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O Realismo no Teatro Brasileiro

1ª fase (1855-1884)

Elza de Andrade

O Realismo é uma reação contra o Romantismo: o Romantismo era a poteose do


sentimento; o Realismo é a anatomia do caráter. É a crítica do homem. É a arte que
nos pinta a nossos próprios olhos, para condenar o que houver de mau na nossa
sociedade. (Eça de Queirós)

Contexto Histórico

1. Na segunda metade do século XIX, o contexto sócio-político europeu mudou


profundamente. Lutas sociais, tentativas de revolução, novas idéias políticas, científicas.
O mundo agitava-se e a literatura não podia mais, como no tempo do Romantismo,
viver de idealizações, do culto do "eu" e da fuga à realidade. Era necessária uma arte
mais objetiva, que atendesse ao desejo do momento: o de analisar, compreender, criticar
e transformar a realidade.

2. Os escritores realistas desejavam retratar o homem e a sociedade em sua


totalidade. Não bastava mostrar a face sonhadora e idealizada da vida como fizeram os
românticos; era preciso mostrar a face nunca antes revelada: a do cotidiano massacrante,
do amor adúltero, da falsidade e do egoísmo humano, da impotência do homem diante
dos poderosos.

3. "Madame Bovary" (1857), romance de Gustave Flaubert (França) marca o início


do realismo na literatura européia. No Brasil, o Realismo se confunde com o fim da
escravidão, com a proclamação da República, com o início da economia cafeeira e do
trabalho assalariado do imigrante europeu.

4. Principais autores realistas brasileiros na literatura:

Machado de Assis (1839-1908) - considerado o nosso maior autor realista: "Memórias


póstumas de Brás Cubas", "Quincas Borba", "Dom Casmurro", "Esaú e Jacó",
"Memorial de Aires".

Raul Pompéia (1863-1895) - "O Ateneu".

Aluísio Azevedo (1857-1913) - "O mulato", "Casa de pensão", "O cortiço".

Algumas características do Realismo


5. Com o desenvolvimento do pensamento humano tudo deve ser explicado
cientificamente, portanto a realidade deve ser captada através da observação, tal qual o
cientista no laboratório.

6. O Realismo focalizava sua atenção sobre uma classe social específica: a classe
média, que está sempre sendo empurrada para baixo - situação propícia ao
desenvolvimento de conflitos psicológicos.

7. Preocupação com a verdade. A verdade é o único guia do escritor.

8. Retrata a vida presente dos personagens, pois só a vida do momento pode ser
objeto de análise e observação, ao contrário dos românticos, que amavam o passado.

9. Narrativa lenta e cheia de detalhes, aparentemente inúteis, mas usados


propositalmente para retratar de modo fiel a realidade.

10. Não existe o livre-arbítrio. Os personagens se comportam de acordo com forças


biológicas, atávicas e sociais.

Realismo no Teatro Brasileiro

11. João Caetano foi o expoente máximo do Romantismo teatral, à frente do Teatro
São Pedro de Alcântara, durante 30 anos, de 1833 até 1863. Porém, a partir de 1855,
passam a conviver em nossa Corte duas estéticas teatrais antagônicas: a romântica e a
realista.

12. No Teatro Ginásio Dramático (antigo Teatro São Francisco de Paula, situado na
Rua do Teatro, no Centro, próxima do Largo de São Francisco), estréia em 12 de abril
de 1855 a companhia de Joaquim Heliodoro Gomes dos Santos, que se opôs à linha de
trabalho adotada por João Caetano, propondo uma ruptura do romantismo teatral. Era
um teatro pequeno (256 lugares), cujo nome fora inspirado no Gymnase Dramatique de
Paris. A pequena empresa de Joaquim Heliodoro apresenta nos primeiros meses várias
comédias, representadas com leveza e bom humor. No Teatro São Pedro, o repertório
era formado por tragédias neoclássicas, dramas românticos e melodramas portugueses e
franceses.

13. A última novidade que começava a seduzir a intelectualidade brasileira era o


realismo teatral francês, que aqui no Brasil recebeu o nome de "dramas de casaca"
(porque os atores apareciam vestidos modernamente) - isto é, peças de tese ou de
descrição de costumes, onde se discutiam algumas questões sociais de interesse da
burguesia, classe com a qual se identificavam e para a qual dirigiam sua produção.
Questões relativas à família, ao casamento, ao trabalho, ao dinheiro, à prostituição
foram então debatidas no palco, transformando-o em tribuna consagrada a demonstrar a
superioridade dos valores éticos da burguesia.

14. As referências negativas ao São Pedro de Alcântara tornaram-se comuns na


imprensa. Sem renovar o repertório de sua companhia dramática ele tornou-se alvo de
críticas contundentes dos defensores do Ginásio: O Ginásio prossegue no empenho de
agradar ao público que o freqüenta; nos dramas do seu repertório não há gritos de
maldição, nem punhais, nem envenenamentos; mas, para falar a verdade, há muita
coisa que faz rir, e que diverte a gente.

15. Seis meses depois, a pequena empresa, fortalecida pelo apoio da imprensa e pela
simpatia do público, deixou de lado o modesto objetivo de montar peças apenas para
divertir a platéia e incorporou ao seu repertório a última novidade dos palcos
parisienses: o Realismo. A primeira peça foi "As mulheres de mármore", de Barrière e
Thiboust. A partir de outubro de 1855, o Ginásio Dramático passa a representar esse
novo repertório, inaugurando um novo período na vida teatral do Rio de Janeiro,
marcado pelo prestígio da estética realista. Durante dez anos (até 1865), o Realismo
transformou a atividade teatral no Rio de Janeiro, pois foi uma maneira nova não só de
escrever peças, mas também de interpretá-las e encená-las.

16. O repertório do Teatro Ginásio Dramático foi composto quase que


exclusivamente de originais franceses traduzidos; obra de Scribe, Augier, Sardou etc. "A
dama das camélias", de Alexandre Dumas Filho, entrou no Brasil pela companhia de
Joaquim Heliodoro em 1856, apenas quatro anos depois de sua estréia em Paris.

17. De um modo geral o Ginásio, representando o novo, teve a seu lado a maioria da
imprensa, dos intelectuais e dos jovens estudantes. Mas João Caetano era um ator
inigualável, de talento superior, como reconheciam até seus adversários, conseguindo
manter seu público e admiradores fiéis.

O público desse teatro não quer estudos sociais, nem pintura de caracteres; são-lhe
precisas emoções de calibre, choques elétricos, assassinatos, suicídios,
envenenamentos, raptos...(Diário do Rio de Janeiro)

A interpretação realista

18. No Ginásio Dramático, as comédias realistas impuseram aos artistas o aprendizado


de uma certa naturalidade em cena - nos gestos, na voz, no andar - de modo que as
diferenças entre as duas companhias acentuaram-se também no terreno da interpretação.

19. O ator Furtado Coelho, do Ginásio Dramático, torna-se o principal rival de João
Caetano, a partir de 1859. Com uma gestualidade contida, a voz bem modulada e os
gestos elegantes, Furtado Coelho - o galã da companhia - foi o primeiro ator que
realmente poderia ameaçar a glória, até então inabalável, de João caetano.

20. A partir de 1859 surge na imprensa a polêmica envolvendo admiradores dos dois
artistas e das duas companhias teatrais que ocupou um grande espaço no Jornal do
Comércio. Um dos textos publicados, assinado por "um artista dramático", descreve o
estilo de interpretação de Furtado Coelho, em oposição ao de João Caetano. Trata-se de
um documento precioso para se compreender as diferenças entre o ator formado nas
escolas neoclássica e romântica e o ator do teatro realista:

(...) Os artistas devem procurar representar naturalmente, mas o natural do teatro, que
não é o natural de uma conversa particular. (...) O senhor Furtado é sem dúvida um
moço inteligente, a quem a natureza dotou de boas qualidades para vir a ser um bom
ator, mas a quem falta os estudos preparatórios e a prática indispensável para ser, não
diremos um mestre, mas um artista regular. (...)

O senhor Furtado não sustenta a voz, e para quem está colocado no meio da platéia
parece ter voz de doente, e não se entende metado do que ele está dizendo, tão fraca é a
sua pronúncia e sua voz.

O senhor Furtado afeta de virar as costas ao público ao mais que pode, e quase sempre
fala de perfil, de maneira que evita a dificuldade do jogo de fisionomia. Se o senhor
Furtado tem uma tirada calorosa, ou a diz com tanta volubilidade que não se percebe,
ou tão devagar que se torna fria. Se tem uma declaração amorosa a fazer, ainda a faz
friamente porque não estudou e por consegüinte não tem os meios de executá-la
satisfatoriamente.

E tudo isso num teatro pequeno, em peças com paixões pequenas e pequeno
desenvolvimento; que seria se ele fosse representar no Teatro São Pedro, em peças
fortes e paixões com grande desenvolvimento, aonde é preciso dar mais largura à
declamação, à voz, à articulação, ao andar em cena?

O ator deve ser um Proteu, que muda de figura conforme a personagem que representa,
e o senhor Furtado com seus bigodes, de que usa na rua, apresenta sempre a mesma
fisionomia em todos os seus papéis. Pois se é verdade que ele tem uma vocação
decidida pela arte, não deve fazer o sacrifício dos seus bigodes à mesma arte?

(...) Tudo que temos dito não deve ofender o senhor Furtado, o futuro é seu: estude
muito e muito; procure quem lhe dê conselhos; pratique longos anos; reflexione muito;
(...) e provavelmente se tornará um bom ator e regenerará para sempre a maneira
defeituosa e errada com a que iniciou a sua carreira dramática.

Reforma cenográfica
21. As peças realistas, reproduzindo a vida verdadeira, a vida íntima, forçaram uma
reforma do cenário e dos figurinos. A cena nua é abandonada, surge o cenário de
gabinete, e o objeto real passa a ocupar a cena.

22. A partir de 1880, já existe luz elétrica na maioria dos teatros. Os telões que
serviram ao teatro por tantas décadas são agora substituídos pelo cenário real,
tridimensional.

23. Também os figurinos começam a ser desenhados de acordo com os personagens,


classe social, temperamento, com o objetivo cada vez mais acentuado de se aproximar
da realidade.

Principais autores do Teatro Realista Brasileiro


1ª fase (1855-1884)

24. A ruptura entre o Romantismo e o Realismo não se deu de forma radical: muitos
dramaturgos escreveram comédias realistas e dramas românticos, demonstrando que
conviviam sem problemas com as duas tendências estéticas, que dividiam a preferência
do público.

Joaquim Manuel de Macedo (1820-1882) - não pertence a nenhuma escola; é realista


ou romântico, sem preferência, dependendo da ocasião. Produção dramática
variadíssima, em torno de 15 peças. Continuador da obra de Martins Pena. "Luxo e
vaidade" (comédia, 1860); "Luzbella" (drama, 1862, de inspiração realista francesa); "A
torre em concurso" - sátira aos nossos costumes políticos e à tendência de depreciarmos
tudo quanto é nosso.

José de Alencar (1829-1877) - interrompeu sua carreira literária romântica para


escrever comédias.
"O Rio de Janeiro, verso e reverso" (1857) - tenta criar uma situação cômica sem os
recursos costumeiros da farsa - já rompendo portanto com a tradição iniciada por
Martins Pena. Pretendia a alta comédia / lição de moral. A comédia ligeira apenas
diverte, não educa.

"Demônio familiar" (vai à cena no Ginásio, uma semana depois de "Verso e reverso") é
uma alta comédia - divisor de águas - e marca a ruptura com o romantismo teatral e o
início de uma dramaturgia voltada para os problemas sociais. José de Alencar situa a
ação dramática no Rio de Janeiro de seu tempo e a construiu baseada em duas questões
principais: a presença do escravo no interior da família brasileira e as relações entre
amor, dinheiro, casamento. De um lado um problema especificamente nacional, e de
outro lado, o aproveitamento de idéias discutidas nas peças francesas.

França Júnior (1838-1890) - outro continuador de Martins Pena, explorou as comédias


de costumes. "Como se fazia um deputado", "O defeito de família", "Amor com amor se
paga", "Caiu o ministério!".

Machado de Assis (1839-1908) - sua obra teatral é para ser lida. Acreditou no teatro
como escola de costumes, moralizante. Escreveu 16 peças, dentre elas "Lição de
Botânica", "Antes da missa", "Hoje avental, amanhã" e "Quase ministro".
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Artigo extraído da "Apostila 6", CAL, "História e Dramaturgia do Teatro
Brasileiro I", maio de 2001