitiu ela, finalmente. — Pensa que você é muito
diferente? Mas, para minha felicidade, aprendi como tratar tiranos dominadores.
Ele franziu o cenho, então desviou o olhar para a janela.
Elaine se recostou, observando-o. Não podia acreditar que admitira o comportamento
abusivo de Guy para aquele homem. Nunca pretendera mencionar aquilo a ninguém!
Nem mesmo Claire sabia a verdade completa, embora fosse muito inteligente para não
ter sentido como as coisas estavam mal praticamente desde o princípio.
O lembrete de Mitch de que Harry testemunhara sua dor voltou-lhe à memória como
uma vingança. Elaine fechou os olhos, tentando bloquear a recordação, mas aquilo a
corroeu de remorso. Ficara muito envergonhada quando Harry presenciara uma cena
terrível com Guy, quando este a relembrara pela centésima vez o quão cavalheiro fora,
tirando uma moça provinciana da lama, e o quanto estava dando de si para ensinar-lhe
sofisticação. Ele gritara: Como você pode um dia fazer parte da nata social de Chicago
se não arruma seus sapatos de acordo com a estação, e sim pela cor?!
Furioso com o silêncio dela, Guy jogara todos os sapatos pela janela do quarto e
mandara-a ir lá fora recolhê-los.
Violentada e com medo do temperamento do marido, Elaine recolhera os sapatos, a
humilhação sendo testemunhada por todos os empregados da mansão. Guy fazia
questão que todos o vissem puni-la. Parecia necessitar de uma platéia.
Elaine não fora incapaz de conter as lágrimas enquanto ele gritava do alto da escadaria
quão sem classe ela era. Então Harry chegara pedalando sua bicicleta justamente

Projeto Revisoras 44
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naquele instante. Ele a pegara aos prantos, os braços cheios dos sapatos que Guy havia
lhe comprado. Sapatos que não mais suportaria usar e que foram doados a uma
instituição de caridade poucos dias após o funeral.
Sentindo dor nas mãos, ela percebeu que cerrara fortemente os pulsos sem se dar
conta. Esfregou uma mão na outra por baixo da mesa.
— Olhe, estou indo para casa. Tenho que trabalhar. Vou pegar o trem. — Ela apoiou as
mãos na mesa, preparando-separa levantar. — Não se preocupe sobre o café. Já
assinei a nota.
Ele se levantou e andou até o encosto da cadeira dela. Quando Elaine se levantou, o
viu colocar uma nota de dez dólares sobre a mesa.

— Eu lhe disse...

— Você só vai de trem se passar por cima do meu cadáver. — Ele fez uni gesto para a
garçonete, que veio para a mesa sorrindo. — Isso é pelas nossas bebidas e sua gorjeta.

— Mas a sra. Stuben já...

— Rasgue a nota. Esta conta é minha.

— Sim, obrigada, senhor.

Elaine sentiu a mão de Mitch em suas costas enquanto saíam da lanchonete. O


cavalheirismo a surpreendeu e a preocupou. O calor sensual gerado por tão simples
contato era perturbador. Na chapelaria, ele pegou os dois casacos, deu à atendente
uma bela gorjeta e ajudou Elaine a vestir o sobretudo de lã.

— Lamento por seu marido — disse ele. Ela o fitou desconfiada.

— Lamenta pelo quê?

Mitch abriu a porta do clube e ela o precedeu ao frio cortante. Ele deu o bilhete do
estacionamento para o rapaz que correu para pegar a Mercedes.
— Lamento que ele tenha sido um cafajeste — disse Mitch,
assim que ficaram sozinhos.
Ela sentiu uma agulhada no peito. Nunca ousara permitir-se um pensamento tão
negativo sobre Guy. De alguma forma, aquilo seria como se estivesse admitindo seu
próprio erro, fazendo uma escolha tão patética de um companheiro de vida.
Quão deficiente era sua habilidade de julgar pessoas para ter se permitido ser tão cega
para os defeitos de Guy? Aquele era outro motivo por sentir-se tão amedrontada por
sua atração por Mitchell Rath. Como ela podia sentir palpitações por outro abominável
ser humano? E, pior que Guy, Mitchell Rath nem mesmo tentava esconder seu caráter
corrupto. Ela era insana?

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Renee Roszel - Um assunto pessoal
(Mom Intimos 143)

— Sim — disse ela. — Pareço ser um imã para canalhas. Ele a encarou no fundo dos
olhos.

— Está me chamando de canalha, sra. Stuben? Ela levantou o queixo, de modo


desafiante.

— O que o faz pensar uma coisa dessas?

Elaine contemplava a neve caindo pela janela. Pelo que podia ver na nebulosa
iluminação do jardim, Chicago fora coberta por mais cinco ou seis centímetros de neve
desde que ela e Mitch haviam deixado o clube.
Conseguira evitar a companhia dele pelo resto do dia, mantendo-se ocupada em
encaixotar itens pessoais no quarto que usara como centro de operações de seus
negócios. Consultou o relógio. Nove e meia da noite.
Claire saíra para jantar e conversar com um grupo de amigas. Estaria fora até tarde.
Elaine detestava a idéia de estar sozinha na casa com Mitch. Não sabia se ele já se
recolhera para dormir, mas precisava comer. Após lacrar a última caixa, saiu do quarto
a fim de preparar um sanduíche.
Descendo a escadaria, foi para a cozinha e dirigiu-se à dispensa. Uma única lâmpada
fluorescente era toda a iluminação que havia na cozinha, mas era o suficiente para se
andar por ali. Pôde sentir o cheiro do que Mitch comera. Espaguete, lasanha, algo
assim. O estômago roncou, relembrando-a que devia comer. Em breve, prometeu a si
mesma. Na despensa, acendeu a luz.
Nada aconteceu. A lâmpada tinha queimado.
— E agora? — resmungou.
Foi então até a prateleira onde havia lâmpadas, pegou uma e voltou para a despensa.
Deixando a caixa da lâmpada de lado, abriu a escada de mão que ficava ali dentro.
Situando-a embaixo do lustre que encobria a lâmpada queimada, subiu no primeiro
degrau e parou.
— Oh! Uma chave de fenda.
De volta à cozinha, abriu a gaveta de ferramentas e finalmente encontrou uma de
tamanho ideal.
Exausta e frustrada, retornou à dispensa e subiu na escadinha.
Mal podendo alcançar o lustre, ela se esticou na ponta dos pés para torcer o primeiro
parafuso. A pressão que pôs na chave de fenda quase a fez cair da escada. Equilibrou-
se a tempo, respirou aliviada e olhou ao redor na escuridão. Tinha que haver um jeito
melhor.
Após reavaliar a situação, decidiu apoiar um pé na porta do armário. Sentindo-se mais

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(Mom Intimos 143)

segura, tentou outra vez virar o parafuso teimoso.

— Não sossego enquanto não tirar você daí — murmurou ela.

— Está falando comigo?

Elaine levou um susto tão grande com a voz de Mitch que quase caiu.

— Isso funciona para você também, mas não. Não dessa vez.

— Posso ajudar?

Ele estava parado à porta, vestido com um suéter de gola olímpica e jeans. Até mesmo
no escuro, através do tecido de malha branco era possível ver os músculos dos braços
e do tórax dele. Ciente de que a visão esquentava-lhe o sangue, Elaine voltou o foco a
sua tarefa.

— Não, obrigada. Está tudo sob controle. — Com as duas mãos e toda força, ela girou
a ferramenta... ou mais correta-mente, tentou girar. Mas a chave de fenda não se
moveu.

— Por que você não me deixa tirar o lustre?

— Porque... — ela começou a falar, forçando ainda mais a chave de fenda — ...eu...
não... preciso... da... sua... ajuda! — Cada palavra enfatizada por mais uma falha da
ferramenta.
— Estou vendo.
De repente, um par de mãos estava segurando-lhe o pulso, desacomodando-a de sua
árdua tarefa. Desorientada, ela perdeu o equilíbrio e, soltando a chave de fenda, tentou
cair no chão em pé. Infelizmente, as pernas não captaram a mensagem e ela caiu
sobre Mitch, instintivamente agarrando-o pelo pescoço.

— O que você acha que está fazendo? — gritou ela, abraçada a ele.

— Apenas... colocando-a em pé — respondeu ele, calmamente.

— Apenas colocando-a de pé! — repetiu ela, tentando ser sarcástica. Infelizmente, o


enunciado saiu delicado e ofegante. O sólido corpo a esquentou mais do que ela
gostaria. Era muito bom. Muito bom.
Um tremor de tensão percorreu o corpo de Mitch. Aconchegada tão intimamente em
seus braços, ela parecia fazer parte dele.
Elaine notou a tensão dele e achou que aquilo se devia ao fato de que ele não a
desejara em seus braços. Mas mesmo consciente, um desejo erótico a percorreu,
amedrontando-a pela intensidade.
Num súbito relâmpago de insanidade, Elaine encontrou-se desejando... ser beijada!

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Por ele!

CAPITULO VI

Mitch não pretendera segurar a teimosa sra. Stuben nos braços, e sim não deixá-la cair.
Ficou desorientado. As curvas delicadas e femininas pressionadas contra ele causaram
um efeito que não previra. Nem desejara.
Ele suspirou e contemplou aqueles olhos... verdes, grandes, lindos. Com lábios
levemente entreabertos, ela quase parecia estar pedindo para ser beijada.
Não seja idiota, Rath! A mulher faz questão de lhe dizer que o odeia a todo momento!
Ele pigarreou para afastar os pensamentos libidinosos.
— Desculpe — disse com voz rouca. Com uma batalha interior, quebrou o contato
ocular e colocou-a no chão.
Para a segurança de ambos, ele enfiou as mãos no bolso e começou a procurar a chave
de fenda no chão.
— Fiz rigatoni com cogumelos para jantar — murmurou ele, ainda olhando para baixo.
— Há um prato para você na geladeira. — Aquilo não era bem um pedido de desculpas,
mas ele esperou que pudesse ser um começo.
Ela não respondeu de imediato, sem dúvida buscando um discurso mal-humorado.
Mitch avistou a chave de fenda num canto escuro e a pegou. Revertendo a' atenção
para a troca da lâmpada, subiu na escada. Até mesmo concentrado no trabalho,
percebeu os passos de Elaine se afastando e soube que estava sozinho.
Elaine bateu de leve na porta do quarto da tia.
— Entre.
— Nossa! Como você está bonita — disse Claire. — Aonde vai?
Elaine respirou fundo e aquilo foi um gemido de melancolia.

— Ao Clube. Hoje é o baile de inverno deles.

— Ah, sim. — Claire, sentada na enorme cama, parecia uma adolescente olhando a irmã
vestida para a cerimônia de casamento. — Devo entender que Mitch quer que você
tente de novo com Paul?
Elaine fechou os olhos. Preocupada com outro inevitável confronto feio, assentiu.
Mas aquela não era a única coisa que a perturbava. O desastre da noite anterior na

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Renee Roszel - Um assunto pessoal
(Mom Intimos 143)

despensa implicara em uma dor de cabeça. Quisera, na verdade, que Mitchell Rath a
beijasse? Cometera mesmo aquela loucura? A única explicação tinha que ser cansaço,
estresse e fome. Que sorte que ele não quisera participar e a afastara.

— Sorte — murmurou ela, mordendo o lábio.

— Você disse alguma coisa, Elaine?

Ela meneou a cabeça e esfregou as têmporas doloridas.

— Não, nada.

— Ele é um amor, não é?

Elaine arregalou os olhos. Fitou a tia, incrédula, observando que ela parecia
perfeitamente sã. Evidentemente as aparências podiam enganar.
— Espero que você esteja falando de Harry.
Claire estava lixando as unhas da mão. Ao comentário, voltou a atenção para a
sobrinha:

— Não, me referia a Mitchell.

— Como você pode dizer que ele é um amor? Ele está fazendo da minha vida um
inferno.
Claire riu e cruzou as pernas nos tornozelos.
— Pois acho que ele tem sido maravilhoso. Guy alguma vez lavou um prato, trocou uma
lâmpada ou preparou alguma comida?
Elaine sentiu que estava ficando pálida.
— Guy foi criado na riqueza — murmurou ela. — Foi acostumado a ser servido. — Por
que estava defendendo Guy para a tia? Talvez fosse a bobagem de comparar Mitch a
Guy que a irritara. Eram ambos farinha do mesmo saco. Manipuladores, autoritários e
egoístas. Só porque Mitch ajudava com os afazeres da casa, não significava que era
algum príncipe charmoso!
— Não vou discutir sobre isso com você. — Elaine alisou seu vestido de festa até os
tornozelos. Virando-se para o espelho, admirou sua criação. Vira aquele tecido numa
loja e tivera que comprar. A maravilhosa organza rosa, estampada com tons pastéis e
bordada com pequeninas rosas prateadas haviam produzido um vestido chique. Uma
seda leve, também cor-de-rosa, cobria o vestido todo, dando transparência ao colo e
aos braços.
Então se recordou de quão excitada ficara quando o vestira na lua-de-mel para um
jantar dançante com um grupo de pessoas. Guy, porém, insistira que o vestido era
muito vulgar para uma festa social. Magoada, Elaine guardara-o no fundo do guarda-

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roupa.
Agora admirava sua imagem com orgulho e convicção. Ela estava muito bem. Ignoraria
o autoritarismo de Guy e seus preconceitos.
Outro aspecto do traje dela que Guy abominaria, era o fato de estar sem nenhum
acessório, exceto o delicado par de brincos. As jóias caras que o marido insistira que
ela exibisse estavam todas com os credores, inclusive o par de alianças de casamento.
— Sempre a achei linda em cores claras — comentou Claire, sentando-se ereta. — E
esses cabelos presos lhe deram um ar sofisticado.
Elaine recuou com o uso da palavra da tia. Sofisticada. Uma das palavras favoritas de
Guy, que ela detestava. Mas como a tia poderia saber?
Claire pareceu não notar o desconforto da sobrinha.
— Você está maravilhosa, querida.
Elaine estava tão nervosa que nem conseguiu sorrir. O coração batia descompassado e
a respiração estava curta. Apenas esperava que àquela apreensão tivesse a ver com a
chantagem de Mitch e não com a rejeição dele.
Uma batida na porta quebrou o silêncio. O coração de Elaine disparou.
— Deve ser Mitchell. — Claire pulou da cama e correu para a porta, consultando o
relógio de pulso. — Oito em ponto. Além de todas as qualidades, ele ainda é pontual —
declarou abrindo a porta.
Elaine não queria acreditar no que estava ouvindo.

— Que pontualidade! — elogiou Claire enquanto gesticulava para que ele entrasse. —
Uau! Você está encantador!

— Oh, Claire, obrigado. — A voz profunda e sexy ecoou pelo quarto.

Elaine sentiu um arrepio na nuca e se perguntou se deveria prender as mechas de


cabelo que haviam se soltado do penteado. Decidiu deixá-las como estava, encarando a
verdade de que o que estava tentando evitar era olhar para o sr. Encantador.

— Boa noite, sra. Stuben — cumprimentou ele.

— Pelo amor de Deus — criticou Claire. — Quanta formalidade! Mitch, esta é Elaine
Stuben. Elaine, Mitchell Rath. Fiquem à vontade. Tenho algumas coisas para fazer.
Na pausa que se seguiu, Elaine viu a tia desaparecer no corredor. Suplicou
mentalmente que ela retornasse, mas pelo jeito seus poderes de telepatia estavam
desligados.
A simples presença de Mitch ali provocou um tremor de antecipação e ela se esforçou
para controlar-se. Tremer perante aquele homem estava fora de questão! Mitchell Rath

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a estava usando, ou melhor, chantageando-a, para enriquecer mais um pouco.


Absolutamente não!

— Vejo que você está pronta — começou ele. — Esse vestido é... exuberante.

— Sim — zombou ela, focando o topo de mármore da penteadeira. A imagem da


desaprovação de Guy relampejou em sua mente. — O que você quer dizer é que ele
parece ter sido feito por um hippie de mau gosto? — Sentindo a adrenalina invadir a
corrente sanguínea, e pronta para brigar, ela devolveu:— Bem, e é. Criado por mim.
Após um silêncio pesado, ele falou:
— O mau gosto é inimigo da criatividade.
A inesperada colocação a deixou confusa.
— Pablo Picasso disse isso — prosseguiu ele. — E há boatos de que o homem sabia
alguma coisa sobre criatividade.
Então o que aquilo significava? Ela realmente parecia uma hippie de mau gosto ou
parecer uma hippie de mau gosto era perdoável, uma vez que o mau gosto era elogio
em nome da criatividade? O homem estava ridicularizando seu julgamento ou
aplaudindo seu talento criativo?
Com um leve gosto amargo na boca, Elaine se virou para ele. Por mais que detestasse
a verdade, tinha que admitir, o homem era encantador.
Estava em pé ali, impressionantemente bonito, com um ar de dignidade. A combinação
era estonteante, assustadora e devastadora. O resumo de elegância num smoking, a
postura impecável, a gravata borboleta. As mãos nos bolsos da calça acentuavam a
musculatura das coxas e os quadris definidos. Ombros largos enchiam o paletó preto
com perfeição.
Uma ferroada de ressentimento a invadiu. Como ele ousava atormentá-la e frustrá-la só
por estar no caminho da porta? O que ele esperava ganhar com aquele jogo sensual?
Nada! Ele era o Predador, sangue-frio e manipulador. Ela estava muito segura de si
para ser afetada por uma sedução tão superficial!
Após um longo momento tenso, meio sorriso curvou os lábios dele. Mas Elaine notou
que naqueles olhos escuros não havia nenhum traço de humor.

— Nem vai me agradecer? — perguntou ele.

— Não tenho a menor idéia do que você está falando.

A expressão dele ficou séria enquanto ele andava pelo quarto.

— Eu elogiei você.

— Não. Você falou que Pablo Picasso adoraria meu vestido. Conheço a genialidade de

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Picasso, mas prefiro a arte emocional em vez da analítica, trabalhos fragmentados,


embora eu possa ver onde podem apetecer você. Francamente, estou insultada.
Mitch se aproximou e parou a apenas alguns centímetros dela, encarando-a.

— Francamente, você encontraria uma forma de se sentir insultada mesmo que eu


falasse que você é a criatura mais bela da face da Terra. — Pegando a mão dela, ele a
conduziu porta afora. — Está ficando tarde, Elaine. Você tem uma tarefa a cumprir.

— Sim, Mitch — imitou ela, o tom tão provocante quanto o dele. — Tenho que ir ao
baile com você.
Ele a fitou, claramente contrariado.
Mitch não gostou muito de si próprio naquela noite. Sorriu, gargalhou com piadas e
conversou sobre coisas inconseqüentes como bons filmes e maus políticos, mesclando
tudo isso com danças de salão com as freqüentadoras do clube. A coleção de
candelabros gigantes deixava o ambiente romântico, esquentando a noite de inverno
com boa comida, música lenta e pessoas nobres. Entretanto Mitch sentia-se
extremamente frustrado.
Embora não tivesse ficado com Elaine o tempo todo, manteve um olho em todos os
movimentos dela. Ela se servira de um prato de comida, mas não tocara em nada.
Mitch repreendera a si mesmo. Será que ela perdera peso desde que ele chegara?
Exceto por aquelas poucas mordidas de panqueca na manhã anterior, ele não a vira
comer mais nada. Ótimo, Rath, censurou-se. Ela prefere morrer de fome do que
agüentar a sua companhia.
Ele lhe dera espaço naquela noite, mais do que originalmente planejara. E ainda, Paul
Stuben não havia aparecido. Porém, até então a noite não tinha sido um desperdício
total. Ele conversara com Marlon Breen e Cal Landenburg, que o apresentaram a outro
membro da diretoria da Stuben. Pesquisar sobre o velho homem rendera mais do que
ele tinha em mente. Aquela noite, Elaine fizera-lhe um bem maior do que ela
imaginava, simplesmente por facilitar-lhe o acesso à diretoria da Stuben.
Ele recostou-se contra uma coluna de mármore, mal notando os convidados na pista de
dança. De repente uma figura brilhante chamou-lhe a atenção. Elaine surgiu à vista,
nos braços de um homem bonito que ria todo animado para ela.
Mitch os observou, os lábios pressionados com o pensamento. Eles dançavam bem,
juntos. Elaine não perdia um passo, girando nos braços do homem, leve como um
pássaro. A seda leve e transparente da sobre-saia esvoaçava em torno das delicadas
formas de seu corpo. Ele experimentou uma onda de calor. Será que ela escolhera
aquela transparência para provocá-lo? Ele recuou com a percepção de que estava na
verdade com ciúme de um pedaço de roupa.
— Que coisa! — O tango acabou e uma melodia lenta pegou o lugar. Então Mitch

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caminhou até a pista com o objetivo de fazer girar um vestido provocante e a mulher
que o desenhara.
Com um pouco mais de força do que pretendera, bateu no ombro do companheiro de
dança de Elaine.
— Com licença, amigo — disse ele com um sorriso para amenizar a interrupção.
O par de Elaine lançou-lhe um olhar irritado, mas se afastou mesmo assim,
aparentemente decidindo que Mitch se destacava em peso e altura.
— O que foi? — perguntou Elaine, abaixando os braços ao lado do corpo. — Paul está
aí?
Mitch meneou a cabeça.

— Pensei que poderíamos dançar. Ela arregalou os olhos.

— Dançar?

Mitch lutou contra a súbita frustração pelo óbvio desgosto dela. Escondendo a irritação,
sorriu, permitindo-se a apenas um toque de cinismo:
— Presumo que você sabe o que é dançar, já que passou quase a noite inteira fazendo
isso.
Ele deslizou um braço em volta da cintura dela e levantou a outra mão, a palma
convidando a dela.

— Você segura esta aqui. Ela engoliu em seco.

— Eu preferiria não fazer isso.

— Que coisa — murmurou ele, pegando a mão dela e enlaçando-lhe os dedos. — Isso é
uma dança, Elaine. — Ele pôs a mão nas costas dela, que tencionou o corpo
imediatamente. — Parte do acordo era que você e eu agíssemos como amigos. — O
aroma dela invadiu-lhe os sentidos.

— Nem todos os amigos dançam juntos.

Mitch teve vontade de rir e se surpreendeu. Por que aquele comentário mal-humorado
o divertia?
— Você é uma pessoa difícil, sra. Stuben.
Ela não respondeu e eles se movimentaram através da lenta e sedutora melodia. Ele a
segurou mais perto.
— Você dança bem — comentou ele contra o cabelo dela.
Elaine não respondeu. Embora não tivesse aconchegado a cabeça no peito dele, a face
estava perto. Abaixou o olhar e notou que os olhos dela estavam fechados. Será que

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estava se repreendendo por estar nos braços dele?


— O que você está pensando? — indagou ele, incapaz de se conter.
Elaine abriu os olhos e o encarou. O que ele viu apertou-lhe a garganta. Aqueles
admiráveis olhos estavam brilhantes de lágrimas. Que coisa! Ele era tão detestável que
ela não poderia nem mesmo tolerar uma simples dança?
— Tem certeza de que quer saber? — sussurrou ela.
Tentando ignorar a repentina culpa, ele desviou o olhar.

— A música vai acabar em um minuto — resmungou ele. Um rosto familiar na entrada


do salão de baile chamou a atenção de Mitch. — Bem, bem... — Ele deixou a frase no
ar.

— O que foi? — Ela levantou os olhos.

— Hora do show, princesa — avisou ele, calmamente. — Seu sogro acaba de entrar.

Dançando nos braços de Mitch, a respiração de Elaine já estava difícil. Com o doloroso
anúncio dele, o pouco fôlego que lhe restava nos pulmões congelou. Aquilo era tudo
que ela precisava! Por que Paul tinha que aparecer? Ela quase chegara a pensar que
passaria aquela noite sem outra sórdida explosão.
Além do medo de ser destratada em público pelo sogro, temia estar nos braços de
Mitch.
Não queria dançar com ele. Não queria sentir o calor daquele corpo sólido outra vez.
Fora um pouco louca na noite anterior quando quase caíra da escada e, confusa, o
achara irresistível... por apenas um segundo, claro, não mais que isso!
Se havia um outro lado daquela dança, Mitch estava certo quando dissera que em
breve acabaria. Sorte dela. Encarar a fúria de Paul seria quase um alívio.
— Então — sussurrou ele, os lábios roçando a orelha dela. —, vamos?
A sensação excitante do roçar dos lábios a invadiu sem pedir licença. A música tinha
acabado? Ela piscou, clareando a mente.
Estranhamente tonta, permitiu ser conduzida por ele através da multidão. Quando
deixaram a pista, ele soltou a mão dela e a enlaçou pela cintura, relembrando-a com
um sussurro:
— Lembre-se, somos amigos.
Ela assentiu.
— Conheço... — Ela percebeu o tremor na voz e recomeçou: — Conheço nosso acordo.
— Elaine moveu a cabeça ao redor, pressentindo a presença de Paul.
De repente, lá estava ele. A menos de um metro de distância, inconsciente da presença

Projeto Revisoras 54
Renee Roszel - Um assunto pessoal
(Mom Intimos 143)

dos dois, ele balançava um copo de uísque e conversava com um casal de aparência
próspera. Elaine teve a sensação de que eleja estava um pouco alterado mentalmente.
Embora estivesse impecavelmente vestido, parecia não ter se barbeado. Ele explodiu
numa gargalhada, o som mais alto do que mandava a educação. O casal que estava
com ele trocou um olhar confuso.
O coração de Elaine doeu pelo sogro. Parecia deprimido e havia nele o prenúncio de um
homem à beira do abismo.
Ela parou abruptamente.
— Eu não posso! — Libertando-se do abraço casual de Mitch, virou-se para encará-lo.
— Não farei isso! É cruel. — Ela indicou o sogro, rezando para que Mitchell Rath tivesse
compaixão. — Você não o conhece como eu. Ele está sofrendo. Está frágil. Não
force esse confronto. Nem mesmo você pode ter um coração tão duro!
Eles se entreolharam e o silêncio imperou.
Quando Mitch finalmente abriu a boca para falar, alguma coisa chamou-lhe a atenção e
ele olhou sobre os ombros dela.
Paul os localizara? Ela pôs a mão no peito e respirou profundamente, preparando-se
para o show.
— Certo — murmurou Mitch, surpreendendo-a quando pegou-lhe a mão. — Ele está
muito alcoolizado e seria uma perda de tempo.
Antes que Elaine soubesse o que estava acontecendo, Mitch a conduzira de volta a
pista de dança.

— O que... o que você está fazendo?

— O que você me pediu para fazer.

— O que eu... — Ela se sentiu desorientada quando ele a pegou nos braços. — Nunca
lhe pedi para dançar comigo! — Não em voz alta, pensou ela.

— Sei quê você não me pediu para dançar com você. Pediu-me para deixar seu sogro
em paz.

— Oh... — Como podia o toque da mão dele deixá-la tão atrapalhada? Ela deu uma
olhada para onde Paul estava, agitando o copo e conversando. Então voltou o olhar
confuso para Mitch. O rosto dele estava perto. Muito perto. E ele a encarava, irradiando
aquele magnetismo sensual. — Você teve pena dele? — perguntou ela, incrédula.
Ele meneou a cabeça.

— Não diga isso.

— Por que, se essa é a verdade?

Projeto Revisoras 55
Renee Roszel - Um assunto pessoal
(Mom Intimos 143)

— Porque eu não quero que isso seja verdade. Vamos apenas dizer que senti lima
vontade louca de dançar.
Elaine gostou daquilo.
— Você sentiu pena — insistiu ela com um sorriso hesitante.
— Realmente sentiu compaixão por ele. — Ela o fitou, espantada. — Considerando a
razão de estarmos aqui, sei que essa deve ter sido uma escolha de grande sacrifício
para você.
Franzindo o cenho, Mitch deu de ombros.
— Apesar do que você pensa sobre mim, não tiro vantagem das pessoas injustamente.
Elaine não acreditou, mas decidiu não argumentar.
— Paul está pior do que eu temia.
A música romântica aumentou de volume. Mitch dançava bem, tinha passos fáceis de
serem seguidos e ela se encontrou relaxada nos braços dele. Ele fizera uma caridade e
aquele fato teve um delicado efeito sobre Elaine. O calor da mão dele espalhava-se
pelas suas costas, enviando-lhe ondas prazerosas, os seios latejando com o contato do
torso sólido.
Ele entrelaçou os dedos nos dela e pressionou-os contra o peito. Ela pôde sentir as
batidas do coração dele.
— Elaine — disse ele, a voz baixa e sedutora.
Ela levantou o rosto e surpreendeu-se quando viu que a boca dele estava a apenas
poucos centímetros da sua.
— Sim? — A palavra era quase um suspiro de desejo. Ela não se preocupou em analisar
o porquê.
Mitch não respondeu imediatamente, o olhar vagando pelos lábios dela.
— Estou com medo de insultá-la novamente — disse ele. — Mas tenho que lhe dizer
isso.
Elaine desejou saber o que estava na mente de Mitch. Ele parecera prestes a beijá-la e
então... a estava avisando de que iria insultá-la? Ela tentou voltar à realidade,
prometendo não dar a ele a satisfação de perceber seus sentimentos. Com um sorriso
falso, falou:
— Insulte. Nosso relacionamento tem sucesso em insultos!
Ele arqueou uma sobrancelha.
— Certo, por um instante quase me esqueci disso. — Ele abaixou a cabeça lentamente,
o calor da respiração aquecendo a face de Elaine. — Francamente — sussurrou ele —,

Projeto Revisoras 56
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(Mom Intimos 143)

o único setor onde você tem mau gosto é na escolha de maridos.


Abalada com a brusca declaração, ela perguntou:

— O que você disse?

— Você ouviu — respondeu ele, sério.

— Por quê?

— Porque estive pensando. E me dei conta de que foi seu marido que fez aquela
observação sobre a hippie de mau gosto, não foi?
A menção de Guy levou Elaine a enrubescer. Sentiu frio e tremeu.
Mitch franziu a testa. Claramente sentira a reação dela.
— Guy Stuben não era apenas um cafajeste. Mas um cafajeste burro.
Ela abriu a boca para protestar, mas não encontrou palavras. Ouvir uma verdade, a
qual se envergonhava de admitir, era mais que podia lidar. Então, melhor não
responder. Ela meneou a cabeça, confusa. Como podia aquele homem ser tão perspicaz
para detectar os defeitos de um homem que nunca nem mesmo vira?
— Ele é a razão do fracasso da sua empresa, também.
Aquilo não fora uma pergunta. Mitch declarara um fato. Com conhecimento de causa.
Experimentando uma revirada de emoções, profundo remorso e incrível gratidão,
lágrimas brotaram nos olhos dela. Por um longo tempo, quisera que alguém, qualquer
um, entendesse como aquilo realmente fora. E agora alguém entendia. Como era
possível que o homem que a estava chantageando tivesse tamanha sensibilidade?
Ela pestanejou para conter as lágrimas. Não choraria! Não na frente de Mitch.
— Não posso falar sobre isso — murmurou contra o peito
másculo.
— Então, não falaremos — concordou ele, gentilmente. A orquestra tocava uma canção
suave enquanto ela girava no abraço de Mitch. Braços tão protetores. Quanto tempo se
passara desde que ela se sentira em segurança? E por que se sentia assim agora?
— Elaine,.olhe para mim — pediu ele, delicadamente.
Sem hesitação, ela obedeceu. Ele a puxou para mais perto.
Elaine encontrou-se aderindo-se a ele, pressionando-se com desejo naquele abraço.

— Seu vestido é lindo. — Os lábios dele roçaram os dela como uma leve asa de
borboleta, enviando tremores pela espinha de Elaine. — E também o...

— Você matou meu filho! — A acusação agressiva interrompeu violentamente a frase.


Uma mão gelada agarrou o pulso dela, virando-a, puxando-a de Mitch.

Projeto Revisoras 57
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Aturdida pelo súbito ataque, Elaine segurou-se para não cair.

— Você o matou e gastou a fortuna! — Paul Stuben estava em pé, os dentes travados.
A acusação difamadora ecoou pelo recinto, deixando todos no mais profundo silêncio.

— Sr. Stuben — disse Mitch. — Se fosse você, eu não faria...

— Esse problema é meu — interrompeu Elaine, pousando uma mão delicada no braço
dele. Apesar dos nervos à flor da pele, ela meneou a cabeça para ele. — Posso lidar
com isso.
Mitch franziu o cenho, como se pedisse para ela repensar a decisão. Elaine sorriu para
assegurá-lo e voltou os olhos para o sogro. A agressividade dele era tão tangível que
ela podia sentir a irradiação negativa.
— Então — começou Paul com desprezo. —, você já está envolvida em uma nova
conquista enquanto meu filho está lá, deitado em seu túmulo! — Ele balançou o corpo,
espirrando uísque na manga do paletó. — Você não tem alma!
Paul os circulou, cambaleando.
Então apontou um dedo para ela, o ato quase uma agressão física. Elaine teve vontade
de explodir, a fim de defender-se. Mas que bem aquilo faria? Paul não estava em
condições de ouvir a razão. Em sua bebedeira, estado desesperado, apenas acreditaria
em sua própria enganosa verdade.
— Vá em frente, sua bruxa caçadora de dotes! Qual é o seu plano? Conte-nos! — Ele os
circulou mais uma vez, os olhos selvagens. — Talvez a lei não possa condená-la por
matar meu filho, mas eu nunca a deixarei esquecer!
Ele cambaleou para frente, mas conseguiu se conter. O olhar irado ia de Elaine para
Mitch, enquanto ele dava enormes goles no uísque.
Embora relutante em argumentar com o sogro em público, Elaine não pôde deixar
aquele enunciado passar.

— Paul — disse ela, o tom delicado, porém firme. — Você sabe que a morte de Guy foi
um acidente e...

— Cale-se! — gritou ele. —Você o matou da mesma forma como se o tivesse


empurrado do penhasco! — Ele atirou o copo no chão, que se quebrou, e as partículas
de cristal espirraram perto dos pés de Elaine.
O ataque físico de Paul a chocou tanto que Elaine ficou imobilizada.
Foi então que Mitch intercedeu, parando bem na frente dela.

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CAPITULO VII

O copo que Paul jogara no chão estilhaçou tão perto dos pés de Elaine que Mitch teve
vontade de bater no homem. A evidente mágoa que ela sentia o atingiu em cheio.
O pesado silêncio ficou suspenso no ar enquanto Mitch encarava o sogro de Elaine, um
bêbado hostil e mal-humorado, tomado de ódio, o bastante para roubar sua razão. A
respiração de Paul estava ofegante, a face enrubescida e a testa suada. Ele não parecia
bem.
Subitamente Mitch sentiu a raiva abrandar e ser substituída por um rompante de
misericórdia. Em vez de pronunciar as censuras que estavam na ponta da língua,
passou o braço sobre os ombros trêmulos do homem.

— Você não está bem — disse ele, calmamente. — Precisa descansar. É hora de ir para
casa. — Ele deu uma olhada para Marlon Breen e o sinalizou.

— Quem é você para me dizer o que preciso? — demandou Paul.

O homem mais velho não reagiu quando Mitch o levou em direção a saída do salão de
baile. Tropeçou e, apoiando-se no sólido corpo de Mitch, respondeu mais como uma
criança exaurida do que como um industrial furioso:
— Não vou a lugar nenhum que eu não deseje ir! — avisou ele.

— Claro que não. — Mitch continuou guiando Paul. Breen chegou perto eles,
visivelmente perturbado.

— Você pode colocá-lo num táxi? — pediu Mitch. Breen assentiu.

— Claro. Obrigado por sua atitude. — Então, virando-se murmurou alguma coisa para
Stuben em voz reconfortante.
Mitch removeu o braço dos ombros do homem e Breen assumiu seu lugar, conduzindo-
o.através da multidão.
Mitch voltou rapidamente para Elaine que o esperava ali, tão adorável, os olhos verdes
nublados de melancolia.
Parando ao lado dela, pousou um braço protetor sobre seus ombros.
— Elaine? — sussurrou ele. Quando eles se entreolharam, o sofrimento de Elaine se
tornou o dele. Aquele sentimento de conexão o alarmou. Após uma pausa para
readquirir o auto controle, ele murmurou: — Vamos. — Delicadamente, ele a conduziu
para fora do salão de baile, ainda lutando contra a sensação de vulnerabilidade.
Não passara a vida toda evitando sentimentalismos? O que o fizera ajudar Paul Stuben?
Pois não era exatamente uma prova da instabilidade mental de Paul que ele necessitava

Projeto Revisoras 59
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(Mom Intimos 143)

para convencer a diretoria que o homem era inepto?


Raiva o invadiu. Aquela fraqueza só podia ter a ver com Elaine. Não se deixaria afetar
pela beleza dela, pela coragem ou pela interminável cordialidade. Era um homem
acostumado a lidar com suas emoções, não se permitindo ser manipulado por elas.
Naquele momento no clube, oscilara da fúria à compaixão, passando pela tristeza e de
volta à raiva, uma desordenada mistura de emoções que realmente não desejava
repetir.
Antes de se dar conta, já resgatara o casaco de Elaine da chapelaria e a estava
ajudando-a a vesti-lo. Em silêncio, eles saíram do clube para a noite clara e fria. As
nuvens tinham se dissipado, evidenciando uma lua cheia. A paisagem coberta de neve
parecia tão brilhante quanto o dia.
Quando ele ia entregar o bilhete do estacionamento para o manobrista, Elaine segurou-
lhe o braço.
— Vamos andar até o carro — sugeriu ela.
Ele a fitou e viu súplica nos olhos dela. Assentindo, Mitch estendeu uma gorjeta ao
manobrista:
— Nós mesmos vamos pegar o carro.
O manobrista sorriu, pegou a nota e voltou contente ao saguão. Determinado a ser
civilizado, porém não vulnerável, Mitch ofereceu o braço a Elaine. Ela era uma peça
importante de seu jogo, nada mais, independente de quão sedutora estava naquele
lindo vestido. Independente daqueles magníficos olhos verdes, dos lábios o levando à
distração. Independente de quase tê-la beijado enquanto dançavam.
Eles andaram entre os carros sem falar até que Elaine quebrou o silêncio:

— Você me confunde.

— O quê?

— Gostaria de saber se você realmente é o homem sem coração que faz as pessoas
acreditarem que é.
Ele franziu o cenho, não gostando do rumo da conversa.
— Não sei do que você está falando.
Ela segurou mais forte no braço dele.
— Você foi gentil com Paul. Pensei que fosse bater nele, mas você o ajudou.
Mitch recuou ao ouvir seu lapso sendo dito em voz alta. E não sabia como responder.
Teria o leve roçar nos lábios dela na pista de dança deixando-o temporariamente
insano? Perturbado consigo mesmo, ele respondeu:

Projeto Revisoras 60
Renee Roszel - Um assunto pessoal
(Mom Intimos 143)

— Isso não acontecerá de novo.

— Você é muito durão — provocou ela.

— Não interprete errado. Eu apenas queria... — A justificativa desfaleceu. O quê eu


queria?
— Você queria apenas neutralizar a situação — completou ela. — Ficou com pena do
meu sogro. Você quis defender a nós dois de mais desgosto e humilhação. — Ela
liberou o braço dele e pegou-lhe a mão. Dando uma parada, praticamente forçou-o a
encará-la.
Elaine meneou a cabeça, a expressão exibindo uma ausência de sua usual hostilidade.
— Você teve um ato heróico, especialmente considerando o porquê de estarmos lá. Eu
o vi entregando Paul aos cuidados de Marlon. Você nem mesmo tentou fazer qualquer
progresso em relação a ele.
A luz da lua, os olhos dela brilharam, assegurando-o de que pelo menos naquele
segundo ela não o estava vendo como um monstro.
— Stuben estava bêbado. Amanhã não se lembraria de nada que eu tivesse lhe dito —
murmurou ele. Não me admire, Elaine, avisou ele com os olhos. Vou desapontá-la
profundamente quando isso tudo terminar.
— Há uma esperança para você, Mitchell Rath — murmurou ela.
Ele abriu a boca para esclarecer, mas por alguma razão, as palavras não saíram. Seria
por causa da sinceridade dela, o toque delicado de sua mão, os olhos cheios de
aprovação, ou simplesmente a noite de lua cheia? Qualquer que fosse a causa, um
pensamento espontâneo explodiu em sua mente.
Elaine Stuben precisava ser beijada.
Quando ela levantou o queixo, seus olhos eram fascinantes, magnéticos e perigosos.
Mitch desceu o olhar até a boca de Elaine e finalmente aqueles lábios sensuais se
abriram num sorriso. Será que ela se dava conta de que aquela era a primeira vez que
sorria para ele, por livre e espontânea vontade?
Repentinamente a batalha interna que ele travara para manter-se distante ficou
insuportável. Não pôde mais controlar o desejo eletrizante que ardia em seu interior. As
mãos deslizaram pelos braços dela, puxando-a para mais perto. Ele apenas capturou
um relâmpago de pavor, ou seria choque, no olhar dela, antes de juntá-la nos braços,
pressioná-la contra seu corpo e beijá-la.
O coração de Elaine acelerou e um tremor delicioso esquentou-lhe o corpo todo. Sem
pensar em considerar as razões, entregou-se a aquele beijo.
Apesar do ar gelado da noite, o beijo de Mitch a aquecia. Quando a pressionou contra

Projeto Revisoras 61
Renee Roszel - Um assunto pessoal
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sua masculinidade rígida, ele era todo fogo, todo paixão.


Aquele não era um beijo de um homem sem coração. Era um beijo de um homem de
carne e osso. E não apenas um de carne e osso, mas um que raramente liberava suas
paixões, porque, quando o fazia, elas eram tão intensas que recobrar o domínio sobre
elas seria um esforço gigantesco.
Aquela dedução abriu uma nova fenda na barreira que Elaine erguera contra ele, contra
o rude Predador que queria tirar as coisas que ela construíra e amara.
Um tremor de desejo a percorreu e Elaine aprofundou o beijo, encorajando-o a explorar
mais seu corpo.
Ele aceitou o convite e começou a acariciar-lhe. Sensações eróticas a levavam à beira
da loucura. Aqueles braços fortes e sensuais a sua volta, o aroma excitante da pele
masculina e da colônia, a fez sentir dor de tanto desejo.
— Mitch... — murmurou contra os lábios dele.
Ao som de seu nome, ele parou e levantou o rosto, a boca ainda muito perto da dela, e
a fitou profundamente. Uma expressão estranha surgiu no semblante dele e a boca se
franziu.
— Que absurdo! — murmurou ele, afastando-se.
O recuo de Mitch foi tão inesperado, que Elaine quase perdeu o equilíbrio.
Ele a segurou pelo braço, dando-lhe apoio.
— Foi culpa minha — disse ele bruscamente, conduzindo-a pelo estacionamento. —
Desculpe-me. Esqueça o que aconteceu.
Esqueça o que aconteceu. A ordem de Mitch ecoou no cérebro de Elaine a noite toda,
assim como no dia seguinte. Esqueça o que aconteceu. Mais fácil falar do que fazer. Ela
bem que estava tentando, mas parecia impossível esquecer aquele beijo.
Sentando-se imóvel na poltrona perto da janela de seu quarto, assistiu a tempestade de
neve.
Contra vontade, desviou o olhar e viu Mitch a cerca de vinte metros, com um machado
na mão, cortando uma árvore seca. Ela o observou trabalhar, tentando ficar indiferente.
Por que Mitchell Rath fora lá fora cortar madeira naquele tempo horroroso, Elaine não
entendia. Ele gastara horas naquilo, formando uma verdadeira montanha de lenha.
Mas quem era ela para reclamar? Aquilo o mantinha fora da casa e longe dela. Se Mitch
fosse honesto ao acordo original e a mansão ficasse na família Stuben, seu sogro teria
lenha estocada para o próximo inverno rigoroso de Chicago. Ela apenas esperava que
no ano seguinte Paul Stuben estivesse recuperado da devastação irracional que
mostrara na noite anterior.

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(Mom Intimos 143)

Uma vez que era domingo, Paul não estaria no trabalho, então Mitch não insistiria num
novo contato com ele.
Elaine desejou ter alguma coisa para ocupar o tempo, além de observar o magnífico sr.
Rath trabalhando com o machado. Também desejou esquecer o beijo da noite anterior.
Porém encontrou-se passando o indicador nos lábios, relembrando-se a sensação
estonteante da boca dele contra a sua.
Ela fechou os olhos e quando os abriu novamente, Mitch levantou o machado acima da
cabeça. Com um balanço eficaz, partiu a lenha em dois e colocou os pedaços sobre a
pilha, sacudindo a neve. Então, largando o machado, levantou o imenso feixe e o
carregou na direção da casa.
Ele não estava de chapéu. Os cabelos negros e úmidos cintilavam com os flocos de
neve. Uma leve camada branca estava pousada nos ombros do casaco verde de nylon.
Ombros largos e fortes.
Uma batida à porta avisou Elaine que sua tia estava ali.
— Sim, tia Claire? Entre.
A porta se abriu e Claire entrou, carregando algumas velas grossas em ornamentados
castiçais e uma lanterna grande.
— Caso acabe a luz — explicou ela, depositando tudo sobre a penteadeira e procurando
algo no bolso. — Não devemos esquecer dos fósforos. — Ela pôs a caixa de fósforos ao
lado dos castiçais. — Espera-se uma tremenda nevasca. O homem do tempo disse que
teremos sessenta centímetros de neve pela manhã.
Elaine fez uma careta.
— Pedi a Mitch que trouxesse um feixe de lenha aqui para o seu quarto — continuou a
tia.
Elaine sentiu um tremor de ansiedade e se virou abruptamente:
— O quê? Por quê?
Claire deu de ombros.

— Bem, você tem uma bela lareira no quarto e como as outras lareiras da casa não são
usadas há muito tempo, pensei que, se ficarmos sem luz e consequentemente sem
aquecimento central, seria mais previdente ficarmos neste ambiente aquecido.

— Ficarmos? Nós? — Um arrepio percorreu a espinha de Elaine. — Você quer dizer você
e eu, certo?
Claire se sentou no banco da penteadeira, cruzando as mãos sobre o colo.
— Sim, nós duas... e Mitch. — Ela olhou em dúvida para a sobrinha. — Ou você prefere
que depois de cortar toda essa lenha, ele fique congelando no quarto dele?
Projeto Revisoras 63
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Elaine encostou-se contra o vidro frio da janela.


— Por favor, meu Deus — murmurou Elaine, olhando para cima. — Não permita que
fiquemos sem energia elétrica. — A última coisa que ela queria era compartilhar o
quarto com aquele homem. Mas pelo menos uma coisa estava a seu favor. Sua tia
estaria lá também.
Do que você está com medo?, perguntou a si mesma. Não se lembra do que ele falou?
Esqueça o que aconteceu. Isso diz tudo, Elaine. Ele não está à procura de alguém! Uma
pequena voz interior a interrompeu: Ou você está com medo de seduzi-lo?
Ela abaixou a cabeça e respirou fundo, frustrada.

— Bem, se todos nós vamos acampar aqui hoje, talvez seja melhor pegar um
colchonete para... você sabe para quem.

— Sim, eu sei. — Claire esfregou os braços. — Se a luz acabar, vou dormir o mais perto
do fogo possível. Detesto passar frio.
Elaine teve um sobressalto.

— Ótimo. — Então emendou com sarcasmo: — O sr. Rath e eu podemos dividir a cama.
Que excelente idéia!

— Se vamos dividir a cama, Elaine — irrompeu uma voz masculina. —, então talvez
fosse melhor você me chamar de Mitch.
Claire riu para o homem parado à porta com um feixe de lenha.
— Entre! — Ela gesticulou. — Deixe essas coisas no tacho de cobre. Elaine e eu
empilharemos algumas toras dentro da lareira, a fim de nos prepararmos para o pior.
Elaine observou Mitch cruzar o quarto com sua carga. Ela o analisou, o pulso forte, as
coxas musculosas, os quadris firmes, ombros e costas largos. Então pestanejou,
sentindo-se perdida e confusa. Aquele quarto perdera de repente o oxigênio?
Enquanto tentava respirar normalmente, Mitch se levantou e virou-se. Por um instante,
aqueles olhos negros prenderam os dela e Elaine sentiu um arrepio na nuca.
Esfregando as luvas, Mitch voltou-se para Claire:
— Acho melhor nós nos prevenirmos. Parece que a coisa vai ser feia.
Claire assentiu.
— Certo. Vou descer para preparar alguns sanduíches. Você me dá uma ajuda, Elaine?

— O quê? — Distraída, Elaine perdera o fio da conversa.

— Perguntei se você me ajuda a preparar uns sanduíches.

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— Ela inclinou a cabeça, inquisitiva. — Ou prefere continuar observando Mitch? Hoje,


foi só o que você fez.
A acusação revoltou Elaine. Ela levantou o queixo, rejeitando o absurdo comentário de
Claire. Talvez o tivesse observado... por alguns minutos. Mas sua tia não devia ter dito
aquilo na frente de Mitch.
— Se precisa de ajuda com os sanduíches, tia Claire, vamos — disse ela, já na porta.
Vinte minutos depois, Claire e Elaine subiram a escadaria com uma cesta com coisas
para comer e duas garrafas térmicas de chocolate quente. O som da lenha sendo
arrumada na lareira avisou que Mitch ainda estava lá.
Claire colocou as garrafas ao lado da lareira.
— Acho que estamos prontos. Até que a luz acabe de verdade, estarei no meu quarto,
organizando alguns tecidos.
Antes que Elaine pusesse a cesta em algum lugar, a tia se fora. De repente um
inenarrável calor a dominou e ela olhou ao redor, tentando decidir onde pôr a comida.
Avistou a mesinha perto da janela e decidiu que seria um bom lugar. Os sanduíches se
manteriam fresquinhos ali. Quando afastou a cortina para liberar a mesinha, notou que
já estava escuro do lado de fora.
Então sentiu os olhos de Mitch sobre si. Até agora evitara olhar naquela direção, mas
parecia não haver mais escapatória. Ela o encarou. Ele trocara a roupa por calça jeans
e um suéter preto. Os cabelos reluziam na luz do abajur como se ele tivesse acabado
de sair do banho. Elaine mordeu o lábio, esperando que a dor bloqueasse as memórias
do glorioso corpo do homem quando ela o vira usando nada além de uma toalha.
Mitch se levantou, esfregou uma mão na outra, então pôs as mãos nos quadris. Que
visão magnífica! Como ele era lindo!

— Você quer que eu a acenda? — disse ele, a voz baixa e sugestiva.

— Acender o quê? — perguntou ela, distraída com o visual daquele corpo.

Ele estreitou os olhos, sem compreender bem. Então indicou a lareira com um gesto de
cabeça.
— O fogo.
Ela corou, sem graça.

— Não vamos desperdiçar lenha.

— Certo. — Ele comprimiu os lábios. — Acho que vou para meu quarto ler.

Elaine assentiu.

— Tenho... algumas coisas para fazer. — Ela apontou o closet como se as coisas que

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tinha a fazer estivessem ali. Na verdade, o cérebro estava tão nublado que mal
conseguia raciocinar.

— Certo. — Mitch caminhou até a porta.

Elaine enfiou as mãos nos bolsos e se dirigiu ao closet. O quarto caiu na escuridão.
Ela esbarrou em algo e caiu no chão, de costas. E mal conseguia respirar.
— Elaine? — chamou Mitch, com voz rouca.
Ela lutou para respirar, porém, sem sucesso.
— Elaine — repetiu Mitch a voz mais perto do chão. — Você está bem?
Ela tentou responder, mas não conseguiu. De repente sentiu-se sendo levantada do
chão. Odiando o fato de não poder protestar, ela bateu no peito dele.

— Não... — tentou ela, através da dor.

— Cale-se — comandou Mitch baixinho. — Você é a mulher mais teimosa que já vi!

— Solte... solte-me! — gritou ela, a ordem um pouco mais que um leve sussurro.

— Quando eu encontrar a cama.

O aroma dele era maravilhoso e invadiu os sentidos de Elaine. Ela teve que lutar contra
a louca necessidade de aderir-se a ele.

— Eu que sou teimosa? — murmurou ela. Com as mãos pressionadas contra o tórax de
Mitch, o fato que ele parecia sólido e viril não escapou ao conhecimento dela.
Mordendo o lábio, cruzou os braços e tentou pensar em coisas menos inflamáveis.

— Certo. Então somos os dois teimosos — concluiu ele, colocando-a na cama. — De


nada, Elaine — disse ele de mau humor. — Foi um prazer.
O som dos passos se afastando e a batida da porta do quarto a avisaram de que ele
havia partido.
Tentando sentir-se feliz com aquilo, Elaine se deitou no escuro, sozinha.

CAPITULO VIII

O vento urgia em volta da casa como fantasmas assustadores. A neve batia nas
vidraças produzindo um alto ruído. O mundo lá fora parecia estar em guerra contra a
majestosa mansão, tentando transformá-la em pó.
Mitch doía-se pela velha mansão enquanto a tempestade a castigava por todos os

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ângulos. Por dias, carregara uma derrota emocional e aquilo atingira um preço alto.
Sentia-se despedaçado e ferido.
O fogo estalava espalhando calor pelo quarto. Ainda assim, o grande casarão frio não
podia derrotar o pérfido inverno que arrebatava o calor através das frestas.
Mitch levantou-se nas sombras.
Claire estava deitada bem perto da lareira, enrolada num grosso cobertor sobre um
colchonete e fitando o fogo. O colchão de Mitch estava disposto a certa distância.
Ele caminhou até perto da porta do quarto na relativa escuridão. Não tinha nenhuma
pressa de se acomodar. Não estava nem com sono nem com frio.
Decidiu dar uma olhada para a silhueta de Elaine sob os cobertores. Como estava
imóvel, ele concluiu que deveria ter adormecido. Ele apenas desejou que o sono o
dominasse em breve.
Mitch estava tenso, sentindo-se como um vulcão prestes a entrar em erupção. Passara
o dia cortando lenha num esforço de aliviar a tensão. Depois daquela dança... do
beijo... sentira que estava à beira de uma explosão.
Por que Elaine Stuben o deixava naquele estado? O que havia nela que lhe despertava
velhos medos, velhas inseguranças?
Ele achara que já estava imune. Através dos anos, tornara-se um homem de negócios
de pulso forte, controlador e até mesmo rude. Mas de repente, na semana anterior,
toda vez que entrava no quarto ocupado pela intempestiva ruiva, o estômago contraía-
se e ele se sentia inquieto, vulnerável aos sentimentos e desejos, que temia que
podiam torná-lo um tolo sem lógica.
— Oh, que tola!
O murmúrio inesperado de Claire o pegou de surpresa. Mitch virou-se e a viu sentando-
se no colchonete. Ela bocejou e vestiu as botas.

— Algum problema? — perguntou ele.

— Esqueci-me de ligar para Ralphie Goff para confirmar nosso jantar da próxima
semana.

— Está um pouco tarde — disse Mitch, caminhando na direção dela e estendendo-lhe a


mão.

— Obrigada. — Levantando-se, ela comentou: — Oh, Ralphie deve estar acordado. Ele
odeia tempestades. — Ela deu outro bocejo. — Deve estar lendo à luz de velas. Além
disso, ele é muito sensível. Não quero que pense que eu esqueci.

— Quer meu celular emprestado? — Ele tirou o telefone do bolso da camisa e o


estendeu a Claire.
Projeto Revisoras 67
Renee Roszel - Um assunto pessoal
(Mom Intimos 143)

— Não, querido. Muito obrigada. Vou usar o telefone da cozinha. Ralphie vai querer
ficar conversando muito tempo, se bem o conheço.

— Você não passará frio na cozinha?

— Lembre-se de que o fogão é a gás. Acenderei o forno e ficarei tão cozida quanto
uma torta. Mas de qualquer forma, obrigada pela preocupação. — Ela iluminou na
direção do colchonete dele. — Agora veja se dorme um pouco. Elaine e eu também
somos capazes de alimentar o fogo. Não há necessidade de você ficar de guarda a
noite inteira.
Mitch assentiu, desejando desesperadamente que conseguisse dormir.
— Certo. Farei isso — mentiu ele enquanto Claire saía do quarto e fechava a porta.
Ele ficou ali parado por alguns instantes, olhos fixos na porta. Não queria se virar e
observar Elaine dormindo, pois sabia que a desejaria.
De repente ouviu um gemido delicado e, contra vontade, voltou a atenção para Elaine.
Ele franziu o cenho, incapaz de manter o olhar afastado enquanto ela se mexia.
Claramente perturbada por um sonho, se virou de lado, deixando o rosto à mostra.
Tinha um rosto adoravelmente oval, lábios cheios e sensuais. Os cabelos vermelhos
cintilavam como fios de ouro sob a luz do fogo quando balançava a cabeça para um
lado e para outro. Os lábios se entreabriram, movendo-se, mas nenhum som saiu.
Ela pusera um pijama quente para ajudar a se esquentar, mas aparentemente não
estava sendo o suficiente para abrandar o frio, uma vez que se encolheu e abraçou a si
mesma. O vento frígido que entrava através das frestas estava roubando o calor do
corpo de Elaine.
Mitch foi até a cama.
O delicioso aroma dela invadiu-lhe os sentidos, provocando-o, mas ele manteve as
emoções sob controle.
Inclinando-se sobre a cama, pegou as pontas dos cobertores, preparando-se para
cobri-la.
Antes que pudesse fazê-lo, ela suspirou alto. De repente, braços envolveram-lhe o
pescoço, puxando-o. Ele desviou o olhar dos cobertores e a fitou. Os olhos dela
permaneciam fechados, os lábios levemente entreabertos, provocantes. No próximo
instante, a boca encontrou a dele num beijo sonolento e sonhador.
Ele sabia que Elaine estava dormindo, que estava sonhando, inconsciente sobre quem
estava beijando. Então perguntou-se com quem ela estaria sonhando e sentiu uma
ponta de inveja. Infelizmente, aquilo não fez o beijo menos excitante. A resposta de
Mitch foi imediata. Um forte calor queimou sua garganta, correu através das veias,
aquecendo todo seu sangue.
Projeto Revisoras 68
Renee Roszel - Um assunto pessoal
(Mom Intimos 143)

Os dedos dela deslizaram pelas suas costas, puxando-o para si. Mitch perdeu o fôlego.
Independente de sua luta racional, o desejo de resistir desapareceu. Perdendo-se no
desejo intenso, ele trilhou os lábios dela com a boca e a língua.
O beijo foi perfeito, e Mitch saboreou cada segundo.
Um leve choramingar, como o som de um gatinho perdido, registrou-se na sua
consciência. Ele sentiu uma fraca resistência dos braços que, segundos antes, o
agarraram. Lábios que haviam sido docemente submissos tornaram-se rígidos e Mitch
soube que o encanto fora quebrado.
Com a mesma rapidez que o beijo começara, estava acabado.
Elaine acordou, abalada por descobrir que seu fantasma era real. Sonhara que Mitch
viera delicadamente a ela durante a noite, aquecendo-a contra a tempestade gelada e
contra a devastação que se tornara sua vida. Pouco importava que ele era o homem
que arrebatara as últimas migalhas de seu meio de vida, ou que era um chantagista.
Nos sonhos, havia chegado gentilmente e ela o tomara nos braços, agradecida, feliz e
sem restrição.
Quando despertou completamente, deu-se conta de que Mitchell Rath a estava
realmente beijando.
Chocada pela atitude de Mitch de ter se aproveitado dela enquanto dormia, e
horrorizada pelo próprio sonho, explodiu sem fôlego:
— Afaste-se de mim!
Ele se afastou devagar. Elaine pensou ouvir um gemido baixo, como se o movimento
fosse doloroso.

— O que você pensa que está fazendo? — gritou ela, a incredulidade transformando-se
em raiva.

— Achei que você estava com frio.

— Frio! — ecoou ela com cinismo. — Então você decidiu que sabia exatamente como
me aquecer?

— Sim, claro — zombou ele. — Atacar mulheres é um passatempo meu. — Ele sorriu de
modo sarcástico.
Endireitando o corpo, Mitch virou-se e andou até a lareira, a fim de depositar uma tora
ali, antes que ela pudesse se mover. Elaine viu os cobertores no pé da cama. Ele
poderia ter se aproximado, planejando cobri-la quando ela...
Elaine fechou os olhos, rezando para que aquilo não fosse verdade. Não poderia tê-lo
agarrado.
Ela observou Mitch assoprar a lenha para atiçar o fogo. Chamas dançaram e reluziram.

Projeto Revisoras 69
Renee Roszel - Um assunto pessoal
(Mom Intimos 143)

O perfil dele era bonito demais naquela luz amarelada. Com um tremor de frio, agarrou
nos cobertores que tinham sido jogados de lado. Será que ela os empurrara durante o
sonho perturbador? Ou fora ele que os colocara de lado em seu desejo sexual?
Com um gemido baixinho, escondeu ó rosto nas mãos, envergonhada. Após um
minuto, quando não ouvia nada, exceto o barulho da neve na vidraça, espreitou através
dos dedos. Mitch não estava mais ao pé da lareira. Rapidamente ela examinou o
quarto. Ele estava do outro lado, deitado na profunda escuridão, enrolado nos
cobertores.
Teve vontade de chamá-lo, de desculpar-se, de explicar que estivera sonhando e que o
beijo que ela o forçara não significava nada. Mas não conseguia falar. Não apenas
porque sentia que Mitch preferia esquecer o incidente, mas porque não gostava de
mentir. Infelizmente, o beijo significara algo. Na verdade, significara muito.
Pelo breve instante, depois que acordara e antes de chocar-se com a realidade, sentira
uma estranha e doce sensação de estar sendo protegida. Era o mesmo sentimento que
experimentara quando Mitch havia interferido na horrível cena de Paul Stuben no baile.
Vividamente, recordou como ele lidara com a situação, e com que força, classe e
cavalheirismo. Aquela sensação calorosa, confusa, principalmente por aquele homem, a
assustou. Era íntimo demais, sensual demais, como os beijos dele. Meu Deus! Não
aprendera a lição com Guy, o controlador arrogante, dominador e cruel?
Mitchell Rath podia dar uma impressão de que era protetor. Mas na verdade, era um
lobo solitário, um manipulador de pessoas. Sumiria do mapa no segundo que
alcançasse seu objetivo, o império Stuben. Ela não deveria tomar nenhuma atitude to-
la... como por exemplo, perder seu coração.
Segunda-feira de manhã, os já prometidos sessenta centímetros de neve estavam no
jardim. Ao meio-dia, a energia elétrica retornou. Os três saíram do abrigo e Elaine podia
dizer que a única pessoa que tivera uma noite repousante fora sua tia.
Claire descascou cenouras para seu famoso bolo de carne. Mitch e Elaine a ajudaram,
mas nenhum deles falava nada enquanto se movimentavam pela cozinha. Não
poderiam ir a lugar nenhum, uma vez que as estradas estavam interditadas devido à
neve. Sendo assim, Elaine teria que aturar a perturbadora presença de Mitch a seu
lado.

— Quem está fatiando os pimentões? — perguntou Claire.

— Nós dois já fatiamos — respondeu Elaine. — E também as cebolas.

— Ótimo — comentou Claire, virando-se para pegar os vegetais cortados e


adicionando-os à carne moída, misturando com as mãos.
Elaine foi pegar uma batata para descascar e acabou pegando na mão de Mitch
enquanto ele fazia a mesma coisa.
Projeto Revisoras 70
Renee Roszel - Um assunto pessoal
(Mom Intimos 143)

— Estou descascando as batatas — murmurou ela sem levantar os olhos, puxando a


mão da dele.

— Se nós dois descascarmos, irá mais rápido.

Elaine optou por não responder. Apenas esperou que Mitch pegasse a batata e então
escolheu outra para si. Eles estavam de pé, muito perto, enquanto trabalhavam, e seria
infantil demais sair andando com a batata e ir descascá-la do outro lado da cozinha. Ela
era adulta. Podia lidar com tal proximidade.
Claire deu forma na carne e, colocando-a numa assadeira, levou-a ao forno. Então
soltou a maçaneta do fogão e anunciou:
— Vou organizar os retalhos de tecido para meu próximo projeto de costura. — Ela
lavou as mãos na pia. — Vocês dois arrumem o resto das coisas por aqui, certo?
Avisem-me quando o almoço estiver pronto.
Agoniada, Elaine viu a tia partir. O ambiente caiu em profundo silêncio. Ela se deu
conta de que nenhum deles acabara de descascar sua batata. Determinada a agir com
naturalidade e não deixá-lo perceber quão nervosa estava, concentrou-se na batata
como se sua vida dependesse dela.
Mitch não. Ela podia ver as mãos dele com o canto dos olhos. Com a batata em uma
mão e uma faca na outra, ele estava imóvel, cotovelos apoiados no topo do balcão
metálico.
De repente Mitch pigarreou e Elaine derrubou a batata e a faca. Então inclinou-se sobre
o balcão para recolher a faca que deslizara na superfície de metal.
— Olhe, Elaine — começou ele, calmamente.
Ela sabia que aquilo viria. Desde que o acusara de querer aquecê-la na noite anterior.
Tinha certeza de que ele teria algo a dizer. Mas recusava-se a permitir a humilhação,
assumindo que se enganara acusando-o de tê-la atacado.

— Você estava...

— Não diga nada. Sei que foi culpa minha. Sei que fui eu que o beijei. Certo, admito.
Beijei você. — Ela abaixou a faca, com raiva de si mesma pelo lapso, mesmo que
dormindo, e com raiva dele por obrigá-la a dizer aquilo. — Mas eu não sabia o que
estava fazendo. Aquilo não significou nada. Então, qualquer coisa que você esteja
pensando, pare imediatamente. Entendeu? — Ela levantou o queixo, de modo
desafiador.
Mitch a encarou, a fisionomia séria. Não falou uma única palavra e Elaine ficou cada vez
mais ansiosa.
— Não... na verdade...

Projeto Revisoras 71
Renee Roszel - Um assunto pessoal
(Mom Intimos 143)

Ela perdeu a fala e tentou de novo:

— Honestamente, Mitch...

— Sei que você estava dormindo, Elaine — interrompeu ele, a voz calma, porém
determinada. — Sei que você não sabia a quem estava beijando. E sei que isso não
significou nada. — Ele colocou a batata na bacia e largou a faca de lado. — Eu apenas
ia lhe dizer que precisava dar uns telefonemas. Não estou com fome. — Ele andou até
a pia e lavou as mãos. Então a fitou novamente. — Eu ia lhe dizer que você tem sido
uma grande ajuda para mim nesses últimos dias. E devo-lhe algum tempo de folga. Nós
começaremos amanhã de novo. — Ele secou as mãos e saiu da cozinha.
O senso de tempo de Elaine desapareceu. Não tinha a menor idéia de quanto tempo
ficara parada ali, olhando para a porta por onde ele se fora. Não se lembrava de ter
comido o bolo de carne com purê de batata ou de ter conversado com a tia. O dia se
arrastou com Elaine inconsciente de tudo, exceto uma neblina sombria que
acompanhava cada passo apático seu.
Mitch ocupou o tempo em benefício próprio, falando ao telefone com Marlon Breen, que
prometeu discutir o assunto com os outros membros do quadro de diretores da Stuben.
Pouco tempo depois; alguns deles ligaram para Mitch, e após ouvirem sua oferta de
transferência de administração, asseguraram-no que o afiançariam naquele projeto,
enquanto ainda tinham alguma coisa para negociar, em vez de esperar que a situação
se agravasse e Paul levasse a empresa a um desastre financeiro total. De modo geral,
aquela tarde de nevasca fora mais bem-sucedida do que se ele tivesse ficado cara a
cara com sua presa.
Faltava convencer, apenas mais poucos membros do conselho para ter a maioria dos
votos.
Aquela noite, enquanto tomava banho, tentando relaxar na água quente, refletiu sobre
o porquê que não se sentia limpo ultimamente: Seria a água de Chicago? Apenas
desejava que fosse assim tão simples. Porém tinha o pressentimento de que aquela
sensação tinha a ver com o lado afetivo de Elaine Stuben. Ela e a tia e o jeito bonito de
se importar e de perdoar as pessoas lembravam-no de uma infância que preferia
esquecer. De seus pais, duas pessoas de coração aberto, que gastavam cada centavo
que recebiam em caridade.
Quando a doença da mãe de Mitch fora diagnosticada, não havia nenhum seguro de
vida e nenhuma poupança, nem para tentar a cura e nem mesmo para abrandar-lhe a
dor. Aos doze anos, Mitch jurara no túmulo da mãe que não acabaria pobre como seus
pais, que, por terem decidido dedicar suas vidas à caridade, acabaram levando uma
vida difícil e cheia de sofrimento.
Mitch aprendera desde então a desprezar os corações sangrentos do mundo. Para ele,

Projeto Revisoras 72
Renee Roszel - Um assunto pessoal
(Mom Intimos 143)

o sentimentalismo e a misericórdia eram repreensíveis. Sabia que até mesmo hoje o


dinheiro que enviava ao pai ia direto para os necessitados. A velha tolice.
Sentimentalismo era a aflição da fraqueza. Mitch passara a vida tentando aprender a
não se entregar a emoções, as quais Elaine parecia ter o poder de despertar-lhe.
Ainda assim, tornar-se cúmplice dos membros do quadro de diretores para trair Paul o
fazia sentir uma certa culpa. Por quê? Aquela tomada de administração era
perfeitamente legal. Afinal, ele não estava fazendo um favor à companhia Stuben e a
seus acionistas, resgatando o que ainda sobrara para ser salvo? Sob seu domínio, a
empresa ficaria com um quarto de suas posses, o que era melhor que nada. Talvez ele
fosse um predador, mas também era o mágico que transformava destroços em ouro.
Porém, predador ou mágico, por que se sentia culpado?
— Esqueça-me, Elaine, você e seus lindos olhos verdes — murmurou ele através do
intenso vapor da água quente.
Qualquer afeição que ela pudesse vir a ter por ele desapareceria quando descobrisse
que ele nunca tivera nenhuma intenção de ter o consentimento de Paul para poder
comprar a empresa. Que a usara com o único intuito de aproximar-se dos apavorados
membros da diretoria.
— E também não vou ligar para seu sofrimento, Paul Stuben — explodiu ele. —
Abomino vocês dois por me fazerem sentir sua dor!

CAPITULO IX

Habitantes de Chicago, acostumados a longos e rígidos invernos, seguiam com suas


vidas, mesmo com a neve em abundância. E Mitch segurava Elaine em seu relutante
trabalho forçado. Em cada saída planejada para encontrar Paul Stuben, a deterioração
mental do sogro de Elaine era pior e mais pronunciada.
Finalmente, no domingo seguinte, numa linda exibição de arte, Mitch fora encontrar o
último dos diretores do qual necessitava o apoio. De repente Paul apareceu alcoolizado,
tropeçou na mesa de aperitivos, lançando ao chão todo tipo de canapés e caindo ali,
desmaiado.
Do canto da galeria onde Mitch estava expondo seu plano para o último membro da
diretoria que precisava convencer, eles assistiram em choque o desenrolar do
espetáculo. A queda de Paul não poderia ter vindo em melhor hora, uma vez que o
homem a seu lado estava ainda resistente. Com a queda de Paul, o indeciso membro
da diretoria meneou a cabeça, suspirou resignado e concordou com os termos de Mitch.

Projeto Revisoras 73
Renee Roszel - Um assunto pessoal
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Mitch observou de longe, surpreso por ver Elaine correr para o lado do sogro e
ajoelhar-se a seu lado. Ela estava usando outra de suas criações, um vestido prateado
de corte reto. Contara-lhe que o havia confeccionado de um velho tecido de cortina.
Nela, o vestido não parecia nada velho. Por mais que ele relutasse, Elaine Stuben era a
obra de arte mais espetacular naquela galeria.
Ele assistiu quando ela apoiou a cabeça de Paul no colo e passou-lhe a mão na testa.
Então levantou os olhos e pediu que alguém chamasse uma ambulância.
Mitch a observou, tão cuidadosa, dando tanto de si, destemida aos que a observavam.
Paul Stuben não fizera o menor segredo de seu ódio por ela. Humilhara-a mais do que
uma vez em público e ainda assim Elaine era a única pessoa no salão que correra para
ajudá-lo. Todos os outros no recinto apenas apreciavam a cena, curiosos.
Mitch experimentou um súbito desprezo pela apatia daquelas pessoas sem atitude, que
apenas espreitavam. Quando correu para ajudar Elaine, repreendeu a si mesmo por
não ter a mesma atitude despreocupada de todos os outros. Rath! Mantenha-se longe
de tudo isso!, avisou a si mesmo enquanto tirava o paletó e cobria Paul Stuben. Você
está se perdendo de sua determinação!
Elaine levantou os olhos para alguém que se ajoelhara a seu lado, e se surpreendeu ao
perceber que era Mitch. Desde que tinham entrado na galeria, estivera aflita,
observando Paul andar de modo vacilante. Quando seu sogro caíra, ficara seriamente
preocupada que ele tivesse se machucado.
Controlando uma lágrima que insistia em descer, ela sorriu para Mitch.
— Obrigada.
Ele franziu o cenho, os olhos voltando-se para o homem.

— Ele está pálido — comentou, nervoso. — Não está respirando bem. — Ele tomou o
pulso de Paul. — Instável.

— Oh, meu Deus... — Elaine olhou ao redor, com desgosto. — Por que ninguém faz
nada?

— Estou ouvindo uma sirene — disse Mitch, o olhar fixo nela.

Elaine se perguntou sobre a raiva dele, mas não teve tempo para analisar aquilo.

— A ajuda está a caminho.

— Obrigada, Senhor! — Ela suspirou, pousando a mão na testa de Paul. Ele estava
suando muito. — Eu estava com medo que algo assim pudesse acontecer. — Ela olhou
para Mitch. — Pelo menos no hospital ele será obrigado a comer... e descansar um
pouco.
Mitch abriu a boca para falar, mas sua atenção foi desviada para algo às costas dela.

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— Chegaram — anunciou ele, levantando-se. Ele estendeu a mão para Elaine. — Vamos
deixar o caminho livre para eles.
Algumas coisas eram mais importantes do que suas desavenças com Mitch. Ela aceitou
a mão dele, consciente de que aquela era a maneira mais rápida de sair da frente da
equipe de emergência. Além do mais, uma pequena voz sussurrou dentro de sua
cabeça, ele foi a única pessoa que se uniu a você ao lado de Paul!
Elaine experimentou uma onda de ternura e compaixão por Mitch. O homem que viera
a Chicago para fazer Paul Stuben concordar em vender-lhe sua empresa, mal tivera a
chance de se encontrar com o homem, muito menos de convencê-lo a repassar o
comando de seu falido império Stuben.
Ela ficou ao lado dele enquanto os para médicos levavam Paul na maca.

— Eu gostaria de ir até o hospital — declarou ela. — Vou pegar um táxi.

— Não sei por que quer ir, mas levo você.

Agradecida de coração, ela pegou a mão de Mitch e a apertou. O choque que leu nos
olhos dele a fez sorrir.
— Você é uma fraude, sr. Rath — sussurrou ela. — Você pode ser amável. E se pode
contar com você quando... quando as coisas vão mal.
Ele lhe lançou um olhar de perdão.
— Não confunda uma carona até o hospital com caráter — replicou ele.
Ela meneou a cabeça, incapaz de manter o sorriso.
— Você é assustador — provocou ela, puxando-o pela mão. — Vamos.
Após horas no hospital, esperando o resultado dos exames, Elaine finalmente foi
informada de que o sogro se recuperaria, pelo menos daquela vez.
Exausta, porém agradecida que Paul estava em segurança por hora, Elaine apoiou o
cotovelo no balcão da cozinha, pegando um pedaço de frango frio com salada murcha.
Consultou o relógio. Duas horas da manhã. Percebeu um movimento e, quando virou-
se, viu Mitch se levantar e ir se servir de mais um café.
— Como você pode tomar café uma hora dessas? — perguntou ela. — Não vai
conseguir dormir.
Ele havia tirado a gravata e os dois primeiros botões da camisa estavam abertos,
dando-lhe um ar sexy e uma elegância despojada, de alguma maneira, perfeita para o
meio da noite. Ele voltou com a caneca.
— Sou imune ao sono.
Com expressão séria, ele se sentou à frente dela no balcão de metal. Elaine deixou o

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garfo de lado e apoiou o queixo na mão, sorrindo.


— Se você é imune ao sono do mesmo jeito que é imune a um comportamento nobre,
então deveria dormir muito bem esta noite.
Mitch não respondeu. Abaixou a cabeça, concentrando-se na xícara de café.
Elaine perguntou-se por que ele não conseguia encará-la. Estaria envergonhado de ter
ajudado Paul, acompanhado-a até o hospital e ficado a seu lado? Ela meneou a cabeça,
impressionada com o fato de que ele parecia ficar triste cada vez que ela o admirava.
Por que não gostava de ser admirado e insistia em afirmar que não tinha caráter?
— Você é um homem estranho — disse ela, estreitando os olhos.
Mitch pôs a caneca de lado.

— Não tente me analisar. Não sou tão complicado assim.

— Pois eu o acho extremamente complicado. Você luta contra seu lado bom, contra
suas boas emoções. Por que veste essa máscara dura e insensível quando você não é
assim? — perguntou ela. — Você sente as coisas profundamente. Em algum ponto de
sua vida, você deve ter sido dolorosamente machucado e tem medo de ser ferido
novamente. Então veste essa máscara de homem mau. Mas isso é falso.
Ele a olhou seriamente.
— Você está vendo o que quer ver, e não quem eu sou. — A expressão dele era hostil.
— Não me admire. Você vai se arrepender disso.
Já era tarde e Elaine estava cansada. O olhar de Mitch não a assustou. Agradecida a ele
pela ajuda e amável paciência e aliviada porque õ estado do sogro não era grave, ela
abaixou as defesas, total e livremente.
Aquela noite, por alguma razão bizarra, a dor no coração que ela tinha vivenciado por
tanto tempo, desaparecera. Sentia calma e ate mesmo paz. Pegou-se admirando
abertamente o homem sentado a sua frente. Embora ele a tivesse avisado para não
fazer aquilo.
Poucas semanas antes, o odiara. O homem que levara tudo que ela conseguira
trabalhando arduamente. Mas não hoje. Hoje gostava dele, admirava-o. Não o
entendia, mas sabia que tinha um bom caráter. De repente sentiu um involuntário tre-
mor de euforia, aceitando de uma vez por todas o que vinha escondendo de si mesma.
Estava apaixonada por Mitchell Rath.
Não pelo Mitchell Rath que ele mostrava ao mundo. Amava o homem que estava por
detrás daquela máscara. Sabia que ali havia um ser humano especial, caso ele se
permitisse abandonar o medo. Elaine queria ajudá-lo a fazer isso, mostrar-lhe que
bondade não era um defeito a ser afastado.

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Sentindo-se feliz e renovada, levantou-se do banco e pôs-se à frente de Mitch. Pegando


o rosto dele nas mãos, ela o beijou, dando liberdade às emoções.
Com um misto de excitação e medo, Mitch pressentiu o grande significado do beijo de
Elaine. Sabia que aquilo era um grande presente que ela estava lhe concedendo, um
presente que ele nem mesmo esperara possuir. Passara noites virando-se na cama,
tentando afastar as visões daquela mulher doce e sexy que lhe tirava o sono.
Agora, ali estava sua fantasia se realizando. A ardente sensualidade no beijo de Elaine
era mais penetrante do que qualquer coisa que experimentara na vida real, ou
conjurara em seus sonhos mais eróticos. O toque dos lábios, as mãos, o roçar do seio
no seu ombro... tudo se tornando quase insuportável.
O sangue lhe subiu à cabeça e sua luta moral para não tocá-la fisicamente,
desapareceu.
Em algum lugar da consciência, sabia que a estava pegando no colo e carregando-a
pela escada, para seu quarto. Tudo que conseguia dizer a si mesmo era que ela era um
bônus, um troféu adicional de sua iminente conquista profissional.
Uma vez no quarto de Mitch, Elaine o surpreendeu, tomando a liderança. Tirou a
camisa dele e, abrindo o zíper da calça, deslizou-a pelas pernas musculosas,
inconsciente de que era um mero prêmio para ele. Ela sorriu e docemente o seduziu
enquanto se liberava das próprias roupas.
Quando desvendou as lindas curvas, Mitch ficou excitado como nunca se lembrava ter
ficado na vida. Elaine o pegou pela mão, conduziu-o para o chuveiro e abriu a torneira.
A corrente de água lhe roubou os cachos e fez seus cabelos balançarem sobre os
ombros e a pele alva dos seios.
Mitch gemeu deliciado quando ela pegou o sabonete e começou a deslizá-lo no peito
dele, delicadamente, acariciando, conquistando o guerreiro e despertando o amante
que pretendia que ele fosse. Nos olhos de Elaine, ele via verdade, confiança, e aquilo o
fez desejar ser tudo que ela pensava que ele era.
A atitude afetiva e sensual dela era como uma droga, inebriando-o para um estado de
euforia sem obstáculos.
Ele a puxou para si, murmurando coisas que nem mesmo entendia, coisas sobre amor e
compromisso e como jamais trairia a confiança dela. Mentiras, todas belas, mas que ele
queria que fossem verdades para sempre. Queria ser o homem que via nós olhos de
Elaine. Queria fazer amor com ela, para avisá-la que não havia nenhuma outra mulher
no mundo, exceto ela.
Abraçados, ele gentilmente esfregou as costas de Elaine, experimentando uma
excitação violenta quando ela deu-lhe um beijo macio no pescoço.
Mitch tremeu quando ela pressionou o corpo contra o seu. A sensação foi tão
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maravilhosa que ele fechou os olhos, vendo estrelas. Mal podia respirar. Sentia um
desejo ardente, uma necessidade premente de outro beijo. Então a beijou, devagar,
saboreando a doçura daqueles lábios. Quando aprofundou o beijo, todo seu corpo doeu
de prazer.
— Preciso fazer amor com você — sussurrou ele, falando a
mais agonizante verdade de sua vida.
Ela respondeu com uma série de beijos lentos que o levaram Perto do descontrole total.
— Eu amo você, Mitch — declarou ela, tão baixinho que mal Podia ser ouvida.
A frase, embora falada em baixo tom, soou clara enquanto ela a selava com um beijo
abrasador.
Eu amo você, Mitch.
As palavras ecoaram na mente de Mitch e ele disse a si mesmo que aquilo eram apenas
palavras. Já não sussurrara aquelas mesmas palavras com promessas similares? Não
fora ele o primeiro a jurar fidelidade e eternidade? Não eram elas as mesmas mentiras
que os amantes impetuosos sussurravam no mundo todo, a cada hora do dia, para ter
uma noite saborosa?
Uma dor surgiu no coração dele e a euforia começou a se dissipar. Claro que eram
apenas palavras... para ele. Mas para pessoas como Elaine, as palavras eu amo você,
eram uma declaração, um pacto, uma promessa... sagrada.
O que ele estava fazendo? O que prometera no minuto que a conhecera suja de
fuligem na porta de entrada? Que usaria Elaine para ter acesso ao meio social de Paul
Stuben. Mas que não iria além disso! Não a usaria fisicamente. E agora, de repente,
estava prestes a fazer justamente aquilo.
Elaine amava o homem que gostaria que ele fosse, mas que na verdade, não era. Mas
a ilusão dela não era uma desculpa para que se tornasse um bastardo imoral. Deixe-a
com alguma coisa, Rath, disse a si mesmo. Depois da votação de amanhã, ela se
decepcionará terrivelmente com você. Deixe-a com pelo menos seu auto-respeito!
Mitch deu um beijo no ombro de Elaine num silencioso e arrependido adeus.
Deslizando as mãos pelos braços dela, afastou-a bruscamente. Sofrendo e fora de si,
abriu a porta do box.

— Vá — demandou ele, liberando-a, antes que seu desejo o impedisse de tomar a


atitude certa.

— O quê? — Ela ficou parada ali, fitando-o, confusa.

Era impossível lidar com aquela visão. Virando-se, ele fechou o chuveiro, a fim de
ganhar momento para retomar o controle. Não poderia acusá-la pelo estado estupefato.

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Renee Roszel - Um assunto pessoal
(Mom Intimos 143)

Afinal, não lhe dera nenhuma razão para duvidar da sinceridade de seus votos de amor.
Mas não podia encará-la porque a culpa estava lhe dilacerando a alma.
— Eu... eu não entendo — sussurrou ela, tocando a mão dele.
Com um gemido gutural, ele se afastou bruscamente.
— Amanhã você entenderá. — Ele saiu do box.
Puxando a toalha do cabide, ele a estendeu para ela.
— Cubra-se e vá — disse ele asperamente, precisando que ela o odiasse. Elaine nunca
saberia que aquela atitude era a maior gentileza que ele poderia lhe oferecer. — Eu
disse, vá — repetiu ele, friamente. — Sua companhia foi ótima até agora, mas está
tarde e tenho uma reunião amanhã cedo.
Quando Elaine apenas continuou parada ali, fitando-o com expressão frustrada, ele a
envolveu na toalha.
— Saia antes que eu a ensine o que acontece com moças de coração grande que
tentam domar um lobo mau.
Virando-se, pegou outra toalha e a enrolou na própria cintura. Ouviu um gemido de
lamúria e o som de passos molhados saindo de seu banheiro.
A infelicidade o dominou. Mitch se sentiu desolado e destruído. Aquele olhar de Elaine,
rejeitada e cruelmente ridicularizada, o acompanharia até o resto de seus dias.
Engolindo um nó na garganta, ele apoiou às palmas no azulejo gelado da parede e se
inclinou para frente. Sentia-se frio e sujo.
Felizmente, depois da votação do dia seguinte, teria alcançado seu objetivo. Estaria
livre daquela cidade... e de um problemático par de olhos verdes.

CAPÍTULO X

As dez da manhã, com olheiras e exausta por não ter dormido, Elaine espreitou a
cozinha. Não queria ver Mitch... nunca mais. Após a rejeição dele na noite anterior, não
poderia encará-lo.
Eu amo você, Mitch! Ela ficou nauseada quando as palavras voltaram à mente para lhe
assombrar. O homem devia ter achado aquela confissão hilariante.
O que a fizera falar tal absurdo? Gostava tanto de Mitchell Rath quanto gostava de
perder sua empresa! Ela contraiu os músculos involuntariamente. Carregaria as
profundas cicatrizes emocionais daquele ato por um longo tempo.

Projeto Revisoras 79
Renee Roszel - Um assunto pessoal
(Mom Intimos 143)

Lembrou-se de como ele lhe sussurrara palavras de amor e, de repente, a empurrara,


ainda tremendo de desejo em seus beijos doces.
O mundo chacoalho sob seus pés e ela teve que se agarrar na porta para não cair.
— Elaine?
Ela piscou, respirando fundo para manter o equilíbrio. Então seguiu o som da voz da tia
pelos arredores do balcão.

— Sim — respondeu ela sem fôlego.

— Entre. Por que você está se segurando na porta?

A visão clareou e Elaine percebeu que Claire tinha um convidado ruivinho de faces
sardentas. Ela fez uma análise rápida da cozinha, aliviada por ver que Mitch não estava
ali. Forçando as pernas a obedecer, andou até o balcão e sentou-se no banco alto.
— Bom dia — disse ela. Tentando ser agradável, sorriu para Harry. Quando o olhou e
viu que a boca dele estava lambuzada de panquecas de nozes, parou de respirar.
Aparentemente Mitch estivera lá mais cedo, preparando o café da manhã.
Controlando os nervos, pegou a aba do boné de Harry na nuca e a rodou até que
ficasse virada para frente. Ele detestava aquilo, ou pelo menos fazia um bom teatro
para fingir.
— Como vai, amigo?
Ele fez uma careta, rodopiou a aba para trás de novo e engoliu a panqueca.
— Bem. Mas você não me parece muito bem.
Elaine resistiu à vontade cair em prantos.

— É que ainda não tomei meu café — mentiu ela. — Você me serve uma xícara,
garotão?

— Claro. — Ele se levantou.

Ela se recostou na cadeira, destruída, mental e fisicamente.


— Você realmente não me parece bem, Elaine. — A tia se inclinou e tirou-lhe uma
mecha de cabelos que estava sobre um olho. — Foi dormir tarde ontem?
A questão de Claire continha uma suspeita que provocou uma ponta de arrependimento
e uma violenta dor no peito de Elaine. Se a tia soubesse o quão perto estava da
verdade, e quão enganada sobre o resultado, ficaria bem quietinha.

— Aqui está seu café — disse Harry.

— Obrigada, garotão. — Ela apertou a bochecha dele de leve e bebeu um gole do café.
Então voltou-se para a tia.

Projeto Revisoras 80
Renee Roszel - Um assunto pessoal
(Mom Intimos 143)

— Paul Stuben passou mal ontem na galeria. Mitch... e eu fomos para o hospital.

— Como ele está? — perguntou Claire, o tom reservado. Ela não fazia segredo sobre o
fato de que não apreciava muito o homem que causara tanta dor ao coração de sua
sobrinha.
Elaine balançou a cabeça com a lembrança.
— Ele não está bem, mas pelo menos no hospital vai conseguir descansar um pouco.
Estou feliz por isso.
Claire partiu um pedaço de panqueca, a expressão séria.
— Bem, não direi que amo o velho magnata, mas não desejo mal a ele. Se você está
feliz, eu fico feliz. — Ela fez uma pausa para comer um pedaço de panqueca. — Se quer
saber, acho que Paul Stuben é um sortudo por você ser uma mulher que sabe perdoar.
Qualquer outra nora em sua situação nem ao menos falaria com ele, quem dirá ir até o
hospital e preocupar-se! — Ela tocou a mão de Elaine. — Até que horas vocês dois
ficaram lá? Você está horrível!
Elaine removeu a mão e pegou a caneca, bebendo o café, a fim de ganhar tempo para
formular uma justificativa de sua aparência deprimida e cansada. A verdade estava fora
de questão, que Mitch lhe dera beijos fantásticos e apaixonados, dissera coisas bonitas
de fazer parar o coração e então se afastara de repente e a colocara para fora do
quarto quase com brutalidade.
Pousando a caneca, Elaine decidiu contar uma pequena parte e salvar-se de uma
discussão.
— Não sei exatamente que horas eram, mas não dormi muito.
Claire sorriu com cumplicidade.
— Tente não deixar que isso a aborreça demais. Paul está em boas mãos. — Ela a
olhou com carinho. — Não permita que isso a deixe doente.
Elaine tentou sorrir, mas fracassou. Desejava que a saúde do sogro fosse seu único
problema.

— E... — Ela vacilou, não querendo perguntar, mas não teve escolha: — Onde está
Mitch?

— Saiu para uma reunião. — Claire despejou melado sobre a panqueca. — Saiu por
volta de nove e meia.

— Sim, e me convidou para tomar café da manhã — contou Harry. — Pediu mais coisas
do supermercado. — O menino pareceu pensar em alguma coisa e largou o garfo,
levantando-se e enfiando uma mão no bolso. — Mitch me deu vinte dólares de gorjeta!
— Ele balançou a nota. — Vinte dólares inteiros!

Projeto Revisoras 81
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(Mom Intimos 143)

— Os olhos de Harry brilharam. Elaine sorriu alegremente, num esforço monumental.


Aquilo era bem a cara de Mitch. Pagar outras pessoas para fazer suas tarefas
inconvenientes.
— Ele falou que tinha uma reunião com os diretores da Stuben — contou Claire.
Elaine mal ouviu as palavras, mas após um minuto o significado delas a penetrou.

— Uma reunião com a diretoria da Stuben? — repetiu ela, confusa.

— Acho que foi isso que ele disse. — Claire deu de ombros.

— Tenho quase certeza. Há massa de panqueca para fritar, Elaine. Quer que eu
prepare para seu café?
Elaine assentiu absorta, um pressentimento alarmante invadindo-lhe a mente.

— Por que Mitch teria uma reunião com a diretoria? Paul está hospitalizado!

— Não sei. — Claire se levantou e caminhou até o fogão. — Eu nem sabia sobre Paul
quando ele saiu. — Ela deu uma risadinha. — Ele estava tão charmoso naquele terno! E
parecia estar num ótimo humor.
Ele estava charmoso e de ótimo humor.
Claire não poderia adivinhar o quanto aquele comentário machucaria o coração de
Elaine. Evidentemente, acena de amor descartada não custara ao sr. Rath nem meia
hora de seu sono. Estava lindo e feliz naquela manhã, enquanto ela mal podia
conversar sem um esforço supremo.
Apoiando a cabeça entre as mãos, ela massageou as têmporas com os dedos e respirou
profundamente.
— Lamento que você não esteja se sentindo bem, sra. Elaine — disse Harry com o
olhar triste.
Ela conseguiu um sorriso fraco, mas não pôde levantar a cabeça das mãos.
— Estou bem, meu anjo. De verdade — mentiu. — Apenas dormi pouco.
O menino franziu o nariz e a espreitou com olhos preocupados. Elaine teve a sensação
de que ele tentava ler sua mente.
— A propósito, você não está atrasado para a aula? Já passa das dez — comentou ela.
Ele abriu um enorme sorriso.
— Dia da reunião de professores!
Elaine assentiu e repreendeu-se involuntariamente. Estava entregue à tristeza.
Entregue! Como podia ter se permitido afundar tanto emocional quanto fisicamente?
Pelo quê? Ser rejeitada por um manipulador como Mitchell Rath não era uma

Projeto Revisoras 82
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(Mom Intimos 143)

catástrofe, tão grande assim! Se olhasse aquilo com lógica, era até mesmo uma
benção!
— Reunião de professores, hein? Bem, isso é uma boa notícia — disse ela com a maior
alegria que conseguia fingir. — Então... então a fita do Guerra nas Estrelas estará
ligada esta tarde?
Elaine não sabia dizer se Harry dissera sim ou não. A mente estava determinada a
lembraria a cada segundo das esplendorosas e trágicas carícias de Mitch, dos beijos, da
textura rígida e quente de seu corpo.
Uma dor que nunca sentira antes desabou sobre ela. Lutou para sufocar a ferida, e
prometeu a si mesma que não participaria de mais nada no jogo de Mitch. Estava
cansada de ser fantoche dele. Paul Stuben estava no hospital. Se Mitch qui sesse uma
reunião com seu sogro, ele que tentasse ir lá durante o horário de visitas.
Provavelmente, depois da noite anterior, ele não a forçaria a continuar com o plano. E
caso o fizesse, estava determinada a não ceder.
A resposta de Harry para o Guerra nas Estrelas, pelo que Elaine deduzira quando
conseguiu voltar à realidade, fora não. Ele queria aproveitar o feriado escolar para
ganhar mais dinheiro, entregando compras de supermercado. Com a gorjeta de vinte
dólares de Mitch, Harry orgulhosamente anunciou que tinha quase o suficiente para sua
nova bicicleta.
Então Elaine foi deixada sem a distração que desejava. Ajudar a tia a separar os tecidos
restantes deixou sua mente vagar. E conforme descobriu, uma mente era uma coisa
terrível quando deixada livre para vagar! Mais que uma vez, encontrou-se engasgando
alto com as memórias quentes deixadas pelo banho com Mitch.
— O que acontece com você, Elaine? — perguntou Claire depois do terceiro ou quarto
engasgo. — Você está se sentindo mal?
Elaine meneou a cabeça.

— Não é nada. Apenas uma azia.

— Bem, tome um sal de frutas. Toda vez que você engasga, perco a conta dos tecidos.

— Desculpe-me — murmurou Elaine, horrorizada consigo. Vagarosamente, levantou-se


do chão onde estava sentada, selecionando uma caixa de retalhos. — Eu vou... tomar
um antiácido.

— Tire uma soneca — sugeriu a tia, preocupada. — Posso fazer isso aqui sozinha.

Elaine assentiu e espalmou as linhas da calça jeans.


— Acho que é isso mesmo que vou fazer. — Ela sabia que não conseguiria dormir, mas
esperava que deitar-se com os olhos fechados a ajudasse a descansar.

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(Mom Intimos 143)

Saiu do quarto da tia e caminhou até o final do corredor. Quando passava pelo topo da
escadaria, alguma coisa muito grande apareceu no último degrau, bloqueando-lhe a
passagem.

— Oh! — Elaine deu um passo para trás. A consciência veio um segundo depois e o
coração pulsou forte na garganta. Não era apenas algo muito grande, mas também
especificamente másculo e nada bem-vindo. Mitchell Rath. A humilhação corou-lhe as
faces e ela evitou encará-lo.

— Com licença — murmurou ela, passando apressada.

— Elaine — chamou ele. — Estou indo embora esta tarde.


Ela não pretendera parar ali, mas o impacto da declaração de Mitch a tirou dos trilhos.
Ela se virou.
— Está? — Um que bom ficou parado na ponta da língua, mas a dor em sua alma
deteve a exclamação.
Contra vontade, ela o fitou. Aqueles olhos convincentes, as bonitas feições clássicas, a
postura dos ombros, os lindos cabelos negros.
Parado ali, maravilhosamente bem vestido num terno italiano azul-marinho e gravata
estampada, ele tinha o ar da autoridade, a atitude de um homem que comandava, e
conseguia imediata obediência. Perante aquilo, Elaine precisou de toda coragem para
permanecer ali, cabeça ereta, desafiante.
— Bem... ótimo — disse ela, finalmente. — Faça uma boa viagem.
O silêncio reinou por vários minutos antes que ele retomasse a conversa:
— Estou certo que farei. — O tom frio a cortou profunda mente. A expressão sarcástica
fez a testa de Elaine transpirar. Queria gritar e chorar, e socar o peito dele com força,
implorando-lhe amor.
O quê? Não... não! Não era aquilo que ela queria! Detestava Mitchell Rath com toda
sua alma e coração.
— A casa é sua. Você fez tudo o que eu lhe pedi — declarou ele.
Ela o encarou, incapaz de mascarar a perplexidade. Infeliz por ser relembrada, a
perplexidade tornou-se um olhar hostil.
— Não vou ficar com a casa. Ela pertence à família Stuben. Vou entregá-la a Paul.
Ele sorriu suavemente, mas os olhos estavam frios.
— Por que será que isso não me surpreende?
Elaine sentiu uma ponta de sarcasmo.
— Fortuna não significa uma única coisa. Algumas pessoas alcançam riqueza através de

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(Mom Intimos 143)

atos de generosidade. Por um momento, pensei que você compreendia isso, mas...
você nunca poderia entender esse tipo de fortuna!
Mitch deu um sorriso forçado.
— Entendo perfeitamente, mas não me comprometo com isso. Uma vez que não sei
bem como argumentar, por favor, aceite meus parabéns. — O sorriso dele se evaporou.
— Tenho certeza que a sua concepção de fortuna lhe sustentará por uma vida inteira
de dedicada privação.
Aquele desprezo feriu o ego de Elaine.
— Obrigada, sr. Rath. Espero que sua fortuna o faça tão feliz quanto você merece ser!
De repente a expressão de Mitch era de raiva, uma prova de que o tiro dela conseguira
atingir o alvo.
Ela lhe deu um segundo para responder. Quando ele não o fez, Elaine prosseguiu:
— Então você está indo embora sem o império Stuben? — perguntou de modo
arrogante, encorajada por descobrir que o Predador não pegava a presa todas as vezes
que lançava a teia sobre ela!
Mitch enfiou as mãos nos bolsos, os olhos negros sondando.
— Está me agredindo por entrelinhas e você nem mesmo ouviu a novidade?
A questão dele a colocou em guarda.

— Que novidade?

— Está na televisão e no rádio.

Um tremor de preocupação a percorreu.


— O que é?
Mitch a estudou por um momento, as feições agora absolutamente inexpressivas.
— Esta manhã, o conselho de diretores vendeu a Stuben para mim.
A mente de Elaine se recusou a entender. Estava incrédula.
— Eles... eles... o quê?
Perante sua pergunta, Elaine achou ter visto um cintilar de emoção nos olhos dele, mas
em um segundo estavam escuros e ilegíveis de novo.
— Os diretores venderam a Stuben para mim — repetiu ele.
— Desta forma, ainda ficarão com algumas coisas, e não apenas com um estoque sem
valor.

— Você... comprou o império Stuben... enquanto Paul estava no hospital? Como você

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pôde... — Após o grande choque, veio a raiva.

— Você me usou... jogou comigo, então golpeou Paul pelas costas? — acusou ela,
duramente. — Para... para atingir os diretores dele?
A acusação endureceu as feições de Mitch.
— Tudo verdade — disse ele sem se desculpar. — Você foi um grande bem.
Elaine estava tão furiosa, tão fora de si, que precipitou-se até ele, com a intenção de
dar-lhe um tapa no rosto.
Ele lhe agarrou os pulsos, detendo-a, salvando-a de si mesma.
— Lamento, Elaine — Mitch falou, calmamente. — Tente entender. Isso foi apenas
negócio!
Chocada, frustrada e triste, ela não conseguia falar. A respiração se tornou ofegante, a
raiva impotente. Lágrimas brotaram nos olhos.
— Você lamenta! — Elaine soltou uma risada angustiada.
— Seu bastardo! — Ela se livrou das mãos dele. — Nunca ouvi uma mentira tão
desprezível e dissimulada! Você não é um predador, sr. Rath! — gritou ela, uma
sensação sufocante apertando-lhe a garganta. A consciência de quão enganada estivera
sobre ele na noite anterior, como quase se entregara a ele por inteiro, queimava-lhe o
peito. — Você é um homem sem alma. Saia da minha casa! Nunca mais quero vê-lo!

CAPITULO XI

A última aquisição de Mitch, o império Stuben de quinze lojas de departamentos, era a


maior vitória de sua carreira. Nas duas semanas anteriores ele aparecera na primeira
página dos jornais de todo o país. Nos meses seguintes, quando vendesse todos os
bens dos Stuben, tornaria-se um dos homens mais ricos dos Estados Unidos.
Mitch meneou a cabeça, ainda abalado com aquela nova consciência. Quando
começara, comprando os destroços de uma pequena empresa falida, tinha grandes
planos, mas nunca imaginara um sucesso tão imenso. Nascido em uma família pobre,
ele fora determinado e transformara-se num milionário. Mas agora estava muito mais
rico do que um dia julgara ser.
Ele dirigiu o último quilômetro até a casa de seu pai no norte da Califórnia, em direção
ao chalé que o relembrava a infância. Seu pai vivia no meio da floresta, tendo como sua
mais constante companhia um rio de águas claras a trinta metros da varanda dos
fundos. Lá estava o rio, onde Jeremiah Rath pescava seu jantar de domingo desde que

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Mitch podia se lembrar.


Mitch virou na última curva da estrada de terra e consultou o relógio. Quase cinco da
tarde. O pai estaria fritando um pintado naquele momento. Ele podia quase sentir o
cheiro, escutar o chiado do óleo quente. Não comia peixe frito desde que saíra de casa.
Aquilo o lembrava demais de sua triste infância pobre. Por que decidira visitar o pai
naquele domingo de fevereiro, não sabia. Já se esquecera o aniversário do pai antes.
Então, por que naquele ano sentia necessidade de retomar o contato?
Chegando na entrada da fazenda, Mitch diminuiu a velocidade do Jaguar esporte e
dirigiu bem devagar através do cascalho irregular.
O velho lugar parecia o mesmo. Madeira branca desbotada composta com telhado
cinza. Áreas remendadas com telhas de cores diferentes, sem dúvida restos de
construções antigas ou doadas por amigos. Uma picape velha e enferrujada estava pa-
rada ao lado da casa.
Mitch estacionou atrás da caminhonete. Contemplou a arejada varanda, notando que
um dos três degraus estava quebrado. Por sorte, fora de jeans e camiseta. Teve a
impressão de que passaria o aniversário do pai pintando e martelando. Algumas coisas
não mudavam.
Então abriu as janelas e desligou o motor. O mundo ficou em silêncio. Mitch
permaneceu sentado, sem se mover. Após um minuto, pôde escutar o vento nos
pinheiros. Flocos de neve flutuavam da última tempestade. Ele inalou o cheiro do
inverno dos campos. Memórias de horas difíceis e famintas, da doença e morte de sua
mãe, o fizeram hesitar, enquanto o familiar descontentamento voltou com força total.
Ouvindo um barulho, virou-se num sobressalto. Até o rangido da porta era o mesmo.
Jeremiah Rath estava ali em pé num macacão vermelho desbotado e camisa de flanela.
Estreitou os olhos, claramente tendo esquecido os óculos no alto da cabeça grisalha.
Mitch inspecionou o pai. As feições eram como sempre serenas e bondosas, lábios
grossos num maxilar forte. O rosto estava mais profundamente marcado do que Mitch
se lembrava. Claro, havia dois anos desde que estivera lá da última vez.
Mitch podia dizer o exato minuto que o pai o reconheceu. As sobrancelhas levantaram
de prazer sobre os mesmos olhos negros que Mitch herdara.
Ele acenou:
— Filho! — Tão ligeiro quanto um adolescente, desceu os degraus e correu para o
carro. — Mitchell! Você chegou bem a tempo de jantar!
Mitch desceu do veículo. Quando o pai chegou perto, ele o abraçou carinhosamente.
— Olá, pai. — Ele experimentou uma emoção melancólica. — Feliz aniversário.
Seu pai o abraçou forte por um longo instante antes de soltar o filho.

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— Aniversário? — Ele deu um passo para trás, coçando a cabeça. — E meu aniversário
de novo? — Um sorriso brincalhão enrugou-lhe os olhos. — Mas eu já não fiz um no
ano passado?

— Tudo é possível — brincou Mitch, tentando pegar o espírito da ocasião. Então


inclinou-se para dentro do carro esporte e pegou uma caixa embrulhada com papel
brilhante do banco do passageiro. Quando saiu, fechou a porta e estendeu o presente
para o pai. — Por sorte passei por aqui, ou você teria esquecido completamente disso.
— Ele passou um braço nos ombros do velho homem. — Então pai, o que temos para o
jantar? — Como se ele não soubesse.

— Um pintado maravilhoso. — Ele sorriu. — Com cebolas fritas e purê de batatas.

Mitch poderia ter ganhado um milhão de dólares se apostasse no cardápio. Jantares de


domingo não tinham mudado em nada em seus trinta e cinco anos.
— Você tem certeza que dá para nós dois?
Jeremiah gargalhou.
— Já houve algum domingo em que pesquei menos que cinco pintados nesse rio?
Mitch riu, sentindo o coração leve.

— Não em toda minha vida. — Se havia uma constante no mundo dele, era Jeremiah e
sua farta pesca dominical.

— O mundo está cheio de generosidade, filho — disse ele. — Sou abençoado.

O bom humor de Mitch se dissipou. Como ele podia dizer aquilo? Abençoado? Morando
naquela cabana miserável! Mas preferiu não falar nada. Já tinham batido naquela tecla
milhões de vezes.
Através dos anos, Mitch enviara ao pai muito mais dinheiro que o necessário para
comprar diversas casas de três quartos no melhor lugar de Los Angeles ou São
Francisco. Mas seu pai gastara tudo em caridade.
Silenciosamente eles subiram a escada, evitando o degrau quebrado, e atravessaram a
varanda. Então Jeremiah abriu a porta e os dois entraram no chalé de três quartos. Em
segundos, quatro vira-latas abanavam o rabo ao redor deles. Diversos gatos sem raça
espalhavam-se sobre a mobília corroída e desgastada, olhando os homens com pouco
interesse.
— Abra seu presente, pai — pediu Mitch absorto, acariciando um Colhe velhinho e
manco que lambia sua mão. De repente Mitch sentiu-se profundamente triste. Muitos
seres carentes no mundo... tanto os humanos quanto os animais.
— Certo, filho. — O pai colocou a caixa sobre a mesa de pinho ao lado de seu prato de
comida. — Sente-se enquanto faço um prato para você. Abrirei depois do jantar.

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Vinte minutos depois, sem deixar sobrar nem um pedacinho do peixe frito, Mitch bebia
café numa xícara lascada. A sobremesa era uma caixa de nozes no centro da mesa.
Tomando um gole do café, Mitch inalou o rico aroma. Esquecera-se como era gostoso o
café de seu pai. Provavelmente era da marca mais barata disponível, mas de alguma
maneira, sempre delicioso.
Quando olhou para a caixa de nozes, pensou que seu pai obviamente se lembrava do
quanto ele gostava de nozes quando criança. Assim era seu pai. Nozes eram um luxo
que eles compartilhavam quando podiam comprá-las. Aquela caixa devia estar sendo
guardada para uma ocasião especial, e agora que o filho estava lá, Jeremiah a colocara
na mesa. Emocionado pelo ato simples de bondade, Mitch pegou um punhado delas.
Com um sorriso contente, Jeremiah afastou a cadeira da mesa e pôs o presente de
Mitch no colo. Cuidadosamente, começou a abrir o embrulho como se planejasse
guardar o papel para um uso futuro. Mitch sabia que em algum lugar da casa seu pai
mantinha uma sacola de papéis de antigos presentes, prontas para sabe-se Deus o quê.
Jeremiah desembrulhou a caixa vagarosamente. Aquilo era um velho ritual que deixava
Mitch louco. Poderia comprar para o pai mais papel do que ele jamais conseguiria usar!
O vira-lata caminhou até Mitch e descansou a cabeça na sua coxa. Com um simples
carinho, ele parecia ser o cão mais feliz do universo e Mitch se pegou rindo. Um doce
vira-lata, feliz por receber carinho de um outro ser.
Sentado ali, satisfeito pelo jantar saudável, em boa companhia, um devotado cão ao
lado, Mitch encontrou alguma coisa inesperada... uma alegria pura e simples.
— Nossa, filho! — Jeremiah tirou a camisa de flanela xadrez da caixa. — Perfeito! É
exatamente o que eu precisava.
Continuando a agradar o cachorro de olhos alegres, Mitch transferiu o sorriso para o
pai.
— Não é difícil presentear você — disse ele. Então indicou um envelope branco dentro
da caixa. — Mas tem que encontrar algum uso para isso aí também; — Os mil dólares
no envelope escorregariam das mãos do pai como água através de uma peneira. Mitch
desejava que o pai gastasse pelo menos um pouco para as necessidades básicas antes
de distribuir aos mais ca rentes do que ele.
Jeremiah pegou o envelope, sentiu o peso e sorriu, os olhos brilhando de gratidão.
— Você é um bom filho. — Ele colocou o envelope ao lado da caixa de nozes. — Isso
fará muitos benefícios.
Mitch engoliu em seco. Seu pai já tinha planos para o dinheiro e com certeza não eram
alimentar seu próprio corpo magrinho. Mas não adiantava argumentar.
— Claro... tenho certeza disso — murmurou ele e decidiu mudar de assunto: — Antes

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que escureça, por que não consertamos o degrau da varanda?


Jeremiah colocou a caixa na mesa e com cuidado ajeitou a camisa dentro.

— Você não veio aqui para trabalhar, meu filho.

— Eu quero — insistiu Mitch levantando-se, decidindo que aquilo seria a melhor coisa
para levar embora suas frustrações. — Você tem algumas tábuas lá no fundo, não?

— Bem, suponho que sim. Normalmente há algumas.

— Tenho ferramentas no porta-malas do meu carro.


Jeremiah levantou-se, esfregando as mãos no macacão.
— É muita bondade sua, filho. — Ele circulou a mesa e bateu de leve no ombro de
Mitch. — Muita bondade mesmo.
Mitch não respondeu. Sempre sofria com o misto de emoções quando visitava o pai.
Apesar da casa velha e estragada, sentia-se relaxado ali, distanciado de seu mundo
estressado de trabalho. Porém não conseguia evitar sentir raiva pela exagerada
bondade do pai e seu desleixo com a própria vida.
Então Mitch lembrou-se que houve um tempo em que estivera desatento do bem-estar
de seu pai, construindo seus negócios por vingança. Seu pai nunca mencionaria o fato,
mas Mitch sentia uma pontada de culpa.
Estranhamente, agora, que estava rico, sua vida não era tão perfeita quanto acreditara
que seria. Não conseguia entender por quê. Devia ser um dos homens mais felizes do
mundo, já que estava milionário.
Por anos vivera esperando alguma coisa. Quando eu tiver meu primeiro milhão de
dólares, serei feliz. Ele alcançara esta meta vários anos antes, mas não se sentira feliz.
Havia então sempre um novo objetivo a conquistar. Quando eu fizer meu quinto
milhão! Quando fizer o décimo!
Estes e outros tinham se concretizado, porém, estranhamente, nenhum lhe trouxera a
felicidade que almejava. Até mesmo o último alvo... Quando eu comprar a Stuben.
Aquilo fora, para sua grande surpresa, insatisfatório.
Mesmo depois de deixar Chicago com a maior vitória de sua vida, sentia-se triste e mal-
humorado.
Enquanto consertava o degrau da varanda, os pensamentos voltaram-se para Elaine
Stuben, e aquela última noite. Parecia impossível esquecer o instante que aqueles
enormes olhos verdes se encheram de horror perante a atitude dele.
Mitch assistira a cena diversas vezes em sua mente, imobilizado, vendo os adoráveis
olhos brilhando de puro desapontamento. Desde aquele momento, uma sombra
nebulosa tomara conta de seu coração.

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Que coisa! Ele não lhe avisara para não analisá-lo, para não estimá-lo? De quem era a
culpa por ela ter se decepcionado no final? Não dele! Ele fora lá para executar um
negócio e o fizera. Ela fora paga por serviços que lhe renderam uma mansão de dois
milhões de dólares! Uma quantia nada desprezível.
Mitch martelou o degrau, esperando que os pregos aliviassem um pouco a frustração.
Sua garganta se apertou quando recordou-se da risada chocada e desesperada de
Elaine. Por que a desilusão ingênua dela tirava-lhe o sabor da vitória? Quaisquer
problemas que ela tivesse com ele tinham sido criados por ela mesma, desilusões pelas
quais não podia ser responsabilizado. Ele a avisara!
Uma súbita dor informou-o de que perdera o foco e acertara em cheio o polegar com o
martelo. Com um som gutural, derrubou o martelo.

— Que coisa, Rath! — reclamou ele. — Suas preocupações com aquela mulher vão
acabar matando você!

— O que aconteceu?

Mitch levantou os olhos quando a porta de tela se abriu. Jeremiah saiu na varanda,
usando a nova camisa de flanela. Colocando os óculos, observou o filho enquanto ele
balançava a não machucada e praguejava.

— Acertei o dedo.

— Meu Deus! — Jeremiah correu para o lado do filho. — Vamos colocar gelo nisso.

De novo Mitch estava sentado à mesa com uma bandana enrolada no dedo com gelo.
Apoiou os cotovelos no tampo de pinho, levantando a mão para ajudar a aliviar a dor
latejante.
Após servir duas xícaras de café fresco e oferecer nozes para Mitch, Jeremiah se sentou
à frente dele. Recostando-se, observou o filho, a expressão compadecida. Mitch teve a
ridícula sensação de que a compaixão não era por causa do dedo machucado, e ficou
inquieto.
— Você parece cansado, filho.
Mitch recuou. Não gostava do rumo que a conversa estava tomando.
— Estou bem — disse ele, decidindo acabar logo com o assunto. — Na verdade, estou
muito bem.
Jeremiah cruzou os braços sobre a barriga magra.

— Eu ouvi dizer. Parabéns pelo seu último negócio. O comentário confundiu Mitch.

— Como você sabe? Jeremiah sorriu.

— Tenho amigos. Eles me escrevem.

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Mitch devia ter percebido. Jeremiah era rico em uma coisa. Tinha amigos.
— Bem, então você sabe que estou bem.
Jeremiah observou o filho; aqueles olhos ironicamente misericordiosos, considerando
suas tão diferentes posições na vida. Jeremiah morava sozinho no meio do mato, uma
pessoa caridosa que recolhia animais machucados e ajudava estranhos, dando-lhes
tudo e ficando sem nada, exceto um telhado remendado e bolsos vazios. E alguns
amigos, admitiu ele.
E quanto a Mitch? Para colocar isso vulgarmente, ele estava nadando em dinheiro.
Pessoas o notavam quando ele adentrava um ambiente. Tinha negócios extraordinários
e transladava num grande poder. Era respeitado e temido em todos os cantos do país.
E tinha amigos. Talvez, corrigiu ele, não tivesse tantos amigos se fosse pobre. Quando
você tem poder e dinheiro é difícil dizer quem são os amigos verdadeiros.
Ele respirou fundo, olhando ao redor. De repente o cachorro manco se aproximou,
pousando a cabeça no colo de Mitch. Aqueles olhos esperançosos o encararam.
Claramente o cachorro não entendia que ele não estava em humor para consolar
ninguém. Ainda assim, instintivamente, abaixou a mão boa para acarinhar o animal.
— Então você vai dividir as lojas Stuben e vendê-las uma a uma?
Mitch assentiu, continuando a agradar o cão, hipnotizado pelo olhar dele. O vira-lata
não se importava com quantos milhões Mitch possuía. Ele o adorava, pura e
sinceramente. Quanto tempo fazia que não via um olhar assim num ser humano...
Uma dolorosa memória invadiu-lhe o pensamento. Uma pessoa o olhara daquela
maneira. Por pouco tempo, mas olhara. Elaine Stuben nunca se importara com quanto
dinheiro ele tinha. Durante o rápido e tempestuoso relacionamento deles, ela o achara
bondoso. A forma doce que ela o olhara apavorara Mitch. E agora, só restava a
lembrança da expressão decepcionada e triste de Elaine.
— Soube que isso fará de você um homem muito rico.
Mitch experimentou uma angústia profunda, observando o pai. Por que se sentia
culpado sobre isso?
— Sim — admitiu ele, a falta de entusiasmo difícil de mascarar. Jeremiah o fitou sem
falar por alguns segundos, então levantou os óculos em cima da cabeça.
— Então... você veio até aqui para me perguntar por que não se sente feliz.
Mitch ficou muito assustado com a declaração para poder objetar. Nunca ouvira um
absurdo tão grande na vida. Jeremiah sorriu com cumplicidade.
— Uma vez que você veio de tão longe para saber minha opinião, vou lhe contar, filho.
— Ele se debruçou, apoiando os antebraços na mesa. — É muito simples.
Sensações confusas percorreram o corpo de Mitch e ele tentou forçar a ordem das
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emoções. Tentou formar a resposta apropriada: que estava lá por nenhuma outra
razão, senão desejar feliz aniversário ao pai. Para seu grande aborrecimento e sur-
presa, as palavras não saíram. Mas por que não? Num estalar de dedos, Mitch podia
fazer qualquer sujeito arrogante arrastar-se a seus pés. Então por quê, sob o olhar
gentil de observação do pai, era ele quem recuava?
Comprimiu os lábios, irritado. Não era um moleque de nove anos para ser repreendido.
Era um homem poderoso! Impaciente com seu momentâneo lapso de vulnerabilidade,
ele insistiu:
— Não seja ridículo, pai! Estou mais feliz do que qualquer homem nesse mundo.
Jeremiah assentiu sabiamente, não tirando a brevidade do filho.
— Mais feliz do que qualquer homem infeliz.
Mitch franziu o cenho. Antes que pudesse protestar, seu pai continuou:
— Filho, faz anos que você é um homem próspero. Já teve tempo para descobrir
quanto o dinheiro pode trazer de felicidade.
A garganta de Mitch apertou. Aquilo era verdade. Fizera uma montanha de dinheiro,
mas não fora capaz de ser feliz. Ele olhou para o pai, mas não respondeu. Pela primeira
vez, encontrou-se inclinado a escutar.
— Sua vida está centrada em você mesmo — explicou Jeremiah, calmamente. — A
minha e a de sua mãe, sempre foi centrada em ajudar os outros, em construir. — Ele
alcançou o braço de Mitch e o apertou afetuosamente. — Por que você não tenta
construir?
Mitch bufou, incrédulo e um pouco triste. Quase acreditara que seu pai tivesse uma
resposta mágica. Ele meneou a cabeça por sua infantilidade. Então olhou para o cão e
esfregou-lhe as costas.

— Qual o nome dele, pai?

— Não sei, filho. Ele apareceu aqui há duas semanas num estado de dar dó. Ainda não
pensei em um nome para ele.
Mitch olhou para o pai.
—Você nunca sente solidão, pai? — Ele chocou-se por ouvir a questão saindo de sua
boca e se perguntou de onde saíra aquilo.
Jeremiah deu um gole no café.
— Não, filho. Tenho amigos e bom trabalho. — Sorrindo, ele apontou em direção à
fotografia da mãe de Mitch, com uma moldura simples e pendurada no papel de parede
de girassóis desbotados. — E tenho muitas lembranças boas aqui. — Ele deixou a
xícara na mesa. — A verdadeira felicidade vem quando você constrói alguma coisa que

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vale a pena, filho. E tendo alguém que você ama para ajudar a construir seu sonho. —
Ele olhou para Mitch de modo penetrante. — Tive muita sorte por encontrar sua mãe.
Virando-se para a foto da mãe, Mitch falou:

— Não há muitas como ela.

— Há algumas — respondeu Jeremiah — Quando você encontrar sua mulher especial,


seu coração o avisará.
Um arrepio percorreu a espinha de Mitch. Não nesta vida, pensou. Não se entregaria
emocionalmente a ninguém. Vulnerabilidade era uma fraqueza e ele disciplinara-se
contra fraquezas. Nos negócios, na vida privada, em cada e todo aspecto de sua vida!
— Hum.
Jeremiah estudou o filho, a expressão sagaz de discernimento. Irritado, Mitch se
levantou e andou até a janela, mas olhava para fora sem nada enxergar.
— Eu entendo — disse Jeremiah.
Mitch não se virou. Não antes de contar até dez.

— Certo, certo... — disse ele finalmente, contrariado consigo mesmo por necessitar
saber. — O que você pensa que entende?

— Que você está infeliz, filho... porque a encontrou e depois a deixou ir embora.

CAPÍTULO XII

Elaine não imaginara que estaria morando na Mansão Stuben depois de primeiro de
fevereiro. Agora, um mês depois, ainda se encontrava entre as suntuosas paredes. Com
a saída de Paul da presidência da Stuben, ele fora obrigado a entregar sua cobertura do
Edifício Stuben. Após deixar o hospital, ainda doente, não tinha nenhum lugar para ir.
Elaine estava feliz por ter salvado a mansão para Paul, e levara mudara as coisas dele
para lá. E para exasperação ainda maior de Claire, ela permanecera na casa para cuidar
dele.
Embora Paul continuasse a resmungar como um cão machucado, Elaine sabia que a
hostilidade dele era um produto gerado por seu sofrimento. Com o tempo, enfrentaria a
realidade a respeito da morte do filho.
Não bebia mais e estava comendo melhor.
Mais tarde, ela sentira um renovado interesse dele pela vida e sabia que ele se

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recuperaria por completo... se pudesse encontrar um trabalho absorvente.


O segundo dia de março nasceu ensolarado e não tão frio. Após levar a bandeja de
almoço para Paul, Elaine resolveu sair no jardim. Caminhou pelo gramado sentindo o
sol fraco porém brilhante, uma promessa dourada do retorno de um mundo verde e
florido.
Elaine esperava que o coração também pudesse erguer promessas de um renascimento
de esperança e alegria para sua alma. Fechou os olhos, deprimida. Desde que sofrera a
grande decepção com Mitchell Rath, um desgosto amargo pesava sobre seus ombros.
Conseguira se convencer de que não se apaixonara realmente por Mitch... por um
tempo. Até mesmo persuadiu-se a acreditar que o detestava. Aquilo fora o único
elemento de união entre ela e Paul desde sua expulsão da cobertura. Ele odiava o ho-
mem. Pelo menos eles tinham tido o ódio pelo Predador para compartilhar.
Por um tempo.
Elaine sabia que qualquer mulher inteligente nutriria aquele rancor até o fim de seus
dias. Infelizmente, ela viera a descobrir-se nada inteligente, incapaz de manter seu ódio
vivo.
Mitch intrometia-se em cada pensamento, com memórias tão poderosas que tinham a
capacidade de levá-la às lágrimas.
A lembrança de como se sentira nos braços de Mitch, a sensação que ele respeitara
seus desejos, até mesmo nos pequenos detalhes, a consumiam. Assim como lhe
permitir escolher o restaurante e pedir o próprio prato. Não se intrometer em qual
vestido ela usaria. Não encontrando defeitos em seus penteados ou na escolha da cor
do esmalte. Deixá-la decidir quando sair de uma festa. Todas aquelas coisas, grandes e
pequenas, que Guy fora fanático em controlar.
Memórias dos beijos de Mitch a atormentavam dia e noite. Até mesmo os sonhos eram
importunados com saudade tola e sem esperanças. Sentia tanta falta de Mitch, que
começou a viver no passado. As panquecas de nozes que ele fizera para o café da
manhã. O encontro por causa da embaraçosa lâmpada. A lenha que ele cortara no frio
congelante. As compras do supermercado que fizera e pagara. Até mesmo a pizza que
a fizera pedir na primeira noite. O homem que fizera todas aquelas coisas era o homem
pelo qual ela deixara crescer um...
Não podia pronunciar a palavra. Aquilo era muito doloroso. Além do mais, um homem
que mentira para ela e a usara não merecia seu amor.
Nova angústia apertou-lhe o coração e ela se sentou no gramado. A grama ainda
estava marrom do inverno, mas o sol estava acolhedor, a única coisa acolhedora em
sua realidade. Elaine se deitou e fechou os olhos, tentando fazer sua mente voar para
algum lugar onde Mitchell Rath não pudesse seguir.

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— Mas para onde? — murmurou ela. — Para onde posso ir para afastá-lo da minha
mente?
Ela não sabia quanto tempo ficara lá. Não achava que adormecera, mas alguma coisa
molhada deslizando na face, a trouxe de volta do transe. Ela abriu os olhos.
— O que... — Em pânico pela proximidade da fera, sentou-se apavorada.
Um cachorro peludo estava lá, a língua rosa e comprida para fora, no que mais parecia
ser um sorriso amigo. Percebendo que aquilo não representava perigo, relaxou.
— Como você veio parar aqui? — perguntou ela em voz alta, passando a mão no rosto
molhado. — De onde você veio, amigão?
Então notou que o cão usava uma coleira de couro. Assumindo que ele escapara de
algum vizinho, ela procurou, através dos pêlos brancos do pescoço, por alguma
plaqueta de identificação na coleira. Encontrou várias.
— Vejo que você tomou todas as vacinas. — Ela sorriu para o vira-lata enquanto ele se
sentava a sua frente. — Aqui tem uma que parece promissora. — Ela separou a
etiqueta amarela de plástico das de metal. — Sou Feliz — ela leu em voz alta. Um nó
no coração a fez perder a respiração e ela olhou a cara do cachorro. — E este seu
nome ou isso se trata de seu humor?
O vira-lata lambeu-lhe a mão.
— Tenho que admitir que o nome combina com você. Você me parece feliz. — Ela
respirou fundo, invejando o simples contentamento da criatura. — Melhor levarmos
você de volta para casa, Feliz.
Soltando a etiqueta amarela, ela pegou uma outra.
— Pertenço a Mitch... — Ela não podia acreditar no que estava vendo, nem mesmo
conseguia pronunciar o nome em voz alta.
Pertenço a Mitchell Rath.
Elaine esfregou os olhos e tentou outra vez. Aquilo estava escrito realmente. Ela
contemplou os olhos serenos do cão e perguntou:
— Isso é algum tipo de brincadeira? — O cachorro aparentemente não tinha nenhuma
resposta. Ficou apenas sentado ali, abanando o rabo.
— Não era essa minha intenção — veio a voz masculina.
Elaine teve um sobressalto em direção ao som a tempo de ver uma figura máscula
aparecendo no topo do imenso gramado. Ela o fitou, incrédula. Alto, impositivo, vestido
com calça caqui e camiseta pólo azul-marinho, que evidenciava o torso maravilhoso
enquanto vinha caminhando.
De tirar o fôlego, Mitchell Rath descia a parte inclinada do gramado, placidamente

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movendo-se na sua direção. Elaine balançou a cabeça para clarear as idéias. Espreitou
a colina novamente para descobrir que ele realmente estava lá. E ainda vindo.
Parecia mais bonito e viril do que nunca. Não estava exata-mente sorrindo, mas os
olhos pareciam conter uma chama viva. A visão era estarrecedora, tão diferente dos
olhares frios que ele frequentemente exibira. A respiração parou nos pulmões de Elaine.
Quando ele chegou mais perto, ajoelhou-se, pousando a mão nas costas do cachorro.
Os lábios se curvaram num sorriso iluminado que a deixou tonta.
— Vejo que você encontrou meu cachorro. — Ele alisou os pêlos do animal.
Elaine observou o movimento carinhoso das mãos dele e o coração disparou. Ele tinha
mãos lindas... tão capazes de estimular e excitar. Assistir à cena dele agradando o cão
despertou memórias dolorosas. Ela rapidamente desviou a atenção para o rosto dele.

— Seu... seu cachorro? — perguntou ela com voz trêmula. — Não sabia que você tinha
um cachorro.

— Não o tenho há muito tempo. — Indicando o gramado, ele perguntou: — Posso me


sentar com você?
Confusa, Elaine assentiu.
Mitch se sentou a seu lado na grama. O cachorro se deitou e cruzou as patas
dianteiras. Descansando a cabeça na coxa de Mitch, o vira-lata levantou o olhar
esperançoso para o dono. Mitch pôs a mão no pescoço do animal, captando a atenção
de Elaine. O sorriso dele aqueceu seu sangue.
— Feliz é um dos vários cães que meu pai resgatou. Quando fui visitá-lo, nós... acabei
trazendo-o comigo.
Elaine não acreditava no que via. Mitchell Rath com um animal de estimação? Absurdo!
Principalmente um vira-lata. E ainda por cima chamado Feliz! Aquilo era incrível.
Observando-o atônita, lembrou a si mesma que não podia pensar em Mitch como o
homem que ela queria que ele fosse.
Ela se levantou e recuou um passo, na defensiva. Não seria enganada por ele outra
vez, não iria se permitir ser seduzida por aquele sorriso ou pelos lindos olhos negros.
Então apressou-se a fazer o que tinha de ser feito:
— Quero você fora de minha propriedade! — Ela apontou o portão de saída. — Não...
não me obrigue a chamar a polícia!
Se esperava que Mitch obedecesse imediatamente, o tinha subestimado ou
superestimado a si mesma. O inegável e terrível fato foi que ele não se moveu perante
sua demanda. Nem mesmo se levantou. O sorriso se apagou, a sobrancelha arqueou e
ele a estudou, a expressão pensativa.

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Elaine suspirou, incerta do que fazer. Ameaçara chamar a polícia. Ele estaria achando
que era blefe?
— Falei sério, Mitch — blefou ela novamente, a voz mais fraca. — Se você não sair
imediatamente, chamarei a polícia para... para colocá-lo para fora.
Num silêncio longo e tenso, eles se entreolharam. A expressão de Elaine era de raiva. A
dele, contemplativa. O coração dela estava descompassado, e quando achou que não
poderia agüentar aquilo por mais tempo, ele finalmente falou:
— Tudo bem, Elaine. Eu vou embora.
Quando ele se levantou, ela deu mais um passo para trás.
— Se é isso que você quer — completou ele.
Elaine ficou decepcionada e não poderia entender a razão. Queria que ele
argumentasse, impondo sua presença ali? Por quê, em nome de Deus, isso era o que
ela queria?
Deprimida por seu desejo tolo, ela assentiu. Em uma rápida virada, deu as costas para
ele.

— Então vá! — O plano dela era caminhar a passos largos, casualmente, mostrando-lhe
o quanto ele estava morto e enterrado para ela. Com cada passo oscilante, ela avisava
a si mesma para não desmaiar. Seja forte! Não vacile! Saia com dignidade!

— Eu amo você, Elaine.

A declaração não se registrou de imediato. Mas alguns passos à frente, cada um


progressivamente mais lento e mais indeciso que o anterior, a voz soou de novo, como
um carinho:
— Eu amo você, Elaine. Mais que a minha vida. Sei que não a mereço. Mas desta vez
vim até aqui desarmado, com nada mais que a verdade, meu coração e... esperança.
Ela ficou imóvel. O que foi que ele dissera? Confusa, virou-se, furiosa consigo mesma
por estar sendo uma simples peça de jogo. Entretanto, alguma coisa em seu íntimo
impulsionou-a a tentar decifrar aquela incrível revelação.
— Você me ama? — perguntou ela, o tom baixo e suspeitoso.
Ele não respondeu de imediato, mas após algumas loucas batidas do coração de Elaine,
ele sorriu ironicamente.
— Gostaria que você levasse isso a sério.
Mitch se aproximou dela e pegou-lhe as mãos trêmulas entre as suas.
O toque, firme e tranqüilizador, causou nela uma sensação que acreditara estar morta
havia muito tempo, mas não ousava sonhar...

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— Quando parti de Chicago, eu havia feito a maior negociação de minha carreira...


provavelmente de minha vida — murmurou ele.
O toque de Mitch era tão determinado, os olhos tão sérios que as defesas dela
começaram a desaparecer. Ela tentou restaurar a guarda, mas não obteve sucesso. A
mostra de vulnerabilidade dele a tocou, ecoando por seu interior.
— Porém não obtive alegria alguma com o meu sucesso — continuou ele. — Visitei meu
pai e nós tivemos uma conversa. Ele me fez ver que, embora eu tenha conseguido
ganhar muito dinheiro, minha existência tem sido infeliz — abriu-se ele. — Meus pais
nunca tiveram dinheiro, mas a alma deles sempre esteve bem nutrida. — Mitch sorriu.
— Eles eram afortunados de esperança e alegria. Ricos... interiormente.
Apertando Elaine num abraço, ele sussurrou contra os cabelos dela:
— É assim que quero ser rico, meu amor. Sempre achei que meus pais eram fracos e
lutei contra essa fraqueza. Agora entendo que eles sabiam o que era a verdadeira
força.
Elaine podia sentir a pulsação violenta do coração dele e levantou os olhos para encará-
lo. O que viu naquela expressão não lhe deixou dúvidas. Ele estava sereno e emanava
uma imensa paz.
Mitchell Rath abraçara finalmente o homem que havia atrás da máscara que ele usara
por tanto tempo. O coração dela disparou com aquela conscientização e lágrimas de
alegria marearam seus olhos.
— Vim para lhe pedir perdão. — Ele a abraçou com mais força. — Vim pedir sua ajuda
e a de Paul. Quero reabrir as lojas Stubert. Juntos, podemos fazer da Stuben, um
estandarte de qualidade e bom gosto. — Roçando a testa dela com o lábio, ele
sussurrou: — Quero construir, Elaine, não destruir.
Uma lágrima rolou pela face dela quando ele a aconchegou contra si.

— Perdoe-me por ter sido tão cego para ver o que Paul mais necessitava na vida. — Ele
beijou-a na testa, enviando deliciosos tremores através de sua espinha. Elaine piscou
para clarear a visão, maravilhada com a metamorfose nos olhos dele.

— Elaine? — chamou ele após uma pausa. — Preciso ver você sorrindo para mim. — A
expressão dele se tornara séria, apreensiva. — Preciso saber que você compartilhará
minha vida. — Ele beijou a pontinha do nariz dela. — Não é apenas negócios que quero
construir, meu amor. Quero construir uma família, ter um lar... cheio de lindas
garotinhas de olhos verdes.
Inundada pela promessa maravilhosa, ela estava sem ação.
— Não sei quando me apaixonei por você — murmurou ele. — Um dia olhei ao redor e
você estava lá, e eu estava perdido. Lutei contra isso, não tinha nenhuma intenção de

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ser vulnerável. Tentei fugir da verdade e fui cruel. Mas se você puder encontrar um
lugar no seu coração para me dar uma segunda chance...
Elaine pousou a mão sobre os lábios dele, detendo sua súplica, totalmente consciente
de que o Predador não mais residia ali. Então enlaçou os braços no pescoço dele e o
encarou.
— Amei você desde o primeiro minuto que o vi, mesmo contra minha vontade. Eu não
seria capaz de negar esse sentimento nunca mais.
O semblante de Mitch se iluminou com um sorriso aliviado. Ele a apertou contra si e a
beijou possessivamente. O corpo de Elaine vibrou e ela gemeu, sentindo que finalmente
estava em casa. Assim como ele.
Muitos beijos maravilhosos e estonteantes se seguiram então.
— Não posso pensar em nada que eu queira mais do que construir uma família com
você, meu amor — sussurrou ela. — Cheia de garotinhas de olhos verdes. — Ela riu
enquanto provocava-o com a língua atrás da orelha. — Talvez até mesmo um
menininho de olhos negros. Ou dois.
Um latido soou de algum lugar na altura dos joelhos.
Mitch riu e Elaine alegrou-se com a sensação que aquilo provocou.
O coração de Elaine transbordou com irrestrita alegria quando ele a abraçou
novamente. Sentir o corpo de Mitch contra o seu era uma experiência extremamente
sensual. Uma que ela se viciaria por anos e anos.
As promessas dos dois foram seladas com os beijos que compartilharam. O império
Stuben estava seguro por todas as gerações que viriam... um império que seria
conhecido como um estandarte de qualidade, gosto refinado e bom coração.

RENEE ROSZEL escreve romances desde 1983 e simplesmente ama seu trabalho. Ela
gosta que suas histórias sejam leves e bem-humoradas e que os heróis de seus livros
sejam maravilhosos e sensuais. A opinião dela é a seguinte: "Por que não gastar seus
dias e noites com o que há de melhor?" Felizmente, seu marido é maravilhoso e
sensual! Ela adora saber a opinião de suas leitoras. Você pode escrever para: P.O. Box
700154, Tulsa, Oklahoma 74170 United States of America, ou visitar o site:
www.reneeroszel.com

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