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Cultura-Ípsilon

LIVROS

RITA PIMENTA

20 de Dezembro de 2015

Livros ilustrados, álbuns, livros-jogos, livros-brinquedos, histórias (só) visuais,


livros-objectos, pop-ups, livros interactivos e livros-livros enchem, nas livrarias e nas
grandes superfícies, os espaços cada vez mais alargados dedicados ao público infanto-
juvenil. O livro infantil está diferente, mas continua a ser um bom primeiro olhar sobre o
mundo.
“Em 2015, as editoras da Leya editaram cerca de 200 livros infantis e juvenis,
aproximadamente mais 30% do que em 2014”, informa por email a direcção de
comunicação daquela empresa.
Vítor Silva Mota, editor da ASA infantil, que pertence ao grupo, acrescentou mais
tarde que no ano passado a facturação no infanto-juvenil “foi de 10,8 milhões de euros”,
correspondendo este valor “a 25% da facturação global da Leya”. E concluiu: “Estamos
bem, em curva ascendente no mercado.”
Para a sua principal concorrente, a Porto Editora, o negócio também se mostra positivo.
“A aposta no infanto-juvenil tem corrido bem”, diz Paulo Gonçalves, responsável pelo
Gabinete de Comunicação e Imagem. Informa que em 2015 editaram 98 livros, mais
quatro do que em 2014, mas não fornece dados de facturação nem do peso deste segmento
no total da editora. Dizer a “percentagem no conjunto das edições é muito complexo,
considerando a abrangência do nosso trabalho, que chega a praticamente todas as áreas
editoriais”, justifica.
As mudanças na oferta e na procura neste sector motivaram a 5.ª edição dos
encontros O Que Um Livro Pode, que decorreu no final de Novembro em Lisboa e teve
como título Os Livros não Têm Idade. Durante três dias, o mercado nacional do livro
infantil esteve em discussão, no que foi acompanhado pela mostra de ilustração para a
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infância Rodapé, comissariada por Pedro Moura e com a particularidade de os trabalhos


estarem expostos a um metro do chão, ao nível do olhar das crianças.
David Guéniot, da organização dos encontros e editor da Ghost (especializada em
livros de artista), não tem dúvidas de que “houve um grande boom nos últimos dez anos”
no segmento da edição destinada às crianças. E conta que cada vez mais encontra “livros
de editoras portuguesas nas livrarias de Paris, de Londres e de outras cidades, prova do
reconhecimento da qualidade do que se faz aqui”.
Para este francês que escolheu viver em Portugal, “o livro infantil representa a
utopia do livro” e quis, neste “passeio ilustrado pela infância”, mostrar “que hoje há um
tratamento mais arriscado e arrojado em termos de construção do livro infantil e também
maior cuidado na própria produção”.

A exposição Rodapé, nos encontros O Que Um Livro Pode, reuniu trabalhos de 14 ilustradores portugueses contemporâneos

José Oliveira, editor responsável pela literatura infanto-juvenil das Edições


Caminho até 2011, recordou, naqueles encontros, a forma “algo amadora” como iniciou
nos anos 1990 “a primeira colecção de livros para crianças da Caminho com ilustrações
a cores, Histórias Tradicionais Portuguesas, cada uma delas ilustrada por seu ilustrador”.
Ao mesmo tempo que ia relatando processos, motivações e limitações desses
tempos, mostrava os livros, começando por Os Anéis do Diabo, com texto de Alice
Vieira e ilustrações de André Letria. “Como vêem, isto é muito quadrado. Tanto quanto
me lembro, até era eu que fazia umas maquetes, no Pagemaker, e punha o texto.” Depois,
com o espaço que sobrava, dizia ao ilustrador: “Você que se arranje!”
Divertido, contou: “Eu não conhecia o André, mas tinham-me dito que era ‘um
rapaz com muito jeito’.” Ouviram-se risos na sala e entre os oradores, onde se encontrava
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o próprio André Letria, convidado enquanto ilustrador, mas também como editor da Pato
Lógico.
José Oliveira mostrou outros títulos da mesma colecção, com ilustrações de Alain
Corbel (“o primeiro livro dele em Portugal”, O Pássaro Verde, 1994) e Henrique Cayatte
(Rato do Campo e Rato da Cidade, 1992). Neste último caso, contou, houve uma solução
“mais solta e mais livre, ele passou por cima das minhas maquetes iniciais, fez bem”.
Com o tempo, foi “aumentando o interesse e o cuidado na ligação entre texto e
imagem”. José Oliveira enumera algumas das decisões que se esperam de um editor:
“Conforme o formato, isto é, as dimensões, o ser de capa mole ou capa dura ou o tipo de
ilustrações que se usa, o livro ganha uma ou outra natureza, e o horizonte de recepção que
nós esperamos modifica-se.”
Houve mudanças que resultaram de “questões técnicas”. Exemplo: “Deixou de
haver livros de 16 páginas, as tipografias que os faziam já não existem. Os livros maiores,
com 32 págs., ganharam outro fôlego de ilustração. Essa alteração e as crescentes
preocupações com o design levaram a Caminho a iniciar uma colaboração com o atelier
de Danuta Wojciechowska para a colecção Histórias Tradicionais Portuguesas.” José
Oliveira “livrou-se” das maquetes.
Há uma obra que editou, uns anos mais tarde, que lhe dá grande satisfação, “juntou
tudo o que eu queria fazer como editor”, diz. É o Romance do 25 de Abril, com texto de
João Pedro Mésseder (alter ego de José António Gomes) e ilustrações de Alex Gozblau.
“Um livro sobre o fascismo e sobre o 25 de Abril, com um texto bastante concreto, sob a
forma de um romance como a ‘Nau Catrineta que tem muito que contar’. Um texto
narrativo que nos conta a história da repressão do fascismo e depois a libertação.”
João Pedro Mésseder não conhecia Alex Gozblau. “Fiz essa ponte [entre eles] e
trabalhei muito de perto com o ilustrador. Trabalhámos muito a caracterização dos rostos:
o rosto deste militar deve ser plano ou deve ser rugoso? O Alex tem tendência para o
escuro... foi tudo muito negociado”, conta com orgulho e entusiasmo.
Esta obra materializa em pleno o editor que quis ser (e foi), gostando e valorizando
“aquilo sobre que se escreve, o modo de escrever e a ilustração”. Mais um pormenor que
muito agrada a José Oliveira, as guardas do livro (fólio que acompanha a parte interior de
cada uma das capas do livro encadernado). “Quando abrimos a primeira guarda, não
sabemos o que é [vê-se apenas um traço verde]; na guarda final, revela-se e conclui-se a
história [o traço verde é o pé de um cravo vermelho].”
Esse livro — idealizado por um editor que sempre se preocupou em dignificar o
trabalho dos ilustradores, acautelar as suas condições de trabalho e garantir-lhes
remuneração por direitos de autor — ganhou o Prémio Nacional de Ilustração em 2007.
Se continuasse a editar, era ao livro ilustrado que se dedicaria.

Faltam histórias e poemas

E afinal o que é um livro ilustrado? Dora Batalim, coordenadora da Pós-


Graduação em Livro Infantil da Universidade Católica, divide as obras em três categorias,
com base no “observar do comportamento da imagem”: o livro “imagiário” (palavra que
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cunhou do francês), em que “a imagem é absolutamente referencial — uma bola é uma


bola, a Miffy é a Miffy e está a chorar”; o álbum, “em que a imagem tem preponderância
sobre o texto, mas já tem valores de construção, jogos semânticos e conotativos”, e o livro
ilustrado, em que “o texto tem preponderância sobre a imagem”.
Para esta doutoranda de Literatura Infantil na Universidade Autónoma de
Barcelona, “o mercado nacional está bom, no sentido em que está melhor, surgiram
algumas editoras, pequenas, com critérios de qualidade e muito cuidado na parte gráfica”.
Refere ainda que “se trazem para cá expoentes de qualidade”, através de compras de
direitos de livros internacionais.
Não quer nomear editoras em particular, mas vai dando exemplos de livros e
autores que sabemos pertencerem, por exemplo, à Planeta Tangerina, à Bruaá, à
Kalandraka ou à Gatafunho. Dora Batalim interessa-se em particular por livros dos 0-3 e
dos 0-5 anos e diz que há muito pouca produção nacional para essas idades. A Edicare e
a Gatafunho são dois exemplos onde a Revista 2 encontrou livros de qualidade para bebés,
mas confirmou terem origem externa.
A também professora na Escola Superior de Educadores de Infância Maria Ulrich
(Lisboa) nota que, “de repente, chegaram ao mercado, ao mesmo tempo e por via de várias
editoras, muitos livros-jogos, livros para brincar, para mostrar o que está escondido”.
Recorrem a lupas, óculos para ver em 3D, encaixes, etc.
Conclui que estas apostas resultam da presença das editoras portuguesas nas feiras
internacionais. “O conceito de ‘livro inteligente’, não são pop-ups, foi premiado na mais
recente Feira Internacional do Livro Infantil e Juvenil de Bolonha, é natural que se aposte
em formatos desta natureza”, mas surpreende-se com o facto de não haver produção
digital, “zero”.
Sente algumas faltas no mercado: “Estamos a perder a palavra. Precisamos de
histórias de várias latitudes e diferentes universos. Também falta poesia, texto poético,
há excesso de álbuns.” Reclama a ausência de “narrativas tangíveis, onde se conjuguem
o insólito, o inesperado, o humor e até o humor negro”. Gostava que houvesse mais
abordagem de alguns temas sociais e contemporâneos, “mas sem pendor educativo, dos
que exigem que todos sejamos bondosos e piedosos”. Prefere abordagens feitas “com
subtileza, mas que saibam comunicar e formar”.
Perguntamos-lhe “o que pode um livro?” “Tudo. Pode ser o colo da mãe, que ali
não está e fica materializado. Pode ser o primeiro olhar para o mundo registado, com o
peso de um volume e de um papel.” Mas avisa: “É preciso ter cuidado com o que se dá.
Porque é uma voz próxima e um primeiro olhar. Não tem a velocidade frenética da
televisão. São momentos ao teu ritmo, tu danças com ele [o livro], usas quando tu
quiseres. Impõe-se como noção de leitura da criança. É preciso cuidar de que os canais
estejam sempre limpos: o informativo, o imaginário, o imaginário maravilhoso, o da
palavra, o da esfera do visual e o do texto.”
Dora Batalim observa que “os pais estão confusos” perante tanta oferta nas
livrarias, nas grandes superfícies e na Internet. Sobre a orientação que o Plano Nacional
de Leitura (PNL) pode dar, legitimando alguns títulos, diz: “Os selos do PNL são
estritamente escolares. É um olhar, mas não o único.”
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Educação e fruição

Quem acredita que “o PNL foi o melhor que aconteceu para criar hábitos de leitura
nas escolas” é Paulo Gonçalves, da Porto Editora. “A nossa estratégia junto das escolas
passa pela educação, mas também pela fruição, dando a conhecer obras literárias, do 1.º
ao 12.º ano, produzidas com grande cuidado editorial.”
A editora quer “promover hábitos de leitura nos mais novos, já que serão os
leitores do futuro, a próxima massa crítica”. E tentam “associar o lúdico ao educativo”.
Editam “histórias para diferentes ambientes” e daí integrarem a chancela digital Cool
Books, “que está a correr bem”.
Segundo Paulo Gonçalves, têm “uma colecção única no país, a Educação
Literária, onde se reúnem todas as obras de alguns escritores e obras obrigatórias ou
recomendadas no ensino básico e secundário”.
Como tendências, enuncia: “Temos vindo a apostar nos autores nacionais com
obras adequadas à criação de leitores, claramente nos consagrados – Sophia de Mello
Breyner Andresen, Álvaro Magalhães, Luísa Ducla Soares, Maria Alberta Menéres —,
mas também em autores de ficção de grande qualidade que fazem incursões nesta área,
como Valter Hugo Mãe, Richard Zimmler ou Mário de Carvalho.”
A promoção de autores menos conhecidos e mais jovens também faz parte dos
objectivos da editora: “Carlos Garcia (Cancioneiro da Bicharada), Miguel Morais
(colecção O Ano mais Estúpido do Meu Irmão mais Novo), Isabel Ricardo (O Coelhinho
Avarento) e Ana Rita Faustino (O Cotão Simão, distinguido com o Prémio Branquinho
da Fonseca — Expresso e Fundação Calouste Gulbenkian).”
Para o pré-escolar, os livros-objectos são a prioridade, “ajudam [a criança] a
familiarizar-se com as palavras e o som, por exemplo, são livros que respondem a essa
necessidade de estímulos nas idades mais baixas”. Depois, passam a “histórias com uma
forte presença da ilustração”, o livro-álbum. “À medida que a idade avança, o livro vai
dando primazia ao texto, em detrimento da ilustração”, conclui Paulo Gonçalves.
A Porto Editora tenta “um equilíbrio entre autores portugueses e estrangeiros, mas
com prevalência para autores portugueses”.
À pergunta “o que pode um livro?”, aquele responsável de comunicação responde:
“Pode tanto, mas tanto. Um excelente meio de se conhecer o mundo em que se está. O
livro abre-nos o mundo.”

Aposta na lusofonia

A direcção da Leya não tem dúvidas de que “a importância das edições infantis e
juvenis é decisiva, porquanto se trata do principal motor da criação de hábitos de leitura
e de construção de futuros leitores, tendo um importante peso económico e cultural”.
E faz uma aposta clara deste segmento nos países lusófonos: “O facto de a Leya
estar presente em Angola, Moçambique e Brasil tem permitido um trabalho muito
relevante de promoção e publicação dos autores portugueses naqueles países, sobretudo
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no Brasil, onde alguns autores já encontram um maior número de leitores do que em


Portugal.”
Ao mesmo tempo que promovem autores e ilustradores lusófonos, também
representam “marcas internacionais de referência no âmbito das edições infantis e
juvenis, como DK, Disney, Enid Blyton ou Roald Dahl”.
As apostas são divididas em “interactividade (formatos e recursos que contribuam
para enriquecer a experiência de leitura, como realidade aumentada, paginação criativa e
passagem para o mundo digital), conhecimento (novos e bons livros que, sem serem as
enciclopédias visuais de antigamente, conseguem captar a atenção dos mais novos por
terem uma forma organizada e cativante de apresentar a informação) e colecções juvenis
(geradoras de leitores de longa duração e fiéis às suas colecções preferidas)”.
O editor da ASA infantil reconhece como principal concorrente “no segmento
juvenil, sobretudo em livros traduzidos no domínio da ficção, a Editorial Presença”,
editora que não aceitou falar com a Revista 2 para este artigo.
A Leya existe desde 2008 e, sobre a junção das várias editoras, Vítor Silva Mota,
que já integrava os quadros da ASA, recorda que “se fizeram ajustamentos, pois eram
muitas as disparidades entre as diferentes editoras”. No entanto, considera que “houve
sensibilidade e cuidado para não ferir susceptibilidades perante os hábitos e
procedimentos de cada editor”. Conta ter havido “uniformização de critérios, mas
preservando a identidade própria de cada uma das editoras”.
As escolas são um dos caminhos para o sucesso das editoras e do mercado do livro
para os mais novos. Explica Vítor Silva Mota: “A literatura infantil e juvenil é muito
importante no ensino. A existência de textos de autores lusófonos nos manuais escolares,
por um lado, e a presença física dos autores nas escolas de todo o país, por outro, são dois
factores de grande relevo para a formação dos alunos, bem como para fazer com que
conheçam os autores portugueses e para que cultivem o gosto pela leitura e pelo
conhecimento.”
A Leya promove “mais de 650 encontros de autor por ano nas escolas portuguesas,
o que resulta numa média superior a três encontros por dia de aulas”.

Pequenas editoras

Adélia Carvalho, editora da Tcharan e livreira da Papa-Livros (Porto), considera


que “as escolas estão muito sobrecarregadas” na busca de espaços para “escoamento de
todo o tipo de livros”. Em conversa com a Revista 2, chamou “poluição das escolas” à
constante investida, “sobretudo por parte de quem faz edições de autor”, para mostrar e
vender livros sem critérios de qualidade. Não se referia às grandes editoras, mas “às que
exploram o sonho de quem quer ter um livro editado”.
Olha para o mercado com optimismo e reconhece que houve “um aumento de
qualidade e um crescimento brutal no álbum, que revolucionou o conceito da ilustração
e transformou o livro num objecto mais bonito”.
Para Adélia Carvalho, que é também autora, “um livro pode com uma casa, pode
fazer com que a casa mude de sítio e pode encher a casa de gente”.
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A Tcharan edita três a quatro livros por ano (com tiragens de 1500 exemplares,
mais cem exemplares em espanhol e outros cem em inglês, para representações em feiras
e vendas internacionais). No mercado nacional, teve um crescimento de 15% em relação
ao ano passado, e no internacional cresceu 30% (com venda de cinco livros para o Brasil,
Coreia, Colômbia, Espanha e Alemanha).
A editora mantém parcerias com a Vista Alegre (Era Uma Vez Um Cão, Adélia
Carvalho e João Vaz de Carvalho; Chá, Café e Etc., Rui Reininho, Armando Teixeira e
Marta Madureira), a Cruz Vermelha Portuguesa (A Inocência das Facas, vários), Câmara
Municipal do Porto (Wonderporto, Adélia Carvalho, Cátia Vidinhas, e Senhoras e
Senhores, Meninos e Meninas, Bem-Vindos ao Palácio de Cristal, vários), Direcção
Regional da Cultura do Norte (Era Uma Vez Um Castelo) e o Colégio do Sardão (Abrigos,
Adélia Carvalho e Maria Remédio).
A Papa-Livros não teve crescimento face ao ano passado, “talvez porque agora a
cidade do Porto tem mais oferta e o público dispersa”, justifica a livreira, que se queixa
da plataforma que a Fnac criou para a gestão dos livros, em que “cobra pacotes de
mensagens online sobre as vendas e penaliza em 5 euros, desde Novembro de 2014, o
envio de factura em papel”.
O fim do Plano Nacional de Leitura é visto como um problema, porque “os pais,
os educadores e os professores seguiam as listas que saíam e compravam alguns títulos”.
Agora, “com o fim do Ler+, vamos ressentir-nos com certeza”, diz. Por isso, vai continuar
a organizar exposições, actividades e lançamentos na Papa-Livros. Nestes últimos,
consegue, por vezes, “vender logo 50 livros”.

O álbum como inovação

Os lançamentos da Planeta Tangerina rendem mais, como nos conta Isabel


Minhós Martins, autora e editora, “são sempre grandes festas com belos lanches”. Aí,
aproveitam para “conhecer os novos leitores e conviver com os amigos”. Nesses dias,
conseguem vender mais de uma centena de títulos. “Levamos outros livros já editados,
mas também os nossos postais e cartazes. Normalmente, vendemos bastante. E ajuda a
pagar o lanche…”
Para esta editora nacional pioneira em projectos de concepção de álbuns em
articulação directa e de raiz entre autores e ilustradores, “o negócio não piorou em relação
ao ano passado, nem nas livrarias portuguesas nem na loja online”. Continuam a apostar
na “venda de direitos na Feira de Bolonha” e têm “títulos que não morrem”.
Segundo Isabel Minhós Martins, “tem sido um processo de internacionalização
lento e gradual, agora temos vendas para a Alemanha e Suécia”. Embora já estejam na
Holanda, Brasil, Coreia, no Reino Unido e EUA, “Espanha, aqui ao lado, é um país que
não está muito explorado”, afirma. “Mas continuamos a precisar do mercado nacional.”
Começaram a actividade como atelier e editora em 2004 e até hoje publicaram 50 títulos.
A partir de certa altura, começaram a editar seis livros por ano. “A editora tem vindo a
tomar mais espaço e já traz mais retorno do que o atelier”, revela.
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Quando lhe falamos da forma como a Planeta Tangerina contribuiu para a


mudança na oferta dos livros para a infância em Portugal, explica: “Nós construímos um
modelo que tem que ver com auto-edição, que nos torna mais ágeis e permite uma relação
mais próxima com os leitores. Conseguimos fazer álbuns. Foi aí que fomos inovadores.”
Fazem tiragens de 1500 a 2000 exemplares e algumas reedições, com um preço
médio de capa de 13,60 euros. “Neste primeiro semestre houve melhorias. Tivemos um
volume de negócios de 350 mil euros e fechámos 40 contratos de venda de direitos.”
Para Isabel Minhós Martins, o aparecimento de outras pequenas editoras de
qualidade foi bom e melhorou o panorama da edição. “É melhor o negócio estar
distribuído por muitos do que concentrado em poucos”, diz, considerando que “o mais
interessante que está a acontecer é feito pelos projectos mais pequenos, as grandes
editoras têm apostado em livros mais clássicos”.
Depois da edição do livro Lá Fora (sobre a natureza), que foge ao álbum, estão a
planear o Lá Dentro (sobre o cérebro e as emoções). “Queremos fazer livros informativos
e rigorosos, mas um pouco diferentes. Também temos um projecto sobre o consumo”,
conta. Na parte das edições para jovens, lembra que prevalece a importação de títulos.
À pergunta “o que pode um livro?” preferiu responder por escrito: “Mesmo
quando nos encolhem e entristecem, os livros são capazes de nos aumentar, naquele
sentido em que nos dão mais vidas (como num jogo de computador). Os livros conseguem
preencher essa lacuna, essa falha que é não podermos viver mais, ainda mais. Dão-nos a
possibilidade de calçarmos as sandálias do outro, de vestirmos outras peles e de nos
tornarmos um pouco mais completos. Os livros também nos dão músculo, ferramentas e
força para lidar melhor com a realidade. Os livros podem ser um lugar onde nos
refugiamos quando a realidade não nos preenche ou nos fere, mas para mim, mais do que
isso, podem ser como lanternas que iluminam zonas escuras. Hoje, mais do que nunca,
pode ser no silêncio de um livro, afastando com os dois braços toda a poluição que nos
rodeia (visual, sonora, comunicacional), que conseguimos ver as coisas de uma forma
mais límpida. Menos baça. Mais luminosa.”

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