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APOLOGIA

DE

SÓCRATES
PLATÃO

APOLOGIA
DE

SÓCRATES
Tradução e Prefácio de
SANT’ANNA DIONISIO

SEARA NOVA 1 9 6 1
Imprensa Portuguesa * Rua Formosa, 108-116 * PORTO
PREFÁCIO

Sócrates é um dos filósofos mais claros


A personalidade
e ao mesmo tempo mais controvertidos
vivente de Sócrates
de todos os tempos. E por esta razão
simples:
do seu punho não nos ficou uma palavra sequer. Ê por via
indi- recta, através de biografias cheias de incertezas, como a
de Dió- genes Laércio, ou de testemunhos sob muitos pontos
de vista discordantes, como o de Platão e Xenofonte, que se
tem reconsti- tuído a sua filosofia e a sua doutrina. Por
isso tudo o que dele se afirma se pode dizer problemático.
Seu pensamento como o seu modo de viver constituem uma
inexaurível fonte de hipóteses.
Sabe-se que era conversador dotado de uma
extraordinária paixão interrogativa e que passou o melhor da
sua vida a exer- cê-la, num estranho estado de humorismo e
ociosidade, ao sabor das suas vagabundas deambulações
pelas ruas e subúrbios de Atenas, a conversar
descuidadamente com quem lhe aparecia, conhecidos e
desconhecidos, conterrâneos e metecos, novos e velhos.
A debater que assuntos ou problemas?
Sobre esse ponto, não subsistem dúvidas. Em nítida
oposição a tantos outros filósofos helénicos que o
precederam, Sócrates parece ter deliberadamente desistido
das reflexões de natureza cosmológica e circunscrito o campo
do seu interesse especulativo ao estudo ético do homem. A
partir pelo menos de certa fase (que ninguém está em
condições de determinar com precisão), a sua ocupação
intelectual dominante foi a de provar que o objecto essen- cial da
filosofia deveria ser a «arte de viver e conviver» e de modo
algum o inquirir se a essência das coisas será a Agua ou o Fogo, a
inalterável Imobilidade ou o irreversível Devir. Saber
distinguir o
6 APOLOGIA DE SÓCRATES

justo do injusto, — eis, em seu entender, a verdadeira pedra


de toque da verdadeira sabedoria (1). Alguns confundiam-no, ou
pre- tendiam confundi-lo, com os velhos «físicos» da Jónia. Tal
era o propósito de Aristófanes ao colocá-lo, de modo burlesco,
em cena, numa das suas comédias, suspenso num cesto, a
contemplar os astros. Outros, segundo se depreende de alguns
diálogos platónicos, identificavam-no com os profissionais da
dialéctica que, no mundo ateniense de então, se designavam pelo
nome de sofistas. Na reali- dade, a idiossincrasia de Sócrates
parece ter sido inconfundível rela- tivamente a uns e outros. No
próprio discurso pronunciado perante o tribunal que o
condenou à morte, o velho conversador afirmou (se se toma
como exacta a versão platónica) que acerca dos mis- térios
físicos do céu e da terra jamais se preocupara e que sobre esses
assuntos nada sabia. Quanto aos que pretendiam inclui-lo na
classe dos «sofistas», tanto Xenofonte como Platão não se
can- saram de chamar a atenção para o que o distinguia,
confrontando a arrogância, o cosmopolitismo, o luxo dos
grandes sofistas com o estilo vivente, rigorosamente ascético,
do paupérrimo filósofo. Que lhe importavam os aplausos, as
viagens, as riquezas? (2) Sócrates vivia exclusivamente para a
demonstração de que a verí- dica filosofia nada tem que ver
com a preocupação do êxito, de qualquer ordem que ele seja: de
ordem política, privada ou forense. Em aberta oposição à
maneira intelectual de viver dos logógrafos e afamados
mestres de retórica, de um faustoso Górgias ou impo-

(1) Nesse ponto, o testemunho de Xenofonte 6 bem explícito:


«Sócrates, diz o Autor das Conversas memoráveis, não gostava,
como a maior parte dos filósofos, de discorrer sôbre a universidade
das coisas, nem de indagar a origem, do que os «sofistas» chamam
o mundo, nem de inquirir as leis dos fenómenos celestes. Aqueles
que se entregavam a tais especulações eram considerados por ele
como loucos. Ao seu pensamento apenas interessava saber o que
distingue o piedoso do ímpio, o belo da fealdade, o justo do
injusto.»
(2) 0 próprio Diógenes Laércio insiste nessa inalterável isenção
do filósofo, ao asseverar: «Ao contrário de outros filósofos, Sócrates
não mostrou desejo de viajar e, exceptuando as jornadas feitas por
dever das armas, passou a sua vida em Atenas a discutir despreocupa-
damente, não, digamos, para fazer mudar de opinião os seus inter-
locutores, mas para se esforçar por descobrir a verdade das coisas.»
(Diogène Laerce, Vie, doctrines et sentences des philosophes ilustres.
Trad. de R. Genaille. Garnier. Paris. Tom. I, pág. 93).
PREFÁCIO 7

nente Protágoras, o velho ateniense dava-se inteiramente ao


traba- lho gratuito de conversar, onde quer que encontrasse
interlocutores, pelo simples gosto de esclarecer e melhorar a
alma dele e a dos outros. Embora com mulher e filhos (dois
deles ainda menores por ocasião da sua condenação à morte) o
filósofo, numa inflexível indiferença pelas comodidades
terrenas, vivia rigorosamente para esse singularíssimo
magistério do acaso, inteiramente livre, sem discípulos certos,
sem local estabelecido, sem compromisso de qual- quer espécie.
O filosofar era, para ele, o trabalho exemplar; a filosofia, a
profissão pura.

Grosso de feições e quase andrajoso, mas de


A profissão de
palavra irresistivelmente atraente, Sócrates
conversar
saía do seu tugúrio, cruzava a Ágora,
passando ao longo das tendas dos mercadores, descia até a
vizinhança dos estádios e acabava sempre por encontrar um
ou outro adolescente com quem debatia alguma questão de
interesse perene: «Que é a virtude? Será a virtude ensinável?
Donde provirá o mal? O «mal» não será simplesmente uma
forma de ignorância ? E o que será a Morte? O homem deverá
recear a morte ou acolhê-la com tran- quilidade?»
Entre os antigos, ninguém lhe atribuiu outra ocupação.
Daí a pergunta que uma vez ou outra se tem formulado:
Como conci- liaria ele, na sua estranha sabedoria de viver, o seu
extremo desdém pelos meios vulgares de viver com as exigências
quotidianas do seu lar? Como sustentaria ele os seus? Teria
Sócrates, como Espinosa, algum ofício discreto ou actividade
fabril? Filho de um obscuro escultor (ou desbastador de
pedras, de nome Sofronisco), teria o filósofo herdado alguma
oficina, com um ou dois escravos, que lhe daria o que na
língua sóbria do povo se chama «o preciso»? (1).

(') Diogenes Laércio, com o seu processo típico das versões


cruzadas, parece querer levantar um pouco a ponta do véu, referin- do-se
a uma resposta mordaz de Aristipo, discípulo de Sócrates. Como alguém
o admoestasse por exercer o magistério retribuído e invocasse a inflexível
gratuidade das conversas de Sócrates, Aristipo teria respondido: «Sim, na
verdade, recebo retribuição pelas lições que dou e tenho razão para o
fazer : porque Sócrates recebia, e a discrição, pão e vinho dos homens
mais ricos de Atenas, — enquanto que eu não tenho, para me ajudar a
viver, senão Eutikedes, um pobre escravo que comprei.»
8 APOLOGIA DE SÓCRATES

Seria uma hipótese a tentar se não existisse a vaga tradição


de que o valor dos seus bens era computado na quantia
irrisória de quinhentas dracmas (1). No próprio discurso
pronunciado perante o tribunal que o condenaria à morte,
Sócrates reafirma (na versão platónica) a sua extrema
pobreza, declarando-se incapaz de pagar uma multa que
excedesse cem dracmas.

A maneira espartana, o filósofo cobria-


A vida ascética se de Verão e de Inverno com o
do filósofo mesmo manto e andava usualmente
descalço. A tal ponto os seus amigos
estavam habituados a vê-lo assim que todos, com surpresa,
o saudaram quando um dia apareceu de sandálias, em casa
do rico Agatão para participar do banquete que este oferecia
para festejar n sua estreia como dramaturgo. (Vid. Banquete,
de Platão).
O velho filósofo costumava dizer que só quem sabe
pres- cindir do supérfluo está próximo dos deuses e, com
frequência, segundo nos diz Diógenes Laércio, quando passava
ao longo das tendas dos traficantes, dizia para consigo, com
bonomia: «Quan- tas coisas existem de que não tenho
necessidade*.
Uma vez, o rico Alcibíades, seu admirador, ter-lhe-ia
feito a oferta de um amplo terreno para que o filósofo
construísse uma moradia. Sócrates com humor, recusou,
dizendo-lhe: — «Se eu tivesse necessidade de calçado e tu me
oferecesses uma pele inteira para o fazer, não te parece que
seria ridículo aceitá-la?»
Em outra ocasião, como tivesse recebido um pontapé sem
se indispor, esclareceu os que estranhavam a sua paciência: «Se
fosse um burro que me tivesse dado este coice, deveria acaso
chamá-lo ao tribunal?»
E não era por falta de força física ou de ânimo que o
filó- sofo dava estas provas de paciência. Sócrates, em novo,
havia praticado duramente todos os jogos e guardou até final um
extraor- dinário vigor. A sua frugalidade e ao seu regime de
vida, atribuíam
(1) Qualquer coisa como dois ou três mil escudos, na moeda
portuguesa corrente dos nossos dias.
PREFÁCIO 9

muitos dos seus contemporâneos o privilégio estranho de haver


atravessado, imune, as mortíferas epidemias que dizimaram a
popula- ção ateniense durante a guerra do Peloponeso.
Aos quarenta anos dera provas de espantosa
resistência, durante o longo e penoso cerco de Potideia (432-
429 a. Cr.); na retirada de Délio (429) batera-se com
insuperável sangue-frio, tendo salvo nessa ocasião
Xenofonte de uma morte certa; mais tarde, na batalha de
Anfípoíis (422), na qual as armas atenienses foram vencidas, de
novo confirmou a sua intrepidez, mantendo o perfeito domínio
entre os fugitivos.
Mas a coragem do filósofo revelar-se-ia sobretudo no famoso
julgamento dos estrategas da batalha naval das Arginusas,
efectuado em Atenas, em 406. Segundo diz Xenofontes, nas
Conversas Memo- ráveis [I, 1. 18, 4] e nas Helénicas [cap. VII,
15], coube a Sócrates presidir a reunião do Pritaneu, nesse
dramático julgamento. Em uma atmosfera de temerosa
exaltação, teve de dirigir o terrível debate no qual se jogava a
vida dos capitães dos navios acusados de terem abandonado os
náufragos daquela batalha. O povo, irritado, pre- tendia, por
uma única e simples votação decidir sobre a sentença a
aplicar aos incriminados. Sócrates, fazendo frente a esse propósito
ilegal, recusou-se a dar andamento ao processo sumário.
Apesar do regougar dos que queriam, a todo o transe,
aplicar a pena capital a todos os estrategas, em bloco, o
julgamento teve de se individualizar, apreciando-se caso por
caso, como o filósofo pro- pugnava e era de lei. Da resistência
de Sócrates, e do discurso eloquente pronunciado por
Euriptólemo, nada resultou, é certo: a brutalíssima
sentença foi vibrada sobre os desgraçados e no próprio dia do
julgamento, dos oito estrategas incriminados, seis foram
executados (1 ). Ê de crer, porém, que da atitude extrema-
mente corajosa e anti-demagógica de Sócrates, nesse
julgamento, tenha resultado uma boa parte do ódio colectivo,
popular, que

(1) Pela narrativa de Xenofonte se depreende que, afinal, a


oposição de Sócrates foi vencida mercê de um estratagema forense de
um dos acusadores, um tal Ménecles. Ao fim e ao cabo, a condena-
ção dos estrategas parece ter sido colectiva. Pouco depois, os Ate-
nienses mudaram de parecer, mas os infelizes já estavam executados
(Cf. Xenofont., Helénicas, vol. I, trad. franc: de J. Hatzfeld Coll. des
Universités de France, pág. 67, ed. 1936).
10 APOLOGIA DE SÓCRATES

sobre ele recaiu e se faria sentir seis anos depois na acusação


que lhe seria movida por três típicos demagogos.

A acusação. Como A verdade é que, no ano 400 (a. Cr.), foi


deposta nas mãos do primeiro arconte da
explicar a condena-
democracia ateniense esta incisiva acusa-
ção de Sócrates
ção dirigida contra o filósofo: «Sócrates é
acusado de não reconhecer como deuses os deuses da cidade e
de querer introduzir novas divindades. É acusado ainda de
cor- romper a juventude. Pena proposta: a morte».
Quem formalmente assumiu a responsabilidade (não
pequena, em face da legislação penal ateniense) da acusação foi
um homem novo, um tal Meleto, poeta e orador obscuro.
Sabe-se, porém, que, de facto, o principal promotor do
processo foi Anito, homem rico e politicamente influente, que
durante o governo dos Trinta havia sofrido o desterro e
regressara a Atenas (em 404) com os batalhões libertadores do
Trasibulo. Era uma figura saliente do partido popular (1 ).
Receando no entanto, decerto, o possível insu- cesso da
acusação (o que lhe acarretaria, além de uma multa de mil
dracmas, a inabilidade para ser alguma vez mais acusador),
Anito teria conseguido a sua substituição por aquele apagado
personagem. O orientador técnico do processo de acusação foi
um terceiro comparsa, de nome Lícon, conhecido como
logógrafo.
Desde os primeiros instantes, Sócrates parece ter
pressentido a gravidade da acusação. Embora os termos da
incriminação fossem tipicamente vagos e falaciosos, era fácil
reconhecer a extrema sagacidade da fórmula achada pelos
promotores do singularíssimo julgamento. Em primeiro lugar,
levantava-se a acusação de ateísmo, para o povo ateniense
sempre muito grave, como já se vira pela

(') Segundo o testemunho de Arístóteles, Anito, mercê da sua


riqueza, teria sido, depois de Péricles, o primeiro cidadão ateniense a
renovar o mau precedente de corromper os tribunais. Acusado de ter
perdido, na qualidade de estratego, Pilo, e ameaçado de uma sen-
tença grave, peitou os juizes e foi absolvido. (Cf. Aristóteles, Cons-
tituiçSo de Atenas, XXVIII, Ed. Univ. de France, Paris, pág. 30).
O seu fim parece ter sido o que merecia: No dizer de Diógenes
Laércio, teria sido lapidado como caluniador pouco tempo depois do
julgamento de Sócrates.
PREFÁCIO 11

condenação de Anaxágoras e de Protágoras. Contra essa


insídia era difícil lutar. Na verdade, Sócrates era uma alma
profundamente religiosa, mas estava longe de poder dizer-se
um crente ortodoxo nos deuses do Olimpo. Pelo diálogo
platónico Eutífron se vê como o filósofo encarava
sardònicamente as próprias expressões do culto, indo até ao
arrojo de definir o ritual dos sacrifícios como uma espécie de
«técnica comercial» (1). E ninguém ignorava em Atenas que o
filósofo com frequência se dizia inspirado e guiado por uma
voz interior, a que ele dava o nome do seu espírito ou
«demónio».
Quanto à acusação de corruptor da juventude, a intenção
dos acusadores era na verdade ardilosa e certeira. Sócrates
nunca fizera segredo do seu desprezo da vida dos negócios e
da própria vida política, entendendo que o fim mais alto da
educação era o de despertar o amor desinteressado da
sabedoria e da virtude. Ora, dentro de uma civilização
essencialmente política e forense como era a de Atenas, tal
magistério não podia deixar de ser con- siderado como
condenável.
Não nos deixemos pois sugestionar pelos que
geralmente explicam a condenação de Sócrates pelo ódio que
o seu ensino livre e gratuito teria despertado entre os
poderosos sofistas. Essa tra- dição vem de longe. Vem do
próprio Platão. Mas a sua antiguidade não lhe pode servir de
garantia. O que talvez se possa dizer é que o velho
conversador ateniense foi condenado, não pelos Sofistas,
mas, por equívoco, como sofista. A leitura de um diálogo
platónico, o Ménon, é bastante instrutiva a esse respeito,
permitindo-nos ver como Anito desde longe o considerava
como tal.
As razões fundamentais da acusação movida contra
Sócrates foram seguramente razões de ordem política.
Não esqueçamos que o filósofo ateniense, no dizer dos seus
discípulos, mais de uma vez exprimira a sua profunda
simpatia pela civilização aristocrática dos Espartanos, —
isto numa época em que a luta entre a Lacedemónia _e a
Ática era de vida ou de morte. Ê a época da terrível matança,
cometida a frio, dos pri- sioneiros de Egos-Pótamos. Ê a
época da fome e da peste em Atenas, bloqueada pelas forças
de Lisandro. Ê a época dos assas-

(1) Cf. Platon, Oeuvres complètes, tom. I, Euthyphron, 14, E


(trad. de M. Croiset, Coll. des Uniu, de Prance, pági 204, Paris, 1926).
12 APOLOGIA DE SÓCRATES

sinatos ordenados pelos Trinta, sob a protecção da guarnição


espartana instalada na Acrópole. Ê a época da destruição dos
«grandes muros» e arsenais do Pireu. É. enfim, a época da luta
desesperada dos companheiros de Trasibulo, da qual resultou o
restabelecimento da democracia em Atenas.
Sócrates, que permanecera na cidade durante essa longa
série de infortúnios, não poderia ser bem visto por muitos dos
antigos exilados. Alguns decerto o consideravam como um
adversário da democracia. Ésquines, num dos seus
discursos, (Contra Timarco, 173), afirma que ele foi
condenado pelo tribunal dos heliastas (ou seja pelos
quinhentos representantes do povo de Atenas) por ser
considerado responsável pela educação de um dos mais
violentos e sanguinários membros do governo tirânico dos
Trinta: Crítias, morto em combate na jornada libertadora
do Pireu (403 a. Cr.). Xenofonte, na 1.ª parte das Conversas
memo- ráveis refere-se a essa mesma acusação e procura
demonstrar a sua sem razão, acentuando que Crítias havia
frequentado na verdade as palestras de Sócrates com o fito
de aprender a discutir e a ganhar prestígio político, mas
que, no fundo, jamais teria sido seu discípulo. E acrescenta
que, enquanto vivera sob a acção do convívio socrático,
conseguira ser moderado, mas que, no exílio, se corrompera
com as más companhias. Outro tanto afirma relati- vamente a
Alcibíades, causador de tantos desastres públicos, cuja educação
lhe era igualmente atribuída. Para demonstrar que a Sócrates
nenhuma responsabilidade deveria ser imputada, quer a respeito
de um, quer do outro, Xenofonte recorda que as loucuras
praticadas por Alcibíades deveriam filiar-se na atmosfera de
aturdimento e sensualidade em que se perdera depois de se
afastar do convívio do Mestre. Quanto a Crítias, recorda
que, durante o governo oligárquico, Sócrates, em face das
condenações arbitrá- rias, exílios e extorsões violentas
impostas a tantos cidadãos, comentara, como sarcasmo, que
se um pastor se empenhasse em matar, expulsar e emagrecer
os bois da sua manada, não poderia ser considerado como um
pastor sensato. Que se diria então (teria perguntado) de um
governante que procedesse como esse pastor? Crítias, ao ter
conhecimento desse comentário, ordenara a Sócrates que
comparecesse para receber uma severa admoestação e avisou-o
de que daí para o futuro feria de se abster de conversas com
os
PREFÁCIO 13

jovens. Sócrates, com o seu peculiar bom humor, pediu


esclareci' mentos ao tirano, seu antigo interlocutor,
perguntando-lhe qual era a idade a partir da qual um homem
se deveria considerar jovem. O tirano, impaciente, despachou-
o, exclamando: — Deixa-te de mais perguntas e {aze o que te
determino, se não quiseres por ti mesmo diminuir o número dos
bois!...

O tribunal que julgou o [ilóso[o era cons-


O julgamento. Ati-
tituído por 500 juizes. Era o chamado tri-
tude do filósofo
per an te o s bunal dos heliastas, como representantes
das dez tribos em que se dividia a
população ateniense. Era, pois, tipicamente o que hoje
chamaríamos um tribunal popular. Os discursos dos
acusadores devem ter sido extremamente violentos.
Infelizmente, não chegaram até nós. O pró- prio discurso de
Sócrates, o autêntico, é ignorado. As versões que Xenofonte
e Platão nos legaram, embora preciosas, não podem ser
consideradas como traslados impecáveis das palavras do
filósofo.
Sabe-se que Lísias, grande orador meteco e adversário
vigo- roso do governo dos Trinta, muito considerado em
Atenas como logógrafo, oferecera a Sócrates um cuidado
discurso de defesa que decerto lhe garantiria a absolvição. O
filósofo, porém, como sempre, tranquilo e autónomo, recusou
o auxílio do logógrafo e preferiu dirigir ele próprio a sua
defesa, comparecendo no tribunal sem qualquer preparação,
disposto a falar à sua maneira, com a sua peculiar ironia e
lhaneza.
O espírito mordaz e sagacíssimo de Sócrates revela-se, por
exemplo, no interrogatório a que submete o principal testa de
ferro dos promotores da acusação, o moço Meleto (1). Este
sente nitida- mente o risco que corre e refugia-se no silêncio,
apesar dos insis- tentes rogos que o filósofo lhe dirige para que
cumpra a lei e lhe responda. Só ao fim de muitas exortações
o acusado se decide

(1) Meleto parece ter sido um dos emissários enviados pelos


atenienses a Esparta a seguir ao infeliz combate do Pireu, vantajoso
para Pausânias, em 403, a fim de regularizar a situação política de
Atenas após a destituição do governo tirânico dos Trinta. O seu
fim, de vida não parece ter sido melhor que o de Anito.
14 APOLOGIA DE SÓCRATES

a responder, mas de. modo tão evasivo que salta aos olhos a
gros- seria do seu demagogismo. Em dado momento, Meleto,
assediado, vai ao ponto de afirmar que todos os membros
do tribunal são aptos a «bem educar» a adolescência,
recusando formalmente esse dom a Sócrates (1). Ora] dada a
composição heterogénea da assem- bleia judiciária, (composta
de negociantes, marítimos, artífices, etc), manifesta era a
lisonja e a insinceridade do acusador. Sócrates aproveita-a,
sem cuidar do efeito que o seu comentário teria no ânimo dos
que constituíam o tribunal, e lança uma das suas excla- mações
terrivelmente sardónicas:
— Com que então, todos os que nos escutam são bons
educa- dores, e eu sòmente sou o corruptor da juventude.
Mas onde a sua audácia atinge as raias da temeridade é no
momento em que, já depois de tido pelo tribunal como
culpado, alvitra aos juizes que a condenação fosse o seu
aboletamento vita- lício no Pritaneu, ou seja: no edifício
público onde os arcontes tomavam as suas refeições em
comum. Essa proposta represen- tava o mais insólito dos
sarcasmos pois a instituição da pritania sòmente há cerca de
três anos, após o duríssimo período oligár- quico, voltara a
funcionar em Atenas. Foi certamente esse impre- visto
desafio o que desencadeou a indignação do rumoroso tri-
bunal e provocou a deslocação de votos que determinaria
a sentença fatal.
Podemos dizer, pois, que a condenação de Sócrates ao
suicídio coercitivo, pela cicuta, foi suscitado pela própria
atitude do filósofo. O que não significa que ele deliberadamente
a procurasse. Em mais de um passo da Apologia se vê que o
seu desejo sincero era o de obter a absolvição. Mais do que a
vida. porém, interessava-lhe salvar a liberdade. Pelo recurso
da lisonja, da súplica, ou até da habilidade técnica, própria dos
logógrafos, não lhe interessava

(') Uma das acusações movidas contra Sócrates, além da impie-


dade, era a de que ele predispunha a juventude para o governo oligár-
quico, pois sustentava sarcàsticamente (dizia-se) ser ridiculo
escolher os magistrados da Cidade pelo processo dos sufrágios. —
«Como é possível que o destino dum povo possa depender de uma
fava?» per- guntava o filósofo, nos dias em que havia, em Atenas,
convocação de eleitores.
PREFÁCIO 15

conquistar mais alguns anos de existência terrena. A


absolvição só poderia ser bem recebida por ele mesmo — se
fosse gratuita.
A prova de que Sócrates desejava evitar que a injustiça se
consumasse encontra-se na sua afirmação melancólica de que
um julgamento que envolva a possibilidade da pena de morte
jamais deveria ser decidido num só dia. O filósofo sentia que
havia muita coisa a dizer. Com vagar, fácil lhe seria
desfazer o equívoco. Por isso, logo no intróito do seu
discurso se queixara da exigui- dade do tempo que lhe era
dado para se defender. Mas os julga- mentos do Tribunal dos
Quinhentos, segundo a lei ateniense, tinham de ser
relativamente breves. Um relógio de água (clépsidra) regu-
lava a vigilância do arconte que presidia à sessão e
impunha debates muito sóbrios.
Assim se consumou a iniquidade. Pela contagem dos
votos, se verificou que 280 juizes propunham a condenação à
morte pela cicuta (1 ).
O filósofo aceitou de boa mente a sentença, recusando
com firmeza as propostas de fuga que um dos seus amigos
mais dedi- cados, o poderoso Críton, lhe levaria à prisão e
passou o seu último dia no cárcere rodeado pelos discípulos a
tentar esclarecer tranquilamente o problema da imortalidade.

S. D.

(1) O costume da condenação à morte pela ingestão de uma


taça de cicuta surgiu no final da Guerra do Peloponeso, com as
persegui- ções inúmeras ordenadas pelos Trinta. O irmão do orador
Lísias, poderoso meteco do Pireu e reconhecido como democrata,
morreu nessa ocasião, como tantos, do mesmo modo que Sócrates.
PRIMEIRA PARTE

FALA DE SÓCRATES, PERANTE O TRIBUNAL DOS


HELIASTAS , APÓS A ACUSAÇÃO

Algumas consi- Não sei, Atenienses, que efeito os meus


derações prévias acusadores terão produzido em vós.
Por mim, ao ouvi-los, pouco me fal- tou para esquecer
a minha pessoa, tão persuasivos eram os seus
discursos. E todavia, sem exagero, nem uma palavra
sequer de verdade proferiam. Mas, entre tantas
insídias, eis a que mais me espantou: foi a de eles vos
prevenirem, dizendo-vos que deveis estar acautelados
contra mim e não vos deixar ludibriar por mim, apon-
tando-me como um orador extremamente hábil.
Na verdade, para assim se exporem sem-
vergonha a uma revelação imediata dessa mentira,
no momento exacto em que eu iria mostrar-me
absolutamente incapaz de falar sagazmente, — que
impudência não é preciso! A não ser que eles
considerem hábil no falar aquele que diz a verdade.
Se assim o entendem, então poderei con- cordar em
que sou orador; simplesmente, não o serei a seu
modo.
Em todo o caso, insisto, eles nada disseram, ou
quase nada, que seja exacto. Eu, pelo contrário,
não vos direi senão a verdade. Mas — por Zeus! —
não a
18 PLATÃO

direi em linguagem fina, como a que eles usam, toda


enfeitada de palavras e locuções elegantes e sàbia-
mente rebuscadas. Não; falarei, antes, como calhar,
con- soante as expressões me acudirem. Tudo o que
tenho a dizer é justo, eis do que estou certo. Não
espereis de mim outra coisa. Seria excessivamente
indecoroso, juizes, que um homem da minha idade
viesse perante vós modelar frases, como fazem os
adolescentes.
Entendamo-nos, pois, Atenienses, o que vos peço,
é só isto: se me vou exprimir, a defender a minha
causa, nos termos em que tenho por hábito falar, quer
na praça pública, junto dos balcões dos negociantes,
onde muitos de vós me tendes escutado, quer em
outros lugares, não vos escandalizeis e não levantais
protestos por isso. Por- que, fixai êste facto, é pela
primeira vez, aos setenta anos de idade, que
compareço perante um tribunal. É-me
completamente estranha, portanto a linguagem aqui
usada. Se eu fôsse um estrangeiro em Atenas,
certamente nenhum de vós levaria a mal que eu falasse
com a entoa- ção e o dialecto da minha infância. Do
mesmo modo, parece-me justo — e é o que vos peço —
que me deixeis falar à minha maneira. Será o que for,
melhor ou pior. A única coisa que vos importará
considerar,—e isto muito escrupulosamente, — é se as
minhas alegações são justas ou não. Tal é, com efeito,
o dever do juiz; o do orador é dizer a verdade.

Sócrates distingue duas Para começar, Atenienses, de-


espécies de acusadores verei responder às mais antigas
acusações que me foram feitas e aos meus mais antigos
acusadores. Em seguida, responderei às acusações e aos
acusadores mais recentes.
APOLOGIA DE SÓCRATES 19

Com efeito, numerosos são os que me têm acusado


junto de vós, desde há muitos anos, sem nada
dizerem de verdade. Êsses temo-os eu mais do que
a Anito e seus parceiros, ainda que reconheça que
estes são tam- bém para temer. Sim, juizes, os
primeiros são ainda mais temíveis; porque foram eles
que insinuaram no vosso espírito, desde a infância, a
ideia que fazeis de mim: foram eles que vos fizeram
crer erròneamente que existia um tal Sócrates, grande
sábio, ocupado no estudo dos fenómenos celestes,
pesquisador de tudo o que se passa no interior da
terra, e capaz de fazer prevalecer qual- quer tese
maligna. Eis o que espalharam, Atenienses, os
acusadores que mais tenho a recear. Porque, aqueles
que lhes dão ouvidos estão convictos de que as pessoas
entre- gues a tais indagações não crêem nos deuses.
A isto há a acrescentar que esses acusadores são
numerosos, calu- niando-me desde há muito tempo, e,
além disso, se vos dirigiam naquela idade em que éreis
o mais possível cré- dulos, sendo alguns, dentre os que
me escutam, ainda crianças e adolescentes; e,
finalmente, acusavam um ausente, que ninguém
defendia. E o mais desconcer- tante é que nem
mesmo é possível saber os seus nomes, nem citá-los,
excepto talvez o tal autor de comédias ('). Mas os
outros, tanto aqueles que, por ressentimento ou
maldade, insinuaram no vosso espírito essas
calúnias, como aqueles que as admitiam e as
espalhavam, esses são os meus mais evasivos
inimigos. Impossível,' com efeito, fazer comparecer
aqui algum deles e refutá-lo. Para me justificar,
tenho de bater-me, de certo modo,
(1) O filósofo refere-se claramente a Aristófanes, autor das
Nuvens, onde a figura de Sócrates é cruelmente caricaturada.
20 PLATÃO

contra sombras e responder a tudo, sem poder


impor uma só pergunta. Logo, que fique isto bem
esclarecido: os meus acusadores são de duas espécies:
de um lado, aqueles que acabam de depor esta
queixa contra mim; do outro, aqueles a que me
refiro e me acusam desde há muito. Fixai ainda este
ponto: que é a êstes, em primeiro lugar, a quem
entendo dever responder. São os primeiros que
influíram no vosso ânimo e muito mais do que os
outros, vindos depois.
Dito isto, Atenienses, cumpre-me começar a
minha defesa. Tentarei, antes de mais, destruir no
vosso espírito uma velha calúnia nele enraizada. Para o
fazer, não dis- ponho de muito tempo. Evidentemente,
estimaria conse- gui-lo; mas sinto bem as dificuldades e
não dissimulo a gravidade do caso. Não importa; que
as coisas sigam o curso que aprouver à divindade; o
meu dever é obede- cer à lei e defender a minha
causa.

Antigas acusações Indo, pois, à origem, examinemos


donde provirá, com precisão, essa calúnia na qual
Meleto se fundou para intentar este processo.
Vejamos. Com exactidão, que diziam os que desde
longe me caluniam?
Procedamos como para uma acusação em forma,
na qual fosse possível ler o texto mesmo da queixa:
Sócra- tes é delinquente: pesquisa indiscretamente o
que se passa no seio da terra e no céu; faz prevalecer as
teses nocivas; ensina outros a fazerem o mesmo que
ele faz.
É isto, ou coisa muito parecida. Eis o que todos
vistes, com os vossos próprios olhos, na comédia de
Aris- tófanes: um tal Sócrates era aí trazido à cena,
suspenso, a andar de cá para lá, como que a
deambular nas
APOLOGIA DE SÓCRATES 21

alturas, e a recitar toda a espécie de toleimas acerca de


coisas de que nada entendo. O que digo, não é, de
modo algum, com o fim de desacreditar tal ciência,
se acaso existe alguém que a possua. Por favor!
que Meleto, ao menos não vá agora acusar-me de
seme- lhante temeridade! Mas, na verdade,
Atenienses, não tenho a mínima noção acerca dessas
coisas. Invoco o testemunho da maior parte de vós.
Peço-vos que vos informeis mutuamente e convido a
falar quem quer que me tenha ouvido discorrer.
Muitos dos presentes estão nesse caso. Dizei uns aos
outros se já algum de vós, algum dia, me ouviu
dissertar, por pouco que seja, sobre tais assuntos.
Assim reconhecereis que tudo o que se diz
vulgarmente de mim é do mesmo valor.
Na verdade, nada disto é sério. E se algum de vós
acaso também afirmar que faço profissão de ensinar
a troco de dinheiro, tal afirmação não é menos falsa.
Não porque desconheça quanto é belo ser apto a
instruir os outros, como Górgias de Neôncio, como
Pródico de Ceos, ou Hípias de Elis. Que grandes
mestres esses, juizes, que vão de cidade em cidade,
e sabem atrair tantos homens novos, quando estes
poderiam, sem pagar coisa alguma, dar-se ao convívio,
dos concidadães que mais lhes agradasse! E os
persuadem a desprezar esse gratuito convívio, a vir
para junto deles, a remunerá-los — e isto sem prejuízo
do reconhecimento que, em acrés- cimo, lhes ficam a
dever. Que digo! Ainda há pouco tive
conhecimento de que aqui mesmo, em Atenas, há
um sábio, cidadão de Paros, que frui precisamente
desse dom. Por acaso, visitei um ateniense que pagou,
só à sua conta, em retribuições aos Sofisfas, um
montante superior a todos os outros cidadães em
conjunto: refiro-me a
22 PLATÃO

Calias, filho de Hipónico. Como sabeis, ele tem dois


filhos. Por isso o interroguei: — Calias, disse-lhe, se em
lugar de dois filhos tivesses de adestrar dois poldros
ou dois bezerros, saberias muito bem quem
encarregar, mediante um salário, de desenvolver neles
tudo o que a sua natureza possibilita. Escolherias, é
claro, um tratador de cavalos ou algum lavrador. Mas
os teus filhos são homens. A quem tens a intenção de
os confiar ? Quem será mais hábil em dar-lhes as
qualidades próprias do homem e do cidadão? Suponho
que terás reflectido acerca do caso, visto que tens
filhos. Dize-me, — a pessoa de quem carecemos
existirá ou não existirá?—Sem dúvida que existe,
respondeu.—Quem é então? perguntei. Donde é
natural? Quando custam as suas lições? —É Eveno de
Paros, replicou; e o preço das suas lições é de cinco
minas. Daí concluí que esse Eveno deve ser um homem
excepcional, se na verdade possui essa arte e a ensina
com tanto talento. Por mim, sentir-me-ia orgulhoso e
satis- feito de mim mesmo, se soubesse fazer outro
tanto. Mas, francamente, Atenienses, não o sei.

Em que consiste a Perante isto, um ou outro dentre


ciência de Sócrates vós talvez seja tentado a pergun-
tar : — «Mas, no fim de contas, Sócrates, em que te
ocupas? Donde virão essas calúnias que te visam?
Porque, na realidade, se nada fazes de anormal, como
se explica que falem mal de ti? Se vivesses como toda â
gente, como se formaria essa tua reputa- ção? Dize-
nos, tu mesmo, como se terá dado isto, se não queres
que procuremos uma explicação, para nosso uso».
Observação inteiramente legítima, concordo. Por isso
vou tentar explicar o que me deu esta desagradável
noto-
APOLOGIA DE SÓCRATES 23

riedade. Prestai, pois, atenção. É possível que alguns


de vós suspeitem que gracejo. Mas não; acreditai: o
que vou dizer é a pura verdade.
Efectivamente, Atenienses, possuo uma ciência; a
ela devo essa reputação. Que espécie de ciência? A
ciên- cia que diz respeito ao homem.
Essa ciência é talvez justo dizer que a possuo;
enquanto aqueles a quem tenho vindo a referir-me
pos- suem uma outra, que é, sem dúvida, mais que
humana; pelo menos, não sei defini-la de outro
modo; o certo é que, por mim, não a possuo e, se
alguém ma atribuir, mente e procura caluniar-me.
Agora, Atenienses, não murmureis se vos parecer
presunçoso. O que vou invocar não provém de mim.
Quero referir-me a alguém que merece crédito. A teste-
munha que confirmará a minha ciência, se alguma
pos- suo, e em que consiste, é a divindade que está em
Delfos.
Conheceis certamente Querefonte. Éramos amigos
de infância. Ele, como amigo do povo que foi,
participou convosco do exílio de que vos lembrais e
regressou aqui convosco (1). Não ignorais como era o
seu carácter, indo- mável em tudo o que empreendia.
Ora, um dia, estando em Delfos, ousou fazer à
divindade a seguinte pergunta: — (por favor, juizes,
não vos escandalizeis ao ouvi-lo!) — perguntou, com
efeito, se haveria alguém que fosse mais sábio do que
eu. Ora, a Pítia respondeu-lhe que ninguém existia
mais sábio. Essa resposta, poderá testemunhá-la,

(1) Sócrates refere-se, como é evidente, à saída precipitada dos


democratas mais representativos de Atenas, por ocasião do
governo dos Trinta Tiranos, (em 404 a. Cr.) e ao regresso dos
mesmos sob o comando de Trasibulo.
24 PLATÃO

perante vós, seu irmão aqui presente, visto


Querefonte ter morrido.
Sabei agora porque vos falo disto. É que me
cumpre explicar-vos donde veio essa falsa reputação.
Quando tomei conhecimento dessa resposta oracular,
perguntei a mim próprio: «Vejamos, — que significa a
sentença da divindade? Qual será o seu sentido
oculto? Tenho a consciência, por mim, de que não sou
sábio, nem pouco, nem muito. Por conseguinte, que
quererá ela dizer ao afir- mar que sou o mais sábio?
A divindade não pode falar contra a verdade. Isso
não é possível».
Por muito tempo, estive assim, sem atingir a com-
preensão da sentença oracular. Por fim, ainda que con-
trafeito, decidi-me a verificar a coisa do seguinte
modo:
Principiei por procurar um dos homens que
entre nós passavam por sábios, persuadido de que
em face dele poderia ver se a palavra oracular era ou
não fun- dada. Se não fosse, poderia dizer
claramente à divin- dade: «Eis, afinal, um homem
mais sábio do que eu, quando tu me proclamaste o
mais sábio». Procurei conhe- cer a fundo o referido
homem. Escusado é dizer o nome; era um dos nossos
estadistas. Ora, dessa experiência de convívio, eis a
impressão que colhi, Atenienses. Certifi- quei-me que o
personagem parecia sábio aos olhos de muitas pessoas
e sobretudo aos olhos de ele mesmo, mas que de modo
algum o era. E, então, procurei demons- trar-lhe que,
julgando-se sábio, não o era. O resultado foi que
recaiu sobre mim a sua inimizade, assim como a de
diversas pessoas que testemunharam a cena. Reti- rei-
me, dizendo para comigo: «Afinal de contas, sou
mais sábio do que ele. De facto, é possível que nem um
nem outro de nós os dois saiba coisa alguma que
preste;
APOLOGIA DE SÓCRATES 25

simplesmente, ele julga saber, enquanto eu não creio


saber coisa alguma. Parece-me, enfim, que sou, ainda
que muito pouco, um pouco mais sábio do que ele,
visto pelo menos reconhecer não saber o que não sei».
Em seguida, pro- curei um segundo personagem, um
daqueles que passa- vam por ser ainda mais sábios. E a
impressão que obtive foi idêntica. Daí resultou ter
provocado também a sua inimizade e de muitos
outros. Não obstante, prossegui, embora
compreendendo, não sem pesar e algumas apreen-
sões, que estava, desse modo, a criar inimigos.
Acima de tudo, porém, considerei o dever de me pôr
ao serviço da divindade. Impunha-se-me, por
conseguinte, sempre em busca do sentido do
oráculo, procurar ou visitar todos os que passavam
por possuir algum saber.
Ora, pelo cão infernal!, Atenienses, — o meu
dever é dizer-vos a verdade, — eis o que, de um modo
geral, reconheci e verifiquei. Os de maior renome
deixaram-me a impressão, com poucas excepções, de
serem os mais deficientes; enquanto os outros, os que
passavam por modestos, me pareceram mais sãos de
espírito.
Permiti-me que descreva um pouco melhor
ainda essa inquirição porque ela foi um autêntico ciclo
de tra- balhos que efectuei, a fim de verificar o
oráculo.
Após os homens de Estado, procurei os poetas,
auto- res de tragédias, compositores de ditirambos e
outros, dizendo para comigo que, desta feita, me
certificaria da inferioridade do meu saber. Fazendo-me
acompanhar dos poemas que me pareciam mais
talentosamente elabora- dos., abordava os poetas e
pedia-lhes que mos explicas- sem; era, ao mesmo
tempo, uma maneira de me instruir junto deles. Neste
ponto, juizes, a custo me decido a dizer-vos a verdade.
Mas, seja como for, é preciso dizê-la.
26 PLATÃO

A verdade é que iodos, ou pouco menos, os que assis-


tiam a essas conversações poderiam ter falado
melhor do que esses autores acerca das suas obras.
Aqui está também ao que fui levado a pensar dos
Poetas; as suas criações eram devidas, não ao seu
saber, mas a um dom natural, a uma inspiração divina
análoga à dos profetas e dos adivinhos. Estes dizem
igualmente muitas e belas coisas, mas não têm a
consciência do que dizem. Tal é, precisamente,
segundo me persuadi, o caso dos poetas. Ao mesmo
tempo, descobri que eles, por virtude do seu talento,
julgavam ser os mais sábios dos homens em muitas
outras coisas, não o sendo, todavia. Por isso os deixei,
pensando que possuía sobre eles o mesmo ascendente
que reconhecera possuir em face dos estadistas.
Para terminar, procurei os Artistas. Porque tinha a
consciência de não saber, digamos, coisa alguma e ter
a certeza de encontrar entre eles homens que sabiam
mui- tas e belas coisas. Desta vez não me enganei:
sabiam de facto coisas que eu não sabia e nisto eram
mais sábios do que eu. Sòmente, Atenienses, esses bons
artistas e artí- fices deram-me a impressão de terem a
mesma deficiên- cia que os poetas. Na realidade,
sabiam superiormente do seu ofício e todos pareciam
acreditar que tudo conhe- ciam, incluindo as coisas
mais difíceis, e essa ilusão mas- carava o seu saber
real. De maneira que, para justificar o oráculo, fui
levado a perguntar a mim mesmo se não seria de
facto melhor ser tal qual era, desprovido do seu
saber mas também da sua ignorância, ou possuir,
como eles, a ignorância com o saber. Respondia ao
orá- culo assim como a mim próprio, reconhecendo
que mais me valia ser como era.
APOLOGIA DE SÓCRATES 27

Tal foi, Atenienses, a indagação que tantos


inimigos me criou, e inimigos deveras encarniçados e
malevolen- tes que tantas calúnias têm propagada e
me fizeram esta fama de sábio. Porque, todas as vezes
que demonstro a qualquer pessoa a sua ignorância,
logo os que assistem julgam que sei tudo o que essa
pessoa ignora.
Na realidade, juizes, só a divindade sabe, — e o
que ela queria decerto dizer, pelo oráculo, é que o
saber humano é pouca coisa, ou até coisa nenhuma. E,
mani- festamente, se o oráculo designou Sócrates, é
porque se servia do meu nome para me tomar como
exemplo. No fundo, quereria dizer: «Humanos, entre
vós, o mais sábio é aquele que sabe, como Sócrates,
que, no fim de contas, o seu saber é nulo». Esta
indagação, prossigo-a ainda hoje através da cidade e,
obedecendo ao oráculo, con- tinuo a interrogar quem
quer que me pareça sábio, seja cidadão ateniense ou
estrangeiro. E, quando -se me afi- gura que o homem
que interrogo não é sábio, é com o fim de dar razão
ao deus que procuro pôr em evidência a sua
ignorância.
Todo o meu tempo se passa nisto, e por isso não
disponho de vagar algum para me ocupar
seriamente nem dos negócios da cidade nem dos
meus. Vivo, como se vê, em extrema pobreza, e isto
porque me entreguei ao serviço de um juízo divino.
A isto acrescentai: os adolescentes
Como os ódios se que se me dedicam espontânea-
acumularam a mente, — e são aqueles que têm mais
pouco e pouco tempo disponível, os filhos de famí-
lias ricas — parece que têm verdadeira satisfação em
assis- tir aos exames a que submeto as pessoas.
Muitas vezes,
28 PLATÃO

eles mesmos pretendem imitar-me e tentam, por sua


conta, examinar outras pessoas. Naturalmente,
encontram com abundância indivíduos que julgam
saber bastantes coisas, sabendo todavia muito pouco
ou nada sabendo mesmo. É claro, esses indivíduos,
depois desses exames, não ficam a querer mal a esses
adolescentes, mas só a mim; e são levados a dizer que
é um tal Sócrates, um maltra- pilho, que corrompe os
ditos adolescentes. Perguntai-lhes, porém, que é que
ele faz e ensina para os corromper. Logo se calam,
mostrando que acerca disso nada sabem. Mas, para não
parecerem desconcertados, alegam as velhas queixas que
se apresentam contra os homens que se dedi- cam à
filosofia, isto é, que eles estudam o que se passa nos
céus e sob a terra, que eles não acreditam nos deu-
ses, que fazem prevalecer sobre as boas as más ideias,
etc. A verdade autêntica, que esses indivíduos por preço
algum se atreveriam a confessar, essa, creio, está
simplesmente em que eles estão convencidos de saber,
quando na rea- lidade nada sabem. Ora, como eles
são de facto, ávidos de boa reputação, obstinados e
numerosos, como, além disso, quando falam de mim,
são uníssonos, e por con- seguinte persuasivos, é
natural que desde longe vos tenham enchido a
cabeça com as suas encarniçadas calúnias.
Eis a razão por que tanto Meleto, como Anito,
como Lícon se lançaram sôbre mim: Meleto, como
repre- sentante da animadversão dos poetas; Anito,
dos artistas e políticos; Lícon, dos oradores. Por isso
mesmo fica- rei surpreendido, como vos disse logo de
começo, se conseguir destruir no vosso ânimo em tão
pouco tempo uma calúnia que, deste modo, vinda de
tão longe, se foi acumulando.
APOLOGIA DE SÓCRATES 29

Aqui tendes, em suma, Atenienses, a exacta ver-


dade. Nada vos oculto, absolutamente nada: não
dissi- mulo seja o que for. E todavia não ignoro que
assim me faço detestar pelas mesmas razões que já
apontei. Isto prova justamente que digo a pura
verdade e que a calúnia que pesa sobre mim, assim
como as suas origens, são efectivamente como acabo
de expor. Indagai-as hoje ou mais tarde, e vereis que
assim é.

A acusação Findemos aqui as referências às insídias


de Meleto dos meus primeiros acusadores. O que
disse sobre esse assunto deve bastar. Agora é a este
honesto homem, de nome Meleto, a este dedicado
amigo da cidade, como ele mesmo se qua- lifica, e
aos meus recentes acusadores, que vou tentar
responder.
Visto que eles são distintos dos anteriores,
tomemos à parte o texto da sua acusação. Ei-lo, mais
ou menos: «Sócrates — diz a acusação — é culpado de
corromper a juventude, de não crer nos deuses dos seus
concidadãos e de os substituir por divindades novas».
Tal é a queixa apresentada.
Examinemo-la, ponto por ponto, interrogando-o
(1).
Pretende-se, pois, que sou culpado de corromper
os adolescentes! Pois bem. Atenienses, por minha parte
sus- tento que Meleto é culpado de se divertir com
coisas sérias, visto que, com leviandade, chama
pessoas ao tri- bunal, parecendo tomar a peito certas
coisas acerca das

(1) A lei ateniense dava ao acusado a faculdade de


interro- gar ele mesmo o acusador e impunha a este a obrigação
de respon- der às perguntas que aquele lhe dirigisse. {Nota de M.
Croiset).
30 PLATÃO

quais ele nunca manifestou o menor interêsse. E vou


tentar mostrar que assim é.
Aproxima-te, Meleto, e dize-me:
—Não te parece da maior importância que os
nos- sos adolescentes sejam educados o melhor
possível?
— Evidentemente.
— Sendo assim, dize a êstes juizes quem será
apto a torná-los melhores, É impossível que o não
saibas, visto que é esse o teu cuidado. Tu descobriste,
conforme declaraste, quem os corrompe. Sou eu.
Essa a razão por que me trouxeste aqui, como
acusado. Designa, pois, quem os melhora. Indica aos
juizes quem é.

— O quê? Calas-te, Meleto? Não sabes o que


dizer? Não sentes que isto não te honra e que
confirmas com esse silêncio o que acabo de dizer,
ao assegurar que não te preocupas absolutamente
nada com esse assunto ? Vamos, meu amigo, fala : —
Quem os torna melhores ?
— São as leis.
— Oh! isso não é responder à minha pergunta,
exce- lente moço. Pergunto qual é o homem que
terá o dom de melhorar os novos, aquele que, acima
de tudo, melhor conhece essas leis a que te referes...
— Olha, Sócrates,—são estes juizes.
— Que dizes, Meleto? Estes juizes são capazes
de educar adolescentes e torná-los melhores (1)?

(1) Não se esqueça que o tribunal era um tribunal popular,


constituído por 500 heliastas. No grande ajuntamento de «juizes»
viam-se naturalmente mercadores, artífices, banqueiros, políticos,
marítimos, etc,—homens, enfim, de cultura média a par de outros
de mentalidade muito rude. ,
APOLOGIA DE SÓCRATES 3t

— Sim, exactamente.
— Mas, são eles todos —, ou são sòmente alguns
de entre eles, e outros não?
— São todos!
— Por Hera, eis aí, realmente, uma boa saída.
Não nos faltarão, pois, pessoas capazes de bem-
educar! No entanto, esclarece-me: aqueles que nos
escutam pode- rão também tornar melhor a
juventude, sim ou não?
— São igualmente capazes.
— E os membros do Conselho?
— Também.
— E os cidadãos que formam a Assembleia, os
ecle- siastas, acaso eles corrompem os jovens — ou
antes, eles, também, os tornam melhores?
— Sim, esses também.
— Quer dizer, todos os Atenienses, segundo
parece são aptos a bem-educar os adolescentes, —
todos, excepto eu. Eu só, exclusivamente, os
corrompo. Não será isto o que dizes?
— É isso, exactamente..
— Na verdade, que infeliz sorte me atribues!
Mas, dize-me cá; — Em teu parecer, dar-se-á o mesmo
com os cavalos? Achas que toda a gente está em
condições de os ensinar, e que um só os estraga?
Ou antes, pelo contrário, que um só é apto a
adestrar cavalos, ou quando muito alguns raros,
que sejam do ofício, enquanto que todos os outros,
quando tomam conta deles e os montam, não fazem
outra coisa senão estra- gá-los? Não será assim,
Meleto, tanto para os cavalos como para os outros
animais? Indiscutivelmente, esta é que é a verdade,
digas o que disseres, e contigo Anito, acerca deste
assunto. Ah! Na realidade seria uma grande
32 PLATÃO

ventura para os adolescentes se fosse verdade que um


homem, sòmente, um único, os corrompe e que
todos os mais lhes fazem bem. Mas não, Meleto:
demasiado deixas ver que nunca te preocupaste com
a educação dos adolescentes. O que claramente
demonstraste é a tua indiferença acerca das coisas
sobre as quais me acusas.
Outra pergunta, Meleto: dize-me, por Zeus, se será
preferível viver com pessoas honestas ou com malfeito-
res?... Vamos, meu amigo, responde-me; não te peço
nada de embaraçante. Não é verdade que os
malfeitores fazem sempre algum mal àqueles que
deles se apro- ximam, enquanto as pessoas de bem
lhes fazem bem?
— Estou de acordo.
— Ora, dize-me, haverá algum homem que
goste mais de ser maltratado do que bem tratado
por aqueles com quem convive?... Responde-me, meu
amigo! A lei exige que me respondas. Haverá algum
homem que pre- fira ser maltratado?
— Evidentemente, não.
— Bem. Lançando sobre mim a acusação de
cor- romper a juventude, de a conduzir para o mal,
partes do princípio que o faço deliberadamente ou
involun- tàriamente?
— Sem dúvida, deliberadamente.
— Extraordinário, Meleto! Moço como és, como
me ultrapassas em experiência! Pois quê! Tu saberás
sem hesitações que as pessoas malvadas fazem
sempre mal àqueles que delas se aproximam e que
as pessoas de bem lhes fazem bem, enquanto que
eu, com esta idade, sou ainda tão ignorante que
nem ainda sei que, tor- nando malvado um
daqueles que convivem comigo,
APOLOGIA DE SÓCRATES 33

corro evidente risco de ser vítima dele mesmo! E é,


então, deliberadamente segundo dizes, que assim
pro- cedo! Não, Meleto, disto é que tu não
convencerás seja quem for, nem a mim, nem, creio,
pessoa alguma do mundo. Por conseguinte, ou não
sou um corruptor, ou, se corrompo alguém, é sem
querer. Num caso, como no outro, mentes. De resto,
se corrompo alguém sem o querer, estamos em
presença de uma destas faltas invo- luntárias que,
segundo a lei, não são das atribuições deste
tribunal, impondo-se sòmente advertir ou repreen-
der o autor em conversa meramente civil. Porque, é
de supor que, se eu fosse esclarecido, não poderia
mais voltar a fazer o mal que antes fazia sem querer.
Não obstante, dispensaste-te, por tua parte, de vir
conversar comigo, a fim de me esclarecer. Não
quiseste ter esse trabalho. Preferiste citar-me perante
este tribunal, que a lei reserva para aqueles que é
necessário castigar, mas não àqueles que incumbe
sòmente advertir.
Isto basta, creio, Atenienses, para demonstrar,
como há instantes vos disse, que Meleto nunca teve o
menor empenho em olhar para este assunto: o da
educação.

Sócrates interroga No entanto, explica-nos, Meleto: —


com insistência o De que maneira achas que
seu acusador corrompo a juventude? Do texto da
tua queixa parece depreender-se que a corrompo
ensinando-a a descrer nos deuses em que a Cidade
crê, e a crer noutros, em novos deuses. Será, na
verdade, assim, em teu entender, que a corrompo ?
—Com efeito, formalmente o afirmo. — Nesse caso,
Meleto, em nome desses mesmos deu- ses que lemos
em vista, explica-nos mais claramente o
34 PLATÃO

leu pensamento, aos juizes presentes e a mim


próprio. Há uma coisa que não compreendo bem:
se admites que ensino a existência de certos deuses,
de maneira alguma posso ser apontado como ateu, e
portanto, nesse ponto, a acusação está deslocada; se
pretendes sòmente que os meus deuses não são só os
da Cidade, mas sim outros, acaso pode isso constituir
base suficiente para a tua acusação? Ou sustentarás,
antes, que não creio em deus algum e que ensino a
descrer de todos?
— Sim; é isso mesmo o que sustento. Afirmo
que não crês em deus algum.
— Admirável segurança a tua, Meleto! Mas,
enfim, que queres dizer com isso? que não reconheço
sequer a lua e o sol como deuses, como toda a
gente?
— Não, juizes, ele não os reconhece como tais.
Ele afirma que o sol é uma pedra e que a lua é uma
terra.
— Mas é Anaxágoras que estás a acusar, meu
caro Meleto! Na verdade, consideras muito
depreciativamente estes juizes; estás a julgá-los tão
iletrados, a ponto de os supor desconhecedores dos
livros de Anaxágoras de Clazómenas e das teorias de
que estão cheios? Quem te ouve, haveria de julgar
que os mancebos têm por cos- tume procurar-me
para se instruírem, depois de haverem comprado, nas
ocasiões usuais, esses livros na orques- tra .('), por
uma dracma, o máximo, e em seguida escar-

(1) Deste curioso passo se conclui que se vendiam em certas


ocasiões manuscritos na orquestra, parte do teatro situada em
frente do tablado. A «dracma> era uma moeda grega equivalente,
mais ou menos, em moeda portuguesa de hoje, a dois ou
três escudos. V «mina» era o valor de cem dracmas. Os bens
imóveis de Sócra- tes valiam — dizia-se — cerca de cinco minas.
APOLOGIA DE SÓCRATES 35

necer Sócrates, por ele dar essas ideias como suas.


Tanto mais que essas teorias são bastante singulares.
Enfim, por Zeus, qual é o teu pensamento: creio
ou não creio em deus algum?
— Em nenhum, por Zeus, absolutamente
nenhum.
— Que descrença, Meleto! por esse andar,
acaba- rás por não acreditar em ti mesmo. O
pensamento que me sobrevêm, Atenienses, é este: que
Meleto está a zom- bar impudentemente de todos
nós. Na sua acusação, tal como a redigiu, manifesta-
se insolentemente a teme- ridade mistificadora
própria da sua idade. Para comigo, penso que ele quis
forjar um enigma para me pôr à prova. «Vejamos (terá
ele planeado) se o sábio que é Sócrates se
aperceberá que me divirto e me contradigo, ou se
consigo mistificá-lo e com ele os nossos ouvintes».
Para mim, é evidente que ele, com íntima satisfação, se
contra- diz na sua queixa, a qual, em síntese,
equivale a dizer: «Sócrates comete o delito de não
crer nos deuses, se bem que, de facto, creia nos
deuses». Que é isto senão uma brincadeira ?
Examinai comigo, juizes, as razões por que assim
interpreto o que ele diz; e tu, Meleto, responde-me.
Sim- plesmente, lembrai-vos bem do que vos pedi de
começo, e não protesteis por o interrogar à minha
maneira:
— Dize-me cá, Meleto: haverá algum homem,
que creia na realidade das coisas humanas, sem
crer na realidade dos homens?... (Vamos, que ele
me responda juizes, e que não proteste por isto e
aquilo). Haverá alguém que não acredite nos cavalos,
acreditando todavia na equitação? alguém que não
creia nos tocadores de flauta, acreditando no
entanto na sua arte?
— ... (O acusador de Sócrates mantém-se em silêncio).
36 PLATÃO

— Não, meu caro; não. Visto que não queres


res- ponder, responderei por li e por estes.
Responde-me, porém, pelo menos, a isto o que te
vou perguntar:
— Haverá alguém que acredite no poder dos
demó- nios, se bem que não acredite nos próprios
demónios? (1).
— Não, não há.
—Que serviço que me prestas, respondendo-me
desta vez, embora de mau grado e só porque estes
juizes te obrigam. Assim, pois, declaras que creio no
poder dos demónios e que ensino a sua existência,
embora não digas com precisão se se trata de
demónios antigos ou novos. Sim, em teu parecer,
creio no poder dos demó- nios. Foi o que disseste e
juraste ao apresentar a tua queixa pública. Mas, se
creio no poder dos demónios, é absolutamente
necessário que eu creia também nos demónios. Não é
assim? Julgo lícito supor que estás de acordo, visto
que não respondes... Ora, diz-me: — Devemos
considerar os demónios como deuses ou filhos dos
deuses? Sim ou não?
— Sim, evidentemente.
— Nesse caso, se admites, como dizes, a
existência dos demónios e se, por outro lado, os
demónios são, de certo modo, deuses, tenho ou não
razão em dizer que falas por enigmas e que estás
apenas a brincar con- nosco? Afirmas em primeiro
lugar que não creio nos deuses, e em seguida dizes
que creio nos deuses, visto que acredito nos
demónios! Outra hipótese: se os demó-
(1) Este termo «demónios» designava, então, na linguagem
de uso corrente, seres supostos intermediários entre os deuses e
os homens, sem implicar nenhuma ideia de malefício. A explicação
encontra-se no Banquete, de Platão. (Nota de Croiset).
APOLOGIA DE SÓCRATES 37

nios são filhos bastardos dos deuses, nascidos,


conforme se diz, das ninfas ou de outras mães,
quem poderá admitir que há filhos de deuses, e ao
mesmo tempo afirmar que não há deuses? Seria
como se disséssemos que há mulos provenientes de
éguas e jumentos, mas que não há éguas nem
jumentos. Não, Meleto, não é crível que assim
formulasses a tua queixa, se o teu intento fosse
outro que não este: o de me pôr à prova. A não ser
que não tenhas conseguido descobrir uma razão de
queixa mais séria contra mim.
Seja como for, é inadmissível que alguém, por
pouco sensato que seja, se persuada que um homem
possa crer na existência dos demónios e não admita a
dos deuses, ou, então, que não aceite a existência
nem dos demó- nios, nem dos deuses, nem dos heróis.
Isso é que é radi- calmente inadmissível. Posto isto,
Atenienses, julgo não ter necessidade de
demonstrar com mais demora que a acusação de
Meleto não tem fundamento algum. O que acabo de
dizer parece-me suficiente.

Sócrates perante Aludi, entretanto, há instantes, às mui-


a a meaça da tas inimizades que têm recaído sobre
pena de morte mim. De facto, nada mais exacto, deveis
reconhecê-lo. Tanto assim, que, se for condenado, não
será nem Meleto, nem Anito, quem pesará mais
nessa condenação, mas essas multiplicadas calúnias,
essa malevolência. E ela mesma, aliás, a que já causou a
perda de muitos homens de bem e que per- derá
ainda, sem dúvida, muitos outros, — visto não ser pro-
vável que eu seja o último a sofrer de tal malquerença.
«Mas, ouve cá, Sócrates! (talvez me digam), na ver-
dade, não terás vergonha de ter levado a vida que
de
38 PLATÃO

todos nós é conhecida e que hoje te põe em perigo de


morte?» A isso, julgo-me na necessidade de
responder: «É lamentável, meu amigo, afirmar, como
fazes, que um homem de algum merecimento deva
fazer as contas sobre as probabilidades de vida e de
morte, em vez de consi- derar unicamente se é justo
ou não o que faz, se pro- cede como homem de ânimo
firme ou pessoa de coração pusilânime. Segundo o
teu modo de ver, parece que pouca estima nos
deveriam merecer aqueles semideuses que morreram
diante de Tróia, nomeadamente o filho de Tétis, para
quem o perigo era tão pouca coisa, compa- rado com
a desonra. Como sabeis, quando a mãe o viu ansioso
por matar. Heitor, ela, que era deusa, disse-lhe mais
ou menos isto, se a memória não me atraiçoa:
«Meu filho, se vingares a morte de teu amigo
Pátroclo e deres a morte a Heitor, morrerás também —
e imediata- mente após Heitor. Acredita no que te
digo. Tal é o decreto do destino». Não obstante o
aviso, o filho de Tétis desprezou a morte e o perigo.
E porquê? Porque, mais do que tudo, causava-lhe
horror viver como covarde, desistindo de vingar o
seu amigo: «Pois bem! dizia, que eu morra
imediatamente, contanto que cas- tigue o assassino.
O que eu não quero é ficar aqui, digno do escárnio,
junto dos navios recurvos, como inútil fardo da
terra!». Pensas tu que ele teve em alguma consideração
a morte ou o perigo?
É que o verdadeiro preceito, Atenienses, é êste.
Quem tem a cumprir uma determinada missão, tenha
ela sido escolhida pelo próprio como a mais
edificante, ou tenha sido determinada por alguém
que a ordene, tem por obrigação, em meu
entender, manter-se firme, no seu cumprimento, e
sacrificar-se com dignidade, seja
APOLOGIA DE SÓCRATES 39

qual for o risco, sem se preocupar nem com a morte


possível, nem perigo algum. Se, em quaisquer circuns-
tâncias, me conduzisse de modo diferente, esquecen-
do-me deste princípio, então, sim, Atenienses,
deveria ser tido como culpado, e muito culpado.
Pois quê! quando os chefes militares eleitos por vós
me indi- caram a ocupação de um determinado
posto em Poti- deia (1), em Anfipolis (2), em Délio (3),
mantive-me inflexivelmente no lugar designado,
indiferente a todo o risco de morte, — e, quando um
deus me designa uma determinada missão, a de viver
filosofando, discutindo comigo e com os outros, achais
que eu, com receio de morrer, ou de qualquer outro
receio, deveria desertar do meu posto! Ah! então é
que teria sido sacrilégio! então é que seria justo
trazerem-me perante vós e acusarem-me de não crer
nos deuses, pois teria desobedecido ao orá- culo com
medo de morrer, julgando-me saber o que na verdade
não sei!
Com efeito, juizes, - que é temer a morte senão
pressupor em nós um saber que de facto se não
possui? Não é imaginar que se sabe o que se
ignora? Porque, no fim de contas, ninguém sabe o
que é morte, nem nin- guém sabe se ela não será para
o homem o maior dos bens, E, contudo, todos ou
quase todos a receiam como se soubessem que ela é
o maior dos males.
Porventura, esta ignorância, que consiste em
crer que se sabe o que de facto não se sabe, não será
deve- ras repreensível ?

(1) Cerco de Potideia (432-429).


(2) Batalha de Anfipolis (422). (8) Batalha de Délio (429).
40 PLATÃO

Pois bem, juizes, é seguramente nisto que mais me


distingo da maioria das pessoas; e se, por alguma
razão me julgassem superior a qualquer um quanto
ao saber, só por esta razão o poderia admitir: a de
que, desco- nhecendo o que haverá depois da Morte
(1), não me iludo em supor que sei o que na
realidade ignoro. O que sei é isto sòmente: que é
vergonhoso fazer mal e desobedecer a quem quer
que seja melhor que nós, seja deus ou homem. Por
isso, nunca serei aquiescente para com um mal que
como tal reconheça, com o fim de evitar uma coisa
que não sei se é boa ou má.

Sócrates não tran- Por conseguinte, suponhamos que


sacciona a sua liber- quereis absolver-me, apesar do
dade de filosofar que Anito há pouco vos disse,
quando deste modo vos advertiu: «Ou bem que não se
trazia Sócrates perante este Tri- bunal, ou trazendo-o,
como se trouxe, é necessário con- dená-lo à morte;
porque, se ele for absolvido, vossos filhos, pondo em
prática o que ele ensina, acabarão por se perder
inteiramente». Admitamos que, apesar disto, me
dirigíeis estas palavras: «Sócrates, as razões de Anito
não nos convencem. Vamos, pois, absolver-te; com esta
condi- ção, porém: a de que não tornarás a ocupar-te a
interrogar as pessoas nem a filosofar. Se pretendes
voltar a tal, então morrerás». Perante tal condição,
juizes, se entendêsseis impor-ma para me absolver,
dir-vos-ia: «Atenienses, muito me custa, porque
deveras vos estimo, mas prefiro obedecer ao
mandamento divino do que ao vosso.
(1 ) O que se passa no Hades, diz o texto grego. (Nota de

Croiset).
APOLOGIA DE SÓCRATES 41

Enquanto tiver um sopro de vida, enquanto me


sentir capaz, tende a certeza de que não deixarei de
filosofar, nem de vos exortar, nem de instruir
todo aquele que se oferece no meu caminho. E
dir-lhe-ei sempre, como é costume meu: «Pois
quê, caro amigo! tu, que és Ateniense, natural de
uma grande cidade, cujo renome é maior que o de
nenhuma outra pela sua ciência e poderio, tu na
verdade, não terás pejo de dar tantos cuidados aos
teus negócios, tão preocupado em fazê-Ios prósperos,
tão interessado com a reputação e a fortuna— e, por
outro lado, quanto à razão e à verdade, quanto à
tua alma, — que tanto necessitavas de melhorar
constan- temente, — de tal não te preocupas, nem
pensas sequer ao de leve ?»
E se algum dentre vós me contestar e afirmar
que, sim, que se preocupa também com a alma, não
julgueis que, sem mais, o deixarei, indo logo embora;
não; interro- gá-lo-ei, examiná-lo-ei e discutirei a
fundo com ele. E se vir que ele não possui, afinal,
contra o que me dizia, a reflexão da virtude,
repreendê-lo-ei de atribuir tão baixo preço ao que
merece o mais elevado, e tão alto valor ao que tão
pouco vale. Perante o mancebo ou o homem maduro,
do estrangeiro ou concidadão, seja quem for aquele
que se me depara, assim sempre procederei, e muito
principalmente perante vós, concidadãos, pois vos
estou ligado mais intimamente pelo sangue. Não
esqueçais; essa tarefa foi a que o oráculo me indicou.
Aliás, por minha parte, considero-a proveitosa como
nenhuma outra para a Cidade; por isso deponho
tanto zelo em compri-la. De facto, o meu único
ofício é o de - andar pelas ruas para vos persuadir,
novos e velhos, a que não vos preocupeis tanto nem
do vosso corpo nem
42 PLATÃO

da vossa riqueza mas da vossa alma, a fim de a


tornar tão boa quanto possível. Sim! a minha
missão é a de vos dizer que a riqueza não faz a
virtude, mas que é da virtude, que deriva a fortuna e
tudo o que é estimável, tanto nos negócios
particulares como nos do Estado.
Se é por discursos deste género que corrompo a
juventude, compreendo que se considere a minha
convi- vência nociva. Mas que se pretenda que não é
nestes termos que sempre falo, não compreendo;
ninguém digno de crédito o poderá dizer.
Em conclusão, dir-vos-ia: «acreditai ou não
acredi- tai, Atenienses, no que vos diz Anito; podereis
absol- ver-me ou não me absolver; tende a certeza
de que jamais modificarei a minha maneira de agir,
ainda que tivesse de correr mil vezes risco de morte».

É, sim, o interesse dos E agora, Atenienses, por


Atenienses que está em causa favor, não me interrompais;
e não o de Sócrates esforçai-vos, como já vos
pedi, por não protestar, diga eu o que disser, e tende a
paciência de me ouvir. Tenho boas razões para supor
que tirareis daqui algum pro- veito. Sem dúvida,
algumas coisas que tenho para vos dizer poderão
provocar-vos o desejo de protestar. Tende, porém,
paciência.
Antes de mais, desde já vos digo: se me condenar-
des à morte, sendo quem sou, não será a mim que
fareis o maior mal, mas a vós mesmos. A mim, nem
Meleto, nem Anito tem o poder de me causar qualquer
prejuízo, por menor que seja. Como poderiam tal ? Em
meu enten- der, nenhum homem de merecimento pode
ser lesado por quem nada vale. Claro está, é possível
a um acusador
APOLOGIA DE SÓCRATES 43

hábil fazer-me morrer, ou exilar-me, ou privar-me dos


meus direitos cívicos. E tal acusador poderá decerto
dizer que essas penas são grandes desgraças. Eu,
porém, não penso assim. Por mim, considero muito
maior des- graça fazer o que ele, acusador, faz,
quando se esforça por fazer matar injustamente um
homem. Atendei, pois: não é a mim mesmo, como se
poderia crer, que dedico, neste momento, estas palavras
de defesa. A mim, tanto me vale. É por vós que faço
este discurso. O meu receio é que, condenando-me,
vos torneis culpados de desprezar o que a divindade
vos concedeu.
Reflecti nisto um pouco: se me condenardes a
morte, não encontrareis fàcilmente um outro homem, —
digo-vos isto, correndo embora o risco de vos fazer
sorrir, — um homem que vos seja dado por alvedrio dos
deuses, a fim de vos estimular tal qual um moscardo (1)
estimula um cavalo corpulento e de boa raça, mas um
pouco mole por via da própria corpulência e
necessitado de ser aguilhoado.
Este ofício é aquele, julgo, que a divindade me
designou. Por essa razão, não cesso de vos estimular,
de vos exortar e de repreender cada um de vós,
perse- guindo-vos por toda a parte, de manhã à
noite.
Não, juizes, não encontrareis fàcilmente um
outro como eu; e por conseguinte, se bem me
julgardes, con- serva-me-eis decerto preciosamente.
Mas é também pos- sível que, por um golpe de
impaciência e cólera, como as pessoas
estremunhadas, presteis ouvidos a Anito, e nesse
caso, levianamente, me condeneis à morte. Feito
(1) A palavra grega significa ao mesmo tempo esporão e mos-
cardo. Pelo contexto, parece preferível o segundo sentido. (M.
Croiset).
44 . PLATÃO

isso, passareis o resto da vida a dormir; a não ser


que o mesmo deus, por ter pena de vós, vos envie
alguém que me substitua. Seja como for, não duvideis
que sou, real- mente, um homem atribuído à cidade
por mandato divino. Perguntai a vós mesmos se será
humanamente possível desprezar, como tenho
desprezado, todos os interesses pessoais e suportar as
consequências dessa isenção durante tantos anos, e
isto a fim de me dedicar a vós exclusivamente, tomando
junto deste e aquele o lugar de um pai ou irmão mais
velho, compelindo cada um a tornar-se cada vez
melhor. Na verdade, se daí colhesse algum proveito,
se vos desse conselhos em troca de alguma
recompensa pecuniária, a minha existência esta- ria
humanamente explicada. Mas, como vedes, os
meus acusadores, que tão impudentemente
acumularam contra mim tantas queixas, não
conseguiram trazer uma testemunha sequer que viesse
aqui depor que algum dia me fiz pagar ou que algum
dia pedi fosse o que fosse. É porquê? Porque, quanto
a testemunhas, eu apresento uma que garante
suficientemente a verdade do que afirmo; essa
testemunha é a minha pobreza.
Por que razão Sócra-Uma particularidade, no entanto,
tes se tem abstido pode parecer estranha: Como
de participar dos explicar que, concedendo eu,
negócios políticos assim, os meus conselhos a este e
àquele e interessando-me um pouco por todos os
assuntos, nunca tenha dado sinais de querer agir
politicamente, não ousando falar em público, nem dar
conselhos à cidade? Isto provém, como muitas vezes
me ouvistes declarar em muitos lugares, de uma
espécie de voz íntima, de um espírito divino que
dentro
APOLOGIA DE SÓCRATES 45

de mim se manifesta e ao qual Meleto fez


referência na sua acusação, escarnecendo-o. É
alguma coisa como uma voz que ouço desde a
infância, e que tem sempre sobre mim o efeito de me
desviar do que estou para fazer, sem contudo me
obrigar a agir como sugere ou indica. É ela que se
opõe a que eu intervenha nos negó- cios políticos.
Considero, de resto, para mim, esse impe- dimento
muito feliz. Com efeito, notai isto bem, Atenienses: se me
tivesse dedicado à política, há muito que estaria
morto; e portanto não poderia ter sido útil, nem
para vós, nem para mim mesmo. Por favor, não vos
irriteis por me ouvirdes dizer algumas verdades:
nenhum homem pode evitar a condenação à morte,
desde que se decida a opor-se, ainda que de forma
discreta mas sincera, perante vós, ou perante
qualquer outra assembleia popular, e que se dedique
a impedir as injustiças ou ilegalidades dentro da
cidade. Sim, se qualquer pessoa se decide a pugnar a
valer pela justiça e se, por outro lado, deseja
conservar a vida por algum tempo, terá de agir como
simples particular e não como político. E posso dar-vos
provas concludentes do que afirmo; não provas
verbais, mas daquelas que são do vosso especial
apreço; quero dizer: factos. Permiti que vos diga o
que suce- deu. Vereis que não sou homem
propenso a fazer qualquer concessão à injustiça por
receio da morte, e por isso, desde que não seja, como
não sou, feito para ceder, infalivelmente estaria
condenado. Neste ponto, quero falar um pouco à
maneira vulgar dos advogados, mas com toda a
franqueza.
Nunca exerci, entre vós, Atenienses, senão uma
única vez, uma função pública: a de membro do
Con- selho. Ora deu-se o caso de que era a minha
tribo, a
46 PLATÃO

Antióquida, a que estava em exercício da pritania


(1), por ser essa a sua vez, na ocasião em que vós
preten- díeis julgar em bloco os dez estrategas que
não haviam recolhido os mortos depois do combate
naval (2). Ora êsse processo seria ilegal. Vós mesmos o
reconhecestes depois. Todavia, nessa ocasião, dentre
os que constituem o Pri- taneu, um só vos fez frente,
a fim de vos impedir a viola- ção da lei; só eu, e mais
ninguém, votei contra o vosso desejo. Em vão os
oradores se declaravam dispostos a levantar uma
acusação pública contra mim, ameaçan- do-me com
a prisão; baldadamenie vós mesmos os inci- táveis
com as vossas gritarias; por mim, entendi que era
meu dever arrostar com o perigo em defesa da lei e
da justiça e que de modo algum devia participar do
vosso propósito injusto, apesar da ameaça de prisão e
de morte. Isto passou-se no tempo em que a
cidade vivia ainda em regime de democracia.
Quando se estabeleceu a oligarquia, os Trinta (3)
ordenaram-me que comparecesse, com mais quatro
pessoas, na Tolo (4), e aí nos intimaram

(1) Cada uma das tribos, representadas no Conselho dos


Qui- nhentos por cinquenta membros, cumpria por lei, na
sua vez o exercício da pritania. Os membros do Prítaneu
constituíam o núcleo permanente do Conselho, e era dentre
eles, no tempo de Sócrates, que saía o presidente da
Assembleia. (Nota de M. Croiset).
(2)) Trata-se da batalha naval das Arginusas, em 406. A
lei exigia que os acusados fossem julgados individualmente.
O povo,
, irritado, queria condená-los em bloco. (Nota de M. Croiset).
(3) Sócrates refere-se, como se sabe, aos Trinta Tiranos
que governaram Atenas durante algum tempo, após o final
desastroso da guerra do Peloponeso.
(4) Assim era designado, em Atenas, o edifício que servia
de sede dos Magistrados em exercício de pritania, eleitos pelo
Conselho, naturalmente ocupado pelos Trinta durante o
governo oligárquico
APOLOGIA DE SÓCRATES 47

a ir a Salamina buscar Leonte, a fim de ele ser


executado. Tais ordens eram então dadas muitas
vezes por eles, (os Trinta Tiranos), a muitas pessoas,
porque o que eles queriam era associar aos seus crimes
o maior número possível de cidadãos. Nessa
oportunidade provei não por palavras, mas por
actos, que a morte, — desculpai que vos diga isto com
esta sem-cerimónia, — é, para mim, um assunto de que
não faço caso; o que me interessa capitalmente é não
fazer seja o que for que me pareça injusto ou ímpio.
Por isso, a autoridade dos Tiranos, por muito forte que
tenha sido, não conseguiu extorquir-me por medo um
acto injusto. E assim foi que, enquanto eu saía dá Tolo,
os meus quatro companheiros se dirigiram a Salamina
e Trouxeram Leonte consigo. Por mim, muito
simplesmente, regressei a minha casa. E certamente
teria pago com a vida o que então fiz, se o governo
dos Trinta não tivesse sido derrubado pouco depois.
Êstes factos poderão ser ainda confirmados perante
vós por muitas pessoas.
Agora, dizei-me: — Admitis, porventura, que
poderia ler vivido até esta idade se, com êste
meu feitio, me tivesse dado à política e se tivesse
tomado a peito a defesa da justiça, pondo-a, como
a todos cumpre, acima de tudo? Parece-me bem
que não, Atenienses. E estou persuadido que outro
qualquer não se sairia melhor dessa experiência. De
facto, creio que o reco- nheceis, durante toda a minha
vida, nas funções públicas que por casualidade exerci,
sempre me mostrei assim. Na minha vida íntima,
igualmente, nunca fiz a menor concessão a quem quer
que. fosse contrário à justiça, nem mesmo a nenhum
daqueles que os meus calunia- dores chamam meus
discípulos.
48 PLATÃO

Os pretensos discí- A bem dizer, discípulos nunca tive


pulos de Sócrates um sequer. Se um ou outro, novo
ou velho, tem a curiosidade de me ouvir quando falo,
cumprindo a minha missão, pode ouvir-me à vontade,
pois nunca recuso tal direito a nin- guém. Não sou
dos que falam sòmente quando lhes pagam e que
não falam quando não recebem paga.
Por mim, estou sempre ao dispor, sem distinção, do
pobre como do rico, para que me interroguem, ou, se
preferem, para que os interrogue e ouçam o que
tenho a dizer. Se algum desses tais vem a seguir bom ou
mau caminho, nada tenho com isso. Quem poderá
atribuir esses desvios às minhas supostas lições,
sabido como é que nunca me propus dar lições, nem
algum dia leccio- nei fosse quem fosse? Se alguém
disser que me ouviu algum dia em particular, como
preceptor ou didacta, acerca de algum assunto que
muitos outros não tenham igualmente ouvido, podeis
ter a certeza que não diz a verdade.
Nesse caso, — dir-se-á, —• qual será a razão por
que certos ouvintes manifestam tanta satisfação em
gastar o melhor do seu tempo junto de ti?» Crede-me,
Atenien- ses, como já vos disse com a maior
franqueza: é que a esses tais agrada ver como
demonstro, quando converso com certas pessoas que
se julgam sábias, que afinal, tais pessoas não são
nada sábias. E, de facto, isto não deixa de ter seus
atractivos. Para mim, insisto, não é um atractivo; é um
dever que a divindade me prescreve por intermédio
de oráculos, de sonhos, e por todos os meios de que
qualquer potência divina tem ao seu dis- por para
ordenar alguma coisa a um homem.
O que vos digo, Atenienses, é exacto e fácil de
veri-
APOLOGIA DE SÓCRATES 49

ficar. Porque, se na verdade me dedico


presentemente a corromper certos mancebos e se já
corrompi outros, necessariamente alguns destes
últimos, tendo atingido a maturidade, deveriam ter
reconhecido que lhes dei maus conselhos quando
jovens, e hoje, por força, aqui se apresentariam
para me acusar e me fazer punir. Ou então,
admitindo que eles mesmos não quisessem
pessoalmente acusar-me, algumas pessoas das suas
famí- lias, pais, irmãos, ou outros parentes, desde que
eu tivesse feito mal a alguns dos seus, nesta altura
não deixariam de se lembrar disso e de vir
apresentar suas recrimi- nações. Ora, muitos desses,
que em outros tempos habi- tualmente me ouviam,
aqui se encontram presentes. Estou daqui a vê-los. É, em
primeiro lugar, Críton (1), meu amigo de infância e da
mesma gens a que pertenço, pai de Critóbulo, aqui
presente também. Vejo Lisânias de Esfeto, pai de
Esquines (2), igualmente presente. Assim como
Antífon de Cefísia, pai de Epígenes. E outros ainda,
cujos irmãos muitas vezes me ouviram, como por
exem- plo, ali, Nicóstrato, filho de Teozótides, irmão
de Teó- doto. E, vede: Teódoto tendo já morrido, não
se poderá dizer que possa interceder junto dele a
meu favor.

(') Críton era um rico ateniense, amigo ínfimo de


Sócrates. Foi ele quem lhe propôs a fuga da prisão, prontificando-
se a todas as despesas do suborno, da fuga e do desterro.
Sócrates, porém, com a maior firmeza, recusou esse recurso,
apresentando razões ao mesmo tempo de ordem pessoal, política
e metafísica. Essa discussão de Críton com Sócrates é o tema do
diálogo platónico que tem o nome do rico ateniense,
(2) Não se trata do orador, mas sim de outro personagem
homónimo. Diógenes Laércio identifica-o (cf. II, c. 7. (Nota de M.
Croiset).
50 PLATÃO

Mas há mais: ali está Paralalo, filho de Demódoco,


irmão de Teages, que já não vive. Outro ainda: Adi-
manto, filho de Aríston, de quem Platão, aqui
presente, é irmão. E Aiantodoro, cujo irmão,
Apolodoro (1), vejo acolá. E quantos outros ainda
poderia indicar! Como se explica que Meleto não
tenha citado alguns deles, na sua acusação ? Se foi
por esquecimento, que o faça ainda formalmente. Por
mim, autorizo-o a que os convoque. Sim!, se ele vê que
pode citar algumas destas testemunhas, pode invocá-
las. Então vereis, juizes, como, ao contrário do que
seria de supor, essas testemunhas se manifestarão a
meu favor e não contra, embora, no dizer de Meleto e
Anito, eu tenha corrompido os seus ou os tenha per-
vertido a eles mesmos. É certo que aqueles que estão
corrompidos poderiam ter alguma razão em querer
aju- dar-me neste momento. Mas aqueles que não o
foram, os que estão já na maturidade, e seus parentes,
que motivos poderiam eles ter para depor a meu
favor, a não ser o da lealdade e da justiça, e a não
ser o seu reconheci- mento de que Meleto mente e de
que eu digo a verdade ?

Mas basta! O que poderia dizer


Sócrates recusa-se a
em minha defesa, juizes, reduz-se
recorrer a súplicas
mais ou menos a estas objecções, ou a quaisquer
outras desta natureza. Simplesmente, é possível que
ura ou outro dentre vós, recordando-se de alguns
factos pessoais, possa indignar-se porque, fendo
estado algum dia envolvido em algum caso menos
grave do que este meu, se recorde, com desgosto,
de haver
(1) Um dos amigos mais dedicados de Sócrates.
APOLOGIA DE SÓCRATES 51

pedido e suplicado a clemência dos juizes à fôrça de


lágrimas, trazendo mesmo consigo os filhos de lepra
idade para melhor os enternecer, e ainda por cima os
parentes com numerosos amigos, enquanto, por
minha parte, de modo algum me mostro disposto a
fazer qualquer coisa dêsse género, se bem que,
segundo as aparências, com o risco de pena capital.
Talvez esse pensamento indisporá contra mim esse meu
possível juiz e ouvinte e, por isso, indignado com a
minha atitude, o seu voto seja colérico. Pois bem, se
assim for, (o que, aliás, não quero crer) se tal se der
em algum, eis o que me julgo no direito de lhe dizer:
— Eu, também, caro amigo, tenho os meus; visto que,
como diz Homero, não nasci de um roble nem de
um penedo, mas de seres humanos; por
conseguinte, tenho parentes; e tenho também filhos;
com precisão, três, um dos quais já crescido e dois
ainda peque- nos, Apesar disto, Atenienses, não
mandarei vir nenhum deles, nem vos suplicarei
para que me absolvais. E porque não farei isso? De
maneira alguma julgueis, Atenienses, que é por
desafio ou para vos demons- trar desprezo. Que
eu tenha ou não medo da morte, isso não importa
ao caso. A minha atitude provém do parecer íntimo
de que a minha dignidade, a vossa e a da cidade
inteira seriam duramente atingidas se, nesta idade
em que estou, e com a reputação que, sem razão ou
com razão, adquiri, me apresentasse perante vós
suplicante. Que quereis? A opinião estabelecida é a
de que Sócrates por alguma coisa se distingue da
maioria dos homens. Ora, se aqueles que dentre vós
passam por se distinguir seja pelo saber, seja pela
coragem, seja por qualquer outro mérito, se
comportassem dêsse modo, em atitude de suplica
dir-se-ia sem dúvida que era uma
52 PLATÃO

vergonha. É certo que tenho visto mais de um desses


homens da elevada reputação, considerados como
per- sonalidades de valor, comportarem-se perante
o tri- bunal da maneira mais imprevista, preferindo
lamen- tar-se a suportar com firmeza os riscos da
suprema condenação. Será, acaso, por se suporem
imortais, desde que não os condeneis à morte?
Não sei. Por minha parte, penso que eles desonram a
cidade. O modo como se comportam poderia induzir
qualquer estran- geiro a supor que os Atenienses
tidos como dotados de maior merecimento, aqueles
que os seus concidadãos elegem dentre todos para
lhes confiar magistraturas e dignidades, não possuem
maior coragem que as mulhe- res. Eis porque,
Atenienses, não devemos ter nestes momentos tais
fraquezas, por modesta que seja a nossa posição à vista
daqueles que gozam de renome. E, ten- do-as, o
vosso dever é este: longe de vos deixar- des
comover, o que vos cumpre é ser ainda mais reso-
lutos na decisão de condenar todos os que
desempenham perante vós esses lacrimosos dramas e
cobrem a cidade de ridículo. Ao contrário, julgo eu,
devereis ser impecá- veis perante aqueles que, nestes
transes, se comportam com decência.
De resto, à parte a questão da dignidade, parece-
me não ser justo dirigir súplicas aos juizes,
arrancando-lhes, por meio de pedidos lamurientos
uma absolvição que deve ser obtida pela pura
exposição dos factos e pela persuasão. O juiz não deve
ocupar o seu lugar para fazer da justiça um favor,
mas para decidir o que é justo. O seu juramento
foi o de que julgaria segundo a lei e não que
favoreceria arbitrariamente aquele ou aqueloutro. Por
conseguinte, nem nós, os que somos julgados, deve-
APOLOGIA DE SÓCRATES 53

mos habituar-nos ao perjúrio, nem vós, os que julgais,


tão-pouco deveis a tal acostumar-vos. Tanto uns
como outros ofenderiam os deuses.
Portanto, Atenienses, não exijais que me
comporte para convosco de alguma maneira que
não me pareça nem digna, nem justa, nem agradável
aos deuses; e prin- cipalmente, por Zeus, quando sou
acusado de impiedade por Meleto, que está aqui, em
nossa presença. Porque, salta aos olhos, se vos
persuadisse, à custa de súplicas, a absolver-me, seria
o mesmo que violentar o vosso jura- mento e ensinar-
vos a crer que não há divindades. Defen- der-me
desse modo seria o mesmo que acusar-me
patentemente como descrente.
Mas acabemos. O que for, será. Aceitarei de
boa ' vontade o que vier. Por minha parte, Atenienses,
con- sidero-me mais crente que nenhum dos meus
acusadores. Eis por que entrego ao vosso arbítrio e ao
dos deuses o cuidado de decidir o que será melhor,
tanto para mim, como para vós.
SEGUNDA PARTE

PALAVRAS PROFERIDAS POR SÓCRATES


AP ÓS A PRI M EIR A FA S E D A D E CI SÃ O J UD I CI A L :
OU S E JA , A P ÓS A DE C LAR AÇ ÃO DO T RIB U NA L
DE O CONSIDERAR CULPADO

Reflexões sobre Se não me indigno ao acabar de ser


a s e n t e n ç a condenado por vós, Atenienses, é por
diversas razões, e nomeadamente por esta: porque,
de certo modo, já contava com ela. O que me
admira, é, sim, a proporção segundo a qual os
Votos se repartiram. Na verdade, estava longe de
pen- sar que se, pronunciaria contra mim uma tão
pequena maioria; supunha que se manifestaria uma
muito mais forte. Visto que, se não me engano
nos números, bastaria uma deslocação de trinta
votos para ter sido absolvido. Daí concluo que,
relativamente à acusação apresentada por Meleto,
devo considerar-me absolvido. Mais ainda: já
ninguém pode duvidar que, se Anito e Lícon não
tivessem vindo a auxiliar a acusação, Meleto leria sido
certamente condenado a pagar uma multa de mil
dracmas, por não haver obtido a precisa quinta parte
dos votos.
56 PLATÃO

Apreciação das diver- Agora propõe ele que eu seja


sas pe nas poss íve is condenado à morte. Seja. Por
minha parte, Atenienses, que deverei propor?
Evidentemente que mereço uma pena. Qual? Que
espécie de sanção, que punição merecerei por haver
renunciado a uma existência tranquila, por haver
desprezado o que a maior parte dos homens tanto
prezam: riqueza, interesses pessoais, comandos
militares, triunfos de tribuna, magistraturas, coligações
e alianças políticas? por me haver persuadido que, com
os meus escrúpulos, me perderia se entrasse nessa
carreira? por não ter querido envolver-me naquilo de
que não tiraria proveito algum, nem para vós, nem
para mim? por ter preferido conceder a cada um de
vós, pessoalmente, o que julgo ser o maior dos
benefícios, — esforçando-me por persuadir cada um
de que o seu principal cuidado deve ser, não o de
olhar pelos seus bens materiais, mas pela sua pessoa,
a fim de a tornar tão perfeita e tão edificante quanto
possível? convencendo-vos, enfim, a pensar mais na
cidade do que nas riquezas da cidade, e em suma, a
aplicar em tudo estes justos princípios? Qual deverá
ser a sanção, pergunto eu, por me ter com- portado
desse modo? Se quereis ser justos, Atenienses, não
podereis negar que mereço uma boa recompensa.
Qual será a mais adequada a um benfeitor que só
necessita de tempo livre para vos exortar? A um tal
homem, Atenienses, nada melhor deveria convir do
que o ser sustentado à custa do Pritaneu. Sim, parece-
me que tal concessão seria melhor aplicada a um
homem como eu do que a qualquer um que tenha
sido vencedor em Olímpia com um cavalo de corrida,
ou um carro de dois corcéis, ou uma quadriga. Um
vencedor desse género
APOLOGIA DE SÓCRATES 57

sòmente vos pode dar uma satisfação aparente, ao


passo que eu vos concedo uma autêntica. Além disso,
ele não terá precisão de que o sustentem; e eu tenho.
Se, por conseguinte, quiserdes tratar-me com justiça
e segundo os meus merecimentos, eis o que vos
proponho: que me sustentem á custa do Pritaneu.
Pensais talvez que estas palavras, como as de há
instantes, acerca das lágrimas e das súplicas, é uma
fanfarronada. Não, Atenienses; de maneira alguma.
Falo-vos assim só por isto: por estar convencido que
não faço mal a ninguém voluntàriamente. Verifico,
porém, que não consegui convencer-vos dessa
verdade. O tempo de que dispunha para me explicar
era pouco. Ah! se fosse regra estabelecida entre nós,
como é entre outros, nunca terminar num só dia um
processo que envolva a pena de morte, mas reservar-
lhe, sim, diversas audiências, creio bem vos teria
persuadido. Assim, em tão pouco tempo, como
dissipar tão poderosas calúnias?
Reconhecendo, porém, que não faço mal a
ninguém, não quero tão-pouco, fazer mal a mim
mesmo; por- tanto, não declamarei ser justo que me
façam mal, nem propor que me inflijam uma pena.
Afinal de contas, que tenho eu a temer ? Que me
suceda o que Meleto propõe ? Acabo, porém, de vos
dizer que não sei se isso será um bem ou um mal.
Acaso deveria eu, então, escolher o que sei ser um
mal e condenar-me a outra pena? A reclu- são? Mas
porque haveria de viver eu na prisão, escra- vizado às
pessoas que estivessem incumbidas por vós de me
vigiar, à vez, entre os Onze? Uma multa? E uma
multa sob a condição de estar enclausurado até que
a tivesse satisfeito completamente? Mas isso
conduziria ao mesmo resultado, como já vos disse,
visto não dispor de
58 PLATÃO

meios para me desquitar. Deveria antes propor o


exílio? É possível que aceitásseis essa sugestão. Mas,
na ver- dade, Atenienses, seria necessário que tivesse
um grande amor à vida e fosse bastante irreflectido
para não fazer esta observação íntima: vós, que sois
meus concidadães, não podeis suportar as minhas
conversas nem as minhas apreciações. De tal modo vos
tenho importunado e irri- tado, que tratais agora
abertamente de vos ver livres de mim. Ora, pergunto:
— Poderei esperar que outros as suportem com mais
complacência? Francamente, Ate- nienses, que
«bela» existência, para um homem da minha idade
seria essa: deixar o meu país, transitar sem
descanso de uma cidade para outra, e ser escorra-
çado por ioda a parte! Porque, — estou
absolutamente certo, — a qualquer terra que eu vá,
os novos virão escutar-me, justamente como aqui. Se
os repelir, serão eles que me escorraçarão; se não os
repelir, serão os seus pais e os seus parentes, por
causa deles.
Naturalmente, poderão dizer-me: —« Mas, ouve lá,
Sócrates! — Não poderás deixar-nos em sossego e tu
mesmo viver sem esse vício das discussões ? »
Eis precisamente o que me seria muito difícil fazer
compreender a qualquer de vós. Se vos disser que
isso seria desobedecer ao mandamento divino que
ouvi e que, por consequência, não posso abster-me,
não acreditareis e pensareis que digo isto por ironia.
Se, por outro lado, disser que, para qualquer homem,
talvez o maior dos bens deverá ser o de conversar
todos os dias acerca da vir- tude, ou de outros
assuntos acerca dos quais me tendes ouvido conversar,
quando me interrogo a mim mesmo, e se acrescentar
que Uma vida sem exame não merece ser vivida, é
claro que menos ainda me acreditareis. Todavia,
APOLOGIA DE SÓCRATES 59

juizes, essa é a pura verdade; simplesmente, não é fácil


levar-vos a compreendê-la. Por minha parte, não me
julgo merecedor de sofrer pena alguma. Se possuísse
dinheiro, poderia propor uma multa que me fosse
possível pagar; porque isso não me faria mal algum.
Mas, que quereis? não o possuo. Ao menos, aceitai
estabelecer o quantitativo de tal multa em
conformidade com as minhas posses. Talvez pudesse
pagar, por exemplo, uma mina. Seja, pois, uma mina.
Aí está o que vos proponho.
Mas agora reparo, Atenienses: Platão, aqui pre-
sente, e, com ele, Críton e Critóbulo, assim como
Apolo- doro, insistem em que vos proponha 30
minas e os ofereça como meus fiadores. Pois bem,
proponho-vos essa soma: neles tereis garantes dignos
da maior con- fiança.
TERCEIRA PARTE

SÓCRATES, CONDENADO À MORTE, DIRIGE-SE DE NOVO AOS JUIZES

Eis aqui, Atenienses, como, por falta de um


pouco de paciência da vossa parte, aqueles que só
desejam desacreditar a nossa cidade irão acusar-vos e
difamar- -vos por haverdes condenado à morte
Sócrates, tão notável — dirão — pelo seu saber. Posto
que não o seja, vão dizê-lo com certeza, só pelo prazer
de vos desacre- ditar. E contudo, não teríeis muito que
esperar. Porque o curso natural das coisas em breve
vos daria satisfação. Bem vedes a minha idade. Tendo
vivido já bastante, — o meu fim aproximava-se.
O que estou a dizer não se dirige, claro está, a
todos vós, mas sòmente àqueles que me condenaram à
morte. Tenho, de resto, outra coisa a dizer-vos.
Talvez pen- seis, Atenienses, que fui condenado por
falta de discursos inteligentes, daqueles que vos teriam
persuadido, se eu tivesse tomado a peito a ideia de
que era preciso dizer tudo e fazer tudo para escapar
à vossa sentença. Ora nada menos exacto. O que me
fez falta para ser absol- vido não foram os discursos,
foi a falta de audácia e impudência necessárias para
vos fazer ver ou ouvir o que vos teria sido mais
agradável: Sócrates a chorar, a
62 PLATÃO

gemer, a fazer e a dizer coisas que considera


indignas de si, em uma palavra, a fazer tudo o que
estais habi- tuados a ouvir de outros acusados. Mas,
não; como há pouco vos disse, não admito que, para
escapar à morte, tivesse o direito de fazer fôsse o que
fosse que me pare- cesse covardia, e não me
arrependo neste momento de ter procedido como
procedi.
Ah! quanto melhor é morrer depois de uma defesa,
assim, do que viver por tal preço! Nem eu, nem
homem algum, seja perante um tribunal, seja na
guerra, deve procurar esquivar-se à morte por todos os
meios. Sabe-se que, muitas vezes, em uma batalha, há
pro- babilidades de sobreviver, lançando fora as
armas e pedindo misericórdia ao inimigo que nos
acossa. Do mesmo modo, em todos os outros
perigos, há muitos meios de escapar à morte se uma
pessoa se decide a fazer tudo e a dizer tudo.
Simplesmente, - prestai atenção a isto, juizes! - o difícil
não está em evitar a morte, mas em evitar fazer o mal.
O mal, vede, corre atrás de nós mais depressa que a
morte. Isto explica que eu, que sou velho e vagaroso,
me deixei agarrar pelo mais lento dos dois corredores,
enquanto os meus acusadores, vigoro- sos e ágeis,
foram agarrados pelo mais rápido, que é o mal. Por
isso, daqui a momentos, vamos sair daqui, eu, julgado
por vós como merecedor da morte e eles julga- dos
pela verdade como culpados da impostura e da
injustiça. Seja como for, entrego-me à minha maneira
de julgar. Eles, que se entreguem à sua. Sem dúvida,
era preciso que isto assim fosse. Por mim, penso
que as coisas são o que devem ser.
A respeito do futuro, desejo predizer uma coisa
aos que me condenaram. Pois estou nesta quadra
da vida
APOLOGIA DE SÓCRATES 63

em que todo o homem tem algum dom de prever, ao


aproximar-se o grande momento.
O que tenho a anunciar-vos, a vós que me
conde- nais, é que tereis de sofrer, depois de minha
morte, um castigo muito mais duro que este que me
infligis.
Estais convencidos do que ficais agora livres de
todas as indagações sobre a. vossa vida. Ora, é o con-
trário que sucederá, garanto-vos. Tereis, daí em
diante, que vos haver com outros muitos mais curiosos
e que eu reprimia, sem que vós désseis conta.
Indagadores tanto mais importunos quanto são mais
jovens. E hão-de irritar-vos muito mais do que eu.
Na verdade, se pen- sais que, matando pessoas,
impedis que apareça alguém capaz de vos repreender
por viverdes mal, estais enga- nados. Essa maneira de
vos desembaraçardes dos cen- sores, tomai bem
sentido, não é muito eficaz, nem dignificante. Há
uma só maneira justa e aliás muito fácil: consiste,
não em fechar a boca aos outros, mas em tornar-se
cada um verdadeiramente em homem de bem.
Eis o que tinha a predizer àqueles que me conde-
naram. Feito isto, despeço-me deles.
Quanto a vós, àqueles que me absolveram, teria
prazer em conversar convosco acerca do que acaba
de se passar, enquanto os magistrados estão
ocupados e enquanto não chega o momento de me
conduzirem ao lugar em que deverei morrer. Deixai-
vos ficar, pois, peço-vos, por alguns instantes ainda.
Nada nos impede de conversar um pouco. Desejaria
vos expor, amigàvel- rnente, como interpreto o que
acaba de me suceder.
Antes de mais juízes — este tratamento pertence-
vos com verdadeira razão —, quero dar-vos
conhecimento de uma maravilhosa coisa que comigo se
deu.
64 PLATÃO

Até ao dia de hoje, a voz íntima, de proveniência


divina, que habitualmente anda comigo, e frequen-
temente se faz ouvir em mim, tem tido o poder
de me conter, mesmo em ocasiões de pouca
importância, sempre que estou prestes a fazer o
que não é justo. Ora, neste momento, como vós
mesmos vedes, acaba de me suceder uma coisa que
se poderia considerar como o infortúnio supremo e
como tal é considerado. Pois bem, hoje, de manhã, a
voz divina não se fez ouvir, advertindo-me, nem
quando saía de casa, nem no ins- tante em que
entrava no tribunal, nem enquanto falava, para
embargar o que estava para dizer. Contudo, muitas
vezes, noutras circunstâncias, essa voz fez-me calar a
meio das minhas palavras. Hoje, porém, no decorrer
do que se passou, nem uma só vez me impediu de
fazer ou dizer fosse o que fosse. A que atribuir tal
facto? É o que vos quero dizer, A razão desse
silêncio está, sem dúvida, nisto: é que o que acaba
de me suceder, (ou seja: a vossa sentença), é, com
toda a certeza, para mim, um bem, e que estamos
todos certamente em êrro quando supomos ser a
morte um mal. Sim, para mim, isto constitui uma
prova decisiva. Não é admissível que a habitual voz
íntima não me tenha advertido, se o que ia fazer não
fosse um bem.
Com efeito, reflecti: há ou não todas as razões para
esperar que o acto de morrer é um bem? Na
verdade, de duas, uma: ou aquele que morre não
é já coisa alguma, e nesse caso não tem percepção
seja do que for, ou então, conforme se diz, a morte
é como a par- tida para uma viagem, um trânsito da
alma, deste lugar para um outro. Se, com o morrer,
desaparece toda a per- cepção, se a morte é como
um destes sonos ern que
APOLOGIA DE SÓCRATES 63

nada se vê, mesmo em sonho, —que maravilhosa


ventura deve ser a de morrer! Porque, enfim, se
algum de nós tiver presente a lembrança de uma
dessas noites que tenha dormido tão profundamente
que nada tenha visto, nem mesmo em sonho, e se
comparar essa tal noite com outras noites e dias da
sua vida, e se houvesse de deci- dir, depois de bem
feitas as contas, quantas noites e dias poderá ter tido
melhores que aquela, estou persuadido que todo o
homem — e não me refiro sòmente aos homens
de simples existência vulgar, mas a qualquer grande
rei em pessoa —, deverá convir que tais noites
tranquilas são muito pouco numerosas relativamente
às outras. Por conseguinte, se a morte é um sono
dessa espécie, temos de Julgá-la um grande
benefício, visto todo o tempo seguinte se parecer
com uma única noite. Na segunda alternativa, se a
morte porventura for como uma partida de uma
viagem ou transição de um lugar para outro, e se for
verdade, conforme se diz, que no além estão
reunidos todos os que morreram, per- gunto-vos
juizes: poderemos nós imaginar alguma coisa de
melhor? Admiti que, entrando no Além, estaremos
livres destas pessoas que pretendem ser juizes e que lá
encontraremos só juizes verídicos, daqueles que,
segundo se diz, lá administram a justiça: Minos,
Radamanto, Éaco, Triptólemo, em companhia
daqueles semideuses que foram justos quando
viviam. Achais que tal viagem não terá interesse?
E se, por cima, lá pudermos encon- trar o convívio
de Orfeu, Museu, Hesíodo e Homero, quanto não
deveríamos dar para conseguir tal convívio? Por
mim, de boa vontade morreria vezes sem conta, se
isso é verdade. Que agradável passatempo não seria,
para mim, confesso, conversar lá diante com
Palamedes,
66 PLATÃO

ou com Ájax, filho de Télamon, ou com outros heróis


dos velhos tempos, que tenham morrido em
consequência duma sentença injusta! Comparar a
minha sorte à sua não seria, para mim, coisa
destituída de interesse, julgo. E principalmente
gostaria de interrogar por lá, com todo o vagar, todos
os que dentre eles são sábios e descobrir os que,
julgando-se como tais, não o são. Quanto não
daríamos, juizes, para examinar, por exemplo, o
homem que dirigiu contra Tróia a grande expedição
guerreira, ou ainda Ulisses, Sísifo, e tantos outros,
homens e mulhe- res, que poderíamos nomear?
Conversar com eles, viver na sua companhia, examinar
o que são, — que inexprimí- vel felicidade não deveria
ser! Tanto mais que, segundo é de supor, não se corre
o risco, nesse meio, de ser con- denado à morte por
causa de tais conversas. Uma das van- tagens que têm
sobre nós os que estão lá diante é precisa- mente a de
serem imortais, se é verdade o que se diz. Esta
confiança, juizes, a respeito da morte, deveis tê-la
como eu, desde que ganheis simplesmente a cons-
ciência desta verdade: que não há mal algum possível
para o homem de bem, nem nesta vida, nem na outra,
e que os deuses não são indiferentes à sua sorte. A
minha sorte de modo algum a considero consequência
do acaso; longe disso, tenho como evidente que o
melhor que me pode suceder é morrer agora e assim
ficar isento de toda a sanção. Eis como se explica que a
minha voz íntima não me tenha impedido, e eis ainda
porque não quero mal, absolutamente nenhum, àqueles
que me condenaram, nem aos meus acusadores. É
certo que eles eram animados por outras intenções,
quando me condenavam e me acusavam. O seu
pensamento era o de me fazer mal. Por esse lado,
sòmente, são dignos de reprovação.
APOLOGIA DE SÓCRATES 67

No entanto, não vos peço, Atenienses, senão uma


coisa: quando meus filhos forem crescidos, castigai-os,
repreendendo-os como eu vos repreendia, — caso
pare- çam interessar-se com questões de dinheiro ou
quaisquer outros assuntos que não sejam a
procura da virtude. E se atribuírem a eles mesmos
algum valor que não possuam, admoestai-os como eu
vos admoestava, repreen- dei-os por se descuidarem do
essencial e se julgarem portadores de um
merecimento de que são destituídos. Se fizerdes isto,
sereis justos para comigo e para com os meus filhos.
Mas chegou a hora de nos separarmos: eu para
morrer e vós para viver. Quanto à minha sorte e à
vossa, qual será a melhor? Ninguém o sabe, a não ser
o ser divino.

FIM

N. B. — A presente tradução, como a dos dois diálogos prece-


dentes (Hípias Menor e Maior, de 1945 e 1946) é uma versão
secundária • tem aspirações criticas. A esse respeito, fomos bem
claros na introdução desses dois despretensiosos trabalhos, acen-
tuando que a modesta fidelidade de cada um seria «a que lhe
confere a confiança depositada na versão francesa do helenista
Maurice Croiset.»
O texto autêntico encontra-se no precioso códice de Oxford
(MB. Bodleianus) sôbre o qual, segundo parece, por certos augúrios,
algum helenistas do Ocidente Ibérico se propõem fazer a tradução
pericial c directa.
Queiram os Fados que os augúrios se cumpram.
S. D.